ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 22 – A HISTÓRIA DE LISA

John e eu trouxemos diferentes formas de pecado sexual e de dificuldades para o nosso casamento. Enquanto John lutava suas próprias batalhas, eu tive de lutar minha própria guerra íntima. Nunca imaginei que escolhas sexuais aparentemente despreocupadas que eu havia feito quando era uma estudante universitária de dezenove anos voltariam para confrontar minha liberdade como uma mulher recém-casada de vinte e dois anos.

Quando meus pais conversaram comigo sobre sexo pela primeira vez, eles me explicaram que o sexo estava reservado para o casamento, mas não me disseram por quê. O que lembro foi que a ênfase principal da conversa era o medo de contrair uma doença e a vergonha de ter uma gravidez fora do casamento.

O casamento dos meus pais era muito instável e parecia haver muita inconsistência entre o que eles diziam e o que de fato faziam. Um exemplo característico dessa inconsistência é o fato de que meus avós por parte de pai terem tido múltiplos casos sexuais. O conceito de pureza ou virtude nunca entrou na conversa. Segundo o que eu podia observar, parecia que o segredo era fazer o que você quisesse desde que se comportasse de forma responsável e não fosse apanhado.

Adotei essa lógica de ação durante a faculdade e a somei a um senso de moralidade que construí ao conviver com minhas amigas: eu só dormiria com pessoas a quem amasse e, além disso, faria sexo com responsabilidade. Um aspecto dessa “responsabilidade” era usar contraceptivos. Quando necessário, eu até levava algumas de minhas colegas menos responsáveis ao meu médico para que elas também pudessem adotar a pílula.

Então conheci John e, ainda no nosso primeiro encontro, ele me conduziu ao Senhor. Eu tinha vinte e um anos. Nasci de novo, fui cheia do Espírito Santo e fui curada, tudo na mesma noite. Durante a nossa conversa, eu disse algo ridículo. Fiz o comentário: “Fico feliz por nunca ter tido um comportamento imoral”.

Tenho de me perguntar por que eu disse algo tão estúpido! Não faço ideia da resposta, a não ser o fato de que eu não entendia a diferença entre moral e santo. Lembro-me de que eu pensava que dormir com pessoas que você amava era igual a ter moral. Embora eu tivesse nascido de novo, naquelas primeiras horas, minha mente estava longe de ter sido renovada.

Mais tarde, quando começamos a namorar, esperava que John tivesse esquecido o que eu dissera. Imagine meu terror quando ele me disse: “Fico muito feliz porque nós dois nos guardamos”.

Tive vontade de gritar: “Não! Aquilo era um bebê cristão ignorante e recém-nascido falando!” Foi quando descobri o quanto as consequências das minhas escolhas pessoais poderiam ser dolorosas para os outros.

Então chegou o dia em que eu soube que John ia me pedir para passar o resto da vida com ele, e eu soube que tinha de lhe contar a verdade.

Eu sentia que não merecia John e acreditava haver perdido a preciosa oportunidade de construir minha vida com um homem que amava a Deus e se importava comigo. Saí para caminhar um pouco e clamei a Deus. Eu sabia que havia sido perdoada, mas estava dominada pelo remorso que sentia das consequências das minhas escolhas sexuais.

Fui ao apartamento de John para falar com ele, mas, antes que eu pudesse confessar meu segredo vergonhoso, ele disse:

—  Você se importa se eu ler um versículo da Bíblia? Senti o desejo de compartilhá-lo com você.

Concordei, então John começou a ler:

— “Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17, AA). Sei que isso parece estranho — ele continuou —, mas senti como se Deus me falasse para dizer a você que as coisas velhas passaram. Você é inteiramente nova, e é como… uma virgem.

Pensei que fosse vomitar.

— Eu não sou virgem — eu disse. — Era isso que eu ia lhe dizer. John segurou-me pelos ombros, olhou-me nos olhos, e disse:

— Se Deus diz que você é, quem somos nós para discutir? Naquele instante, toda a minha vergonha desapareceu.

RESTAURANDO A SEXUALIDADE QUEBRADA

Ainda assim, eu havia despertado a minha sexualidade na dimensão da luxúria e não do amor. Quando entrei no casamento e quis amar, eu não sabia como fazer isso. Na minha mente, sexo era ruim. Era errado. Era proibido. Agora que estávamos casados, o sexo de repente era bom e era algo de Deus e devia ser celebrado. Eu não sabia como fazer essa transição.

Se John e eu ficávamos sozinhos, eu tinha um súbito e aterrorizante flashback de uma imagem de algum filme pornográfico horroroso que havia assistido cinco anos antes na faculdade. Ou eu me fechava sexualmente com vergonha por causa das memórias que tinha de encontros sexuais passados com um ex-namorado. Era terrível.

Quando devia ser capaz de me entregar livremente a meu marido com total abandono, eu me via amarrada ao passado. John merecia tudo de mim, e eu não conseguia ter liberdade sexual por causa das minhas violações anteriores. Eu lutava contra pensamentos e imagens impuras, comparações e vergonha. Eu lutava contra essas coisas, mas parecia que nada adiantava. Foi nesse período da minha vida que aprendi sobre o poder de quebrar os laços da alma e as maldições hereditárias.

Falamos das maldições hereditárias anteriormente neste livro. Como mencionei, havia uma história de imoralidade e infidelidade na minha linhagem, à qual eu tinha de renunciar. Mas eu também tinha de quebrar laços em minha alma criados por encontros passados para que a minha sexualidade fragmentada pudesse ser restaurada. Vamos ler um versículo que trata desse assunto:

Vocês não sabem que os seus corpos são membros de Cristo? Tomarei eu os membros de Cristo e os unirei a uma prostituta? De maneira nenhuma! Vocês não sabem que aquele que se une a uma prostituta é um corpo com ela? Pois, como está escrito: “Os dois serão uma só carne”. 1 Coríntios 6:15-16

Não estou chamando meus ex-namorados de prostitutos, mas o princípio aqui é o mesmo. Eu havia me unido a eles e sido uma só com eles, e agora eu tinha uma aliança com outro homem. A cada união e separação, minha alma havia sido fragmentada até eu não ser mais inteira – e agora, eu estava quebrada sexualmente. Quando você está quebrado sexualmente, torna-se incrivelmente difícil você se entregar completamente ao seu cônjuge, porque você não está mais completo.

Para andar em pureza e desfrutar o dom da intimidade, precisamos estar inteiros, e só Deus pode restaurar nossa integridade quando ela foi maculada. Só Deus pode restaurar a honra da nossa sexualidade onde houve violação e desonra. Só Deus pode pegar o impuro e contaminado e torná-lo santo e puro novamente. Só Deus pode nos dar uma bela coroa pelas cinzas que nós levamos a Ele.

Se sua sexualidade foi maculada por causa da imoralidade no passado (quer seja promiscuidade, pornografia unida à masturbação ou qualquer outra impureza), gostaríamos de convidá-lo mais uma vez a dedicar um tempo para uma oração de restauração. Mais uma vez, prepare-se espiritualmente antes de orar, e ore somente com seu cônjuge, com um amigo próximo, com um parceiro de oração, ou apenas com a presença do Espírito de Deus. Diga em voz alta:

Pai celestial,

Obrigado por enviar Teu Filho para sofrer a punição pelo meu pecado. Porque estou em Cristo, todas as coisas velhas passaram da minha vida. Agora todas as coisas são novas. De acordo com 2 Coríntios 5:21, Jesus levou meu pecado para que eu pudesse me tornar a Tua justiça. Isto é o que sou hoje.

Agora confesso e renuncio ao meu pecado e aos pecados de meus antepassados por todo e qualquer envolvimento em pecado sexual e por toda impureza, perversão e promiscuidade. (Tenha o cuidado de citar aqui especificamente os pecados aos quais você está renunciando. Diga-os em voz alta diante de Deus sem vergonha. Não há nada em oculto – Ele já conhece cada um deles e anseia por remover de você o peso da culpa e da vergonha. Então, quando estiver pronto, prossiga.)

Pai, toma a espada do Teu Espírito e corta todo laço sexual impuro que prenda a minha alma à alma de… (ouça o Espírito Santo e diga cada nome à medida que for ouvindo. É bem possível que os nomes possam ser de pessoas com quem você não teve relações sexuais, mas com quem você se envolveu sexual ou emocionalmente de uma maneira que deveria estar reservada ao seu cônjuge ou ao seu Salvador somente).

Depois de dizer cada nome individualmente, ore:

Pai, libera Teus anjos para recuperar os fragmentos da minha alma presos a essas pessoas. Restitui-os a mim pelo Teu Espírito para que eu possa ser íntegro, santo e separado para o Teu prazer.

Pai, renuncio à influência de toda imagem pervertida e promíscua. Perdoa-me por permitir que imagens vis e pervertidas fossem colocadas diante dos meus olhos. Faço uma aliança de acordo com o Salmo 101:3, de guardar as fontes do meu coração através da porta dos meus olhos. Não permitirei que nenhuma coisa vil esteja diante dos meus olhos. Renuncio a todo espírito impuro e ordeno que ele e sua influência saiam da minha vida.

Pai, lava-me no sangue purificador de Jesus, pois só ele tem o poder para purificar e expiar. Eu me consagro agora como Teu templo; pelo poder do Teu Santo Espírito, remove toda contaminação do espírito, da alma e da carne deste santuário. Enche-me até transbordar com a presença do Teu Espírito Santo. Abre meus olhos para ver, meus ouvidos para ouvir e meu coração para receber tudo o que tens para mim. Sou Teu. Faz a Tua obra em minha vida.

Com amor, Teu filho.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CRIMES, TESTEMUNHOS E FALSAS RECORDAÇÕES

Podemos acreditar no relato de alguém que presencia um crime? Se a testemunha tem boa memória, tendemos a confiar em suas observações, mas os mecanismos que elaboram as lembranças pedem cautela

Jura dizer a verdade, toda a verdade, nada mais que a verdade? “Juro.” Apesar da fórmula ritual, em geral estamos dispostos a acreditar nos relatos de uma testemunha ocular com boa memória e, obviamente, desinteressada, inclusive nos detalhes relativos às roupas e ao aspecto físico da pessoa que cometeu o delito. Mas a psicologia cognitiva ensina que a mais sincera das testemunhas pode se enganar. Não se trata de uma questão de boa-fé, mas de um problema ligado aos mecanismos que elaboram as recordações.

Entre juízes e magistrados é disseminada a convicção de que a psicologia diz respeito, quase exclusivamente, aos transtornos psíquicos. A disciplina é associada ao uso de testes psicológicos ou terapias, instrumentos para diagnosticar e tratar problemas psicológicos no nível individual ou sistêmico. Assim, o psicólogo só é solicitado como especialista quando o juiz deve conhecer características da personalidade, desenvolvimento intelectual e o eventual tipo de psicopatologia do réu.

Mas, na realidade, um campo da psicologia pode dar contribuições fundamentais a certos aspectos da atividade jurídica e de investigação, como o interrogatório e o testemunho: o estudo da memória e dos processos cognitivos. Não por acaso, há duas associações científicas de psicologia e direito – uma europeia e uma americana – formadas por pesquisadores que se dedicam à interface entre psicologia e aspectos jurídicos.

Para se ter uma ideia da importância da psicologia cognitiva nessa área, basta mencionar que, nos Estados Unidos, durante a administração Bill Clinton, alguns estados modificaram a lei seguindo resultados de pesquisas realizadas no campo cognitivo-jurídico. Essas pesquisas apontaram problemas no modo pelo qual era realizado o lineup, o procedimento que tenta identificar culpados mediante a exibição de retratos ou pessoas. O típico lineup simultâneo leva à identificação de um dos indivíduos mostrados, ainda que o culpado não esteja entre eles. As falsas identificações chegam a atingir níveis muito altos, em torno de 70%.

A psicologia cognitiva é importante para avaliar os testemunhos porque estes se baseiam na memória. Compreender como funciona a memória, quando uma recordação é correta ou incompleta, errada ou inteiramente falsa, permite estabelecer se um testemunho é exato e se pode ser utilizado como prova.

Objeto de investigação dos gregos antigos e dos romanos, o estudo científico da memória só foi iniciado no final do século XIX, com Hermann Ebbinghaus. Apesar disso, seus mecanismos são bastante conhecidos, graças ao surgimento da psicologia e da neuropsicologia cognitivas. Sabemos hoje que a memória humana não é composta de um sistema único, mas de vários, parcialmente independentes. Entre os principais sistemas estão a memória “semântica”, de longa duração, que contém informações relativas aos fatos e aos conceitos, e a “episódica”, também de longo prazo. Nela estão contidos os dados sobre eventos singulares, como o local e o momento em que aconteceram. Lembrar de uma lista de palavras apresentadas uma hora atrás, de um roubo ou do rosto do culpado são tarefas da memória episódica. A parcial independência entre essas duas formas de memória foi formulada e demonstrada por Endel Tulving em uma série de pesquisas realizadas nos anos 70. Recentemente, essa tese foi confirmada por estudos neuropsicológicos sobre pacientes que sofrem de uma forma de déficit seletivo (nos quais só uma pequena área cerebral estava lesionada ou que só tinham alguns aspectos comportamentais delimitados comprometidos).

Estudos na área da psicologia e da neuropsicologia cognitivas possibilitam a compreensão do funcionamento de um dos aspectos humanos mais opacos e difíceis de observar a mente. As experimentações feitas em pessoas normais, os estudos de casos singulares de pacientes neurológicos com problemas específicos e a técnica de imageamento cerebral permitiram formar um quadro aprofundado do funcionamento da memória. Além da memória episódica e da semântica, as investigações delinearam o funcionamento de uma memória de trabalho de curta duração, de uma memória autobiográfica de longa duração, de uma memória explícita e de uma implícita.

Esses sistemas são permeáveis entre si, os conteúdos e processos de um informam os conteúdos e processos dos outros. A interação entre as memórias episódica e semântica é crucial para o testemunho. Envolvendo a recordação de um ou mais eventos específicos, um testemunho recorre à memória episódica e segue suas regras de funcionamento. Várias pesquisas demonstraram, porém, como o conteúdo dessa memória é influenciado por elementos presentes na memória semântica e como os conhecimentos gerais estão ativos no momento em que se assiste à cena ou se tenta recordá-la.

Na literatura científica, há exemplos interessantes que mostram como a ativação do conteúdo da memória semântica influi e modifica o conteúdo da memória episódica. Quando um estudante universitário é instado a recordar as notas que recebeu nos exames de meio de semestre, em geral lembra das mais altas ou mais baixas, dependendo da nota final obtida. Se a nota final for alta, as intermediárias recordadas serão maiores que na realidade o foram, se for baixa, serão recordadas notas menores que as efetivamente obtidas no meio do semestre.

Um efeito similar, embora mais extremo, foi descoberto por uma pesquisa recente sobre a memória autobiográfica. Os participantes foram informados que, no ano em que nasceram, várias maternidades tinham música nos berçários. A informação, apesar de falsa, teve o efeito de fazê-los “recordar” a música. Fenômenos como esse se devem ao fato de que, no momento da recordação, os dados mais recentes da memória são os mais facilmente ativados. Estes interagem e passam a fazer parte do conteúdo da memória episódica ou autobiográfica, produzindo modificações relevantes na recordação originária, como no caso das notas, ou criam lembranças inexistentes, como no caso da música no berçário.

Tais resultados sugerem que a memória não é comparável a um filme ou a uma sequência de fotografias, que poderiam ser reproduzidas e revistas à vontade e sem que seus conteúdos sofressem qualquer alteração. A memória não é reprodutiva. Ao contrário, está articulada a uma série complexa de processos – entre os quais aqueles relativos à atenção e à percepção, cujo papel é preponderante – mediante os quais informações são codificadas de modo fragmentário e distribuídas em várias áreas do cérebro. O hipocampo parece ser responsável pelos processos de codificação. Algumas áreas do lobo parietal e temporal seriam decisivas na representação de informações a longo prazo. Caberia ao lobo frontal planificar e  organizar os processos ativos no momento da codificação e da recordação.

A informação codificada, portanto, jamais será a cópia exata do que foi visto ou do que ocorreu. A recuperação efetuada pela memória pode ser o resultado de processos de reconstrução, que reativam e criam informações de natureza episódica e semântica relevantes para o que se deseja lembrar. Essas informações são integradas entre si e a “recordação” é o resultado final dessa integração.

Assim, no momento em que se testemunha um assalto, o fato não é codificado como se fosse uma cena coerente e completa em si mesma. Codifica-se, sim, o fato de que um assalto está ocorrendo, processo que ativa na memória semântica as informações relativas ao que ocorre normalmente durante um evento desse tipo. Além disso, são codificados elementos dispersos relativos ao lugar, aos objetos e às pessoas, mas nem tudo é registrado, e muita coisa se perde. Se houver uma arma, por exemplo, a atenção será concentrada nela e suas características provavelmente serão codificadas de forma clara (no que se conhece como weapon effect), em detrimento de outros elementos, sobre os quais a atenção não se detém. Muitas vezes a testemunha sabe reconhecer perfeitamente a arma do delito, mas não consegue identificar quem a segurava, ainda que o lineup seja conduzido de forma correta.

A informação codificada permitirá à pessoa recordar que presenciou um assalto, reconhecer a arma e, talvez, identificar outros elementos da cena. Mas jamais será possível extrair da memória a recordação completa da cena, como se fosse um filme. Dado que a memória é sempre reconstitutiva, ainda que em graus variáveis, uma testemunha nunca terá o relato exato do ocorrido.

Outro aspecto importante é que o próprio ato de rememorar pode modificar o conteúdo daquilo que se recorda e que será lembrado mais uma vez. Pesquisas recentes demonstram como a lembrança de um elemento reforça sua representação na memória, inibindo e enfraquecendo gradualmente a representação de outros elementos.

Um exemplo claro da interação entre as memórias episódica e semântica é a influência exercida por estereótipos e preconceitos sobre a lembrança episódica. Um estereótipo é uma forma de conhecimento, ou melhor, de convicção, estruturada de forma rígida e, portanto, dificilmente modificável, mesmo que sejam apresentadas informações contrárias a ela. A presença de estereótipos em nossa consciência está vinculada à tendência de nosso sistema cognitivo, em particular aos processos de raciocínio, de privilegiar a rapidez e a eficiência, sacrificando às vezes a precisão ou a verdade.

Nos Estados Unidos é comum entre brancos o preconceito de que os jovens negros são criminosos. Quando há um delito, costuma-se deduzir que o infrator seja negro. Suponhamos que uma pessoa branca presencie um assalto e vislumbre o culpado. Se ela compartilhar do preconceito, este será ativado de modo quase automático na memória no momento em que assistir à cena ou quando tentar recordá-la. O conteúdo do preconceito contaminará assim a lembrança que se tem do ladrão. Ao prestar depoimento, ela provavelmente “recordará” um infrator negro e jovem, ainda que não o tenha visto de forma clara.

A recordação de um negro no papel de ladrão não é um sinal de má-fé ou de confusão mental, mas produto da ativação inconsciente de informações prévias. Esse procedimento de acesso aos dados contidos na memória semântica e sua interferência nas informações da memória episódica é responsável também por outras formas de recordações equivocadas (e, portanto, de depoimentos errados).

Vimos até aqui, que oconteúdo de um testemunho depende da codificação e da recordação e que um papel importante é desempenhado nesses processos pela interação entre os conteúdos das memórias semântica e episódica. Mas o conhecimento que a testemunha possui não é o único fator que pode modificar a recordação. Uma importante fonte de alteração é a informação verbal fornecida durante ou após um interrogatório ou uma entrevista investigativa. Descobriu-se, por exemplo, que se os interrogatórios contêm perguntas que sugerem a resposta ou apresentam versões incorretas dos fatos, novos conteúdos podem ser incorporados na recordação do evento original (missinformation effect). Isso torna problemático decidir se o testemunho é verdadeiro ou não. Falar de pessoas ou objetos que não estavam presentes na cena originária determina um significativo aumento na recordação deles, como se de fato tivessem participado. Sugestões sutis, como a substituição de um artigo indefinido por um definido (“era o homem” em vez de “era um homem”), são capazes de alterar substancialmente a lembrança: é mais provável que as pessoas se lembrem da presença de um homem quando o artigo é definido. Esse efeito é criado pelas informações ativadas automaticamente na memória. Perguntar “era um homem” não fornece dados precisos, ao passo que indagar “era o homem/ativa a ideia de que um homem estava de qualquer forma presente, e a sua presença é codificada na memória.

São comuns os interrogatórios realizados de forma incorreta ou os procedimentos de investigação em que são apresentados fatos e dados, sobre os quais a testemunha nada falou, como se fossem verdadeiros. O resultado de casos registrados e analisados é sempre o mesmo: a testemunha acaba por aceitar os conteúdos sugeridos e, com o tempo, passa a considerá-los parte da recordação do evento originário. O fenômeno é evidente sobretudo nos interrogatórios e nas entrevistas investigativas realizadas com crianças. Quando os inspetores sugerem informações, elas inicialmente negam, mas depois cedem às insistências e aceitam o que lhes é dito.

Além disso, a pressão da conversa durante a entrevista também pode levar as pessoas a criar falsas recordações. Não é difícil encontrar casos em que a testemunha é instada a afirmar falsidades, insistindo-se quando ela nega e estimulando-a, de modo mais ou menos explícito, a descrever o fato como se este tivesse realmente ocorrido.

Um exemplo que gosto de citar é o do suposto abuso sexual sofrido por uma menina. O psicólogo que conduzia a entrevista solicitou que esta fosse filmada. A menina recusou, mas o psicólogo insistiu e ela por fim aceitou a presença de uma câmera, prosseguindo seu relato e informando quem teria sido e como se chamava a pessoa que abusara dela. Essas informações foram repetidas pela menina em várias investigações, após meses e anos.

O estudo mais recente sobre o tema demonstra que, uma vez induzidas a falar e por vezes a inventar detalhes falsos sobre um fato não ocorrido, um percentual elevado de crianças recorda, após muito tempo, do conteúdo dos próprios relatos, como se fossem parte de experiências realmente vividas, e só de forma hesitante conseguem distinguir a realidade da fantasia. Em suma, o conteúdo da narrativa pode se tornar realidade. Um fenômeno similar também foi observado entre adultos, mas no caso das crianças os percentuais foram altíssimos. Mais de 80% afirmam que o conteúdo do narrado durante a conversa era parte do evento vivido.

Infelizmente, os processos responsáveis por tais erros são latentes e escapam à consciência dos indivíduos, seja dos que formulam as perguntas, seja dos que devem responder. Assim, uma testemunha pode, de boa-fé, relatar coisas que não são verdadeiras e modificar bastante o conteúdo dos episódios que narra.

Vimos como o conteúdo da recordação de um evento ao qual se assistiu pode ser alterado. Nesses casos, porém, são modificadas apenas partes da recordação de um fato que, de qualquer forma, ocorreu e foi testemunhado pela pessoa.

Mas, durante a década passada, as pesquisas demonstraram como é relativamente fácil ocorrer a criação de lembranças inteiramente falsas.

A partir de um estudo realizado em 1995 pela equipe de Elizabeth Loftus várias pesquisas mostraram como as pessoas criam recordações autobiográficas falsas. Em um desses estudos, universitários foram informados de que, quando crianças, haviam se perdido em um centro comercial, algo que, de fato, não ocorrera. Para dar mais peso, o episódio era contado a eles por um irmão ou irmã mais velhos, devidamente instruídos pelos pesquisadores. Um certo número de estudantes, após ouvir o relato, disse “recordar’ o evento, enriquecendo-o com detalhes e elementos novos. Essas recordações eram verdadeiras ou falsas. Provavelmente falsas, já que, segundo a família, essas pessoas jamais haviam se perdido num centro comercial.

Como uma pessoa pode recordar eventos que jamais ocorreram? Uma pesquisa recente que realizei com alguns colegas mostra que o simples ato de imaginar um evento pode levar à criação de lembranças autobiográficas falsas. Solicitamos que estudantes imaginassem ou lessem sobre dois acontecimentos. Um destes era um fato comum: ir ao dentista para extrair um dente. O outro, um evento que jamais poderia ter ocorrido aos pesquisados, a extração de um fragmento da pele do dedo mínimo feita por uma enfermeira, procedimento inexistente no país dos participantes. Os estudantes foram então solicitados a fechar os olhos e imaginar a si mesmos aos 6 anos, quando estavam no dentista ou no consultório médico. Deveriam imaginar a cena com detalhes: pessoas que os acompanhavam, roupas, cores, conversas, o tempo transcorrido e o que haviam sentido e pensado naqueles momentos.

Os resultados foram impressionantes. O processo imaginativo, que durava menos de dez minutos, levou muitos deles a aumentar significativamente a certeza que tinham dos eventos, e não só no que se refere à extração do dente, que pode ter lhes acontecido, mas também à remoção da pele, que, como sabemos, é falsa. Cerca de 25% afirmaram lembrar da intervenção no dedo. A imaginação ´permitiu que criassem uma lembrança relativamente completa, ainda que incorreta, de um evento que jamais ocorreu. As falsas lembranças, além disso, eram detalhadas e difíceis de distinguir das verdadeiras. Ouvimos, por exemplo, relatos como este: A escada era cinza, os degraus reluziam. A enfermeira era alta e loira. Ela pegou em minha mão, mas não senti nada. Minha mãe me comprou balas, pois eu me comportei bem”.

A importância da imaginação já havia sido enfatizada por outros pesquisadores. Seu papel pode ser explicado fazendo-se referência, de um lado, a seus efeitos sobre a memória, de outro, ao fenômeno do chamado “monitoramento da fonte de informação”(source monitoring). Há muito se estudam as imagens mentais, e hoje algumas de suas características são relativamente bem conhecidas. Sabemos, em particular, que elas têm aspectos de natureza representativa e funcional em parte similares aos da percepção, isto é, ao conteúdo mental derivado de um ato de percepção visual. Simplificando processos que são na realidade muito complexos, pode-se dizer que o fato devermos uma xícara envolve a criação de uma imagem mental do objeto. Durante certo tempo, a representação conserva algumas de suas características físicas, como cor, luminosidade, e detalhes.

Em geral, para sabermos se a xícara criada na mente é fruto da imaginação ou foi mesmo vista, empregamos uma série de processos de natureza metacognitiva (mecanismos de avaliação relativos aos processos cognitivos), por meio dos quais as características da xícara mental” são confrontadas com as características de uma imagem mental e com as de uma percepção. Essa série de processos metacognitivos é definida como source monitoring, já que permite distinguir a fonte da qual provém a informação que se tem na mente. Imagens mentais detalhadas e vívidas podem enganar os processos de source monitoring e levar a confundir algumas representações mentais com objetos vistos de fato. “Enganos” similares impedem às vezes sabemos se a cena que se tem em mente foi vivida ou sonhada.

A imaginação não é o único meio de criação de falsas recordações autobiográficas. A intervenção de outras pessoas (terapeutas, parentes, entrevistadores) pode levar uma pessoa a acreditar que viveu certo acontecimento e, em seguida, recordá-lo, ainda que isso não seja verdade. Alguns estudos mostram como a interpretação dos sonhos ou a hipnose levam alguém a acreditar que viveu um fato e a desenvolver a lembrança correspondente a ele.

Para estudar o efeito da técnica hipnótica da regressão sobre a memória autobiográfica, Nicholas P. Spanos e colaboradores solicitaram aos seus pesquisados que retrocedessem no tempo até os primeiros meses de vida. Nesse ponto, foram instados a visualizar o brinquedo colorido suspenso em seu berço. Após esse procedimento, cerca de 30% diziam recordar do brinquedo, descrevendo-o com detalhes. As pessoas do grupo de controle, que não foram instadas a visualizar o brinquedo, não eram capazes de recorda-lo.

Estes exemplos sugerem que é relativamente fácil criar falsas recordações autobiográficas. E de fato é. Mas a maioria das pesquisas sobre o tema revelou que cerca de 25% a 30% dos participantes criam uma recordação falsa, enquanto os outros parecem relativamente imunes. Esse dado, por um lado, suscita a pergunta, quais são as características dos indivíduos que criam lembranças falsas e em que se distinguem dos outros? Por outro, indica que a criação de recordações autobiográficas falsas ocasionadas pela intervenção externa não é a norma. Não se trata, porém, de uma exceção, já que o percentual envolve cerca de um terço da população investigada, o que não é pouco

Vale notar que o percentual citado refere-se à criação de recordações falsas de natureza autobiográfica, isto é, de situações em que a pessoa recorda como teriam ocorrido fatos que na verdade jamais aconteceram, ao menos no período de tempo especificado. Mas vimos que as pessoas também criam lembranças falsas na memória episódica não autobiográfica. O exemplo mais simples e claro é o da recordação de uma lista de palavras como sonho -noite – travesseiro – cansaço – cama, todas associadas à uma palavra ausente da lista: “sono”. Ora, os vários experimentos realizados com essa técnica confirmaram que a palavra sono é, em geral (até 80% dos casos, recordada como se tivesse sido apresentada. Isso indica como o fato de recordar coisas que não ocorreram pode ser um fenômeno muito difuso, que não se limita a um percentual relativamente baixo da população.

Parece razoável perguntar se, dada a facilidade com que criamos recordações erradas ou falsas, é possível acreditarem um testemunho. Seria digno de um furo jornalístico dizer que  não, mas nosso propósito não é esse.

Os fenômenos bizarros que descrevemos, segundo os quais um indivíduo pode, de boa-fé, recordar eventos jamais ocorridos, suscitam reflexão e sugerem prudência na avaliação da veracidade do relato de uma testemunha. Cabe notar, porém, que a memória humana é exata o suficiente para permitir ao homem sobreviver num mundo e numa sociedade complexas. A memória, em geral, é um instrumento no qual, com razão, confiamos no dia a dia.

A testemunha muitas vezes recorda de modo relativamente preciso alguns aspectos do que ocorreu. Mas a memória, num depoimento, não é formada apenas por conteúdos esquemáticos e dados de base. Trata-se de uma memória de detalhes, às vezes minuciosos (“O senhor lembra se o chapéu do ladrão tinha aba?), e essa memória pode ser mais facilmente manipulada que a memória cotidiana. É preciso, pois, extrema cautela.

OUTROS OLHARES

A DIFÍCIL DECISÃO DE ENVELHECER

A longevidade foi a grande promessa da Modernidade. O que fazer agora?

“Acho que decidiu envelhecer.” A frase perdida lá pelo meio do livro A ridícula ideia de nunca mais te ver, o mais recente da escritora espanhola Rosa Montero, surpreende o leitor. Sobretudo aquele interessado no tema da longevidade. O texto de estilo indefinível é um relato sobre o luto baseado ou transpassado nos diários da cientista Marie Curie (1867-1934) e ora se faz de biografia. ora de romance, ora de reportagem, mas sempre de maneira potente.

A conclusão de Montero sobre sua personagem torna impossível apagar da cabeça um monte de perguntas filosóficas que insistem em andar atrás da falsa ingenuidade da frase. A tal “decisão” de Curie, conta a escritora, teria sido tomada depois de a cientista, única mulher vencedora de dois prêmios Nobel, viver um dos anos mais difíceis de sua vida.

Curie ficou repentinamente viúva de Pierre, atropelado por uma carruagem; enfrentou um linchamento público sob a acusação de ser o pivô do fim do casamento de seu novo companheiro, um ex-aluno bem mais jovem; lutou contra o machismo da academia sueca para receber, ela mesma, seu prémio, subindo em um palco reservado exclusivamente aos homens. “Estava destruída”, conclui Montero em um momento biógrafa. No ano seguinte, Curie, sempre segundo a romancista, voltou a ficar de pé. “Mas de alguma maneira nunca mais foi a mesma.” Eis outra frase reveladora da ideia do envelhecer. Pelo menos no início do século passado.

O que terá mudado? Nas últimas semanas, um exército de internautas pelo mundo todo –    com perdão da redundância – decidiu envelhecer. Saíram colocando fotos e mais fotos em um aplicativo e, em fração de segundos, estava tomada a tal da “decisão”. Simples assim. Só que não. Curie que o diga. Naquele ano de 1913, Albert Einstein (1879- 1955) disse que ela parecia “fria como um peixe”. Montero o reprova: “Mal sabia ele que estava vendo apenas a capa endurecida pela intempérie de um núcleo de lava”.  O mergulho dos internautas no túnel do aplicativo remete à mesma frieza. Ilusão. Einstein deixou-se impressionar por uma senhora ativa a fazer ciência de ponta em seu laboratório a despeito das desgraças da vida.

As representações gratificantes da velhice, no entanto, são dúbias. Ao mesmo tempo que ajudam a desconstruir os estereótipos, o preconceito ou o idosismo (minha tradução de ageism, a discriminação etária), ampliam o risco de a sociedade alimentar o processo de “reprivatização da velhice”, um termo já clássico na literatura das ciências sociais, cunhado em 1999 pela antropóloga Guita Grim Debert.

Assim como se entra em um aplicativo e enruga-se voluntariamente o rosto e branqueiam- se os cabelos, vive-se o perigo de atribuir a uma “decisão” do indivíduo aquilo que é coletivo, construído socialmente, e fazer a velhice desaparecer do leque de preocupações sociais. Cada um poderia tomar a “decisão” de maneira unilateral, a seu tempo e de forma fria. Sempre sem dor. E quem a toma sem precauções ou na hora errada, sublinha Debert, é julgado pela sociedade e condenado por ter sido negligente.

Faz tempo que essa falsa “decisão” é objeto de reflexão de pensadores. Em 2007, a Presse Universitaires de France (PUF) publicou um livro de professores e pesquisadores do envelhecimento com a coincidente indagação: Quand est-ce que je vieillis? (Quando é que eu envelheço?, em tradução livre). O ponto de interrogação no fim do título incomoda tanto quanto aquele torturante band-aid no calcanhar da música de Aldir Blanc. Claro, bem antes, tivemos Cícero (106 a. C- 43 a.C.) a nos alertar que “somente os idiotas se lamentam de envelhecer”. E tivemos Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.) a convencer Paulino de que mais importante do que ocupar um alto cargo ou acumular riqueza era estudar filosofia. Por que? Porque a vida é breve.

Mas agora a vida é longa. Ao menos na promessa da longevidade, a grande revolução ou a grande conquista da Modernidade. Ah, a modernidade! Prometera-nos tanta coisa. Liberdade, democracia, bem-estar, e deixou muito a dever com sua ideia de progresso. Mas uma coisa terá sido cumprida. Nos deu uma vida mais longa. A tecnologia aplicada à medicina prolonga – até quando? – a expectativa de vida. O que mudou com a longevidade? Muitas coisas. Com uma exceção, segundo os filósofos franceses Eric Deschavanne e Pierre-Henri Tavoillot em Philosophie des dges de ln vie (Filosofia das idades da vida, em tradução livre): a idade como o critério irremovível na identidade legal. Escrevem eles: “podemos mudar de aparência, de nome, de nacionalidade e até mesmo de sexo, mas não de idade”. Talvez.

Essa assertiva de Deschavanne e Tavoillot é inquestionável no aspecto normativo, obviamente. Mas, se a modernidade falhou em vários aspectos, a Pós-Modernidade, se encarada como sua contendora, teria ganho um ponto ao afirmar o desaparecimento ou a compressão do espaço e do tempo. Como disse Paul Virílio (1932-2018), as duas referências sucumbiram como dimensões significativas do pensamento e da ação humanos. Se passamos a habitar ”o globo” e estamos “on-line”, em qualidade vivemos? Quando envelhecemos?

Em Economie du vieillissement (Economia do envelhecimento, em tradução livre), o economista Grégory Ponthiére, da Paris School of Economics, nos oferece uma alternativa bastante relevante. Vivenciamos o deslocamento da idade segundo ele, para o campo econômico. No século XXI, a humanidade vive uma perigosa exacerbação de uma definição da idade pela funcionalidade, produtividade ou status socio- econômico do indivíduo. Nessa perspectiva, a velhice pode chegar a qualquer momento?

A gerontologia – o estudo do envelhecimento – sempre trabalhou com a idade cronológica e a idade biológica em sua ardorosa tentativa de descolar velhice e doença. A velhice, de acordo com esse entendimento, é um processo biopsicossocial, o resultado de um ciclo de vida e o momento no qual desagua tudo o que foi acumulado neste percurso jamais preciso, como nos disse Fernando Pessoa.  No entanto, quando reforçamos nessa interpretação o pilar socioeconômico, o resultado é desafiador – ou desesperador neste século XXI.  Existem várias velhices!

Vivemos mais e melhor. E isso vale, relativamente, para todas as classes sociais em comparação com as gerações anteriores. A economia contemporânea, todavia, assumiu uma hegemonia como determinante da idade do indivíduo deste século, e o fato de isso ocorrer justamente quando o mundo envelhece é algo opressor. Segundo Ponthiére, além das idades biológica e cronológica, temos uma idade econômica. Essa última, ainda pouquíssimo explorada, passa a influenciar as outras duas. A economia esvazia qualquer poder de decisão e pode até devolver o indivíduo a um conceito de idade que pensamos superado pela modernidade, no qual a velhice precisava ser ocultada dos olhos alheios.

A velhice, como e sabe, era invisível. (Era?) Apenas os povos tribais valorizavam seus velhos e o conhecimento adquirido. A partir da ascensão de uma certa estética humana, o envelhecimento foi escondido, pois era um sinal de perda de poder. Os monarcas absolutistas envelheciam escondidos, a ponto de despertarem dúvidas sobre a data exata de sua morte. Era o refúgio aos aposentos, daí a palavra aposentadoria. Uma decisão difícil.

William Shakespeare (1564-1616) explorou o dilema em Rei Lear, curiosamente, baseado na primeira tragédia inglesa de inspiração senequiana. O intento de Lear era, como diz na cena inicial, “livrar nossa velhice de cuidados”. Calculou mal. Ou teria, já naquela época, tomado sua decisão sem considerar uma idade econômica? Desleixou o parentesco de direitos e deveres. Foi vítima da quebra do pacto de solidariedade intergeracional. A tempestade lembrou-lhe que o envelhecer é, por natureza, um fato social. Jamais poderá ser algo privado.

Se é assim, e se é tão difícil para os indivíduos, que o diga para a sociedade. Quando a sociedade decide envelhecer? Eis a questão para o Brasil. As estatísticas sobre o envelhecimento da população são públicas e conhecidas, entretanto agimos como um ingênuo Lear a vislumbrar apenas a parte de maior interesse egoístico ou ganancioso, sem nos darmos conta da complexidade do todo. Goneril e Regan, as filhas ingratas, estão a nossa espreita.

A questão que se coloca é menos a de o Brasil envelhecer antes de ficar rico, como se repete à exaustão, ou a velocidade de nosso envelhecimento – embora esse seja um ponto importante -, mas, sim, em qual economia estamos envelhecendo. Os países ricos desfrutaram da economia desenvolvimentista do pós-Segunda Guerra Mundial, endividaram-se em condições generosas no Plano Marshall – sobretudo os europeus ocidentais -, modernizaram seus parques industriais importando petróleo do Oriente Médio a preços irrisórios, praticaram o protecionismo espalhando subsídios agrícolas durante décadas. Em 1955, o barril bruto de petróleo custava USS 1,93 e, em janeiro de 1971, continuava a custar apenas USS 2,18. Em termos reais, observou o historiador Tony Judt (1948-2010), o petróleo nesse período glorioso do capitalismo tomou-se inacreditavelmente mais barato, desafiando a lei da oferta e da procura.

Esse é apenas um resumo do quadro econômico que permitiu aos países ricos viverem um interstício do capitalismo chamado Trinta Anos Gloriosos (1945-1975), o de mais prolongado crescimento econômico mundial em tempos de paz. Nesse período, os países ricos construíram seus campeões nacionais, reforçaram suas universidades e seus sistemas de ensino e, principalmente, ergueram o chamado Estado de Bem-Estar Social, que vai, até hoje, muito além da Previdência social. Decidiram, eles sim, envelhecer.

Depois dos anos 70, com os dois choques do petróleo a ampliar a vulnerabilidade da economia americana já cambaleante devido aos gastos na Guerra do Vietnã, tudo mudou na economia global. O presidente do Banco Central Paul Volcker reagiu à ameaça de inflação com uma pancada nas taxas básicas de juros. É o chamado “golpe de 1979”. O capital financeiro assumiu a hegemonia definitiva sobre a vida de todos nós. Mas o mundo rico já estava velho. A decisão de envelhecer – lembre-se de Marie Curie! – éirreversível. Assim como o indivíduo nunca mais será o mesmo, as sociedades também não.

O envelhecimento das populações alterou de maneira categórica a geopolítica global. E está estabelecendo uma nova corrida entre os países. Se na Guerra Fria era a corrida armamentista, agora é a “corrida populacional”. Os países ricos pagaram com duas guerras mundiais em seus territórios o preço da construção do Estado de Bem-Estar Social. Jamais assistirão à economia capitalista do século XXI destruir e o patrimônio, esse “seguro coletivo” em nome da paz, de braços cruzados.

Quem financiará o envelhecimento de quem? No século passado, a grande fonte de financiamento do bem-estar foi o petróleo barato. Essa riqueza natural ainda está em cena, mas outras fontes precisam ser exploradas alhures. O “seguro coletivo” dos países do Hemisfério Norte ainda é portentoso, embora sob risco.

O Brasil, além do petróleo, tem outras duas fontes econômicas almejadas na geopolítica do envelhecimento: a Amazônia e o sistema de Previdência por repartição. As novas caravelas já partiram para além-mar. O objetivo nessa corrida é o de sempre. Elas vêm explorar a riqueza alheia, desta vez, não mais para sustentar a construção de grandes catedrais de ouro, mas para manter a maior delas, o Estado de Bem-Estar Social. Os países ricos sabem que nenhuma Cordélia virá salvá-los em meio à tempestade.

O Brasil precisa tomar essa decisão difícil de envelhecer. Envelhecer de verdade. Não o envelhecimento fake do aplicativo. Isso implica, antes de mais nada, fazer valer o que está no papel, o marco normativo da Política Nacional do Idoso (Lei 8.842/1994) e do Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003). Mas, principalmente, o país precisa enxergar o fenômeno do envelhecimento muito além da Previdência, onde o tema, sempre com lentes fiscalistas, está confinado faz tempo.

Além da defesa de suas principais riquezas, o Brasil necessita agir para que a sociedade, o Estado e os indivíduos assumam seus papéis na difícil tarefa de envelhecer. Aliás, tal como está escrito no artigo 230 da Constituição Federal. O maior risco, neste momento, é o envelhecimento populacional ser um fator a mais a acentuar a desigualdade social. Uma interpretação da dinâmica demográfica apenas con1 lentes fiscalistas, indubitavelmente, resultará nesse desastre.

Os países ricos, a despeito do desafio de emprestarem sustentabilidade a seus sistemas de seguridade social, já perceberam o envelhecimento como a grande transformação econômica do século. Se por um lado a transição demográfica implica custos, por outro gera riqueza. O investimento em educação epesquisa na área do envelhecimento aparece nos documentos oficiais da União Europeia como prioridade. De 2014 a 2018, apenas o Projeto Horizon 2020 investiu €2 bilhões na área do envelhecimento, recursos somados ao orçamento dos países e das agências de fomento à pesquisa e ao desenvolvimento.

O objetivo dessas pesquisas é dominar outra área emergente, a gerontecnologia, a tecnologia para os cuidados de longa duração de pessoas idosas. Esses produtos de alto valor agregado constituem uma parte importante daquilo que é denominado “economia da longevidade”, um filão de (re)industrialização dos países ricos a partir de uma nova cesta de consumo das famílias – com menos crianças e mais idosos. Os países ricos estão preocupados em construir um complexo industrial da saúde e do cuidado. Solidariedade, ecologia e tecnologia formam a tríade-chave quando uma sociedade decide envelhecer bem. Deschavanne e Tavoillot falam da necessidade de emergência de um “Estado solidário”, enquanto o sociólogo Serge Guérin prefere um “Estado acompanhante”. O envelhecimento transforma o meio ambiente: o uso de recursos naturais e o consumo de energia são diferenciados nos domicílios com mais idosos. A tecnologia amplia, ainda mais, seu poder de intermediação no cuidado cotidiano e nas atividades básicas e instrumentais da vida, principalmente com seu impacto no mundo do trabalho.

A decisão de envelhecer implica promover a saúde, a educação ao longo de toda a vida, a adaptação das cidades, a adaptação das moradias, as boas condições de trabalho, a segurança alimentar. Não adianta confinar o tema apenas na Previdência. O perfil epidemiológico do Brasil, por sinal, assume o contorno de uma sociedade envelhecida, com ampliação de doenças crônicas, no entanto sem perder o aspecto de jovem, isto é, insistindo ainda em doenças bacterianas.

A educação na pré-escola, como destaca a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), é o período mais fundamental para o bom envelhecimento e para uma força de trabalho produtiva. É preciso preparar a capacidade cognitiva para uma vida mais longa e para um mercado de trabalho no qual as habilidades perdem valor cada vez mais rápido devido ao avanço tecnológico. Na faixa entre 55 e 64 anos, mostra o IBGE, daqueles que ingressaram no ensino superior, apenas 13% terminaram, e 21% têm ensino superior incompleto.

Quando falamos de envelhecimento populacional, estamos falando de redução do quantum de força de trabalho. Se a solução apontada ê o prolongamento do tempo laboral, a saúde torna-se uma barreira. É curioso assistir ao debate sobre sustentabilidade do sistema de Previdência descolado das condições de trabalho e da saúde no trabalho. Um dado: 9% dos idosos não consomem a dose diária mínima de vitamina D. A obesidade, um problema social, atinge 20% da população. Estudar eestar apto a novas aprendizagens depois dos 50 anos depende de exercício físico, pegar sol e ter uma alimentação saudável. Se estivermos negligenciando esses fatores, estamos desperdiçando vidas e encurtando a idade econômica da população.

A mudança do perfil epidemiológico dos trabalhadores brasileiros tem elevado o número de aposentadorias por invalidez. De 1992 a 2017, passou de 64 mil para 211 mil. As pesquisadoras do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Ana Amélia Camarano, Daniele Fernandes e Solange Kanso questionam: a saída precoce do mercado de trabalho, tão apontada no debate da reforma da Previdência, é uma consequência do custo de oportunidade do aspecto normativo ou um sinal de uma ampla discriminação com as pessoas idosas, sobretudo asde menor escolaridade, pele preta e piores condições de saúde? Se a resposta for a segunda opção, o Brasil ainda está longe de tomar a difícil decisão de envelhecer.

JORGE FELIX – jornalista, professor, doutor de gerontologia da Universidade de São Paulo e comentarista de longevidade do Bem-Estar (Rede Globo) Lançará o livro Economia da longevidade (Ed. 106 Ideias)

GESTÃO E CARREIRA

DO ZERO AO BILHÃO

Nunca uma startup da América Latina levantou tanto investimento em tão pouco tempo quanto o aplicativo colombiano de entregas Rappi. Agora, ele quer crescer ainda mais depressa

Existem poucas empresas de tecnologia no mundo que já levantaram mais de 1 bilhão de dólares com fundos de capital de risco em apenas uma rodada de investimentos. Até mesmo no Vale do Silício, onde não falta dinheiro para financiar desde aplicativos de paquera até fabricantes de carros autônomos, é raro encontrar startups que tenham arrecadado tamanho volume de recursos. Nas poucas ocasiões em que isso ocorreu, as empresas tornaram-se candidatas naturais a liderar a “próxima revolução” da tecnologia. Foi assim com o aplicativo de transporte Uber, com a empresa de escritórios compartilhados WeWork e com o site de hospedagem Airbnb. A nova empresa a entrar para essa lista de privilegiados é a Rappi, um aplicativo de entregas criado há três anos e nove meses por empreendedores colombianos e que cresce como poucas vezes se viu na América Latina.

No fim de abril, o conglomerado japonês Softbank — que tem investimentos em uma série de empresas de tecnologia, incluindo a Uber — revelou ter feito um aporte de 1 bilhão de dólares na Rappi. Metade dos recursos veio do Vision Fund, fundo da empresa japonesa destinado a apostas de longo prazo no setor de tecnologia. A outra metade teve origem no Innovation Fund, fundo de 5 bilhões de dólares criado recentemente também pelo Softbank para investir em startups latino-americanas. Mas a realidade é que o investimento total levantado pela Rappi é maior do que o anunciado. Ele soma 1,2 bilhão de dólares (aproximadamente 4,8 bilhões de reais). Os 200 milhões de dólares adicionais foram aplicados pelos fundos de capital de risco que já tinham participação no aplicativo de entregas, entre eles os americanos Sequoia Capital, Andreessen Horowitz e Tiger Global, além do DST Global, fundo de origem russa. Esses fundos são alguns dos principais investidores por trás das maiores empresas de tecnologia do planeta.

Com a nova rodada de investimentos — a quarta da Rappi —, o volume total já levantado pela empresa subiu para 1,7 bilhão de dólares. É um feito sem precedentes para uma empresa de tecnologia da América Latina em tão pouco tempo de existência. “Para mim, não faz muito sentido que a América Latina, com um mercado tão grande, com mais de 640 milhões de pessoas, uma economia equivalente à metade da China, um PIB per capita quatro ou cinco vezes mais alto do que o da Índia, não receba mais investimentos as- sim. A gente espera que a Rappi seja parte de uma mudança desse cenário”, diz Sebastian Mejía, de 34 anos, um dos fundadores da Rappi, em sua primeira entrevista depois do novo investimento. Mejía fundou a empresa com os sócios Simón Borrero, presidente executivo, e Felipe Villamarin, responsável pela área de tecnologia. Os três já tinham uma startup que oferecia uma ferramenta digital para que os supermercados criassem suas lojas on-line, chamada Grability. Daí para desenvolver a Rappi foi um pulo.

O que tem atraído o interesse de investidores pela Rappi e por outras startups de entregas ao redor do mundo é a combinação entre uma mudança de comportamento do consumidor e o avanço das novas tecnologias. Nas grandes cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, as pessoas buscam cada vez mais conveniência e usam seus smartphones para resolver as tarefas no dia a dia. A Rappi aposta nisso. O aplicativo de entregas per- mite não só pedir uma pizza ou outra opção de comida em casa ou no trabalho, assim como os concorrentes iFood e Uber Eats, mas também um leque crescente de produtos — compras de supermercado, itens de farmácia, fraldas para bebês, bebidas alcoólicas, ração para animais etc. Outros serviços também estão disponíveis, como despachar encomendas ou pedir a entrega de dinheiro em espécie. Num dos pedidos mais inusitados já feitos, segundo Mejía, um usuário chegou a encomendar a entrega de uma iguana pela Rappi.

Assim como as pessoas passaram a usar aplicativos de táxi ou de carro particular, a expectativa é que cada vez mais consumidores passem a fazer compras cotidianas sob encomenda. Nos Estados Unidos, o número de consumidores que utilizam aplicativos para fazer compras de supermercado e mantimentos deverá passar de 18 milhões em 2018 para 30 milhões em 2022, na estimativa da consultoria eMarketer. No Brasil e na América Latina, os números são mais modestos, mas o crescimento segue a mesma tendência. A Rappi tem hoje 6,5 milhões de usuários nos sete países em que atua (Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Uruguai), que fizeram cerca de 70 milhões de pedidos nos últimos 12 meses. O Brasil, onde a empresa desembarcou em 2017 e está presente em 20 cidades, já é responsável por, aproximadamente, 35% das vendas. O volume de entregas no país tem crescido 30% ao mês, segundo os executivos da startup. A expectativa é que o novo investimento ajude a acelerar a expansão nas cidades onde a empresa já atua e também nos demais municípios do país com mais de 400 000 habitantes.

SUPERMERCADO EM CASA

Nem sempre é mais prático e rápido fazer uma compra de supermercado num aplicativo, pois a entrega pode levar horas até chegar em casa, dependendo do volume. Mas, por causa do trânsito e da vida cor- rida nas cidades, cada vez mais pessoas vêm se acostumando com essa ideia. No ano passado, as vendas de alimentos e bebidas pela internet estiveram entre as que mais cresceram, de acordo com a consultoria Ebit, uma das principais fontes de dados sobre as vendas na internet no Brasil. A categoria ainda é incipiente, mas tem ganhado participação no comércio eletrônico, um setor que, ao todo, deverá movimentar mais de 61 bilhões de reais neste ano no país. É de olho nesse mercado que varejistas como o Grupo Pão de Açúcar, dono das redes Extra, Pão de Açúcar e Assaí, tem apostado em soluções digitais. Além de permitir realizar compras pela internet, hoje é possível fazer o pagamento pelo aplicativo da empresa. Em algumas lojas da rede Pão de Açúcar também dá para escolher os produtos pessoalmente e pedir para que sejam entregues em casa. Já os usuários que não querem ir ao supermercado têm a opção de fazer o pedido pelo aplicativo James Delivery, uma startup concorrente da Rappi comprada pelo Pão de Açúcar no ano passado. Antes disponível apenas em Curitiba, a James Delivery começou a fazer entregas em São Paulo em maio.

Segundo uma fonte ouvida, o Grupo Pão de Açúcar preferiu apostar na própria startup porque viu a atividade da Rappi como parte do negócio central da companhia, já que todo o conhecimento sobre os hábitos de compra dos consumidores acaba ficando com o aplicativo. “É como se o supermercado virasse um mero fornecedor da Rappi”, diz a fonte. Um risco, porém, é perder vendas por estar fora do aplicativo. Outros varejistas, como o grupo Carrefour, preferem investir na parceria com a Rappi, adaptando as lojas para atender os pedidos feitos pelo aplicativo e enviar as compras por meio de seus entregadores.

As entregas de compras de supermercado já são a segunda maior categoria da Rappi, depois do atendimento a pedidos de restaurantes. Mas é essa última área que a Rappi deseja expandir nos próximos meses. Mejía, o cofundador, afirma que a startup deve implementar uma estratégia agressiva para integrar mais restaurantes em sua plataforma. É uma briga que deve esquentar o já aquecido mercado de entrega de comida pela internet. Só o aplicativo iFood atende 50.000 restaurantes, tem 9 milhões de usuários e processa quase 11 milhões de pedidos por mês. Já o Uber Eats tem crescido no Brasil fazendo promoções agressivas para atrair usuários. Como se pode ver, a briga entre as empresas para entregar a pizza em sua casa — ou sua compra de supermercado — nunca foi tão emocionante.

PEÇA PELOS APPS

O uso de aplicativos de entrega de compras de supermercado e comida deve crescer nos Estados Unidos

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CONTE RÁPIDO: QUANTOS SÃO?

Cientistas estimam que de 3% a 6% da população sejam incapazes de contar objetos rapidamente. Eles isolaram a região da contagem no cérebro e, com isso, tentam descobrir como as pessoas calculam o número de itens existente em determinado recinto.

O problema em identificar com precisão essa área é que o ato de contar implica obrigatoriamente usar a linguagem, e as regiões da linguagem são ativadas quando o cérebro enumera. Para mantê-las desativadas, a pesquisadora Fúlvia Castelli, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, usou cores.

Isso porque ela descobriu que o sulco intraparietal – uma longa “lasca” de tecido na parte de trás do cérebro – tabula “quantos?” e não “quanto”. Voluntários convocados para um teste foram expostos a uma série de clarões de azul e verde que preenchiam retângulos num tabuleiro apresentado em vídeo. Quando as cores apareciam em quadrados isolados, o sulco era ativado – mas, quando as cores eram combinadas em fileira, isso não ocorria.

Uma analogia com esse processo na vida real é, por exemplo, perceber de imediato qual fila no caixa do supermercado éa mais curta. Há quem visualize as pessoas uma a uma para ver quantas há na Ala, outras criam uma representação mental de seu comprimento real. Pessoas com a chamada disfunção de cálculo não conseguem desenvolver esse mapa mental, o que as obriga a contar todo mundo lentamente. Castelli espera estudar maneiras de fortalecer essa capacidade de representação.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NOVA TECNOLOGIA PARA CRIANÇAS

A terapia do esquema é uma forma inteiramente nova de trabalhar fortalecendo e enriquecendo a personalidade infantil em formação

Em uma sala de psicoterapia projetada para o atendimento infantil, uma criança representa seus conflitos em um cenário semelhante a sua sala de aula, por meio de fantoches retratando a professora e os colegas. Na encenação é dia de entrega de notas. Ela afirma, com um rosto desconcertado, que não faz sentido a nota que tirou, pois ela é muito inteligente. 

A cena prossegue e a criança fica cada vez mais tensa. Seu fantoche simula olhar demoradamente a nota. O fantoche da terapeuta, que agora representa a professora, lhe diz: “Você foi bem!”. E o fantoche da criança, que quase não tem mais sua função mediadora, diz: “Mas por dois décimos eu não tirei oito, dois décimos! Isso não é possível, eu sou muito inteligente! Isso não pode ser! Tem algo de errado com essa nota!”.

A cena continua com a terapeuta utilizando todos os fantoches a sua disposição para diminuir a inconformidade e o sofrimento presentes na cena, mas a criança insiste: “São dois décimos para oito, e nem é um nove, ou dez”. A terapeuta percebe que há uma grande tensão interna na criança, pois ela vê incoerência entre quem acredita ser e o que a realidade, “a nota”, lhe trouxe por evidência. Reatar os fios da conexão consigo mesma e promover um senso de eficácia são prementes, pois é preciso ajudar essa criança a suprir suas necessidades psíquicas de se sentir ela mesma, acertando ou errando.

Mas é difícil vencer o “pai exigente” que essa criança tem internalizado, que tenta punir a “criança vulnerável” que chora a perda da nota. Sabendo disso, sua terapeuta a convida para uma outra atividade: analisar o que aconteceu na “sala do conselho de modos”. A terapeuta usará agora outra técnica. Ela sabe que a criança já conhece bem os vários lados (modos) de seu “eu” e sabe identificar quando sua parte vulnerável, zangada, impulsiva, exigente ou punitiva acionou um botão mental e a fez pensar, agir e sentir de uma forma que não ajuda.

Pede, então, que a criança identifique qual botão estava acionado em sua cabecinha quando ela representou ter recebido a nota, e a criança diz: “Minha criança fraquinha!” (vulnerável em termos técnicos). Nesse momento a criança, que já sabe que dentro dela existem vários botões mentais que quando “acionados” lhe causam grande sofrimento, é convidada pela terapeuta a analisar seu conflito de forma diferente.

Ela pega o boneco que sempre tem representado o modo frágil da criança e o leva para um tabuleiro onde estão dispostos um trono e nove outros lugares ao redor. Cada lugar é ocupado por um “modo” do seu “jeito de ser”. Há lugar para todos seus lados criança: a zangada, a impulsiva, a vulnerável e a feliz. Também há lugar para seus lados pais: exigente e punitivo. Há ainda três lugares para as formas desengonçadas (estratégias desadaptadas) para lidar com os problemas da vida, nesse caso a nota.

Ela pode se afundar no problema, pode agir como se o problema não existisse, ou pode agir como se, dada sua suposta superioridade, não devesse se importar com a nota. Mas finalmente há lugar para sua parte sábia, criativa e inteligente, que a ajuda a se equilibrar e encontrar formas mais adequadas de atender suas necessidades psicológicas.

Todos os lados (modos) têm bonecos que os representam e estão presentes nessa sala de conselho dos “modos” de ser: no trono, primeiro se senta o lado “fraquinho”, e a criança fala de todo o seu sofrimento, fragilidade, medo, dor e incompreensão através de seu boneco. O trono vai sendo ocupado sucessivamente pelos outros modos na tentativa de resolver o problema, mas apenas o modo sábio e o modo feliz conseguem encontrar soluções saudáveis.

Depois disso tudo, a criança é convidada a fazer uma técnica de relaxamento ou de mindfulness. Entretanto, antes de ir embora, a terapeuta procura fazer pontes para a vida e, com o auxílio da criança, procura estender os aprendizados da sessão para as situações concretas que ela enfrenta. Essa é uma sessão típica de terapia de esquema com crianças. Técnicas mais sofisticadas podem ser utilizadas com adolescentes, mas a tônica é sempre a mesma: dar voz aos vários “modos de esquema” que a criança e o adolescente possuem dentro deles, debater, refletir, questionar, encontrar soluções e fazer pontes para a vida.

Neste artigo procuraremos apontar como uma psicoterapia cognitiva de terceira onda, originalmente orientada para o trabalho com pacientes com transtornos de personalidade e transtornos crônicos graves, pode ajudar no trabalho com crianças e adolescentes. Numa primeira e superficial leitura dos textos sobre terapia do esquema pode parecer que essa abordagem se aplicaria apenas a crianças e adolescentes com transtornos graves, como os externalizantes, ou aos pequenos e adolescentes que parecem apresentar sinais prodômicos de futuros transtornos de personalidade. Isso é falso. Essa é uma forma inteiramente nova de trabalhar, fortalecendo e enriquecendo a personalidade em formação.

INTEGRAÇÃO

Para avançarmos na compreensão do poder transformador da terapia do esquema na infância e, especialmente, na adolescência podemos começar definindo claramente o que é personalidade, como ela se constitui e como se desenvolve, já que os esquemas iniciais adaptativos estão na base de uma personalidade saudável, e é sobre a promoção de esquemas iniciais adaptativos que o trabalho do terapeuta do esquema se dará, especialmente o daqueles que se dedicam à infância e adolescência. O dicionário da American Psychological Association afirma que personalidade diz respeito “a configuração de características e comportamento que inclui o ajustamento de um indivíduo à vida, incluindo traços, interesses, impulsos, valores, autoconceito, capacidade e padrões emocionais importantes. A personalidade é vista como uma integração ou uma totalidade complexa e dinâmica, moldada por muitas forças, incluindo hereditariedade e tendências constitucionais, maturidade física, treinamento precoce, identificação com indivíduos e grupos significativos, valores e papéis culturalmente condicionados e experiências e relacionamentos críticos. Várias teorias explicam a estrutura e o desenvolvimento da personalidade de diferentes formas, mas todas concordam que a personalidade ajuda a determinar o comportamento”.

A partir dessa definição, algumas perguntas nos saltam aos ouvidos: quando um indivíduo começa um processo de desajuste psíquico na vida? Isso pode começar na infância? Quando e como suas estratégias para lidar com seus problemas cotidianos, seus interesses, seu autoconceito começam a lhe trazer sofrimento significativo? Na infância? Às vezes! Na adolescência? Muitas vezes!

Um ouvido ainda mais aguçado ficaria atento a algumas coisas a mais: se a personalidade é moldada por múltiplas forças, aquelas que são constitucionais ou herdadas (por exemplo, o temperamento) e aquelas que advêm do ambiente no qual as pessoas estão inseridas (modelos e modelagem de habilidades e competências sociais), como proteger o desenvolvimento da personalidade de experiências e relacionamentos críticos e desastrosos? Terapeutas do esquema apresentam uma resposta simples, porém muito consistente: identificando, avaliando e oferecendo o suprimento de necessidades psicológicas básicas, quais sejam: senso de conexão e pertencimento; senso de autonomia e capacidade; padrões de comportamento equilibrados e responsabilidade e limites adequados.

Fica claro que essas necessidades começam a surgir e se desenvolvem ao longo da infância e da adolescência e que o não suprimento delas levaria a quadros psicológicos mais graves, especialmente os transtornos de personalidade. Sendo assim, quanto mais precocemente aplicarmos tecnologias psicológicas para melhorar o processo de formação de uma personalidade saudável, mais saúde mental ofereceremos às pessoas em geral. O objetivo dos terapeutas do esquema que trabalham com crianças, adolescentes e com famílias é auxiliar na aquisição ou ativação de estratégias saudáveis para obtenção de senso de pertencimento, autonomia responsável, senso de capacidade realista, regulação emocional e comportamental e senso de limite.

MODOS DE ESQUEMA

Todos são estados ou partes do self que estão ativos em um dado momento e envolvem uma combinação de emoções, cognições e respostas comportamentais. Essa combinação de elementos aponta para um ou mais EIDs ativos momento a momento, apresentam dez modos de esquemas que são distribuídos em quatro categorias: modos criança, modos de enfrentamento disfuncionais, modos pais disfuncionais e modos adulto saudável.

Os modos criança são inatos, sendo assim todas as crianças têm o potencial de manifestá-los de quatro formas: modo criança vulnerável ou ferida, modo criança zangada, modo criança impulsiva e modo criança feliz. A criança vulnerável agrupa grande parte dos EIDs como os de abandono, abuso, privação emocional. Com esse modo ativo, a criança/adolescente acredita que ninguém é capaz de perceber as “injustiças” que ela acredita estar sofrendo. O modo criança feliz diz respeito ao momento no qual a pessoa sente que suas necessidades emocionais foram atendidas.

Os modos de enfrentamento disfuncionais são: o capitulador complacente, no qual a pessoa se submete às pessoas e situações, mantendo seu conflito. No caso dos adolescentes, por exemplo, eles se submetem a desejos e interesses do grupo de amigos temendo perdê-los; o protetor desligado, no qual o indivíduo se afasta do sofrimento utilizando diferentes formas de evitação (comportamental, emocional e cognitiva). Nesse caso, o adolescente passa a evitar situações e emoções conflituosas desligando-se emocionalmente de pessoas e situações que ele insiste em dizer que não o afetam. Por último, o hipercompensador reage aos EIDs através de comportamentos hostis contra outras pessoas ou de autoengrandecimento, que nos jovens aparece quando eles exageram competências e qualidades para se sentirem mais seguros.

Os modos pai/mãe disfuncionais são resultantes da internalização dos cuidadores (pais, educadores, avós) da criança ou do adolescente e podem ser classificados como punitivos ou exigentes. O primeiro (pais punitivos) diz respeito à punição de um dos modos criança devido ao seu “mau comportamento”. Nesses casos, os adolescentes começam a pensar que são inadequados, incapazes, sem valor e podem se punir de diferentes maneiras, como, por exemplo, em casos mais graves, infringindo-se cortes (automutilação) enquanto pensam:

“Você não merece…”; “Você não é digno…”; “Você não tem o direito…”.

O modo pai/mãe exigentes é a cobrança de padrões altos de desempenho. Neste caso, a criança e o adolescente apresentam um perfeccionismo que os leva a sofrimento, sentindo-se algemados a altos padrões de performance. Os pensamentos giram em torno de: “Seja forte!”, “Seja o melhor!”; “Sempre há algo para melhorar!”.

O décimo e último modo identificado é o modo sábio e inteligente. A criança/adolescente deve ser capaz de monitorar, cuidar e curar os outros modos disfuncionais, encontrando formas saudáveis de obter a satisfação de suas necessidades de conexão, autonomia e desempenho, autocontrole e livre expressão de ideias e sentimentos de forma equilibrada.

ETAPAS

A terapia do esquema para adolescentes consiste em três etapas principais: identificação, psico – educação e modificação de EIDs e modos de esquema, tanto nas crianças e adolescentes quanto em seus pais/cuidadores diretos.

O conceito de modo de esquema é trabalhado extensamente nos protocolos por meio de diferentes técnicas, como teatro de fantoches – técnica utilizada na etapa cujo objetivo é avaliar, psicoeducar e modificar modos presentes na criança, relacionando-os às situações de conflito reais (pontes para a vida). Com as mesmas finalidades,

usam-se “clipcharts”, nos quais se inserem os modos dentro de uma representação gráfica do próprio adolescente, ou ainda a técnica das cadeiras, na qual cada uma delas representa um modo que deve ser explicitado pela criança ou adolescente quando estes se sentam na respectiva cadeira.

Da mesma forma, os pais são avaliados e psicoeducados. Busca-se diminuir o efeito dos modos disfuncionais dos pais na relação com os filhos. Não é incomum encontrarmos pais com seus modos criança ativos procurando educar seus filhos adolescentes, ou ativando seus pais punitivos e exigentes quando não conseguem alcançar objetivos em suas práticas de educação, sentindo-se frustrados, ineficazes e cobrando exageradamente de si e de seus filhos. Outros ainda evitam suas tarefas de orientar e educar, ou hipercompensam exagerando habilidades que lhes faltam. Em muitas ocasiões, compreendem que esses modos se perpetuam há gerações em suas famílias e sabem que não é simples conscientizarem-se para combater suas formas desadaptadas de lidar com conflitos. À medida que a terapia dos pais e dos filhos evolui, assistimos ao nascimento ou ao ressurgimento de relações entre pais e filhos nas quais as necessidades psicológicas de conexão e pertencimento vão emergindo, e núcleos familiares, muitas vezes, se sentem “família” pela primeira vez em muito tempo.

Buscar a conexão saudável entre pais e filhos, senso de competência e eficácia em todos os membros da família; verificar em pais e filhos a capacidade de se autocontrolar e gerenciar de forma equilibrada suas emoções e comportamentos; encontrar o equilíbrio dinâmico de dar e receber auxílio e afeto e aprender que há formas adequadas para expressar qualquer ideia e sentimento são as metas da terapia do esquema.

A IMPORTÂNCIA DO PAPEL DA FAMÍLIA

Os esquemas iniciais desadaptativos (EIDs), que obstaculizam o desenvolvimento da personalidade saudável, se organizam a partir de uma atmosfera nociva presente no núcleo familiar, nas experiências escolares e nos grupos de amigos. Eles se originam, grosso modo, nas condições de privação de necessidades psicológicas básicas não atendidas, gerando crenças de desconexão e rejeição; uma visão de incapacidade ligada a um senso de autonomia e desempenho prejudicados; falta de limites precisos, o que leva a comportamentos impulsivos e mimados; um forte direcionamento a suprir as necessidades dos outros e, ainda, uma expectativa de punição ou exigências que levam à supervigilância do ambiente e à inibição de comportamentos mais espontâneos

ATMOSFERA EM QUE OS EIDS SE DESENVOLVEM NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

DESCONEXÃO E REJEIÇÃO

Os pais ou responsáveis, professores e/ou colegas são geralmente individualistas, frios, rejeitadores, explosivos, imprevisíveis ou abusivos.

AUTONOMIA E DESEMPENHOS PREJUDICADOS

Os pais ou responsáveis, professores e/ou colegas são, geralmente, emaranhados, afetiva e comportamentalmente à criança/adolescente, minando sua confiança, superprotegendo-os.

LIMITES PREJUDICADOS

Os pais ou responsáveis, professores e/ou colegas são caracterizados por excessiva permissividade, abuso, falta de direção e por inflarem um senso de superioridade.

DIRECIONAMENTO PARA O OUTRO

Os pais ou responsáveis. professores e/ou colegas foram ou são pessoas que baseiam sua relação com a criança em aceitação condicional: as crianças devem suprimir aspectos importantes de si mesmas a fim de ganhar amor, atenção e aprovação de seus pares.

SUPERVIGILÂNCIA E INIBIÇÃO

Os pais ou responsáveis, professores e/ou colegas são cruéis, exigentes e às vezes punitivos. Nestes contextos relacionais desempenho, dever, perfeccionismo, seguimento de regras, ocultar as emoções e evitar erros predominam sobre o prazer, alegria e relaxamento.

OUTROS OLHARES

ESSE É “FREE-BOI”

A procura por hambúrgueres que imitam a textura e o sabor de carne deixou as grandes redes de fast- food com água na boca. Até o Burger King entrou na onda

Uma das maiores redes de fast­ food do mundo, o Burger King tem a tradição de louvar em seus cartazes a cultura da gastronomia ogra, estratégia comum também entre seus principais concorrentes. E tome fotos de sanduíches com vários andares de carne, intercalados por queijo e fatias de bacon. No último dia 12, a empresa fundada nos Estados Unidos em 1954 fez um dos movimentos mais radicais de sua história, anunciando a versão vegetariana de um dos carros- chefe do seu cardápio, o Whopper. A cadeia de lanchonetes lançou no mercado americano o Impossible Whopper, que leva esse nome por usar o hambúrguer desenvolvido pela Impossible Foods, companhia especializada em produtos plant­ based, ou seja, alimentos criados a partir de vegetais, imitando a textura e o sabor da proteína animal. A novidade tem 40% menos gordura saturada em comparação ao similar tradicional.

O negócio chega ao Brasil em setembro, em 58 lojas da cidade de São Paulo. Por aqui o lanche plant- based será chamado de Rehei Whopper e, outro grande sinal da mudança dos tempos, sua proteína terá a marca da Marfrig, uma das líderes na produção de carne bovina no mundo, em parceria com a americana Archer Daniels Midland Company, processadora agrícola e fornecedora de ingredientes alimentícios que está entre as maiores do planeta. O interesse é tão grande que os dois gigantes também vão produzir o seu hambúrguer vegetal para a venda em supermercados. “Muita gente quer reduzir o consumo de carne ou até se tornar vegetariana, mas valoriza seu sabor”, diz Ariel Grunkraut, diretor de marketing do Burger King no Brasil.

Os investimentos mostram que o produto está deixando de ser um negócio de nicho. A primeira rede brasileira a usar um hambúrguer 100% vegetal foi a Lanchonete da Cidade, com cinco endereços em São Paulo. Em maio passado, a cadeia lançou o Futuro Burger, que tem proteína de ervilha e soja, além de grão-de-bico e beterraba. A receita leva ainda queijo e maionese veganos. O hambúrguer é fornecido pela Fazenda Futuro, startup brasileira especializada ao assunto e que já recebeu mais de 30 milhões de reais de investidores externos. “A sacada foi perceber que o consumidor poderia comer algo com um significado, um propósito, que não seja apenas satisfazer a fome”, teoriza Vinícius Abramides, diretor-geral da Companhia Tradicional de Comércio, dona da Lanchonete da Cidade. Existe mesmo demanda pelo Futuro Burger, que custa 29 reais: no último mês, foram vendidos cerca de 10.000 sanduíches do tipo, o equivalente a 20% do total de lanches comercializados. Ele só não agrada ao paladar de alguns críticos gastronômicos (veja o quadro abaixo).

O estabelecimento não é o único atendido pela Fazenda Futuro (no Rio, a TT Burger usa seu produto). São mais de 3.000 pontos de venda atualmente, contando as bandejas de hambúrgueres comercializadas pelas redes Extra, Pão de Açúcar e Carrefour. A empresa fechou recentemente urna parceria com o Spoleto e vai fornecer também almôndega e carne moída vegetal à franquia de massas. Até o fim do ano, a Futuro terá capacidade de produção de 550 toneladas de carne vegetal. “Existe espaço no país para a criação de um player global de alimentos plant-based”, diz Marcos Leta, fundador da Fazenda Futuro.

O apetite para abocanhar esse negócio está em sintonia com a onda do consumo consciente de alimentos. Segundo levantamento do Datafolha em 2017, 63% dos brasileiros querem reduzir a ingestão de carne. A preocupação com a saúde ajuda a acelerar o processo de mudança. A Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, nos Estados Unidos, acaba de divulgar um estudo que mostra que pessoas com uma dieta baseada em produtos animais e carboidratos têm probabilidade 32% maior de morrer de doenças cardíacas em comparação com as que adotam uma alimentação baseada em vegetais. “Se eu impacto menos o meio ambiete, não existe animal envolvido, tem menos gordura, não tem colesterol, por que não trocar de hambúrguer?”, diz Alessandra Luglio, diretora do departamento de saúde e nutrição da Sociedade Vegetariana Brasileira. Até o Burger King já entendeu que para uma parte considerável de clientes a resposta é “sim”.

NÃO HÁ MILAGRES NA NATUREZA: VEGETAL É VEGETAL

Para quem gosta de comer carne, os hambúrgueres vegetais que pretendem imitar a textura e o sabor dos que são preparados tradicionalmente decepcionam. Têm a consistência pastosa demais e lhes falta a granulação natural, decorrente da fibra animal. Carecem também da umidade e do suco da carne. Além disso, por mais que camuflem, ainda permanecem com o paladar da leguminosa predominante em seu preparo, soja, grão-de-bico ou ervilha.

Mas os hambúrgueres vegetais sabor carne não se destinam a quem quer evitá-la? Eis um paradoxo. Por que, então, apresentar textura e sabor similares aos dela? Talvez fosse melhor deixar essas características neutras. A não ser que o público-alvo seja o das pessoas loucas por uma picanha mal­passada ou uma costela gorda que, por convicções dietéticas, filosóficas ou até religiosas, se sintam culpadas depois de saborear a carne.

Não está em questão a qualidade dos produtos lançados agora no mercado, até porque são tecnicamente benfeitos. Algo que os ajudará a surfar na onda vegana e talvez cair no gosto descolado dos jovens millennials, a faixa demográfica da população mundial nascida entre a década de 80 e o começo dos anos 2000.

A soja, o grão-de-bico, a ervilha ou qualquer leguminosa recebem diversos tratamentos para que a textura do hambúrguer vegetal se assemelhe à da carne e passam por outros procedimentos destinados a obter um sabor parecido. Para que esses resultados sejam alcançados, faz-se necessária a intervenção cientifica. O espessante utilizado, por exemplo, costuma ser a metilcelulose, um composto químico derivado da celulose. Não há milagres na natureza: é inútil tentar recorrer a uma varinha de condão. Vegetal é vegetal: carne é carne.

GESTÃO E CARREIRA

PECHINCHA A BORDO

Os ônibus entram na onda dos aplicativos de viagens compartilhadas no estilo Uber, provocam queda significativa nos preços e sacolejam o mercado

Fretar um ônibus remete à ideia de um negócio de alta envergadura, que envolve logística complicada. Pois esqueça o velho conceito, reinventado nos dias de hoje para atender a um novo propósito: transportar gente que quer viajar pagando menos e sem ter trabalho. Até agora, duas empresas vêm chacoalhando o universo rodoviário ao oferecer um serviço já conhecido como o “Uber dos ônibus”. A exemplo do aplicativo que imprimiu outra lógica em um setor dominado pelos táxis, a safra que abarca os coletivos só opera on-line e consegue emagrecer os preços à base do casamento da demanda com a oferta. À medida que as pessoas compram as passagens na internet, a ocupação vai subindo, subindo, até que a turma reunida é suficiente para garantir o aluguel do ônibus com motorista — afinal é disso que tratam a paulista Buser, a maior do mercado que se desbrava no Brasil, e a gaúcha Levebus. Elas são “facilitadoras no compartilhamento”, como reza o jargão, e não companhias de transporte, já que não têm um único veículo na garagem.

Primeira a demarcar espaço nas estradas brasileiras, a Buser (pronuncia-se com “u” mesmo) surgiu na cabeça do engenheiro aeronáutico Marcelo Abritta, 37 anos, quando ele estava para se casar, na Bahia, em 2016, e queria levar trinta amigos de ônibus à cerimônia. Abritta fez as contas e concluiu que saía mais barato fretar um ônibus com motorista e deixá-lo esperando durante os quatro dias de festejos, até a volta, do que comprar as passagens. Decidiu então apostar junto com um amigo em um negócio que fizesse o meio de campo para os viajantes. A Buser começou a funcionar para valer em março de 2018 e, atualmente, roda em quarenta cidades brasileiras do Sudeste, carregando 1 500 pessoas por dia em ônibus fornecidos por trinta empresas, que também garantem o motorista. A Levebus, que estreou em fevereiro de 2019, alcança trinta cidades na Região Sul e em São Paulo. Graças a estruturas muito enxutas, ambas conseguem preços em média 60% mais baixos que os do mercado. “Fiquei na dúvida, mas passei a usar o aplicativo da Buser e nunca tive problema”, disse a produtora carioca Larissa Moraes, prestes a embarcar para São Paulo em sua décima viagem no esquema de frete.

A novidade está provocando uma pequena revolução no nicho rodoviário. Enquanto se vê uma enxurrada incomum de promoções, um dos grandes grupos, o Águia Branca, dono da Expresso Brasileiro, foi mais longe e criou em julho o braço Aguiaflex, que duela em preço com os novatos no estilo Uber. O embarque nem sempre é feito em rodoviária, pode ocorrer em algum ponto pré-combinado, e os bilhetes são vendidos exclusivamente pela internet — o que poda custos e faz com que as cifras ombreiem com as da Buser e da Levebus. Mas nem tudo é igual ao serviço convencional (veja o quadro). O administrador Denis Silva, 38 anos, ficou perdido na hora de achar o local exato do embarque, no Centro do Rio. “Faltou sinalização”, conta. “O serviço ainda está em fase de testes e aperfeiçoamento”, explica Thiago Chieppe, diretor do Águia Branca. No caso deles, o assento comprado é garantido, mas não na Buser ou na Levebus, que não marcam lugar e eventualmente precisam cancelar a viagem por falta de quórum. É prudente monitorar o site para saber. A Buser não revela a lotação mínima necessária para assegurar a partida; a Levebus informa que sai com uma ocupação em torno de 50%.

Como ocorreu com a Uber, o fretamento compartilhado é questionado juridicamente. “Essa é uma forma clandestina de prestação de serviços regulares”, afirma o advogado Alde Santos Júnior, que representa a associação do setor, a Abrati, em uma ação que tramita no Supremo Tribunal Federal. Um dos argumentos é que as novas plataformas digitais não cumprem exigências legais, como gratuidade para idosos e deficientes, além das normas de segurança que se aplicam à concorrência. Marcelo Abritta, da Buser, rebate: “A lei nos permite operar e seguimos, sim, os padrões de segurança”.

Muitas variações de transporte coletivo on demand têm surgido dentro e fora do Brasil, sempre contando com inteligência artificial para unir demanda e oferta. É o caso da goiana CityBus 2.0, que dita o trajeto de seus ônibus graças a um sistema acionado pelos próprios passageiros. As rotas são adaptadas à sua localização. Iniciativas semelhantes pululam em outras cidades, como Oxford e Nova York. No Cairo (Egito), a Uber acaba de inaugurar um serviço de vans compartilhadas, que tem tudo para vingar. É uma mudança no modo como as pessoas se locomovem e um impulso para trazer um quê de racionalidade ao quebra-cabeça do cada vez mais intrincado transporte urbano.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 21 – INTIMIDADE

O sexo foi feito para os relacionamentos totalmente comprometidos, porque ele é uma amostra da alegria que sentimos quando estamos em total união com Deus por meio de Cristo. O amor mais extasiante entre um homem e uma mulher na Terra é apenas um indício disso. — Timothy & Kathy Keller, The Meaning of Marriage (O Significado do Casamento)

… Vocês que se amam, comam e bebam, até ficarem embriagados de amor! — Cântico dos Cânticos 5:1, NTLH

A Bíblia não é tímida ao descrever os planos de Deus para o ato de fazer amor. Na verdade, ela é bem explícita e às vezes beira o erotismo. Se você não acredita em nós, passe algum tempo lendo o Cântico dos Cânticos com seu cônjuge e veja o que acontece.

Diferentemente de muitos de nós, Deus não tem vergonha do sexo. Ele tem prazer na sua beleza e celebra seu propósito. Deus quer estar intimamente envolvido com a nossa intimidade. O sexo dentro do contexto conjugal não é apenas bom e permitido – ele é sublime e incentivado!

“Bebam até ficarem embriagados de amor!” diz o Cântico dos Cânticos. Em outras palavras, o sexo é misterioso e profundo; não há motivo para se contentar com uma experiência superficial. Prove e desfrute da satisfação inigualável da intimidade.

Fazer sexo é como apertar um botão de “recarregar” no relacionamento, e por isso não nos surpreende que a Bíblia costume usar a água como uma metáfora para o prazer e a realização sexual. A água é essencial para a continuação da vida. Ela promove refrigério e vitalidade. Uma vida sexual saudável não é a essência do casamento, mas seu valor não pode ser menosprezado. Deus pretende que o ato de fazer amor seja uma celebração, um lembrete maravilhoso da aliança profunda que entrelaça duas vidas.

E você sabia que sexo faz bem para sua saúde? Além de aumentar o nível de intimidade no seu relacionamento, ele estimula seu sistema imunológico, ajuda você a manter um peso saudável, diminui sua pressão sanguínea, reduz a dor e diminui o risco de enfarte – para citar apenas alguns dos benefícios.

Alguns grupos da Igreja criaram um estigma em relação ao desejo por intimidade sexual e o igualaram a um apetite carnal e depravado. Por causa disso, até o sexo dentro do casamento adquiriu má reputação. Alguns até querem nos fazer acreditar que ele é um ato de obrigação que a esposa realiza em favor do marido. Mas o sexo na verdade foi feito para ser desfrutado por ambos os cônjuges! Alguns estigmatizaram o sexo como um mal necessário, tolerado em nome da procriação. Essa noção equivocada, somada às múltiplas perversões satânicas desse ato sagrado, fez com que muitos o vissem com grande apreensão.

A reprodução é um dos propósitos do sexo, mas desde o princípio Deus o designou para que fosse uma fonte de êxtase. “Seja bendita a sua fonte!”, diz a Bíblia. “Alegre-se com a esposa da sua juventude. Gazela amorosa, corça graciosa; que os seios da sua esposa sempre o fartem de prazer, e sempre o embriaguem os carinhos dela” (Provérbios 5:18-19). Outras traduções desse versículo dizem: sê encantado (AA), sejas atraído (ACF), e aproveite o prazer (ABV).

Está claro que Deus não é nenhum puritano. Ele criou os órgãos sexuais e não fica constrangido com as funções deles. Ele criou o sexo e configurou suas sensações. Nosso prazer é o prazer Dele. Ele não quer abreviar nossos desejos sexuais. Ele quer santificá-los.

SEXO SANTIFICADO

A santificação é a jornada da santidade, que também poderíamos dizer que é a jornada para alcançar o melhor de Deus para as nossas vidas. Pense nisso como a extração da natureza humana e a infusão da natureza divina. Começamos a desenvolver uma vida sexual excelente (o que faz parte do melhor de Deus para nós) quando abraçamos o chamado de Deus à santidade no quarto do casal. Ao fazer isso, descobriremos a gratificação sexual que transcende os limites da imaginação humana.

Mas Deus só pode santificar, ou tornar santo, aquilo que oferecemos a Ele. Infelizmente, muitos de nós nos recusamos a apresentar nossa sexualidade a Deus porque temos vergonha dos erros cometidos ou porque somos prisioneiros dos abusos que vivemos no passado. Essas experiências fazem com que vejamos nossa natureza sexual como ímpia, de modo que tentamos esconder essas dimensões obscuras daquele que é Santo. É surpreendente a rapidez com que muitos se esquecem de que o Criador do sexo tem o poder para redimi-lo e torná-lo santo.

A vergonha quer manter o foco em nós e longe de Deus. Ela nos aprisiona na tentativa de fazer com que rejeitemos a misericórdia e a graça de Deus. No fim das contas, o que inicialmente parece ser vergonha pode se transformar em uma forma de orgulho. Insultamos a misericórdia de Deus, como se o que Ele fez não fosse o bastante para curar essa área íntima de nossas vidas. Continuamos a manter a nossa dor bem pertinho de nós, em vez de liberá-la diante da luz do amor. Aqueles que sentem que Deus não os protegeu como deveria em sua vida sexual no passado muitas vezes têm medo de convidá-Lo para participar do seu presente. O fato é que Deus não falhou com você; o que aconteceu foi consequência da humanidade caída. Não permita que a vergonha do pecado ou do abuso o impeça de desfrutar toda a plenitude da intimidade conjugal e o êxtase sexual. Deus anseia curar tudo o que está quebrado e torná-lo santo.

Assim como muitos casais cristãos, quando nos casamos, presumíamos que nossos votos matrimoniais apagariam o histórico da nossa vida sexual passada e nos colocariam a caminho do paraíso. Acreditávamos que porque nos amávamos e estávamos comprometidos um com o outro, nenhuma sombra do passado atravessaria o limiar do nosso futuro. Imaginávamos que o acesso regular à intimidade sexual baniria os padrões egoístas ou a vergonha maculada. Infelizmente estávamos errados, e abordaremos as nossas próprias histórias aqui a fim de compartilhar as escolhas e revelações que nos trouxeram libertação.

Nenhuma herança ou fracasso pode desqualificar os filhos de Deus impedindo-os de estabelecer um novo legado sexual. Mas só Deus pode santificar a nossa sexualidade e redimir nossos erros passados, presentes e futuros. E é somente pela Sua graça que o leito matrimonial se torna um refúgio de realização e amor.

Seja qual for sua história passada, Deus deseja restaurar sua sexualidade de modo completo e radical. A graça Dele é maior do que qualquer coisa que você já tenha feito ou sofrido. Mas você não pode ter acesso à graça de Deus a não ser que primeiro faça Dele o Senhor da sua sexualidade. Reconheça sua necessidade e entregue-a a Deus. Ele transformará seu pesadelo sexual em um lindo sonho.

HONRANDO O LEITO MATRIMONIAL

O casamento deve ser honrado por todos; o leito conjugal, conservado puro; pois Deus julgará os imorais e os adúlteros. Hebreus 13:4

Se existe um problema no seu casamento, ele aparecerá primeiro na sua cama. A falta de paixão no leito matrimonial geralmente é um sinal de outros problemas, e não de um mau desempenho sexual. Os problemas ocultos se manifestam nos lugares de vulnerabilidade, e não há ocasião em que sejamos mais vulneráveis do que nos momentos de intimidade sexual.

O princípio mais importante da intimidade sexual é a honra. Muitos acreditam erroneamente que não há como desonrar ou contaminar o leito matrimonial, de modo que vale tudo entre o casal. Contudo, nada está mais distante da verdade.

Honramos nosso casamento quando, na época em que somos solteiros ou noivos, permanecemos puros e separados para o nosso futuro cônjuge. Honramos nosso leito matrimonial depois do dia do casamento ao nunca permitir que outros tenham espaço nele (cometendo adultério), tampouco permitindo que qualquer outra coisa diminua a beleza da intimidade sexual (como a pornografia, a perversão ou a impureza).3 O leito matrimonial não santifica os nossos vícios sexuais impuros; ao contrário, o comportamento impuro contamina o leito matrimonial e nos impede de desfrutar da verdadeira intimidade. Também honramos nosso leito vendo-o como um lugar no qual podemos servir ao nosso cônjuge procurando fazer o que é melhor para ele, como discutimos no último capítulo. Servir ao nosso cônjuge sexualmente significa honrar as necessidades dele dentro da definição de Deus de santidade.

Às vezes, servimos ao nosso cônjuge fazendo sexo mesmo quando não nos sentimos desejáveis. Quanto mais você envelhece, menos importa se sentir desejável. Você deixa de encarar o sexo como algo que funciona meramente como uma afirmação da sua atração física para seu cônjuge. Ele passa a ser mais uma atração íntima. Deus criou o sexo como uma maneira de maridos e esposas se conectarem um com o outro; não permita que a insegurança o impeça de desfrutar dessa conexão. (Nesse mesmo espírito de serviço, você não deve pressionar seu cônjuge a realizar qualquer ato com o qual ele ou ela se sinta desconfortável em nome do seu próprio prazer.)

Por termos feito do nosso leito matrimonial um lugar de honra, fazer sexo aos cinquenta é melhor do que era quando tínhamos vinte anos de idade – embora tivéssemos uma aparência bem melhor aos vinte anos do que temos agora. Fazer amor de forma maravilhosa não tem a ver com sua aparência ou com seu desempenho. Tem a ver com quem vocês são juntos.

Quando fazemos amor, estamos celebrando nossos mais de trinta anos de casamento. Nossas alegrias, dores, dificuldades e vitórias acrescentam significado e valor à nossa intimidade. Nossa intimidade espiritual, emocional e fisiológica culmina em um prazer e uma satisfação que vêm de Deus. A cultura sexual que estabelecemos no nosso casamento é um testemunho do poder redentor de Deus, pois estamos longe de onde começamos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A TRANSIÇÃO EMOCIONAL

Uma das fases mais decisivas e conturbadas na vida do ser humano, a adolescência provoca grandes transformações, que envolvem mudanças biológicas, cognitivas e socioemocionais

“Primeiro aspecto a se abordar é o que vem a ser a adolescência? Etimologicamente, adolescência é um termo de origem latina, do verbo adolescere, que significa desenvolver-se, crescer; é próximo, no entanto, do termo addolescere, que significa adoecer. A proximidade entre os dois sentidos é sugestiva e anuncia a dimensão de crise a que ficou associado este termo desde a modernidade.

Essa etapa pode ser definida como o período desenvolvimentista de transição entre a infância e a vida adulta, que envolve mudanças biológicas, cognitivas e socioemocionais. O processo biológico envolve mudanças físicas no corpo do indivíduo; o processo cognitivo envolve mudanças no pensamento e na inteligência; e, por último, o socioemocional, que traz alterações no relacionamento com as pessoas, na emoção, na personalidade e nos contextos sociais.

Uma segunda indagação também se faz necessária: onde começa e onde termina o processo adolescente? Bem, esses limites são variáveis de acordo com a cultura, à época, a sociedade, as condições econômicas, a geografia etc. De qualquer modo, é possível falarmos de forma mais elástica em adolescência considerando-a entre as idades de 10/ 11 a 22/24 anos. Na clínica, no entanto, parece que podemos encontrar adolescentes de todas as idades, afinal temos que reconhecer que há uma criança e um jovem dentro de cada um de nós.

Diz-se que a infância é o tempo de ensaiar, já a adolescência é o tempo de estrear. ”A puberdade é a hora dos primeiros: primeiro sutiã, primeira maquiagem, primeiro cigarro, primeiro beijo etc.” As mudanças biológicas que ocorrem nessa fase são visíveis e de todos sabidas, as transformações no corpo, com o aparecimento de pelos pubianos e nas axilas, o crescimento dos órgãos genitais masculino e feminino, o crescimento desordenado do corpo (orelhas, nariz e membros crescem primeiro que o dorso), de modo que a cada dia que o jovem se olha no espelho vê alguém diferente e não se reconhece.

Há o desenvolvimento hormonal e a variação de humor, com uma avalanche de emoções e sensações. Neurologicamente, estudos revelam que o cérebro do adolescente é uma obra em andamento, daí a pertinência da discussão que se dá sobre a responsabilização, especialmente criminal, dos jovens que ainda não completaram 18 anos. Assim, podemos pensar que a questão deixa de ser meramente jurídica ou política e passa à esfera da garantia dos direitos humanos.

E psiquicamente, o que ocorre com os jovens?

É possível entender que com a adolescência há a fragmentação do sujeito, de seu corpo, de seu psiquismo e de suas referências, é um “maravilhoso renascer”, é um “segundo nascimento”. É um processo complexo diante do qual se faz necessária a compreensão da identificação, do luto, da idealização/ desidealização e da individuação.

A identificação é um fenômeno que ocorre já com o bebê e nos persegue a vida toda. A primeira identificação se dá com os genitores ou com aqueles que devem cuidar do bebê.

Na adolescência, a identificação também pode se manifestar de forma muito intensa. A Psicanálise conhece a identificação como “a mais antiga manifestação de uma ligação afetiva a uma outra pessoa”. Esta, todavia, é ambígua, vale dizer, tanto pode expressar afeto como desejo de eliminar o outro (Freud, in Psicologia das Massas e Análise do Eu.

Esse processo pode explicar no jovem não só a identificação com grupos, com gangues, como com ídolos, personagens (cosplayer, por exemplo) etc. Também a idealização precisa ser compreendida. Podemos dizer que ela consiste em todas as “fantasias” que criamos em relação aos nossos pais e em relação aos outros no decorrer da vida.

Todavia, isso vai se desconfigurando com o progressivo desenvolvimento intelectual. Assim, enquanto na infância há a idealização dos pais, na adolescência eles são desidealizados e passam de rainha/rei para pessoas que não sabem de nada, não entendem nada, são desconstruídos; os jovens precisam “matar” os pais para poderem viver.

DESPRENDIMENTO

A importância desse processo é revelada por Freud ao afirmar que a adolescência é uma fase dolo­ rosa que implica no desprendimento da autoridade dos pais, o que é absolutamente necessário que se faça, posto que “o progresso da sociedade se funda na oposição entre as duas gerações”. Assim, o adolescente terá que fabricar para si um novo referencial.

Isso pode ajudar a compreender os muitos conflitos que afloram entre pais e filhos nessa fase. Some-se a isso o narcisismo dos próprios pais e a “guerra” está declarada.

Há também o luto vivido pelos jovens. Os adolescentes vivem o luto pela perda do corpo infantil, da infância, da bissexualidade e dos pais idealizados. Não é pouca coisa.

Um outro processo também corre em paralelo: é a individuação que se verifica durante toda a vida, que vai assumindo diferentes contornos em cada fase e que encontra seu ápice na adolescência.

Poderíamos dizer que a individuação é uma luta do adolescente por autonomia e diferenciação, ou identidade pessoal. Não é de se estranhar, assim, que muitos jovens façam tatuagens, coloquem piercings, pintem os cabelos de laranja, cor-de-rosa ou azul, usem roupas exóticas na busca de uma marca de singularidade, da sua identidade.

O processo de individuação ou o processo de desenvolvimento da personalidade da pessoa encontra seu ápice nessa fase, quando os pais, a sociedade, os amigos lhe cobram decisões, definições. Isto, aliado a toda alteração hormonal, biológica, psíquica e emocional, representa uma sobrecarga da qual o adolescente pode não dar conta. Por isso é importante a participação dos pais nessa empreitada.

Uma questão recorrente trazida pelos pais diz respeito ao afastamento ou isolamento dos adolescentes. Eles se distanciam da família e se aproximam dos amigos e de conteúdos que reafirmem quem querem ser. Esse comportamento, embora angustiante para os pais, pode ser saudável, uma vez que estão vivenciando mudanças físicas, biológicas e, também, psíquicas, como vimos. O “retiro” dos jovens é consequência do processo de individuação ao qual nos referimos linhas acima.

Na realidade, ocorre que eles sentem a verdadeira tensão entre a dependência dos pais e a necessidade de se libertarem. Já os pais querem que os filhos sejam independentes, contudo, acham difícil “deixá-los partir”. Devemos nos lembrar, no entanto, que essa despedida é imprescindível a cada ser humano, faz parte do seu desenvolvimento.

O certo é que existe uma linha tênue entre dar suficiente independência aos adolescentes e protegê-los de falhas de julgamentos naturais da imaturidade. As tensões podem levar a conflitos familiares, certamente, e os estilos de parentalidade dos genitores podem influenciar sua forma e desfecho. De outro lado, o monitoramento eficaz depende do quanto eles deixam seus familiares saberem sobre sua vida e essas revelações podem depender da atmosfera que os pais estabeleceram.

ESPAÇO

Como lidar com isso? Nesse momento, é preciso abrir espaço para o filho e ter consciência de que eles se afastaram pela necessidade de elaboração das inúmeras mudanças pelas quais estão passando, porque faz parte do seu desenvolvimento e crescimento e de que sobre isso não há controle.

Não podemos parar o tempo. É preciso que os pais deem orientação, acolhimento, mas é imprescindível que acreditem na semeadura que fizeram até então, e deixem os filhos “partirem”.

É importante respeitar o espaço do adolescente, o isolamento, seu silêncio. Contudo, também é importante que os pais saibam que é possível estabelecer uma relação de parceria – o que não é o mesmo que ser amigo -, com diálogo e muita negociação. Na verdade, pode ser uma fase de grande aprendizado para toda a família.

Enfim, vê-se que os adolescentes têm que elaborar as perdas da infância e dar conta da carga de responsabilidades que começa a aparecer. Eles buscam respostas, eles sentem angústia. Precisam ganhar independência e autonomia.

A passagem pela adolescência, poderíamos dizer, é um “tornar-se sujeito de modo inteiro”.

ISOLAMENTO DO ADOLESCENTE NÃO É SAUDAVEL

É bastante comum o isolamento ou afastamento do adolescente. No entanto, quando ele pode ser considerado preocupante? Quando o “quero ficar sozinho” não é saudável? Se o isolamento se tornar profundo, com falta de interação com familiares e amigos de sua idade, deixando-o demasiadamente solitário, e por um período substancial de tempo; o isolamento pode ser um problema quando atrasa o desenvolvimento do jovem e, com isso, o impede de adquirir uma série de competências afetivas, sociais e instrumentais, a exemplo do adolescente que se isola de tal maneira que acaba por não aprender sobre questões afetivas. sociáveis, não vivencia a amizade, a paixão adolescente, a descoberta da sexualidade etc.; o isolamento pode ser preocupante, ainda, quando perturba o curso habitual do desenvolvimento e causa um sofrimento evidente para ele e para a família; é a situação do adolescente que se afasta, se isola e se sente infeliz. É preciso reconhecer que muitas vezes é difícil distinguir o saudável do doente, mas é por isso que se faz necessário compreender e estar atento ao comportamento do jovem e às suas demandas.

OUTROS OLHARES

POR QUE O UBER ESTÁ EM CRISE

Empresa aumenta faturamento e atende 100 milhões de pessoas por mês, mas vê seus custos crescerem acima do esperado e registra prejuízo recorde

É comum uma empresa de tecnologia ter escassos lucros nos primeiros anos de seu funcionamento. E nem mesmo o Uber, considerado uma máquina de ganhar dinheiro, foge dessa sina. Apesar de apresentar números impressionantes de desempenho, como o uso da plataforma por quase 100 milhões de pessoas por mês, o aplicativo de transporte teve um prejuízo de US$ 5,2 bilhões no segundo trimestre de 2019, contra cerca de US$ 880 milhões no mesmo período do ano passado. Após a divulgação dos resultados, as ações da empresa despencaram 12% em Wall Street. E os acionistas, é claro, não gostaram nem um pouco. A própria entrada do Uber na Bolsa de Valores, em maio desse ano, que levantou US$ 8 bilhões, foi considerada decepcionante por analistas. O CEO Dara Khosrowshahi clamou por paciência e destacou a concorrência global como um dos fatores formadores do cenário. “Só estamos no começo dessa incrível jornada”, argumentou.

REDUÇÃO DE PREÇOS

A situação do Uber é parecida com a da concorrente Lyft nos Estados Unidos. Ambas, ainda deficitárias, têm um histórico de diminuir os valores das viagens para atrair mais passageiros. O quadro se complica quando entra na conta a grande quantidade de ofertantes, ou seja, de motoristas, em contraposição a uma demanda insuficiente que força a redução dos preços. A quantidade de corridas no Uber subiu 35% no segundo trimestre e a receita alcançou US$ 3,17 bilhões, mas as despesas no mesmo período aumentaram 147%. Diante do desequilíbrio operacional e dos péssimos resultados, congelou-se a contratação de novos motoristas nos Estados Unidos e no Canadá.

A economista Celina Ramalho, da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), explica que o aplicativo serviu de esperança aos tantos desempregados, na situação atual da crise brasileira. E isso pode ser um termômetro para entender o que ocorre a nível global. Aqui há um aumento acelerado da oferta de serviços do aplicativo e a demanda não cresce no mesmo ritmo. A América Latina, onde o faturamento encolheu 24%, foi justamente o destaque negativo da empresa. No restante do mundo, a receita cresceu, mas abaixo do esperado e necessário. O caso do Uber mostra que a economia compartilhada, sustentada pelos aplicativos de serviços, ainda está provando a sua viabilidade.

GESTÃO E CARREIRA

SEM DOR DE CABEÇA

Microcervejarias evoluem no modo de atuar, livram-se dos entraves burocráticos e logísticos e especializam-se em criar receitas dignas de brinde – inclusive financeiras

Foi na cozinha do apartamento do publicitário Marcelo Bellintani, situado no bairro do Campo Belo, em São Paulo, que ele e um amigo, Felipe Gumiero, químico de formação, fizeram cerveja pela primeira vez – por puro hobby.

Era 2009, e os dois não imaginavam que a brincadeira iria tão longe: a bebida doméstica, preparada em uma panela de 20 litros, caiu no gosto dos companheiros de copo da dupla, e o boca a boca se encarregou do resto. Depois de seis anos de operação mambembe, Bellintani e Gumiero resolveram dar o passo inicial rumo ao profissionalismo.

Para começar, desenvolveram uma marca para o seu produto: surgiu assim, em 2015, a Juan Caloto. A partir daí, o negócio deslanchou. Pressionada pela falta de espaço para ser fabricada, a Juan Calota virou cigana. Explica-se: cervejarias ciganas são aquelas que não têm maquinário próprio para produzir e fermentar a bebida, e por isso alugam o equipamento das concorrentes maiores. Gumeiro e Bellintani passaram a usar a estrutura da Blondine, em Itupeva (SP), para chegar a 1.400 litros por mês, os quais escoavam em três pontos de venda. O sucesso só fez crescer a iniciativa – e, consequentemente, o trabalho para cuidar da empresa. Os amigos decidiram então abandonar os respectivos empregos. Não adiantou. Ao perceberemque mesmo largando a carreira original não davam conta de administrar o empreendimento sozinhos, eles radicalizaram no “ciganismo”: terceirizaram todo o trabalho burocrático da companhia. ”Esse modelo nos permite focar o core do negócio, que são o desenvolvimento de outras variedades de cerveja ea gestão da marca”, explica Bellintani.

A dupla da Juan Caloto não está sozinha nessa escolha. Segundo a Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), o país conta hoje com 889 cervejarias tradicionais, enquanto as ciganas já somam mais de 2.000. Num mercado em transformação, no qual os gigantes do setor têm perdido espaço para as cervejas artesanais, até a Ambev abriu as portas para essa nova concorrência. A multinacional disponibiliza, desde abril, a fábrica da Bohemia, em Petrópolis (RJ), para parcerias com tal tipo de cervejeiros. A condição de nômade beneficia as duas pontas. Por um lado, o modelo permite que pequenos empreendedores testem seus produtos com um investimento inicial baixo e uma tributação mais leve, por causa da ausência de maquinário. Por outro, as grandes marcas lucram com o aluguel e reduzem a ociosidade de suas unidades fabris. O avanço do ciganismo no setor, com a transferência das etapas industriais e comerciais do processo para empresas especializadas – o que envolve a compra de insumos, pagamento de impostos, distribuição etc. – livrou os nômades das dores de cabeça que as cervejas e os negócios ruins provocam. Isso sem tirar deles a parte mais saborosa: testar novas receitas e, sobretudo, receber os royalties, que giram em torno de 1 a 2,50 reais de cada garrafa vendida (ou de 16.000 a 50.000 reais por mês, em uma conta aproximada).

Não é fácil, porém, chegar à hora do brinde. Os altos impostos e os custos de produção elevam o preço das nômades, restringindo o público e dificultando a competição com as marcas campeãs. Mutilo Foltran, sócio da DUM Cervejaria, que terceiriza produção e burocracias para a Gauden­Bier (ambas situadas em Curitiba), alerta sobre a ”concorrência desleal” que as pequenas produtoras enfrentam na guerra contra os gigantes. “As cervejarias artesanais não têm incentivos fiscais e nem sequer podem renegociar dívidas.” Ciente dessas pedras no caminho, a paulista StartUp Brewing oferece consultoria para auxiliar em questões financeiras, de marketing e até mesmo relacionadas à fórmula das cervejas. “Orientações como a redução de gramas de lúpulo por litro podem diminuir custos sem afetar o sabor da bebida”, afirma André Franken, CEO da Biewing.

Para os consumidores contumazes de cerveja que sonham em, por assim dizer, passar para o outro lado do balcão, vale um lembrete: afim de evitarem problemas com aventureiros irresponsáveis, as companhias de apoio as ciganas só aceitam parceria com marcas já minimamente consolidadas. Dito de outra forma: o percurso se anuncia longo. Mas, para começar, pode não ser má ideia arranjar uma panela de 20 litros.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 20 – ADAPTANDO OS PAPÉIS ÀS SUAS NECESSIDADES INDIVIDUAIS

A Bíblia tem muito a dizer sobre os papéis do homem e da mulher no casamento, mas há muitas coisas que ela não diz. Do mesmo modo que Deus disse a Adão e Eva para se multiplicarem e encherem a Terra sem dar maiores detalhes, Deus dá limites aos nossos casamentos, mas não nos fecha dentro de uma caixa. Ele nos forneceu a estrutura e serviu de modelo para a maneira como devemos servir, mas Ele não administra meticulosamente cada detalhe.

É como se recebêssemos um enorme lote de terra no qual devemos projetar o jardim, construir e desfrutar da maneira que acharmos mais conveniente. Algumas pessoas vão querer construir uma piscina, outras podem querer uma quadra de basquete, e outras vão querer as duas coisas ou nenhuma delas. Do mesmo modo, o casamento é “a sua casa e o seu terreno” para construir e desfrutar. Se a esposa é melhor em paisagismo, que ela fique com essa parte. Se o marido gosta de jardinagem, que ele faça isso. Ambos desfrutarão os benefícios do serviço do outro. Ninguém tem o direito de dizer que só os homens podem fazer o paisagismo e as mulheres devem cuidar do jardim. Faça da maneira que for melhor para vocês, tendo sempre em mente a base que é servir. Os detalhes cabem a você, ao seu cônjuge, e à direção do Espírito de Deus.

Um dos principais motivos de discussão quando o tema é serviço no casamento é o fato de esperamos que nosso cônjuge nos sirva da maneira que nós o servimos, e isso nem sempre acontece. Na nossa família, costumávamos rir quando John nos dizia que ele era um servo. Ele é famoso por desaparecer da cozinha assim que o jantar termina, me deixando (Lisa), juntamente com nossos filhos, para limpar tudo e lavar a louça. Não nos parecia que ele estava servindo.

Não reconhecíamos que John estava servindo de uma maneira diferente. Enquanto estávamos tirando a mesa, ele estava supervisionando nossas finanças, abrindo a correspondência e pagando as contas. Ele estava optando por isentar-se de uma tarefa que podíamos administrar sem ele para cuidar de outras coisas que precisavam ser feitas – tarefas que ele, entre todos os membros da nossa família, por acaso faz melhor.

Esse exemplo nos leva a um ponto importante: a divisão de responsabilidades. Uma das coisas mais úteis que você pode fazer para criar uma cultura de serviço no seu casamento é determinar o que cada um de vocês é responsável por fazer. Conhecer suas responsabilidades acordadas previamente o ajudará a servir ao seu cônjuge. Cuidar das suas responsabilidades dá ao seu cônjuge tempo e tranquilidade. Em segundo lugar, quando você sabe o que seu cônjuge é responsável por fazer, você sabe em que áreas pode procurar oportunidades de servi-lo além das expectativas.

Talvez você tenha notado que nenhum dos versículos de Efésios 5 reforça qualquer estereótipo sobre os interesses ou habilidades de homens e mulheres. Você não precisa se sentir pressionado a limitar a distribuição de deveres no seu lar ao que é considerado “tradicional” ou “normal”. Alguns maridos amam cozinhar. Algumas esposas gostam de cuidar do carro. Um de vocês pode gostar de supervisionar o dever de casa das crianças ao passo que o outro prefere levá-los ao treino de futebol.

Aquele que é melhor com as finanças pode ficar encarregado do dinheiro. Essa pessoa pode servir tanto providenciando os recursos que serão aplicados pelo cônjuge quanto ajudando a garantir que a família não fique endividada.

Você também pode servir ao seu cônjuge cuidando do seu corpo, da sua aparência e não sendo levado pelas opiniões dos seus amigos em detrimento dos interesses do seu parceiro ou parceira. Você pode servir com palavras e gestos assim como com atos. Há muitas possibilidades no casamento, e há muitas oportunidades para servir.

Agora que vocês sabem estas coisas, felizes serão se as praticarem. João 13:17

Embora o serviço abençoe a pessoa que o recebe, a maior bênção recai sobre aquele que serve.

Seu casamento, com o convés limpo e uma visão estabelecida, está pronto para se tornar uma bela imagem do amor de Deus na Terra. A melhor maneira de edificá-lo corretamente é aproveitar todas as chances que tiver para servir. Edifiquem um ao outro e vejam as bênçãos de Deus fluir.

Quando começamos a edificar um ao outro, Deus começou a nos edificar. Ele expandiu os limites do nosso mundo e permitiu que compartilhássemos Seu amor e graça com muitas pessoas ao nosso redor. À medida que vocês edificam um ao outro por meio do serviço, Deus abrirá oportunidades para vocês ministrarem àqueles que estão na sua esfera de influência. O plano brilhante Dele é transformar seu casamento em uma obra prima capaz de chamar a atenção até mesmo do mais cético entre os descrentes.

Servir tem a ver tanto com ação quanto com atitude. Sempre que surgir a oportunidade de servir ao seu cônjuge, você pode escolher uma entre três reações: recusar-se e optar pelo egoísmo; servir por se sentir obrigado e com má vontade; ou entregar alegremente sua vida porque sente prazer em apoiar seu parceiro ou parceira.

Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus… esvaziou-Se de Si mesmo, vindo a ser servo… Filipenses 2:5-7

Quando se casa com alguém, você está basicamente se propondo a servi-lo pelo resto de sua vida. Na verdade, o seu “aceito” foi outra maneira de dizer: “Estou dedicando minha vida a fazer o que é melhor para você. Escolho abrir mão alegremente da minha vida por amor a você. Seus sonhos, desejos e objetivos agora são o meu maior interesse. Quero aprender a demonstrar o amor de Deus a você”.

Se abordarem o casamento com a postura realmente humilde de um servo, vocês experimentarão uma união divina. Nem sempre será fácil, mas se vocês lutarem para viver o melhor de Deus e escolherem viver de maneira altruísta, seu lar transbordará de amor, alegria, paz, felicidade e realização – e vocês serão para o mundo um retrato do amor de Deus.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUANDO O CORPO SE TORNA UM ESTRANHO

Lesões no hemisfério direito do cérebro fazem com que pacientes ignorem tudo que se passa no lado esquerdo do corpo, braços e pernas inclusive

A primeira descrição de anosognosia foi feita pelo neurologista francês Joseph Babinski, em 1914. Do grego nossos, “doença” e gnosis, “conhecimento” é o que se dá a um estranho quadro desenvolvido por pessoas com determinadas lesões cerebrais, em geral confinadas ao hemisfério direito, que passam a não reconhecer a metade paralisada do próprio corpo, ignorando sua doença.

Uma paciente com paralisia do lado esquerdo em decorrência de derrame sofrido dois dias antes aguardava minha avaliação. Quando entrei no quarto do hospital, ela falava animadamente no telefone, enquanto os parentes se entreolhavam assustados. Ninguém podia compreender como uma mulher ativa como ela estava paralisada numa cama e ainda conversava animadamente por telefone com pessoas da família e amigos, como se nada houvesse acontecido. Notei que ela segurava o aparelho com a mão direita e movimentava ostensivamente a cabeça de um lado para o outro enquanto falava. Tive a impressão de que procurava abarcar em seu ângulo de visão todos os que estavam no quarto – sete ou oito pessoas, entre filhos, noras e netos. Assim que ela deu por encerrada a conversa telefônica, uma das filhas me apresentou como o neurologista que fora chamado para examiná-la. Ela me estendeu a mão direita num aperto forte e um sorriso franco nos lábios:

– Como vai, doutor? Espero que o senhor não tenha entrado na conversa dessa gente.

– A senhora está se referindo exatamente a quê? – perguntei, como se não tivesse entendido aonde ela queria chegar.

– Eu não preciso de neurologista, doutor. Já devia estar em casa, onde tenho inúmeros afazeres, e estão me prendendo aqui sem nenhum motivo. Ainda bem que o senhor veio me libertar.

Se a senhora me permitir, vou examiná-la antes de sua saída do hospital. Estamos de acordo?

– Claro, doutor. O senhor não vai encontrar nada errado comigo.

– A senhora pode movimentar ambos os braços?

– Perfeitamente – ao mesmo tempo, ela levantou o braço direito para o alto.

– Pode fazer o mesmo com o braço esquerdo?

– Naturalmente – e, mais uma vez elevou o braço direito.

– A senhora pode mover as duas pernas?

– Não tenha nenhuma dúvida disso.

– Quer dizer que pode mover a perna direita:

– Claro – e levantou a perna direita em 45 graus.

– Pode fazer o mesmo com a perna esquerda7

– Sim! Como não!?

– Então levante a sua perna esquerda – insisti.

E levantou de novo a perna direita. Na continuação do exame, notei que ela negligenciava tudo o que estivesse a sua esquerda. Ao tentar testar a extensão de seu campo de visão, usando um método simples solicitei que olhasse fixamente para meu nariz e contasse os dedos que eu colocava em seu campo visual esquerdo. Errou em todas as tentativas, ao contrário do que ocorria quando lhe apresentava os dedos em sua área direita de visão. Porém, quando insisti para que prestasse mais atenção, pois assim teria condições de responder corretamente, de fato acenou algumas vezes. Ela apenas confirmava o que acontece com quase todos os pacientes com anosognosia e lesão no hemisfério direito – ignoram tudo que se encontra a sua esquerda. A negligência chega a ser tão completa que essas pessoas podem comer o alimento que se encontra no lado direito do prato, sem tocar na parte oposta. Ao vestirem-se, enfiam sem dificuldade o braço direito na manga da camisa, a perna direita na calça e, se não forem alertadas, simplesmente ignoram que é preciso vestir também o outro lado. Quando, parcialmente, recuperados, readquirem a capacidade de se locomover, vão de encontro a móveis e portas por desconhecerem a metade esquerda do corpo.

COMANDOS INDEPENDENTES

Nos casos em que a anosognosia persiste durante muito tempo, a própria reabilitação é dificultada. Como poderia um paciente que ignora que seu lado esquerdo está paralisado participar ativamente de sua recuperação? O cotidiano, já conturbado pela paralisia, fica agravado pela negligência. Homens com o distúrbio podem, por exemplo, sebarbear apenas do lado direito. Quando procuram a xícara de café sobre a mesa, exasperam-se por não encontrá-la, até que alguém aponte o objeto colocado ligeiramente à sua esquerda. Caso se peça a um anosognósico que desenhe um relógio, ele poderá até traçar um círculo completo, mas amontoará os números no lado direito. Se lhe solicitam que desenhe uma figura humana, há grande probabilidade de que faça apenas a metade direita do corpo, deixando-a sem os membros esquerdos. Se questionado, não se importará – talvez diga que está tudo bem ou invente uma pequena história.

Porque apenas a lesão hemisférica direita provoca a negação? Algumas pistas podem ser delineadas pela constatação de que existe especialização entre os hemisférios. A mais notória é a linguagem falada, própria do lado esquerdo do cérebro, em 95% das pessoas, incluindo os canhotos. O surgimento da especialização talvez tenha sido um recurso incorporado pela espécie durante a evolução. A realização de movimentos coordenados e harmônicos com as duas mãos só seria bem-sucedida se houvesse apenas um controlador, um único comando. Se durante a execução de um ato motor complexo que exigisse as duas mãos os comandos fossem independentes – cada mão querendo executar o movimento do seu modo – esse indivíduo hipotético teria muito poucas chances de sobreviver num mundo competitivo, cheio de ameaças. A dominância cerebral do hemisfério direito em relação à integração global do corpo, envolvendo a noção das sensações viscerais, a posição dos membros em relação ao espaço, do tronco e dos músculos é hoje bastante aceita e amplamente discutida por especialistas. Eduardo Bisiach e Claudio Luzzatti estudaram dois pacientes milaneses com um dano no lobo parietal direito que os deixou com a síndrome de  negligência visual, seus olhos registravam todo o campo, mas os dois pacientes prestavam atenção só na metade direita: não faziam caso dos talheres do lado esquerdo do prato, desenhavam um rosto sem olho nem narina esquerda e, ao descrever um aposento, ignoravam detalhes volumosos – como uma cadeira ou um piano – à esquerda. Bisiach e Luzzatti pediram que eles se imaginassem na Piazza dei Duomo, em Milão, de frente para a catedral, e que descrevessem os edifícios da praça. Os pacientes mencionaram apenas os prédios que seriam visíveis direita – deixando de lado a metade esquerda do espaço imaginário. Em seguida, pediram que, mentalmente, atravessassem a praça, se colocassem na escadaria da catedral, de frente para a praça, e descrevessem o que havia nela. Eles mencionaram os prédios que haviam omitido da primeira vez e deixaram de fora os que haviam citado antes. Os surpreendentes resultados desse experimento nos mostra que o processo de negação que se segue a uma lesão do córtex parietal direito envolve não só imagens reais do próprio corpo do paciente como suas imagens mentais.

À primeira vista, podemos ter a falsa impressão de que um paciente com anosognosia está confuso, ou mesmo demente. No entanto, a negação da doença é apenas mais um sintoma específico do seu quadro clínico e não envolve a memória como um todo nem a consciência para outros fatos que lhe dizem respeito – exceto a própria paralisia. Podem argumentar com sensatez sobre qualquer assunto, reconhecem seus interlocutores, realizam cálculos complexos, lembram-se de eventos antigos e recentes perfeitamente situados no tempo e no espaço. O fato destoante é a não identificação do lado paralisado. Agem como se a paralisia não existisse e, por isso mesmo, estão propensos a acidentes quando tentam sair da cama, sofrendo quedas frequentes.

O BRAÇO DO CADÁVER

O caso mais estranho de anosognosia de que se tem notícia é mencionado por Oliver Sacks, sobre um homem, internado num hospital, que caíada cama várias vezes na mesma noite. A cada queda, os enfermeiros o levantavam e certificavam- se de que estava bem acomodado. Alguns minutos depois, ouvia-se de novo o ruído do seu corpo chocando-se contra o chão. Intrigado, o médico perguntou-lhe por que continuava caindo da cama. O pobre homem, demonstrando verdadeiro pavor, respondeu, ‘Doutor, esses estudantes de medicina colocam o braço de um cadáver na minha cama e eu tento me livrar dele a noite inteira. Como não admitia a existência de seu membro paralisado, o homem era arrastado para o chão toda vez que tentava empurrá-lo para fora do leito.

Uma particularidade presente nesses pacientes é atribuírem o membro paralisado a outra pessoa. Se lhes perguntam a quem pertence a parte paralisada do corpo, respondem com naturalidade, “Ao meu filho”, “Ao meu médico ou “À minha esposa”.

Há indícios consistentes de que a avaria que acomete os circuitos cerebrais responsáveis pelo aparecimento da negação em pacientes anosognósicos não é definitiva e pode ser compensada depois de algum tempo. Na maioria dos casos, o fenômeno tende a desaparecer depois das primeiras semanas, embora persista em alguns pacientes. A constatação experimental dessa afirmativa foi obtida por Bisiach e seus colaboradores. Os pesquisadores conseguiram a remissão temporária da doença estimulando o sistema vestibular dos pacientes, injetando água fria em seu ouvido esquerdo. O neurocientista indiano Villayamur S. Ramachandran retomou a experiência de Bisiach com uma paciente com anosognosia. Depois de constatar que ela repetia não estar paralisada e dizia que seu braço pertencia ao seu filho, o pesquisador injetou-lhe 10 ml de água fria no ouvido esquerdo. Ramachandran pretendia investigar a memória da paciente durante o período em que ela estava sob a ação do estímulo calórico. O diálogo abaixo foi transcrito do trabalho de Ramachandran.

Experimentador: A senhora está se sentindo bem?

Paciente: Meu ouvido está muito frio, mas do outro lado eu estou bem.

Experimentador: A senhora pode usar as mãos?  

Paciente: Posso usar meu braço direito, mas não meu braço esquerdo. Eu queria movê-lo, mas ele não se mexe.

Experimentador, pegando o braço paralisado e colocando-o em frente da paciente)

De quem é este braço?

Paciente: É o meu braço, claro

Experimentador: A senhora pode usá-lo?

Paciente? Não, ele está paralisado.

Experimentador: Há quanto tempo seu braço está paralisado? A paralisia começou agora ou já existia antes?

Paciente: Ele está continuamente paralisado, agora por vários dias.

Depois de passado completamente o efeito calórico, o experimentador aguardou mais meia hora e perguntou:

Experimentador: A senhora pode usar seu braço?

Paciente: Não, meu braço esquerdo não funciona.

Oito horas mais tarde, as questões foram repetidas.

Experimentador: A senhora pode andar?

Paciente: Sim.

Experimentador: Pode usar ambas as mãos?

Paciente? Sim.

Experimentador: Pode usar seu braço esquerdo?

Paciente: Sim.

Experimentador: Esta manhã, dois médicos fizeram alguma coisa com a senhora. A senhora se recorda?

Paciente: Sim, eles colocaram água no meu ouvido: ela estava muito fria.

Ecérimentador: A senhora se lembra de que eles fizeram algumas perguntas sobre seus braços, e a senhora então lhes deu algumas respostas. A senhora se lembra do que respondeu?

Paciente: Não me lembro, o que foi que eu disse?

Experimentador: O que a senhora pensa que disse? Tente relembrar.

Paciente: Eu disse que meus braços estavam OK.

Algumas conclusões podem ser tiradas dessa experiência. Em primeiro lugar, ela confirma o trabalho de Bisiach quanto à extinção da negação pela ação do estímulo calórico no ouvido esquerdo. Segundo, ao admitir que esteve paralisada por vários dias, a paciente nos permite supor que, embora negasse continuamente sua paralisia, a informação estava sendo armazenada em seu cérebro, sem que aflorasse à sua consciência, ou, como quer Ramachandran: o acesso a eles fora bloqueado, isto é, a negação não impediu a consolidação da memória. A água fria agiu como uma espécie de ‘soro da verdade’, trazendo à tona as lembranças reprimidas sobre sua paralisia”.

O estímulo calórico fez aflorar a consciência da paralisia. Podemos supor, por esse resultado, que ela tinha conhecimento de seu estado, pelo menos em nível mais profundo, ao qual em condições normais não tinha acesso. Foi preciso, porém, a estimulação do ouvido esquerdo para que a constatação viesse à tona. É interessante notar ainda que, quando a paciente estava sob esse efeito, admitiu a paralisia, mas, ao ser questionada oito horas depois, não somente reverteu a negação como reprimiu o fato de ter reconhecido a paralisia naquela situação.

É notável o fato de que, ao admitir estar paralisada, aparentemente não esboçou nenhuma reação que denunciasse surpresa ou sofrimento. De certa forma, nesse momento ela “estaria reprimindo a negação à qual estivera engajada dez minutos antes”, como escreveu Ramachandran. O fato de não haver projeções do nervo vestibular para o córtex parietal do hemisfério direito, nem para parte alguma desse lado cerebral, dificulta a compreensão do fenômeno. Embora tudo indique que a estimulação do nervo vestibular esquerdo produza o “despertar” dos circuitos interrompidos no hemisfério direito, fazendo a pessoa tomar consciência da paralisia, não podemos, até o momento, determinar com exatidão como isso acontece.

O fenômeno da negação foi testado por Ramachandran com outras experiências simples. Numa delas, solicitou ao paciente que executasse uma tarefa que exige o uso das duas mãos. Como esperado, o paciente se atrapalhou, agindo como se as duas mãos estivessem disponíveis para a ação. Repetimos a experiência de Ramachandran com um de nossos pacientes com anosognosia e paralisia do lado esquerdo do corpo. Pedimos que pegasse uma bandeja redonda, colocada sobre a mesa, com cinco copos de plástico com água até a metade. Uma pessoa com os dois lados do corpo funcionando normalmente costuma pegar a bandeja pelas beiradas, com cada uma das mãos. Se você amarrar um de seus braços e solicitar que pegue a bandeja, provavelmente vai tentar segura-la pelo meio, qualquer que seja a mão livre, evitando derramar os copos com água. Quando pedi a meu paciente paralisado e anosognósico que pegasse a bandeja, sua mão saudável (a direita) foi para o lado direito da bandeja. Obviamente, ao tentar levantá-la da mesa, os copos caíram e a água derramou. O mais surpreendente é que esse paciente ao perceber o desastre, não se mostrou impressionado, apenas usou uma justificativa: “Estou meio desajeitado hoje”. Repeti a experiência três vezes com o mesmo paciente. Surpreendentemente em todas as ocasiões ele tentou levantar a bandeja pelo lado direito.

A MÃO CINZA

Ramachandran e sua equipe realizaram uma experiência curiosa utilizando uma caixa de realidade virtual, semelhante à empregada para estudar membros ­ fantasmas. Vestiram com luva cinza a mão direita de um anosognósico e pediram que a colocasse no interior da caixa onde havia um espelho. Em seguida, solicitaram-lhe que movimentasse a mão para baixo e para cima no ritmo de um metrônomo. O paciente o fez com desenvoltura. Pediram-lhe depois que olhasse através de um buraco na caixa e visse o que estava ocorrendo.

–  Vejo minha mão mover-se para baixo e para cima.

Em seguida, orientaram o paciente para que fechasse os olhos. E, sem seu conhecimento, um estudante escondido por trás da caixa enfiou a mão com luva cinza dentro da caixa. Mudaram a posição do espelho de tal forma que, quando o paciente olhasse para o interior da caixa, veria o reflexo da mão enluvada do aluno que participava da experiência e não a sua. Os examinadores determinaram que o estudante mantivesse a mão absolutamente imóvel e ordenaram ao paciente que continuasse movendo a sua e olhasse para o interior da caixa:

– Vejo minha mão se mexendo para cima e para baixo no ritmo do metrônomo, exatamente como antes.

A pessoa saudável que fosse submetida a esse tipo de experimento e nem de longe sonhasse que havia alguém oculto na caixa provavelmente pularia da cadeira assustada. Não foi o caso do paciente de Ramachandran. Embora visse a mão imóvel do estudante, insistiu que era sua a mão em movimento. Entre as especulações que o autor faz sobre os resultados desse experimento, está que a negação atravessou para o lado direito do corpo – o lado normal. Ele argumenta que essa experiência põe por terra a teoria da desatenção para explicar a anosognosia. É como se o que estivesse danificado nos pacientes fosse o modo pelo qual o cérebro lida com uma discrepância em informações sensoriais relacionadas à imagem corporal. A discordância pode se originar tanto do lado esquerdo quanto do direito do corpo. Para Ramachandran, porém, o hemisfério esquerdo é considerado “um conformista”, em grande parte indiferente a incongruências da imagem corporal, enquanto o direito é altamente sensível a perturbações.

O neurocientista indiano especula se a estimulação calórica não poderia ser útil em casos de pacientes com anorexia, doença psiquiátrica que pode levar à morte por inanição. Nesses casos há distúrbio do apetite, e as pessoas se iludem sobre sua imagem corporal, como nos casos de dismorfofobia, em que o paciente está firmemente convencido de que seu corpo ou parte dele sofreu modificações que apenas ele constata. Quem sabe um procedimento tão simples como a estimulação calórica do nervo vestibular “desperte o hemisfério direito de pacientes com depressão grave, que veem o mundo com cores escuras demais, muitos deles procurando uma saída no suicídio. Talvez pudéssemos tentar sem nenhum dano adicional, estimular o nervo vestibular de pacientes depressivos graves, antes de enviá-los para a eletroconvulsoterapia, que sabidamente pode deixar sequelas graves, sobretudo relacionadas à memória. Até o momento, essa experiência ainda não foi tentada.

OUTROS OLHARES

ECOLÓGICOS E POSSANTES

Começam a aparecer nas concessionárias e ruas brasileiras modelos de carros movidos somente a eletricidade, o novo padrão mundial da indústria

Anunciadas com pompa na mais recente edição do Salão do Automóvel de São Paulo, em novembro do ano passado, chegaram finalmente ao mercado brasileiro as mais recentes e “baratas” versões de carros 100% elétricos. As aspas se tornam necessárias pois os três modelos mais em conta disponíveis nas concessionárias ultrapassam a faixa de preço de seis dígitos, chegando a 195.000 reais. Eles não transportam o mesmo luxo dos veículos a combustão de custo equivalente. No entanto, sua autonomia, ou seja, a distância máxima que conseguem percorrer com apenas uma carga, se tornou equiparável àquela obtida com um tanque de gasolina. É justamente nessa característica que as montadoras se agarram para alcançar as metas de vendas. “Com essa autonomia, esperamos atingir os early adapters, o grupo ligado nas mais recentes tecnologias”, disse Hermann Mahnke, diretor de marketing da General Motors, fabricante que em outubro oferecerá a seus clientes o Chevrolet Bolt, modelo compacto capaz de rodar por 380 quilômetros sem necessidade de recarga. Resolvida essa questão, dirigir carros elétricos é uma experiência extremamente prazerosa. Eles são mais ágeis que qualquer automóvel a combustão de potência equivalente – na aceleração de zero a 100 quilômetros por hora, o Bolt é mais rápido que o Golf GTI, um dos hatches esportivos mais desejados do país, fabricado pela Volkswagen. Trata-se de uma vantagem e tanto para quem vive no anda e para das grandes cidades. A expectativa da GM é pôr 400 Bolts nas ruas até o fim de 2020. Uma meta ousada, considerando-se que nos primeiros seis meses de 2019 foi comercializada apenas uma centena de carros movidos pela energia acumulada em uma bateria de íon-litio instalada no assoalho do veículo. Estima-se que a frota elétrica brasileira atualmente seja de 500 unidades, um grão de areia perto dos 37 milhões de automóveis em circulação no país.

O preço marcado na etiqueta dos modelos elétricos assusta, claro, mas por trás dela há uma série de benefícios que podem reduzir seu custo total de propriedade, a começar pelo reabastecimento. Hoje, o valor médio do quilômetro rodado de um carro a combustão está em 43 centavos de real. No caso do elétrico, esse gasto seria bem menor: 10 centavos a cada 1 quilômetro. Como são dotados de um sistema de recuperação de energia dissipada pelas frenagens, esses modelos têm a capacidade de carregar as próprias baterias em movimento, o que pode baixar ainda mais essa cifra. A manutenção desse tipo de veículo é mais simples e econômica, dado que existem menos componentes mecânicos debaixo de seu capô. Somem-se, ou subtraiam-se, alguns incentivos governamentais – em São Paulo, por exemplo, além de desconto de 50% no IPVA, os 100% elétricos não fazem parte do rodíziomunicipal de veículos. No Paraná, além de isenção no imposto anual sobre automóveis, quem compra um carro zero-quilômetro movido a bateria tem abatimento total de ICMS. Mesmo sem um programa de subsídio governamental agressivo como o de países como China e Noruega, os especialistas do setor automotivo apontam o Brasil como um mercado promissor. Nos próximos anos, o custo deve baixar ainda mais. Isso porque o principal fator de encarecimento da produção desse tipo de veículo deve sofrer uma drástica redução de preço. “As baterias representam quase metade do valor do carro elétrico”, afirma Ricardo Bacellar, líder do setor automotivo da consultoria KPMG. ”Mas respeitam a Lei de Moore, que pressupõe mais capacidade a preços cada vez mais baixos”. Entre 2008 e 2015, o custo de fabricação das baterias caiu 75%, e estima-se que será reduzido em mais 20% a 25% até 2025.

Mesmo com toda essa economia, dirigir um automóvel tão caro ainda parece um sonho distante para a maioria da população. Há, contudo, uma alternativa muito mais barata. No início deste mês, chegou ao Brasil o primeiro serviço de compartilhamento desse tipo de veículo: a startup beepbeep colocou dez unidades do Renault Zoe espalhadas pelas zonas Sul e Oeste da capital paulista. Além dos veículos, a empresa disponibilizou quase 100 vagas de estacionamento exclusivas ao estabelecer parcerias com shoppings, supermercados, estacionamentos e hotéis – a expectativa é ampliar a frota para 300 carros até o fim de 2021.”Queremos expandir o serviço para locais que ofereçam infraestrutura adequada”, diz um dos fundadores da beepbeep, André Fauri. Para andar em um de seus veículos, o processo é parecido com o de aluguel de patinetes: basta baixar um aplicativo, cadastrar um cartão de crédito (e a carteira de motorista, claro) e desbloquear o carro. O valor do aluguel é competitivo com o de serviços de mobilidade como Uber e 99 e de locadoras tradicionais. Vive-se, enfim, o limiar da era dos elétricos, uma tendência global.

ESTÃO NA MODA, MAS DOEM NO BOLSO

Conheça os modelos 100% elétricos mais baratos disponíveis no mercado brasileiro

GESTÃO E CARREIRA

BRASILEIRINHOS DO MUNDO

Na onda da globalização, as escolas bilíngues com currículos multiculturais se espalham pelas grandes cidades do país. Isso é bom – e custa caro

Ouvir que seu filho vai sair da escola falando inglês perfeitamente soa como rock and roll     para pais da era da globalização. Eles sabem que ser fluente na língua franca dos tempos da internet já não é mais só desejável – virou ferramenta obrigatória em boa parte das carreiras. Prometendo justamente isso – ensinar aos alunos inglês desde criancinhas -, multiplicam-se em ritmo acelerado, sobretudo nas capitais, as escolas bilingues, que martelam o segundo idioma quase tanto quanto o português, e suas irmãs mais radicais, as escolas internacionais onde a última flor do Lácio é o segundo idioma. Nos dois casos o aprendizado se mescla com um currículo carregado de interatividade e de reforço das chamadas habilidades socioemocionais um movimento planetário que tem como propósito formar cidadãos do mundo. “O bilinguismo hoje em dia está quase sempre vinculado a uma experiência mais ampla, com ambições globais” explica a consultora Letícia Pimentel, que trabalhou na implementação desse tipo de ensino em diversas escolas de São Paulo.

Um levantamento da Associação Brasileira do Ensino Bilingue (Abebi) mostra que, desde 2014, o mercado cresceu 10% e movimenta 250 milhões de reais atualmente. Só em São Paulo, onde existem 71 instituições de ensino bilingue e oito internacionais, o número de alunos saltou em cinco anos, de 2.800 para 4.600 segundo a Organização das Escolas Bilíngues de São Paulo. Não há uma legislação detalhada para a distribuição do tempo entre inglês e português nas escolas que ensinam duas línguas, embora todas elas apliquem, em paralelo as disciplinas previstas na Base Nacional Comum Curricular. A Eleva, no Rio de Janeiro apresenta metade do conteúdo em inglês em todas as séries, ao passo que na Concept, de São Paulo, os pequeninos recebem 90% do que lhes é ensinado em inglês e os mais velhos, 60%. A proporção muda nas escolas internacionais, aquelas que têm sua matriz no exterior e priorizam os currículos de seu país de origem – na Escola Americana do Rio, quase todo o conteúdo é em inglês e a carga de português é maior para os alunos daqui do que para os estrangeiros.

Em vista dessas variações, o bom senso recomenda um equilíbrio entre os dois idiomas para quem vai seguir os estudos no Brasil e maior proporção da segunda língua para os que planejam continuar sua educação fora – e uma seleção criteriosa por parte dos pais (veja o quadro abaixo), já que bilíngue não é sinônimo automático de qualidade. “O segundo idioma tem de fazer parte do dia a dia da escola, e não só de uma disciplina”, alerta o coordenador pedagógico da Eleva, Márcio Cohen. Seja qual for a quantidade de línguas oferecida, a ciência mostra que apresentar a criança a dois idiomas só faz bem ao seu desenvolvimento – e, quanto mais cedo, melhor. Como o aprendizado da segunda língua envolve áreas do cérebro distintas da usada para aprender a língua-mãe, ele incentiva a formação de novas sinapses. “Esse estímulo melhora, inclusive, o desempenho em outras tarefas cognitivas, como memória, raciocínio e criatividade”, diz Ariovaldo Silva, neurocientista da Universidade Federal de Minas Gerais.

O sonho de consumo dessa nova leva de escolas é a Avenues, nascida em Nova York (conhecida, entre outros famosos, por ser a alma mater de Suri, a filha de Tom Cruise) e instalada em São Paulo desde 2018. Ela aplica um currículo personalizado e, na unidade paulista, apenas os chamados world courses (história, geografia e ciências sociais) são dados em português – além das aulas do próprio idioma. Não se fala mais em bilinguismo sem considerar o multiculturalismo, explica Cristine Conforti, a diretora pedagógica da instituição. Uma característica comum a todas as boas escolas que ensinam em duas línguas é a utilização do Project Based Learning, metodologia na qual as disciplinas interagem por meio da elaboração de projetos. No Mastery, atividade eletiva da Avenues para as três últimas semanas do ano, os alunos desenvolvem projetos pessoais em qualquer área, desde que conciliem princípios de português, matemática e inglês.

No âmbito das onipresentes competências socioemocionais, a Eleva carioca oferece uma “aula de vida”, na qual os alunos são ensinados a lidar com as emoções. A escola conta também com um maker space, espaço onde se aprende (em inglês) questões práticas do dia a dia, como mexer com eletricidade. “Minha filha está tendo uma ótima preparação para a vida adulta”, diz a gerente de produtos Bruna Accioly, 41 anos, mãe de Rafaela, 11 anos, e de Felipe, 8, que também estuda lá. A Gurilândia, de Salvador, explorou no primeiro trimestre o tema “Onde estamos”. “Todas as turmas estudaram imigração. Falamos sobre xenofobia, preconceito, e junto trabalhamos geografia, história e gramática”, diz a diretora pedagógica Denise Rocha. Escolas tradicionais também estão se convertendo ao bilinguismo. A Pueri Domus, de São Paulo, promoveu uma reviravolta em 2016. O novo currículo, quase todo em inglês e em período integral, abraçou os projetos interdisciplinares e o desenvolvimento de habilidades como liderança e resiliência. “Do total, 90% permaneceram na escola, apesar do aumento da mensalidade”, afirma a diretora Christina Sabadell.

Desde a chegada de dom João VI e sua corte ao Brasil que idiomas estrangeiros são disciplinas obrigatórias nas escolas. Naqueles tempos em que a elite era fluente em francês, um decreto real institucionalizou o ensino público dessa língua e também do inglês. Como aqui tudo cresce e floresce, só que bem devagar, a teoria viraria prática 29 anos depois, na inauguração do Imperial Colégio de Pedro II (no Rio até hoje). Mas em geral o inglês nas escolas é fraco e nos cursos particulares, até por falta de tempo, também deixa a desejar. É nessa lacuna que as bilíngues crescem.

No mundo ideal, todas as salas de aula brasileiras seriam bilíngues. No entanto, a Abebi calcula que no máximo 3% das 40 000 escolas privadas do Brasil ensinem um segundo idioma para valer (na Argentina e no Chile o porcentual chega a 10%). A disseminação do aprendizado em duas línguas empaca na barreira do preço. Nas escolas bilíngues, a mensalidade vai de 3 000 a 5 000 reais. Nas internacionais, o preço é ainda mais salgado, beirando os 10 000 reais na Avenues. “Vivemos em um mundo conectado, e falar só português, de fato, limita os relacionamentos”, diz Claudia Costin, do Centro de Excelência em Políticas Educacionais da FGV. “Mas não se pode dizer que a escola tradicional esteja ultrapassada, desde que ela cumpra seu papel mais importante, que é ensinar a pensar.” “A educação do futuro é aquela que prepara os jovens para alcançar objetivos, fazer grandes coisas”, concorda o especialista americano Marc Prensky, da Universidade Harvard. Ele vai mais longe e considera a urgência atual de aprender inglês um fenômeno transitório: em poucos anos, a função de entender um idioma estrangeiro caberá aos tradutores digitais, como o do Google.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 19 – A ESPOSA: APOIE SEU MARIDO

Esposa, entenda e dê apoio ao seu marido, pois assim demonstrará seu apoio a Cristo. O marido exerce liderança em relação à esposa, mas da mesma forma com a qual Cristo faz à Igreja: com carinho, não por dominação. Assim como a Igreja se submete à liderança de Cristo, a esposa deve submeter-se ao marido. Efésios 5:22-24, A Mensagem

Você deve se lembrar de que Paulo introduziu suas instruções aos maridos e às esposas dizendo a eles “sujeitam-se uns aos outros, por temor a Cristo” (Efésios 5:21). No versículo seguinte, ele explica melhor: “Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como ao Senhor” (v. 22). Muitos veem essa ordem como algo que não beneficia as mulheres, mas não é o caso.

Pelo fato de que o casamento não tem a ver com dominação, a esposa divide o exercício do domínio com seu parceiro de maneira igualitária. Isso não entra em conflito com a liderança do marido, pois tanto o marido quanto a esposa possuem áreas exclusivas de autoridade e influência dentro do casamento e no mundo que os cerca. O domínio diz: “Exercerei minha autoridade e influência em seu benefício, e você exercerá sua autoridade e influência em meu benefício”.

O apoio da esposa a seu marido é um ato de serviço. Esposa, a você foi confiado o coração do seu marido. Proteger o coração dele dizendo a verdade em amor e respeito pode ser um dos seus maiores atos de serviço. Aprenda a servir a seu marido ajudando-o a expressar o que há no coração dele. Em vez de tirar conclusões precipitadas, ajude-o a crescer em visão e propósito aperfeiçoando a vida dele por meio da comunicação.

As mulheres são vulneráveis na área da força física, enquanto os homens geralmente descobrem que seus corações correm perigo. As mulheres são tão responsáveis por cuidar do coração dos homens, quanto os homens o são por proteger e prover para suas esposas em relação a qualquer fraqueza física que elas possam ter. Existe alguma missão mais nobre do que ser a guardiã de um coração?

Quando o marido começa a servir e entrega sua vida por sua esposa, ela responde honrando-o como o cabeça da união. Essa é a parte que cabe a ela em revelar o amor de Cristo ao mundo. A honra, o amor e o respeito da esposa por seu marido mostram como é ser liderado por Jesus. Deus não pediu às mulheres para se submeterem porque elas são secundárias. Ele as está convidando a demonstrar como deveria ser a Igreja. No casamento, temos a chance de mostrar como pode ser a vida quando somos guiados por um Senhor e Salvador bom, fiel, amoroso e generoso. Por isso é trágico quando permitimos que o inimigo perverta esse papel transformando-o em algo que desprezamos ou lamentamos. Ao dar esse papel às mulheres, Deus pediu que Suas filhas demonstrassem que Ele é confiável.

Deus sabe que Ele fez as mulheres fortes e capazes. Ao longo da História, Ele escolheu mulheres para liderar, julgar, profetizar, interceder e até mesmo para gerar e cuidar do Seu Filho unigênito. Ao chamar as mulheres para respeitar a liderança de seus maridos, Ele não está querendo dizer que elas são fracas ou indignas. Ao contrário, Ele está dizendo: “Sei que você é capaz e forte porque você é Minha filha. Mas no simbolismo eterno do casamento, preciso que alguém demonstre a bondade encontrada na submissão a Mim. Você está disposta a assumir esse papel de apoio e submissão para mostrar às outras pessoas que Eu mereço a devoção delas?”

O FARDO DA LIDERANÇA

Diferentemente de Deus, os maridos não são perfeitos. Eles nem sempre tomam as decisões corretas e nem sempre servem às suas esposas como deveriam. Isso pode ser uma grande fonte de frustração até mesmo para as mulheres que desejam honrar e apoiar seus maridos. Com o tempo, elas podem se sentir tentadas a resolver as coisas por conta própria. No entanto, a resistência à posição de liderança do marido, que pode parecer ser algo libertador, pode na verdade causar às mulheres muita dor e sofrimento.

Quando nosso primeiro filho ainda era um bebê, eu (Lisa) estava trabalhando longas horas com uma agenda apertada que incluía finais de semana. Eu enfrentava desafios pessoais e profissionais no trabalho, e ao mesmo tempo estava esforçando-me para ser a mãe e esposa perfeita. Enquanto isso, John estava atravessando um período de transição. Enquanto eu vivia estressada por causa do trabalho e com saudades do meu filho, John trabalhava em meio expediente, orava, jejuava, conversava com seus amigos e jogava golfe. Eu sentia uma pressão enorme e colocava a culpa de tudo isso nele. Sentia que era eu que segurava sozinha todo o peso, e que não aguentaria mais por muito tempo.

Eu queria que John também se preocupasse, mas ele se recusava a fazer isso. Quando contei a meu marido sobre meu temor e minha preocupação, ele me disse: “Lisa, pare de se preocupar e entregue isso nas mãos de Deus”.

Eu pensei: Nunca! Se eu não cuidar de tudo isso, ninguém mais o fará. A tensão me aprisionava como um carrasco enquanto eu me sentia incapaz de escapar da pressão que havia sobre mim.

Uma noite, enquanto estava no chuveiro, reclamei com Deus do meu fardo pesado. Não posso entregar nenhum desses fardos a John, argumentei. Eu tenho de lembrá-lo até mesmo de colocar o lixo para fora. Como poderia confiar a ele qualquer coisa mais importante? Eu lutava comigo mesma, justificando porque eu não podia abrir mão do controle.

— Lisa, você acha que John é um bom líder? — O Senhor me perguntou gentilmente.

— Não, não acho! — disse decididamente. — Não confio nele!

— Lisa, você não precisa confiar no John — Ele respondeu. — Você só precisa confiar em Mim. 

Você não acha que John está fazendo um bom trabalho como o cabeça desta casa. Você acha que pode fazer melhor. A tensão e a inquietação que você está sentindo são o peso e a pressão de ser o cabeça de uma família. Isso é um jugo para você, mas é um manto para John.

Entregue-o, Lisa.

Imediatamente entendi a fonte do meu fardo. A liderança do nosso lar, que eu estava tentando assumir, era opressiva para mim porque aquela posição não cabia a mim. Ela não seria opressiva para meu marido, porque Deus o havia ungido como o cabeça do lar.

Reconheci o quanto eu havia manipulado e lutado pela posição de liderança em nosso lar.  Eu destruíra meu marido em vez de edificá-lo e de acreditar nele. Ele, por sua vez, abrira mão da sua posição de autoridade entregando-a a mim, e eu criei uma grande confusão.

Quebrantada, desliguei o chuveiro e peguei uma toalha. Imediatamente encontrei John em nosso quarto. Chorei e me desculpei.

— Sinto muito. Passo o tempo todo brigando e discordando de você — eu disse.  —  Estava com medo de confiar em você. Vou deixar meu emprego amanhã se você quiser. Quero somente que voltemos a ser um.

— Não quero que deixe seu emprego — John respondeu. — Não creio que seja esse o problema. Mas acho que você precisa parar de pensar que você é a fonte.

Ele estava certo, eu não era a nossa fonte; Deus era. Perder de vista essa verdade fez de   mim uma pessoa estressada e incapaz de apoiá-lo. Conversamos bastante, e prometi a John:

— Vou apoiá-lo. Acredito em você.

Naquele momento eu não sabia exatamente o que eu estava apoiando ou no que estava acreditando. Só sabia que John precisava desse apoio mais do que eu precisava saber de todos os detalhes e porquês. Reconheci que tudo estava terrivelmente fora do lugar em nossa casa. Eu queria que Deus trouxesse ordem ao caos que eu havia criado. John, por sua vez, pediu desculpas por não atuar como líder e por se afastar de mim. Firmamos uma aliança prometendo amar, apoiar e contar um com o outro.

Aquela noite foi a primeira vez em anos que dormi e consegui realmente descansar. O meu jugo de escravidão havia sido removido.

Sempre que carregamos um fardo que Deus nunca teve a intenção de colocar sobre nós, assumimos um pesado jugo de escravidão. Por outro lado, qualquer coisa que Deus nos ungiu para fazer repousa sobre nós como um manto, um sinal de posição e poder que traz em si proteção e provisão.

Ao assumir a liderança do nosso lar, fiquei debaixo de um jugo, e John ficou descoberto. Era uma bagunça! Quando me submeti à ordem estabelecida por Deus para a família, meu jugo foi quebrado e John foi revestido do manto de liderança que lhe foi dado pelo Senhor. Eu também fui coberta, pois o manto se estendia para me cobrir e proteger, assim como a todas as pessoas que estavam sob os cuidados de John.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ASSASSINO INTERIOR

O funcionamento da consciência nos leva a dizer: Eu tenho um corpo. Esse “eu” é uma dimensão psíquica que rege as experiências conscientes e se relaciona com a alma

Quem somos nós? Somos um corpo ou temos um corpo? Se temos, quem em nós é o “assassino interior” que quer destruí-lo quando a insuportabilidade do existir é o estilo dominante da consciência? Talvez nunca possamos saber essas respostas enquanto não soubermos olhar para o sentido da vida e para a ideologia da morte como duas linhas paralelas que se encontram no infinito.

No romance de Diana Chamberlain, Segredos e Mentiras, Noelle é uma parteira que morreu sem conseguir terminar a carta suicida que revelaria a uma mãe o crime que cometera 16 anos antes. Ela roubara um bebê cuja mãe estava em coma. Esse roubo tinha como razão repor a uma outra mãe o recém-nascido que ela havia matado em estado de total inconsciência. O bebê morto foi enterrado como uma semente e sobre ele foi feito um jardim especial. Noelle cuidou desse jardim, no fundo de sua casa, como quem cuida de uma criança com vida.

Tara e Emy eram suas amigas-irmãs, que foram surpreendidas pelo suicídio de Noelle, pois ela nunca apresentou sinais de depressão, ansiedade, vazio existencial ou qualquer outro sintoma que poderia não tornar aquele ato tão surpreendente. Os mesmos remédios que lhe aliviavam as dores físicas foram transformados em veneno pelo “assassino interior”, que a fez ingerir sua dose letal.

Podemos pensar em qual teria sido o sofrimento da alma de Noelle que fez esse Eu ceder lugar ao “assassino interior” que destruiu o corpo que habitava. O Eu é um complexo sujeito da consciência, mas não de toda a comunidade psíquica. Construímos, ao longo da vida, outros complexos que são capazes de atuar quando os afetos, que dialogam na psique, tornam-nos vencedores do Eu regente da consciência.

Noelle foi um bebê rejeitado. Amada pela mulher que a adotou, cresceu assistindo a luta dessa mãe como parteira leiga, mas que às escondidas resolvia a situação aflitiva de muitas famílias que a procuravam.

Poderíamos nos perguntar como essa outra mãe que a rejeitou atuava em Noelle como um complexo, que poderia ser, para ela, ainda que de forma inconsciente, a razão de matar o bebê de uma mãe e substituí-lo pelo bebê sequestrado de uma outra mãe. Dessa forma ela conseguiu que uma criança fosse criada por uma mãe adotiva sem que nenhuma das duas soubesse, e deixou uma mãe biológica sofrendo por ter perdido sua filha.

No modelo junguiano, podemos pensar que, antes de surgir um Eu, havia um todo inconsciente que chamamos de Self, o arquétipo do destino, que precisa de um Eu para se realizar em consciência.

A relação entre o Eu e o Self acontece por meio do que chamamos de símbolos, que nada mais são do que a forma do oculto se revelar. Assim, o jardim que Noelle cuidava com todo carinho compensava, na sua psique, o incômodo dos seus atos inconscientes.

A linguagem da consciência é literal, mas a da alma é simbólica. A compensação é uma autorregulação do sistema psíquico, mas, em casos de uma psicose latente, o Eu frágil facilmente é dominado pelo “assassino interior”.

Temos dois centros de decisões: o Eu e o Self. Enquanto o Self quer uma transformação e fala ao Eu por metáfora, o Eu é literal e abre caminhos a essa transformação da ideia da morte concreta. Quando nos relacionamos com o Self, a expressão é simbólica, mas, sem essa relação, ela é literal.

O impulso para uma vida mais plena e o impulso para a morte se confundem na busca da transformação. Se tivéssemos acesso a Noelle como paciente, em lugar de tentar reverter heroicamente a determinação da voz que diz “eu quero morrer”, o mais correto seria deslocar a questão para uma perspectiva simbólica: “o que precisa morrer em você?” ou “quem deseja morrer em você?”. Procuraríamos dessa forma as pistas sobre o “assassino interior” que habita a psique. Precisamos dar a ela uma oportunidade de elaborar os lutos que estão em jogo.

A psicologia analítica é uma ciência dos processos inconscientes. Ficamos atentos à maneira em que o oculto se revela. Noelle teve, como a mãe que a adotou, uma parteira não autorizada e que constantemente transgredia para trazer novas vidas ao mundo. Noelle então compensa tornando-se uma enfermeira-parteira autorizada, mas passa sua vida também como uma transgressora, transformando o seu crime em um jardim, símbolo de um espaço sagrado, que guarda um segredo protegido por uma mentira.

Nascimento e morte são opostos e, ao mesmo tempo, uma unidade. Uma coisa não existe sem a outra. Noelle pode ter desistido de viver por um segredo jamais revelado nem a ela mesma. No entanto, as amigas precisavam encontrar razões e, nesses casos, sempre as encontram e creem nelas.

Quando alguém conta ao analista o seu sofrimento, ele apenas escuta e procura encontrar um significado de como foram construídas aquelas ideias por trás desse significado. É como a vida de uma semente: expressa-se em vegetação depois que a enterramos. É assim que o oculto se revela, plantado, cuidado e fertilizado. O oculto é a necessidade da alma para se revelar em momentos especiais e de grande significado. Os problemas podem ser solucionados; os mistérios, apenas vividos. O complexo materno poderia ter sido o “assassino interior” que fez Noelle se libertar de todos os segredos e mentiras.

OUTROS OLHARES

AMORES TÓXICOS

Em movimento nas redes sociais, mais de 45.000 brasileiras postam depoimentos de abusos sofridos em relações, incluindo xingamentos, chantagens e humilhações

Elas ficaram em silêncio durante muito tempo, sofrendo caladas. De uns anos para cá, no entanto, resolveram botar a boca no trombone nas redes sociais para denunciar as barbaridades de um mundo ainda extremamente machista. Em 2017, mais de 1 milhão de internautas de todo o planeta publicaram relatos de assédio sexual seguidos pela hashtag #MeToo (ou #EuTambém). O movimento tomou corpo na esteira do escândalo protagonizado pelo produtor cinematográfico Harvey Weinstein, acusado de atacar mais de setenta mulheres. Agora, um novo movimento surgido nas redes se propõe a tornar pública outra forma de violência, mais subjetiva e, na maior parte das vezes, sutil, embora com potencial traumático quase igual: os abusos psicológicos típicos de relacionamentos tóxicos, incluindo xingamentos, manipulações, chantagens e humilhações.

Batizada com a hashtag #MeuExAbusivo, a campanha nasceu no Brasil no mês passado e já acumula mais de 45.000 relatos, quase todos de mulheres. “Eu nunca me senti tão culpada por ser eu mesma.” Foi assim que a youtuber Dora Figueiredo definiu, em um vídeo de quase vinte minutos publicado no dia 17 de julho, as diversas situações agressivas e humilhantes às quais relata ter sido submetida por seu ex-namorado (a peça já tem mais de 2 milhões de visualizações). No dia 29 do mesmo mês, ela lançou a hashtag #MeuExAbusivo na sua conta de Twitter, dando mais detalhes das ofensas e propondo uma discussão sobre o tema. Antes da ação, alguns estudos já haviam abordado o assunto. Em 2016, por exemplo, quase 30% das 10.000 mulheres entrevistadas em uma pesquisa da Universidade Federal do Ceará contaram ter sido vítimas desse tipo de tortura psicológica.

Relacionamentos abusivos costumam apresentar algumas características em comum: monitoramento da(o) parceira(o) – seja por redes sociais, seja pessoalmente – , intimidações, ameaças, tentativas de diminuir a(o) outra(o) com xingamentos ou palavras duras, dificuldade em assumir os próprios erros e egocentrismo são apenas algumas delas. Também é comum que o abusador tente isolar a outra pessoa de seus amigos ou da família. Assim, a vítima não tem a quem recorrer e fica ainda mais à mercê do abusador. Dora Figueiredo, por exemplo, conta no vídeo que seu ex-namorado a rotulava de gorda e fraca (ela sofria de depressão), chegando a afirmar que a odiava. “Aguentei por quase um ano, até que consegui forças para me libertar”, relata. Parte da inexplicável resiliência diante de tantas humilhações está relacionada à destruição da autoestima da vítima. Cria-se, assim, uma dependência emocional e um temor que a impedem de pôr fim ao relacionamento. “Meu ex dizia que, se terminássemos, eu nunca encontraria outro homem”, conta a designer Gisleide de Sousa, de 30 anos. Mas esse não é o único elo que prende a vítima. De acordo com um estudo do ano passado realizado pelo psicólogo americano Daniel Saunders, da Universidade de Michigan, dependência financeira, medo de retaliação em caso de rompimento e falta de apoio por parte de amigos e familiares engrossam alista de motivos que levam a situação a se arrastar por muito tempo.

Pode ser difícil identificar uma relação abusiva, sobretudo quando não há violência física. Nesses casos, a opressão se dá de modo sutil e silencioso, com ações que gradualmente se tornam mais e mais problemáticas e controladoras. Em muitos casos, o próprio abusador não faz ideia do estrago que está provocando. “Vivemos ainda em uma cultura na qual controle, posse, manipulação e ciúme podem ser sinônimos de afetividade”, diz Pollyanna Abreu, psicóloga fundadora do Não Era Amor, projeto que informa e atende on­line mulheres que estão em um relacionamento abusivo ou que saíram dele. “Não raro, a pessoa acredita que aquilo pelo que está passando seja normal” A dificuldade em enxergar os limites pode ter um preço alto, na forma de traumas carregados pelo resto da vida.

CIÚME EXAGERADO E OFENSAS PESADAS

” Meu ex era extremamente ciumento. Ficamos juntos por onze meses. Ele me afastou das minhas amizades e reclamava sempre que eu demorava mais de meia hora para responder a uma mensagem. Para me rebaixar, dizia que as outras namoradas eram melhores na cama do que eu. Quando terminamos, ele me chamou de prostituta no Facebook.”

MARÍLIA CÂNDIDO, 24 anos, especialista em redes sociais

A TRAIÇÃO DELE ERA CULPA DELA

“Quando descobri que estava sendo traída, meu ex fez de tudo para me convencer de que eu estava ficando louca. Cheguei a conversar com a amante. Mesmo assim, ele continuava negando. Nessas horas, chorava ou me agredia, segurando meu pescoço ou me sufocando com o travesseiro. Até que começou a dizer que a culpa da traição era minha, por causa da minha personalidade.”

CARLA VIEIRA, 32, bióloga

PUXÕES DE CABELO E INSULTOS

“Namorei um homem dezesseis anos mais velho. Ele não me deixava sair de casa sem maquiagem, reclamava de quanto eu comia, insultava meu corpo. Nas brigas, chegava a puxar meu cabelo e dizia que, se terminássemos, eu nunca encontraria outro homem que me quisesse. Ele me mandou embora de casa mais de uma vez, mas depois se dizia arrependido. Aguentei isso por dois anos.

GISLEIDE SOUSA, 30 anos, designer

GESTÃO E CARREIRA

ADORAMOS REUNIÕES

É quase consenso. Todo mundo costuma dizer que odeia reuniões de trabalho. “A afirmação entrou de tal forma para o anedotário empresarial que ficou difícil questiona­ la”, diz o psicólogo organizacional Steven G. Rogelberg, da Universidade da Carolina do Norte de Charlotte. Mas, quando ele e seus colegas deram a 980 funcionários um de dois questionários sobre o tempo que passavam em reuniões programadas e sobre o grau de satisfação geral com o emprego, por unanimidade as reuniões não foram vistas como algo ativo.

Funcionários que têm metas definidas e cujo trabalho não exige muita contribuição vinda de fora da empresa tendem mesmo a mostrar insatisfação com reuniões. Mas indivíduos cujo desempenho profissional depende da interação com outros e têm funções de certa forma flexíveis e menos estruturadas mostram-se mais satisfeitos quanto mais são convidados a participar delas. Que tal convocar uma reunião para debater o problema?

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PRESO NUMA VIDA PRETÉRITA

 A dor pela ruptura de uma relação gera dificuldade em superar os obstáculos e seguir em frente, fazendo com que a pessoa se torne refém de si própria

Nota-se que muitas pessoas quando se separam têm grande dificuldade em superar os obstáculos e seguir em frente com suas vidas. Ficam amarguradas e em busca de algo que justifique a dissolução da união, tornando-se reféns de si próprias e/ou importunando a vida do(a) outro(a), principalmente através dos filhos. Presos numa vida pretérita, com dificuldades no presente e sem expectativa de esperança no futuro. É natural que no início se tenha muita dor pela ruptura, até mesmo quando a separação já era apontada como a melhor alternativa para o casal. Separar, de fato, não é simples.

Nesse sentido, digo da dor e da necessidade de elaboração, o divórcio pode ser considerado uma grande crise da vida adulta porque desorganiza tudo, deixando a pessoa com velhos e novos problemas, o que requer um imenso trabalho interno. Esse trabalho pode começar pela quebra da idealização da família perfeita, já que família perfeita está longe de existir. Além disso, vem a angústia por se sentir fracassado na construção de uma casa representada por esse ideal de relação e de família.

Tudo isso não será resolvido com uma sentença judicial, apenas uma parte disso. É bem verdade que em não havendo melhor alternativa, recorre-se ao Judiciário. Todavia, no tribunal serão avaliadas as situações objetivas. O que quer dizer que, apesar da necessidade do processo judicial, o tribunal não será o melhor local para cuidar dos conflitos emocionais.

O processo judicial é muitas vezes utilizado inconscientemente com esse fim, e, nesse sentido, se observa que há brigas infinitas em que se espera uma restituição de todo investimento emocional depositado naquela relação; uma solução para a qual ninguém, tampouco o Judiciário, tem competência. Nesse caso, trata-se de atravessar o luto (a dor) e de ressignificar a própria história, e isso poderá ser feito pela própria pessoa com acompanhamento psicológico. Falar sobre as dores em local apropriado pode ajudar a desbloquear a vida emocional e fazer nascer a esperança de uma realidade diferente.

Algumas pessoas saem tão machucadas da relação que acreditam que não irão mais se relacionar amorosamente e se fecham na crença de que toda sua disposição emocional deverá ser depositada na criação dos filhos. Entretanto, não percebem, ou não acreditam, que os filhos também necessitam, para o seu desenvolvimento e amadurecimento emocional, que seus pais, adultos, sigam em frente com sua vida pessoal equilibrada, além dos cuidados com a prole. Muitas vezes, na impossibilidade de lidar com o vazio interno, por exemplo, permitem que o filho(a) concretamente ocupe o espaço livre em sua própria cama, muitas vezes justificando a dor emocional do filho, mas não observando a própria. Desse modo, oferecem à criança um lugar que não pertence a ela, criando, assim, um novo problema.

Faz bem para os filhos terem o próprio espaço em sua casa, e saberem que cada um tem o seu lugar; além disso, ébastante positivo que observem que seus pais não estão paralisados apenas nos cuidados com eles, que, sim, cuidam deles e os preservam, mas que também têm outras necessidades, como: o trabalho, os amigos e um novo relacionamento. Tudo isso em equilíbrio significa que a vida está seguindo e isso é muito positivo.

Quando os pais sofrem demasiado com sentimentos de dor, culpa ou traição, torna-se quase impossível acreditar que possa existir alguma via de esperança em um novo cenário. Aí está o engano, passada a maior turbulência, se está diante de uma redefinição da vida familiar que sugere aprender a conhecer e delimitar seu próprio território, estabelecer seus padrões, buscar acordos, tentar cultivar a comunicação a respeito dos filhos e evitar importunarem-se mu­ tua1nente sem necessidade. Aos poucos, começarão a adquirir capacidades que lhes per1nitirão dizer um adeus lento, mas definitivo à sua antiga relação conjugal, e desse modo deixar livre o espaço para estabelecer outra.

Com muita frequência, se nota, em perícia psicológica, que as dificuldades mais comuns estão relacionadas à falta de compreensão e elaboração da própria dor; e à falta de percepção de que é preciso modificar a forma como se lida e/ou fala com aquela pessoa que um dia fez parte de sua intimidade, isso serve tanto para as brigas quanto para a forma amorosa que pode ter existido. As duas formas são nocivas: buscar brigar todo o tempo, insultar, humilhar ou agredir verbalmente pode significar ressentimento, entre outras coisas. A forma amorosa com intimidade confunde e aprisiona emocionalmente o(a) ex-cônjuge. Ambas demonstram que ainda não se está confortável ou não entendeu que houve ruptura da relação, isto é, ainda não se separou emocionalmente. É preciso respeito pela história pretérita para se criar um novo modo de se relacionar.

Quando bem elaborada a separação, seu reflexo será visto externamente em sua própria vida, em suas relações, na forma como lida com os filhos e com o(a) ex-cônjuge.

RENATA BENTO – é psicóloga, especialista em criança, adulto, adolescente e família. Psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Perita em Vara de Família e assistente técnica em processos judiciais. Filiada à IPA – lnternational Psychoanalytical Association, à Fepal – Federación Psicoanalítica de América Latina e à Febrapsi – Federação Brasileira de Psicanálise.  renatabentopsi@gmail.com

OUTROS OLHARES

O CORPO PÓS-MODERNO

Se cérebro e corpo são a mesma coisa, a mente de um doador de órgãos seria incorporada ao transplantado?

O que é o corpo? Essa é uma pergunta que muitas vezes passa despercebida para os filósofos da mente quando eles se referem ao “problema mente-corpo”.

Nas últimas décadas, os progressos da neurociência levaram a reformular esse problema, que passou a ser o “problema mente­ cérebro”. Mas nem todos os neurocientistas pensam assim. António Damásio, por exemplo, afirma no seu livro E o cérebro criou o homem (2011) que “exagera-se a separação entre corpo e cérebro, pois os neurônios que compõem o cérebro são células corporais, e esse fato é de grande importância para o problema mente-corpo”.

Muitos filósofos da mente do século passado aderiram à ideia de tratar o problema mente­ corpo como o “problema mente- cérebro”. Outros, os fisicalistas, consideram o problema mente-corpo como uma variação de um problema mais amplo, o problema mente-matéria. Penso que essa é uma formulação muito vaga e que deveríamos atentar para o que há de específico quando se fala em relações entre mente e corpo. A matéria é composta por moléculas. Nosso corpo também é um conjunto de moléculas. Mas, como tudo é constituído por moléculas, essa explicação não ajuda muito.     

No Tratado do homem (1662), Descartes concebia o corpo como um grande dispositivo hidráulico no qual todas as partes estavam ligadas por meio de nervos que funcionavamcomo cordas para movê-los. O corpo era percorrido por tubos (artérias e veias) que ligavam seus membros ao cérebro. Quando ele recebia um estímulo, os espíri­os animais, uma forma sutilíssima de matéria, eram transmitidos por meio desses tubos (veias e artérias) até chegarem ao cérebro, que os redistribuía e, com isso, acionava de volta outras cordas para fazer os membros se moverem. Nesse modelo mecânico, a distinção entre o movimento dos objetos físicos e o movimento muscular era a presença de um cérebro.

No caso dos seres humanos, os espíritos animais, além de chegarem ao cérebro, eram retransmitidos para a mente por meio da glândula pineal, um órgão abrigado sob as duas metades do cérebro. Descartes acreditava que a glândula pineal tinha propriedades especiais que a tornava m uma interface entre a mente e o corpo, duas entidades radicalmente distintas. Ele acreditava que os animais não possuíam mentes (ou almas) e, por isso, não tinham, tampouco, uma glândula pineal.

No entanto, a dissecação de animais revelou que as hipóteses de Descartes eram incorretas, pois alguns animais possuíam uma glândula pineal. Além disso, pesquisas realizadas na época mostraram que havia animais que não precisavam do cérebro para se mover. Um contraexemplo era a tartaruga que, mesmo tendo o cérebro amputado, ainda era capaz de se mover por três dias. O mesmo ocorria com cobras quando eram decapitadas.

Em um livro recentemente publicado, Novos horizontes no estudo da linguagem e da mente, Noam Chomsky observa que, apesar de as hipóteses fisiológicas de Descartes terem sido abandonadas, sua descrição do corpo por meio de uma metáfora mecânica não foi descartada pelos filósofos e cientistas que o sucederam. Até hoje a medicina concebe o corpo como uma máquina extraordinariamente complexa comandada por uma consciência. O problema é que nada foi proposto para substituir as ideias de Descartes.

Nas últimas décadas, a ideia de corpo foi se tornando cada vez mais complicada e elusiva. Sabemos, hoje em dia, que ao longo da evolução muitas espécies de bactérias foram incorporadas em células do corpo humano. Muitas bactérias vivem no nosso corpo em uma simbiose harmoniosa e há mais células bacterianas no interior de cada organismo do que células humanas. Só nos intestinos há cerca de 100 bilhões de bactérias, e no resto do corpo mais 1O bilhões. Se mente e corpo são o mesmo, como sustentam alguns filósofos, nossas mentes são compostas, primordialmente, por bactérias. E se dermos um passo a mais e reduzirmos as bactérias a seus elementos constituintes, encontraremos 70% de moléculas de água.

O problema mente-corpo pode se tornar ainda mais bizarro quando consideramos a tecnologia dos transplantes. Essa tecnologia reforça ainda mais a ideia de que o corpo é uma máquina, pois suas peças são substituíveis como em qualquer tipo de mecanismo.

Muitas pessoas, no desespero da pobreza, vendem um rim, uma parte do fígado, um pulmão ou um testículo. A Organização Mundial da Saúde estima que ocorram, todos os anos, 10 mil cirurgias no mercado negro envolvendo transplantes de órgãos.

Imagine um milionário cristão praticante que tenha recebido rins de um muçulmano jihadista. Ou um supremacista branco que respire com o auxílio de pulmões de negros e enxergue o mundo através dos olhos de algum moleque de rua africano. Ou, quem sabe, um cardeal com o fígado de uma prostituta de uma comunidade carioca? Já não temos mais apenas um corpo, mas uma justaposição de peças de uma máquina, cuja origem contradiz nossa intuição costumeira de unidade. Supondo que a tese da identidade mente ­ corpo ou mente-cérebro seja correta, como defendem muitos filósofos, será que a mente do transplantado incorporará parte da mente dos doadores?

Temos corpos pós-modernos. Uma colcha de retalhos indefinível, na qual há organismos vivendo em outros organismos, máquinas dentro de máquinas. Reduzir a mente ao corpo ou à matéria, como querem os fisicalistas, parece tornar o problema mente-corpo, mente-cérebro ou mente-matéria mais obscuro. E querer explicar o obscuro pelo obscuro.

JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA – é paulistano, formado em filosofia na USP. Viveu e estudou na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Escreveu mais de uma dezena de livros sobre filosofia da mente e tecnologia. Lecionou na UNESP, na UFSCAR e na PUC- SP.

GESTÃO E CARREIRA

QUANTO VALE UMA EMPRESA?

Dados como crescimento e fluxo de caixa já não bastam para calcular o valor de mercado de companhias novatas nem das bem estabelecidas. É bom se acostumar: os mercados estão numa daquelas fases ”irracionais”

“Não há nada mais perigoso do que procurar uma política racional de investimentos em um mundo irracional”, disse o famoso economista inglês John Maynard Keynes, durante uma reunião com investidores em 1931. Naquele momento, as economias ainda viviam sob os escombros da quebra da bolsa de valores americana em 1929, e não se tinha uma visão clara de como poderiam se recuperar. Passados 90 anos desde a crise mais grave do século 20 e 11 anos desde a maior turbulência financeira deste século, o que se vê é um cenário de crescente irracionalidade, com empresas pouco ou nada lucrativas valendo bilhões de dólares graças ao avanço de novas tecnologias e às mudanças radicais nas relações sociais. Da mesma forma, gigantes do capitalismo vão à lona na mesma velocidade. Nesse contexto, um tema recorrente nas mesas de operação, nas redes sociais e nas rodinhas de investidores é como calcular, afinal, o valor de uma empresa.

Um exemplo dos novos tempos é o banco Inter, criado pela família Menin, dona da construtora MRV, de Belo Horizonte. O banco passou de um valor de mercado de 1,9 bilhão para 15 bilhões de reais em apenas um ano e três meses. O primeiro valor foi atribuído à instituição mineira em sua oferta inicial de ações, realizada em maio de 2018, quando captou 722 milhões de reais na bolsa brasileira. Naquele momento, havia certa desconfiança do mercado sobre o primeiro banco digital a se listar na B3. De acordo com um relatório da casa de análise Eleven, o Inter precisava fazer de TUDO (com letras maiúsculas mesmo) para conquistar os investidores. Por TUDO entenda-se entregar resultados, mas sobretudo vender futuros. O Inter encerrou 2018 com 1 milhão de clientes e projeta alcançar 3,5 milhões de correntistas neste ano – atualmente, são 2,5 milhões. O lucro ainda é modesto para os padrões bancários brasileiros: 33 milhões de reais no segundo trimestre. Ainda assim, no fim de julho, o Inter captou 1,3 bilhão de reais em uma oferta subsequente de ações, dos quais 760 milhões vieram do fundo de investimento japonês Soft Bank, que ficou com 8% do banco. “Se não há valor para os clientes, em algum momento, não haverá para os acionistas”, diz João Vítor Menin, presidente do Inter. Antes do Inter, a gestora japonesa chegou a se interessar pelo concorrente Nubank, mas a operação não foi adiante. No fim, o Nubank recebeu um aporte do fundo de investimento americano TCV, e isso elevou seu valor de mercado para 10 bilhões de dólares – mesmo com um prejuízo de 49 milhões de reais reportado no último semestre de 2018. O valor de mercado do BTG Pactual, que teve lucro de 972 milhões de reais no segundo trimestre, é de 12 bilhões de dólares. Descasamentos entre resultado e valor de mercado são ainda mais comuns nos Estados Unidos, onde o aplicativo de transportes Uber vale 62 bilhões de dólares apesar de ter mostrado prejuízo de 5,2 bilhões no segundo trimestre. A Uber também tem o Soft Bank como sócio. “Muitas pessoas perguntam se não pagamos caro demais por nossos investimentos, e a resposta é que só compramos ativos que devem se valorizar”, afirma André Maciel, sócio do Soft Bank na América Latina.

Na teoria, uma empresa deveria valer o equivalente ao fluxo de caixa futuro trazido a valor presente. Mas há cada vez mais exceções à regra. consultamos mais de uma dezena de analistas, investidores, advogados especializados em fusões e aquisições e empreendedores para explicar esse novo mundo do valuation. O certo é que as métricas de matemática financeira não são suficientes para medir risco e retorno num cenário em que a economia pode ser transformada a qualquer momento por companhias disruptivas. Investidores aceitam pagar um ágio para ser um dos primeiros a investir em empresas que podem despontar, como Uber, WeWork e Airbnb – e lá na frente obter uma rentabilidade maior do que a dos demais. “Não dá para usar múltiplos tradicionais, como preço sobre lucro; é necessário construir um modelo de longo prazo. Quem diria que a Amazon, que passou nove anos sem dar lucro, chegaria aonde chegou?”, diz Bruno Amaral, líder de fusões e aquisições na América Latina do BTG Pactual. Esse apetite dos investidores por mais risco se dá por haver excesso de dinheiro em busca de retornos maiores do que os juros, que estão em patamares historicamente baixos. Um levantamento feito pela consultoria Economática aponta que o valor de mercado das 249 ações que tiveram maior negociação nos últimos cinco anos na B3 quase dobrou de 2015 a 2019, passando de 2 trilhões para 3,6 trilhões de reais. Já o avanço do patrimônio líquido dessas mesmas empresas foi de 1,5 trilhão para 1,8 trilhão de reais. “O problema é que isso pode ser o início de uma bolha”, afirma Fernando Borges, diretor-geral do Carlyle, fundo de participações que tem 223 bilhões de dólares sob gestão ao redor do mundo.

De fato, há semelhanças entre o momento atual e a bolha da internet do início dos anos 2000, quando empresas ponto-com viram suas ações subir vertiginosamente na bolsa americana. Naquela época, como agora, os juros estavam baixos nos Estados Unidos, o lema das companhias era “fique grande rapidamente” e muitos investidores abriram mão de métricas tradicionais de avaliação de preço, confiando nos avanços tecnológicos e na transformação da economia. O resultado dessa combinação, então, foi um quebra-quebra generalizado e a queda geral dos índices de ações. Por outro lado, aquela crise trouxe lições. Agora é mais comum as companhias passarem por estágios de investimento e receberem sucessivos aportes à medida que provam ser capazes de entregar resultados. É assim que funciona o ecossistema de capital de risco, que começa com investidor-anjo, passa pelo venture capital e pelo private equity, até chegar à bolsa de valores. “Esse passo a passo ajuda a trazer alguma racionalidade ao mercado”, diz Rodrigo Baer, sócio do fundo de capital de risco Redpoint eventures.

Para analistas de ações mais tradicionais e avessos a aventuras, há duas pedras no caminho. A primeira: empresas tradicionais nunca correram tanto risco de ser atacadas por novatas. A segunda: as constantes mudanças no ambiente de negócios têm levado a mudanças dos reguladores. Um dos dados mais relevantes para a avaliação tradicional, o Ebitda (o lucro antes de descontar juros, impostos, depreciação e amortização), que ajuda a balizar um competidor com seus pares, sofreu alterações recentemente com a adoção do modelo contábil IFRS16.

NOVA NORMA CONTÁBIL

Pelo novo padrão adotado pelas empresas de capital aberto de 100 países, e válido a partir deste ano no Brasil, os aluguéis passam a ser reconhecidos na depreciação do ativo e nas despesas financeiras do passivo, e não mais como despesa operacional nas demonstrações de resultado. Com isso, é de esperar que o Ebitda registre aumento e o lucro líquido caia. Foi o que aconteceu com a empresa de aluguel de carros Movida, que viu um incremento de 9% no Ebitda e uma redução de 3% no lucro líquido do segundo trimestre. “Empresas que até então não tinham interesse em terceirizar a frota agora veem com bons olhos esse aumento do Ebitda. Já observamos crescimento de demanda”, afirma Fábio Costa, diretor de relações com investidores da Movida.

De acordo com um levantamento realizado por Oscar Malvessi, professor de finanças corporativas na Fundação Getúlio Vargas, se o IFRS16 fosse usado nos anos de 2016, 2017 e 2018, as empresas de varejo brasileiras abertas teriam um incremento no Ebitda de 18%, 39% e 37%, respectivamente. As despesas financeiras também aumentariam: 41%, 51% e 92%. “Esses números são ilusórios. O importante é analisar se houve criação de valor nesse período, e o que se vê é uma queda de 2% em 2016 e 2017 e de 1% em 2018”, diz Malvessi. Para Menin, do banco Inter, a criação de valor é de fato uma bússola nesse cenário de tantas mudanças. O Inter montou uma equação voltada para a criação de valor que inclui tanto o crescimento da base de correntistas quanto da receita de serviços. Essa operação, somada a um menor custo de captação de crédito, resulta em geração de valor no longo prazo, mesmo que ainda não baste para chegar perto do lucro dos bancões. Menin sabe que uma hora ou outra o acionista cobrará rentabilidade. Períodos de maior e menor racionalidade, afinal, são tão antigos quanto o mercado de capitais. A discussão sobre quanto vale uma empresa também.

NA PONTA DO LÁPIS?

Apesar do pouco (ou nenhum) lucro, novatas já valem quase tanto quanto bancos tradicionais

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 17 – CHEIOS DO ESPÍRITO

Quando as pessoas se referem à chamada “passagem do casamento” em Efésios 5, elas costumam começar com o versículo 22 – aquele que diz às esposas para se submeterem. Mas, na verdade, a exortação de Paulo começa bem antes nesse capítulo. Para entendermos plenamente como nosso casamento deve retratar o relacionamento entre Cristo e a Igreja, vamos voltar ao versículo 18:

… mas enchei-vos do Espírito. Efésios 5:18, ACF

No original grego, a palavra traduzida aqui como enchei-vos descreve o processo de estar impregnado do Espírito como uma experiência contínua. Uma vez não basta. Quando não somos continuamente cheios com o Espírito de Deus e estimulados por Ele, esperamos que nosso cônjuge preencha necessidades que somente Deus pode preencher. Por mais incrível que seu cônjuge seja, ele ou ela jamais poderá substituir Deus. Se você espera que seu cônjuge dê propósito e significado à sua vida, bênçãos que só Deus pode oferecer, ficará decepcionado, frustrado e será incapaz de demonstrar o amor de Deus.

Nossos casamentos só refletirão Cristo na mesma medida em que Seu Espírito for bem-vindo em nossas vidas. Cristo é a pedra angular da nossa salvação, mas o Espírito Santo é o agente de transformação. Permitindo que nossas vidas sejam continuamente cheias com o Espírito, podemos experimentar a renovação da nossa mente e a transformação do nosso comportamento. Deus diz:

Quanto à antiga maneira de viver, vocês foram ensinados a despir-se do velho homem… a serem renovados no modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade provenientes da verdade. Efésios 4:22-24

Tentar amar e servir como Cristo estando separado do Seu Espírito é como tentar tirar água de uma mangueira que não está conectada a uma torneira. Uma mangueira não pode produzir água sozinha; ela é meramente um condutor. Do mesmo modo, só quando abraçamos a capacitação do Espírito Santo podemos amar e servir nossos cônjuges da maneira que Deus deseja.

A força de vontade e a mudança do comportamento têm sua importância, mas no fim das contas elas não podem renovar nossa mente ou vencer os desejos da nossa carne. Somente quando abraçamos a Pessoa e o poder do Espírito de Deus é que podemos experimentar Sua influência transformadora em nossas vidas e através delas – uma influência que é demonstrada por meio de atitudes e atos semelhantes aos de Cristo para com nossos cônjuges. Qualquer tentativa de modificar nosso comportamento sem que haja o envolvimento do Espírito de Deus levará à frustração e à desilusão.

Recebemos inúmeras mensagens de homens e mulheres cujos casamentos estavam destruídos pela manipulação e pela dominação. Em muitos casos, essas pessoas tinham conhecimento da Bíblia, mas lhes faltava o amor e a graça do Espírito. Como resultado disso, aquelas mesmas palavras que se destinavam a libertar e capacitar, eram usadas para confinar, minar ou envergonhar. Esses males estão presentes onde quer que o egoísmo esteja à espreita. O egoísmo floresce quando não nos beneficiamos da obra do Espírito de Deus e, por conseguinte, rejeitamos o serviço como nosso principal papel conjugal.

Durante o restante deste capítulo, exploraremos o que significa servir dentro do contexto do casamento. Nosso objetivo é oferecer uma fundamentação bíblica segundo a qual podemos conduzir nosso casamento e edificá-lo por meio do serviço. Com esse espírito, nós o incentivamos a não usar este capítulo como uma licença para condenar qualquer comportamento passado ou presente de seu cônjuge. Em vez disso, use-o como um modelo que o permita seguir em frente.

Entendemos que estamos moldando esses conceitos sob a premissa de que ambos os cônjuges desejam honrar o plano de Deus acerca do papel que devem cumprir em seu casamento. Sabemos que nem sempre é assim. Seja qual for sua situação, lembre-se de que você não pode mudar seu cônjuge. Se tentar fazê-lo, você será somente um obstáculo no caminho de Deus. Abra seu coração para a obra do Espírito de Deus, e dê espaço a Ele para fazer o que só Ele pode fazer em seu cônjuge.

IDENTIDADES E PAPÉIS

Para entender o papel que assumimos no casamento como servos, precisamos examinar mais uma vez o Jardim do Éden:

Criou Deus o homem à Sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gênesis 1:27

Tanto o homem quanto a mulher são detentores de uma imagem que reflete a natureza de Deus. O homem e a mulher são diferentes, mas são igualmente importantes para demonstrar a natureza de Deus na Terra.

Marido e mulher são papéis. Eles são papéis únicos, e a Bíblia dá informações específicas sobre o que eles envolvem, mas esses papéis não são nossa identidade. Nossa identidade tem a ver com o nosso projeto original. Fomos criados para sermos portadores da semelhança de Deus na Terra. A Queda distorceu esse propósito, mas o sacrifício de Cristo o restaurou. Nossa salvação em Cristo é, antes de qualquer coisa, uma mudança de identidade.

Nenhum papel – marido, esposa, profissional, ministro, pai, amigo – pode estar acima da sua identidade. E justamente porque uma mudança de papel (de solteiro para casado, por exemplo) não é o mesmo que uma mudança de identidade, homens e mulheres são tão valiosos aos olhos de Deus depois do casamento quanto são antes dele.

Infelizmente, muitas pessoas (principalmente as mulheres) acham que seu valor muda depois que se casam. As mulheres temem que para honrar seus maridos, precisem se tornar secundárias em termos de importância ou contribuição. Nesse cenário, em vez de se elevar para praticar atos de amor e serviço, a mulher se encolhe em servidão até praticamente desaparecer.

Embora possa parecer a princípio que o marido se beneficie com esse arranjo, não é assim. Na verdade, ambos os cônjuges perdem quando o egoísmo é cultivado como um estilo de vida. Um marido que não vê sua esposa como um parceiro igual no casamento não apenas é roubado de uma aliada íntima, como também perde uma das suas maiores oportunidades de crescimento. Os homens se tornam mais semelhantes a Cristo quando servem às suas esposas como Jesus serve à Igreja. Lembre-se de que Jesus deu o modelo de Sua liderança servindo àqueles a quem Ele lidera e ama.

O amor, o respeito e a honra são essenciais para ambos os cônjuges. Ambos os cônjuges importam e ambos os cônjuges servem. Abordar o casamento dessa maneira ajuda a devolver ao homem e à mulher o poder do domínio, o dom da força e da autoridade de Deus que nos foram confiados no instante da nossa criação.

DOMÍNIO VERSUS DOMINAÇÃO

Deus os abençoou e lhes disse: “Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a Terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra” … E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom… Gênesis 1:28, 31

No início os homens e as mulheres não eram inimigos. Eles eram aliados íntimos e cooperadores – duas pessoas distintas unidas com um só coração. A eles foi confiada a missão de encher e subjugar a Terra. Deus lhes deu uma comissão (sejam férteis e multipliquem-se) e deixou que eles definissem os detalhes. Ele lhes deu domínio.

O domínio está associado ao poder de governo, à autoridade ou ao controle. Ele descreve uma área de influência e está associado à posse de poder. Como aprendemos com a história da Última Ceia, toda autoridade, quer seja ela confiada a um homem ou a uma mulher, é dada para servir aos outros para o benefício e crescimento deles.

A guerra dos sexos começou depois da Queda. Com a total ruptura entre Deus e Sua criação, o domínio sofreu uma mutação e se transformou em dominação e manipulação. Essas distorções dos poderes dados por Deus guerreiam continuamente contra o plano Dele para uma bela união. O casamento se tornou um instrumento de divisão em vez de multiplicação.

A intenção nunca foi que o casamento fosse uma luta pelo poder. Ele foi criado para ser uma união de poder. O casamento funde duas pessoas com qualidades e forças muito diferentes e depois usa essas diferenças para criar a oportunidade para a multiplicação. Tudo isso é parte do plano de Deus para reconciliar o que parecia estar além da reconciliação. Jesus disse:

Pois o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido. Lucas 19:10

Costumamos entender esse versículo como se ele descrevesse apenas o aspecto evangelístico, quando na verdade ele carrega em si um significado muito maior. Jesus não veio meramente para salvar os perdidos; Ele veio para salvar aquilo que estava perdido. Na Queda, perdemos nossa comunhão com Deus. Mas também perdemos a unidade dos nossos relacionamentos uns com os outros. Isso inclui nossos relacionamentos como irmãos, como pais e filhos e como marido e mulher. E perdemos a beleza que havia em nosso relacionamento com o restante da Criação.

A obra salvadora de Jesus tem a ver com mais do que sobreviver até chegar ao Céu. Ela tem a ver com abundância e restauração no presente. Por causa da Cruz, todo relacionamento que sofreu alguma perda tem o potencial de ser restaurado. Isso significa que podemos experimentar cura em nossos casamentos hoje. Homens e mulheres podem viver novamente como um só!

Quando temos um só coração e propósito, nós nos multiplicamos, porque Deus diz que onde existe unidade Ele ordena uma bênção (ver Salmos 133). O inimigo de nossas almas não quer que experimentemos a bênção de Deus, nem quer que nos multipliquemos. Portanto, ele faz tudo que está ao seu alcance para destruir nossa unidade. Contudo, quando contendemos contra o engano da dominação e abraçamos a verdadeira natureza do domínio, nos tornamos parceiros de Deus para ver Sua vontade cumprida na Terra.

Agora passaremos a uma discussão mais específica a respeito dos diferentes papéis que homens e mulheres desempenham no casamento como servos. Sem entender a perspectiva de Deus acerca de identidade, valor e domínio, poderíamos facilmente nos equivocar e pensar que esses papéis divinamente estabelecidos favorecem um cônjuge em detrimento do outro. Uma vez tendo estudado o primeiro mandato de Deus para o casamento e tendo reconhecido a diferença entre identidade e papéis, acreditamos que você verá como os papéis de ambos os cônjuges são empolgantes, importantes e valiosos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SEXO NO CASAMENTO

Maior frequência de sexo no casamento está associada ao bem-estar conjugal

Algumas investigações têm apontado que existe uma relação positiva entre a frequência das relações sexuais em um casal e medidas de bem-estar conjugal. Pesquisas têm demonstrado que se tratando de sexo e bem-estar, mais é melhor, pelo menos até a frequência de uma vez por semana. Provavelmente, esse ponto de corte da frequência sexual obtida a partir de amostras norte-americanas é bem conservador para a nossa exuberante realidade brasileira, e se tivéssemos dados nacionais estes apontariam para uma frequência maior.

No entanto, as conclusões sobre como o nível da atividade sexual influencia o bem-estar se tornam complicadas por pesquisas que sugerem que a frequência sexual pode ter diferentes associações com o bem-estar, dependendo de como se mede essa variável. Certas medidas são voltadas a relatos explícitos, declarações conscientes dos membros do casal. Outras formas de mensuração estão focadas nas respostas automáticas ou implícitas, que são de natureza inconsciente.

Os pesquisadores Hicks, McNulty, Meltzer e Olson, em um estudo de 2016, analisaram ligações entre frequência sexual e qualidade de relacionamento em casais casados. Em duas amostras de casais casados que foram investigados, esses pesquisadores descobriram que os relatos das pessoas sobre a frequência com que tiveram relações sexuais nos últimos meses não previam suas respostas explícitas sobre a qualidade de seu relacionamento (como satisfeitos eles declaravam que eram), mas o nível de atividade sexual previa seus sentimentos mais automáticos e implícitos sobre seu relacionamento.

A forma adotada nesse estudo para obter medidas dos sentimentos implícitos dos sujeitos foi engenhosa. Os pesquisadores fizeram com que os participantes concluíssem uma tarefa em computador que foi projetada para avaliar como eles realmente se sentem sobre seus relacionamentos, focando nos sentimentos dos quais não têm consciência. Os participantes visualizavam fotos de sua esposa, com as imagens aparecendo uma de cada vez, muito rapidamente, na tela do computador. Depois de cada foto, eles visualizavam uma palavra positiva ou negativa. Sua tarefa era indicar o mais rápido possível se a palavra era positiva ou negativa, usando comandos de computador específicos.

O mais interessante dessa tarefa é que, em estudos anteriores, foi demonstrado que as imagens podem interferir nas respostas das pessoas às palavras. Se a imagem corresponder à palavra (imagem positiva, palavra positiva), as pessoas responderão mais rapidamente. Se a imagem for diferente da palavra (imagem positiva, palavra negativa), as pessoas demoram mais para responder. Ao comparar o tempo de reação das respostas às palavras positivas e negativas depois de ver a foto, os pesquisadores podem ter uma ideia de como as pessoas se sentem em relação ao cônjuge. Para garantir que o efeito seja exclusivo de seus sentimentos em relação ao cônjuge, os pesquisadores também testam os sujeitos em resposta a seus próprios rostos e faces de estranhos atraentes.

Os resultados desses estudos apontaram que os relatos das pessoas sobre sua frequência sexual não previam o quanto estavam satisfeitas com seus relacionamentos, mas, no entanto, mais sexo estava de fato associado a sentimentos inconscientes mais positivos. Um dos estudos mapeou os sentimentos das pessoas ao longo de vários anos e descobriu que as pessoas que relataram ter maior atividade sexual tinham crescimento no bem-estar, demonstrando ter sentimentos implícitos ainda mais positivos em relação ao parceiro ao longo do tempo. Portanto, sexo no casamento de fato aumenta o bem-estar, mas temos que ouvir o inconsciente para constatar seu efeito.

MEDINDO O INCONSCIENTE

Atualmente, a pesquisa em psicologia social tem desenvolvido uma série de métodos de investigação das avaliações inconscientes implicadas em uma variedade de tópicos, sendo que os mais estudados são atitudes, autoestima ou estereótipos. O teste mais conhecido para examinar associações inconscientes em relação a categorias de pessoas (geralmente grupos étnicos), objetos ou o próprio self é o lmplicit Association Test, desenvolvido pelo pioneiro da pesquisa do inconsciente, o psicólogo Anthony Greenwald e seus colegas Brian Nosek e Mahzarin Banaji. A apresentação dos conceitos no IAT é explícita, mas as associações implícitas em relação a esses conceitos, que são o principal foco do instrumento, não recebem atenção consciente do sujeito, pois são medidas pelo tempo despendido na resposta a cada par de palavras. Isso demonstra que temos atitudes em dois níveis, aquelas que ostentamos conscientemente, refletindo nosso conhecimento explícito e valores sobre o mundo, e as atitudes implícitas, que revelam correntes subterrâneas compostas pela somatória de informações coletadas e armazenadas em nosso cérebro.

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed. 2011).

OUTROS OLHARES

JUSTIÇA: UM FIO TÊNUE ENTRE A SUBJETIVIDADE E A OBJETIVIDADE

”Não é justo!!!” O que é de fato justiça? Os vários sentidos que empregamos na vida cotidiana estão coerentes com o que justiça pode significar?

“Professor, eu estudei tanto e não tirei nota, o meu colega não estudou nada e tirou 10, não é justo”

“Acabei de comprar o carro e um ladrão o roubou, não é justo””Eu não roubei a casa da senhora, não é justo ir preso” Esses e outros exemplos demonstram como a ideia de justiça está sendo aplicada em quase todas as situações. Porém, são situações distintas e muitas vezes não se trata de justiça ou não. Uma análise mais cuidadosa das situações acima é suficiente para demonstrar que o argumento/justificativa para a conclusão não é o mesmo. Nem todo raciocínio acima pode terminar com não é justo. Por que não é justo ter estudado muito e não tirar nota? Vamos imaginar que você estudou muito e mesmo assim não aprendeu. Como quer tirar nota? Vamos imaginar que seu colega, que não estudou, tenha compreendido todo o conteúdo que o professor passou em sala, qual é a injustiça de ele tirar nota na prova sem ter estudado? Ao dizer que não é justo você que estudou não tirar nota e o colega que não estudou tirar nota, no fundo você está dizendo que é injusto quem não estuda tirar nota. Me pergunto: por que estudar e não tirar nota e não estudar e tirar nota? Em que sentido o termo justiça está sendo empregado nessa situação?

Qual a relação causal entre ter acabado de comprar o carro e ter sido roubado com a questão da justiça? Quanto tempo a pessoa tem que ficar com o carro para depois ser justo roubá-lo? Existe tempo justo para depois poder fazer o roubo? Existe roubo justo? Coloque um comunicado no seu carro: acabei de comprá-lo, não é justo roubá-lo, volte daqui seis meses! Não estou aqui defendendo o roubo, mas mostrando a complexidade de algumas afirmações feitas sem a devida reflexão. O que é injusto no caso do roubo do carro?

O terceiro exemplo parece ter uma relação mais direta com a questão da justiça. Se não foi você quem roubou não é justo ser preso, não é justo pagar por algo que não cometeu, ou seja, prendê-lo será um ato de injustiça. Inclusive participei de alguns tribunais do júri e sempre ouvia o advogado de defesa fazer a seguinte observação: é melhor mil bandidos soltos do que um inocente preso. Esta afirmação parece, numa análise rápida, bastante aceitável, principalmente se o inocente preso for você.

JUSTIÇA COMPLEXA

As situações acima expostas demonstram o quão é complexa a discussão sobre justiça. Ela abrange um grande universo de teorias e situações que se misturam ao longo da história. Primeiramente quero dizer o que não pretendo com este artigo: não pretendo fazer uma leitura histórica da justiça ou de seu conceito; não pretendo tomar como base um determinado autor: Aristóteles, Tomas de Aquino ou Hans Kelsen, entre tantos outros; não pretendo ter como referência uma determinada vertente/ corrente filosófica e também não pretendo fazer uma análise voltada para a questão do direito e todas as suas implicações, caindo assim no campo da Filosofia do Direito. Pretendo, antes de mais nada, trazer alguns elementos para reflexão que há muito tempo vêm me acompanhando, e “não é justo” perdê-los e não compartilhar com ninguém. Porém, mesmo sendo um partilhar de ideias, elas serão, ao longo da reflexão, confrontadas com conceitos e teóricos, buscando uma fundamentação.

Tendo como referência o pensamento ocidental, pode-se afirmar que, desde o mundo grego clássico, a justiça, ou a ideia de justiça, esteve no centro do filosofar e na prática da vida em sociedade, e que esse tema percorreu toda a Idade Média, passando pelo mundo moderno e chegando até a sociedade contemporânea. Não temos por certo um único conceito que se desenrolou ao longo da história, pois o próprio conceito é fruto da história, mas é possível encontrar, grosso modo, uma leitura que tende a colocar a justiça no campo da pura objetividade e uma leitura que tende a colocar a justiça no campo da pura subjetividade. Essa talvez seja uma das questões centrais que marcaram toda a discussão sobre a problemática da justiça. Será ela passível de ser medida, calculada e mensurada, será possível chegar a um justo independentemente do olhar do sujeito ou será a justiça total subjetividade, ou seja, algo pode ser justo para você, mas não para mim e vice-versa. Essas posturas, o objetivismo e o subjetivismo, ao extremo podem levar a um absolutismo ou a um relativismo. Aliás, a sociedade contemporânea tem demonstrado certa dificuldade em encontrar a justa medida; geralmente saímos de um extremo para o outro e não há espaço para o diálogo, tão necessário quando o assunto é justiça.

Como está presente no título deste artigo, o objetivo central é discutir a subjetividade e a objetividade presentes no termo justiça, ou melhor, o quanto a justiça pode ser considerada pura subjetividade e o quanto a justiça pode ser considerada pura objetividade, ou será que ela mantém um pouco de subjetividade e um pouco de objetividade? Entendo que nada de novo será apresentado e que muitas vezes irá parecer que estou falando o óbvio, mas o óbvio às vezes é bom ser dito novamente.

Muitos termos são difíceis de serem definidos, ou seja, é difícil dizer o que ele é. Nesse caso, fica mais fácil buscar sua definição por exclusão, ou seja, por aquilo que ele não é. A justiça é um desses casos. Entendo que é difícil defini-la positivamente, mas acredito que é possível se aproximar de uma definição pelo seu “negativo’: ou seja, afirmando aquilo que não é justiça. Por outro lado, surge uma nova questão: é possível dizer que tudo o que não é justiça é injustiça? Não cometer o ato justo já é por si só um ato injusto? Por exemplo: é justo o aumento salarial solicitado pelos trabalhadores, mas seria injustiça não dar o aumento? Será que é justo o aumento solicitado ou é legítimo o aumento solicitado? Justo e legítimo são sinôni1nos? Como fica a possibilidade de uma total impossibilidade de se fazer justiça? A impossibilidade de se fazer justiça já é por si mesma injusta. Como fazer justiça por alguém que já faleceu, parece não ser nada efetivo, mas um tanto quanto romântico. Aqui entramos numa discussão sobre a base na qual se assenta a justiça. Ela pertence ao campo ético, estético, gnosiológico, ontológico, entre outros? Podemos dizer: a justiça é bela!, a justiça é certa!, a justiça é um ser! Existe o justo ou somente práticas justas? Uma afirmação é possível fazer diante de tantas questões: a justiça é a única virtude que não pode estar a serviço do mal ou da injustiça. É possível às demais virtudes cardeais: prudência, temperança e coragem estarem a serviço do mal. Um assassino precisa de coragem, pois sem ela ele pode se acovardar; um ladrão de banco precisa de prudência e de coragem, pois caso contrário o assalto pode não dar certo. Porém, a justiça nunca compartilhará do mal e o mal nunca desejará a companhia da justiça – eles não convivem no mesmo espaço. A justiça é sem dúvida a única que é absolutamente boa. Porém, mesmo concordando com a colocação acima, a pergunta permanece: tudo o que não é justo é injusto?

SUBJETIVIDADE E OBJETIVIDADE

As questões e colocações acima são fundamentais quando se pensa a justiça, mas vamos retornar ao tema central deste artigo: o quanto de subjetividade e objetividade está presente quando discute-se a questão da justiça.

Podemos começar nossa reflexão olhando à nossa volta e constatando quantas injustiças estão presentes. É injusto um ser humano morrer sem atendimento na porta de um hospital. É injusto alguém ser arrancado de sua cidade por causa de guerras. É injusto tantas pessoas ao redor do mundo morrendo de fome, enquanto lixões estão cheios de restos de comida. Mesmo afirmações como estas podem ser questionadas e defrontadas diante da subjetividade e do olhar específico do outro sobre cada situação, ou seja, é possível não encontrar unanimidade em relação aos exemplos acima mencionados.

Numa visão mais essencialista pode-se afirmar que a justiça existe e que é possível “alcançá-la”. Os gregos de maneira geral partilhavam dessa visão, ou seja, existe o justo e temos condições de contemplá-lo ou mesmo alcançá-lo. Caso ele não exista, é possível chegar a uma posição comum na qual racionalmente a justiça foi firmada, nesse caso a justiça não cairia numa discussão centrada num subjetivismo, mas respaldada na racionalidade humana e sua capacidade objetiva. Aliás, racionalidade que também hoje está sendo questionada, uma vez que vivemos uma época de certa descrença no próprio poder da razão e até mesmo na própria existência da razão. O problema é que a objetividade, marcada por uma suposta exterioridade e anterioridade da justiça, nem sempre dá conta da situação posta no momento, nem sempre se consegue um consenso em torno de uma dada situação para que se possa dizer “justiça foi feita”. Nem sempre é possível contemplar a justiça como se ela estivesse guardada num local, como se ela fosse um ser existente à espera da ação do homem. Para que a justiça seja feita, ela precisa passar pela aprovação de todos ou a maioria basta? Algo que possui um grau de objetividade precisa da aprovação para ser? O fogo queima é um fato objetivo, e penso que ninguém afirma o contrário, mas a dor que a queimadura causa, quanto de objetividade ela tem? Dor é objetiva ou subjetiva? Como medi-la? Ao dizer que a lei é justa eu tenho um componente objetivo, mas a lei não é a própria justiça. A justiça é uma ideia, um conceito, e como tal não tem existência ontológica?

Isso nos leva a uma outra dimensão da justiça, que é a possibilidade de ela ser mais subjetiva ou totalmente subjetiva. Hans Kelsen, de maneira geral, defende essa leitura e é por isso que ele, buscando dar valor de ciência e autonomia ao Direito, o afasta da discussão sobre justiça por entender que essa discussão é subjetiva e o impediria de construir uma teoria pura do Direito. “… todo juízo de valor é irracional porque baseado na fé e não na razão; nesta base, pois, é impossível indicar cientificamente – ou seja, racionalmente – um valor como preferível a outro; portanto, uma teoria científica da justiça deve limitar-se a enumerar os possíveis valo­ res de justiça, sem apresentar um deles como preferível ao outro” (Kelsen, 1993, XXVI).

De maneira geral, quem defende que a justiça, ou a ideia de justiça, é uma questão subjetiva entende que não é possível chegar a um denominador comum ou mesmo a um consenso. Pense a seguinte situação: o professor logo no início da prova pegou você colando e retirou a prova e lhe deu zero. Imediatamente você argumentou que não deu tempo para consultar a cola e pediu para que ele deixasse você continuar fazendo a prova. O professor, porém, não permitiu e manteve o zero. Pergunto: qual foi o critério de justiça utilizado pelo professor? Qual foi o seu critério de justiça para pedir a prova de volta? E você, caro leitor, de qual lado se posiciona? Afinal de contas, qual justiça se comete ao tirar a prova do aluno que ainda não tinha feito nenhuma consulta? Na visão do professor se fez justiça, na visão do aluno se fez uma injustiça. Quem está com a razão, ou será que ambos estão certos: é justo ter tirado a prova como também seria justo ter deixado o aluno fazer a prova? A norma da escola obriga o professor a tomar essa atitude, ele seguiu a norma, mas foi justo? Toda norma/lei é justa?

Entendo que a linha divisória entre a visão subjetiva e a visão objetiva de justiça é bastante tênue. Tanto a visão subjetiva como a visão objetiva têm seus limites e não conseguem atender satisfatoriamente a realidade. O risco da visão subjetiva é que o critério para considerar algo justo ou injusto é você mesmo, ou seja, não há critério claro e determinado, existe sim a sua leitura da situação e o seu posicionamento “particular” sobre o assunto. Corre-se o risco de cair num relativismo extremo, e o que era considerado justo para você, hoje, pode não ser mais amanhã. Por outro lado, o risco da visão objetiva é não fazer uma leitura das circunstâncias que envolvem a situação. É eleger um determinado “valor” como norteador e absoluto e assim elaborar o juízo de forma determinista e objetiva.

LEI DIVINA E JUSTIÇA DIVINA

Na sociedade medieval, o referencial último da ação do homem era o transcendente, ou seja, a lei divina e a justiça divina. Existia uma leitura objetiva de justiça que era obedecer os mandamentos de Deus. Mas os próprios mandamentos divinos são passíveis de serem submetidos a uma leitura subjetiva, ou seja, eles ao longo da história passaram a ser analisados a partir de um olhar pessoal e de uma interpretação também pessoal e histórica.

O mundo moderno, diferentemente do mundo medieval, é o berço do sujeito e com ele da subjetividade. Praticamente tudo passa a ser submisso ao sujeito, seja ele transcendental ou não. Nesta nova realidade a justiça assume uma dimensão subjetiva até então nunca atribuída a ela. A lei materializa a ideia de justiça e dá a ela uma possível objetividade. O dever passa a ser norteador das práticas, mas este é validado pelo próprio sujeito que em última instância é subjetivo e objetivo.

Enfim, a complexidade do conceito ou do fato chamado justiça não nos permite cair numa visão simplista e sem uma maior reflexão. Faz-se necessário buscar uma visão mais ampla e ao mesmo tempo não cair numa lógica reducionista. A justiça permeia a existência humana e se faz necessário pensá-la.

GESTÃO E CARREIRA

A ERA DO CANDIDATO

Por que assumir o papel de protagonista durante os processos seletivos e as entrevistas de emprego se tornou um enorme diferencial para os profissionais

Um dos principais pontos de atenção para que o profissional construa uma trajetória de sucesso é saber fazer escolhas de carreira pertinentes. A princípio, isso pode parecer algo simples, mas não é, sobretudo quando se está desempregado ou insatisfeito com o emprego. Isso porque, na ânsia de conquistar um novo desafio, é comum sermos arrebatados pelas promessas do processo seletivo, deixando de lado a cautela ao analisar a empresa e os projetos que serão ali conduzidos.

O atual cenário do país, de economia cambaleante e 13 milhões de profissionais desocupados, complica ainda mais as coisas. Com medo de não conseguir nada melhor, muita gente acaba abraçando um trabalho pouco alinhado com as próprias expectativas. No entanto, é bom frisar que, a despeito da crise, vivemos na era da experiência do candidato. Foi-se o tempo em que apenas a companhia fazia uma avaliação do indivíduo. Hoje, o o futuro empregado pode — e deve — usar a fase de recrutamento para questionar e analisar minuciosamente as oportunidades que o posto lhe oferece.

Nesse sentido, aconselho a quem estiver em busca de uma ocupação a fazer a avaliação de três pontos importantes: a cultura, o propósito e o jeito de trabalhar da organização. Isso é peça-chave para calibrar as expectativas e compreender se os valores e as crenças pessoais têm sinergia com o que a companhia acredita e pratica. Por exemplo: alguém que preza pelo trabalho em grupo e pela colaboração talvez não se sinta confortável num lugar em que as metas individuais são o mantra da cultura.

Para descobrir esse tipo de informação, é preciso acessar pessoas que atuam ou já atuaram nesse ambiente. Ajuda, também, ler notícias sobre o negócio e seu setor de atuação, além, claro, de observar os sinais emitidos pelo contratante durante as entrevistas. Nessas conversas, faz toda a diferença ter uma atitude de protagonista e investigar no detalhe a atividade a ser desempenhada.

Mais que o título do cargo, deve-se compreender as responsabilidades e os desafios da posição. Um estudo recente sobre pedidos de demissão mostrou, por exemplo, que 46% das pessoas que saíram de uma empresa num período de até seis meses após a contratação o fizeram por desalinhamento entre a proposta e as tarefas desempenhadas de fato no dia a dia. Só depois de fazer essa lição de casa é que recomendo analisar o salário. Lembrando que o ideal é calcular a remuneração anual incluindo bonificações e pacote de benefícios.

Sem cálculos, sem capacidade analítica e sem uma boa dose de coragem para questionar o status quo, dificilmente se faz uma boa mudança de carreira.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 16 – LEVANTE-SE E CONSTRUA

… Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo; como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em resgate por muitos. — Mateus 20:25-28

Só existe um método eficaz para construir um casamento saudável. Para muitos de nós ele está escondido bem debaixo do nosso nariz. Precisamos advertir você de que esse método não é empolgante, e definitivamente não é fácil. Mas é a única maneira de captar toda a realização, o propósito e o amor que todos nós desejamos ter em nosso casamento. Você está preparado para o grande segredo? Aqui está: servir. A única maneira de construir o casamento dos seus sonhos é dedicar sua vida a servir o seu cônjuge.

Por favor, resista ao desejo de fechar este livro ou de pular para o próximo capítulo. Sabemos que o conceito de servir não costuma despertar uma grande empolgação. É mais provável que ele inspire sentimentos de relutância ou até de pavor. Tendemos a recuar diante da ideia de estarmos sujeitos aos interesses, desejos ou preferências de outros. Porém, Jesus, o Filho de Deus e Rei dos reis, escolheu se tornar um servo em busca do que era melhor para nós. Fazer o que é melhor para nós se tornou Sua maior preocupação. Ele rejeitou o lugar de autoridade e privilégio que era Seu por direito para ser uma ponte sobre o abismo entre Deus e o homem. E agora que Ele abriu o caminho para nos reconciliar com Deus, Ele tem prazer em realizar nossos sonhos, desejos e alegrias mais profundos, capacitando-nos a viver uma vida extraordinária e a nos tornarmos semelhantes a Ele. Até mesmo quando entregou Sua própria vida, Jesus ofereceu tornar nossa vida abundante. Essa forma ilimitada e sem precedentes de serviço é o padrão segundo o qual devemos lidar com todos os relacionamentos, principalmente com nosso casamento.

Agora que o convés foi limpo, você tem a oportunidade de construir o casamento dos seus sonhos. Mas a única maneira de realizar o seu sonho conjugal – aquele projeto de felicidade divinamente inspirado – é dar sua vida em troca disso. No Reino de Deus, você só mantém aquelas coisas das quais abre mão livremente. A alegria, o amor e a realização que deseja ter em seu casamento só podem se tornar realidade quando você sacrifica a busca dos seus maiores interesses em nome dos maiores interesses do seu cônjuge.

Você já percebeu que os cristãos mais infelizes tendem a ser aqueles que são consumidos pela busca de seus próprios interesses? Os mais debilitados são aqueles que nunca fazem nada por ninguém. Isso acontece porque, em Cristo, o DNA espiritual de Jesus de servir está entrelaçado na nossa natureza. Jesus é o servo por excelência. Quando nos recusamos a abraçar nossa identidade Nele – que inclui, entre outras coisas, viver como servos – nós nos separamos do Seu poder transformador. Esse poder é essencial para construir vidas e casamentos segundo o coração de Deus, e só podemos ter acesso a ele quando procuramos viver como Jesus viveu. Se não servimos, não podemos construir o casamento que desejamos.

TORNANDO-SE O MENOR

Durante Sua última refeição com os discípulos, Jesus contou aos Seus amigos mais próximos que Sua morte era iminente e que em breve Ele seria traído. Como eles reagiram? Primeiro negaram ardentemente qualquer chance de traírem Jesus. Depois passaram rapidamente para uma discussão sobre qual deles era o maior.

Que absurdo! Jesus estava contando detalhes da Sua morte iminente, e tudo que Seus amigos mais chegados podiam fazer era discutir sobre a própria grandeza. Veja como Jesus reagiu à loucura deles:

… O maior entre vocês deverá ser como o mais jovem, e aquele que governa, como o que serve. Pois quem é maior: o que está à mesa ou o que serve? Não é o que está à mesa? Mas Eu estou entre vocês como quem serve. Lucas 22:26-27

As palavras de Jesus provavelmente atingiram os discípulos como uma bolada no rosto. Eles haviam deixado claro que estavam interessados em ser grandes. Agora Ele estava dizendo a eles que ser grande significava servir com excelência.

Mas Jesus não parou aí, apenas dizendo palavras duras. Ele prosseguiu fazendo algo que deixou Seus discípulos ainda mais desconfortáveis e confusos. A Bíblia diz:

Jesus sabia que o Pai havia colocado todas as coisas debaixo do Seu poder, e que viera de Deus e estava voltando para Deus; assim, levantou-Se da mesa, tirou Sua capa e colocou uma toalha em volta da cintura. Depois disso, derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos Seus discípulos, enxugando-os com uma toalha que estava em Sua cintura. João 13:3-5

O que é impressionante nessa passagem é o porquê de Jesus ter lavado os pés dos Seus discípulos. A resposta encontra-se na leitura atenta de uma palavra: assim. Jesus havia recebido autoridade sobre tudo, assim Ele Se humilhou e abraçou a responsabilidade de um humilde servo. Jesus não tinha problemas relacionados à falsa modéstia. Ele obviamente estava ciente da Sua posição de poder. Mas em lugar de Se gabar ou de abusar de Sua vasta autoridade, Ele usou Sua posição como uma plataforma para um ato de serviço inimaginável.

No primeiro século, as estradas não eram pavimentadas e não havia shoppings onde os viajantes pudessem comprar um par de tênis. As pessoas usavam sandálias (ou nada), de modo que seus pés ficavam expostos a muita sujeira e fezes de animais. Não há dúvidas de que, em um ambiente como esse, o fedor e a sujeira dos pés chegavam a um nível que é incompreensível para nós em nosso mundo moderno.

Por causa da quantidade de pés sujos, servos ou escravos tinham de limpar os pés de seus senhores e dos convidados deles. Em uma casa rica, havia muitas responsabilidades: estábulos para serem cuidados, comida para ser preparada, quartos para serem limpos. Mas o trabalho de lavar os pés era reservado ao servo mais humilde. Em alguns círculos, essa designação ia ainda mais longe, e essa tarefa desagradável era designada exclusivamente às servas, as únicas consideradas “indignas” o bastante para fazer algo tão humilhante e repugnante.

Jesus escolheu realizar o mais inferior dos atos de serviço. Por quê? Porque Ele precisava que Seus discípulos entendessem a importância de Sua lição sobre o serviço. Ele até mesmo retirou Sua veste, um símbolo da Sua posição como Mestre, e enrolou uma toalha em torno de Sua cintura como um escravo faria. Tenha em mente que Jesus fez tudo isso para lavar os pés de homens que logo O negariam, O trairiam ou O abandonariam.

Quando terminou de lavar-lhes os pés, Jesus tornou a vestir Sua capa e voltou ao Seu lugar. Então lhes perguntou: Vocês entendem o que lhes fiz: Vocês me chamam “Mestre” e “Senhor”, e com razão, pois Eu o sou. Pois bem, se Eu, sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei-lhes os pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz. Digo-lhes verdadeiramente que nenhum escravo é maior do que o seu senhor, como também nenhum mensageiro é maior do que aquele que o enviou. Agora que vocês sabem estas coisas, felizes serão se as praticarem. João 13:12-17

Depois de lavar os pés dos Seus discípulos, Jesus colocou de volta a Sua veste, retomou Seu papel como Mestre, e deu os toques finais em uma lição que Seus discípulos jamais esqueceriam. A lição eterna aqui contida pode ser resumida em quatro pontos:

1. Como Senhor e Mestre, Eu sou o seu exemplo por excelência.

2. Se Eu mesmo executei voluntariamente esse ato humilde, não imaginem que esse ou qualquer outro ato de serviço está abaixo de vocês.

3. Eu sou Seu Senhor, Aquele que é maior do que vocês, porém estou disposto a servir como o servo mais inferior.

4. Eu abençoo aqueles que seguem Meu exemplo de liderança de servo.

CHAMADOS PARA SERVIR

Jesus disse que seremos abençoados se seguirmos Seu exemplo. Isso significa que Sua bênção repousará sobre os nossos casamentos quando nós O imitarmos servindo aos nossos cônjuges.

Não estamos encorajando você a imitar Jesus iniciando um ritual noturno de lava-pés. A questão é introduzir o padrão de serviço Dele em nossas vidas. No casamento, imitamos melhor o exemplo de Cristo quando usamos nossos respectivos papéis como oportunidades para servir. Paulo escreveu:

Nada façam por ambição egoísta… mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus. Filipenses 2:3, 5

Qual era a atitude de Cristo? Ele escolheu Se ver como um servo que colocava os outros e o que era melhor para eles acima do Seu próprio interesse. Ele levou isso ao extremo morrendo por aqueles a quem amava. A maioria de nós nunca será chamado a fazer um sacrifício dessa dimensão por seus cônjuges, mas fomos chamados para abandonar nosso egocentrismo por amor a eles.

Então, se servir é tão maravilhoso – e se atrai a bênção de Deus – por que mais pessoas não estão fazendo isso? O problema é nossa natureza humana caída, que luta constantemente contra os caminhos do Espírito de Deus e nos encoraja a fazer dos nossos próprios interesses nosso objetivo. Nossa carne exige que reconheçamos os desejos dela, insistindo que seus anseios sejam satisfeitos. Mas por mais que a alimentemos, a natureza humana sempre irá querer mais.

A natureza pecaminosa promove constantemente o egoísmo e o descontentamento, ao passo que o Espírito de Deus nos capacita a ser altruístas e oferece realização duradoura. A cada momento, escolhemos se vamos ser guiados pelo Espírito de Deus ou pelos desejos insaciáveis da nossa carne:

Pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito; e o Espírito, o que é contrário à carne. Eles estão em conflito um com o outro, de modo que vocês não fazem o bem que desejam. Gálatas 5:17

Jesus nos libertou da nossa natureza pecaminosa para que pudéssemos entregar nossas vidas livremente. A salvação não nos libertou para recebermos mais; ela nos libertou para que pudéssemos dar mais! “Vocês foram chamados”, escreveu Paulo, “para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne; ao contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor” (Gálatas 5:13).

Recebemos liberdade para que possamos sacrificar nossas vidas. Se vivemos meramente para nós mesmos, desperdiçamos nossa liberdade em Cristo e nos sujeitamos ao mesmo pecado e egoísmo do qual Cristo morreu para nos libertar. Mas ao aprendermos a viver servindo aos outros, especialmente ao nosso cônjuge, passamos a fazer parte da vida abundante que Ele disponibilizou para nós.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

RELAÇÕES AFETIVAS E SUAS NUANCES

Como é a “linha do tempo” das suas relações afetivas? Ela é recheada de histórias de amor ou de histórias desgastantes e conflituosas? Entenda seus padrões repetitivos e o que precisa ser trabalhado dentro de si

Histórias de amor são fáceis e leves de contar, quase que como privilégios de quem as vive. Porém, se a maioria das suas histórias é acompanhada de qualquer tipo de falta de respeito, submissão, abuso, rejeição e falta de honra, você já se perguntou o porquê de atrair parceiros(as) com esse padrão? Por que permanecer em uma relação desconfortável, mesmo sabendo conscientemente que não faz bem? Por que há uma incoerência entre o que o cérebro pensa e o que sentimos e temos dificuldade de ter um equilíbrio nessa balança?

Então, por trás desses padrões repetitivos estão crenças limitantes que carregamos e que nos levam à autossabotagem, ou seja, quando você contribui inconscientemente para que tudo dê errado na sua vida. Para entender melhor como formamos nosso sistema de crenças, é importante entender que cada pessoa tem o seu, pois cada um de nós reage a eventos de formas diferentes.

Imagine um mesmo evento vivenciado por duas pessoas diferentes: uma delas pode olhar para esse evento de uma forma tranquila e ele não passar de um fato vivido como outro qualquer, enquanto que para a outra esse mesmo evento pode ser devastador e fazer com que ela se paralise diante da vida, com medos aparentemente infundados e que a impedem de criar uma realidade diferente. Esse sistema de crenças, segundo Vianna Stibal, fundadora da técnica do ThetaHealing, possui diferentes níveis, que vêm de diferentes lugares e experiências diversas. São eles: níveis primário, genético, histórico e de alma. E como esse sistema de crenças funciona nas relações afetivas?

O primeiro nível de crença é o primário, que são aquelas crenças que adquirimos desde o momento da nossa concepção até os dias de hoje. Elas são criadas através da educação dos nossos pais, dos grupos de amigos, dos nossos professores na escola, de alguma religião ou filosofia, de leituras, do que nos contam, de coisas que ouvimos e vemos na televisão e na internet, ou seja, qualquer input desse pode cri.ar uma crença.

E uma crença, quando é criada, vai influenciar na nossa vida, na nossa realidade. Dos O aos 7 anos não temos filtro para as informações que chegam a nós. Imaginemos que uma pessoa na sua infância assistiu a um casamento conflituoso, sem amor e sem respeito de seus pais. Ela, naquele momento, registra dentro dela aquilo que ela mesma interpreta como sendo uma verdade daquilo que está vivenciando.

Por exemplo, ela pode interpretar que “casamento faz sofrer”, “amar dói”, “relações são desgastantes e conflituosas”, enfim a mente dessa criança por si só inicia um  processo de guardar informações que vão influenciar na sua fase adulta, atraindo esse tipo de relação, quando não parecida, igual ao que ela assistiu quando criança.

Conscientemente, essa pessoa sabe que aquilo não é bom para ela. Por que então na fase adulta ela fica atraindo esse tipo de situação? O primeiro passo é entender que a missão da nossa mente é nos manter vivos. Ela sempre vai nos proteger se algo nos colocar em perigo. Se você atrair uma situação diferente daquela que registrou na sua mente como sendo uma verdade absoluta, ela rapidamente vai tratar de colocar a pessoa em segurança, acionando todos os seus autossabotadores.

Para ficar ainda mais claro, se você colocou na sua mente, lá na sua infância, que “relações são desgastantes e conflituosas”, então, para manter você seguro, sua mente vai atrair pessoas nesses padrões que você mesmo colocou, pois, do contrário, você estaria se colocando em “risco” se sair desse padrão.

Se você, em algum momento, registrou na mente que “melhor sozinho do que mal acompanhado”, inconscientemente a sua mente fará com que você permaneça sozinho(a) para não “correr riscos”. Parece estranho, não é mesmo? Mas saiba que a sua mente não vai discutir com você sobre aquilo que você registra dentro dela, ou seja, ela não julga.

Em muitos casos, essas pessoas desenvolvem ressentimentos e rejeições em relação ao amor. E nesse caso a mente perde urna incrível quantidade de tempo e espaço nessas questões, que incluem raiva, vitimização, baixa autoestima, ódio, implicância e indiferença que às vezes sentimos por alguém.

“Sinto raiva dele/dela…”

“Eu não merecia isso…”

“Eu me dediquei e não fui reconhecido (a)…”

“Não sou prioridade para ele/ela… “

“Sinto raiva de mim por ter perdido tanto tempo com essa pessoa…”

Levanta a mão quem nunca teve algum desses sentimentos por alguém e ficou remoendo dentro de si?

Pois bem, agora chegou a hora de tomar consciência de que todos esses sentimentos nos tiram do nosso estado de presença e colocam nossa referência fora, ou seja, começamos a julgar e criticar o outro e damos a essa pessoa o “poder” de nos fazer sentir mal. Passamos a colocar no outro a culpa por uma insatisfação própria e paramos de tomar a responsabilidade de toda situação que foi criada a partir dessa relação. Isso acaba nos colocando num lugar de “vítima”, num lugar no qual você não se coloca como responsável e se distancia da possibilidade de estar conectado com o outro pelo sentimento nobre e elevado do amor.

É impossível mudar alguém, é impossível querer que o outro seja aquilo que você quer que ele seja, porque a responsabilidade de mu­ dança começa dentro de você. Se isso não acontece, a possibilidade de ter contato com a energia do amor fica bloqueada e, por consequência, a expansão da sua consciência em di­ reção a uma evolução espiritual tam­ bém. Tudo porque você estará preso em algum lugar do passado, em algu­ ma situação mal resolvida. O padrão que você viveu naquela situação vai se repetir de uma forma ou de outra em algum outro momento, porque não está resolvido dentro de você.

É importante entender que a pessoa pela qual você alimenta um ressentimento está ali para mostrar o que precisa ser trabalhado dentro de si. Então, as perguntas-chave são: O que estou aprendendo com esse sentimento? O que essa pessoa está representando para mim? E quando você descobre, você se coloca no estado de presença e se reconecta com a energia do perdão. A energia do perdão não tem nada a ver com a energia do julgamento, é uma energia de alta vibração e que transforma. Mas primeiro é preciso se perdoar, se olhar com consciência para que a transformação se inicie dentro de você e não fora.

MUDANÇA

Vamos seguir com as explicações sobre o sistema de crenças para depois falarmos como iniciar a mudança. Afinal, saber disso faz com que a gente queira mudar, correto?

Um outro nível de crenças que existe é o genético, que são aquelas herdadas de pai, mãe, avôs e avós até a sétima geração. São crenças que nos fazem ter um sentimento de pertencimento à nossa família e essas crenças podem até ser vistas como um padrão da família, um padrão de sucesso, por exemplo, uma tendência para determinada carreira, uma inclinação para um dom artístico ou até mesmo uma doença que se propaga de geração em geração.

Uma vez entendido o que é esse nível, podemos olhar para a nossa linhagem familiar e perceber se estamos repetindo comportamentos que são deles nas nossas relações afetivas. Podemos herdar um comportamento de nos colocar na posição de pai ou mãe nos relacionamentos e colocar nosso parceiro/parceira na posição de filhos, repetir comportamentos de submissão porque sempre foi assim na sua família, ou mesmo comportamentos agressivos em suas relações. Fazemos isso de forma inconsciente, como se fosse uma forma de nos manter conectados a nossa família através das mesmas ações e comportamentos.

Há também o nível histórico, que são histórias que toda humanidade já viveu, nas quais se criaram as crenças coletivas, que influenciam a sociedade como um todo. Criamos a identificação com determinados grupos também através dessas crenças coletivas.

Esse nível nos mostra que há muitas crenças que fazem parte do inconsciente coletivo que dita regras muitas vezes “duras”, que fazem com que as pessoas façam de tudo para se encaixar em padrões para serem aceitas pela sociedade. Por exemplo, de acordo com o inconsciente coletivo, “toda mulher tem que casar e ter filhos”, caso contrário, parece que uma mulher que não cumpre esse papel “não será uma mulher plena”. Caso você acredite nessa informação do inconsciente coletivo, você é uma candidata a sofrer por não se encaixar nesse padrão e se sentir excluída, além de ter a autoestima comprometida. Se você é mulher solteira com filhos, pode estar acompanhada da crença de que isso fará com que um novo relacionamento seja difícil ou ter o medo de um companheiro não amar os seus filhos, de que há poucos homens/ mulheres legais para se relacionar e permanecer em um relacionamento abusivo para não ficar sozinho(a).

Enfim, muitas vezes nos forçamos a entrar nas regras do inconsciente coletivo, mesmo que de alguma forma façamos isso sem perceber. Você repete padrões que muitas vezes não são seus e permanece neles como se fosse algo imutável ou como se fosse uma pseudo zona de conforto.

E finalmente tem o que chamamos de crenças no nível da alma, que são aquelas que vêm da nossa essência, do nosso âmago. Quem de verdade nós somos, o nosso melhor, que somos “governados” pelo nosso sistema de crenças. Essas informações que dialogam dentro de nós criam movimentos que muitas vezes percebemos conscientemente que não são os mais interessantes para a nossa vida e parece que não sabemos como sair deles. Nos sentimos estagnados, paralisados e sendo jogados ao acaso, achando que a vida é uma grande sucessão de coincidências.

IDENTIFICAÇÃO

A técnica do ThetaHealing, que trabalha na frequência da onda cerebral Theta, onde o cliente fica totalmente consciente, atua nessas crenças limitantes. Identifica crenças limitantes e padrões sem as “armaduras” que acabamos por criar em nossa vida por causa dos nossos medos ou para nos encaixar nos padrões da sociedade.

Dito tudo isso, podemos entender que somos seres complexos e negativos que nos impedem de acessar todo potencial que existe em nós e influenciam diretamente na nossa realidade.

O ThetaHealing traz essas crenças do subconsciente para o consciente, faz uma reprogramação e nos empodera para que essa mudança aconteça nos níveis físico, energético, mental, emocional e espiritual. Eleva e modifica nosso campo vibracional e energético para a frequência de saúde plena de equilíbrio e perfeito funcionamento de nossas células manifestando assim uma nova realidade.

A primeira ação no processo de cura e no processo de mudança é a tomada de consciência de que uma ou mais crenças existem em você, pois só podemos trabalhar naquilo que é consciente, naquilo que existe.

Com a técnica ThetaHealing trabalhamos primeiro a tomada de consciência dos bloqueios e limites existentes, depois o empoderamento para que a pessoa esteja apta à mudança e de fato mudar e criar uma nova realidade harmoniosa.

Dessa forma, você faz o resgate do seu amor-próprio, levanta a cabeça e dá a volta por cima. Hora de finalizar o ciclo que não faz bem, sair do campo da vitimização e passar a ser o protagonista da sua realidade.

Outra técnica que auxilia na liberação de crenças limitantes são as barras de Access Consciousness, do americano Gary Douglas.

Consistem em 32 pontos energéticos em torno da cabeça, que são ligados com aspectos de nossa vida e que armazenam toda corrente eletromagnética das sinapses neurais que criam os padrões comportamentais e reações programadas de cada pessoa. O terapeuta, ao tocar em uma barra, dá início à liberação dos registros e a um processo de limpeza energética e desprogramação de crenças, pontos de vista e juízos de valor que criam limitações frente às possibilidades da vida começam a ser liberados.

Por fim, é importante dizer que não eliminamos todas as nossas crenças independentemente da técnica ou filosofia de vida escolhida. E saiba que isso está ok. O que acontece é a expansão quando resolvemos olhar para dentro de nós e mudar a nossa realidade, a forma como pensamos, como agimos e reagimos, como nos colocamos, como nos posicionamos, quando retiramos medos de julgamentos, vitimização e retiramos de nosso campo energético aquelas crenças que nos paralisam em várias áreas da nossa vida. Quando trabalhamos em uma área da vida específica, as relações afetivas, por exemplo, todas as outras, profissional, financeira, social, familiar e área da saúde são afetadas de forma positiva, porque somos um ser único e não tem como mudar apenas uma sem que todas as outras sejam afetadas. A energia de todas as áreas se movimenta e inicia um fluxo leve e abundante, como a vida deve ser.

Mudar é, de fato, uma escolha. Isso jamais podemos terceirizar para outra pessoa. Mesmo que a sua escolha seja ficar onde está, apenas tenha em mente que as mesmas ações trarão os mesmos resultados. Se você escolher isso, também está ok. Escolhas são somente escolhas, não são certas nem erradas. A nossa felicidade é responsabilidade nossa. É responsabilidade nossa sair do lugar onde estamos e ir para urna nova forma de vida. Deixar de culpar os outros por nossas mazelas. É nossa responsabilidade olhar aquilo que precisamos mudar em nós para que nos tornemos pessoas agradáveis e felizes, em primeiro lugar, para nós mesmos. Aí, sim, depois de estarmos em lua de mel conosco, é que nos tornamos pessoas interessantes, nossa vibração se eleva e passamos a atrair a abundância em todas as áreas da nossa vida. Porque isso é possível, é seguro e é permitido nesse aqui e agora.

PROCESSO DE REPROGRAMAR AS CRENÇAS LIMITANTES

Há uma expectativa equivocada nas relações afetivas, como se o outro tivesse a responsabilidade de nos fazer feliz e atender todas as nossas expectativas, caso contrário embarcamos em uma relação fadada ao fracasso e à frustração. Nós somos responsáveis pela nossa felicidade e essa crença de que só somos inteiros somente se tivermos alguém é um equívoco. Nós não procuramos uma relação afetiva, nós atraímos alguém pela nossa energia. Se amamos a nós mesmos, somos pessoas muito mais interessantes para nós e para os outros. Para mudar tudo isso, existem técnicas quânticas que auxiliam no processo de reprogramar as crenças limitantes, substituindo-as por uma nova consciência. Quando fazemos isso, substituímos crenças limitantes (“casamento faz sofrer”, “amar dói”, “relações são desgastantes e conflituosas”, “é mais seguro ficar sozinho (a)” por  “casamento é amor”, “amar é maravilhoso”, “relações são agregadoras e harmoniosas”, “é possível ter um relacionamento e ainda assim permanecer em segurança”. Com isso, as memórias daquela criança no nível primário são substituídas, dando lugar a uma nova forma de pensar mudando o comportamento e empoderando a pessoa de que é possível, é permitido e é seguro amar sem a necessidade de repetir padrões dos outros.

OUTROS OLHARES

A LITERATURA DO F*DA-SE

A profusão de títulos que contêm palavrões anima o segmento da autoajuda com a adoção de uma linguagem que o leitor acha mais próxima da realidades

Por alguma virada de chave que certamente tem a ver com a ausência de filtros das redes sociais, nas quais se dialoga e se monologa sem que um olhe na cara do outro e o baixo calão é regra, o palavrão, esse termo tão condenado nos ambientes sérios, tomou conta das livrarias, exibido com destaque – e asteriscos – na capa de um sem-número de publicações, a maior parte enquadrada no segmento de autoajuda. O movimento de superação pessoal amparado em expressões desbocadas é capitaneado pelo fenômeno de vendas A Sutil Arte de Ligar o F*da-se, em que o americano Mark Manson ensina ao leitor que não dá para todo mundo ser feliz o tempo todo e… bem, a conclusão está no título. Publicado no Brasil no fim de 2017, no ano seguinte o livro se sagrou o mais vendido no país. Atualmente, junto com F*deu Geral, um texto recém-lançado que procura amparar a tese original em pesquisas, Manson crava 1,3 milhão de exemplares distribuídos no Brasil – no mundo, passa dos 9 milhões.

Boa parcela desse sucesso é creditada ao termo que faz com que os pais ameacem lavar a boca dos filhos com sabão. “O palavrão reflete irreverência e sugere uma linguagem mais próxima do leitor, algo muito valorizado hoje em dia no mercado editorial”, explica Cristiane Ruiz, editora de aquisição da Intrínseca, que publicou as obras do blogueiro americano. Misturar literatura com palavreado chulo é mérito atribuído a François Rabelais, escritor francês da época do Renascimento que, reproduzindo o modo de falar do homem do povo, criou a obra-prima Gargântua e Pantagruel, coletânea de cinco romances satíricos que contêm listas e listas de palavrões, alguns deles especialmente inventados. A prosa irreverente manteve Rabelais afastado dos meios intelectuais de seu tempo, mas não impediu que ele viesse a fazer parte dos grandes nomes da literatura clássica da França. A diferença entre o uso progressivo de obscenidades em textos literários e o fenômeno atual das capas com asteriscos é o tratamento dado à palavra proibida, que virou uma espécie de mercadoria, à venda nas vitrines das livrarias. “É a capitalização do insulto”, define, meio brincando, o historiador Leandro Karnal.

Depois que a semente vingou, a árvore dos títulos que contêm palavrões só faz crescer, forte e frondosa. Publicado em 2017, Seja F*da! (sem asterisco no original), do brasileiro Caio Carneiro – uma espécie de antítese dos conceitos pregados em A Sutil Arte… -, foi o quarto livro mais vendido no Brasil no ano passado, com 160.000 exemplares. A antropóloga Mirian Goldenberg, de sólida carreira acadêmica e autora de 26 livros com títulos do tipo censura livre, acaba de lançar Liberdade, Felicidade & F*da-se! (o “o”, mais criativamente, é substituído por uma bolinha de papel), sobre o público feminino que ultrapassou a casa dos 80 anos. “O f*da-se representa um botão imaginário que, ao ser acionado, proporciona uma velhice mais feliz, mais plena e mais livre, tanto de preconceitos quando de obrigações”, justifica ela.

O verbo utilizado em uma enorme variedade de situações que nada têm a ver com seu sentido original não é a única medalha a figurar no panteão dos títulos desbocados: Como Parar de Se Sentir uma M*rda, estocada nas mulheres “autodestrutivas” escrita pela lifecoach americana Andrea Owen, e Resolva a P*rra dos Seus Problemas, em que Laura Jane Williams ensina o leitor a focar as coisas “que realmente importam”, também estão vendendo muito bem, obrigado. “O título precisa saltar à vista, entre tantas obras do gênero. Além disso, o palavrão soa moderno e atrai um público que, em geral, torce o nariz para a autoajuda clássica”, diz Raissa Castro, editora executiva da Best Seller.

A aceitação do palavrão que praticamente pula na frente das pessoas foi um processo gradual que só se popularizou nos últimos dois anos. Marcos da Veiga Pereira, sócio da Sextante e presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, lembra que, em 2011, lançou Vai Dormir, P*rra, tradução de Gothe F*ck to Sleep, livro infantil que tinha uma versão em audiobook narrada pelo ator Samuel L. Jackson e fazia tremendo sucesso nos Estados Unidos. A editora imprimiu 20.000 exemplares, contratou o humorista Hélio de La Pena para fazer a dublagem – e o livro não vendeu nem 5.000 unidades. Agora, ao contrário, os leitores mostram se encantar com a nova embalagem da autoajuda em títulos profanos, impronunciáveis à mesa do jantar.

Especialistas apontam nessa atitude uma espécie de via de escape das pessoas reprimidas, como aquelas que morrem de rir ao ouvir um palavrão no teatro ou no cinema. Agora, se você se diverte com os títulos citados e alguém chega com explicações psicológicas, já sabe – ligue o botão e siga em frente, sem culpa nem remorso. Um asterisco de vez em quando é bom.