A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

“NÃO FOI BEM ASSIM”

Vivemos numa sociedade que não nos ensina a aceitar – e menos ainda acolher –  nossos equívocos. Pelo contrário, o mais frequente é que desde crianças as pessoas desenvolvam caminhos mentais para justificá-los e fugir da responsabilização.

Não foi bem assim

Praticamente todas as tradições religiosas incluem um ritual para penitência e purificação, como a confissão no catolicismo e o Yom Kippur no judaísmo. Programas de 12 etapas aconselham seus participantes a admitir  “a Deus, a nós mesmos e a outro ser humano a natureza exata de nossos erros”. Até mesmo o sistema de justiça criminal, com todas as suas falhas, tem algumas raízes numa valorização do arrependimento e da transformação. Em contrapartida, se você cometer um erro (ainda que pequeno e até perceber, no fim de uma discussão, que está enganado): ou um grande, como se dar conta, na metade da vida, que estava enganado a respeito de suas crenças políticas, ou das ideias que cultivava sobre si mesmo, sobre a pessoa amada ou seu trabalho, não encontrará recursos óbvios, prontamente disponíveis para ajudá-lo a lidar com essa situação.

E como poderia? Nossa cultura sequer dominou a habilidade básica de dizer “eu estava errado”. Aliás, uma deficiência espantosa, considerando-se a simplicidade da frase, a onipresença do erro e o tremendo serviço público que reconhecê-lo poderia propiciar.

Em vez disso, o que dominamos são duas alternativas para admitir nossos erros, que servem para destacar como somos péssimos em fazê-lo. A primeira engloba um pequeno, porém estratégico, adendo: “Eu estava errado, mas…” – uma lacuna que preenchemos com justificativas de por que, no fim das contas, não estávamos tão errados assim. A segunda (usada de maneira infame com frequência por políticos envolvidos em escândalos) é ainda mais reveladora, quando se diz: “Erros foram cometidos”. Como essa locução perene demonstra de maneira tão concisa, tudo o que realmente sabemos fazer com nossos erros é não reconhecê-los como nossos.

Em contraste. nos superamos em reconhecer as falhas alheias. Na verdade, se é doce estar certo, então – não vamos negar – é delicioso apontar que outra pessoa está errada. Veja, por exemplo, a dificuldade de reprimir a vontade de falar “Eu te disse…”. O brilhantismo dessa frase (ou seu caráter odioso) deriva do desejo de deixar claro que não só eu estava certo, mas também estava certo quanto a estar certo.

É claro que nos vangloriarmos de nosso próprio brilhantismo e ficarmos exultantes diante dos erros dos outros não é muito simpático, embora certamente seja bastante humano. É nesse ponto que nosso relacionamento com o erro começa a mostrar o que está em jogo. Em todo tipo de discórdia – desde a discussão por causa da última fatia de bolo até o conflito no Oriente Médio – há forte certeza a respeito da própria opinião. Obviamente o apetite por estarmos certos dificulta os relacionamentos – entre conhecidos, colegas, amigos, parentes, cônjuges e nações. Essa dificuldade de lidar com o erro também se reflete de modo precário em nosso entendimento sobre probabilidades.

A história desse campo está recheada de teorias descartadas, estando algumas delas entre os erros mais dramáticos da humanidade: a crença na Terra plana, a teoria do Universo geocêntrico, a constante cosmológica, a fusão a frio. A ciência progride com a percepção e a correção desses equívocos, mas, ao longo do tempo, as próprias correções se mostram, com frequência, erradas também. Como consequência, alguns filósofos chegaram a uma conclusão que é conhecida como a meta indução pessimista da história da ciência. O ponto principal é: pelo fato de até mesmo as teorias científicas aparentemente irrefutáveis de tempos passados terem depois se mostrado equivocadas, temos de presumir que as hipóteses de hoje também se revelarão erradas algum dia.

E isso se aplica, de modo geral, a quase tudo – política, economia, tecnologia, direito, religião, medicina, criação dos filhos, educação… As verdades de uma geração se tornam com tanta frequência as inverdades da geração seguinte que poderíamos ter uma meta indução pessimista da história de todas as coisas. O que é verdade sobre buscas coletivas também é verdade sobre a vida individual. Todos nós superamos muitas de nossas crenças, adotamos teorias num momento e descobrimos que devemos abandoná-las no momento seguinte. Os sentidos enganosos, o intelecto limitado, as lembranças falhas, o véu das emoções, a pressão dos compromissos e a complexidade do mundo conspiram para assegurar que erraremos repetidamente.

Fato é que podemos estar enganados sobre quase tudo: a integridade do gerente de nossa conta bancária, a identidade do suspeito de assassinato ou o nome de um jogador de futebol em determinado campeonato: sobre a estrutura da molécula de hidrogênio, o lugar onde deixamos as chaves do carro ou a localização de um depósito de armas nucleares. E essas são apenas coisas objetivas. Existem aquelas sobre as quais nunca será possível provar que temos razão, mas tendemos a acreditar que as pessoas que discordam de nós estão erradas: o que acontece após a morte, a ética do aborto, se foi você ou seu namorado quem deixou o laptop perto da janela antes da tempestade.

Por mais arbitrária que seja essa lista, ela levanta algumas questões. A primeira diz respeito ao que nossos erros colocam em jogo. A diferença entre estar enganado a respeito das chaves do carro e das armas de destruição em massa é a diferença entre um “Oh, puxa!” e uma crise militar global – consequências tão drasticamente díspares que poderíamos nos perguntar se os equívocos que levaram até elas teriam algo em comum.

Segundo ponto: podemos estar errados, em qualquer sentido, sobre crenças pessoais. Afinal há um longo caminho desde o jogador de futebol até a condição moral do aborto. Talvez algumas discussões sejam mesmo intransponíveis. E nunca possamos ter absoluta certeza de algumas verdades e, portanto, não tenhamos condição de descrevê-las legitimamente como certas ou erradas. Em suma, tentar formular uma teoria unificada de nossas ideias sobre o erro não é tarefa fácil .Tampouco o é a abordagem oposta, a de dividir o erro em categorias.

Ainda assim, ambas as táticas já foram tentadas. A primeira é um projeto da filosofia ocidental que tem tentado definir a natureza essencial do erro. Durante pelo menos os primeiros 2 mil anos de sua existência, a filosofia entendeu a si mesma como a busca do conhecimento e da verdade -função que forçava seus praticantes a ser quase igualmente obcecados em relação ao erro e à falsidade. (Não se pode definir erro, observa Sócrates, sem também definir conhecimento: qualquer hipótese sobre um se apoia inteiramente na teoria sobre o outro.) Conforme a filosofia se diversificou e formalizou suas áreas de investigação – ética, metafísica, lógica etc. -, o ramo que diz respeito ao estudo do conhecimento tornou-se conhecido como epistemologia. Especialistas discordaram entre si sobre muitos aspectos do erro, mas de Platão em diante passaram a partilhar uma espécie de consenso sobre como defini-lo: estar errado é acreditar que algo é verdadeiro quando é falso – ou, de modo inverso, acreditar que é falso quando é verdadeiro.

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UM ALENTO QUÍMICO

Os EUA aprovam uma droga inalável contra a depressão. É forte, cara e rápida – e representa a maior novidade médica desde os primeiros antidepressivos, nos anos 50.

Um alento químico

A FDA, o órgão americano que regula os medicamentos, concedeu na terça-feira 5 o aval para um novo remédio que pode vir a representar o maior avanço da ciência contra a depressão em meio século.

A droga, com o nome comercial de Spravato, é indicada para os casos mais severos, refratários a medicações convencionais ou associados ao risco de suicídio. Entre 30% e 40¾ dos pacientes se encaixam nessas características, de acordo com estudos populacionais. A nova droga – forte, cara e rápida – é um alento químico para eles.

Desenvolvido pela Johnson & Johnson, o antidepressivo tem como base a cetamina, uma substância anestésica usada em larga escala nos anos 1960 para atender soldados americanos feridos durante a Guerra do Vietnã. Centenas de clínicas e universidades ao redor do mundo já vinham se adiantando e, antes da aprovação formal, estavam utilizando a substância, majoritariamente, na versão injetável. Os médicos apostam, porém, que a forma agora aprovada pelos americanos, a inalada, pode ajudar na adesão ao tratamento, dada a facilidade de administração.

O Spravato tem ação no cérebro mais rápida que a de qualquer outra medicação no mercado, o que é um fator fundamental para pacientes com intenções suicidas. A droga começa a fazer efeito em poucas horas. Em geral, os antidepressivos atuais mostram seus primeiros resultados depois de cerca de um mês de consumo continuado.

A impressionante velocidade de ação do Spravato é explicada por um mecanismo inédito e certeiro. Desde os medicamentos pioneiros, descobertos na década de 50, os remédios contra a depressão agem sobre a mesma classe de neurotransmissores, as monoaminas, responsáveis pela regulação do comportamento, da emoção e do humor. A serotonina, a dopamina e a noradrenalina estão nesse grupo. O princípio ativo do Spravato, ao contrário, age sobre outro neurotransmissor, o glutamato, um aminoácido. “A cetamina é resultado de décadas de evolução”, diz o psiquiatra Ivan Barenboim, um dos principais estudiosos da substância no Brasil. Responsável pela ação excitatória do cérebro, o glutamato, quando em excesso, é altamente tóxico, dificultando e até interrompendo as sinapses, como são chamadas as conexões entre um neurônio e outro – base do funcionamento do cérebro.

Os estudos clínicos da nova droga mostraram que o índice de recaídas dos pacientes que usaram o spray foi 51% menor em comparação com o grupo que tomou um placebo. Depois de um mês de tratamento, cerca de 70% dos pacientes apresentaram melhora – contra 50% no grupo placebo. Ainda assim, a FDA agiu com cautela na aprovação do medicamento por duas razões: o risco de dependência e um efeito colateral conhecido como “sensação dissociativa”, quando a pessoa tem a impressão de estar fora do próprio, corpo. Afinal, a cetamina é derivada de um anestésico e pode ter efeitos alucinógenos. Ao aprovar o novo remédio, a FDA determinou que seu uso seja extremamente controlado: só pode ser aplicado em clínicas credenciadas e sempre com o acompanhamento de um profissional de saúde. Além disso, ao menos por enquanto, não deve ser administrado isoladamente, e sim em conjunto com outro antidepressivo.

A depressão é a mais comum das doenças psiquiátricas. Cerca de 20% da população mundial – o equivalente a 1,4 bilhão de pessoas, das quais 40 milhões no Brasil – terá algum episódio depressivo ao longo da vida. A doença representa um desafio enorme para a medicina, já que envolve, até onde se sabe, uma predisposição genética associada a fatores comportamentais e ambientais – ou seja, trata-se de um verdadeiro quebra-cabeça biológico, social e cultural, razão pela qual nem todo medicamento funciona para todos os pacientes. A cetamina veio para ajudar aqueles que ainda não encontraram um alivio.

Um alento químico. 2

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A MULHER DO SÉCULO XXI 

A questão de gênero sempre desperta polêmicas. As mulheres mudaram e ganharam cada vez mais espaço. Mas como ficou afinal a sua identidade?

A mulher do século XXI

Em tempos globalizados, conquista feminina chega a ser quase comum… Só que não! Também em termos globais existem a violência, a discriminação e uma disputa desleal que atrela à mulher expectativas de épocas passadas, ainda somadas aos novos desafios, ou seja, uma missão impossível quando se trata de corresponder a tudo! Com a rapidez das transformações, algumas comparações se fazem até dentro de casa, porque as gerações sofreram um abismo no aspecto comportamental. A mulher deve ser independente e ativa e se manter distante dos grupos masculinos dominantes? Não faz sentido! Entretanto, alguns chegam a comentar, quando uma jovem bonita é molestada, que a culpa é dela, por ser uma pessoa tão atraente que ousou se mostrar! Parece absurdo? Mas é real! No entanto, a mulher do século XXI vem vencendo também esses disparates e elas surgem em reportagens recorrentes nos noticiários porque não se retraem diante de um possível constrangimento de julgamento social e assumem desafios à altura de seus sonhos.

O mundo feminino passa por enorme transformação! Nos últimos 30 anos, as mulheres galgaram mais liberdade do que ao longo de toda a história. A elevação do seu nível educacional e a redução do tamanho da família (coincidentes com as necessidades econômicas de contribuir para o orçamento familiar) fizeram da mulher um elemento fundamental na sociedade e não simplesmente no lar. A inserção da mulher no mercado de trabalho a torna bem-sucedida e   assustadora. A forte entrada das mulheres nas universidades produziu um impacto em carreiras prestigiadas, que eram predominantemente dos homens. Hoje, a mulher ocupa posições cada vez mais elevadas em empresas e se insere nas carreiras técnicas e científicas. Na política, ela pode participar dos quadros de candidatos, sendo exigido, no Brasil, como mais uma conquista, uma proporção feminina significativa. Votar já não é uma vitória, a mulher é elegível, ganhando status de reconhecimento por seus méritos.

Essa posição feminina em diversos aspectos gera um grande impacto nas relações sociais, pois implica numa mudança de “paradigma” familiar e cultural. Não menos grave é a discriminação de gênero, que persiste, tanto em relação a diferenciais de salário quanto a postos de trabalho. Apesar das reestruturações no mundo do trabalho com relação às mulheres, ainda encontramos segregação por gênero.

Dessa forma, a proposta, nesse momento, é discutir a mulher do século XXI. E surge a questão: houve mesmo uma evolução da mulher? Ou houve uma perda de identidade que a deixa em situação frágil em qualquer perspectiva, já que nas relações familiares, nos cuidados com o lar e com os filhos ela continua a ser exigida e, por que não dizer, definida como culpada por todos os imprevistos, estando ou não presente.

A partir do século XVIII e, especialmente, do século XIX, o discurso sobre sexo, antes restrito à Igreja, dispersa-se por diferentes áreas do conhecimento. Além da Medicina, outras áreas, como a demografia e a política, passam a se preocupar com o sexo, construindo novos conceitos e imagens sobre a mulher, que são estendidos ao gênero feminino como um todo. Se no passado o valor feminino voltava-se à procriação e o casamento era o seu melhor futuro, especialmente se ela fosse capaz de dar um herdeiro masculino ao mundo, esse destino foi se tornando menos essencial. No casamento atual sequer é preciso alterar o nome da mulher e o homem já não detém os poderes de chefia do lar, sem contar a tendência à tolerância de que o sexo seja uma escolha e que é um fato encontrar muitos lares sendo providos por mulheres. Será mesmo uma mudança de valores contemporâneos?

Entender o mundo feminino atual justifica-se, não só por seu papel incontestável na sociedade, mas porque as mudanças provocadas nas últimas décadas trouxeram, paralelamente aos avanços, graves sequelas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a ansiedade atinge mais de 10 milhões de pessoas no mundo e é mais comum entre as mulheres. Elas (ou nós) têm uma fisiologia diferente da dos homens e em conjunto com os hormônios são afetadas pelo estresse de outro modo. Nas situações estressantes é liberado o cortisol e as mulheres são mais sensíveis a este glicocorticoide, por isso a sintomatologia é mais ampla. Quando a situação de estresse é intensa e persistente, a mulher pode ser afetada por doenças como anorexia ou bulimia ou sofrer depressão ou síndrome do pânico. Assim, a importância de discutir as conquistas e riscos da mulher atual pode ser uma forma de contribuir com a sua qualidade de vida na sociedade.

As transformações e as desarticulações da vida social no contexto atual deslocam radicalmente as identidades sociais. A identidade da mulher é dominada pela incompletude, multiforme e inconstante. A nova identidade da mulher se descobre num tempo instável, com crise de valores e de direção sobre ser, fazer e pensar numa vida plenamente realizada. O novo contexto criado pela pós-modernidade coloca a mulher diante de uma multiplicidade de oportunidades e, também, de análise, do autoconhecimento de seu corpo, sentimentos e escolhas nas relações com o outro.

É pertinente lembrar, com Simone de Beauvoir, que “não se nasce mulher”. A mulher é feita, é uma espécie de mundo em construção e mudança. A sua identidade reflete o cenário da sociedade contemporânea com qualidades, erros e fragilidades.

 

LUIZA ELENA L. RIBEIRO DO VALLE – é psicóloga, doutora em Ciência no Departamento de Psicologia Social (USP/SP). Mestre em Psicologia Escolar e Educacional (PUC- Campinas), MBA Executivo em Psicologia Organizacional (AVM-Brasília), extensão em Gestão de Pessoas (FGV). Formação em Coaching (Lambent), especialização em Psicologia Clínica (CFP) na linha Cognitivo -Comportamental, consultora em Psicopedagogia, autora de livros.

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NÃO PERCA TEMPO: VÁ DORMIR!

Maus hábitos de esfera social, como o ritmo de vida mais dinâmico, a globalização, o avanço da tecnologia e da comunicação virtual, geram distúrbios do sono que afetam populações inteiras.

Não perca tempo. Vá dormir!

Depois de um dia inteiro de atividades, finalmente chega a hora do sono! Ou chegaria, porque as atividades não terminam e as horas marcadas nos ponteiros do relógio não correspondem à realidade dos compromissos intermináveis. Afinal, para que serve nossa capacidade de planejamento se não for para pensar no que ainda falta fazer, antes mesmo do momento possível de realizar a tarefa?

Mesmo durante o início do sono, permanecemos em estado de alerta. O período de descanso é complementado quando entramos no chamado sono REM (sono profundo caracterizado pelo movimento rápido dos olhos – rapid eyes movement.

É durante esse período que as proteínas são sintetizadas com o objetivo de manter ou expandir as redes neuronais ligadas à memória e ao aprendizado. É do cérebro o comando na produção e liberação de hormônios, que interferem tanto no bem-estar físico como no bem-estar psicológico, responsáveis por um sono tranquilo. Esse ritmo é orientado por relógios biológicos internos, estímulos ambientais e uma ampla gama de processos que promovem ou inibem o despertar. As alterações no padrão do sono influenciam habilidades cognitivas como atenção, memória, eficiência na associação dos conceitos, além de aspectos ligados ao humor, ao desempenho, ao comportamento e à motricidade.

Quando estamos no estágio REM do sono, o cérebro é altamente ativo (sono paradoxal). É quando ocorrem encontros de elementos relevantes na história do indivíduo, que consolidam as experiências e favorecem a significação dos símbolos.

Foi a partir do século XIX e início do XX, com a publicação do livro Interpretação dos Sonhos (1899), do neurologista austríaco Freud (1856-1939), que inicia-se a Psicanálise e o moderno pensamento sobre sonhos. Para Freud, os sonhos são o resultado complexo da atividade psíquica, com a função de satisfazer desejos inconscientes e elaborar conflitos reprimidos (principalmente de natureza sexual). Como desdobramento dos estudos, Carl Gustav Jung (1875-1961), psiquiatra suíço, concluiu que os sonhos trazem à tona a natureza ancestral profunda do homem, na forma de símbolos universais (os arquétipos), como mensagens que podem ser decifradas e integradas à nossa consciência. Da escola russa, Luria (1902-1977) apontou a existência de três unidades funcionais no cérebro, desempenhando seu papel sobre a regulação dos estados de consciência: atenção, vigília e sono.

A comunicação e a tecnologia tornam o ritmo de vida mais dinâmico e globalizado, trazendo novas expectativas e exigências que alteram os padrões de vida social. E isso se reflete também nos hábitos de sono da população. Como, por exemplo, corrobora para o crescimento dos distúrbios do sono. Eles incluem desordens respiratórias relacionadas ao sono, como a síndrome da apneia, hipopneia obstrutiva do sono (SAHOS). Estudos recentes sugerem que 40% dos indivíduos com hipertensão arterial sistêmica apresentam a síndrome, frequentemente sub diagnosticada. O não reconhecimento da SAHOS é preocupante devido ao risco de morte súbita nestes pacientes. É preciso destacar que em muitos pacientes que apresentam a SAHOS quem alerta para o problema é o(a) parceiro(a) de cama, pelo barulho (dos roncos) ou movimentos bruscos.

A insônia é a dificuldade em iniciar ou manter o sono. Ela pode resultar de doenças orgânicas ou  associadas a problemas emocionais: o ânimo se esvai, com afastamento das pessoas. Cerca de um terço dos adultos relatam sintomas de insônia, sendo prevalente no sexo feminino. A hipersonolência, ao contrário, é um excesso de sono com um declínio na habilidade motora, déficit de memória ou desorientação no tempo e no espaço.

A parassônia consiste de um grupo de distúrbios do sono caracterizado pela ocorrência de eventos motores ou comportamentais. Estão incluídos os distúrbios do despertar, como o sonambulismo, terror noturno e o despertar confusional; ou distúrbios de movimentos repetitivos e câimbras noturnas nas pernas; há também aqueles associados ao sono REM, como pesadelos, paralisia do sono; outras parassônias são bruxismo e enurese noturna.

O sono de má qualidade pode impactar negativamente na vida de uma pessoa. O curioso é quando se percebe que o fenômeno atinge uma população específica. Em pesquisa sobre a presença de sintomas de estresse e a qualidade do sono de professores da rede pública de Poços de Caldas, com uma população de 165 professores, os dados revelaram que 59% dos professores apresentaram estresse, na fase de resistência (39%), com prevalência do estresse psicológico. Além disso, indicaram que 46,7% dos professores eram maus dormidores, evidenciando associação entre os sintomas físicos e psicológicos de estresse e o sono.

Alguns cuidados são sugeridos para pessoas que sofrem com os distúrbios do sono, causados principalmente pela vida moderna associada ao avanço da tecnologia e ao aumento do estresse. A comunidade científica chama de higiene do sono, orientações que consistem em cuidar de questões que interferem na qualidade do sono como luminosidade, temperatura, evitar  barulhos, criar um ambiente confortável e agradável, ingerir alimentação leve no jantar, evitar café, álcool  e  estimulantes antes de dormir, assim como as atividades físicas, que são importantes, mas devem ocorrer ao longo do dia. TV, computadores e celulares não devem ser utilizados no horário de dormir. Assuntos estressantes devem ficar fora do quarto. Persistindo o problema, procure ajuda especializada. O bom sono é essencial! E bons sonhos fazem muito bem.

 

LUIZA ELENA L. RIBEIRO DO VALLE – é psicóloga, doutora em Ciência no Departamento de Psicologia Social (USP/SP). Mestre em Psicologia Escolar e Educacional (PUC-Campinas). MBA Executivo em Psicologia Organizacional (AVM-Brasília), extensão em Gestão de Pessoas (FGV). Formação em Coaching (Lambent), especialização em Psicologia Clínica (CFP) na linha Cognitivo-Comportamental, consultora em Psicopedagogia, autora de livros.

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SUPERAÇÃO DE TRAGÉDIAS

É preciso aceitar o vazio em torno do processo de luto, e, por isso, a inteligência emocional é um fator determinante para que a pessoa encontre força para passar pela perda e recomeçar.

Superação de tragédias

Embora a morte seja a única certeza da humanidade, lidar com ela é um grande desafio. Nossa relutância em falar sobre a morte é frequentemente interpretada como uma evidência de que estamos com medo, e, por isso, reprimimos os pensamentos sobre ela: aprendemos a negá-la e nos sentimos aterrorizados. Isso se deve ao fato de a ligarmos diretamente com a perda;

Alguns estudos recentes apontaram que nós nos sentimos mais preocupados com a possibilidade de perdermos um ente querido do que com nossa própria morte. Em geral, o processo do falecimento, a ausência, a dor e a solidão causam uma angústia maior do que o fim da vida em si.

Por isso, diante de uma perda significativa, desenrola-se um processo necessário e fundamental para que o vazio deixado, com o tempo, possa voltar a ser preenchido. Esse processo é denominado de luto e consiste numa adaptação à perda e à ausência.

O luto vem do latim lucto, e tem como sua definição o conjunto de reações diante de uma perda significativa. Ademais, em uma visão mais analítica, o luto nada mais é do que a perda de um elo significativo entre uma pessoa e a fonte desse sentimento. Portanto, é um fenômeno natural e constante durante todo o desenvolvimento humano.

A ideia de luto não se limita apenas à morte, mas ao enfrentamento das sucessivas perdas reais e simbólicas durante o desenvolvimento humano. Desse modo, pode ser vivenciado através de perdas que perpassam pela dimensão física e psíquica, como os elos significativos com aspectos pessoais, profissionais, sociais e familiares do ser humano. O luto está relacionado à dificuldade de lidar com mudanças drásticas, e isso se deve principalmente por conta de um dos maiores conflitos emocionais atuais: a dependência emocional!

O que define a dependência emocional não é o desejo em si, mas sim a incapacidade de renunciar a determinado elo ou vínculo. Quanto sofrimento não é causado pelo fato de não sermos realistas e aceitarmos as coisas como são?

Mesmo sabendo que nada dura para sempre, existe uma grande relutância em assentir que a pessoa partiu. É uma contradição entre a razão e a emoção, já que nossa mente diz para aceitarmos a ausência, mas nosso coração não se permite conformar.

Isso ocorre porque tanto a presença quanto a ausência de uma pessoa querida provocam reações em áreas onde temos pouco controle: existem alguns processos fisiológicos envolvidos e alterações químicas que excedem o que podemos entender e gerenciar. Isso é o que explica a chamada “teoria do processo oponente”.

A teoria do processo oponente foi desenvolvida por Solomon e Corbit em 1974. De acordo com essa tese, nosso cérebro tende sempre a buscar o equilíbrio emocional, e o caminho que escolhe para fazer isso é neutralizando as emoções. Para conseguir isso, ele realiza uma operação recorrente: quando surge uma emoção intensa, que nos tira a estabilidade usual, a resposta é dar lugar à emoção oposta ou a um estímulo emocional corretivo.

Superação de tragédias. 2

FORÇA

O estímulo de resposta é fraco no início, mas aos poucos vai ganhando força. A partir desses princípios é possível explicar, em parte, o que acontece no processo do vício e o que acontece no cérebro após uma perda. A emoção inicial é muito intensa – não tem oposição e, por isso, atinge um nível máximo. É o que acontece, por exemplo, quando nos apaixonamos. No entanto, pouco a pouco, o estímulo oposto aparece, embora no início não seja percebido. Gradualmente, vai ganhando força para neutralizar essa emoção inicial.

No entanto, se ocorre uma ausência, seja porque essa pessoa se afasta ou porque morre, ocorre uma descompensação. O estímulo inicial desaparece e fica apenas o “estímulo corretivo” que, por sua vez, se intensifica. Esse é experimentado de uma maneira muito desagradável: com tristeza, irritabilidade e todas as emoções envolvidas em um luto.

Cada emoção corresponde a um processo fisiológico no corpo e a mudanças químicas no cérebro. A ausência de alguém amado não é apenas um vazio emocional, porque há muita oxitocina, dopamina e serotonina que as pessoas amadas geram. Quando não estão lá, o corpo sofre uma desordem que, em princípio, não pode ser equilibrada. É necessário tempo para que um novo processo oponente ocorra, e que, diante da intensa emoção negativa, surja um “estímulo corretivo” para alcançar novamente o equilíbrio.

Mais do que uma fase, o luto é um sofrimento útil que permite olhar para a frente. A dor da perda não deve impossibilitar a pessoa de continuar a viver e prosseguir com suas experiências. Pode ser muito doloroso – aceitar a situação e aprender a conviver com a ausência e com a saudade, e, nesse sentido, ter maturidade e independência emocional é fundamental para superar a perda de um ente querido e continuar a viver.

O luto decorrente de mortes provocadas por tragédias é intensificado pela forma abrupta e violenta com que ocorreram, e, por isso mesmo, exigem maior atenção. Especialistas alertam que  o processo pode afetar as dimensões física, psíquica, emocional, comportamental, social e  espiritual. Como bem colocado pela psicóloga especialista em luto, Nazaré Jacobucci, “o processo  de luto apresenta diferenças quando a morte é algo que  já se espera, como em casos de doença  crônica grave, ou decorre de uma tragédia, como as que se abateram recentemente sobre o país. Quando temos a possibilidade de nos despedir de alguém que amamos, nos sentimos mais confortados. Mas quando a morte surge de forma abrupta, o estado de choque inicial é desconcertante. Os questionamentos também podem permanecer por um período ainda maior, sendo mais um fator de angústia e podendo levar a distúrbios psicossomáticos.

Superação de tragédias. 3

LUTO COLETIVO

O estado de choque inicial é desconcertante e o impacto emocional causado em todos é enorme. Tragédias com grande número de mortes trazem muito sofrimento às pessoas de forma geral porque existe uma identificação com os familiares das vítimas e, dessa forma, sofrem como se também fossem vítimas. Num luto coletivo todos se emocionam e sentem a dor no coração. É também um momento de reviver as perdas pessoais, extravasar emoções abafadas anteriormente. Nós tomamos emprestado um pouco desse luto para chorar as nossas próprias dores.

Por isso, é extremamente importante falar sobre o luto e enfrentar os fantasmas do ocorrido. É fundamental aprender a conviver com a ausência e a saudade para seguir em frente.

Elisabeth Kluber-Ross, ao estudar como as pessoas lidavam com perdas pessoais catastróficas – desde a morte de um ente querido até um divórcio-, percebeu que existem cinco estágios comuns que a maior parte das pessoas passa, e com base nisso criou o modelo de Huber-Ross, ou, como também ficou conhecido, as cinco fases do luto. A intensidade das etapas varia de acordo com o grau de afetividade entre a pessoa e o ente querido e, principalmente, com o nível de inteligência emocional de cada um. Isso porque as fases não são lineares e, portanto, a pessoa pode voltar a uma fase anterior a qualquer momento. As cinco fases do luto são:

NEGAÇÃO – Esse momento é marcado pela dificuldade em acreditar que o fato realmente aconteceu. A dor é intensa e existe uma grande dificuldade para lidar com a perspectiva de um futuro sem a pessoa. Por isso, é um mecanismo de defesa, consciente ou inconsciente, que nos faz não acreditar que certa situação é realmente verdade.

RAIVA – Ao perceber que o fato realmente aconteceu e não existe nada que possa ser feito a respeito, é comum sentir uma revolta muito grande. Nesse período, a pessoa percebe que não é possível reverter a situação, e a tendência é que a dificuldade em se conformar seja canalizada em raiva. O estágio de raiva pode se manifestar de diversas formas. Uma pessoa lidando com uma decepção emocional pode sentir raiva dela mesma, da pessoa que se foi ou mesmo da vida ou da entidade maior na qual acredita.

NEGOCIAÇÃO – A fase de negociação é quase que um implorar e barganhar para que a tragédia ou mudança não seja tão drástica. É uma tentativa de fugir do acontecimento, de buscar alguma forma de ele ser menos doloroso. Nessa fase a pessoa tenta aliviar a dor e começa a fazer algumas ponderações, imaginando possíveis soluções e fazendo “acordos” internos. Essa negociação acontece dentro da própria pessoa e, muitas vezes, é voltada para questões religiosas.

DEPRESSÃO – O estágio de depressão tende a acontecer quando a pessoa realmente percebe que a tragédia aconteceu, não sendo uma ilusão ou algo negociável, e reage com um “choque” emocional. A forma de reagir depende muito de cada caso, mas é comum sentir tristeza, angústia, medo, até um vazio. É uma etapa dura, mas ao menos simboliza que a pessoa caiu em si e que está começando a aceitar a realidade, mesmo que ainda de forma não saudável. Geralmente é a fase mais longa do processo e é caracterizada por um sofrimento intenso. Além disso, é comum que a pessoa passe por um período de isolamento e apresente uma grande necessidade de introspecção.

ACEITAÇÃO – Durante essa fase a pessoa consegue ter uma visão mais realista e passa a aceitar o fato. O desespero em relação à perda dá lugar a uma maior serenidade, e a pessoa começa a enfrentar a saudade com mais consciência. É só a partir da aceitação que a pessoa consegue ter o impulso para reagir e trazer mudanças positivas para a sua vida.

Entender esses cinco estágios do luto nos ajuda a ter maior consciência do que estamos passando ao enfrentar uma adversidade como essa, nos traz lucidez e força para enfrentar as dificuldades. Saber o que se passa não fará um estágio desaparecer, mas pode ajudar a lidar de uma forma mais natural e menos dolorosa com ele.

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ARMADILHAS

Algumas armadilhas emocionais nos impedem de seguir em frente em um momento de perda. Não se permitir expressar suas dores, por exemplo, por acreditar que é necessário fingir que está tudo bem, é uma bomba-relógio: inevitavelmente, as emoções explodem em outras pessoas ou implodem em doenças.

O sentimento de culpa é outra barreira, já que, ao perder alguém que amamos, automaticamente pensamos nas coisas que deixamos de dizer e fazer a ela. É comum ter a sensação de que falhamos em determinados momentos e que cometemos erros com a pessoa que foi embora. Lembre-se de que as relações humanas não são perfeitas e as falhas sempre estarão presentes.

É preciso saber se perdoar, focando em tudo de bom e positivo que foi feito ou vivido com a pessoa que se foi, para alcançar a superação.

O medo dessa nova realidade pode ser paralisante, mas viver todas as fases do luto é fundamental.

Quando não temos consciência desse processo e não sabemos como lidar com as emoções, podemos nos perder e ficar paralisados em alguma delas. Algumas pessoas direcionam toda sua atenção e energia para a dor, deixando de fazer as coisas que gostam. Com o tempo, a tendência é que elas percam todo o prazer, se tornando depressivas. Quem se sente vítima da perda acaba encontrando justificativas para permanecer na dor, sem se esforçar para dar a volta por cima.

É preciso aprender a viver sem a presença da pessoa e isso exige que sejam feitas algumas adaptações para enfrentar as mudanças. Para se acostumar com a ausência, é importante mudar alguns hábitos ou lugares e enfrentar o medo que essas modificações podem causar. Seguir em frente e continuar vivendo é fundamental para superar a saudade de forma saudável. Mesmo convivendo com a dor, encontre maneiras para ser feliz com distrações, como, por exemplo, convivendo com pessoas queridas, traçando novos planos e indo em busca dos seus sonhos. Com o tempo a intensidade das emoções diminuirá, mas é preciso investir nesse processo dando um novo passo a cada dia.

Cuidar das próprias emoções é muito importante durante o luto, pois permite que a pessoa encontre coragem e força para recomeçar. A inteligência emocional é uma soma de habilidades que tornam as pessoas capazes de administrar as pequenas e grandes adversidades que a vida impõe, de modo a perceber e aceitar suas emoções, direcionando-as para obter melhores resultados e relacionamentos.

O segredo para se tornar uma pessoa emocionalmente inteligente é desenvolver seu autoconhecimento. Ou seja, conhecer a sua história de vida – não a partir do seu aspecto racional e adulto, mas, sim, se permitir aceitar e descobrir o que foi vivido e interpretado pela sua emoção de criança – é o pilar base para adquirir um controle maior em todos os tipos de situações da vida cotidiana, já que todas as nossas emoções e comportamentos são fruto da forma como um dia “interpretamos” as nossas experiências vividas durante nossa gestação e primeira infância.

A inteligência emocional é fundamental na superação de tragédias como as de Brumadinho e Mariana, porque permite que o ser humano pare para olhar para as próprias emoções e estilo de vida, para tomar decisões importantes em relação à maneira como vinha vivendo e usando seu tempo. No decorrer deste artigo, o luto foi caracterizado como um processo não linear e não temporal, que varia de acordo com a fase emocional em que a pessoa se encontra e sua consequente intensidade. Porém, o que determina o andamento desse processo é a capacidade que cada um tem de lidar com suas emoções para enfrentar a dor da ausência. A inteligência emocional promove a resiliência necessária para atravessar essa jornada de dor e aceitação.

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SOFRIMENTO

Viver o luto de forma saudável é sofrer – e seria estranho se não houvesse sofrimento. Só o tempo pode amenizar a dor da perda, mas é importante ressaltar que o luto é um processo individual, e que cada um elabora a dor de maneira diferente. Não existe um tempo exato para vivenciar cada uma das fases, e elas variam de acordo com cada pessoa e seu nível de inteligência emocional. Compreender isso é importante para que a dor de uma pessoa e de outra não seja comparada.

Superação de tragédias. 6

OS EFEITOS DA PERDA

Em termos cerebrais, a ausência de um ente querido tem efeitos semelhantes aos da síndrome de abstinência, experimentados por aqueles que são viciados em alguma substância. Em ambos os casos, há um estímulo inicial e um “estímulo corretivo”. No caso das emoções, o estímulo inicial é  o próprio afeto: há apego, necessidade dessa pessoa e alegria ao vê-la. Nos casais, especialmente,  esse estímulo emocional inicial é muito intenso. Ao mesmo tempo, aparece o estimulo oposto. É por isso que ao longo do tempo a intensidade do começo dá lugar a uma certa “neutralidade” nas emoções.

Superação de tragédias. 7

CÉREBRO EMOCIONAL É MAIS RÁPIDO QUE O RACIONAL

Racionalmente, ninguém escolheria ser ansioso, depressivo, explosivo, machucar alguém que ama ou não saber lidar com as próprias emoções para superar um momento difícil como a perda de um ente querido –  mas a maioria das pessoas faz isso constantemente. Se essas reações não são escolhidas, por que as pessoas não têm controle sobre elas? De modo geral, isso acontece porque  o cérebro emocional é muito mais rápido que o cérebro racional. Enquanto as emoções levam o ser humano à ação, sua razão continua apenas pensando e analisando.

 

RODRIGO FONSECA – é doutorando em Neuromarketing pela Flórida Christian University. comunicador social graduado pela USP e presidente da Sociedade Brasileira de Inteligência Emocional. É autor dos livros Emoções a Inteligência Emocional na Prática, 27 Chaves para a Realização Pessoal e Inteligência Emocional para Pais. além de idealizador da primeira formação de inteligência emocional do Brasil e da Sbie Academy.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EQUILÍBRIO EMOCIONAL É INTELIGÊNCIA

O mundo moderno exige o desenvolvimento das competências socioemocionais, tanto quanto as cognitivas, o que, resultará em uma próxima geração mais segura e afetuosa.

Equilíbtio emocional é inteligência

É urgente desenvolvermos competências socioemocionais tanto quanto cognitivas, promovendo  indivíduos mais felizes e proativos, o que resultará na diminuição dos índices de suicídio, amenizará doenças físicas e psicossomáticas e diminuirá a violência.

O mundo tecnológico avança avassaladoramente. É possível observarmos bebês manipulando telas touch scream de videogames portáteis, smartphones e tablets com uma desenvoltura impressionante.

O acesso ao mundo virtual ocorre desde a mais tenra idade e vivemos um bombardeio de estímulos e informações.

Assim sendo, a escola como o lugar de conhecimento e o(a) professor(a) como transmissor(a) deste não fazem mais nenhum sentido. Entretanto, infelizmente, a realidade é que todas as mudanças na sociedade, na infância, nos ambientes e relações de trabalho estão distantes da instituição escolar.

A educação formal, arraigada em seus paradigmas, vislumbra como solução a quantidade de informações e afazeres infantis. Com isso, é comum uma criança com apenas 4 anos ter uma agenda repleta de compromissos, aulas de línguas estrangeiras, de reforço, de esportes, instrumentos musicais etc. Mal a criança aprende a falar e sua família anseia pela alfabetização (tantas vezes bilingue) e o aprendizado matemático.

Desde muito cedo o aspecto cognitivo é priorizado. Nesse sentido, as crianças crescem competentes intelectualmente e apresentam problemas sérios de fundo emocional. É alarmante o índice de violência, intolerância e bullying nas escolas.

Nosso século é marcado pela tecnologia e por transtornos emocionais.

Assustadoramente, aumentam os índices de problemas psíquicos entre crianças e jovens. Cresce a cada dia o número de jovens que se mutilam. A automutilação atinge adolescentes no Brasil e no mundo. Pesquisas indicam que 20% dos jovens sofrem desse mal. Além disso, em nosso país, as taxas de suicídio cresceram na população em geral, especialmente entre os jovens. O suicídio é, hoje, a quarta causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no Brasil. Entre os homens nesta faixa etária, é o terceiro motivo mais comum; entre as mulheres, o oitavo.

Jovens que são cobrados excessivamente por sua família para completarem seus estudos e buscarem empregos rentáveis que lhes possam garantir uma boa vida. Mas o que é ter uma vida boa? É ter dinheiro ou posição social?

Sem responder a essa questão temos uma outra camada da população que não atende as exigências escolares, não acumula as informações necessárias, não tem acesso aos mesmos compromissos sociais, nem aos mesmos cursos e aulas, vive à margem da intelectualidade. Será que não são inteligentes o suficiente? O que é ser inteligente?

Podemos refletir também sobre aqueles que sem a estrutura financeira necessária persistem, insistem, acreditam em seu potencial e vão além das expectativas, tornam-se bem-sucedidos. O que fez a diferença na vida desses indivíduos? Retornando aos jovens promissores, cujos pais investiram desde cedo em suas carreiras, não são exceções os casos daqueles que mesmo com um currículo invejável são rejeitados em entrevistas de emprego, não sabem trabalhar em equipe, são egocêntricos ou manipuladores, desistem frente aos obstáculos e/ ou não são criativos.

Mais comum ainda é conseguir um bom cargo, conforme o previsto, mas não se manter nele.

Basta um olhar atento e sensível para notar que as emoções influenciam o nosso cotidiano e que não há como fugir. O mesmo olhar que atenta às diferenças, às peculiaridades dos seres humanos. Seres que são avaliados com as mesmas provas, são ensinados com os mesmos livros e atividades, são tantas vezes comparados, inferiorizados, rotulados.

REFLEXÃO

A sociedade da informação precisa parar e refletir. A reflexão requer coragem, esforço próprio que visa o autoconhecimento. Não é possível aceitar como verdade absoluta tudo que se vê. Visão das informações massificadas e engessadas que perpassam gerações nos bancos escolares. Visão das famílias tradicionais e etnocentristas. Visão do que é mais difundido e “curtido” nas redes sociais. Visão daqueles que querem vender à custa da sua falta de reflexão. Como bem deixou de legado o grande mestre Rubem Alves: “Há muitas pessoas de visão perfeita que nada veem. O ato de ver não é coisa natural, precisa ser aprendido’

As velozes transformações tecnológicas e sociais afetaram nossa capacidade de ver e refletir?

Segundo Morin, as concepções de verdade única e de supremacia da razão, pilares da ciência moderna, não se sustentam diante da velocidade das transformações sociais, da pluralidade da produção cultural humana, do reconhecimento da condição histórica do homem.

[…] não é absolutamente um pensamento que elimina a certeza pela incerteza, que elimina a separação pela inseparabilidade, que elimina a lógica para permitir todas as transgressões. A caminhada consiste, ao contrário, em fazer um ir e vir incessante entre as certezas e as incertezas, entre o elementar e o global, entre o separável e o inseparável.

[…] Não se trata de opor um holismo global e vazio ao reducionismo mutilante; trata-se de ligar as partes à totalidade.

É preciso vislumbrarmos o ser humano integral e único para alcançarmos o que propõem Alves e Morin.

O ser que desenvolve seu cérebro a partir de experiências de vida. Experiências essas relacionadas aos seus cinco sentidos, a sua capacidade de interiorizar-se e também de relacionar-se.

O ser que reconhece suas capacidades e sabe quais são seus limites.

O ser que busca ampliar as diversas habilidades, mas identifica aquilo que faz de melhor e sente prazer nisso.

O ser que é resiliente e aprende com os erros, ressignificando- os.

O ser que estende a mão, dá as mãos, pois sabe que não fará nada sozinho, então coopera mais e compete menos.

O ser que teve a oportunidade de brincar na infância.

NAS ESCOLAS

A nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC) incluiu o ensino das competências socioemocionais nas escolas. Mais do que uma exigência documental, é uma necessidade. Todavia, nós, adultos, não temos como ensinar algo sem antes aprendermos. Portanto, para desenvolvermos habilidades socioemocionais nas e crianças e jovens, antes temos que nos permitir desenvolvê-las em nós.

Enquanto adultos, estamos abertos e receptivos para tal?

É fundamental nos conscientizarmos que apenas a razão não supre a formação profissional de um indivíduo, levando em consideração as necessidades humanas que cada um apresenta, sejam elas emocionais ou sociais.

As habilidades socioemocionais são construídas por uma extensa e complexa rede de conhecimentos e comportamentos relacionados ao sucesso ou ao fracasso de um empreendimento. Parhomenko as define, dentro do contexto europeu, como a capacidade de gerenciamento de comportamentos, permitindo que os indivíduos se envolvam e relacionem-se harmoniosamente com outras pessoas dentro de um contexto social. Portanto, os seres humanos desenvolvem mecanismos que lhes permitem lidar com as mais variadas situações impostas pela vida, na superação dos problemas, desde que tenham crenças e habilidades socioemocionais que lhes deem suporte para isso. Perseverança, resiliência, determinação, colaboração, autocontrole, curiosidade, otimismo e confiança independem do nosso intelecto, da nossa cultura e formação.

O desequilíbrio emocional sabota as mentes eruditas através de ansiedade exagerada, atitudes explosivas e/ ou dificuldades no trabalho em equipe e no relacionamento com as diferenças.

É nítida a importância de promovermos alfabetização emocional desde a mais tenra idade. Você se considera alfabetizado emocionalmente?

É fundamental para qualquer ser humano viver em sociedade e estabelecer vínculos saudáveis consigo mesmo e com os outros. Educar emocionalmente implica fortalecer o indivíduo, resgatar valores, o senso de respeito, de solidariedade e responsabilidade. E isso pode proporcionar mudança significativa nas próximas gerações.

A escola é o grande espaço socializador e não se traduz na frieza dos conteúdos disciplinares, mas na junção do cognitivo com o emocional. Aprendemos na interação, pela emoção e não apenas pelo intelecto. Nossos sentimentos norteiam um desenvolvimento efetivo ou não. Se nos sentimos felizes, seguros e confiantes, isso reflete-se positivamente na vida escolar e, futuramente, na vida profissional.

Como mensurar uma aprendizagem socioemocional? É possível avaliar se um indivíduo aprendeu ou desenvolveu habilidades socioemocionais? Quais são as principais habilidades socioemocionais a serem desenvolvidas?

IDENTIFICAÇÃO

Muitas são as discussões acadêmicas em torno da identificação e da mensuração das competências socioemocionais e quais deveriam ser desenvolvidas no espaço escolar. São inúmeras pesquisas delimitando diversas habilidades – a amplitude das características de personalidade humana é enorme! É necessário realizar uma taxonomia que permita recortes e afunilamentos para definir e organizar focos de trabalho pedagógico.

Nesse oceano de possibilidades nem sempre conseguiremos avaliar ou mensurar o aprendizado das competências socioemocionais, mas existem mudanças comportamentais nítidas que vão norte­ ando professores, pais e educadores.

Imaginemos que uma criança apresenta um comportamento agressivo e, com as atividades propostas, aos poucos demonstra mais afabilidade. Imaginemos um jovem desinteressado pela escola que com aulas inspiradoras demonstra maior interesse ao ter chance de expressar sua criatividade.

São infinitas as possibilidades de explorarmos o tema visando mudanças positivas.

O ideal é que se estabeleça uma relação de ensino-aprendizagem na qual todos possam interagir, compartilhar e complementar diferentes ideais e posições, mas respeitando e enriquecendo o diálogo a partir da diversidade de pensa­ mentos, sentimentos, sonhos, esperanças e trajetórias que os caracterizam.

A sala de aula não é e não deve ser um contexto terapêutico. Portanto, desenvolver habilidades emocionais na escola não diz respeito a diagnosticar ou tratar o que quer que seja. Refere-se, outrossim, a resgatar a multiplicidade de aspectos inerentes a qualquer vivência humana.

Não temos como separar razão e emoção. É impossível estudar ou trabalhar e deixar os sentimentos em casa. Então, basta não negarmos as emoções, mas atentarmos ao universo de sensações, emoções, sentimentos, pensamentos, ações presentes enquanto estudamos e/ ou trabalhamos.

Quando identificamos, conhecemos e sabemos lidar com nosso mundo interior, estruturamos o melhor caminho para a realização das atividades que nos propomos realizar.

É importante salientar que defender que o desenvolvimento das habilidades socioemocionais seja promovido no ambiente escolar não implica isentar a família, a sociedade, as políticas públicas. É preciso fortalecer toda a sociedade para que cada elo possa cumprir o seu papel e colaborar com os demais em suas funções.

Gottman propõe cinco passos para aqueles pais que ainda não o são tornem-se preparadores emocionais:

1- Perceber as emoções das crianças e as suas próprias;

2- Reconhecer a emoção como uma oportunidade de intimidade e orientação;

3- Ouvir com empatia e legitimar os sentimentos da criança;

4- Ajudar as crianças a verbalizar as emoções;

5- Impor limites e ajudar a criança a encontrar soluções para seus problemas. Aceitemos, então, o desafio de trabalhar e desenvolver sentimentos, em nós e naqueles com quem convivemos, pois como deixou de legado o grande mestre Rubem Alves: “Aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas porque a gente não esquece. O que a memória ama fica eterno’: Talvez seja esta a chave para o sucesso que tanto almejamos na área de educação e da vida.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

A conexão virtual tem o poder de influenciar governos e definir destinos de nações inteiras em um plano psicológico sem limites para a mediocridade humana.

Inteligência artificial

Quando Alan Turing, personagem central na vitória dos aliados contra os países do eixo, forjou as bases do que viria a ser a computação, pouco se podia imaginar quanto a seus desdobramentos. A computação e, com ela, a internet passaram a fazer parte do cotidiano. Rapidez na comunicação, aplicativos de todos os tipos, supercomputadores, robotização. A evolução da eletrônica, somada a isso, certamente coloca num patamar central a internet. O mundo ficou pequeno. A globalização, tanto demonizada no governo atual, viabilizou-se nos fatores mencionados.

Na ótica de uma coevolução da ciência e cultura vigentes, há uma inquietação: irão as máquinas adquirir consciência e estabelecer dominação sobre a espécie humana?

A teoria da complexidade e do fenômeno emergente postula que a interação de múltiplos agentes pode resultar num produto final que é maior que a simples somatória das partes. A inteligência (consciência) humana poderia assim ser “compreendida” como sendo a emergência de algo que “não estava lá” anteriormente nos neurônios, agentes simples. A conexão e interação seriam os determinantes.

Poderiam a internet e a rede de computadores desenvolver uma forma de autoconsciência e chegar a uma revolução das máquinas? “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”, uma das três leis de Clark!.

O desenvolvimento tecnológico, a automação o fenômeno emergente certamente levam a pensar numa autonomia das máquinas. Paradoxalmente, também mobilizam em nós o animismo e o pensamento mágico, embrionário em todo psiquismo. Daí a questão: a preocupação com a autonomia das máquinas tem um determinante objetivo, factual, ou também subjetivo?

A internet, com sua velocidade e abrangência de comunicação, gerou um fenômeno de massa com poder para influenciar governos e definir destinos de populações. Também é campo fértil para manifestações do que há de mais destrutivo, “sem limites”, num plano psicológico.

A julgar pelo lado negativo da internet, em particular sua virulência, devemos temer na verdade os usuários da rede que revelam-se sem alma, sem identidade, apenas como operadores compulsivos. Os membros da comunidade isolada e solitária daqueles que se perderam pelo caminho e tornaram-se robotizados, máquinas humanas.

 

NICOLAU JOSÉ MALUF JR. – é psicólogo, analista reichiano, doutor em História das Ciências. Técnicas e Epistemologia (HCTE/UFRJ). Contato: nicolaumalufjr@gmail.com