ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 17 – 25

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A Traição de Judas é predita

Temos aqui um relato da celebração da Páscoa por Cristo. Vivendo sob a lei, Ele se submeteu a todas as ordenanças desta, dentre elas, a Páscoa. Ela era celebrada em memória da libertação e da saída de Israel do Egito, o dia do nascimento desse povo; era uma tradição dos judeus, que nos dias do Messias eles deveriam ser redimidos no mesmo dia de sua saída do Egito. Isto foi cumprido exatamente assim, porque Cristo morreu no dia da Páscoa, no dia em que eles começaram a sua marcha.

I – O momento em que Cristo comeu a Páscoa foi o momento usual designado por Deus, e observado pelos judeus (v. 17): “no primeiro dia da Festa dos Pães Asmos”, que, naquele ano, aconteceu no quinto dia da semana, que é a nossa quinta-feira. Alguns têm sugerido que o nosso Senhor Jesus celebrou a Páscoa nesse momento do dia, antes das outras pessoas. Mas o estudioso Dr. Whitby refutou grandemente essa opinião.

II – O local foi particularmente indicado aos discípulos pelo próprio Senhor; após a indagação deles (v. 17).

Eles perguntaram: “Onde queres que preparemos a comida da Páscoa?” Talvez Judas tenha sido um dos que fizeram esta pergunta (onde ele comeria a Páscoa), para que pudesse desenvolver a sequência de seu plano; mas os demais discípulos perguntaram, como sempre, para que pudessem cumprir o seu dever.

1. Eles tinham certeza de que o seu Mestre comeria a Páscoa, embora Ele estivesse, nesse momento, sendo perseguido pelos príncipes dos sacerdotes, que procuravam tirar a sua vida. Aqueles homens sabiam que o Senhor não deixaria de cumprir o seu dever, fosse por temores externos ou internos. Aqueles que não seguem o exemplo de Cristo, e dão uma desculpa para não comparecerem à ceia do Senhor, a nossa Páscoa do Evangelho, alegando que têm muitos problemas e muitos inimigos, estão cheios de cuidados e temores; e se assim for, fica claro que eles têm mais necessidade dessa ordenança, para ajudar a acalmar os seus temores, e ajudá-los a vencer as suas dificuldades, para ajudá-los a perdoar os seus inimigos, e lançar todos os seus cuidados sobre Deus.

2. Eles sabiam muito bem que a preparação para a Páscoa deveria ser feita, e que era incumbência deles, como seus servos, fazer essa preparação: “Onde queres que preparemos…?” Antes das ordenanças solenes, deve haver uma preparação solene.

3. Eles sabiam que o Mestre não tinha uma casa sua onde comer a Páscoa; nisto, como em outras coisas, ele se tornou pobre por nossa causa. Entre todos os palácios de Sião, não havia nenhum para o Rei de Sião; mas o seu reino não era deste mundo. Veja João 1.11.

4. Eles não iriam escolher um lugar ao acaso, sem uma instrução dele; por essa razão, receberam urna instrução do próprio Senhor. Ele os enviou a um certo homem (v.18), que provavelmente era um de seus amigos e seguidores, e para a casa deste, o Senhor convidou a si mesmo e aos seus discípulos.

(1)  Dizei-lhe: “O meu tempo está próximo”; o Senhor quer dizer o tempo de sua morte, que, em outras passagens, é chamado de sua hora (João 8.20; 13.1); o tempo, a hora, fixado no conselho de Deus, sobre o qual estava o seu coração, e do qual Ele tão frequentemente havia falado. Ele sabia quando viria a sua hora, e estava de acordo; não conhecemos o nosso tempo (Eclesiastes 9.12). Portanto, nunca deve faltar a nossa vigilância; o nosso tempo está sempre pronto (João 7.6). Portanto, devemos estar sempre prontos. Observe que devido ao fato de seu tempo estar próximo, Ele celebraria a Páscoa. Note que a consideração da proximidade da morte deve nos estimular a um desenvolvimento diligente de todas as nossas oportunidades para a nossa alma. O nosso tempo está próximo, e a eternidade está bem diante de nós? Celebremos então a festa com os pães asmos da sinceridade. Observe que quando o nosso Senhor Jesus convidou a si mesmo para a casa desse bom homem, Ele lhe enviou esta informação: que o seu tempo estava próximo. Note que o segredo de Cristo está com aqueles que o hospedam em seus corações. Compare João 14.21 com Apocalipse 3.20.

(2)  Dizei-lhe: “Em tua casa celebrarei a Páscoa com os meus discípulos”. Este foi um exemplo de sua autoridade como o Mestre, que provavelmente esse homem reconhecia. Ele não suplicou, mas ordenou, o uso de sua casa para esse propósito. Deste modo, quando Cristo, por seu Espírito, entra no coração, Ele exige admissão, como aquele a quem o próprio coração pertence e não pode ser negado. E o Senhor ganha a admissão como aquele que tem todo o poder no coração e não pode ser resistido. Se Ele disser: “Eu celebrarei uma festa neste coração”, Ele assim fará; porque Ele opera, e nada pode lhe impedir. O seu povo estará disposto, porque Ele faz com que esteja assim. “Celebrarei a Páscoa com os meus discípulos”. Note que onde quer que Jesus seja bem recebido, Ele espera que os seus discípulos também o sejam. Quando aceitamos a Deus como o nosso Deus, aceitamos o seu povo corno o nosso povo.

III – A preparação foi feita pelos discípulos (v. 19): “E os discípulos fizeram corno Jesus lhes ordenara”. Aqueles que têm a presença de Cristo consigo, na Páscoa do Evangelho, devem observar rigorosamente as suas instruções, e agir conforme o Senhor os instrui: “E prepararam a Páscoa”. Eles mataram o cordeiro no pátio do Templo, assaram-no, providenciaram as ervas amargas, o pão e o vinho, a toalha, e prepararam todas as coisas para essa festa sagrada e solene.

IV – Eles comeram a Páscoa de acordo com a lei (v. 20): “Assentou- se”, na posição habitual na mesa, não deitado de lado, porque não seria fácil comer, nem possível beber nesta posição, mas sentando-se ereto, embora talvez sentando-se em um plano mais baixo. A palavra utilizada aqui é a mesma palavra que é usada para a sua posição em outras refeições (cap. 9.10; Lucas 7.37; cap. 26.7). Muitos pensam que apenas a primeira Páscoa, no Egito, foi comida com seus lombos cingidos, com os sapatos nos pés, e o cajado na mão, embora tudo isso pudesse ocorrer com os participantes sentados. O fato de Ele se assentar denota a sua serenidade de espírito, quando falou nessa solenidade. ”Assentou-se com os doze”; Judas não foi excluído. Pela lei, eles deveriam levar um cordeiro por família (Êxodo 12.3,4), que não deveria ter menos de dez pessoas, nem mais de vinte. Os discípulos de Cristo eram a sua família. Note que aqueles a quem Deus proveu com famílias, devem ter as suas casas a serviço do Senhor.

V – Temos aqui o discurso de Cristo aos seus discípulos na ceia da Páscoa. O tema usual de discurso na ordenança era a libertação de Israel do Egito (Êxodo 12.26,27); mas a grande Páscoa então está pronta para ser oferecida, e o seu discurso “engole” o antigo (Jeremias 16.14,15). Aqui está:

1. O anúncio geral que Cristo faz aos seus discípulos do traidor que deveria estar entre eles (v. 21): “Um de vós me há de trair”. Observe que:

(1) Cristo sabia disso. Não sabemos que problemas recairão sobre nós, nem quando eles surgirão; mas Cristo sabia de todos os seus. Este fato prova a sua onisciência, e a grandeza do seu amor, pois Ele conhecia todas as coisas que deveriam lhe sobrevir; contudo, não recuou. Ele previu a traição e a maldade de um dos seus discípulos, e mesmo assim continuou; cuidou daqueles que lhe foram dados, embora soubesse que havia um Judas entre eles; pagou o preço da nossa redenção, embora tenha previsto que alguns negariam o Senhor que os comprou; e derramou o seu sangue, embora soubesse que seria pisado sob os pés como uma coisa profana.

(2) Quando houve oportunidade, Ele deixou que aqueles que estavam à sua volta o soubessem. Ele havia lhes falado com frequência que o Filho do Homem deveria ser traído. Então o Senhor lhes diz que um deles o trairia, e que quando vissem este fato ocorrer, não deveriam ficar surpresos, mas ter a sua fé nele confirmada (João 13.19; 14.29).

2. Os sentimentos dos discípulos nessa ocasião (v. 22). Como eles encararam isso?

(1) Eles se entristeceram muito.

[1] Eles ficaram extremamente perturbados ao ouvirem que o seu Mestre seria traído. Quando Pedro ouviu isso, ele disse: “Longe de ti”; portanto, isso foi uma grande perturbação a ele e aos demais, ouvir sobre esse evento que se aproximava.

[2] Eles ficaram mais perturbados pelo fato de ouvirem que um deles o faria. Seria uma reprovação à fraternidade um apóstolo mostrar-se um traidor, e isto os entristeceu. As almas misericordiosas se entristecem pelos pecados dos outros, especialmente daqueles que fizeram uma profissão de fé que supera aquilo que é comum (2 Coríntios 11.29).

[3] Eles ficaram perturbados, acima de tudo, por terem duvidado sobre qual deles seria, e cada um deles estava com medo de ser o traidor. Eles não queriam, como fala Hazael (2 Reis 8.13), ser o cão que faria esta grande coisa. Aqueles que conhecem a força e a sutileza do tentador, e a sua própria fraqueza e loucura, só podem sofrer por si mesmos, ao ouvirem que o amor de muitos esfriará.

(2) Cada um deles começou a dizer: “Porventura, sou eu, Senhor?”

[1] Eles não estavam em condições de suspeitar de Judas. Embora ele fosse um ladrão, parece que havia desempenhado a sua função tão plausivelmente, que aqueles que lhe eram íntimos não sentiam ciúmes dele; nenhum deles olhou com desconfiança para ele, muito menos disseram: “Porventura, é Judas, Senhor?” É possível que um hipócrita passe pelo mundo, não só despercebido, mas também sem levantar suspeitas; como o dinheiro que foi engenhosamente falsificado, e que ninguém questiona.

[2] Eles tinham condições de suspeitar de si mesmos: “Porventura, sou eu, Senhor?” Embora eles não estivessem cientes em si mesmos de qualquer inclinação nesse sentido (este pensamento nunca entrou em suas mentes), eles temiam o pior, e perguntaram àquele que nos conhece melhor do que nós mesmos: “Porventura, sou eu, Senhor?” Pode bem acontecer que os discípulos de Cristo sempre sintam ciúmes, um ciúme benigno, dos outros, especialmente nos tempos de tribulação. Não sabemos com que força podemos ser tentados, nem até onde Deus pode nos deixar ao nosso próprio encargo. Portanto, temos motivos não para sermos arrogantes, mas para temermos. Devemos observar que o nosso Senhor Jesus, pouco antes de instituir a Ceia, colocou os seus discípulos nesse teste e suspeita de si mesmos, para nos ensinar que devemos nos examinar e julgar a nós mesmos, e assim “comer deste pão, e beber deste cálice”.

3. Outras informações lhes foram dadas com relação a esse assunto (vv. 23,24), onde Cristo lhes diz:

(1) Que o traidor era um amigo conhecido: “o que mete comigo a mão no prato”, isto é, um daqueles que estavam com ele à mesa. O Senhor menciona isto para mostrar quão grande é o pecado de traição. Note que a mera comunhão externa com Cristo nas ordenanças sagradas é uma grande agravante da nossa falsidade para com Ele. E uma ingratidão desprezível meter com Cristo a mão no prato e, ainda as­ sim, traí-lo.

(2) Que isso estava de acordo com as Escrituras, que iriam revelar a sua ofensa. Cristo foi traído por um discípulo? Assim estava escrito (Salmos 41.9): ”Até o meu próprio amigo íntimo, em quem eu tanto confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o seu calcanhar”. Quanto mais virmos o cumprimento das Escrituras nos nossos problemas, mais poderemos suportá-los.

(3) Que isso geraria um negócio de muito valor para o traidor: ”Ai daquele homem por quem o Filho do Homem é traído”. Isto o Senhor disse, não só para despertar a consciência de Judas, e levá-lo ao arrependimento, e cancelar o seu trato, mas para advertir a todos os outros a tomarem cuidado para não pecarem como Judas. Embora Deus possa ser­ vir aos seus próprios propósitos através dos pecados dos homens, isto não torna a condição do pecador menos terrível: “Bom seria para esse homem se não houvera nascido”. Note que a destruição que recai sobre aqueles que traem a Cristo é tão grande, que seria mais vantajoso nunca ter existido do que ser infeliz dessa maneira.

4. A condenação de Judas (v. 25).

(1) Ele perguntou: “Porventura, sou eu, Rabi?”, para evitar ser suspeito de culpa por seu silêncio. Ele sabia muito bem que era ele, e ainda assim desejou parecer estranho a tal conspiração. Note que muitos cujas consciências os condenam são muito engenhosos ao se justificarem diante dos homens, e tentam mostrar uma boa aparência, através de expressões como esta: “Porventura, sou eu, Rabi?” Ele podia saber que Cristo sabia, e, mesmo assim, confiou muito em sua cortesia, porque até àquele momento havia escondido a trama; assim, Judas teve o atrevimento de desafiar o Senhor a dizer o que ocorreria. Ou talvez ele estivesse tão subjugado ao poder da infidelidade, que tenha imaginado que Cristo não soubesse da sua conspiração, como aqueles que diziam: “O Senhor não o verá” (Salmos 94.7), e perguntavam: “Ele pode julgar através das nuvens negras?”

(2) Cristo logo respondeu essa pergunta: “Tu o disseste”, isto é, é como tu dissestes. Isto não é dito tão claramente quanto a palavra de Natã: “Tu és o homem”; mas foi o suficiente para convencê-lo. E se o coração de Judas não estivesse miseravelmente endurecido, poderia ter desistido de sua conspiração quando viu o seu plano descoberto pelo seu Mestre. Note que aqueles que estão planejando trair a Cristo, irão, em um momento ou outro, trair a si mesmos, e as suas próprias línguas cairão sobre eles.

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MATEUS 26: 14 – 16

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Cristo Ungido em Betânia

Imediatamente após um exemplo de grande bondade feita a Cristo, segue-se um exemplo de grande maldade. Há esta mistura de bom e mau entre os seguidores de Cristo. Ele possui alguns amigos fiéis, e outros amigos falsos e dissimulados. O que poderia ser mais desprezível do que esse acordo que Judas aqui fez com os príncipes dos sacerdotes, para lhes entregar o Cristo?

I – O traidor foi Judas Iscariotes. Ele é mencionado como “um dos doze”, como uma agravação de sua maldade. Quando estava crescendo o número dos discípulos (Atos 6.1), não seria surpresa se houvesse alguns entre eles que fossem uma vergonha e um problema para o grupo; mas havendo apenas os doze, e um deles sendo um diabo, com certeza nunca deveremos esperar qualquer sociedade perfeitamente pura neste lado do céu. Os doze eram amigos escolhidos de Cristo, que tinham o privilégio de seu favor especial. Eles eram seus seguidores constantes, que tinham o benefício de sua conversa mais íntima. Por todos esses aspectos, tinham motivo para amá-lo e serem verdadeiros com Ele; e mesmo assim, um deles o traiu. Note que nenhuma cadeia de obrigação ou gratidão pode conter aqueles que têm um demônio (Marcos 5.3,4).

II – Aqui está a oferta que Judas fez aos príncipes dos sacerdotes: ele “foi ter com eles e disse: Que me quereis dar, e eu vo-lo entregarei?” (v. 15). Eles não o procuraram, nem lhe fizeram a proposta; eles não poderiam ter pensado que um dos próprios discípulos de Cristo fosse desleal para com o seu Mestre. Note que há alguns entre os seguidores de Cristo que são piores do que qualquer um pode imaginar que sejam, e que só precisam de uma oportunidade para mostrar a sua iniquidade.

Observe:

1. O que Judas prometeu: “‘Eu vo-lo entregarei”; eu vos contarei onde Ele está, me comprometerei a levar-vos até Ele, em urna hora e local convenientes para que possais agarrá-lo sem barulho, ou perigo de um tumulto”. Em sua conspiração contra Cristo, era exatamente isso que eles precisavam (vv. 4,5). Eles não ousavam se intrometer com Ele em público, e não sabiam onde encontrá-lo em particular. Aqui estava o problema, e a dificuldade era insuperável; até que Judas veio, e lhes ofereceu o seu serviço. Note que aqueles que se entregam para serem guiados pelo diabo encontram-no mais prestativo do que imaginam para ajudá-los em uma tarefa difícil, como Judas fez com os príncipes dos sacerdotes. Embora os príncipes, por seu poder e interesse, pudessem matá-lo, quando o tivessem em suas mãos, apenas um discípulo poderia entregá-lo. Note que quanto maior for a profissão que os homens fizerem da religião, e quanto mais forem empregados no seu estudo e serviço, mais oportunidades terão de fazer alguma maldade, se os seus corações não forem retos para com Deus. Se Judas não tivesse sido um apóstolo, ele não poderia ter sido um traidor. Se os homens não tivessem conhecido o caminho da injustiça, não poderiam ter abusado dele.

“E eu vo-lo entregarei”. Judas não se ofereceu, nem eles discutiram com ele, para que fosse uma testemunha contra Cristo, embora quisessem uma evidência (v. 59). E se houvesse qualquer coisa que pudesse ser alegada contra Jesus, que pudesse servir como prova de que Ele era um impostor, Judas seria a pessoa mais provável para atestá-la. Mas esta é uma evidência da inocência do nosso Senhor Jesus, que o seu próprio discípulo, que conhecia tão bem a sua doutrina e modo de vida, e que foi desleal a Ele, não poderia acusá-lo de nada criminoso, mesmo que isto pudesse ter servido para justificar a sua traição.

2. O que Judas pediu, em consideração a esse compromisso: “Que me quereis dar?” Essa foi a única coisa que fez Judas trair o seu Mestre. Ele esperava ganhar dinheiro com isso. Seu Mestre não havia lhe dado nenhum motivo, embora soubesse, desde o princípio, que Judas tinha um demônio. Assim, parece que o Senhor lhe demonstrou a mesma bondade que dedicou aos demais, e não colocou nele nenhuma marca de desgraça que pudesse ofendê-lo. O Senhor o havia colocado em um posto que lhe agradava, designando-o como aquele que carregava a bolsa, e embora Judas tivesse se apropriado, de forma fraudulenta, dos recursos comuns (porque ele foi chamado de ladrão, (João 12.6), não encontramos que ele tenha sido chamado a prestar contas disso; nem parece que desconfiasse de que o Evangelho fosse uma fraude. Não, não foi o ódio pelo Mestre, nem qualquer discussão com Ele, mas puramente o amor ao dinheiro; isto, e nada mais, fez de Judas um traidor.

“Que me quereis dar?” Pois bem, o que ele queria? Nem pão para comer, nem roupas para vestir; nem coisas necessárias, nem confortos materiais. Ele não era bem recebido, onde quer que o seu Mestre fosse? Ele não era bem tratado? Ele não foi respeitosamente recebido na ceia em Betânia, na casa de Simão, o leproso, e, um pouco antes, em outra casa, onde ninguém menos que a própria Marta serviu a mesa? E ainda assim esse miserável ganancioso não conseguiu ficar satisfeito, mas foi desprezivelmente curvar-se aos sacerdotes, dizendo: Que me quereis dar? Note que não é a falta de dinheiro, mas o amor ao dinheiro, que é a raiz de todos os males, e particularmente da apostasia em relação a Cristo. Demas testemunha isso (2 Timóteo 4.10). Satanás tentou o nosso Senhor com essa isca: “Tudo isto te darei” (cap. 4.9). Mas Judas se ofereceu para ser tentado por isso. Ele pergunta: “Que me quereis dar?”, como se o seu Mestre fosse um produto de que ele pudesse dispor.

III – Aqui está o acordo que os príncipes dos sacerdotes fizeram com ele: “E eles lhe pesaram trinta moedas de prata”, isto é, trinta siclos. Parece que Judas se submeteu a eles, e estava disposto a aceitar o que eles estavam dispostos a dar; e aceitou a primeira oferta, para não correr o risco de que a próxima oferta pudesse ser pior. Judas não estava habituado a negociar com valores elevados; portanto, um pouco de dinheiro o satisfez. Pela lei (Êxodo 21.32), trinta moedas de prata era o preço de um escravo – um belo preço pelo qual Cristo foi avaliado! (Zacarias 11.13). Não é surpresa que os filhos de Sião, embora comparáveis ao ouro puro, sejam estimados como jarros de barro, quando o próprio Rei de Sião foi tão depreciado. Eles estipularam o preço com ele; eles pagaram, segundo alguns; entregaram-lhe o pagamento em mãos para que ele não desistisse, e para encorajá-lo a trair o Senhor.

IV – Aqui está o esforço de Judas, de acordo com o que foi tratado (v. 16). Ele buscava oportunidade para o entregar, e a sua mente ainda estava trabalhando para descobrir como poderia fazer isso de modo eficaz. Note que:

1. É uma atitude muito ímpia buscar oportunidade para pecar, e tramar a maldade; pois isso prova a completa disposição do coração dos homens para fazer o mal deliberadamente.

2. Aqueles que se envolvem em iniquidades como essa se aprofundam cada vez mais, embora estejam conscientes de que o resultado é sempre muito ruim. Depois de ter feito esse trato maligno, ele teve tempo para se arrepender, e para revogá-lo: mas então, por causa de sua aliança, o diabo tem mais direito sobre ele do que tinha antes, e lhe diz que ele deve ser fiel à sua palavra, embora seja tão desleal ao seu Mestre. O mesmo aconteceu a Herodes, que teve de decapitar João por causa de seu juramento.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 6 – 13

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Cristo Ungido em Betânia

Nessa passagem da história, temos:

I – O gesto singular de gentileza de uma boa mulher ao ungir a cabeça de Jesus (vv. 6,7). Foi em Betânia, uma aldeia perto de Jerusalém, e na casa de Simão, o leproso. É provável que Simão tenha sido um dos que foram miraculosamente limpos de lepra pelo Senhor Jesus, e ele expressaria a sua gratidão a Cristo, hospedando-o. Jesus não desprezou a oportunidade de conversar com ele, entrar em sua casa, e cear com ele. Embora ele tenha sido limpo, ainda era chamado de Simão, o leproso. Aqueles que são culpados de pecados escandalosos, descobrirão que, embora o pecado seja perdoado, a reprovação se apegará a eles, e dificilmente será retirada. Acredita-se que a mulher que fez isso tenha sido Maria a irmã de Marta e Lázaro. Ela tinha um vaso de alabastro, com unguento de grande valor, o qual derramou sobre a cabeça de Cristo quando Ele se sentou para a refeição. Isso, entre nós, seria um tipo estranho de cumprimento. Mas foi então considerado o mais elevado ato de respeito; porque o odor era muito agradável, e o próprio unguento era muito refrescante para a cabeça. Davi teve a sua cabeça ungida (Salmos 23.5; Lucas 7.46). Então, isso pode ser visto:

1. Como um ato de fé em nosso Senhor Jesus, o Cristo, o Messias, o Ungido. Para mostrar que ela cria nele como o ungido de Deus, a quem Deus Pai havia estabelecido como Rei. Ela o ungiu, e fez dele o seu rei. Eles “constituirão sobre si uma única cabeça” (Oseias 1.11). Isto é “beijar o Filho”.

2. Como um ato de amor e respeito por Ele. Alguns pensam que foi ela que amou muito a princípio, e que lavou os pés de Cristo com suas lágrimas (Lucas 7.38,47); e que ela não havia deixado o seu primeiro amor, mas que estava então tão apegada às devoções de uma cristã adulta quanto estava nos dias de uma iniciante jovem. Note que onde há o verdadeiro amor a Jesus Cristo no coração, nada será considerado bom demais, nem bom o suficiente, para ser oferecido ao Senhor.

II – A ofensa que os discípulos viram nessa ação. Eles se indignaram (vv. 8,9), ficaram aborrecidos ao verem esse unguento gasto dessa maneira, o qual eles pensavam que poderia ter sido melhor empregado.

1. Veja como eles expressaram a sua indignação por isso. Eles disseram: “Por que este desperdício?” Isto indica:

(1)  Falta de carinho por essa boa mulher, ao interpretarem a sua grande bondade (supondo que fosse assim) como sendo um desperdício. A caridade nos ensina a colocarmos a melhor construção em todas as coisas que ela sustentará, especialmente nas palavras e ações daqueles que são “zelosos em fazer o bem”, embora possamos achá-los não tão completamente discretos quanto poderiam ser. É verdade, pode haver um exagero em se fazer o bem; mas nisso devemos aprender a ser cautelosos, para que não cheguemos aos extremos, sendo críticos dos outros; porque aquilo que podemos considerar como uma falta de prudência pode ser aceito por Deus como um exemplo de amor abundante. Não devemos dizer: Estes fazem demais pela religião, fazendo mais do que nós. Antes, devemos procurar fazer tanto quanto eles.

(2)  Falta de respeito pelo seu Mestre. O melhor que podemos entender disso é que eles sabiam que o seu Mestre estava perfeitamente indiferente a todos os prazeres dos sentidos. Aquele que tanto se afligiu pela “quebra de José”, não se importou de ser ungido com o “mais excelente óleo” (Amos 6.6). Portanto, eles pensavam que tais prazeres não surtiam qualquer efeito naquele que sentia tão pouco prazer neles. Mas, fazendo tal suposição, não lhes cabia chamar isso de desperdício, quando perceberam que o Senhor admitiu e aceitou a ação como um sinal de amor de uma pessoa amiga. Devemos prestar atenção para não considerarmos desperdício qualquer coisa que seja dada ao Senhor Jesus, seja pelos outros ou por nós mesmos. Não devemos considerar desperdício o tempo que é gasto no serviço a Cristo, ou o dinheiro gasto em qualquer obra de piedade; pois, embora esses recursos pareçam ser lançados sobre as águas, ou lançados sobre um rio, “depois de muitos dias, o acharás” (Eclesiastes 11.1).

2. Veja como eles justificaram a sua indignação pela ação, e por qual pretexto eles o fizeram: “Este unguento podia vender-se por grande preço e dar-se o dinheiro aos pobres”. Não é uma coisa nova que sentimentos ruins sejam ocultados sob uma capa enganadora; que as pessoas se esquecem de obras de piedade sob a aparência de obras de caridade.

III – A reprovação que Cristo aplicou aos seus discípulos por se indignarem contra essa boa mulher (vv. 10,11): “Por que afligis esta mulher?” É um grande mal as pessoas boas terem as suas boas obras censuradas e criticadas; e é algo que aborrece muito a Jesus Cristo. Ele aqui defendeu a mulher – bondosa, honesta, zelosa e de boas intenções – contra todos os seus discípulos, embora eles parecessem ter muita razão a favor de si mesmos; é assim que o Senhor vigorosamente advoga a causa dos pequeninos ofendidos (cap. 18.10).

Observe a sua razão: “sempre tendes convosco os pobres”. Considere:

1. Há algumas oportunidades de fazer e obter o bem de uma forma constante, e devemos estar sempre atentos a elas. As Bíblias, sempre temos conosco, os dias de adoração ao Senhor, sempre temos conosco, e também os pobres, sempre temos conosco. Note que aqueles que têm um coração inclinado a fazer o bem, nunca precisam reclamar da falta de oportunidades. Nunca deixará de haver pobres na terra de Israel (Deuteronômio 15.11). Não podemos deixar de enxergar, neste mundo, alguns que precisam da nossa assistência caridosa, que são objetos do cuidado de Deus, alguns membros pobres de Cristo. O bem que fazemos a esses é considerado, pelo Senhor, como se fosse feito a Ele mesmo.

2. Há outras oportunidades de fazer e obter o bem, mas que ocorrem raramente; elas são poucas e incertas, requerem um cuidado mais peculiar no seu progresso, e devem ter a preferência antes de outras: “‘A mim não me haveis de ter sempre’, portanto aproveitai a minha presença enquanto a tendes”. Note que:

(1) A presença física constante de Cristo não deveria ser esperada aqui neste mundo. Convinha que Ele partisse. A sua presença real na Ceia é um conceito crédulo e sem fundamento, e contradiz o que Ele disse aqui: ”A mim não me haveis de ter sempre”.

(2) Às vezes, as obras especiais de piedade e devoção devem tomar o lugar de obras de caridade comuns. Os pobres não devem roubar o lugar de Cristo; devemos fazer o bem a todos, mas especialmente aos irmãos na fé.

IV – A aprovação e o elogio ao ato de bondade dessa boa mulher. Quanto mais os seus servos e suas obras são criticados pelos homens, mais o Senhor manifesta a sua aceitação deles. Ele chama isto de “boa ação” (v. 10), e faz mais elogios a isso do que se poderia imaginar. De modo particular:

1. Que o significado da ação era místico (v. 12): “Fê-lo preparando-me para o meu sepultamento”.

(1) Alguns acham que ela teve essa intenção, e que a mulher entendeu melhor as frequentes predições de Cristo sobre a sua morte e sofrimentos do que os apóstolos; por essa razão, ela foi recompensada com a honra de ser a primeira testemunha da sua ressurreição.

(2) De qualquer modo, Cristo interpretou dessa maneira; e Ele está sempre disposto a fazer o melhor, a entender da melhor maneira as palavras e ações bem-intencionadas das pessoas. Isto foi equivalente ao embalsamamento de seu corpo. Porque não seria possível fazer isso depois da sua morte, devido à sua ressurreição; portanto, foi feito antes. Era adequado que isso fosse feito em algum momento, para mostrar que Ele ainda era o Messias, mesmo quando parecia ter sido vencido pela morte. Os discípulos acharam que o unguento que foi derramado sobre a sua cabeça foi desperdiçado. “Mas,” disse Ele “se uma quantidade dessas de unguento fosse derramada sobre um corpo morto, de acordo com o costume da sua terra, vocês não ficariam indignados, nem o considerariam um desperdício. Mas, na verdade, tudo se passa da seguinte forma: é como se o corpo que ela está ungindo estivesse morto, e a sua bondade é muito oportuna para esse propósito; portanto, em vez de considerarem a sua atitude um desperdício, ela é digna de elogios”.

2. Que a memória desse ato seria honrada (v. 13): “Será referido o que ela fez para memória sua”. Este ato de fé e amor foi tão extraordinário, que os pregadores do Cristo crucificado e os escritores inspirados da história de sua paixão não tiveram escolha senão observar essa passagem, proclamar o seu relato, e perpetuar a sua memória. E uma vez que este fato foi registrado, foi gravado como com uma pena de ferro e chumbo na rocha para sempre, e não poderá ser esquecido. Nenhuma de todas as trombetas da fama soa tão alto e por tanto tempo quanto o Evangelho eterno. Considere:

(1) A história da morte de Cristo, embora seja trágica, é o Evangelho, as Boas Novas, porque Ele morreu por nós.

(2) O Evangelho seria pregado “em todo o mundo”; não somente na Judéia, mas em todas as nações, para toda criatura. Que os discípulos observem isso, para seu encorajamento, para que o seu som chegue até às extremidades da terra.

(3) Embora o Evangelho expresse principalmente a honra de Cristo, a honra de seus santos e de seus servos não está totalmente esquecida. A memória dessa mulher deveria ser preservada, não através da dedicação de uma igreja a ela, ou da celebração de uma festa anual em sua honra, ou da preservação de um pedaço de seu vaso que­ brado como uma relíquia sagrada; mas mencionando-se a sua fé e piedade na pregação do Evangelho, para que isso servisse como exemplo aos outros (Hebreus 6.12). Assim, a honra é revertida ao próprio Cristo, que, tanto neste mundo como no próximo, será glorificado em seus santos, e admirado em todo aquele que crê.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 1 – 5

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A Trama dos Príncipes dos Sacerdotes

Nesse trecho, vemos:

1. O aviso que Cristo deu aos seus discípulos sobre a aproximação dos seus sofrimentos (vv.1,2). Enquanto os seus inimigos estavam lhe preparando o mal, Ele estava preparando a si mesmo e aos seus seguidores para isso. Ele, com frequência, havia lhes falado sobre os seus sofrimentos com certa reserva, mas então lhes fala abertamente: “Daqui a dois dias”. Após muitos avisos anteriores sobre as dificuldades, ainda temos necessidade de novos avisos. Considere:

(1) O momento em que Ele deu esse alarme: quando Ele “concluiu todos esses discursos”.

[1] Não até ter terminado tudo o que tinha para dizer. As testemunhas de Cristo não morrem até que terminem de dar o seu testemunho. Quando Cristo havia terminado a sua tarefa como um profeta, Ele iniciou a execução de seu ofício como um sacerdote.

[2] Depois de ter terminado esses discursos, que ocorrem imediatamente antes dessa advertência. Ele havia advertido os seus discípulos a esperar em momentos tristes, prisões e aflições, e então lhes diz: “O Filho do Homem será entregue”. A sua intenção era sugerir que eles não deveriam passar por coisas piores do que as que Ele iria passar, e que os sofrimentos dele deveriam ser maiores do que os deles. Os pensamentos de um Cristo sofredor são grandes apoios para um cristão sofredor, que sofre com Ele e por Ele.

(2) O conteúdo do aviso: “O Filho do Homem será entregue”. O fato não só era certo, mas também tão próximo que era como se já tivesse ocorrido. Note que é bom considerar os sofrimentos que ainda estão por vir, como se já estivessem presentes para nós. Ele seria entregue, por­ que Judas estava então arquitetando e planejando traí-lo.

2. A conspiração dos príncipes dos sacerdotes, dos escribas e dos anciãos do povo contra a vida do nosso Senhor Jesus (vv. 3-5). Muitas conspirações haviam sido maquinadas contra a vida de Cristo, mas esse plano foi tramado com mais perspicácia do que qualquer outro, pois todas as pessoas eminentes estavam empenhadas nele. Os príncipes dos sacerdotes, que presidiam os assuntos eclesiásticos; os anciãos, que eram juízes em questões civis; e os escribas, que, como doutores da lei, instruíam a ambos – estes compunham o sinédrio, ou o grande concílio que governava a nação, e se aliaram contra Cristo. Considere:

(1) O lugar onde eles se reuniram; na sala do sumo sacerdote, que era o centro de sua unidade no projeto maligno.

(2) A conspiração em si; prenderem Jesus com dolo e o matarem; nada menos que o seu sangue, o sangue de sua vida, serviria para cumprir o objetivo deles. Os planos dos inimigos de Cristo e de sua igreja foram muito cruéis e sanguinários.

(3) A política dos conspiradores: “não durante a festa”. Por que não? Foi em consideração à santidade do momento, ou porque eles não seriam perturbados nos serviços religiosos do dia? Não, mas para que não houvesse alvoroço entre o povo. Eles sabiam que Cristo tinha um grande interesse pelas pessoas comuns, que afluíam em grande número no dia da festa, e haveria o risco de pegarem em armas contra os seus governantes se houvesse uma interferência violenta contra Cristo, a quem eles consideravam como profeta. Eles estavam com medo, não por temor a Deus, mas por temerem o povo; toda a preocupação deles era pela sua própria segurança, e não pela honra a Deus. Mesmo assim, eles procurariam fazer algo; porque era uma tradição dos judeus que criminosos fossem mortos em uma das três festas, especialmente rebeldes e impostores, para que todo o Israel pudesse ver e temer, mas “não durante a festa”.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 25: 31 – 46 – PARTE II

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O Processo do Último Julgamento 

IV – O processo de julgamento em relação a cada um deles.

1. Em relação aos justos, à direita. A causa deles deve ser concluída primeiro, para que possam ser assessores com Cristo no julgamento dos pecadores, cuja desgraça será agravada quando eles virem Abraão, e Isaque, e Jacó admitidos no Reino de Deus (Lucas 13.28). Observe aqui:

(1) A glória conferida a eles. A sentença pela qual eles não somente serão absolvidos, mas também escolhidos e recompensados (v. 34): “Dirá o Rei aos que estiverem à sua direita” Aquele que era o Pastor o que evidencia a proteção e ternura com a qual Ele fará a sua averiguação, aqui é o Rei, o que evidencia a autoridade por meio da qual Ele pronunciará a sentença. Onde estiver a palavra do Rei, ali haverá poder. Há duas coisas nessa sentença:

[1] O reconhecimento dos justos como benditos do Senhor: “Vinde, benditos de meu Pai”. Em primeiro lugar, Ele os pronuncia “benditos”; e as suas palavras, de que eles são benditos, os torna abençoados. A lei os amaldiçoa pelos seus muitos abandonos de causa; mas Cristo, tendo-os redimido da maldição da lei, comprou a bênção para eles, e a colocou sobre eles. Em segundo lugar, “benditos de seu Pai”. Censurados e amaldiçoados pelo mundo, mas abençoados por Deus. Da mesma maneira como o Espírito glorifica o Filho (João 16.14), também o Filho glorifica o Pai, ao lhe entregar a salvação dos justos como um assunto de importância primordial; todas as nossas bênçãos nos lugares celestiais vindas a nós de Deus, como o pai de nosso Senhor Jesus Cristo (Efésios 1.3). Em terceiro lugar, Ele os convida para vir. Este vir é, na realidade: “Bem-vindos, dez mil vezes bem-vindos para as bênçãos do meu Pai; venham a mim, venham para estar comigo para sempre. Você que me seguiu carregando a cruz, agora caminhe comigo usando a coroa. Os benditos de meu Pai são os bem-amados da minha alma. Aqueles que estiveram a uma distância grande demais de mim; venham, agora, venham para o meu seio, venham para os meus braços, venham para o mais precioso abraço!” Oh! com que alegria isto encherá os corações dos justos nesse dia! Agora nós vamos, com ousadia, ao trono da graça, mas somente então iremos ao trono da glória; e esta palavra assegura que nos será estendido o cetro de ouro, com a certeza de que os nossos pedidos serão concedidos, mesmo que superem a metade do Reino. Agora o Espírito diz: Vinde, na palavra; e a esposa diz: Vinde, em oração; e o resultado disso é uma comunicação harmoniosa; entretanto, a perfeição da felicidade ocorrerá quando o Rei disser: Vinde.

[2] A admissão dos santos à bem-aventurança e ao Reino do Pai: “Possuí por herança o Reino que vos está preparado”.

Em primeiro lugar, a felicidade que eles terão será muito grande. Esta informação nos é dada por aquele que a conhece, pois ela lhe pertence, e Ele a reservou para aqueles que o servem.

1. E um “Reino”. Um reino é considerado como sendo a mais valiosa possessão na terra e inclui a maior riqueza e honra. Aqueles que herdam os reinos usarão todas as glórias da coroa, desfrutarão todos os prazeres da corte e comandarão os tesouros peculiares das províncias; ainda que isto seja somente uma pequena semelhança da felicidade dos santos no céu. Aqueles que aqui são pobres, prisioneiros, considerados como a escória de todas as coisas, herdarão então o Reino (Salmos 113.7; Apocalipse 2.26-27).

2. É um Reino “preparado”. A felicidade deve ser grande, porque é o produto dos conselhos divinos. Observe que há uma grande preparação produzida para o entretenimento dos santos no Reino da glória. O Pai o designou a eles em seus pensamentos de amor, e proporcionou-o a eles na grandeza de sua sabedoria e podei: O Filho conseguiu-o para eles, e Ele entra primeiro para preparar o lugar (João 14.2). E o bendito Espírito Santo, ao prepará-los para o Reino, está, na verdade, preparando-o para eles.

1. Está preparado para eles. Isto revela:

(1) A adequação dessa felicidade. Ela está, em todos os pontos, adaptada à natureza da alma, e à nova natureza de uma alma santificada.

(2) A posse e o interesse que eles têm nele. Ele está preparado intencionalmente para eles; não somente para aqueles que são como vocês, mas para vocês, que são chamados por seus próprios nomes; para vocês, pessoal e particularmente, que foram escolhidos para a salvação pela santificação.

2. Está preparado “desde a fundação do mundo”. Esta felicidade foi designada para os santos, e eles para ela, “antes dos tempos dos séculos”, e por toda eternidade (Efésios 1.4). O fim, que é executado por último, é o primeiro na intenção. A Infinita Sabedoria tem um objetivo na glorificação eterna dos santos, desde a primeira fundação da criação: “Porque tudo isso é por amor de vós” (2 Coríntios 4.15). Ou isto, denota a preparação do lugar para essa felicidade, que será o assento e a morada dos benditos, que está preparado desde o início da obra da criação (Genesis 1.1). Ali, no céu dos céus, as estrelas da alva cantavam juntas alegremente, enquanto era criada a fundação da terra (Jó 38.4-7).

Em segundo lugar, a maneira pela qual eles tomarão posse é muito interessante: eles deverão vir e herdá-lo. Aquilo que recebemos por herança não foi conseguido por nossa aquisição, mas meramente, como os advogados expressam, por um ato de Deus. É Deus que nos faz herdeiros, herdeiros dos céus. Nós alcançamos a herança em virtude da nossa condição de filhos, da nossa adoção; se somos filhos, então somos herdeiros. Um título que se recebe por herança é o título mais doce e mais seguro; e neste caso, ele se refere à possessão na terra de Canaã, que era transferida por herança, e não seria alienada além do ano do Jubileu. Por essa razão, a herança divina é irrevogável e inalienável. Os santos neste mundo são como os herdeiros quando meninos: estão sob os cuidados de tutores e curadores até ao tempo determinado pelo pai (Gálatas 4.1-2); e então lhes será dada a completa possessão daquilo a que agora, por meio da graça, eles têm direito. “Vinde”, e possuí-o por herança.

(2) A razão para isso (vv. 35,36): “Porque tive fome, e destes-me de comer”. Nós não podemos, portanto, deduzir que quaisquer boas palavras nossas merecem a felicidade do céu, por qualquer valor ou excelência intrínseca que haja nelas. A nossa generosidade se estende não a Deus, mas está claro que Jesus Cristo irá julgar o mundo pelas mesmas regras pelas quais Ele o governa, e, sendo assim, irá recompensar aqueles que foram obedientes à lei; e será feita menção à sua obediência, não como seu título, mas como sua evidência de um interesse em Cristo, e no seu resgate. Essa felicidade será concedida aos crentes obedientes, não sobre uma estimativa de mérito, o que pressupõe uma proporção entre a obra e a recompensa, mas com base na promessa de Deus, comprada por Jesus Cristo, e o seu benefício assegurado sob certas condições e limitações. A compra e a promessa é que dão o direito; a obediência é apenas a qualificação da pessoa em questão. Pode-se dizer que uma propriedade é obtida mediante uma condição por meio de cessão ou testamento, quando a condição se concretiza em conformidade com a verdadeira intenção do doador ou de quem fez o testamento, tornando-se absoluta; e então, embora o direito esteja baseado exclusivamente na cessão ou no testamento, ainda assim a concretização da condição deve ser dada em evidência, e é isto o que ocorre aqui; pois Cristo é o Autor da salvação eterna, que só é dada àqueles que o obedecem, e que pacientemente continuam procedendo bem.

As boas obras aqui mencionadas são aquelas normalmente chamadas de caridade aos pobres. Muitos estarão à sua direita, porém nunca tiveram como alimentar quem tinha fome, ou vestir quem estava nu, mas foram, eles mesmos, alimentados e vestidos pela caridade de outros. Um exemplo de obediência sincera é colocado para os demais, ensinando nos que, de modo geral, a fé que trabalha através do amor é tudo em todos no cristianismo. “Mostra-me a tua fé pelas tuas obras”, e nada será abundante para uma prestação de contas futura, exceto os frutos da justiça em uma boa conduta agora. As boas obras aqui descritas implicam em três coisas, que devem ser encontradas em todos os que são salvos.

[1) A renúncia de si mesmo, e o desprezo pelo mundo. Considerar as coisas do mundo não traz bons resultados que nos permitam fazer o bem com elas. E aqueles que não possuem os recursos para fazer o bem, devem exibir a mesma disposição, sendo pobres, satisfeitos e alegres. Aqueles que são mortificados para as coisas da terra são aptos a morar no céu.

[2) O amor pelos nossos irmãos; o que é o segundo grande mandamento, o cumprimento da lei, e um excelente preparativo para o mundo em que reina o amor eterno. Nós devemos dar evidências desse amor pela nossa disposição em fazer o bem, e transmitir o Evangelho; os bons desejos não são nada além de zombarias, sem as boas obras (Tiago 2.15,16; 1 João 3.17). Aqueles que não têm o que dar, devem mostrar a mesma disposição de alguma outra maneira.

[3) Uma consideração respeitosa por Jesus Cristo, através da fé. O que é aqui recompensado é a ajuda aos pobres, por amor a Cristo, e conforme a sua orientação. Isso confere uma excelência à boa obra, uma vez que através dela nós servimos ao Senhor Jesus, e isto se aplica tanto àqueles que realizam essa obra para viver quanto àqueles que ajudam a conservar vivas outras pessoas. Veja Efésios 6.5-7. As boas obras que serão aceitas são aquelas feitas em nome do Senhor Jesus (Colossenses 3.17).

“Tive fome,” isto é, meus discípulos e seguidores tiveram fome, seja pelas perseguições dos inimigos por eles fazerem o bem, ou pelas dispensações comuns da Providência; pois, nessas coisas, há um único fato para os justos e para os pecadores: E destes de comer a eles. Observe, em primeiro lugar, que a Providência ordena e dispõe as circunstâncias do seu povo neste mundo de variadas maneiras, de modo que enquanto alguns têm condições de propiciar ajuda, outros necessitam dela. Não é novidade para aqueles que se alimentam com as guloseimas do céu ter fome e sede, e lhes faltar o alimento cotidiano; para aqueles que se sentem à vontade como se estivessem em casa quando estão em Deus, ser estrangeiros em terra alheia; para aqueles que se revestiram de Cristo, necessitar de roupas para se manterem aquecidos; para aqueles que têm almas saudáveis, ter corpos enfermos; e para aqueles que estão na prisão, que Cristo os tenha feito livres. Em segundo lugar, as obras de caridade e beneficência, conforme a nossa capacidade, são necessárias para a salvação; e elas serão ainda mais importantes no julgamento do grande Dia do que normalmente se imagina; elas devem ser as evidências do nosso amor, e da submissão que confessamos em relação ao Evangelho de Cristo (2 Coríntios 9.13). Mas aqueles que não mostram misericórdia, serão julgados sem misericórdia.

Esta razão é modesta mente questionada pelos justos, mas é o próprio Juiz que a explica.

1. Ela é questionada pelos justos (w. 37-39). Não como se eles se recusassem a herdar o reino, ou se envergonhassem das suas boas obras. ou não tivessem o testemunho da consciência em relação a si mesmos; mas:

(1) As expressões são alegóricas, com o objetivo de apresentar e gravar essas grandes verdades, de que Cristo tem uma grande consideração pelas obras de caridade, e se agrada especialmente pela generosidade demonstrada ao seu povo, em seu nome. Ou:

(2) Elas evidenciam a humilde admiração dos santos glorificados ao encontrar obras tão pobres e sem valor, como são as suas, tão grandemente celebradas e ricamente recompensadas: “Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer?” Observe que as almas que têm graça são capazes de pensar humildemente sobre as suas próprias boas obras, especialmente como sendo indignas de serem comparadas com a glória que há de ser revelada. Longe disso está o estado de espírito daqueles que disseram: “Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso?” (Isaias 58.3). Os santos no céu perguntarão a si mesmos o que os levou para lá, e se admirarão de que Deus considere tanto a eles, como aos seus serviços. Natanael deve ter chegado a corar ao ouvir o elogio que Cristo lhe fez: “De onde me conheces tu?” (João 1.47,48). Veja Efésios 3.20. ‘”Quando te vimos com fome?’ Nós vimos os pobres, em sofrimento, muitas vezes; mas quando foi que te vimos assim?” Observe que Cristo está mais entre nós do que pensamos que Ele está. Na verdade, o Senhor está neste lugar, pela sua Palavra, pelas suas ordenanças, pelos seus ministros, pelo seu Espírito, sim, e pelos seus pobres, e nós não sabemos disso: “Te vi eu estando tu debaixo da figueira” (João 1.48).

2. Ela é explicada pelo próprio Juiz (v. 40): “Quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. As boas obras dos santos, quando apresenta­ das no grande Dia:

(1) Serão todas lembradas; e nem uma das menores delas será ignorada, nem um copo de água fria.

(2) Elas serão interpretadas da melhor maneira, e com o melhor significado que lhes puder ser atribuído. Assim como Cristo faz o melhor das fraquezas dos santos, Ele também faz o máximo dos seus serviços.

Nós vemos as recompensas que Cristo tem para aqueles que alimentam os que têm fome, e que vestem os que estão nus. Mas o que será do pobre devoto que não tem recursos para fazer isso? Eles ficarão do lado de fora? Não:

[1] Cristo os reconhecerá, até mesmo o menor deles, como seus irmãos. Ele não se envergonhará, nem pensará que possa ser alguma depreciação para si mesmo, chamá-los de irmãos (Hebreus 2.11). Mesmo nos pícaros da sua glória, Ele não deixará de reconhecer esses seus parentes pobres; Lázaro está ali, no seu seio, como um amigo, como um irmão. É assim que Ele os confessará (cap. 10.32).

[2] Ele irá interpretar a gentileza feita aos pobres como tendo sido feita a si mesmo: “A mim o fizestes”. Observe que Cristo abraça a causa do seu povo, e se interessa pelo que interessa a eles, e se considera recebido, amado, e aceito neles. Se o próprio Cristo estivesse entre nós, na pobreza, com que presteza o ajudaríamos? Na prisão, com que frequência nós o visitaríamos? Nós estamos prontos para invejar a honra que tinham aqueles que o serviam com as suas fazendas (Lucas 8.3)? Onde estiverem santos pobres e ministros pobres, ali Cristo estará, pronto para receber neles a nossa bondade, e ela será levada em conta.

3. Aqui está o processo relacionado aos pecadores, aqueles que estão à esquerda. E quanto a isso, nós temos:

(1) A condenação que eles recebem (v. 41). Será uma desgraça estar colocado à esquerda; mas isto não é o pior de tudo. Ele dirá a eles: “Apartai-vos de mim, malditos”. Cada uma dessas palavras transmite terror, como o terror que trouxe a trombeta no monte Sinai, cada vez mais forte, cada inflexão mais e mais dolorosa, e sem nenhum consolo.

[1] Estar tão próximo de Cristo representava alguma satisfação, embora sob o seu olhar reprovador; mas isto já não mais será permitido: “Apartai-vos de mim”. Neste mundo, eles sempre foram chamados para ir a Cristo, para ir até a vida e o repouso, mas se recusaram a ouvir os seus convites; por isso, justamente, eles recebem a ordem de afastar-se de Cristo, pois não vieram a Ele. ”Apartem-se de mim, a Fonte de todo o bem, de mim, o Salvador, e, portanto, de toda a esperança de salvação. Eu nunca mais terei nada a dizer a vocês, nunca mais terei nada a ver com vocês”. Aqui, na terra, eles disseram ao Todo-Poderoso: Aparta-te de nós. Mas ali. Ele selecionará os enganos deles, e lhes dirá: ”Apartai-vos de mim”. Observe que afastar-se de Cristo é algo tão ruim, que pode ser considerado o inferno dos infernos.

[2] Se eles devem se afastar; e afastar-se de Cristo, eles não poderiam receber uma bênção na despedida, uma palavra gentil e misericordiosa, pelo menos? Não. ”Apartai- vos… malditos”. Aqueles que não vieram a Cristo para herdar uma bênção, devem afastar-se dele sob o peso de uma maldição, aquela maldição da lei que recai sobre todos os que a infringem (Gálatas 3.10). Como eles gostavam de amaldiçoar, ela também virá sobre eles. Observe que os justos são chamados “benditos de meu Pai”; entretanto, o fato de eles serem benditos se deve pura mente à graça de Deus e à sua bênção, mas os pecadores, aqui, são chamados somente de “malditos”, pois a sua condenação vem deles mesmos. Deus os vendeu? Não, eles mesmos se venderam, e se colocaram sob a maldição (Isaias 50.1).

[3] Se eles devem partir, e partir com uma maldição, eles não podem ir a algum lugar de paz e repouso? Já não será desgraça suficiente para eles lamentar a sua perda? Não. Há uma punição dos sentidos, além da perda; eles devem se afastar para ir para o fogo, para um tormento tão terrível como fogo o é para o corpo, e muito mais. Est e fogo é a ira do Deus eterno, prendendo-se às almas e às consciências culpadas dos pecadores, que se tornaram combustíveis para ele. O nosso Deus é um fogo consumidor, e os pecadores caem imediatamente nas suas mãos (Hebreus 10.31; Romanos 2.8,9).

[4] Se é necessário ir para o fogo, não pode ser um fogo leve ou brando? Não, é um fogo “preparado”; um tormento ordenado “desde ontem” (Isaias 30.33). A condenação dos pecadores frequentemente é mencionada como um ato de poder divino. Ele tem o poder de lançar no inferno. Nos vasos da ira, Ele torna conhecido o seu poder; isto é uma “eterna perdição, ante a face do Senhor e a glória do seu poder”. Nela, se verá o que um Deus provocado pode fazer para tornar uma criatura provocadora miserável.

[5] Se é ao fogo, a um fogo preparado: Oh!, Que seja apenas de curta duração, que eles apenas passem através do fogo. Não. O fogo da ira de Deus será um fogo eterno; um fogo que, prendendo-se às almas imortais, e atacando-as, nunca poderá se extinguir por falta de combustível; e, queimando e ardendo pela ira de um Deus imortal, nunca poderá se extinguir, por não ser soprado ou atiçado; e, estando excluídas para sempre as correntezas da misericórdia e da graça, não existe nada que extinga este fogo. Se uma gota de água é negada para esfriar a língua, baldes de água nunca serão concedidos para extinguir esta chama.

[6] Se eles precisam ser condenados a tal condição de desgraça interminável, pelo menos eles não podem ter alguma boa companhia ali? Não, ninguém, exceto “o diabo e seus anjos”, seus inimigos declarados, que ajudaram a levá-los a esta infelicidade, e irão vencê-los. Eles serviram ao diabo enquanto viveram, e por isso são justamente condenados a estar onde ele está, assim como aqueles que serviram a Cristo são levados para estar com Ele onde Ele está. É terrível estar em uma casa assombrada por demônios. O que será, então, a companhia deles para sempre? Em primeiro lugar, observe aqui que Cristo sugere que existe alguém que é o príncipe dos demônios, o líder da rebelião, e que o resto deles são os seus anjos, seus mensageiros, com cujo auxílio ele sustenta o seu reino. Cristo e os seus anjos, naquele dia, irão triunfar sobre o dragão e os seus anjos (Apocalipse 12.7,8). Em segundo lugar, está dito que a fogueira está preparada, não necessariamente para os maus, como o reino está preparado para os justos; mas ela, originalmente, se destinava apenas “para o diabo e os seus anjos”. Se os pecadores se associarem com Satanás, tolerando os seus desejos, eles poderão agradecer a si mesmos se compartilharem essa desgraça que foi preparada tanto para Satanás como para os seus colaboradores. A respeito disso, Calvino observa que por isso está dito que o tormento dos condenados está “preparado para o diabo e seus anjos”, para extirpar toda a esperança de escapar a ele. O diabo e os seus anjos já estão feitos prisioneiros no seu covil, e será que os vermes da terra pensam em escapar?

(2) O motivo dessa condenação. Os julgamentos de Deus são todos justos, e Ele será justificado neles. Ele é o próprio Juiz, e por isso, “os céus anunciarão a sua justiça”.

Considere que:

[1] Tudo aquilo de que são acusados, e em que se baseia a condenação, é de omissão. Assim como antes, o servo foi condenado, não por gastar o seu talento, mas por enterrá-lo, também aqui. Ele não diz: “Eu tive fome e sede, pois vocês tomaram de mim o meu alimento e a minha bebida; Eu fui um estrangeiro, por­ que vocês me expulsaram; Eu estava nu, porque vocês me despiram; na prisão, porque vocês me colocaram ali”, mas: “Quando Eu estava passando por estas aflições. vocês foram tão egoístas, ficaram tão absorvidos na sua própria tranquilidade e no seu próprio prazer, se preocuparam tanto com o seu trabalho e estavam tão pouco dispostos a se separar do seu dinheiro, que vocês não ministraram, como poderiam ter feito, para o meu alívio e socorro. Vocês foram como aqueles amantes dos prazeres, que estavam em tranquilidade em Sião, e não se afligiram ‘pela quebra de José'” (Amós 6.4-6). Observe que as omissões são a ruína de milhares de pessoas.

[2] É a omissão de obras de caridade aos pobres. Eles não são condenados por omitir os seus sacrifícios e holocaustos (eles faziam isso abundantemente, Salmos 50.8), mas por omitir as questões mais importantes da lei, “o juízo, a misericórdia e a fé”. Os amonitas e moabitas não podiam entrar no santuário, porque não saíram para receber a Israel “com pão e água” (Deuteronômio 23.3,4). Observe que a falta de caridade aos pobres é um pecado condenável. Se não formos levados às obras de caridade com a esperança de recompensa, que sejamos influenciados pelo temor da punição, pois aqueles que não mostrarem misericórdia, serão julgados sem misericórdia. Jesus não diz: “Eu estava enfermo, e não me curastes; na prisão, e não me libertastes” (talvez isto fosse mais do que eles poderiam fazer), mas: “Vós ‘não me visitantes’, o que poderieis ter feito”. Note que os pecadores serão conde­ nados naquele grande Dia pela omissão daquele bem que eles podiam fazer. Mas se a condenação dos não-caridosos era tão terrível, quanto mais intolerável será a condenação dos cruéis, a condenação dos perseguido­ res! O motivo para essa condenação é:

Em primeiro lugar, a objeção dos prisioneiros (v. 44): “Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede?” Os pecadores condenados, embora não tenham nenhuma defesa que os justifique, em vão irão oferecer desculpas. Agora:

1. A forma do seu apelo evidencia a sua precipitação atual. Eles falaram claramente, como homens apressados: “Quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu”? Eles não se importam em repetir a acusação, como se estivessem conscientes da sua própria culpa, e fossem incapazes de suportar o terror do julgamento. Também não terão tempo para insistir com apelos tão frívolos; pois tudo isso é apenas (como dizemos) “brincar com a corte”.

2. A questão do seu apelo evidencia a sua antiga falta de consideração com aquilo que deveriam ter sabido, mas não souberam até que fosse tarde demais. Aqueles que tinham desprezado e per­ seguido os cristãos pobres, não reconheceram que tinham desprezado e perseguido a Cristo. Não, eles nunca pretenderam nenhuma afronta a Ele, nem esperavam que um problema tão grande surgisse disso. Eles imaginaram que era apenas um grupo de pessoas pobres, fracas, enfermas e desprezíveis, que faziam mais barulho do que era necessário sobre o Evangelho, e por isso eles as desprezavam. Mas aqueles que fazem isso virão a saber, seja no dia da sua conversão, como foi o caso de Paulo, ou da sua condenação, como é o caso desses, que era Jesus que eles perseguiam. E se eles dizem: “Eis que o não sabemos; porventura, aquele que pondera os corações não o considerará?” (Provérbios 24.11,12).

Em segundo lugar, é justificada pelo Juiz, que irá condenar todos os ímpios por todas as duras palavras proferidas contra Ele, quando falam daqueles que são seus (Judas 15). Ele segue a sua regra (v. 45): “Quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim”. Observe que aquilo que é feito contra os fiéis discípulos e seguidores de Cristo, até mesmo o menor deles, o Senhor assume como tendo sido feito contra si mesmo. Ele é reprovado e perseguido na pessoa deles, pois eles são reprovados e per seguidos por amor a Ele, e Ele se aflige por todas as aflições que eles sofrem. Aquele que os toca, toca nele, em uma parte não menos sensível que a menina dos seus olhos.

Por fim, aqui essas duas sentenças são executadas (v.46). A execução é a vida da lei, e Cristo irá se certificar de que seja feita de acordo com a sentença.

1. Os pecadores serão conduzidos à punição eterna. A sentença será, então, executada rapidamente, e não existe adiamento, não há tempo para se solicitar uma revisão da sentença. A execução dos pecadores é mencionada primeiro; pois primeiro é juntado e queimado o joio. Observe que:

(1) A punição dos pecadores, no estado futuro, será uma punição eterna, pois este estado será uma situação inalterável. Não se pode pensar que os pecadores poderiam modificar as suas próprias naturezas. Deus não daria a sua graça para modificá-los, uma vez que neste mundo o Dia da Graça foi mal utilizado, eles resistiram ao Espírito da graça, e os meios da graça foram frustrados e utilizados de forma abusiva.

(2) Os pecadores serão obrigados a sofrer aquela punição. Não irão voluntariamente. Não. Eles serão levados da luz às trevas; mas isso evidencia uma irresistível convicção de culpa e um desespero final por misericórdia.

2. Os justos serão levados à vida eterna, isto é, eles herdarão o Reino (v.34). Observe que:

(1) O céu é vida, é só felicidade. A vida da alma resulta da sua união com Deus, por meio da mediação de Jesus Cristo, assim como a vida do corpo resulta da sua união com a alma, por meio do espírito que Deus nos deu. A vida celestial consiste em ver o Senhor Deus e desfrutar a sua presença, em perfeita conformidade com Ele, e em uma comunhão imediata e ininterrupta com Ele.

(2) É a vida eterna. Não existe morte que dê fim à própria vida, nem velhice para dar fim ao seu conforto, nem tristeza para amargurá-la. Assim, a vida e a morte, o bem e o mal, a bênção e a maldição, estão diante de nós, para que possamos escolher o nosso caminho. E assim será o nosso fim. Até o pagão tinha alguma noção dessas diferentes condições de bem e mal, no mundo por vir.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 25: 31 – 46 – PARTE I

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O Processo do Último Julgamento 

Nesse trecho, temos a descrição do processo do Juízo Final no Grande Dia. Há algumas passagens que são alegóricas, como a separação entre as ovelhas e os bodes, e os diálogos entre o juiz e as pessoas julgadas. Mas não existe uma linha de semelhança no sermão, e por isso é preferível que seja chamado de esboço ou esquema do Juízo Final do que de parábola. Aqui está a explicação das parábolas anteriores. E temos então:

 I – O posicionamento do Juiz no trono (v. 31): “Quando o Filho do Homem vier”. Considere que:

1. Há um julgamento que há de vir, no qual cada homem deverá receber a sentença da condição de eterna felicidade, ou eterna miséria, no campo da recompensa ou retribuição, de acordo com o que fez neste mundo de tentações e provações, e todos serão julgados pelo estatuto do Evangelho eterno.

2. A administração do julgamento do Grand e Dia foi entregue ao Filho do Homem; porque por meio dele, Deus julgará o mundo (Atos 17.31), e todo o julgamento foi confiado a Ele, e por isso o julgamento daquele dia é o centro de tudo. Aqui, corno em outras passagens, quando se menciona o Juízo Final, Cristo é chamado de Filho do Homem, porque Ele deverá julgar os filhos dos homens (e o fato de Ele ter, além da natureza divina, a natureza humana, torna-o ainda mais irrepreensível). Por causa de sua maravilhosa condescendência, ao assumir para si a nossa natureza, e tornar-se o Filho do Homem, será recompensado com a sua exaltação naquele dia, e uma honra será colocada sobre a natureza humana.

3. A aparição de Cristo para julgar o mundo será esplêndida e gloriosa. Agripa e Berenice se dirigiram ao trono do julgamento com “muito aparato” (Atos 25.23); mas aquilo foi (como a palavra original diz) uma grande fantasia. Cristo assumirá o seu trono em glória verdadeira. Então o Sol da Justiça brilhará no auge de seu esplendor, e o Príncipe dos reis da terra mostrará as riquezas do seu reino glorioso, e a dignidade da sua majestade esplêndida; e todo o mundo verá aquilo em que somente os justos creem agora, que Ele é o esplendor da glória do seu Pai. Ele não virá somente na glória de seu Pai, mas em sua própria glória, corno mediador. A sua primeira vinda foi sob a nuvem escura da obscuridade; a sua segunda vinda ser á sob a nuvem reluzente da glória. A certeza que Cristo deu aos seus discípulos da sua glória futura talvez tenha ajudado a amenizar, em sua mente, o escândalo da cruz e o seu sofrimento que se aproximava.

4. Quando Cristo vier na sua glória para julgar o mundo, trará todos os seus santos anjos consigo. Esta pessoa gloriosa terá um séquito glorioso, as suas miríades sagradas, que não serão somente os seus servidores, mas também ministros da sua justiça. Eles virão com Ele não só em grandeza, mas também para servi-lo. Eles devem vir para convocar o tribunal (1 Tessalonicenses 4.16), para ajuntar os escolhidos (cap. 24.31), para colher o joio (cap. 13.40), para serem testemunhas da glória dos santos (Lucas 12.8) e da desgraça dos pecadores (Apocalipse 14.10).

5. Ele então se sentará no trono da sua glória. Ele está agora sentado com seu Pai no se u trono; e é um trono de graça, para o qual podemos ir corajosamente; é um trono de governo, o trono do seu pai Davi. Ele é um sacerdote naquele trono. Mas então Ele se sentará no trono da glória, o trono do julgamento. Veja Daniel 7.9-10. O trono de Salomão, embora não houvesse outro igual em nenhum reino, era algo muito pequeno para o Senhor Jesus. Cristo, em seus dias como ser humano, foi acusado e julgado como um prisioneiro no tribunal; mas na sua segunda vinda, Ele se sentará como um juiz no tribunal.

II –  O aparecimento de todos os filhos dos homens diante dele (v. 32): “Todas as nações serão reunidas diante dele”. Observe que o julgamento do grande dia será um julgamento geral. Todos serão convocados diante do tribunal de Cristo; todos aqueles que viveram em qualquer época no mundo, desde o início até o fim dos tempos; todos de qualquer lugar da terra, mesmo dos cantos mais distantes do mundo, os mais obscuros e distantes; todas as nações, todas as nações dos homens que são feitos do mesmo sangue, que habitam por toda a face da terra.

 III – Será feita, então, a distinção entre o precioso e o vil. Ele “apartará uns dos outros”, como o joio e o trigo são separados na colheita, o peixe bom do ruim, na margem, o trigo da palha, na eira. O ímpio e o justo aqui habitam juntos, nos mesmos reinos, nas mesmas cidades, igrejas, famílias, e não são distinguíveis uns dos outros; tais são as tristezas dos santos, e tais as hipocrisias dos pecadores. Desta forma, o juízo será um evento importante para ambos, pois naquele dia eles serão apartados e separados para sempre. “Então, vereis outra vez a diferença entre o justo e o ímpio; entre o que serve a Deus e o que não o serve” (Malaquias 3.18). Eles não podem se separar uns dos outros neste mundo (1 Coríntios 1.10), nem ninguém pode separá-los (cap.13.29); mas o Senhor conhece aqueles que lhe pertencem, e pode separá-los. Esta separação será tão precisa que nem os justos mais insignificantes se perderão na multidão dos pecadores, nem o mais plausível pecador se esconderá na congregação dos justos (Salmos 1.5), mas cada um deverá ir para seu próprio lugar. Isto é comparado à separação que o pastor faz entre as ovelhas e os bodes; ela é extraída de Ezequiel 34.17: “Eis que eu julgarei entre gado pequeno e gado pequeno, entre carneiros e bodes”. Observe que:

1. Jesus Cristo é o grande Pastor. Ele agora alimenta o seu rebanho como um Pastor, e em breve distinguirá entre aqueles que são seus e os que não são, assim como Labão separou as suas ovelhas das de Jacó e colocou uma distância de três dias de jornada entre ele e Jacó (Genesis 30.35-36).

2. Os justos são como as ovelhas, inocentes, mansas, pacientes, úteis. Os ímpios são como os bodes, um tipo de animal mais desprezível, repugnante e indisciplinado. As ovelhas e os bodes são alimentados no mesmo pasto durante o dia, mas são abrigados em diferentes currais à noite. Com essa divisão, Ele “porá as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda” (v. 33). Cristo honra os justos, assim como nós demonstramos respeito àqueles que se sentam ao nosso lado direito; mas os ímpios ressuscitarão “para vergonha e desprezo eterno” (Daniel 12.2). Não está dito que Ele colocará os ricos à sua direita, e os pobres à esquerda; os instruídos e nobres à direita, e os incultos e desprezados à esquerda; mas os justos à sua direita, e os ímpios à sua esquerda. Todas as outras divisões e subdivisões serão então aboli­ das, mas a grande distinção dos homens entre justos e pecadores, santos e ímpios, persistirá para sempre; e a condição imortal dos homens será determinada por ela. Os pecadores tomaram as suas bênçãos, riquezas e honra de maneira ilícita, e por esta razão serão condenados.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 25: 14-30 – PARTE II

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A Parábola dos Talentos 

 

III – A prestação de contas (v. 19).

1. A prestação de contas tarda para acontecer. Eles não foram chamados ao ajuste de contas senão “muito tempo depois”; não que o senhor negligenciasse os seus negócios, ou que Deus retarde a sua promessa (2 Pedro 3.9). Não, Ele “está preparado para julgar” (1 Pedro 4.5), mas tudo deve ser feito no seu tempo e na sua ordem.

2. Mas o dia da prestação de contas chega, por fim: “Veio o senhor daqueles servos e ajustou contas com eles”. Observe que os despenseiros da multiforme graça de Deus devem, em breve, prestar contas da sua administração. Todos nós prestaremos contas do bem que fizemos às nossas próprias almas, e do bem que fizemos aos outros, com os dons que recebemos. Veja Romanos 14.10,11. Considere:

(1) O bom resultado dos servos fiéis; e observe aqui:

[1] Os servos prestando contas (vv. 20,22): “Senhor; entregaste-me cinco talentos”; e outro servo disse: “Entregaste-me dois”. “Eis aqui outros cinco talentos que ganhei com eles;” e o outro disse: “Ganhei outros dois”.

Em primeiro lugar, os servos leais de Cristo reconhecem, com gratidão, sua concessão a eles. Senhor; o entregaste-me tais e tais coisas. Considere:

1. É bom fazer uma estimativa particular do que recebemos de Deus, para nos lembrarmos do que recebemos, para que possamos saber o que se espera de nós, e possamos produzir resultados correspondentes aos benefícios recebidos. 2. Nós nunca devemos considerar o que aprimoramos, a não ser com uma menção geral do favor de Deus a nós, da honra que Ele depositou em nós, ao nos confiar os seus bens, e àquela graça que é a origem e a fonte de tudo que há de bom em nós, ou que é realizado por nós. Pois a verdade é que, quanto mais fazemos para Deus, mais estamos em débito para com Ele, por fazer uso de nós, e nos capacitar para o seu serviço.

Em segundo lugar, eles apresentam, como prova da sua lealdade, o que obtiveram. Note que os bons despenseiros de Deus têm alguma coisa a apresentar para provar a sua diligência. “Mostra-me a tua fé pelas tuas obras”. Quem for um bom homem, que o mostre (Tiago 3.13). Se formos cuidadosos na administração dos nossos dons espirituais, isto logo ficará visível, e as nossas obras nos seguirão (Apocalipse 14.13). Não que os santos, no grande dia, venham a fazer menção às suas grandes obras. Não, Cristo o fará por eles (v. 35). Mas isto sugere que aqueles que aprimorar em fielmente os seus talentos terão confiança no dia de Cristo (1 João 2.28-4.17). E é notável que aquele que tinha apenas dois talentos prestou contas com a mesma disposição que aquele que tinha cinco; pois o nosso consolo, no dia da prestação de contas, será de acordo com a nossa lealdade, e não de acordo com a nossa utilidade; de acordo com a nossa sinceridade, e não com o nosso sucesso; com a retidão dos nossos corações, e não de acordo com o grau das nossas opo1tunidades.

[2] A aceitação do mestre, e a aprovação da prestação de contas (vv. 21,23).

Em primeiro lugar, o mestre os elogiou: “Bem está, servo bom e fiel”. Observe que a diligência e a integridade daqueles que se mostram os bons e fiéis servos de Jesus Cristo certamente se acharão “em louvor; e honra, e glória” na sua revelação (1 Pedro 1.7). Àqueles que reconhecem e honram a Deus agora, Ele irá reconhecer e honrar em breve.

1. Eles serão aceitos: “Servo bom e fiel”. Aquele que conhece agora a integridade dos seus servos, será testemunha dela no grande dia, e aqueles que forem considerados fiéis, assim serão chamados. Talvez eles fossem censurados pelos homens, por serem demasiadamente justos; mas Cristo lhes declarar á o seu devido caráter, como servos bons e fiéis.

2. O que eles fizeram será aceito: “Bem está”. Cristo assim ir à chamar àqueles bons servos, que trabalharam bem, e somente àqueles; pois é através da “perseverança em fazer bem” que procuramos esta “glória e honra” (Romanos 2.7); e se procurarmos, iremos encontrar; se fizermos o que é bom, e o fizermos bem, nós teremos o louvor devido. Alguns mestres são tão mal-humorados que não elogiamos seus servos, ainda que eles realizem muito bem o seu trabalho. Acreditam que não desaprovar já seja uma atitude suficiente. Mas Cristo irá elogiar os seus servos que trabalharem bem; quer os elogios a eles venham dos homens ou não, serão sempre dele. E se tivermos uma boa palavra do nosso Mestre, não importará tanto o que os nossos conservos digam a nosso respeito. Se ele disser: “Bem está”, nós ficaremos felizes, e o julgamento dos homens representará muito pouco para nós; mas, pen­ sando na situação contrária, só será aprovado aquele que o Senhor elogiar, e não aquele que elogiar a si mesmo, ou que for elogiado por seus vizinhos e amigos.

Em segundo lugar, o Senhor os recompensa. Os servos fiéis de Cristo não serão dispensados com elogios limitados. Não, todo o seu trabalho e toda a sua obra de amor serão recompensados.

 Essa recompensa está aqui expressa de duas maneiras:

(1)  Com uma expressão de acordo com a parábola: “Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei”. É usual, nas cortes dos príncipes e nas famílias de homens poderosos, promover para cargos mais elevados aqueles que foram leais nos cargos mais baixos. Observe que Cristo é um Mestre que irá preferir aqueles seus servos que se portarem bem. Cristo tem uma honra guardada para aqueles que o honram, uma coroa (2 Timóteo 4.8), um trono (Apocalipse 3.21), um Reino (cap. 25.34). Aqui, eles são pobres; no céu, serão governantes. Os justos terão o domínio. Todos os servos de Cristo são príncipes.

Observe a desproporção entre o trabalho e a recompensa. Existem poucas coisas nas quais os santos são úteis para a glória de Deus, mas existem muitas coisas nas quais eles serão glorificados com Deus. Qualquer missão que recebemos de Deus, qualquer obra que realizamos para Deus neste mundo, é muito pouco, em comparação com o gozo que nos está proposto. Considere todo o nosso serviço, todos os nossos sofrimentos, todos os nossos aperfeiçoamentos, todo o bem que fazemos aos outros, tudo o que fazemos de bom a nós mesmos, e serão apenas umas poucas coisas, quase nada. Estas coisas não são dignas de serem comparadas, nem é adequado que sejam mencionadas, tendo em vista a glória que há de ser revelada.

(2)  Em outra expressão, que sobressai da parábola para aquilo que ela representa: “Entra no gozo do teu Senhor”. Observe:

(1) A condição do bem-aventurado é uma situação de alegria, não somente porque todas as suas lágrimas serão, então, enxugadas, mas porque todas as fontes de consolo lhe serão abertas, e as fontes de alegria arrebentarão e jorrarão. Onde estiverem a visão e a concretização das esperanças que temos em Deus, uma perfeição de santidade, e a sociedade dos bem-aventurados, não pode deixar de haver abundância de alegria.

(2)  Este gozo é o gozo do seu Senhor; o gozo que Ele mesmo lhes propiciou; o gozo dos redimidos, comprado com o sofrimento do Redentor. É o gozo que Ele mesmo possui, e que era o seu objetivo quando Ele “suportou a cruz, desprezando a afronta” (Hebreus 12.2). É o gozo de que Ele mesmo é a fonte e o centro. É o gozo do nosso Senhor, pois é o gozo no Senhor, que é o nosso gozo supremo. Abraão não estava disposto a permitir que o mordomo da sua casa, embora fiel, fosse o seu herdeiro (Genesis 15.3), mas Cristo admite os seus servos fiéis no seu gozo, para serem co-herdeiros com Ele.

(3)  Os santos glorificados entrarão nesse gozo, tomarão a posse completa dele, como faz o herdeiro quando atinge a maioridade, tomando posse das suas propriedades, ou como aqueles que estão preparados e entram na festa das bodas. Aqui o gozo do nosso Senhor entra no coração dos seus santos, no fervor do Espírito. Em breve, eles entrarão nele, e estarão nele por toda a eternidade, como em seu próprio lugar.

(2) A má prestação de contas do servo negligente. Observe:

[1] As suas desculpas (vv. 24,25). Embora tivesse recebido apenas um talento, ele deve prestar contas por aquele talento. O fato de nós recebermos pouco não nos isenta de prestar contas. Ninguém será chamado a prestar contas de mais do que recebeu; porém todos nós de­ veremos prestar contas daquilo que tivermos.

Em primeiro lugar, veja em que ele confia. Ele vem prestar contas com uma dose de segurança, confiando na explicação que tinha para apresentar, e foi capaz de dizer: “‘Aqui tens o que é teu’. Se eu não aumentei o que me foi entregue, como os outros fizeram, pelo menos isto eu posso dizer: Também não diminuí”. O servo pensa que isso poderá servir para isentá-lo, se não com elogio, pelo menos com segurança.

Observe que muitos vão ao julgamento com muita segurança, supondo a validade da defesa, que será rejeitada por ser vã e frívola. Os crentes negligentes, que têm receio de fazer demais por Deus, ainda assim esperam sair-se tão bem como aqueles que se empenharam muito na obra de Deus. “Mais sábio é o preguiçoso a seus olhos do que sete homens que bem respondem” (Provérbios 26.16). Este servo pensou que a sua prestação de contas seria bem aceita, porque ele pôde dizer: ”Aqui tens o que é teu”. “Senhor eu não desperdicei os bens, não perdi o meu tempo, não me opus aos bons ministros e à boa pregação. Senhor, eu nunca ridicularizei a minha Bíblia, nunca coloquei a minha inteligência para desafiar o Evangelho, nunca abusei do meu poder para perseguir algum homem bom; eu nunca sufoquei as pessoas à minha volta, nem incentivei as criaturas de Deus à perdição na embriaguez ou na glutonaria, e nunca, no meu entender, feri qualquer corpo”. Muitos que são chamados de cristãos nutrem grandes esperanças em relação ao céu, com base na sua capacidade de produzir uma prestação de contas assim; mas tudo isso não representará nada além de ”Aqui tens o que é teu”; como se nada mais fosse exigido, ou pudesse ser esperado.

Em segundo lugar, o que esse servo negligente confessa. Ele reconhece que enterrou o seu talento:

“Escondi na terra o teu talento”. Ele fala como se isso não fosse uma falta grave; ou melhor, como se ele merecesse um elogio, pela sua prudência em guardar o talento em um lugar seguro, e não correr nenhum risco que envolvesse os recursos de seu senhor. Observe que é comum que as pessoas deem pouca importância àquilo que será a sua condenação no grande dia. Ou ainda, se ele estava consciente de que esta era uma falha sua, isto sugere com que facilidade os servos negligentes serão condenados no juízo; eles não precisarão que se procure por provas, pois as suas próprias línguas os acusarão.

Em terceiro lugar, qual é a desculpa que ele apresenta: “Eu conhecia-te, que és um homem duro, e atemorizado. Bons pensamentos sobre Deus produziriam amor, e este amor nos tornaria diligentes e fiéis; mas maus pensamentos sobre Deus produzem medo, e este medo nos torna negligentes e desleais. A sua desculpa evidencia:

1. Os sentimentos de um inimigo: “Eu conhecia-te, que és um homem duro”. Isto foi como aquelas más palavras ditas pela casa de Israel: “O caminho do Senhor não é direito” (Ezequiel 18.25). Assim, a sua defesa resulta no seu crime. ”A estultícia do homem perverterá o seu caminho” (Provérbios 19.3), e então, como se isto pudesse consertar a situação, o seu coração se ira contra o Senhor. Isto é disfarçar o pecado, como Adão, que implicitamente atribuiu a culpa ao próprio Deus: ”A mulher que me deste por companheira”. Note que os corações carnais são capazes de conceber opiniões falsas e maldosas a respeito de Deus, e com elas, persistir com os seus maus costumes. Observe com que confiança ele diz: “Eu conhecia-te”. Como ele poderia conhecê-lo tanto? Que injustiça nós ou os nossos pais encontraram nele? (Jeremias 2.5). Quando Ele nos cansou com o seu trabalho, ou nos enganou com os seus salários? (Miqueias 6.3). Por acaso Ele foi para nós um deserto ou um lugar de trevas? Por tanto tempo Deus governou o mundo, e muitos podem perguntar, com mais razão do que o próprio Samuel: ”A quem defraudei?” ou: ”A quem tenho oprimido?” Será que o mundo todo não sabe do contrário, que Ele está tão longe de ser um Mestre duro, que a terra está cheia da sua bondade; tão longe de colher o que Ele não se­ meou, que Ele semeia muito onde não colhe nada? Pois Ele faz com “que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos”, e enche “de mantimento e de alegria” o coração daqueles que dizem ao Todo-Poderoso: “Retira-te de nós”. Esta sugestão evidencia a reprovação comum que as pessoas pecadoras lançam a Deus, como se toda a culpa pelos seus pecados e pela sua desgraça estivesse à porta do Senhor, como se o Deus precioso lhes negasse a sua graça. Mas o certo é que ninguém que tenha aprimorado fielmente a graça que possuía, tenha perecido por lhe faltar uma graça especial. Ninguém pode demonstrar que algo mais poderia ter sido feito por uma vinha improdutiva, além do que Deus fez por ela. Deus não age como o Faraó, que exigia a produção de tijolos sem fornecer a palha necessária. Não, qualquer coisa que seja exigida na aliança é prometida na própria aliança, de modo que, se nós perecermos, pereceremos devido às nossas próprias atitudes.

2. O estado de espírito de um servo: ”Atemorizado”. Este mau sentimento em relação a Deus nasceu das suas falsas noções sobre Ele, e nada é mais indigno de Deus, nada é maior obstáculo ao nosso dever para com Ele, do que o medo deste servo. Aqui há escravidão e tormento, e se opõe diretamente àquele amor integral que o grande comandante exige. Note que os maus pensamentos a respeito de Deus nos afastam do seu serviço, e nos limitam em relação a Ele. Aqueles que pensarem que é impossível agradar a Deus, e que é inútil servi-lo, não farão nada com o objetivo de promover o Evangelho.

[2] A resposta do seu Senhor a esta desculpa. Isto não lhe terá nenhuma utilidade. Esta desculpa será rejeita­ da, ou melhor, se voltará contra ele, e ele emudecerá; pois aqui nós temos a sua acusação e a sua condenação.

Em primeiro lugar, a sua acusação (vv. 26,27). Ele é acusado de duas falhas:

1. Negligência: “Mau e negligente servo”. Observe que os servos negligentes são maus servos, e assim serão reconhecidos pelo seu Mestre, pois aquele que é “o negligente na sua obra”, e negligencia o bem que Deus lhe ordenou, é “irmão do desperdiçador”, fazendo o mal que Deus proibiu (Provérbios 18.9). Aquele que é descuidado na obra de Deus, é parente próximo daquele que se ocupa da obra do diabo. Não fazer o bem é trazer sobre si mesmo uma culpa muito grave. As omissões são pecados, e devem ser julgadas; a negligência abre caminho para a maldade; todos se tornaram imundos, pois “não há quem faça o bem” (Salmos 14.3). Quando a casa está desocupada, o espírito imundo se apossa dela, levando consigo outros sete espíritos piores do que ele. Aqueles que são ociosos nos assuntos da sua alma, não são apenas ociosos, mas algo pior (1 Timóteo 5.13). Quando os homens dormem, o inimigo semeia ervas daninhas.

2. Autocontradição (vv.26,27): “Sabes que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei; devias, então, ter dado o meu dinheiro aos banqueiros”. Observe que os maus pensamentos que os pecadores têm a respeito de Deus, embora falsos e injustos, estão tão longe de justificar a sua maldade e negligência, que somente irão agravar e aumentar a culpa deles. Isto pode ser interpretado de três maneiras:

(1) “Se você supunha que eu fosse um mestre tão severo, você não deveria, por isso, ter sido mais diligente e cuidadoso para me agradar? Se não fosse por amor que fosse por medo. E por essa razão, você não deveria ter se preocupado com o seu trabalho?” Se “o nosso Deus é um fogo consumidor”, devemos nos empenhar para servi-lo. Ou deste modo:

(2) “Se você me julgava um mestre severo, e por isso não negociou você mesmo com o dinheiro, por medo de perdê-lo, e ter de arcar com a perda, ainda assim você poderia tê-lo colocado nas mãos dos cambistas, ou dos ourives, poderia tê-lo levado ao banco, e então, na minha chegada, se eu não pudesse ter o melhor lucro através do comércio (como com os demais talentos), pelo menos poderia ter algum lucro, com menor vantagem, e poderia ter recebi­ do o que é meu, com juros” – o que, aparentemente, era um costume comum naquele tempo, e não reprovado pelo nosso Salvador. Note que se não pudermos, ou não quisermos, fazer o que devemos, ainda assim esta desculpa não nos servirá quando se demonstrar que não fizemos o que podíamos e devíamos fazer. Se nós não pudermos encontrar, em nossos corações, a coragem para nos aventurarmos em serviços mais difíceis e arriscados, isto nos justificará por evitarmos aqueles que são mais seguros e fáceis? Alguma coisa é melhor que nada. Se deixarmos de demonstrar a nossa coragem nas iniciativas ousadas, ainda assim precisaremos dar testemunho da nossa boa vontade através de esforços honestos; e o nosso Mestre não desprezará o dia das coisas menores. Ou deste modo:

(3) “Se você supunha que eu colho onde não semeei, ainda assim isto não significaria nada para você, pois eu semeei em você, e o talento foi o meu dinheiro que lhe foi confiado, não somente para guardar, mas para negociar”. Observe que no dia da prestação de contas, os servos maus e negligentes serão deixados sem desculpas; as defesas frívolas serão rejeitadas, e toda boca será fechada. E aqueles que agora confiam tanto nas suas próprias justificativas, não terão nenhuma palavra para dizer em sua própria defesa.

Em segundo lugar, a sua condenação. O servo negligente é condenado a:

1. Ser privado do seu talento (vv. 28,29): “Tirai-lhe, pois, o talento”. Primeiramente, o senhor dispôs dos talentos como o proprietário absoluto, mas então Ele dispunha deles como um juiz. Ele tira o talento do servo desleal, para puni-lo, e o entrega àquele que foi eminentemente fiel, para recompensá-lo. E nós temos o significado dessa parte da parábola, em razão da sentença (v. 29): ”A qualquer que tiver será dado”. Isto pode ser aplicado:

(1) Às bênçãos da riqueza e das possessões terrenas desta vida. Elas nos são confiadas para serem usadas para a glória de Deus, e para o bem dos que nos rodeiam. Aquele que tem essas coisas, e as usa com essa finalidade, terá abundância; talvez abundância dessas próprias coisas, ou, pelo menos, abundância de consolo nelas, e de coisas melhores. Mas daquele que não as tem, isto é, que tem essas coisas como se não as tivesse, como se não tivesse a capacidade de se alimentar delas, ou de fazer o bem com elas, elas lhe serão tiradas. Salomão explica isso (Provérbios 11.24): ”Alguns há que espalham, e ainda se lhes acrescenta mais; e outros, que retêm mais do que é justo, mas é para a sua perda”. Dar aos pobres é negociar com o que temos, e o retorno será grande. O Senhor irá multiplicar a farinha da panela e o azeite da botija. Mas aqueles que são sórdidos, e avarentos, e pouco generosos, irão descobrir que as 1·iquezas que assim foram obtidas “se perdem por qualquer má aventura” (Eclesiastes5.13,14). Às vezes, a Providência, estranhamente, transfere propriedades daqueles que não fazem nenhum bem com elas para aqueles que fazem; aqueles que assim agem “ajunta-as para o que se compadece do pobre” (Provérbios 28.8). Veja Provérbios 13.22; Jó 27.16,17; Eclesiastes 2.26.

(2) Aos meios da graça. Àqueles que são diligentes ao aproveitar as oportunidades que têm, Deus irá aumentá-las, irá colocar diante deles uma porta aberta (Apocalipse 3.8). Mas aqueles que não conhecem o dia da sua visitação, terão as coisas que pertencem à sua paz ocultas dos seus olhos. Como prova disso, veja o que Deus fez a Siló (Jeremias 7.12). (3) Aos dons comuns do Espírito. Aquele que os tem, e faz o bem com eles, terá abundância. Esses dons aumentam quando usados, e resplandecem quando são exercitados; quanto mais nós fizermos, mais poderemos fazer pelo Evangelho. Mas aqueles que não despertam o dom que há neles, que não se exercitam de acordo com a sua capacidade, terão os seus dons oxidados, decadentes, e extintos, como um fogo negligenciado. Daquele que não tem um princípio vivo de graça na sua alma lhe serão removidos os dons comuns que possui, da mesma maneira como as virgens loucas saíram, com falta de azeite (v. 8). Assim, o braço do pastor inútil, que ele negligentemente dobrou no seu colo, se secará completamente, e o seu olho direito, que ele descuidada ou voluntariamente fechou, se escurecerá inteiramente, conforme a ameaça descrita em Zacarias 11.17.

2. Ele é condenado a ser lançado “nas trevas exteriores” (v. 30). Nesse trecho:

(1) O seu caráter é o de um “servo inútil”. Note que os servos negligentes serão considerados como servos improdutivos, pois não fazem nada com o propósito da sua vinda ao mundo, nada que corresponda à finalidade do seu nascimento ou batismo; não são, de nenhuma maneira, úteis para a glória de Deus, para o bem dos outros, ou para a salvação das suas próprias almas. Um servo negligente é um membro definhado no corpo, uma árvore infrutífera na vinha, um zangão ocioso na colmeia, ou seja, ele não serve para nada. De certa maneira, todos nós somos “servos inúteis” (Lucas 17.10); não somos de nenhum proveito a Deus (Jó 22.2). Mas para os outros, e para nós mesmos, é necessário que sejamos de algum proveito, pois se não o formos, Cristo não nos reconhecerá como seus servos. Não é suficiente não fazer o mal; nós devemos fazer o bem, devemos produzir frutos, e ainda que Deus não tenha tido proveito nisto, pelo menos Ele será glorificado (João 15.8).

(2) A sua condenação é ser lançado ” nas trevas exteriores”. Nesse ponto, como também naquilo que foi dito aos servos fiéis, o nosso Salvador, imperceptivelmente, se afasta da parábola para entrar no que ela pretendia ensinar, e isto serve como uma chave para o conjunto todo; pois as trevas exteriores, onde há pranto e ranger de dentes, é, nos sermões de Cristo, a perífrase comum para a desgraça dos condenados no inferno. A sua condição é:

[1] Muito funesta. São as trevas exteriores. As trevas são desconfortáveis e aterradoras; elas foram uma das pragas do Egito. No inferno, há cadeias de escuridão (2 Pedro 2.4). Nas trevas, nenhum homem consegue trabalhar, uma punição adequada para um servo negligente. São as trevas exteriores, que estão fora da luz do céu, fora do gozo do seu Senhor, no qual os servos fiéis são aceitos; fora do banquete. Compare com Mateus 8.12 e 22.13. [

2] Muito triste. Ali há “pranto”, o que evidencia grande tristeza, e “ranger de dentes”, que evidencia grande irritação e indignação. Esta será a parte que caberá ao servo negligente.