O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

PERMANECENDO NA PALAVRA

Um tema constante nos autores do Novo Testamento é que o povo de Deus deve ser firme. Por um lado, devemos resistir às pressões morais e intelectuais do nosso mundo contemporâneo, recusando-nos a ser molda­dos pelos padrões da época. Não podemos nos permitir tropeçar, escorregar e cair na lama da relatividade, ou ser arrancados do nosso ancoradouro e ser levados pela cor­renteza. Por outro lado — e este é o aspecto positivo — somos exortados a perseverar na verdade que recebemos, apegando-nos a ela como um abrigo seguro na tempestade e a ficar firmes em seu fundamento.

Vejamos alguns exemplos desse tipo de exortação, dados por três dos maiores contribuidores do Novo Testamento.

Paulo: “Assim, pois, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa.”

Hebreus: “Importa que nos apeguemos, com mais fir­meza, às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos.”

João: “Permaneça em vós o que ouvistes desde o prin­cípio.” “Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece, não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem assim o Pai, como o Filho.”

O que há de comum nestas citações é o reconhecimento de que certas verdades haviam sido “ensinadas” ou “trans­mitidas” pelos apóstolos e, portanto, tinham sido “ouvidas” ou “recebidas” pela igreja. Agora esse corpo de doutrina era um depósito sagrado a ser guardado. Ele tinha uma qualidade normativa: a igreja deveria permanecer nessa doutrina e apegar-se a ela, não se afastando dela nem indo além dela, de forma a contradizê-la.

Parte da recomendação final de Paulo a Timóteo elabora este tema. Mas, para compreendermos as suas implicações, precisamos ter o texto diante de nós. Ele se encontra em 2 Timóteo 3.1 – 4.8.

Sabe, porém, isto: Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis; pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, impla­cáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, antes inimigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de pie­dade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes.

Pois entre estes se encontram os que penetram sor­rateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias pai­xões, que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. E, do modo por que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade. São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé; eles, todavia, não irão avante: porque a sua insensatez será a todos evidente, como também aconteceu com a daqueles.

Tu, porém, tens seguido de perto o meu ensino, procedimento, propósito, fé, longanimidade, amor, per­severança, as minhas perseguições e os meus sofrimen­tos, os quais me aconteceram em Antioquia, Icônio e Listra — que variadas perseguições tenho suportado! De todas, entretanto, me livrou o Senhor. Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão per­seguidos. Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados.

Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E que desde a infância sabes as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a edu­cação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.

Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério.

Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida é chegado. Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda.

FIRMES NA PALAVRA

A exortação de Paulo a Timóteo foi dada dentro do contexto da sociedade em que ele vivia (3.1-13). Ela não era, de manei­ra alguma, favorável ao evangelho. Este, por sua vez, não podia ser reformulado a fim de acomodar-se às ideias e padrões daquela. Pelo contrário, Paulo estava plenamente consciente de que havia entre a Palavra e o mundo uma incompatibilidade radical. “Sabe, porém, isto”, escreveu ele:  “Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis.”

É importante salientar que ao falar em “últimos dias” o apóstolo não estava aludindo a uma época futura que viria logo antes da volta de Cristo. No versículo 5 ele diz a Timóteo que “fuja” das pessoas que ele estava descrevendo. Como Timóteo poderia evitá-las, se elas ainda não tivessem sequer nascido?… Na perspectiva do Novo Testamento, os “últimos dias” começaram com Jesus Cristo. Foi ele quem os introduziu. Os últimos dias são, pois, estes dias, os dias em que Timóteo viveu e em que nós também vi­vemos, ou seja, todo o período entre a primeira e a segunda vindas de Cristo. E quais são as características dos últimos dias? Três delas parecem destacar-se na descrição de Paulo.

A primeira é amor mal direcionado. É impressionante ver que, das dezenove marcas distintivas que o apóstolo menciona (vs. 2-4), seis têm a ver com amor: “…os homens serão egoístas [amantes de si mesmos], avarentos [amantes do dinheiro], …desafeiçoados [sem amor], …inimigos do bem [não amantes do bem], …antes amigos dos prazeres que amigos de Deus.” A expressão “desafeiçoados” deve ser entendida como “sem verdadeiro amor”. Afinal de contas, as pessoas em vista não são completamente desprovidas de amor: elas amam a si mesmas, amam o dinheiro e amam os prazeres. O eu, o dinheiro e os prazeres são objetos inadequados do amor humano. Eles podem até virar idola­tria, quando tiram de Deus o lugar que lhe é devido como Aquele que deve ser amado com todo o nosso ser. Hoje em dia, porém, o amor mal direcionado está em toda parte. O egoísmo, a avareza e o hedonismo predominam, enquan­to que o primeiro e o segundo mandamentos, de amar a Deus e amar o nosso próximo, são negligenciados. Além disso, quando o amor das pessoas está voltado para o objeto errado, todos os seus relacionamentos ficam errados. Elas se tornam “avarentas, jactanciosas, arrogantes, blasfemadoras, desobedientes, … ingratas, … implacáveis, caluniadoras… cruéis” (vs. 2 e 3).

A segunda característica de nossos tempos pode ser chamada de religião vazia. Nossos contemporâneos são descritos como “tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder” (v. 5). Pode parecer estranho que uma pessoa egoísta possa ser também religiosa. Mas acontece. Na verdade, é possível que a religião, cujo propósito é expressar adoração a Deus, seja pervertida e transformada em um meio de alimentação do ego. O nome certo para essa distorção doentia   é hipocrisia, atitude que Jesus atacou veementemente. Tal religião se evidencia em “forma” sem “poder”, demonstração exterior sem realidade interior. É igualmente inimiga do evangelho, pois um cristão nominal torna as pessoas resistentes ao verdadeiro cristianismo. Terceiro, os últimos dias se caracterizam pelo   culto a uma mente aberta. Paulo descreve aqui pessoas que “apren­dem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade” (v. 7). Elas ficam sentadas em cima do muro e recusam-se a descer, seja para um lado, seja para o outro. Seu lema é a tolerância. Determinadas a evitar o sofrimento de chegar a conclusões definitivas, elas fazem da “mente aberta” o seu   amuleto. Não suportam aquilo   que C. S. Lewis chama de “o tirano apogeu da revelação”, dando muito maior preferência ao crepúsculo do livre pensamen­to. Elas subestimam a distinção que Allan Bloom estabe­leceu recentemente entre dois tipos de “abertura”:  “a abertura da indiferença… e a abertura que nos convida a ir em busca de conhecimento e convicção”. Este último é um dos aspectos da virtude cristã da humildade: o re­conhecimento de que a nossa compreensão é temporária e incompleta e de que precisamos estar sempre tentando aumentá-la. O primeiro tipo de abertura, por sua vez, além de ser um insulto à verdade, é também pessoalmente arriscado. Como disse um bispo americano, ele nos expõe ao perigo de termos a mente tão aberta que o nosso cérebro acaba caindo!

Eis aqui, pois, três características do nosso tempo que as Escrituras criticam firmemente e nos aconselham evitar.

Nós devemos amar a Deus e ao nosso próximo e não desviar o nosso amor para nós mesmos, para o dinheiro ou para o prazer. Devemos valorizar a realidade e o poder da religião acima de suas expressões exteriores. E devemos submeter-nos humildemente à revelação de Deus e não cultivar um agnosticismo aguado e barato, sem exigências.

Assim, Paulo exorta Timóteo a ser diferente do mundo que o cerca. Depois de descrever essas inclinações peca­minosas, Paulo escreve duas vezes su de, ou “Tu, porém” (vs. 10 e 14). Com estas palavras o apóstolo introduz duas admoestações a Timóteo: que ele resista ao espírito do mundo e que fique firme contra este. A primeira exortação enfoca o que Timóteo já conhece acerca de Paulo (vs. 10 a 13): seu “ensino, procedimento, propósito”, como tam­bém sua “fé, longanimidade, amor, perseverança, …perse­guições, …sofrimentos”. Timóteo havia visto com seus próprios olhos o ministério de Paulo, inclusive a oposição e a perseguição que ele tivera de suportar em Antioquia, Icônio e Listra (v. 11). Pois o fato é que “todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perse­guidos” (v. 12), já que “os homens perversos e impostores” que rejeitam o evangelho “irão de mal a pior” (v. 13).

Assim o apóstolo coloca em contraposição os baixos padrões do mundo e o seu próprio ensino e conduta. Os dois estavam em inconciliável antagonismo um com o outro. Daí a perseguição que ele tivera de suportar. Quanto a Timóteo, se era para ficar firme, do lado de Paulo e contra o mundo, ele, sem dúvida alguma, iria sofrer também.

PERMANECENDO NA PALAVRA

A menção que Paulo faz aos “homens perversos e impos­tores”, “enganando e sendo enganados” e que iriam “de mal a pior” (v. 13) leva-o ao segundo “Tu, porém”. Agora, ao invés de simplesmente olhar para trás e remontar ao seu ensino, conduta e sofrimentos passados, dos quais Timóteo já tinha conhecimento, ele olha também para o futuro: “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste” (v.14). Estes “mestres” de quem Timóteo havia aprendido são provavelmente, primeiro, sua mãe e sua avó, que na in­fância lhe haviam ensinado o Antigo Testamento (v. 15, cf. 1.5), e, depois, o apóstolo, cujo “ensino” (v. 10) Timóteo conhecia e que chegou até nós preservado no Novo Tes­tamento. Assim, Paulo coloca em contraste dois grupos de ensinadores: de um lado, os impostores e enganadores do versículo 13; e, do outro lado, a mãe de Timóteo e o seu mentor (o próprio apóstolo), que lhe haviam ensinado as Escrituras.

Nós mesmos, que vivemos no final do século XX, pre­cisamos atentar para a mesma exortação. Não podemos ser como varas sopradas pelo vento. Não vamos nos curvar diante das tendências predominantes na sociedade, com sua avareza e materialismo, seu relativismo, sua rejeição de todo e qualquer padrão absoluto de verdade e de bondade. Pelo contrário, devemos continuar fiéis à Escritura do Antigo e do Novo Testamento. Mas, por quê? O que é a Escritura, para ocupar um lugar tão importante em nossas vidas? O apóstolo segue adiante e passa a destacar três dos seus aspectos fundamentais.

Primeiro, as Escrituras são capazes de tornar-nos sábios para a salvação (versículo 15, NVI). Seu propósito primor­dial é prático. Mais do que um livro-texto, a Bíblia é um manual, um guia, mais um livro de salvação do que um livro de ciência. Não estamos dizendo com isso que os relatos bíblicos e os científicos do mundo são conflitantes, mas que eles se complementam. E tem mais: o propósito de Deus na Escritura não é revelar fatos que podem ser descobertos pelo método científico da observação e da ex­periência, mas, sim, revelar verdades que estão além do escopo da ciência, e particularmente o caminho da salvação de Deus através de Cristo.

É por isso que Jesus Cristo mesmo é o centro da revelação bíblica, já que ela dá testemunho dele. Como disse J.-J. von Allmen, “o centro da Escritura (que a resume e a torna viva) ou a mensagem central da Escritura (… que a explica e justifica) …é Jesus Cristo. Ler a Bíblia sem encontrá-lo é lê-la erradamente, e pregar a Bíblia sem proclamá-lo é pregá-la falsamente.” É porque a Escritura nos instrui para a salvação que ela nos instrui acerca de Cristo, através de quem nós recebemos a salvação pela fé. Além disso, a razão de amarmos a Bíblia é que ela nos fala de Cristo. Ela é a representação de Deus, o retrato de Cristo que Deus nos deu.

Segundo, a Escritura é inspirada por Deus. A expressão mais conhecida da ERAB consiste de três palavras — “inspirada por Deus” — que equivalem à expressão grega theopneustos. Isto indica que a Escritura é a Palavra de Deus, falada por Deus ou soprada pela própria boca de Deus. A combinação implícita de boca, sopro e palavra nos mostra que o modelo de inspiração que se tenciona aqui é o da fala humana. Afinal, falar é comunicar de uma mente para outra mente. Nós geralmente guardamos para nós mesmos o que está “em nossa mente”. Mas quando falamos, reves­timos os pensamentos de nossas mentes com as palavras da nossa boca.

Observe-se também que o texto diz “Toda Escritura é inspirada por Deus” (versículo 16, ERAB). A ERC, por sua vez, traduz esta sentença da seguinte forma: “Toda a Escritura divinamente inspirada por Deus é proveitosa…”. Esta é, com quase toda certeza, uma tradução incorreta, pois, se “toda Escritura inspirada… é proveitosa”, isso implica em que deve haver outras Escrituras que não são inspiradas e, portanto, não são proveitosas. Mas, em primei­ro lugar, o conceito de “Escritura não inspirada” é uma contradição de termos, pois a palavra “escritura” simples­mente significa “escrito inspirado”. Em segundo lugar, a ERC omite, sem suficiente fundamento, a palavrinha kai, que significa “e” ou “também”. Isto mostra que Paulo não está fazendo uma declaração (“Toda a Escritura divina­mente inspirada é proveitosa”), mas duas declarações (“Toda a Escritura é inspirada e proveitosa”). Com efeito, ela nos é útil e proveitosa justamente por ser inspirada por Deus.

No entanto, nós não devemos deturpar a verdade da inspiração. Quando Deus falou, ele não falou para o espaço. Nem escreveu documentos que deixou por aí para serem descobertos, como Joseph Smith (fundador da Igreja Mórmon) reivindica com relação a suas placas de ouro. Deus tampouco ditou a Escritura para secretários que não tiveram nisso qualquer participação, como os muçulmanos acreditam que Alá ditou o Alcorão a Maomé em árabe. De maneira alguma. Ao falar em processo de inspiração, nós estamos dizendo que os autores humanos, mesmo enquanto Deus falava para eles e através deles, estavam eles mesmos ativamente engajados na pesquisa histórica, reflexão teo­lógica e composição literária. Afinal, muito da Escritura é narrativa histórica e cada autor tem sua própria ênfase específica e seu próprio estilo literário. A inspiração divina não dispensou a cooperação humana nem deixou de fora as contribuições peculiares a cada autor.   Assim, “inspi­rado por Deus” não é a única avaliação que a Escritura faz de si mesma, uma vez que a boca de Deus não foi a única boca envolvida em sua elaboração. A mesma Escritura que diz “a boca do Senhor o disse” diz também que Deus falou “por boca dos seus santos profetas”. Mas, então, a Escritura saiu da boca de quem: de Deus ou dos profetas? A única resposta que encontramos na Bíblia é “de ambos”. Na verdade, Deus falou por intermédio de autores humanos de tal maneira que suas palavras eram simultaneamente palavras deles, e as palavras deles eram simultaneamente as dele. E isso que significa   a dupla autoria da Bíblia. A Escritura é igualmente Palavra de Deus e palavras dos seres humanos. Ou melhor, ela é a Palavra de Deus através das palavras dos seres humanos.

É essencial que se mantenham juntas as duas autorias. Alguns teólogos, tanto antigos como modernos, católicos e protestantes, têm se referido às duas naturezas de Cristo como se isto fosse uma analogia. O paralelo, se bem que não seja exato, é esclarecedor. Ao tratar da pessoa de Cristo (que tanto é Deus quanto humano), nós não devemos, nem afirmar a sua divindade, negando assim a sua humanidade, nem afirmar a sua humanidade, negando, portanto, a sua divindade, mas, sim, afirmar tanto uma quanto a outra, recusando-nos a deixar que qualquer uma delas contradiga a outra. De semelhante modo, na nossa doutrina da Es­critura nós não devemos, nem afirmar que ela é a Palavra de Deus, negando assim que ela seja palavras de seres humanos (o que seria fundamentalismo), nem afirmar que ela é palavras de seres humanos, de maneira a negar que ela seja a Palavra de Deus (o que seria liberalismo), mas, sim, afirmar os dois de igual maneira, recusando-nos a permitir que uma coisa contradiga a outra. Assim, por um lado, Deus falou, determinando o que ele queria dizer, mas sem abafar a personalidade dos autores humanos. Por outro lado, os seres humanos falaram, usando livremente suas faculdades, mas sem distorcer a verdade que Deus estava falando através deles. Não temos o direito de declarar que essa combinação é impossível. Dizer isso, escreveu Dr. J. I. Packer, seria indicar uma falsa doutrina de Deus —neste caso, particularmen­te de sua providência. … Pois isso pressupõe que Deus e homem encontram-se em um relacionamento tal, um com o outro, que é impossível que ambos sejam livres agentes na mesma ação. Se o homem age livremente (i.e., voluntária e espontaneamente), Deus não o faz, e vice-versa. As duas liberdades são mutuamente excludentes. Mas as afinidades desta ideia são com o Deísmo, e não com o teísmo cristão… O único jeito de acabar com esse raciocínio enganoso é compreendendo a ideia bíblica da operação convergente de Deus em, com e através do livre funcionamento da própria mente humana.

A maneira como nós entendemos a Escritura afeta a maneira como nós a lemos. A sua dupla autoria, espe­cialmente, requer de nós uma dupla abordagem. Já que a Escritura é a Palavra de Deus, nós deveríamos lê-la dife­rentemente de qualquer outro livro — sobre os nossos joelhos, com humildade, reverência e oração, pedindo ao Espírito Santo que nos ilumine. Mas, uma vez que a Escritura é também palavras dos seres humanos, nós deveríamos lê-la como lemos qualquer outro livro, usando a nossa mente, pensando, ponderando e refletindo, considerando atenta­mente suas características literárias, históricas, culturais e linguísticas. Esta combinação de humilde reverência com reflexão crítica é mais do que importante: ela é indispen­sável.

Terceiro, a Escritura é útil (vs. 16-17). Ela pode fazer muito mais do que instruir-nos para a salvação (v. 15):   é também “útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (v. 16). Em outras palavras, ela é proveitosa, tanto para a doutrina (ensinar a verdade e corrigir o erro) como para a ética (repreender o pecado e orientar para uma vida correta), levando-nos assim adiante na fé cristã e no comportamento cristão, até que nos tornemos homens e mulheres de Deus, “perfeitmente habilitados para toda boa obra” (v. 17). Assim (como veremos mais demoradamente no próximo capítulo) a Bíblia tem um papel essencial a desempenhar em nosso cresci­mento até atingirmos a maturidade em Cristo. Em contraposição aos enganos dos “homens perversos e im­postores”, Timóteo deveria continuar na Palavra de Deus, tanto nas Escrituras do Antigo Testamento como nos ensinos do apóstolo.

Graças a Deus pela Bíblia! Deus não nos deixou tateando às cegas na escuridão, mas deu-nos uma luz para indicar o caminho. Ele não nos abandonou debatendo-nos em mares revoltos; a Escritura é uma rocha na qual encontrar chão e firmeza. Nossa resolução deveria ser estudá-la, crer nela e obedecê-la.

PREGANDO A PALAVRA

Nem Timóteo nem ninguém mais tem o direito de mono­polizar as Escrituras. Afinal, a Escritura não é propriedade privada de ninguém: ela é propriedade pública. Ela foi dada por Deus e pertence a todos. Sua Palavra foi anunciada a fim de ser passada adiante. Assim o apóstolo, consciente da presença de Deus e do futuro aparecimento de Cristo para nos julgar (4.1), dá a Timóteo este encargo: “Prega a palavra” (v. 2). Ele deve proclamá-la como um arauto ou como uma sentinela em praça pública. E deve fazê-lo com ousadia, urgência e relevância, corrigindo, repreen­dendo e encorajando de acordo com o estado e a necessi­dade das pessoas, e “com toda a longanimidade e doutrina” (v. 2).

Isto se faz ainda mais necessário, acrescentou Paulo, porque está chegando o tempo em que as pessoas “não suportarão a sã doutrina”. Mas estas, acometidas de um estranho estado patológico chamado “coceira nos ouvi­dos”, irão dar ouvidos a ensinadores que dizem o que elas querem ouvir, ao invés de anunciar-lhes a verdade que Deus quer lhes dizer (vs. 3-4). Mas a indisposição de alguns para dar ouvidos à Palavra de Deus não é razão para nós dei­xarmos de anunciá-la! Pelo contrário, Timóteo deve per­severar, ser sóbrio, suportar as aflições e cumprir fielmente o seu ministério, tanto como evangelista quanto como mestre (v. 5).

Uma das maiores necessidades da igreja contemporânea é que se exponha a Bíblia conscientemente no púlpito (veremos isso mais adiante, no capítulo 13). Existe, por toda parte, uma grande ignorância, até mesmo quanto aos rudimentos da fé. Muitos cristãos são instáveis e imaturos. E a principal razão para este triste estado de coisas é a escassez de pregadores bíblicos equilibrados, radicais e responsáveis. O púlpito não é lugar de discutir as nossas próprias opiniões, mas, sim, de expor a Palavra de Deus.

O clímax da exortação do apóstolo encontra-se nos versículos 6 a 8. Em uma carta anterior, escrita cerca de dois anos antes, ele se descrevera como “o velho”. Agora ele escreve que chegou a hora de sua partida. De fato, sua vida já começou a ser “oferecida por libação” (v. 6). Relembrando sua carreira apostólica, ele pode dizer que combateu o bom combate, completou a carreira e guardou a fé (v. 7). Ele nada tem a lamentar. Provavelmente está encarcerado nos subterrâneos da Prisão Mamertina em Roma, da qual não espera mais sair. Já com os olhos da imaginação ele vê o lampejo da espada do executor e, mais além desta, “a coroa da justiça” que, no último dia, Jesus, o reto Juiz, dará tanto a ele como “a todos quantos amam a sua vinda” (v. 8). Ele sente que o seu ministério está chegando ao fim, o que o move a exortar Timóteo a que fique firme na Palavra, permaneça nela e passe-a adiante.

Espero que não me julguem pessoal demais se eu disser que sinto e compreendo a intensidade das palavras de Paulo — se bem que, obviamente, eu não tenha a presunção de comparar-me a ele. Mas eu escrevo estas palavras ao mesmo tempo em que acabo de comemorar meus setenta anos de vida. Com esta idade, não espero viver muito mais tempo. Cada novo dia é um bônus que recebo com gratidão das mãos de Deus.

E assim eu fico me perguntando: onde estão os “timóteos” da próxima geração? Onde estão os jovens homens e mu­lheres evangélicos que estão determinados, pela graça de Deus, a ficar firmes na Palavra, recusando-se a deixar-se levar pelos ventos prevalecentes do espírito deste mundo; que estão decididos a permanecer na Escritura e a viver por ela, relacionando a Palavra com o mundo e obedecendo a ela; e que assumiram o compromisso de passá-la adiante, dedicando-se ao ministério de expor a Bíblia com toda consciência?

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GESTÃO E CARREIRA

O RH saiu do sério

O RH SAIU DO SÉRIO

Perguntar em uma entrevista de empregos quantas vacas existem no Canadá ou quanto pesa uma girafa pode trazer informações valiosas sobre um candidato – desde que a empresa saiba o que fazer com a resposta.

“Você foi encolhido ao tamanho de uma moeda de 5 centavos e jogado dentro de um liquidificador. Sua massa foi reduzida de maneira que sua densidade é a mesma de sempre. As lâminas entrarão em movimento em 60 segundos. O que você faz?” Essa questão, aplicada durante uma entrevista de emprego no Google, nos Estados Unidos, virou um exemplo de como as empresas têm procurado reinventar na última década seus processos seletivos com o objetivo de avaliar mais do que competências técnicas dos candidatos.

São desafios em que a exatidão da resposta final quase nunca importa – o que vale é o caminho percorrido até lá. “Perguntas que fogem do comum são ferramentas que ajudam a avaliar aspectos como criatividade, raciocínio lógico e reação a uma situação inesperada”, afirma Patrícia Tourinho, gerente executiva de recursos humanos da consultoria de recrutamento Michael Page. Mas é preciso saber quando, como e por que usar a técnica para não transformá-la em mais um modismo corporativo de ares descolados e efeito nulo.

O PROPÓSITO

A pedido de VOCÊ RH, o Love Mondays, site brasileiro no qual os profissionais avaliam seus atuais e ex-empregadores, identificou as perguntas mais inusitadas realizadas em processos seletivos no país. Entre os destaques estão as que pedem um número impossível de ser calculado com precisão no momento da entrevista, como “Quantos lanches o McDonald’s vende por dia no Brasil?”

Em casos como esse, o RH pode avaliar de que forma o respondente estrutura a resolução do desafio. “É possível observar se o entrevistado é capaz de dividir um grande problema em partes menores e usar o bom senso para chegar a saídas coerentes”, diz Luciana Caletti, cofundadora e CEO do Love Monday, que já adotou em alguns processos a questão “Quantos posts são publicados por dia no Facebook?” Segundo Luciana, um caminho adequado para decifrar o enigma seria partir do número da população mundial e estimar a porcentagem de pessoas com acesso `a internet e a parcela desse grupo que participa da rede social. “Depois, dá para se basear em quantos posts o próprio profissional, os amigos e os parentes costumam fazer por dia e calcular uma média individual, que deverá ser multiplicada pelo número estimado de usuários do Facebook”, afirma.

É de esperar que candidatos escolados nos métodos de seleção, daqueles que chegam prontos para discorrer sobre seus maiores defeitos, logo incorporem ao repertório essas estruturas coesas de raciocínio. “Tem gente que se prepara durante meses para esse tipo de entrevista”, afirma Luciana. Mas nem sempre uma questão que beira o bizarro pretende fazer aflorar a capacidade lógica de quem está do outro lado da mesa. “Já aconteceu de perguntarmos ‘quanto pesa uma girafa’ e o candidato responder simplesmente que não fazia ideia, demonstrando inconscientemente, que prefere permanecer na zona de conforto”, afirma Viviane Cândido, especialista em RH do Vagas, site de oportunidades de emprego.

Raciocínio, disposição para assumir riscos, capacidade de inovar. Uma questão singular deve carregar nas entrelinhas um propósito claro que investigue no outro as competências que a companhia busca. “Para determinadas posições, como finanças e engenharia, o pensamento lógico complexo é mais requisitado. Para outras, esses desafios podem não fazer sentido”, afirma Guilherme Malfi, gerente especialista em gestão de pessoas Talenses, consultoria de recrutamento para executivos. Nesses casos, seria mais adequado apostar nas case interviews, que propõe uma situação estranha, mas vinculada à realidade da empresa. Por exemplo, perguntar “nossa empresa teria lucro investindo em uma operação no Chile?” caso a vaga seja para um cargo de gestão de mercado. A gigante industrial GE prefere usar essa forma mais aderente ao dia a dia. “As perguntas diferentes são aplicadas na resolução de casos ou em grupos de avaliação, quando o candidato deve mostrar de que forma chegou à solução de um problema e compartilhar seu mapa mental lógico. Assim, conseguiremos observar como ele elegeu prioridades, como elencou as soluções e quais opções descartou”, afirma Nicolle Wallentin, diretora de aquisição de talentos da GE para a América Latina. “A profundidade que esperamos na resposta depende do nível de experiência do entrevistado”.

A CONTRAPARTIDA

Na TMF Group Brasil, multinacional fornecedora de serviços de back office, desafios irreverentes são aplicados em algumas entrevistas e para cargos estratégicos. “São posições que exigem mais habilidades multidisciplinares do que as vagas para funções de analista ou especialista”, diz Sonia Reitermann, diretora de RH. Uma das questões já propostas pela empresa é: “Quantos cabeleireiros existem em São Paulo?”. Além de observar se o candidato é capaz de fazer estimativas com base na população da cidade e no percentual de homens e mulheres na região, a companhia coloca à prova não só a habilidade de comunicação como também a desenvoltura e o jogo de cintura do participante.

O recrutamento que permite ao entrevistado se mostrar mais – e ao RH escapar do gesso – pode fornecer alguns recursos para a triagem de mentes brilhantes.  “Mas, se a seleção valoriza pessoas altamente criativas e autônomas e a empresa não oferece um ambiente em que elas possam sair do trivial e ter liberdade para atuar, em pouco tempo os funcionários ficarão frustrados”, diz Viviane Cândido, do Vagas. E aí o processo inovador vai se mostrar mais um daqueles velhos geradores de perda de tempo e dinheiro. Porque profissionais acima da média têm expectativas acima da média.

É preciso saber o que fazer com um talento que, além de extremamente preparado, reflete de forma fenomenal sobre quantas vacas existem no Canadá

NA MEDIDA

Para funcionar, a inclusão de desafios de lógica e criatividade no recrutamento deve seguir alguns preceitos:

1 –  Planeje esses desafios para etapas mais avançadas do processo, quando as habilidades técnicas e as competências básicas do candidato já foram identificadas.

2 –  Deixe o entrevistado à vontade. Estar na condição de avaliado já o coloca sob pressão.

3 –  Tenha clareza sobre o que a empresa pretende avaliar durante a resposta e veja se as qualidades testadas realmente serão aplicadas posteriormente no desempenho da função.

FONTES: Patrícia Tourinho, da Michael Page, Luciana Caletti, da Love Mondays, Viviane Cândido, do Vagas.Com., Guilherme Malfi, da Talenses, e Sonia Reitermann, da TMF Group

PSICOLOGIA ANALÍTICA

altruistas

BOQUIABERTOS E ALTRUÍSTAS

 Cultivar a sensibilidade a cenas cotidianas, como beleza de uma paisagem ou gestos de bondade alheia, aumenta nosso grau de satisfação geral

 Palavras como “maravilhoso” ou “incrível” se tornaram adjetivos comuns, muitas vezes destituídas da magnitude que impressões realmente superlativas nos despertam. O fascínio genuíno representa uma profunda emoção: um suspiro ao olhar um céu surpreendentemente estrelado, os arrepios ao ouvir uma melodia tocante ou a sensação de “coração rasgado” ao ver uma multidão segurando velas no alto, em meio à escuridão. Essas experiências podem nos fazer pessoas melhores? Um artigo publicado no Journal of Personality and Social Psychology sugere que sim.

“Há muito tempo os filósofos dizem que o misto de respeito e admiração une as pessoas e queríamos entender melhor esse sentimento”, diz o psicólogo Paul Piff, professor assistente de psicologia e comportamento social da Universidade da Califórnia em Irvine, principal autor do estudo. Ele começou a investigar o tema no laboratório do psicólogo Dacher Keltner, da Universidade da Califórnia em Berkeley. Segundo Piff, a pesquisa mostra que essa sensação pode ajudar a nos tornarmos menos egocêntricos e mais sintonizados com as necessidades do grupo.

No primeiro de cinco estudos, os pesquisadores constataram, com a ajuda de uma pesquisa nacional representativa, que as pessoas que relataram experimentar esse sentimento com maior frequência eram de fato mais generosas. No experimento, os cientistas observaram que, depois de terem recebido algumas rifas e terem a oportunidade de ceder outras, esses indivíduos tinham a tendência de doar maior quantidade.

Os pesquisadores realizaram outros quatro experimentos em que induziram essa sensação em alguns participantes e outras emoções como orgulho ou diversões em outros. Para isso, lançaram mão de cenas em vídeo da natureza de tirar o fôlego ou convidaram os voluntários a observar imponentes árvores de eucalipto ao ar livre.

Em todos os casos, aqueles que se sentiram maravilhados se compor taram de uma forma que os psicólogos chamam de “pró-social”: foram mais úteis e tom aram decisões mais éticas. Os participantes que observavam as árvores, por exemplo, pegaram mais vezes canetas derrubadas “acidentalmente” por um pesquisador disfarçado do que aqueles que olhavam para um edifício.

Segundo os autores, ao nos sentirmos uma pequena parte de algo maior, a admiração desloca nossa atenção de nossas próprias necessidades para as de um bem maior.

Alguns pesquisadores especulam que a reverência pode ter evoluído em resposta a um líder poderoso. A manutenção de hierarquias sociais e a garantia de participação grupal podem aumentar as chances de sobrevivência.

Não é surpresa que alguns estudos sugerem que o fascínio pode favorecer a devoção. “Podemos pensar que a religião é uma instituição cultural que ritualiza o encantamento por meio da arquitetura e da música”, diz Piff. O psicólogo costuma fazer uma sugestão interessante: que as pessoas mantenham um “diário de contemplação” por duas semanas e diariamente registrem tudo o que evoca essa sensação – um pôr do sol, as penas de um pássaro, o gesto de bondade de outra pessoa, por exemplo. Ele afirma que mudar o foco em direção a algo grande pode nos levar a colocar os problemas em perspectiva, além de ajudar a nos abrirmos para o mundo.

ADMIRAÇÃO FAZ BEM À SAÚDE

A sensação pode estar relacionada com níveis mais baixos de molécula ligada a processos inflamatórios

Emoções negativas têm sido associadas com altos níveis de estresse, de doenças cardíacas e até uma vida mais curta. As pesquisas sugerem que infecções podem ser responsáveis por essa relação, pelo menos em parte. As moléculas envolvidas nesse processo são essenciais para a resposta do corpo a inflamações e lesões, mas níveis elevados em longo prazo têm sido associa dos com diversos problemas, desde diabetes à depressão.

Poucos estudos avaliaram o efeito de emoções positivas sobre a saúde. Com isso em mente, uma equipe liderada pela psicóloga Jennifer Stellar, da Universidade de Toronto, que também começo u a estudar a sensação de fascínio no laboratório de Keltner, da Universidade da Califórnia em Berkeley, realizo u duas pesquisas para investigar a ligação. Na primeira, 94 estudantes responderam a um questionário para determinar quantas vezes haviam vivenciado determinados sentimentos durante o mês anterior.

Depois, os cientistas colheram uma amostra de saliva para avaliar os níveis de uma molécula que estimula a inflamação chamada interleucina-6 (IL-6). Eles observaram que os sentimentos mais agradáveis foram associados com níveis mais baixos de I L-6.

No segundo experimento, 105 alunos preencheram formulários online desenvolvidos para avaliar a tendência a experimentar várias sensações positivas específicas. Mais tarde, eles visitaram o laboratório para fornecer amostras de saliva. A alegria, o contentamento, o orgulho e a admiração foram associados com menor quantidade da molécula, mas esse último sentimento foi o único capaz de predizer significativamente os níveis de IL-6 por meio de um teste estatístico rigoroso.

Os resultados não provam que sentir fascínio por algo realmente provoque mudanças na quantidade da molécula. De fato, os autores advertem que provavelmente é uma relação de mão dupla: ter uma vida mais saudável e menos estressante pode permitir experimentar esse sentimento mais frequentemente. Eles mostram que a admiração está associada com a curiosidade e o desejo de explorar, que contrastam com a retirada social que a muitas vezes acompanha doenças ou lesões. “Sabemos que as emoções agradáveis são importantes para o bem-estar, mas nossos resultados sugerem que também interferem na saúde do corpo”, diz Stellar.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

PENSAMENTO ELETRONICO

PENSAMENTO ELETRÔNICO

Novos programas altamente sofisticados se inspiram em redes neurais humanas; pesquisadores questionam se algum dia as máquinas realmente serão capazes de raciocinar.

Quanto tempo você leva para somar 3.456.732 mais 2.245.678? Dez segundos? Nada mau – para um humano. Um computador médio, hoje, pode realizar o cálculo em 0,000000018 segundo. E quanto à sua memória? Você consegue lembrar uma lista de compra de sete itens? Talvez 20? Isso não se compara aos 125 milhões que o computador memoriza.

Por outro lado, computadores têm problemas com rostos, que nós, humanos, reconhecemos imediatamente. As máquinas não possuem criatividade para ideias inovadoras nem sentimentos ou lembranças afetivas da juventude. No entanto, avanços tecnológicos recentes estão diminuindo a diferença entre o cérebro humano e os circuitos. Na Universidade Stanford, bioengenheiros estão reproduzindo complicado processamento paralelo das redes neurais em microchips. No Instituto de Neurociências em La Jolla, Califórnia, pesquisadores construíram um robô, o Darwin VII, com uma câmera e um conjunto de mandíbulas de metal para poder interagir com o ambiente e aprender, como fazem os animais jovens. O cérebro de ratos e macacos serviu de modelo para fazer o sistema operacional do robô.

Esses projetos levantam uma questão natural: se o processamento de computadores, com o tempo, será capaz de imitar as redes neurais da Natureza, poderá o frio silício algum dia “pensar” de verdade? E como iremos julgar se ele o faz ou não? Há mais de 50 anos o matemático e filósofo britânico Alan Turing (1912-1954) inventou uma estratégia engenhosa para lidar com essa questão. A busca por essa possibilidade ensinou bastante à ciência sobre como projetar uma inteligência artificial, ao mesmo tempo que tornou mais clara a cognição humana.

Então, o que é exatamente essa capacidade elusiva que chamamos de “raciocínio”? As pessoas com frequência usam a palavra para descrever processos que envolvem consciência, entendimento e criatividade; termos que não se aplicam aos computadores – atualmente vistos como meros seguidores de instruções fornecidas por sua programação.

Em 1950, quando os microchips de silício ainda não existiam, Turing percebeu que, conforme os computadores ficassem mais espertos, a questão da inteligência artificial iria acabar surgindo. No artigo “Máquinas computacionais e inteligência”, Turing substituiu a pergunta “As máquinas podem pensar?” por “Pode uma máquina – um computador – passar no jogo da imitação?”. Isto é, pode dialogar de forma tão natural a ponto de fazer com que uma pessoa pense que seu interlocutor é humano?

Turing tirou essa ideia de um jogo no qual um dos participantes chamado de entrevistador, precisa determinar, fazendo uma série de perguntas, se uma pessoa em outra sala é homem ou mulher. Turing substituiu a pessoa na outra sala por um computador. Para passar no teste de Turing, a máquina precisaria responder qualquer pergunta do entrevistador com a competência linguística e a sofisticação de um ser humano. Ao final de seu artigo, o matemático previu que em 50 anos – ou seja, hoje – seríamos capazes de construir computadores tão bons na imitação que um entrevistador médio teria apenas 70% de chances de identificar se estava falando com um pessoa ou com uma máquina.

Até agora a previsão não se realizou. Nenhum computador pode, na verdade, passar no teste d Turing. Então, por que algo que é tão fácil para pessoas é um obstáculo tão difícil para máquinas. Para passar no teste, as máquinas teriam de demonstrar tantos tipos de competências quanto um ser humano médio possui. Mas computadores têm o que chamamos de design restrito. Sua programação permite que realize m um trabalho específico, e eles têm a base de conhecimento relevante apena para aquela tarefa. Para passar no teste de Turing o computador também precisa ter um excelente domínio da linguagem, com todas as suas peculiaridades e estranhezas. Para isso, é crucial levar e conta o contexto no qual as frases são ditas. Mas os computadores não conseguem reconhecê-lo com facilidade. A palavra ”banco”, por exemplo, pode significar um “assento” ou uma “instituição financeira” dependendo da situação em que é usada. O que torna o contexto tão importante é o fato de ele fornecer um conhecimento prévio. Como, por exemplo, se quem está fazendo a pergunta é um adulto ou uma criança, um especialista ou um leigo. Isso é útil porque reduz a quantidade de potência computacional necessária. A lógica não é suficiente para responder de forma correta questões como “Onde está o nariz de Sue, quando Sue está na casa dela?”. É preciso saber que o nariz costuma estar grudado no rosto do dono. Dizer ao computador para responder com “na casa” é insuficiente para tal pergunta. O computador pode usar a fórmula para responder do mesmo modo a pergunta “Onde está a mochila de Sue quando Sue está na casa dela?”. A resposta apropriada nesse caso seria “não sei”. A situação ficaria ainda mais complicada se Sue tivesse passado por uma cirurgia no nariz recentemente. Aqui, a resposta correta seria outra pergunta: “De que parte do nariz de Sue você está falando?”. Tentar desenvolver um software que considere cada possibilidade rapidamente leva ao que os cientistas da computação chamam de “explosão combinatória”.

O teste de Turing não deixa de ter seus críticos, no entanto. O filósofo Ned Block, da Universidade de Nova York, defende que esse jogo apenas avalia se um computador se comporta ou não de maneira idêntica a um ser humano (estamos falando apenas do comportamento verbal e cognitivo, claro). Imagine que seja possível programar um computador com todas as conversas de certa duração finita. Quando o entrevistador faz uma pergunta Q, o computador procura a conversa na qual Q ocorreu e então digita a resposta que se seguiu, A. Diante da pergunta seguinte, P, o computador procura então pela sequência, Q, A, P e digita a resposta que se seguiu nessa conversa, B. Tal computador, Block diz, teria a inteligência de uma torradeira, mas seria capaz de passar no teste de Turing.

Uma resposta ao desafio de Block é que esse problema também se aplica aos seres humanos. Deixando de lado as características físicas, toda a evidência que temos para dizer se um ser humano é capaz de pensar é o comportamento que seu pensa­ mento produz. E isso significa que nunca sabemos de fato se o nosso interlocutor está tendo uma conversa no real sentido do termo. Os filósofos chamam isso de problema das “outras mentes”.

CARACTERES CHINESES

Uma linha semelhante de discussão – o “argumento da sala chinesa” – foi desenvolvida pelo filósofo John Searle, da Universidade da Califórnia Berkeley, para mostrar que um computador pode passar no teste de Turing sem nem sequer entender o significado de qualquer das palavras que ele usa. Para ilustrar, Searle pede que imaginemos um programa para simular o entendimento da língua chinesa.

Agora suponha que você é um processador dentro do computador, trancado em uma sala (o gabinete do computador) cheia de cestos que contêm símbolos chineses (caracteres que irão aparecer na tela). Você não sabe chinês, mas recebeu um livro (software) que lhe diz como manipular os símbolos. As regras do livro não dizem o que os símbolos significam, no entanto. Quando os caracteres chineses são enviados para a sala (entrada de dados), seu trabalho é passar símbolos de volta para fora da sala (saída de dados). Para essa tarefa, você tem um conjunto extra de regras, que correspondem ao programa de simulação projetado para passar no teste de Turing. Sem que você saiba, os símbolos que entram na sala são perguntas, e aqueles que você envia para fora são respostas que perfeitamente imitam as que um falante de chinês pode dar; então, de fora da sala vai parecer que você entende chinês. Tal computador passaria no teste de Turing, mas não iria pensar de verdade.

Os computadores poderão algum dia entender o que os símbolos significam? O cientista da computação Stevan Harnad, da Universidade de Southampton, Inglaterra, acredita que sim, mas, como as pessoas, as máquinas antes de mais nada teriam de captar abstrações seu contexto, aprendendo como elas se relacionam com o mundo real externo. Aprendemos o significado de palavras por meio da ligação causal entre nós e o objeto que o símbolo representa. Entendemos a palavra “árvore” porque tivemos experiências com árvores. Harnad acredita que, para um computador compreender o significado dos símbolos que manipula, ele precisa ser equipado com um aparato sensório – uma câmera, por exemplo – de forma que possa realmente ver os objetos representados pelos símbolos. Um projeto como o pequeno Darwin VII é um passo nessa direção.

Nesse espírito, Harnad propõe uma avaliação revisada, a qual chama de teste de Turing robótico. Para merecer o rótulo de “pensante “, uma máquina deve passar no teste de Turing e estar ligada ao mundo externo. Esse acréscimo captura uma das próprias observações do matemático britânico: uma máquina deve poder “vagar pelo interior” de forma a ser capaz de “ter a chance de descobrir coisas por si mesma”. O equipamento sensório imaginado por Harnad pode proporcionar a um cientista da computação uma forma de fornecer ao computador o contexto e o conhecimento prévio necessários para passar no teste de Turing. Em vez de exigir que todos os dados relevantes sejam inseridos por força bruta, o robô aprende o que precisa saber interagindo com seu próprio ambiente.

A dúvida que fica é se o acesso sensório ao mundo externo irá, por fim, suprir um computador com entendimento verdadeiro. Mas antes que possamos responder essa questão, precisamos esperar até que uma máquina realmente passe no teste robótico sugerido por Harnad. Enquanto isso, o modelo de inteligência proposto por Turing continua a proporcionar uma importante estratégia de pesquisa para a IA.  De acordo com o filósofo James H. Moor, da Faculdade de Dartmouth, a principal força do teste é a visão que ele oferece – a de “construir uma inteligência sofisticada geral que aprende”. Isso estabelece uma meta valiosa para IAs não importando se a máquina que passa no teste de Turing é capaz de pensar como nós, com entendimento e consciência.

O CÉREBRO POR TRÁS DAS MÁQUINAS

Criado por vários amigos da família, Alan Turing (1912-1954) era uma criança brilhante e solitário. Seu intelecto independente não se encaixava nas expectativas dos professores; ele estava nos últimos lugares da classe em várias disciplinas. Compreende-se, então, que o adulto Turing tenha criado uma forma de reconhecer Inteligência – do tipo artificial – com o teste que leva o seu nome. De acordo com ele, um computador pode “pensar” se puder enganar um ser humano, levando-o a acreditar que sua conversa escrita é produzida por uma pessoa, não por uma máquina.

Quando tinha 23 anos, impressionou os colegas na Universidade de Cambridge inventando a caracterização matemática de uma máquina que iria se tornar uma das contribuições mais importantes da história da computação. A teórica máquina de Turing pode computar respostas para um problema matemático baseado num programa. Ela consiste em um dispositivo de entrada de dados, um conjunto de estados internos que correspondem a um programa e a um dispositivo de saída. Qualquer computador moderno, em essência, é uma máquina de Turing.

Sua invenção também o qualificou de maneira única para trabalhar em outra charada. Em 1938 o governo britânico o contratou para ajudar a decifrar o código da máquina Enigma alemã, que codificava mensagens secretas. Turing ajudou a desenvolver um aparelho que realmente decifrou os códigos do Enigma e, mais tarde, também aqueles da marinha alemã. A Bomba, como foi apropriadamente chamado o decodificador, era baseada em parte no conceito da máquina de Turing.

O matemat1co teve de fazer um juramento de sigilo sobre seu trabalho para o governo, um fator que pode tê-lo isolado ainda mais. Talvez a pressão resultante tenha se acrescentado ao stress que Turing sofreu quando foi julgado com homossexual e forçado a suportar injeções de estrogênio como forma de terapia. Ele se suicidou em 1954, aos 41 anos O acontecimento foi imprevisto até para aqueles que o conheciam bem. Turing sempre deu a impressão aos amigos de que estava satisfeito com a vida. Ele deixou o mundo sem nenhuma explicação nem pedido de ajuda; apenas uma maçã meio comida misturada com cianeto encontrada ao lado da cama provava ocorrido. Sua morte inesperada ilustra que os seres humanos podem ser enganados de muitas formas – felicidade também pode ser imitada de maneira bem-sucedida.

YVONNE RALLEY – Professora-assistente do departamento de filosofia da Faculdade Felician, em Lodi, Nova Jersey.

 

GESTÃO E CARREIRA

feedback na avaliação

AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO – COMO DAR FEEDBACK

 O feedback se tornou uma importante ferramenta no processo de avaliação de desempenho, mas a maioria dos líderes precisa aprender a ter essa conversa com o funcionário.

 Abrir o jogo sobre o desempenho do outro nunca foi tarefa fácil no mundo corporativo. Menos de 20% das empresas na América Latina acreditam que os gerentes saibam dar feedback, como indica uma pesquisa da consultoria americana CEB. O problema aumenta à medida que a área de RH enxerga nesse bate-papo uma ferramenta importante para melhorar o processo de avaliação dos funcionários. A conversa constrangedora, que antes acontecia uma vez por ano, passa a ocorrer com mais frequência – às vezes, toda hora.

Dependendo do perfil do gestor, as palavras são escolhidas meticulosamente para evitar uma indisposição com o empregado; dependendo, são pesadas e criam um mal-estar. O equilíbrio é tênue. Se a mensagem for dura demais, o trabalhador se sentirá injustiçado e se desmotivará. Se for superficial, poderá não ser compreendida pelo receptor. “A grande frustração de um profissional é ser desligado ou ter um diálogo final sem entender os motivos”, diz Henrique Vailati, diretor de recursos humanos da Roche Diagnóstica. Como, então, ensinar os líderes a dar um bom feedback?

ENTENDA O CÉREBRO

O ser humano segue nas suas relações sociais o princípio básico de sobrevivência: minimizar as ameaças e maximizar as recompensas. Se numa conversa a pessoa identifica subjetivamente traços de punição ou agressão, a resposta imediata do cérebro é se proteger – fugir. Palavras como deadline (Literalmente, “Linha mortal”) ou “bater a meta” reforçam essa percepção. E isso afeta a capacidade cognitiva do indivíduo. Alguém que se sente ameaçado por um chefe é mais propenso a cometer erros e menos a solucionar problemas. Para tornar esse mecanismo compreensível no mundo corporativo, o neurocientista David Rock, presidente do Neuro Leadership Institute, desenvolveu em 2008 um modelo de gestão conhecido por Scarf (sigla em inglês para status, certeza, autonomia, relacionamento e equidade). Segundo ele, cada vez que um desses cinco domínios da experiência social são enaltecidos ou postos em risco, a pessoa se sente feliz, recompensada ou temerosa e inútil. “Se o líder entende esse funcionamento do cérebro, consegue estimular a confiança e o comprometimento”, diz Vera Martins, fundadora da Assertiva Educação Corporativa e autora dos Livros Seja Assertivo! e O Emocional Inteligente.

USE FATOS E NÚMEROS

O funcionário precisa saber sob qual caso específico o gestor quer discutir, com detalhes de quando e como isso aconteceu. “O chefe deve citar o comportamento e a entrega naquela situação e separar o pessoal do profissional”, diz Guilherme Miziara, professor nas Fundação Getúlio Vargas e no ibmec. A melhor forma de fazer isso é dizendo: “Eu não estou contra você, e sim contra o que aconteceu”. Os líderes da Roche Diagnóstica, fornecedora de produtos laboratoriais, são orientados a levar na conversa com o subordinado fatos e dados fornecidos por colegas daquele profissional. Outro ponto importante é que o diálogo seja focado em fatos recentes.

FALE COM SINCERIDADE

Segundo Henrique Vailati, diretor de RH da Roche Diagnóstica, um dos compromissos definidos para os líderes é: “Eu ouço com atenção, digo a verdade e explico o porquê”. Para ele, é importante que o diálogo seja “genuíno, imparcial e explicativo”. Nada de feedback positivo ou negativo – o gestor precisa indicar oportunidades de melhorias num bate-papo direto. “Ele deve explicar por que o funcionário está indo bem ou não, dentro dos parâmetros esperados”, diz Vailati. O fato de o brasileiro ser reconhecidamente um povo relacional (que faz tudo para evitar conflitos pessoais) não deve ser visto como um empecilho para uma conversa profunda. “Quando o chefe já construiu uma boa relação, ele tem liberdade para dar um ‘toque’”, diz Vera.

CITE AS CONSEQUÊNCIAS

Às vezes, o indivíduo não tem consciência dos impactos causados por suas atitudes, e o bom feedback poderia ajudá-lo. O professor Guilherme Miziara, da FGV, lembra que a dinâmica das relações interpessoais é marcada por quatro áreas de exposição: a aberta (aquilo que todo mundo sabe sobre nós), a oculta (o que apenas nós conhecemos), a desconhecida (ninguém, nem nós mesmos, reconhece), e a cega (o que os outros enxergam sobre nós e nós mesmos desconhecemos). “As avaliações 360 graus fazem a pessoa tomar conhecimento desses pontos cegos e entender porque, por exemplo, enquanto ela se acha objetiva, seus pares a enxergam como agressiva, e o que ela pode fazer para melhorar isso”, afirma. Nesse ponto, também é importante que o gestor faça mea culpa. Como é ele quem conduz os processos e toma as decisões, no fim das contas, a responsabilidade por um resultado ruim é sua.

DOSE OS COMENTÁRIOS

Elogiar ou repreender demais ou de menos pode ser perigoso para a relação chefe-subordinado. Cabe ao líder a sensibilidade dessa dosagem. “Ele não pode ser paternalista e dizer que tudo o que o funcionário faz é ótimo, mas também não deve ser crítico demais”, diz Guilherme Miziara. Vera Martins, da Assertiva, alerta que alguns chefes ainda creem que os elogios podem levar o outro a se aproveitar do que seria um momento de fraqueza e, por isso, partem da premissa que sempre há o que melhorar. “Eles ignoram que algumas pessoas já podem ter chegado ao máximo em certas competências”, diz a consultora, destacando um princípio básico: elogios servem para reforçar e manter um comportamento. “A motivação da pessoa aumenta se ela se sente recompensada. Mas, se ela está em estado de defesa, ela rejeita o feedback e tenta justificar sua atitude, em vez de assumir um compromisso de melhoria”, afirma a especialista. Críticas, dependendo de como são feitas, despertam a vontade de fugir.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

DIREÇÃO, VOCAÇÃO E MINISTÉRIO

Se Deus tem um propósito para a vida de seu povo, e se é possível descobrir esse propósito, então nada mais importante para nós do que discerní-lo e realizá-lo. Com efeito, o apóstolo Paulo indicou ser esta a expec­tativa divina. “Somos feitura dele [de Deus]”, afirmou ele, “criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” Por­tanto, se existem boas obras que Deus planejou e designou para nós — provavelmente antes de termos nascido — então nós precisamos descobrir quais são elas. Não é de admirar que Paulo tenha escrito mais adiante, na mesma carta: “Não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor”.

Na carta de Paulo aos Colossenses, ele ora também para que Deus os faça “transbordar de pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiri­tual”, e menciona como Epafras “se esforça sobremaneira, continuamente… nas orações” por eles, e que eles deveriam conservar-se “perfeitos e plenamente convictos em toda a vontade de Deus”.

Sempre que falamos em descobrir a vontade de Deus para as nossas vidas, é quase certo que três palavras vão apa­recer durante a conversa: “direção”, “vocação” e “minis­tério”. Cada uma delas tem um significado especial. “Di­reção” pressupõe que Deus quer nos dirigir; “vocação”, que Deus nos chama; e “ministério”, que ele quer que coloque­mos nossas vidas a seu serviço. Mas, ao mesmo tempo, o que há de comum nos três conceitos é que em cada um deles a iniciativa é de Deus e que cada um tem tanto um aspecto geral (que se aplica igualmente a todos nós) como um aspecto específico (que é diferente para cada um de nós). Isto se tornará mais claro à medida que prosseguirmos.

DIREÇÃO

Às vezes nós dizemos, com um suspiro: “Ah, se eu tivesse dez vidas!” Existe um mito de que os gatos têm sete vidas; mas nós, humanos, só temos uma e não podemos duplicá-la nem fazer réplicas de nós mesmos. Daí a necessidade de descobrirmos a vontade de Deus para essa única vida que ele nos deu.

Mas antes de chegarmos ao ponto de descobrir a vontade de Deus é essencial que estabeleçamos uma distinção entre a sua vontade “universal” e a sua vontade “específica”. A vontade universal de Deus é assim chamada porque é a sua vontade para todo o seu povo; ela é a mesma para todos nós, em todos os lugares e em todos os tempos. Mas a vontade específica de Deus é assim chamada porque é a sua vontade para pessoas específicas, em lugares especí­ficos e em tempos específicos. Sua vontade universal é que sejamos “conformes à imagem de seu Filho”. A vontade de Deus para todos nós é que sejamos como Cristo; essa vontade não varia de discípulo para discípulo. Sua vontade específica, por sua vez, tem a ver com questões como a escolha de uma profissão ou de um companheiro para a nossa vida, ou como deveríamos gastar nossas energias, nosso tempo, dinheiro, feriados… Estas coisas diferem de uma pessoa para outra. Só depois de fazermos essa distin­ção essencial entre o “geral” e o “específico” é que esta­remos em condições de repetir a nossa primeira questão, que é como descobrir a vontade de Deus. Sua vontade “geral” ou “universal” está revelada na Escritura Sagrada. Não que esta contenha engenhosas soluções para os complexos problemas éticos do século XX; mas ela contém princípios que podem ser aplicados a eles. Via de regra está curto dizer que a vontade de Deus para o povo de Deus encontra-se na Palavra de Deus.

A vontade específica de Deus, porém, não se encontra na Bíblia. Não posso negar que uma vez ou outra Deus parece ter guiado certas pessoas por intermédio de um versículo específico extraído de seu contexto. Mas devo acrescentar que ele o faz em virtude de nossa fraqueza. Afinal, a Bíblia não é uma antologia de textos desvin­culados, mas, sim, uma revelação histórica, cumulativa. Nós não temos o direito de ignorar o seu sentido original a fim de obrigá-la a falar a nós. Mas o que a Bíblia contém mesmo são princípios que são relevantes a questões es­pecíficas. O casamento, por exemplo. A Escritura nos dá diretrizes gerais e preestabelece algumas questões. Ela nos diz que o matrimonio é o propósito desejável de Deus para os seres humanos e que o celibato é uma exceção, não a regra; que um dos seus propósitos primordiais ao instituir o casamento foi o companheirismo – portanto, esta é uma importante qualidade a ser buscada em um esposo ou esposa; que o cristão só é livre para casar-se com um cristão; e que o casamento (sendo um compro­misso de amor, monogâmico e heterossexual, para a vida toda) é o único contexto ordenado por Deus para as relações sexuais. Estas diretrizes gerais são claramente estabelecidas na Bíblia. Mas a Bíblia não diz a ninguém se Deus vai chamá-lo para casar-se ou para permanecer solteiro, nem com quem deverá casar-se (se for esta a sua opção).

Mas como vamos descobrir a vontade específica de Deus, se ele não a revelar através da Escritura? Já que Deus é soberano e livre, eu acho que não nos cabe estereotipar a nossa resposta. No entanto, eu descobri cinco palavras que são guias seguros.

Primeiro, ceder. Nós precisamos ceder, ou dar lugar ao propósito de Deus na nossa vida. Uma vontade que não se rende é o mais sério de todos os obstáculos para se descobrir a vontade de Deus. Se Deus não revela a sua verdade a quem não está disposto a acreditar nela, ele tampouco a revela a quem não está disposto a fazê-la. Pelo contrário, ele “guia os humildes na justiça, e ensina aos mansos o seu caminho”.

Segundo, orar. Simplesmente ceder, ou então entregar com desconfiança, não é suficiente. E preciso também esperar em oração e ser sustentado por ela. “Pedi, e dar-se-vos-á”, Jesus ensinou. “Nada tendes, porque não pedis”, acrescentou Tiago. Nosso Pai celeste não estraga os seus filhos. Ele não nos revela a sua vontade, a não ser que realmente queiramos conhecê-la e expressemos esse desejo em nossas orações.

Terceiro, falar. Embora um dos fortes do cristianismo protestante seja a insistência no nosso “direito ao juízo privado”, isto não significa que devamos tomar todas as nossas decisões sozinhos. Pelo contrário, Deus nos con­cedeu uns aos outros em sua família. Portanto, devemos ser humildes o suficiente para falar uns com os outros, inclusive os nossos pais, e buscar o seu conselho, pois “com os que se aconselham se acha a sabedoria”. Que as nossas decisões sejam tomadas em grupo, assumidas com respon­sabilidade na rica comunhão em que Deus nos colocou.

Quarto, pensar. Embora nós devamos ceder, orar e pedir conselho, nós sempre acabamos tendo de tomar decisões. Como vimos no capítulo anterior, Deus contrabalança as suas promessas de nos guiar com a sua proibição de que nos comportemos como cavalos e mulas, que não têm entendimento. Não vamos esperar que ele cumpra as suas promessas de nos guiar utilizando “freio e rédeas” (i.e. por meio da força) ou nos dando uma intuição irracional; ele nos guia por meio da mente que nos deu e que nos possibilita pesar cuidadosamente, em cada situação, os prós e os contras.

Quinto, esperar. É um erro apressar-se e ficar impaciente com Deus. Ele levou cerca de dois mil anos para cumprir sua promessa a Abraão no nascimento de Cristo. Levou oitenta anos preparando Moisés para o trabalho de sua vida. São necessários uns vinte e cinco anos para um ser humano chegar à maturidade. Portanto, se nós temos que tomar uma decisão dentro de um certo prazo, devemos fazê-lo. Mas, caso contrário, e se o caminho à nossa frente ainda é incerto, o mais sábio é esperar. Penso que o que Deus disse a José e Maria ao enviá-los ao Egito com o menino Jesus serve também para nós: “Permanece lá até que eu te avise.” Em minha experiência, cometem-se muito mais erros por causa de precipitação do que de protelação.

VOCAÇÃO

“Vocação” é uma das muitas palavras bíblicas cujo sentido tem mudado e se desvalorizado com o decorrer dos anos. No uso popular, ela tem a ver com nosso trabalho ou carreira. “Qual é a sua vocação?” é uma forma um tanto eloquente de perguntar a alguém qual é a sua profissão, e “treinamento vocacional” significa treinamento para um ramo específico. Na Bíblia, entretanto, “vocação” tem uma conotação muito mais ampla e mais nobre. Sua ênfase não é no aspecto humano (o que nós fazemos), mas sim no divino (o que Deus nos chamou a fazer). “Vocação” é uma palavra latina e significa “chamamento”.

No Novo Testamento o verbo grego equivalente a “cha­mar” ocorre cerca de 150 vezes, e na maioria dos casos refere-se a Deus chamando seres humanos. No Antigo Testamento, Deus chamou Moisés, Samuel e os profetas; no Novo Testamento, Jesus chamou os doze apóstolos e depois Saulo de Tarso. Hoje, embora nós não sejamos nem profetas nem apóstolos, ele ainda nos chama para o seu serviço. É maravilhoso o fato de que Deus se importa tanto conosco que nos chama pessoal e individualmente. Portan­to, Deus é “aquele que vos chama”; e nós somos “aqueles que são chamados segundo o seu propósito”.

A questão que se nos depara é esta: de acordo com as Escrituras, para que é que Deus nos chama? Qual é a nossa vocação divina? Para responder esta questão acerca da “vocação”, nós precisamos fazer uma distinção similar àquela que fizemos concernente à “direção”, ou seja, entre o nosso chamado global ou “universal” e os nossos cha­mados “específicos”. Nosso chamado global é o chamado de todo o povo de Deus e é, portanto, o mesmo. Nosso chamado específico é o de cada um de nós e é, portanto, diferente. Todos nós compartilhamos do mesmo chamado universal de Deus; cada um de nós recebeu de Deus um chamado específico diferente.

O chamado universal de Deus para nós não é tanto para fazer alguma coisa (um trabalho), mas para ser alguma coisa (uma pessoa). Embora ele nos chame para diferentes tarefas, como já veremos, primeiro ele nos chama para algo ainda mais significativo, isto é, para sermos discípulos de Jesus Cristo, para vivermos uma vida nova em sua nova sociedade e no mundo. Portanto, se alguém nos perguntar “Qual é a sua vocação?”, nossa primeira resposta — aliás, a resposta certa — deveria ser: “Eu sou chamado para pertencer a Jesus Cristo”. De fato, nós somos chamados a abraçar e desfrutar de todas as bênçãos que Deus nos reservou em Jesus Cristo: “… para isto mesmo fostes chamados, a fim de receberdes bênção por herança”. E que herança é essa? Ela tem muitas facetas.

Primeiro, somos chamados para ter comunhão com Jesus Cristo. Isto é básico. Seu convite ainda é “vinde a mim” e “segue-me”. Afinal Deus nos chamou “à comu­nhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor”. Assim como Cristo chamou os doze apóstolos para estarem “com ele”, assim também ele nos chamou para o conhecermos e gozarmos de comunhão com ele. A vida eterna é conhe­cer a Deus e o seu Cristo, e nada pode tomar o lugar desta relação fundamental com ele.

Segundo, somos chamados para a liberdade. “Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade”, escreveu Paulo aos Gálatas. O tipo de liberdade a que o apóstolo alude aqui é a liberdade da condenação da lei através do perdão de Deus e do fato de termos sido aceitos através de Cristo. É a libertação da culpa e de uma consciência culpada, a libertação que nos dá acesso a Deus como filhos e filhas adotivos seus. No entanto, não é liberdade para pecar ou liberdade das responsabilidades sociais. Pelo contrário, Paulo continua: “Porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros (lite­ralmente, ‘sede escravos uns dos outros’), em amor.” E o paradoxo que já vimos, de que só servindo é que nos tor­namos livres.

Terceiro, somos chamados para a paz. “Seja a paz de Cristo o árbitro em vossos corações, à qual, também, fostes chamados em um só corpo.” A referência a “um só corpo” ajuda-nos a compreender o que Paulo queria dizer com isso. Aqui ele não está se referindo à paz de espírito, coração ou consciência, mas à paz {shalom) resultante da reconciliação uns com os outros na comunidade do reino de Cristo. Nós somos chamados não somente para perten­cer a Cristo, mas também para fazer parte do povo de Cristo.

Em quarto lugar, somos chamados para a santida­de, ou “chamados para ser santos”. Já que o próprio Deus é santo, ele nos chama para que também sejamos santos. Para muita gente, infelizmente, “santidade” dá a falsa ideia de gente piedosa com uma aparência anêmica e um olhar distante, que parece ter-se desligado da vida. Mas a verdadeira santidade é uma semelhança com Cristo que é vivenciada no mundo real.

Em quinto lugar, somos chamados a testemunhar. “Vós, porém, sois… povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.” Pedro está con­trastando aquilo que nós éramos antes com o que somos agora. Nós vivíamos nas trevas, mas agora estamos na luz. Nós não éramos povo, mas agora somos povo de Deus. Não tínhamos alcançado misericórdia, mas agora, sim. A de­dução lógica é que nós não podemos de maneira alguma guardar estas bênçãos para nós mesmos. Tendo sido cha­mados para a luz de Deus, nós somos inevitavelmente chamados para fazer brilhar a nossa luz.

Em sexto lugar, somos chamados para o sofrimento. “Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus. Porquanto para isto mesmo fostes chamados.” Pedro escreveu essa carta quando a hostilidade de Nero para com os cristãos começou a crescer e agourentas nuvens de perseguição se acumulavam no horizonte. A qualquer momento poderia irromper a tempestade. E daí, como os cristãos deveriam reagir se sofressem injustamente? A resposta de Pedro é muito franca. Eles tinham sido cha­mados para seguir o exemplo de Cristo, da não-retaliação. Muita gente fica chocada ao saber que sofrimento injusto é uma parte inevitável do chamado cristão. Mas o próprio Jesus nos advertiu sobre isso. “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim… Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros.”

Sétimo, somos chamados para glória. O chamado cristão é uma “vocação celestial”. “O Deus de toda graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar.” Sofrimento e glória estão constantemente ligados um ao outro no Novo Testa­mento. Foi por intermédio do sofrimento que Jesus entrou em sua glória, e conosco não há de ser diferente. Se nós participamos do sofrimento de Cristo, também participare­mos da sua glória. Portanto, o chamado de Deus não é apenas para esta vida; é também para passarmos a eterni­dade com ele no novo universo.

Eis aqui, pois, o chamado global de Deus, desdobrado em sete aspectos. Deus chama a todos nós para Cristo, para a liberdade, a paz, a santidade, o testemunho, o sofrimento e a glória. Mais simplesmente, é um chamado para per­tencermos a Cristo no tempo e na eternidade, para amar­mos uns aos outros na paz de sua nova comunidade e para servirmos, testificarmos e sofrermos no mundo. E este o sentido fundamental da “vocação cristã”. E a mesma coisa para todos nós, e nós somos exortados a viver uma vida digna dessa vocação.

Se o nosso chamado universal (que é o mesmo para todos nós) é para sermos livres, santos e semelhantes a Cristo, nosso chamado específico (que é diferente para cada um de nós) tem a ver com os detalhes altamente individuais das nossas vidas. Vejamos o ensinamento de Paulo: “Cada um permaneça na vocação (literalmente, o ‘chamado’) em que foi chamado.” Percebe-se imediatamente que o após­tolo usa a ideia de “chamado” em dois sentidos distintos. As palavras “em que fostes chamados” referem-se à con­versão da pessoa quando ouviu e obedeceu ao chamado universal de Deus. “A vocação” (“chamado”) em que ele estava, por sua vez, é uma referência ao seu chamado es­pecífico quando da época da conversão. Essa situação, ou “vocação”, é vista como algo para o qual Deus nos “chamou”, algo que Deus “designou” para nós. E o princípio geral que o apóstolo estabelece, repetindo-o três vezes, é que nós devemos “permanecer” nele. Ele dá três exemplos: nossa situação doméstica (casados ou solteiros), a situação cul­tural (judeus ou gentios) e a situação social (escravos ou livres). Para compreendermos o ensinamento de Paulo, nós precisamos entender o pano de fundo e o contexto. Parece que para os convertidos coríntios a vida em Cristo era uma novidade tão grande (ser “nova criatura”) e emocionante, e tão radicalmente diferente do seu estado de não regene­rados, que eles pensaram que nada que fizesse parte da sua antiga vida poderia ser conservado; tudo tinha de ser re­pudiado.

O casamento, por exemplo. Agora, que eles pertenciam a Cristo (esta parece ser a sua dúvida), como poderia uma obrigação contratual que antecedeu a conversão continuar válida após a conversão? Não seria tal relação “impura”? Paulo responde que não. E por que não? Porque a provi­dência de Deus abrange tanto a sua vida anterior como a vida posterior à conversão. Seu matrimónio, embora con­traído antes de eles se tornarem cristãos, era parte do “chamado” em que se encontravam quando Deus os cha­mou. Portanto, eles não tinham nenhum direito de repudiá-lo. Transformá-lo pela graça de Deus, sim; rejeitá-lo, não.

Nós precisamos ter muito cuidado ao aplicarmos a nós mesmos este ensinamento. Paulo está formulando uma regra geral, não absoluta. Ele, por exemplo, tinha deixado de ser fariseu ao ser chamado para ser apóstolo de Cristo. Seme­lhantemente, os doze haviam desistido de pescar e recolher impostos quando foram chamados para ser apóstolos. E Paulo diz aqui que se um escravo tem alguma possibilidade de ganhar a sua liberdade, deveria fazê-lo. Nós também temos de estar abertos para a possibilidade de Deus nos estar chamando para fazer algo diferente. O que Paulo estava fazendo era reagindo a decisões impensadas e pre­cipitadas, a mudar só por mudar, e especialmente à ideia de que nada ocorrido antes da conversão e nada além da religião tem valor para Deus.

Agora vamos deixar a Escritura e voltar-nos para a história, ver o que ensinaram os reformadores e os puri­tanos. Os reformadores insistiram em que todo cristão, seja homem ou mulher, tem um “chamado” divino. Eles esta­vam reagindo ao ensino do catolicismo medieval, de que os bispos, padres, monges e freiras tinham um chamado superior, por ser “religioso”. Isso os reformadores rejei­taram, por considerá-lo “clericalismo” (separação entre clero e leigos) e “dualismo” (separar atividades “sagra­das”, como a oração, de atividades “seculares”, como governar uma casa ou trabalhar para viver). Eles afirma­vam que Deus se interessa pelo todo da nossa vida, e que ser fazendeiro, artesão, magistrado ou dona de casa era um chamado tão divino quanto ser “padre” ou “pastor”. Lutero insistiu muito nisso:

Aqueles que agora são chamados “espirituais”, isto é, padres, bispos ou papas, não são, nem diferentes dos outros cristãos, nem superiores a eles; só que eles estão encarregados da palavra de Deus e dos sacramentos, que é o seu trabalho e ofício.

Mas “as costureiras, os sapateiros, os pedreiros e car­pinteiros, os cozinheiros, hoteleiros, fazendeiros e todos os trabalhadores seculares” também foram “consagrados” como sacerdotes, cada um para “o trabalho e o ofício que lhe cabe”.

Além disso, todos devem se beneficiar e servir aos outros através do seu próprio trabalho ou profissão, de maneira que muitos tipos de trabalho possam ser feitos para o bem-estar corporal e espiritual da comunidade, assim como todos os membros do corpo servem uns aos outros (1 Coríntios 12.14-26).

E, mais adiante: “servir a Deus não se restringe a um ou dois trabalhos, nem se resume a um ou dois chamados, mas está presente em todos os trabalhos e todos os cha­mados”. “Mas o que eu quero fazer é estabelecer uma distinção entre os chamados e as profissões, a fim de que todo mundo possa ver para que Deus o chamou e cumprir com fidelidade e sinceridade os deveres de seu ofício no serviço de Deus.”

O que Calvino ensinou foi muito semelhante:

O Senhor ordena a cada um de nós, em todos os afazeres da vida, que zele pelo seu chamado… Portanto, para que a nossa estupidez e precipitação não acabe virando tudo de cabeça para baixo, ele designou deveres para todo homem, cada um em sua maneira particular de viver. E para que ninguém venha a transgredir impensadamen­te os seus limites, ele deu a esses vários tipos de vida o nome de “chamados”. Portanto, cada indivíduo tem sua própria forma de viver designada pelo Senhor, como uma espécie de posto de sentinela, a fim de que ele não fique vagando sem rumo pela vida… E vem daí também uma singular consolação: desde que, em nosso trabalho, estejamos obedecendo ao nosso chamado, nenhuma tarefa é vil ou desprezível, e não há trabalho que não vá brilhar e ser considerado deveras precioso aos olhos de Deus.

Os puritanos desenvolveram ainda mais este tema. Por exemplo, William Perkins, que exerceu um influente mi­nistério em Cambridge, escreveu o Tratado das Vocações ou Chamados dos Homens, publicado em 1603. Eis aqui uma amostra de sua tese:

O que um pastor de ovelhas faz ao cuidar de seu rebanho… é um trabalho tão bom diante de Deus quanto a ação de um juiz ao pronunciar uma sentença, ou de um magistrado ao fazer um decreto, ou de ministro ao pregar. Assim, pois, vemos que existe uma boa razão para procurarmos descobrir como todo homem pode desen­volver da maneira correta o seu chamado específico.

Um século mais tarde, e no outro lado do Atlântico, Cotton Mather, o puritano de Harvard, escreveu O Cristão e Seu Chamado (A Christian at his Calling, 1701). Segundo ele, todo cristão tem dois chamados — “um chamado universal” (“servir ao Senhor Jesus Cristo…”) e “um chamado pessoal”(“um trabalho específico mediante o qual se distingue a sua utilidade em comunidade”).

Além do mais, os dois chamados deveriam manter-se em equilíbrio, pois “um cristão em seus dois chamados é um homem em uma canoa remando para o céu… Se ele só se preocupar com um dos seus chamados, qualquer que seja ele, estará puxando o remo em um dos lados da canoa e acabará ficando à margem da bem-aventurança eterna.” É muito fácil criticar este tipo de ensinamento. Os reformadores e os puritanos eram pessoas do seu tempo e sua cultura, tanto quanto nós. Eles tinham uma visão estática e medieval da sociedade. Em sua reação contra as implicâncias revolucionárias de certos ensinos anabatistas, eles tendiam a resistir demais a mudanças. Às vezes a posição deles nos lembra a embaraçosa estrofe do conhecido hino:

O rico em seu castelo,

O pobre em seu portão, Deus fê-los nobre ou humilde,

Cada um em sua condição.

Nós certamente não deveríamos usar o que a Bíblia ensina acerca dos “chamados” para fazer resistência a mudanças sociais.

Paulo no primeiro século, os reformadores no século XVI c os puritanos no século XVII, todos parecem muito dis­tantes de nós. Mas, então, qual é o princípio em que devemos nos firmar hoje e que foi ensinado por Paulo e resgatado pelos reformadores e os puritanos? Acho que é o seguinte. Toda a nossa vida, tanto anterior à conversão como fora da religião, pertence a Deus e faz parte do seu chamado. Nós não devemos pensar que Deus só passou a se interessar por nós depois que nos convertemos, ou que agora ele só está interessado no cantinho religioso das nossas vidas.

Consideremos a nossa vida antes da conversão. Qual era o nosso chamado, a vida   que vivíamos quando Deus nos chamou? Se na ocasião da nossa conversão nós estávamos tomando conta de parentes idosos, não deveríamos abandoná-los agora. Se éramos estudantes, não temos o direito de abdicar de nossos estudos e abandonar o colégio ou a universidade. Se havíamos feito um acordo com al­guém, não temos o direito de rompê-lo. Se, quando Deus nos chamou, nós éramos músicos, artistas, atletas ou intelectuais, não devemos agora repudiar essas boas coisas que o bom Criador nos deu. Afinal, elas não eram aspectos acidentais da nossa vida. Elas eram parte integrante da providência de Deus, para a qual ele nos havia chamado e que ele havia designado para nós. A soberania de Deus abrange as duas partes da nossa vida. Ele não começou a agir em nós e através de nós a partir da nossa conversão, mas em nosso nascimento e mesmo antes de nascermos, em nossa herança genética, da mesma forma que mais tarde passaria a atuar em nosso temperamento, personalidade, educação e habilidades. E o que Deus fez de nós e nos deu antes de nos tornarmos cristãos, ele redime, santifica e transforma depois disso. Existe uma continuidade vital entre a nossa vida antes e depois de convertidos. Afinal de contas, embora sejamos hoje uma nova pessoa em Cristo, nós ainda somos a mesma pessoa que éramos por criação e que se fez nova em Cristo.

Agora vejamos a nossa vida fora da religião. O Deus que muitos de nós adoramos é religioso demais. Aparentemen­te, nós achamos que ele só se interessa por livros, edifícios e cerimônias religiosas. Mas não é bem assim. Ele se preocupa conosco, nosso lar, nossa família e amigos, nosso trabalho e lazer, nossa cidadania e comunidade. Assim a soberania de Deus estende-se a ambos os lados e a todas as áreas da nossa vida. Nós não devemos marginalizar Deus, ou tentar espremê-lo para fora da nossa vida não religiosa. Lembremos que a nossa vocação (i.e. o chamado de Deus) inclui todas estas coisas. É nelas que vamos servir e glorificar a Deus.

MINISTÉRIO

Se queremos saber para onde Deus vai nos levar (direção) e para que ele vai nos chamar (vocação), podemos ter certeza de que isto tem relação com a melhor maneira em que podemos servi-lo (ministério). Além do mais, tal como vimos com as palavras “direção” e “vocação”, também ao considerar a palavra “ministério” é preciso fazer uma distinção entre o seu significado mais amplo e o outro, mais limitado, entre a sua aplicação num sentido geral e o mais específico. Eis aqui três afirmações acerca do ministério.

Primeiro, todos os cristãos, sem exceção, são chamados a ministrarou melhor, para gastar suas vidas em minis­tério. Ministério não é um privilégio de uma pequena elite, mas de todos os discípulos de Jesus. Você com certeza notou que eu não disse que todos os cristãos são chamados para o ministério, mas para ministrar — diakonia, serviço. Nós fazemos um grande desserviço à causa cristã sempre que nos referimos ao pastorado como “o ministério”. Ao usar­mos o artigo definido, damos a impressão de que o pastorado é o único ministério que existe, tal como os clérigos me­dievais, que consideravam o sacerdócio como a única (ou, pelo menos, o mais “espiritual”) vocação que existe. Eu abandonei esta visão e, portanto, esta linguagem, há cerca de vinte e cinco anos, e agora convido os meus leitores, caso necessário, a juntarem-se a mim nesta penitência. Hoje, sempre que alguém diz em minha presença que “Fulano de Tal vai seguir o ministério”, eu sempre pergunto com a maior inocência: “E mesmo? A qual ministério você está se referindo?” E quando meu interlocutor replica: “O mi­nistério pastoral”, eu reclamo gentilmente: “Então por que você não disse logo?!” O fato é que a palavra “ministério” é um termo genérico; enquanto não lhe acrescentarmos um adjetivo, ela não terá especificidade.

Voltemos à minha primeira proposição, de que todos os cristãos, sem exceção, são chamados a ministrar. Como é que eu posso fazer uma declaração tão dogmática? Por causa de Jesus Cristo. Seu senhorio sobre nós tem uma dimensão vocacional, como vimos no capítulo 5. Já que ele é “o servo” por excelência, aquele que se doou sem reservas para o serviço de Deus e dos seres humanos, seria impos­sível ser seu discípulo sem procurar seguir seu exemplo de serviço. Ele pregou o reino, curou os doentes, alimentou os famintos, foi amigo dos que não tinham amigos, defendeu os oprimidos, confortou os enlutados, procurou os perdidos e lavou os pés dos apóstolos. Nenhuma tarefa era pesada demais e nenhum ministério desprezível demais para ele. Ele viveu sua vida e morreu sua morte em serviço inten­samente abnegado. E nós, não vamos imitá-lo? O mundo mede a grandeza pelo sucesso; Jesus a mede pelo serviço.

Em segundo lugar, existe uma ampla variedade de mi­nistérios cristãos. É por isso que “ministério” significa “serviço”, e há muitas e diferentes maneiras pelas quais nós podemos servir a Deus e às pessoas. Atos 6.1-4 provê uma sólida base bíblica para esta convicção. Uma dissensão étnica e cultural estava dividindo a igreja de Jerusalém. Os “judeus gregos” reclamavam contra os “judeus hebreus”, dizendo que suas viúvas estavam sendo discriminadas na distribuição diária da comida. E aí os apóstolos acabaram se envolvendo nessa briga; ela estava ocupando uma grande parte do seu tempo e ameaçava desviá-los do seu papel de pregar e ensinar, o qual lhes havia sido designado por Jesus. Assim eles, sabiamente, convocaram uma reunião da igreja e disseram: “Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir [diakonein] às mesas.” Então eles pediram à igreja que escolhesse sete homens para essa responsabilidade, enquanto que, acrescentaram os apósto­los, “quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério [diakonia] da palavra”.

É essencial notar que, tanto para distribuir a comida como para ensinar a palavra, o termo usado aqui é “mi­nistério” (diakonia). Na verdade, ambos eram ministérios cristãos, podendo ser ministério cristão de tempo integral, e ambos requeriam, para desempenhá-los, pessoas cheias do Espírito Santo. A única diferença é que uma atividade era ministério pastoral, e a outra, social. Não ocorre que uma fosse ministério e a outra, não; nem que uma fosse espiritual e a outra, secular; nem que uma fosse superior e a outra, inferior. Ocorria simplesmente que Cristo havia chamado os doze para o ministério da palavra e os sete pura o ministério das mesas.

Eu mesmo, na qualidade de jovem cristão, cresci pensando nas diferentes vocações ou ministérios como se constituíssem uma hierarquia ou pirâmide. Lá em cima, empoleirado no topo da pirâmide, estava o missionário transcultural. Ele era o nosso herói, e ela, a nossa heroína. Ensinaram-me que se eu amasse a Cristo de verdade eu acabaria juntando-me às suas fileiras além-mar. Caso eu não fosse tão apaixonado assim, ficaria em casa e viraria pastor. E se a minha aspiração nem chegasse a tanto, eu provavelmente seria um doutor ou professor, enquanto que, se decidisse entrar no mundo dos negócios, política ou comunicações, eu não estaria muito longe de me perder! Por favor, ninguém me leve a mal. Ser pastor ou missio­nário é um privilégio maravilhoso, se Deus nos chama para isso. Mas é igualmente maravilhoso ser um advogado, industrial, político, gerente ou assistente social, ser um filmador, um jornalista ou uma dona de casa cristã, se Deus nos chama para isso. Conforme Romanos 13.4, um oficial de estado (seja ele um legislador, magistrado ou policial) é tão “ministro de Deus” (diakonos theou) quanto um pastor. O que precisamos rejeitar é a hierarquia; é a pirâmide que temos de demolir.

Obviamente, ainda existe uma premente necessidade de missionários autênticos, homens e mulheres que se carac­terizem sobretudo pela humildade — por exemplo, a humil­dade de abdicar do imperialismo cultural e identificar-se com outra cultura, a humildade de trabalhar sob a lide­rança de uma igreja nacional, a humildade de servir às necessidades que o próprio povo sente (sejam elas sociais ou evangelísticas) e a humildade de confiar no Espírito Santo como o seu principal comunicador. A evangelização continua no topo da agenda da igreja; aliás, a quinta seção deste livro é dedicada a isso. Há também uma grande necessidade de pastores para ensinar a Palavra de Deus. Os capítulos 13 e 17 tratarão deste ministério.

Ao mesmo tempo, é gritante a necessidade de cristãos, tanto homens como mulheres, que vejam o seu trabalho diário como seu ministério cristão prioritário e que estejam decididos a impregnar o seu contexto secular a fim de ganhá-lo para Cristo.

Precisamos de cristãos envolvidos em negócios e na indústria, que priorizem o “serviço ao público” como o alvo principal de sua declaração “missionária”, que sejam ousados em fazer experiências nas áreas de relações de trabalho, participação dos trabalhadores e divisão de lucros, e que admitam a sua responsabilidade de, juntamente com a auditoria fiscal, realizar também uma “auditoria social” na sua empresa.

Precisamos de políticos cristãos que identifiquem as grandes injustiças de sua sociedade, recusando-se a ser coniventes com elas, e que tenham como objetivo assegurar mudanças legislativas seguras, por mais tempo que isso lhes custe.

Precisamos de economistas cristãos que encontrem uma maneira de controlar a inflação e ao mesmo tempo reduzir o desemprego.

Precisam-se cineastas cristãos que produzam, não ape­nas filmes explicitamente cristãos ou evangelísticos, mas também filmes saudáveis que, indiretamente, transmitam valores cristãos individuais e familiares, honrando e glo­rificando, assim, o nome de Cristo.

Precisamos de mais médicos cristãos que, em cooperação com teólogos da moralidade, encarem os desafios da ética médica e desenvolvam formas de conservar a visão da pessoa humana e da família humana que é característica única do cristianismo.

Precisam-se professores cristãos dedicados que, tanto nas escolas cristãs como nas seculares, considerem como privilégio servir aos seus alunos, ajudando-os a desenvol­verem plenamente o potencial que Deus lhes deu.

E precisamos de mais assistentes sociais cristãos que, em sua preocupação com os deficientes da mente e do corpo, crianças vítimas de abuso, drogados, vítimas da AIDS e outros, combinem os mais recentes tratamentos médicos e o cuidado social com o amor cristão, a oração de fé e o apoio da igreja.

Em terceiro lugar, o ministério específico para o qual (Cristo nos chama é provavelmente determinado pelos nossos dons. Ou seja, o principal fator na decisão quanto ao trabalho da nossa vida é, provavelmente, que tipo de pessoa somos nós, a partir da criação e redenção de Deus. Deus não cria ao acaso; ele não nos deu dons naturais para serem desperdiçados. Deus não é, tampouco, um redentor aciden­tal, para nos conceder dons que vão ser desperdiçados. Pelo contrário, ele quer que os dons que nos deu sejam discernidos, cultivados e exercitados. Ele certamente não nos quer frustrados (pelo fato de os nossos dons ficarem ociosos), mas sim realizados (porque estamos usando os nossos dons).

Eu acho perfeitamente compatível com as nossas dou­trinas cristãs da criação e da redenção nós dizermos a nós mesmos: “Eu sou uma pessoa única. (Isto não é con­vencimento. É um fato. Se cada floco de neve e cada folhinha de grama não tem paralelo, quanto mais cada ser humano!) Minha unicidade deve-se à minha herança genética, minha personalidade e ao temperamento que herdei, minha ascendência (meus pais), minha formação e educação, meus talentos, inclinações e interesses, meu novo nascimento e meus dons espirituais. Pela graça de Deus eu sou quem sou. Portanto, como é que eu, sendo essa pessoa única como Deus me criou, posso me gastar no serviço de Cristo e do seu povo, de forma tal que nada que ele me deu seja des­perdiçado e tudo que ele me deu seja aproveitado?”

Pode ser que haja exceções a este princípio, mas esta me parece ser a pergunta certa que cada um de nós deve fazer a si mesmo. E assim, ao tentarmos avaliar-nos com ho­nestidade, não com orgulho nem com falsa modéstia, nossos pais e os amigos que mais nos conhecem são os que mais chance têm de nos ajudar.

Todas as três palavras que acabamos de considerar (direção, vocação e ministério) têm a ver com a vontade de Deus para as nossas vidas e como descobri-la. Concluindo, deixe-me antecipar dois temores que meus leitores podem estar sentindo, e tentar tranquilizá-los.

Primeiro, não há necessidade alguma de se temer a vontade de Deus, por medo de que ela seja difícil. Certos cristãos parece que imaginam que quanto maior a chance de alguma coisa ser desagradável, mais provável é que ela seja a vontade de Deus! Mas Deus não é um bicho-papão, sempre pronto para estragar as nossas vidas; ele é o nosso Pai, comprometido com o nosso bem-estar e decidido a nos dar apenas o que é para o nosso bem. “Se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos”, disse Jesus, “quanto mais vosso Pai que está nos céus dará boas coisas aos que lhe pedirem?”. Nós podemos ter certeza de que a vontade de Deus é “boa, perfeita e agradável”.

Segundo, ninguém precisa temer que nunca descobrirá a vontade de Deus. Não temos razão alguma para preocupar-nos ou ficar nos queixando, ou para cairmos num estado de tensão nervosa ou passarmos noites em claro devido à ansiedade. Parece muito estranho, mas uma das lembranças mais antigas da minha infância, quando eu não devia ter mais que seis ou sete anos, é a de minha mãe entrando no meu quarto para dizer boa-noite. Eu sempre a incomodava com a mesma pergunta angustiada: “Mamãe, o que eu vou ser quando eu crescer?” Ela sempre me respondia que eu não precisava me preocupar, pois quando chegasse a hora eu iria saber. E agora, mais de sessenta anos depois, com a sabedoria adquirida pelo tempo, eu sei que ela estava certa e que todas aquelas apreensões infantis eram desnecessárias. Nós temos toda razão para confiar que a vontade do nosso Pai é boa e que se pode descobri-la. Ele tem meios e maneiras de nos mostrar o que ele quer que façamos. A principal condição é que nós mesmos quei­ramos, cora sinceridade, discernir a sua vontade, a fim de realizá-la.

 

GESTÃO E CARREIRA

Administração de conflitos

ADMINISTRAÇÃO DE CONFLITOS

 PARA HAVER CONFLITO, BASTAM DUAS PESSOAS.

Os casais que o digam. Se duas pessoas podem eventualmente ter dificuldades de relacionamento, imagine então sendo cinco, vinte ou cem pessoas. As probabilidades de atrito aumentam na proporção direta da quantidade de pessoas envolvidas. Choques de interesses individuais, grupais e organizacionais, extravasamentos de medo, ansiedades e frustrações, luta pelo poder e pelo status quo, hábitos prejudiciais, neuroses e mudanças estruturais, essas são as principais causas de conflito entre funcionários. Certamente um bom programa de benefícios e incentivos, promoções e salários, assim como uma política em que sejam valorizadas as pessoas, a participação e o trabalho em equipe, em que haja desafios que motivem os colaboradores, diminuem consideravelmente a possibilidade de conflito. Diminuem, mas não eliminam, visto que o ser humano é caracteristicamente dinâmico e inquieto em relação a interesses e emoções.

Então, já que os conflitos, cedo ou tarde, em pequenas ou grandes proporções, acabarão fatalmente surgindo, não se trata de perguntar o que fazer para abafá-lo, mas o que fazer para administrá-lo. Abafar o conflito equivale a varrer a sujeira para debaixo do tapete, acreditando que a limpeza foi feita. Mas, ela continua lá embora oculta, e com o tempo não haverá mais como esconder o excesso de sujeira acumulada. Portanto, administrar o conflito é uma atitude positiva e madura que deve ser adotada por todas as chefias de uma organização, pela alta direção e pelos demais colaboradores da empresa.

E, embora possa parecer paradoxal, nem todos os conflitos são necessariamente ruins. Muitos deles funcionam como agentes catalisadores de esforços e ideias.

Outros propiciam até melhoria de relacionamento entre as partes, depois de resolvido o confronto. Por que se administram conflitos? Administram-se conflitos por vários motivos: para manter as pessoas motivadas, para manter ou melhorar a produção ou serviço, para facilitar o trabalho em equipe e para poder gerenciar mudanças.

ONZE SUGESTÕES PARA UMA BOA ADMINISTRAÇÃO DE CONFLITOS

1 – Procure soluções, não culpados.

É evidente que todo problema ou conflito têm uma causa, e, se você procurar vai encontrar o culpado também. Mas, ao fazer isso, estará também desviando preciosa energia e tempo na caça às bruxas, em vez de se concentrar na solução que, a rigor, é a única saída para o desentendimento. Focalize sua atenção nos ganhos da solução e esqueça a sessão de acusações mútuas. Olhe um nível acima, concentre as pessoas nas metas (é o que elas mais deveriam ter em comum), enfoque as convergências (não as divergências), comprometa as pessoas na busca da melhor solução, encare isso de forma objetiva e também positiva. Só depois fale a sós com o causador do incidente (se houver um e puder identificá-lo), mostrando-lhe a inadequação da atitude e os resultados disso.

Grande parte das vezes uma conversa sincera, respeitosa e objetiva evitará a repetição do ocorrido, desde que as causas sejam i:ratadas.

  • Analise a situação.

A – Faça as seguintes perguntas: QUAL é realmente o problema? QUEM está envolvido? O QUE aconteceu? desde QUANDO vem ocorrendo? ONDE aconteceu o desentendimento (em que departamento, setor, área geográfica etc.)? , PORQUE ocorreu o conflito? Poderia ter sido evitado?

B –  Busque alternativas de solução. Aponte as opções que você julgar mais plausíveis para resolver o conflito.

C –  Escolha a melhor alternativa com base nas informações à sua disposição.

D – Implante e avalie. Ao implantar a solução, faça acompanhamentos periódicos para detectar eventuais desvios de rotas, promovendo reuniões com os envolvidos. Os passos b, c e d poderão também ser realizados com os envolvidos, desde que haja abertura e clima propício para isso.

  • Mantenha um clima de respeito.

Ao dialogar com a(s) parte(s) envolvida (s), mantenha sempre um clima de respeito e consideração, pois essa será a plataforma que sustentará o entendimento. Evite todo o tipo de sarcasmo, ironia ou agressidade, pois funcionarão como combustível para aumentar a fogueira.

4 –  Aperfeiçoe a habilidade de ouvir e falar.

Não interrompa quando a outra pessoa estiver se explicando saiba ouvir e ouça também as entrelinhas, isto é, o que ela não está dizendo, mas insinuando por gestos, tom de voz e postura. Assim descobrirá muito além das aparências. Faça perguntas que levem ao esclarecimento do problema. Mesmo que em circunstâncias normais não se deva interromper quem fala, se a outra pessoa não consegue desenvolver seu pensamento, ou estiver se desviando do assunto ou ainda se expressando com dificuldade, interrompa fazendo perguntas objetivas que recoloquem o diálogo nos trilhos. Pergunte qual é a sugestão da outra pessoa para sanar o conflito.

5 – Seja construtivo ao fazer uma crítica.

Evite a armadilha da personalidade, usando frases diretas e acusativas do tipo: “Você só sabe trabalhar para si e não ajuda ninguém” ou “Você me prejudicou de propósito”. As pessoas sentem-se acusadas e colocam-se na defensiva quando ouvem frases como “Você fez isso” ou “Você errou aquilo”. Concentre-se no problema ou comportamento e não na personalidade das pessoas. No primeiro exemplo anteriormente dado, uma outra forma de abordagem poderia ser: “Seu comportamento de afastar-se do grupo tem trazido problemas quanto ao cumprimento de prazos do setor”· No segundo exemplo, a frase poderia ser: “Sua atitude acabou me prejudicando”. Evite também críticas vagas ou malfeitas do tipo: “Seu trabalho tem deixado muito a desejar”. É algo muito impreciso: por isso fale de modo específico: “A pontualidade é algo muito importante pra mim, e o seu relatório foi concluído com dois dias de atraso. Além disso, o item 5 não faz menção às novas datas estipulados pelo cliente, corniforme os dados que lhe repassei anteriormente”. Da mesma forma, quando alguém lhe dirigir críticas vagas, solicite esclarecimentos “Você é muito negativo” ou “Seu trabalho está abaixo da média” não dizem muito. Pergunte então: “Onde o meu comportamento é negativo?” ou “Onde o meu trabalho está abaixo da média? “Eu gostaria de saber para melhorar”.

6 – Procure a solução Ganha-Ganha.

O ganha-perde ou perde-perde são as piores formas de solucionar conflitos.

Sempre restarão alguns estilhaços doloridos, aguardando a melhor hora para o contra-ataque. Procure a relação ganha- ganha em que ambos os lados saiam ganhando, sem impor ou humilhar a outra parte. Os conflitos não são casuais. Eles ocorrem quando as pessoas sentem-se frustradas ou intimidadas, ignoradas, não reconhecidas, injustiçadas, inseguras, traídas ou algo assim. Por outro lado – felizmente – as pessoas todas evitam conflitos e tornam-se cooperativas sempre que percebem algo de vantajoso para elas ou para o grupo.

As pessoas cooperativas são aquelas que têm algo a ganhar com isso, e grande parte das vezes não se trata de dinheiro. Elas podem querer, por exemplo, segurança, estabilidade, reconhecimento, promoção, crescimento pessoal, harmonia em equipe, desafios profissionais, elogio etc. Mostre, portanto à outra

parte o que ela tem a ganhar com a solução do conflito (ou o que ela tem a perder se perdurar) e terá dado um grande passo para a solução do desentendimento.

7- Aja sempre no sentido de eliminar conflitos.

Existem muitos métodos parra eliminar comportamentos de resistência. Você poderá utilizar um ou vários desses métodos para resolver impasses com colegas ou subordinados:

A – Mostre um Exemplo de Sucesso. Exemplifique como o mesmo problema foi enfrentado pela pessoa X ou pelo Departamento A e que a solução foi encontrada utilizando o mesmo processo a ser agora adotado, provando, assim, sua eficiência.

B – Dê uma Garantia. Garanta que, se o novo layout, a nova tecnologia, ou seja, lá o que for, não der certo dentro de um determinado prazo (quinze dias, um mês, etc.), então será adotado o sistema antigo ou algum outro.

C – Faça uma Demonstração. Há resistências quanto a um novo equipamento ou um novo sistema? Use-o, ou faça você mesmo funcionar (ou alguma outra pessoa que entenda disso) e mostre os resultados positivos.

D – Tente simplesmente ouvir. Ouça os argumentos da outra parte atenciosamente. Ao terminar o que ela tem a dizer, experimente persuadi-la por meio de uma argumentação sequenciada e lógica.

8 – Evite preconceitos.

Preconceitos são, talvez, os piores bloqueadores na administração de conflitos. Estão relacionados com valores e crenças profundamente arraigados no íntimo das pessoas. A própria palavra preconceito explica o seu significado: pré-conceito, isto é, conceito prévio. O conceito já está previamente embutido e cristalizado na mente da pessoa, atuando como um clichê ou rótulo, sempre que determinado assunto é abordado. Suspende-se o julgamento (um dos dons mais preciosos do ser humano) e aciona-se o piloto automático, que passará então a comandar os pensamentos a respeito do tema ou da situação enfrentada. Os preconceitos mais comuns estão relacionados à cor, religião, sexo, nacionalidade, idade, ideologia política, deficiência física e mental. É difícil libertar-se desses estereótipos, mas uma das melhores armas contra eles é imbuir-se e conscientizar-se de cada caso é um caso e cada pessoa é uma pessoa, e que o problema deve ser administrado dentro de sua realidade única e específica, por mais parecido que possa ser com casos semelhantes do passado.

Toda pessoa é única (não existem duas iguais, por mais semelhanças que possam ter) e todo conflito é singular, pois os fatores que o originaram nunca são totalmente idênticos e, se o são, os desdobramentos poderão tomar rumos inusitados. Pense nisso da próxima vez em que tiver de “solucionar” um conflito sobre o qual você ache que já sabe tudo a respeito por já ter enfrentado situações iguais e pessoas parecidas.

9 – Mantenha a calma.

Mantenha a calma, não reaja mal às más-notícias e, sobretudo, não se irrite se alguém discordar de seu ponto de vista. Administrar conflitos significa também administrar a si mesmo e ao seu humor – ambiguidades, incertezas e atitudes passionais fazem parte do processo conflitual, principalmente nos estágios mais agudos. Mantenha a cabeça fria e segure a mão firme no leme, sem perder o controle da situação, e tenha uma atitude de tranquilidade e confiança. Devido a essa postura, os outros aceitarão sua liderança e passarão a confiar em você.

Escolha sempre o momento mais adequado para tratar do assunto conflitante. Conserve o objeto da discórdia exclusivamente entre os envolvidos e abstenha-se de fazer propaganda, fofoca ou lançar boatos a respeito. Se a situação estiver muito confusa e os ânimos exaltados, às vezes é bom dar um tempo, para que as cabeças esfriem. Convoque uma reunião para mais tarde ou para o dia seguinte e, enquanto isso, faça o seu dever de casa e analise bem a situação para estabelecer sua estratégia de abordagem.

1 O – Quando estiver errado, reconheça o erro.

isso não vai diminuí-lo ou torná-lo vulnerável, como muitos supõem. Pelo contrário, você provocará o respeito dos outros por demonstrar que o seu interesse não é provar que você é perfeito ou infalível, mas sim buscar a melhor solução para o conflito, mesmo que, para isso, você tenha que admitir que cometeu um erro.

11 – Não varra os problemas para debaixo do tapete.

Se houver um conflito enfrente-o, usando para isso a abordagem que melhor se coadune com o momento. Não ignore a situação, nem contemporize achando que o tempo sanará o desentendimento. O tempo quase sempre só agravará a discórdia. Pode, no entanto, haver situações especiais em que é mais vantajoso não encarar o conflito do que enfrentá-lo, pois a relação custo-benefício seria desfavorável. Neste caso use o seu bom senso para discernir quando fazê-lo.