PSICOLOGIA ANALÍTICA

A IMPORTÂNCIA DO VÍNCULO AFETIVO

 A troca é vital desde o nascimento e permanece como necessidade básica do ser humano. Essa demanda pode ser suprida pelas mais diversas pessoas e formas de relacionamento.

A importância do vínculo afetivo

Uma das principais buscas do ser humano é relacionar-se. Todos nós precisamos ser observados, aprovados, amados e acariciados. Todas as relações podem ser fonte de trocas afetivas: pais e filhos, marido e mulher, namorados, amigos, parentes, professores, colegas de trabalho etc.

Todas as pessoas têm algum tipo de relacionamento. Essas relações podem ser fonte de enorme contentamento ou, ao contrário, terreno propício para a geração de conflitos de toda espécie. Pensamos: qual é o segredo de relacionamentos saudáveis? O que é, afinal, um relacionamento saudável? Quais são os elementos que favorecem as pessoas a se relacionar de forma harmoniosa? Certamente esse assunto gera muita especulação, curiosidade e interesse. Um assunto bem complexo e amplo, que já merecem a atenção de inúmeros psicanalistas, psicólogos, filósofos e cientistas sociais. Podemos pensar que um relacionamento saudável ocorre no encontro de pessoas saudáveis psiquicamente. O contato com o outro é o que promove o crescimento e o desenvolvimento.

Desde o nascimento até os primeiros anos de vida, nossa espécie não sobrevive sozinha. Não se trata só de cuidados básicos como alimentação e higiene. Estes podem garantir a sobrevivência, mas não o desenvolvimento e a saúde psíquica. Somos seres complexos.

O psicanalista René Spitz em seu Livro O Primeiro Ano de Vida realizou pesquisas sistemáticas sobre o desenvolvimento dos bebês. Spitz pesquisou crianças abrigadas em instituições, que eram privadas do contato materno contínuo ou outra figura substitutiva. Esses bebês, apesar de receberem alimentação adequada, cuidados médicos e de higiene, desenvolviam patologias graves e às vezes irreversíveis como depressão Anaclítica e o hospitalismo. Isso acometia os bebês que eram privados de contato físico e afetivo contínuos e suficientes. As relações iniciais insuficientes geravam desde os casos mais graves até comprometimento em vários graus no desenvolvimento intelectual, psíquico e motor. Muitos outros autores da Psicanálise discorreram sobre as relações parentais como constituintes da psique do indivíduo.

Um dos importantes nomes da Psicanálise, Donald Winnicott, desenvolveu sua teoria baseada na qualidade das primeiras relações, como base do desenvolvimento da saúde mental e maturacional do indivíduo. O título de alguns de seus trabalhos denotam essa importância: Tudo Começa em Casa, Os Bebês e suas Mães e A Família e o Desenvolvimento Individual.

“A partir do nascimento, o bebê pertence ao meio social no qual seus pais biológicos vivem, e a vida representa para ele uma série de experiências boas e más, mas terrivelmente intensas” (Winnicott, D. Vl., 1971).

De acordo com Winnicott, é a qualidade e suficiência desses primeiros relacionamentos, que se dão geralmente com os pais ou figuras substitutivas, que vão influenciar diretamente a capacidade ou não do indivíduo desenvolver-se e, consequentemente, estabelecer relacionamentos futuros satisfatórios. Esses primeiros vínculos são determinantes para o indivíduo criar uma base para seu desenvolvimento posterior. Com a plasticidade da psique, a pessoa pode evoluir num processo contínuo por toda a sua vida. Vários fatores também podem bloquear esse progresso, e ocorrer urna fixação em determinada fase quando ocorrem traumas.

São inúmeros os fatores que irão influenciar as formas de se relacionar com o mundo e as escolhas de um parceiro afetivo. Dentre eles, podemos citar: modelos ou contra modelos materno/paterno, cultura, relações com a família extensa e transmissão transgeracional do sistema de crenças familiar. Todos esses fatores podem criar obstáculos no relacionamento, caso estejam inconscientes. Tudo aquilo que é seu, mas não há apropriação da consciência pode escravizá-lo. As falhas no amadurecimento do indivíduo estão diretamente ligadas ao sucesso em estabelecer vínculos saudáveis.

As pessoas geralmente buscam em suas relações afetivas preencher o que lhes faltou nas primeiras relações objetais, depositando no parceiro amoroso tudo que lhes foi insuficiente ou inexistente nesses primeiros contatos. Os processos inconscientes distorcem a importância dada ao parceiro de fato e geram expectativas irreais do que a relação pode oferecer. O que acontece é que os relacionamentos se iniciam idealizados, com a promessa de ser a solução para angústias pessoais pregressas. Receita certeira para dificuldades.

Se cada um procurasse olhar para a parte que lhe cabe dentro da relação, teríamos melhor convivência e harmonia. O processo de análise é uma grande oportunidade de examinarmos os bloqueios e as lacunas que ocorreram no desenvolvimento afetivo/vincular do indivíduo. Essas falhas refletem-se na vida adulta, como problemas nas relações pessoais e dificuldades para conseguir dar conta das demandas da vida cotidiana. Cito Platão para resumir esse conceito: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerá os deuses e o universo”.

 

ELAINE CRISTINA SIERVO – é psicóloga, Pós-graduada na área Sistêmica – Psicoterapia de Família e Casal pela PUC-SP. Participa do Núcleo de Psicoclínica e Estudos Transdisciplinares da SBPA (Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica). Atuou na área de dependência de Álcool e drogas com indivíduos, grupos e famílias.

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PSICOLOGIA ANALÍTICA

O QUE MOTIVA VOCÊ?

Estamos sempre buscando recompensas – que podem aparecer em forma de bens materiais, prazeres sensoriais, afeto ou sentimentos de profunda autorrealização – e evitando punições. Na prática, pessoas motivadas procuram se superar e buscar melhores resultados, são mais entusiasmadas, responsáveis, comprometidas – e, principalmente, mais felizes e realizadas. O problema é que nem sempre nosso empenho está alinhado com os resultados obtidos. Novas pesquisas indicam a importância de rever o que queremos e, eventualmente, corrigir rotas.

O que motiva você

Todo mundo que cursa psicologia – ou mesmo outras formações na área de ciências humanas – em algum momento assiste à aula sobre a famosa pirâmide de Abraham Maslow (1908-1970). O psicólogo americano estabeleceu uma hierarquia, expressa graficamente, localizando as necessidades mais básicas (como alimentação, por exemplo) na base da figura geométrica. No topo, ficam aspectos ligados à realização pessoal. Psicólogos e neurocientistas acreditam, porém, que as coisas não são tão simples. O que nos faz trabalhar, estudar, viajar, tomar banho, fazer ginástica, correr riscos, iniciar e manter relacionamentos? Resolvidas as necessidades básicas, o que nos move mesmo é uma exigência interna de autonomia, conhecimento, envolvimento e dinamismo. Fácil? Nem tanto. Em plena era da tecnologia, em que as possibilidades se multiplicam diante dos nossos olhos, muitos pesquisadores têm questionado ideias simplistas sobre as necessidades e os anseios humanos. Alguns estudiosos veem a maior fonte da motivação humana na ampliação das próprias competências e falam de dois sistemas de razões antagônicas que se formaram ao longo da evolução: curiosidade e medo, ambos repletos tanto de oportunidades quanto de riscos. É o caso do psicólogo Clemens Trudewind, pesquisador da Universidade de Bochum, na Alemanha, que durante algum tempo estudou essa interação. Ele comprovou algo que muitos pais e educadores já sabiam: crianças curiosas e destemidas resolvem problemas com mais eficácia do que as temerosas e passivas. No entanto, a curiosidade e o medo não são opostos: meninas e meninos muito medrosos e ao mesmo tempo curiosos também se revelaram bons solucionadores de problemas, segundo Trudewind. Razões supostamente antagônicas, portanto, não são obrigatoriamente excludentes.

TRÊS ELEMENTOS CRÍTICOS

Uma grande vantagem bastante prática da motivação é que ela nos faz mais entusiasmados, comprometidos, empenhados em buscar os melhores resultados e, em última instância, felizes – no que quer que estejamos empenhados. Além disso, aumenta a capacidade criativa e favorece as habilidades de comunicação. Especialistas chegam a argumentar que a motivação – aquilo que move a ação – pode ser até mais importante e decisiva para o sucesso do que o talento. Mas, afinal, de onde vem esse ânimo de direcionar a energia (um misto de empenho de tempo, capacidade intelectual e afetiva) em direção a um objetivo? A psicologia identifica três “elementos críticos” que oferecem suporte à motivação. A boa notícia é que todos podem ser ampliados e ajustados em nosso próprio benefício.

AUTONOMIA.

Os psicólogos Edward L. Deci e Richard M. Ryan, da Universidade de Rochester, acreditam que aumentamos nosso grau de motivação quando nos sentimos responsáveis. Os pesquisadores trabalham com grupos de estudantes, atletas e funcionários e descobriram que a percepção de autonomia prediz a energia com a qual os indivíduos perseguem uma meta.

Junto com o psicólogo Arlen C. Moller, Deci e Ryan desenvolveram vários experimentos para avaliar as consequências emocionais e cognitivas de uma ação controlada por outras pessoas em comparação aos efeitos das próprias escolhas. Eles descobriram que os voluntários que tiveram a oportunidade de desenvolver uma ação com base em suas opiniões (contra ou a favor de algum tema) persistiram mais tempo em uma atividade subsequente de resolução de um quebra-cabeça (tarefa aparentemente desvinculada da anterior). Os cientistas afirmam que agir sob coação gera uma espécie de “tributário mental”, enquanto perseguir um objetivo no qual acreditamos nos deixa energizados.

VALOR.

Motivação também costuma persistir quando permanecemos fiéis às nossas crenças. Atribuir valor a uma atividade pode restaurar o senso de autonomia, uma descoberta de grande interesse para os educadores. Em um artigo de revisão, os psicólogos Allan Wigfield e Jenna Cambria, pesquisadores da Universidade de Maryland, observaram que vários estudos haviam encontrado correlação positiva entre a valorização de um assunto na escola e a vontade do estudante de investigar a questão de forma independente. Felizmente, valores podem ser mudados. O psicólogo Christopher S. Hulleman, professor da Universidade da Virgínia, descreveu uma intervenção realizada no final do semestre letivo com dois grupos de estudantes do ensino médio. Um deles escreveu sobre como a ciência se relacionava com sua vida e outro deveria simplesmente resumir o que fora aprendido nas aulas de ciências. Os resultados mais marcantes vieram de estudantes com baixas expectativas de desempenho. Aqueles que descreveram a importância da ciência em sua vida melhoraram suas notas e relataram maior interesse, em comparação aos alunos em situação semelhante no grupo de resumo-escrita. Em suma, parece que pensar sobre algo (uma situação, uma área de conhecimento etc.) tende a aumentar nosso comprometimento. Não por acaso, um tema básico de meditação analítica do budismo é o fato de que o praticante vai morrer, mas não sabe quando isso vai acontecer, o que leva à reflexão sobre a preciosidade da vida – e à motivação para desfrutá-la de forma significativa.

COMPETÊNCIA.

Gostamos do que fazemos ou fazemos o que gostamos? Tudo indica que, à medida dedicamos mais tempo a uma atividade, percebemos que nossas habilidades melhoram nessa área e adquirimos senso de competência. Psicólogos das universidades Democritus da Trácia e da Tessália, ambas na Grécia, entrevistaram 882 alunos sobre suas atitudes e o engajamento com o atletismo durante um período de dois anos. Os estudiosos descobriram uma forte ligação entre o sucesso obtido por um aluno nos esportes e o desejo de praticar determinada modalidade. A conexão funcionou em ambas as direções – a prática tornou os jovens mais propensos a se considerar competentes e o senso de competência determinou a perseverança na prática esportiva. Estudos semelhantes, considerando atividades como música e rendimento acadêmico, reforçam essas constatações. A psicóloga Carol S. Dweck, pesquisadora da Universidade Stanford, mostrou que a competência está bastante associada às próprias crenças. Em uma série de estudos, ela descobriu que aqueles que se apoiam mais em talentos inatos que no trabalho árduo desistem mais facilmente quando enfrentam um novo desafio, porque temem que ele exceda sua capacidade. Já acreditar que o esforço promove a excelência pode inspirar a continuar aprendendo. Em geral, quando enfrentamos uma dificuldade em relação a atingir aquilo que desejamos, convém perguntar o que está faltando. Muitas vezes, a resposta está em uma (ou mais de uma) destas três áreas: falta de autonomia, sensação de que a tarefa é inútil ou dúvida sobre sua capacidade. Enfrentar essas fontes de resistência pode fortalecer sua determinação. A escolha é pessoal, claro.

 

BUSCAR E ALCANÇAR

No começo da década de 50, o psicólogo James Olds, professor da Universidade McGill, no Canadá, chegou à conclusão de que a busca pela satisfação e a satisfação em si são processadas na mesma região no cérebro dos ratos. Outras pesquisas realizadas depois revelaram que o funcionamento mental de seres humanos segue a mesma lógica. Isso explica por que buscamos prazeres continuamente. Mas a maioria das pessoas também consegue postergar a realização dos seus desejos: na expectativa de viver algo que queremos, nosso cérebro já nos dá uma provinha da satisfação. O professor de psicologia da Universidade de Michigan Kent Berridge fez uma descoberta fundamental sobre motivação: nosso cérebro tem dois sistemas de recompensa, um que nos leva a querer e outro, à sensação de satisfação. Sentimos vontade de obter algo e, na sequência, a alegria da conquista. Por estarem muito próximos, esses dois movimentos mentais confundiram os cientistas, mas hoje se sabe que eles podem funcionar separadamente. Quando estamos muito ansiosos, estressados, ou sob o efeito de drogas, por exemplo, a vontade de conseguir o que almejamos é potencializada e a capacidade de escolha fica comprometida. Talvez você mesmo já tenha se flagrado, em momentos de grande tensão e cansaço, comprando e comendo com avidez (mesmo sem fome) guloseimas pouco saudáveis, das quais sequer gosta de verdade. Podemos pensar que naquele momento você queria aquilo, embora realmente não gostasse. O neurocientista Jaak Panksepp, pesquisador da Universidade de Washington, mapeou centenas de cérebros de animais e constatou que o prazer está muito mais em buscar o que queremos do que em conseguir. Talvez isso explique, do ponto de vista da neurociência, por que suportamos postergar o recebimento de recompensa – como o pagamento no fim do mês ou uma boa nota depois de passar o fim de semana estudando para a prova. Segundo Panksepp, isso também é observado no comportamento de muitos mamíferos que preferem procurar comida a encontrá-la de uma forma fácil. Entre humanos, a lógica pode ser a mesma em muitas áreas da vida. Por exemplo, na paquera ou no início do namoro, em que existe a constante motivação da conquista, em contraste com a “calmaria” da relação estável após algum tempo.

O QUE VALE A PENA?

Durante uma das mais comentadas palestras do TED, a maior convenção de ideias do mundo, que acontece anualmente na Califórnia, o professor do departamento de psicologia da Universidade de Chicago Mihaly Csikszentmihalyi fez uma pergunta à plateia: “O que faz a vida valer a pena?”. Em 15 minutos de apresentação, ele chegou à seguinte conclusão: Não podemos ter uma ótima vida sem o sentimento de que fazemos parte de algo maior do que nós mesmos. Talvez seja esse o propósito maior da nossa motivação. Além de atender às nossas necessidades biológicas de sobrevivência, de sermos recompensados por aquilo que fazemos bem feito e realizar com autonomia algo que importa, precisamos ter a sensação de que o que queremos e do que gostamos tem um significado. Ganhar dinheiro? Assistir a séries? Viajar? Receber elogios? Ter um corpo considerado bonito segundo os padrões de beleza vigentes? Tudo isso é ótimo. Mas se empenhar continuamente em conseguir o que se deseja pode ser muito mais gratificante. Principalmente se o objetivo não for obter apenas satisfação pessoal, mas encontrar um objetivo maior para motivar suas ações.

O que motiva você. 2 

PIRÂMIDE DE MASLOW

O psicólogo estabeleceu uma hierarquia, expressa graficamente, localizando as necessidades mais básicas na base da figura geométrica e, no alto, os aspectos ligados à realização pessoal

O que motiva você. 3PISTAS PODEM ESTAR NO CORPO

Um dos inimigos do “passar à ação” para realizar objetivos nas diversas áreas, de maneira compatível com nossos valores, anseios e expectativas, é a falta de clareza a respeito do que se deseja. Por isso, é tão importante ter consciência das próprias metas. Nesse caso, é possível contar com a ajuda preciosa dos marcadores somáticos, que são sinais da memória emocional, onde todas as experiências são armazenadas e classificadas. Essa referência mnêmica influi permanentemente sobre os dados captados do ambiente. A capacidade de uma pessoa saber o que é importante e bom para si mesma depende em grande parte da atenção que dispensa às mensagens enviadas por seus marcadores somáticos. Essas informações são decisivas para tomar decisões na possibilidade de encontrar motivação para concretizar objetivos. Os marcadores somáticos funcionam como orientadores internos: são percebidos como sensações físicas, sentimentos ou uma mistura de ambos. Embora tenham origem na experiência emocional, sua base neurológica é um agrupamento de estruturas cerebrais que memoriza e classifica eventos significativos. Vivências desagradáveis, que devem ser evitadas, produzem marcadores negativos; já as experiências que provocam prazer geram sinais positivos. No fundo, a memória das experiências emocionais constitui nada mais do que o “eu” de uma pessoa. Ou seja, aquilo que faz com que ela se reconheça como indivíduo, independentemente de eventuais transformações que enfrente ao longo da vida. Sob condições favoráveis, é possível manter um nível habitual de motivação – e, consequentemente, de satisfação. Aqueles que desenvolvem autopercepção para registrar conscientemente os sinais de seu eu – seus marcadores somáticos – adquirem maior consciência de si e podem, com isso, estimular ativamente a busca de bem-estar, independentemente das circunstâncias externas. A longo prazo, só costuma ficar realmente satisfeito com a própria vida quem tem autonomia para fazer escolhas e arcar com as consequências delas.

O que motiva você. 4

SE FOR DIFÍCIL DEMAIS, DESANIMA

Existe uma complexa relação entre esforço, motivação e capacidade intelectual; aparentemente, nosso cérebro confunde facilidade de apreender instruções sobre tarefas com a simplicidade da execução.

 O cartunista americano Rube Goldberg (1883-1970) ficou conhecido por ser o criador das “máquinas de Goldberg”. Cada uma de suas invenções cômicas mostrava um conjunto de instruções complexas para realizar o que deveria ser uma tarefa cotidiana simples. Seu “guardanapo automático”, por exemplo, apresentava 13 passos sequenciais, envolvendo um papagaio, um acendedor de charutos, um foguete e uma foice – junto com diversos elásticos, tiras e pêndulos. As charges se tornavam engraçadas porque, com bom humor, cutucavam uma ironia fundamental da psicologia humana: não raro, as pessoas tendem a tornar tarefas simples mais complicadas do que o necessário. Na realidade, o oposto, em geral, também é verdadeiro: as confusas regras de “como fazer” de Goldman podem nos fazer rir, mas também nos deixam exaustos. Se for necessário fazer tudo aquilo para usar um guardanapo, por que tentar? Psicólogos estão muito interessados em descobrir mais sobre a complexa relação entre esforço, motivação e cognição – a facilidade com a qual pensamos sobre tarefas. É possível que a simplicidade (ou complexidade) com a qual uma atividade é descrita e processada, de fato, afete nossa atitude com relação a essa atividade e, por fim, nossa vontade de realizá-la. Dois psicólogos da Universidade de Michigan em Ann Arbor, nos Estados Unidos, decidiram investigar essa ideia em laboratório. O desafio de Hyunjin Song e Norbert Schwarz era conseguir motivar um grupo de universitários de 20 anos a praticar atividade física regularmente. Eles deram instruções escritas aos voluntários para que estabelecessem uma rotina com exercícios regulares, mas utilizaram um método para tornar as orientações de “como fazer” cognitivamente agradáveis ou desafiadoras: alguns alunos receberam as instruções escritas com a fonte Arial, plana e desenvolvida para facilitar a leitura; outros receberam em fonte Brush, que, basicamente, parece letra manuscrita com um pincel japonês, o que dificulta a leitura. Depois que os alunos haviam lido as instruções, os pesquisadores perguntaram a eles, por exemplo, quanto tempo acreditavam que levaria a conclusão das atividades, se fluiria naturalmente ou pareceria não ter fim, se seria chata ou interessante. Eles questionaram também sobre a probabilidade de tornar os exercícios parte de sua rotina. As descobertas foram surpreendentes: os que haviam lido as instruções em uma fonte simples estavam mais dispostos a realizar a tarefa – acreditavam que duraria pouco tempo e que fluiria de maneira fácil. E, mais importante, eles tinham mais vontade de tornar o exercício parte da rotina. Aparentemente, o cérebro dos estudantes confundiu a facilidade em ler sobre os exercícios com facilidade para realizar flexões e abdominais, e essa confusão motivou-os a pensar em uma mudança de vida. Os que brigaram com as pinceladas japonesas não tinham a menor intenção de ir à academia; a leitura, por si só, já os deixou cansados. Song e Schwarz decidiram verificar novamente esses resultados com outra pesquisa, envolvendo outra atividade: a culinária. Novamente usaram uma fonte mais clara e outra rebuscada. Mas, nesse caso, as instruções ensinavam a fazer um rolinho de sushi. Depois de os voluntários lerem a receita, deveriam estimar o tempo para execução do prato e se estavam ou não inclinados a fazê-lo. Os resultados foram basicamente os mesmos, conforme publicado no periódico científico Journal of Psychological Science: aqueles que leram as instruções muito rebuscadas, que pareciam exigir grande capacidade intelectual, acharam que a tarefa seria demorada e necessitaria de alto nível de habilidades culinárias; os participantes observaram a estranheza da escrita como sendo da própria tarefa e, como resultado, tentaram evitá-la. Já aqueles que receberam informações de forma mais objetiva ficaram bem mais dispostos a ir para a cozinha. Conclusão: o cérebro emprega todos os tipos de truques e atalhos para que o indivíduo atravesse o dia com o mínimo de esforço físico e mental, mas é bom prestar atenção nesses julgamentos automáticos. Se não forem verificados, a tendência de confundir pensamentos e ações pode levar a opções duvidosas, que parecem ser mais fáceis e desejáveis do que de fato são, ou pode afastar as escolhas saudáveis e a exploração criativa.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

PARA EVITAR DISTRAÇÕES

Em meio a vários estímulos, nosso cérebro “escolhe” os mais importantes e suprime outros.

Para evitar distrações

Você sabe que a saída está em algum lugar daquele trecho da rodovia, mas nunca a utilizou antes – e obviamente não quer perdê-la. Enquanto olha atentamente para o lado da estrada em busca da sinalização, numerosas distrações se intrometem em seu campo visual: cartazes, um conversível cheio de estilo que passa ao seu lado, a música no rádio, o toque que anuncia a chegada de uma mensagem no celular. Como o seu cérebro se concentra na principal tarefa que está realizando naquele momento?

Para responder a essa pergunta, muitos neurocientistas têm estudado o modo como o cérebro reforça sua resposta para o que você está procurando, condicionando-se com um impulso elétrico especialmente forte quando vê o que procura. Outro truque mental pode ser igualmente importante. De acordo com um estudo divulgado na publicação científica Journal of Neuroscience, o cérebro enfraquece sua reação deliberadamente perante tudo o mais, de modo que, comparativamente, o “alvo” parece ser mais importante. Isso pode ser um risco, por exemplo quando desviamos nossa atenção para o celular enquanto dirigimos. Os neurocientistas cognitivos John Gaspar e John McDonald, ambos da Universidade Simon Fraser, na Colúmbia Britânica, no Canadá, chegaram a essa conclusão sobre o enfraquecimento da reação cerebral depois de terem pedido a 48 voluntários que fizessem testes de atenção em um computador. Os participantes do experimento deveriam identificar rapidamente um círculo amarelo isolado em meio a um conjunto de círculos verdes sem serem distraídos por um círculo vermelho ainda mais chamativo. Os pesquisadores acompanharam e registraram a atividade elétrica cerebral dos estudantes utilizando uma rede de eletrodos conectados ao couro cabeludo. Os padrões neurais revelaram que o cérebro dos voluntários suprimira consistentemente as reações a todos os círculos, exceto aquele que estavam procurando. “Neurocientistas estão cientes da supressão há algum tempo, mas ela não recebe tanta atenção quanto os mecanismos que aumentam a atenção”, observa McDonald. “A novidade deste trabalho é que determinamos como é possível evitar distração por meio da supressão.” Ele aposta que esse tipo de pesquisa algum dia poderá ajudar cientistas a entender o que ocorre no cérebro de pessoas com problemas de atenção, como o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. E, em um mundo cada vez mais marcado pelo excesso de estímulos e distrações – diariamente responsáveis por acidentes de todo tipo, em especial de trânsito –, qualquer informação consistente sobre como o cérebro se concentra deve atrair nossa atenção

PSICOLOGIA ANALÍTICA

PODEMOS APRENDER A ESQUECER?

Neurocientistas americanos tentam apagar recordações desagradáveis; porém, ainda que esse processo seja bem-sucedido, provavelmente o mero esquecimento do fato não ser á suficiente para evitar o aparecimento de sintomas físicos e mentais.

Podemos aprender a esquecer

Depois de estender a mão num reflexo para segurar uma panela quente que cai do fogão, você pode ser capaz de puxá-la de volta no último instante para não se queimar. Tudo isso em frações de segundo. Isso ocorre porque o controle executivo do cérebro pode intervir para interromper uma cadeia de comandos automáticos. Várias novas evidências sugerem que algo parecido acontece com o reflexo da recordação: o sistema cerebral é capaz de parar a recuperação espontânea de memórias dolorosas. Primeiro é preciso considerar que as memórias fazem parte de uma espécie de teia de informações conectadas. Por isso, uma lembrança pode agir como gatilho de outra, trazendo-a à tona sem esforço consciente. “Quando você recorda algo, a resposta automática da mente é lhe fazer um favor, tentando recuperar o que estiver associado a isso, mas às vezes somos lembrados de coisas sobre as quais preferiríamos não pensar”, diz o neurocientista Michael Anderson, pesquisador da Universidade de Cambridge. Estudos prévios sugerem que as áreas frontais do cérebro reduzem a atividade do hipocampo, uma estrutura crucial para a memória, e assim evitam a recuperação de lembranças. Para entender melhor, Anderson e seus colegas investigaram o que acontece depois que o hipocampo é suprimido. Eles pediram a 381 universitários para aprender pares de palavras pouco relacionadas. Depois, mostrou-se a eles uma das palavras e pediu-se que lembrassem da outra – ou que fizessem o contrário e, intencionalmente, não pensassem na outra. Às vezes, entre as tarefas, mostravam a eles imagens incomuns, como um pavão parado num estacionamento. Em artigo publicado no periódico científico Nature Communications, os cientistas afirmaram que a capacidade dos participantes de lembrar de pavões e outras imagens pouco convencionais foi cerca de 40% menor nos testes em que foram instruídos a suprimir memórias de palavras, antes ou depois de verem as imagens, em comparação com os testes em que foram solicitados a recordar as palavras. O achado traz mais evidências de que há um mecanismo de controle de memória, e sugere que tentar esquecer ativamente uma lembrança particular pode afetar negativamente a memória geral. O fenômeno é chamado de “sombra amnésica”, porque parece bloquear a recordação de eventos não associados que ocorrem por volta do momento em que a atividade do hipocampo é reduzida. “Os resultados talvez expliquem por que há vários registros de pessoas que viveram traumas (e depois tentaram esquecê-los) e têm memória fraca de fatos cotidianos”, observa Anderson. Ele e a colega Ana Catarino agora desenvolvem um novo experimento: monitoram em tempo real a atividade cerebral de pessoas que querem esquecer algo específico e informam a eles o quanto da atividade hipocampal está suprimida. Os pesquisadores acreditam que isso possa ajudar a aperfeiçoar o esquecimento seletivo, uma aptidão que poderia minorar a dor de pessoas com transtorno de estresse pós-traumático.  O que não foi considerado é que a experiência deixa uma marca emocional que não se restringe à lembrança em si e os resquícios traumáticos podem aparecer em forma de sintomas e quadros graves de doença mental. Mais útil do que simplesmente esquecer, parece fundamental recorrer a processos psicoterapêuticos que permitam o reconhecimento da dor e a elaboração da vivência dolorosa.

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MENSAGENS ESCONDIDAS

Os estímulos que recebemos de maneira subliminar, ou abaixo do nível da consciência, surtem algum efeito sobre nossas escolhas, mesmo que não possamos nos dar conta. Essa influência, no entanto, ocorre apenas em situações bastante específicas.

Mensagens escondidas

Recebemos mensagens o tempo todo – tanto a respeito do mundo externo quanto de estados internos. Muitas dessas informações processamos conscientemente, mas inúmeras delas passam despercebidas. Ou seja: registramos, mas não temos consciência de que o fazemos. A música que toca distante, por exemplo, pode influenciar nossas escolhas. E se alguém nos perguntar se o som tem alguma relação com nossa opção, provavelmente vamos jurar que não. Um experimento, porém, mostrou que certos “detalhes” podem ter mais efeito sobre nós do que supomos. O psicólogo Adrian North e seus colegas, na época, na Universidade de Leicester, na Inglaterra, expuseram uma seleção de quatro vinhos alemães e quatro franceses, igualmente caros, em um supermercado britânico. Durante alguns dias, os cientistas intercalaram canções alemãs e francesas no ambiente. Depois, entrevistaram os clientes que compraram a bebida e descobriram que poucos haviam se dado conta de ter escutado alguma música. Porém, aqueles expostos a canções francesas escolheram vinhos dessa nacionalidade com maior frequência, e o mesmo se deu em relação às bebidas alemãs.

“Esse tipo de estudo nos leva a considerar que, assim como a música, a publicidade com mensagens abaixo do nível da consciência pode exercer influência em situações imediatas do cotidiano”, afirma o psicólogo social Wolfgang Stroebe, professor das universidades de Utrecht e de Groningen. Segundo ele, as mensagens teriam de ser curtas, aparecer no momento em que decidimos algo e estarem relacionadas às nossas intenções imediatas ou aos nossos hábitos. “Pelo que sabemos hoje, é improvável que anúncios publicitários com conteúdos subliminares possam induzir consumidores a comprar determinada marca dias depois”, afirma. Na prática, portanto, mensagens “escondidas” em músicas, peças publicitárias ou filmes são menos potentes ou aterrorizantes do que se acreditava no passado.

ASCENSÃO E QUEDA

A noção de que podemos ser influenciados sem nos darmos conta é antiga – evidências históricas sugerem que no século 5º a.C. os pensadores gregos já tentavam empregar linguagem sutil, mas persuasiva para induzir pessoas disfarçadamente. Em meados do século 20, essa famosa ideia capturou a atenção popular, mas só recentemente a ciência começou a analisar os efeitos reais daquilo que é transmitido abaixo do limiar da consciência.

1943 – Mensagens subliminares foram ocasionalmente incorporadas em programas de rádio, cinema e televisão. Em um curta de animação do Patolino daquele ano, por exemplo, as palavras “compre edições” aparecem brevemente na tela. Ninguém sabia se influenciariam as pessoas, mas decidiu-se que tentar não faria mal.

1957 – O pesquisador de mercado James Vicary afirmou que, ao disparar rapidamente as palavras “Coma pipoca” e “Beba Coca-Cola” durante um filme por uma fração de segundo, ele conseguiu aumentar significativamente a venda desses produtos. Cinco anos mais tarde, Vicary admitiu que havia falsificado o estudo. A essa altura, porém, a preocupação do público e o interesse de anunciantes e agências governamentais já tinham crescido em relação ao poder manipulador dessas mensagens.

Final dos anos 1960 até a década de 1980 – Muitos estudos científicos ao longo desse período começaram a desacreditar as alegações de que dados subliminares pudessem influenciar o comportamento de maneira sutil. Uma pesquisa, por exemplo, mostrou que disparar rapidamente as palavras “Chocolates Hershey” numa série de slides durante uma palestra não interferiu na opção de estudantes em relação à escolha desse produto durante um período de dez dias.

1990 – Apesar de muitos estudos continuarem a pôr em xeque os argumentos de que mensagens abaixo do limiar da consciência pudessem causar algum efeito psicológico, outras pesquisas começaram a apontar pequenos efeitos. Em uma delas, em 1992, um grupo de participantes visualizou imagens de uma pessoa envolvida em uma atividade diária comum. Depois de cada figura, os cientistas lançaram rapidamente uma fotografia: metade notou algo positivo e a outra parte, algo negativo. Esses últimos relataram imaginar a pessoa fotografada numa luz mais prejudicial.

Início de 2000 – As pesquisas continuam a sugerir que dados subliminares de fato influenciam nossa percepção; o efeito é apenas mais sutil do que pensávamos.

2006 – Os estudos mostram finalmente que mensagens que passam despercebidas pela consciência podem favorecer a publicidade em certas situações. Por exemplo, uma pesquisa de 2006 constatou que participantes que viam rapidamente uma imagem de uma bebida de marca, nesse caso a Lipton Ice Tea, eram mais propensos a escolhê-la para saciar a vontade de tomar algo. Essa associação só se manteve, porém, entre aqueles que já estavam com sede. (Outro estudo provocador mostrou que figuras embutidas relacionadas com o desejo de beber algo em um episódio de Os Simpsons realmente deixaram as pessoas com mais sede.

2007 – Informações subliminares podem colaborar também no desempenho acadêmico. Em um estudo de 2007, cientistas mostraram rapidamente a estudantes palavras escondidas relacionadas ou não com a inteligência, como “talento” e “grama”, respectivamente, antes de um teste prático. Aqueles que perceberam os termos associados com o intelecto se saíram melhor na avaliação num prazo médio de um a quatro dias.

2010-2016 – Estudos de neuroimagem demonstram que o cérebro responde a mensagens indiretas de maneira mensurável. Os níveis de atividade mudam na amígdala (associada ao processamento das emoções), na ínsula (envolvida com a consciência), no hipocampo (relacionado com a execução das memórias) e no córtex visual.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

QUER DORMIR?  DESLIGUE A TV E O CELULAR! 

Sabemos há décadas que a luminosidade intensa suprime a melatonina, o hormônio que o cérebro produz à noite para induzir o sono. Porém, estudos mais recentes provaram que alguns tons específicos emanados pela tela de aparelhos eletrônicos fazem isso de forma mais pronunciada, deixando as pessoas mais alertas quando deveriam começar a se sentir sonolentas.

Quer dormir Desligue a TV e o celular!

Há uma década a desenvolvedora de software Lorna Herf, de Los Angeles, decidiu testar seu talento em pintura a óleo. Ela e o marido, Michael, também programador de computadores, instalaram claras lâmpadas fluorescentes no mezanino do apartamento para que a moça pudesse pintar à noite e ainda ter uma ideia precisa de como as cores na tela pareceriam durante o dia. Uma vez, tarde da noite, ela desceu para a sala onde computadores estavam ligados. Já mais acostumada às diferenças da iluminação, reparou como as luzes intensas dos equipamentos entravam em choque com a suavidade dos bulbos incandescentes que os cercavam. Ela lembra ter pensado que as telas eletrônicas pareciam “pequenas janelas de luz artificial do dia”, comprometendo o ambiente aconchegante da sala. O casal, versado em tecnologia, projetou então uma solução criativa para minimizar a discrepância. Eles escreveram alguns códigos para mudar o número e o comprimento das ondas dos fótons emitidas pelas telas dos computadores à medida que o dia avançava. O objetivo era imitar o máximo possível as mudanças naturais no ambiente da iluminação, transitando da luz clara e azulada da manhã, passando pelo efeito do sol da tarde para chegar à luminosidade fraca e alaranjada do entardecer.  Primeiro eles pretendiam apenas harmonizar o esquema de iluminação da casa. Mas logo começaram a suspeitar que seu novo aplicativo, que chamaram de f.lux, pudesse também trazer benefícios à saúde. “Depois de usá-lo por algum tempo, começamos a notar que parecia mais fácil desacelerar à noite e dormir depois que os aparelhos eletrônicos eram desligados”, relembra Lorna. Não foram os únicos a apreciar o efeito relaxante. Desde que casal lançou o programa gratuito em 2009, o f.lux foi baixado mais de 20 milhões de vezes.

Ao seguirem seu gosto estético, os Herf toparam com uma curiosidade sobre como o corpo controla a forma como dormimos. Pesquisadores sabiam há várias décadas que luzes fortes de qualquer tipo podem suprimir a melatonina, o hormônio que o cérebro produz à noite para induzir o sono. Mas estudos mais recentes mostram que luzes azuis interferem na produção de melatonina com mais força que qualquer outro comprimento de onda visível, potencialmente deixando as pessoas mais alertas quando deveriam começar a se sentir sonolentas. E acontece que smartphones, laptops e todos os tipos de telas eletrônicas se tornaram mais brilhantes e azuis nas duas últimas décadas por causa da adição das poderosas lâmpadas de LED (Diodo Emissor de Luz) azul. Durante o dia, quando a luz azul já é naturalmente abundante, uma pequena exposição extra às telas eletrônicas não faz muita diferença no cérebro de ninguém. O problema é que cada vez mais as pessoas mais encarando as telas brilhantes noite adentro – o que compromete significativamente a qualidade do sono de milhões de pessoas. Quase todos os entrevistados numa pesquisa da Fundação Nacional do Sono em 2011, por exemplo, admitiram que usavam televisão, computador, celular ou aparelho semelhante uma hora antes de deitar por algumas noites na semana. Em 2014 a mesma organização apurou que 89% dos adultos e 75% das crianças tinham pelo menos um aparelho eletrônico no quarto, e um número significativo deles enviava ou respondia textos após terem caído inicialmente no sono. Motivados por essa pesquisa, engenheiros e programadores de computador estão pesquisando possíveis soluções para evitar que uma população já carente de boas noites de descanso passe ainda mais tempo sem dormir por causa de seus eletrônicos. As soluções vão desde óculos coloridos até sistemas de iluminação naturalistas para casas e escritórios.

“Seria perfeito se as pessoas pudessem descobrir formas de simular as mudanças da luz solar ao longo do dia”, diz Christian Cajochen, chefe do Centro de Cronobiologia da Universidade da Basileia, na Suíça. “O ideal talvez fosse ter no interior das casas a mesma luz que há no exterior.” No entanto, falta comprovar a eficácia desses recursos, especialmente comparados com o simples desligar dos aparelhos.

NO PÔR DO SOL

A luz que emana dos eletrônicos nem sempre foi um entrave ao sono reparador. O atual estado das coisas pode remontar à invenção, em 1992, no Japão, do LED azul super brilhante. Ao combinarem o novo LED azul com os mais antigos, verde e vermelho, ou revesti-lo com químicas que reemitem outros comprimentos de ondas, os fabricantes de tecnologia conseguiram gerar o espectro completo de luz LED branca pela primeira vez. Como LEDs consomem muito menos energia que seus predecessores fluorescentes, eles logo se tornaram onipresentes em telas de tevês, computadores, tablets e alguns leitores eletrônicos, inundando como nunca as casas e escritórios com luzes azuis muito mais claras.

Pesquisadores só começaram a reunir evidências concretas de que os LEDs azuis podem atrapalhar o sono há cerca de 17 anos, mas já tinham uma boa ideia sobre seu provável mecanismo há mais tempo. Cientistas descobriram nos anos 1970 que uma pequena região do cérebro chamada núcleo supraquiasmático ajuda a controlar o ciclo de sono, a vigília, a temperatura e outras flutuações diárias do corpo. Estudos mostraram que o núcleo supraquiasmático impele a glândula pineal do cérebro a produzir melatonina toda noite.

Neste século, biólogos descobriram como esse processo sinalizador acontece. O elo que faltava era um antes ignorado tipo de célula sensível à luz no olho humano, diferente das hastes e cones que são responsáveis, respectivamente, pela visão noturna e de cor. Esse terceiro fotorreceptor monitora o volume de luz azul no ambiente e o transmite ao núcleo supraquiasmático. Assim, quando há muita luz azul (como quando há sol), esse fotorreceptor faz o núcleo supraquiasmático dizer à glândula pineal para não produzir muita melatonina e, dessa forma, nós ficamos despertos. Quando o sol começa a se pôr, no entanto, a quantidade de luz azul diminui, causando um aumento nos níveis de melatonina que nos ajuda a dormir.

Entre os estudos que oferecem mais evidências está uma pesquisa de 2011 feita por Cajochen e seus colegas na Universidade da Basileia. Nesse trabalho, voluntários expostos a um computador iluminado com LED por cinco horas à noite produziram menos melatonina, se sentiram menos cansados e se saíram melhor em testes de atenção que aqueles que ficaram diante de telas com luz fluorescente do mesmo tamanho e luminosidade. De forma similar, para participantes de um estudo de 2013 liderado por Mariana Figueiro, pesquisadora do Instituto Politécnico Rensselaer, foi suficiente interagir comum iPad por apenas duas horas à noite paraimpedir o aumento de melatonina típico do anoitecer. E, em um experimento de duas semanas no Brigham and Women’s Hospital, em Boston, publicado em 2014, voluntários que leram em um iPad por quatro horas antes de deitar relataram que sentiram menos sono, levaram em média dez minutos a mais para adormecer e dormiram menos profundamente que os que leram livros de papel à noite. Cajochen e outros cientistas também demonstraram que esses efeitos são especialmente pronunciados em adolescentes, por razões ainda ignoradas.

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FORA DO LABORATÓRIO

Diante do acúmulo de evidências, cientistas começaram a estudar soluções. Vários estudos mostraram que usar óculos com lentes alaranjadas de plástico que filtram a luz azul dos eletrônicos ajuda a evitar a supressão de melatonina. Os óculos estão disponíveis nos Estados Unidos por preços que vão de US$ 8 a até US$ 100. Mais caro é o sistema de iluminação dinâmico, que promete recriar “o amplo espectro da luz natural do dia num espaço interno” e sai por centenas a milhares de dólares, segundo o tamanho da residência ou escritório.

As medidas mais acessíveis ainda são programas de computador como o f.lux. Em março de 2016, a Apple incluiu uma função chamada Night Shift  para iPhone e iPad, que se assemelha ao f.lux na mudança da luz emitida pela tela “para a ponta quente do espectro” por volta da hora do pôr do sol. Até agora nenhum pesquisador testou o f.luxou o Night Shift em um estudo controlado, mas Figueiro está planejando realizar esse experimento e Michael Herf conta que está colaborando com cientistas da universidade para examinar os efeitos do f.lux em ambientes cotidianos fora do laboratório. “Acho que o f.lux é ainda uma possibilidade que ajudará bastante os noctívagos, mas ainda precisamos fundamentar os casos com dados”, afirma Lorna Herf. Pesquisadores ressaltam, no entanto, que eliminar a luz azul não é uma solução segura. Mesmo telas com luzes fracas, alaranjadas, tornam tentadoramente fácil ficar acordado e ler ou jogar games à noite, mantendo o cérebro alerta quando deveria desacelerar. “É como se você ficasse no escuro total, mas tomasse café”, explica Figueiro. “Vai ter algum efeito. ”Ou seja, em última análise, a solução mais garantida é a abstinência de eletrônico, pelo menos por algumas horas. Desligar todas as telas e luzes antes de deitar pode ajudar muito na qualidade de vida e trazer benefícios para a saúde, já que há um fato do qual não podemos nos esquivar: humanos evoluíram para acordar e dormir com o sol. “Antes de termos toda essa tecnologia, antes da eletricidade e da iluminação artificial, ficávamos acordados durante a luz do dia, fazíamos um pouco de fogo ao entardecer e então dormíamos”, diz Debra Skene, cronobióloga da Universidade de Surrey, na Inglaterra. Luzes artificiais têm representado grandes benefícios há séculos. Mas há momentos, especialmente no fim do dia, em que essa coisa boa pode ser excessiva.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

PRIMEIRO O GESTO, DEPOIS A PALAVRA

A inteligência humana se reflete no sofisticado controle da musculatura; foi por meio da ampliação da coordenação motora fina e das expressões faciais que, ao longo dos séculos, desenvolvemos a cognição, a linguagem e a capacidade de usar os mais variados instrumentos.

Primeiro o gesto, depois a palavra

Um macaco jamais poderia tocar piano. Falta-lhe, para isso, a capacidade de mover os dedos com velocidade e precisão para pressionar as teclas em rápida sucessão. Nós, humanos, porém, mesmo quando não sabemos nada de música, em pouco tempo podemos aprender a tocar pelo menos uma melodia curta. Isso sem falar na vertiginosa execução de pianistas profissionais. Nossa habilidade manual ultrapassa em muito a dos outros primatas – e esse é um fato, em geral, menos considerado que outros diferenciais na capacidade de articulação vocal e na linguagem. No entanto, do ponto de vista neurobiológico, essas duas habilidades estão estreitamente ligadas, pois os mesmos centros cerebrais controlam grande parte dos recursos necessários para a fala e para o uso das mãos.

Nos últimos séculos, a pesquisa comportamental derrubou quase todas as supostas barreiras que separavam os homens dos animais, como o uso de ferramentas, a comunicação simbólica e a categorização abstrata. O mesmo vale para as atividades cognitivas, faculdades de pensamento e compreensão que – embora em forma rudimentar – os animais também possuem. Só a linguagem parece ser exclusivamente nossa: apesar de todos os esforços, até hoje nenhum macaco aprendeu a falar, pelo menos não como nós. O pouco da linguagem de sinais que alguns aprendem com dificuldade é suficiente apenas para atender necessidades de comunicação com o treinador.

Uma característica da fala é o controle da musculatura do aparelho fonador. É notável que a destreza manual também se apoie em uma motricidade refinada. Somos capazes de comandar a musculatura das mãos e dos braços com mais precisão do que qualquer animal. Mas é importante observar que essa habilidade motora já começa a se manifestar nos primatas. Seus dedos se tornaram mais rápidos, e sua mímica mais pronunciada – o que ainda não basta para a articulação vocal. O fato é que só o homem tem o dom da fala, assim como a capacidade de realizar atividades manuais complexas. Acre­ dito que essa extraordinária inteligência motora forneceu a base de nossa evolução cultural. É ela que provê o fundamento para a fala e, consequentemente, para a cultura e a tecnologia.

Essa afirmação pode surpreender. Muitos animais correm e saltam melhor do que nós. Para fazer isso, dispõem de um complexo aparato neuronal que emite instruções de movimento e os ajusta às circunstâncias. Na evolução da inteligência motora humana é nesse mesmo fundamento que se baseiam nossa capacidade linguística e nosso controle manual.

O controle de movimentos dos mamíferos percorre três instâncias neuronais articuladas hierarquicamente. A mais baixa situa-se na medula espinhal. Lá se originam sinais produzidos em pequenas redes neuronais – os geradores centrais de padrões – que determinam, por exemplo, a alternância rítmica automática da musculatura das pernas ao caminhar. Esses sinais são transmitidos em seguida aos neurônios motores, cujas ramificações se estendem da medula aos músculos. A medula espinhal, por si só, consegue produzir os movimentos básicos, já que seus padrões são coordenados com as juntas individuais. Essas redes neuronais podem levarem conta informações dos sentidos e ajustar o movimento conforme a necessidade.

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TRÊS PLANOS DE CONTROLE

Se quisermos manter um membro em certa posição, por exemplo, as redes neuronais fornecem os programas adequados: selecionam a possibilidade que deve ser ativada, a partir de informações enviadas do centro de movimento no mielencéfalo, a instância neuronal imediata­ mente superior à qual estão subordinadas. Essa parte posterior do cérebro também recebe e analisa informações sensoriais sobre a posição atual do membro durante o movimento.

Durante a evolução dos vertebrados superiores, os centros do mielencéfalo ficaram cada vez mais submetidos à influência do córtex motor. Nessa instância superior de controle do movimento, que se estende por uma faixa transversal no topo do cérebro, originam-se todas as atividades intencionais, tanto no caso de um felino carnívoro preparando-se para o salto como quando movimentamos a língua para falar. Mas o córtex motor não está em condições de produzir, sozinho, os movimentos apropriados. Para isso ele precisa de outras instâncias hierarquicamente superiores. A estimulação elétrica de regiões isoladas do córtex motor gera, em geral, apenas contrações de músculos individuais. Para que o córtex motor envie indicações de uma ação coordenada e adequada às necessidades e à situação é necessária a integração de regiões cerebrais situadas imediatamente à frente: as áreas pré-motoras. Elas fornecem os programas com a sequência de estímulos necessária para dirigir os movimentos a determinado objetivo. Para isso, reúnem informações provenientes dos órgãos dos sentidos, da musculatura e dos centros associativos na região anterior do cérebro.

Nas regiões pré-motoras do córtex formam-se também as intenções de realizar ações voluntárias, que são posteriormente transmitidas ao córtex motor. Mas essas áreas não produzem sozinhas suas instruções. Na verdade, recebem um grande auxílio do cerebelo, que supervisiona o desenrolar temporal de séries complexas de movimentos. O cerebelo funciona como um “treinador”, que cuida para que as novas ações sejam aprendidas; ele é ativado para a fixação de programas de movimento, como ocorre nas brincadeiras dos filhotes de animais e quando crianças aprendem a correr.

Os três planos hierárquicos para o controle da atividade muscular valem para os mamíferos em geral, mas neles começa a aparecer algo completamente novo – uma aquisição que logo iria alterar em muitos aspectos o comportamento dos primatas, embora só no homem assuma a máxima importância. O que surgiu foi uma “via expressa”, por assim dizer, ligando diretamente a parte anterior do cérebro à medula espinhal, provocando um curto-circuito nos centros motores do mielencéfalo: a chamada via cérebrospinal, ou via piramidal. Cerca de metade de seus filamentos neuronais vem do córtex motor; e a outra parte, das áreas pré-motoras. Os filamentos da via piramidal dos mamíferos estendem-se em primeiro lugar até os gerado­ res centrais de padrões na medula espinhal. Com isso, a parte anterior do cérebro pode influenciar diretamente os centros motores da medula e, desse modo, controlar com mais facilidade as ações.

Nos primatas ocorre ainda outro acréscimo. Os filamentos da via piramidal que controlam a mão e os dedos provocam um curto-circuito até mesmo nos geradores de padrões e estimulam diretamente os próprios neurônios motores, que se prolongam da medula até os músculos. É provável que a peculiar destreza manual dos primatas e do homem funda-se nessa ligação direta entre o córtex cerebral e os neurônios musculares. Graças a ela, nós e os símios somos capazes de mover os dedos individualmente, de acordo com nossa vontade, coisa que outros mamíferos, como os gatos, não conseguem fazer.

Uma lesão na via piramidal faz com que símios percam a destreza dos dedos. Depois de um curto período de restabelecimento, esses animais podem voltar a correr e subir em árvores, mas não são mais capazes de agarrar coisas. Por outro lado, mesmo com um defeito na ligação com o mielencéfalo, evolutivamente mais antigo, eles continuam capazes de retirar alimento com os dedos de um buraco, embora não possam mais se locomover. Isso ocorre porque, neles, a locomoção se efetua a partir dos centros mais antigos do mielencéfalo, ao passo que o movimento dos dedos é comandado através da via piramidal, mais recente.

Chama a atenção o fato de que, já nos símios, a maioria dos filamentos nessas vias rápidas que levam à medula comandem ali justamente os neurônios que controlam músculos das mãos e dos dedos, e esse fenômeno acentua-se nos humanos. Além disso, em nosso caso, os neurônios motores dos braços e ombros recebem ordens diretamente “de cima”, da região anterior do cérebro. É por isso que os seres humanos podem atingir um alvo com grande precisão, e os macacos não conseguem acertar nem uma única vez a cabeça do prego com um martelo.

As pernas recebem pouca atenção na via piramidal, como se mostra na conhecida figura do “homúnculo motor”, um esquema distorcido de um homem colocado sobre o córtex motor, cuja grandeza relativa das partes individuais do corpo corresponde à sua representação neuronal. Em relação às pernas, as mãos aparecem como superdimensionadas, com os dedos, particularmente o polegar, assumindo proporções gigantescas. O esquema correspondente de um chimpanzé aproxima-se muito mais das proporções naturais de seu corpo; apenas as mãos e os pés parecem um pouco mais encorpados. Mas não é apenas a competência do homem no uso das mãos que se revela no esquema do homúnculo motor. A figura ajuda também a compreender a evolução da capacidade de articulação vocal do homem – algo interessante para os biólogos evolucionistas. A grotesca imagem representa o homem como constituído principalmente de mãos e rosto – um rosto com uma enorme boca. Lábios e língua, em particular, aparecem como fortemente representados no córtex motor.

De fato, no homem, um espesso ramo da via piramidal acomoda os nervos para a musculatura da face, lábios, língua e palato, bem como – e isto é um caso único entre os primatas – para a laringe. Nos símios, já há filamentos dessa via rápida que controlam a musculatura facial e, entre outras coisas, a mímica, mas essa ligação direta só se acentua no ser humano. A isso se acresce – o que é mais interessante – que o controle fino da musculatura facial agora nos permite produzir os sons da fala. Em outras palavras, foi a grande ampliação da inteligência motora para controle da face e das mãos que nos tornou humanos.

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NEURÔNIOS-ESPELHO

Isso tudo pode ser expresso da seguinte maneira: a destreza motora de uma parte do corpo é tanto maior quanto mais extensamente estiver representada no córtex motor. Nos homens e nos símios, isso significa que há um número maior de filamentos piramidais associados a ela. Nos seres humanos, dois terços da superfície do córtex motor estão dedicados à face e às mãos; nos chimpanzés, isso é menos da metade (e essa diferença também se manifesta no cerebelo). Mas por que, ainda assim, um chimpanzé não consegue aprender a falar e tocar piano? Simples. Essas duas habilidades exigem coisas além do alcance de seu cérebro: uma competência motora mais fina e programas mais diversificados de sequências de movimentos longas e organizadas.

É só após um longo exercício que chegamos a dominar movimentos complexos e precisos dos braços, mãos e dedos. Isso vale tanto para trabalhos manuais quanto para tocar pia no. Para isso, o aprendiz recorre em grande medida à imitação. E embora os símios antropoides nem de longe alcancem o grau necessário de aprendizado motor, todos os primatas dispõem de alguns mecanismos neuronais notáveis e ainda não muito bem conhecidos, a partir dos quais nossa inteligência motora pode ter se construído.

As áreas pré-motoras geram as intenções concretas de movimento e fornecem ao córtex motor os programas neuronais adequados. Uma região da parte frontal do cérebro dos símios interessa especialmente os neuropsicólogos: a área FS, que participa de certas ações particulares das mãos e da boca. Ela coincide, em boa parte, com o centro da fala nos humanos, a chamada área de Broca. Só recentemente se verificou que a área de Broca não está envolvida apenas na fala, mas também em atividades das mãos e dedos, o que torna essa região do cérebro importante para a compreensão da evolução humana.

A área F5 dos símios, por sua vez, não participa da emissão de sons; seus neurônios destinam-se a funções de outro tipo. Em geral eles não se ativam para qualquer movimento da mão ou da boca, mas apenas para ações propositais e aprendidas, que se realizam sobre objetos, ou por meio deles. A ação desses neurônios se divide, além disso, em uma série de tarefas diversas. Nos símios, as células da área F5 estão dedicadas, em sua maioria, à tarefa de pegar coisas. Em consequência, a região não apresenta neurônios de movimento, mas verdadeiros neurônios de ação, que comandam comportamentos adquiridos e propositais.

Parece claro que essa área do cérebro apresenta um conjunto de instruções para situações correntes do dia a dia. Em princípio, esses programas individuais poderiam ser agrupados para formarem cadeias de ações dos mais variados comprimentos. O neurologista William H. Calvin, da Universidade Estadual de Washington, em Seattle, trouxe evidências de que a área F5 dos símios só executa essas instruções de forma relativamente lenta, imprecisa e limitada.

A área F5 exibe outra propriedade instigante: uma classe de células chamada neurônios-espelho dispara não apenas quando o símio executa determinada ação aprendida, mas também quando ele vê alguém executar essa ação. Nesses casos, trata-se sempre de ações propositais realizadas sobre um objeto, como agarrá-lo. É importante que o executante faça o mesmo movimento. Se o investigador não apanhar o objeto com os dedos, mas com uma pinça, as células nervosas do símio observador permanecem inativas.

Poderiam existir, então, algoritmos neuronais refinados e ampliados que permitiriam o aprendizado de complexas sequências de ações pela simples imitação, incluindo a fala? O aprendizado por imitação é mais importante para o homem do que para qualquer outro primata. Ainda não temos muitas informações precisas sobre neurônios-espelho na área de Broca dos seres humanos, mas já sabemos que essas células estão presentes ali e podem desempenhar um papel importante em nossa capacidade de imitação, na qual crianças pequenas são mestras. É possível que essa região do cérebro, em particular, tenha suprido as principais condições para uma motricidade fina plenamente desenvolvida. Pode ser que os neurônios de ação forneçam a base para dirigir movimentos precisos, através da via piramidal. E os neurônios-espelho ajudariam, antes de tudo, a aprender complexas sequências de movimentos.

Alguns neuropsicólogos supõem que deficiências nessa região do cérebro possam ser a razão pela qual algumas crianças autistas têm dificuldades de imitação. Muitas delas falam pouco, várias não se comunicam verbalmente e só conseguem planejar ações de forma incompleta. As primeiras investigações revelam que, em autistas, a área de Broca é bem menos ativa que o normal.

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OUTROS SONS

A linguagem distingue o homem de outros animais. O local no cérebro responsável por essa função, a área de Broca, desenvolveu-se a partir da área FS dos símios, na qual as instruções para os movimentos coordenados levam em conta também informações visuais. Como todos os primatas, somos “animais visuais”, isto é, agimos em grande medida orientados pela visão. As crianças aprendem a falar não apenas ouvindo, mas também observando os movimentos da boca – e não é por acaso que conseguem aprender uma língua de sinais tão facilmente como uma linguagem falada.

Pode-se até mesmo especular que mecanismos semelhantes ao comportamento dos neurônios-espelho participem dos planos que fazemos e da fala interior, silenciosa. De fato, nos símios, esses neurônios se ativam com a mera observação de uma ação, sem realizá-la – como se o animal estivesse executando a ação apenas “mentalmente”.

Nos seres humanos, um simples pensamento já se conecta à motricidade e nesse trabalho de entendimento puramente mental, extensas regiões do cerebelo são ativadas. Essa constatação é recente, pois há alguns anos ainda se pensava que o cerebelo desempenhasse apenas funções motoras.

O rico repertório vocal dos primatas não é aprendido pelos símios jovens: eles nascem com ele, e sua área F5 não desempenha nenhuma função na produção desses sons inatos. É um erro, portanto, procurar as origens de nossa linguagem na vocalização de outros primatas. Quando se deseja provocar a emissão desses sons pelos símios, é preciso acessar outra área do cérebro, denominada giro cingulado. A estimulação elétrica dessa área desencadeia nos seres humanos sons emocionais como choro ou riso, mas jamais elementos da fala. Em contrapartida, regiões pré-motoras dos seres humanos fazem com que eles pronunciem sílabas e palavras, mas não desencadeiam nenhum som nos outros primatas. Assim, o córtex cerebral é em princípio dispensável para a vocalização inata dos primatas. O repertório sonoro específico, bem como a capacidade de vocalização, permanece inalterado quando essas áreas do córtex são lesadas. Exatamente o contrário ocorre no caso da fala humana: pacientes com lesões bilaterais do córtex motor não conseguem mais falar nem cantar.

Os símios dispõem apenas de sons inatos, cuja origem neuronal ainda é desconhecida. Foram identificadas, porém, várias regiões cerebrais que, ao serem eletricamente estimuladas, desencadeiam esses sons. Uma porta para o repertório completo está no mesencéfalo (ou cérebro médio). Vale lembrar que a maioria das vocalizações específicas podem ser desencadeadas a partir do giro cingulado, que se localiza bem no interior do córtex, próximo à região em que os dois hemisférios cerebrais se encontram.

Ainda sabemos pouco sobre o papel do giro cingulado na emissão de sons pelos seres humanos. Ele certamente participa da produção de sons com carga emocional, mas é irrelevante para os elementos sonoros da linguagem. Em consequência, os velhos centros vocais dos primatas não são – e nunca foram – um modelo para nossa fala. As regiões motoras e pré-motoras do córtex são muito mais importantes, porque fornecem os programas para ações e controlam a musculatura da face e de todo o aparelho de articulação fonética. Impulsos para a fala originam-se ainda de outro lugar, um extenso campo do córtex situado acima da área de Broca – o verdadeiro centro da fala. Esse campo, a área motora suplementar (AM5), já assume uma posição importante na motricidade voluntária dos animais, e é frequentemente incluído no córtex pré-motor. Dessa área sai uma grande parte dos filamentos da via piramidal, incluindo aqueles que se estendem até a face. AAMS é importante para a produção de programas de comportamentos intencionais padronizados e, portanto, para a preparação e execução de ações.

Quando esse campo do córtex é estimulado eletricamente nos seres humanos, o paciente enuncia sílabas ou elementos linguísticos individuais. A AMS, no entanto, não é o centro da linguagem nos seres humanos. É a combinação entre a AM5 e a área de Broca que gera palavras e frases, unindo assim os elementos em um todo.

A AM5 parece ser importante para a fala espontânea. Quando essa área é destruída, o paciente ainda consegue responder a perguntas, mas não é mais capaz de falar espontaneamente – é como se lhe faltasse o impulso para falar. Tanto nos símios como no homem, esse campo dá início aos movimentos manuais adquiridos, e isso nos ajuda a entender melhor a função da AM5. Ela pode ter, no homem, uma função dupla: buscar na memória os padrões aprendidos dos movimentos dos dedos, e também dos movimentos do aparelho fonador. Mas ainda não está claro o modo como as duas áreas, a AM5 e a área de Broca, trabalham em conjunto, e quais as funções de cada uma.

 

PENSAMENTO E MOVIMENTO

O fato de que essas duas áreas desempenhem no homem um duplo papel – controle dos movimentos manuais e do aparelho fonador – faz alguns pesquisadores acreditarem que a linguagem se desenvolveu a partir da crescente habilidade manual dos primatas. Os símios aparentemente possuem na F5 (precursora da área de Broca humana) algo ritmos neuronais que concatenam movimentos individuais, embora as sequências resultantes continuem sendo curtas. Evidentemente, falta aos símios a capacidade de articular movimentos complexos em longas cadeias de ações, e recordarem-se delas.

Essa capacidade é indispensável não apenas para tocar piano, mas para concatenar sílabas em palavras, e palavras em frases. Apenas o homem dispõe de redes neurais locais que possibilitam essas concatenações em princípio infinitas de movimentos sequenciais. Do ponto de vista de sua história evolutiva, de fato a fala parece estar estreitamente ligada a nossas habilidades manuais. As maiores realizações na arte e na ciência não existiriam sem essas habilidades; nada saberíamos da riqueza intelectual de Sigmund Freud, Charles Darwin ou das criações musicais de Igor Stravinsky se estes não tivessem expressado ou escrito suas ideias, em palavras ou notação musical. Ao ler ou ouvir os pensamentos científicos ou musicais de outras pessoas, podemos chegar a pensá-los nós mesmos.

Os centros da linguagem no cérebro humano, principalmente a área de Broca, permitem juntar ações elementares da musculatura que comanda a articulação vocal de forma muito rápida e precisa, formando cadeias tão longas quanto se queira. Dispomos, para esse fim, de algoritmos neuronais que concatenam os comandos motores individuais formando séries arbitrariamente longas e sempre diferentes. Esses encadeamentos podem seguir regras aprendidas, como uma gramática ou o dedilhado de uma peça para piano.

Ainda não sabemos, porém, qual é a origem das estruturas gramaticais que ordenam as palavras em frases sintaticamente bem construídas. A pesquisa biológica encontra aí seus limites. A geração de sequências gramaticais de sons capazes de veicular sentidos exige competências de tipo fonológico e sintático, como as descritas por Noam Chomsky. Essas competências devem ter se desenvolvido em conjunto com as capacidades motoras, mas ainda não é possível, hoje, responder como isso se deu. Nossos pensamentos motores muitas vezes não são sequer executados, mas experimentados em silêncio. Nossa capacidade de pensar desenvolveu-se a partir de nossa espetacular inteligência motora, como se a moldássemos com as mãos e a expressássemos em palavras.