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Vídeos em que youtubers ensinam a construir ferramentas da Idade da Pedra se popularizam – ironicamente, em razão da busca pela “desintoxicação digital”.

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Parece um paradoxo – e é. Em plena era digital, uma das ondas de apelo no YouTube propõe que o usuário esqueça o computador, o smartphone, a internet e outros atrativos onipresentes na vida contemporânea e se volte para a natureza e um passado distante, muito distante. A moda é puxada e encarnada pelo australiano John Plant, o youtuber responsável pelo canal Primitive Technology (Tecnologia Primitiva). Só de short – sem camisa e descalço -, Plant ensina, em vídeos gravados na floresta do Estado de Queensland em seu país natal, a construir ferramentas usadas por humanos na Idade da Pedra. Para tanto, vale-se tão somente de recursos da natureza ao seu redor. Se quer fogo, use gravetos. Se quer um machado, pegue pedras e o molde”, diz ele em seu canal, que já tem quase 9 milhões de seguidores.

Lançado em 2015, o Primitive Tecnology demorou dois anos para conquistar um público de grande monta. Ao longo dos primeiros doze meses, atraiu 788.000 fãs – um número expressivo, mas de pouca relevância diante dos milhões de seguidores angariados na web pelas celebridades. Em 2016, porém, os vídeos começaram a ganhar maior impulso. Um deles, divulgado naquele ano, sobre como fazer carvão natural, chegou a 1,5 milhão de visualizações em dois dias.

Até então, Plant, que não era afeito à fama, recusava-se a dar seu nome nas filmagens, nas quais sempre permanece mudo. Em junho de 2017, isso mudou. Para poder faturar mais com republicações de vídeos no Facebook, por meio de direitos autorais, o australiano finalmente passou a se identificar. Foi então que a audiência disparou, ultrapassando os 5 milhões de inscritos no canal até o fim daquele mesmo ano. De lá para cá, seus clipes já foram vistos 645 milhões de vezes. Ao comentar a relação entre as habilidades primitivas que ensina e as inovações modernas, Planta firmou à rede inglesa BBC: “Aprender a fazer uma fogueira é a habilidade mais importante e a base para a maior parte das tecnologias”.

Como sempre acontece nesta era de globalização aguda, a formidável popularização do canal australiano incentivou o aparecimento de similares ao redor do planeta. O Primitive Survival Tool, de Singapura, tem 2, 9 milhões de inscritos. O vietnamita Survival Skills Primitive e o americano Primitive Tecnology Idea têm, ambos, algo em torno de 1 milhão de seguidores. No Brasil, a mania ainda não explodiu, mas está chegando perto aos poucos, com páginas como Técnicas Primitivas e Vida Primitiva, que contam com um público que se situa modestamente na casa dos milhares.

Apesar de terem se disseminado pelo YouTube há pouco tempo, vivências em ambientes selvagens não são uma novidade. O assunto foi popular em programas de TV dos anos 2000. Um dos mais bem-sucedidos, À Prova de Tudo, estreou em novembro de 2006 nos Estados Unidos. Transmitido aqui pela Discovery, o programa teve 79 episódios e durou até 2011. Na atração, Bear Grylls, ex­ membro das Forças Especiais Britânicas, ensinava como sobreviver em locais inóspitos – do Alasca ao Deserto do Saara.

“Esse recente fenômeno da internet pode estar ligado a uma vontade extrema de regressar à natureza”, declarou a socióloga holandesa Saskia Sassen, da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, especializada em estudos sobre digitalização. A tendência, portanto, estaria associada à necessidade das pessoas de se afastar do mundo ultra conectado – ironicamente, em razão da busca pela chamada “desintoxicação digital” que vem crescendo nesta década. Diz o psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador do Grupo de Dependência Tecnológica da USP: “É como se tivéssemos atingido o limiar do uso das novidades digitais. Como o ser humano tem predisposição a movimentações pendulares, se estamos demasiado on-line, nós nos empenhamos para reforçar o outro lado, o da antítese da tecnologia”.

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5 APLICATIVOS INOVADORES PARA CEGOS

A tecnologia pode ajudar a melhorar a qualidade de pessoas com deficiência. Selecionamos cinco aplicativos para Android e iPhone para pessoas com problemas de visão ou cegas, a maioria deles gratuita.

5 Aplicativos inovadores para cegos

1. BLIND TOOL

Criado pelo cientista da computação Joseph Cohen, pesquisador da Universidade de Massachusetts, o aplicativo reconhece objetos. Funciona da seguinte maneira: o usuário deve apontar o celular para seu entorno até senti-lo vibrar. Isso significa que o aplicativo detectou um objeto reconhecível e pode verbalizar qual é. Essa leitura de objetos tridimensionais é feita por uma rede neural artificial capaz de relacionar o que está diante da câmera do aparelho com imagens armazenadas em um banco de dados, buscando semelhanças. O sistema, claro, está sujeito a erros, mas é programado para descrever o objeto apenas se há possibilidade de ao menos 30% de acerto. O Blind Tool é gratuito e está disponível para sistema Android no Google Play.

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2. BE MY EYES

Esse aplicativo é especialmente interessante, pois permite que pessoas que enxergam ajudem cegos a resolver problemas pontuais, como ler uma etiqueta, um rótulo, uma conta etc. Ao se cadastrar no sistema, o usuário pode atuar como voluntário ou como alguém que precisa de auxílio. Este envia imagens em vídeo do que precisa ver; a outra pessoa responde por escrito e o aplicativo verbaliza. Be my eyes pode ser baixado gratuitamente para iPhone no iTunes.

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3. COLOR ID.

Disponível para iPhone e Android, é capaz de reconhecer os mais variados tons de cores e verbalizar (em inglês) para o usuário. Pode ajudar pessoas com baixa visão a descobrir, por exemplo, a cor da roupa que pretende usar ou se uma fruta ainda não está madura. Gratuito.

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4. I BRAILLER NOTES.

Permite digitar anotações na tela do iPad ou iPhone e compartilhá-las diretamente em braile. Basta posicionar os dedos sobre a tela que teclas dinâmicas aparecem, melhorando o conforto do usuário. A versão mais recente para iPhone custa US$ 19,99 no iTunes.

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5. ARIADNE GPS.

O GPS especialmente desenvolvido para cegos ajuda a saber onde ele está e a seguir rotas. O usuário passa o dedo sobre o mapa e o aplicativo verbaliza onde ele está e oferece as coordenadas para chegar ao destino. O celular vibra caso seja preciso atravessar um cruzamento e também sinaliza as paradas em ônibus em movimento. Disponível em vários idiomas para IPhone, por US$ 5,99.

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IMPASSES DA DISLEXIA

A dificuldade de apreensão de informações pelos métodos tradicionais pode comprometer a leitura e a escrita, causando sensação de incapacidade e baixa autoestima nas crianças que enfrentam o problema. O quadro, no entanto, não compromete a capacidade intelectual e requer apenas adequações na forma de ensinar e aprender.

Impasses da dislexia

O que personagens como o pintor e escultor Pablo Picasso, o primeiro presidente constitucional dos Estados Unidos, George Washington, a cantora Joss Stone e a atriz americana Whoopi Goldberg têm em comum? Se você respondeu sucesso em suas carreiras, acertou. Mas existe mais um ponto em com um entre eles: todos são (ou foram) disléxicos. A escritora Agatha Christie, que também enfrentava o problema, chegou a declarar: “Escrita e ortografia foram sempre muito difíceis para mim”. Até mesmo os gênios Leonardo Da Vinci e Albert Einstein apresentam sinais do quadro. A dislexia não é considerada doença ou distúrbio neurobiológico. Trata-se de um transtorno, uma espécie de desordem no processo de apreensão de informações pelos métodos tradicionais, o que dificulta a compreensão das letras e pode comprometer a leitura e a escrita. E, como o conhecimento formal, especialmente o adquirido na escola, depende muito da leitura, os disléxicos costumam encontrar grande dificuldade para acompanhar as aulas

Segundo dados da Associação Internacional de Dislexia, uma em cada dez pessoas apresenta, em algum grau, indícios de dislexia – como ler mal ou muito devagar, ter dificuldade de reconhecer letras ou, ainda, trocar as letras nas palavras. As manifestações – que podem ser erroneamente confundidas com preguiça, falta de atenção ou má alfabetização – variam de intensidade de uma pessoa para outra. Em geral, aqueles que apresentam o problema têm dificuldade de associar o símbolo gráfico e as letras ao som que representam. Não raro, têm dificuldade com lateralidade e confundem direita com esquerda, ou escrevem de forma invertida, em vez de “vovô”, “ovôv” e, no lugar de “casa”, “saca”. A dislexia também causa a omissão de sílabas ou letras como “poblema” quando o correto seria “problema”, além de confusão de letras com grafia similar. Por exemplo, n-u, w-m, a-e, p-q, p-b, b-d.

A necessidade de seguir a linha do texto com os dedos é outro sintoma de dislexia. Em razão das dificuldades de leitura, as crianças podem enfrentar dificuldades em relação a pobreza de vocabulário e se confundir com as tarefas escolares, o que muitas vezes concorre para que ocorra um atraso escolar. O quadro, porém, não afeta a capacidade intelectual. Na escola, com apoio e estímulo adequados, a criança disléxica pode aprender a lidar com as suas dificuldades e a superá-las. O importante é que pais e professores estejam atentos para encontrar a forma mais eficiente de ensinar a criança com dislexia. Os pequenos costumam ser encaminhados para avaliação cerca de dois anos após o período de alfabetização, dos 7 aos 9 anos, quando as dificuldades motoras e de compreensão, começam a aparecer. Antes disso, no entanto, alguns sinais podem indicar propensão como dificuldades para aprender a falar, andar, ou na coordenação motora fina para coisas como segurar o lápis. A alergia ao hormônio testosterona também é um sinal comum. “Caso o risco seja detectado, é importante acompanhar o desenvolvimento da criança, pois a intervenção precoce é mais eficaz”, explica Maria lnez Ocafía de Luca, neuropsicóloga e membro da equipe de avaliação para diagnóstico da dislexia da Associação Brasileira de Dislexia (ABD). “O aluno que não recebe tratamento tende a se isolar, fida com medo do aprendizado e demora mais para adquirir fluência na fala e na escrita.” Isso costuma acontecer, no entanto, quando o problema só é identificado na adolescência ou na idade adulta. A ABD ministra cursos gratuitos para educadores, mas diz que a procura é baixa.

Diagnosticar a dislexia, no entanto, não é uma tarefa fácil. ” É preciso fazer uma avaliação multidisciplinar, para ter certeza de que a dificuldade de aprendizado não está sendo causada por outros fatores, como deficiência mental ou problema de memória”, afirma Abam Topczewski, neurologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, também membro da equipe de avaliação da ABD. A equipe inclui psicólogo, psicopedagogo, fonoaudiólogo e o próprio neurologista. O psicólogo tem o papel de avaliar se a criança tem capacidade intelectual normal. O psicopedagogo verifica a capacidade de organização, a leitura e a escrita, áreas em que o disléxico geralmente apresenta dificuldade. O fonoaudiólogo checa a capacidade de transpor a fala em escrita e vice -versa, bem como a compreensão auditiva, equilíbrio, coordenação motora, organização espacial, atenção, memória. Por fim, o neurologista examina imagens de ressonância magnética funcional, durante atividades de leitura, audição ou reconhecimento de imagens, e verifica se o funcionamento do cérebro está normal. Uma avaliação psiquiátrica também é importante, porque o disléxico tem maior probabilidade de ter outros distúrbios, algo conhecido como co­morbidade. No caso do déficit de atenção, o risco é de 70%, e para a hiperatividade, 30%. Outro fator a ser considerado é a ocorrência na família, já que é considerado um quadro com predisposição genética.

Tanto os pais quanto os professores costumam responder um questionário detalhado (anamnese), que contribui com outras informações importantes. Entre as crianças que receberam outro diagnóstico, o mais comum foi o de deficiência mental. Caso seja detectada a dislexia, ela pode ser classificada como leve, moderada ou grave. O tratamento consiste basicamente em ajudar a criança a encontrar outras maneiras de aprender. Não há uso de medicação nem a possibilidade de cura – já que não se trata de uma doença-, mas sim o desenvolvimento de estratégias para superar suas dificuldades. A criança recebe um laudo que deve ser apresentado em situações de avaliação como o vestibular ou prova de habilitação de motorista, para que lhe sejam oferecidas condições especiais nos exames.

A atuação da escola é fundamental para a recuperação. A instituição pode ajudar o disléxico por meio de medidas relativamente simples, sem a necessidade de modificar o conteúdo pedagógico, mas com adaptações de material, de acordo com o grau da dislexia. É importante, por exemplo, dar mais tempo de prova a esses alunos e ler os enunciados para ele. Textos maiores precisam ser lidos mais devagar e em partes, checando o entendimento da criança a cada passo e, em alguns casos, é preciso acompanhamento no momento de escrever as respostas. Embora tenha dificuldade de interpretar um texto, o disléxico tem o intelecto normal e excelente memória auditiva e visual. “Se você quer ensinar um disléxico a fazer brigadeiro, é melhor fazer na frente dele do que dar a receita”, afirma a neuropsicóloga Maria lnez de Luca. Outras medidas eficientes são deixar o aluno sentado mais próximo do professor e aumentar o tamanho das fontes de textos de estudo, fichas e das questões das provas. O professor também deve ser mais condescendente com os erros de escrita. Em casos acentuados, deverá elaborar atividades mais simples para a aula. Como o disléxico pode ter dificuldade com línguas estrangeiras, essa matéria deve ser descartada como critério de promoção.

Muitas escolas têm tido resultados de sucesso com os disléxicos, incluindo aí alunos que entram na universidade e se realizam plenamente em suas carreiras profissionais. “Hoje a dislexia já está bem mais divulgada, e existe conhecimento para lidar com a questão. Além disso, é um problema bastante frequente”, diz Cristina Crey, psicóloga clínica que trabalha junto a escolas particulares. “Depois de apresentado o laudo, dificilmente há rejeição da criança.”

Infelizmente, porém, essa não é uma realidade que possa ser generalizada. Embora sejam medidas relativamente simples, de modo geral as escolas não estão preparadas para identificar os disléxicos – e acolhê-los. No caso das instituições particulares, isso depende em grande parte da proposta da escola. Aquelas cujo foco principal é que os alunos passem no vestibular podem acabar deixando o disléxico para trás. “A escola é obrigada a aceitar o aluno, mas o professor não consegue cuidar de 45 crianças ou jovens e ainda dar atenção ao disléxico”, afirma a coordenadora de uma escola que segue o sistema apostilado, mas que prefere não se identificar. “Por outro lado, mesmo sem nota, a escola tem de passar o aluno, porque ele precisa ser incluído. Na prática, quando ele chega ao ensino médio, já está com muita deficiência.” No ensino público, problema semelhante acontece por outro motivo: a promoção automática. O Brasil não tem estatística para a dislexia, mas relatos de educadores indicam que a questão é grave. Muitas vezes a escola não conhece o problema e acha que o aluno é preguiçoso. E aí surge outro ponto a ser trabalhado, de preferência com um psicólogo clínico: a baixa autoestima dessas crianças. Como a ocorrência mundial é estimada em 10%, é possível pensar que inúmeras crianças com dislexia, muitas delas com plena capacidade intelectual, estão sendo deixadas para trás.

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UM PROBLEMA DA ESCOLA?

A dislexia foi registrada pela primeira vez em 1890, quando um paciente foi até o oftalmologista porque não conseguia ler, mas o médico avaliou que sua visão estava perfeitamente normal. Por esse motivo, por algum tempo foi chamada de cegueira verbal. Posteriormente, foram encontradas algumas evidências biológicas para o transtorno. A primeira delas veio a partir de estudos de anatomia que mostram que, nos disléxicos, ocorre frequentemente uma migração diferenciada dos neurônios no desenvolvimento do feto. Isso faz com que os hemisférios tenham um desenvolvimento igual, como acontece nos canhotos, em vez de diferente e com a dominância de um deles, como é o mais comum.

Imagens de ressonância magnética funcional, feitas enquanto o paciente está lendo, mostram que vias diferentes das normais são usadas por essas pessoas. Vários profissionais trabalham com a hipótese de que a dislexia seja determinada pela predisposição genética. “A probabilidade de dislexia se o pai ou a mãe tem a doença é de 50%; se ambos, 75%”, afirma Maria lnez de Luca.

Questões sobre o tema, entretanto, não são consensuais entre especialistas. “A dislexia não tem  uma causa orgânica, é um problema de aprendizado e, portanto, deve ser tratada dentro da escola”, acredita a pediatra Maria Aparecida Moysés, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “A hipótese mais comum para o aluno com dificuldade é que ele tenha problemas familiares ou alguma deficiência. Geralmente, o universo escolar não é considerado. Em geral, são as precariedades da escola que geram um grande número de alunos com dificuldades no aprendizado”, diz Beatriz de Paula Souza, psicóloga e coordenadora do serviço de orientação à queixa escolar do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Aparentemente, no entanto, a dislexia não é uma exclusividade das escolas fracas. “A dislexia aparece também em famílias instruídas e em escolas de qualidade”, diz o neurologista Abam Topczewski.

 É PRECISO ENSINAR DO JEITO QUE ELES APRENDEM

A escola tem papel fundamental na inclusão de alunos com dificuldades de linguagem e escrita, mas para ajudá-los a se sentir seguros e aceitos é necessário esforço e disponibilidade do professor

  • A criança com dislexia tem, em geral, uma história de fracassos e cobranças que a fazem sentir-se incapaz, por isso é fundamental motivá-la ressaltando seus acertos
  • A escola deve valorizar os interesses da criança e atribuir a ela tarefas que a façam se sentir útil
  • As expressões “tente esforçar-se” ou “se concentre mais” devem ser evitadas em qualquer situação, pois a criança faz o que é capaz no momento
  • O ritmo do aluno deve ser respeitado, pois é comum a dificuldade para processar informações e pode ser necessário algum tempo para pensar e dar sentido ao que foi visto ou ouvido
  • Costumam ser úteis as orientações sobre como organizar-se no tempo e no espaço; insistir em numerosos e repetitivos exercícios de fixação não diminui a dificuldade da criança
  • As instruções de tarefas são captadas com mais facilidade se forem curtas e simples;
  • O professor deve certificar-se de que as tarefas de casa foram compreendidas e anotadas corretamente;
  • Demonstrações, imagens e filmes podem ser utilizados para enfatizar conceitos ensinados nas aulas; permitir o uso de gravador também pode ajudar
  • Ao dar explicações sobre como fazer algo, é mais eficiente posicionar-se ao lado da criança, sempre que possível
  • Não é uma boa estratégia insistir para que o aluno leia em voz alta perante a turma, pois ele tem consciência de seus erros; a maioria dos textos de seu nível é difícil para ele

(*) Informações da Associação Nacional de Dislexia

COMO OS PAIS PODEM AJUDAR? (*)

A criança é a primeira a perceber que algo está errado com ela, mas não sabe o que fazer ou explicar o que acontece. Quanto mais o tempo passar sem que tenha ajuda, maior seu sofrimento emocional. O papel dos pais é fundamental

 

  • Não busque culpados, mantenha um bom relacionamento com professore e discuta a questão com a escola
  • Ensine seu filho a fazer coisas por si próprio, como se organizar, para que tenha autonomia
  • Seja paciente com os progressos que ele fizer, quando estiver tendo atendi mento apropriado. Não espere milagres; tudo isso leva tempo, é necessário muita determinação e esforço
  • Ele poderá ficar tão cansado com o esforço que faz na escola, que precisará, eventualmente, ter um dia mais folgado
  • Nunca compare crianças e evite a superproteção
  • Qualquer que seja a idade de seu filho, leia para ele, pois muitos disléxicos não compreendem o que estão lendo
  • Digite suas anotações escolares; alguns conteúdos podem ser gravados
  • Incentive o interesse da criança por arte em geral (teatro, cinema, música etc.)
  • Assista TV e vídeos com ele e depois converse sobre o que viram
  • Elogie a criança e estimule sua confiança e a autoestima
  • Explique a ela que as pessoas têm maneiras diferentes de funciona e ela não é pior porque tem algumas dificuldades

(*) Informações da Associação Nacional de Dislexia

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NA HORA DA PROVA

A Associação Nacional de Dislexia recomenda aos professores que, ao elaborar, aplicar e corrigir as avaliações do aluno disléxico, especialmente as realizadas em sala de aula, adote os seguintes procedimentos:

  • Leia as questões junto com o estudante, de maneira que ele entenda a pergunta
  • Explicite sua disponibilidade para esclarecer eventuais dúvidas sobre a questão
  • Dê ao aluno tempo necessário para fazer a prova com calma
  • Ao recolher a prova, verifique as respostas e, caso seja necessário, confirme com o aluno o que ele quis dizer com o que escreveu, anotando suas respostas
  • Ao corrigir, valorize a produção do aluno, pois frases aparentemente sem sentido e palavras incompletas ou gramaticalmente erradas não representam conceitos ou “informações erradas

(*) Informações da Associação Nacional de Dislexia

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BELEZA INTELIGENTE

Sistema de inteligência artificial aponta com precisão a idade cronológica e pode ajudar a entender o processo de envelhecimento.

Beleza inteligente

Um dos maiores campos de estudo da ciência atualmente é o que investiga a longevidade. Com a expectativa média de vida crescendo em todos os países, é preciso conhecer com precisão como se dá o processo de envelhecimento e de que forma aferir, visualmente, se a idade cronológica é compatível com a biológica. Isso nem sempre acontece e a discrepância entre uma e outra pode apontar se o organismo está mais ou menos desgastado do que aparenta.

Na semana passada, um consórcio de cientistas de vários países anunciou a criação de um programa de inteligência artificial (IA) que registra precisamente a idade cronológica a partir da análise de imagens do canto dos olhos. “Trata-se de um método não invasivo e muito acurado. Ele poderá nos levar a grandes descobertas sobre os processos biológicos envolvidos no envelhecimento”, afirmou a bioengenheira russa Anastasia Georgievskaya, criadora de uma empresa especializada no emprego da IA no estudo da longevidade.

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RECURSO IMPORTANTE

A princípio a afirmação da cientista parece ambiciosa. Mas o novo programa foi construído usando uma das tecnologias mais modernas de IA, o deep learning (a máquina aprende constantemente a partir dos dados que recebe). Por isso, está sendo considerado uma ferramenta poderosa para ajudar a decifrar os fatores que levam ao envelhecimento precoce e o que pode ser feito para evitá-los. Por sua importância, o sistema acaba de ser descrito em um artigo na Aging, uma das publicações científicas mais importantes da área.

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CHEGA DE AULAS ESPOSITIVAS!

No nível universitário, a evidência é clara: alunos de ciências aprendem menos quando se espera que ouçam passivamente.

Chega de aulas expositivas

A maioria dos professores de ciências, em especial os universitários, prega a ideia de que é preciso buscar a verdade por meio de dados e experimentação cuidadosa. No entanto, quando entram em sala de aula, em geral usam métodos ultrapassados e ineficazes. A fração esmagadora de cursos de graduação de ciências é ministrada por um professor que dá aulas expositivas a alunos, mesmo diante de várias centenas de estudos que mostram que métodos de ensino alternativos demonstram muito maior aprendizagem dos alunos e índices mais baixos de insucesso.

Esses diversos métodos têm vários nomes, inclusive aprendizagem ativa. Sua característica comum é que, em vez de ouvir passivamente, alunos passam o tempo de aula envolvidos em responder perguntas, resolver problemas, discutindo soluções com os colegas e raciocinando sobre o material de estudo, enquanto obtêm retorno regular de seu professor.

Como relatado em um estudo de 2012 pela National Academy of Sciences e em uma análise detalhada publicada on-line em maio na revista Proceedings of the National Academy of Sciences USA, essa abordagem melhora a aprendizagem em todas as disciplinas de ciências e de engenharia tanto em cursos introdutórios quanto nos avançados.

Há muitas maneiras diferentes de introduzir a aprendizagem ativa. Em turmas menores, muitas vezes estudantes trabalham em grupos para completar uma série de etapas que compõem um problema maior. Nas turmas de 100 a 300 alunos, instrutores costumam usar dispositivos que permitem aos jovens transmitir respostas ao professor instantaneamente pressionando um botão de seu assento. Assim, um professor logo vê qual o índice de estudantes que compreendem o material. As melhores perguntas são desafiadoras e envolvem a compreensão e o uso de conceitos básicos, em vez de memorização simples. Quando a maioria da classe erra a resposta, o professor faz os jovens discutirem com os vizinhos e responderem novamente. Enquanto isso, ele escuta essas conversas e proporciona ajuda direcionada aos alunos. Com qualquer uma dessas técnicas, o professor ainda passa um bom tempo falando, mas os ouvintes são alunos que foram preparados para aprender. Eles entendem por que o conteúdo vale a pena e como ele pode ser usado para resolver problemas. Atualmente o material está em um contexto que faz sentido, em vez de ser dado como um conjunto de fatos e procedimentos sem sentido que os alunos só podem memorizar sem entendimento.

A pesquisa educacional sobre aulas para o jardim até o fim do ensino médio oferece uma imagem menos clara a favor da aprendizagem ativa. Isso porque a pesquisa com alunos é difícil, com muito mais coisas fora do controle dos pesquisadores. Talvez a variável mais importante seja o nível desigual e muitas vezes o baixo domínio do assunto pelos professores. Como a aprendizagem ativa requer prática e feedback sobre pensar como um cientista, exige especialização consideravelmente maior do docente no assunto.

Apesar das evidências científicas que apoiam a aprendizagem ativa, por que o uso dessas técnicas é tão raro? Um dos motivos parece ser a compreensão basicamente falha da aprendizagem. A maioria das pessoas (incluindo professores e administradores de instituições de ensino) acredita que o aprendizado ocorre com uma pessoa simplesmente ouvindo um professor. Isso é verdade se alguém está aprendendo algo muito simples, como “coma o fruto vermelho, não o verde”, mas do ponto de vista neurológico o aprendizado complexo, inclusive o pensamento científico, exige a interação para possibilitar ao cérebro assumir novas capacidades.

O motivo mais importante para o ensino superior não alterar metodologias, no entanto, é que não existe incentivo. O fato é que não há nenhum incentivo para o uso de técnicas de ensino eficazes baseadas em pesquisa, além de superstição pedagógica e do hábito; na verdade, poucas, ou nenhuma, universidades monitoram o tipo de técnicas de ensino usadas em suas salas de aula. Enquanto isso for verdade, futuros alunos não terão como comparar a qualidade da educação que receberão em diferentes instituições, e assim nenhuma instituição precisa melhorar.

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BEBÊS MADE IN CHINA

Recebida com ceticismo, a notícia de que um biólogo chinês teria criado os primeiros humanos com DNA modificado em laboratório reacende o debate sobre os limites éticos da ciência.

Bebês made in china

“Sinto a forte responsabilidade de não só chegar primeiro, mas também de estabelecer um exemplo. A sociedade decidirá o que fazer a seguir.” Assim o biólogo chinês He Jiankui apresentou ao mundo, em entrevista exclusiva concedida à agência noticiosa americana Associated Press, na segunda-feira 25, a desconcertante história das bebês gêmeas apelidadas de Lula e Nana – não se conhecem ainda os verdadeiros nomes das meninas. Caso seu relato seja verdadeiro, as irmãs seriam os primeiros seres humanos nascidos com o DNA modificado em laboratório. O cientista alega que, para alcançar a suposta proeza, utilizou a técnica conhecida como Crispr-Cas9 para manipular os genes dos embriões nas plaquetas (veja os detalhes no quadro abaixo). O objetivo da manipulação teria sido desativar o gene CCRS, responsável por produzir uma proteína que deixa o organismo vulnerável ao HIV, o vírus da aids. Assim, teoricamente, os bebês, cujo pai é soropositivo, seriam imunes à doença. Jiankui esclareceu que a técnica teve 100% de sucesso em uma das gêmeas e êxito parcial na outra – esta, portanto, ainda poderia contrair o HIV ao longo da vida.

A notícia foi recebida com críticas, muitas críticas, pela comunidade científica internacional – em especial pelas questões éticas que o procedimento do biólogo chinês levanta. A edição de embriões humanos é proibida, por exemplo, nos Estados Unidos e no Brasil. Mesmo na China, onde não é ilegal, o trabalho de He Jiankui foi atacado. Em uma carta aberta que circula on-line, mais de 100 cientistas – a maioria em atividade no país asiático – repudiaram o anunciado feito do colega: “A ética biomédica para essa suposta pesquisa existe apenas no nome. Fazer pesquisas diretamente em humanos só pode ser caracterizado como loucura. A caixa de Pandora foi aberta” observou o grupo. “Talvez ainda tenhamos um resto de esperança para fechá-la antes que seja tarde demais”, completaram os especialistas. Raros foram os pesquisadores que apoiaram o biólogo chinês. Um deles, George Church, geneticista da Universidade Harvard (EUA), declarou: “Creio que seja justificável (o uso da técnica Crispr-Cas9) para combater o HIV, uma imensa e crescente ameaça à saúde pública”.

Outro senão que alarmou os cientistas ao redor do planeta foi o modo como He Jiankui procedeu do ponto de vista acadêmico. O chinês, é verdade, descreveu todo o processo de seu experimento, mas sem tê-lo exposto à avaliação de colegas ou de revistas científicas, como seria de praxe. Em razão disso, por enquanto, tudo o que se tem como certificado do êxito da experiência são suas palavras. De acordo com o biólogo, a manipulação genética foi feita durante a fertilização em laboratório. He Jiankui conta que primeiramente isolou um espermatozoide e depois inseminou um óvulo. Em seguida, editou quimicamente o embrião. No total, teriam sido realizadas seis tentativas de implante de embriões no ventre materno até que a gestação vingasse.

Cientistas que analisaram os ainda parcos documentos apresentados por He Jiankui avaliam que, na hipótese de o biólogo estar dizendo a verdade, são imprevisíveis os efeitos colaterais nos bebês com DNA modificado. A manipulação do gene CCRS pode, por exemplo, deixar as gêmeas muito suscetíveis à morte por uma simples gripe. Para o biomédico Kiran Musunuru, da Universidade da Pensilvânia (EUA), a prática foi “inescrupulosa, uma experiência com seres humanos indefensável em termos éticos”. Segundo sua análise, no caso da bebê que ainda continuou vulnerável ao HIV, “na verdade haveria quase nada a ser ganho e ela estaria sendo exposta a toda sorte de risco à saúde”.

A técnica Crispr-Cas9 foi desenvolvida, em 2012, pela microbióloga francesa Emmanuelle Charpentier e pela bioquímica americana Jennifer Doudna. O método foi testado em humanos adultos pela primeira vez em 2016, quando pesquisadores da Universidade Sichuan, na China, inseriram células modificadas em um paciente com câncer de pulmão com o objetivo de aprimorar a defesa do organismo contra o tumor. Os resultados, inconclusivos, foram então publicados na revista inglesa Nature. Um ano depois, em 2017, cientistas da Universidade de Saúde e Ciência do Oregon (EUA) editaram um embrião humano para evitar uma mu­ tação hereditária que implicaria em problemas cardíacos. Em ambos os casos, entretanto, não houve inseminação. O suposto passo além de He Jiankui teria sido realizar a concepção e promover o nascimento dos bebês. Assim, ao contrário do que ocorre quando a manipulação é realizada em genes de adultos, as características modificadas nas crianças – sejam elas benéficas ou não – poderiam, no futuro, ser transmitidas a seus herdeiros.

A veracidade dos resultados alardeados por He Jiankui foi amplamente questionada. Disse o geneticista catarinense Ciro Martinhago, doutor em genética reprodutiva e dono do laboratório Chromosome: “Há muitos outros exemplos de feitos aparentemente grandiosos que foram falsificados. Vale lembrar que, em 2005, Hwang Woo-suk, professor de veterinária da Universidade de Seul, anunciou que havia produzido os primeiros humanos clonados e extraído deles células­ tronco. Pouco tempo depois, descobriu-se que era tudo mentira”. Diante da avalanche de dúvidas mundo afora, o biólogo chinês revelou, na quarta 28, durante a II Conferência de Edição de Genoma Humano, na Universidade de Hong Kong, que uma segunda gestação com embriões igualmente editados está em curso na China. Ele garantiu ainda ter enviado um artigo com o estudo para a avaliação de uma revista científica, cujo título não informou.

O que dificulta sobremaneira a checagem das informações do biólogo chinês é que os experimentos teriam sido realizados em uma empresa privada – de propriedade do próprio He Jiankui, que desde fevereiro se encontra licenciado, sem remuneração, de suas funções como professor na Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China. Caso os resultados se confirmem, a próxima e inexorável etapa do processo será a promoção de um debate público acerca da pertinência de experimentações semelhantes com seres humanos.

Nesse ponto, a história tende a se repetir. Na área genética, dois casos servem de referência. Em 1978, ano em que nasceu, na Inglaterra, a menina Louise Brown, o primeiro bebê de proveta da história, o prodígio, realizado pelo médico Robert Edwards (1925 – 2013), foi classificado como “abominação moral” por boa parcela da comunidade científica. Havia, na época, receio em relação aos efeitos colaterais para a criança – Louise hoje tem 40 anos. Com o tempo, verificou-se que a técnica trazia muito mais benefícios. Ela se popularizou e Edwards ganhou o Nobel em 2010. No caso da clonagem, apresentada ao planeta em 1996 com a ovelha Dolly, o próprio criador, o escocês lan Wilmut, se mostrou contrário ao uso do método em humanos. Após avaliações técnicas de universidades e de especialistas da ONU, chegou-se ao consenso de que a clonagem de pessoas é antiética e imoral – e, hoje, até a usualmente permissiva China proíbe o procedimento. Em tese, a edição de bebês permitiria o combate a doenças, mas também a escolha de dotes que atenderiam, por exemplo, a interesses de eugenistas. E sabemos no que dá a ideia de uma raça supostamente pura e perfeita.  

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LICENÇA PARA TELEFONAR

Sabe-se que o telefone foi inventado para uma pessoa falar com outra, mas hoje o aparelho é usado para tudo, menos falar – e, com a mudança, nasceu toda uma nova etiqueta.

Licença para telefonar

O telefone chama uma, duas, três vezes, e nada. Ele é solenemente ignorado. O toque soa invasivo e obsoleto (ainda que a era dos smartphones tenha substituído o velho trim-trim por uma miríade de sons com estilo e graça). O fato é que o mundo girou, e o ato de conversar ao telefone foi se tornando um daqueles hábitos em desuso diante da praticidade das mensagens de texto. De uns tempos para cá, toda uma etiqueta se ergueu em torno dessa forma instantânea de comunicação. E não foi apenas nos limites das gerações Y e Z, nascidas a partir da década de 80 – embora elas liderem a turma que, literalmente, não liga. Na nova cartilha, antes de qualquer coisa, faça uma perguntinha básica por WhatsApp: “Pode falar?”. Ao sinal positivo, aí sim, vá em frente.

Lembre-se que conversa, conversa mesmo, não se aplica a muitos casos. Em geral, só quando o assunto é demasiado delicado ou o elo entre as duas partes é sólido o suficiente. O empresário Emerson Martins, de 46 anos, nem se lembra da última vez em que estabeleceu contato por celular fazendo uso da voz. “Só atendo se vejo que é uma das minhas filhas ou um sócio com um assunto urgente”, diz ele. “Nos grupos de WhatsApp, respondo tudo a meu tempo”, afirma o empresário (neste caso, excepcionalmente, por telefone). Nas pesquisas, a possibilidade de gerenciar o ritmo e o tom das respostas aparece como uma das principais vantagens das mensagens de texto.

Em um levantamento conduzido por uma operadora de telefonia britânica, 63% dos entrevistados afirmam que se recusam a atender ligações de números desconhecidos. O mesmo grupo, quando indagado sobre que funções do celular lhe são mais úteis, coloca “ligar” em 11º lugar, atrás dos previsíveis enviar mensagens e e-mails, navegar no Facebook, tirar fotos e até consultar a previsão do tempo. O acelerado avanço tecnológico, que traz múltiplos aplicativos e distrações, faz do celular um objeto cada vez mais distante de seu propósito original – fenômeno percebido em alto grau entre brasileiros. Em 2013, 80% diziam usar o aparelho prioritariamente para “chamadas”, segundo a consultoria Deloitte. Em 2016, já eram elas, as mensagens, as mais citadas por 79%. “Há uma demanda crescente por conteúdo, sobretudo nas faixas mais jovens, que migraram da voz para os aplicativos”, diz Bernardo Winik, diretor da Oi.

Não só a economia de tempo e a possibilidade de peneirar os contatos atraem tanta gente para o universo dos aplicativos. Eles permitem que as mensagens sejam pensadas e repensadas – e até apagadas depois de mandadas, um benefício para os arrependidos ou atrapalhados. “Com a mensagem, dá mais tempo de elaborar e refletir sobre a conversa”, explica a estudante de serviço social Luiza Ribeiro, de 17 anos, que vive no Rio de Janeiro e abre uma exceção para falar com os pais, que estão no Acre. Mesmo assim, são ligações ao jeito moderno: via chamada de vídeo e de não mais que dez minutos (uma eternidade, aliás). Como outras pessoas de sua geração, ela ainda tem viva na memória a fase em que, quem diria, ficava pendurada no telefone. A reviravolta foi de cinco anos para cá.

A mudança de costumes se amolda não apenas à era do frenesi da digitação e à ideia da instantaneidade, como também favorece quem nunca foi afeito ao telefone. ”A comunicação por meio eletrônico dá a sensação de maior controle aos mais tímidos e contidos”, observa a psicóloga Ceres Araújo. Mas nem tudo são flores neste mundo zap-zap. O psicólogo Cristiano Nabuco alerta para o risco da impessoalidade”: Na conversa tradicional, devem-se modular os sentimentos, a voz e evitar bocejos; já na virtual dá para construir as respostas e exibir uma imagem mais satisfatória. O contato fica mais superficial”.

Ligar virou um ato cercado de cerimônia. Quando uma ligação no impulso é retribuída com absoluto silêncio do outro lado, melhor não insistir. No vácuo de um alô, há quem troque a mensagem de texto pela de voz, o que, de novo, periga ser incômodo.

Vai saber em que condições o interlocutor se encontra para ouvir o recado? O terreno das mensagens de texto também tem seus macetes, para evitar, com o perdão da velha expressão, linha cruzada. “É preciso ter cuidado com as palavras, para não haver mal­ entendidos”, diz o psicólogo Nabuco.

O invento de Alexander Graham Bell (1847-1922) já foi um cobiçado objeto de desejo. No Brasil, até a década de 80, os poucos afortunados que conseguiam uma linha fixa amargavam mais de dois anos na fila. Era item tão valioso que passava como herança de pai para filho. Com a privatização e a chegada dos celulares, nos anos 90, o furor pelo telefone fixo despencou. As linhas foram caindo, caindo e, só no ano passado, 2 milhões desapareceram de lares brasileiros. O celular apagou da memória o tempo em que se esperava meia hora por um sinal de discagem e até um dia para completar um interurbano. Hoje é tudo instantâneo. E silencioso. Psiu.

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