PSICOLOGIA ANALÍTICA

O MELHOR CEGO É AQUELE QUE NÃO QUER VER

Artista se dispôs a passar três dias no mais completo breu: foi hermeticamente vendado e imediatamente assumiu a postura de um ancião.

o melhor cego é aquele que não quer ver

A predominância da visão entre os sentidos humanos é tão grande que chegamos a usar coloquialmente as expressões “olha isso” ou “viu?” para indicar estímulos não visuais. Caçadores e coletores, nossos ancestrais viveram em estrita dependência da visão, pois apenas ela fornece imagens detalhadas de objetos distantes. Viver sem ver parece catastrófico para quem normalmente vê, mas o convívio com cegos bem adaptados demonstra que as compensações sensoriais e o aprendizado da falta permitem um notável grau de autonomia. Exímios navegadores da memória, refinados cartógrafos de texturas, senhores dos sons e odores, excepcionais interlocutores no trato com o próximo, os cegos bem temperados não inspiram pena e sim a mais franca admiração.

Em 2015 foi publicado o estudo eletrofisiológico de uma cegueira psicogênica, isto é, provocada não por deficiência anatômica ou fisiológica (hardware) mas por uma disfunção psíquica (software). O caso envolve o raríssimo transtorno dissociativo de identidade, em que o paciente atua como se possuísse distintas personalidades. Descrito há mais de um século por Charcot, Janet e Freud, esse transtorno foi posteriormente questionado como sendo um artefato terapêutico ou cultural. No caso em questão, uma paciente com múltiplas personalidades tornou-se cega após um traumatismo cranioencefálico, mas anos depois recuperou a visão quando sob a identidade de um adolescente do sexo masculino. Após uma sessão em que foram tratados temas especialmente traumáticos, subitamente a paciente tornou-se capaz de ler palavras inteiras. Depois, progressivamente, passou a reconhecer letras e finalmente imagens em geral. Sessões de hipnose levaram a uma generalização da visão para algumas outras personalidades da paciente, de modo que estados videntes e cegos passaram a se alternar na mesma pessoa em questão de segundos.

O registro de potenciais elétricos evocados por estímulos visuais mostrou que o córtex visual respondia apenas quando a paciente declarava ver, mas não quando reportava cegueira. Em outras palavras, a resposta fisiológica do cérebro dependia efetivamente da personalidade assumida a cada instante pela paciente. Ainda não está claro se este caso de cegueira histérica reflete processos cerebrais de cancelamento da imagem visual ou simplesmente um sutil mas eficaz desfocamento dos olhos. Seja como for, a documentação neurofisiológica do fenômeno indica que o transtorno dissociativo de identidade tem caráter biológico.

Se a instalação involuntária da cegueira sem causa orgânica aparente representa um quadro mental potencialmente revelador das misteriosas estruturas da mente, a cegueira voluntária é uma opção instrutiva para quem deseja explorar os limites da consciência. Buscando a experiência do verdadeiro escuro, o artista Leonardo Costa Braga dispôs-se a três dias de breu. Foi hermeticamente vendado e imediatamente assumiu a postura de um ancião. Durante as primeiras horas após o vendamento, expressou fragilidade, necessidade constante de apoio, medo evidente de perigos invisíveis e uma constante sensação de morte da personalidade que achava que a vida era apenas ver. Mover-se e viver tornou-se épico. A atenção chegou a tal extremo de foco que mesmo o som do mar a poucos metros tornou-se inaudível durante uma conversação com um guia durante uma caminhada.

Mas após uma noite de muitos sonhos, a adaptação foi emocionante. Retornou a postura corporal de adulto saudável, revigorada pelo aumento da sensibilidade dos outros sentidos. Instalou-se uma sinestesia poderosa, capaz de transformar em cores e formas os contatos do corpo com superfícies e sons do ambiente. Mestre da fotografia e da semiótica do cotidiano, Leonardo passou a retratar seu entorno com a clarividência de quem vê além da luz. Ao final da experiência, o artista nadava no Atlântico como se viajasse no espaço sideral, destemido e infinitamente livre.

Essa experiência encontra-se bem documentada no livro Olho mágico, fruto de um Prêmio Nacional Rede Funarte de Artes Visuais, em colaboração com o Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e do curso de alfabetização visual para deficientes visuais do Centro Universitário Senac-SP. Para conhecer o trabalho do artista: http://www.leonardocosta braga.com

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GESTÃO E CARREIRA

É MUITO CHATO MESMO…

Pesquisa mostra o que os funcionários fazem durante reuniões com apresentação de slides. A maioria faz tudo, menos prestar atenção…

É muito chato mesmo...

Poucas coisas podem ser mais enfadonhas no dia a dia das empresas do que apresentações, em salas à meia-luz. A companhia húngara Prezi, dona de um sistema concorrente do PowerPoint, resolveu investigar para onde vai o pensamento dos funcionários enquanto um slide se segue a outro e a mais outro e…. Foram ouvidos 2 mil profissionais americanos. Nesses momentos, 95% das pessoas fazem alguma coisa, que não é prestar atenção ao que está sendo dito e mostrado. Alguns conversam no celular, outros leem e-mails e há até aqueles que trabalham, mas longe de onde estão em corpo presente. Resultado: um em cada três perde o fio da meada e um em cada cinco comete erros ao lidar com vários assuntos ao mesmo tempo. A dispersão é maior na faixa etária de 18 a 34 anos – 56% deles precisam rever o conteúdo das apresentações, ante 44% dos que têm 55 anos ou mais. “As apresentações não cativam”, diz Nadjya Ghausi, vice-presidente de marketing da Prezi. O problema está na forma. “Projeções carregadas de estatísticas não engajam ninguém”, explica. Seria diferente se as informações fossem sob a forma de narrativa com exemplos – 35% dos jovens disseram prestar atenção quando a apresentação contém uma ótima história.

É muito chato mesmo...2

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O QUE OS OUTROS SABEM SOBRE VOCÊ?

o que os outros sabem sobre você

TIPO 1

Pode-se dizer, para começar, que você tem necessidade de ser amado e admirado, e, contudo, pode ser muito crítico consigo mesmo. No plano das relações pessoais, você tem uma grande propensão a se dedicar ao outro. Inimigo do superficial, você não oferece sua amizade ou confiança a qualquer um. Sabe, por experiência própria, que não dá certo mostrar seus sentimentos tão facilmente. Mas sua sociabilidade sempre o leva a estabelecer relações de amizade sinceras, especialmente com as pessoas que escolheu para estar a seu redor. Apesar disso, você às vezes precisa ficar sozinho para recarregar as energias e se reencontrar. Sua abertura de espírito o faz aceitar com entusiasmo as ideias novas e enriquecedoras. Você pode se mostrar um tanto ciumento no amor, principalmente quando outra pessoa parece ameaçar a integridade e estabilidade de sua relação amorosa.

TIPO 2

As sensações prazerosas o atraem. Você adora alimentos saborosos, o que por vezes o leva a excessos na comida e na bebida. O belo e atraente provoca-lhe admiração e prazer. Por isso, a poluição do ambiente o preocupa e as cenas de destruição da Natureza o deixam indignado. Em sua vida, você curte certa dose de mudança e variedade pequenas ou grandes viagens, por exemplo – e por isso é difícil quando alguém (ou algo) lhe impõe limites. Às vezes sua calma es­ conde nervosismo. Você gosta de mostrar seu espírito independente e só aceita a opinião dos outros se seu proveito for claro – ainda que, vez por outra, você possa se deixar influenciar por alguém de que gosta muito. Seu senso de humor é bastante desenvolvido e o riso é para você sinal de saúde.

TIPO 3

A honestidade e a franqueza são qualidades que você preserva e seu senso de justiça o faz criticar todo tipo de injustiça e desigualdade, pois você acredita num mundo melhor. A preguiça é uma tentação a que você sucumbe de vez em quando, mas, quando está realmente motivado, sabe fazer seu trabalho com a maior dedicação e interesse. Você tem um potencial admirável e tudo o que é necessário para usá-lo a seu favor, mas muitas vezes as circunstâncias se opõem a você mais intensamente do que se poderia imaginar. Como ocorre a todo mundo, sua personalidade tem pontos fracos, mas geralmente você sabe muito bem como compensá-los. Nesse sentido, os defeitos são ótimas chances para seu crescimento pessoal, e é com determinação que você os assume. Mas seu lado levemente conservador permite que você aprecie um equilíbrio estável e seguro. Muitas vezes você se pergunta se tomou a decisão certa ou se fez o que deveria ser feito. Algumas de suas aspirações tendem a ser irrealistas, mas você tem consciência disso, pois acredita que na vida é preciso ter sonhos para mobilizar as energias e viver plenamente.

Já sabe em qual tipo se encaixa? Muito bem! Agora vale a pena saber: tendemos a nos reconhecer em análises generalizadas de personalidade como se dissessem respeito unicamente a nós e revelassem nossas características psíquicas. No ímpeto de nos adequarmos a descrições, preenchemos – sem nos darmos conta – as lacunas das descrições com nossas próprias imagens mentais. Em psicologia, esse fenômeno é chamado de efeito Barnum.

As pessoas adoram fazer testes que ofereçam informações sobre seus traços de personalidade. E eles proliferam nas revistas femininas e no Facebook. Em geral, diante do resultado da análise (muitas vezes mero resultado de combinações de informações geridas por algum algoritmo) a pessoa fica estupefata, com a impressão de que seu modo de ser e se relacionar com o mundo foi revelado. A curiosidade em relação às respostas que vêm prontas, de fora, responde a uma curiosidade moderna, já que em nenhuma outra época tentamos seguir de maneira tão estrita a injunção “Conhece-te a ti mesmo”. Ao lado de técnicas psicológicas reconhecidas de investigação da personalidade, horóscopo, grafologia e tantas outras áreas buscam revelar nosso universo interior, o que costuma despertar grande curiosidade. O efeito Barnum, assim denominado pelo psicólogo americano Bertram Forer, refere-se justamente à tendência que as pessoas têm de tomar o genérico como específico – e acreditar que dados gerais, superficiais e amplos, que facilmente se aplicariam a grande número de pessoas, dizem respeito a elas. Com isso, a descrição de personalidade apresentada (qualquer que seja ela) produz o mesmo efeito, contanto que seja um pouco gratificante e que o sujeito esteja convencido de que é específica para ele.

Em 1948, para denunciar a banalidade e generalidade dos horóscopos, Forer teve a ideia de fazer uma experiência surpreendente. Uma semana depois de submeter 39 estudantes a um teste sobre motivação, ele lhes apresentou uma curta análise da personalidade de cada um e pediu que avaliassem sua exatidão segundo uma escala de zero (nenhuma exatidão) a 5 (total exatidão). Acredite ou não, a descrição era a mesma para todos. E, ainda assim, cada um deles se reconheceu nela: dos 39 participantes, 16 deram nota 5; 18 optaram pela nota 4 e 4 pela nota 3. Apenas 1 deu nota 2. E ninguém escolheu nota 1 ou zero. É incrível que, nesse tipo de caso, nunca ocorre aos envolvidos, nem por um segundo, que sua descrição possa convir igualmente ao vizinho – exceto quando se pergunta a esse respeito de modo explícito. A impressão imediata de se reconhecer especificamente parece irrefreável.

Os criadores de testes duvidosos, formulados sem critérios científicos – muito diferentes dos usados por profissionais da psicologia que recorrem a ferramentas estudadas para psicometria, sem qualquer pretensão de antever o futuro – se fiam muito no sentimento de busca de adequação de seu público para assegurar seu sucesso. E o curioso é que mesmo pessoas bem informadas podem se mostrar facilmente ludibriáveis. De fato, não é raro que se argumente que determinado resultado é “verdadeiro” porque todo mundo se reconhece nas características apresentadas.

Ora, o efeito Barnum demonstra que o fato de as pessoas acharem correto o que é dito sobre sua personalidade absolutamente não comprova a validade da avaliação.

O efeito, aliás, aparece também nos testes sérios e validados cientificamente. É análogo ao placebo, que contribui para os resultados benéficos de remédios e práticas sem eficácia comprovada. Também chamado de “efeito da validação subjetiva”, o fenômeno foi batiza do de efeito Barnum em 1956 por Paul Meehl, em homenagem ao criador do primeiro circo moderno, o célebre Phineas Barnum Circus. Ele, que possivelmente ficaria espantado de ver seu nome passar do mundo dos espetáculos populares para o da psicologia, atribuía seu sucesso a duas razões, chegou a declarar que “a cada minuto nasce um trouxa” e que “é preciso reservar algo para apresentar a cada um deles”. A credulidade do público, evocada na primeira afirmação, não está somente no efeito Barnum; e a segunda afirmação aponta aquilo que evidencia os processos da percepção que o indivíduo tem de sua própria identidade.

A experiência de Forer foi refeita diversas vezes, com pequenas variações destinadas a verificar hipóteses secundárias, mas sempre se confirmou. Na mesma escala de zero a 5, a média das avaliações quanto à exatidão da descrição é 4,2, com desvio muito pequeno. Assim, nem a idade nem o sexo dos participantes parecem ter influência sobre os resultados e o mesmo vale para profissão (além dos estudantes, grupo preferido dos psicólogos responsáveis pela experiência, operários, funcionários da área administrativa de empresas e diretores de recursos humanos também passaram por testes).

Foi constatado, entretanto, que a manifestação do efeito Barnum varia levemente, de acordo com o elemento ou a prova que serve de base para a análise da personalidade. Assim, as pessoas julgam um pouco mais exata a descrição proposta quando acreditam que ela é feita a partir de um teste projetivo.

PREENCHENDO CONTORNOS

Mas como explicar o efeito Barnum? Será somente resultado de ingenuidade ou vaidade? Ao que tudo indica, para responder isso é preciso estender um pouco a análise e se debruçar sobre os processos presentes na elaboração de nossa percepção sobre nós mesmos.

Os primeiros elementos para a explicação residem na redação do retrato “personalizado”: o texto emprega termos vagos e genéricos, as apreciações podem se aplicar a muitas situações e abranger grande número de condutas. É aquele que recebe a análise e, sem perceber, define seus contornos ou preenche as lacunas com suas próprias imagens e representações mentais. Além disso, a maior parte dessas descrições apresenta um traço de personalidade e seu contrário, dando a impressão de um retrato com nuances. Consequentemente, o elemento de personalidade com que a pessoa mais se identifica se impõe no processo de seleção perceptiva, em detrimento de sua alternativa.

Certos analistas vão ainda mais longe: estimam que, como seus elementos são universais e caracterizam as pessoas em geral, podemos considerar os retratos Barnum como “verdadeiros”. Sendo assim, o fato de se identificar com eles não é sinal de credulidade excessiva. Sem dúvida, os seres humanos são muito mais parecidos que costumamos supor. De onde vem então essa impressão de que o texto descreve de maneira tão precisa aquilo que nos descreve como uma pessoa única?

É claro que os retratos propõem às pessoas uma avaliação globalmente positiva. Ora, diversas experiências demonstraram que ninguém se estima inferior à média quando se trata de avaliar uma de suas qualidades ou um traço de personalidade socialmente desejável. Assim, numa enquete sobre a avaliação de qualidades sociais, as pessoas se declararão de acordo com a frase “De modo geral, sou consciente dos efeitos de minhas ações sobre os outros”, e em desacordo com “De modo geral, as pessoas são conscientes de suas ações em relação aos outros”. Parece, portanto, que cada um de nós se julga ligeiramente melhor que os outros – mas não muito, pois é preciso ser realista em relação aos diversos aspectos da personalidade. Ademais, alguns elementos desfavoráveis do retrato Barnum, ainda que sejam pouco numerosos, podem às vezes ser julgados exatos, pois permitem que a pessoa admita pequenos defeitos, mostrando-se lúcida em relação a si mesma – outra qualidade muito valorizada socialmente.

Além disso, falando em aspectos negativos, parece que quanto mais se está convencido da competência do analista ou da verdade do sistema empregado, mais os elementos desfavoráveis na avaliação de sua personalidade são aceitos.

A maneira como construímos nossa identidade pode explicar melhor o fenômeno Barnum. Primeiro, como mostraram as teorias psicológicas, na maioria das vezes, não temos acesso direto àquilo que somos de verdade; falta-nos visão clara de nossos processos e de nossas características. É claro que percebemos nossos estados afetivos, até com muita intensidade em dadas situações, mas o cérebro só constrói o conhecimento a partir de informações exteriores a ele, e a percepção de si não escapa à regra. Assim, o conceito de si, que alguns ligam à identidade, repousa em um sistema de representações (o que chamamos de introspecção é apenas um trabalho mais ou me­ nos aprofundado sobre essas representações).

A observação de nossos comportamentos e reações emocionais, as informações de nós mesmos que os outros nos oferecem (que na verdade são filtradas por nossa percepção), assim como as conclusões e deduções tiradas de categorias precedentes constituem o essencial do material de base dessas representações. O cérebro tem a tarefa de fazer uma síntese desses elementos, ou pelo menos criar uma impressão de unidade, coerência, estabilidade e sentido. Para que seja aceitável, essa avaliação deve ser reconfortante, e é por isso que escolhemos os elementos que confirmam nossas ideias já estabelecidas, mais fáceis de serem aceitas. Nós as interpretamos fazendo relações entre esses elementos e “desligando-os” de explicações e significados anteriores. As inferências que fazemos sobre nós mesmos se exprimem como traços de personalidade estáveis, que parecem perdurar e dar conta de condutas diversas – é o papel da memória na identidade pessoal. Apesar de serem categorias semânticas vagas, as palavras que traduzem esses traços são aquelas que empregamos todos os dias para descrever e explicar nossa personalidade e a dos outros.

A imagem de si é estável e, contudo, nunca é definitiva – nutre-se constantemente de novas informações. Para cada um de nós, ela é um frágil edifício virtual, já que nossa imagem não se funda sobre um conhecimento verdadeiro do que se passa em nosso interior e dos fatores reais que regem nossa conduta. Mas, a inda assim, essa quimera é consubstancial a todos os aspectos de nossa existência, intervindo como um poderoso fator de motivação. Esse processo pode ser mais ou menos cambiante, mais ou menos intenso – de acordo com a pessoa e as circunstâncias, tendo em conta, por exemplo, o caráter familiar ou de novidade de uma situação -, mas o conceito de si funciona como uma teoria que precisa ser continuamente confirmada, total ou parcialmente.

UM POUQUINHO MAIS BONITOS

Como toda percepção, nossas representações de nós mesmos são povoadas de algumas ilusões – como a de sermos (um pouco) melhores que os outros; já que tendemos a superestimar levemente os julgamentos positivos que fazem de nós, pensamos dominar o meio em que vivemos. E temos um otimismo irrealista em relação ao futuro. Tendemos a crer, por exemplo, que “a infelicidade só acontece com os outros!” – e nos surpreendemos quando algo grave se passa conosco.

Para nosso bem-estar psicológico, compomos uma imagem positiva de nós mesmos, e, para consegui-la, procuramos prioritariamente coisas que a confirmem, assumindo deliberadamente a complacência. Demonstramos, com efeito, que descrições lisonjeiras, mesmo que redigidas como retratos Barnum, não somente fazem bem, como também aumentam a sensação de nossa competência. Alguns psicólogos acreditam que a saúde mental é diretamente ligada a essa sutil superestimação, e que se enganam aqueles que creem curar seus clientes levando-os a uma visão “objetiva” e realista de si mesmos. Ao contrário, pesquisas diversas revelam que pessoas depressivas têm uma percepção mais exata do julgamento dos outros e tendem menos a “embelezar” tal julgamento. O efeito Barnum é mais manifesto quanto mais positivo for o julgamento: quanto mais elogioso for, mais a pessoa tende a considera ­ lo justo e específico. Para construir nossa imagem interior, temos, portanto, uma inexorável necessidade de apreciações favoráveis. O efeito Barnum revela esse anseio. As descrições propostas pelos “peritos” são para nós um presente dos céus: nos poupam por um momento da busca de informações e do esforço para tratá-las cognitivamente, dando-nos a chance de saborear por um instante a doce e reconfortante sensação de sermos únicos e notáveis, estáveis e coerentes.

Os pseudopsicólogos levam a melhor, numa época em que o autoconhecimento é um imperativo da moda. Mas a credulidade de uns ou a facilidade de se enganar de outros são explicações insuficientes para o fenômeno. O fato de se reconhecer em uma descrição feita “por nós” não é sinal de tolice, mas o reflexo de processos cognitivos e afetivos que estão na base de nossa identidade.

Para além do efeito Barnum, resta uma questão: é possível conhecer a nós mesmos de forma objetiva? Podemos até nos perguntar se é legítimo falar em personalidade e em meios de desvendá-la. Não se trata, absolutamente, de negar as diferenças entre as pessoas, mas de constatar que os recursos de que dispomos para dar conta um caminho longo, que certamente não vem de fora de nós.

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 AO ALCANCE DE TODOS

A experiência idealizada por Forer em 1948 foi repetida dezenas de vezes. De fácil execução, sempre oferece resultados bastante consistentes. Em um módulo de astrologia num curso sobre comportamento realizado pela Sociedade Rádio Canadá, refizemos a experiência em uma classe com 20 alunos dos dois sexos, com idades entre 18 e 48 anos.

Num primeiro encontro, pedimos que os voluntários avaliassem o grau de acerto da descrição de sua personalidade feita a partir de seu signo solar. O texto foi entregue por escrito e eles deveriam proceder “com a maior objetividade possível”, independentemente de sua crença na astrologia, como se nós quiséssemos verificar em que medida os signos do zodíaco seriam capazes de descrever personalidades. Avisamos ainda que os textos haviam sido redigidos por um psicólogo, sem as metáforas e alusões mitológicas normalmente empregadas pelos astrólogos. Por fim, os 18 alunos interessados em participar da experiência escreveram seu nome e data de nascimento em uma folha.

As 18 pessoas leram, sem saber, a mesma descrição, que foi escrita a partir de várias fontes e incluía elementos relativos a diversas dimensões da existência: social, afetiva, intelectual etc. Dezoito cópias do texto foram impressas, e para personalizar o retrato, cada uma continha o nome e o signo astrológico do participante; os adjetivos eram flexionados de acordo com o sexo dele. Note-se que nossa amostra continha nove dos 12 signos zodiacais. Para evitar que a aparência dos papéis distribuídos revelasse nossa (tão inocente) manobra, a divisão de parágrafos era diferente para cada signo. Uma folha de resposta era entregue junto com a descrição. Os participantes deveriam anotar se o retrato os descrevia totalmente (5), em grande medida (4), em boa medida (3), regularmente (2), um pouco (1), ou em nada (O). A título indicativo, deveriam responder se, independentemente da descrição que acabavam de ler, acreditavam em astrologia (as opções de resposta eram: muito, mais ou menos, e não acredito).

Uma semana depois, reencontramos os estudantes. A descrição personalizada e a folha de resposta foram distribuídas e repetimos as instruções, insistindo sobre o caráter objetivo da avaliação. Eles levaram entre cinco e dez minutos para ler o texto e responder. Em seguida – obviamente depois de recolher as folhas de res posta -, explicamos o que é o efeito Barnum, do qual eles tinham acabado de ser vítimas.

Os resultados foram os seguintes: duas pessoas acharam que o texto as descrevia totalmente; 12, correto em grande medida; três, em boa medida; uma, achou que a descrevia regularmente. Esses números são totalmente condizentes com os que forer e outros pesquisadores obtiveram. Além disso, nada indica que tenham relação com a crença na astrologia: ninguém disse acreditar muito em nessa área; os dois participantes que disseram se reconhecer totalmente nas descrições acreditavam medianamente; dos 12 que se reconhecem “em grande medida”, oito se fiavam “medianamente” o poder dos astros e quatro não acreditam; os três que se reconheceram em boa medida no retrato alegaram crer medianamente. E o estudante que se identificou regularmente não acreditava. Em outros termos, das cinco pessoas que disseram não acreditar em astrologia, quatro acharam que o texto proposto as descrevia em grande medida. Portanto, não é o fato de crer nas pseudociências que ocasiona o efeito Barnum. Pensamos que uma descrição que parecesse ainda mais personalizada para o participante, que lhe fosse apresentada como feita a partir de seu mapa astral, em vez de expor características gerais de seu signo, teria provavelmente provocado resultados ainda mais convincentes.

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GESTÃO E CARREIRA

ANSIEDADE: UM VENENO DIÁRIO

A ansiedade passou a ser considerada o mal dos novos tempos. Nossas próprias expectativas acabam se tornando um redemoinho de emoções e fica impossível dar a todas o mesmo grau de atenção.

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Os sintomas da ansiedade são complexos e podem ocorrer com tanta severidade que prejudicam a produtividade e geram o absenteísmo. Casos mais graves podem levar profissionais talentosos ao abandono total de suas atividades. Essas situações deixaram de ser excepcionalidades e a cada dia se tornam mais frequentes.

Ansiedade é um nome moderno, e mais sutil, para uma das seis emoções presentes no homem: o medo!

De fato, as emoções existem como forma de preservar a existência da espécie, e todas (sem exceção) servem muito bem a esse propósito. Ocorre que, devido à evolução social e cultural da espécie humana, as emoções ficaram fora da sintonia da vida atual.

Alegria, nojo, tristeza, raiva, espanto e medo são as emoções aceitas na atualidade, resultado do trabalho do psicólogo americano Paul Ekman. Na década de 1960 ele conseguiu identificar a natureza filogenética dessas emoções. Muitos outros trabalhos já foram realizados e comprovaram não só a existência dessas seis emoções naturais como também outras duas sociais: o desprezo e o desdenho, que são aprendidas durante as relações que ocorrem no desenvolvimento social.

O medo tem a função de paralisar e promover a fuga de situações que coloquem em risco a vida do organismo. Isso, com certeza, foi extremamente útil nos primórdios de nossa existência nesse planeta. Até certo ponto, evitar uma rua escura em um bairro perigoso ainda é um evidente trabalho dessa emoção que nos faz fugir sempre que o risco está em alta probabilidade.

Os tempos são outros. No entanto, nosso coração acelera diante da cena em que o Duende Verde lança granadas no Homem-Aranha. Sequer são atores de carne e osso! É pura computação gráfica! Mas o cérebro não se atenta a esses detalhes, e a adrenalina surge em nosso sistema alterando nossas emoções. Não iremos fugir, permaneceremos sentados no cinema. A tensão criada não terá vazão em movimentos aeróbicos de fuga.

O cenário é outro. Na realidade lidamos com prazos curtos para finalização de projetos, esposa ou marido que cobram mais carinho, filhos que necessitam de atenção, carro que apresenta problemas mecânicos, pressões sociais que brotam de todos os lados… Uma imensidão de turbulências que leva o organismo ao projeto inicial: fuga ou luta!

Não existe a opção luta corpórea (para as pessoas consideradas normais e mais sensatas, claro) nessas situações. É necessária uma sublimação da emoção que gera a conhecida palavra do tema deste texto: a ansiedade.

Sem nenhuma opção de resolução física, a sublimação irá, com certeza, se apresentar como sintomas dos mais variados.

Há pouco tempo uma empresa quase teve seu seguro de saúde rompido com uma grande instituição de saúde por conta dos procedimentos que, de forma alarmante, subiram vertiginosamente em três meses. Chamada para verificar o que poderia ter ocorrido, nossa equipe descobriu que um novo sistema de gestão havia sido implantado quase exatamente no mesmo período do aumento dos problemas de saúde da equipe (a companhia conta com cerca de 6 mil vidas). Um projeto inovador ofertava, a cada elemento das equipes, o mesmo nível de informação do supervisor. “Gerente Estepe” era o título do projeto piloto que criou uma concorrência anormal entre todos os elementos que desejavam a posição de seu gestor. A intenção foi positiva a fim de permitir que o setor jamais tivesse uma paralisação. O efeito foi cruel: de dores de cabeça, prisão de ventre a (até mesmo) pressão alta em vários membros das equipes.

Essa pré-ocupação da mente, com resultados negativos no futuro, é uma alta auto cobrança que cria uma atmosfera destrutiva interna. E como sair disso?

A ressignificação das situações vividas no passado e um propósito de vida bem definido são os segredos para a destruição da ansiedade. O problema reside em ter um foco claro do que se deseja para a vida em longo prazo e saber se livrar do peso das emoções negativas vividas no passado.

Para isso, não tenha dúvida, um texto em página de papel não será o bastante. Busque os cuidados de um profissional de saúde: terapeuta, psicólogo ou até mesmo um coaching de carreira se for um problema mais simples de direcionamento. Mas não dê vazão ou prolongamento a essa estafa emocional. Sem tratamento ela só tende a piorar.

 

PSICOLOGIA ANALÍTICA

CRIANDO FILHOS MAIS SAUDÁVIS E FELIZES

Na tentativa de serem “bons pais”, muitos erram apesar das boas intenções: investem em uma rotina cheia de compromissos escolares e extracurriculares para a criança, envolvem-se nas dificuldades dos filhos a ponto de querer resolvê-las ou, ainda, deixam de cuidar de si com a justificativa de que é preciso cuidar do outro. Especialistas apontam atitudes que podem prejudicar o desenvolvimento de habilidades necessárias para uma vida adulta mais feliz e autônoma.

criando filhos mais saudáveis e felizes

 1. PERMITIR MOMENTOS DE ÓCIO E TÉDIO.

Escola, esporte, cursos extracurriculares. Muitas crianças têm agendas dignas de adultos muito atarefados, com poucas horas livres ao longo do dia. Até mesmo nos fins de semana e férias, que não raro são pré-programados com passeios e viagens. Efeito da nossa cultura, que não vê com bons olhos “não ter o que fazer”. No entanto, estudos sugerem que seguir rotina cheia de compromissos desde cedo pode prejudicar a criança. Um deles, publicado na Frontiers of Psychology em 2014, relaciona a quantidade de atividades estruturadas, como aulas de futebol ou dança, no dia a dia de crianças de 6 anos ao menor desenvolvimento de uma “função executiva autodirigida”. Basicamente, esse processo mental ajuda os pequenos a regular emoções e definir e atingir metas por conta própria, além de ser associado a maior estabilidade emocional e profissional na vida adulta. O que os pais podem fazer então? “Deixe que seus filhos caiam na monotonia e descubram algo para fazer por conta própria”, sugere o psicólogo Michael Ungar, codiretor do Centro de Pesquisa de Resiliência da Universidade Dalhousie, em Nova Escócia. “O tédio num contexto hiperestimulado pode permitir exercer a criatividade e desenvolver a iniciativa, a persistência e a sensação de que podem influenciar o mundo”, explica.

2. DEIXAR QUE RESOLVAM PROBLEMAS.

Não são poucos os pais excessivamente protetores, que se envolvem nas dificuldades cotidianas dos filhos além da conta. A superproteção não favorece o desenvolvimento de habilidades que serão necessárias na vida adulta, como autonomia e resiliência. Pesquisas no campo da autodeterminação relacionam a super­proteção a níveis mais elevados de ansiedade e depressão, notas mais baixas na escola e menor satisfação com a vida quando adultos. “Pouco comprometimento dos pais não é positivo. Mas o envolvimento em demasia também não”, afirma a psicóloga do desenvolvimento Holly H. Schiffrin, professora associada da Universidade de Mary Washington, na Virginia. ” Percebo esse comportamento em sala de aula. Há pais que me procuram para ajustar o horário de aula dos filhos ou ligam para conversar sobre as notas deles. Costumo responder que os próprios alunos podem marcar uma reunião comigo para discutir o assunto”, diz.

3. “COLOCAR A MÁSCARA DE OXIGÊNIO PRIMEIRO”.

A instrução dada antes das viagens de avião é uma boa metáfora da parentalidade – é preciso cuidar de si mesmo para poder cuidar bem de outra pessoa. Mães com diagnóstico de depressão, por exemplo, são mais propensas a ignorar ou a exagerar comportamentos inadequados dos filhos, segundo um estudo longitudinal de dois anos publicado na Psychological Science. Pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia constataram que adultos com TDAH também se tornam pais atenciosos depois de receber tratamento para o distúrbio. Todas as outras atividades cotidianas relacionadas com a saúde também importam. Um estudo de 2015 sobre os dados nacionais de saúde do Reino Unido sugere que o modo de vida dos pais pode ser tão decisivo como a genética na “transmissão” da obesidade. Outra evidência: crianças que participaram de uma pesquisa de 2014 da Escola de Economia e Ciências Políticas de Londres e com pais biológicos com excesso de peso tinham probabilidade 27% maior do que outras de apresentar sobrepeso. Filhos adotados também demonstraram susceptibilidade similar, de 21%. Seguindo essa linha de raciocínio, adotar uma dieta mais saudável e colocar atividades físicas na rotina vai além do autocuidado: é um gesto de amor por aqueles que dependem de nós. Um bom motivo para começar, não?

GESTÃO E CARREIRA

INOVAÇÃO É A ALMA DO NEGÓCIO

Netflix, Dotz e Magazine Luiza on-line são as supercampeãs de atendimento. Executivo da Leroy Merlin vence entre CEOs

inovação é a alma do negócio

Não existe mais zona de conforto no mundo dos negócios. Com a revolução digital, tudo ficou mais rápido, o que parecia cena de filme de ficção científica virou realidade. Carros já podem andar sozinhos. Robôs humanoides – como a Sophia, que esteve numa reunião das Nações Unidas –    ganharam inteligência e emoção. Drones andam fazendo entrega a jato. O mundo virou disruptivo; abalando setores tradicionais da economia, que passaram a ser vistos como ultrapassados na Quarta Revolução Industrial. A Netflix virou o exemplo mais bem-acabado da inovação disruptiva,  segundo Clayton Christensen, o professor da Harvard Business School, que cunhou o termo.

Com 130 milhões de assinaturas pagas em mais de 190 países, o principal serviço de entretenimento por internet do mundo foi escolhido pelos consumidores, no último dia 29, como a empresa supercampeã do Prêmio Época Reclame AQUI 2018. Queremos oferecer uma experiência incrível, diz Luciane Carrillo, gerente da companhia na América Latina. A Netflix deixou a concorrência pelo caminho e já é, desde o começo do ano, um negócio com valor de mercado superior ao da Disney – um feito que os executivos da extinta locadora de vídeo americana Blockbuster, sua principal rival, não puderam prever. E o pior: eles chegaram a apostar, em 2002, que a empresa “não seria financeiramente viável”.

Ao simbolizar a nova era da indústria do entretenimento, a Netflix revolucionou o mercado ao trazer o lazer para todas a plataforma inclusive para a palma da mão. Virou corriqueiro seus assinantes assistirem a filmes ou a séries no metrô, no ônibus, no avião. “O Brasil é um mercado muito relevante para a Netflix, sendo uma de nossas primeiras expansões internacionais, que       começamos há sete anos”, lembrou Carrillo. Grandes players do mercado perderam para empresas   de menor porte que estão provocando uma transformação na economia e desestabilizando mercados tradicionais empresa líderes de seus segmentos.

Dotz, uma marca jovem e dinâmica, criou uma moeda virtual que pode ser trocada por produtos, serviços e viagem. Foi eleita a empresa que mais evoluiu em 2018. “Comemos o Brasil pela beirada e viramos o maior programa de fidelidade do país por número de participantes”, comentou Daniel José de Oliveira Neto, gerente de Experiência com o Cliente. Não à toa a empresa ganhou o prêmio de maior evolução. Todos os diretores gravaram vídeos se desculpando pessoalmente com o cliente em caso de alguma reclamação. Oliveira Neto, por exemplo, já protagonizou pouco mais de 120 vídeos. Tudo é gravado num estúdio montado dentro da empresa. Não falamos um texto-padrão porque a ideia é conversar diretamente com o consumidor, explicou.

Em 2019, a Dotz vai colocar o pé em São Paulo, o maior mercado consumidor do país. Está de olho no varejo de alimentação, no qual colocará em circulação sua moeda virtual, seu cartão de compra, batizado com o nome da empresa, irá circular em supermercados, postos de gasolina, farmácias e      empresas de telefonia. E também em lojas de brinquedos, roupas e material de construção. “Queremos ser a maior empresa de coalização do varejo”, disse Oliveira Neto.

A loja on-line do Magazine Luiza foi a campeã de atendimento. O negócio vem registrando taxa de crescimento bem acima da média do mercado. No balanço do segundo trimestre, a empresa registrou um crescimento de 66,1 % no e-commerce em comparação a uma expansão de 13,2% desse segmento de mercado. As vendas das lojas on-line respondem atualmente por 33% das vendas totais do grupo, incluindo as lojas físicas, que somam 900 pontos de venda. “Estamos crescendo acima da média do mercado”, comemorou Beatriz Menezes, gerente de atendimento da empresa.

Coube ao executivo Alain Rickeboer, diretor-geral da Leroy Merlin, o título de CEO RA 1000. O francês chegou ao Brasil há 21 anos e, como expatriado do grupo, começou a trabalhar em São Paulo. A época, a Leroy Merlin não tinha ainda nenhuma loja no país. Duas décadas depois, o grupo soma 41 loja distribuídas por 12 estados, além do Distrito Federal. A frente de 9.500 colaboradores e administrando um negócio que fatura R 5,3 bilhões, o grupo tem no Brasil um de seus mercados mais importantes entre os 14 países em que está presente

PSICOLOGIA ANALÍTICA

BEBÊS SÃO MAIS ESPERTOS DO QUE VOCÊ IMAGINA

Crianças desvendam o mundo de um modo muito semelhante ao dos cientistas: por meio de experimentos, análises estatísticas e formação de teorias intuitivas em relação à fenômenos físicos, biológicos e psicológicos.

bebês são mais espertos do que você imagina

Há 30 ou 40 anos, a maioria dos psicólogos, filósofos e psiquiatras julgava que bebês e crianças pequenas eram irracionais, egocêntricas e amorais. Acreditavam que se limitavam ao concreto, ao aqui e agora – incapazes de compreender causas e efeitos, imaginar as experiências de outras pessoas ou apreciar a diferença entre a realidade e a fantasia. E, frequentemente, crianças ainda são vistas por leigos como “adultos imperfeitos”.

Nas últimas três décadas, porém, cientistas descobriram que até os bebês com poucas semanas sabem bem mais do que supúnhamos. Além disso, estudos têm mostrado um fato curioso:     crianças desvendam o mundo de um modo muito semelhante ao utilizado por cientistas, recorrendo a experimentos, análises estatísticas e formação de teorias intuitivas no âmbito físico, biológico e psicológico. No entanto, há pouco mais de uma década pesquisadores começaram a   compreender os mecanismos computacionais, evolutivos e neurológicos subjacentes que escoram   notáveis aptidões precoces. Essas descobertas revolucionárias não apenas mudam nossos conceitos sobre bebês, mas também apresentam novas perspectivas sobre a natureza humana.

Por que nos enganamos tanto, e durante tanto tempo, sobre os bebês? De fato, se observarmos crianças de 4 anos ou menos, poderemos concluir que não há grande atividade intelectual. Afinal, bebês não sabem falar. E até as crianças em idade pré-escolar não têm muita destreza para relatar o que pensam. Faça uma pergunta vaga a uma criança de 3 anos e provavelmente receberá como resposta um lindo – mas incompreensível – monólogo, com palavras fluindo livremente, nem sempre com a coerência valorizada pelos adultos. Até precursores do estudo do funcionamento da mente infantil, como o psicólogo suíço Jean Piaget, concluíram que o pensamento dos pequenos era egocêntrico, “pré – causal” (sem noção de causa e efeito), irracional e ilógico.

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FÍSICA PARA OS PEQUENOS

Abordagens científicas iniciadas no final da década de 70 dependem de técnicas que focalizam o que bebês e crianças pequenas fazem – e não o que falam. Bebês se detêm mais demoradamente em situações novas e inesperadas que naquelas previsíveis – e os pesquisadores podem utilizar esse comportamento para tentar descobrir o que os pequenos esperam acontecer.  Entretanto, os resultados mais contundentes vêm de estudos que também consideram as ações: que objetos os bebês tentam agarrar ou alcançar engatinhando? Como imitam as ações de crianças mais velhas e de adultos?

Embora os muito jovens tenham grande dificuldade para nos dizer o que pensam, podemos utilizar a linguagem com mais sutileza para induzi-las a revelar o que sabem. O pesquisador Henry Wellman, da Universidade de Michigan em Ann Arbor, por exemplo, analisou gravações de conversas infantis espontâneas para obter pistas sobre como os pequeninos pensam. Podemos lhes fazer uma pergunta muito direta, pedindo que escolham entre apenas duas alternativas, em vez de outra mais vaga e aberta.

Em meados dos anos 80 e até a década seguinte, os cientistas que aplicaram essa técnica descobriram que os bebês já sabem muita coisa a respeito do mundo que os cerca. E esse conhecimento vai muito além do concreto, das sensações de aqui e agora. Pesquisadores como as doutoras em psicologia Renée Baillargeon, da Universidade de Illinois, e Elizabeth S. Spelke, da Universidade Harvard, constataram que bebês entendem relações físicas elementares, como trajetórias de movimento, gravidade e contenção. Olham mais pausadamente para um carrinho que parece atravessar uma parede sólida que para situações que se encaixam em princípios fundamentais da física cotidiana.

Ao atingirem 3 ou 4 anos, as crianças têm ideias básicas sobre biologia e uma compreensão inicial de crescimento, herança genética e processos de adoecimento. Isso revela que elas vão além das aparências perceptivas superficiais quando pensam sobre objetos ou fenômenos. A doutora em psicologia com especialização em linguística Susan A. Gelman, também de Michigan, descobriu que elas acreditam que animais e plantas têm uma “essência” – algo invisível que permanece imutável, mesmo quando os aspectos externos mudam. Para bebês e crianças pequenas, o conhecimento mais importante de todos é o de outras pessoas. O doutor em psicologia Andrew N. Meltzoff, codiretor do Instituto do Aprendizado e Ciências do Cérebro e pesquisador da Universidade de Washington, demonstrou que recém-nascidos já entendem que pessoas são especiais e imitarão suas expressões faciais.

A cientista Betty Repacholi e eu constatamos, em 1996, que bebês de 18 meses entendem que eu posso querer uma coisa, enquanto você quer outra. Durante o experimento, uma pesquisadora mostrava a dois grupos de crianças, um de 1 ano e 2 meses e outro de 1 ano e meio, uma tigela com brócolis e outra com biscoitos em forma de peixinhos, e depois experimentava um pouco dos dois, fazendo uma expressão de desagrado ou apreciação. Em seguida, ela entregava o recipiente aos bebês e, na sequência, estendia a mão e perguntava: “Vocês podem me dar um pouco?”. As crianças de 1 ano e meio lhe deram brócolis quando ela agiu como se gostasse, embora não o escolhessem para si mesmas. (As de 1 ano e 2 meses sempre lhe deram biscoitos). Conclusão: nem mesmo nessa tenra idade as crianças são completamente egocêntricas, pois têm a capacidade de assimilar a perspectiva de outra pessoa, ainda que de modo simplificado. Aos 4 anos, sua compreensão de psicologia cotidiana é ainda mais refinada. Conseguem explicar, por exemplo, se uma pessoa está agindo estranhamente porque acredita em algo que não é verdade.

No fim do século 20, os experimentos haviam mapeado um impressionante conhecimento abstrato e sofisticado sobre bebês, bem como uma igualmente admirável quantidade de informações à medida que as crianças cresciam. Alguns cientistas chegam a argumentar que os bebês parecem nascer cientes de muita coisa que os adultos sabem sobre objetos, pessoas e seus comportamentos. Sem dúvida, recém-nascidos estão longe de ser páginas em branco, mas as mudanças no conhecimento infantil sugerem também que os bebês aprendem sobre o mundo que os cerca por meio das próprias experiências.

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EXPERTS EM ESTATÍSTICA

Um dos maiores mistérios da psicologia e da filosofia é como os seres humanos desvendam o mundo com base em um desnorteante emaranhado de dados sensoriais. No decorrer da última década, pesquisadores começaram a entender muito mais como bebês e crianças pequenas são capazes de aprender com tanta rapidez e perspicácia. Em particular, descobrimos que têm uma extraordinária habilidade de assimilação de padrões estatísticos.

Os pesquisadores Jenny R. Saffran, Richard N. Aslin e Elissa L. Newport, todos então da Universidade de Rochester, demonstraram essa capacidade pela primeira vez em estudos sobre os padrões de sons da linguagem. Eles tocaram sequências silábicas com regularidades estatísticas para alguns bebês de 8 meses. Por exemplo, “bi” podia seguir a sílaba “ro” apenas 30% das vezes, enquanto “da” sempre ocorria na sequência de “bi”. Em seguida, tocaram novas séries de sons que podiam ou não seguir esse padrão. Os bebês prestaram atenção mais demoradamente às sequências estatisticamente incomuns. Estudos mais recentes mostram que bebês conseguem detectar padrões estatísticos de tons musicais e cenas visuais, bem como padrões gramaticais mais abstratos.

São até capazes de compreender a relação entre uma amostra estatística e população. Em um estudo de 2008, minha colega Fei Xu, da Universidade da Califórnia em Berkeley, mostrou a bebês de 8 meses uma caixa cheia de bolas de pingue-pongue misturadas: por exemplo, 80% brancas e 20% vermelhas. A pesquisadora então tirava cinco bolas de modo aparentemente aleatório. Os bebês ficaram mais surpresos (ou seja, observaram a cena mais demorada e intensamente) quando ela tirava da caixa quatro bolas vermelhas e uma branca – resultado improvável – do que quando ela extraia quatro brancas e uma vermelha.

Detectar padrões estatísticos é apenas o primeiro passo na descoberta científica. Mais impressionante ainda é que, assim como cientistas, as crianças usam esses dados para tirar conclusões sobre o mundo. Em uma variante do estudo com bolas de pingue-pongue, envolvendo bebês de 1 ano e 8 meses, foram utilizados sapos verdes e patos amarelos. A pesquisadora tirava cinco brinquedos da caixa e em seguida pedia a uma das crianças que lhe desse um bichinho igual aos que estavam sobre a mesa. Os pequenos voluntários se envolveram plenamente na brincadeira e não demonstraram espontaneamente nenhuma preferência de cor quando a experimentadora retirava mais sapos verdes da caixa de brinquedos onde a maioria era verde. Mas lhe davam especificamente um pato amarelo quando ela retirava mais patos da caixa. As crianças concluíram que sua seleção estatisticamente improvável significava que ela não agia de forma aleatória, mas simplesmente devia preferir patos.

Em meu laboratório temos investigado como crianças pequenas utilizam evidências estatísticas e experimentações para descobrir causas e efeitos e concluímos que sua maneira de pensar está longe de ser “pré ­ causal”. Nós lhes mostramos um aparelho que chamamos de detector blicket, uma máquina que acende uma luz e toca música quando você deposita certas coisas nela, mas não outras. Com ela, podemos fornecer às crianças padrões de evidências sobre o detector e observar suas conclusões causais. Quais são os objetos do blicket?

Em um trabalho com a mestre em estatística e doutora em psicologia cognitiva Tamar Kushnir, diretora do Laboratório de Cognição na Primeira Infância da Universidade Cornell, descobrimos que crianças em idade pré-escolar sabiam aplicar probabilidades para aprender como a máquina   funciona. Colocamos várias vezes um de dois blocos sobre o aparelho, e a luz acendia duas em cada três vezes para o cubo amarelo, mas apenas duas em cada seis vezes para o azul. Então demos os blocos às crianças e pedimos que “acendessem a máquina”. Embora ainda incapazes de somar ou subtrair, elas provavelmente colocariam o cubo amarelo, de maior probabilidade, em cima da máquina.

E realmente escolheram de forma correta quando balançamos o bloco de alta probabilidade   sobre o equipamento, ativando-o, mas sem tocá-lo. Embora pensassem que esse tipo de “ação a distância” fosse improvável no início do experimento (nós perguntamos sobre isso), meninos e meninas sabiam como empregar a probabilidade para descobrir fatos inéditos e surpreendentes a respeito do mundo.

Em outro experimento, a doutora em ciência cognitiva Laura Schulz e eu mostramos a crianças de 4 anos um brinquedo com um interruptor e duas engrenagens em cima – uma azul e outra vermelha. As engrenagens giram quando você aciona o interruptor. Esse brinquedo simples pode funcionar de várias maneiras. Talvez o interruptor faça as duas engrenagens se moverem simultaneamente, ou talvez o interruptor acione a engrenagem azul, que aciona a vermelha, e assim por diante. Mostramos às crianças fotos ilustrando cada uma das possibilidades – a engrenagem vermelha empurraria a azul, por exemplo. Depois, mostramos brinquedos que funcionavam de um ou outro desses jeitos e lhes fornecemos evidências bastante complexas sobre o funcionamento de cada um deles. Por exemplo, as crianças que receberam o “brinquedo causal sequencial” percebiam que, se você removesse a engrenagem azul e acionasse o interruptor, a engrenagem vermelha continuava se movendo; mas, se a engrenagem vermelha fosse tirada e o interruptor acionado, nada acontecia. Pedimos às crianças que escolhessem a imagem que ilustrava o funcionamento do brinquedo. As de 4 anos foram as que se saíram surpreendentemente bem ao determinar como o brinquedo funcionava, com base no padrão de evidências que lhes foi apresentado. Além disso, quando outras crianças foram deixadas a sós com o aparelho, elas brincaram com as engrenagens de um modo que as ajudasse a aprender como ele funcionava – como se estivessem   experimentando.

Outro estudo de Laura Schulz envolveu um brinquedo com duas alavancas que faziam aparecer um pato e um fantoche. A um grupo de pré-escolares foi mostrado que o pato surgia quando se pressionava uma alavanca, e o fantoche, ao apertar a outra. O segundo grupo viu que, ao acionar as duas alavancas simultaneamente, os dois brinquedos despontavam, mas as crianças desse grupo nunca tiveram uma chance de ver o que as alavancas faziam separadamente. Em seguida, a pesquisadora fez com que as crianças brincassem com a engenhoca. As do primeiro grupo se entretiveram muito menos que as do segundo. Já sabiam como ela funcionava e estavam menos interessadas em investigá-la. A segunda turma deparou com um mistério, brincou espontaneamente com o aparelho e logo descobriu qual alavanca fazia o quê.

Esses estudos sugerem que, quando crianças brincam voluntariamente, deixando-se envolver livremente, exploram também causas e efeitos e fazem experimentos – o modo mais eficaz de descobrir como funciona o mundo.

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“VAMOS DESCOBRIR…”

Obviamente, crianças não fazem experiências nem analisam estatísticas do modo intencional e consciente como cientistas adultos. Entretanto, o cérebro infantil deve estar processando informações inconscientemente de uma maneira que se iguala aos métodos de descobertas científicas. Embora depois da descoberta da plasticidade neural a ideia de que o cérebro funcione como uma máquina tenha se tornado controversa – e, sob muitos aspectos, simplista -, podemos tomar aqui, com ressalvas, a liberdade de compará-lo a um tipo de computador desenvolvido pela evolução e programado por experiência. Cientistas de computação e filósofos começaram a aplicar   ideias matemáticas sobre probabilidade para compreender as potentes habilidades de aprendizagem de cientistas – e crianças. Uma nova abordagem para desenvolver programas de computador para aprendizado mecanizado utiliza os chamados modelos probabilísticos, conhecidos também como modelos bayesianos ou redes de Bayes. O programa pode solucionar complexos problemas de expressões genéticas ou ajudar a entender mudanças climáticas. Essa abordagem também levou a novos conceitos sobre como os computadores cerebrais infantis poderiam funcionar.

Os modelos probabilísticos combinam duas ideias básicas. Primeiro, aplicam a matemática para descrever as possíveis explicações que as crianças têm para coisas, pessoas ou palavras. Por exemplo, podem os representar o conhecimento causal de uma criança como um mapa das relações causais entre acontecimentos. Para reproduzir essa hipótese, uma seta poderia apontar, por exemplo, “pressione a alavanca azul” para “pato aparece”.

Segundo, os programas sistematicamente vinculam as hipóteses à probabilidade de diferentes padrões de acontecimentos – como os modelos que emergem de experimentos e análises estatísticas na ciência. Suposições que se adequam melhor aos dados tornam-se mais prováveis. Tenho argumentado que o cérebro infantil também poderia relacionar hipóteses sobre o mundo a padrões de probabilidade. Crianças raciocinam de maneira complexa e sutil, que não pode ser explicada através de simples regras ou associações.

Em pesquisa recente, meu grupo constatou que crianças pequenas que pensam estar sendo instruídas modificam suas análises estatísticas e, consequentemente, podem tornar-se menos criativas. Nesse caso, a experimentadora mostrou a meninos e meninas de 4 anos um brinquedo que tocava música se elas executassem a sequência correta de ações nele, como puxar uma alça e depois apertar uma lâmpada. A pesquisadora disse a algumas das crianças “não sei como esse brinquedo funciona – vamos descobrir”. E começou a experimentar diante delas várias ações sequenciais mais longas, algumas das quais terminavam com a sequência curta e produziam música, outras não. Ao pedir às crianças que fizessem o brinquedo funcionar, muitas delas tentaram a série curta e correta, omitindo, de forma astuta, movimentos que provavelmente eram supérfluos com base nas estatísticas do que haviam observado.

A outro grupo de crianças, a experimentadora disse que ensinaria como o brinquedo funcionava ao lhes mostrar as sequências que produziam música e as que não o faziam, e ela manuseou o equipamento de acordo com isso. Ao serem solicitadas a fazer o brinquedo funcionar, essas crianças nunca tentaram um atalho de ações. Em vez disso, elas imitaram exatamente toda a sequência de movimentos mostrada. Essas crianças estavam ignorando as estatísticas do que viram? Talvez não. O comportamento delas é precisamente descrito por um modelo bayesiano, em que se espera que o “professor” escolha as sequências mais instrutivas. Em outras palavras: se ela soubesse que séries mais curtas de ações funcionavam, não lhes teria mostrado os movimentos desnecessários.

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PROJETADOS PARA APRENDER

Se o cérebro é um computador projetado pela evolução, também podemos perguntar quais são as   justificativas evolucionárias e a base neurológica para as extraordinárias aptidões de aprendizagem que observamos em crianças muito jovens. O pensamento biológico recente está plenamente de acordo com o que constatamos no laboratório de psicologia.

Da perspectiva evolucionária, uma das coisas mais admiráveis sobre os seres humanos é nosso longo período de imaturidade. Nós temos uma infância muito mais prolongada que qualquer outra espécie. Por que fazer com que os bebês sejam tão indefesos, durante tanto tempo e, assim, exigir que os adultos empenhem tanto trabalho e dedicação para mantê-los vivos?  No reino animal, a inteligência e a flexibilidade dos adultos estão correlacionadas com a imaturidade dos filhotes.  Espécies “precociais”, como galinhas, dependem de capacidades inatas, altamente especificas, adaptadas a um nicho ambiental em particular e, por isso, amadurecem rapidamente. Já as   “altriciais” (cujas proles necessitam de cuidados e alimentação pelos pais) dependem do aprendizado.  As gralhas são capazes de catar um objeto novo, como um pedaço de arame, e   descobrir como transformá-lo em uma ferramenta, mas seus filhotes dependem de seus pais muito mais tempo que os pintinhos.

Uma estratégia de aprendizado tem muitas vantagens, mas até que este se concretize a criaturinha está indefesa. A evolução soluciona esse problema com uma divisão de trabalho entre bebês e adultos. Os bebês desfrutam um período protegido para aprender sobre seu meio ambiente, sem de fato precisarem fazer nada. Ao crescerem, eles podem aplicar seu conhecimento e descobrir o que é melhor para sobreviver e se reproduzir – e cuidar da próxima geração. Os bebês são projetados para aprender.

Neurocientistas começaram a entender alguns mecanismos cerebrais que permitem todo esse aprendizado. O cérebro de bebês é mais flexível que o de adultos, tem muito mais conexões entre os neurônios, embora nenhuma delas seja particularmente eficiente, mas com o passar do tempo os conectores inutilizados são desbastados e os úteis se tornam mais fortes. O cérebro de bebês tem também um nível elevado daquelas substâncias químicas que mudam facilmente as conexões.

A região cerebral chamada córtex pré-frontal é distintamente humana e leva um tempo longo para amadurecer. As capacidades de concentração, planejamento e ações eficientes dos adultos são governadas por essa área e dependem do longo aprendizado que ocorre na infância. Os circuitos dessa área podem não estar plenamente desenvolvidos até os 20 e poucos anos.

A falta de controle pré-frontal em crianças pequenas parece ser um enorme obstáculo, mas na realidade pode ser tremendamente útil para o aprendizado. A região pré-frontal inibe   pensamentos ou ações irrelevantes, mas o fato de serem desinibidos pode ajudar bebês e crianças pequenas a explorar o mundo livremente. Existe uma permuta entre a aptidão para explorar criativamente e aprender com flexibilidade, como uma criança, e a capacidade de planejar e agir com eficiência, como um adulto. Mas precisamente essas qualidades necessárias para agir com competência – como um rápido processamento automático e um circuito cerebral refinado e coerente – podem ser intrinsecamente antitéticas às propriedades úteis ao aprendizado, como a flexibilidade.

Uma nova imagem de infância e natureza humana emerge das pesquisas da última década. Longe de serem meros adultos inacabados, os bebês e as crianças pequenas são primorosamente projetados pela evolução para mudar e criar, aprender e explorar. Essas aptidões, tão inerentes ao significado de ser humano, aparecem em suas formas mais puras nos mais tenros anos de nossa vida. Nossas realizações mais valiosas são possíveis porque já fomos crianças dependentes e indefesas, e não apesar disso. Infância e dedicação são fundamentais para nossa qualidade de seres humanos.

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O SALTO COGNITIVO E A TEORIA DA MENTE

Do ponto de vista neurológico, nossos cérebros estão equipados para nos permitir pensar sobre nós mesmos e a respeito dos outros – e assim criar formulações, prever intenções e, consequentemente, comportamentos das pessoas. Essa capacidade nos permite a interação social ao fazer parte de grupos, aprender e cooperar. As primeiras hipóteses sobre essa capacidade – denominada teoria da mente – surgiram há quase meio século, quando foi constatado que, por volta dos 4 anos, as crianças experienciavam uma espécie de “salto cognitivo” bastante significativo. A forma padrão para testar a teoria da mente de uma criança é narrar uma história usando fantoches, apresentando a ela cenas que permitem, ao término, questioná-la sobre o que o boneco pensaria em determinada situação. Por volta dos 4 anos, os pequenos costumam dizer, com confiança, o que o personagem gostaria que ocorresse ou que tem intenção de fazer, percebendo nuances da realidade. Por exemplo: se um fantoche está enganado sobre algo, a criança consegue saber o que ele pensa, qual é seu engano e o que de fato aconteceu sem que ele tenha percebido.

Por si só, esse “ir e vir” mental já indica uma sofisticação psíquica bastante grande em crianças pequenas. Há poucos anos, porém, foi publicado na Science um estudo mostrando que a teoria da mente já podia ser observada em bebês a partir de 15 meses. Embora não pudessem responder, eles acompanhavam a história dos bonecos e detinham o olhar em cenas que os surpreendiam. Quando um dos personagens procurava um brinquedo em um lugar onde não deveria esperar encontrá-lo, os meninos se detinham por mais tempo no movimento, parecendo entender que as pessoas podem ter crenças falsas ou simplesmente se equivocar. Curiosamente, o estudo foi repetido em 2010 com crianças de 7 meses e os resultados obtidos foram muito semelhantes.

A cientista cognitiva Rebecca Saxe, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), salienta que atualmente já não é descartada a possibilidade de que desde muito cedo tenhamos uma forma básica, ou implícita, de teoria da mente que, por volta dos 4 anos, se torna mais refinada. Essa, aliás, não seria a única habilidade que passa por um processo de “aprofundamento”. É o que acontece, por exemplo, em relação aos números. Muito antes de ser possível contar, as crianças têm capacidade de distinguir entre muito e pouco, mais e menos, embora não saibam fazer as quatro operações básicas. Nossa capacidade de tomar decisões também pode desenvolver duas etapas. Há fortes indícios de que temos um sistema automático e intuitivo para a tomada de decisões e um segundo, mais lento e detalhista, que se manifesta desde muito cedo. O cientista cognitivo lan Apperly, pesquisador da Universidade de Birmingham, Reino Unido, encontrou evidências de que crianças têm um sistema implícito mais rápido que os adultos. “Pode haver dois tipos de processos, de um lado para a velocidade e eficiência, e de outro para a flexibilidade”, escreveu em um artigo publicado pelo periódico Psychological Review.