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SEM SANGRAMENTO

Primeiro de sua categoria, remédio diminui hemorragias de pacientes com hemofilia.

Sem sangramento

A identificação precisa do alvo a ser atingido nos tratamentos é o caminho da medicina. É assim no câncer, na cardiologia e, agora, também contra a hemofilia. De origem genética, o distúrbio leva a problemas graves de coagulação, podendo causar sangramentos fatais. Depois de mais de duas décadas sem novidade no tratamento, acaba de ser aprovado no Brasil o medicamento emicizumabe, fabricado pela Roche. Trata-se do primeiro anticorpo monoclonal contra a doença. A classe de remédios tem como característica atuar sobre uma substância específica associada às enfermidades.

No caso da hemofilia, imita a ação do Fator VIII, proteína essencial ao processo de coagulação sanguínea. Deficiências na sua produção caracterizam o tipo A da doença, o mais comum, afetando cerca de 320 mil pessoas no mundo. No tipo B, o fator atingido é o IX. Cerca de 50% a 60% dos portadores do tipo A apresentam a forma grave da doença, com sangramentos frequentes. Até agora, existia apenas a reposição com o Fator VIII sintético. Porém, o composto pode gerar em diversos pacientes a produção de anticorpos contra a substância (os chamados inibidores), o que a torna ineficaz.

Por enquanto, o novo medicamento é indicado para tais pacientes. “Eles estavam órfãos de tratamento”, explica a hematologista Claudia Lorenzato, coordenadora do Hemocentro do Paraná. Nos estudos feitos com pacientes maiores de 12 anos tratados profilaticamente, houve redução de 87% nas taxas de sangramento. Sua administração, com injeções subcutâneas, é mais confortável do que as infusões endovenosas e a periodicidade das aplicações oscila de acordo com os níveis de sangramento. Na opinião da especialista, a droga representa esperança no controle da doença: “Ela traz uma luz de mudança no tratamento como um todo.”

Sem sangramentos.2

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COMPETÊNCIAS SOCIOEMOCIONAIS: O QUE SÃO E COMO DESENVOLVER

A Base Nacional Comum Curricular prevê que as escolas incluam em seus currículos o desenvolvimento das habilidades socioemocionais dos alunos – o que deve acontecer a partir de 2020. Essas competências, que dizem respeito a aspectos como autonomia, trabalho em equipe e criatividade, no entanto, representam uma novidade e um grande desafio para muitos colégios.

Competências socioemocionais

Mãos suando, tensão, preocupação e insegurança. Esses sintomas atingem 80% dos estudantes brasileiros, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Um estudo da organização entrevistou estudantes brasileiros de 15 anos e chegou à conclusão que os estudantes brasileiros figuram entre os mais ansiosos do mundo. E o que isso interfere sobre as práticas pedagógicas e o grau de inovação de uma escola?

Bastante coisa: traz à tona a importância das chamadas competências socioemocionais, que têm sido apontadas como imprescindíveis à formação integral dos alunos. Essas competências cobrem, principalmente, cinco campos: autoconhecimento, autocontrole, automotivação, empatia e habilidades de relacionamento.

Esses campos, por sua vez, estão relacionados a 4 c’s: comunicação, criatividade, curiosidade e criticidade – competências que, juntas, produzem inovação e preparam o estudante para os desafios do século 21.

E o que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) diz sobre essas competências socioemocionais?

Formulada em dez competências gerais como estrutura para guiar o ensino básico no Brasil, a BNCC também deu destaque à temática de inteligência emocional.

O documento reforça que, assim como o desenvolvimento cognitivo, as competências socioemocionais deverão ser aprendizagens essenciais nas salas de aulas.

De acordo com a BNCC, é essencial que os estudantes sejam capazes de:

  • Respeitar e expressar sentimentos e emoções, atuando com progressiva autonomia emocional;
  • Atuar em grupo e demonstrar interesse em construir novas relações, respeitando a diversidade e solidarizando-se com os outros;
  • Conhecer e respeitar regras de convívio social, manifestando respeito pelo outro.

Se as crianças aprendem habilidades socioemocionais, elas vão ter consciência de quem são, quais são seus pontos fortes, como se desenvolver e trabalhar essas áreas.

O intuito desta inclusão é engajar os alunos nas salas de aula e com o seu próprio aprendizado, sabendo que cada um deles tem seus potenciais a serem explorados.

As principais competências que permeiam o aprendizado socioemocional são autoconsciência, autogerenciamento, consciência social, habilidades de relacionamento e tomada de decisão responsável.

É em torno desses pontos que se constrói um aprendizado capaz de orientar o estudante para toda a vida.

O que significa cada um deles?

  • Autoconsciência: Identificar emoções, ter percepção afiada, reconhecer pontos fortes, desenvolver autoconfiança e autoeficácia;
  • Consciência social: Saber olhar as coisas em perspectiva, desenvolver empatia, apreciar diversidade e respeitar os outros;
  • Autogerenciamento: Aprender a controlar impulsos, saber lidar com estresse, ter disciplina, automotivação, buscar objetivos, construir habilidades organizacionais;
  • Habilidades de relacionamento: Comunicação, engajamento social, construir relações e saber trabalhar em grupo;
  • Tomada de decisão responsável: Identificar problemas, analisar e avaliar situações, solucionar problemas, refletir, ter responsabilidade ética.

Com a aplicação destas habilidades nas escolas, as competências socioemocionais geram impactos positivos em várias esferas da vida de um aluno, de acordo com um relatório do Global Education Leader’s Program Brasil:

  • Na aprendizagem: geram ambiente mais favorável à aprendizagem e melhores resultados dos alunos nas disciplinas curriculares tradicionais;
  • No desenvolvimento integral: preparam os estudantes para estar no mundo, compreender os diferentes, ser críticos e atuantes e tomar decisões pautadas na ética. Ajudam-nos a construir seu projeto de vida e a se capacitar para o mundo do trabalho;
  • Na promoção de equidade: dialogam com as necessidades da sociedade civil, mobilizam famílias e contemplam seus anseios, suprem carências de oportunidades e geram impacto nos indicadores sociais;
  • Na mudança cultural: transformam o currículo e a escola, estimulam a atitude cidadã, contribuem para o desenvolvimento de uma cultura de paz.

É importante ressaltar que a ideia da BNCC não é transformar essas competências, necessariamente, em componente curricular, mas articular a sua aprendizagem à de outras habilidades relacionadas às áreas do conhecimento.

Muitas dizem respeito ao desenvolvimento socioemocional que, para acontecer de fato, deve estar incorporado ao cotidiano escolar, permeando todas as suas disciplinas e ações. O desafio, portanto, é complexo, pois impacta não apenas os currículos, mas processos de ensino e aprendizagem, gestão, formação de professores e avaliação. Mas os resultados, certamente, justificam tamanho desafio – e trazem a inovação que as escolas tanto procuram.

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HÁBITOS SAUDÁVEIS CONTRA O SEDENTARISMO

Hábitos saudáveis contra o sedentarismo

Dados do IBGE apontam que uma em cada três crianças brasileiras está acima do peso recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Alarmantes, as projeções sugerem uma população infantil e juvenil com sobrepeso e obesidade de até 75 milhões em 2025. Esse é um dos problemas relacionados ao bem-estar na infância que o projeto Vamos brincar! considera prioritário, e que planeja atacar oferecendo informações sobre alimentação e outros hábitos saudáveis para 15 milhões de famílias nos próximos anos.

O principal instrumento é uma série de 26 episódios já em exibição pela TV Cultura e pela TV Brasil, em parceria com a produtora Sésamo e com a Fundação FEMSA, entre outras instituições, e acompanhada por conteúdos para distribuição nas redes sociais e por material educativo. “Esse projeto de colaboração regional inovador foi possível graças a alianças com organizações públicas e privadas que atuam nas áreas de cultura, saúde e educação em diferentes países”, diz Julia Tomchinsky, diretora de educação e impacto social da Sésamo no Brasil.

Elmo, Come Come e Lola são alguns dos personagens carismáticos da Sésamo usados para atrair crianças de 3 a 6 anos de idade em Vamos brincar! cujos objetivos incluem “assegurar que as crianças Sejam conscientes do seu corpo e da necessidade de cuidar dele”. “perceber a atividade física como algo divertido”. “Ensinar cuidados pessoais e saúde oral”, e “reconhecer a importância do autocontrole”.

Hábitos saudáveis contra o sedentarismo.2

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O YOUTUBE, AS VACINAS E O AUTISMO

Desinformação e notícias falsas propagadas pela internet levam grande número de pessoas a se expor a doenças desnecessariamente.

O youtube, as vacinas e o autismo.2

Em 1998, o ministro britânico Andrew Wakefield, juntamente com outros pesquisadores publicou um estudo na conceituada revista Lancet associando a vacina tríplice viral (MMR), utilizada contra sarampo, rubéola e caxumba, à causa de autismo em crianças. Apesar da imediata reação negativa da comunidade científica questionando os resultados e de publicações nos anos posteriores rebaterem as conclusões do estudo, as repercussões dessa publicação são sentidas até hoje.

Atualmente, sabemos que não existe nenhuma relação causal entre vacinas e autismo, mas o debate se arrastou por anos. Diante das inúmeras evidências de que as conclusões de Wakefield não tinham fundamento, em 2010, o Conselho Geral de Medicina do Reino Unido o julgou inapto para o exercício da medicina, qualificando seu comportamento como irresponsável e antiético. A revista cientifica British Medical Journal considerou o episódio de uma “falsificação elaborada”. No mesmo ano, a revista Lancet retirou o artigo de suas publicações, justificando que diversos elementos da publicação original estavam incorretos.

As causas do autismo ainda são desconhecidas, mas a literatura científica converge para a ideia de que estamos diante de uma condição fruto de uma complexa interação entre genes e ambiente. Alterações genéticas, influenciadas pelas condições ambientais no início da vida, desencadeiam modificações na trajetória do desenvolvimento cerebral. Uma delas se reflete na conexão estabelecida entre os neurônios. Algumas regiões encefálicas apresentam hipoconexão entre os neurônios, enquanto em outra, ocorre o contrário – os neurônios ficam hipoconectados. Na quinta versão do Manual Estatístico e Diagnóstico dos Transtornos Mentais (DSM-5), publicado em 2013, diferentes condições, como o transtorno do autismo, a síndrome de Asperger e o transtorno de desenvolvimento pervasivo, foram integradas em um diagnóstico dimensional: o de transtorno do espectro autista (TEA).

Esses transtornos são definidos pela presença de alterações na interação social e comunicação e pela presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Alterações nestes domínios se manifestarão de diferentes maneiras, como por exemplo, limitações em iniciar e manter relacionamentos ou de se ajustar a diversas situações sociais; exibição de movimentos repetitivos no uso de objetos ou de padrões ritualísticos de comportamentos verbais e não verbais. Estes sintomas manifestam-se nas primeiras etapas do desenvolvimento, mas a idade varia em função da demanda social e das capacidades da criança em desenvolver estratégias para lidar com a alteração.

Na época da publicação do trabalho de Wakefield, ele tentou levantar a hipótese de que a vacina poderia provocar alterações gastrintestinais, as quais levariam a uma inflamação no cérebro, provocando o autismo. Atualmente, sabemos da ligação existente entre a microbiota gastrintestinal e o funcionamento cerebral, mas não existe nenhuma evidência de que a hipótese de Wakefield seja verdadeira. Apesar deste fato, o trabalho do ministro britânico continua provocando estragos. Após a publicação do artigo, a taxa de vacinação contra diversas doenças caiu e em muitos países ainda não voltou a atingir os patamares desejados.

Outra consequência negativa do estudo do médico inglês pode ser observada na discriminação das informações nas mídias sociais. Recentemente, um grupo de pesquisadores da Universidade de Pisa, na Itália, avaliou o conteúdo de vídeos no YouTube usando autismo e vacinas como palavras-chave. Foram analisados 60 vídeos, sendo que a maioria tinha um discurso contrário à vacinação. Esses vídeos eram mais assistidos e compartilhados quando comparados aos vídeos pró-vacinação. Segundo os autores, pessoas que hesitam em usar vacinas são mais sensíveis a ser afetadas negativamente em relação ao uso, fazendo com que as mídias digitais funcionem como uma “câmara de eco” antivacinação. Além disso, na coluna do lado direito da tela, o YouTube recomenda vídeos com conteúdos similares ao que está sendo assistido. Apesar de os algoritmos utilizados para a seleção dos vídeos sugeridos não serem conhecidos, a maior quantidade de vídeos antivacinação disponíveis aumenta a chance de o usuário assistir a esses vídeos e, consequentemente, tornar-se menos receptivos às campanhas de vacinação.

Vivemos num tempo no qual está se tornando cada vez mais difícil separar notícias falsas de verdadeiras. Quase 20 anos após a comprovação da fraude de Wakefield, ainda estamos pagando um alto preço. Fica o alerta. Antes de compartilhar informações, devemos tomar precauções; por exemplo, checar a fonte e verificar se notícias semelhantes estão disponíveis em outros sites e blogues são maneiras de detectar possíveis fake news. Todo cuidado é pouco num mundo onde cliques valem dinheiro.

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A TABELINHA ELETRÔNICA

É aprovado o primeiro aplicativo antigravidez – seguro, mas com eficácia inferior à da pílula e do DIU.

A tabelinha eletrônica.

A tabelinha é um dos mais antigos recursos contraceptivos, usada por mulheres desde priscas eras. Por meio dela, estima-se o período de fertilidade com base nos dias do ciclo menstrual. Com eficácia avaliada em apenas 70%, foi naturalmente substituída, com o tempo, por métodos mais modernos e seguros, como a pílula e o DIU. Agora, a FDA, a agência americana de medicamentos, avalizou a comercialização de uma curiosa invenção que atrela a singela contagem cotidiana a um aplicativo para smartphone. O nome comercial do produto, desenvolvido com tecnologia sueca, é Natural Cycles (ciclos naturais).

Desenhado para celulares, o sistema é alimentado por duas informações básicas: o ciclo menstrual e a temperatura corporal. Ancorado num algoritmo, o programinha calcula em quais dias do mês a mulher está fértil, e pode, portanto, engravidar. O funcionamento é simples. Todas as manhãs, ao longo do mês, a mulher deve medir a própria temperatura, pela boca, com um termômetro ultrassensível, vendido no pacote. Depois, ela põe os dados no celular, e pronto – tudo é calculado automaticamente. A explicação é fisiológica. Durante a ovulação, o organismo feminino aumenta a produção do hormônio progesterona, o composto – chave da gravidez (o nome vem do latim progestare – ou a favor da gestação). A substância eleva em até 0,5 grau a temperatura do corpo – o que é imperceptível por medições comuns. Se o resultado for verde, a usuária não estará ovulando. Se for vermelho, será contraindicado ter relações sexuais sem proteção. A assinatura do aplicativo, já em uso em países escandinavos, custa 50 dólares por ano.

O programa, no entanto, não representa segurança total: a natureza não é tão lógica quanto a inteligência artificial. O corpo humano segue um ritmo biológico que pode ser impactado por algumas variações ambientais, como o stress, o tipo de alimentação, o consumo de álcool e o uso de remédios. O ciclo pode sofrer alterações. O Natural Cycles, dada essa pequena margem de incerteza, tem 93¾ de eficácia – ou seja, de 100 mulheres que o utilizam, sete podem engravidar. A pílula é 98¾ certeira. O DIU hormonal chega a 99,8%. “O índice desse novo produto pode ser bom, mas as estratégias já consolidadas ainda são mais seguras para quem não quer engravidar”, diz o ginecologista Márcio Coslovsky, médico da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida.

Não há hormônios envolvidos no aplicativo, como na pílula anticoncepcional. E essa é uma boa vantagem. Diz Eduardo Zlotnik, ginecologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo: “Um número cada vez maior de mulheres busca métodos contraceptivos naturais e sem intervenções”. As pílulas modernas são seguras, mas raramente isentas de efeitos colaterais. Aumento de peso, es- pinhas, alterações de humor e trombose estão entre eles. Os hormônios das pílulas anticoncepcionais, no entanto, revolucionaram o mundo. Surgidas na década de 60, elas foram o estopim da revolução sexual, dando às mulheres a possibilidade de controlar a própria reprodução, de fazer sexo por prazer e não apenas para reproduzir. “Uma das sete maravilhas do mundo”, na definição de uma reportagem da revista inglesa The Economisc.

 A tabelinha eletrônica.2

 

A tabelinha eletrônica.3

 

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COM FÉ, SEM VÍCIO

Programas religiosos que se baseiam na espiritualidade para curar dependentes químicos obtêm resultados acima da média e levam alívio para usuários e familiares.

Com fé, sem vício

A espiritualidade tem se mostrado uma poderosa arma na luta contra a dependência química. É com o auxílio dela que milhões de pessoas conseguem deixar o vício das drogas. Foi assim, por meio de um retiro espiritual, que Diego Aparecido, de 33 anos, largou a cocaína e saiu das ruas. “Eu tinha abandonado minha família, não tinha mais esperança de vida, só estava esperando a morte. Ai um voluntário veio falar comigo, começou a falar de Deus e o que era a Missão Belém. Então eu perguntei se poderia ir para lá”, diz ele. Localizado em frente à Catedral da Sé, no coração da cidade de São Paulo, o Centro de Acolhimento do projeto Vida Nova, da Missão Belém, funciona 24 horas, por dia e conta com voluntários, na maioria ex viciados que um dia foram acolhidos. O prédio recém-reformado conta com recursos da Arquidiocese de São Paulo e funciona como um centro de acolhida, onde os usuários vivem como uma família em cada andar e ficam durante uma semana, com uma intensa agenda de atividades, orações, sessões de filmes, “laborterapias” e conversas individuais e em grupo. Depois, eles são convidados a ir para um sítio onde permanecem por seis meses em retiro espiritual e então são encaminhados para retomarem seus antigos contatos.

Criado em 2005, o projeto é resultado das ações do padre italiano Gianpietro Manzotti, que, juntamente com a missionária Cacilda Leste e outros voluntários, mergulhava no mundo das ruas da Cracolândia e ficava “dia e noite junto aos irmãos”. “Eles não queriam ir para outro lugar a não ser as nossas casas, porque oferecíamos oração, carinho, diálogo e partilha. Nosso objetivo é ser família para quem não tem família”, diz ele. A receita tem dado certo. Já passaram pela organização 60 mil pessoas e o índice de recuperação é alto: 42% das pessoas foram reintegradas à sociedade. Em tratamentos que não recorrem à espiritualidade, o índice de sucesso é, em média, de 15%, segundo especialistas.

A efetividade do projeto, assim como de outras organizações religiosas que atuam na área, é resultado de uma soma de diversos fatores. Além do acolhimento, ele conta com a ferramenta que é chamada de transcendência pela medicina. “Pode ser uma religiosidade, uma paixão, tudo aquilo que faz o sujeito sair de si em função de alguma coisa”, afirma o psiquiatra Luís Altenfelder. “Nenhum tratamento humano tem tanto resultado quanto uma experiência transcendental, pois ela altera toda a bioquímica, a bioeletricidade e o biomagnetismo cerebral. É como se passasse um antivírus e deletasse tudo o que o cérebro viveu com a droga”, diz Pérsio de Deus, neurocientista e psiquiatra, que trabalha com grupo de religiosidade e saúde da Universidade Mackenzie. Para entender esse conceito, é preciso compreender também como as drogas atuam no cérebro. As substâncias que causam dependência agem em todo o sistema nervoso central e principalmente no sistema de recompensa do cérebro, uma área primitiva desenvolvida para a sobrevivência da espécie. Por meio de estímulos como alimentação, sexo e emoções gratificantes, essa região libera substâncias que dão prazer. É ali que as drogas atuam, o que leva ao seu consumo compulsivo e à eliminação do efeito das fontes naturais de prazer. A transcendência, portanto, faz com que esse sistema condicionado à droga seja neutralizado.

Esse é o método que garante o sucesso dos Alcoólicos Anônimos (A.A.), iniciativa que teve origem nos EUA, em 1935, a partir da experiência de dois alcoolistas considerados “irrecuperáveis” e que chegaram à abstinência com a ajuda mútua (um deles era médico e, o outro, importante nome de Wall Street). O trabalho consiste em 12 passos simples, sendo dez deles relacionados a Deus ou a um poder superior. Presente em 180 países, com mais de 118 mil grupos, o A.A. já recuperou mais de 2 milhões de pessoas. É em parceria com os A.A. e os Narcóticos Anônimos (N.A.) que atua o grupo Dependentes Químicos Luz (DQ Luz), na Zona Leste de São Paulo. Por meio de atendimento voluntário de psicólogos e assistentes sociais, o DQ Luz atende dependentes e suas famílias.

ACOLHIMENTO

Apesar de não estar vinculado a nenhuma religião, o grupo tenta abordar o tema quando percebe que há abertura para isso. “Sem o trabalho da espiritualidade não é possível fazer nada”, diz Zezé Amaral, psicóloga e coordenadora do grupo que funciona no Centro Espírita Meimei. “Indicamos que a pessoa procure a religião que mais se identifica, além de um grupo de A.A. ou o N.A.”, diz ela. Foi assim que Deise Oliveira, de 22 anos, conseguiu vencer o alcoolismo. Quando ela tinha 14 anos, sua mãe morreu de overdose por conta do crack e ela começou a beber. “Eu fui muito acolhida e o apoio do grupo foi fundamental”, diz ela. Além de ter a ajuda de Zezé, que está sempre disponível online, Deise frequenta grupos de anônimos e centros espíritas quatro vezes por semana. “Cerca de 80% da minha reabilitação veio do tratamento espiritual, porque isso deu um novo significado a minha vida”, diz ela.

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A BANALIZAÇÃO DA MORTE

A morte é um tabu sempre presente em nossas vidas. Mas os que sonham com a imortalidade podem agora imaginar possibilidades mais concretas, mostradas na ficção científica e que, quem sabe, serão concretizadas pelos avanços da tecnologia.

A banalização da morte

Uma das descobertas mais importantes do homem foi a morte. Nunca saberemos quando ela ocorreu. Foi uma descoberta avassaladora: a morte como algo universal, predestinado. Tudo que vive é um prefácio de uma morte certa, o tempo de vida é muito curto. Uma descoberta traumática. A inescapável mortalidade. O homem é o animal que sabe que será derrotado pela morte.

Com a descoberta da morte, vieram as tentativas de driblá-la. As religiões inventaram a vida após a morte. Ensinaram-nos a não valorizar tanto a vida, para não sofrermos tanto com a perspectiva da morte. “Quem quiser salvar sua vida a perderá”, diz o Evangelho. E sugere que Deus expulsou Adão e Eva do paraíso pois, ao comerem o fruto da Árvore do Conhecimento, poderiam querer se tornar imortais. A promessa da ressurreição da carne é o coroamento da vida eterna para os cristãos. Curiosamente, o Velho Testamento não faz referência, em nenhuma de suas passagens, à vida após a morte.

“O nosso destino é a escuridão”, proclamou Shakespeare na sua peça Antonio e Cleópatra (ato V, cena II). A morte é um terna sempre presente na literatura e na Filosofia. Há uma longa estirpe de filósofos que se dedicaram a ele, passando por Agostinho, Pascal, Schopenhauer, Kierkegaard e muitos outros. No século passado, Heidegger foi um dos filósofos que mais se preocuparam com esse tema. Para ele, a morte é o Nada, o abismo cardinal, a fonte de toda inquietação humana e do pensamento. Seguindo as pegadas de Heidegger, alguns pensadores existencialistas como Camus e Sartre se debruçaram sobre o significado da morte e da finitude do homem.

O homem do século XXI continua a se debater com o horror absoluto da morte e da extinção de sua espécie. A biologia moderna é a nova narrativa sobre a vida e a morte. A imortalidade da alma é a ancestralidade da vida, sua reprodução indefinida como estratégia para triunfar sobre a morte. O código genético é praticamente o mesmo em todos os seres vivos e é sempre reeditado através das gerações.

Em seu livro mais famoso, O gene egoísta, o zoólogo Richard Dawkins defende que nossos corpos são apenas portadores de genes sobreviventes que, por meio de sucessivas gerações, garantiram o triunfo da vida nos últimos 3,5 bilhões de anos. Todas as espécies que existem são ramificações que surgiram de uma única linhagem primordial. A morte de uma pessoa pode ser uma tragédia individual, mas a espécie humana continuará por mais alguns milhões de anos. Nossa missão, como seres vivos, é transmitir genes.

Mas a biologia não consola ninguém. Quando a questão é a morte de um ser humano, ela serve, no máximo, para que o refrão “e a vida continua” possa ser repetido. A engenharia genética, o transplante de órgãos e até o transplante de cabeças estão a serviço do prolongamento da vida. Mas não nos contentamos com apenas prolongar a vida. Que remos a imortalidade, queremos uma ciência que negue que ela está reservada apenas para os deuses e não para os homens.

Atualmente, alguns gurus do Vale do Silício tentam nos convencer de que é possível fazer uma cópia digitalizada do cérebro das pessoas, com todos os seus circuitos neurais e lembranças. Essa cópia poderia ser enviada para a nuvem, na qual ela duraria indefinidamente. Quem lê esses gurus acaba se convencendo de que a ciência poderá, em breve, burlar a morte. Mas a estratégia para nos convencer de que a ciência poderá lidar com a morte é resultado de uma manobra sutil nas entrelinhas desses textos. Para laicizar a morte, esvaziá-la de todo sentido trágico, é preciso torná-la cada vez mais banal.

O sintoma dessa manobra aparece na ficção científica. Na novela Carbono alterado, livro de estreia de Richard Morgan (que se tornou um seriado de TV), o autor descreve um mundo no qual todas as pessoas têm um “cartucho”, um chip extraordinariamente poderoso que contém uma cópia digitalizada do cérebro. O corpo de uma pessoa pode ser destruído, mas se o cartucho ficar intacto, ele poderá ser implantado em um outro corpo no futuro, que o autor chama de “capa”. Todos passam a vida economizando para comprar uma capa. A única exceção são os católicos, que se recusam a viver novamente e, por isso, assinam um documento registrado no Vaticano para que seus cartuchos não sejam reimplantados.

O cenário descrito por Morgan é bizarro. Nessa sociedade, ninguém teme morrer, pois a morte pode acontecer várias vezes para uma pessoa e ela continuará a viver se o cartucho for reimplantado em outra capa. Uma ameaça de morte não surte efeito. A destruição do corpo e do cartucho não amedronta ninguém. O corpo pode ser substituído por uma nova capa e para o cartucho sempre haverá um backup, que poderia ficar armazenado na nuvem. A morte não é apenas secularizada. Ela é banalizada.

No seriado Westworld há, também, personagens que dizem não temer a morte pois já morreram e voltaram à vida várias vezes. A morte é algo trivial, pois se tornou um problema científico que em breve será solucionado.

Mas o que significa a banalização da morte? Morgan nos fornece a resposta em uma passagem de sua novela, na qual ele afirma: “Mas gente? Pessoas se reproduzem como células cancerosas, são abundantes (…) A carne humana é mais barata que uma máquina. É a verdade axiomática de nossos tempos”.

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JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA – é paulistano, formado em filosofia na USP. Viveu e estudou na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Escreveu mais de uma dezena de livros sobre filosofia da mente e tecnologia. Lecionou na UNESP, na UFSCAR e na PUC-SP.