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HABILIDADE MATEMÁTICA PODE SER SINAL DE SUCESSO NO FUTURO

 

Habilidade matemática pode ser sinal de sucesso no futuro

No início da década de 70, pesquisadores identificaram grande amostragem de adolescentes americanos de 13 anos excepcionalmente talentosos em matemática, classificando-se no 1% superior das pontuações em raciocínio matemático em testes de aptidão escolar, SAT. Agora, pouco mais de 40 anos depois, essas “crianças prodígio” estão ativas na carreira profissional e realizaram ainda mais que o esperado. A conclusão veio dos dados recentemente compilados de uma pesquisa de acompanhamento. Pesquisadores da Universidade Peabody College Vanderbilt, em Nashville, no Tennessee, publicaram a atualização na edição há poucos meses no periódico especializado Psychologícal Scíence e escreveram: “Tanto para homens como para mulheres a precocidade matemática em tenra idade parece ser um prognóstico de contribuições criativas e liderança em papéis ocupacionais críticos mais tarde na vida.”

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“É APENAS O COMEÇO”

Depois do decreto das armas, que terá impacto irrisório no nível alarmante de violência no país, Bolsonaro anuncia que o próximo passo é permitir o porte.

É apenas o começo

Jair Bolsonaro estava exultante na terça-feira 15/01, quando se dirigiu ao púlpito montado no 2º andar do Palácio do Planalto. O microfone falhou três vezes até que ele conseguisse pronunciar a frase de efeito que ensaiara. “Para lhes garantir o legítimo direito à defesa, eu, como presidente, vou usar esta arma aqui”, disse, sacando uma caneta Bic do bolso, com a qual assinou o decreto que facilita a posse de armas no Brasil. Pouco depois, numa evidência de que a operação de marketing estava previamente montada, o Palácio do Planalto divulgou um vídeo promocional que mostrava a caneta como a arma que deu aos “cidadãos de bem” o direito que lhes era sonegado.

A expectativa de aplausos pelo primeiro passo no cumprimento de um ponto programático da campanha de Bolsonaro, no entanto, não se realizou. O presidente foi criticado pelos que se opõem à liberação de armas, o que era previsível – mas também pelos próprios armamentistas, que consideraram o decreto suave demais. As alterações que a prosaica caneta do presidente fez em um decreto anterior, de 2004, são substantivas: na prática, a liberação da posse àqueles que vivem em estados com taxa de homicídios superior a 10 para cada 100.000 habitantes incluiu todo mundo, os 26 estados e o Distrito Federal. A licença ainda é um processo burocrático demorado – e muito caro. Este, porém, pode ser apenas o começo. O governo espera que seus aliados no Congresso levem a pauta armamentista adiante – e no horizonte está o direito não só à posse (ter uma arma em casa), mas ao porte (carregá-la na rua).

Uma pesquisa do Datafolha feita em 18 e 19 de dezembro mostrou que, mesmo entre os eleitores de Bolsonaro, só uma minoria de 31% é a favor da flexibilização das regras para a posse de arma. Mas é uma pauta que agrada aos seguidores mais aguerridos do presidente, aqueles que estão sempre eletrizados nas redes sociais. “Esse é apenas o primeiro passo”, anunciou o presidente no Twitter, para acalmar os que julgaram o decreto excessivamente tímido. Os passos seguintes serão dados no Legislativo. Parlamentares da chamada “bancada da bala” preparam um pacote de medidas que prevê direito ao porte, redução de tributos sobre armamentos e munições, anistia a donos de armas sem registro, diminuição da idade mínima de compradores de armas de 25 para 21 anos e abertura do mercado para empresas estrangeiras. Rogério Peninha Mendonça (MDB-SC), aliado do presidente, é o autor do projeto de lei que prevê a revogação do Estatuto do Desarmamento. O texto já foi aprovado em todas as comissões da Câmara e só precisa da boa vontade do presidente da Casa para entrar em votação. Rodrigo Maia (DEM-RJ), se reeleito para o cargo com o apoio do PSL, sabe que sofrerá pressões para resolver a questão. “No passado, nós penávamos para fatiar os projetos e tentar pelo menos aprovar o porte rural – e nem isso foi possível. Agora, o cenário mudou. Vamos fazer cabelo, barba e bigode”, celebra o líder da Frente Parlamentar de Segurança, Capitão Augusto (PR-SP).

Para ser aprovado, o projeto de lei precisa de maioria simples – metade mais um do plenário da Câmara e do Senado. Nos cálculos da consultoria Arko Advice, a base de apoio de Bolsonaro, formada basicamente pela bancada BBB (da bala, do boi e da Bíblia), conta com cerca de 250 parlamentares. Mas a tarefa não será tão simples. Primeiro, porque a prioridade máxima do governo é a reforma da Previdência, que deve render desgaste. Segundo, porque a opinião pública não é majoritariamente favorável. Terceiro, porque o porte não é consenso nem entre os aliados –   parte da bancada evangélica é contra e o ministro da Justiça, Sergio Moro, já disse que não há “nenhum movimento” em sua pasta nesse sentido. “Uma coisa é falar de posse, que está restrita à casa. Outra coisa é o porte, que atinge o coletivo e invade a liberdade dos outros”, diz Ilona Szabó, diretora do Instituto Igarapé, entidade que analisa a segurança pública, sediada no Rio de Janeiro.

Especialistas ouvidos consideram o decreto de Bolsonaro positivo em um sentido: definiu critérios mais objetivos para autorizar a posse de arma. Antes, a concessão da licença dependia só da decisão subjetiva de um delegado da Polícia Federal. Mas a ampliação da validade do registro de cinco para dez anos é problemática, pois enfraquece a fiscalização sobre as armas. “Muita coisa pode acontecer em dez anos. Pode-se responder a um processo, cometer um crime, ter a arma roubada”, diz Melina Risso, doutora em administração e governo pela FGV.

O direito a ter uma arma de fogo em casa pode ser defendido pelo princípio abstrato da liberdade individual. Mas é um equívoco sugerir, como Bolsonaro tem feito em entrevistas, que a medida trará melhoria efetiva à calamitosa segurança pública do Brasil país que tem batido a marca de mais de 60.000 homicídios por ano. Armas legais nem sempre são usadas para fins legais – metade das mulheres assassinadas pelo parceiro em 2016 foi vítima de armas de fogo. Com frequência, a arma registrada cai na mão de bandidos – 70% do armamento apreendido com criminosos na Região Sudeste em 2014 era de fabricação nacional e de comercialização permitida.

A posse da arma em casa também não protege o proprietário nos casos mais comuns de crime: em São Paulo, o estado mais populoso da federação, dados da Secretaria de Segurança Pública mostram que apenas 2,5%dos roubos foram feitos em residências e 5,9% em estabelecimentos comerciais –   o restante acontece na rua. Ainda assim, os números de homicídio em casa são expressivos. Um levantamento nacional na base do Datasus, realizado pelo Instituto Sou da Paz, revela que, em 2016, catorze pessoas, em média, morreram por dia em casa por arma de fogo, e 87% dos casos se deram em circunstâncias criminais (a base não distingue entre casos de violência doméstica e de latrocínio). Os dados gerais revelam, portanto, que o epicentro da violência está na rua, e não em casa, razão pela qual o decreto de Bolsonaro terá efeito irrisório sobre o nível alarmante do faroeste brasileiro.

A ideia de que uma arma pode salvar seu proprietário é duvidosa. O índice de sucesso dos que tentam a autodefesa é baixo. O consultor de segurança e ex- capitão do Bope Rodrigo Pimentel está convicto de que o direito à posse (ou ao porte) não facilitará a autodefesa do cidadão comum. “Se você não vai ter tempo para treinar, nem adianta ter arma em casa. Eu sempre digo: vai comprar uma arma para quê? Para matar sua mulher numa briga ou para seu filho se matar numa crise de depressão”? Nos Estados Unidos, o país com a maior proporção de armas por domicílio, um estudo da escola de medicina de Stanford concluiu que há o dobro de mortes de crianças por arma nos estados onde as leis são mais flexíveis. Todo ano, cerca de 2.700 crianças e adolescentes morrem nos Estados Unidos vítimas de tiro. No Brasil, no início de 2019, um acidente em casa tirou a vida do menino Jackson Silva, de 11 anos. A família vive em um sítio na cidade de Olho d’Água Grande, no interior de Alagoas, e mantinha uma espingarda calibre 12 para proteção da residência. O irmão mais novo de Jackson pegou a arma quando o pai, Jadielson Silva, estava fora, trabalhando – e acertou o irmão no rosto. “Não entendo porque meu moleque foi pegar aquela arma em cima do guarda­ roupa”, lamenta-se o pai. No ano passado, pouco depois do Dia das Crianças, em 14 de outubro, Jheison Lopes Silveira, também de 11 anos, teve o mesmo destino trágico em uma chácara em Guarantã do Norte, em Mato Grosso. Um primo seu quis lhe dar um susto com uma arma de pressão. Disparou contra uma porta – mas o “chumbinho” ricocheteou e atingiu Jheison debaixo do braço, rompendo uma veia do coração. “Tive vontade de morrer no lugar do meu filho”, diz o pai, o eletricista Dione da Silva Pereira, que comprara a arma de segunda mão, por 1.000 reais. O juiz João Marcos Buch, de 49 anos, é um raro sobrevivente de acidente com arma de fogo na infância. Foi atingido no rosto pelo irmão, que brincava com a espingarda do pai, no início dos anos 1980, em Porto União, Santa Catarina. Por ser juiz – na Vara de Execução Penal, em Joinville -, João Marcos tem direito ao porte de arma. Mas ele é contra a facilitação do porte para civis.

“Não é armando a população que vamos reduzir a violência. Já condenei muitas pessoas por crimes de latrocínio, roubo, homicídio, e as armas, na maioria dos casos, eram de origem lícita”, diz. Uma pesquisa da consultoria Ideia Big Data revela que só 8% dos brasileiros têm plano de comprar uma arma neste ano. Os aspirantes à arma própria podem ser poucos, mas são entusiasmados. Em um clube de tiro na Zona Oeste de São Paulo, o professor universitário Gustavo Molina Figueiredo, de 27 anos, diz que a eleição de Jair Bolsonaro – em quem ele votou – o estimulou a buscar uma arma legal, agora facilitada pelo decreto. “Acho interessante ter a posse, para proporcionar mais segurança à família. Espero nunca precisar, mas, se um dia tiver necessidade, quero saber atirar corretamente”, afirma. Gerente de contas em uma empresa de consultoria, o paulistano Felipe Szuster, de 26 anos, chegou ao mesmo clube de tiro no início da noite da terça­ feira 15, acompanhado do irmão, Fernando, de 20 anos, que ganhou dele de presente um pacote de tiros no estande. Felipe Szuster também pretende entrar com a papelada para conseguir sua arma até o fim do ano. Planeja deixar a casa dos pais em breve, já com seu “brinquedo” – uma pistola automática, de preferência. São brasileiros que acreditam na arma como instrumento de defesa individual. No campo das estatísticas, porém, o quadro é mais complexo. A taxa de homicídios no Brasil vinha subindo ano após ano até a aprovação do Estatuto do Desarmamento, em 2003. A partir daí, passou a cair, indo de 29,1 para 25,5 em 2005, quando foi realizado o referendo sobre a comercialização de armas. De 2005 para 2016, o índice voltou a subir gradativamente, chegando ao mesmo patamar de 2003. O que explica o sobe e desce? Armamentistas usam o estudo para corroborar a tese de que o estatuto, que pretendia conter os homicídios, fracassou. Já os Desarmamentistas olham para a mesma pesquisa e enxergam números positivos: sem o estatuto, calcularam eles, a taxa de homicídios poderia ser 17% maior.

O principal ponto do estatuto, que poderia ser determinante na redução dos homicídios, não foi implementado – a aplicação de tecnologia e integração dos bancos de dados do Exército e das polícias Federal, Militar e Civil para o monitoramento de armas e munições. “Armas são diferentes de drogas. Elas nascem legais e são completamente passíveis de rastreamento. A gente só não monitora porque não quer”, diz llona Szabó, do Instituto Igarapé. Atualmente, coloca-se uma única identificação em lotes gigantes de munição, o que pouco contribui para o esclarecimento dos crimes. Munições do lote UZZ-18, comprado pelo Exército da Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) em 2006, foram usadas para matar a vereadora Marielle Franco, para promover uma chacina em São Paulo e para realizar um assalto aos Correios de Serra Branca, cidade do interior da Paraíba. O lote tinha 2,4 milhões de balas. Se o lote identificado fosse menor, de no máximo 10.000 balas, seria possível aferir o momento em que saiu das mãos da polícia para o crime organizado. Atualmente, existe tecnologia até para colocar um GPS em cada arma e munição. O lobby da indústria armamentista alega que esses dispositivos aumentam demais o custo de seus produtos.

Professor da FGV, autor do Mapa da Violência e pesquisador do Ipea, o economista Daniel Cerqueira considera que uma arma é muito mais um instrumento de ataque do que de defesa e, inserida num ambiente urbano, ameaça outras pessoas. Para ele, a ciência é clara em dizer que, quanto mais armas em circulação, mais homicídios são praticados. A caneta Bic, diz Bolsonaro, é sua arma. Mas não serão canetas que estarão nas casas do país. Serão revólveres, pistolas, carabinas e espingardas que, a depender da vontade do Congresso, em breve também poderão estar na cintura dos brasileiros.

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O DRAMA DO CONTINENTE

Índice de pobreza extrema atinge pior nível em dez anos na América Latina. E a principal causa para desempenho tão sofrível é a crise econômica do Brasil.

O Drama do continente

A América Latina gozou de um alvissareiro início de século XXI: entre 2002 e 2014, a região conseguiu aliar crescimento econômico consistente com diminuição da pobreza. A tendência continua positiva na maior parte dos países, mas um estudo apresentado na semana passada pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), ligada à ONU, mostra que algumas nações têm ficado para trás. A Venezuela e a Guatemala passam por dificuldades. E o Brasil, que abriga cerca de um terço da população da região, viu mais de 3 milhões de pessoas cair no estrato mais baixo de renda entre 2015 e 2017, o que elevou o índice de pobreza extrema da América Latina para 10,2%, seu pior nível em uma década. O tamanho e a importância do país fazem com que o drama brasileiro seja também o drama de toda a região.

O estudo, batizado de Panorama Social da América Latina 2018, aponta a crise econômica como a grande culpada pelo aumento da pobreza no país, notadamente pelo agravamento do desemprego e pela interrupção do aumento real do salário mínimo. Uma situação que ainda pode piorar. Laís Abramo, diretora da Divisão de Desenvolvimento Social da Cepal, teme que os cortes em despesas importantes na área social intensifiquem a tendência. “Os serviços públicos e as políticas de proteção social tiveram o papel de impedir que o aumento da pobreza fosse ainda mais acentuado”, explica a pesquisadora.

Políticas públicas como o aumento do salário mínimo, programas de transferência de renda como o Bolsa Família e qualificação profissional por meio de educação gratuita impulsionaram o último ciclo de desenvolvimento social no Brasil, segundo a Cepal. No entanto, os bons ventos econômicos cessaram. Kaizô Beltrão, professor da Fundação Getúlio Vargas, acredita que a crise cerceou as ações do governo e acabou dificultando o investimento no social, justamente no momento em que mais gente perdeu o emprego. “Tornar a crescer a partir de 2019 é importante para que se volte a investir nos mecanismos de distribuição de renda, saúde e educação”, diz. Laís Abramo reconhece a importância de ter uma economia em crescimento, mas teme que ela venha acompanhada de uma concentração ainda maior da renda.

A prova de que o crescimento tem relação direta com a taxa geral de pobreza é a significativa ascensão social em países que mantêm a pujança econômica, como Chile, Colômbia e Paraguai, que até ajudaram a compensar o mau resultado no Brasil. De uma maneira ou de outra, o presidente Bolsonaro precisa colocar a economia brasileira nos trilhos. Além do Brasil, a América Latina inteira torce por isso.

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OS NOVOS DESTINOS PARA O ALUGUEL DE BARRIGAS

Mulheres dos EUA e do Leste Europeu começam a substituir indianas e tailandesas na preferência de brasileiros que não conseguem gerar seus filhos.

Os novos destinos para o aluguel de barrigas

A enfermeira obstétrica Rose Teles Silva, de 43 anos, e o marido Roberto já tinham dois filhos de 12 e 16 anos e pretendiam ter uma menina. Problemas de saúde, porém, obrigaram Rose a fazer uma histerectomia e ela ficou sem o útero. Ela e Roberto pensaram em uma adoção, mas a saída que o casal acabou encontrando para realizar seu sonho foi contratar os serviços de uma empresa especializada em tratamentos de barriga de aluguel no exterior. Com seu próprio material genético, sem necessidade de doadores, eles encontraram uma mãe substituta na Ucrânia. A filha Clarissa nasceu no dia 30 de março de 2018, na capital Kiev. Foi um processo sem traumas. “O mais complicado é a parte emocional, porque você está distante da mãe de aluguel e fica à espera de alguma notícia”, diz Rose. “Mas tudo aconteceu como me falaram que ia acontecer, eu recebia boletins de pré-natal a cada quinze dias e Clarissa chegou com 41 semanas”.

Não existe legislação no Brasil que permita o aluguel da barriga ou de qualquer outra parte do corpo. Por aqui, quem quiser um útero de substituição tem que encontrá-lo numa parente de até terceiro grau. É a chamada barriga solidária, que não pode envolver nenhum tipo de pagamento pelo serviço. Para alugar um útero só mesmo em outros países. E para isso há empresas que cuidam de todos os trâmites jurídicos e das questões médicas envolvidas no processo, incluindo a escolha da mãe de aluguel. No Brasil, apenas uma empresa desse tipo tem um escritório ativo, a israelense Tammuz, contratada por Rose e Roberto. Fundada pelo ex-consul de Israel em São Paulo, Roy Rosenblatt-Nirr, a empresa atua em 38 países e já gerou mais de 800 bebês. Roy adquiriu experiência no assunto e se familiarizou com o processo porque ele e o marido Ronen decidiram, há nove anos, ter dois filhos por meio de barriga de aluguel, na Índia. Nasceram a menina Rotem e o menino Saar.

O mercado de barriga de aluguel é pequeno, mas crescente. No Brasil, já são 47 bebês nascidos no exterior por meio da Tammuz, que tem outros 44 processos em andamento. Entre 2017 e 2018, houve um crescimento de 35,3%, de 17 para 23, no número de crianças brasileiras nascidas em úteros de substituição no exterior. A maioria dos casais que buscam o serviço tem mais de 35 anos e todos já passaram por algum tratamento de fertilidade. “É um negócio que está crescendo no Brasil e no mundo inteiro. A diferença é que no exterior há um crescimento na demanda por casais gays e no Brasil prevalecem os héteros”, diz Rosenblatt-Nirr.

Os principais destinos para quem busca uma barriga de aluguel atualmente são Estados Unidos, Ucrânia, Albânia e Rússia. Outros países como Tailândia, Índia e México criaram limitações para estrangeiros. O maior mercado para barriga de aluguel é os Estados Unidos, onde se registram pelo menos metade dos casos do mundo e se aceitam qualquer tipo de casal ou homens e mulheres solteiros. Na Ucrânia e na Rússia há restrições para solteiros e casais homossexuais. É bom saber, de qualquer forma, que comprar serviços de barriga de aluguel custa caro. Nos Estados Unidos, gasta-se cerca de US$ 110 mil para ter um filho dessa forma e na Ucrânia o valor gira em torno de US$ 65 mil.

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ELE QUER TER DIREITOS DE UMA GRÁVIDA

O médico Wagner Scudeler, de 40 anos, contratou os serviços de uma barriga de aluguel nos Estados Unidos e, como pai solteiro, quer ter os mesmos benefícios da Previdência Social de uma mulher grávida. Demitido no final de agosto pela Fundação ABC, Scudeler entrou com uma ação contra a antiga empregadora em que reivindica estabilidade durante o período de gestação da mãe substituta e uma licença paternidade nos moldes da maternidade, de pelo menos quatro meses. “Acabei sendo demitido quando eles ainda não sabiam que minha barriga de aluguel já estava grávida”, diz. “Para mim é um processo moral. Considero que fui discriminado por ser homem, porque se eu fosse uma mulher eles teriam me reintegrado”. Scudeler pede uma indenização de R$ 440 mil. A mãe de aluguel está de 28 semanas.

Ele acredita que, depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu tanto a existência da união homoafetiva como da família monoparental, um genitor solteiro também pode ter os mesmos benefícios de uma família tradicional. Se um pai solteiro adotar uma criança, ele tem direito a quatro meses de licença. “No meu caso é como se eu estivesse adotando o meu próprio filho”, diz. Segundo a Fundação ABC, as causas da demissão não estão associadas com a barriga de aluguel e a empresa só teve as informações sobre a gravidez nos Estados Unidos depois que Scudeler foi demitido.

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UM PASSO ALÉM

O diagnóstico de uma doença rara pode levar até três décadas. Agora, um aplicativo usa recursos de inteligência artificial para resolver a questão em minutos.

Úm passo além

Apesar de todos os avanços estupendos na medicina nas últimas décadas, o diagnóstico de uma doença rara ainda é um quebra-cabeça e tanto para os médicos – e pode levar até impressionantes três décadas. A dificuldade é conhecida pelos pacientes, familiares e especialistas como “odisseia diagnóstica”, numa alusão às inúmeras reviravoltas, erros, dúvidas e pouquíssimas respostas. Além do desgaste emocional, o atraso compromete o tratamento e a qualidade de vida dos pacientes. Recentemente, um estudo publicado pela revista Nature Medicine trouxe uma grande e nova esperança capaz de transformar essa realidade. Pesquisadores da FDNA, uma empresa americana de biotecnologia, desenvolveram um aplicativo que utiliza uma simples foto do paciente para detectar síndromes pouco frequentes. Diz Salmo Raskin, geneticista da clínica Genétika, em Curitiba, e professor titular da Universidade Positivo: “O programa tem um potencial inédito para impactar diretamente a vida das pessoas doentes”.

Chamado Face2Gene, o sistema usa recursos de inteligência artificial para classificar as características faciais que são típicas de metade das 5.000 doenças raras já identificadas pela medicina. Os pesquisadores desenvolveram um algoritmo capaz de distinguir e detectar traços bastante específicos da face humana, muitos dos quais são imperceptíveis a olho nu. Em seguida, os cientistas abasteceram o sistema com 17.000 fotos do rosto de pacientes com doenças raras devidamente diagnosticadas. Com isso, é possível mostrar que traços faciais aparentemente saudáveis – olhos amendoados, queixo pequeno, sobrancelha arqueada, rosto levemente triangular, por exemplo – são, na verdade, indicativos de alguma doença rara. Na prática médica, o profissional fotografa o rosto do paciente e, em questão de minutos, o aplicativo interpreta a imagem. A acurácia do programa é de 91%. Ele pode ser usado no computador ou no celular e já está disponível para os médicos, inclusive no Brasil.

A maioria das chamadas doenças raras é de origem genética. São crônicas, graves, degenerativas e põem muitas vezes a vida em risco – 30% das crianças doentes morrem antes dos 5 anos. No universo das 5.000 doenças raras já descritas na literatura médica, as mais conhecidas são as síndromes de Turner e Noonan, caracterizadas por baixa estatura, problemas cardíacos e de desenvolvimento cognitivo. Cada uma delas tem uma grande diversidade de sintomas, que variam não só de doença para doença, mas também de doente para doente. Como nem todas as síndromes são caracterizadas por variações na anatomia facial, só metade delas poderia ser diagnosticada pelo sistema inteligente. A facilidade proporcionada pelo programa também vem cobrir outra lacuna no universo das doenças raras: a escassa mão de obra especializada. De acordo com levantamento realizado pelo Conselho Federal de Medicina, o Brasil conta com apenas 305 médicos geneticistas, que são os especialistas da área. Quem tem mais contato com essa realidade são os pediatras, já que 80% das doenças raras surgem na infância.

Não há cura para as doenças raras. Existem tratamentos, no entanto, que podem amenizar os sintomas, melhorar a qualidade de vida ou, a depender da patologia, aumentar o tempo de sobrevida. Mas medicamentos específicos são pouquíssimos. Estima-se que haja menos de duas dezenas de terapias para esses problemas. O número baixo está diretamente relacionado ao fato de que são doenças pouco frequentes – elas acometem apenas 6% da população. Com isso, a indústria farmacêutica não tem interesse comercial em desenvolver tratamentos tão específicos. Um exemplo recente é o medicamento chamado Spinraza. É indicado a pacientes que sofrem de atrofia muscular espinhal, condição que provoca fraqueza na musculatura do corpo. O tratamento custa o estrondoso valor de 1,5 milhão de reais no primeiro ano, e 1 milhão a cada ano para o resto da vida. Atualmente, pacientes com a doença conseguem o remédio apenas de duas formas: pagando do próprio bolso ou por meio de ações judiciais em que pedem que o medicamento seja fornecido pelo Ministério da Saúde ou pela operadora do plano de saúde. Diante da dificuldade de diagnóstico e de acesso a tratamentos eficazes, o aplicativo preenche uma lacuna importante – e consiste na novidade de maior impacto que surgiu na área nos últimos dez anos.

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A QUEDA DA APPLE

Devido à diminuição de interesse por iPhones, a fabricante reduziu sua expectativa financeira. Nos últimos três meses, a marca perdeu na bolsa o equivalente ao valor do Facebook.

A queda da aple

Em 2013, 1.500 clientes formaram fila em frente à loja da Apple na Quinta Avenida, em Nova York, à espera do iPhone SS. A cena se repetiu ao redor do mundo, em que pese o fato deque o produto ficaria disponível logo para vendas on-line. “É obviamente um culto”, chegou a analisar a historiadora Erica Robles-Anderson, pesquisadora de fenômenos tecnológicos da Universidade de Nova York, ao observar os então apelidados de applemaníacos. Se a Apple instigou a idolatria, sobretudo depois do lançamento do iPhone, em 2007, é certo que agora a companhia americana tem perdido devotos.

Um dos sinais mais evidentes veio no último dia 2, quando o CEO Tim Cook anunciou a acionistas que, pela primeira vez desde 2002, a empresa não atingirá sua meta de faturamento. A receita, a ser divulgada nas próximas semanas, deve ficar 10% menor. A estimativa era que a companhia faturasse 93 bilhões de dólares no último trimestre. Cook baixou a expectativa para 84 bilhões, justificando-se: “Não previmos a magnitude da desaceleração econômica, particularmente na China. As vendas de iPhones foram menores”. Como resultado, registrou-se queda nas ações. Nos últimos três meses, porém, o valor de mercado da Apple já vinha caindo. Saiu de mais de 1 trilhão de dólares e ficou na casa dos 670 bilhões – perda equivalente ao valor de um Facebook inteiro.

A explicação do CEO, contudo, não convenceu. No país asiático, que é o maior mercado de celulares do planeta, a Apple aparece apenas em quinto lugar entre as maiores fabricantes de smartphones, atrás de marcas locais como a Huawei. Faz anos que o gigante tenta se firmar em solo chinês, sem sucesso. Na verdade, a razão da crise é outra: os clientes não cultuam mais a Apple como antes. Segundo a consultoria Bay Street, em 2015 os consumidores mudavam de modelo a cada dois anos. Agora, o ritmo é de três em três – e tende a aumentar. Em 2002, na última crise da Apple, Steve Jobs (1955-2011) disse: “Temos produtos novos e maravilhosos em desenvolvimento”. Desta vez, Cook não teve o que oferecer.

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ÂNGULO PERFEITO

Tendência no Brasil, a cirurgia no queixo deixa o rosto com aparência mais fina. É popular entre as mulheres que buscam a foto perfeita para as redes sociais.

Ângulo perfeito

Na era das selfies e dos filtros digitais, que, como num passe de mágica, deixam a pele brilhante, o nariz mais fino e até alteram as proporções do rosto, a vontade de imitar na vida real os resultados vistos na tela leva as mulheres a buscar a aparência perfeita nos consultórios dos cirurgiões plásticos. Depois de operações para alterar o formato do nariz ou para reduzir as bochechas, o desejo de uma face harmônica e simétrica chega ao queixo. A região, agora, virou protagonista. A mentoplastia, nome técnico que se dá ao procedimento, remodela o mento para deixar a face proporcional. “As pacientes chegam descontentes com o formato arredondado do rosto. O procedimento o deixa mais fino e alongado”, diz Eduardo Kanashiro, cirurgião plástico da Clínica Due. Vê-se o resultado da mentoplastia em mulheres lindas, que aparentemente nada teriam a corrigir e que agora desfilam com um rosto mais comprido. A lista já é robusta: começa com a cantora brasileira Anitta e passa pela americana Taylor Swift. Ainda que a busca seja majoritariamente feminina, a mudança é almejada também pelos homens, só que com efeito contrário. Eles querem rosto mais quadrado ou um “superqueixo”, atributo associado a força, masculinidade e confiança. No Brasil, os queixos mais pedidos pelas brasileiras ao cirurgião são o da cantora Selena Gomez e o da atriz global Bruna Marquezine. Aqui, aliás, estima-se entre os especialistas que a procura por esse tipo de procedimento tenha aumentado 70% no último ano. Diz o cirurgião Níveo Steffen, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica: “É importante que o planejamento esteja de acordo com a estética do próprio paciente e não seja apenas baseado em seus desejos e sonhos”.

A operação consiste em aumentar ou reduzir o queixo, a depender do biotipo de cada um. O procedimento é simples. Feito com anestesia local, tem duração de trinta minutos. Na técnica mais popular, insere-se uma prótese de silicone na base do queixo. O resultado é uma projeção que varia de 3 a 9 milímetros. Como em qualquer cirurgia, também existe algum risco. O local é rico em nervos motores e sensitivos. Pode ocorrer uma lesão em estruturas do nervo da face, resultando em perda de sensibilidade e até dos movimentos da região.

Já há procedimentos minimamente invasivos capazes de alterar o formato e o tamanho do queixo sem o uso de bisturi. Nesse caso, pode ser efetuado um enxerto de gordura retirada do próprio paciente, com resultados permanentes. Além disso, é possível também fazer aplicação de ácido hialurônico. Presente no organismo, o com­ posto é uma molécula que preserva a elasticidade da pele. A versão sintética, produzida em laboratório, é muito semelhante à natural. Seu efeito, no entanto, mostra-se temporário – dura, em média, um ano.

Não é exagero dizer que os cirurgiões fazem cálculos de trigonometria para alterar o mento e chegar ao novo contorno facial. Desde a Grécia antiga, um poderoso conceito fez nascer obras­ primas da pintura, da arquitetura e da música – o de harmonia. Platão, o primeiro filósofo a tratar do assunto, dizia que “o belo é tudo aquilo em que as partes se agrupam de modo coerente para compor a harmonia do conjunto”. Na mentoplastia, tem-se como objetivo equilibrar os traços da fisionomia do paciente, mantendo suas características individuais. A proporção mais importante a estabelecer é a do nariz em relação ao queixo, ou vice­ versa. O queixo faz parte do terço inferior da face. O nariz, do terço médio. É importante que toda as três partes tenham medidas semelhantes para que haja uma proporção adequada. Por isso, frequentemente, o cirurgião recomenda a associação da mentoplastia com a rinoplastia, visando a um melhor equilíbrio estético do rosto.

Para os gregos, a ideia de equilíbrio era matemática. Eles caminhavam pelas leis da chamada razão áurea – quando a perfeição estética está na relação geométrica. Enquanto os antigos utilizavam réguas para definir proporções estéticas, hoje se usam bisturis e agulhas. Segundo uma pesquisa da Academia Americana de Plástica Facial e Cirurgia Reconstrutiva, em 2017, 55¾ dos cirurgiões plásticos disseram que suas pacientes optaram pela operação para sair melhor nas selfies. Seja para alcançar a proporção grega ou para ficar belo nas redes sociais, a busca pela beleza natural, mesmo que com estratégias artificiais, só aumenta – e tudo indica que chegou para ficar.

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