ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 21: 18-22

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A Maldição sobre a Figueira Estéril

Considere:

 I –  Cristo retornou a Jerusalém pela manhã (v. 18). Alguns pensam que Ele saiu da cidade à noite, porque, por temor aos homens poderosos, nenhum dos seus amigos ali podia recebê-lo; mas, tendo trabalho para realizar ali, Ele voltou. Nunca podemos ser afastados do nosso dever, seja pela maldade dos nossos adversários, seja pela aspereza dos nossos amigos. Embora Jesus soubesse que nessa cidade a prisão e o sofrimento o esperavam, nenhuma dessas coisas o impediu. Paulo fez como Ele, quando foi para Jerusalém “ligado pelo Espírito” (Atos 20.22).

 II – Ao voltar, Ele “teve fome”. Ele era um homem, e sujeito às fraquezas da natureza; era um homem ativo, e tão decidido a realizar o seu trabalho, que negligenciava o seu alimento, e saía em jejum; pois o zelo pela casa de Deus realmente o consumia, e o seu alimento e a sua bebida eram fazer a vontade do seu Pai. Ele era um homem pobre, e não tinha suprimentos; era um homem que não se preocupava com a sua satisfação, pois Ele estaria disposto a comer figos verdes crus como café da manhã, quando seria mais adequado que tivesse comido alguma coisa quente.

Portanto, Cristo teve fome, para ter a oportunidade de realizar esse milagre, amaldiçoando e secando a figueira estéril, e para poder nos dar um exemplo da sua justiça e do seu poder, duas coisas muito instrutivas.

1. Observe ajustiça de Jesus (v. 19). Ele dirigiu-se à figueira esperando encontrar frutos, porque ela tinha folhas; mas, ao não encontrar nenhum fruto, Ele a condenou a uma esterilidade eterna. Esse milagre tinha o seu significado, assim como outros dos seus milagres. Todos os milagres de Cristo, até aqui, tinham sido realizados para o bem do homem, e provavam o poder da sua graça e da sua bênção (a entrada dos demônios nos porcos foi apenas uma permissão); tudo o que Ele fazia era para o bem e para o consolo dos seus amigos, nada para o terror ou o castigo dos seus inimigos; mas então, por fim, para mostrar que a Ele compete todo o julgamento, e que Ele é capaz não somente de salvar, mas também de destruir, Ele deu um exemplo do poder da sua ira e maldição; porém, não sobre nenhum homem, ou mulher, ou criança, porque o grande dia da sua ira ainda não era chegado, mas sobre uma árvore inanimada. Isto é dado como exemplo: ”Aprendei, pois, esta parábola da figueira” (cap. 24.32). O escopo é o mesmo da parábola da figueira (Lucas 13.6).

(1).  Essa maldição sobre a figueira estéril representa a condição dos hipócritas em geral, e por isso nos ensina:

[1]. Que o fruto das figueiras é o que se pode esperar daquelas que têm folhas. Cristo procura o poder da religião naqueles que a professam; o gosto por ela, naqueles que a demonstram. Quanto às uvas da videira que é plantada numa colina frutífera, Ele as anseia, a sua alma deseja os primeiros frutos maduros.

[2]. As expectativas justas de Cristo em relação aos mestres eminentes são frequentemente frustradas e desapontadas. Ele vem a muitos, procurando frutos, e somente encontra folhas; e Ele descobre isso. Muitos dizem estar vivos, mas não estão realmente vivos. Adoram a forma da santidade, mas negam o seu poder.

[3]. O pecado da não-frutificação é punido, com justiça, com a maldição e com a praga da esterilidade: “Nunca mais nasça fruto de ti”. Assim como uma das principais bênçãos, e que foi a primeira, é: “Frutificai”, também uma das mais tristes maldições é: “Nunca mais nasça fruto de ti”. Assim, o pecado dos hipócritas se transforma na sua punição; eles não produzem o bem, e, portanto, não produzirão nada. Aquele que não produzir frutos, e continuar assim, perderá a sua honra e o seu consolo.

[4]. Uma profissão falsa e hipócrita normalmente seca neste mundo, e esse é o efeito da maldição de Cristo; a figueira que não tinha frutos, logo perdeu as suas folhas. Os hipócritas podem parecer plausíveis durante algum tempo, mas, não tendo princípios, não tendo raízes em si mesmos, a sua profissão resulta em nada; os dons se secam, a graça entra em decadência, o crédito da profissão declina e se afunda, e a falsidade e a tolice do fingidor ficam evidentes a todos os homens.

(2). Isso representa a situação da nação e do povo judeu em particular. Eles eram uma figueira plantada no caminho de Deus, como uma igreja. Considere:

[1]. O desapontamento que eles trouxeram ao nosso Senhor Jesus. Ele veio entre eles esperando encontrar frutos, algo que pudesse satisfazê-lo. Ele ansiava por isso. Não que desejasse um presente, Ele não precisava disso, mas sim de frutos que pudessem ser abundantes para uma boa causa. Mas as suas expectativas foram frustradas; Ele encontrou somente folhas. Eles chamavam Abraão de seu pai, mas não faziam as obras de Abraão; eles professavam estar esperando o Messias prometido, mas, quando Ele veio, eles não o receberam.

[2]. A maldição que Ele lhes infligiu: que nenhum fruto cresceria entre eles, ou seria colhido deles, como uma igreja ou como um povo, desde então e para sempre. Nenhum bem jamais veio deles (exceto das pessoas que, entre eles, tinham fé) depois que rejeitaram a Cristo. Eles se tornaram cada vez piores; a cegueira e a insensibilidade os acometeram, e cresceram entre eles, até que foram banidos do templo, despovoados e destruídos, e a sua casa e a sua nação, arrancadas; a sua beleza se desfigurou, os seus privilégios, os seus ornamentos, o seu templo e o sacerdócio e os sacrifícios e as festas, e todas as glórias da sua religião e da sua condição, caíram, como folhas no outono. Como a figueira secou imediatamente, depois que eles tinham dito: “O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos”! E o Senhor, uma vez mais, foi justo a esse respeito.

2. Observe o poder de Cristo. O versículo anterior está ligado ao exemplo, mas é mais amplamente explicado. Cristo pretende orientar os seus discípulos no uso dos seus poderes.

(1). Os discípulos admiraram o efeito da maldição de Cristo (v. 20): “maravilharam-se”. Nenhum poder poderia ter feito isso, exceto o dele, que falava e realizava. Eles se maravilharam com a prontidão. “Como secou imediatamente a figueira?” Não havia causa visível para a figueira murchar; mas tinha sido uma destruição secreta, um verme na sua raiz; não somente as suas folhas secaram, mas todo o corpo da árvore; ela murchou imediatamente e ficou como uma madeira seca. As maldições do Evangelho são, por isso, as mais terríveis, pois trabalham de maneira imperceptível e silenciosa, como um fogo não espalhado, mas efetivamente.

(2). Cristo capacitou os discípulos a fazerem a mesma coisa, pela fé (vv. 21,22), quando disse (João 14.12): “fará as obras que eu faço e as fará maiores do que estas”.

Considere:

[1]. A descrição dessa fé que realiza maravilhas: “Se tiverdes fé e não duvidardes”. Duvidar do poder e da promessa de Deus é a grande transgressão que deteriora a eficiência e o sucesso da fé. Alguns interpretam essa frase como: “Se tiverem fé, e não discutirem; não discutirem entre si mesmos, não discutirem com a promessa de Deus; se não duvidarem da promessa” (Romanos 4.20); pois, se agirmos de outra forma, a nossa fé será deficiente. A promessa de Deus é certa, e a nossa fé deve ser tão certa quanto a promessa; devemos ter fé e confiança.

[2]. O poder e a superioridade dessa verdade expressos de maneira figurada: “Se a este monte disserdes” – o monte das Oliveiras -: “ergue-te… assim será feito”. Existe uma razão particular para Jesus falar dessa maneira sobre esse monte, pois havia uma profecia de que o monte das Oliveiras, que está diante de Jerusalém, seria fendido pelo meio e removido (Zacarias 14.4). Qualquer que fosse o objetivo dessas palavras, deve haver a mesma expectativa de fé, por mais impossível que pareça. Mas esse é um provérbio, dando a entender que nós devemos crer que nada é impossível a Deus, e, portanto, que aquilo que Ele prometeu certamente se realizará, embora, para nós, pareça impossível. Entre os judeus, havia um elogio aos seus rabinos cultos, segundo o qual eram “removedores de montanhas”, isto é, eles podiam solucionar as maiores dificuldades; então isso poderia ser feito pela fé na Palavra de Deus, que faz acontecer coisas maravilhosas e estranhas.

[3]. A maneira e os métodos de exercer essa fé, e de fazer o que deve ser feito com ela: “Tudo o que pedirdes na oração, crendo, o recebereis”. A fé é a alma, e a oração é o corpo; juntas, elas deixam o homem completo para qualquer serviço. A fé, se correta, irá estimular a oração; e a oração não será correta se não se originar da fé. Esta é a condição para receber o que pedimos: orar e crer – “tudo o que pedirdes na oração, crendo, o recebe­ reis”. Os pedidos feitos em oração não devem ser negados; as expectativas da fé não serão frustradas. Nós temos muitas promessas a esse respeito proferidas pelos lábios do nosso Senhor Jesus, e todas incentivam a fé (que é a principal graça de um cristão) e a oração (que é o principal dever de um cristão). Basta pedir e receber, crer e receber. E o que mais? Observe que a promessa abrange todas as coisas que pudermos pedir (“tudo o que pedirdes”); isto é, como cada uma das condições de um contrato. O texto se refere a todas as coisas, em geral; porém, seja qual for a petição em questão, ele está se referindo às coisas em particular. Embora o geral inclua o particular, ainda assim tal é a tolice da nossa falta de fé que, embora pensemos que estamos de acordo com as promessas em geral, fugimos quando o assunto são os detalhes em particular. Assim, para que possamos ter “a firme consolação”, isto é expresso de modo copioso: “tudo o que pedirdes”.

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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 21: 12-17

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Os Profanadores do templo são castigados

Quando Cristo veio a Jerusalém, Ele não subiu à corte ou ao palácio, embora entrasse como um rei, mas foi ao “templo”. Pois o seu reino é espiritual, e “não é deste mundo”; é nas coisas santas que Ele governa, e é no templo de Deus que Ele exerce autoridade. O que Ele fez ali?

 

I – Ele expulsou os que vendiam e compravam no Templo. Os abusos devem, antes de mais nada, ser extirpados, e as plantas que não pertencem à plantação de Deus precisam ser desarraigadas, antes de se poder estabelecer o que é correto. O grande Redentor aparece como um grande Reformista, que afasta a impiedade e a depravação (Romanos 11.26). Aqui vemos:

1.  O que Ele fez (v. 12): Ele “expulsou todos os que vendiam e compravam no templo”. Ele já tinha feito isso antes (João 2.14,15), mas surgiu a oportunidade de fazê-lo outra vez. Observe que os compradores e vendedores que foram expulsos do Templo irão retornar e se fixar ali novamente, se não houver um cuidado e uma supervisão contínuos para evitar isso, e se essa atitude de vigilância não for seguida e frequentemente repetida.

(1). O abuso consistia de comprar, vender e trocar dinheiro no Templo. Observe que as coisas lícitas, na ocasião e no lugar errados, podem se tornar coisas ilícitas. Aquilo que era suficientemente decente em outro lugar, e não apenas lícito, mas elogiável, em outra ocasião e lugar contamina o santuário e profana o sábado. Essas atividades de comprar, vender e trocar dinheiro, embora

fossem empregos seculares, ainda tinham a desculpa de serem para fins espirituais. Eles vendiam animais para sacrifício, para a conveniência daqueles que tinham mais facilidade para trazer o seu dinheiro do que os seus animais. Eles também trocavam dinheiro para aqueles que queriam o meio ciclo, que era o seu imposto anual, ou o dinheiro de redenção. É possível que eles incluíssem esse imposto anual nas despesas dos viajantes, de modo que isso pudesse passar por um negócio externo à casa de Deus; mas Cristo não permitiria esse procedimento. Grandes corrupções e abusos sobrevém à igreja pelas práticas daqueles que obtêm os seus ganhos através da piedade, ou seja, das práticas daqueles que fazem dos ganhos deste mundo o objetivo da sua santidade, e fazem da falsa santidade a sua maneira de obter ganhos mundanos (1 Timóteo 6.5): ”Aparta-te dos tais”.

(2). A purgação desse abuso. Cristo “expulsou todos os que vendiam e compravam no templo”. Ele fez isso com “um azorrague de cordéis” (João 2.15); mas Ele também o fez com um olhar, com uma expressão severa, com uma palavra de ordem. Alguns opinam que esse foi o menor dos milagres de Cristo, pelo fato de Ele mesmo ter limpado o Templo, e não ter recebido a oposição daqueles que com essas atividades ganhavam a vida, e para isso contavam com o apoio dos sacerdotes e dos anciãos. Esse é um exemplo do seu poder sobre o espírito dos homens, e do controle que Ele tem sobre eles, sobre as suas próprias consciências. Esse foi o único ato de autoridade real e de poder coercivo que Cristo realizou nos dias da sua carne. Ele iniciou assim (João 2), e assim concluiu. Diz a tradição que o seu rosto resplandecia e raios de luz eram lançados dos seus benditos olhos, o que assombrou essas pessoas do mercado, e as obrigou a render-se ao seu comando. Se foi assim, as Escrituras se cumpriram (Provérbios 20.8): ”Assentando-se o rei no trono do juízo, com os seus olhos dissipa todo mal”. Ele “derribou as mesas dos cambistas”. Ele não apanhou o dinheiro para si, mas o espalhou, atirando-o ao chão, que era o melhor lugar para ele. Os judeus, na época de Ester, não estenderam a sua mão ao despojo (Ester 9.10).

2.  O que Jesus disse, para se justificar e para condená-los (v. 13): “Está escrito”. Observe que, na reforma da igreja, devemos prestar atenção às Escrituras, que devem ser aceitas como a regra, o padrão que foi dado no monte; e não devemos ir além da seguinte expressão, para podermos nos justificar: “Está escrito”. A reforma estará no curso certo quando o cerimonial corruptível for reduzido à sua instituição fundamental.

(1). Ele mostra, com a citação de uma profecia das Escrituras, o que o Templo deveria ser, e o seu propósito: ”A minha casa será chamada casa de oração”, uma citação de Isaías 56.7. Observe que todas as instituições cerimoniais deveriam ser subservientes às obrigações morais. A casa de sacrifícios deveria ser uma casa de oração, pois essa era a essência e a alma de todos os serviços. O templo era, de uma maneira especial, santificado para ser uma casa de oração, pois ele não apenas era o lugar para a adoração, mas o seu meio, de modo que as orações feitas naquela casa, ou voltadas a ela, tinham uma promessa de aceitação especial (2 Crônicas 6.21), como sendo uma tipificação de Cristo. Por isso Daniel olhava naquela direção em oração; e, nesse sentido, nenhuma casa, ou nenhum lugar, é, agora, e nem pode ser, uma casa de oração, pois Cristo é o nosso templo; mas, de alguma maneira, os lugares indicados para as nossas reuniões religiosas podem ser chamados de “lugares de oração” (Atos 16.13).

(2). Jesus mostra, com uma repreensão das Escrituras, como eles tinham usado mal o Templo, e tinham corrompido o seu objetivo. “Vós a tendes convertido em covil de ladrões” – uma citação de Jeremias 7.11: “É, pois, esta casa, que se chama pelo meu nome, uma caverna de salteadores aos vossos olhos?” Quando a piedade dissimulada se torna o manto e o disfarce da iniquidade, pode-se dizer que a casa de oração se torna um covil de ladrões, onde estes espreitam e se escondem. Os mercados frequentemente são covis de ladrões, tantos são os costumes corruptos e as trapaças que existem na compra e venda; mas os mercados no templo certamente o são, pois os que roubam de Deus a sua honra são os piores ladrões (Malaquias 3.8). Os sacerdotes viviam, e com abundância, do altar; mas, não satisfeitos com isso, encontraram outras maneiras e outros métodos para extrair dinheiro das pessoas; e por isso aqui Cristo os chama de ladrões, pois eles extorquiam o que não lhes pertencia.

 

II – Ali, no Templo, Ele curou os cegos e os coxos (v. 14). Quando havia expulsado do Templo os que compravam e vendiam, Ele convidou os cegos e os coxos a entrar nele, pois Ele “enche de bens os famintos, mas despede vazios os ricos”. Cristo, no seu Templo, com as suas palavras ali pregadas, e em resposta às orações ali feitas, cura aqueles que são espiritualmente, e também fisicamente, cegos ou coxos. É bom ir ao Templo quando Cristo está ali, Ele que, ao mostrar-se zeloso pela honra do seu Templo, ao expulsar aqueles que o profanam, também se mostra gracioso com aqueles que o buscam humildemente. Os cegos e os coxos foram impedidos de entrar no palácio de Davi (2 Samuel 5.8), mas foram admitidos na casa de Deus, pois a pompa e a honra do seu Templo não estão naquelas coisas de que, supostamente, consiste a magnificência dos palácios dos príncipes. Dos palácios, os cegos e os coxos devem manter distância, mas do Templo de Deus, somente os ímpios e os profanos. O Templo foi profanado e mal utilizado ao ser transformado em mercado, mas recebeu graça e honra quando foi transformado em hospital; fazer o bem na casa de Deus é mais honroso e mais conveniente do que ter algum lucro financeiro ali. A cura de Cristo foi uma resposta verdadeira à pergunta: “Quem é este?” As obras de Jesus testificam mais dele do que as hosanas; e as curas realizadas por Ele, no Templo, foram o cumprimento de uma promessa das Escrituras: ”A glória desta última casa será maior do que a da primeira”.

Ali também Ele calou as queixas que os principais dos sacerdotes e os escribas fizeram quanto à aclamação com que Ele foi saudado (vv.15,16). Aqueles que deveriam ter sido os mais dispostos a honrar Jesus, eram os seus piores inimigos.

(1). Eles estavam intimamente irritados com as obras maravilhosas que Ele fazia. Eles não podiam negar que se tratavam de verdadeiros milagres, e por isso foram francos em sua indignação, como em Atos 4.16; 5.33. As obras que Cristo fazia testemunhavam à consciência de todos os homens. Se eles tivessem algum bom senso, não deixariam de admitir o quanto eram milagrosas; e se tivessem alguma boa natureza, não poderiam deixar de louvar a sua misericórdia; mas, como estavam decididos a se oporem a Ele, por causa dessas obras, eles o invejaram e se indignaram contra Ele.

(2). Eles questionaram abertamente as hosanas que os meninos clamavam no Templo. Eles pensavam que essa honra dada a Ele fosse uma honra que não lhe pertencia, e que parecia ostentação. Os homens orgulhosos não podem suportar que qualquer pessoa, além deles mesmos, receba honra, e ficam inquietos apenas com os elogios justos a homens que os merecem. Assim, Saul invejou Davi devido aos cânticos das mulheres; e “quem parará perante a inveja?” Quando Cristo é mais honrado, os seus inimigos ficam mais profundamente insatisfeitos.

Recentemente, vimos Cristo preferindo os cegos e os coxos aos compradores e aos vendedores; aqui, nós o vemos (v. 16) tomando o partido das crianças, contra os sacerdotes e os escribas.

Observe que:

(1). As crianças estavam no Templo, talvez brincando. Não é de admirar, quando os administradores fazem dele um “mercado”, que as crianças façam dele um lugar de entretenimento; mas nós preferimos pensar que muitas delas estivessem adorando ali. Observe que é bom levar as crianças desde cedo à casa de oração, pois delas é o Reino dos céus. Devemos ensinar as crianças a acompanhar os costumes da santidade, pois isso será útil para conduzi-las ao poder da santificação. Cristo tem ternura pelas ovelhas do seu rebanho.

(2). Elas clamavam “Hosana ao Filho de Davi”. Elas tinham aprendido isso com os adultos. As crianças dizem e fazem aquilo que ouvem os outros dizerem, e veem os outros fazerem; elas imitam com muita facilidade, e por isso deve-se tomar muito cuidado, para dar-lhes bons exemplos, e não maus. O nosso relacionamento com as crianças deve ser conduzido com extremo cuidado. As crianças irão aprender com aqueles que convivem com elas, seja amaldiçoar e praguejar, seja orar e louvar. Os judeus, desde cedo, ensinavam os seus filhos a carregar ramos na Festa dos Tabernáculos, e a cantar Hosana; mas Deus os ensina a aplicar isso a Cristo. Observe que a expressão de louvor “Hosana ao Filho de Davi” é muito adequada às bocas das criancinhas, que de­ vem aprender, desde jovens, a linguagem de Canaã.

(3). O nosso Senhor Jesus, não somente permitiu, mas ficou muito satisfeito com a aclamação, e citou uma passagem das Escrituras que se cumpria nesse momento (Salmos 8.2), e que era adequada: “Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor?”. Alguns acreditam que esta citação seja uma referência às crianças se unindo às aclamações do povo, e aos cânticos das mulheres com que Davi foi honrado quando voltou do massacre dos filisteus, e por isso é muito adequadamente aplicados aqui às hosanas com as quais era saudado o Filho de Davi, agora que estava iniciando o seu conflito com Satanás, aquele Golias. Considere que:

[1]. Cristo está tão longe de se sentir embaraçado com a adoração das criancinhas, que Ele as nota (e as crianças gostam muito de ser notadas), e fica satisfeito com elas. Se Deus pode ser honrado por meninos e criancinhas de peito, que são, na melhor hipótese, a esperança, muito mais pelas crianças que já cresceram, se tornaram adultos, alcançaram a maturidade, e assim já têm uma boa capacidade.

2]. O louvor é perfeito quando vem dessas bocas. Há algo especial no louvor e na glória oferecida a Deus quando as criancinhas participam de sua exaltação. O louvor seria considerado deficiente e imperfeito se elas não participassem dele. Isso constitui um incentivo para que as crianças sejam boas desde cedo, e também para que os seus pais lhes ensinem uma importante lição: o trabalho de nenhuma delas será inútil. No Salmo 8.2, está escrito: “Tu suscitaste força”. Observe que Deus aperfeiçoa o louvor; suscitando força às bocas dos meninos e criancinhas de peito. Quando grandes coisas são produzidas por instrumentos fracos e improváveis, Deus é muito honrado, pois o seu “poder se aperfeiçoa na fraqueza”. A insegurança dos meninos e das criancinhas de peito é amparada pelo poder divino. Aquilo que se segue no salmo, “para fazeres calar o inimigo e vingativo”, era muito aplicável aos sacerdotes e aos escribas; mas Cristo não fez essa aplicação, deixando que eles mesmos a fizessem.

Por fim, Cristo, tendo dessa maneira silenciado os principais dos sacerdotes e os escribas, “deixou-os” (v. 17). Ele os deixou prudentemente, para que eles não o prendessem antes que fosse chegada a sua hora. E Ele os deixou com justiça, porque eles tinham ignorado o favor da sua presença. Com a nossa insatisfação aos louvores dedicados a Cristo, o afastamos de nós. Ele os deixou, porque eram incorrigíveis, e foi para a cidade de Betânia, que era um lugar mais calmo e afastado; não tanto para poder dormir sem ser perturbado, mas para poder orar sem ser perturbado. Betânia ficava a aproximadamente dois quilômetros de Jerusalém; para lá, Ele se dirigiu a pé, para mostrar que, quando cavalgava, Ele o fazia apenas para cumprir as Escrituras. Ele não se exaltou com as hosanas do povo, mas, como se as tivesse esquecido, logo retornou à sua maneira simples e cansativa de viajar.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 21: 1-11

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A Entrada de Cristo em Jerusalém

Todos os quatro evangelistas registram essa passagem da entrada triunfal de Cristo em Jerusalém, cinco dias antes da sua morte. A Páscoa ocorria no décimo quarto dia do mês, e esse era o décimo, o dia que a lei indicava, que deveria ser tomado o cordeiro pascoal (Êxodo 12.3) e consagrado para esse culto. Nesse dia, portanto, Cristo, o nosso Cordeiro, que seria sacrificado por nós, seria exibido publicamente. De modo que esse foi o prelúdio à sua Paixão. Ele havia se hospedado, por algum tempo, em Betânia, uma aldeia não muito distante de Jerusalém; ali, na ceia, na noite anterior, Maria tinha ungido os seus pés (João 12.3). Mas, como é usual com os embaixadores, Ele adiou a sua entrada pública até algum tempo depois da sua chegada. O nosso Senhor Jesus viajava muito, e o seu costume era viajar a pé da Galileia até Jerusalém, algumas dezenas de milhas, o que era, ao mesmo tempo, cansativo e humilhante; além de cansativas, as viagens se davam em meio a muita poeira. Ele passava por todos esses desconfortos quando andava “fazendo o bem”. Como é inconveniente que os cristãos se preocupem com a sua própria comodidade e bem-estar, quando o seu Mestre tinha tão pouco disso! Mas, pelo menos uma vez em sua vida, Ele cavalgou em triunfo; foi quando entrou em Jerusalém para sofrer e morrer, como se aquele fosse o prazer e a satisfação que Ele cortejava; e assim Ele começava a parecer grandioso.

Aqui, temos:

 I – A provisão que foi feita para essa solenidade; e ela foi muito pobre e simples, e de maneira a evidenciar que o seu reino não era deste mundo. Não houve arautos, nem soou nenhuma trombeta diante dele, nenhum carro de estado, nenhuma vestimenta de cerimônia; tais coisas não estariam de acordo com a sua situação atual de humilhação, mas seriam completamente superadas na sua segunda vinda, para a qual a sua aparência magnífica está reservada, quando a última trombeta soará, os anjos gloriosos serão seus arautos e servos, e as nuvens, os seus carros. Mas nessa aparição pública:

1.  A preparação foi repentina e improvisada. Para a sua glória no outro mundo, e a nossa com Ele, a preparação foi feita antes da fundação do mundo, pois essa era a glória à qual Ele estava ligado. Para a sua glória neste mundo, Ele estava morto, e, portanto, embora a tivesse em perspectiva, Ele não fez previsões relativas a ela, mas quanto ao que viria depois. Eles tinham vindo a Betfagé, que ficava na periferia de Jerusalém, e era considerada (dizem os doutores judeus), em todos os aspectos, como uma rua comprida e esparsa que ficava junto ao Monte das Oliveiras. Quando ali chegou, Ele enviou dois dos seus discípulos – alguns opinam que foram Pedro e João – para lhe conseguirem uma jumenta, pois Ele não tinha nenhum animal preparado para si.

2. Isso era muito simples. Ele mandou buscar somente uma jumenta e o seu jumentinho (v. 2). Os jumentos eram muito usados para as viagens naquela região; somente homens importantes possuíam cavalos, e eram usados para a guerra. Cristo poderia ter convocado um querubim para levá-lo (Salmos 18.10), mas, embora pelo “seu nome Jeová”, que diz que Ele é Deus, Ele cavalgue as nuvens, pelo seu nome Jesus, “Emanuel, Deus conosco”, nessa condição de humilhação, Ele cavalga uma jumenta. Alguns opinam que Ele fazia referência, aqui, ao costume em Israel, de que os juízes cavalgassem jumentas brancas (Juízes 5.10), e os seus filhos, jumentos (Juízes 12.14). E Cristo, dessa forma, entrou, não como um Conquistador, mas como o Juiz de Israel, que veio a este mundo para julgar.

3. O animal não era de Jesus, mas emprestado. Embora Ele não tivesse uma casa própria, poderia se pensar que Ele fosse como alguns viajantes que se hospedavam com os seus amigos; assim Ele poderia ter tido uma jumenta, para levá-lo de um lugar a outro; mas, por amor de nós, Ele “se fez pobre” (2 Coríntios 8.9). Diz-se normalmente que “os que vivem de coisas emprestadas, vivem na dor”; nesse aspecto, portanto, assim como em outras coisas, Cristo era um “homem de dores”, pois Ele não tinha nada dos bens deste mundo, exceto o que lhe era dado ou emprestado.

Os discípulos que foram enviados para tomar emprestada uma jumenta para Jesus foram instruídos a dizer: “O Senhor precisa deles”. Aqueles que estão em necessidade não devem se envergonhar da sua própria necessidade, nem dizer, como o mordomo injusto: “De mendigar tenho vergonha” (Lucas 16.3). Por outro lado, ninguém deve explorar a generosidade de seus amigos, indo implorar ou tomar emprestado se não tiver necessidade. No empréstimo dessa jumenta:

(1). Nós temos um exemplo do conhecimento de Cristo. Embora a situação fosse completamente casual, ainda assim Cristo podia dizer aos seus discípulos onde poderiam encontrar uma jumenta presa e um jumentinho com ela. A sua onisciência se estende até a menor das suas criaturas, jumentas e os seus jumentinhos, e o fato de estarem soltos ou presos. “Tem Deus cuidado dos bois?” (1 Coríntios 9.9). Sem dúvida, Ele cuida, e não pôde ver a jumenta de Balaão espancada. Ele conhece todas as criaturas, e elas servem aos seus propósitos.

(2). Nós temos um exemplo do seu poder sobre os espíritos dos homens. Os corações dos menores súditos, assim como os dos reis, estão na mão do Senhor. Cristo afirma o seu direito de usar a jumenta, pedindo aos discípulos que a tragam a Ele: toda a terra é do Senhor. Mas Ele prevê algum obstáculo que os discípulos poderão encontrar nesse serviço; eles não devem reivindicar os animais, mas à vista do proprietário; tampouco devem fazê-lo pela força e com armas, mas com o consentimento do proprietário, pois Ele se responsabiliza pelo que eles vão tomar emprestado: “Se alguém vos disser alguma coisa, direis que o Senhor precisa deles”. O Senhor Jesus Cristo nos ajudará em todas as coisas que Ele nos designar a fazer. Ele também nos equipa­ rá com as respostas às objeções a que poderemos estar repentinamente sujeitos, fazendo-nos prevalecer, como ocorreu, por exemplo, nesse episódio: “E logo os enviará”. Cristo, ao solicitar a jumenta para o seu ser­ viço, mostrou que Ele é o Senhor dos exércitos; e, para o influenciar o proprietário a lhe enviar o animal sem maiores garantias, mostrou que Ele é o “Deus dos espíritos de toda carne”, e que pode fazer com que os corações dos homens se curvem.

(3). Aqui temos um exemplo de justiça e honestidade. O Senhor Jesus não usou a jumenta sem o consentimento do dono, ainda que ela lhe fosse prestar um serviço tão pequeno, como cavalgar por uma rua ou duas. Segundo a interpretação de alguns, a sentença final nos dá uma regra de justiça: “Direis que o Senhor precisa deles; e logo os enviará” (isto é, o Senhor os enviará), “e cuidará para que eles sejam entregues em segurança ao proprietário, assim que acabar de usá-los”. Observe que aquilo que emprestamos, nós precisamos devolver no devido tempo, e em boas condições, pois “o ímpio toma emprestado e não paga”. Devemos tomar cuidado com as coisas emprestadas, para que elas não sejam danificadas. “Ai! Meu senhor! Porque era emprestado.”

 II – A predição que foi cumprida (vv. 4,5). O nosso Senhor Jesus, em tudo o que fez e sofreu, tinha em vista o cumprimento do que havia sido dito nas Escrituras: “Para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta”. Assim como os profetas esperavam ansiosamente por Ele (todos deram testemunho dele), também Ele os levava em consideração, para que todas as coisas que tinham sido escritas sobre o Messias pudessem se cumprir nele com exatidão. Isto se refere, particularmente, ao que foi escrito sobre Ele (Zacarias 9.9), onde se inicia uma grande pregação do reino do Messias: “Dizei à filha de Sião: Eis que o teu Rei aí te vem”. Tudo isso deveria se cumprir. Considere aqui:

1.  Como é predita a vinda de Cristo: “Dizei à filha de Sião” – a igreja, o monte santo-: “Eis que o teu Rei aí te vem”. Observe:

(1). Jesus Cristo é o Rei da igreja, um dos nossos irmãos, igual a nós, de acordo com a lei do reino (Deuteronômio 17.15). Ele é ungido Rei sobre a igreja (Salmos 2.6). Ele é aceito como Rei pela igreja; a filha de Sião jura lealdade a Ele (Oseias 1.11).

(2). Cristo, o Rei da sua igreja, veio à sua igreja, mesmo neste mundo inferior; Ele vem a vocês, para governá-los, para incluí-los, para reinar por vocês; Ele é a “cabeça da igreja”, constituído acima de todas as coisas. Ele viria de Sião (Romanos 11.26), para que a lei pudesse sair de Sião. Pois a igreja e os seus interesses estavam concentrados no Redentor.

(3). A igreja foi avisada de antemão sobre a vinda do seu rei: “Dizei à filha de Sião”. Observe que a vinda de Cristo seria esperada ansiosamente, e os seus súditos estariam cheios de expectativas sobre ela: “Dizei às filhas de Sião”, que elas podem sair e contemplar o rei Salomão (Cantares 3.11). As notícias da vinda de Cristo normalmente são introduzidas com um “Eis que”. Uma observação que implica tanto em atenção como em admiração: “Eis que o teu Rei aí te vem”; contemplem-no, e maravilhem-se com Ele, contemplem-no, e lhe deem as boas-vindas. Existe um progresso real verdadeiramente admirável. Pilatos, da mesma maneira como Caifás, disse o que não sabia, naquela incrível frase (João 19.14): “Eis aqui o vosso Rei”.

2. Como a sua vinda é descrita. Quando um rei vem, alguma coisa grande e magnífica é esperada, especial­ mente quando ele vem para tomar posse do seu reino. O Rei, o Senhor dos exércitos, tinha sido visto “sobre um alto e sublime trono” (Isaias 6.1); mas não há nada parecido com isso. aqui: “Eis que o teu Rei aí te vem, humilde e assentado sobre uma jumenta”. Quando se diz que Cristo deveria aparecer na sua glória, trata-se de sua humildade, e não de sua majestade.

(2). O seu temperamento é muito manso. Ele não vem com ira, para vingar-se, mas com misericórdia, para realizar a salvação. Ele vem humilde para sofrer as maiores injustiças e indignidades pela causa de Sião, humilde para ser tolerante com as tolices e a crueldade dos próprios filhos de Sião. É fácil ir até Ele e implorar algo a Ele. Ele é humilde não somente como um mestre, mas também como um governante; Ele governa pelo amor. O seu governo é humilde e gentil, e as suas leis não estão escritas com o sangue dos seus súditos, mas com o seu próprio sangue. O seu jugo é suave.

(2). Como prova disso, a sua aparência é muito humilde. Ele vem assentado sobre uma jumenta, como alguém que não visa o poder, mas que visa servir; alguém que não veio para as batalhas, mas para as cargas; lento nos movimentos, mas seguro, leal e fiel. A predição de tudo isso, havia tanto tempo, e o cuidado tomado para que tudo se cumprisse com exatidão sugerem que isso tem um significado peculiar: incentivar as pobres almas a procurarem a Cristo. O Rei de Sião vem montado, não em um cavalo arrogante, de quem aquele peticionário temeroso não ousa se aproximar, nem de um cavalo de corrida, que aquele peticionário de passos lentos não consegue acompanhar, mas sim em uma tranquila jumenta, para que os mais pobres dos seus súditos não percam a coragem de procurá-lo. Aqui faz-se menção à profecia de um jumentinho, um filhote de jumento; e por isso Cristo mandou pedir o jumentinho com a jumenta, para que as Escrituras se cumprissem.

 III – A procissão em si (que era resultante da preparação) era tanto destituída de pompa mundana quanto acompanhada por um poder espiritual.

Considere:

1.  A sua cavalgadura. Os discípulos fizeram “como Jesus lhes ordenara” (v. 6). Eles foram buscar a jumenta e o jumentinho, não duvidando de que os encontrariam, mas para encontrá-los, e para encontrar o proprietário disposto a emprestá-los. As ordens de Cristo não devem ser discutidas, mas obedecidas; e aqueles que as obedecem com sinceridade, não terão obstáculos em fazê-lo, nem se frustrarão. Eles “trouxeram a jumenta e o jumentinho”. A humildade e a insignificância dos animais que Cristo cavalgou foram sobrepujadas pela riqueza dos seus adornos; mas isso era, como todo o resto, o que havia à mão. Eles não tinham uma sela para a jumenta, mas os discípulos puseram algumas roupas sobre ela, e isso serviu, na falta de acomodações melhores. Nós não devemos ser agradáveis, ou curiosos, nem fingir quanto às aparências externas. Uma indiferença ou uma negligência sagrada nos é bastante conveniente nesses aspectos: isto evidenciará que o nosso coração não está preocupado com isso, e que nós aprendemos a regra do apóstolo (Romanos 12.16), de nos acomodarmos às coisas humildes. Qualquer colaboração, mesmo que pequena, serve aos viajantes; e existe uma certa beleza em algum grau de indiferença, uma nobre negligência. Ainda assim, os discípulos dotaram o Senhor do melhor de que dispunham, e não fizeram nenhuma objeção ao confisco das suas roupas, quando o Senhor precisou delas. Observe que não devemos julgar as nossas roupas como sendo valiosas demais para separar-nos delas, dedicando-as ao serviço de Cristo, para que sejam as roupas dos seus membros pobres, necessitados e aflitos. “Estava nu, e vestistes-me” (cap. 25.36). Cristo se despiu por nós.

2. A sua comitiva. Não havia nada que fosse suntuoso ou magnífico. O Rei de Sião viria a Sião, e a filha de Sião sabia disso havia muito tempo; ainda assim, Ele não foi recebido pelos nobres da região, nem pelos magistrados da cidade, com as suas formalidades, como seria de se esperar. Ele deveria ter recebido as chaves da cidade, e deveria ter sido conduzido, com todo o conforto possível, para o trono do julgamento, o trono da casa de Davi; mas não aconteceu nada disso. Ainda assim, Ele teve a sua comitiva, uma multidão verdadeiramente grande. Apenas as pessoas comuns, o povo (que alguns poderiam chamar de ralé, ou populacho), honrou a solenidade do triunfo de Cristo, e ninguém além deles. Mais tarde, os principais dos sacerdotes e os anciãos se uniram à multidão que o maltratou na cruz; mas nós não vemos nenhum deles acompanhando a multidão que o honrou. “Vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis” (1 Coríntios 1.26,28). Observe que Cristo é honrado mais pela multidão do que pela magnificência dos seus seguidores, pois Ele valoriza os homens pelas suas almas, não por seus cargos, nomes ou títulos honoríficos.

A respeito dessa grande multidão, nos é dito:

(1). O que ela fez. Segundo o máximo da sua capacidade, ela se esforçou para honrar a Cristo.

[1]. “Muitíssima gente estendia as suas vestes pelo caminho”, para que Ele pudesse passar sobre elas. Quando Jeu foi proclamado rei, os capitães puseram suas vestes sob os pés dele, como prova da sua submissão ao rei. Observe que aqueles que aceitam a Cristo como seu Rei, precisam colocar tudo o que têm sob os seus pés: as roupas, como prova tia sinceridade; pois quando Cristo vem, embora não quando qualquer outra pessoa venha, deve-se dizer à alma: Abaixe-se, para que Ele possa passar por cima de ti. Alguns interpretam que essas vestes tenham sido espalhadas, não no chão, mas sobre as cercas ou muros, para adornar as estradas; da mesma maneira como,

para embelezar uma cavalgada, as sacadas são adorna­ das com tapeçarias. Isso era apenas uma pequena cerimônia, mas Cristo aceitou a boa vontade do povo; e nós aprendemos, dessa maneira, a planejar como dar as boas-vindas a Cristo e à sua graça, a Cristo e ao seu Evangelho, em nossos corações e em nossas casas. Como podemos expressar o nosso apreço a Cristo? Que honra e que dignidade devem ser oferecidas a Ele?

[2]. “Outros cortavam ramos de árvores e os espalhavam pelo caminho”, como costumavam fazer na Festa dos Tabernáculos, como símbolo de liberdade, vitória e alegria; pois o mistério dessa festa é particularmente dito como pertencendo ao período do Evangelho (Zacarias 14.16).

(2). O que ela dizia: “Tanto as que iam adiante como as que o seguiam, clamavam, dizendo: Hosana ao Filho de Davi!” (v. 9). Quando carregavam ramos na Festa dos Tabernáculos, eles estavam acostumados a gritar Hosana, e, consequentemente, a chamar os seus ramos de seus hosanas. Hosana significa: “Salva, Senhor, nós te pedimos”, uma referência ao Salmo 118.25,26, onde o Messias é profetizado como Cabeça de esquina, embora os edificadores o rejeitassem; e todos os seus súditos leais entram triunfando com Ele, e acompanhando-o com desejos sinceros de prosperidade em todas as suas obras. Hosana ao Filho de Davi significa: “Nós fazemos isto em honra ao Filho de Davi”.

As hosanas com que Cristo foi saudado indicam duas coisas:

[1].  Que estão dando as boas-vindas ao seu reino. Hosana significa a mesma coisa que “Bendito o que vem em nome do Senhor!”. Tinha sido predito, a respeito do Filho de Davi, que “todas as nações lhe chamarão bem-aventurado” (Salmos 72.17). Esses começaram, e todos os verdadeiros crentes de todas as épocas concordam com isso e o chamam bem-aventurado; essa é a autêntica linguagem da fé. Observe, em primeiro lugar, que Jesus Cristo “vem em nome do Senhor”. Ele é santificado e enviado ao mundo como Mediador; “a este o Pai, Deus, o selou”. Em segundo lugar, a vinda de Cristo em nome do Senhor é merecedora de toda a aceitação. E nós todos devemos dizer: “Bendito o que vem”, para louvá-lo, e para termos prazer nele. Que a sua vinda em nome do Senhor seja mencionada com grande amor, para o nosso consolo, e com aclamação de alegria, para a sua glória. Nós podemos dizer: “Ele é bendito”, pois é nele que somos bem-aventurados. Podemos muito bem segui-lo com o melhor que tivermos, pois o Senhor virá ao nosso encontro com o melhor que Ele possui.

[2]. Que estão desejando o melhor para o seu reino. Isto estava sugerido nos brados de Hosana, que eram um fervoroso desejo de que Ele tivesse prosperidade e sucesso, e que o seu reino pudesse ser um reino vitorioso: “Que este reino receba prosperidade agora”. Se eles o entendiam como um reino temporal, e tinham os seus corações voltados para um reino temporal, estavam enganados; o tempo se encarregaria de corrigir esse erro. No entanto, a sua boa vontade foi aceita. Observe que é nosso dever desejar e orar fervorosamente pela prosperidade e pelo sucesso do reino de Cristo no mundo. Assim, “continuamente se fará por ele oração, e todos os dias o bendirão” (Salmos 72.15), para que toda a felicidade possa atender os seus interesses no mundo, e que, embora Ele possa estar montado em uma jumenta, ainda assim, na sua majestade, possa “cavalgar prosperamente pela causa da mansidão” (Salmos 45.4). Isto é o que queremos dizer quando oramos: “Venha o teu reino”. Eles acrescentaram: “Hosana nas alturas!” Que o mais elevado grau de prosperidade o acompanhe, que Ele tenha um nome acima de todos os outros, um trono acima de todos os tronos. Ou: Que o louvemos da melhor maneira, para que a sua igreja ascenda ao céu, às alturas mais elevadas, e dali traga paz e salvação (veja Salmos 20.6). “O Senhor salva o seu ungido; ele o ouvirá desde o seu santo céu”.

3. Aqui temos a recepção de Jesus em Jerusalém (v. 10): “Entrando ele em Jerusalém, toda a cidade se alvoroçou”. Todos tomaram conhecimento dele; alguns ficaram maravilhados pela novidade daquela situação, enquanto outros zombaram da sua humildade. Talvez alguns, que esperavam a “Consolação de Israel”, tenham se sentido motivados pela alegria; outros, da classe farisaica, motivados pela inveja e pela indignação. Assim, vários são os impulsos nas mentes dos homens, diante da chegada do Reino de Deus!

A respeito dessa comoção, sabemos:

(1). O que disseram os cidadãos: “Quem é este?”

[1]. Aparentemente, eles eram ignorantes a respeito de Cristo. Em bora Ele fosse a Glória do seu povo, Israel, ainda assim Israel não o conheceu. Embora Ele tivesse se distinguido pelos muitos milagres que realizou entre eles, ainda assim as filhas de Jerusalém não o diferenciam de outro amado (Cantares 5.9). O Santo, desconhecido na cidade santa! Em lugares onde a luz mais clara resplandece, e se faz a maior profissão de religião, pode haver mais ignorância do que nos locais que ainda não receberam o privilégio de ter a presença de Deus.

[2].  Mas eles queriam informações sobre Ele. Quem é este, que recebe esta aclamação, e vem chamando tanta atenção? “Quem é este Rei de glória”, cuja maior exigência é ser recebido em nossos corações? (Salmos 24.8; Isaias 63.1).

(2). Como as multidões responderam a essas perguntas: “Este é Jesus” (v. 11). As multidões estavam mais familiarizadas com Cristo do que as pessoas importantes. Vox Populi – A voz do povo, algumas vezes é Vox Dei- A voz de Deus. Na descrição que fazem dele:

[1]. Eles estavam certos em chamá-lo de “Profeta”, aquele “grande Profeta”. Até aqui, Ele era conhecido como um Profeta, ensinando e realizando milagres; agora eles o consideravam como Rei. O trabalho sacerdotal de Cristo foi, dentre os três, o último a ser descoberto.

[2].  Mas, ainda assim, eles se enganaram ao dizer que Ele era “de Nazaré”; e isto ajudou a confirmar alguns nos preconceitos que tinham contra Ele. Observe que alguns que estão dispostos a honrar a Cristo e a testificar a respeito dele, ainda assim trabalham tendo em si mesmos alguns erros a seu respeito, o que poderia ser corrigido se eles se esforçassem par a obter a informação certa.

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MATEUS 20: 29-34

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A Vista é dada aos cegos

Temos aqui um relato da cura de dois mendigos pobres e cegos, no qual podemos observar:

 I –  A palavra deles a Cristo (vv. 29,30). E nisso:

1.  As circunstâncias do evento devem ser observadas. Ele ocorreu quando Cristo e seus discípulos partiram de Jericó; daquele lugar devotado, que foi reconstruído sob uma maldição, Cristo se despediu com essa bênção, porque Ele recebeu dons até mesmo para os rebeldes. Foi na presença de uma grande multidão que o seguia. Cristo tinha um público numeroso, mas sem pompa, e fazia o bem para eles, embora não tomasse para si qualquer pompa. Nessa multidão que o seguia por pão, alguns por amor, outros por curiosidade, e alguns na expectativa de seu reino temporal (algo com que os próprios discípulos sonhavam), poucos tinham o desejo de serem ensinados sobre as suas obrigações. No entanto, por amor a esses poucos, Ele confirmou a sua doutrina através de milagres operados na presença de grandes multidões, que, se não fossem convencidas por eles, seriam as mais indesculpáveis. Dois homens cegos recorreram ao Senhor com um pedido; porque a oração conjunta é agradável a Cristo (cap. 18.19). Esses, que sofriam juntos, fizeram a sua petição juntos; sendo companheiros na mesma tribulação, eles se tornaram parceiros na mesma súplica. Bom é para aqueles que es­ tão lutando sob a mesma calamidade, ou enfermidade do corpo ou da mente, unirem-se na mesma oração a Deus por alívio, para que possam reanimar a devoção um do outro, e encorajar a fé um do outro. Há misericórdia suficiente em Cristo para todos os suplicantes. Esses cegos estavam assentados “junto do caminho”, como os mendigos cegos costumavam fazer. Note que aqueles que desejam receber a misericórdia de Cristo devem se colocar na presença de Cristo, pois é ali que Ele se manifesta àqueles que o buscam. É bom, portanto, abordar a Cristo, colocando-nos em seu caminho.

“Eles ouviram que Jesus passava”. Embora fossem cegos, eles não eram surdos. Ver e ouvir são os sentidos do aprendizado. É uma grande calamidade não ter nenhum deles; mas o defeito de um pode ser, e frequentemente é, compensado pela sensibilidade e perspicácia do outro; portanto, tem sido observado por alguns como um caso da bondade da Providência, o fato de que não se sabe de ninguém que tenha nascido cego e surdo; mas que, de um modo ou de outro, todos são capazes de receber conhecimento. Esses cegos tinham ouvido falar de Cristo pela audição, mas desejavam que os seus olhos pudessem vê-lo. Quando eles “ouviram que Jesus passava”, não fizeram mais perguntas como, por exemplo, quem estava com Ele, ou se Ele estava com pressa, mas imediatamente clamaram. É bom aproveitar a oportunidade presente, fazer o melhor daquilo que se tem agora em mãos, porque, se deixarmos que algo escape uma vez, tal benefício pode jamais voltar; esses cegos fizeram assim, e o fizeram de forma sábia; porque não encontramos em nenhuma passagem que Jesus tenha, algum a vez, retornado a Jericó. “Hoje é o dia aceitável”.

2. O clamor em si é mais observável: “Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós”, e é repetido novamente (v. 31). Quatro coisas nos são recomendadas como um exemplo nesse texto; porque, embora os olhos do corpo estivessem na escuridão, os olhos da mente estavam iluminados com respeito à verdade, ao dever e ao interesse.

(1).  Aqui está um exemplo de importunação em oração. Eles clamaram como homens sinceros; homens necessitados são sinceros, naturalmente. Desejos frios só atraem a rejeição. Aqueles que desejam prevalecer em oração, devem se esforçar para se firmar em Deus através da obediência. Quando eles foram desencorajados, clamaram mais. A corrente de fervor, se for interrompida, irá aumentar e crescer ainda mais. Essa luta com Deus em oração nos torna mais adequados para recebermos misericórdia; porque quanto maior for o esforço, maior será a recompensa, e será reconhecido com gratidão.

(2). Da humildade em oração. Nesse texto: “Tem misericórdia de nós”, eles não estão especificando o favor, nem descrevendo a necessidade, muito menos pleiteando algum mérito, mas estão se lançando e se submetendo alegremente à misericórdia do Mediador, da maneira que Ele se agra da. “Apenas tem misericórdia.” Eles não pedem prata e ouro, embora fossem pobres, mas misericórdia. É nisso que os nossos corações devem se apoiar quando nos aproximamos do “trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia” (Hebreus 4.16; SI 130.7).

(3). Da fé em oração. No título que eles deram a Cristo, que estava na natureza de um apelo: “Senhor, Filho de Davi”, eles confessam que Jesus Cristo é Senhor, e, portanto, tinha autoridade para ordenar a libertação deles. Certamente foi pelo Espírito Santo que eles chamaram a Cristo de Senhor (1 Coríntios 12.3). Desse modo, eles tomam a sua coragem em oração a partir de seu poder, assim como, ao chamá-lo de Filho de Davi, eles tomam coragem a partir de sua bondade, como Messias, de quem tantas coisas bondosas e ternas foram preditas, particularmente de sua compaixão pelos pobres e necessitados (Salmos 72.12,13). É algo excelente, em oração, ver a Cristo na graça e na glória como o Messias, para nos lembrarmos de que Ele é o Filho de Davi, cujo ofício é ajudar e salvar. E assim podemos pleitear com Ele.

(4).  Da perseverança em oração, apesar do desencorajamento: ”A multidão os repreendia”, como barulhentos, insistentes e impertinentes, e lhes ordenou que se calassem, e que não perturbassem o Mestre, que talvez, a princípio, parecia não se dar conta deles. Ao seguirmos a Cristo com as nossas orações, devemos esperar encontrar obstáculos e múltiplos desencorajamentos de dentro e de fora, uma coisa ou outra que nos exorte a nos calar. Tal repreensão é permitida, para que o fervor, a fé, a paciência e a perseverança possam ser testados. Esses pobres cegos foram repreendidos pela multidão que seguia a Cristo. Aqueles que são sinceros e sérios fazendo os seus pedidos a Cristo, geralmente enfrentam repreensões piores do que aqueles que o seguem com falsa aparência e hipocrisia. Mas eles não seriam afastados; quando buscavam tal misericórdia, não havia tempo para saudações, nem para praticarem uma delicadeza tímida. Não, eles “cada vez clamavam mais”. Os homens devem sempre orar, e não esmorecer; orar com toda a perseverança (Lucas 18.1); perseverar em oração de forma resoluta, e não sucumbir à oposição.

 

II – A resposta de Cristo a essa palavra deles. A multidão os repreendeu; mas Cristo os encorajou. Seria triste para nós se o Mestre não fosse mais bondoso e terno do que a multidão; mas Ele ama aprovar com favor especial aqueles que estão sob desaprovações, censuras e desprezos dos homens. Ele não deixará que os seus humildes suplicantes sejam difamados e colocados em situações embaraçosas.

1.  E Jesus, parando, “chamou-os” (v. 32). Ele então estava subindo para Jerusalém, e foi pressionado até que a sua obra estivesse realizada; e mesmo assim Ele parou para curar esses cegos. Sempre que estivermos com muita pressa sobre qualquer assunto, devemos estar dispostos a parar para fazer o bem. Jesus chamou-os, não porque não pudesse curá-los à distância, mas porque Ele iria fazê-lo de um modo mais prestativo e instrutivo, e só iria aceitar pacientes e solicitantes, ainda que fracos, dispostos. Cristo não só nos ordena que oremos, mas nos convida a orar. Ele estende o cetro de ouro para nós, e solicita que nos aproximemos para tocá-lo.

2. Ele os interrogou sobre o caso deles: “Que quereis que vos faça?” Isto sugere:

(1).  Uma oferta muita justa: ”Aqui estou eu; deixe-me saber o que você quer, e você o terá.” O que mais desejaríamos? Ele pode fazer tudo por nós, e está igualmente disposto: “Pedi, e dar-se-vos-á”.

(2).  Uma condição agregada a esta oferta, que é muito fácil e razoável – eles deveriam lhe dizer o que queriam que lhes fizesse. Alguém pode achar estranha essa pergunta, porque qualquer pessoa poderia dizer o que eles queriam. Cristo bem sabia; mas Ele queria que eles lhe dissessem, se eles queriam apenas esmolas, como algo que viesse de uma pessoa comum, ou a cura, como algo que só poderia vir do Messias. Note que esta é a vontade de Deus, que nós, em todas as coisas, tornemos as nossas petições conhecidas a Ele pela oração e súplica; não para informá-lo ou comovê-lo, mas para nos qualificarmos para a misericórdia. O barqueiro, no barco, que com o seu gancho o prende à praia, não puxa a praia para o barco, mas o barco para a praia. Da mesma forma, na oração não atraímos a misericórdia a nós mesmos, mas nos aproximamos da misericórdia.

Eles logo o fizeram saber de seu pedido, como um pedido que eles nunca haviam feito a nenhuma outra pessoa: “Senhor, que os nossos olhos sejam abertos”. As necessidades e as cargas do corpo que logo percebemos, e que prontamente podemos relacionar. Seria bom se fôssemos tão perceptivos sobre os nossos males espirituais, e se pudéssemos sensivelmente reclamar deles, especialmente da nossa cegueira espiritual! Senhor, que os olhos da nossa mente possam ser abertos! Muitos são espiritualmente cegos, contudo dizem que veem (João 9.41). Se estivéssemos cientes das nossas trevas, logo nos entregaríamos a Ele, o único que pode atender este pedido: “Senhor, que os nossos olhos sejam abertos”.

3. Ele os curou. Quando Jesus os encorajou a buscá-lo, Ele não disse: Buscai-me em vão. O que Ele fez foi um exemplo:

(1). De sua compaixão. Jesus “moveu-se de íntima compaixão”. A infelicidade é o objeto da misericórdia. Aqueles que são pobres e cegos são desgraçados e infelizes (Apocalipse 3.17), e os objetos de compaixão. Foi a terna misericórdia do nosso Deus que deu luz e vista àqueles que estavam em trevas (Lucas 1.78,79). Não podemos ajudar aqueles que estão sob tais calamidades, como Cristo ajudou; mas podemos e devemos ter compaixão deles, como Cristo teve, e movermos a nossa alma em direção a eles.

(2). De seu poder. Aquele que formou o olho, não pode curá-lo? Sim, Ele pode, Ele curou, Ele fez isso facilmente, Ele tocou os seus olhos; e Ele o fez de modo eficaz: “Logo viram”. Assim, Ele não só provou que foi enviado por Deus, mas mostrou qual era a sua missão – dar vista àqueles que são espiritualmente cegos, levando-os das trevas para a luz.

Por último, esses cegos, quando receberam a visão, o seguiram. Ninguém segue a Cristo às cegas. Ele primeiramente, por sua graça, abre os olhos dos homens, e então atrai os seus corações a si. Eles seguiram a Cristo como seus discípulos, para aprenderem dele, e como suas testemunhas, testemunhas oculares, para darem o seu testemunho a respeito dele, de seu poder e de sua bondade. A melhor evidência da iluminação espiritual é uma adesão constante e inseparável a Jesus Cristo como o nosso Senhor e Líder.

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MATEUS 20: 20-28

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A Ambição É Corrigida

Aqui temos, a princípio, o pedido dos dois discípulos a Cristo, e a retificação do erro sobre o qual estava baseado (vv. 20-23). Os filhos de Zebedeu eram Tiago e João, dois dos três primeiros discípulos de Cristo. Tanto Pedro como eles eram os seus discípulos mais chegados; João era o discípulo que Jesus amava; no entanto, ninguém foi tão frequentemente reprovado quanto eles. Cristo corrige mais àqueles que Ele mais ama (Apocalipse 3.19).

 I – Aqui está a palavra ambiciosa que eles falaram a Cristo – que pudessem se sentar, um à sua direita e o outro à sua esquerda, em seu reino (vv. 20,21). Eles demonstraram um grande grau de fé, pois estavam confiantes em seu reino, embora então o Senhor parecesse estar em uma situação de fraqueza. Mas eles também demonstraram um grande grau de ignorância, pois ainda esperavam um reino temporal, com pompa e poder terrenos, quando Cristo lhes havia falado tão frequentemente sobre sofrimentos e renúncia. Com isso, eles esperavam ser pessoas eminentes. Eles não pedem um emprego em seu reino, mas somente a honra; e nenhum lugar lhes serviria nesse reino imaginário, além do mais elevado, ao lado de Cristo, e acima de todos os outros. É provável que a última palavra no discurso anterior de Cristo – de que ao terceiro dia ressuscitaria – tenha lhes dado a oportunidade de fazer esse pedido. Eles concluíram que a ressurreição seria o evento que marcaria a entrada do Senhor nesse reino. Portanto, estavam decididos a reservar logo os melhores lugares; eles não os perderiam por falta de pedi-los com antecedência. Assim, utilizaram mal aquilo que Cristo havia dito para confortá-los, e se encheram de orgulho. Alguns não conseguem lidar com confortos, mas os revertem para propósitos errados – assim como os doces em um estômago ruim produzem a bile. Agora observe:

1. Havia um raciocínio político na elaboração desse pedido. Eles providenciaram para que a mãe deles o apresentasse, para que pudesse ser entendido como se fosse um pedido dela, e não deles. Embora as pessoas orgulhosas pensem bem de si mesmas, elas não querem que as outras pessoas as vejam desse modo, pois pode­ riam aparentar um pretexto de humildade (Colossenses 2.18). Deste modo, outros devem simular a busca dessa honra para eles, para que não tenham que passar pelo constrangimento de buscá-la para si mesmos. Comparando o capítulo 27.61 com Marcos 15.40, entendemos que a mãe de Tiago e João era Salomé. Alguns acham que ela era filha de Cleofas ou Alfeu, irmã ou prima em primeiro grau da mãe do nosso Senhor. Ela era uma daquelas mulheres que acompanhavam a Cristo, e o serviam; e eles pensavam que Ele tinha tanta consideração por ela, que não lhe negaria nada. Assim, fizeram dela a sua intercessora. Da mesma forma, quando Adonias tinha algum pedido importante a fazer a Salomão, ele recorria a Bate-Seba, para que ela falasse por ele. A mãe de Tiago e João revelou uma fraqueza ao se tornar um instrumento da ambição deles, que ela deveria ter repreendido. Aqueles que são sábios e bons não devem se deixar envolver em uma situação tão repulsiva. Em pedidos corretos e aceitáveis, devemos aprender esta atitue sábia: desejar a oração daqueles que têm interesse no trono da graça; devemos pedir aos nossos amigos de oração que orem por nós, considerando isso uma verdadeira bondade.

Era igualmente uma política pedir primeiro uma concessão geral, que Ele fizesse algo por eles, não em fé, mas em presunção, com base naquela promessa geral: “Pedi, e dar-se-vos-á”, na qual está sugerida a qualificação do nosso pedido; que este esteja de acordo com a vontade revelada de Deus. Caso contrário, pediremos e não receberemos, se pedirmos para gastar em nossos deleites (Tiago 4.3).

2. No fundo, havia orgulho, um conceito orgulhoso de seu próprio mérito, um desprezo orgulhoso aos seus irmãos, e um desejo orgulhoso de honra e preferência. O orgulho é um pecado que mais facilmente nos persegue, do qual é difícil nos livrarmos. Ê uma santa ambição lutar para ultrapassar os outros na graça e na santidade; mas é uma ambição pecadora cobiçar ultrapassar os outros em pompa e grandeza. “Procuras tu grandezas” quando acabas de ouvir teu Mestre dizer que será escarnecido, açoitado e crucificado? Que vergonha! “Não as busques” (Jeremias 45.5).

II – A resposta de Cristo a esse pedido (vv. 22,23), não dirigida à mãe, mas aos filhos, que a usaram para este fim. Embora outros possam ser a nossa boca em oração, a resposta será dada a cada um de nós. A resposta de Cristo é muito suave; eles foram apanhados no erro da ambição, mas Cristo os restaurou com o espírito de mansidão. Observe:

1.  Como Ele reprovou a ignorância e o erro do pedido deles: “Não sabeis o que pedis”.

(1).  Eles estavam em trevas com relação ao reino que desejavam; eles sonhavam com um reino temporal, ao passo que o reino de Cristo não é deste mundo. Eles não sabiam o que era sentar-se à sua direita, ou à sua esquerda; eles falavam disso como os cegos falam das cores. A nossa compreensão da glória que ainda está para ser revelada é como a compreensão que uma criança tem das preferências dos adultos. Se por fim, através da graça, chegarmos à perfeição, eliminaremos então essas fantasias infantis; quando chegarmos a ver face a face, saberemos o que apreciamos; mas agora, não sabemos o que pedimos; podemos apenas pedir o bem conforme a promessa (Tito 1.2). “O olho não viu, e o ouvido não ouviu”, os detalhes a respeito desse precioso Reino.

(2).  Eles estavam em trevas com relação ao caminho para aquele reino. Eles não sabem o que pedem. Pedem algo relacionado ao fim, mas ignoram o meio, e assim separam o que Deus juntou. Os discípulos pensavam – quando haviam deixado tudo o que tinham por Cristo, e percorreram o país enquanto pregavam o Evangelho do reino – que todo o seu serviço e os seus sofrimentos estavam terminados, e então era hora de perguntar: O que receberemos? Como se então nada mais devesse ser procurado além das coroas e florões, enquanto havia aflições e dificuldades muito grandes diante deles; aflições e dificuldades muito maiores do que eles já haviam encontrado. Eles imaginavam que a luta estava terminada, quando ela mal havia começado; haviam apenas corrido com os lacaios. Eles sonham em estar em Canaã no momento presente, e não consideram o que farão nas dilatações do Jordão. Considere:

[1].  Poderemos nos considerar aptos para o Reino de Deus quando a nossa humildade nos levar a um comportamento singelo, mesmo estando revestidos da glória de Cristo que podemos ter neste mundo.

[2].  Não sabemos o que pedimos quando pedimos a glória de usar a coroa, sem pedirmos a graça para levar a cruz em nosso caminho até ela.

2. Como Ele reprovou a vaidade e a ambição do pedido deles. Eles estavam se deleitando com a fantasia de se sentarem à sua direita, e à sua esquerda, numa grande posição; então, para repreender isso, Ele os leva aos pensamentos de seus sofrimentos, e não lhes revela detalhes sobre a glória que terão no futuro.

(1).  Ele os leva a pensamentos relacionados aos seus sofrimentos, dos quais eles não estavam tão cientes quanto deveriam estar. Eles ansiavam tanto a coroa, o prêmio, que estavam prontos a mergulhar de cabeça, porém ainda estavam despreparados para enfrentar o caminho de sofrimento que levava a ela. Portanto, o Senhor considera necessário conscientizá-los das dificuldades que estavam diante deles, para que não se surpreendessem nem se aterrorizassem.

Observe:

[1].  Com que clareza Jesus lhes coloca a questão das dificuldades (v. 22): “Vocês gostariam de se candidatar a ocupar o primeiro posto de honra no reino. Será que vocês podem beber o cálice que eu hei de beber? Vocês falam das coisas grandes que poderão receber quando tiverem feito o seu trabalho. Mas vocês podem suportar até o fim?” Pensem nisso seriamente. Esses mesmos discípulos, Tiago e João, certa vez não sabiam de que espírito eram, quando ficaram perturbados e irados (Lucas 9.55). E então não estavam cientes do que lhes faltava, espiritualmente, quando foram tomados de ambição. Cristo vê em nós esse orgulho que nós mesmos não somos capazes de discernir.

Note, em primeiro lugar, que sofrer por Cristo é beber um cálice, e ser batizado com um batismo. Nessa descrição dos sofrimentos:

1. É verdade que a aflição existe em abundância. Ela é considerada como um cálice amargo, que é bebido, absinto e bile, as águas do cálice cheio, que são extraídas para o povo de Deus (Salmos 43.10). Certamente um cálice de tremor; mas não de fogo e enxofre, a porção do copo de homens ímpios (Salmos 11.6). Supõe-se que este seja um batismo, uma lavagem com as águas da aflição; alguns estão mergulhados nelas; as águas os cercam até à alma (Jonas 2.5). Outros estão apenas salpicados; ambos são batismos, alguns estão sufocados neles, como em um dilúvio, enquanto outros estão ensopados, como em uma forte chuva. Mas:

2. Mesmo nisso, a consolação existe com mais abundância. É apenas um cálice, e não um oceano; é apenas uma seca, amarga talvez, mas devemos ver o fundo dela; é um cálice na mão de um Pai (João 18.11); e está cheio de mistura (Salmos 75.8). É apenas um batismo; o mergulho é o pior que pode ocorrer, pois não é um afogamento; podemos estar perplexos, mas não em desespero. O batismo é uma ordenança na qual nos unimos ao Senhor em aliança e comunhão; e assim é o sofrimento por Cristo (Ezequiel 20.37; Isaias 48.10). O batismo é “um sinal externo e visível de uma graça interna e espiritual”; e assim é o sofrimento por Cristo, por­ que essa graça nos foi concedida (Filipenses 1.29).

Em segundo lugar, é beber do mesmo cálice de que Cristo bebeu, e ser batizado com o mesmo batismo com que Ele foi batizado. Cristo nos precedeu no sofrimento, e nisso, como em outras coisas, nos deixou um exemplo.

3. Isto anuncia a condescendência de um Cristo sofredor; Ele beberia desse cálice (João 18.11), e desse ribeiro (Salmos 110.7). Ele beberia profundamente, mas muito alegremente; Ele seria batizado com esse batismo, e estava muito ansioso por isso (Lucas 12.50). Já seria muito ser batizado com água, como um pecador comum, quanto mais com sangue, como um criminoso incomum. Mas em tudo isso Ele foi feito em semelhança da carne do pecado, e foi feito pecado por nós.Isto anuncia a consolação dos cristãos sofredores, que se unem a Cristo no cálice amargo: eles são participantes dos seus sofrimentos, e assim têm comunhão com Ele. Devemos, portanto, nos armar com o mesmo pensamento, indo ao seu encontro fora do arraial.

4. Em terceiro lugar, é bom estarmos frequentemente aplicando esta palavra a nós mesmos: Será que somos capazes de beber este cálice, e ser batizados com este batismo? Devemos esperar algum tipo de sofrimento, sem considerá-lo uma coisa difícil de suportar. Também não devemos questionar por que às vezes sofremos. Podemos sofrer alegremente, e no pior dos momentos ainda mantermos firme a nossa integridade? O que podemos fazer por Cristo? Quanto crédito somos capazes de lhe dar? Será que eu poderia encontrar forças em meu coração para beber de um cálice amargo, e ser batizado com um batismo de sangue, sem abandonar o meu relacionamento com Cristo? A verdade é que se a religião for vivida da maneira correta, ela valerá muito. Mas se não valer a pena sofrer por ela, é sinal de que ela não está sendo vivida da maneira correta, e que ela vale pouco. Então, sentemo-nos e calculemos o custo de morrer por Cristo em vez de negá-lo, e perguntemos a nós mesmos: Podemos aceitá-lo nesses termos?

[2]. Veja como eles se responsabilizam ousadamente.

Eles disseram: “Podemos”, na esperança de se assentarem à sua direita e à sua esquerda. Mas, ao mesmo tempo, eles esperavam jamais ser testados. Assim como anteriormente não sabiam o que pediam, também agora não sabiam o que respondiam. “Podemos”; eles teriam feito bem em dizer: “Senhor, por tua força, e em tua graça, podemos; caso contrário, não podemos”. Mas a mesma tentação de Pedro – estar confiante em sua própria suficiência, e presumir a sua própria força – foi aqui a tentação de Tiago e João; e esse é um pecado a que todos nós estamos sujeitos. Eles não sabiam o que era o cálice de Cristo, nem qual era o seu batismo; mesmo assim foram ousados e se comprometeram. Geralmente, aqueles que se mostram mais confiantes em relação a si mesmos são os que estão menos familiarizados com a cruz.

[3]. Veja como os seus sofrimentos são aqui clara e positivam ente preditos (v. 23): “Na verdade bebereis o meu cálice”. Os sofrimentos previstos serão os mais facilmente suportados, especialmente se considerados sob uma noção certa, como beber o seu cálice, e ser batizado com o seu batismo. Cristo sofreu por nós, e espera que nós estejamos dispostos a sofrer por Ele. Cristo nos fará saber o pior, para que possamos fazer o melhor para alcançarmos o céu. “Bebereis”, isto é, sofrereis. Tiago bebeu o cálice de sangue antes de todos os outros apóstolos (Atos 12.2). João, embora no final tenha morrido em sua cama – assumindo que podemos crer nos historiadores eclesiásticos -, bebeu frequentemente esse cálice amargo, como, por exemplo, quando foi exilado na ilha de Patmos (Apocalipse 1.9), e quando (como dizem), em Éfeso, foi colocado em um caldeirão de óleo fervente, mas foi miraculosamente preservado. Ele esteve frequentemente, como os demais apóstolos, – em perigo de morte. Ele tomou o cálice, ofereceu-se a si mesmo ao batismo, e foi aceito.

(2).  Ele não lhes revela os níveis de glória que terão. Para conduzi-los alegremente através de seus sofrimentos, bastava estarem certos de que teriam um lugar em se u reino. O assento mais baixo no céu é uma recompensa abundante pelos maiores sofrimentos na terra. Mas quanto aos privilégios que há ali, não era adequado que houvesse qualquer intimação sobre quem eles seriam; porque a fraqueza de seu estado presente não poderia suportar tal descoberta. “Mas o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence dá-lo”, e, portanto, não deveis perguntar ou saber, “mas é para aqueles para quem meu Pai o tem preparado.” Considere:

[1].  É muito provável que haja níveis de glória no céu; porque a nossa salvação parece permitir que haja alguns que sentarão à sua direita e à sua esquerda, nos lugares mais elevados.

[2]. Como a própria glória futura, esses níveis estão propostos e preparados pelo conselho eterno de Deus. Assim como a salvação comum, as honras mais peculiares são concedidas mediante a eleição por parte de Deus. Essa questão, como um todo, já está estabelecida há muito tempo; e já há uma certa medida da estatura de cada um de nós, tanto em graça como em glória (Efésios 4.13).

[3].  Cristo, ao distribuir os frutos de sua própria conquista, orienta-se exatamente pelas medidas do propósito de seu Pai: “Não me pertence dá-lo”, salvo (assim pode ser lido) para quem está preparado. Só Cristo tem o poder de dar a vida eterna, mas “a todos” quantos o Pai lhe deu (João 17.2). “Não me pertence dá-lo”, isto é, não posso prometê-lo agora; esta questão já está estabelecida e ajustada, e o Pai e o Filho se entendem perfeitamente bem nessa questão. “Não me pertence atender aqueles que buscam isso e têm essa ambição, mas essa bênção está reservada para aqueles que, por grande humildade e renúncia, estão preparados para ela.”

 III – Aqui estão a repreensão e a instrução que Cristo deu aos outros dez discípulos, diante do desprazer que demonstraram pelo pedido de Tiago e João. O Senhor teve de suportar muitas fraquezas por parte de todos eles, que eram muito fracos no conheci­ mento e na graça; no entanto, Ele os suportou com amor.

1. A irritação causada aos dez discípulos (v. 24): “Indignaram-se contra os dois irmãos”; não porque desejassem ser preferidos antes deles – que foi o pecado de Tiago e João, pelo qual Cristo se entristeceu-, mas porque queriam ter a honra para si mesmos, o que revelava descrédito em relação aos dois irmãos. Muitos parecem ter uma indignação pelo pecado; porém, não a sentem pelo pecado em si, mas porque tal pecado os toca. Eles se indignarão contra um homem que amaldiçoa; mas somente o farão se ele lhes amaldiçoar, e lhes afrontar, não porque tal homem esteja desonrando a Deus. Esses discípulos estavam com raiva da ambição de seus irmãos, embora eles mesmos fossem igualmente ambiciosos. É comum que as pessoas se enfureçam com os pecados dos outros, os quais elas permitem e toleram em si mesmas. Aqueles que são orgulhosos e cobiçosos não gostam de ver outros assim. Nada causa mais dano entre irmãos, ou é a causa de mais indignação e contenda, do que a ambição e o desejo de grandeza. Nós nunca encontramos os discípulos de Cristo discutindo; mas eles enfrentaram uma situação de contenda nessa ocasião.

2. A correção que Cristo lhes fez foi muito suave, por meio da instrução sobre o que eles deveriam ser, e não por meio da repreensão pelo que eles eram. Ele havia reprovado esse mesmo pecado antes (cap. 18.3), e lhes dissera que deveriam ser humildes como crianças pequenas; no entanto, eles reincidiram nesse pecado, mas Cristo os repreendeu de forma moderada.

“Então, Jesus, chamou-os para junto de si”, o que sugere um grande carinho e familiaridade. Ele não lhes ordenou, com raiva, que saíssem de sua presença, mas os chamou, com amor, para virem à sua presença. Ele está sempre pronto a ensinar, e nós somos convidados a aprender dele, porque ele é “manso e humilde de coração”. O que Ele tinha a ensinar dizia respeito tanto aos dois discípulos como aos outros dez; portanto, ele reúne todos. E lhes diz que enquanto estavam perguntando qual deles deveria ter o domínio em um reino temporal, não havia realmente tal domínio reservado para nenhum deles. Porque:

(1).  Eles não deveriam ser como os “príncipes dos gentios”. Os discípulos de Cristo não deveriam ser como os gentios, nem como os príncipes dos gentios. O principado não torna ninguém ministro, da mesma forma que o “gentilismo” não torna ninguém cristão.

Observe:

[1].  Qual é a maneira dos príncipes dos gentios (v. 25): exercer domínio e autoridade sobre aqueles que lhes são sujeitos (mesmo que só possam alcançar o domínio com mão forte), e uns sobre os outros também. O que os sustenta nessa posição é que eles são grandes, e os homens grandes acham que podem fazer qualquer coisa. Domínio e autoridade são as grandes coisas que os príncipes dos gentios procuram, e de que se orgulham; eles deteriam o poder, venceriam todas as dificuldades, teriam todos sujeitos a si, e todo feixe inclinado ao deles. Eles queriam ter a seguinte proclamação diante de si: “Inclinai-vos”; como Nabucodonosor, que matava, e deixava vivei ao seu bel-prazer.

[2].  Qual é a vontade de Cristo com relação aos seus apóstolos e ministros, nesta questão.

Em primeiro lugar: “‘Não será assim entre vós’. A constituição do reino espiritual é bem diferente dessa. Deveis ensinar os súditos desse reino, instruí-los e exortá-los, aconselhá-los e consolá-los, esforçarem-se com eles, e sofrer com eles, não exercer domínio e autoridade sobre eles; não ter ‘domínio sobre a herança de Deus’ (1 Pedro 5.3), mas trabalhar em benefício dela”. Isto proíbe não só a tirania e o abuso de poder, mas a reivindicação ou o uso de qualquer autoridade secular, como os príncipes dos gentios legitimamente exercem. É tão difícil para os homens vaidosos, mesmo para os homens bons, terem tal autoridade, e não ficarem envaidecidos com ela, e fazerem mais mal do que bem com ela, que nosso Senhor Jesus considerou necessário bani-la totalmente da igreja. Até mesmo o apóstolo Paulo rejeita o domínio sobre a fé de qualquer pessoa (2 Coríntios 1.24). A pompa e a grandeza dos príncipes dos gentios não convêm aos discípulos de Cristo. Então, se o poder e a honra não foram planejados para estar na igreja, era uma insensatez deles estarem disputando quem deveria tê-los. Eles não sabiam o que pediam.

Em segundo lugar, então qual será o relacionamento entre os discípulos de Cristo? O próprio Cristo havia sugerido uma grandeza entre eles, e aqui Ele explica: “Todo aquele que quiser, entre vós, fazer-se grande, que seja vosso serviçal; e qualquer que, entre vós, quiser ser o primeiro, que seja vosso servo” (vv. 26,27). Observe aqui:

1.  Que é dever dos discípulos de Cristo servirem uns aos outros, para a edificação mútua. Isto inclui tanto a humildade como a utilidade. Os seguidores de Cristo devem estar prontos a se submeter aos ofícios de amor mais inferiores para o bem mútuo; devem ser sujeitos uns aos outros (1 Pedro 5.5; Efésios 5.21), para a edificação de uns para com os outros (Romanos 14.19), agradar ao seu próximo para o bem (Romanos 15.2). O grande apóstolo se comportou como servo de todos (veja 1 Coríntios 9.19).

2. A dignidade dos servos de Cristo está relacionada ao fiel cumprimento dessa obrigação. O modo de ser grande, e o primeiro, é ser humilde e servil. Esses serão mais considerados e mais respeitados na igreja, e será assim para todos aqueles que entenderem as coisas de forma correta. Os mais honrados não são aqueles que são dignificados com nomes elevados e poderosos, como os nomes dos grandes na terra, que aparecem em pompa, e assumem para si mesmos um poder proporcional; os mais honrados serão aqueles que forem mais humildes e que mais renunciarem a si mesmos, aqueles que mais planejarem fazer o bem, embora diminuam a si mesmos. Esses honram mais a Deus, e a esses Ele honrará. Assim como o que quer ser sábio deve se fazer de tolo, quem quiser ser o primeiro deverá se comportar como servo. O apóstolo Paulo foi um grande exemplo disso; ele trabalhou mais abundantemente do que todos, tornou-se (como diriam alguns) um escravo do seu trabalho. E ele não é o primeiro? Não o chamamos por unanimidade de “o grande apóstolo”, embora ele se auto denomine o menor entre os menores? E talvez o nosso Senhor Jesus estivesse pensando em Paulo quando disse: “Haverá derradeiros que serão primeiros”; porque Paulo nasceu fora do tempo devido, como um abortivo (1 Coríntios 15.8); ele não foi apenas o filho mais novo da família dos apóstolos, mas, póstumo, tornou-se o maior dentre eles. E talvez fosse para ele que o primeiro posto de honra no reino de Cristo estivesse reservado e preparado por Deus Pai, e não para Tiago e João, que o buscaram. Portanto, antes de Paulo começar a ser famoso como um apóstolo, a Providência o ordenou, de forma que Tiago foi excluído (Atos 12.2), para que, no colegiado dos doze, Paulo pudesse ser o seu substituto.

(2).  Eles devem ser como o próprio Mestre; e é muito apropriado que eles o fossem, pois, enquanto estivessem no mundo, deveriam ser como Ele foi quando estava no mundo. Porque para ambos o estado atual é um estado de humilhação; a coroa e a glória estavam reservadas para ambos no estado futuro. Eles precisavam considerar que “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida em resgate de muitos” (v. 28). O nosso Senhor Jesus aqui se coloca diante dos seus discípulos como um padrão de duas qualidades anteriormente recomendadas: a humildade e a utilidade.

[1]. Nunca houve um exemplo de humildade e condescendência como houve na vida de Cristo, que não veio para “ser servido, mas para servir”. Quando o Filho de Deus entrou no mundo – o Embaixador de Deus para os filhos dos homens -, alguém poderia pensar que Ele deveria ser servido, que deveria ter se apresentado em um aparato que estivesse de acordo com a sua pessoa e caráter; mas Ele não fez isso; Ele não agiu como uma celebridade, Ele não teve nenhum séquito pomposo de servos de Estado para servi-lo, nem se vestiu em túnicas de honra, porque tomou sobre si a “forma de servo”. Ele, na verdade, viveu como um homem pobre, e isto fez parte da sua humilhação. Houve pessoas que o serviram com as “suas fazendas” (Lucas 8.2,3); mas Ele nunca foi servido como um grande homem. Ele nunca tomou a pompa sobre si, não foi servido em mesas, como um dos grandes deste mundo. Jesus, certa vez, lavou os pés dos seus discípulos, mas nunca lemos que eles tenham lavado os pés dele. Ele veio para ajudar a todos quantos estivessem em aflição. Ele se fez servo para os doentes e debilitados; estava pronto para atender aos seus pedidos como qualquer servo estaria pronto para atender à ordem do seu senhor, e se esforçou muito para servi-los. O Senhor Jesus serviu continuamente visando este fim, negando a si até mesmo o alimento e o descanso para cumprir essa tarefa.

[2]. Nunca houve um exemplo de beneficência e utilidade como houve na morte de Cristo, que “deu a sua vida em resgate de muitos”. Ele viveu como um servo, e fez o bem; mas morreu como um sacrifício, e com isso Ele fez o maior bem de todos. Ele entrou no mundo com o propósito de dar a sua vida em resgate; isto estava primeiro em sua intenção. Os aspirantes a príncipes dos gentios fizeram da vida de muitos um resgate para a sua própria honra, e talvez um sacrifício para a sua própria diversão. Cristo não age assim; o sangue daqueles que lhe são sujeitos é precioso para Ele, e Ele não é pródigo nisso (Salmos 72.14); mas, ao contrário, Ele dá a sua honra e a sua vida como resgate pelos seus súditos. Note, em primeiro lugar, que Jesus Cristo sacrificou a sua vida como um resgate. A nossa vida perdeu o direito nas mãos da justiça divina por causa do pecado. Cristo, entregando a sua vida, fez a expiação pelo pecado, e assim nos resgatou. Ele foi feito “pecado” e uma “maldição” por nós, e morreu, não só para o nosso bem, mas “em nosso lugar” (Atos 20.28; 1 Pedro 1.18,19). Em segundo lugar, foi um resgate por muitos. Ele foi suficiente para todos, mas eficaz para muitos; e se foi eficaz para muitos, então diz a pobre alma duvidosa: “Por que não por mim?” Foi por muitos, para que por ele muitos pudessem ser feitos justos. Esses muitos eram a sua semente, pela qual a sua alma sofreu (Isaias 53.10,11). “De muitos”, assim eles serão quando forem reunidos, embora parecessem então um pequeno rebanho.

Então esse é um bom motivo para não disputarmos a precedência, porque a cruz é a nossa bandeira, e a morte do nosso Senhor é a nossa vida. Esse é um bom motivo para pensarmos em fazer o bem, e, em consideração ao amor de Cristo ao morrer por nós, não hesitarmos em “sacrificar as nossas vidas pelos irmãos” (1 João 3.16). Os ministros devem estar mais ansiosos do que os outros para servir e sofrer pelo bem das almas, como o bendito apóstolo Paulo estava (Atos 20.24; Filipenses 2.17). Quanto mais interessados, favorecidos e próximos estivermos da humildade e da humilhação de Cristo, mais prontos e cuidadosos estaremos para imitá-las.

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MATEUS 20: 17-19

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Os Sofrimentos de Cristo São Preditos

Essa é a terceira vez que Cristo dá aos seus discípulos a notícia dos seus sofrimentos que em breve viriam. Ele não iria subir a Jerusalém para celebrar a páscoa, mas para oferecer a grande Páscoa; ambas deviam ser feitas em Jerusalém. Ali “a páscoa deve ser celebrada” (Deuteronômio 12.5), e ali um profeta deve perecer, porque ali se as­ sentava o grande Sinédrio, que eram juízes naquele caso (Lucas 13.33). Observe:

 I – A privacidade dessa predição. Jesus chamou à parte os seus doze discípulos no caminho. Essa foi uma das coisas que lhes foram ditas “em trevas”, mas que eles deveriam depois dizer “em luz” (cap. 10.27). O seu segredo estava com eles, como seus amigos, e isso na sua privacidade. Essa foi uma palavra dura; e se alguém poderia suportá-la, eles poderiam. Eles seriam mais imediatamente expostos ao perigo com Ele. Portanto, era necessário que eles soubessem disso, para que, sendo avisados de antemão, pudessem se preparar. Não era adequado que isso fosse falado publicamente naquele momento:

1. Porque muitos que eram simpatizantes moderados dele iriam, a partir de então, virar-lhe as costas; o escândalo da cruz os teria assustado e eles não o seguiriam mais.

2. Porque muitos que eram simpatizantes ferrenhos dele seriam, a partir de então, impelidos a pegar em armas em sua defesa, e isso poderia ter ocasionado um “alvoroço entre o povo” (cap. 26.5), o que teria sido imputado a Ele como acusação, se lhes tivesse dito publicamente antes. E, além desses métodos estarem totalmente em desacordo com o caráter do seu Reino, que não é deste mundo, o Senhor Jesus nunca apoiou nada que tivesse a tendência de impedir os seus sofrimentos. Esse discurso não foi na sinagoga, ou na casa, mas no caminho, enquanto viajavam. Isto nos ensina que, em nossas andanças ou viagens com os nossos amigos, devemos procurar conversar aquilo que for bom para a nossa edificação. Veja Deuteronômio 16.7.

 II – A predição em si (vv. 18,19). Observe que:

1. Essa é apenas uma repetição daquilo que Ele já havia dito antes (cap. 16.21; 17.22,23). Isto sugere que o Senhor não só via claramente as dificuldades que se colocavam diante de si, mas que o seu coração estava sobre a sua obra sofredora. Isso o encheu, não de temor, de forma a fazê-lo planejar evitá-la – o que poderia ter acontecido -, mas com desejo e expectativa. Ele falava frequentemente de seus sofrimentos, porque era através deles que Ele entraria em sua glória. Bom é para nós pensarmos frequentemente e até falarmos de nossa morte, e dos sofrimentos que, provavelmente, poderemos encontrar até chegarmos à sepultura. E assim, tornando-os mais familiares, eles seriam menos temerosos. Este é um modo de morrermos diariamente, e de tomarmos a nossa cruz diariamente: falarmos diariamente da cruz e da morte. Esta atitude não antecipa nem garante o sofrimento e a morte, pois ambos têm a sua hora certa em nossa vida; porém, os nossos pensamentos e discursos sobre eles se­ riam muito melhores.

2. Ele é mais específico aqui, ao predizer os seus sofrimentos; do que em qualquer outro momento anterior. Ele havia dito (cap. 16.21) que deveria padecer muitas coisas, e ser morto; e (cap. 17.22) que ser ia entregue nas mãos dos homens, e matá-lo-iam; mas aqui ele acrescenta que condená-lo-ão à morte, e o entregarão aos gentios, para que dele escarneçam, e o açoitem, e crucifiquem. Essas coisas são assustadoras, e a previsão certa delas era suficiente para desencorajar uma resolução comum. No entanto (como foi predito a seu respeito, Isaías 42.4), Ele não faltou, nem foi quebrantado; mas quanto mais claramente previa os seus sofrimentos, mais alegremente prosseguiu para encontrá-los. Ele prediz que o fariam sofrer os “príncipes dos sacerdotes e os escribas”; assim Ele havia dito antes, mas aqui acrescenta: “E o entregarão aos gentios”, para que fosse melhor entendido. Porque os príncipes dos sacerdotes e os escribas não tinham poder para matá-lo, nem a crucificação era um método de morte em uso entre os judeus. Cristo sofreu pela maldade tanto dos judeus como dos gentios, porque Ele deveria sofrer pela salvação tanto dos judeus como dos gentios; ambos tiveram uma participação em sua morte, porque Ele deveria reconciliar a ambos através da sua cruz (Efésios 2.16).

3. Aqui, como antes, o Senhor acrescenta a menção de sua ressurreição e de sua glória à menção de seus sofrimentos e morte: “E ao terceiro dia ressuscitará”. Ele ainda apresenta isso:

(1).  Para encorajar a si mesmo em seus sofrimentos, e para prosseguir alegremente através deles. Ele suportou a cruz pela alegria posta diante dele; Ele previu que iria ressuscitar, e ressuscitar rapidamente, ao terceiro dia. Ele logo será glorificado (João 13.32). A recompensa não só é certa, mas está muito próxima.

(2).  Para encorajar os discípulos e confortá-los, pois ficariam chocados e grandemente aterrorizados pelos sofrimentos dele.

(3). Para nos guiar, sob todos os sofrimentos deste tempo presente, mantendo uma perspectiva confiante da glória a ser revelada, olhando para as coisas invisíveis, que são eternas. Isto permitirá que chamemos as aflições atuais de moderadas, e apenas momentâneas.

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MATEUS 20: 1-16 PARTE 2

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A Parábola dos Trabalhadores na Vinha

(2). Aqui está a prestação de contas com os trabalhadores. Observe:

[1]. Quando a conta foi feita; aproximando-se a noite, então, como sempre, os trabalhadores do dia foram chamados e pagos. O período da noite é a hora da prestação de contas; a prestação de contas específica deve ser terminada na noite da nossa vida; porque depois da morte vem o juízo. Os trabalhadores fiéis deverão receber o seu galardão quando morrerem; ele é adiado até então, de forma que eles podem esperar com paciência por ele, porém não mais que isso, porque Deus observará a sua própria regra: “No seu dia, lhe darás o seu salário, e o sol se não porá sobre isso”. Veja Deuteronômio 24.15. Quando Paulo, aquele obreiro fiel, partisse, ele sabia que estaria com Cristo imediatamente. O pagamento não será totalmente adiado até à manhã da ressurreição; mas então, na noite do mundo, será a prestação geral das contas, onde cada um receberá de acordo com as coisas feitas por meio do corpo. Quando o tempo acabar, e com ele o mundo do trabalho e da oportunidade, então começará o estado da retribuição; então o Senhor chamará os trabalhadores e lhes dará a sua paga. Os ministros os chamam para a vinha, para fazerem o seu trabalho; a morte os chama para fora da vinha, para receberem o seu pagamento; e para aqueles que atenderem o chamado para a vinha, o chamado para fora dela será feliz. Eles não vieram para a sua paga até que foram chamados; devemos, com paciência, esperar o tempo de Deus para o nosso descanso e recompensa; devemos andar conforme o relógio do Senhor. A última trombeta, no grande dia, convocará os trabalhadores (1 Tessalonicenses 4.16). Então tu chamarás, disse o servo bom e fiel, e eu responderei. Ao chamar os trabalhadores, eles devem começar pelo último, e assim até o primeiro. Que aqueles que entrarem na hora undécima, não sejam colocados atrás dos demais, mas, para que não sejam desencorajados, sejam chamados primeiro. No grande dia, os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro, depois, nós, os que ficarmos vivos (na hora undécima do seu dia), seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor.

[2]. Qual foi o pagamento; e nisso observe:

Em primeiro lugar, o pagamento geral (vv. 9,10). Cada homem recebeu um dinheiro. Receberão, sem dúvida nenhuma, a vida eterna os que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, e honra, e incorrupção (Romanos 2.7), não como salários pelo valor de seu trabalho, mas como o dom de Deus. Embora haja graus de glória no céu, ele será para todos uma felicidade completa. Aqueles que vêm do Oriente e do Ocidente, e chegarem depois, que forem apanhados nas estradas e limites, se assentarão com Abraão, Isaque e Jacó, no mesmo banquete (cap. 7.11). No céu, todo vaso estará cheio, transbordante, embora os vasos não sejam iguais em tamanho e capacidade. Na distribuição de alegrias futuras, como ocorreu no recolhimento do maná, aquele que colher muito não terá nada sobrando, e o que colher pouco não terá falta de nada (Êxodo 16.18). Todos aqueles que Cristo alimentou miraculosamente, embora tivessem diferentes tamanhos, homens, mulheres e crianças, comeram e ficaram satisfeitos.

O pagamento de salários de um dia inteiro para aqueles que não haviam feito a décima parte do trabalho de um dia tem a finalidade de mostrar que Deus distribui o seu galardão por sua graça e soberania, e não por uma dívida. Os melhores trabalhadores, e aqueles que começam mais cedo, tendo tanto espaço vago em seu tempo, e não tendo os seus trabalhos esgotados diante de Deus, podem verdadeiramente ser considerados como aqueles que trabalham na vinha apenas uma hora dentre as suas doze; mas devido ao fato de estarmos de­ baixo da graça, e não debaixo da lei, até mesmo serviços tão imperfeitos, feitos com sinceridade, não só serão aceitos, mas pela graça gratuita serão ricamente recompensados. Compare Lucas 17.7,8 com Lucas 12.37.

Em segundo lugar, o protesto daqueles que se ofenderam com esta distribuição e partilha. As circunstâncias disso servem para adornar a parábola; mas o objetivo geral é claro, que os derradeiros serão primeiros. Temos aqui:

1. Os ofendidos (vv. 11,12). Murmuravam contra o pai de família; não que haja, ou que possa haver, qualquer insatisfação ou murmuração no céu, porque isso tanto é culpa como tristeza, e no céu não há nenhuma delas; mas pode haver, e frequentemente há, insatisfação e murmuração com relação ao céu e às coisas celestiais, enquanto eles estão em perspectiva e promessa no mundo. Isso significa o ciúme para o qual foram os judeus provocados pela admissão dos gentios no Reino dos céus. Como o irmão mais velho, que na parábola do filho pródigo se queixou da recepção de seu irmão mais novo, e reclamou da generosidade de seu pai para com ele, assim esses trabalhadores reclamaram com o seu senhor, e o acharam injusto, não porque não tivessem o suficiente, mas porque os outros foram igualados a eles. Eles se vangloriaram, como fez o irmão mais velho do filho pródigo, dos seus bons serviços: “Suportamos a fadiga e a calma do dia”; isto era o máximo que eles poderiam fazer. É dito que os pecadores trabalham para o fogo (Hebreus 2.13), ao passo que os servos de Deus, na pior situação, fazem apenas o trabalho sob o sol; não no calor da fornalha de ferro, mas apenas no calor do dia. Agora esses derradeiros trabalharam só uma hora, e também no fresem· do dia; contudo, “tu os igualaste conosco”. Os gentios, que foram chamados por último, possuem os mesmos privilégios dos judeus no reino do Messias; os judeus estavam trabalhando por muito tempo na vinha da igreja do Antigo Testamento, sob o jugo da lei cerimonial, na expectativa desse reino. Há em nós uma maior propensão a pensarmos que temos muito pouco, e que os outros têm demais, quando se trata dos sinais do favor de Deus. Também pensamos que fazemos demais, e os outros, muito pouco, na obra de Deus. Todos nós somos muito aptos a desvalorizar os desertos dos outros, e supervalorizar os nossos próprios. Talvez Cristo aqui tenha dado uma intimação a Pedro, para não se vangloriar demais, como ele parecia fazei por ter deixado tudo para seguir a Cristo; como se tanto ele como os demais tivessem suportado a fadiga e a calma do dia; portanto, talvez pensassem que deveriam ter um céu particular ou diferenciado. É difícil para aqueles que fazem ou sofrem mais do que o comum por amor a Deus, não serem exaltados demais com esse pensamento, e esperarem merecer bênçãos diferenciadas. O bendito apóstolo Paulo se guardou disso; embora fosse o principal dos apóstolos, ele se considerava como nada, como menos do que o menor dos santos.

2. A ofensa removida. Três exortações do pai de família como resposta a essa presunção impertinente.

(1).  Que o queixoso não tinha razão alguma para dizer que lhe foi feita qualquer injustiça (vv. 13,14). Aqui ele declara a sua própria justiça: ”Amigo, não te faço injustiça”. Ele o chama de amigo, porque ao argumentar com os outros devemos usar palavras brandas e argumentos fortes; mesmo que os nossos inferiores sejam irritantes e provocadores, não devemos nos irar, mas falar-lhes calmamente.

[1].  É incontestavelmente verdadeiro que Deus não pode fazer injustiça. Esta é a prerrogativa do Rei dos reis. Porventura, será Deus injusto? O apóstolo se sobressalta com esse pensamento: “De maneira nenhuma!” (Romanos 3.5,6). A sua palavra deveria calar todas as nossas murmurações. A despeito daquilo que Deus nos faça, ou retenha de nós, Ele não nos faz nenhuma injustiça.

[2].  Se Deus der uma graça aos outros, e a negar a nós, será bondade para eles, mas não será nenhuma injustiça para nós. Quando Deus concede a abundância a alguma outra pessoa, e não a nós, não se trata de uma injustiça contra nós; jamais devemos criticar o Senhor. Como a graça é gratuita, e é assim dada àqueles que a têm, vangloriar-se é uma atitude reprovável para sempre. Semelhantemente, se a graça for retida daqueles que não a têm, murmurar será uma atitude reprovável para sempre. Portanto, toda boca deve se calar, e toda carne deve estar em silêncio diante de Deus.

Para convencer o murmurador de que ele não foi injustiçado, o senhor o lembra da negociação: “‘Não ajustaste tu comigo um dinheiro?’ E se tu recebeste o que concordaste, tu não tens nenhuma razão de reclamar in­ justiça; terás o que combinamos”. Embora Deus não seja devedor a ninguém, Ele, no entanto, se agrada de misericordiosamente se fazer um devedor pela sua própria promessa, por cujo benefício, através de Cristo, os crentes concordam com Ele, e ele manterá a sua parte do acordo. Bom é para nós que frequentemente consideremos aquilo em que concordamos com Deus. Em primeiro lugar, as pessoas mundanas e carnais concordam com Deus quando estão em busca de um pagamento desse mundo; eles escolhem a sua porção na vida (Salmos 17.14); nessas coisas, elas estão dispostas a receber o seu galardão (cap. 6.2,5), a sua consolação (Lucas 6.24), os seus bens (Lucas 16.25); e com essas coisas, elas serão afastadas, serão cortadas das bênçãos espirituais e eternas. E assim Deus não lhes faz injustiça; elas têm o que escolheram, o pagamento com que concordaram; esse será o seu destino, que elas mesmas escolheram; será algo conclusivo contra elas. Em segundo lugar, os crentes obedientes concordam com Deus quanto ao seu pagamento no mundo por vir, e eles devem se lembrar de que concordaram com isso. “Não concordaste em levar a Palavra de Deus por isso? Tu concordaste; e irás tu concordar com o mundo? Não concordaste em aceitar o céu como a tua porção, e não aceitar nada menos do que isso? E buscarás tu a felicidade na criatura, ou pensarás que deverias compensar as deficiências de tua felicidade em Deus?”

Ele. portanto:

1. Vincula-o ao seu acordo (v. 14): “Toma o que é teu e retira-te”. Se entendermos essa palavra como estando relacionada ao que é nosso por dívida ou absoluta propriedade, ela seria uma palavra terrível; todos nós estaríamos aquém das expectativas, com algo por fazer, se fôssemos despedidos apenas com aquilo que poderíamos chamar de nosso. A criatura mais elevada deverá ir embora sem nada, se tiver de se retirar somente com aquilo que é seu; mas se entendermos isso como sendo o que é nosso pelo dom, o dom gratuito de Deus, isto nos ensina a estar satisfeitos com as coisas que temos. Em vez de nos queixarmos de que não temos mais, tomemos o que temos, e sejamos agradecidos. Se Deus for melhor aos outros do que a nós em qualquer aspecto, mesmo assim não temos motivo para reclamar, visto que Ele tem sido melhor para nós do que merecemos ao nos dar o nosso pagamento, pois somos servos inúteis.

2. O senhor diz ao servo que aquele a quem ele invejava deveria receber o mesmo que ele: “‘Eu quero dar a este derradeiro tanto como a ti’; estou resolvido a dar”. Note que a imutabilidade dos propósitos de Deus ao distribuir os seus dons deve calar as nossas murmurações. Se Ele quiser fazê-lo, não devemos contestar; pois Ele está de comum acordo, e quem o pode mudar? Ele não presta contas daquilo que lhe diz respeito; nem é próprio que o faça.

(2).  Ele não tinha nenhum motivo para discutir com o senhor; porque o que ele lhe deu era absolutamente o que lhe pertencia (v. 15). Assim como havia anterior­ mente declarado a sua justiça, aqui ele declara a sua soberania: “Não me é lícito fazer o que quiser do que é meu?” Considere:

[1].  Deus é o dono de todos os bens; a sua propriedade nisso é absoluta, soberana e ilimitada.

[2].  Ele pode, portanto, dar ou reter as suas bênçãos, como bem quiser. O que temos não nos pertence; portanto, não nos é lícito fazer o que quisermos com isso; mas o que Deus tem, isso lhe pertence; e isto o justificará. Em primeiro lugar, em todo o uso de sua providência; quando Deus toma de nós aquilo que nos é caro, e que pode­ ríamos utilizar de uma maneira incorreta ou má, devemos calar o nosso descontentamento. Ele não pode fazer o que quiser com o que é seu? Criaturas tão dependentes como nós não devem se queixar de nosso Soberano. Em segundo lugar, em todas as dispensações de sua graça, Deus dá ou retém os meios da graça, e o Espírito da graça, como bem quiser. Não somente que há um conselho em toda vontade de Deus, e o que nos parece ser feito arbitrariamente parecerá, por fim, ter sido feito de forma sábia, e para fins santos. Mas há algo suficiente para calar todas as murmurações e objeções: Deus é o Senhor soberano de tudo, e Ele pode fazer o que quiser do que é seu. Nós estamos em suas mãos, como o barro nas mãos de um oleiro; e não devemos tentar dizer ao Senhor o que Ele deve fazer, nem lutar contra Ele.

(3).  Ele não tinha motivo para invejar o seu conservo, guardar rancor dele, ou se irar por ele não ter vindo para a vinha no mesmo instante, por não ter sido chamado antes. Ele não tinha motivo para se irar com o senhor por ter lhe dado o salário pelo dia todo, quando havia ficado ocioso durante a maior parte do dia. Porque: “É mau o teu olho porque eu sou bom?” Veja aqui:

[1]. A natureza da inveja: “é mau o teu olho”. O olho é a entrada e a saída desse pecado. “Saul tinha Davi em suspeita. Vendo, então, Saul, que tão prudentemente se conduzia, tinha receio dele” (1 Samuel 18.9,15). O olho mau não tem prazer no bem dos outros, e deseja o seu mal. O que pode ter mais maldade em si? Ê tristeza para nós mesmos, ira para Deus, e má vontade para com o nosso próximo; e é um pecado que não tem prazer, nem proveito, nem honra em si; é um mal, um único mal.

[2]. O agravo dele:” porque eu sou bom.” A inveja é o oposto de Deus, que é bom, e faz o bem, e tem prazer em fazer o bem. Ela é uma oposição e uma contradição a Deus; é não gostar de seus procedimentos, e um desgosto pelo que Ele faz e por aquilo com que Ele se agrada. Ê uma violação direta dos dois grandes mandamentos de uma só vez; tanto em relação ao amor de Deus, com cuja vontade devemos concordar, como em relação ao nosso próximo, com cujo bem-estar devemos nos alegrar. Assim, a maldade do homem se vale da bondade de Deus para ser ainda mais pecaminosa.

Em último lugar, aqui está a aplicação da parábola (v. 16), e a observação que a ocasionou (cap. 19.30): “Os derradeiros serão primeiros, e os primeiros, derradeiros”. Houve muitos que seguiram a Cristo então, na regeneração, quando o reino do Evangelho foi primeiramente estabelecido, e esses judeus convertidos parecem ter ganho a dianteira dos outros; mas Cristo, para afastar e calar a vanglória deles, aqui lhes diz:

1. Que eles poderiam ser, possivelmente, superados por seus sucessores em termos de profissão de fé, e, embora estivessem mais adiantados do que os outros quanto a essa profissão de fé, poderiam ser achados inferiores a eles em conhecimento, graça e santidade. A igreja gentílica, que ainda não havia nascido, e o mundo gentílico, que por hora estava ocioso na praça, produziriam um grande número de cristãos eminentes e úteis, muito maior do que aquele que foi encontrado entre os judeus. Cada vez mais excelentes serão os filhos da solitária do que os filhos da casada (Isaias 54.1). Quem sabe a igreja, em sua idade avançada, pode ser mais gorda e próspera do que nunca, para mostrar que o Senhor é reto? O cristianismo primitivo tinha mais pureza e poder como uma santa religião, quando comparado com o que vemos na era degenerada em que vivemos. No entanto, os trabalhadores podem ser enviados para a vinha na hora undécima do dia da igreja, no período de Filadélfia. E quem é capaz de imaginar que efusões abundantes do Espírito podem, então, ser derramadas, em um volume superior às bênçãos espirituais recebidas no passado?

2. Que eles tinham motivo para temer, para que não fossem achados hipócritas no final; porque “muitos são chamados, mas poucos escolhidos”. Isso é aplicado aos judeus (cap. 22.14). Foi assim então, e ainda é verdadeiro; muitos são chamados com um chamado comum, mas não são escolhidos com uma escolha salvadora. Todos aqueles que são escolhidos desde a eternidade são efetivamente chamados, “na plenitude dos tempos” (Romanos 8.30), de modo que para confirmarmos o nosso chamado efetivo, “procuremos fazer cada vez mais firme a nossa vocação e eleição” (2 Pedro 1.10). Mas não é assim quanto ao chamado externo; muitos são chamados, e mesmo assim se recusam a vir (Provérbios 1.24). À medida que são chamados por Deus, retiram-se da presença dele (Oseias 11.2,7). Por essa razão, parece que eles não foram escolhidos, porque os “eleitos o alcançaram” (Romanos 11.7). Há apenas poucos cristãos escolhi­ dos, em comparação com os muitos que são apenas cristãos chamados; portanto, isso nos preocupa. Devemos nos dedicar a edificar a nossa esperança pelo céu sobre a rocha de uma escolha eterna, e não sobre a areia de um chamado externo. E devemos temer, para que não sejamos achados apenas como cristãos em nossa aparência, pois assim estaríamos, realmente, em uma condição de insuficiência. Devemos nos esforçar para não sermos achados como cristãos contaminados, pois assim pareceria que “ficamos para trás” (Hebreus 4.1).