ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 11: 7 – 15

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O Testemunho que Cristo dá de João

Aqui temos o grande elogio que o nosso Senhor Jesus faz a João Batista, não somente para reavivar a honra dele, mas para reavivar o seu trabalho. Alguns dos discípulos ele Cristo poderiam, talvez, aproveitar a pergunta que João enviou para refletir sobre ele, como sendo fraco, hesitante e incoerente consigo mesmo, e para evitar isto Cristo lhe faz este elogio. Note que é nosso dever levar em consideração a reputação dos nossos irmãos e não somente remover, mas também impedir e evitar invejas e maus pensamentos sobre eles. E devemos aproveitar todas as oportunidades, especialmente a descoberta de alguma indecisão ou hesitação, para falar bem daqueles que são dignos de louvor, e para atribuir a eles o fruto das suas mãos. João Batista, quando estava no centro do cenário, e Cristo estava recluso, deu testemunho de Cristo – e agora que Cristo aparecia publicamente e João estava encarcerado, Cristo deu testemunho de João. Observe que aqueles que têm um interesse confirmado em si mesmos devem utilizá-lo e aprimorá-lo para auxiliar o crédito e a reputação de outros, cujo caráter o exige, mas cujo temperamento ou circunstâncias atuais os impedem de fazê-lo. Isto é dar honra a quem a honra é devida. João tinha se humilhado para honrar a Cristo (João 3.20,30; cap. 3.11), tinha se reduzido a nada, para que Cristo pudesse ser Tudo, e agora Cristo o dignifica com este elogio. Note que aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado, e aquele que honra a Cristo, Ele o honrará. Qualquer que o confessar diante dos homens, Ele o confessará diante de Deus Pai; e algumas vezes também diante dos homens, mesmo neste mundo. João havia concluído o seu testemunho, e Cristo o elogia. Cristo reserva honra para os seus servos que fizerem o seu trabalho (João 12.26).

A respeito desse elogio a João, observe:

 I – Que Cristo falou de João com honra, não para que os discípulos de João O ouvissem, mas depois que eles tinham partido, imediatamente após eles terem se retirado (Lucas 7.24). Ele não daria a impressão de estar adulando João, nem os seus elogios seriam transmitidos a ele. Embora devamos estar dispostos a dar a todos o seu devido elogio, para seu incentivo, ainda assim devemos evitar tudo o que possa parecer bajulação, ou que possa correr o risco de inchá-los de orgulho. Existem aqueles que, mesmo estando mortificados para o mundo, em outros aspectos, não conseguem vencer o seu próprio louvor. O orgulho é um estado de espírito corrupto que não devemos alimentar, nem nos outros, nem em nós mesmos.

 II – Que o que Cristo disse a respeito de João tinha a intenção não apenas de elogiá-lo, mas também beneficiar o povo, reavivando a lembrança do ministério de João, que tinha sido acompanhado por muita gente, mas que agora estava (como outras coisas costumavam ser) estranhamente esquecido: eles o fizeram durante algum tempo, e por apenas algum tempo se alegraram com a sua luz (João 5.35). “Que fostes ver no deserto?”. Faça a si mesmo esta pergunta.

1.João pregava no deserto, e para lá as pessoas iam em grandes grupos, para vê-lo, embora fosse um lugar distante e inconveniente. Se os professores são levados a lugares distantes, é melhor procurá-los e segui-los do que ficar sem eles. Mas se valia a pena tanto esforço para ouvir a sua pregação, certamente ela era merecedora de algum cuidado por parte daqueles que a recebiam. Quanto maiores forem as dificuldades que passarmos para poder ouvir a Palavra, mais preocupados estaremos em nos beneficiar dela.

2.Eles iam até ele, para vê-lo; mais para alimentar os seus olhos com a aparência incomum da sua pessoa do que para alimentar a alma com as suas instruções saudáveis; mais levados pela curiosidade do que pela consciência. Observe que muitos dos que procuram a palavra vêm mais para ver e ser vistos do que para aprender e ser ensinados, mais para ter algo de que falar do que para se informar sobre a salvação. Cristo faz a pergunta a eles: “Que fostes ver?” Note que aqueles que procuram a palavra serão chamados para responder quais eram as suas intenções e em que melhoraram. Em breve, lhes será perguntado: “O que você estava fazendo na ocasião daquela orientação? O que levou você até lá? Era costume, ou foi a companhia, ou foi um desejo de honrar a Deus e ser bom? O que você trouxe de lá? Que conhecimento, graça e consolo? O que você foi ver ali?” Observe que quando lemos e ouvimos a palavra, devemos ter o cuidado de manter um objetivo correto naquilo que fazemos.

III – Vejamos qual foi o elogio feito a João. Não sabemos que resposta devemos dar à pergunta de Cristo. Ele disse: “Vou lhes dizer que homem era João Batista”.

1.Ele era um homem firme e decidido, e não uma cana agitada pelo vento; assim são vocês, nos pensamentos que têm sobre ele, mas ele não era assim. Ele não oscilava nos seus princípios, nem era irregular ou inconstante no que dizia; mas era admirável pela sua constância e coerência consigo mesmo. Aqueles que são fracos como as canas serão levados em roda por todo vento de doutrina (Efésios 4.14), mas João tinha espírito forte. Quando o vento do aplauso popular, por um lado, soprava fresco e claro, quando a tempestade do ódio de Herodes, por outro lado, crescia feroz e colérica, João ainda era o mesmo, o mesmo em todas as ocasiões. O testemunho que ele tinha dado a respeito de Cristo não era o testemunho de uma cana, de um homem que tinha um pensamento hoje e outro amanhã, não era um testemunho como um cata-vento, que gira conforme o vento. Não. A sua constância é declarada (João 1.20). Ele confessou, e não negou, mas confessou e mais tarde permaneceu fiel ao que tinha dito (João 3.28). E por isso esta pergunta trazida pelos seus discípulos não devia ser transformada em nenhuma suspeita a respeito da verdade sobre o que ele tinha dito anteriormente. Por isso as pessoas afluíam até ele, por­ que ele não era como uma cana. Observe que não se perde nada a longo prazo nessa caminhada devido a uma resolução inabalável de continuar com o nosso trabalho. Nada pode nos deter: nem a falta de sorrisos e bons tratos, nem o temor à censura dos homens.

2.Ele era um homem que se negava a si próprio, e que se humilhava neste mundo. “Que fostes ver? Um homem ricamente vestido?” Se foi este o caso, vocês não deviam ter ido ao deserto, para vê-lo, mas sim à corte. Vocês foram ver alguém que tinha suas roupas feitas de pêlo de camelo, e um cinto de couro em torno ele seus lombos; a sua aparência e os seus costumes mostravam que ele estava morto para todas as pompas do mundo e para os prazeres dos sentidos. A sua roupa combinava com o deserto em que ele vivia, e a doutrina que ele pregava ali, que era a do arrependimento. Entretanto, não devemos pensar que ele, que era um estranho aos prazeres da corte, fosse levado a mudar o seu pensamento pelos terrores de uma prisão, e a questionar se Jesus seria ou não o Messias! Aqueles que vivem uma vida humilde têm menos probabilidade ele se afastar da sua religião pela perseguição. Ele não era um homem ricamente vestido; certamente existem homens assim, mas eles estão nas casas dos reis. Note que é conveniente que as pessoas, em todas as suas manifestações, sejam coerentes com o seu caráter e com a sua situação. Aqueles que são pregadores não devem desejar ter a aparência de corte­ sãos. Nem devem aqueles, cujo destino os coloca em residências comuns, desejar as roupas ricas que usam os que vivem nas casas dos reis. A prudência nos ensina a ser coerentes. João parecia rude e desagradável, e ainda assim as pessoas corriam até ele. A lembrança do nosso antigo zelo em procurar a palavra de Deus deveria nos motivar no nosso trabalho atual. Que não se possa dizer que nós fizemos e sofremos tantas coisas em vão, que corremos em vão, e que trabalhamos em vão.

1.O maior elogio que Jesus fez a João Batista foi ao seu trabalho e ministério, que o honravam mais que quaisquer qualificações ou dons pessoais poderiam; e, portanto, isto foi ampliado num elogio completo.

(1) Ele era um profeta, sim, e “muito mais do que profeta” (v. 9) – e isto João falou daquele que era o grande Profeta, de quem todos os profetas dão testemunho. João disse sobre si mesmo, que ele não era aquele profeta, aquele grande profeta, o próprio Messias; e agora Cristo (o juiz mais competente) dizia, a respeito de João, que ele era mais do que um profeta. Ele se considerava inferior a Cristo, e Cristo o considerava superior a todos os outros profetas. O precursor ele Cristo não era um rei, mas um profeta, para que não parecesse que o reino do Messias estivesse fundamentado em poderes terrenos; mas o seu precursor imediato era, como tal, um profeta transcendente, mais do que um profeta do Antigo Testamento; todos eles agiam ele maneira honesta e íntegra, mas João os superou a todos; eles viam a época ele Cristo à distância, e a sua visão ainda demorou um grande intervalo ele tempo para se concretizar; mas João viu o dia amanhecer, viu o sol se levantar e contou ao povo sobre o Messias, como alguém que estava entre eles. Eles falavam sobre Cristo, mas João apontou para Ele. Eles diziam: “Uma virgem conceberá”; ele dizia: “Eis o Cordeiro ele Deus!”

2.Ele era aquele de quem havia sido predito que seria o precursor de Cristo (v. 10). “E este de quem está escrito”. Os outros profetas tinham profetizado sobre ele, e, portanto, ele era maior que eles. Malaquias profetizou a respeito de João: “Eis que diante da tua face envio o meu anjo”. Com isto, uma parte da honra de Cristo foi colocada sobre ele, pois os profetas do Antigo Testamento falaram e escreveram sobre ele; e todos os santos têm esta honra, pois seus nomes estão escritos no Livro da Vida do Cordeiro. Houve grande deferência a João sobre todos os profetas, pois ele foi o anunciador de Cristo. Ele foi um mensageiro enviado com uma grande tarefa. Um mensageiro, um entre milhares, que obtém a sua honra daquele para quem ele trabalhava: Ele é o meu mensageiro, enviado por Deus Pai. O trabalho de João Batista era preparar o caminho para Cristo, preparar as pessoas para receber o Salvador, revelar, a elas, o seu pecado, a sua infelicidade e a necessidade que tinham de um Salvador. Isto ele tinha dito sobre si mesmo (João 1.23), e agora Cristo falava a respeito dele. O Senhor pretendia, dessa forma, não apenas honrar o ministério de João, mas reavivar a consideração das pessoas por aquele ministério, que abria caminho par a o Messias. Observe que grande parte da beleza das revelações de Deus está na sua conexão e coerência mútuas, e na relação que têm umas com as outras. O que tornava João superior aos profetas do Antigo Testamento era o fato de que ele veio imediatamente antes de Cristo. Quanto mais próximo alguém está de Cristo, mais verdadeiramente merecedor de honra será.

1.”Entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista” (v. 11). Cristo sabia como valorizar as pessoas de acordo com os graus do seu valor, e Ele dá preferência a João Batista antes de todos os que vieram antes dele, porque todos aqueles tinham nascido de mulheres por geração normal. Entre todos os que Deus tinha chamado para algum serviço na sua obra, João é o mais eminente, mais eminente que o próprio Moisés, pois ele começou a pregar a doutrina da remissão dos pecados àqueles que são verdadeiramente penitentes, e ele teve mais revelações dos céus do que qualquer um deles tinha tido; pois ele viu o céu se abrir e o Espírito Santo descer. Ele também teve grande sucesso no seu ministério; quase a nação inteira veio até ele; ninguém teve um desígnio tão grande ou realizou uma tarefa tão nobre quanto João, nem foi tão bem recebido. Inúmeros tinham nascido de mulheres, mas Cristo prefere João. Observe que a grandeza não deve ser avaliada pelas aparências e pelo esplendor exterior, mas os maiores homens são aqueles que podem ser considerados os maiores santos; e as maiores bênçãos são aqueles que são como era João- grandes diante do Senhor (Lucas 1.15).

Ainda assim, este grande elogio feito a João tem uma surpreendente limitação: “Aquele que é o menor no Reino dos céus é maior do que ele”.

[1]. No reino da glória. João foi um grande homem, e um bom homem. mas ainda estava em um estado humano, sujeito à enfermidade e à imperfeição; portanto, ele estava em uma condição inferior à dos santos glorificados, e à dos espíritos dos justos aperfeiçoados. Observe, em primeiro lugar, que existem graus de glória no céu. Alguns ali são menos que os outros; embora cada vaso esteja cheio da mesma maneira, eles não têm todos o mesmo tamanho e a mesma capacidade. Em segundo lugar, o menor santo no céu, é maior, e sabe mais, e ama mais, e faz mais em louvor a Deus, e recebe mais dele, do que o maior deste mundo. Os santos na terra são ilustres (SaImos 16.3), mas os que estão no céu são muito mais ilustres; os melhores deste mundo são menores do que os anjos (SaImos 8.5), porém os menores no céu são iguais aos anjos – o que deveria fazer com que anelássemos por este estado abençoado, onde os fracos serão como Davi (Zacarias 12.8).

[2] Aqui, o Reino dos céus deve ser compreendido como o reino da graça, a revelação do Evangelho na per feição do seu poder e da sua pureza, e aquele que é menor nele é maior do que João. Alguns interpretam que se trate do próprio Cristo, que era mais jovem que João e, na opinião de alguns, menor que João, e que sempre falou de maneira a se diminuir. “Eu sou verme, e não homem, embora maior que João”. Isto estaria de acordo com o que João Batista disse (João 1.15): “O que vem depois de mim é antes de mim”. Mas isto deve ser compreendido a respeito dos apóstolos e ministros do Novo Testamento, os profetas evangélicos; e a comparação entre eles e João não diz respeito à sua santidade pessoal, mas ao seu trabalho. João pregou a vinda de Cristo, mas eles pregavam que Cristo não apenas veio, mas foi crucificado e glorificado. João veio para o amanhecer do dia do Evangelho, e com isto superou os profetas anteriores, mas ele foi removido antes do meio-dia daquele dia, antes que o véu fosse rasgado, antes da morte e ressurreição de Cristo, e antes do derramamento do Espírito, de modo que o menor dos apóstolos e evangelistas, a quem foram feitas grandes revelações, e tendo sido empregado numa tarefa maior, é maior do que João. João não realizou milagres; os apóstolos realizaram muitos. A base dessa preferência está na proeminência da revelação do Novo Testamento em comparação à do Antigo Testamento. Os ministros do Novo Testamento, portanto, se sobressaem, porque o seu ministério também se sobressai (2 Coríntios 3.6 etc.). João era o maior da sua ordem; ele chegou aos extremos que a revelação sob a qual ele estava permitia; mas – o menor da ordem superior é superior ao primeiro da ordem inferior; um anão, sobre uma montanha, vê mais longe que um gigante no vale. Observe que toda a verdadeira grandeza dos homens se origina, e é motivada, da graciosa manifestação de Cristo a eles. Os melhores homens não são melhores do que Ele se agrada em torná-los. Que razão temos nós para dar graças ao fato de que a nossa sorte esteja lançada nos dias do Reino dos céus, e sob tais vantagens de luz e amor! E quanto maiores forem as vantagens, maior será a prestação de contas, se recebermos a graça de Deus em vão.

(4) O grande elogio a João Batista foi o de que Deus era o dono do seu ministério, e o tornou maravilhosamente bem-sucedido para quebrar o gelo e preparar o povo para o Reino dos céus. Desde os dias da primeira aparição de João Batista até aquele momento (o que não representa muito mais que dois anos), muitas coisas boas foram feitas; a ação de João, diante de Cristo, o centro de tudo, foi igualmente rápida. O Reino dos céus sofre violência, como a violência de um exército atacando repentinamente uma cidade, ou uma multidão invadindo uma casa; os violentos o tomam pela força. Podemos ver o significado disso na passagem paralela (Lucas 16.16). Desde aquela época, o Reino de Deus vem sendo pregado, e todo homem quer entrar nele. O trabalho com as multidões era feito pelo ministério de João, e muitos se tornavam seus discípulos. E são:

[1] Multidões improváveis. Elas lutavam por um lugar no céu, e poderíamos pensar que elas não teriam direito a ele, e dessa forma pareciam ser intrusos e fazer uma entrada tortuosa, como a nossa lei a chama, uma entrada ilegítima e forçada. Quando os filhos do reino são excluídos dele, e muitos vêm a ele do Leste e do Oeste, então ele é vítima de violência. Compare isso com Mateus 21.31,32. Os publicanos e as prostitutas creram em João, que era rejeitado pelos escribas e fariseus, e assim entraram no Reino de Deus antes deles, o tomaram deles enquanto eles brincavam. Observe que não é uma violação das boas maneiras ir ao céu antes daqueles que são melhores do que nós. Esta é uma grande bênção do Evangelho desde os seus primeiros dias, o fato de que ele levou à santidade muitos que eram candidatos absolutamente improváveis.

[2]. Multidões inoportunas. Esta violência sugere uma força, um vigor, um desejo ansioso, e um empenho naqueles que seguiam o ministério de João, caso contrário eles não teriam ido tão longe para procurá-lo. Além disso, mostra o fervor e o zelo que são exigidos de todos aqueles que desejam fazer do céu a sua religião. Observe que os que desejam entrar no Reino dos céus devem se esforçar para consegui-lo; este reino é vítima de uma violência sagrada; o próprio ser deve ser negado, as tendências e a inclinação, a estrutura e o estado de espírito da mente devem ser alterados; há sofrimentos que devem ser suportados, uma força a ser colocada sobre a natureza corrupta; devemos correr, lutar, combater, e sofrer agonias, e tudo isto não será suficiente para obter um prêmio como este e para vencer a oposição de fora e de dentro. Os violentos tomam-no pela força. Aqueles que têm interesse pela grande salvação são levados na direção dela com um desejo forte, e a terão mediante quaisquer condições, e não as acharão difíceis nem se deixarão levar sem uma bênção (Genesis 32.26). Aqueles que quiserem assegurar o seu chamado e eleição deverão ser diligentes. O Reino dos céus nunca teve a intenção de tolerar a tranquilidade dos levianos, mas de ser o descanso daqueles que trabalham. É uma visão abençoada. Oh! Se pudéssemos enxergar mais, não uma disputa irada lançando os outros para fora do Reino dos céus, mas uma disputa sagrada, na qual todos são lançados para dentro dele!

(5) O ministério de João foi o início do Evangelho, conforme está registrado em Marcos 1.1 e Atos 1.22. Isto é evidenciado aqui em dois aspectos:

[1] Em João, a dispensação do Antigo Testamento começou a fenecer (v. 13). Até então, aquele ministério continuava em plena força e virtude, mas a partir de então começou a declinar. Embora a obrigação à lei de Moisés não tenha sido removida até a morte de Cristo, ainda assim as revelações do Antigo Testamento começaram a ser superadas pela manifestação mais clara de que o Reino dos céus era chegado. Pelo dever de a luz do Evangelho (como a da natureza) preceder e abrir caminho para a sua lei, desta  maneira  as  profecias  do Antigo Testamento chegaram ao fim  – fim de perfeição, não de duração), antes dos preceitos  do Evangelho; assim,  quando  Cristo diz que todos os profetas e a lei profetizaram até João, Ele nos mostra, em primeiro lugar, como a luz do Antigo Testamento estava estabelecida; ela se estabelecia na lei e nos profetas, que falavam, embora de maneira obscura, sobre Cristo e seu reino. Observe que está escrito que a lei profetizava, assim como os profetas, a respeito daquele que viria. Cristo começou por Moisés (Lucas 24.27). Cristo foi predito pelos sinais mudos da obra mosaica, assim como também pelas vozes mais estruturadas dos profetas, e se exibiu, não apenas nas predições orais, mas também nos tipos pessoais e reais. Bendito seja Deus porque nós temos tanto a doutrina do Novo Testamento para explicar as profecias do Antigo Testamento como as profecias do Antigo Testamento para confirmar e exemplificar a doutrina no Novo Testamento (Hebreus 1.1); como os dois querubins, um olha para o outro. A lei foi dada por Moisés há muito tempo, e não houvera profetas por trezentos anos antes de João, e ainda assim diz-se que a lei e Moisés profetizaram até João, porque a lei ainda era observada –  Moisés e os profetas ainda eram lidos. As Escrituras continuam ensinando até à nossa época, embora os seus escritores já tenham morrido. Moisés e os profetas estão mortos; os apóstolos e os evangelistas estão mortos (Zacarias 1.5), mas a Palavra do Senhor permanece para sempre (1 Pedro 1.25). As Escrituras estão falando expressamente, embora os seus escritores estejam em silêncio, no pó. Em segundo lugar, como esta luz foi deixada de lado. Quando Jesus diz: “profetizaram até João”, Ele dá a entender que a glória da lei e dos profetas foi eclipsada pela glória que a superava; as suas predições foram superadas pelo testemunho de João: “Eis o Corde­ iro de Deus!” Mesmo antes do nascer do sol, a alvorada faz as velas brilharem menos. As profecias de um Cristo que viria ficaram ultrapassadas quando João disse, em outras palavras: “Ele chegou”.

[2]. Nele o dia do Antigo Testamento começou a amanhecer; pois (v. 14) é este o Elias que havia de vir: João foi o laço que uniu os dois Testamentos; assim como Noé foi o elo que ligou dois mundos, também João foi o elo que conectou os dois Testamentos. A profecia que concluiu o Antigo Testamento foi: “Eis que eu vos envio o profeta Elias” (Malaquias 4.5,6). Estas palavras profetizaram até João, e então começaram a se transformar em história, deixando de ser profecia. Em primeiro lugar, Cristo fala dela como uma grande verdade, que João Batista é o Elias do Novo Testamento; não Elias em sua própria pessoa, como os judeus carnais esperavam; João Batista negou isto (João 1.21); mas seria alguém que viria no espírito e virtude de Elias (Lucas 1.17), como ele em temperamento e em mensagem, que levaria os homens ao arrependimento com terror, e especialmente como na profecia, que converteria o coração dos pais aos filhos. Em segundo lugar, Ele fala dela como uma verdade, que não seria facilmente entendida por aqueles cujas expectativas se prendessem ao reino temporal do Messias, e às apresentações agradáveis ao reino. Cristo suspeitaria da receptividade do reino, se eles o recebessem. Nada, a não ser isto, era verdade, quer eles a recebessem, quer não, mas Ele os repreende pe­os seus preconceitos, pois eles estão atrasados para receber as maiores verdades que são contrárias aos seus sentimentos, embora favoráveis aos seus interesses. Ou, em outras palavras: “Se vocês o receberem, ou se receberem o ministério de João como sendo o do Elias prometido, ele será como Elias para vocês, para convertê-los e prepará-los para o Senhor”. Observe que as verdades do Evangelho estão ligadas à maneira como são recebidas, tendo um sabor de vida ou de morte. Cristo é o Salvador, e João é um Elias, para aqueles que recebem a verdade a respeito deles.

Finalmente, o nosso Senhor Jesus conclui este sermão com um solene pedido de atenção (v. 15): “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”; o que sugere que estas coisas eram obscuras e difíceis de compreender, e, portanto, precisavam de atenção, mas tinham grande importância, e, portanto, mereciam a atenção. Em outras palavras: “Que todo o povo se dê conta disso, se João é o Elias que foi profetizado, certamente há uma grande revolução a caminho, o reino do Messias é chegado, e o mundo em breve será surpreendido por uma feliz transformação. Estas são coisas que requerem séria consideração, e, portanto, todos vocês devem se preocupar em ouvir o que Eu digo”. Observe que as coisas de Deus têm uma importância grande e incomum: todo aquele que tiver ouvidos para ouvir qualquer coisa deve se preocupar em ouvir isto. Isto sugere que Deus não exige de nós nada além do uso correto e do aprimoramento das faculdades que Ele já nos deu. Ele exige que ouçam os que tiverem ouvidos, que usem a razão os que tiverem razão. Desta maneira, as pessoas são ignorantes, não porque precisam de poder, mas porque precisam de vontade; portanto, elas não ouvem, porque, como a víbora surda, têm os seus ouvidos tapados.

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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 11: 1-6

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Os Discípulos de João Vão a Cristo

O primeiro versículo deste capítulo de alguma maneira se une ao capítulo anterior, e promove o seu encerramento (não inadequadamente).

1.O sermão de ordenação (“Jesus enviou estes doze e lhes ordenou, dizendo…”) que Cristo pregou aos seus discípulos no capítulo anterior aqui é chamado de “instruções” (ou “ordens”, versão NTLH). Note que as comissões de Cristo implicam em mandamentos ou ordens. A pregação do Evangelho não apenas lhes era permitida, mas também lhes era imposta. Não era algo que eles pudessem deixar à sua própria vontade, mas a necessidade lhes era imposta (1 Coríntios 9.16). As promessas que Ele lhes fez estavam incluídas nestes mandamentos, pois o concerto da graça é uma palavra que Ele tinha ordenado (SaImos 105.8). Ele deu significado à ordem. As instruções que Cristo dá são instruções completas. Ele dá prosseguimento ao seu trabalho.

2.Quando Cristo disse o que tinha a dizer aos seus discípulos, Ele se separou deles. A impressão que temos é que eles estavam muito relutantes em abandonar o seu Mestre, até que Ele partisse e se separasse deles; como a babá que retira a mão para que a criança possa aprender a andar sozinha. Cristo agora os ensinaria como viver e como trabalhar sem a sua presença física. Era conveniente para eles, então, que Cristo se afastasse durante algum tempo, para que eles pudessem se preparar para a sua longa partida e para que, com a ajuda do Espírito, as suas próprias mãos lhes bastas­ sem (Deuteronômio 33.7), e para que eles não fossem sempre como crianças. Nós temos poucas informações sobre o que eles fizeram de aco1·do com a sua missão. Eles foram para outros lugares, sem dúvida; provavelmente para a Judéia (pois, até então, o Evangelho tinha sido pregado principalmente na Galileia), transmitindo a doutrina de Cristo e realizando milagres no seu nome – mas ainda com uma dependência imediata dele, e não muito distantes dele. E assim, eles foram treinados, por etapas, para a grande obra que lhes fora confiada.

3.Cristo partiu, para ensinar e pregar nas cidades às quais Ele enviou os seus discípulos antes dele, para realizar milagres (cap. 10.1-8), e assim aumentar as expectativas do povo, e abrir caminho para que o recebessem. Assim foi preparado o caminho do Senhor. João o preparou trazendo as pessoas ao arrependimento, mas ele não realizou milagres. Os discípulos foram mais além, eles realizaram milagres para a confirmação. O arrependimento e a fé preparam as pessoas para as bênçãos do Reino dos céus, que Cristo concede. Observe que quando Cristo lhes deu o poder de realizar milagres, Ele se ocupou de ensinar e pregar, como se esta fosse a opção mais honrosa. E isto está correto. Curar os enfermos é salvar os corpos, mas pregar o Evangelho é salvar almas. Cristo enviou os seus discípulos para pregar (cap. 10.7), mas Ele mesmo não deixou de pregar. Ele os enviou para trabalhai; não para o seu próprio bem, mas para o bem da nação, e não ficou menos ocupado por empregá-los. Como são pouco parecidos com Cristo aqueles que empregam os outros somente para que eles mesmos possam ficar ociosos! Observe que o crescimento na quantidade de obreiros no trabalho do Senhor deveria não representar uma desculpa para a nossa negligência, mas sim um incentivo para a nossa diligência. Quanto mais ocupados os outros estão, mais ocupados nós deve­ ríamos estar, e isto ainda seria insuficiente, pois há muito trabalho ainda por ser feito. Observe que Ele foi pregar nas cidades deles, que eram lugares muito habitados. Ele lançou a rede cio Evangelho onde havia mais peixes para serem apanhados. A sabedoria clama nas cidades (Provérbios 1.20-21), à entrada da cidade (Provérbios 8.3), nas cidades dos judeus, mesmo daqueles que faziam pouco dele, e que, apesar disso, receberam a oferta da salvação em primeiro lugar.

O que Ele pregou, não sabemos, mas provavelmente tinha o mesmo objetivo que o seu sermão da montanha. Mas em seguida encontra-se registrada uma mensagem que João Batista enviou a Cristo, e a sua retomada daquele sermão (5.2-6). Anteriormente, descobrimos que Jesus ouviu falar dos sofrimentos de João (cap. 4.12). Agora vemos que João, na prisão, ouve falar dos feitos de Cristo. Ele ouviu na prisão sobre as obras de Cristo. E sem dúvida ficou feliz em ouvir isto, pois ele era um verdadeiro amigo do esposo (João 3.29). Observe que quando algum instrumento útil é deixado de lado, Deus sabe como utilizar outros no seu lugar. O trabalho prosseguiu, embora João estivesse na prisão, e isto não acrescentou nenhuma aflição às correntes que o prendiam, mas sim uma boa dose de consolo. Não há nada mais confortador ao povo de Deus que está em sofrimento do que ouvir falar das obras de Cristo especialmente senti-las em suas próprias almas. Isto transforma uma prisão em um palácio. De uma maneira ou de outra, Cristo irá transmitir as notícias do seu amor àqueles que estão com problemas de consciência. João não podia ver as obras de Cristo, mas ouviu falar delas com satisfação. E “bem-aventurados os que não viram”, mas só ouviram, “e creram”.

João Batista, ao ouvir falar das obras de Cristo, enviou ao encontro dele dois de seus discípulos, e o que aconteceu entre eles e Jesus é relatado aqui.

 

I – A pergunta que eles deviam propor a Jesus: “És tu aquele que havia de vir ou esperamos outro?” Era uma pergunta séria e importante. Em outras palavras: “Tu és o Messias prometido, ou não? Tu és o Cristo? Diga-nos”.

1.Era admitido como verdadeiro o fato de que o Messias iria vir. Este era um dos nomes pelos quais os santos do Antigo Testamento o conheciam, ”Aquele que vem” (SaImos 118.26), ou ”Aquele que há de vir”. Ele já veio, mas há outra vinda sua que nós ainda devemos esperar.

2.Eles dão a entender que, se este não fosse o Messias, eles iriam procurar por outro. Note que não devemos nos cansar de procurar por aquele que há de vir nem jamais dizer que não mais o esperaremos até que nos unamos a Ele. Embora Ele tarde, espere por Ele, pois aquele que há de vir, virá, ainda que não seja em nossa época.

3.Da mesma maneira, eles dão a entender que se ficarem convencidos de que Jesus é o Cristo, não serão céticos, ficarão satisfeitos e não irão procurar por outro.

4.Sendo assim, eles perguntam: “És tu aquele?” João, por sua vez, tinha dito: “Eu não sou o Cristo” (João 1.20).

(1) Alguns pensam que João enviou esta pergunta para a sua própria satisfação. É verdade que ele tinha dado um nobre testemunho a respeito de Cristo; João tinha declarado que Ele era o Filho de Deus (João 1.34), o Cordeiro de Deus (João 1.29), e que Ele batizaria com o Espírito Santo (João 1.33), e que era o enviado de Deus (João 3.34); estas eram informações preciosas. Mas ele queria ter certeza de que Ele era o Messias prometido havia tanto tempo, e durante tanto tempo esperado. Observe que em questões relativas a Cristo e à nossa salvação por Ele, é bom termos plena certeza. Cristo não apareceu naquela pompa e naquele poder em que alguns esperavam que Ele aparecesse. Os seus próprios discípulos hesitaram em vista disso, e talvez João também o tenha feito. Cristo percebeu isso no final dessa investigação, quando disse: “Bem-aventurado é aquele que se não escandalizar em mim”. Note que é difícil, até mesmo para os homens bons, suportar erros comuns.

(2) A dúvida de João pode ter nascido das suas próprias condições atuais. Ele era um prisioneiro, e pode ter sido tentado a pensar: Se Jesus é realmente o Messias, como pode ser que eu, seu amigo e precursor, seja trazido a esta situação, e deixado tanto tempo nela, e Ele nunca se preocupe comigo, nunca me visite, nem mande saber de mim, não faça nada, nem para diminuir o meu aprisionamento nem para apressar a minha libertação? Sem dúvida, havia um bom motivo porque o Senhor Jesus não foi visitar João na prisão – para que não parecesse haver um acordo entre eles. Mas João pode ter interpretado a situação corno negligência, e isto talvez possa ter sido um choque para a sua fé em Cristo. Observe:

[1) Mesmo onde existe fé verdadeira, pode haver uma mescla de descrença. Nem mesmo os melhores são, sempre, igualmente fortes.

[2] Os problemas que passamos por Cristo, especialmente quando eles duram muito tempo sem alívio, são como provas de fé que algumas vezes provam ser difíceis demais de suportar.

[3] A descrença remanescente dos homens bons pode, algumas vezes, em um momento de tentação, atingir a raiz e questionar as verdades mais fundamentais que deveriam estar bem estabelecidas. O Senhor abandona para sempre? Mas nós temos esperança de que a fé de João não falhou nessa questão – ele somente desejava tê-la confirmada e fortalecida. Observe que os melhores santos têm necessidade da melhor ajuda que puderem ter para o fortalecimento da sua fé e para a sua proteção contra as tentações à infidelidade. Abraão creu, e ainda assim desejou um sinal (Genesis 15.6,8), e a mesma coisa aconteceu com Gideão (Juízes 6.36). Mas:

(3) Outros pensam que João enviou seus discípulos a Cristo com esta pergunta, não tanto para a sua própria satisfação como para a deles. Note que embora ele fosse um prisioneiro, eles o seguiam, cuidavam dele e estavam prontos para receber instruções dele. Eles o amavam e não iriam deixá-lo. Entretanto:

[1]. Eles eram fracos em conhecimento, e eram hesitantes na sua fé, e precisavam de instrução e confirmação; e nessa questão, eles tinham um pouco de preconceito. Por zelo ao seu mestre, eles tinham ciúmes do nosso Mestre. Eles se negavam a reconhecer que Jesus era o Messias, porque Ele eclipsava João – e se negavam a crer no seu próprio mestre quando pensavam que ele falava contra si mesmo e contra eles. Os bons homens são capazes de ter os seus julgamentos abençoados pelo seu interesse. Com isso, João corrigiria os enganos deles, e desejava que eles ficassem tão satisfeitos quanto ele mesmo estava. Observe que o forte deve considerar a indecisão do fraco, e fazer o que puder para ajudá-lo; assim, quando não conseguimos resolver tudo sozinhos, devemos buscar aqueles que podem nos ajudar. “Quando te converteres, confirma teus irmãos”.

[2] Durante todo o tempo, João se empenhou em entregar os seus discípulos a Cristo, como se estivesse transferindo-os da escola elementar para a faculdade. Talvez ele tenha sentido que a sua morte se aproximava, e, portanto, queria trazer os seus discípulos a um melhor conhecimento de Cristo, sob cuja guarda ele precisaria deixá-los. Observe que a função dos ministros é conduzir todos a Cristo. E aqueles que conhecem a certeza da doutrina de Cristo devem se aplicar a Ele, que veio para nos dar entendimento. Aqueles que desejam crescer na graça devem ser inquiridores.

 

II – Aqui está a resposta de Cristo à pergunta deles (vv. 4-6). Ela não foi tão direta e expressa como quando Ele disse: “Eu o sou, eu que falo contigo”; mas foi uma resposta verdadeira, uma resposta de fato. Cristo quer que transmitamos as evidências convincentes das verdades do Evangelho, e que nos esforcemos para obter conhecimento.

1.Ele lhes enfatiza o que eles ouviram e viram, coisas que deveriam contar a João, para que ele pudesse, a partir de então, aproveitar a oportunidade mais plenamente para instruí-los e convencê-los, a partir das suas próprias bocas. “Ide e anunciai a João as coisas que ouvis e vedes”. Note que os nossos sentidos podem e são atraídos a estas coisas que são os seus objetos apropriados. Portanto, a doutrina papista ela presença real não está de acordo com a verdade, segundo Jesus; pois Cristo nos aponta para as coisas que vemos e ouvimos. Ide e anunciai a João,

(1) O que vocês viram sobre o poder dos milagres de Cristo. Vocês veem como, pela palavra de Jesus, os cegos veem, e os coxos andam etc. Os milagres de Cristo eram realizados abertamente, à vista ele todos; pois estes não temeriam os escrutínios mais fortes e mais imparciais. Os milagres devem ser considerados:

[1] Como atos do poder divino. Ninguém, exceto o Deus da natureza, poderia dominar e exceder desta maneira o poder da natureza. Fala-se particularmente como sendo prerrogativa ele Deus abrir os olhos aos cegos (SaImos 146.8). Os milagres, portanto, são o grande selo do céu, e a doutrina à qual eles são afixados deve ser a de Deus, pois o seu poder nunca irá contradizer a sua verdade; nem se pode imaginar que Ele colocasse o seu seio em uma mentira. Por mais que maravilhas mentirosas possam ser testemunhadas como evidências ele falsas doutrinas, os verdadeiros milagres evidenciam uma comissão divina – assim eram os milagres de Cristo, e não deixavam campo para dúvida de que Ele era enviado por Deus e de que a sua doutrina era daquele que o enviou.

[2] Como o cumprimento de uma predição divina. Tinha sido predito (Isaias 35.5,6) que o nosso Deus viria, e que então se abririam os olhos dos cegos. Se as obras de Cristo estão de acordo com as palavras do profeta, como claramente estão, então não há dúvida de que este é o nosso Deus, que nós esperamos, que virá com uma recompensa; este é aquele que é tão esperado e desejado.

(2) Anunciai a João a pregação do seu Evangelho, que vocês ouviram, acompanhada pelos seus milagres, que vocês viram. A fé, embora confirmada com a visão, vem por meio da audição. Digam a ele:

(1) Que os pobres pregam o Evangelho; também alguns o leem. Isto prova a missão divina de Cristo, o fato de que aqueles que Ele empregou para a fundação do seu reino eram homens pobres, destituídos de todas as vantagens seculares, e que, portanto, não poderiam nunca ter transmitido a sua mensagem se não tivessem sido portadores de um poder divino.

(2) Que aos pobres é anunciado o evangelho. O público de Cristo é constituído daqueles que os escribas e os fariseus desprezavam e consideravam com pouco caso, e que os rabinos não educavam, porque queriam ser pagos. Os profetas do Antigo Testamento foram enviados principalmente a reis e príncipes, mas Cristo pregou às congregações dos pobres. Tinha sido predito que os pobres do rebanho o aguardariam (Zacarias 11.11). Note que a condescendência e a compaixão graciosa de Cristo pelos pobres são uma evidência de que era Ele quem iria trazer ao mundo as graças e a misericórdia do nosso Deus. Tinha sido predito que o Filho de Davi seria o Rei dos pobres (SaImos 72.2,4,12,13), ou podemos interpretar não tanto dos pobres do mundo, mas sim dos pobres de espírito, e desta forma a Escritura se cumpre (Isaias 61.1): “O Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos mansos”. Observe que é uma prova da missão divina de Cristo que a sua doutrina seja realmente o Evangelho – boas-novas àqueles que se humilham verdadeiramente em tristeza pelos seus pecados, e verdadeiramente se humilham na negação de si mesmos. Para eles é adequada a missão, por aqueles a quem Deus sempre declarou que tinha misericórdia reservada.

(3) Que os pobres recebem o Evangelho, e por meio dele são transformados, são evangelizados; recebem o Evangelho e lhe dão as boas-vindas, são influenciados por ele, e são modelados por ele. Note que a maravilhosa eficiência do Evangelho é uma prova da sua origem divina. Os pobres são transformados por ele. Os profetas reclamavam dos pobres, porque não sabiam o caminho do Senhor (Jeremias 5.4). Eles não podiam fazer nenhum bem a eles; mas o Evangelho de Cristo conseguiu alcançar as suas mentes não instruídas.

2.Ele pronuncia uma bênção àqueles que se não escandalizarem nele (v. 6). Tão claras são estas evidências da missão de Cristo, que aqueles que não tinham preconceito voluntário contra Ele, e não se escandalizavam nele (esta é a palavra), não podem deixar de receber a sua doutrina, e dessa forma são abençoados por Ele. Observe:

(1) Há muitas coisas em Cristo com que os ignorantes e sem discernimento podem se ofender, algumas circunstâncias pelas quais rejeitam o conteúdo do seu Evangelho. A insignificância da sua aparência, a sua educação em Nazaré, a pobreza da sua vida, a indignidade dos seus seguidores, o desprezo que as autoridades lhe dedicavam, a rigidez da sua doutrina, a contradição que ela traz quanto à carne e ao sangue, e os sofrimentos que acompanham a profissão do seu nome. São coisas que mantêm muitos afastados dele, e que, não fosse por isso, veriam a presença de Deus Pai nele. Assim Ele é posto para a queda de muitos em Israel (Lucas 2.34), uma rocha de escândalo (1 Pedro 2.8).

(2) Bem-aventurados são aqueles que superam estas ofensas. A expressão dá a entender que é difícil derrotar estes preconceitos, e é perigoso não derrotá-los; mas quanto aqueles que, apesar dessa oposição, creem em Cristo, a sua fé fará com que louvem, honrem e glorifiquem ao Senhor.

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MATEUS 10: 16-42

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Instruções aos Apóstolos – Parte 3

[6]. A providência de Deus está, de uma maneira especial, familiarizada com os santos e com os seus sofrimentos (vv. 29-31). Ê bom ter o auxílio dos nossos primeiros princípios, e, particularmente, da doutrina da providência universal de Deus, que se estende a todas as criaturas e a todos os seus atos, até mesmo o menor e mais insignificante. A luz da natureza nos ensina isto, e é consolador a todos os homens, mas em especial a todos os homens bons, que podem. pela fé, chamar este Deus de seu Pai. Ele tem uma terna preocupação por eles. Veja aqui:

Em primeiro lugar, a extensão geral da providência a todas as criaturas, até mesmo às menores e menos consideráveis, os passarinhos (v. 29). Estes pequenos animais são tão pouco considerados, que um deles nem tem valor; eles precisam formar um par para que valham pouco (você pode ter cinco deles por dois ceitis, Lucas 12.6), e nem eles deixam de estar sob os cuidados divinos. E nenhum deles cairá em terra sem a vontade de nosso Pai. Isto é:

1.Eles não descem ao chão pelo alimento, para apanhar um grão de trigo, mas o seu Pai celestial. pela sua providência, o disponibiliza para eles. Na passagem paralela (Lucas 12.6), isto está assim expresso: “E nenhum deles está esquecido diante de Deus”, ou seja, esquecido com o sentido de ter provisões. Ele os alimenta (cap. 6.26). Aquele que alimenta os pássaros não deixará que os santos passem fome.

2.Eles não caem no solo pela morte, seja ela natural ou violenta, sem que Deus o perceba. Embora sejam uma parte tão pequena da criação, até mesmo a sua morte vem com a observação da divina providência; quanto mais cuidado haverá em se tratando da morte dos seus discípulos. Observe que os pássaros que voam nas alturas, quando morrem, caem ao chão; a morte traz até mesmo os mais altos ao solo. Alguns pensam que aqui Cristo faz alusão aos dois pássaros que eram usa dos na oferta de purificação do leproso (Levíticos 14.4-6); as duas aves da passagem são pássaros; delas, uma foi morta, e dessa forma caiu ao chão, a outra foi solta. Parece uma coisa casual a decisão de qual das duas foi morta; as pessoas tomavam a que queriam, mas a providência divina designava e determinava qual delas. Este Deus, que tem este cuidado com os pássaros, porque são suas criaturas, terá um cuidado muito maior conosco, que somos seus filhos. Se um pássaro não morre sem o consentimento de nosso Pai celestial, saiba que certamente isto também não acontece com um homem, um cristão, um ministro. Um pássaro não cai na rede do caçador, nem cai por um tiro do caçador, nem é vendido no mercado, se isto não estiver de acordo com os desígnios da providência. Os nossos inimigos, como caçadores sutis, montam armadilhas e atiram secretamente contra nós, mas eles não podem nos levar, eles não podem nos atingir, a menos que Deus lhes dê permissão. Portanto, não tenha medo da morte, pois os seus inimigos não têm poder contra você, a não ser o que lhes foi dado do alto. Deus pode destruir os seus laços e suas armadilhas (Salmos 38.12-15; 64.4,7) e fazer a nossa alma escapar como um pássaro (Salmos 124,7). “Não temais, pois” (v. 31). Na doutrina da providência de Deus, há o suficiente para silenciar todos os temores de seu povo: “Mais valeis vós do que muitos passarinhos”. Todos os homens são assim, pois todas as outras criaturas foram feitas para o homem, e postas sob os seus pés (Salmos 8.6-8); muito mais os discípulos de Jesus Cristo, que são os melhores na terra, por mais que sejam desprezados, como se não valessem o equivalente a um passarinho.

Em segundo lugar, o conhecimento particular que a providência tem dos discípulos de Cristo, especialmente nos seus sofrimentos (v. 30): “E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados”. Esta é uma expressão conhecida que denota a consideração que Deus tem e conserva de todas as preocupações do seu povo, até mesmo daqueles que são mais insignificantes e menos considerados. Isto não deve se tornar uma questão de investigação curiosa, mas de incentivo para viver continuamente confiando no cuidado providencial de Deus, que se estende a todos os acontecimentos sem desperdício da glória infinita, ou perturbação do descanso infinito, da Mente eterna. Se Deus conta os nossos cabelos, muito mais Ele conta as nossas cabeças e cuida das nossas vidas, do nosso consolo e das nossas almas. Isto dá a entender que Deus cuida mais dos seus discípulos do que eles cuidam de si mesmos. Aqueles que se preocupam em contar seu dinheiro, seus bens e seu gado, nunca têm o cuidado de contar seus cabelos, que caem e são perdidos, e eles nunca sente m falta deles; mas Deus conta os cabelos do seu povo, e não perecerá um único cabelo da nossa cabeça (Lucas 21.18), nem o menor ferimento nos será causado, exceto depois de uma cuidadosa consideração. Como são preciosos para Deus os seus santos, e suas vidas e mortes!

 

[7]. Em breve, no dia do triunfo, Ele se apoderará daqueles que agora se apoderam dele; no dia do juízo, quando aqueles que o rejeitam serão para sempre renegados e rejeitados por Ele (vv 32,33). Em primeiro lugar, observe que é nosso dever, e se o fizermos, será no futuro nossa indescritível honra e felicidade, confessar a Cristo diante dos homens.

1.É nosso dever, não apenas crer em Cristo, mas também professar esta fé, sofrendo por Ele, quando isto nos for exigido, e também servindo a Ele. Nunca devemos nos envergonhar do nosso relacionamento com Cristo, da nossa presença com Ele, e das expectativas que temos em relação a Ele: com isto, a sinceridade da nossa fé é evidenciada, o seu nome glorificado, e muitos, edificados.

2.Embora isto possa nos expor à reprovação e a problemas agora, nós seremos abundantemente recompensados por tudo isso na ressurreição dos justos, quando será nossa honra e felicidade indescritível ouvir Cristo dizer (O que mais poderíamos esperar?) algo como: “Eu o confessarei diante de meu Pai, embora seja um pobre verme da terra, sem valor; este é um dos meus, um dos meus amigos e prediletos, que me amou e foi amado por mim. Ele foi comprado pelo meu precioso sangue, é a obra do meu Espírito. Eu o confessarei diante de meu Pai, e isto lhe dará maior honra. Eu falarei coisas boas dele, quando ele comparecer diante de meu Pai para receber o seu destino. Eu o apresentarei e o representarei ao meu Pai”. Aqueles que honram a Cristo, da mesma forma Ele honrará. Eles o honram diante dos homens. Isto é pouco. Ele os honrará diante do seu Pai, o que é muito. Em segundo lugar é perigoso que qualquer pessoa negue e rejeite a Cristo diante dos homens, pois aqueles que o fizerem serão negados por Ele no grande dia, quando mais precisarem dele: Ele não considerará como servos aqueles que não o considerarem seu Messias. Ele lhes dirá abertamente: “Nunca vos conheci” (cap. 7.23). Nos primeiros tempos do cristianismo, quando, para um homem, confessar a Cristo significava arriscar tudo o que lhe era caro neste mundo, esta era uma prova de sinceridade maior do que passou a ser mais tarde, quando já havia até mesmo vantagens seculares para aqueles que o confessassem.

[8]. O fundamento do seu discipulado estava neste tipo de temperamento e disposição, que tornavam os sofrimentos leves e fáceis para eles, e foi com a condição de uma preparação para o sofrimento que Cristo os chamou para serem seus seguidores (vv. 37-39). Ele lhes disse, no início, que eles não seriam dignos dele se não estivessem dispostos a abandonar tudo por Ele. Os homens não hesitam diante das dificuldades que surgem necessariamente na sua profissão, e com as quais eles contam, quando adotam esta profissão. Quando, e eles se submeterão alegremente a estas fadigas e a estes problemas, ou renunciarão aos privilégios e às vantagens de sua profissão. Mas na profissão cristã, eles são reconhecidos como não sendo merecedores da dignidade e da felicidade dela, se não derem valor ao seu interesse em Cristo, considerando-o preferencial em relação a quaisquer outros interesses. Eles não podem esperar os ganhos de um bom negócio se não estiverem à altura dele. Assim, os termos estão definidos: se a religião tiver algum valor, deverá valer tudo; e, portanto, todos os que creem na sua verdade em breve estarão à sua altura, e aqueles que fazem dela o seu negócio e a sua inspiração farão que tudo o mais se renda a ela. Aqueles que não gostam de Cristo nestes termos podem deixá-lo, correndo riscos. Observe que é muito encorajador pensar que, seja o que for que viermos a sofrei; ou perder, ou abandonar, por Cristo, não estaremos fazendo um mau negócio. Não importa que venhamos a nos separar por esta pérola, podemos nos consolar com a certeza de que ela é digna do que damos por ela. As condições são: nós devemos preferir a Cristo.

Em primeiro lugar, devemos preferir a Cristo aos nossos relacionamentos mais próximos e queridos: pai ou mãe, filho ou filha. Nesses relacionamentos, por haver pouco lugar para a inveja, normalmente há mais lugar para o amor, e, por isto, eles servem como exemplo de relacionamentos que provavelmente nos afetam mais. Os filhos devem amar aos seus pais, e os pais devem amar aos seus filhos; mas se os amarem mais do que a Cristo, são indignos dele. Da mesma maneira como nós não devemos nos separar de Cristo pelo ódio dos relacionamentos de que Ele falou (vv. 21,35,36), também não devemos ser afastados dele pelo amor dos relacionamentos. Os cristãos devem ser como Levi, que disse a seus pais: “Nunca os vi” (Deuteronômio 33.9, versão RA).

Em segundo lugar, devemos preferir a Cristo à nossa comodidade e segurança. Devemos tomar a nossa cruz e segui-lo, do contrário não seremos dignos dele. Observe aqui:

1.Aqueles que seguem a Cristo devem esperar a sua cruz e torná-la em seus ombros.

2.Ao tomar a cruz, nós devemos seguir o exemplo de Cristo, e suportá-la, como Ele o fez.

3.É um grande incentivo para nós, quando nos deparamos com a cruz, o fato de que ao suportá-la nós estamos seguindo a Cristo, que nos mostrou o caminho; e que se nós o seguirmos fielmente, Ele nos conduzirá em meio a sofrimentos como os dele, para que cheguemos à glória com Ele.

Em terceiro lugar, devemos preferir Cristo a nós mesmos (v. 39). “Quem achar a sua vida perdê-la-á”; aquele que pensa que a encontrou quando a poupou e conservou, negando a Cristo, a perderá na morte eterna; mas quem perder a sua vida por amor a Cristo, compartilhando-a com Cristo, em lugar de negá-lo, a encontrará e desfrutará o seu benefício indescritível, que é a vida eterna. Aqueles que se prenderem menos a esta vida atual estarão mais bem preparados para a vida futura.

 [9]. O próprio Cristo abraçou a sua causa com muita dedicação, a ponto de se mostrar como amigo a todos os seus amigos, e de recompensar toda a gentileza que, em qualquer ocasião, lhes fosse concedida (vv. 40-42). “Quem vos recebe a mim me recebe”.

Em primeiro lugar, aqui está implícito que, embora, a maioria os rejeitasse. ainda assim eles se encontrariam com alguns que os receberiam, que dariam boas-vindas à mensagem em seus corações, e aos mensageiros em suas casas, por amor a ela. A oferta do Evangelho foi feita; se alguns não o aceitarem, outros certamente o aceitarão. Até mesmo na pior das épocas há alguns remanescentes, de acordo com a escolha da graça. Os ministros de Cristo não trabalharão em vão.

Em segundo lugar, Jesus Cristo assume o que é feito aos seus fiéis ministros, seja em gentilezas ou em maldades, como feito a si mesmo, e se considera tratado como eles são tratados. “Quem vos recebe a mim me recebe”. A honra ou o desprezo dedicados a um embaixador reflete a honra ou o desprezo coloca do sobre o príncipe que o enviou, e os ministros são embaixadores de Cristo. Veja como Cristo pode ainda ser recebido por aqueles que dão testemunho do respeito que têm por Ele: o seu povo e os seus ministros estão sempre conosco; e Ele está com cada um de nós, sempre, até o fim do mundo. E não apenas isso, pois a honra é ainda mais elevada: “Quem me recebe a mim, recebe aquele que me enviou”. Cristo não apenas a interpreta como sendo feita a si mesmo, mas por meio de Cristo, Deus faz a mesma coisa. Ao receberem os ministros de Cristo, eles não estão recebendo a anjos desavisados, mas a Cristo, e ao próprio Deus. Portanto, a despeito das aparências, é necessário estarmos atentos (cap. 25.37): “Senhor, quando te vimos com fome?”

Em terceiro lugar, embora a bondade feita aos discípulos de Cristo nunca seja tão pequena, mesmo que haja oportunidade para ela, e capacidade para fazer ainda mais, ela será aceita, ainda que seja apenas um copo de água fria a um de seus pequenos (v. 42). Eles são pequenos, pobres e fracos, e frequentemente precisam de alívio, e se contentam com o pouco que tiverem. A situação extrema pode ser tal que um copo de água fria pode vir a ser urna grande graça. Observe que a bondade demonstrada aos discípulos de Cristo é elogiada nos escritos de Cristo, não de acordo com o custo do que é dado, mas de acordo com o amor e o afeto de quem a dá. Neste sentido, a pequena doação da viúva não apenas se divulgou, mas apareceu mais que as outras (Lucas 21.3,4). Assim, aqueles que são verdadeiramente ricos em graça podem ser ricos em boas obras, embora pobres no mundo.

Em quarto lugar, a bondade para os discípulos de Cristo, que Ele irá aceitar, deve ser feita considerando a Cristo, e pelo seu bem. Um profeta deve ser recebido na qualidade de profeta, e um homem justo, na qualidade de justo, e um destes pequenos, em nome de um discípulo; não porque tenham estudo ou inteligência, nem porque sejam nossos parentes ou vizinhos, mas porque são justos, e desta forma trazem em si mesmos a imagem de Cristo. Eles são profetas e discípulos, e desta forma são enviados a serviço de Cristo. É uma consideração a Cristo, através da fé, que atribui um valor aceitável à bondade feita aos seus ministros. Cristo não se interessará pessoalmente pelo assunto, a menos que tratemos primeiramente dos seus interesses.

Em quinto lugar, a bondade demonstrada ao povo e aos ministros de Cristo não somente será aceita, mas ricamente e apropriadamente recompensada. Há uma grande porção para ser adquirida, pelos bons favores feitos aos discípulos de Cristo. Se isto for feito ao Senhor, Ele os compensará, em retribuição, com vantagem; pois Ele não é injusto para se esquecer de todo trabalho de amor (Hebreus 6.10).

1.Eles receberão uma recompensa, e de modo algum a perderão. Ele não disse que eles merecem uma recompensa; nós não podemos merecer qualquer coisa, com a retribuição, da mão de Deus; mas eles receberão uma recompensa do livre dom de Deus; e eles de modo algum a perderão, como sucede frequentemente com os bons serviços entre os homens; porque aqueles que deveriam recompensá-los são, ou falsos ou negligentes. A recompensa pode ser adiada até a ressurreição dos justos; mas de modo algum será perdida, nem eles serão, de qualquer modo, privados pela demora.

2.Esta é uma recompensa de profeta e de justo. Isto é, ou:

(1).  A recompensa que Deus dá aos profetas e aos justos; as bênçãos conferidas a eles destilarão sobre os seus amigos. Ou:

(2).  A recompensa que Ele dá por meio dos profetas e dos justos, em resposta às suas orações (Genesis 20.7): “Profeta é e rogará por ti”, o que é uma recompensa de profeta; e por meio de seus ministérios; quando Ele dá as instruções e os confortos da Palavra àqueles que são bondosos com os pregadores da Palavra então Ele envia uma recompensa de profeta. Recompensas de profeta são bênçãos espirituais nas coisas celestiais, e se soubermos como avaliá-las, nós as consideraremos uma desejável remuneração.

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MATEUS 10: 16-43

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Instruções aos Apóstolos – Parte 2

II – Com estas predições de problemas, nós temos aqui as descrições de conselhos e consolos para épocas de dificuldades. Ele os envia realmente expostos ao perigo, e esperando-o, mas bem armados com instruções e incentivos, suficientes para sustentá-los e confirmá-los em todas estas provações. Vamos examinar o que Ele diz:

1.Com o objetivo de aconselhar e orientar em diversos assuntos:

(1). “Sede prudentes como as serpentes” (v. 16). Em outras palavras: “Vocês podem ser prudentes como as serpentes” (alguns interpretam como somente uma permissão), “desde que sejam tão símplices como as pombas”. Mas, na verdade, isto deve ser interpretado como um preceito, que nos aconselha na sabedoria dos prudentes, que é a maneira de compreender os seus métodos, e que é útil em todas as ocasiões – mas especialmente nas ocasiões de sofrimento. Portanto, por estarem expostos como ovelhas em meio aos lobos, sejam tão prudentes como as serpentes; não sejam sábios como as raposas, cuja esperteza consiste em enganar os outros; mas prudentes como as serpentes, cuja tática é unicamente defender-se, e mover-se para a sua própria segurança. Os discípulos de Cristo são odiados e perseguidos como as serpentes, e as pessoas procuram destruí-los, e por isto eles precisam da prudência das serpentes. Observe que é o desejo de Cristo que o seu povo e os seus ministros, estando tão expostos aos perigos deste mundo, como normalmente estão, não devam expor-se desnecessariamente, mas usar todos os meios justos e lícitos para a sua própria preservação. Cristo nos deu um exemplo dessa prudência (cap. 21.24,25; 22.17,18,19; João 7.6,7); apesar das várias vezes em que Ele conseguiu es­ capar das mãos dos seus inimigos, a sua hora era chega­ da. Veja um exemplo da prudência de Paulo (Atos 23.6,7). Na causa de Cristo, devemos ser indiferentes à vida e a todos os seus confortos, mas não devemos desprezá-los. A prudência da serpente consiste em preservar a sua cabeça, que não deve ser arrancada, em tapar seus ouvidos à voz do encantador (SaImos 58.4,5), e abrigar-se nas fendas das rochas – assim devemos ser tão prudentes como as serpentes. Devemos ser prudentes para não atrair problemas para as nossas próprias cabeças; prudentes para manter silêncio em tempos difíceis, e para não pecar. Devemos nos esforçar para agir desse modo.

(2). “Sede símplices como as pombas”. Em outras palavras: “Sejam suaves, mansos e serenos; não somente não façam mal a ninguém, mas não tenham uma má intenção para com ninguém; sejam como as pombas, que não têm amargura; isto sempre deve acompanhar a frase anterior”. Eles são enviados em meio aos lobos, portanto devem ser tão prudentes quanto as serpentes. Mas são enviados como ovelhas, e por isto devem ser tão inofensivos quanto as pombas. Nós devemos ser prudentes, não para ofender a nós mesmos, mas para não ofender a ninguém mais. Devemos usar a pureza das pombas para suportar vinte ofensas, em lugar da astúcia da serpente para retribuir; mesmo que se trate apenas de uma ofensa. Observe que este deve ser o cuidado constante de todos os discípulos de Cristo – ser inocentes e inofensivos nas palavras e nas obras, especialmente levando em consideração os inimigos em cujo meio se encontram. Nós precisamos de um espírito como de uma pomba, quando importunados pelas aves de rapina, para que não as provoquemos, nem sejamos provocados por elas. Davi desejava as asas de uma pomba, com as quais pudesse voar e descansar, e não as asas de um falcão. O Espírito desceu sobre Cristo como uma pomba, e todos os crentes participam do Espírito de Cristo, um espírito como o de uma pomba, feito para o amor, e não para a guerra.

(3). “Acautelai-vos dos homens” (v. 17). Em outras palavras: “Estejam sempre vigilantes e evitem as companhias perigosas; prestem atenção ao que vocês dizem e fazem, e não considerem como provável a fidelidade de homem algum. Zelem pelas pretensões mais plausíveis; não confiem no amigo, nem naquela ‘que repousa no seu seio”‘ (Miqueias 7.5). Convém aos que têm a graça que sejam cuidadosos, pois somos ensinados a nos separar dos homens maus. O mundo no qual vivemos é tão pecador que não sabemos em que confiar. Uma vez que o nosso Messias foi traído com um beijo, por um dos seus próprios discípulos, nós precisamos nos acautelar dos homens, dos falsos irmãos.

(4). “Não vos dê cuidado como ou o que haveis de falar” (v. 19). Em outras palavras: “Quando vocês forem levados diante de magistrados, comportem-se de maneira decorosa, mas não se aflijam, preocupando-se sobre como a situação terminará. Deve haver um pensamento prudente, mas não ansioso, perplexo ou inquietante. Deixe que esta preocupação recaia sobre Deus, assim como a preocupação concernente ao que você come ou bebe. Não pretenda fazer belos discursos, para adular a si mesmo; não procure expressões raras, acessos de inteligência e frases de efeito, que só servem para dar um falso brilho a uma causa ruim; o brilho dourado de uma boa causa não precisa destas coisas. Preocupar-se com estas coisas dá a ideia de falta de confiança, como se a sua causa não pudesse falar por si mesma. Você sabe em que fundamentos está enraizado. “Nunca alguém falou melhor diante de governadores e reis do que aqueles três heróis, que não pensaram antes sobre o que iriam falar, e disseram ao rei Nabucodonosor: “Não necessitamos de te responder sobre este negócio” (Daniel 3.16; veja Salmos 119.46). Observe que os discípulos de Cristo devem se preocupar mais com agir bem do que com falar bem; mais com manter a sua integridade do que com o modo de defendê-la. As nossas vidas, e não palavras arrogantes, formam a melhor justificativa.

(5) “Quando, pois, vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra” (v. 23). Em outras palavras: “Rejeitem, desta maneira, aqueles que rejeitarem a vocês e sua doutrina, e tentarem fazer com que os outros também não lhes recebam, nem à sua doutrina; desta forma, vão para outra cidade, para sua própria segurança”. Observe que em caso de perigo iminente, os discípulos de Cristo podem e devem se proteger com a fuga, quando Deus, na sua providência, lhes abre uma porta de escape. Aquele que foge pode lutar outra vez. Não é desonra para os soldados de Cristo abandonar o terreno, desde que não abandonem a sua identidade: eles podem sair do caminho do perigo, embora não devam sair do caminho do dever. Observe o cuidado que Cristo tem com os seus discípulos, providenciando lugares de fuga e abrigo para eles; organizando as situações para que as perseguições não ocorram em todos os lugares, nem ao mesmo tempo; mas quando uma cidade ficar agitada demais para eles, outra estará reservada para um ambiente mais tranquilo, como um pequeno santuário; uma graça a ser usada, e não desprezada. Mas sempre com a condição de que nenhum meio pecaminoso ou ilícito seja usado para realizar a fuga; pois neste caso, não será uma porta providenciada por Deus. Nós temos muitos exemplos desta regra na história, tanto de Cristo como de seus apóstolos, na aplicação de todos os casos particulares nos quais a prudência e a integridade orientam beneficamente.

(6) “Não os temais” (v. 26), porque eles podem matar somente o corpo (v. 28). Observe que é dever e interesse dos discípulos de Cristo não temer o maior dos seus adversários. Aqueles que temem verdadeiramente a Deus não precisam temer o homem; e aqueles que temem o menor dos pecados não precisam temer a maior dificuldade. O medo do homem traz uma armadilha, uma armadilha desconcertante que perturba a nossa paz; uma armadilha que nos confunde, e pela qual podemos ser levados ao pecado; portanto, devemos vigiar cuidadosamente, e combater e orar contra este temor. Ainda que os tempos sejam muito difíceis, os inimigos sejam muito cruéis, e as situações sejam muito ameaçadoras, ainda assim nós não precisamos ter medo, nós não temeremos, ainda que a terra se transtorne, enquanto tivermos um Deus tão bom, uma causa tão boa e uma esperança tão boa por intermédio da graça.

Sim, isto é fácil dizer; mas quando chegam as provações, tormentos e torturas, calabouços e prisões, machados e cadafalsos, fogo e lenha, são coisas terríveis, suficientes para fazer tremer o coração mais valente, e dar início a um retrocesso, especialmente quando fica claro que estas coisas poderiam ser evitadas apenas com alguns passos para trás. E, portanto, para nos fortalecer contra esta tentação, aqui temos:

[1]. Uma boa razão contra este medo, obtida do poder limitado dos inimigos; eles matam o corpo, que é o máximo a que o seu ódio pode chegar. Até aqui eles podem chegar, se Deus lhes permitir, mas não podem ir além disso. Eles não podem matar a alma, nem fazer-lhe nenhum mal, e a alma é o homem. Com isso, parece que a alma não adormece na morte (como nos sonhos), nem é privada de pensamento e percepção; pois então a morte do corpo seria a morte da alma também. A alma morre quando é separada de Deus e do seu amor, que é a sua vida, e se torna um vaso da sua ira; isso está fora do alcance do poder dos inimigos. O sofrimento, a agonia e a perseguição podem nos separar de todo o mundo, mas não podem separar-nos de Deus, não podem fazer com que não o amemos, nem fazer com que não sejamos amados por Ele (Romanos 8.35,37). Se, portanto, estivermos mais preocupados com as nossas almas, como nossas joias, estaremos menos preocupados com os homens, cujo poder não pode nos roubar as nossas almas. Eles só podem matar o corpo, que morreria rapidamente, e não a alma, que irá se alegrar com o seu Deus, apesar deles. Eles só podem esmagar o estojo. A pérola de valor fica intocada.

[2] Uma boa solução contra isto é temer a Deus. Tema àquele que é capaz de destruir tanto a alma como o corpo no inferno. Observe que, em primeiro lugar, o inferno é a destruição, tanto do corpo como da alma; não da existência de qualquer deles, mas do bem-estar de ambos. É a destruição do homem por completo; se a alma está perdida, também está perdido o corpo. Eles pecaram juntos; o corpo foi quem levou a alma a pecar, sendo a sua ferramenta no pecado, e por isto devem sofrer juntos, eternamente. Em segundo lugar, esta destruição se origina no poder de Deus. Ele é capaz de destruir; é uma destruição realizada pelo seu poder glorioso (2 Tessalonicenses 1.9). Nela, Ele fará conhecido o seu poder, não somente a sua autoridade para sentenciai; mas também a sua capacidade de executar a sentença (Romanos 9.22). Em terceiro lugar, Deus deve, dessa maneira, ser temido, mesmo pelos melhores santos deste mundo. Conhecendo os terrores do Senhor, devemos persuadir os homens a temê-lo. Se a ira e o temor dele estão mutuamente de acordo, então o temor a Ele deve estar de acordo com a sua ira, especialmente porque ninguém conhece o poder da sua ira (SaImos 90.11). Se Adão, em inocência, era intimidado por uma ameaça, que nenhum dos discípulos de Cristo pense que não precisa das restrições de um temor sagrado. Feliz é o homem que sempre teme. O Deus de Abraão, que então estava morto, é chamado de “o Temor de lsaque”, que estava vivo (Genesis 31.42,53). Em quarto lugar, o temor a Deus, e do seu poder sobre a alma, será um antídoto soberano contra o temor ao homem. É melhor ser reprovado por todo o mundo, do que ser reprovado por Deus; portanto, é mais justo, e também mais seguro, obedecermos a Deus, e não aos homens (Atos 4.19). Aqueles que temem o homem, que é mortal, se esquecem do Senhor, o seu Criador (Isaias 51.12,13; Neemias 4.14).

(7) “O que vos digo em trevas, dizei-o em luz” (v. 27); em outras palavras: “Quaisquer que sejam os riscos que você corre, continue com o seu trabalho, publicando e proclamando o Evangelho eterno a todo o mundo; este é o seu trabalho, tenha isto em mente. O desígnio do inimigo não é meramente destruir você, mas impedir que o Evangelho seja proclamado e, portanto, qualquer que seja a consequência, torne o Evangelho público”. “O que vos digo, dizei-o”. O que os apóstolos nos transmitiram é a mesma coisa que eles receberam de Jesus Cristo (Hebreus 2.3). Eles falaram aquilo que Ele lhes disse, tudo aquilo, e nada além daquilo. Estes embaixadores recebiam suas instruções de forma privada, na escuridão, ao ouvido, em esquinas, por parábolas. Cristo falou muitas coisas abertamente, e nada que foi dito em oculto era diferente daquilo que Ele pregou em público (João 18.20). Porém as instruções particulares que Ele deu aos seus discípulos depois da sua ressurreição, a respeito das coisas do Reino de Deus, foram ditas ao ouvido (Atos 1.3), pois então Ele não mais se mostrou publicamente. Mas os discípulos precisam transmitir a sua mensagem publicamente, sob a luz e sobre os telhados; pois a doutrina do Evangelho diz respeito a todos (Provérbios 1.20,21; 8.2,3). Portanto, “quem tem ouvidos para ouvir, que ouça”. A primeira indicação da aceitação dos gentios na igreja se deu sobre um telhado (Atos 10.9). Não há nenhuma parte do Evangelho de Cristo que precise, de alguma maneira, ser oculta; todo o conselho de Deus deve ser revelado (Atos 20.27). Que ele seja sempre clara e plenamente revelado a uma multidão tão variada!

2.Com o objetivo de consolo e incentivo. Aqui muita coisa é dita com este objetivo, e é suficiente, considerando as muitas dificuldades que eles iriam enfrentar durante o curso do seu ministério e a sua fraqueza atual, que era tal que, sem algum apoio poderoso, eles mal poderiam suportar até mesmo a perspectiva delas; portanto, Cristo lhes mostra por que eles deveriam ter ânimo.

(2). Aqui está uma mensagem peculiar à sua missão atual (v. 23). “Não acabareis de percorrer as cidades de Israel sem que venha o Filho do Homem”. Eles deviam pregar que o reino do Filho do Homem, o Messias, era chegado; eles deviam orar: “Venha o teu reino”; mas eles não teriam percorrido todas as cidades de Israel, orando e pregando dessa maneira, quando esse Reino viesse, na exaltação de Cristo e no derramamento do Espírito. Era um consolo:

[1].  Que aquilo que eles dissessem se realizaria. Eles disseram que o Filho do Homem estava vindo, e eis que Ele vem. Cristo irá confirmar a palavra dos seus mensageiros (Isaias 44.26).

[2].  Que isto se cumprisse rapidamente. Observe que é uma questão de consolo para os obreiros de Cristo que o seu tempo de trabalho seja curto, e termine logo. O trabalhador tem o seu dia; o trabalho e o combate, em pouco tempo, terminarão.

[3].  Que então eles progredissem para uma posição mais elevada. Quando o Filho do Homem vier, eles receberão um poder maior das alturas; então eles eram enviados como agentes e mensageiros, mas dentro de pouco tempo a sua tarefa se ampliaria, e eles seriam enviados como plenipotenciários a todo o mundo.

(2). Aqui há várias mensagens que se relacionam com o seu trabalho em geral, e os problemas que eles iriam enfrentar para realizá-lo, e são mensagens boas e consoladoras.

[1].  Os seus sofrimentos se destinavam a um testemunho para reis e governadores, e para os gentios (v. 18).

Quando o conselho judeu transferir vocês para os governadores romanos, para que eles vos condenem à morte, e vocês forem levados de um tribunal a outro, isto irá ajudar a tornar mais público o vosso testemunho e vos dará a oportunidade de levar o Evangelho aos gentios, assim como aos judeus. Não, vocês darão testemunho a eles, e contra eles, pelos mesmos problemas que vocês vierem a enfrentar. Observe que o povo de Deus, e em especial os ministros de Deus, são suas testemunhas (Isaias 43.10), não somente nas suas realizações como também nos seus sofrimentos. Por isso são chamados de mártires de Cristo, para que as suas verdades transmitam certeza e valor indubitável; e, sendo suas testemunhas, são testemunhas contra aqueles que se opõem a Ele e ao seu Evangelho. Os sofrimentos dos mártires dão testemunho da verdade do Evangelho que eles professam, como também da inimizade dos seus perseguidores, e assim são um testemunho contra eles, e serão transformados em evidência no grande dia em que os santos julgarão o mundo. E a razão da condenação será: “Quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. Se os sofrimentos seriam um testemunho, com que alegria deveriam ser suportados! pois o testemunho que eles dão deverá ser completo (Apocalipse 11.7). Como testemunhas de Cristo, eles precisam suportar os seus sofrimentos.

[2].  Em todas as ocasiões, eles teriam a presença especial de Deus com eles, e a ajuda imediata do seu Espírito Santo, particularmente quando fossem chamados para dar testemunho diante de governadores e reis. “Naquela mesma hora, vos será ministrado o que haveis de dizer”. Os discípulos de Cristo foram escolhidos entre os tolos do mundo, homens sem estudos e ignorantes, e, portanto, podiam com razão não confiar em suas próprias habilidades, especialmente quando trazidos diante de homens poderosos. Quando Moisés foi enviado a Faraó, ele protestou: “Eu não sou homem eloquente” (Êxodo 4.10). Quando Jeremias foi colocado sobre as nações, ele objetou: “Sou uma criança” (Jeremias 1.6,10). Em resposta a esta sugestão, em primeiro lugar; aqui eles recebem a promessa de que lhes seria ministrado na mesma hora, e não algum tempo antes, o que deveriam dizer. Eles falarão de improviso, e também falarão de maneira adequada, como se o assunto nunca tivesse sido tão bem estudado. Observe que quando Deus nos chama para falar por Ele, nós podemos confiar nele para nos ensinar o que dizer; mesmo se estivermos sob as maiores desvantagens e desencorajamentos. Em segundo lugar, aqui eles têm a garantia de que o bendito Espírito Santo dirigirá o apelo por eles. “Porque não sois vós quem falará, mas o Espírito de vosso Pai é que fala em vós” (v. 20). Eles não seriam abandonados nesta ocasião, mas Deus se responsabilizaria por eles; o seu Espírito de sabedoria falaria neles, como algumas vezes a sua providência falou maravilhosamente por eles, e das duas maneiras eles foram manifestados nas consciências até mesmo dos seus perseguidores. Deus lhes daria a capacidade, não apenas de falar de acordo com o objetivo, mas ele que, o que dissessem, o dissessem com zelo sagrado. O mesmo Espírito que os auxiliava no púlpito, os ajudaria nos tribunais. Só pode se sair bem quem tem um advogado assim; aqueles a quem Deus disse, como disse a Moisés (Êxodo 4.12): “Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca”.

[3]. ”Aquele que perseverar até ao fim será salvo” (v. 22). Aqui é muito bom considerar, em primeiro lugar, que estes sofrimentos terão um fim; eles podem durar muito tempo, mas não durarão para sempre. Cristo se consolou com isto, e também os seus seguidores podem fazê-lo, porque “vos digo que importa que em mim se cumpra aquilo que está escrito” (Lucas 22.37). Observe que uma perspectiva que tenhamos da duração dos nossos problemas será muito útil para nos sustentar quando eles nos afligirem. “Os maus cessam de perturbar; e, ali, repousam os cansados” (Jó 3.17). Deus dará o fim que esperamos (Jeremias 29.11). Os problemas podem parecer cansativos, como os dias da prestação dos serviços, mas, bendito seja Deus, eles não duram para sempre. Em segundo lugar, ainda que eles persistam, podem ser suportados; da mesma maneira como não são eternos, também não são insuportáveis; eles podem ser suportados, e suportados até o fim, porque os sofredores serão mantidos, durante os problemas, por braços eternos: “Com a tentação [Deus] dará também o escape” (1 Coríntios 10.13). Em terceiro lugar, a salvação será a compensação eterna daqueles que a suportarem até o fim. A época será tempestuosa, e o caminho será difícil, mas o prazer do lar compensará a todos. Uma consideração de fé para a coroa da glória tem sido, em todos os tempos, o alívio e o sustento para os santos que sofrem (2 Coríntios 4.16,17,18; Hebreus 10.34). Isto não é apenas um incentivo para que suportemos, mas um compromisso para suportar até o fim. Aqueles que suportam apenas durante algum tempo, e na hora da tentação esmorecem, têm corrido em vão, e perderam tudo o que tinham conseguido; mas aqueles que perseveram, e somente eles, podem ter certeza do prêmio: “Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da viela”.

[4]. Qualquer dificuldade que os discípulos de Cristo encontrem, não será maior do que o seu Messias enfrentou antes (vv. 24,25). “Não é o discípulo mais do que o mestre”. Nós descobrimos que isto lhes é dado como um motivo pelo qual eles não devem hesitar em realizar as tarefas mais humildes, como lavar os pés uns dos outros (João 13.14,16). Isto lhes é dado como um motivo pelo qual eles não devem esmorecer nem mesmo com os piores sofrimentos. Eles são lembrados desta mensagem (João 15.20). Ê uma expressão conhecida, “não é o servo maior do que o seu senhor”, e, portanto, que o servo não espere que aconteça coisa melhor. Observe, em primeiro lugar, que Jesus Cristo é o nosso Mestre, o Mestre que nos ensina, e nós somos seus discípulos, e aprendemos com Ele. O Mestre nos governa, e nós, sendo seus servos, devemos obedecer a Ele. Ele é o Senhor da casa, que tem o poder absoluto sobre a igreja, que é a sua família. Em segundo lugar; Jesus Cristo, nosso Senhor e Mestre, encontrou todas as dificuldades neste mundo; eles o chamaram Belzebu, o deus das moscas, o nome elo príncipe dos demônios, com quem disseram que Ele estava de acordo. É difícil dizer aqui o que é mais admirável, se é a maldade dos homens que assim maltrataram a Cristo, ou se é a paciência de Cristo, que se submeteu a ser tratado assim, que aquele que era o Deus da glória fosse caracterizado como o deus das moscas; o Rei ele Israel, como o deus de Ecrom; o Príncipe da luz e da vida, como o príncipe dos poderes da morte e das trevas; que o maior inimigo e destruidor de Satanás fosse reduzido a seu aliado, e além disso suportasse tal contradição dos pecadores. Em terceiro lugar, considerarmos o mau tratamento que Cristo encontrou no mundo deve nos motivar e nos preparar para coisas similares, e para suportá-las com paciência. Não devemos estranhar se aqueles que o odiaram também odeiam aos seus seguidores, por causa do seu nome; nem achar difícil que aqueles que em breve serão como Ele, em glória, sejam agora como Ele, nos sofrimentos. Cristo começou pelo cálice amargo. Estejamos, pois, dispostos a nos comprometer com Ele; o sacrifício que Ele suportou na cruz abriu o caminho para nós.

[5]. “Nada há encoberto que não haja de revelar-se” (v. 26). Nós compreendemos que isto trata, em primeiro lugar, da revelação do Evangelho a todo o mundo. “Dizei-o em luz” (v. 27), pois será dito. As verdades que agora estão, como mistérios, ocultas dos filhos dos homens, serão todas dadas a conhecer, a todas as nações, na sua própria língua (Atos 2.11). Os confins da terra devem ver esta salvação. Observe que é um grande incentivo àqueles que estão realizando a obra de Cristo o fato de que este é um trabalho que certamente será realizado. Ê uma plantação que Deus irá apressar. Ou, em segundo lugar, é um esclarecimento da inocência dos servos sofredores de Cristo, que são chamados até mesmo de Belzebu; o seu verdadeiro caráter agora é invejosamente disfarçado com falsidades, mas não importa como a sua inocência e excelência estejam agora encobertas, elas serão reveladas. Isto ocorre frequentemente neste mundo. Mas a justiça dos santos é feita, pelos eventos subsequentes. para que ela brilhe como a luz. De qualquer maneira, isto ocorrerá no grande dia, quando a sua glória se manifestará a todo o mundo, aos anjos e aos homens, aos quais agora são como espetáculos (1 Coríntios 4.9). Toda reprovação a eles será eliminada, e as suas graças e os seus serviços, que agora estão encobertos, serão revelados (1 Coríntios 4.5). E um consolo ao povo de Deus, sob todas as calúnias e reprovações dos homens, o fato de que haverá uma ressurreição de nomes, assim como de corpos, no último dia, quando os justos brilharão como o sol. Que os ministros de Cristo revelem fielmente as verdades de Deus, e então deixem que Ele, no devido tempo, revele a integridade deles.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 10: 16-42

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Instruções aos Apóstolos

Parte 1

Todos estes versículos falam dos sofrimentos dos ministros de Cristo no seu trabalho. Aqui eles são ensinados a esperar e a preparar-se para estes sofrimentos, e também são instruídos sobre como suportá-los, e como prosseguir com o seu trabalho em meio aos sofrimentos. Esta parte do sermão abrange mais do que a missão atual dos doze, pois não sabemos se eles encontraram quaisquer grandes dificuldades ou enfrentaram grandes perseguições enquanto Cristo estava com eles, nem se eles estavam capacitados para suportar estas coisas; mas aqui eles são avisados dos problemas que enfrentariam quando, depois da ressurreição de Cristo a sua comissão se ampliasse, e o Reino dos céus, que ainda não era chegado, já estivesse estabelecido. Eles não sonhavam com nada ainda, exceto pompa e poder, mas Cristo lhes diz que deviam esperar sofrimentos maiores do que agora enfrentavam; que eles seriam, então, feitos prisioneiros, quando esperavam ser feitos príncipes. É bom saber quais problemas podemos enfrentar no futuro, para que possamos agir de acordo com eles, e não nos vangloriemos, como se tivéssemos dominado as dificuldades, quando ainda estamos apenas rodeando-as.

Aqui estão entrelaçadas: I. Predições de dificuldades, e II. Prescrições de conselho e consolo, com referência a elas.

I – Temos predições de problemas que os discípulos encontrariam no seu trabalho: Cristo previu o sofrimento deles, assim como o seu próprio sofrimento, e ainda assim os fez continuar, como Ele também continuou. Ele lhes falou dos sofrimentos, não apenas para que os problemas pudessem não ser uma surpresa para eles, e, desta forma, um choque para a sua fé, mas também para que, como cumprimento de uma predição, estes sofrimentos pudessem ser uma confirmação para a fé deles.

Ele lhes diz o que iriam sofrer, e quem lhes causaria tal sofrimento.

1.O que eles iriam sofrer: coisas duras, com certeza; pois o Senhor lhes disse: “Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos” (v. 16). E o que um rebanho de pobres ovelhas, indefesas e desprotegidas, pode esperar em meio a uma alcateia de lobos vorazes, a não ser preocupações e destruição? Observe que os homens maus são como lobos, cuja natureza é devorar e destruir. O povo de Deus, e em especial os seus ministros, são como ovelhas entre eles, de uma natureza e disposição contrárias, expostos a eles, e normalmente uma presa fácil para eles. Parece pouco gentil da parte de Cristo expô-los a tanto perigo, a eles, que tinham deixado tudo para segui-lo; mas Ele sabia que a glória reservada para as suas ovelhas, no grande dia em que elas estiverem à sua mão direita, seria uma compensação suficiente para os sofrimentos, assim como para o serviço. Eles são como ovelhas em meio aos lobos, isto é assustador; mas Cristo os envia, e isto é consolador; pois aquele que os envia irá protegê-los, e sustentá-los. Mas para que eles possam saber do pior, Ele lhes diz então, particularmente, o que devem esperar.

(1) Eles devem esperar ser odiados (v. 22). “E odiados de todos sereis por causa do meu nome”. Esta é a raiz de todo o resto; e que raiz amarga! Observe que o mundo odeia aqueles a quem Cristo ama. É o mesmo caso daquele a quem o tribunal absolve, porém, o país condena. Se o mundo odiou a Cristo, sem causa (João 15.25), não é de admirar que odiasse aqueles que traziam a sua imagem e serviam aos seus interesses. Nós odiamos o que é repugnante, e os apóstolos eram considerados como a escória de todos (1 Coríntios 4.13). Nós odiamos o que é nocivo, e eles eram considerados os perturbadores da terra (1 Reis 18.17), e aqueles que atormentavam os seus vizinhos (Apocalipse 11.10). É triste ser odiado, e ser objeto de tanta má intenção, mas é por amor ao seu nome; esta é a verdadeira razão do ódio. Aconteça o que acontecer, haverá consolo para aqueles que são, desta maneira, odiados. Tudo isso é por uma boa causa, e eles têm um bom amigo, que compartilha estas aflições com eles, e que as toma para si.

(2). Eles devem esperar ser presos e levados a juízo, como malfeitores. A maldade inquieta as pessoas e é irresistível, e elas não apenas tentarão, mas conseguirão entregá-los aos conselhos (vv.17,18), ao tribunal das autoridades ou dos juízes, que cuida m da paz pública. Observe que uma grande quantidade de prejuízos é causada com frequência aos bons homens, disfarçada de lei e justiça. “No lugar do juízo reinava a maldade e no lugar da justiça, maldade ainda” (Eclesiastes 3.16). Eles devem esperar problemas, não apenas por parte dos magistrados inferiores nos conselhos, mas também de governadores e reis, os magistrados supremos. Ser trazido diante deles sob descrições tão obscuras – como aquelas que eram comumente feitas a respeito dos discípulos de Cristo – era algo perigoso e temível, pois a ira de um rei é como o rugir de um leão. Nós encontramos essa predição plena­ mente cumprida no livro de Atos dos Apóstolos.

(3). Eles devem esperar ser condenados à morte (v. 21). Eles os entregarão à morte, e assim morrerão em uma cerimónia com pompa e solenidade, o que será apresentado como o rei dos terrores. A maldade dos inimigos se enfurece a ponto de infligir isto; é do sangue dos santos que eles têm sede. A fé e a paciência dos santos permanecem firme, como quem tem a seguinte esperança: “Em nada tenho a minha vida por preciosa”. A sabedoria de Cristo permite isto, sabendo como fazer do sangue dos mártires o selo da verdade, e a semente da igreja. Este desprendimento, por parte desse nobre exército, que não amou a própria vida sendo fiel até à morte, teve um importante resultado: Satanás foi derrotado, e o reino de Cristo e os seus interesses progrediram grandemente (Apocalipse 11.11). Eles foram levados à morte como criminosos; assim os inimigos o pretendiam, mas, na verdade, foram oferecidos como sacrifícios (Filipenses 2.17; 2 Timóteo 4.6); como holocaustos, sacrifícios de reconhecimento da honra de Deus, da sua verdade, e da sua causa.

(4). Eles devem esperar, em meio a estes sofrimentos, ser marcados com os nomes mais odiosos e desonrosos existentes na época. Os perseguidores se sentiriam envergonhados neste mundo, se não vestissem primeiro em peles de urso aqueles a quem importunam, e os representassem de maneira a poder justificar tais crueldades. O mais negro de todos os maus nomes que eles atribuem aos apóstolos é apresentado aqui; eles os chamam de Belzebu, o nome do príncipe dos demônios (v. 25). Eles representam os apóstolos como os líderes dos interesses do reino das trevas; e, uma vez que todos pensam que odeiam o diabo, eles se esforçam para tornar os apóstolos odiosos para toda a humanidade. Considere, e surpreenda-se, ao ver como isto se impôs a este mundo:

[l].  Os inimigos declarados de Satanás são representados como seus amigos; os apóstolos, que destruíam o reino do diabo, são chamados de demônios. Assim os homens lhes atribuem não apenas coisas que eles desconheciam, mas também coisas que eles abominavam, e às quais eram diretamente contrários; eles eram o oposto daquilo de que eram acusados.

[2]. Os servos declarados de Satanás eram tidos como seus inimigos, e nunca realizaram o seu trabalho de maneira mais eficiente do que quando fingiram estar lutando contra ele. Muitas vezes aqueles que são os mais semelhantes ao diabo são os mais aptos a incomodar outros como ele mesmo o faria; e aqueles que o pintam nas roupas dos outros o têm reinando em seus próprios corações. Como é bom que haja um dia se aproximando (como aqui se segue, v. 26) em que aquilo que está encoberto será revelado.

(5) Estes sofrimentos são aqui representados por uma espada e uma dissensão (vv. 34,35). “Não pensem que Eu vim trazer paz, a paz temporal e a prosperidade exterior”. Eles pensavam que Cristo tinha vindo para dar a todos os seus seguidores riqueza e poder neste mundo. “Não”, diz Cristo, “Eu não vim com o objetivo de lhes dar a paz neste mundo; eles podem ter certeza de que terão paz no céu, mas não paz na terra”. Cristo veio para nos dar paz com Deus, paz em nossas consciências, paz com nossos irmãos, mas no mundo nós teremos aflições. Observe que confundem o desígnio do Evangelho aqueles que pensam que a sua profissão de fé no Evangelho irá protegê-los dos problemas, pois ela certamente os exporá a estes problemas. Se todo o mundo recebesse a Cristo, então haveria uma paz universal, mas enquanto houver, e sempre haverá, tantos que o rejeitam (e não somente os filhos deste mundo, mas também a semente da serpente), os filhos de Deus, que são convocados neste mundo, devem esperar sentir os frutos da sua inimizade.

[1]. “Não vim trazer paz, mas espada”. Cristo veio para dar a espada, que é a palavra com a qual os seus discípulos lutam contra o mundo, e esta espada realizou uma obra de conquista (Apocalipse 6.4; 19.21). A espada da perseguição, com a qual o mundo luta contra os discípulos, realiza um trabalho cruel; o mundo se sente enfurecido em seu coração pela espada da palavra (Atos 7.54), e atormentado pelo testemunho dos profetas de Cristo (Apocalipse 11.10). Cristo enviou este Evangelho, o que dá oportunidade de sacarmos esta espada. Também se pode dizer que o Senhor nos enviou esta espada. Ele permite que a sua igreja passe por um estado de sofrimento, para a prova e para o louvor das virtudes do seu povo, e também para que a medida dos pecados de seus inimigos seja aumentada.

[2]. Não esperem paz, mas divisão (v. 35). “Eu vim pôr os homens em dissensão”. Este efeito da pregação do Evangelho não é culpa do Evangelho, mas daqueles que não o recebem. Quando alguns creem nas coisas que são ditas, e outros não, a fé daqueles que creem condena aqueles que não creem, e, portanto, nós temos um inimigo contra aqueles que creem. Observe que as rixas mais violentas e implacáveis sempre foram aquelas surgidas de diferenças em relação à religião. Não há inimizade como aquela dos perseguidores, não há determinação como a dos perseguidos. Assim, Cristo diz aos seus discípulos o que eles iriam sofrer, e estas foram palavras duras. Se eles pudessem suportar isto, poderiam suportar qualquer coisa. Observe que Cristo foi justo e fiel conosco, ao nos contar o pior que podemos encontrar a serviço dele; e Ele quer que sejamos justos com nós mesmos, ao avaliarmos o custo.

2.Ele lhes diz de quem, e por quem, eles viriam a enfrentar estes sofrimentos. Certamente o próprio inferno deve estar libertado, e os demônios, aqueles espíritos desesperados e desesperadores, que não têm participação na grande salvação, nem direito a uma parte dela, devem estar encarnados, antes que tais inimigos malignos possam encontrar e se apegar a uma doutrina, cuja essência seja a boa vontade em relação aos homens, e a reconciliação do mundo com Deus. Você consegue imaginar isto? Todos estes problemas surgem aos pregadores do Evangelho, por parte daqueles a quem eles vieram pregar a salvação. Assim, os homens sanguinários aborrecem aquele que é sincero, mas os retos procuram o seu bem (Provérbios 29.10), e dessa maneira o céu é completamente oposto à terra, porque a terra está extremamente sujeita ao poder do inferno (Efésios 2.2).

Os discípulos de Cristo devem sofrer tais dificuldades:

(1). Por parte dos homens (v. 17): “Acautelai-vos… dos homens”. Em outras palavras: “Vocês precisarão estar sempre vigilantes, mesmo contra aqueles que têm a mesma natureza que vocês, tal é a depravação e a degeneração desta natureza”, “ardilosos e políticos como homens, mas cruéis e bárbaros como animais, e completamente despojados daquilo que se chama de humanidade”. Note que o ódio perseguidor e a inimizade transformam os homens em animais, em demônios. Paulo, em Éfeso, combateu feras sob a forma de homens (1 Coríntios 15.32). Há uma situação triste à qual o mundo chegou. Os melhores amigos que o mundo tem precisam se acautelar dos demais homens. Isto piora os problemas dos servos sofredores de Cristo, pois estes problemas surgem daqueles que são carne da sua carne, feitos do mesmo sangue. Os perseguidores são, neste sentido, piores que animais, pois as suas presas são semelhantes a eles. É muito doloroso que os homens se levantem contra nós (Salmos 124.2), homens dos quais poderíamos esperar proteção e compaixão; homens, e nada mais; meros homens; homens, e não santos; homens naturais (1 Coríntios 2.14); homens do mundo (SaImos 17.14). Os santos são mais que os homens, e são redimidos do seu meio e por isto são odiados por eles. A natureza do homem, se não for santificada, é a pior natureza. do mundo, próxima à dos demônios. Eles são homens, e, portanto, criaturas subordinadas, dependentes, moribundas; são homens, mas são meros homens (Salmos 9.20), e quem pois és tu, para que temas o homem, que é mortal? (Isaias 51.12). Acautelai-vos dos homens, daqueles entre vós que se relacionam com os homens do Sinédrio judeu, que reprovavam a Cristo (1 Pedro 2.4).

(2). Por parte dos homens religiosos, homens que têm uma forma de devoção e que fazem da religião uma exibição. Eles vos açoitarão nas suas sinagogas, os seus lugares de encontro para a adoração a Deus, e par a o exercício da sua disciplina. Eles consideravam o açoitamento dos ministros de Cristo como sendo uma ramificação da sua religião. Paulo foi açoitado nas sinagogas cinco vezes (2 Coríntios 11.24). Os judeus, sob o pretexto do zelo por Moisés. eram os mais amargos perseguidores de Cristo e do cristianismo, e consideravam estas infâmias como pontos positivos da sua religião. Observe que os discípulos de Cristo sofreram muito por parte de perseguidores conscientes, que os açoitavam nas suas sinagogas, os expulsavam e os matavam, e pensavam estar prestando um bom serviço a Deus (João 16.2), e diziam: “O Senhor seja glorificado” (Isaias 66.5; Zacarias 11.4,5). Mas a sinagoga está tão longe de consagrar a perseguição, que a perseguição, sem dúvida, profana e contamina a sinagoga.

(3). Por parte dos homens poderosos, e homens de autoridade. Os judeus não somente os açoitavam – o poder máximo que lhes era atribuído – mas quando não podiam ir além, os entregavam às autoridades romanas, como fizeram com Cristo (João 18.30). “Sereis até conduzidos à presença dos governadores e elos reis” (v. 18), os quais, tendo mais poder, têm a capacidade de causar maiores danos. Os governadores e os reis recebem o seu poder de Cristo (Provérbios 8.15), e deveriam ser seus servos, e proteger e zelar pela sua igreja, mas frequentemente usam o seu poder contra Ele, e se rebelam contra Cristo, e oprimem a sua igreja. Os reis da terra se levantam contra o seu reino (SaImos 2.1,2; Atos 4.25,26). Observe que homens bons sempre tiveram homens poderosos como seus inimigos.

(4). Por pa1te de todos os homens (v. 22). “Odiados de todos sereis”, de todos os homens maus, e estes representam a maioria dos homens, pois todo o mundo se assenta na maldade. Poucos são os que amam, abraça m e aceitam a causa justa de Cristo, e podemos dizer que os amigos desta causa são odiados por todos os homens: “Desviaram-se todos e… comem o meu povo” (SaImos 14.3). A deslealdade a Deus vai tão longe quanto a inimizade contra os santos. Algumas vezes, ela se manifesta de um modo mais genérico do que em outras, mas há um pouco deste veneno espreitando nos corações de todos os filhos da desobediência. O mundo os odeia, pois se maravilha após a besta (Apocalipse 13.3). “Todo homem é mentira”, e, desta forma, odeia a verdade.

(5). Por parte dos seus parentes. “O irmão entregará à morte o irmão” (v. 21). Um homem estará, de acordo com este relato, contra o seu próprio pai; e, além disto, também as pessoas do sexo mais frágil e terno se tornarão perseguidoras e perseguidas. A filha perseguidora estará contra a mãe que tem fé, quando poderíamos pensar que o afeto natural e o dever filial deveriam evitar a disputa, ou encerrá-la rapidamente; e não é de admirar que a nora esteja contra a sogra, quando, com excessiva frequência, a frieza do amor procura oportunidade para a disputa (v. 35). Em geral, os adversários de um homem serão os seus familiares (v. 36). Os que deveriam ser seus amigos se levantarão contra ele, por ter abraçado o cristianismo, e especialmente por aderir a ele, chegando a ser perseguido. Estes adversários se unirão aos seus perseguidores, e se posicionarão contra o cristão. Observe que os laços mais fortes de amor e dever familiar frequentemente são rompidos por um inimigo de Cristo e de sua doutrina. Tal tem sido o poder do preconceito contra a verdadeira religião, e o zelo por uma religião falsa, a ponto de todas as outras considerações, as mais naturais e sagradas, as mais envolventes e atraentes, terem sido sacrificadas a estes moloques. Aqueles que se enfurecem contra o Senhor e os seus ungidos rompem até mesmo estes laços, e sacodem de si aquelas cordas (SaImos 2.2,3). A noiva de Cristo sofre dificuldades pela ira dos filhos de sua própria mãe (Cantares 1.6). Estes sofrimentos são os mais dolorosos; nada fere mais que isto. “Eras tu, homem meu igual” (SaImos 55.12,13). E a inimizade deles normalmente é a mais implacável; um irmão ofendido é mais difícil de conquistar do que uma cidade forte (Provérbios 18.19). Aqueles que estudam a vida dos mártires, tanto dos antigos como dos modernos, conhecem muitos exemplos dessa verdade. Considerando tudo isso, aparentemente todos aqueles que vivem em Cristo Jesus com devoção devem sofrer perseguições; e nós devemos esperar entrar no Reino de Deus em meio a muitas dificuldades.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 10: 5-15

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Instruções aos Apóstolos

Aqui temos as instruções de Cristo aos seus discípulos, quando lhes deu a tarefa de evangelizar. Não é importante saber se esta responsabilidade lhes foi dada em um sermão contínuo, ou se os diversos itens lhes foram mencionados em diversas ocasiões; aqui Ele lhes ordenou. Esta ordenação é chamada de “a bênção de Jacó aos seus filhos”, e com estas instruções Cristo lhes deu uma bênção. Observe:

I – As pessoas às quais Ele os enviou. Estes embaixadores foram instruídos sobre os locais a que deveriam ir.

1.Não aos gentios, nem aos samaritanos. Eles não deveriam ir pelo caminho das gentes, nem seguir qual­ quer caminho fora da terra de Israel, não importando quais tentações pudessem ter. Os gentios não deviam ter o Evangelho levado até eles até que os judeus o tivessem recusado. Quanto aos samaritanos, que eram descendentes do povo mestiço que o rei da Assíria trouxe a Samaria, a sua nação ficava entre a Judéia e a Galileia, de modo que os apóstolos deviam evitar entrar nas cidades dos samaritanos. Cristo tinha se negado a manifestar-se aos gentios ou aos samaritanos, e, portanto, os apóstolos não deviam pregar as boas-novas entre eles. Se o Evangelho estiver oculto de algum lugar, Cristo estará oculto deste lugar: Esta restrição lhes foi imposta somente na sua primeira missão, pois depois eles foram designados para ir a todo o mundo e ensinar a todas as nações.

2.Eles deveriam ir ao encontro das ovelhas perdidas da casa de Israel. A elas Cristo destinou o seu próprio ministério (cap. 15.24), pois Ele era um ministro da circuncisão (Romanos 15.8), e, portanto, a elas os apóstolos, que nada mais eram que seus ajudantes e agentes, deveriam se limitar. A primeira oferta de salvação deveria ser feita aos judeus (Atos 3.26). Observe que Cristo tinha uma preocupação particular e muito terna pela casa de Israel; eles eram amados por causa dos pais (Romanos 11.28). Com compaixão, Ele os considerava como ovelhas perdidas, que Ele, como um pastor, devia tirar dos atalhos do pecado e do erro, onde eles tinham se perdido, e onde, se não fossem trazidos de volta, vagariam incessantemente (veja Jeremias 2.6). Os gentios também eram ovelhas desgarradas (1 Pedro 2.25). Cristo descreve assim aqueles a quem os apóstolos foram enviados, para despertar-lhes a diligência no seu trabalho; eles estavam sendo enviados à casa de Israel (da qual faziam parte), por quem só podiam sentir piedade, e desejo de ajudar.

II – A missão de pregar que Ele lhes designou. Ele não os enviou sem urna tarefa: Ele lhes disse: “E, indo, pregai” (v. 7). Eles deviam ser pregadores itinerantes: onde chegassem, eles deviam proclamar o início do Evangelho, dizendo: “É chegado o Reino dos céus”. Não que eles não devessem dizer nada além disso, mas este devia ser o seu texto; este assunto eles deviam expandir, deixar que as pessoas soubessem que o reino do Messias, que é o Senhor dos céus, agora se estabelece, de acordo com as Escrituras; a partir disso, a consequência é que os homens devem se arrepender dos seus pecados, e abandoná-los , para poderem ser admitidos nos privilégios daquele reino. Está escrito (Marcos 6.12) que, saindo eles, pregavam ao povo que se arrependesse, o que seria o uso e a aplicação adequados desta dou­ trina que trata da chegada do Reino dos céus. Portanto, eles devem esperar ouvir mais, em breve, sobre este tão esperado Messias, e devem estar preparados para receber a sua doutrina, para crer nele, e para se submeter ao seu jugo. Esta pregação era como a luz da manhã, que informa sobre a aproximação do sol nascente. Como esta pregação era diferente da de Jonas, que proclamava que a destruição estava chegando! (Jonas 3.4). Esta pregação apregoa que a salvação está chegando, que ela está perto daqueles que temem a Deus; a misericórdia e a verdade se encontram (Salmos 85.9,10), ou seja, é chegado o Reino dos céus: não apenas a presença pessoal do rei, que pode ser excessivamente apreciada, mas um reino espiritual, que será estabelecido nos corações dos homens, quando a sua presença corpórea for removida.

Isto era a mesma coisa que João Batista e Cristo tinham pregado antes. As pessoas precisam ter as boas verdades repetidas, e se elas forem pregadas e ouvidas com um afeto renovado, soarão como se fossem novidades. Cristo, no Evangelho, é o mesmo ontem, hoje e eternamente (Hebreus 13.8). Depois, na verdade, quando o Espírito foi derramado, e a igreja cristã foi formada, veio este Reino dos céus, de que agora se fala como já chegado; mas o Reino dos céus ainda deve ser o assunto da nossa pregação. Agora que ele chegou, nós devemos dizer às pessoas que ele chegou para elas, e devemos apresentar-lhes os seus preceitos e privilégios; e há um reino de glória que ainda está por vir, do qual devemos falar como se já tivesse chegado, despertando as pessoas à diligência através dessa consideração.

III – O poder que Jesus lhes deu para realizar milagres para a confirmação da sua doutrina (v. 8). Quando Ele os enviou para pregar a mesma doutrina que Ele tinha pregado, Ele os capacitou para confirmá-la, pelos mesmos selos divinos, para que ela jamais pudesse ser vista como uma mentira. O Reino de Deus já veio; podemos pedir milagres, hoje mesmo, sabendo que o alicerce já foi lançado, e o edifício já foi edificado. Porém, não devemos pedir estes milagres como sinais do estabelecimento do seu reino. Com o assunto estabelecido, e a doutrina de Cristo suficientemente confirmada pelos milagres que Cristo e os seus apóstolos realizaram, pedir mais sinais a título de mera confirmação é tentar a Deus. Aqui, eles são orientados:

1.A usar o seu poder para fazer o bem: não “ire mover as montanhas”, nem “fazer descer fogo do céu”, mas “curar os enfermos e limpar os leprosos”. Eles são enviados como bênçãos públicas, para dar a entender ao mundo que o amor e a bondade eram o espírito e a genialidade daquele Evangelho que eles tinham vindo pregar, e daquele reino que eles se dedicavam a estabelecer. Assim, pareceria que eles eram servos daquele Deus que é bom e que faz o bem, e cuja misericórdia está em todas as suas obras, e que a intenção da doutrina que eles pregavam era de c:urnr almas enfermas, e de ressuscitar aqueles que estavam mortos no pecado; e por isto, talvez, a ressurreição dos mortos é mencionada. Embora não leiamos que eles tenham ressuscitado nenhuma vida antes da ressurreição de Cristo, ainda assim eles foram essenciais para ressuscitar muitos à vida espiritual.

2.A fazer isso de graça. “De graça recebestes, de graça dai”. Aqueles que tinham o poder para curar todas as enfermidades, tinham uma oportunidade de enriquecer. Quem não compraria tais curas garantidas, a qualquer preço? Dessa forma, eles são aconselhados a não lucrar com o poder que tinham de realizar milagres: eles deviam curar de graça, par a exemplificar ainda mais a natureza e o caráter do reino do Evangelho, que é feito de graça abundante, “gratuitamente pela sua graça” (Romanos 3.24). Comprai [o remédio] sem dinheiro e sem preço (Isaias 55.1). E a razão é: “De graça recebestes”. O seu poder para curar os enfermos não lhes custava nada e, portanto, eles não deviam obter nenhum benefício secular para si mesmos. Simão, o mágico, não teria oferecido dinheiro pelos dons do Espírito Santo, se não esperasse ganhar dinheiro com eles (Atos 8.18). A consideração da liberdade com que Cristo nos fez o bem deveria nos deixar livres para fazer o bem aos outros.

IV – A provisão que deve ser feita para eles nesta expedição; esta é uma parte importante a ser considerada ao se enviar um embaixador, que deve ter a responsabilidade da mensagem. Quanto a isto:

1.Eles não deviam fazer nenhuma provisão para si mesmos (vv. 9,10). “Não possuais ouro, nem prata”. Da mesma maneira como, por um lado, eles não devem conseguir bens com o seu trabalho, também, por outro lado, eles não devem gastar o pouco que têm para realizá-lo. Isto estava limitado a esta missão, e Cristo os ensinou a:

(1) Agir de acordo com a conduta da prudência humana. Eles vão fazer apenas uma curta viagem, e em breve retornarão ao seu Messias, e de novo ao seu quartel-general, e, portanto, por que levariam o peso de algo de que não precisariam?

(2) Agir confiando da providência divina. Eles devem ser ensinados a viver sem se preocuparem com a vida (cap. 6.25ss.). Observe que aqueles que realizam uma missão para Cristo têm, mais que todas as outras pessoas, razão de confiar nele para ter alimentos. Sem dúvida, Jesus não deseja que aqueles que trabalham no reino passem necessidades. Aqueles que Ele emprega, da mesma maneira como são colocados sob proteção especial, também têm direito a provisões especiais. Os servos contratados de Cristo terão pão suficiente e de sobra; enquanto permanecermos fiéis a Deus e ao nosso dever, e cuidarmos de realizar bem o nosso trabalho, podemos colocar em Deus todas as nossas outras preocupações. Jeová-jiré, que o Senhor atenda as nossas necessidades, e as dos nossos, como Ele julgar apropriado.

2.Eles podiam esperar daqueles a quem estavam sendo enviados o fornecimento do que fosse necessário (v.10). “Digno é o obreiro do seu alimento”. Eles não de viam esperar ser alimentados por milagre, como foi Elias, mas podiam confiar em Deus para motivar os corações daqueles aos quais estavam sendo enviados, para que fossem generosos para com eles, fornecendo o que eles necessitassem. Embora aquele que serve ao altar não deva esperar ficar rico pelo altar, ainda assim eles podiam esperar viver, e viver confortavelmente do altar (1 Coríntios 9.13,14). É adequado que eles não pudessem obter o seu sustento do seu trabalho. Os ministros são, e devem ser, operários, trabalhadores, e são tão dignos do seu alimento a ponto de não serem forçados a nenhum outro trabalho para obtê-lo. Cristo queria que os seus discípulos, assim como não deixassem de ter confiança no seu Deus, também não deixassem de confiar nos seus compatriotas, a ponto de duvidar de uma subsistência confortável entre eles. Se você pregar-lhes as boas-novas, e empenhar-se para fazer o bem entre eles, certamente eles lhe darão comida e bebida, suficientes para as suas necessidades; e, se o fizerem, nunca deseje guloseimas; Deus irá pagar o seu salário no futuro, e assim será até então.

V – A conduta que deviam observar em qualquer lugar (vv. 11 -15). Eles partiam sem saber exatamente para onde iam, sem ser convidados, sem ser esperados, sem conhecer ninguém, e sem que ninguém os conhecesse; saíam da terra do seu nascimento dirigindo-se a uma terra estranha. Que lei deveriam seguir? Que rumo deveriam tomar? Cristo não os enviaria sem instruções completas, e aqui estão elas.

1.Eles são aqui orientados sobre como se comportarem em relação aos que lhes eram estranhos. Como proceder:

(1). E m cidades e aldeia. estranhas: “Procurai saber quem nela seja digno”.

[1]. Imagina-se que havia alguns assim em cada lugar, que estavam mais dispostos que outros a receber o Evangelho, e os seus pregadores, embora fosse uma época de corrupção e apostasia geral. Observe que nas piores épocas e nos piores lugares, nós podemos esperar, com desprendimento, que existam alguns que se destaquem, e que sejam melhores que os seus vizinhos; alguns que nadem contra a corrente, e que sejam como o trigo em meio à palha. Havia santos na casa de Nero. Devemos procurar saber quem é digno, aqueles que têm algum temor a Deus, e aprimorar a luz e o conhecimento que eles têm. Até mesmo as melhores pessoas estavam longe de merecer o favor de uma oferta do Evangelho; mas alguns teriam mais probabilidade que outros de dar aos apóstolos e à sua mensagem uma recepção favorável, e não pisariam em tais pérolas. Observe que a disposição prévia ao que é bom é, ao mesmo tempo, uma orientação e um incentivo aos ministros, ao lidarem com as pessoas. Existe mais esperança de que a palavra seja benéfica àqueles que já estão dispostos a ouvi-la, àqueles que a aceitam; e existem pessoas assim por toda parte.

[2]. Eles devem procurar estas pessoas. Não devem perguntar pelas melhores hospedarias; os estabelecimentos públicos não eram lugares adequados para eles, já que eles não levavam dinheiro consigo (v. 9), nem esperavam receber nenhum (v. 8), mas deviam pro­ curar alojamento em casas particulares, com aqueles que os recebessem bem, e não deviam esperar nenhuma outra compensação além da recompensa de um profeta, a recompensa de um apóstolo, a sua pregação e a sua oração. Observe que aqueles que proclamam o Evangelho não devem reclamar do custo de fazê-lo, nem prometer que sobreviverão por ele neste mundo. Eles de vem procurar, não quem é rico, mas quem é digno; não quem é o melhor cavalheiro, mas quem é o melhor homem. Os discípulos de Cristo, aonde quer que fossem, deviam perguntar pelas boas pessoas do lugar, e procurar conhecê-las; quando aceitamos a Deus como o nosso Deus, aceitamos o seu povo como nosso povo, e os crentes naturalmente se alegram por estarem em contato com outros crentes. Em todas as suas viagens, Paulo encontrava os irmãos, quando havia (Atos 28.14). Está implícito que se eles procurassem aqueles que eram dignos, poderiam encontrá-los. Aqueles que fossem melhores que os seus vizinhos se distinguiriam, e qualquer pessoa poderia lhes dizer: “Ali vive um homem honesto, sóbrio e bom”, pois estas são características que, como o unguento na mão direita, não se podem ocultar e enchem a casa com o seu perfume. Todos sabiam onde estava a casa do vidente (1 Samuel 9.18).

[3]. Na casa daqueles que achassem dignos, eles deviam permanecer. Isto dá a entender que eles deviam permanecer pouco tempo em cada cidade, para não precisar mudar de alojamento, mas em qualquer casa a que a Providência os conduzisse no início, eles deviam permanecer até deixar aquela cidade. Justifica-se suspeitar que não têm bom desígnio aqueles que estão frequentemente mudando de alojamento. Convém que os discípulos de Cristo aproveitem ao máximo a sua permanência, e não estejam mudando a cada desgosto ou inconveniência.

(2). Em casas estranhas. Quando tivessem encontrado a casa de alguém que julgavam digno, eles deviam, à sua entrada, saudá-la. Através dessas cortesias comuns, estejam rapidamente com as pessoas, como sinal de sua humildade. Não pensem que é algo depreciativo convidar-se a uma casa, nem se prendam ao detalhe de serem convidados. Saúdem a família:

[1]. Para possibilitar a conversa, e assim apresentar a sua mensagem (dos temas da conversa comum podemos, de forma imperceptível, passar àquela conversa que é útil para a edificação).

[2]. Para testar se são bem-vindos ou não. Você perceberá se a saudação é recebida com timidez e frieza, ou com uma reação rápida. Aquele que não receber a sua saudação com gentileza, não irá receber com gentileza a sua mensagem, pois quem é fiel no mínimo também é fiel no muito (Lucas 16.10).

[3]. Para se insinuar, tendo uma boa opinião da parte deles. Saúdem a família, para que eles possam ver que vocês são sérios e não mal-humorados. Observe que a religião nos ensina a ser corteses e educados, e prestativos a todos com que temos contato. Embora os apóstolos tivessem o respaldo da autoridade do próprio Filho de Deus, ainda assim as suas instruções eram, ao chegar a uma casa, não obrigá-la, mas saudá-la. Pedir por caridade é o modo evangélico. As almas são atraídas a Cristo com cordas humanas, e se mantêm ao lado dele por cordas de amor (Oseias 11.4). Quando Pedro fez a primeira oferta do Evangelho a Cornélio, um gentio, o apóstolo foi saudado em primeiro lugar (veja Atos 10.25), pois os gentios também apreciavam aquilo que os judeus apreciavam – a cordialidade.

Depois de terem saudado a família de uma maneira cortês, eles deveriam, por sua vez, analisá-la, e proceder adequadamente. Observe que o olhar de Deus está sobre nós, para observar a recepção que damos às pessoas boas, e aos bons ministros: “Se a casa for digna, desça sobre ela a vossa paz; mas, se não for digna, torne para vós a vossa paz” (v. 13). Assim, parece que mesmo depois de terem perguntado pelo mais digno (v. 11), era possível que eles pudessem descobrir aqueles que não eram dignos. Observe que embora seja sábio ouvir a opinião e os relatos comuns, é tolice confiar neles. A sabedoria do prudente é que ele compreenda ao seu próprio modo. Esta regra se destina:

Em primeiro lugar, à satisfação dos apóstolos. A saudação comum era: “Paz seja convosco”; da maneira como eles a usavam, ela se transformou no próprio propósito do Evangelho; era a paz de Deus, a paz do Reino dos céus, que eles desejavam. Eles não deveriam pronuncia-la promiscuamente, porque muitos eram indignos dela; porém, a orientação servia para limpá-los deste escrúpulo. Cristo lhes diz que esta oração do Evangelho (pois é isto que esta expressão tinha se tornado) deveria ser dita a todos, como a prova de que o Evangelho se destinava a todos, indefinidamente, e que deveriam deixar que Deus, que conhece o coração e o verdadeiro caráter de todos os homens, determinasse a sua consequência. Se a casa fosse digna, colheria os benefícios da sua bênção; se não fosse, não haveria nenhum prejuízo, os apóstolos não perderiam o benefício; ela voltaria para eles, assim como as orações pelos inimigos ingratos voltaram a Davi (SaImos 35.13). Observe que é conveniente julgarmos caridosamente a todos, orarmos sinceramente por todos, e nos portarmos de modo cortês com todos, pois este é o nosso papel, e deixarmos que Deus determine o efeito que isto terá sobre eles, pois esta parte só compete a Ele.

Em segundo lugar, para a orientação deles. Em outras palavras, se, depois da sua saudação, os apóstolos tivessem a impressão de que a casa era verdadeiramente digna, eles deveriam deixar que ela desfrutasse mais da sua companhia, e deixar que a sua paz descesse sobre ela; deveriam pregar-lhes o Evangelho, a paz de Jesus Cristo; mas se não fosse este o caso, se a casa fosse rude com os apóstolos, e fechasse as suas portas, eles deveriam deixar que a sua paz, a mesma em que eles se encontravam, retornasse para eles. Deveriam retirar o que haviam dito e voltar as costas para aquela casa; ao desprezar aquilo que eles tinham a oferecer, ela se tornou indigna do restante dos seus favores, e os interromperam. Grandes bênçãos são frequentemente perdidas por um desprezo ou por uma negligência aparentemente pequena e insignificante, quando os homens estão sendo postos à prova, juntamente com o seu comportamento. Foi assim que Esaú perdeu o seu direito de primogenitura (Genesis 25.34), e Saul, o seu reino (1 Samuel 13.13,14).

2.Aqui eles são orientados a como agir em relação àqueles que os rejeitassem. Apresenta-se o caso (v. 14) daqueles que não os recebem, nem ouvem as suas palavras. Os apóstolos poderiam pensar que por terem tal doutrina para pregar, e tal poder para realizar milagres, para a confirmação da doutrina, sem dúvida eles só poderiam ser universalmente bem recebidos. Porém, eles ouvem de antemão que haveria aqueles que os desprezariam, e olhariam com menosprezo para eles e para a sua mensagem. Observe que os melhores e mais poderosos pregadores do Evangelho podem esperar encontrar algumas pessoas que não lhes darão ouvidos nem lhes mostrarão nenhum sinal de respeito. Muitos se recusarão a ouvir até mesmo o som mais alegre, e não darão ouvidos à voz daqueles que lhes trazem as boas-novas. Considere: “Se ninguém vos receber, nem escutar as vossas palavras”. Note que o desprezo pelo Evangelho normalmente acompanha o desprezo pelos seus ministros, e qualquer um deles se transformará em um desprezo por Cristo, e será computado dessa maneira.

Neste caso, temos:

(1) As orientações dadas aos apóstolos sobre o que devem fazer. Eles devem sair daquela casa ou cidade. O Evangelho não se demora com aqueles que não o recebem. Ao partir, eles devem sacudir o pó dos seus pés:

[1]. Abominando a maldade deles. Isto era tão abominável, que até mesmo contaminava o solo onde eles passavam, e assim deveria ser sacudido como uma coisa imunda. Os apóstolos não devem ter amizade nem comunhão com aqueles que rejeitam o Evangelho, e também não devem levar consigo o pó da cidade deles. As ações dos que se desviam não se pegarão a mim (SaImos 101.3). O profeta não devia comer nem beber em Betel (1 Reis 13.9).

[2). Denunciando a ira contra eles. Isto devia significar que eles eram vis e maus como o pó, e que Deus os sacudiria. A poeira dos pés dos apóstolos, que eles deixariam atrás de si, daria testemunho contra essas pessoas, e seria uma evidência de que o Evangelho lhes tinha sido pregado (Marcos 6.11). Compare com Tiago 5.3. Veja isto em prática (Atos 13.51; 18.6). Observe que aqueles que desprezam a Deus, e ao seu Evangelho, serão pouco apreciados.

(2) A condenação destinada a estes desobedientes voluntários (v.15). “No Dia do Juízo, haverá menos rigor para o país de Sodoma e Gomorra”. Considere:

(1). Há um dia de julgamento futuro, quando todos aqueles que recusaram o Evangelho certamente serão chamados para responder por isto; por mais que agora brinquem com esta decisão. Aqueles que não ouvem a doutrina que poderia salvá-los serão levados a ouvir a sentença que os destruirá. O seu julgamento estará suspenso, até aquele dia.

[2]. Existirão diferentes graus de punição naquele dia. Todas as dores do inferno serão insuportáveis, mas alguns sofrerão mais que outros. Alguns pecadores irão mergulhar no inferno mais fundo que outros, e serão açoitados com mais açoites.

[3]. A condenação daqueles que rejeitam o Evangelho, neste dia, será mais pesada e severa do que a de Sodoma e Gomorra. Diz-se que Sodoma sofrerá a pena do fogo eterno (Judas 7). Mas esta vingança virá com mais severidade sobre aqueles que desprezam a grande salvação. Sodoma e Gomorra eram excessivamente pecadoras (Genesis 13.13), e o que representou o máximo da sua maldade foi que não receberam os anjos que tinham sido enviados a elas, mas os atacaram (Genesis 19.4,5) e não ouviram as suas palavras (v. 14). E ainda assim haverá mais tolerância com elas do que com aqueles que não recebem os ministros de Cristo, e não ouvem as suas palavras. A ira de Deus contra eles será mais ardente, e as suas próprias reflexões sobre si mesmos serão mais cortantes. “Filho, lembre-te” ele que Eu falarei mais terrivelmente aos ouvidos daqueles que receberam uma oferta justa da vida eterna, e preferiram a morte. A maldade de Israel, quando Deus lhes enviou os seus servos e profetas, é considerada, na prestação de contas, mais atroz que a maldade de Sodoma (Ezequiel 16.48,49). Quanto mais agora que Ele lhes enviou o seu Filho, o grande Profeta.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 10: 1- 4

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Os Apóstolos São Enviados

Nestes versículos, temos:

I – Quem foram aqueles que Cristo ordenou para ser seus apóstolos ou embaixadores; eram seus discípulos (v. 1). Ele os tinha chamado, havia algum tempo, para que fossem discípulos, seus seguidores imediatos e ajudantes constantes, e naquela ocasião Ele lhes disse que eles deveriam ser pescadores de homens, promessa que Ele agora cumpria. Cristo normalmente concede honras e graças em estágios; a luz de ambas, como a luz da manhã, brilha cada vez mais. Durante todo o tempo, Cristo manteve esses doze:

1.Em uma situação de experiência. Embora conheça o ser humano, e soubesse desde o início o que havia neles (João 6.70), ainda assim Ele usou este método para dar um exemplo à sua igreja. Observe que sendo o ministério uma grande responsabilidade, era conveniente que os homens fossem testados durante algum tempo, antes que ele lhes fosse confiado. “E também estes sejam primeiro provados” (1 Timóteo 3.10). Portanto, “a ninguém imponhas precipitadamente as mãos” (1 Timóteo 5.22), mas deixai que esta pessoa seja, primeiramente, observada como um candidato em experiência, porque os pecados de alguns homens vão adiante, e outros os seguem.

2.Em uma condição de preparação. Todo o tempo Jesus esteve preparando-os para esta grande obra. Observe que aqueles que Cristo designa e chama para qualquer ser viço, Ele primeiramente, de certa maneira, os prepara e qualifica para tanto. Ele os preparou:

(1) Levando-os para estar com Ele. Observe que o melhor preparativo para a obra do ministério é o conhecimento e a comunhão com Jesus Cristo. Aqueles que o servem devem estar com Ele (João 12.26). Paulo teve Cristo revelado, não somente para ele, mas nele, antes que fosse pregá-lo entre os gentios (Gálatas 1.16). Pelos atos vivos de fé e pela prática frequente de orações e meditações, esta comunhão com Cristo deve ser mantida e preservada, e essa é uma qualificação essencial para a obra do ministério.

(2) Ensinando-os. Eles estavam com Ele como alunos, e Ele os ensinava em particular, além do benefício que eles obtinham com a sua pregação pública. Ele lhes abriu as Escrituras e ampliou sua compreensão para entenderem as Escrituras. Foi-lhes permitido conhecer os mistérios do Reino dos céus e para eles estes mistérios foram esclarecidos. Aqueles que são designados para ser professores devem, antes, ser aprendizes; eles de­ vem receber, antes que possam dar; eles devem ser capazes de ensinar outros (2 Timóteo 2.2). As verdades do Evangelho devem ser entregues a eles, antes que sejam encarregados de ser ministros do Evangelho. Dar a autoridade de ensinar a homens que não têm capacidade para isto não é nada mais que uma zombaria a Deus e à igreja; é mandar mensagens pelas mãos de um tolo (Provérbios 26.6). Cristo ensinou os seus discípulos antes de enviá-los (cap. 5.2), e depois, quando ampliou a missão deles, deu-lhes instruções mais amplas (At 1.3).

II – Qual foi a comissão que Ele lhes deu.

1.Ele os chamou para que viessem até Ele (v. 1). Ele os tinha chamado antes, para que o seguissem; agora Ele os chama para que venham até Ele, admitindo-os a uma familiaridade maior, e não mais os conservando a uma certa distância, de onde eles tinham observado até então. Aqueles que se humilharem, serão exaltados. Dizia-se que os sacerdotes, sob a lei, aproximavam-se de Deus mais que as outras pessoas; a mesma coisa pode ser dita sobre os ministros do Evangelho; eles são chamados a se aproximarem de Cristo, o que, assim como é uma honra, também deve lhes provocar um certo respeito e temor. Lembremo-nos de que Cristo será santificado naqueles que se aproximam dele. Percebe-se que quando os discípulos iam receber instruções, eles se aproximavam de Jesus por sua própria vontade (cap. 5.1). Mas agora que eles seriam ordenados, Ele os chamou. Convém aos discípulos de Cristo que se predisponham mais a aprender do que a ensinar. No sentido da nossa própria ignorância, devemos procurar oportunidades de sermos ensinados, e da mesma maneira nós devemos esperar por um chamado, um chamado claro, antes de assumir a responsabilidade de ensinar aos outros; pois nenhum homem deve apropriar-se dessa honra.

2.Ele lhes deu poder, autoridade no seu nome, para convocar os homens à obediência, e para a confirmação daquela autoridade que também coloca os demônios sob sujeição. Toda a autoridade legítima deriva de Jesus Cristo. Todo o poder é dado a Ele, sem limites, e os poderes subordinados são ordenados por Ele. Ele coloca sobre os seus ministros um pouco da sua honra, assim como Moisés colocou um pouco da sua honra sobre Josué. Note que é uma prova inegável da plenitude do poder que Cristo usava como Mediador o fato de que Ele pudesse distribuir o seu poder àqueles a quem Ele usava, e os capacitasse a realizar, em seu nome, os mesmos milagres que Ele realizava. Ele lhes deu poder sobre os espíritos imundos, e sobre todos os tipos de enfermidades. Observe que o desígnio do Evangelho é vencer o mal e curar o mundo. Estes pregadores foram enviados, destituídos de todas as vantagens externas que os pudessem recomendar: Eles não tinham riqueza, nem aprendizado, nem títulos honoríficos, e eram muito poucos; portanto, era essencial que eles tivessem algum poder extraordinário que os colocasse acima dos escribas.

(1). Ele lhes deu poder contra os espíritos imundos, para expulsá-los. Observe que o poder entregue aos ministros de Cristo está diretamente apontado contra o diabo e o seu reino. O diabo, sendo um espírito imundo, trabalha tanto em erros doutrinários (Apocalipse 16.13) como em concupiscências (2 Pedro 2.10); e, nos dois casos, os ministros têm uma acusação contra ele. Cristo lhes deu o poder de expulsá-lo dos corpos das pessoas; mas isto deveria significar a destruição do reino espiritual do diabo, como também de todas as suas obras; para este propósito, o Filho de Deus se manifestou.

(2). Ele lhes deu poder para curar todos os tipos de enfermidades. Ele os autorizou a realizar milagres para a confirmação da sua doutrina, para provar que ela era de Deus; e eles deviam realizar milagres úteis para exemplificá-la, para provar que ela não apenas era confiável, mas digna de toda a aceitação; que o desígnio do Evangelho é curar e salvar. Os milagres de Moisés eram, muitos deles, para a destruição. Os milagres que Cristo realizou, e designou aos seus apóstolos que realizassem, eram todos para a edificação, e evidenciavam que Ele era não apenas o grande Professor e Governante, mas também o grande Redentor do mundo. Observe que a ênfase é colocada sobre a extensão do seu poder, sobre toda enfermidade, e todo mal, sem a exceção nem mesmo daqueles que são reconhecidamente incuráveis, e com a censura dos médicos. Na graça do Evangelho, existe um a pomada para cada ferida, um remédio para cada doença. Não existe doença espiritual tão maligna, tão inveterada, mas existe suficiência de poder em Cristo para a sua cura. Que ninguém, portanto, diga que não existe esperança, ou que a brecha é tão grande quanto o mar a ponto de não poder ser curada.

III – O número e os nomes daqueles que foram comissionados. Eles foram feitos apóstolos, isto

é, mensageiros. Anjo e apóstolo, as duas palavras significam a mesma coisa, alguém enviado em uma missão, um embaixador. Todos os ministros fiéis são enviados por Cristo, mas aqueles que foram primeira e imediatamente enviados por Ele, são eminentemente chamados de apóstolos; os primeiros-ministros de estado no seu reino. Mas isto foi apenas a parte inicial do seu trabalho; quando Cristo ascendeu aos céus é que Ele deu alguns para apóstolos (Efésios 4.11). O próprio Cristo é chamado de apóstolo (Hebreus 3.1), pois foi enviado pelo Pai, e também os enviou (João 2.21). Os profetas eram chamados de mensageiros de Deus.

1.Eles eram doze, uma referência ao número de tribos de Israel, e aos filhos de Jacó, que eram os patriarcas dessas tribos. A Igreja do Evangelho é o Israel de Deus; os judeus foram os primeiros convidados a entrar nela; os apóstolos foram os pais espirituais, para gerar uma semente para Cristo. O Israel que segue a carne deve ser rejeitado pela sua infidelidade; estes doze, portanto, são nomeados para ser os pais de outra nação de Israel. Estes doze, pela sua doutrina, deverão julgar as doze tribos de Israel (Lucas 22.30). Eles eram as doze estrelas que constavam da coroa da igreja (Apocalipse 12.1), os doze fundamentos da nova Jerusalém (Apocalipse 21.12,14), caracterizados pelas doze pedras preciosas no peitoral de Arão, os doze pães na mesa dos pães da proposição, as doze fontes de água em Elim. Este era aquele famoso tribunal (e para torná-lo um grande tribunal, Paulo foi acrescentado a ele) que foi nomeado para analisar a situação entre o Rei dos reis e toda a humanidade. E, neste capítulo, os membros deste tribunal recebem a responsabilidade que lhes é dada por aquele a quem todo o julgamento foi confiado.

2.Os seus nomes são aqui registrados, e isto é feito para a honra deles. Até nisto eles tinham mais razões para se alegrar, porque os seus nomes estavam escritos nos céus (Lucas 10.20), enquanto os nomes dos arrogantes e poderosos da terra são enterrados na poeira. Observe:

(1).Dos doze apóstolos, há alguns sobre os quais as Escrituras não nos informam nada além dos seus nomes, como Bartolomeu e Simão, o zelote; e ainda assim eles foram servos fiéis a Cristo e à sua igreja. Observe que nem todos os bons ministros de Deus são igualmente famosos, nem os seus atos são comemorados da mesma maneira.

(2). Eles são nomeados em pares; pois no início assim foram enviados, porque dois é melhor que um; um serviria ao outro, e juntos serviriam melhor a Cristo e às almas; o que um deles esquecesse, o outro lembraria, e da boca de duas testemunhas todas as palavras se estabeleceriam. Três dos pares eram compostos de irmãos: Pedro e André, Tiago e João, e o outro Tiago e Lebeu. Observe que a amizade e o companheirismo devem ser mantidos nas relações, e devem ser úteis à religião. É algo excelente quando irmãos de sangue são irmãos pela graça, e estes dois laços fortalecem cada um deles.

(3). Pedro é nomeado em primeiro lugar, porque ele foi o primeiro a ser chamado ou porque ele era o mais entusiasmado deles, e em todas as ocasiões ele se fazia a voz dos demais, e além disso ele seria o apóstolo da circuncisão. Mas isso não lhe deu nenhum poder sobre os demais apóstolos, nem existe a menor marca de que qualquer supremacia lhe tenha sido dada, ou mesmo reivindicada por ele, neste grupo sagrado.

(4). Mateus, o escritor deste Evangelho, aqui se une a Tomé (v. 3), mas em dois aspectos existe uma diferença entre este relato e os de Marcos e Lucas (Marcos 3.18; Lucas 6.15), onde Mateus é citado em primeiro lugar; nesta ordem, ele parece ter sido ordenado antes de Tomé; mas aqui, na sua própria lista, Tomé é nomeado em primeiro lugar. Observe que é muito apropriado que os discípulos de Cristo desejem, uns aos outros, que estejam em honra. Nos livros de Marcos e Lucas, ele é chamado somente de Mateus; aqui, de Mateus, o publicano, o cobrador de impostos, que foi chamado daquele emprego Infame para ser um apóstolo. Bom é que aqueles que são promovidos à honra com Cristo, olhem para a rocha de onde foram cortados; frequentemente para se lembrarem do que eram antes que Cristo os chamasse, para que dessa maneira possam se conservar humildes, e para que a graça divina possa ser glorificada cada vez mais. Mateus, o apóstolo, era Mateus, o publicano.

(5). Em algumas versões em inglês, Simão é chamado de “o cananeu”, um homem de Caná da Galileia, onde provavelmente nasceu; aqui ele é chamado de Simão, “o zelote”, que alguns interpretam como sendo o significado de “cananeu”.

(6). Judas Iscariotes é sempre citado por último, e com aquela marca negra sobre o seu nome, “aquele que o traiu”; o que dá a entender que, desde o início, Cristo sabia quão infeliz aquele homem era, e também que tinha um demônio, e que provaria ser um traidor; ainda assim, Cristo o recebeu entre os apóstolos, para que não fosse uma surpresa e um desencorajamento para a sua igreja se, em alguma ocasião, os escândalos mais desprezíveis acontecessem nas melhores sociedades. Estas manchas têm estado nas nossas festas de caridade; joio em meio ao trigo, lobos junto às ovelhas; mas se aproxima o dia da descoberta e da separação, quando os hipócritas serão desmascarados e lançados fora. Nem o apostolado, nem os demais apóstolos, foram piores por Judas ter sido um dos doze, enquanto a sua maldade estava oculta.