PSICOLOGIA ANALÍTICA

ESPAÇO URBANO, ESPAÇO PSÍQUICO

Há um caráter de idealização e criação imaginária na relação que mantemos com as cidades que amamos e habitamos; os lugares assumem o papel de extensões do próprio eu, investimos afetivamente neles a ponto de nos tornarmos parte deles e eles, parte de nossa subjetividade.

espaço urbano, espaço psíquico

Recentemente, conversando com um motorista de táxi que não parava de reclamar dos problemas de Recife, o surpreendi com uma pergunta: “Diante de tanta dificuldade, o senhor gosta de morar aqui?”. Ele me respondeu: “Claro, não há cidade melhor para viver”. De novo indaguei: “Por que gostamos de morar em lugares que maltratam tanto nossa dignidade?”. Ele apenas comentou pensativo: “É uma boa pergunta”.

Quando falamos de nossas cidades, falamos de nós mesmos. Usamos a linguagem do afeto, que nos faz negar parte da experiência, para sustentar uma posição subjetiva que nos favorece; sem tal negação seríamos obrigados a reconhecer nossas precariedades. Isso fica bem claro quando indagamos a respeito do ufanismo de certas pessoas quando tratam suas cidades como extensões do próprio eu.

De modo geral, o espaço que ocupamos e no qual transitamos nos proporciona a sensação de pertencimento e a circulação. Fazer parte de um lugar é adquirir a possibilidade de transitar e, consequentemente, de estender o nosso espaço vital. A cidade tem caráter transicional, na medida em que se situa entre o indivíduo e a sociedade, possibilitando o trânsito entre o público e o privado, o fora e o dentro.

Com base nessa dinâmica interior/exterior, nos inserimos em vários lugares, passamos a fazer parte deles, assim como também os internalizamos. Essa vinculação se dá por meio de um trabalho psíquico e depende do tipo de investimento que fazemos em relação ao local que habitamos, às cidades que amamos ou apenas admiramos. Investir afetivamente em um lugar depende das identificações – significa que a cidade nos representa, configurando-se como uma extensão de nós, se afina com nossas singularidades e demandas, embora nem sempre essa sintonia se revele concretamente. Há um aspecto de idealização, de criação imaginária, na relação que mantemos com nossas cidades.

A MÃE-AMBIENTE

Em uma acepção mais geral, o ambiente nos envolve e nos transmite as bases de uma dada cultura, assim como a mãe, primariamente, nos oferece, por meio da linguagem e de sua postura subjetiva, os valores primários do lar e da família. Essas bases permitem a ampliação do mundo por meio da constituição psíquica e dos processos de socialização em curso desde nosso nascimento.

Na concepção do psicanalista inglês Donald Winnicott, o espaço simbólico é representado pela mãe (ou substituta) que acolhe o bebê quando nasce, que deflagra seu processo de amadurecimento. Desde essa origem o bebê desenvolve condições de autonomia para construir e transitar por diferentes lugares ao longo da vida. O modo como a criança é inserida nesse ambiente primário marca suas relações com o outro singular, mas também com uma coletividade que se organiza e se sustenta no espaço mais amplo da cidade. Nos primeiros momentos de vida do bebê, ele e a mãe-ambiente estão fusionados, mas, paradoxalmente, iniciam também, nos primeiros meses, o processo de separação, que vai marcar as singularidades de cada membro da díade.

O ambiente “recepciona” o bebê por meio das trocas sensoriais, permitindo a fusão com a mãe. Paulatinamente, o mundo do bebê se amplia e ele consegue se diferenciar. É, portanto, a experiência de estar colado à mãe que enseja outra, fundamental, que é a progressiva separação, indicando que o processo de amadurecimento está em curso. Se a criança é bem recebida e reconhecida por um “ambiente mãe”, essa experiência vai possibilitar a criação de novos laços, base para a criação de novos ambientes, nos quais a criança se diferencia a partir do olhar do outro e dá continuidade a um processo contínuo de busca da autonomia no qual ela cria o próprio lugar no mundo.

Na concepção de Winnicott, o ambiente é, antes de tudo, a mãe. Ela é não só uma metáfora como o ambiente em si, na medida em que ampara, sustenta e acolhe o bebê, levando-o a reconhecer progressivamente um espaço que vai além dela e que se torna a matriz de todos os demais lugares que ocupará na vida. Poderíamos supor que a cidade representa, na vida adulta, parte desse espaço de acolhimento, pertencimento e reconhecimento.

Para Winnicott, a constituição do psiquismo e seu amadurecimento dependem de uma provisão ambiental na qual estão contidos os investimentos de afeto, base para que o sujeito siga criando uma espacialização da vida. Nesse sentido é que sujeito-espaço-cultura fazem parte de um mesmo encaixe que é ressignificado nas diferentes etapas da vida. Assim, à medida que a criança vai se separando da mãe, o ambiente vai sendo ampliado e ocupado por outros personagens significativos, como pai, irmãos, família etc. Prosseguirá, desse modo, como esteio de outros laços de afeto que não se restringem a uma dimensão singular, mas se estende ao coletivo, dimensionando simultaneamente um voltar-se para si e para o outro, que evidencia, de certo modo, a função ambiente exercida pela mãe.

Nos primeiros tempos de vida, é fundamental que o ambiente seja apresentado à criança de forma segura, de modo que no futuro o externo possa parecer confiável. A partir dessa condição, o sujeito poderá enfrentar os conflitos e paradoxos da vida relacional. A confiança no ambiente se constitui com base em algumas condições importantes: além do acolhimento, é preciso destacar a forma como o cuidado é oferecido e a constância da presença da mãe. A partir dessa experiência seguimos enfrentando nossas vulnerabilidades com mais segurança, em direção a certa autonomia em relação ao lugar que habitamos. A confiabilidade inicial enseja outra experiência importante, que é a circulação em um lugar que Winnicott denominou de espaço potencial. Aí, sim, trata-se de uma metáfora que expressa o movimento da criança que transita entre o mundo interno e o mundo externo, em um processo que pode lhe assegurar um funcionamento entre esses dois universos. Por meio da concepção de “espaço potencial”, é possível verificar como a criança, desde muito cedo, é levada a se movimentar em um lugar intermediário entre seu mundo interno e externo, entre ela e sua mãe, de modo a criar uma vida na qual os opostos não se excluem, mas são tensionados, incitando-a a desenvolver um espaço psíquico entre esses dois elementos e ter condições de viver criativamente.

Entendemos que esse espaço intermediário nos permite compreender a relação que o indivíduo desenvolve com a sociedade e, de modo mais específico, com a casa que habita e com sua cidade. Dessa forma, o indivíduo e o espaço vivido se refletem mutuamente, e nele há compartilhamentos tanto com uma coletividade mais ampla como com distintos grupos.

A confiança na mãe-ambiente pode ser assim considerada a matriz para a confiança nos demais ambientes a serem conquistados e é a base para um viver criativo. De acordo com Winnicott, a criatividade está relacionada às primeiras experiências do bebê, no momento em que ele acredita que criou tudo que está ao seu alcance. Mais adiante ele passa a dimensionar melhor a si mesmo e o outro, podendo então assumir os gestos compartilhados com o outro, mas originado em si mesmo. Isso significa que adquirimos por meio da criatividade os meios para criar nossa própria existência e nos vincular a pessoas e lugares, que, embora tenham realidades próprias, podem ser subjetivamente percebidos.

Tendo, assim, experimentado esse espaço, a criança terá condições de prosseguir em direção a uma autonomia que implica a aproximação do outro, sem perder a si mesma, de conceber relações intersubjetivas e coletivas que lhe permitem ampliar seu universo relacional e constituir uma ética da aproximação como condição indispensável à vida nas cidades.

PORTAS PARA O MUNDO

Os vínculos estão diretamente associados ao pertencer a um lugar, à criação de um hábitat. Constituímos laços primários quando somos acolhidos e há o reconhecimento como possibilidade de habitar determinado lugar. Assim, nos inserimos simbolicamente numa cadeia geracional a partir da qual respondemos às diferentes demandas de relação com indivíduos, grupos, coletividades etc. Essa inserção tem caráter dinâmico e muda permanentemente. Talvez seja isso que precisamos para nos reinventar a nós mesmos e, ao mesmo tempo, nosso hábitat, nossas cidades.

Assim como o espaço entre o corpo materno e o da criança é vivido como espaço transicional, outros espaços adquirem essa qualidade e nos permitem recriar sempre os diversos tipos de espaços existentes no mundo. É essa flexibilidade que abre a porta de entrada para o espaço pessoal e, ao mesmo tempo, nos conduz às experiências que temos com cidades e países. Afinal, percorrer os territórios do mundo é desconstruí-los- e apropriar-se deles.

espaço urbano, espaço psíquico. 2

“DETALHES” ESQUECIDOS

Há um caráter narcísico na maneira como nos situamos no próprio hábitat. Se ele é parte de nós, evidentemente, seu reflexo aparece em nossas ações, em nossa estética, na forma como transitamos, no prazer que sentimos em desbravá-lo e no tipo de interpretação que fazemos de sua geografia e de suas expressões culturais. Nesse sentido, tanto o sujeito quanto o espaço se refazem no dia a dia, à medida que a cidade se transforma e surgem novas construções, como equipamentos culturais, educacionais e de saúde; ou a destruição se impõe não só nos edifícios, mas sob a forma de diferentes tipos de violência.

Se a relação que mantemos com a cidade é narcísica, é preciso considerar os conflitos que advêm daí. Não raro, parece haver certa irracionalidade nas avaliações que fazemos dos lugares onde vivemos. Há, com frequência, falta de dissintonia entre o que dizemos, a forma como expressamos o viver na cidade, e o que ela concretamente nos oferece. Se cada um pensar nos desconfortos cotidianos causados pela precariedade dos espaços e equipamentos públicos, dos maus-tratos das ruas e vias públicas das cidades brasileiras, certamente elas seriam muito mal avaliadas. Entretanto, quando as descrevemos, frequentemente nos esquecemos de “detalhes”, como o trânsito infernal que nos faz perder boa parte de nossa vida, ameaça de violência em cada esquina, precariedade nos sistemas de saúde, educação, escassez de opções de lazer e de ofertas culturais em grande parte das grandes cidades brasileiras.

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GESTÃO E CARREIRA

EMOJIS QUE VALEM DINHEIRO

Como as carinhas em mensagens instantâneas e torpedos estão gerando mais negócios.

emojis que valem dinheiro

Carinhas, frutinhas e bonequinhos que alegram nossas mensagens no celular são hoje um valioso instrumento para alavancar negócios das áreas mais diversas. Os números impressionam. Em 2019, est]ao previstas 3,8 bilhões de contas de mensagens instantâneas, excluindo-se as de SMS. “As mensagens se tornaram um poderoso canal de mídia a ser explorado pelas empresas”, diz Vivian Rosenthal, fundadora da Snaps, agência americana de marketing. Um de seus clientes é a inglesa Unilever. A marca Dove vinha amargando uma década de queda nas vendas de xampus nos Estados Unidos. A partir da informação de que as americanas fizeram 100 milhões de poses para o Twitter sobre a dificuldade em domar os cabelos crespos e cacheados, a naps criou uma campanha destinada única e exclusivamente a elas. A ação envolveu vídeos, e-books e emojis de meninas de cabeleira encaracolados. Em algumas semanas, cerca de 150 milhões de emojis da Dove foram baixados – 250% acima do previsto. E as vendas de xampus cresceram 4%. Marcas líderes, como Burger King e Dunkin’ Donuts também já recorreram às figurinhas para incrementar seus negócios. O aplicativo de mensagens Line fatura cerca de U$ 270 milhões por ano com a venda de emojis do Pato Donald, Snoopy e Hello Kitty, entre outros.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

ADOECER A QUALQUER CUSTO

Em uma década, Antônio C. sofreu mais de dez intervenções cirúrgicas para controlar as dores que o atormentavam, mas a etiologia de sua patologia não é física e sim psíquica. Ele sofre da síndrome de Münchausen: coloca a própria vida em perigo para ser internado e receber cuidados.

adoecer a qualquer custo

Como fazia todas as manhãs, em uma segunda-feira Antônio C., de 40 anos, levou seu filho, de 7, para a escola e depois seguiu para seu local de trabalho. Mas, no meio do caminho, um mal-estar intenso o dominou – e ele mudou de ideia. Correu para um hospital, sem avisar a esposa ou a mãe, com quem mantinha estreito contato. No pronto-socorro queixou-se de uma ansiedade incontrolável e, transtornado, pediu para ser examinado por um psiquiatra ou para falar com um psicólogo.

A decisão de procurar ajuda psicológica nascia de uma situação que lhe parecia insustentável: nos últimos meses, sua família havia descoberto que Antônio tinha grandes dívidas, acumuladas em jogos de azar durante anos. Depois de uma reação inicial de raiva e indignação, os parentes tinham se mostrado compreensivos, mas Antônio sentia-se deprimido, confuso, estressado; não conseguia se alimentar nem dormir. Costumava dizer que tinha enveredado por uma “estrada sem volta”. Foi-lhe, portanto, aconselhada uma internação na ala de psiquiatria, que Antônio aceitou aparentemente de bom grado, ainda que estivesse preocupado com as reações das pessoas da família.

No primeiro exame físico os médicos notaram, além das numerosas cicatrizes nas costas e no abdome do paciente, a presença de um neuroestimulador subcutâneo e de um dispositivo analgésico espinhal que libera morfina lentamente. Esse sofisticado sistema, instalado de forma permanente, era o resultado – como atestavam os registros do hospital – de mais de dez cirurgias na coluna vertebral, à quais o paciente tinha sofrido na última década.

Depois de duas intervenções no joelho esquerdo, quando tinha 30 anos, Antônio se submeteu a operações de hérnia de disco na região lombar da coluna vertebral, que lhe causava insuportáveis dores; o diagnóstico era lombociatalgia. Segundo os relatórios médicos, o desconforto do paciente persistia, apesar das intervenções cirúrgicas e dos resultados inconclusos dos controles radiológicos (nem a tomografia computadorizada, nem a ressonância magnética eram suficientes para determinar uma origem orgânica para a dor).

INDUÇÃO DE SINTOMAS
Por ocasião das suas consultas recorrentes de neurocirurgiões e especialistas em dor, notou-se que o paciente respondia positivamente à morfina, mas também ao placebo (substância sem atividade farmacológica, mas que em alguns casos pode produzir resposta positiva). Para explicar o “efeito placebo”, os profissionais recorreram ao sistema dos opioides endógenos.

Em virtude da invalidez, Antônio C. cumpria jornada de meio período, mas, muitas vezes, se ausentava do trabalho, sem o conhecimento da família. Tinha dificuldade para controlar sua impulsividade, por exemplo, no que dizia respeito aos jogos de azar; sentia-se frequentemente oprimido por uma sensação de claustrofobia e às vezes mergulhava em estado de confusão mental, durante o qual apresentava medo de perder o controle e intenso sentimento de angústia. Os clínicos que o acompanhavam diagnosticaram a síndrome de Münchausen, baseando-se em sua tendência patológica a mentir e na constante procura por internações e terapias cirúrgicas –mesmo na ausência de um histórico objetivo que justificasse a sintomatologia dolorosa.

A mulher e principalmente a mãe de Antônio reagiram mal à notícia de que ele sofria de transtorno emocional. Embora tivessem suportado com grande coragem e disponibilidade as numerosas intervenções cirúrgicas sofridas por ele, não aceitavam que o paciente precisasse de ajuda psicológica. Sentiam-se envergonhadas com a situação e, aos conhecidos que pediam notícias de Antônio, respondiam que estava fora a trabalho. Sob a pressão delas e sem dar aos médicos o tempo necessário para organizar um percurso terapêutico adequado, Antônio saiu do hospital.

EM BUSCA DE ATENÇÃO
O caso, descrito pelas psiquiatras italianas Camilla Callegari, Paola Bortolaso e Simone Vender, do Departamento de Medicina Clínica da Universidade da Insúbria, revela características típicas da síndrome de Münchausen. Trata-se de uma patologia que leva quem dela sofre a vagar de um hospital a outro, simulando as mais variadas condições patológicas e, em muitos casos, a se submeter a inúmeras e inúteis intervenções cirúrgicas.

Mas as viagens incríveis e as peripécias mirabolantes narradas no romance fantástico As aventuras do barão de Münchausen, de Rudolf Erich Raspe, de 1785 – obra que inspirou a denominação da patologia – são ofuscadas pela inesgotável fantasia com a qual os pacientes simulam ou provocam em si mesmos as mais diversas doenças. A síndrome de Münchausen pode ser definida como uma patologia da relação médico–paciente: indivíduos afetados por ela provocam intencionalmente em si mesmos a manifestação de sintomas, muitas vezes graves, para serem internados e assumirem a identidade de doente, com todas as “vantagens” que este papel comporta: desresponsabilização, necessidade de proteção e dependência.

Não raro, a pessoa arrisca a própria vida para conseguir uma internação ou uma intervenção cirúrgica. Pode provocar hemorragias ingerindo fármacos anticoagulantes, desencadear crises hipoglicêmicas consumindo insulina ou, ainda, contrair infecções, às vezes graves, contaminando com fezes ou urina feridas preexistentes ou injetando o muco dos ferimentos em várias partes do corpo. E tudo isso não é para conseguir vantagens materiais: o único objetivo dessas pessoas é serem consideradas doentes.

Não existe interesse, por exemplo, de obter ressarcimentos ou incentivos econômicos, evitar o serviço militar, o trabalho, ou então fugir de procedimentos judiciários. Nesses casos, o que se constata, em geral, são simulações e não procedimentos infligidos pelos pacientes a si mesmos, que lhes causam grandes sofrimentos. Foram estudados casos de pessoas que provocavam no próprio corpo enfisemas subcutâneos injetando ar sob a pele, ou abscessos mamários provocados pela introdução de material fecal nas mamas. Em um paciente foram encontrados elevados níveis de radioatividade por causa dos vários exames aos quais ele havia se submetido em poucos dias.

Em geral, os doentes inventam histórias para explicar os seus sintomas. Submetem-se a muitos diagnósticos, muitos deles invasivos e desconfortáveis. Se os resultados dos exames são negativos, costumam reagir mal, acusando os médicos de incompetência e, por fim, quando são “desmascarados”, quase sempre deixam rapidamente o hospital para dirigirem-se a outra instituição. Empreendem, assim, uma espécie de dolorosa “peregrinação hospitalar” – não em busca de cura, mas de cuidados e atenção.

Uma grande variedade de doenças pode ser simulada por tais pacientes: distúrbios abdominais, alterações da coagulação sanguínea, sintomas neurológicos e psiquiátricos, doenças dermatológicas e autoimunes, desequilíbrios metabólicos, patologias renais, cardiopatias, artrite e sequelas de abuso sexual. Exames de imagem do cérebro desses pacientes mostram que muitos deles apresentam lesões ocorridas precocemente no córtex pré-frontal. A existência de disfunção nessa área cerebral, entretanto, não é determinante da síndrome.

POR PROCURAÇÃO
Um caso particular é o da chamada “síndrome de Münchausen por procuração”, descrita pela primeira vez em 1977 pelo pediatra inglês Roy Meadow, na qual a pessoa simula ou provoca uma doença em outra pessoa para chamar a atenção sobre si, suscitar sentimentos de reconhecimento, compaixão e, por fim, o papel de quem, exaurido pelos constantes cuidados que dispensa, também precisa ser atendido. Muitas vezes trata-se de mães com características de personalidade borderline, que provocam voluntariamente feridas ou lesões nos próprios filhos, ou ainda os envenenam, como no filme O sexto sentido, de M. Night Shyamalan, de 1999, no qual o fantasma de uma menina revela ao protagonista ter sido envenenada com detergente pela mãe.

Um estudo do Departamento de Pediatria do Children’s Hospital and Regional Medical Center de Seattle, publicado em junho na Pediatric Nephrology, examinou fichas de 135 pessoas com síndrome de Münchausen por procuração. Os casos ocorreram ao longo de mais de três décadas. Um quarto das crianças apresentava sintomas no aparelho urinário ou suposto abuso sexual, sendo o autor da simulação, na quase totalidade dos casos, a mãe. Em média, o intervalo de tempo transcorrido desde o início dos sintomas até o reconhecimento da farsa era de quatro anos e meio – o que é bastante tempo, principalmente se levarmos em conta que, muitas vezes, os danos provocados pelos procedimentos de simulação tinham causado a morte das pequenas vítimas.

Apesar da predominância feminina nesse tipo específico de manifestação da patologia, de forma geral a síndrome de Münchausen é mais frequente em homens e também se associa, muitas vezes, a traços de personalidade borderline ou anti sociais. Entre os fatores de predisposição à doença podem estar experiências de abandono ou maus-tratos vividos durante a infância, mas, sobretudo, se destaca nas histórias desses pacientes sua frequente relação com médicos: a maioria foi submetida a longos tratamentos por doenças reais quando criança ou são profissionais de saúde.

TRANSTORNO FICTÍCIO

No século XIX, o comportamento patológico que consistia em produzir ou simular sintomas intencionalmente foi objeto de estudo e recebeu o nome de “patomímia”. Foi o médico inglês Richard Asher que, em 1951, deu o nome de síndrome de Münchausen a uma forma particular do transtorno caracterizado pela tendência patológica de mentir (também chamada pseudologia fantástica). Os pacientes acompanhados por Asher tinham em comum a peregrinação de um hospital a outro e a recorrente simulação, mais ou menos consciente, de doenças físicas.

A Associação Psiquiátrica Americana classifica a síndrome de Münchausen entre os “transtornos fictícios”, diferenciando-a da simulação (que apresenta vantagens materiais para o indivíduo) e dos transtornos que no passado eram classificados como histéricos (como a conversão, estudada por Sigmund Freud, na qual sintomas como perda da voz ou paralisia de membros não são produzidos intencionalmente e têm para o indivíduo um significado simbólico). Já na síndrome de Münchausen, também conhecida como “síndrome da dependência hospitalar”, “dependência policirúrgica” ou “síndrome do paciente profissional”, o único objetivo da pessoa é ser internado e, possivelmente, operado.

CrÈdito: DivulgaÁ„o

GESTÃO E CARREIRA

PRESSÃO NOS PONTOS CERTOS

Gestoras de fundos com bilhões em ativos vêm cobrando empresas para que incluam mais mulheres nos conselhos. A mudança está em andamento.

pressão nos pontos certos

Depois que grandes gestoras de fundos passaram a exigir mais mulheres nos conselhos das companhias abertas, o ritmo dessa mudança aumentou. É difícil estabelecer relações diretas de causa e efeito, mas de janeiro a maio executivas ocuparam 31% das novas vagas de conselheiros em companhias abertas americanas, segundo levantamento da Institutional Shareholder Services. É o índice mais alto em pelo menos dez anos. A BlackRock, maior gestora do mundo, com US$ 6,3 trilhões em ativos, pressiona companhias desde o início do ano para que tenham ao menos duas diretoras no conselho (na BlackRock, mulheres ocupam cinco das 18 cadeiras). A State Street Global Advisors (SSGA), uma das quatro maiores gestoras do mundo, responsável por US$ 3 trilhões, interpelou desde o ano passado 700 empresas que não tinham mulheres em seus conselhos. Desde então, 152 empresas contrataram conselheiras e outras 34 se comprometeram a fazê-lo. O fundo Blue Harbor Group tornou pública sua política ativista de apoio à diversidade. A australiana Hesta adotou outra abordagem: iniciou uma pesquisa entre 70 de suas parceiras, firmas menores de gestão, a fim de saber se há nelas mulheres com poder sobre as decisões de investimento. O Brasil segue devagar – o presidente da B3, Gilson Finkelsztain, alertou que 31% das empresas que compõem o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) não têm mulheres no conselho nem planos para mudar isso.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

COMO TER UM ANO NOVO MAIS FELIZ

Você pode trabalhar a seu favor e ajudar-se a desfrutar de maior satisfação – mas não imagine que isso acontecerá por obra do acaso. A despeito de fatores genéticos e das condições adversas que a vida nos impõe, sentir-se bem é uma construção e a felicidade, uma escolha.

como ter um ano novo mais feliz

Responda com sinceridade: o que você quer para sua vida e, mais precisamente, para o próximo ano? Arrisco dizer que eu, você e qualquer outra pessoa que leia este texto tenhamos respondido a mesma coisa. Podemos até ter pensado em coisas diferentes, talvez associadas a saúde ou relacionamentos, dinheiro, realização profissional, possibilidade de viagem ou resolução de um impasse em qualquer esfera da vida seja para nós mesmos ou para outras pessoas. Não importa. Qualquer que tenha sido a resposta, certamente o que está por trás dela é a crença de que aquilo que desejamos nos trará satisfação. O que queremos mesmo é ser felizes – independentemente da idade, nacionalidade, experiência de vida, profissão, classe social, preferências, particularidades pessoais ou qualquer outra característica.

Mas, afinal, que estado é esse tão almejado? A felicidade pode ser entendida como a combinação entre o grau e a frequência de emoções positivas; o nível médio de satisfação que obtemos durante um longo período e a ausência de sentimentos negativos, tais como tristeza e raiva”, responde a psicóloga Susan Andrews, doutora em psicologia transpessoal pela Universidade de Greenwich, na Inglaterra, que fundou no Brasil, em 1992, o Instituto Visão Futuro, do qual é coordenadora. A instituição, mantida com base numa visão humanista de máxima utilização dos recursos, cooperação e equilíbrio com a natureza, fica numa comunidade autossustentável em Porangaba, no interior de São Paulo. Para a psicóloga, formada na Universidade Harvard, autora de A ciência de ser feliz Conheça os caminhos práticos que trazem bem-estar e alegria (Agora, 2011), essa definição marca a felicidade como uma característica estável, e não como uma flutuação momentânea: logo, não seria caracterizada apenas como a falta de emoções desagradáveis, mas também como a presença de sentimentos prazerosos.

Do latim, felix, felicis, queria dizer, originalmente, “fértil, “capaz de produzir frutos”. Em inglês, happiness tem raiz no nórdico arcaico, happ, que no dialeto de origem quer dizer “boa sorte. É muito provável que o vocábulo esteja vinculado à expressão antiga hapt up in bed, que significa estar protegido, seguro. Curiosamente, quando estamos realmente entregues à sensação de bem-estar, sem a ânsia incômoda de reter essa sensação, mas simplesmente permitindo-nos ficar bem, é como se estivéssemos livres de qualquer vulnerabilidade – inteiros e centrados. Talvez seja justamente essa experiência de paz e centramento que diferencie a felicidade, uma vivência interna, dos momentos de alegria, ou mesmo da euforia, exteriorizada e fugaz.

No entanto, antes de pensar na satisfação, parece ser importante levar em conta a questão do desprazer. Afinal, por que sofremos? Em linhas gerais, é possível considerar que o sofrimento nasce de um movimento mental duplo: o apego (àquilo que consideramos, em geral equivocadamente, ser a causa de nossa felicidade) e a aversão (o que vemos como razão do sofrimento). Nos dois casos, há distorção da percepção em relação ao que nos faz bem. É muito frequente imaginarmos que, se fôssemos mais ricos, tivéssemos assimilado cognitivamente mais informações, fôssemos mais jovens ou mais bonitos, seriamos mais felizes. O que a ciência mostra, porém, é que não é bem assim que funciona. Dinheiro, por exemplo, costuma ser fortemente associado a felicidade em nossa sociedade, mas parece que na prática a relação não é tão simples. O pesquisador Ruut Veenhoven, da Universidade Erasmus de Roterdã, na Holanda, constatou que populações de países ricos tendem a ser mais felizes do que as de países pobres. Mas atenção: quando a renda média anual chega a determinado patamar que contempla a satisfação de necessidades de alimentação, moradia, segurança e emprego, qualquer renda extra não parece tornar as pessoas realmente mais satisfeitas. Além desse parâmetro, dinheiro e felicidade simplesmente se desconectam e não é possível estabelecer a relação significativa entre o quanto a pessoa tem de dinheiro e seu índice de satisfação com a vida. O economista Richard Easterlin, da Universidade da Califórnia do Sul, levantou a hipótese de que, se a renda de cada habitante do planeta fosse aumentada, isso poderia ampliar a felicidade de todos. Essa relação, no entanto, não se confirmou. Ele constatou também que, acima da linha de pobreza, a possibilidade de o dinheiro atrair mais felicidade é bastante relativa: além do ponto em que necessidades básicas são atendidas, mais riqueza não garante acréscimo de satisfação. O trabalho de Easterlin, um clássico das ciências sociais, se traduz num conceito importante: menos é mais.

Mesmo uma vida de intensa estimulação sensorial profundamente agradável, em lugares luxuosos, plena de mimos, não garante a felicidade. Afinal. quanto mais uma experiência prazerosa for repetida, menos satisfação trará ao longo do tempo. Coisas maravilhosas são sentidas assim na primeira vez em que acontecem, mas sua fascinação se dissipa com a repetição. Para constatar isso, basta pensar em como é prazerosa a primeira mordida em um chocolate para quem adora esse alimento e qual sensação traz comer a quinta barra do mesmo doce – certamente a satisfação se dissipa.

Entre outros, os estudos desenvolvidos pelo psicólogo Edward Diener, professor da Universidade de Illinois, mostram que a procura da felicidade por meio de objetos externos nos afasta de desfrutar o momento presente, o que tende a diminuir nosso grau de satisfação, como se “nos distraísse de nós mesmos. Ele faz uma comparação com a dependência química, que garante prazer no início, mas, ao longo do tempo, obriga a pessoa a obter mais daquela substância para que se sinta bem – ou para que não fique tão mal. Numa sequência clássica de estudos muito interessantes publicada pelo periódico científico Journal of Psychopharmacology, os pesquisadores Philipe Brickman (psicólogo já falecido), o sociólogo Dan Coates e a psicóloga Ronnie Janoff’ Bulman acompanharam tanto pessoas que haviam sido sorteadas com prêmios da loteria quanto pacientes que ficaram paraplégicos. O trabalho revelou uma conclusão inusitada: uma semana depois de terem sofrido um acidente, os pacientes se mostravam revoltados e ansiosos; após três meses, voltavam a experimentar momentos de felicidade; um ano depois, aqueles que ganharam na loteria não eram mais felizes do que antes de receber o prêmio.

Talvez em alguma escala isto já tenha acontecido com você: comprou uma roupa incrível com um preço ótimo, viajou para um ligar lindo, ganhou o celular que tanto queria ou se casou com a pessoa que amava – e isso o fez muito feliz. No entanto, passado algum tempo, parece inevitável que a intensidade da satisfação inicial não se mantenha. O oposto também vale. Para a maioria das pessoas, quando acontece algo que as entristece profundamente ocorre o mesmo: passado o momento da dor, nosso estado de ânimo tende a se equilibrar. A súbita melhora ou piora de humor provocada por fatos da vida não persiste, pois tendemos a nos acostumar às circunstâncias e voltamos a um nível basal de felicidade, que varia de uma pessoa para outra, em decorrência de fatores variados como herança genética, traços de personalidade e com o quanto nos responsabilizamos por nós mesmos e nossas escolhas.

Um fato importante a ser considerado é que a felicidade duradoura não é um presente que caído céu por obra do acaso. Trata-se, na verdade, de uma construção subjetiva: o bem-estar não reside naquilo a que temos acesso ou naquilo que vivenciamos, mas em como fazemos isso. Não é novidade que somos hoje, em geral, mais ricos e saudáveis do que eram nossos pais e avós – mas nem por isso estamos mais satisfeitos e, não raro, caímos na armadilha de acreditar que seremos mais felizes se tivermos mais dinheiro, tempo, prazer, reconhecimento… Iludir-se com ideias prontas de que o bem-estar está diretamente associado a acumular bens materiais, atingir metas profissionais ou conquistar a pessoa amada pode trazer um grande desapontamento. Claro que tudo isso é importante, mas não determinante para a felicidade. A boa notícia é que é possível se apropriar do sentimento de satisfação e responsabilizar-se por ele – não apenas no nível cognitivo, mas também no âmbito psíquico. O que fazer, então? Não há “manuais de felicidade” ou soluções mágicas, mas pesquisas recentes nas áreas de psicologia e neurociência oferecem algumas pistas interessantes.

Pesquisadores da área da psicologia positiva são os principais defensores da ideia de que é possível aumentar o nosso nível de prazer com a vida. Eles reconhecem que há fatores sobre os quais não temos tanta (ou nenhuma) influência – como genética, responsável por algo em torno de metade de todo o nosso potencial para a satisfação, e as condições externas que favorecem ou prejudicam a expressão dessa carga hereditária. Mas há espaço de manobra. Pesquisadores da chamada ciência hedônica sugerem uma “fórmula para a felicidade”: F – G + C + AV, onde Felicidade – Genes + Condições externas + Atividades volitivas (ou ações intencionais). A psicóloga Sonja Lyubomirsky, professora da Universidade da Califórnia, ganhadora do prêmio Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos em 2008, esclarece que essas últimas são determinadas pela vontade, resultado de uma escolha. Sito as que mais apresentam possibilidades para aumentar e sustentar o sentimento de bem-estar. Ela ressalta que persistir no compromisso consciente de buscar experiências que nos fazem bem predispõe o funcionamento mental a buscar saídas criativas. Tendemos a nos familiarizar com aquilo que fazemos de forma atenta e significativa, criando sentidos e espaços psíquicos para essas experiências. “Costumamos subestimar atividades intencionais, mas elas são poderosas, podem deflagrar mudanças importantes em nossa qualidade de vida – mas é preciso comprometer-se com o projeto de ser uma pessoa mais feliz”, afirma Sonja Lyubomirsky.

como ter um ano novo mais feliz. 2

ROTINA PARA ORGANIZAR A VIDA

Pense sobre as experiências mais importantes que viveu. Muitos se recordam do dia do casamento, do nascimento dos filhos, de uma viagem especial ou da primeira vez que saltou de paraquedas. É pouco provável que algum se lembre da última vez que escovou os dentes. No entanto, estudos sugerem que as trivialidades do dia a dia podem contribuir bastante com a sensação de ter um propósito para si mesmo. Por mais que esse conceito soe como algo sentimental, perceber que a vida tem algum sentido é fundamental para nosso bem-estar. Pesquisas associam esse sentimento com flexibilidade, saúde mental, sucesso no trabalho e longevidade. A psicologia fala de três aspectos da experiência: significado, propósito e coerência. Em outras palavras, a vida ganha relevância quando nos sentimos importantes e enxergamos um objetivo, pois temos a sensação de pertencimento, de fazer parte de algo que nos transcende. Os dois primeiros elementos têm sido amplamente estudados. No entanto, experimentos sobre a coerência começaram somente em 2011, quando os psicólogos Jason Trent, Samantha Heintzelman e Laura King, da Universidade de Missouri, relataram na Psychological Science que até mesmo um padrão visual simples pode favorecer a sensação de um significado maior.

Segundo o artigo, 77 voluntários observaram 16 fotografias de árvores ordenadas de forma aleatória ou conforme as estações do ano. Aqueles que visualizaram as imagens com o padrão sazonal relataram encontrar mais sentido na vida do que os outros, o que foi medido de acordo com as respostas que haviam preenchido num questionário logo após a tarefa visual. Outros 229 participantes visualizaram três grupos de palavras por alguns segundos; algumas eram semanticamente relacionadas, outras não. Os que trabalharam com conjuntos de termos coerentes e viram alguma ligação entre os elementos disseram encontrar maior significado na vida do que os que observaram palavras aleatórias.

Samantha Heintzelman e Laura King escreveram no ano passado, num artigo na American Psychologist, que a tendência humana é encontrar um significado na vida. Então, combinando essas duas linhas de pensa mento, de que procurar sentido é algo comum e de que isso pode ser extraído da coerência, começamos a indagar quais seriam os aspectos do cotidiano com essa característica”, diz Samantha. Uma resposta pode ser a rotina. Em um trabalho apresentado em fevereiro na reunião anual da Society for Personlity and Social Psychology, pesquisadores solicitaram aos voluntários que resolvessem cinco labirintos. Para alguns, as soluções eram semelhantes, o que tendia a induzir ao hábito. Em seguida, os participantes responderam a perguntas sobre a vida. Os que haviam se familiarizado pouco antes com a resolução da tarefa claramente expressaram maior sensação de conforto. As cientistas relataram também na conferência que aqueles que disseram fazer “praticamente a mesma coisa todos os dias”, de acordo com um levantamento sobre o cotidiano deles, acreditavam que a vida tinha mais sentido.

A noção de que encontramos um maior significado em hábitos e trivialidades é um pouco surpreendente, segundo as cientistas. “Essa não é a maneira como historicamente temos pensado sobre o significado da vida, o que nos deixa um pouco perplexos”, comenta Heintzelman. Ela argumenta que, muito além de árvores, grupos de palavras e labirintos complicados, podemos encontrar sentido ao manter a casa arrumada, uma programação diária ou jantares semanais com os amigos. É importante também, de tempos em tempos, questionar nossas escolhas (como trabalho e relacionamentos) e reafirmar nossos compromissos – ou revê-los. A coerência de uma vida ordenada também ajuda a estabelecer quais são nossos objetivos, propósitos e os significados que queremos dar à nossa vida.

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O QUE FAZ SEU DINHEIRO RENDER

Muitos grandes pensadores já advertiram: a felicidade não depende de bens materiais. E a ciência confirma esse conselho – pessoas com mais dinheiro não são necessariamente mais felizes. No entanto, a maneira como gastamos nossas reservas faz diferença. Uma pesquisa revela algumas estratégias que podem ajudar a aumentar a satisfação em longo prazo. Investir em experiências, por exemplo, é mais satisfatório que adquirir mercadorias. Muitos estudos comprovam que gastar com restaurantes, cursos, concertos ou viagens, por exemplo, contribui mais para a felicidade duradoura do que adquirir bens. Um artigo publicado no início deste ano pelo psicólogo Thomas D. Gilovich e seus colegas da Universidade Cornell mostra que os benefícios podem estar relacionados com o fato de que momentos como esses envolvem interações sociais e tendem a ampliar nossas oportunidades de identificação, permitindo o enriquecimento de nossa subjetividade. Em termos de ‘dinheiro bem gasto’, as experiências são as que mais pontuam nas medidas de felicidade”, diz Gilovich.

É importante também planejar com tranquilidade as experiências. Antecipar mentalmente uma recompensa não raro pode proporcionar mais alegria do que a gratificação em si. Num estudo em andamento, Gilovich analisa exatamente essa questão, solicitando aos voluntários que descrevam seu estado mental antes e depois de adquirir bens. Ele observa que o planejamento e a antecipação das compras resultam em maior sensação de bem-estar e entusiasmo do que esperar as mercadorias chegarem, o que, em geral, causa tensão e impaciência. Os cientistas sugerem: tente atrasar a gratificação. A aproximação de uma recompensa imediata (sexo, drogas, alimento favorito) costuma aumentar os níveis de dopamina, um neurotransmissor que traz a sensação de bem-estar; quando recebemos o que desejamos, porém, a quantidade dessa substância tende a baixar. Gilovich acredita que essa dança dopaminérgica entra em jogo quando adquirimos presentes para nós mesmos. Já que o prazer de buscar satisfação imediata é passageiro. Por isso, insiste que adiar algumas compras até determinada data ou ocasião especial nos permite absorver mais prazer da experiência por causa da tensão acumulada. Isso vale também para crianças. Ou seja: oferecer frequentemente presentes (a si mesmo ou aos outros) sem motivo pode trazer pouco benefício.

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UMA AGENDA MAIS INTELIGENTE

A felicidade não pode ser forçada, muito menos de uma hora para outra. Negar sentimentos como raiva ou angústia é prejudicial para a mente e o corpo. O melhor é cultivar o bem-estar, o que favorece a saúde do corpo e dos relacionamentos. Uma alternativa eficaz pode ser reforçar as probabilidades de alcançar a satisfação planejando o tempo destinado a atividades prazerosas. Mas como fazer isso?

Um estudo publicado em dezembro de 2014 na Emotion relata como os pesquisadores transformaram em conceito a ideia de “priorizar a positividade”. Eles pediram a 233 adultos de diversas idades que assumissem essa postura intencionalmente em seu cotidiano e, posteriormente, os submeteram a vários testes. Os resultados mostram que os indivíduos que seguiram essa abordagem diziam estar mais satisfeitos com a vida em geral que os participantes do grupo de controle que apenas responderam às avaliações. Além disso, os primeiros relataram emoções positivas mais frequentemente e menos sintomas depressivos. Aqueles que priorizaram a positividade com planos concretos (como incluir na rotina atividades prazerosas) demonstraram também mais recursos psicológicos e sociais, como resiliência, atenção plena e relacionamentos positivos.

“É importante sair do automático e refletir sobre aquilo que traz satisfação e alegria, procurando arrumar tempo para esses eventos na sua vida diária”, observa a psicóloga Lahnna Catalino, da Universidade da Califórnia em San Francisco, coautora do estudo. “Para alguns, isso significa reservar regularmente alguns momentos para jardinagem ou culinária; para outros, se aproximar dos amigos ou praticar um esporte, por exemplo.” Essas atividades podem ser difíceis para pessoas que lutam contra a depressão, mas se alinham com a noção de que não é possível forçar  felicidade, mas abrir espaços para o que faz bem e desfrutar de dias que incluem coisas que dão prazer.

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INSPIRA, EXPIRA…

Nos últimos anos, inúmeros estudos revelaram os benefícios da meditação para o cérebro – e o restante do corpo. Pesquisas feitas no Departamento de Medicina da Universidade Chulalongkorn, em Bangcoc. na Tailândia, por exemplo. mostraram que pessoas que não praticavam meditação e o fizeram por apenas seis semanas vivenciaram uma significativa diminuição do nível de cortisol. Pesquisa conduzida por Vincent Giampapa, ex-presidente do Conselho Americano de Medicina Antienvelhecimento, revelou que a prática meditativa regular pode diminuir em até 47% os níveis excessivos de cortisol. Estudantes chineses da Universidade de Tecnologia de Dalian, que fizeram a prática pela primeira vez por apenas 20 minutos durante cinco dias, experimentaram redução também de ansiedade, de confusão, raiva e até depressão.

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À FLOR DA PELE

Pesquisadores do Instituto de Pesquisas do Toque, na Universidade de Miami, descobriram que algumas poucas semanas de massoterapia podem reduzir os níveis excessivos de cortisol, o hormônio do estresse, em até 30%. Além disso, provoca aumento dos neurotransmissores do bem-estar (serotonina, que cresceu até 28%) e do prazer {dopamina, que aumentou mais de 30%). A prática melhora também o funcionamento mental. Pesquisas feitas por Sybil Hart mostraram que crianças da pré-escola – especialmente aquelas consideradas mais “temperamentais” – que receberam 15 minutos de massagem regularmente se saíram melhor em lestes de desempenho cognitivo e revelaram um aumento na atenção. Uma vez que o cortisol inibe o funcionamento do centro de memória e aprendizado no cérebro, o hipocampo, a diminuição de cortisol favorece o desempenho mental. E vale fazer automassagem, dando atenção especial ao rosto, ao pescoço, às    axilas, às virilhas e aos joelhos, regiões onde se localizam  muitos linfonodos, beneficiando assim o corpo todo.

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FAZ BEM FAZER O BEM

Gente feliz é mais propensa a agir de forma altruísta, mas até recentemente ninguém jamais havia provado que fazer o bem de fato torna as pessoas mais felizes. Foi a psicóloga Sonja Lyubormirsky quem conduziu um experimento no qual foi pedido aos participantes que fizessem cinco atos de caridade por semana, no decorrer de seis semanas. Eles foram informados de que essas ações podiam ser grandes ou pequenas, e a pessoa beneficiada poderia ou não estar consciente delas. Resultado: a prática regular da benevolência tornava os voluntários mais felizes – e não só no momento do ato, mas por um longo período, especialmente se a pessoa não contava a ninguém e não esperava nada em troca. Além disso, recentemente alguns trabalhos têm revelado a base bioquímica do prazer do altruísmo. Um estudo com mais de 1.700 pessoas feito pelo Instituto para o Avanço da Saúde, nos Estados Unidos, concluiu que comportamentos e emoções altruístas produzem uma espécie de “barato de quem ajuda, que alivia estresse, enxaqueca e até dores associadas a transtornos sérios, como lúpus e esclerose múltipla.

GESTÃO E CARREIRA

O MAPA DA MINA DOS EMPREGOS

Estudo inédito mapeia 16 mil empresas que dobraram seu quadro de funcionários em apenas quatro anos.

o mapa da mina dos empregos

Com a crise, o medo da demissão assombra os brasileiros – no primeiro trimestre, a taxa de desemprego foi de 13,1%. Existe, porém, um grupo de empresas cujos quadros de funcionários só aumentam. São as scale-ups ou EACs (empresas de alto crescimento), caracterizadas por crescer 20% ou mais em posto de trabalho por três anos consecutivos. No Brasil, as EACs são raras – apenas 0,6%. No entanto, elas criaram 172% mais empregos de 2013 a 2015. Tivemos acesso com exclusividade a um levantamento feito pelo lnsper e pela Neoway, de análise de big data.

O trabalho avaliou 16.142 empresas que, entre 2013 e 2016, aumentaram em cerca de 100% o número de contratações. Só em 2016, criaram 1,8 milhão de vagas – ano em que 2 milhões de brasileiros foram demitidos. Da amostra, destacam-se 1.094 companhias cujas contratações cresceram 929%. “Saber os setores onde elas estão é um primeiro passo para mapeá-las”, diz Guilherme Fowler Monteiro, um dos responsáveis pelo estudo. “O próximo é entender o que esses negócios fazem de tão diferente.”

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O DESEJO E SUAS POSSIBILIDADES

Filme adaptado de conto inglês apresenta de forma delicada possibilidades de subversão de modelos convencionais de sexualidade, afeto e família.

o desejo e suas possibilidades

Se a linguagem e a cultura são determinantes na formação psíquica, trazer ao discurso questões que, até agora, não poderiam ser vistas ou ditas pode ter caráter transformador. Apesar das constantes de padronizar comportamentos e se excluir diferenças tentativas ao longo dos séculos, a diversidade tem aberto seu caminho, quebrando o modelo cristalizado e rígido de moral e família convencional, que acorrenta laços afetivos e a sexualidade.

É com essa proposta que François Ozon apresenta Uma nova amiga, uma adaptação livre do conto da escritora inglesa Ruth Rendell. O filme inicia com foco no casamento dos jovens David e Laura, e na relação da noiva com sua madrinha Claire, grande companheira de infância e adolescência. Pouco depois, porém, Laura adoece, vítima de um câncer precoce e devastador, no mesmo período em que engravida e dá à luz sua filha. No hospital, Claire promete à amiga estar sempre ao lado de David para ajudá-lo com o bebê e no que mais fosse necessário. Na primeira visita a David após a morte da amiga Claire surpreende o rapaz cuidando da filha vestido com as roupas da falecida. O constrangimento o leva a justificativas apoiadas em uma possível necessidade de manter a presença da mãe para acalmar o bebê, o que não convence Claire.

Com o tempo e a convivência, porém, ela e David desenvolvem uma intimidade que permite a ele expor-se publicamente usando roupas e nome de mulher – assim surge Virgínia, uma “nova amiga” para Claire. Da tensão inicial aparece uma cumplicidade com certa dose de atração e erotismo que parece desvendar em Claire seu lado homossexual, encantada pela porção feminina do amigo. E, a despeito do tom inusitado da situação, o relacionamento entre eles ganha força sexual e afetiva.

Sem esbarrar num clima panfletário, a narrativa propõe de maneira natural uma reflexão cuidadosa sobre o desejo e suas infinitas possibilidades. Vale reafirmar que estes referenciais tão arraigados nas sociedades judeu-cristãs impuseram valores, influenciando e marcando a cultura, a ciência, a medicina e a psiquiatria de forma especialmente intensa até há poucas décadas. A psicanalista e historiadora contemporânea Elizabeth Roudinesco alerta para a importância de evitar o reducionismo muitas vezes estimulado pelas ciências positivistas, na tentativa de normatizar categorias de comportamento e discriminar o que parece estranho.

Essa dinâmica restringe os sujeitos a sistemas fechados que desconsideram as subjetividades e singularidades.

Um exemplo claro e didático se apresenta em 1952, na primeira edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM). A homossexualidade, neste caso, fica incluída nos distúrbios sociopáticos da personalidade, considerada um desvio sexual envolvendo comportamento patológico. Em 1968 passou a pertencer à classe dos desvios sexuais e somente a partir da terceira edição do DSM, em 1987, foi finalmente retirado do manual. O transexualismo surge na terceira edição classificado como disforia de gênero, o que foi revisto em 1994 com o diagnóstico de transtorno de gênero.

Este processo de patologização da homossexualidade e do transgênero foi delineado formalmente nas primeiras discussões, no século 19, por autores como o psiquiatra Richard von Krafft-Ebing, na Alemanha. Estes entendiam essa prática associada ao desvio sexual, à degeneração e psicopatia. Sob a influência do positivismo e de ideias desenvolvimentistas, Freud escreveu em 1905 os Três ensaios sobre a sexualidade e apontou como aberrações sexuais os desvios, as inversões (ou o que chamou hermafroditismo psíquico) e o comportamento perverso.

Por outro lado, sua teoria sobre desenvolvimento sexual, complexo de Édipo e castração trouxe a importância das experiências emocionais da infância como bases para a vida psíquica. Tendemos a repetir estas matrizes apoiadas nas identificações estabelecidas nessas primeiras vivências. E em nosso percurso, buscamos novas soluções para as inevitáveis marcas dos conflitos vividos. É a experiência da castração que nos possibilita o contato com nossos limites e com a incompletude. A partir desta constatação, somos impelidos à busca incessante de satisfação, em direção a outras possibilidades, já que a expectativa de realização pelo prazer total se perdeu e ficou impossível. Este olhar pode transcender o normal e o patológico como únicas referências possíveis.

O inusitado em Uma nova amiga surge, em grande parte, na atração de David/Virgínia por Claire, algo que extrapola o modelo “heteronormativo” previsto e coloca em pauta a questão de gênero, um tema contemporâneo complexo e desafiador aos pensamentos cartesianos. Na ordem do dia, a filósofa americana Judith Butler define gênero como “um modo de abraçar ou concretizar possibilidades, um processo de interpretar o corpo”. O debate sobre o tema visa desconstruir a padronização do modelo biológico e anatômico para definir sexualidade, considerando a constituição da identidade e do gênero uma orientação dinâmica atravessada pela construção da história pessoal, das relações e da cultura.

François Ozon foi ousado, mas de maneira delicada conduz o espectador a pensar e refletir sobre as implicações dos desejos e escolhas feitos pela vida. Denuncia também as hipocrisias sociais, os tabus que tendem a inibir infinitas saídas psíquicas. Como uma obra inacabada, caminhamos pela vida na busca de soluções mais ou menos criativas para nossas angústias. Em nossos projetos de vida, o amor, o trabalho e os relacionamentos podem permitir a concretização de alguns sonhos, mas trazem sempre à luz as arestas da realidade. Nesta luta, cada novo desafio pode ser visto como tentativa da reinvenção de nós mesmos, numa trajetória de aprendizado. Como diz Butler, “como corpos, nós somos sempre algo mais, e algo outro, do que nós mesmos”.

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UMA NOVA AMIGA

1h47min – França, 2015 Direção: François Ozon Elenco: Romain Duris, Anaïs Demoustier, Raphaël Personnaz e outros.

 

ERANE PALADINO é psicóloga e psicanalista, mestre em psicologia clínica, professora do Instituto Sedes Sapientiae.