GESTÃO E CARREIRA

Jovens no Board

TEM VAGAS PARA JOVENS NO BOARD

 Buscando mais diversidade e proximidade no negócio, as empresas estão mudando o perfil dos executivos que compõem seu conselho. Com isso, tem surgido espaço para profissionais mais jovens nessas cadeiras. 

Quando recebeu o primeiro convite para sentar em uma cadeira de conselheiro na empresa de autopeças Plascar S/A, o advogado paulistano Mauro César Leschziner tinha 34 anos. Até então a possibilidade de ser cotado para ocupar esse tipo de posição nunca havia lhe ocorrido. “Eu era muito jovem, estava focado em outras coisas e nem considerava participar de conselhos”, afirma. Hoje, aos 44 anos, além da Plascar, Mauro também compõe o board da empresa de educação executiva Affero Lab e concilia as duas funções com o cargo de advogado no escritório Machado Meyer. “No começo, você sente um pouco o peso da idade, mas depois se acostuma e começa a entender como as empresas e as concorrentes operam. Por não estar inserido no mundo corporativo, tive de estudar mais e dedicar mais tempo aos números. É um aprendizado que eu nunca teria advogando”, diz.

Tradicionalmente, quando se pensa no conselho de administração, a primeira imagem que vem à cabeça é de um grupo de executivos grisalhos com muitos anos de experiência no mundo corporativo. Embora essa imagem corresponda em grande parte à realidade, casos como o de Mauro estão se tornando cada vez mais frequentes e mudando a composição desses espaços. A necessidade de as empresas se tornarem mais competitivas – algo que foi intensificado pela crise econômica – tem feito com que elas busquem conselheiros com perfil mais próximo do negócio ou do consumidor de seus produtos e serviços. “Os conselheiros deixaram de ser executivos generalistas, muitas vezes figurões do mundo corporativo ou amigos dos CEOs, e passaram a ser definidos por funções específicas, de acordo com a necessidade do momento da empresa, por exemplo, um novo negócio, diz Arthur Vasconcellos, sócio da empresa de recrutamento e seleção Caldwell Partners Brasil, em São Paulo. Esse cenário, aliado a negócios cada vez mais tecnológicos, abriu espaço para profissionais mais jovens no board. “Muitos setores têm demandado novos temas, como compartilhamento de serviços, processos automatizados ou riscos cibernéticos. Em geral, quem entende desses assuntos são os mais jovens”, afirma Anna Maria Guimarães, coordenadora acadêmica do curso Advanced Boardroom Program for Women (ABP-W) na escola de negócios Saint Paul, de São Paulo.

 JUVENTUDE E EXPERIÊNCIA

Companhias de capital aberto, sociedades anônimas, instituições financeiras ou seguradores são obrigadas por lei a ter conselhos de administração. Mas a preocupação com as boas práticas de governança tem feito com que até mesmo as empresas fechadas (as chamadas limitadas) se preocupem em formar um time de conselheiros. “Muitas empresas familiares que estão querendo se profissionalizarem buscam criar um grupo de profissionais capacitados para ajudar nesse processo”, afirma André Freire, sócio da consultoria de recrutamento Exec. de São Paulo.

Se em organizações tradicionais ter funcionários conectados é importante, nas empresas recém-abertas isso se torna ainda mais crucial. Esse é o caso da Hotmart, startup de tecnologia que, por fazer parte de um fundo de private equity e receber aporte de investidores precisou montar um conselho de administração. Na empresa, a idade dos membros varia de 27 a 38 anos. “O time é composto de investidores e convidados e a maioria é de tecnologia. Os mais jovens, mesmo que não tenham tanta experiência, contribuem na hora de projetarmos cenário, porque olham mais para o futuro, diz João Pedro Resende, fundador da Hotmart. Mas pouca idade nem sempre é sinônimo de pouca experiência. Alguns executivos na faixa dos 40 e poucos anos – considerados novos para o antigo perfil de conselheiros – já passaram por diversas experiências profissionais e conseguem o carimbo que antes poderia faltar. “Cada vez mais jovens tem ascendido a posições de liderança. Essas pessoas se educaram melhor, muitas têm experiência internacional e fizeram carreiras mais aceleradas. Isso referenda a participação delas no conselho”, afirma André Freire, da Exec.

Para Anna Maria Guimarães, da Saint Paul, fatos recentes, como a Operação Lava-Jato, demonstraram a necessidade de se repensar os conselhos. “Esses acontecimentos mostraram que muitos deles eram ineficazes. Num cenário onde o compliance ganhou destaque, o conselho não pode mais ser decorativo, para inglês ver, precisa se envolver e contribuir para as questões éticas e negócios das companhias”, afirma.

Por último, outro fator que tem contribuído para renovar a composição dos boards é a discursão acerca da promoção de igualdade de gênero nessa instância das organizações. “Diversas pesquisas apontam que companhias que possuem mulheres na liderança melhoram sua performance. Empresas, por exemplo que tem público consumidor feminino, precisam de alguém, na hora da tomada de decisão, que entenda esse mundo, diz Marienne Coutinho da consultoria KMPG. No congresso, já tramita projeto de lei PLS 112 de 2010, que estabelece que pelo menos 40% das cadeiras dos conselhos de administração sejam ocupados por mulheres. Enquanto isso não vira realidade, algumas empresas têm se antecipado. É o caso da Duratex, que tinha uma suplente e, recentemente, convidou a executiva Juliana Rozenbaum para compor o board. “Desejávamos alguém que viesse do varejo e, embora não fosse um pré-requisito, ficamos felizes de ser uma mulher. Um conselho somente masculino perde a riqueza e pluralidade de ideias”, afirma Salo Davi Seibel, presidente do conselho da empresa.

O CAMINHO DAS PEDRAS

Embora o convite para ocupar uma posição de conselheiro aconteça majoritariamente por indicação, manter uma boa rede de contatos e fazer alguns cursos pode ajudar quem deseja conquistar uma cadeira. “Mapeie em que tipo de companhia você pode se encaixar de acordo com sua experiência. Busque pessoas que trabalham nessas empresas ou conselheiros mais experientes que o ajudem a chegar lá, mas que também o oriente depois”, diz Adriane Rickli, gerente do Programa de Desenvolvimento de Conselheiros da Fundação Dom Cabral.

Um curso de educação corporativa, além de aumentar seus conhecimentos sobre temas importantes que serão discutidos, também pode servir de vitrine e ampliar seu contato com esse universo. “Outra opção é começar em conselhos de ONGs ou comitês não remunerados para adquirir experiência e criar uma trilha de carreira até boards de grandes empresas”, afirma Marienne.

Mas como nem tudo são flores, é preciso ficar atento a algumas questões. Um dos ônus de ser membro de um conselho de administração é ser responsabilizado judicialmente em caso de condenação da empresa. “Se a organização falir, por exemplo, os bens desse conselheiro pode servir para liquidar dívidas. Ele tem a mesma responsabilidade de um diretor estatutário”, diz Arthur Vasconcellos, sócio da Caldwell Partners. Outra questão é o tempo a ser dedicado a essa função. “É preciso que o profissional negocie com a companhia onde ele é executivo. Algumas empresas acreditam que esse é um aprendizado enriquecedor, outras proíbem a atuação em outra companhia”, afirma Adriane. Por isso, antes de se sentar confortavelmente numa dessas cadeiras, analise se conseguirá lidar com os espinhos que ela pode esconder.

 QUEM É QUEM

Confira os tipos de conselheiro que podem integrar o board de uma empresa:

Internos: São empregados da organização.

Externos: Ex-funcionários da empresa, consultores, investidores ou controladores de outra empresa do mesmo grupo.

Independentes: Conselheiros externos que não têm relações familiares ou de negócios com a empresa.

 

 

DE ONDE ELES VÊM  
FORMAÇÃO %
ENGENHEIROS 27,6
OUTROS 22,1
ADMINISTRADORES 21,4
ECONOMISTAS 15,6
ADVOGADOS 13,3

 O TAMANHO DE CADA CADEIRA

Entenda os diferentes conselhos presentes nas organizações e a função de cada um deles:

 De Administração:

Além de decidir os rumos estratégicos do negócio, compete a esse tipo de conselho monitorar a diretoria, atuando como elo entre ele e os sócios. Nele, os conselheiros são os responsáveis legais pela empresa. 

Consultivo:

Tem todas as atribuições de um conselho de administração, mas seus conselheiros não respondem judicialmente pela empresa e suas indicações não precisam necessariamente ser seguidas pela empresa.

 Fiscal:

Sua missão é fiscalizar as ações praticadas pelos administradores e opinar sobre as contas. Ele é independente do conselho de administração, mas seus participantes respondem judicialmente pela empresa.

 Comitês:

São órgãos compostos de membros internos ou externos que assessoram o conselho de administração. Eles são criados para discutir assuntos específicos, como diversidade e sustentabilidade.

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PSICOLOGIA ANALÍTICA

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DÈJÁ-VU: MOMENTOS REVISITADOS

De repente temos a impressão de já termos vivido algo – e a sensação é, quase sempre, de estranhamento; neurologistas e psicólogos tentam compreender esse misterioso fenômeno de percepção temporal.

Você se recosta confortavelmente na cadeira, sobre a mesa {a sua frente há uma xícara de café fumegante. Uma mosca aproxima-se da colher na qual estão grudados alguns cristais de açúcar. Você folheia uma revista e para em um artigo sobre déjá-vu. E de repente, tem a impressão de que já esteve sentado nesse lugar, exatamente nessa cadeira, com esse gosto doce-amargo de bebida na boca; “lembra-se” até da mosca. Você sabe que já leu antes, com um leve desconcerto, essas mesmas linhas impressas. Mas quando foi isso? Será possível? Esse tipo de experiência de déjá-vu, a sensação difusa de já ter vivido uma situação exatamente da mesma forma é comum. A maioria das pessoas pode relatar pelo menos uma experiência desse tipo. Apesar de, durante um déjá-vu, o acontecimento nos parecer extremamente conhecido, falta-nos a lembrança concreta de quando a vivenciamos.
Alguns, nesse momento, sentem o próprio corpo e o ambiente ao redor como irreais, uma espécie de sonho. Há os que relatam ter visto tudo como se fosse através de um véu ou que olham a si mesmos pela perspectiva de um observador externo. O sentimento de poder prever com exatidão o que vai acontecer no momento seguinte também não costuma ser raro. E, vez por outra, um lugar é estranhamente reconhecido por uma pessoa, apesar de ela ter certeza de nunca ter estado lá.
Por isso, em diferentes culturas, desde tempos imemoriais os déjà-vu são considerados indícios da existência de vidas passadas e “provas” de reencarnação ou para normalidade.

NÃO É ALUCINAÇÃO
“O estudo metodológico do fenômeno é difícil de ser estruturado, uma vez que ocorre repentinamente e de forma rara. Assim, os pesquisadores quase sempre têm de confiar na memória dos voluntários que participam de seus experimentos quando eles relatam o fenômeno”, diz o professor Uwe Wolfradt, do Instituto de Psicologia da Universidade Martin, em Halle-Wittemberg, e pesquisador do tema. Segundo ele, é importante diferenciar essa experiência de distúrbios com os quais possa ser confundida. Enquanto as alucinações, por exemplo, são percepções não associadas a estímulos externos, as imagens no déjà-vu são sempre reais. A ilusão consiste no fato de que, por um curto instante, algo desconhecido desencadeia uma sensação de familiaridade. Já o fausse reconnaissance (o falso reconhecimento) – antigamente considerado um sintoma do fenômeno – também não pode ser confundido com ele, mas surge frequentemente durante uma fase esquizofrênica e pode durar horas, enquanto déjà-vus, em geral, duram alguns segundos.
Um caso muito interessante relatado em 2003 por cientistas japoneses apresenta forte semelhança com o déjà-vu: um rapaz com epilepsia do lobo temporal tinha certeza de sempre reviver vários anos de sua vida, até mesmo seu casamento. Angustiado, ele tentou suicídio várias vezes para escapar das repetições infinitas. Segundo os estudiosos, a situação diferencia-se de experiências de déjà-vu em um ponto fundamental: enquanto naquele caso o jovem insistia já ter vivido experiências exatamente iguais, em um déjà-vu a pessoa logo considera a sensação de reconhecimento como ilusória e insensata.
Uwe Wolfradt coordenou uma pesquisa na qual foram entrevistados 220 estudantes da Universidade de
Halle-Wittenberg e constatou que aproximadamente 80% disseram acreditar que, durante um déjà-vu, provavelmente estavam lembrando inconscientemente de um aconteci­ mento do qual se haviam esquecido. Essa noção lembra a ideia de Sigmund Freud (1856-1939) de que déjà-vus resultam do desejo de recapitular eventos reprimidos e elaborá-los, ou seja, aparecem como um mecanismo de defesa contra experiências traumáticas. A psicologia cognitiva também traz à tona processos inconscientes, os processos da memória implícita (ou não declarativa), para explicar o déjà-vu. Essa teoria ressalta que podemos ter a sensação de que uma pessoa, um local, um objeto ou um acontecimento nos são familiares mesmo quando já experimentamos apenas um aspecto determinado deles – como um odor característico – em outro contexto.
“Suponhamos que você veja um velho armário em uma feira de usados e, de repente, toda a situação lhe pareça conhecida, mas você já não se lembre de uma coisa: quando ainda era criança, havia um armário muito parecido “Na casa dos seus avós”, exemplifica Wolfradt. Esse elemento unitário esquecido – no caso do exemplo o armário – desencadeia uma sensação mais ampla de familiaridade, que é transferida para toda a “composição”.

VARIAÇÕES DE HUMOR
Por fim, algumas suposições também se baseiam no processamento inconsciente de informações, afirmando que falhas de atenção seriam as responsáveis pelo déjà-vu: ao dirigir um carro, por exemplo, você se concentra no transito. Vê uma senhora idosa que está na calçada, mas não a registra conscientemente. Um instante depois tem de parar no semáforo e há tempo para olhar em volta com calma. Nesse momento, a senhora que caminha com dificuldade apoiada em sua bengala lhe parece estranhamente familiar, apesar de você achar que jamais a viu antes. Expresso de forma generalizada, nessa situação, a primeira percepção sob distração é imediatamente seguida de uma segunda com atenção total. A informação pouco antes interiorizada inconscientemente é erroneamente interpretada como lembrança.
Estudos sobre percepção subliminar fornecem suporte empírico para essa hipótese. Em 1989, o psicólogo Lany L. Jacoby, da Universidade de Washington, em St. Louis, mostrou aos participantes da pesquisa que conduzia uma palavra em um monitor durante tempo tão curto que eles mal puderam percebe-la. Mais tarde, porém, declararam com mais frequência, durante uma nova apresentação da mesma palavra, que já a haviam visto antes. O processamento inconsciente de estímulos subliminares faz com que informações posteriores semelhantes sejam processadas mais rapidamente – um procedimento nominado priming (preparação).
Essa e outras hipóteses sobre a atenção impressionam principalmente porque são bastante adequadas às circunstâncias que acompanham o déjà-vu. Já no início do século passado, o holandês Gerhar Heymans, pioneiro da psicologia em seu país, realizou um estudo com 42 estudantes. Ele lhes pediu que, durante seis meses, preenchessem um questionário curto imediatamente após uma experiência de déjà-vu. Assim, descobriu que pessoas que sofrem de variações de humor, enfrentam fases de apatia ou têm um ritmo de trabalho irregular são as mais afetadas por essas ilusões da memória.
Vários autores associam os déjà­vus a um grande volume de viagens, variações de fuso horário, intenso cansaço e stress. Num estudo desenvolvido por Wolfradt, da Universidade de Halle-Wittenberg, no entanto, aproximadamente 46% dos estudantes se lembravam de estar mais tranquilos na ocasião do fenômeno; cerca de um terço chegou mesmo a descrever seu estado de espírito como alegre. Provavelmente, o déjà-vu não é desencadeado imediatamente no momento da tensão, quando permanecemos extremamente atentos, mas depois, quando estamos cansados – e relaxamos. Porém, também são plausíveis outras circunstâncias nas quais nós, por um curto período, não percebemos mais nosso entorno conscientemente. “Um de nossos estudos com mais de 300 universitários mostrou, por exemplo, que déjà-vus estão fortemente relacionados à capacidade de mergulhar em fantasias e na imaginação. Hoje os déjà-vus estão incluídos entre os distúrbios da memória, mas nada indica que pessoas que os experimentam com frequência sofram de algum distúrbio”, afirma Wolfradt.
O pesquisador salienta que os fundamentos neuronais do fenômeno ainda são conhecidos apenas de forma fragmentada. Durante muito tempo, foi bastante popular a ideia de que sua causa era a transmissão neural atrasada. Naturalmente, nos mais altos centros de processamento do cérebro, as informações ambientais vindas de diferentes regiões precisam ser fundidas a qualquer momento em uma impressão coerente. Seria, portanto, muito possível que atrasos em um dos caminhos de transmissão provocassem grande confusão – e talvez um déjà-vu.
Em 196 3, o pesquisador Robert Efron, à época no Hospital Administrativo dos Veteranos em Boston, Massachusetts, levantou polêmica com a hipótese de que o hemisfério cerebral esquerdo, mais especificamente o lobo temporal, seria responsável pela organização das percepções temporais. Ali, todas as imagens que o cérebro recebe por meio da visão chegariam duas vezes, consecutivamente, com um intervalo de poucos milissegundos – uma vez diretamente, e outra com um desvio pelo hemisfério direito. Se a transmissão indireta se atrasasse por algum motivo, então o lobo temporal esquerdo perceberia a diferença interpretando a cena, na segunda vez, com o algo que já teria ocorrido.

CONEXÃO COM EPILEPSIA
A ideia básica de Efron da dupla percepção até hoje não foi refutada – nem comprovada. O que se sabe é que os lobos temporais têm um papel importante nesse processo. Pacientes com algum dano nessa região relataram frequentes experiências de déjà -vu. O mesmo ocorreu com pessoas que sofriam de epilepsia, e o foco epiléptico encontrava-se no lobo temporal. Desde então, alguns estudiosos supuseram que os déjà-vus fossem nada menos que mini acessos para o cérebro. Quando um grupo de pesquisado res, coordenado pelo neurocirurgião Wilder Penfield (1891-1976), em Montreal, estimulou eletricamente o cérebro aberto de seus pacientes epilépticos durante uma operação, em 1959, alguns deles relataram experiências de déjà-vu. O neurofisiologista Jean Bancaud (1921-1993) e seus colegas do Centro Paul Broca, em Paris, fizeram um relato semelhante em 1994: a estimulação do lobo temporal lateral ou medial desencadeou, ocasionalmente, “estados oníricos”, entre os quais o déjà-vu está incluído.
Apesar de ser questionável o quanto a experiência induzida artificialmente se assemelha às naturais, as descobertas são plausíveis: afinal, o lobo temporal medial participa comprovadamente da memória declarativa e consciente. Fazem parte dele não apenas o hipocampo, que nos ajuda a memorizar eventos episódicos, fazendo com que possamos revivê-los mentalmente mais tarde, como se fosse um filme, mas também o córtex para-hipocampal e o rinal, assim como as amígdalas e o lobo temporal médio.
Há cerca de uma década o pesquisador John D. E. Gabrieli, da Universidade Stanford, apresentou na Science resultados que sugerem que o córtex para-hipocampal e o hipocampo cumprem diferentes funções no processo da memória: enquanto o último permite a lembrança consciente de vivências, o outro poderia distinguir entre estímulos conhecidos e não conhecidos, sem obrigatoriamente recorrer a uma lembrança concreta. Com base nessa tese, Josef Spatt, do Instituto Ludwig Boltzmann, em Viena, formulou em 2002 a hipótese de que um déjà-vu surge quando o para-hipocampo desencadeia uma sensação de familiaridade sem que haja participação do hipocampo. Justamente nesse instante, uma cena momentaneamente percebida poderia ser entendida como conhecida, mesmo que não houvesse uma clara referência temporal.
Wolfradt observa que, provavelmente, diversas regiões cerebrais participam do déjà-vu: a intensiva sensação de estranhamento de si mesmo e da realidade, por exemplo, assim como a noção de tempo, às vezes alterada, indicam complexos processos conscientes. “Durante essa experiência, duvidamos da realidade por uma fração de segundo. Por outro lado, essa pequena falha possibilita aos neurocientistas uma olhada nos processos do consciente”, diz o pesquisador. Ele acredita que o aprofundamento das pesquisas sobre o tema ajudem não apenas a explicar como surgem distúrbios de memória, mas também como o cérebro consegue produzir uma imagem contínua da realidade.

MEMÓRIAS FABRICADAS
Ao longo dos séculos, filósofos, psicólogos e até especialistas em para normalidade formularam teorias para explicar o déjà-vu. A mais recente descoberta científica sobre o fenômeno foi publicada na revista New Scientist, em 2006. A pesquisa realizada por uma equipe de cientistas da Universidade de Leeds, na Inglaterra, tentou provocar, de modo artificial, a sensação de já ter vivido determinada experiência em voluntários. Os cientistas mostraram a eles 24 palavras associadas à cor vermelha, em seguida os induziram a um estado alterado de consciência, semelhante à hipnose, e disseram aos participantes que, quando estivessem diante de uma palavra em uma moldura vermelha, “a sentiriam como sendo familiar, embora não soubessem quando foi a última vez que a viram”. Mas se vissem uma palavra em uma moldura verde, eles pensariam que ela pertencia à lista original de 24 palavras. Em seguida, os voluntários foram tirados do estado de hipnose e expostos a uma série de palavras em molduras de cores variadas. Algumas não pertenciam à lista original de 24 palavras, outras estavam em molduras verdes ou vermelhas. Dez voluntários disseram ter experimentado uma “estranha sensação” quando viram novas palavras em vermelho, e outros cinco afirmaram que a impressão definitivamente se parecia com um déjà-vu. Os resultados sugerem que o fenômeno pode ser provocado de forma independente, sem que haja memória real para acioná-lo. Essa é uma novidade, já que outros estudos enfatizavam a necessidade da existência de lembranças anteriores que pudessem ser “revividas”.

DÉJÁ-VU

CONCEITOS-CHAVE
A expressão déjà-vu, em francês, “já visto antes”, foi utilizada pela primeira vez em 1876, por Emile Boirac (1851-1917). Provavelmente, foi inspirada no poema “Kaléidoscope”, do francês Paul Verlaine (1844-1896); o autor, no entanto, utilizou a expressão déjà vecu, já vivido antes.
Em 1896, o médico F. L. Arnaud adotou a expressão e passou a usá-la no campo científico. Dados sobre quantas pessoas têm déjà-vus variam de estudo a estudo. A maioria costuma se lembrar de pelo menos um episódio em sua vida. O fenômeno está entre as mais frequentes formas de paramnésia, dentre as quais se incluem distúrbios de memória como lembranças adulteradas, ilusões e alucinações.
Com o aumento da idade, os déjà-vus costumam ser cada vez menos relatados. Talvez o fenômeno realmente não ocorra mais com tanta frequência nas fases mais tardias da vida. Mas, provavelmente pessoas mais velhas prestem menos atenção neles ou os esqueçam mais facilmente.

GESTÃO E CARREIRA

robos

SEU COLEGA É UM ROBO

Pesquisas mostram que quase 50% dos empregos existentes hoje devem ser ocupados por inteligências artificiais nos próximos 20 anos. Conheça as profissões em que isso já é realidade

A inteligência das máquinas estará em pé de igualdade com a dos humanos até 2050.Essa previsão perturbadora foi feita por especialistas da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, com base em pesquisas recentes sobre o futuro do trabalho realizadas pelos professores Fei-Fei Li e Vivek Vadhwa. Embora ainda exista um longo caminho pela frente – atualmente, só 5% das atividades podem ser inteiramente substituídas por tecnologia -, a Quarta Revolução Industrial, como os economistas denominam essa fase de convergência do mundo real com o virtual, está em andamento e tende a ser rápida: a consultoria americana McKinsey calcula que 60% das funções já poderiam ter pelo menos um terço de suas atividades automatizadas. E um estudo da Universidade de Oxford, na Inglaterra, que examinou 700 profissões, concluiu que quase metade dos empregos nos Estados Unidos (47%) deve ser informatizada nos próximos 20 anos. Postos nas áreas de transporte, logística e apoio administrativo, por exemplo, correm alto risco de automação. Ocupações mais operacionais dentro da indústria também são altamente suscetíveis.A tendência é que os trabalhadores menos qualificados se movam para tarefas resistentes à informatização, ou seja, trabalhos que exijam inteligência criativa e social. Para isso, haverá a necessidade de uma mudança na educação e de aumento da capacitação”, diz Carl Benedikt Frey, um dos responsáveis pela pesquisa. Grande parte dessa transformação já começou a acontecer. Prova disso é que, enquanto a produção industrial americana está em seu ponto mais alto, o volume de empregos no setor é menor do que na década de 40 e os salários para os funcionários de chão de fábrica estão praticamente estagnados desde 1970. Segundo análises do Fundo Monetário Internacional, o progresso tecnológico tem contribuído para o aumento da desigualdade nas últimas décadas.

Mas não são só as profissões braçais ou manuais que estão ameaçadas. Processos inteligentes também serão assumidos por robôs. ” Estamos evoluindo para uma computação cognitiva, menos programática, na qual o sistema pode aprender por si mesmo e abocanhar novas áreas”, diz Cezar Taurion, especialista em TI e CEO da Litteris Consulting, do Rio de Janeiro. Nas instituições bancárias, a inteligência artificial auxilia na extração e no estudo de imagens em caixas eletrônicos, detectando atitudes suspeitas; no setor de seguros, analisa fotos de veículos acidentados, identificando as partes afetadas e o grau de dano; na área militar, está presente em drones armados que tomam decisões sobre efetuar ataques. “Essa evolução vai continuar a substituir diversas funçôes exercidas por pessoas. Tudo o que puder ser automatizado será”, afirma Cezar. Segundo a consultoria PwC, que analisou 150 inovaçôes na pesquisa As Tendências dos Avanços da Tecnologia, inteligência artificial, realidade aumentada, drones, internet das coisas, robôs, realidade virtual e impressão 3D são aquelas que mais vão afetar os negócios até 2020.

Essas notícias, no entanto, não são necessariamente ruins. O desafio será reformular o papel do trabalhador e das carreiras e preparar os profissionais humanos para atuar ao lado das inteligências artificiais, numa relação de complementaridade. Conheça a seguir as profissões de nível superior em que já é possível ter robôs como colegas na cadeira ao lado.

RECURSOS HUMANOS

Bots, sistemas robóticos que percorrem a internet em busca de informação, já estão na área de RH, na qual têm se destacado no recrutamento. No Brasil, o site Vagas Online colocou a serviço dos usuários um robô que inscreve o candidato toda vez que aparece uma oportunidade com seu perfil. O sistema avalia as competências dele, principais conhecimentos e habilidades e, com base nisso, passa a inscrevê-lo nos anúncios compatíveis com suas competências.

FINANÇAS

Clientes das corretoras brasileiras Magnetis Investimentos e Rico já contam com a tecnologia do robô advisor, que atua como consultor de investimentos. Com intervenção humana mínima, a carteira recomendada pelos robôs é resultado de uma série incontável de combinações de dados sobre o desempenho dos ativos com o perfil do investidor, o risco e o tempo que ele está disposto a esperar até realizer sua meta financeira. Experts em matemática e finanças de algumas das maiores universidades do mundo, como MIT e Stanford, programaram o robô, capaz de gerar opçôes personalizadas, com base nas informaçôes preenchidas pelo próprio usuário. Além de realizar um trabalho eficaz e sem conflito de interesses, o robô consegue substituir um grande número de consultores humanos.

 ARQUITETURA

O emprego de alguns arquitetos pode estar em risco com a evolução dos robôs e de softwares como Designed Exterior Studio, Chief Architect, Floorplanner.com, Trimble SketchUp e Sweet Home 30, que ajudam leigos a projetar suas casas. A ferramenta Ply Gern, por exemplo, permite aos interessados escolher um modelo de imóvel virtual e customizer o projeto, fazendo até mudanças estruturais.

Os sistemas possibilitam ao usuário calcular o material necessário para a construção de cada ambiente, além de mapear em detalhes os processos de execução, de forma que os pedreiros consigam compreender o passo a passo, sem a necessidade de um arquiteto.

 ENFERMAGEM

Na área de saude, os enfermeiros já contam com a concorrência dos robôs Hospi-Rimo. Em hospitais de países como Japão e Estados Unidos, esses equipamentos memorizam o mapa dos corredores e quartos e conseguem se deslocar usando um Sistema de rodas: eles buscam remédios e levam aos pacientes na hora exata em que devem ser medicados.

 DIREITO

A fase de pesquisa e coleta de documentos é uma das mais demoradas de uma ação judicial. Mas esse trabalho começa a ser realizado por inteligências artificiais. A Totvs, empresa de software de gestão, fornece um robô jurídico que faz pesquisa de antecedentes, checagem de prazos e contato com as partes envolvidas. A tecnologia também afeta advogados experientes, especializados em fazer a previsão do resultado de processos. Um modelo estatístico com base em algoritmos, criado pela Michigan State University e SouthTexas Collegeof Law, mostrou-se capaz de acertar as decisões de 70%dos casos da Suprema Corte dos Estados Unidos.

 JORNALISMO E PUBLICIDADE

A área de comunicação é uma das mais afetadas pela invasão dos robôs. Milhares de empresas já adotam a compra automatizada de anúncios: em vez de publicitários escolherem os veículos de comunicação mais adequados a uma peça publicitária, os robôs de marketing realizam o trabalho usando um banco de dados que cruza informações sobre o perfil da audiência dos veículos. No jornalismo, há robôs que buscam informações na rede e estruturam textos simplescom base em algoritmos. O canal Ten Big, da emissora americana de televisão Fox, utiliza um software da Universidade de Northwestern para realizar coberturas esportivas pela internet e produzir textos curtos com os resultados das partidas e as principais jogadas. Com isso, os jornalistas são direcionados para coberturas mais complexas.

 MEDICINA

Na área de saude já há robôs que fazem diagnósticos mais velozes e precisos. Um deles é o Watson, da IBM. Ele analisa exames de ressonância magnética e elabora tratamentos personalizados para combater o câncer, por exemplo. No mundo, 20 instituições o utilizam. Na América Latina, o laboratório Fleury Medicina e Saúde conta com o Watson for Genomics, que decifra códigos do genoma humano e ajuda na tomada de decisão médica em casos de doenças crônicas, por exemplo. No Brasil, a robô Laura detecta precocemente casos de sepse, infecção generalizada que mata cerca de 250000 pessoas por ano no país. “O diagnóstico precoce é essencial nesses casos e Laura identifica um paciente em risco em menos de 4 segundos”, diz Jacson Fressatto, especialista em TI que criou a tecnologia após perder a filha, Laura, por sepse. A robô Laura já é utilizada no Hospital Nossa Senhora das Graças, de Curitiba, e o criador pretende instalar a tecnologia em 2600 hospitais filantrópicos do Brasil nos próximos anos.

EDUCAÇÃO

Nas últimas décadas, o trabalho dos professores vem passando por mudanças drásticas, como a digitalização de ferramentas pedagógicas. E há estudos de universidades americanas sugerindo que os algoritmos que personalizam a aprendizagem podem ser mais eficazes do que um professor humano. No Brasil, há algumas iniciativas em andamento, como o robô NAO, que ensina geometria em escolas públicas e particulares de São Carlos (SP). O equipamento foi desenvolvido pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (lCMC), da USP. Apesar de não visar à substituição dos professores, o projeto reforça o potencial do ingresso dos robôs na educação.

 SEGURANÇA E RESGATE

As cenas de filmes como Robocop, em que humanoides ficam responsáveis pela segurança, não estão

tão distantes da realidade. O Exército dos Estados Unidos, por exemplo, já recorre aos robôs Maars (Modular Advanced Armed Robotic System), desenvolvidos pela empresa americana Foster Miller, em zonas de conflito, como o Iraque. Equipados com GPS, eles têm capacidade para abrir fogo e para arrastar corpos feridos. Já o robô Saffir atua como bombeiro nos navios da Marinha americana e é responsável por apagar qualquer sinal de incêndio.

FARMÁCIA

A tecnologia intitulada Robotic Pharmacy Dispensing começou a substituir a presença de farmacéuticos no UCSF Medical Center, nos Estados Unidos, que conta com farmácias robotizadas em dois de seus hospitais. Os computadores recebem os pedidos médicos e os robôs preparam, empacotam e distribuem as doses de medicamentos de cada paciente –          e, assim, eliminam a chance de erro humano. Enquanto isso, no Brasil, hospitais como Sírio-Libanês e Albert Einstein, ambos em São Paulo, adotaram tecnologia similar à dos Estados Unidos e já contam com farmácias com processos robotizados que reduzem a necessidade de farmacêuticos e funcionários. A ideia é agilizar processos, aumentar a segurança dos pacientes e também diminuir o desperdício.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Somos o que pensamos

SOMOS O QUE SENTIMOS OU SENTIMOS O QUE SOMOS?

 Talvez um pouco dos dois… Podemos pensar em emoções como “estados internos” que resultam da maneira como percebemos nós mesmos e o mundo -, mas nem sempre é possível observá-los e medi-los. O curioso é que emergem o tempo todo, desde a mais tenra idade, de forma mais ou menos intensa.  Às vezes nos invadem como uma torrente; em outras ocasiões se instalam de forma lenta, quase sub-reptícia, tomando conta de nossos gestos, expressões, palavras e pensamentos, desencadeando círculos viciosos que costumam trazer problemas quando não são interrompidos. Deflagrada a primeira emoção, em algumas situações é preciso certa dose de empenho para não deixarmos que se alastre de maneira desmedida como se peças enfileiradas de um jogo de dominó empurrassem umas às outras, até que todas estivessem caídas…

E se, por um lado, a ausência de sentimentos remete à ideia de transtornos mentais graves – como a esquizofrenia ou a alexitimia, caracterizadas, cada uma a seu modo, pela impossibilidade de o paciente expressar afeto, pelo menos convencionalmente -, por outro, o turbilhão emotivo provoca intenso desconforto psíquico e, não raro, problemas práticos. Não por acaso, com frequência as pessoas que procuram ajuda de analistas ou psicoterapeutas se queixam da dificuldade de equilibrar emoções e buscam maneiras mais saudáveis de lidar com o que sentem.

Alguns pesquisadores faze m distinção entre as palavras sentimentos e emoções, mas nos textos do especial, nas páginas a seguir, os autores optam por recorrer aos termos como sinônimos e, em respeito a eles, mantemos a terminologia.

 O JOGO DAS EMOÇÕES

Alegria, tristeza, indignação, raiva, medo… O que sentimos influi em nossos pensamentos e ações. Ou seriam resultado do que vivemos e pensamos? A forma como os afetos surgem, suas funções e influências sobre o corpo ainda intrigam pesquisadores.

Você já contou alguma vez quantos estados emotivos experimenta no decorrer de um único dia? Antes mesmo de sair do quarto se alegra ao perceber que o céu está claro e o sol brilha lá fora. Pouco depois, irrita-se com o metrô que acabou de perder ou com o trânsito congestionado. Invejoso, espia o belo celular da moça que caminha ao seu lado ou sente medo do pitbull que um homem leva preso à coleira. No momento seguinte, irrita-se novamente ao lembrar da longa lista de pendências no trabalho que terá de cumprir sozinho porque seu assistente acabou de entrar de férias e ainda não foi designado outro profissional para ajudá-lo; ou fica constrangido ao dar-se conta de que ontem esqueceu o aniversário de um grande amigo.

Algumas emoções nos absorvem completamente, outras ressoam discretamente; algumas são terríveis, outras muito boas – mas todas vão e vêm sem que, na maioria das vezes, possamos influenciá-las. Pelo me­ os é o que nos parece. Em muitas ocasiões as pessoas não conseguem em mesmo indicar motivos para que determinado sentimento surja, uns têm dificuldade em perceber que se passa consigo mesmas.

Afinal, o que acontece conosco, com nosso corpo e nossos sentimentos, quando nos apaixonamos, nos irritamos profundamente, choramos de tristeza ou somos inundados por ondas de alegria?

As emoções foram ignoradas durante muito tempo por filósofos e pesquisadores das ciências naturais em favor da razão ou do pensamento lógico. Elas eram consideradas processos menos importantes, “animalescos ” e até mesmo fatores de distúrbio. Isso se modificou apenas no final do século XIX – com o surgimento da primeira teoria das emoções, desenvolvida pelo psicólogo americano William James (1842-1910) e pelo dinamarquês Carl Lange (1834-1900). Trabalhando de forma independente, os dois pesquisadores postularam que a característica central das emoções, ou seja, de nossa experiência subjetiva particular, está vinculada aos processos fisiológicos.

Segundo a teoria James-Lange, os sentimentos resultam da percepção do estado de nosso próprio corpo: são simplesmente aquilo que experimentamos quando esse estado se altera de vido a acontecimentos do meio ambiente. Assim, por estranho que possa parecer, eles postulam que não choramos porque estamos tristes, mas ficamos tristes porque choramos! Nesse sentido, principalmente Lange, que era fisiologista de formação, considerava que até reações físicas, como a dilatação dos vasos sanguíneos, fossem emoções. No entanto, ele reconhecia que, sem a vivência atrelada, as manifestações corporais permaneciam frias e insípidas.

SENTIR PARA PENSAR

A teoria James-Lange, no entanto, tem um problema: muitas vezes nosso estado físico não se altera, mas experimentamos, mesmo assim, diversos sentimentos – e isso frequentemente depende apenas do que pensamos, seja na pessoa que amamos, seja no trabalho extenuante. Essa observação levou psicólogos a formular uma tese contrária. Segundo ela, nossas emoções guiam-se pelo conteúdo de nossos pensamentos.

Vamos supor que você está na fila do caixa de um supermercado. De repente, é empurrado pela pessoa de trás e esbarra em uma senhora à sua frente. Apesar de você não ter sido o autor do empurrão, a mulher lança lhe um olhar indignado – o que inevitavelmente lhe desperta sentimentos: sente-se mal, fica sem graça e talvez irritado com quem esbarrou em você. Mas, se acredita que poderia ter evitado a situação s tivesse prestado mais atenção, então provavelmente vai sentir vergonha e querer se desculpar.

ESPIÃO E ADRENALINA

Já em 1962, os psicólogos Stanley Schachter e Jerome Singer compro­ varam por meio de um experimento clássico que os pensamentos desempenham um importante papel no surgimento de emoções. Eles deram aos participantes da pesquisa um coquetel de adrenalina sem que soubessem – os voluntários foram levados a acreditar que se tratava de uma bebida rica em vitaminas cujo efeito seria estudado em um teste de visão. Mesmo assim, a bebida deixou as pessoas fisicamente agitadas. Em seguida, todos foram levados, um de cada vez, a uma sala de espera onde se encontrava um “cúmplice” dos coordenadores do experimento, que se comportava de forma bastante animada. Para alguns ele contava uma piada depois da outra, para outros se mostrava extremamente irritado pela longa espera. Entrevistas feitas posteriormente mostraram que os participantes interpretaram a sua própria agitação física como sinal de alegria ou de irritação – sempre de acordo com a atitude do homem que lhes fizera companhia.

Já outros sujeitos, aos quais foi explicado que estavam tomando adrenalina e os seus efeitos, pouco foram afetados pelas emoções representadas pelo “espião”. Ao que tudo indica, portanto, estímulos internos, assim como a atribuição de sentidos a eles, representam fatores importantes, que influem diretamente sobre a forma como vivemos experiências emocionais e as interpretamos. Conhecer como funcionamos e nos observarmos, portanto, pode fazer toda a diferença em nossa vida diária.

As teorias cognitivas das emoções apostam na lógica dos pensamentos para explicar e fundamentar acontecimentos emocionais. No entanto, hoje se sabe que emoções podem surgir independentemente do que pensamos. Isso foi comprovado, por exemplo, pelo neurobiólogo Joseph LeDoux, da Universidade de Nova York. Ele demonstrou em animais que estímulos de medo são processados de forma extremamente rápida através de um caminho cerebral percorrido pelo sinal que passa ao largo do córtex cerebral – a sede da consciência. Esse atalho possibilita uma reação ágil em caso de emergência, como cheiro de queimado ou visão de algo perigoso.

As duas clássicas teorias das emoções – a “centrada no físico”, de James e Lange, assim como a cognitiva, de Schachter e Singer – são parciais e não dão conta da questão. Hoje, psicólogos partem de um modelo de emoções com vários componentes. Ele inclui pelo menos as seguintes características:

  1. típicas alterações fisiológicas, como coração acelerado, suor ou inquietação motora;
  2. comportamentos específicos, como a mímica corporal;
  3. a vivência subjetiva de perceber como é estar em um determinado estado emocional;
  4. pensa­ mentos associados a essa experiência;
  5. existência de “objeto intencional”, ao qual se refere a emoção. É comum que se recorra também a “checagens avaliadoras”: entre outras coisas, primeiramente, deve ser avaliada a novidade de um evento, pois tudo o que ainda não conhecemos pode se tornar potencialmente perigos o. Em seguida, coloca -se a questão: se esse acontecimento deve ser considerado positivo (agradável, útil) ou negativo (temerário, doloroso, desagradável). A isso se segue o julgamento, quando é considerado se a situação se ajusta aos objetivos da pessoa, se é possível influenciá-la posteriormente, e se ela “se adequa ao conceito que temos de nós e às normas sociais.

Inúmeras combinações dessas características determinam a enorme extensão de nossos sentimentos. Segundo o psicólogo de Genebra, Klaus Scherer, que nos últimos anos tem estudado o tema, no final das contas surge o que ele chama de “um complexo modelo processual das emoções ” que, resumido em linha s gerais, seria assim: quando ocorre um novo evento –  digamos, a primeira parada de mãos que você consegue realizar na vida –  inicialmente apenas a sua excitação interna cresce.  Se o julgamento a seguir lhe diz que essa sensação é agradável, você fica positivamente surpreso; se ainda perceber que o evento se ajusta bem aos seus objetivos e contribui para melhorar sua autoimagem, esse sentimento acaba se transformando em orgulho.

Do ponto de vista da psicologia evolutiva, as emoções podem ser classificadas em quatro níveis: pré-emoções, emoções básicas, emoções cognitivas primárias e secundárias. As primeiras são formas prévias de emoções nas quais já está presente a maioria de seus aspectos, começando pela excitação fisiológica, passando pela rápida avaliação da situação, a mímica, a sensação subjetiva apropriada e a orientação interativa. Elas, no entanto, ainda permanecem genéricas e não estão clara e intencionalmente voltadas para um objeto. Uma situação parece positiva ou negativa sem que tenha sido analisada em detalhes. Nesse nível, portanto, existem apenas duas possibilidades: bem-estar ou desconforto. Essas pré-emoções simples, positivas ou negativas, se expressam em emoções básicas universais. O psicólogo Paul Ekman, professor da Universidade de São Francisco, demonstrou em estudos pioneiros que a expressão facial emocional é idêntica em todas as culturas.

ORGULHO OU VERGONHA?

Ainda há controvérsias sobre quantas emoções básicas existem exatamente, mas vamos partir, inicialmente, de quatro: medo, felicidade, tristeza e raiva. Elas caracterizam nossas reações a desafios fundamentais da vida (perigo, auto eficácia, separação ou perda e expectativas frustradas) e podem ser encontradas em todas as culturas humanas. As chamadas emoções básicas independem do processo mental consciente, possibilitando, assim, um rápido direcionamento da atenção. Antes mesmo de sabermos se o homem que se aproxima de nós numa rua deserta, à noite, é um inofensivo transeunte ou um possível agressor, já reagimos a ele. O estímulo memorizado como perigoso desencadeia uma reação ancestral – e sentimos medo. Ao lado desse processamento rápido dos estímulos visuais, existe um outro mais lento e consciente no córtex visual, que permite uma representação mais exata do objeto – o ladrão ou o estudante que passa indiferente, rumo ao ponto de ônibus. A constatação de que de fato se trata de um criminoso gera confirmação da impressão inicial, assim com o reconhecer que o rapaz não oferece ameaça provoca relaxamento do primeiro impulso inconsciente de medo. Por sorte, porém, quando isso se dá a maior ia de nós já apertou o passo ou entrou em um prédio ou restaurante, em busca de proteção.

Nos níveis seguintes, os pensamentos passam a ter importância cada vez maior. Quando surge a emoção cognitiva primária adiciona-se uma típica certeza que define decisivamente o que sentimos: enquanto a emoção básica de medo surge só porque algo é considerado assustador, a emoção cognitiva primária inclui a certeza de que há situações perigosas por princípio. Estamos, portanto, falando do sentimento de ameaça, ao qual se chega de forma consciente, após avaliação mais acurada. No caso da emoção básica felicidade, por exemplo, uma das emoções cognitivas primárias seria a satisfação – como quando uma pessoa percebe, por exemplo, que uma conversa com o chefe está correndo de forma positiva e que ela pode alimentar esperanças de um aumento de salário.

A emoção cognitiva secundária diferencia-se pelo fato de que, nesse caso, o que está em jogo não é apenas uma convicção, mas toda uma teoria sobre as relações sociais. Uma manifestação do medo como emoção cognitiva secundária, por exemplo, seria o ciúme, ou seja, o temor de uma ameaçadora perda do parceiro. Ao mesmo tempo, insinua­ se uma “mini teoria” sobre expectativas e normas sociais – por exemplo, sobre como a pessoa imagina sua relação com o parceiro ou o seu futuro a dois. Isso de pende, porém, da base cultural e das experiências pessoais.

Assim, vergonha e orgulho, por exemplo, têm valores diferentes em uma sociedade ou outra, tanto no que diz respeito aos motivos quanto ao julgamento de comportamentos. No ocidente são mais valorizados a independência e o desempenho pessoal; já entre os orientais a capacidade de conviver harmoniosamente em grupo e a humildade são consideradas qualidades nobres.

Imagine que um menino de 1O anos toca com destreza uma sonata para piano de Fréderic Chopin. Depois da apresentação, a mãe elogia-o efusivamente, o que deixa o filho orgulhoso de seu desempenho. A mesma situação, em outra cultura: uma mãe chinesa provavelmente diria ao filho que ele ainda precisaria treinar muito e que cometera alguns erros. A criança, então, tenderia a sentir-se envergonhada. Apesar do mesmo desempenho, o julgamento seria diferente -e, com isso, a reação emocional também. Por outro lado, em algumas sociedades existem sentimentos que nós não conhecemos: o amae dos japoneses, por exemplo, descreve uma profunda gratidão pelo apoio de uma instituição ou pessoa de que dependemos no passado. Nas línguas ocidentais não há sequer tradução para essa palavra.

 MARCADORES SOMÁTICOS

O fato é que emoções cumprem funções de grande importância. Podemos citar quatro delas:

  1. possibilita avaliarmos os estímulos do ambiente (nós sentimos aquilo que achamos de uma ou outra situação) de maneira extremamente rápida;
  2. prepara-nos e motiva-nos para ações (quando sentimos medo, com pulso acelerado e músculos retesados é mais fácil fugir);
  3. são formas de expressão típicas que indicam aos outros as próprias intenções (quando alguém sorri para nós, automaticamente supomos que tem uma postura amigável);
  4. ajuda no controle das relações sociais. O último aspecto é muito importante porque favorece a convivência: emoções complexas como amor, inveja e ciúme impõem regras e limites no contato com os outros. Quando, por exemplo, nos sentimos atraídos por uma pessoa e nos questionamos se esse sentimento é amor ou não, começamos, em nossa vivência emocional, a ponderar os desejos e convicções do outro e a compará-los com os nossos. O que sentimos funciona como uma espécie de “filtro” para lidarmos com os estímulos tanto internos quanto externos. Emoções complexas impõem limites e, por meio delas, avaliamos situações, regulamos, motivamos e coordenamos comportamentos. Isso se mostra indispensável no dia-a-dia, pois um processamento emocional prejudicado pode nos causar muitos problemas. Quanto mais é possível perceber o que sentimos – e suportá-lo respeitando os nossos limites e os dos outros – mais fácil fica manter o equilíbrio e nos cuidar.

Os neurobiólogos Hanna e Antônio Damásio, assim como o pesquisador Antoine Bechara, todos da Universidade de Iowa, demonstraram na década de 90 que a decisão humana, o planejamento de longo prazo e a consequente concretização de planos estão atrelados ao sistema de avaliação emocional. Apesar da memória e da fala intactas e do bom nível de inteligência, alguns pacientes com problemas neurológicos sistematicamente fazem escolhas equivocadas e não conseguem se comportar de acordo com suas percepções racionais. Nesse caso fica claro que a avaliação emocional no córtex pré-frontal do lobo frontal é crucial: se ela falha devido a algum distúrbio, as pessoas afetadas tomam decisões insensatas. Falta-lhes a memória emocional necessária de situações anteriores semelhantes, o que constitui nosso patrimônio emocional.

Damásio havia tornado esse conceito popular há alguns anos como “teoria dos marcadores somáticos”, segundo a qual todas as experiências de um indivíduo são assinaladas afetivamente. Assim, quando uma pessoa precisa decidir, faz uma rápida avaliação inconsciente da situação. Pessoas com um córtex pré-frontal lesionado, no entanto, não conseguem resgatar as marcas anteriores, sendo consequentemente obrigadas a reavaliar toda situação desde o início. É como se nunca aprendessem com suas escolhas, como se cada vez fosse a primeira.

Outros processos cognitivos são também fortemente dependentes de processos emocionais. Podemos, por exemplo, lembrar melhor de eventos associados a alguma emoção que de conteúdos matemáticos abstratos (a não ser que eles nos provoquem grande alegria ou irritação). O aprendizado é quase sempre mais fácil quando nos encontramos bem emocionalmente ou estamos afetivamente ligados àquele que nos ensina. Por outro lado, sentimentos negativos duradouros decorrentes de distúrbios afetivos como a depressão ou o estado de excitação exagerada (mania), assim como suas fases intermediárias alternantes, afetam a sensibilidade geral – e a capacidade cognitiva, que também se apresenta de maneira deprimida ou excitada.

O fato é que as emoções são indispensáveis para a interação e ação interpessoal: sem elas, os fundamentos para uma rotina bem-sucedida deixariam de existir. Além disso, as emoções estão intimamente ligadas aos processos cognitivos – elas são essenciais para a capacidade de aprendizagem implícita e inconsciente, assim como para as decisões sensatas. Em outras palavras: nossos sentimentos definem essencialmente quem somos e o que fazemos.

INFLUÊNCIAS SOBRE O CORPO

Emoções e sistema imunológico são bastante ligados. Quando se puxa um dos fios, todo conjunto se movimenta. Todavia, nem sempre está claro o que é causa e o que é efeito. Sabe-se que infecções causadas por vírus e bactérias influenciam a atividade cerebral, de maneira direta ou por meio de resposta imunológica, e podem desencadear distúrbios psíquicos. Isso ocorre porque o sistema imunológico opera como uma rede descentralizada, respondendo automaticamente a qualquer agente que invada ou perturbe o funcionamento do organismo. As células imunológicas reproduzidas na medula óssea, linfonodos, baço e timo se comunicam entre si por meio de pequenas proteínas chamadas citocinas.

Esses mensageiros químicos também podem mandar sinais ao cérebro, pela corrente sanguínea ou por via nervosa, como nervo vago, que os envia ao núcleo solitário.

e possível ignorar

É POSSÍVEL IGNORAR

Os sentimentos podem ser inconscientes? Certamente! O fenômeno das emoções latentes foi descrito pela primeira vez por Sigmund Freud (1856-1939). Em estudos dos anos 90, o psiquiatra Daniel Weinberger, na época na Universidade Stanford, observou que certas pessoas, que ele designou como repressers (repressoras), apesar de apresentarem todos os sinais físicos do medo, diziam, no mesmo instante em que se encontravam nesse estado, estar completamente calmas. Aparentemente, reconhecer e experienciar o sentimento não “combinava” com a imagem que tinham de si. Se a repressão é suficientemente forte, as pessoas não desenvolvem a consciência de determinada emoção, a ponto de desconhecerem, por exemplo, que estão com medo, mesmo estando trêmulas e suando frio.

FUNCIONAMENTO DOS CIRCUÍTOS AFETIVOS

O sistema nervoso central desperta, regula e integra respostas emocionais. O córtex cerebral está envolvido na identificação, avaliação e tomada de decisões com base em dados sensoriais. Os pensamentos, expectativas e percepções desempenham papéis importantes para manter e dissolver afetos. A formação reticular, uma rede de células neurais alerta o córtex para informações sensoriais. Os dados a respeito de eventos despertadores de emoção são filtrados por esse sistema. A formação reticular desperta a tenção do córtex.

O sistema límbico, um grupo de circuitos inter-relacionados desempenha papel regulatório nas emoções e motivações. Embora as funções precisas de cada estrutura ainda não sejam claras, é certo que a informação sensorial passa pelo sistema límbico em sua trajetória para o córtex. Esse emite mensagens para outras áreas cerebrais. O hipotálamo, uma estrutura límbica responsável pela ativação do sistema nervoso simpático durante emergências está envolvido em situações de medo, raiva, fome, sede e atração sexual.

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CONCEITOS-CHAVE

  • O que sentimos combina vários aspectos: excitação física, avaliação mental, expressão e vivência subjetiva. As emoções não se contrapõem ao processamento mental de estímulos do ambiente, mas o complementam no dia-a-dia.
  • A primeira teoria das emoções, desenvolvida independentemente, pelos psicólogos William James (1842- 1910), nos Estados Unidos, e Carl Lange (1834-1900), na Dinamarca, sustenta que a característica central da experiência subjetiva particular é ligada aos processos fisiológicos.
  • Pesquisas realizadas há mais de 40 anos mostraram, porém, que os

pensamentos também desempenham um importante papel no surgimento de emoções. As pré-emoções e emoções básicas, assim como as cognitivas primárias e secundárias podem ser diferenciadas de acordo com o seu grau de complexidade.

FONTE: Albert Newen & Alexandra Zinck – Revista Mente e Cérebro

GESTÃO E CARREIRA

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PROFISSAO: CAÇA-TALENTOS

Não, não se trata de Headhunters, mas de uma nova função que vem surgindo dentro da área de Recursos Humanos – a Gerência de Captação ou Aquisição de Talentos.

Em uma época de disputa acirrada por gente, as empresas estão cada vez mais preocupadas em estabelecer processos eficientes de identificação de profissionais com perfis adequados aos seus negócios. Algumas já criaram um cargo ou até uma área específica para cuidar do assunto, o chamado setor de talent acquisition – de nominação que no Brasil vem sendo traduzida como “aquisição de talentos” ou “captação de talentos”. “Parte do antigo RH está ganhando vida própria como uma espécie de consultoria interna que cuida das contratações”, explica Juliana Nunes, diretora da consultoria Asap. A gerente de captação de talentos da Monsanto, Patrícia Prieto, que ocupou o mesmo cargo no Google, considera que o grande atrativo da função é a possibilidade de estar focada na missão de trazer profissionais diferenciados. Psicóloga com carreira desenvolvida sempre em R H, ela diz que a mais relevante das diversas estratégias que utiliza no cotidiano é sua rede de contatos. “Conhecer pessoas bem situadas em diferentes setores facilita muito o trânsito quando se está. à procura de perfis profissionais interessantes”, diz. A função de gerente de captação de talentos é nova na Monsanto e nasceu por necessidades diversas. Numa empresa de biotecnologia, o número de cargos técnicos que exigem conhecimentos específicos é grande, o que obriga uma seleção cheia de critérios objetivos. Os cargos gerenciais, por sua vez, podem ser ocupados por profissionais de diferentes áreas e formações, o que dificulta o encontro da pessoa certa. A nova função também precisa buscar perfis que contribuam para promover a diversidade de formações e experiências. “Queremos pessoas capazes de trazer diferentes visões para o negócio. Temos muitas possibilidades de carreira aqui entro também para quem vem de outra indústria”, afirma Patrícia, há quase um ano no cargo. Com essa missão, ela liderou um projeto voltado a alunos do Instituto Tecnológico de Aero­ náutica (ITA) – público que, a princípio, parece não ter muitas afinidades com as áreas de atuação da Monsanto. Dos alunos que participaram do programa, quatro foram selecionados e permaneceram na empresa por dois meses. “Eram jovens curiosos e capaz es de fazer perguntas que nunca haviam nos ocorrido. A experiência foi rica para ambas as partes e acredito que trará bons frutos no futuro”, diz Patrícia, que faz frequentes visitas e mantém contato com universidades de ponta – aqui e lá fora – para se aproximar de novas fontes de informação.

No organograma da Monsanto, a gerência de captação de talentos e a gerência de desenvolvimento organizacional são dois cargos abaixo da diretoria de RH. Embora haja uma troca constante de informações entre as duas gerências, a primeira tem a atribuição de identificar e trazer profissionais e a segunda de cuidar deles a partir daí. Com essa divisão de tarefas, o trabalho de Patrícia tem como principal objetivo o preenchimento imediato e qualificado de cargos que se tornam vagos pelos mais diversos motivos, como a promoção de um executivo ou a perda de uma peça-chave da companhia para um concorrente.

O PERFIL DO CAÇADOR

Encontrados com mais frequência em multinacionais, a headhunter Laís Passarelli, diretora da Passarelli Consultores, conta que aumentou no último ano a demanda por profissionais para ocupar cargos de talent acquisition no Brasil. “Estamos em meio a dois processos do gênero”, afirma Laís. A ideia é que a estrutura funcione como um serviço compartilhado pelos diversos setores da empresa, para ser acionado sempre que surgir a necessidade de contratação. “Essa centralização faz a interface com o mercado e ocorre de forma mais padronizada e organizada”, acrescenta. Para isso, o perfil desse profissional exige uma boa mobilidade entre os colaboradores, trânsito livre entre os gestores e acesso às informações, como as avaliações de desempenho, além de saber antecipar movimentos. “Quem trabalha em captação de talentos tem que ser como um bom enxadrista, capaz de prever o que vai acontecer e de antecipar­ se aos lances dos adversários”, diz Juliana Nunes, da Asap. Dependendo do nível do cargo em aberto e da capacidade da estrutura, o processo de contratação pode ser integralmente conduzido na própria empresa ou repassado a uma consultoria. No momento em que uma posição se torna disponível, cabe ao profissional de aquisição de talentos apresentar o mais rápido possível opções externa s. Em decorrência disso, um dos procedimentos sistemáticos do profissional é estabelecer contato e acompanhar a trajetória dos funcionários que merecem permanecer ” no radar”, mesmo que não haja uma oportunidade imediata na empresa. O trabalho de aquisição de talentos tem também a função de demonstrar agilidade na reposição de cargos estratégicos, com impacto na reputação corporativa e no clima organizacional. “Como o mercado é muito dinâmico, estamos o tempo todo preocupados em identificar onde estão as lacunas de sucessão que podem surgir em decorrência das constantes movimentações. Esses pontos críticos se tornam a prioridade da estratégia de captação de talentos”, diz Elisa Furusho, diretora de RH da Microsoft do Brasil. Uma lacuna pode se referir, por exemplo, ao cargo ocupado hoje por um executivo cujo desenvolvimento da carreira indica uma promoção dentro de um ou dois anos. “Se não houver ninguém pronto para substituí-lo nesse momento, é preciso mapear alternativas internas e externas e acompanhá-las daí em diante”, afirma Elisa.

QUASE UM HEADHUNTER

Para ocupar o cargo de gerente de aquisição e desenvolvimento de talentos, a Microsoft contratou recentemente o executivo Alcino Therezo Jr., psicólogo com MBA em RH, área em que atua desde o início da carreira. “Meu trabalho tem muitas semelhanças com o de um headhunter, com a diferença essencial de que minhas prospecções são mais de longo prazo”, diz. Enquanto um headhunter só costuma entrar em contato com um profissional quando o está considerando para um cargo em aberto, o profissional de captação de talentos pode se aproximar apenas para mapear uma possibilidade para o futuro.

“O trabalho de captação de talentos precisa ser mais prospectivo e menos reativo”, diz Therezo Jr. O perfil da Microsoft no Brasil contribui para criar o ambiente perfeito para um trabalho mais personalizado de captação de talentos. Uma vez que a empresa atua no país apenas nas áreas de vendas e marketing, o volume de contratações é relativamente baixo –  no ano passado foram aproximadamente 60, incluindo reposições e novas vagas. Cada contratação tem grande importância estratégica e envolve profissionais em estágios avançados na carreira. “A seleção na Microsoft é muito rígida e inclui pelo menos cinco entrevistas com os principais executivos da empresa. Quanto mais alternativas próximas do ideal tivermos ao iniciar o processo, maior a possibilidade de encontrar a pessoa certa”, diz Therezo Jr.

Isso não acontece, por exemplo, no Santander.  Com cerca de 50.000 funcionários no país e um grande volume de contratações, o trabalho interno de captação de talentos tem a função de estabelecer os critérios que deverão ser seguidos pelas consultorias parceiras. “Houve um período em que o banco tentou internalizar o procedimento de contratação, mas isso causou um grande inchaço na estrutura”, descreve a gestora de RH, Paula Giannetti. “Hoje, contratamos os serviços de diversas consultorias que, ao receberem o perfil, apresentam os candidatos.” A área de recrutamento do banco soma 17 funcionários, ante 36 do período em que conduzia integralmente os processos.

A estrutura interna do departamento de RH do Santander reflete essa segmentação, com a divisão em três núcleos – o de cargos de entrada, o de cargos padrões e o de cargos específicos. Neste último, se concentram as contratações com maior valor estratégico, por envolver atividades com poucos profissionais disponíveis, como trader de mesa proprietária. O núcleo de cargos específicos lida com aproximadamente 300 contratações por ano, entre as cerca de 5.000 realizadas pelo banco como um todo.

GESTÃO E CARREIRA

Estress no trabalho 1

STRESS: GUERRA DE NERVOS NO TRABALHO

Frustração, irritação, uso de drogas e passividade durante o tempo livre podem ser sinal de stress ocupacional; as consequências para a saúde se tornam mais dramáticas com o envelhecimento

O stress no trabalho é uma das principais causas de absenteísmo e acidentes. Estudo feito pelo governo britânico em 2000 estimou em cerca de 40 milhões as faltas ao trabalho, em apenas um ano, devido a distúrbios relacionados ao stress. Nos Estados Unidos, esse número chega a 550 milhões de faltas por ano. O médico americano Martin Moore-Ede, um dos maiores especialistas do mundo em fadiga laboral, calculou, em 1993, o custo mundial dos acidentes − na indústria, no trânsito e no campo − em cerca de 60 milhões de dólares por ano. Mais do que um tema de segurança ocupacional, o stress é, portanto, uma fonte importante de prejuízos econômicos. A situação tem se agravado nas últimas décadas devido à crescente precarização das relações de trabalho, ao ritmo acelerado das grandes cidades, à pressão por eficiência, ao ambiente cada vez mais competitivo e ao medo do desemprego.
No entanto, alguns dados enganam. Embora diversos indicadores sugiram que a prevalência de doenças ocupacionais venha caindo nos últimos anos, isso não deve ser tomado como sinal de melhora da saúde da população economicamente ativa. O que as estatísticas não mostram é que o número de doenças crônicas e degenerativas nos idosos aumenta dramaticamente, até por causa do envelhecimento populacional. Ao que tudo indica, os jovens conseguem lidar razoavelmente bem com os fatores estressores no ambiente de trabalho. É mais tarde, porém, quando o indivíduo já está aposentado, que os prejuízos para a saúde se tornam perceptíveis.

LUGAR-COMUM
A frase “Estou estressado” já virou lugar-comum. Entretanto, não há consenso sobre a definição de stress ocupacional. Segundo o Instituto de Saúde e Segurança Ocupacional dos Estados Unidos, “o stress ocupacional é uma resposta física e emocional nociva que ocorre quando as exigências do trabalho superam as habilidades, os recursos e as necessidades do trabalhador”. Para o departamento de emprego e assistência social da União Européia trata-se “de uma reação cognitiva, comportamental e fisiológica a aspectos aversivos e perniciosos do ambiente e da organização do trabalho. É um estado caracterizado por altos níveis de alerta, angústia e frustração por não se conseguir lidar com o problema”.
De certa forma, todas as definições contemplam a variedade de aspectos dessa complexa questão. Para simplificar, porém, podemos entender o stress como um desgaste físico e principalmente psíquico. A pessoa estressada sente que algo de si está sendo consumido. As fontes desse desgaste, que alguns chamam de fatores estressores, são variadas e podem ser divididas em três domínios: o do conteúdo do trabalho, o da função que o indivíduo ocupa e o das condições ambientais e organizacionais do trabalho.

Assim como as fontes do stress no trabalho podem ser muitas, as respostas dos indivíduos também não são poucas e podem ser observadas em três níveis: fisiológico/somático, emocional e comportamental (ver tabela 2). No primeiro nível destacam-se as alterações mais óbvias, como problemas cardíacos, distúrbios do sono e facilidade de contrair infecções. No nível emocional são marcantes os sentimentos de decepção e frustração, que geralmente evoluem para uma condição de monotonia e saturação que pode se tornar intolerável. Do ponto de vista comportamental, o aumento do consumo de álcool, tabaco e outras drogas, lícitas e ilícitas, pode ocorrer com certa frequência. Outro traço comum da pessoa estressada é o comportamento passivo durante o tempo livre.
Os primeiros estudos sobre stress no trabalho, realizados na década de 50, viam o indivíduo passivamente exposto aos desgastes. Novos modelos propostos na década de 80, no entanto, mudaram esse conceito, entendendo que o ser humano lida ativamente com as situações estressantes, o que implica uma avaliação do próprio indivíduo, que pode ser dividida em primária e secundária.

CHANCES DE SUPERAÇÃO
A avaliação primária tem como referência a percepção da situação como ameaçadora e prejudicial. Quando a realidade representa uma ameaça para alcançar objetivos pessoais (ter de abrir mão de um curso, por exemplo) ou uma perda (como a redução do tempo livre), a reação de stress é evocada sempre que as possibilidades de superação da situação forem críticas ou improváveis. Isso só é possível com base numa avaliação secundária, que leva em conta a experiência individual, o conhecimento e a capacidade disponíveis, assim como no apoio externo − e tem referência, portanto, nas chances percebidas pela própria pessoa de conseguir superar os desgastes em curto, médio ou longo prazo.

A forma como situações estressantes são superadas não depende apenas das possibilidades objetivas de ação, mas é influenciada também pelo estilo pessoal de reação ao stress e pelas experiências vividas por cada pessoa. A ação pode visar a modificação da situação desencadeadora (por exemplo, reduzir a pressão de prazos por meio de um planejamento realista do tempo), o aumento do próprio esforço, da intensidade ou da duração do trabalho (reduzir as pausas, fazer horas extras), repensar o fluxo de trabalho e organizá-lo de forma mais eficiente (manter todas as informações necessárias disponíveis e fáceis de encontrar) e corrigir metas e objetivos (fazer o melhor possível, sem ser perfeccionista). Além disso, a experiência do stress também pode ser amenizada por meio de uma reavaliação da situação desgastante que relativiza os parâmetros em questão (“Os outros também cometem erros”). Dentre todas essas possibilidades, sabemos que os indivíduos sob maior risco de viver experiências altamente estressantes são aqueles com ambição e engajamento excessivos, prontidão exagerada para trabalhar até o esgotamento, grande busca por perfeição, baixa capacidade de distanciamento dos problemas do trabalho, tendência marcante à resignação em caso de falha, assim como dificuldade de pedir ajuda.
Se o stress for compreendido como um desequilíbrio entre as demandas do trabalho e a capacidade de superação do indivíduo, as medidas de redução desse mal deviam, via de regra, basear-se, por um lado, nas causas do desgaste e, por outro, em alterações comportamentais. Esse último inclui o desenvolvimento de competências adequadas por meio de treinamento, aprimoramento e motivação do indivíduo, bem como da melhoria de suas habilidades sociais e de resolução de conflitos. Da mesma forma, as competências individuais de superação podem ser positivamente influenciadas por mudanças no estilo de vida (por exemplo, alimentar-se de forma saudável, dormir o suficiente e alternar momentos de tensão e relaxamento). As iniciativas de promoção da saúde dentro das empresas devem ter como objetivo a integração das intervenções aqui descritas, baseadas tanto no comportamento quanto nas relações. Hoje está claro que as intervenções podem ser tanto corretivas nos locais de trabalho, quanto preventivas para evitar ameaças conhecidas, além de prospectivas, no que diz respeito a segurança, manutenção e promoção da saúde.

TABELA 1 – AS ORIGENS DO DESGASTE

CONTEÚDO DO TRABALHO
– Alto grau de qualificação exigido dos funcionários
– Forte pressão por prazos e ritmo acelerado de trabalho
– Grande número de informações complexas a processar
– Gerenciamento confuso ou contraditório
– Interrupções constantes e não previstas do fluxo do trabalho
– Possibilidades limitadas para tomar decisões próprias
– Falta de autonomia para planejar as próprias atividades e controlar seus resultados

FUNÇÃO OU CARGO 
– Grande responsabilidade para com pessoas e/ou valores
– Forte competição entre os funcionários
– Pouco reconhecimento pelo trabalho realizado
– Conflitos com superiores e/ou colegas de trabalho
– Pouco apoio social ou assistencial
– Mudanças estruturais na empresa, principalmente quando acompanhadas de redução de vagas
– Informação insuficiente sobre as modificações planejadas

AMBIENTE E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO
– Ambientes ruidosos
– Iluminação inadequada
– Temperaturas muito altas ou muito baixas
– Vibrações mecânicas constantes ou intermitentes
– Substâncias químicas perigosas
– Espaço muito reduzido
– Trabalho individual isolado
– Trabalho em turno e/ou noturno

TABELA 2 – A RESPOSTA AO STRESS

FISIOLÓGICAS / SOMÁTICAS
Reações agudas, de curto prazo: aumento da frequência cardíaca, aumento da pressão arterial, tensão muscular, imunidade debilitada
Reações crônicas, de médio ou longo prazo: dores psicossomáticas, hipertensão, insônia, problemas de pele, obesidade etc.

EMOCIONAIS
Reações agudas, de curto prazo: irritação, decepção, frustração, medo, cansaço, monotonia, saturação
Reações crônicas, de médio ou longo prazo: resignação, insatisfação, estados depressivos, medo do fracasso, incapacidade de se desligar do trabalho

COMPORTAMENTAIS INDIVIDUAIS
Reações agudas, de curto prazo: eficiência inconstante, erros frequentes, abandono de ações de controle das atividades
Reações crônicas, de médio ou longo prazo: consumo exagerado de nicotina, álcool e medicamentos, aumento das faltas, intensificação de comportamento passivo no tempo livre

COMPORTAMENTAIS SOCIAIS
Reações agudas, de curto prazo: conflitos, brigas, agressões
Reações crônicas, de médio ou longo prazo: isolamento

 

Fonte: Anna-Marie Metz e Heinz-Jürgen Rothe – Revista Mente e Cérebro

PSICOLOGIA ANALÍTICA

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ANO-NOVO AÍ VOU EU!

O Início de um ano novo oferece oportunidades de rever metas e traçar perspectivas. Embora nem sempre seja fácil atingir o que planejamos, quando entendemos como o cérebro e a mente funcionam, aumentamos nossas chances de obter sucesso ao lidar com dificuldades causadas pela ansiedade e pela tendência à procrastinação.

 De boas intenções o inferno está cheio, diz o ditado. O início de cada ano também costuma ser repleto de planos bem-intencionados – como meditar, praticar exercícios físicos, emagrecer, cuidar melhor da alimentação, concluir aquele curso há tanto tempo adiado, passar mais tempo com a família e os amigos, aprender outro idioma, poupar dinheiro… Enfim, uma gama de bons propósitos que certamente fariam diferença significativa na qualidade de vida de quem os incorporasse. Porém, é preciso encarar a realidade: concretizar algo, ainda que extremamente benéfico, mas que não faz parte da rotina, requer determinação.

Algumas pesquisas realizadas nos Estados Unidos e na Inglaterra mostram que apenas 10% das pessoas, aproximadamente, cumprem suas resoluções de ano-novo nos meses seguintes. Felizmente, entender como o cérebro e a mente funcionam pode aumentar nossas chances de sucesso. Aproveitando que temos pela frente 12 meses novinhos em folha para colocar em prática os bons intentos, talvez o primeiro desafio seja reconhecer que tropeços são inevitáveis e é fundamental aprender a lidar com eles. Do ponto de vista da dinâmica psíquica, rigidez e auto exigência exageradas são tão nocivas quanto descomprometimento e autoindulgência.

A atitude mais madura – que contempla a existência das dificuldades sem se deixar tomar pela sensação de impotência – pode ser fortalecida, e os resultados se refletem na maneira como nos relacionamos com nós mesmos e com os outros. Um estudo recente desenvolvido por pesquisadores da Universidade Rutgers, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, demonstrou que pessoas que acreditavam dominar as adversidades e ter alguma possibilidade de escolha, por mais difícil que fosse a situação, eram mais propensas a insistir na realização de seus objetivos.

O resultado corrobora diversos trabalhos segundo os quais temos maiores chances de seguir em frente quando, apesar da decepção, mantemos alguma autonomia, o que nos permite lidar com as dificuldades sem nos sentirmos completamente tomados pelas frustrações. Esse recurso interno, que nos faz insistir no que desejamos, apesar das dificuldades, é chamado de resiliência pela psicologia. O termo – emprestado da física e usado originalmente para se referir à resistência dos diversos materiais – indica a capacidade de sobreviver psiquicamente às adversidades. Não se trata de negar as frustrações ou evitar vivê-las a qualquer preço, mas sim de passar por elas sem deixar que se tornem o centro da existência. “Pessoas mais resilientes tendem a lidar melhor com os desafios não por que sejam necessariamente mais competentes do que as demais, mas por que não encaram os deslizes ou erros como determinação de impossibilidade e, consequentemente, de fracasso”, afirma o psicólogo Peter Gollwitzer, da Universidade de Nova York. Em suas pesquisas sobre motivação, ele desenvolveu uma estratégia que favoreçam a realização de objetivos, denominada “se então”. Ou seja: se acontecer algo que me tire do meu caminho, então faço determinada coisa. A ideia é que, partindo de metas realistas, a pessoa estabeleça, de antemão, estratégias racionais que atingir metas. Mas, para isso, o primeiro passo é saber o que se pretende alcançar.

RESOLUÇÕES DE ANO-NOVO

Lembro-me de um ex-paciente que me disse, logo nas prime iras entrevistas: “Vim ao seu consultório porque quero ser feliz”. No entanto, ele não tinha a menor ideia do que isso significava em sua vida. Durante anos, nosso trabalho foi, antes de mais nada, delinear afetos e nomear desejos para que ele pudesse, aos poucos, entender o que queria para si e, a partir daí, fazer escolhas. De fato, em vários níveis, saber o que queremos faz toda a diferença. Aqueles que conseguem definir exatamente o que anseiam costumam chegar mais facilmente a seus objetivos, ainda que seja necessário fazer algumas correções de rota ao longo do percurso.

Mais especificamente em relação às promessas de ano-novo, o problema é que, muitas vezes, as pessoas traçam objetivos muito gerais – assim como o homem que simplesmente queria “ser feliz”. Psicólogos cognitivos argumentam que colocar no papel nossas metas, de preferência com detalhes, podem ser muito útil. A técnica consiste em especificar as possíveis dificuldades que a pessoa poderá enfrentar até chegar a seu objetivo e as estratégias que podem ser usadas em cada caso. Com isso, as dificuldades são antecipadas junto com as soluções, o que, para muitas pessoas, ajuda a diminuir o nível de ansiedade.

“Identificar comportamentos específicos, decidir quando realizá-los e, de pois, insistir em repeti-los costuma ser bastante eficaz”, diz a psicóloga e pesquisadora Phillippa Lally, da Universidade College London. Um estudo coordenado por ela mostrou que formar um novo hábito pode levar de 18 até 254 dias, dependendo do comprometimento da pessoa, do grau de motivação, das condições externas e da dificuldade de incorporação do novo comportamento. “Claro que em algum momento vamos nos sentir tentados a desistir, mas, se tivermos planos previamente traçados, teremos menos oportunidade de sabotar as boas intenções”, observa. Segundo a pesquisadora, se a proposta é ter uma dieta mais saudável, com mais frutas e vegetais no cardápio, por exemplo, é útil definir em que momento do dia vamos comer as porções: talvez uma em cada refeição principal, outra no lanche da tarde, a última após o jantar. Também é preciso definir em que ocasião o alimento será comprado, preparado e até transportado caso as refeições não sejam feitas em casa. Detalhes, com certeza – mas, quando se trata de cuidar de si mesmo, eles podem fazer toda a diferença.

MENOS FUMAÇA MAIS ECONOMIA

Um dos grandes inimigos da realização de objetivos está no pensamento mágico, uma forma primitiva de raciocínio: segundo essa lógica, algo que fazemos, elucubramos ou apenas queremos tem a capacidade de influir no mundo concreto, como que por encanto, ainda que não exista nenhuma relação efetiva entre o que tomamos por causa e por efeito. O psiquiatra Derek Bolton definiu esse funcionamento como “a expressão de fenômenos reais por causas irreais”.

Embora essa maneira de pens ar seja típica da infância, muitos cultivam na vida adulta a ideia equivocada de que algo externo nos trará a realização de um propósito, sem que tenhamos de fazer alguma coisa específica para sua concretização – o que nos acomoda e afasta da realização do objetivo.

O fato é que, na contra ­ mão das tão almejadas soluções prontas, empenhar-se em realizar o que se quer exige comprometimento e esforço. Mas, seguindo a lógica do imediatismo, cultivamos a ilusão de que tudo deve ser fácil, múltiplo, sem perdas. Assim, focar um único objetivo que exija esforço costuma ser considerado entediante, exageradamente sofrido. É como se diante da falta de espaço psíquico para suportar a espera da recompensa buscássemos gratificações menores, ainda que paliativas. “Embora seja tentadora a possibilidade de ‘escolher’ entre a aparente profusão de opções que o mundo atual nos oferece, o problema é que a maioria delas leva a lugares distantes da raiz dos nossos conflitos e aflições, impedindo que os enfrentemos”, afirmou o sociólogo Zygmunt Bauman.

“Felizmente muitos estudos já comprovam que podemos aprimorar o autocontrole com a prática”, diz o doutor em psicologia Mark Muraven, professor da Universidade do Estado de Nova York, em Albany. Ele compara o processo para aumentar a força de vontade ao do fortalecimento da musculatura. Em um estudo realizado há poucos meses, o pesquisador observou que os fumantes que permaneciam em abstinência por mais tempo eram os que também se mostravam capazes de exercer domínio em outras áreas, como cortar a sobremesa. Mas é importante ficar atento aos exageros que minam a força de vontade. Decidir fazer várias mudanças ao mesmo tempo, em geral, leva ao fracasso em todas elas. “Aprendemos com nossos experimentos que é melhor se concentrar no objetivo principal e, se se continuar a falhar, convém rever os objetivos e redirecionar os esforços para algo em que possamos praticar o autocontrole”, salienta Muraven. Por exemplo, se uma pessoa não consegue deixar totalmente o cigarro, pode pelo menos estipular horários do dia em que não vai fumar em hipótese alguma. A dificuldade para a realização de uma meta, porém, pode não ser tão óbvia e guiada apenas pela vontade imediata. Processos e crenças, dos quais nem sequer nos damos conta, podem estar por trás do que denominamos “incapacidades”. Nesses casos, a ajuda de um psicanalista costuma ser essencial. Durante a análise, vêm à tona questões latentes, que subjazem ao que parece mais imediato e acessível à compreensão. E mesmo a dificuldade em realizar aquilo que a pessoa se propôs pode ganhar sentidos que ajudam a entender a dinâmica psíquica.

“Se você se torna impaciente e irritado quando tenta modificar seu jeito de agir, tem poucas chances de ter sucesso. Mas, se encara a situação com calma e de maneira mais flexível, é provável que tenha maior abertura para descobrir os caminhos que conduzem aonde quer chegar”, afirma o psicólogo B. J. Fogg, pesquisador da Universidade Stanford. Ele acredita que fazer mudanças não deve ser associado a algo penoso, com caráter punitivo. Praticar exercícios, por exemplo, por mais que seja desconfortável para alguns, precisa ter componentes de prazer. Por isso, vale ser meticuloso na hora de procurar a atividade que seja mais atraente, talvez até lúdica, como práticas circenses, dança ou algum tipo de luta.

Da mesma maneira, a proposta de economizar dinheiro não precisa estar vinculada à privação – pelo contrário. Ao desenvolvermos a possibilidade de não comprar por mero impulso, por exemplo, podemos direcionar recursos para algo que realmente desejamos, ainda que de forma não imediata. Se percebermos qual a falta real que nos instiga tão fortemente a consumir (em geral, objetos dos quais não precisamos realmente), ficará ainda mais fácil fazer escolhas mais autônomas. Além disso, há sempre a possibilidade de encontrar formas criativas de lidar com situações, como experimentar novas receitas que transformam o ato de cozinhar em algo mais atrativo em vez de comer fora.

O TEMPO COMO ALIADO

O que torna algumas tarefas mais difíceis de completar do que outras? A verdade é que o tempo efetivo atribuído a determinada atividade importa menos do que a forma como a mente percebe o limite para sua conclusão. Quando um prazo parece fazer parte do presente, por exemplo, da semana em que estamos, somos mais propensos a iniciar mais rapidamente a tarefa. Em um experimento recente, pesquisadores pediram a 100 estudantes de graduação que realizassem, no prazo de cinco dias, uma tarefa que envolvia coleta de informações. Para alguns voluntários, o trabalho hipotético começaria em 24 ou 25 de abril (e seria entregue até o fim do mês), enquanto para outros teria início em 26 ou 27 (devendo ficar pronto, portanto, no início de maio). Embora os grupos tivessem o mesmo prazo para a tarefa, os alunos com a data final de entrega no início de maio estavam menos dispostos a começar imediatamente, segundo artigo sobre o experimento publicado no Journal of Consume, Research.

Outro estudo com 295 agricultores na Índia aponta resultado similar. Os trabalhadores aprenderam numa palestra sobre finanças que poderiam ganhar benefícios monetários se abrissem uma conta bancária e guardassem certa quantia durante seis meses. O prazo final de um grupo seria dezembro; o do outro, janeiro. Os voluntários do primeiro foram mais propensos a abrir a conta imediatamente e a cumprir a meta de poupança pelo período estipulado.

Os resultados ilustram como o cérebro divide o tempo em categorias distintas, por exemplo, com o limite no final de um mês ou o início de um novo ano. Ou seja, pensar nos prazos de forma diferente pode favorecer a motivação para iniciar uma tarefa que tem sido adiada. É possível, por exemplo, considerar que a pessoa tem apenas três semanas para entregar o trabalho com a data final para o mês seguinte. Outro jeito de “enganar” o cérebro é criar um calendário que não considere os meses, apenas os dias corridos. Alguns neurocientistas sugerem também dividir uma tarefa em passos graduais, cada uma com seus próprios prazos – o que soará mais imediato. Podemos pensar que o desafio de um estudante seja entregar uma monografia até junho. A cada mês ele terá de ter etapas cumpridas, evitando assim a procrastinação e o atraso.

Trabalhoso cumprir objetivos de modo geral? Alguns mais, outros menos. Certamente é uma tarefa que exige compromisso com o que desejamos, atenção aos próprios comportamentos e paciência com os deslizes. A parte boa é que pode ser muito recompensador perceber, na prática, que, por mais que haja gente empenhada em ajudar, há certos cuidados que só a própria pessoa pode ter consigo. E tomar para si essa responsabilidade é indício de amadurecimento emocional. Talvez aí psicanálise e ciência se encontrem com a poesia e seja mesmo como escreveu Carlos Drummond de Andrade: “Para ganhar um ano novo, que mereça este nome, você, meu caro, tem de fazê-lo novo; eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente”.

EXPANDIR HORIZONTES PARA FUGIR DA GELADEIRA

O ato de apreciar paisagens naturais tem sido associado com diversos benefícios, como alívio de dor, recuperação do estresse e melhora do humor. Um estudo publicado em maio de 2014 na PLoS ONE acrescenta a essa lista a habilidade de controlar os impulsos de forma mais eficaz. Pesquisadores da Universidade Estadual de Utah chegaram a essa conclusão após um experimento: pediram a três grupos de voluntários que completassem uma tarefa que testava a capacidade de resistir a gratificações instantâneas para adquirir uma recompensa melhor um pouco mais tarde. Antes da atividade e durante ela, um dos grupos observava imagens de montanhas, enquanto os outros viam fotos de edifícios ou triângulos. Aqueles que vislumbraram cenas naturais tomaram decisões menos impulsivas do que o restante.

Experimentos de acompanhamento revelaram que olhar a natureza nos ajuda a pensar mais no futuro, segundo a psicóloga Meredith S. Berry, agora na Universidade de Montana, principal autora do estudo. “Quando o tempo é expandido, fica mais fácil imaginar o que está por vir. Esse efeito parece diminuir nossa inclinação de sucumbir às tentações imediatas”, afirma. Os resultados significam que, mesmo quando estamos presos no trabalho até tarde, ainda podemos colher alguns benefícios cognitivos. Visualizar imagens de paisagens na tela do computador pode contribuir para nos manter longe da geladeira. Ou simplesmente nos acalmar quando nos sentimos confusos, incapazes de dar conta daquilo que estamos sentindo.

PELO MENOS QUE SEJA DIVERTIDO!

Coração acelerado, respiração descompassada, pensamentos a mil por hora – angústia, medo e tensão. Que nome tem essa sensação? Por mais estranho que possa parecer, nem sempre as pessoas se dão conta do que as aflige, em especial nos momentos de maior ansiedade, quando nos sentimos avaliados e tememos nos expor ao olhar alheio – ainda que uma parte de nós queira fazer isso. Estudos realizados na Universidade Harvard revelam que, ao interpretarem esses sentimentos como excitação em vez de ansiedade, as pessoas tendem a demonstrar mais competência em três tipos de situação estressante (propostos pelos pesquisadores): cantar na frente de estranhos, falar em público e resolver problemas difíceis de matemática.

Nos experimentos, alguns participantes foram instruídos a tentar se acalmar ou se animar antes da tarefa; outros não receberam nenhuma dessas instruções. Aqueles que se percebiam apenas empolgados não só relataram maior animação como também tiveram melhor desempenho que o restante em todas as tarefas: canto aproximadamente 30% mais preciso; pontuação cerca de 20% maior em um teste que avaliava diversas dimensões da capacidade de falar em público; e resultados, em média, 15 % melhores em um exercício cronometrado de matemática, segundo artigo publicado em junho na journal of Experirnental Psychology. Outro estudo de Harvard, publicado na Emotion em agosto de 2014, também aponta efeitos positivos: pessoas com ansiedade social que encararam o estresse como útil se saíram melhor durante atuações em público.

Os autores do estudo observam que a maioria de nós tenta se acalmar diante de situações em que temos muito a perder, mas nem sempre conseguimos, e passamos um bom tempo ruminando sobre o que poderia dar errado. Em vez de disso, é mais eficiente nos concentrarmos nos potenciais pontos altos do cenário – por exemplo, focar divertir os colegas durante uma apresentação ou como resolver alguns problemas em um teste. “Sentir-se confiante de que as coisas irão bem reforça a segurança e a energia, além de aumentar as possibilidades de concretizar os resultados positivos que imaginamos”, diz a professora de administração de empresas Alison Madeira Brooks, da Escola de Negócios Harvard, autora do estudo.

 TOMAR DECISÕES FAZ BEM

Em comparação a nossos antepassados, hoje em dia fazemos em períodos mais curtos muito mais coisas – como viajar, mandar mensagens e produzir ou adquirir objetos. “O problema não é o que fazemos, mas é quão efetivas são nossas ações”, observa Bauman. “Estresse e depressão decorrem da experiência generalizada de infelicidade e desesperança, o que nos relembra da comprovada (ou pelo menos suspeita) ineficácia de nossas ações. A maioria de nós se sente ignorante ou impotente a respeito do que o futuro reserva e, mesmo se soubéssemos que uma catástrofe se aproxima, pode ríamos fazer muito pouco ou nada para evitar sua chegada.”

Voltando para as pesquisas que mostram o quanto se sentir capaz de tomar decisões em relação à própria vida é importante, a possibilidade de escolher como usar o próprio tempo pode ser fundamental quando se trata de atingir objetivos. Pesquisadores ingleses do Centro Internacional de Saúde e Sociedade descobriram que a diferença mais marcante entre as pessoas muito e as pouco estressadas não está nos fatores genéticos nem na estrutura psíquica, mas no quanto o indivíduo se sente autônomo e dono do próprio destino. Durante vários anos, os cientistas analisaram a saúde e as condições de trabalho e de vida de 10 mil funcionários públicos de meia-idade. Curiosamente, constataram que profissionais atarefadas ou mesmo com carga excessiva de trabalho são mais relaxados que funcionários subalternos com a obrigação de cumprir tarefas que lhes são impostas, de obedecer a prazos e ritmos de trabalho.

Psicanalistas e psicólogos acreditam que, ainda que na vida profissional eventualmente as possibilidades de exercer a criatividade sejam restritas, é importante que existam “válvulas de escape” – espaços onde seja possível manter compromissos consigo mesmo, por escolha própria. Nesse sentido, manter a proposta de dedicar-se a um projeto pessoal, um hobby ou um trabalho voluntário que beneficie outras pessoas pode ser muito saudável tanto para o corpo quanto para a mente.

 NA PRÁTICA, ALGUMAS ATITUDES PODEM SER ÚTEIS

  •  Ter em mente que as tarefas não se esgotam em si. Ainda que sejam difíceis,

  • Retrocessos são inevitáveis, fazem parte de qualquer processo; não significam a comprovação da inabilidade oferecem a oportunidade do aprendizado

  • Erre, mas erre diferente; permita-se examinar suas ações para detectar encontrar o que pode ser feito de forma diferente

  • Ainda que já tenha tentado e não tenha conseguido chegar a um objetivo, refaça seu compromisso, encare a chance de tentar mais uma vez como algo positivo

  • Entenda a persistência como uma escolha, e não como um traço de personalidade com o qual só alguns sortudos são agraciados

  • Não se torture; assumir responsabilidade é importante, mas culpar a si mesmo e se sentir com pouco valor pode impedir a descoberta do que mudar da próxima vez

  • Você não precisa dar conta de tudo sozinho; procure ajuda de um profissional experiente (um treinador, se a ideia for correr, por exemplo) ou mesmo de um psicanalista ou psicólogo

  • Use a frustração a seu favor; encare essa sensação como um sinal saudável de preocupação em alcançar os objetivos

GLÁUCIA LEAL é jornalista, psicóloga, psicanalista e editora-chefe de Mente e Cérebro.