ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 5:1-2

O Sermão da Montanha

Aqui temos uma apresentação geral do sermão.

I – O pregador foi nosso Senhor Jesus, o Príncipe dos pregadores, o grande Profeta da sua igreja, que veio a este mundo para ser a Luz do mundo. Os profetas e João tinham trabalhado vigorosamente na pregação, mas Cristo os superou a todos. Ele é a Sabedoria eterna, que esteve no seio do Pai antes de todos os s éculos, e que conhecia perfeitamente a sua vontade (João 1.18); e Ele é a Palavra eterna que nestes últimos dias falou a nós. As várias curas milagrosas realizadas por Cristo na Galileia, que lemos no capítulo anterior, tiveram a intenção de abrir caminho para este sermão, e deixar as pessoas predispostas a receber instruções de alguém em quem se manifestavam tanto poder divino e tanta bondade, e, provavelmente, este sermão foi o resumo, ou a repetição, do que Ele tinha pregado nas sinagogas da Galileia. As suas palavras eram: ”Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus”. Este é um sermão sobre a primeira parte deste texto, mostrando do que devemos nos arrepender; ele deve modificar tanto o julgamento quanto o procedimento, e aqui o Senhor nos diz de que maneira isto deve ocorrer, em resposta à pergunta (MaIaquias 3.7) “Em que havemos de tornar?”. Posteriormente, Jesus pregou sobre a segunda parte do texto, quando, em diversas parábolas, Ele mostrou como era o Reino dos céus (cap. 13).

II – O lugar foi uma montanha na Galileia. Como em outros aspectos, também neste, o nosso Senhor Jesus estava mal acomodado; Ele não tinha um lugar conveniente onde pregar, corno não tinha um lugar onde repousar a cabeça. Enquanto os escribas e os fariseus tinham a cadeira de Moisés onde se sentar, com toda a comodidade, honra e cerimônia, e ali deturpavam a lei, o nosso Senhor Jesus, o grande Mestre da verdade, é levado ao deserto, e não encontra um púlpito melhor do que aquele fornecido por urna montanha; e não era nenhuma das montanhas sagradas, nem urna das montanhas de Sião, mas uma montanha comum, razão pela qual Cristo dá a entender que não existe distinção de lugares sagrados agora, sob o Evangelho, como havia sob a lei, mas que é a vontade de Deus que os homens orem e preguem em todas as partes, em qualquer lugar, desde que tudo transcorra de forma decente e conveniente. Cristo pregou este sermão, que foi uma explicação da lei, sobre uma montanha, porque sobre uma montanha a lei foi dada; e este sermão também foi uma solene promulgação da lei cristã. Mas observe a diferença: quando a lei foi dada, o Senhor desceu sobre a montanha; agora o Senhor subiu. Naquela ocasião, Ele falou em trovões e relâmpagos; agora, em voz suave; naquela ocasião, recomendou-se às pessoas que mantivessem distância; agora, elas são convidadas a se aproximar. Uma mudança abençoada! Se a graça e a bondade de Deus são (como certamente são) a sua glória, então a glória do Evangelho é a glória maior, pois a graça e a verdade vêm por Jesus Cristo (2 Coríntios 3.7; Hebreus 12.18 etc.). Falou-se de Zebulom e Issacar, duas das tribos da Galileia (Deuteronômio 33.19), que elas “chamarão os povos ao monte”; a este monte somos chamados, para aprender a oferecer sacrifícios de justiça. Agora este era o monte, do Senhor, onde Ele nos ensinou os seus caminhos (Isaias 2.2,3; Miquéias 4.1,2).

III – Os ouvintes eram os seus discípulos, que vieram até Ele; atenderam ao seu chamado, o que se entende comparando Marcos 3.13 e Lucas 6.13. A eles, Ele dirigiu suas palavras, porque eles o seguiram por amor e para o aprendizado, ao passo que os outros o procuravam somente para as curas. Ele os ensinou por­ que eles queriam ser ensinados {“aos mansos ensinará o seu caminho”); porque eles compreenderiam o que Ele ensinava, algo que par a outros poderia parecer não ter sentido. E porque eles deveriam ensinar aos outros, e, portanto, era necessário que eles tivessem um conhecimento claro e distinto destas coisas. Os deveres prescrios neste sermão devem ser conscientemente cumpridos por todos aqueles que desejam entrar neste reino dos céus. Eles devem trabalhar pelo seu estabelecimento, com a esperança de se beneficiarem dele. Mas embora este sermão se destinasse aos discípulos, ele foi ouvido pela multidão; pois foi dito (cap.7.28) que “a multidão se admirou”. Não houve limites ao redor desta montanha, para manter afastadas as pessoas, corno houve no monte Sinai (Êxodo 19.12); pois, por intermédio de Cristo, nós temos acesso a Deus, não somente para falar com Ele, mas para ouvir as suas palavras. Ele também se dirigiu à multidão quando pregou este sermão. Quando a fama dos seus milagres tinha reunido uma grande multidão, Ele aproveitou a oportunidade de uma confluência tão grande de pessoas para instruí-las. Observe é um incentivo para um ministro fiel lançar a rede do Evangelho onde há muitos peixes, com a esperança de que alguns sejam alcançados. A visão de urna multidão dá vida a um pregador, mas ela precisa nascer de um desejo pelo hem da multidão, e não do seu próprio louvor.

 IV – A solenidade do seu sermão é dada a entender pelas palavras “assentando- se”. Cristo pregou muitas vezes ocasionalmente, e por meio de conversas, mas este era um sermão definido, kathi santos aiitoii, em que Ele tinha se colocado de maneira a ser bem ouvido. Ele se sentou como um Juiz, ou um Legislador: Isto sugere a tranquilidade e a serenidade de espírito com que as coisas de Deus devem ser ditas e ouvidas. Ele se sentou, para que as Escrituras fossem cumpridas (MaIaquias 3.3): “E assentar-se-á, afinando e purificando a prata; e purificará os filhos de Levi e os afinará como ouro e como prata”. Ele se assentou “no tribunal, julgando justamente” (Salmos 9.4); pois as palavras que Ele disse irão nos julgar. As palavras “abrindo a boca” são uma perífrase em hebraico, como Jó 3.1. Mas alguns pensam que estas palavras sugerem a solenidade deste sermão; uma vez que a congregação era grande, Ele ergueu a sua voz e falou mais alto do que normalmente. Ele tinha falado muitas vezes por meio dos seus servos, os profetas, e abriu as suas bocas (Ezequiel 3.27; 24.27; 33.22), mas agora Ele abria a sua própria boca, e falava com liberdade, como alguém que tinha autoridade. Um dos antigos observa o seguinte: “Cristo ensinava mesmo sem abrir a sua boca, isto é, por meio da sua vida santa e exemplar”. De fato, Ele os ensinou quando, sendo levado como um cordeiro à morte, não abriu a sua boca. Mas agora Ele a abriu, e ensinou que as Escrituras deveriam se cumprir (Provérbios 8.1,2,6). “Não clama, por ventura, a Sabedoria?… No cume das alturas… os meus lábios se abrirão para a equidade”. Ele os ensinou, de acordo com a promessa (Isaias 54.13): “Todos os teus filhos serão discípulos do Senhor”; devido a este objetivo, Ele capacitou a língua dos eruditos (Isaias 50.4), concedendo-lhes o seu precioso Espírito (Isaias 61.1). Ele os ensinou qual era o mal que eles deveriam detestar e em qual bem eles deveriam perseverar, pois o cristianismo não é uma questão de especulação, mas se destina a regular a disposição das nossas mentes e a tendência das nossas conversas; a era do Evangelho é uma era de correção (Hebreus 9.10); e pelo Evangelho nós devemos ser corrigidos, devemos melhorar a cada dia, tornando-nos bons. A verdade ensinada pelo Senhor Jesus é a verdade que “é segundo a piedade” (Tito 1.1).

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MATEUS 4:23-25

Cristo Prega na Galileia

 Observe aqui:

I – Que pregador habilidoso Cristo era. Ele passou por toda a Galileia, ensinando nas sinagogas e pregando o Evangelho do reino. Entenda:

1.O que Crista falava sobre o Evangelho do reino. O Reino dos céus, isto é, o rei no de graça e glória, é enfaticamente o reino, o reino que estava chegando; o reino que iria sobreviver, que superaria todos os reinos da terra. O Evangelho compreende os estatutos deste reino, contendo o juramento de coroação do Rei, pelo qual Ele se obriga graciosamente a perdoar, proteger e salvar os súditos daquele reino e a procurar a sua honra. Este é o Evangelho do reino; dele, o próprio Cristo foi o pregador, para que a nossa fé no reino possa ser confirmada.

2.Onde Ele pregava. Nas sinagogas. Não apenas ali, mas ali principalmente, porque estes eram os lugares onde a multidão se reunia, onde a sabedoria erguia a sua voz (Provérbios 1.21); porque eram os lugares onde o povo se reunia para a adoração religiosa e ali, esperava-se, a mente do povo estaria preparada para receber o Evangelho; e ali as Escrituras do Antigo Testamento eram lidas, e a sua exposição poderia facilmente introduzir o Evangelho do reino.

3.O empenho que Ele tinha em pregar. Ele passou por toda a Galileia, ensinando. Ele podia ter publicado uma proclamação, convocando todas as pessoas para que viessem até Ele; mas para mostrar a sua humildade, e a condescendência da sua graça, Ele vai até eles; pois Ele espera ser gracioso e vir para buscar e salvar. Josefo disse que havia aproximadamente duzentas cidades e vilas na Galileia, e Cristo visitou todas elas, ou a sua maioria. Ele viajava fazendo o bem. Nunca houve um pregador itinerante assim, tão infatigável, como era Cristo. Ele ia de cidade em cidade, para pedir aos pobres pecadores que se reconciliassem com Deus. Este é um exemplo para os ministros, para que se dediquem a fazer o bem, e para que sejam insistentes e constantes, a tempo e fora de tempo, em pregar a palavra.

II – Que médico poderoso era Cristo! Ele viajava, não se limitando a ensinar, mas também curava. Ele ensinava e curava através da sua palavra, e a exaltava até mesmo acima de seu nome. Ele lhes dava a sua palavra e os curava. Note:

1.Que Ele curou todas as doenças, sem exceção. Ele curou todos os tipos de enfermidades, e todos os tipos de doenças. Existem doenças que são a vergonha dos médicos, sendo obstinadas a todos os métodos que eles podem prescrever. Mas mesmo aquelas foram a glória deste médico, pois Ele curou todas, por mais crónicas que fossem. A sua palavra era um verdadeiro remédio para todos os males.

Três palavras são aqui usadas para dar a entender isto. Ele curava todas as doenças, noson, como cegueira, deficiências físicas, febre, acúmulos de líquidos; todas as enfermidades, ou debilitações, malakian, como fluxos e fraquezas; e todos os tipos de aflições, basanous, como gota, cálculos, convulsões e outras perturbações semelhantes; fosse a doença aguda ou crônica, fosse uma enfermidade aguda ou enfraquecedora, nenhuma delas era terrível demais, nenhuma delas era difícil demais para Ele. Cristo curava a todos proferindo a sua palavra.

Três moléstias, em particular, são especificadas: a paralisia (os paralíticos), que é o maior enfraquecimento do corpo; a loucura (os lunáticos), que é o maior mal da mente; e a possessão demoníaca (os endemoninhados), que é a maior infelicidade e calamidade para o corpo e para a mente; e Cristo as curava, a todas; pois Ele é o Médico soberano, tanto do corpo como da alma, e tem poder sobre todas as doenças.

2.Os pacientes que Ele tinha. Um médico com acesso tão fácil, com um êxito tão garantido, que curava imediatamente, sem sequer um suspense doloroso, ou uma expectativa, ou aqueles remédios dolorosos que são piores que a doença; que curava gratuitamente, e não aceitava pagamentos, não podia evitar ter uma abundância de pacientes. Veja aqui, como as pessoas o procuravam. De todas as partes; grandes multidões vinham, não somente da Galileia e das regiões vizinhas, mas até mesmo de Jerusalém e da Judéia, que ficavam distantes; pois a sua fama per correu toda a Síria, não somente entre os judeus, mas entre as nações vizinhas, que, pelas notícias que agora se espalhavam por todas as partes a seu respeito, estariam preparadas par a receber o seu Evangelho, quando, posteriormente, ele fosse levado a elas. Entende-se que esta era a razão pela qual estas multidões vinham até Ele, porque a sua fama se espalhava de maneira tão abrangente.

3.O mistério que havia nelas. Cristo, ao curar as doenças do corpo, pretendia mostrar que a sua grande missão no mundo era curar as enfermidades espirituais. Ele é o Sol da Justiça, que se levanta com esta cura sob suas asas. Sendo o Transformador dos pecadores, Ele é o Médico das almas, e nos ensinou a chamá-lo assim (cap. 9.12,13). O pecado é a doença, a enfermidade e o tormento da alma; Cristo veio para tirar o pecado, e para curar os pecadores. E as histórias, em particular, das curas que Cristo realizou podem não somente ser aplicadas espiritualmente, como alusões e exemplos, mas, creio eu, têm a intenção de revelar-nos coisas espirituais e de nos mostrar o caminho e o método que Cristo usa para lidar com as almas, na sua conversão e santificação. E estas curas foram registradas, pois se­ riam mais significativas e instrutivas desta maneira; e devem, portanto, ser explicadas e compreendidas para a honra e o louvor daquele glorioso Redentor, que perdoa todos os nossos pecados e que cura todas as nossas enfermidades.

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MATEUS 4: 18-22

Cristo Chama Pedro, André, Tiago e João

Quando Cristo começou a pregar, Ele começou a reunir discípulos, que seriam agora ouvintes, e depois pregadores, da sua doutrina. Eles seriam agora testemunhas dos seus milagres, e no futuro os realizariam. Nestes versículos, temos um relato dos primeiros discípulos que Ele chamou para a sua comunhão.

E este foi um exemplo:

1.De uma chamada eficaz a Cristo. Em toda a sua pregação, Ele fez um chamado geral a toda a nação, mas aqui Ele fez um chamado especial e particular àqueles que lhe foram dados pelo Pai. Devemos observar e admirar o poder da graça de Cristo, possuir a sua Palavra como a vara da sua força, e esperar dele as poderosas influências que são necessárias pana eficácia do chamado do Evangelho. Toda a nação foi chamada, mas estes foram escolhidos, foram resgatados entre todos eles. Cristo se manifestou a eles de uma maneira que Ele não se manifestou ao mundo.

2.Foi um exemplo de ordenação e de indicação ao trabalho do ministério. Quando Cristo, como um professor, estabeleceu a sua grande escola, um dos seus primeiros trabalhos foi indicar auxiliares que seriam empregados no trabalho de instrução. Agora, Ele começava a dar dons aos homens, a colocar o tesouro em vasos terrenos. Este foi um dos primeiros exemplos do seu cuidado pela igreja.

Aqui podemos observar:

I – O lugar onde eles foram chamados: Junto ao mar da Galileia, onde Jesus estava caminhando, pois Cafarnaum se situava próxima àquele mar. A respeito deste mar de Tiberíades, os judeus têm um dito: De todos os sete mares que Deus criou, Ele não escolheu outro que não o mar de Genesaré. Isto se aplica à escolha que Cristo fez dele, para honrá-lo, como Ele frequentemente fazia, com a sua presença e com os seus milagres. Aqui, à margem do mar, Cristo estava caminhando em meditação, como Isaque no campo. Ele foi até ali para chamar os seus discípulos; não foi até a corte de Herodes (pois são poucos os poderosos e nobres que são chamados), nem a Jerusalém, em meio aos principais dos sacerdotes e aos anciãos, mas foi até o mar da Galileia. Certamente Cristo vê o que os homens não veem. Caso contrário, aquele mesmo poder que convocou Pedro e André teria convocado Anás e Caifás, pois para Deus nada é impossível. Mas, como em outros aspectos, no seu discurso e na sua presença, Ele se humilhou e mostrou que Deus tinha escolhido os pobres deste mundo. A Galileia era uma parte remota da nação, os habitantes eram menos educados e refinados, a sua própria linguagem era grosseira para os curiosos, o seu modo de falar mostrava de onde eram. Aqueles que foram escolhidos junto ao mar da Galileia não tinham as vantagens nem o aprimoramento dos galileus mais refinados, mas, ainda assim, para lá Cristo foi, para chamar os seus discípulos, que seriam os primeiros-ministros do estado no seu reino, pois Ele escolhe “as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias”.

II – Quem eles eram. Nós temos o relato do chamado de dois pares de irmãos nestes versículos: Pedro e André, e Tiago e João. Os dois primeiros e, provavelmente, os dois últimos também, tinham conhecido a Cristo anteriormente (João 1.40,41), mas até agora não tinham sido chamados a um relacionamento mais íntimo e frequente com Ele. Observe que Cristo traz as pobres almas gradualmente à comunhão com Ele. Eles tinham sido discípulos de João, e assim eram os mais inclinados a seguir a Cristo. Aqueles que se submeteram à disciplina do arrependimento, darão as boas-vindas às alegrias da fé. Podemos observar, a respeito deles:

1.Que eram irmãos. É uma bênção quando aqueles que são parentes segundo a carne (como o apóstolo fala, Romanos 9.3) são unidos em uma aliança espiritual, Jesus Cristo. É a honra e o consolo para uma casa quando aqueles que são de uma mesma família, são também da família de Deus.

2.Que eles eram pescadores. Sendo pescadores:

 (1) Eram homens pobres; se tivessem tido propriedades ou qualquer mercadoria considerável para o comércio, eles não teriam sido pescadores, embora pudessem ter feito da pesca a sua recreação. Cristo não despreza os pobres, e, portanto, nós também não devemos fazê-lo; os pobres são evangelizados, e a Fonte de honra algumas vezes dá uma honra mais abundante àquele grupo que quase não a tem.

(2) Eram homens iletrados, não criados com livros e literatura, como foi Moisés, que era versado “em toda a ciência dos egípcios”. Às vezes, Cristo decide conceder os dons da graça àqueles que têm menos dons naturais a exibir. Ainda assim, isto não justifica a invasão de homens ignorantes e não qualificados na obra do ministério: não se deve esperar dons extraordinários de conhecimento e expressão, mas algumas habilidades essenciais devem ser obtidas de uma maneira normal, e sem uma quantidade razoável destas ninguém deve ser admitido a este trabalho.

(3) Eram homens de negócios, que tinham sido criados para trabalhar. Observe que a diligência a urna vocação honesta agrada a Cristo, e não representa obstáculo a uma vida santa. Moisés apascentava rebanhos, e Davi cuidava de ovelhas, quando foram chamados a atividades eminentes. As pessoas ociosas estão mais abertas às tentações de Satanás do que aos chamados de Deus.

(4) Eram homens acostumados às dificuldades e aos perigos; o ramo da pesca, mais do que qualquer outro, é trabalhoso e perigoso; os pescadores frequentemente estão molhados e com frio; devem ser vigilantes, e esperar, e trabalhar arduamente, e frequentemente estar em perigo nas águas. Aqueles que aprenderam a suportar dificuldades e a correr riscos, são os mais bem preparados para a comunhão e o discipulado de Jesus Cristo. Os bons soldados de Cristo precisam suportar as dificuldades.

III – O que eles estavam fazendo. Pedro e André estavam, então, lançando suas redes, estavam pescando; e Tiago e João estavam consertando as suas redes, o que era um exemplo da sua atividade e da sua boa administração. Eles não foram pedir ao seu pai dinheiro para comprar novas redes, mas se esforçaram para consertar as velhas. É elogiável fazer com que aquilo que tem os dure o máximo possível. Tiago e João estavam com o seu pai, Zebedeu, prontos para ajudá-lo e tornar o negócio mais fácil para ele. Ê um presságio feliz e esperançoso ver filhos que cuidam dos seus pais, e que lhes são obedientes. Observe:

1.Todos eles estavam empregados, todos muito ocupados, nenhum deles ocioso. Quando Cristo chega, é bom a pessoa ser encontrada ocupada. “Eu estou em Cristo?” É uma pergunta muito importante que devemos fazer a nós mesmos, e, em seguida: “Estou agindo conforme a minha chamada?”.

2.Eles estavam fazendo coisas diferentes. Dois deles estavam pescando, e dois outros estavam consertando suas redes. Os ministros devem estar sempre trabalhando, seja no ensino ou no estudo; eles podem sempre encontrar alguma coisa para fazer, caso contrário será sua própria falha; e consertar as redes é, na hora certa, um trabalho tão necessário quanto pescar.

IV – Qual foi o chamado (v. 19): “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens”. Eles tinham seguido a Cristo antes, como discípulos normais (João 1.37), mas podiam seguir a Cristo e também à sua chamada. Portanto, eles foram chamados a um relacionamento mais íntimo e frequente, e precisaram deixar a sua profissão. Mesmo aqueles que foram chamados para seguir a Cristo, têm necessidade de serem chamados para segui-lo mais de perto, especialmente quando são designados para a obra do ministério. Observe:

1.O que Cristo designava para eles: “Eu vos farei pescadores de homens”; isto faz alusão à sua profissão anterior. Que eles não se orgulhem da nova honra que lhes é designada, pois ainda são apenas pescadores; que eles não tenham medo da nova tarefa que lhes foi designada, pois estão acostumados a pescar e continuam sendo pescadores. Era usual que Cristo falasse de coisas espirituais e celestiais com tais alusões, e com tais expressões, que nasciam das coisas comuns que se ofereciam à sua vista. Davi foi chamado de alimentar ovelhas para alimentar o Israel de Deus; e quando ele se torna rei, trabalha corno um pastor do povo. Observe:

(1) Os ministros são pescadores de homens, não para destruí-los, mas para salvá-los, para levá-los a outro fundamento. Eles devem pescar, não por raiva, por riqueza, por honra ou por uma promoção, não para ganhar algo ou alguém para si mesmos, mas devem lutar pelas almas, para ganhá-las para Cristo. Eles velam por nossa alma (Hebreus 13.17), e não buscam o que é nosso, mas, sim, a nós (2 Coríntios 12.14,16). (2) É Jesus Cristo quem os faz assim: “Eu vos farei pescadores de homens”. É Ele quem qualifica os homens para este trabalho, quem lhes dá a vocação, quem os autoriza a realizá-lo, lhes dá a missão de pescar almas, e lhes dá a sabedoria para conquistar as pessoas. Estes ministros terão conforto no seu trabalho, se estiverem na direção de Jesus Cristo.

2.O que eles devem fazer para conseguir isto: “Vinde após mim”. Eles precisam se dedicar a uma comunhão assídua com Ele, estar continuamente na presença dele e ser urna humilde imitação dele. Devem segui-lo corno seu líder. Observe:

(1) Aqueles a quem Cristo emprega em qualquer serviço para si, primeiramente devem ser adequados e estar qualificados para isto.

(2) Aqueles que pregam a Cristo, primeiramente devem conhecer a Cristo, e aprender com Ele. Como podemos esperar levar o conhecimento de Cristo aos outros, se nós mesmos não o conhecermos bem?

(3) Aqueles que conhecem a Cristo devem ser diligentes e constantes na sua comunhão com Ele, precisam estar constantemente na presença dele. Os apóstolos estavam preparados para o seu trabalho, por acompanharem a Cristo “todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu dentre eles” (Atos 1.21). Não existe um aprendizado comparável àquele que se consegue seguindo a Cristo. Ao servir a Moisés, Josué se tornou o homem adequado para ser o seu sucessor.

(4) Aqueles que querem ser pescadores de homens devem, neste sentido, seguir a Cristo, e fazer o que Ele fazia com diligência, fé e carinho. Cristo é o grande padrão dos pregadores; assim, estes devem procurar ser trabalhadores semelhantes a Ele, e que trabalhem junto com Ele.

V – Qual foi o resultado deste chamado. Pedro e André deixaram imediatamente suas redes (v. 20); e Tiago e João imediatamente deixaram o barco e o seu pai (v. 22); e todos eles o seguiram. Aqueles que desejam seguir a Cristo imediatamente, devem deixar tudo para segui-lo. Cada cristão deve abandonar todas as coisas a que é apegado, amando a Cristo mais do que ao pai ou à mãe (Lucas 14.26, versão NTLHJ, estar preparado para se separar dos seus interesses por amor a Ele, e não do seu interesse por Jesus Cristo; mas aqueles que se dedicam à obra do ministério devem estar, de uma maneira especial, preocupados com a sua separação dos assuntos desta vida para que passam se dedicar integralmente àquela obra, que exige o homem por completo. Agora:

1.Este exemplo do poder do Senhor Jesus nos dá um bom incentivo para confiarmos na suficiência da sua graça. Corno é forte e eficaz a sua palavra! Ele fala, e tudo acontece conforme a sua vontade. O mesmo poder acompanha estas palavras de Cristo: “Vinde após mim”, e acompanha as palavras: “Lázaro, vem para fora”; um poder que desperta a vontade (Salmos 110.3).

2.Este exemplo de docilidade dos discípulos nos dá um bom exemplo de obediência ao comando de Cristo. Note que é uma boa qualidade de todos os servos fiéis de Cristo vir quando são chamados e seguir o seu Messias para onde Ele os levar. Eles não levantaram objeções sobre os seus empregos atuais, suas responsabilidades com suas famílias, as dificuldades do trabalho para o qual eram chamados nem a sua própria inadequação para ele; mas, ao serem chamados, obedeceram, e, como Abraão, saíram sem saber para onde iam, mas sabendo muito bem a quem estavam seguindo. Tiago e João deixaram seu pai: não é dito o que aconteceu com ele; a sua mãe, Salomé, era uma seguidora assídua de Cristo; sem dúvida, o seu pai, Zebedeu, era um crente, mas o chamado para seguir a Cristo foi direcionado aos jovens. A juventude é a idade do aprendizado e do trabalho. Os sacerdotes ministram no auge da sua vida.

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MATEUS 4:12-17

O Início do Ministério de Cristo

Aqui nós temos um relato da pregação de Cristo nas sinagogas da Galileia, pois Ele veio ao mundo para ser um pregador. Ele mesmo começou a anunciar a grande salvação que Ele proporcionou (Hebreus 2.3), para mostrar o quanto o seu coração estava nisto, e o quanto o nosso também deveria estar.

Diversas passagens nos outros Evangelhos, especialmente no de João, supostamente, na ordem da história da vida de Cristo, acontecem entre a sua tentação e a sua pregação na Galileia. A sua primeira aparição, depois da tentação, foi quando João Batista apontou para Ele, dizendo: ”Eis o Cordeiro de Deus” (João 1.29). Depois disto, Ele subiu até Jerusalém, para a Páscoa (João 2), conversou com Nicodemos (João 3), com a mulher samaritana (João 4), e então retornou à Galileia, e ali pregou. Mas Mateus, por ter sua residência na Galileia, começa a sua história do ministério público de Cristo com a sua pregação ali, da qual aqui temos um relato. Observe:

 

I – O tempo. Quando Jesus ouviu que João foi lançado na prisão, ele foi para a Galileia (v. 12). Perceba que os gritos de sofrimento dos santos chegam aos ouvidos de Jesus. Se João está preso, Jesus ouve isto, toma conhecimento disto, e altera o seu curso de acordo com isto. Ele se lembra dos laços e das aflições que sobrevêm ao seu povo. Observe:

1.Cristo não entrou nesta região até ficar sabendo da prisão de João Batista, pois João precisava ter o tempo que lhe tinha sido dado para preparar o caminho do Senhor, antes que o próprio Senhor aparecesse. A Providência sabiamente ordenou que João fosse eclipsado antes que Cristo aparecesse; de outra maneira, a mente das pessoas ficaria dividida entre os dois; umas teriam dito: “eu sigo a João”, e outras: “eu sigo a Jesus”. João deveria ser o precursor de Cristo, e não o seu rival. A lua e as estrelas já não são vistas quando nasce o sol. João tinha realizado o seu trabalho, pelo batismo do arrependimento, e depois já não poderia mais estar em evidência. As testemunhas foram mortas quando terminaram o seu testemunho, e não antes (Apocalipse 11.7).

2.Ele foi até a região imediatamente depois de saber da prisão de João; não apenas para cuidar da sua própria segurança, sabendo que os fariseus da Judéia eram tão inimigos seus quanto Herodes era inimigo de João, mas para atender às necessidades de João Batista, e para edificar sobre a boa fundação que João tinha lançado. Observe que Deus não fica sem as suas testemunhas, e a sua igreja não fica sem os seus líderes. Quando Ele remove um instrumento útil, Ele pode levantar outro, pois tudo está sob o controle do seu Espírito. E se houver um trabalho a realizar, Ele o fará. Moisés, meu servo, está morto, João está na p1isão. Agora, por tanto, levante-se, Josué; levante-se, Jesus.

 

II – O lugar onde Ele pregou. Na Galileia, uma parte afastada do país, que era a mais distante de Jerusalém, considerada com desprezo como sendo rude. Os habitantes daquela região eram homens reconhecidamente robustos e vigorosos, bons para serem soldados, mas não eram homens educados, bons para serem alunos. Para lá Cristo se dirigiu, ali Ele estabeleceu o padrão do seu Evangelho; e nisto, como em outras coisas, Ele se humilhou. Observe:

1.A cidade em particular que Ele escolhe para a sua residência; não foi Nazaré, onde tinha sido criado; não, Ele deixou Nazaré. Há uma menção especial a isto (v. 13). E com bons motivos Ele deixou Nazaré, pois os homens daquela cidade o expulsaram do seu meio (Lucas 4.29). Ele lhes fez a sua primeira oferta dos seus serviços, uma oferta muito justa, mas eles o rejeitaram, e também à sua doutrina, e se encheram de indignação com Ele e com a doutrina; portanto, Ele deixou Nazaré e sacudiu a poeira dos seus pés, como um testemunho contra aqueles que não o quiseram ensinando-lhes. Nazaré foi o primeiro lugar que rejeitou a Cristo, e por isto foi rejeitada por Ele. Observe é justo que Deus remova o Evangelho e os meios da graça do meio daqueles que os desprezam, e que abandone estas pessoas. Cristo não irá permanecer muito tempo onde não for bem-vindo. Infeliz Nazaré! “Se tu conhecesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence! Mas, agora, isso está encoberto aos teus olhos”.

Mas Ele foi habitar em Cafarnaum, que era uma cidade da Galileia, mas muitos quilômetros distantes de Nazaré, que era uma cidade grande e de muitos meios. Diz-se aqui que ela é uma cidade marítima, na costa do mar, não do grande mar, mas do mar de Tiberíades, um corpo de água interior, também chamado de lago de Genesaré. Próxima à foz do Jordão no mar, ficava Cafarnaum, na tribo de Naftali, e vizinha a Zebulom. Para ali Cristo veio, e ali Ele residiu. Alguns pensam que o seu pai, José tinha uma casa ali, outros pensam que Ele conseguiu uma casa, ou pelo menos alojamento, e outros pensam que era mais provável que Ele residisse na casa de Simão Pedro; no entanto, aqui Ele não ficava constantemente, pois Ele viajava fazendo o bem. Mas aqui foi, por algum tempo, o seu quartel-general: o pouco descanso que Ele tinha, era aqui; aqui Ele tinha um lugar, embora não fosse um lugar seu, para reclinar a cabeça. E em Cafarnaum, ao que parece, Ele era bem-vindo, e encontrava melhor acolhida do que em Nazaré. Se alguns rejeitam a Cristo, outros o receberão, e lhe darão boas-vindas. Cafarnaum está contente com aquilo que sobrou de Nazaré. Mesmo que os próprios compatriotas de Cristo não se reunissem, ainda assim Ele seria glorioso. Em outras palavras: “E tu, Cafarnaum, aproveita. Agora estás sendo elevada aos céus; sê prudente e reconhece a ocasião da tua visitação”.

1.A profecia que se cumpriu com isto (vv. 14-16).

É uma citação de Isaías 9.1,2, mas com alguma variação. Naquela passagem o profeta está predizendo uma grande escuridão de aflição e sofrimento que cairia sobre aqueles que desprezaram o Emanuel, e que se abateu sobre as regiões ali mencionadas, quer no seu primeiro cativeiro, sob Ben-Hadad e, que foi tudo, exceto luz (1 Reis 15.20), ou no seu segundo cativeiro, sob os assírios, que foi muito pior (2 Reis 15.29). A punição da nação dos judeus por rejeitar o Evangelho seria mais amarga do que qualquer um dos dois cativeiros (veja Isaias 8.21,22), pois aquele s que foram aprisionados se revigoraram, de alguma maneira, na sua escravidão, e viram novamente urna grande luz (Isaias 9.2). Este é o sentido no livro de Isaías. Mas as Escrituras se cumprem de muitas maneiras, e o evangelista aqui somente assume a última frase, que fala do retorno da luz da liberdade e prosperidade àquelas regiões que tinham estado nas trevas do cativeiro, e a aplica à chegada do Evangelho entre eles.

Os lugares são mencionados no versículo 15. A terra de Zebulom, acertadamente, é tida como estando na costa marítima, pois Zebulom tinha um porto marítimo, e se alegrava com esta saída para o mar (Genesis 49.13; Deuteronômio 33.18). De Naftali, foi dito que ela proferiria palavras formosas (Genesis 49.21), e seria grandemente abençoada (Deuteronômio 33.23), pois dali começou o Evangelho. Palavras realmente formosas que trazem à alma a graça de Deus que satisfaz. A região além do Jordão é mencionada da mesma maneira, pois ali, às vezes, encontramos Cristo pregando, como também na Galileia dos gentios (das nações), a Galileia superior, à qual os gentios recorriam para o comércio e onde se mesclaram com os judeus; o que dá a entender uma bondade reservada aos pobres gentios. Quando Cristo veio a Cafarnaum, o Evangelho chegou a todos estes lugares próximos; estas influências difusoras fizeram o Sol da Justiça se projetar.

Agora, a respeito dos habitantes desses lugares, observe:

(1) A situação em que estavam antes que o Evangelho viesse até eles (v.16): eles estavam nas trevas. Aqueles que estão sem Cristo, estão nas trevas, melhor dizendo, eles são as trevas propriamente ditas; como as trevas que havia sobre a face do abismo. Não, eles estavam na região e sombra da morte, o que dá a entender não apenas uma grande escuridão, pois o túmulo é uma região de escuridão, mas também grande perigo. Um homem que está desesperadamente doente, e que é provável que não se recupere, está no vale da sombra da morte, embora ainda não esteja morto; assim, estas pobres pessoas estavam às margens da destruição, embora ainda não destruídas. E, o que é pior de tudo, estavam acomodadas nesta situação. Assentados, numa atitude constante. Quando nos sentamos, temos a intenção de permanecer; eles estavam nas trevas, e provavelmente continuariam assim, desesperando-se para encontrar a saída. E esta é uma atitude satisfeita; eles estavam nas trevas, e adoravam as trevas. Eles preferiram as trevas à luz; eles eram voluntariamente ignorantes. A sua situação era triste. E esta ainda é a condição de muitas nações grandes e poderosas, que devem ser consideradas dignas de compaixão, e que devem receber as nossas compassivas orações. Mas a condição delas é ainda mais triste, pois elas estão nas trevas em meio à luz do Evangelho. Aquele que está no escuro porque é noite, pode ter certeza de que o sol em breve nascerá; mas aquele que está no escuro porque é cego, não terá seus olhos abertos tão cedo. Nós temos a luz, mas de que isto nos ajudará, se nós não formos luz no Senhor?

(2) O privilégio que eles tiveram, quando Cristo e seu Evangelho vieram até eles, foi um reavivamento tão grande como uma luz eterna pode ser a um viajante surpreendido pela noite. Quando o Evangelho chega, chega a luz; quando ele chega a qualquer lugar, quando ele chega a qualquer alma, ali se faz dia (João 3.19; Lucas 1.78,79). A luz é descobrimento, é orientação; o Evangelho também é assim.

É uma luz grandiosa, significando a clareza e a evidência das revelações do Evangelho; não é como a luz de uma vela, mas como a luz do sol quando está pleno no seu vigor. Grandiosa, em comparação com a luz da lei, cujas sombras agora estão extintas. E uma luz grandiosa, pois revela grandes coisas e tem uma grande consequência; ela durará muito tempo e se espalhará por uma grande extensão. E é uma luz crescente, o que está implícito na expressão “a luz raiou”. Era apenas o nascer do dia, com eles; agora o dia amanheceu, e irá brilhar cada vez mais. O reino do Evangelho, como um grão de mostarda ou a luz da manhã, era pequeno no seu início, foi gradual no seu crescimento. mas é grandioso em sua perfeição.

Observe que a luz raiou para eles. Eles não foram procurá-la, mas foram surpreendidos pelas bênçãos desta graça, desta bondade. Ela veio a eles antes que eles estivessem conscientes, na ocasião determinada, pela vontade daquele que dá ordens à madrugada, e faz com que a alva conheça o seu lugar, até às extremidades da terra (Jó 38.12,13).

 

III – O texto sobre o qual Ele pregava (v. 17): “Desde então”, isto é, a partir da sua chegada à Galileia, à terra de Zebulom e Naftali; a partir de então, Jesus começou a pregar. Ele tinha pregado, antes disto, na Judeia, e tinha feito muitos discípulos, e os tinha batizado (João 4.1); mas a sua pregação não era tão pública e constante como agora tinha começado a ser. A obra do ministério é tão grandiosa e maravilhosa, que é conveniente que seja apresentada em etapas e avanços graduais. A questão com a qual Cristo lidava agora, na sua pregação (e foi realmente o resumo e o conteúdo de toda a sua pregação), era a mesma que João tinha pregado (cap. 3.2): ”Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus”. Pois o Evangelho tem o mesmo conteúdo, mesmo sob as várias dispensações; os mandamentos são os mesmos, e as razões para observá-los são as mesmas. Um anjo vindo do céu não ousa pregar nenhum outro Evangelho (Gálatas 1.8), e irá pregar este, pois este é o Evangelho eterno. “Temei a Deus e dai-lhe glória”, pelo arrependimento (Apocalipse 14.6,7). Cristo demonstrou um grande respeito pelo ministério de João, quando pregou sobre o mesmo tema que João havia pregado antes dele. Através desta atitude, Ele mostrou que João era seu mensageiro e seu embaixador, pois quando Ele mesmo veio desempenhar a missão, ela era a mesma que Ele tinha dado a João. Assim, Deus confirmou a palavra do seu mensageiro (Isaias 44.26). O Filho veio com a mesma missão que os servos tinham vindo (cap. 21.37), procurar frutos, os frutos adequados para o arrependimento. Cristo tinha estado no seio do Pai e poderia ter pregado noções sublimes de coisas divinas e celestiais, que teriam alarmado e divertido o mundo instruído, mas Ele retoma este texto simples e antigo: ”Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus”.

[l] Isto foi o que Ele começou a pregar; esta foi a sua mensagem inicial. Os ministros não devem ter a ambição de apresentar novas opiniões, novos planos, ou cunhar novas expressões, mas devem se contentar com as coisas simples e práticas, com as mensagens que estão próximas de nós, até mesmo na nossa boca ou nosso coração. Assim como João preparou o caminho para Cristo, também Cristo preparou o seu próprio, e abriu caminho para as descobertas posteriores que Ele planejava, com a doutrina do arrependimento. “Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina, conhecerá se ela é de Deus ou se eu falo de mim mesmo” (João 7.17).

[2] Isto Ele pregava constantemente. Aonde quer que Ele fosse, este era o seu assunto, e nem Ele nem seus seguidores jamais reconheceram que isto fosse ultrapassado, como teriam feito os que têm ouvidos inquietos e que gostam de novidades e variedade mais do que daquilo que é verdadeiramente edificante. Observe que aquilo que foi pregado e ouvido antes pode ainda, com grandes benefícios, ser pregado e ouvido outra vez; mas então, deve ser pregado e ainda melhor, e com carinho renovado. O que Paulo tinha dito antes, ele disse novamente, chorando (Filipenses 3.1,18).

[3] Isto Ele pregava como sendo a mensagem do Evangelho. Em outras palavras: “Arrependam-se, revejam os seus caminhos, e voltem-se para si mesmos”. Observe que a doutrina do arrependimento é uma doutrina fundamental do Evangelho. Não somente o

austero João Batista, que era considerado um homem melancólico e triste, mas também o doce e gracioso Jesus, cujos lábios eram como um favo de mel, pregavam o arrependimento; pois é um privilégio indescritível que haja espaço para o arrependimento.

[4] A razão ainda é a mesma. “É chegado o Reino dos céus”; pois ainda não se reconheceria que o reino já tivesse chegado, até o derramamento do Espírito Santo, depois da ascensão de Cristo. João “tinha pregando que o Reino dos céus era chegado há mais de um ano antes desta ocasião; mas agora a ênfase era muito mais forte, agora a salvação estava muito mais próxima (Romanos 13.11). Nós devemos ser mais diligentes no nosso dever, à medida que percebemos que aquele dia vai se aproximando (Hebreus 10.25).

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 4:1-11

A Tentação de Jesus

Aqui temos a história do famoso embate, corpo a corpo, entre Miguel e o dragão, a Semente da mulher e a semente da serpente, ou melhor, a própria serpente. Embate no qual a semente da mulher sofre, ao ser tentada, e assim tem o seu calcanhar ferido; mas a serpente é rapidamente frustrada nas suas tentações, e tem a sua cabeça esmagada. Então, o nosso Senhor Jesus emerge como um Conquistador, e desta forma garante não apenas consolo, mas a conquista, por fim, de todos os seus fiéis seguidores. A respeito da tentação de Jesus, observe:

 I – A ocasião em que isto aconteceu: “Então”, existe uma ênfase nesta palavra. Imediatamente depois que os céus se abriram para Ele, e o Espírito desceu sobre Ele, e Ele foi declarado como sendo o Filho de Deus e Salvador do mundo. As notícias seguintes que ouvimos sobre ele são as de que Ele está sendo tentado; pois então Ele está mais capacitado para combater a tentação. Note que:

  1. Grandes privilégios e sinais especiais da graça divina não nos impedem de ser tentados. Na verdade:
  2. Depois que grandes honras nos são concedidas, de vemos esperar algo que seja humilhante. Veja como Paulo teve um mensageiro de Satanás enviado para esbofeteá-lo, depois de ter estado no terceiro céu.
  3. Normalmente, Deus prepara o seu povo para as tentações antes que elas cheguem. Ele dá forças, de acordo com a época, e, antes de uma tentação difícil, dá um consolo maior do que o usual.
  4. A garantia da nossa filiação é a melhor preparação contra a tentação. Se o precioso e bom Espírito dá testemunho da nossa adoção, isto nos dota de uma resposta a todas as sugestões do espírito maligno, cujo objetivo é nos corromper ou inquietar.

Então, recém-saído de um ritual solene, ao ser batizado, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado. Observe que depois de sermos admitidos à comunhão com Deus, devemos esperar ser assediados por Satanás. A alma enriquecida precisa dobrar a sua vigilância. Quando tiver comido e estiver satisfeito, esteja atento. Então, quando Ele começou a apresentar-se publicamente a Israel, foi quando Ele foi tentado, como nunca tinha sido quando vivia em privacidade. Lembre-se, o diabo tem um ódio particular das pessoas úteis, que não são somente boas, mas inclinadas a fazer o bem, especialmente quando iniciam estas boas atividades. É o conselho do Filho de Siraque (Eclesiástico 2.1): “Meu filho, se tu te apresentares para servir o Senhor, prepara-te para a tentação”. Os jovens ministros devem saber o que esperar, e agir de modo adequado.

 

II – O lugar onde isto aconteceu; no deserto, provavelmente no grande deserto do Sinai, onde Moisés e Elias jejuaram durante quarenta dias, pois nenhuma parte do deserto da Judéia estava tão abandonada aos animais selvagens como se diz que esta área estava (Marcos 1.13). Quando Cristo foi batizado, Ele não foi a Jerusalém, para tornar públicas as glórias que tinham sido depositadas sobre Ele, mas retirou-se para o deserto. Depois da comunhão com Deus, é bom ficar sozinho algum tempo, para não perdermos o que recebemos, em meio à agitação das coisas do mundo. Cristo se retirou para o deserto:

  1. Para seu próprio benefício. O afastamento dá uma oportunidade de meditação e comunhão com Deus; mesmo aqueles que são chamados a uma vida mais ativa precisam ter momentos de meditação, e precisam, primeiro, dedicar frequentemente um tempo a sós com Deus. As pessoas que não conversaram sobre estas coisas secretamente, consigo mesmas, antes de mais nada, não são adequadas para falar sobre as coisas de Deus aos outros, em público. Quando Cristo aparecesse como um Mestre, vindo de Deus, não seria dito sobre Ele: “Ele acaba de chegar de viagem, Ele esteve no exterior e conheceu o mundo”, mas: “Ele acaba de sair do deserto, Ele esteve sozinho conversando com Deus e com o seu próprio coração”. 2. Para dar uma ajuda ao tentador, para que ele pudesse ter um acesso mais fácil a Ele, do que teria em meio a muita gente. Embora a solidão seja urna amiga do bom coração, ainda assim Satanás sabe corno usá-la contra nós. Ai daquele que está sozinho. Aqueles que, com a desculpa de santidade e devoção, se isolam em cavernas e desertos, percebem que não estão fora do alcance dos seus inimigos espirituais, e que ali eles precisam do benefício da comunhão com os santos. Cristo se isolou:

(1) Para tornar a sua vitória ainda mais exemplar. Ele permitiu que o inimigo tivesse o sol e o vento do seu lado, e ainda o frustrou. Ele pode ter dado vantagem ao diabo, pois o príncipe deste mundo não tem nada nele; mas ele tem em nós, seres humanos pecadores, e por isto devemos orar para não sermos levados à tentação, e precisamos ficar longe do caminho do mal.

(2) Para ter uma oportunidade de fazer o melhor de si para poder ser exaltado em sua própria força; pois está escrito: “Eu sozinho pisei no lagar, e dos povos ninguém se achava comigo”. Cristo entrou na luta sem companhia.

 

III – Os preparativos para a tentação foram dois:

  1. Ele foi levado ao combate. Ele não se envolveu deliberadamente nele, mas foi levado pelo Espírito para ser tentado pelo diabo. O Espírito, que desceu como uma pomba sobre Ele, traz mansidão, mas também traz coragem. Note que a nossa preocupação deve ser a de não cair em tentação; mas se Deus, pela sua providência, permitir que passemos por circunstâncias de tentação para o nosso aperfeiçoamento, não devemos julgar isto estranho, mas dobrar a nossa vigilância. Seja forte no Senhor, resista com firmeza na fé, e tudo estará bem. Se confiarmos na nossa própria força, e tentarmos o diabo a nos tentar, estaremos provocando a Deus para nos deixar sozinhos; mas, aonde quer que Deus nos leve, podemos ter esperança de que Ele irá conosco, e nos fará mais que vencedores.

Cristo foi levado a ser tentado pelo diabo, e somente por ele. “Cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência” (Tiago 1.14). O diabo assume o controle e trabalha com sua vítima, mas o nosso Senhor Jesus não possui uma natureza corrompida, e, portanto, foi levado com segurança, sem nenhum temor ou vacilação, como um campeão no campo de batalha, para ser tentado puramente pelo diabo.

A tentação de Cristo é:

(1) Um exemplo da sua própria condescendência e humilhação. As tentações são dardos inflamados, espinhos na carne, bofetadas, provações, lutas, combates, tudo o que caracteriza dificuldades e sofrimentos; portanto, Cristo se submeteu a isto, porque Ele se humilhou em todos os sentidos para ser feito como seus irmãos; assim, Ele deu as costas aos que o feriam.

(2) Uma oportunidade para a confusão de Satanás. Não existe uma conquista ou uma vitória sem um combate. Cristo foi tentado para poder vencer o tentador. Satanás tentou o primeiro Adão, e triunfou sobre ele; mas ele não irá triunfar sempre, o segundo Adão irá derrotá-lo e levar cativo o cativeiro.

(3) Uma questão de consolo para todos os santos. Na tentação de Cristo, percebe-se que o nosso inimigo é sutil, malévolo e muito ousado em suas tentações. Mas apesar disso, percebe-se que ele não é invencível. Embora ele seja um homem fortemente armado, ainda assim, o Capitão da nossa salvação é mais forte do que ele. É um consolo para nós pensarmos que Cristo sofreu, sendo tentado; pois assim nos parece que as nossas tentações, se não cedermos a elas, não são pecados, são somente sofrimentos, e, como tais, podem ser vencidas. E nós temos um Sumo Sacerdote que sabe, por experiência, o que é ser tentado, e que, portanto, é Ele que se compadece carinhosamente dos nossos sentimentos de fraqueza nos momentos de tentação (Hebreus 2.18; 4.15). Mas é um consolo muito maior pensar que Cristo venceu, mesmo sendo tentado, e venceu por nós; o inimigo que enfrentamos não é somente um inimigo derrotado, frustrado e desarmado –  nós temos interesse na vitória de Cristo sobre ele, porque é por meio de Cristo que somos mais que vencedores.

  1. Cristo adotou uma dieta para o combate, como os que lutam, que de tudo se abstêm (1 Coríntios 9.25). Mas Ele superou a todos, pois jejuou por quarenta dias e quarenta noites, em conformidade com o modelo e o exemplo de Moisés, o grande legislador, e de Elias, o grande reformista, no Antigo Testamento. João Batista veio como Elias, no que diz respeito à moral, mas não nos milagres (João 10.41); esta honra estava reservada para Cristo. Cristo não precisava jejuar para mortificação (Ele não tinha desejos corruptos para serem controlados). Ainda assim, Ele jejuou:

(1) Para que assim Ele pudesse se humilhar, e pudesse parecer alguém abandonado, alguém a quem ninguém procura.

(2) Para poder dar a Satanás tanto a oportunidade quanto a vantagem sobre Ele, e desta forma tornar a sua vitória ainda mais exemplar.

(3) Para poder santificar e recomendar o jejum a nós, quando Deus, na sua providência, o exigir, ou quando nós estivermos em situações difíceis, privados do alimento diário, ou quando o jejum for um requisito para a conservação do corpo, ou para o avivamento da oração. Estes são excelentes preparativos para enfrentarmos a tentação. Se as pessoas boas são humilhadas, se precisam dos amigos e de ajuda, isto pode consolá-los: o fato de que o próprio Messias sofreu da mesma maneira. Um homem pode precisar de pão, e ainda assim ser um favorito do céu e estar sob a liderança do Espírito. Quando jejuou os quarenta dias, Ele nunca teve fome; a conversa com o céu substituía a comida e a bebida para Ele, mas, depois, Ele sentiu fome, para mostrar que Ele era verdadeiramente homem; e Ele assumiu as nossas fraquezas naturais, para poder fazer a expiação por nós. O primeiro homem caiu por causa da comida, e desta maneira frequentemente pecamos; por esta razão, Cristo teve fome.

 

IV – As tentações. O que Satanás desejava, com todas as suas tentações, era levar Cristo a pecar contra Deus, e dessa maneira torná-lo eternamente incapaz de ser um Sacrifício pelos nossos pecados. Mas, qualquer que fosse a distorção, o que ele realmente desejava era levar Cristo:

(1) A perder a esperança na bondade do seu Pai.

(2) A suspeitar do poder do seu Pai.

(3) A alienar a honra do seu Pai, entregando-a a Satanás. As duas primeiras tentações pareceram inocentes e nelas se percebe a sutileza do tentador; a última tentação pode parecer até mesmo aceitável. As duas primeiras são tentações ardilosas, e para discerni-las era necessária uma grande sabedoria. A última foi uma tentação forte, e para resistir a ela era necessária uma grande determinação; ainda assim, o diabo foi frustra­ do em todas elas.

1.Ele tentou Cristo com a intenção de levá-lo a perder a esperança na bondade do seu Pai, e a não confiar no cuidado que o seu Pai tinha por Ele.

(1) Veja como aconteceu a tentação (v. 3). O tentador chegou-se a Ele. Observe que o diabo é o tentador, e, portanto, ele é Satanás, um adversário; pois os nossos piores inimigos são os que nos levam a pecar, e são agentes de Satanás, realizando o seu trabalho e executando os seus desejos. Ele é chamado enfaticamente de tentador, porque isto é o que ele foi aos nossos primeiros pais, e ainda o é, e todos os outros tentadores estão trabalhando para ele. O tentador chegou-se a Cristo numa aparência visível, nem terrível nem amedrontadora, como mais tarde, na sua agonia no jardim. Se alguma vez o diabo se transformou num anjo de luz, ele o fez nesta oportunidade, e fingiu ser um anjo bom, um anjo guardião.

Observe a sutileza do tentador, ao unir a sua primeira tentação com o que houve antes, para torná-la mais forte.

[1] Cristo começou a sentir fome, e, portanto, pareceu muito apropriada a proposta de transformar pedras em pão, para o seu necessário sustento. Observe que um dos truques de Satanás é aproveitar- se da nossa condição externa, para instalar o ataque das suas tentações. Ele é um adversário tão vigilante quanto malévolo; e quanto mais inventivo ele é para se aproveitar de nós, mas engenhosos devemos ser para não permitir que ele vença. Quando Jesus começou a sentir fome, no deserto, quando não havia nada para comer, foi quando o diabo o atacou. Note que a necessidade e a pobreza são uma grande tentação para o descontentamento e para a descrença, e para o uso de meios ilegais para o nosso alívio, com a desculpa de que a necessidade não obedece à lei, e com isto se desculpa que a fome rompa paredes de pedra, o que não é desculpa, pois a lei de Deus deve ser mais forte em nós do que as paredes de pedra. Agora contra a pobreza, não por que ela seja um sofrimento e um problema, mas por que ela é uma tentação: “ou que, empobrecendo, venha a furtar”. Por tanto, aqueles que estão em dificuldades precisam dobrar a vigilância. E melhor morrer de fome do que viver e prosperar pelo pecado.

(2] Cristo tinha sido recentemente declarado e reconhecido como o Filho de Deus, e aqui o diabo o tenta a duvidar desta realidade: “Se tu és o Filho de Deus”. Se o diabo não soubesse que o Filho de Deus viria a este mundo, ele não teria dito isto; e se ele não suspeitasse de que esta era Ele, não teria dito isto a Ele, nem se atreveria a dizer isto, se Cristo não tivesse ocultado a sua glória com um véu, e se o diabo não tivesse adotado uma atitude insolente.

Em primeiro lugar: ”Agora você tem uma oportunidade de questionar se é ou não o Filho de Deus; pois se rá possível que o Filho de Deus, que é herdeiro de todas as coisas, esteja passando por tais sofrimentos? Se Deus fosse o seu Pai, Ele não lhe deixa ria passar fome, pois todos os animais do campo pertencem a Ele (Salmos 50.10,12). É verdade que houve uma voz vinda do céu: ‘Este é o Meu Filho amado’, mas certamente isto foi um engano que foi imposto a você, pois ou Deus não é o seu Pai, ou Ele é um Pai muito pouco amável”. Note que:

  1. O maior resultado que Satanás deseja, ao tentar as pessoas boas, é acabar com o relacionamento que elas têm com Deus como Pai, e desta forma eliminar a dependência que elas têm dele, a obrigação que têm para com Ele e a sua comunhão com Ele. O Espírito bom, como o Consolador dos irmãos, dá testemunho de que eles são filhos de Deus. O espírito mau, como o acusador dos irmãos, faz tudo o que pode para abalar este testemunho.
  2. Aflições, necessidades e problemas externos são os maiores argumentos que Satanás usa para levar o povo de Deus a questionar sua filiação. Como se os sofrimentos não pudessem estar de acordo com o amor paterno de Deus, quando realmente provêm do seu amor paterno. Aqueles que podem dizer, como o justo Jó, sabem como responder a esta tentação: “Ainda que ele me mate, nele esperarei; contudo, os meus caminhos defenderei diante dele. Também isto será a minha salvação, porque o ímpio não virá perante ele” (cap. 13.15).
  3. O objetivo do diabo é abalar a fé que temos na Palavra de Deus, e nos levar a questionar a verdade que há nela. Foi assim que ele começou com os nossos primeiros pais: “É verdade, Deus disse isto e aquilo? Claro que não. Deus lhe disse que você é o seu Filho amado? Certamente Ele não disse isto, ou, se disse, não é verdade”. Então nós abrimos passagem para o diabo, quando questionamos a verdade de qualquer palavra que Deus tenha dito; pois o seu objetivo, como o pai da mentira, é opor-se às palavras verdadeiras de Deus.
  4. O diabo realiza os seus desígnios, em grande parte, infiltrando nas pessoas pensamentos maus sobre Deus, como se Ele fosse cruel ou infiel, e tivesse abandonado ou esquecido aqueles que se entregaram completamente a Ele. Ele se esforçou para produzir nos nossos primeiros pais a noção de que Deus lhes tinha proibido a árvore da ciência porque Ele não queria lhe dar os seus benefícios; e, da mesma maneira, ele aqui insinua ao nosso Salvador que o seu Pai o tinha abandonado e deixado vagar por si mesmo. Mas veja como esta ideia era irracional, e com que facilidade ela é respondida. Se Cristo parecia ser agora um mero homem, porque sentia fome, por que Ele não confessou ser mais do que um homem, e até mesmo ser o Filho de Deus, se durante quarenta dias Ele tinha jejuado, sem sentir fome?

Em segundo lugar: ”Agora você tem uma oportunidade de mostrar que é o Filho de Deus. ‘Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras’ (provavelmente havia uma pilha delas diante dele) ‘se tornem em pães ‘ (v. 3). João Batista tinha dito recentemente que mesmo das pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão; um poder divino pode, portanto, sem dúvida, das pedras produzir alimento para estes filhos. “Se você tem este poder, exerça-o agora, nesta hora de necessidade, para si mesmo”. Ele não disse: “Ore ao teu Pai para que Ele as transforme em pão”, mas ordena que isto se faça. “O teu Pai te abandonou, organiza-te tu mesmo e não dependas dele”. O diabo não é a favor de nada que seja humilhante, mas de tudo o que é arrogante; e ele consegue o que quer, se conseguir apenas retirar os homens da dependência que têm de Deus, e dotá-los de uma opinião de sua autossuficiência.

(2) Veja a maneira como esta tentação foi resistida e vencida.

(l) Cristo se recusou a acatá-la. Ele não ordenou que as pedras se transformassem em pão. Não porque não pudesse fazê-lo. O seu poder, pouco tempo depois disto, realizaria algo que era equivalente a transformar pedras em pão, mas Ele não o fez agora. E por que não o fez

  1. A primeira vista, a coisa parece ser suficientemente justificável, e a verdade é que, quanto mais plausível uma tentação seja, e quanto mais aparência do bem exista nela, mais perigosa ela será. Esta questão trazia uma disputa, mas Cristo estava ciente da “serpente que havia na relva”, e não fez nada, em primeiro lugar, que parecesse questionar a verdade da voz que Ele tinha ouvido do céu, ou que o colocasse numa nova tentação que já estava definida. Em segundo lugar, Ele não fez nada que parecesse falta de confiança nos cuidados do seu Pai para com Ele, ou que o limitasse a uma maneira particular de cuidar dele. Em terceiro lugar, Ele não fez nada que parecesse que estava cuidando de si mesmo e sendo o seu próprio provedor. Nem, em quarto lugar, que parecesse agradar a Satanás, fazendo algo de acordo com a sua sugestão. Alguns teriam dito que dar ao diabo o que lhe compete é um bom conselho; mas para aqueles que confiam em Deus, considerar o que o diabo diz é mais do que lhe compete; é como consultar o deus de Ecrom, quando existe um Deus em Israel.

[2] Ele estava preparado para responder à tentação (v. 4). Ele respondeu, dizendo: “está escrito”. Deve-se observar que Cristo respondeu e frustrou todas as tentações de Satanás com este “Está escrito”. Ele mesmo é a Palavra eterna, e poderia ter realizado a vontade de Deus sem ter de recorrer aos escritos de Moisés; mas Ele honrou as Escrituras, e, para nos dar um exemplo, apelou ao que estava escrito na lei, e diz isto a Satanás, supondo que ele sabe suficientemente bem o que está ali escrito. É possível que aqueles que são filhos do diabo possam saber muito bem o que está escrito no livro de Deus. Os demônios creem e estremecem. Devemos adotar este método quando, em qualquer ocasião, formos tentados a pecar; devem os resistir e rejeitar a tentação com “está escrito”. A Palavra de Deus é a espada do Espírito, a única arma ofensiva de todo o arsenal cristão (Efésios 6.17); e em nossos conflitos espirituais, podemos dizer sobre ela como Davi falou sobre a espada de Golias: “Não existe espada melhor do que essa” (1 Samuel 21.9, ver são NTLH).

Esta resposta, como as outras, é extraída do livro de Deuteronômio, que significa a segunda lei, e na qual há muito pouco cerimonial. Os sacrifícios e as purificações dos levitas não puderam afastar Satanás, embora fossem de instituição divina, e muito menos a água benta e o sinal da cruz, que são de invenção humana: mas os preceitos morais e as promessas evangélicas, mesclados com a fé, estes são poderosos, em Deus, para a derrota de Satanás. Aqui há uma citação de Deuteronômio 8.3, onde a razão pela qual Deus alimentava os israelitas com maná é o fato de que Ele os ensinava que o homem não pode viver somente de pão. Isto Cristo aplica ao seu próprio caso. Israel era o filho de Deus, que Ele libertou do Egito (Oseias 11.1), e também Cristo era Filho de Deus (cap. 2.15). Israel estava, na ocasião, em um deserto. Cristo também estava em um deserto agora, talvez fosse o mesmo deserto. Agora, em primeiro lugar, o diabo teria feito Cristo questionar a sua filiação, porque estava em dificuldades. Não, diz Ele, Israel era filho de Deus, e um filho a quem Ele muito amava e cujos hábitos Ele tolerava (Atos 13.18); e apesar disto, Ele os conduziu às dificuldades, e então (Deuteronômio 8.5), “como um homem castiga a seu filho, assim te castiga o Senhor, teu Deus”. Cristo, sendo o Filho, aprendeu a obediência. Em segundo lugar, o diabo o teria feito deixar de confira no amor e nos cuida dos do seu Pai. “Não”, diz Ele, “isto seria fazer o que Israel fez, quando estava em necessidade, ou seja, questionar: ‘Está o Senhor no meio de nós’, e: ‘Poderá Deus… preparar-nos uma mesa no deserto? Ele poderá dar-nos pão?”‘ Em terceiro lugar, o diabo teria levado Cristo, quando começou a sentir fome, a imediatamente procurar alimento; ao passo que Deus, com seus objetivos sábios e santos, fez Israel sofrer a fome antes de lhes dar alimento. Ele os humilhou e os colocou à prova. Deus quer que os seus filhos, quando em necessidade, não apenas confiem nele, mas que esperem nele. E m quarto lugar, o diabo teria feito Cristo se alimentar com pão. “Não”, diz Cristo, “que necessidade há disso? Já ficou determinado há muito tempo, e foi provado incontestavelmente, que o homem pode viver sem pão, pois Israel, no deserto, viveu quarenta anos somente com o maná”. E verdade, Deus, em sua providência, pode normalmente sustentar os homens com o pão produzido na terra (Jó 28.5); mas Ele pode, se assim o desejar, fazer uso de outros meios para conservar vivos os homens. Qualquer palavra saída da boca de Deus, qualquer coisa que Deus ordene e indique para este fim, será um sustento para o homem, tão bom quanto o pão, e irá sustentá-lo também. Pois podemos ter pão e não ser alimentados, se Deus nos negar a sua bênção (Ageu 1.6,9; Miquéias 6.14) ; pois embora o pão seja a base da vida, a bênção de Deus é a base do pão, de modo que podemos precisar de pão e, ainda assim sermos alimentados de alguma outra maneira. Deus sustentou Moisés e Elias sem pão, e ao próprio Cristo, durante quarenta dias. Ele sustentou Israel com o pão do céu, o alimento dos anjos. Elias, com o pão milagrosamente enviado por corvos, e em outra ocasião, com a refeição da viúva, milagrosamente multiplicada. Portanto, Cristo não precisava transformar pedras em pães, mas sim confiar que Deus o manteria vivo de alguma outra maneira, agora que Ele sentia fome, da mesma maneira como Ele o tinha feito durante quarenta dias, antes que Ele sentisse fome. Assim como na nossa grande abundância não devemos pensar que vivemos sem Deus, da mesma maneira, nas nossas grandes dificuldades, nós devemos aprender a confiar em Deus. E quando a figueira não der frutos, e os campos não produzirem alimento, quando todos os meios normais de auxilio e ajuda deixarem de existir, ainda assim devemos nos alegrar no Senhor. Então, não devemos pensar em fazer o que quisermos, contrariamente às suas ordens, mas humildemente orar pelo que Ele considera adequado nos dar, e sermos gratos pelo pão do nosso sustento, ainda que seja pouco. Devemos aprender, com Cristo aqui, a confiar em Deus, e não em nós mesmos, e a não enveredarmos por nenhum caminho irregular para o nosso sustento, quando as nossas necessidades forem extremamente urgentes (SaImos 37.3). De uma maneira ou de outra, o Senhor proverá. Ê melhor viver modestamente, com os frutos da bondade de Deus, do que viver com abundância dos produtos do nosso próprio pecado.

  1. O diabo tentou Jesus a presumir sobre o poder e a proteção do seu Pai. Veja que adversário incansável é o diabo! Se ele fracassa em um ataque, ele tenta outro.

Neste segundo ataque, podemos observar:

(1) Qual foi a tentação, e como foi conduzida. Em geral, encontrando Cristo tão confiante no cuidado que o seu Pai tem com Ele, em termos de nutrição, o diabo tenta levá-lo a confiar nestes cuidados em termos de segurança. Observe que nós corremos o risco de perder o nosso rumo, tanto à direita como à esquerda, e, portanto, precisamos prestar atenção para que, quando evitarmos um extremo, não sejamos levados, pelos truques de Satanás, a correr para o outro; para que, superando a nossa abundância, não caiamos na cobiça. Nenhum extremo é mais perigoso do que os do desespero e da arrogância, especialmente nas questões das nossas almas. Alguns que obtiveram uma convicção de que Cristo é capaz de salvá-los de seus pecados, e está disposto a fazer isto, são tentados a confiar que Ele os salvará dos seus pecados. Assim, quando as pessoas começam a se tornar zelosas pela religião, Satanás as leva ao fanatismo e a atitudes desenfreadas.

Nesta tentação, podemos observar:

[1] Como ele abriu caminho para ela. Ele levou a Cristo, não pela força, contra a sua vontade, mas o levou a Jerusalém, indo com Ele. Se Cristo foi pelo chão, e depois subiu as escadas até o topo do Templo, ou se foi pelo ar, não se sabe; mas Ele foi colocado sobre um pináculo, ou torre espiral. Sobre o santuário (dizem alguns), sobre as ameias ou seteiras (dizem outros), sobre as asas do Templo. Agora, observe, em primeiro lugar, o quão submisso Cristo estava ao plano de Deus Pai, sujeitando-se a ser levado assim, para permitir que Satanás realizasse o seu trabalho procurando derrotá-lo. A paciência de Cristo aqui, como também posteriormente, nos seus sofrimentos e na sua morte, é mais maravilhosa que o poder de Satanás ou os seus truques; pois nem ele nem seus truques poderiam ter qualquer poder sobre Cristo, exceto o que lhe tinha sido concedido do céu. Como é consolador que Cristo, ao permitir que este poder de Satanás lutasse contra si mesmo, não o permita, de igual maneira, sobre nós, mas o restrinja, pois Ele conhece a nossa estrutura! Em segundo lugar o quão sutil estava o diabo, na escolha da ocasião para as suas tentações. Pretendendo solicitar a Cristo uma ostentação do seu próprio poder, e uma atitude inútil de vanglória sobre a providência divina, ele o coloca no alto de um lugar público em Jerusalém, uma cidade muito habitada, e a alegria da terra inteira; no Templo, uma das maravilhas do mundo, continuamente olhada com admiração por muitos. Ali, Jesus poderia se fazer admirável, e ser notado por todos, e provar ser o Filho de Deus; não como Ele tinha sido convidado na tentação anterior, na obscuridade de um deserto, mas diante de multidões, no alto do lugar mais eminente.

Observe:

  1. Que Jerusalém aqui é chamada de Cidade Santa; pois ela o era, em nome e em profissão de fé, e havia nela uma semente sagrada, que era o seu conteúdo. Observe que não há no mundo uma cidade tão santa para nos isentar e nos proteger do diabo e de suas tentações. O primeiro Adão foi tentado no jardim sagrado, o segundo, na Cidade Santa. Portanto, não devemos, em nenhum lugar, aliviar a nossa vigilância. Não, a Cidade Santa é o lugar onde o diabo, com grande vantagem e êxito, tenta os homens ao orgulho e à arrogância; mas, bendito seja Deus, na Jerusalém celestial, naquela cidade santa, nenhuma impureza entrar á. Ali estaremos, para sempre, Livres da tentação.
  2. Que ele o colocou sobre o pináculo do Tempo, que (conforme Josefo descreve Antiq., liv. 15, cap. 14) era tão alto que poderia produzir vertigens à cabeça de um homem que do seu cume olhasse para baixo.

Note que os pináculos dos templos são lugares de tentação. Quer dizer:

(1) Os lugares altos o são; eles são lugares instáveis; o progresso no mundo torna o homem um alvo fácil para onde Satanás dirige os seus dardos. Deus traz os homens ao chão, para que eles possam se erguer; o diabo os leva para o alto, para poder lançá-los ao chão. Portanto, aqueles que prestam atenção à queda, devem prestar atenção à subida.

(2) Os lugares altos na igreja são, de uma maneira especial, perigosos. Aqueles que se sobressaem em dons, que estão em posições eminentes, que conquistaram grande reputação, precisam se conservar humildes, pois Satanás com certeza os fará seus alvos, os encherá de orgulho para que possam cair na condenação do diabo. Aqueles que estão no alto devem se preocupar em perseverar, e permanecer firmes.

[2] A maneira como ele fez a motivação: ‘”Se tu és o Filho de Deus’, prove isto perante o mundo, e prove a si mesmo, ‘lança-te daqui abaixo”‘. “Então”, em primeiro lugar você será admirado, como se estivesse sob a proteção especial do céu. Quando eles virem que você não se feriu numa queda de uma altura como esta, eles dirão” (corno os bárbaros disseram sobre Paulo) ” que você é um Deus”. Diz a tradição que Simão Magno quis provar desta mesma maneira que era um deus, mas as suas pretensões não foram provadas, pois ele caiu e se feriu terrivelmente. “Não”, em segundo lugar, “você será recebido como tendo vindo com urna missão especial do céu. Toda Jerusalém irá ver e reconhecer não somente que você é mais do que um homem, mas que você é aquele Mensageiro, aquele Anjo da Aliança, que de repente viria ao Templo (Malaquias 3.1) e dele desceria às ruas da cidade santa; e assim o trabalho de convencer os judeus seria reduzido e realizado em pouco tempo”.

Note que o diabo disse: “Lança-te daqui abaixo”. O diabo não podia lançá-lo, embora não fosse necessário muito para fazê-lo, do topo de uma torre espiral. Observe que o poder de Satanás é um poder limitado; consequentemente, ele fará as suas investidas, mas não poderá fazer tudo o que quiser. Ainda assim, se o diabo o tivesse lançado do topo da torre, não teria conseguido

o seu intento; poderia haver até mesmo sofrimento, apenas, e não pecado. Lembre-se, qualquer prejuízo ou dano real que seja feito a nós, será nossa própria obra; o diabo somente pode nos persuadir, ele não pode nos obrigar. Ele somente pode dizer: “Lança-te daqui abaixo”. Ele não pode nos lançar. “Cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência”, e não forçado, mas atraído. Portanto, não firamos a nós mesmos, e, bendito seja Deus, ninguém mais conseguirá nos ferir (Provérbios 9.12).

[3] A maneira como ele fundamentou o seu convite com uma passagem das Escrituras. “Por que está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito”. Mas Saul também está incluído entre os profetas? E Satanás tão conhecedor das Escrituras, a ponto de ser capaz de citá-las tão prontamente. Aparentemente, sim. Observe que é possível que um homem tenha a sua cabeça cheia de noções das Escrituras, e a sua boca cheia de expressões das Escrituras, ao passo que o seu coração está cheio de inimizade reinante contra Deus e toda a divindade. O conhecimento que os demônios têm das Escrituras aumenta tanto a sua disposição para a maldade como para o tormento. O diabo jamais falou com mais vexame e irritação sobre si mesmo do que quando disse a Cristo: “Bem sei quem és”. O diabo iria persuadir Cristo a lançar-se para baixo, esperando que Ele pudesse ser o seu próprio assassino, e este seria o final dele e da sua missão – que Satanás via com olhos invejosos. Par a incentivá-lo a fazer isto, ele lhe diz que não haveria perigo, que os bons anjos o protegeriam, pois esta era a promessa (Salmos 91. 11): “aos seus anjos dará ordem a teu respeito”. Nesta citação:

Em primeiro lugar, havia uma coisa correta. É verdade, existe esta promessa de ministério dos anjos, para a proteção dos santos. O diabo sabe disto por experiência, pois ele descobre que os seus esforços contra os santos são infrutíferos, e ele se irrita com isto, como fez no caso de Jó, de quem ele fala com tanta sensatez (Jó 1.10). Ele também estava certo ao aplicar isto a Cristo, pois a Ele pertencem, básica e eminentemente, todas as promessas de proteção dos santos, e a estes, por meio dele. Aquela promessa, de que nenhum dos seus ossos se quebraria (SaImos 34.20), se cumpriu em Cristo (João 19.36). Os anjos guardam os santos por amor a Cristo (Apocalipse 7.5,11).

Em segundo lugar, havia muita coisa errada. E talvez o diabo tivesse um ódio particular contra esta promessa, e a tivesse distorcido, porque ela frequentemente o atrapalhava, e frustrava os seus ardilosos desígnios contra os santos. Veja aqui:

  1. A maneira como ele a citou mal, e isto foi ruim. A promessa é: “Eles te guardarão”; mas como? “Em todos os teus caminhos”; de nenhuma outra maneira; se sairmos do nosso caminho, do caminho do nosso dever, perdemos a promessa e nos colocamos fora da proteção de Deus. Estas palavras eram contrárias ao tentador, e por isto ele, ardilosamente, a excluiu da sua citação. Se Cristo se lançasse para baixo, Ele teria saído do seu caminho, pois Ele não tinha ordens de se expor desta maneira. É bom que nós, em todas as ocasiões, consultemos as próprias Escrituras, e não confiemos nas sugestões, para que elas não nos sejam impostas por aqueles que mutilam e deformam a Palavra de Deus. Nós devemos fazer como os nobres de Bereia, que liam diariamente as Escrituras.
  2. A maneira como ele aplicou mal a citação, e isto foi pior. As Escrituras são mal-usadas quando a questão é ser condescendente com o pecado, e quando os homens, consequentemente, a corrompem no caso da sua própria tentação, eles o fazem para a sua própria destruição (2 Pedro 3.16). Esta promessa é firme, e é boa; mas o diabo fez um mau uso dela, quando a usou como um incentivo para confiar nos cuidados divinos. Observe que não é novidade que alguns tentem transformar a graça de Deus em brincadeira, nem que os homens se incentivem a pecar depois que descobrem a boa vontade de Deus com relação aos pecadores. Mas nós “permaneceremos no pecado, para que a graça seja mais abundante”? Vamos nos lançar par a baixo, para que os anjos possam nos segurar? De maneira nenhuma.

(2) A maneira como Cristo venceu esta tentação. Ele resistiu a ela, e a venceu, assim como tinha feito com a primeira, com a expressão “está escrito”. O mau uso que o diabo faz das Escrituras não impediu que Cristo as usas­ se bem, mas Ele aqui insiste (Deuteronômio 6.16): “Não tentareis o Senhor, vosso Deus”. O significado disto não é: “Portanto, vocês não devem me tentar”, mas sim: “Portanto, Eu não devo tentar o meu Pai’. Na passagem citada, a referência está no plural: “Não tentarás”. Aqui, está no singular: “Não tentareis”. Observe que somos suscetíveis a conseguir o bem pela Palavra de Deus, quando ouvimos e recebemos promessas gerais como dirigidas a nós em particular. Satanás disse: “Está escrito”; Cristo diz: “Está escrito”. Isto não significa que uma passagem das Escrituras contradiga a outra. Deus é um, e a sua palavra é única, e Ele é uma única mente, mas aquela é uma promessa, isto é, um preceito, e, portanto, há que se explicar e aplicar estas coisas; pois as Escrituras são os melhores intérprete s das próprias Escrituras; e aqueles que profetizam, que expõem as Escrituras, devem fazê-lo de acordo com a proporção da sua fé (Romanos 12.6), e de modo coerente com a santidade prática.

Se Cristo se lançasse para baixo, isto seria tentar a Deus:

[1] Pois estaria exigindo uma confirmação daquilo que já tinha sido bem confirmado. Cristo estava bastante satisfeito com o fato de Deus ser o seu Pai, e cuidar dele, e dar aos seus anjos uma missão a respeito dele. Por tanto, fazer uma nova experiência seria tentá-lo, como os fariseus tentaram a Cristo, quando, tendo tantos sinais na terra, exigiram um sinal do céu. Isto seria limitar o Santo de Israel.

[2] Pois estaria exigindo uma proteção especial para Ele, ao fazer algo que Ele não tinha sido chamado para fazer: Se nós esperarmos que, por Deus ter prometido não nos abandonar, Ele deve nos acompanhar mesmo se sairmos da nossa obrigação; se esperarmos que, por ter prometido satisfazer as nossas necessidades, por isto Ele deve nos mimar e nos conceder os nossos caprichos; se esperarmos que, por ter Ele prometido nos proteger, nós podemos voluntariamente nos expor aos perigos e esperar o fim desejado, sem o uso dos fins indicados, isto é arrogância, isto é tentar a Deus. E o fato de Ele ser o Senhor nosso Deus agrava o pecado; é um abuso do privilégio que desfrutamos, de tê-lo como nosso Deus. Ele já nos incentivou a confiar nele, mas seremos extremamente ingratos, se o tentamos; isto é contrário ao nosso dever para com Ele, corno nosso Deus. Isto é afrontar aquele a quem nós devemos honrar. Observe que não devemos prometer a nós mesmos nada além daquilo que Deus nos prometeu.

3.O diabo tentou Jesus à mais obscura e horrenda idolatria, com a oferta dos reinos do mundo e a sua glória. E aqui podemos observar:

(1) A maneira como o diabo dá este incentivo ao nosso Salvador (vv. 8,9). A pior tentação ficou reservada para o final. Observe que algumas vezes o último encontro dos santos é com os filhos de Anaque, e o último ataque é o mais amargo. Portanto, qualquer que seja a tentação que nos sobrevenha, ainda assim devemos nos preparar para o pior, devemos estar armados para todos os ataques com a armadura da justiça na mão direita e na esquerda.

Nesta tentação, podemos observar:

[1] O que ele mostrou a Cristo – “todos os reinos do mundo”. Para fazer isto, ele o levou a um monte muito alto. Esperando ser o vencedor, como Balaque com Balaão, ele mudou o seu território. O pináculo do Templo não é suficientemente alto; o príncipe das potestades do ar deve levá-lo ainda mais alto nos seus territórios. Alguns pensam que este alto monte estava do outro lado do Jordão, porque é ali que encontram os Cristo pouco depois da tentação (João 1.28,29). Talvez fosse o monte Pisga, onde Moisés, em comunhão com Deus, contemplou todos os reinos de Canaã. Até aqui, o bendito Jesus teve ao seu lado uma grande esperança, como se o diabo pudesse lhe mostrar mais sobre o mundo do que Ele já conhecia, Ele que o tinha criado e o governava. Daquele lugar, Ele poderia contemplar a localização de alguns dos reinos próximos à Judéia, embora não a glória destes reinos; mas sem dúvida havia uma trapaça e uma ilusão de Satanás nisto. É provável que aquilo que ele mostrou a Cristo não passasse de uma paisagem, de uma representação em uma nuvem, do modo como o grande enganador podia facilmente juntar, apresentar, em cores adequadas e vivas, as glórias e as magníficas aparências dos príncipes, suas roupas e coroas, seus séquitos, sua bagagem e seus guarda-costas; a pompa dos tronos, e das cortes, e dos palácios luxuosos, os suntuosos edifícios nas cidades, os jardins e os campos próximos, com vários exemplos de riqueza, prazer e satisfação, que pudessem despertar a imaginação e excitar a admiração e o afeto. Assim foi esta exibição, e o fato de levá-lo até um monte alto tinha o único objetivo de ajudar e disfarçar o engano, ao qual o bendito Jesus não se deixou submeter, mas enxergou a realidade que estava por trás da trapaça, só permitindo que Satanás o fizesse à sua maneira para que a sua vitória sobre o maligno pudesse ser ainda mais exemplar. Consequentemente, observe, a respeito das tentações de Satanás, que, em primeiro lugar, elas vêm aos olhos, que estão cegos à s coisas que deviam ver, e maravilhados pelas tolices de que deveriam se afastar. O primeiro pecado começou através dos olhos (Genesis 3.6). Portanto, precisamos fazer um concerto com os nossos olhos, e orar para que Deus os afaste da contemplação às tolices. E m segundo lugar, as tentações normalmente nascem no mundo, e nas coisas que nele há. A concupiscência d a carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida são os pontos de onde o demônio produz a maioria dos seus argumentos. Em terceiro lugar, isto é um grande engano que o diabo coloca sobre as nossas pobres almas, nas suas tentações. Ele engana, e assim, destrói. Ele impõe sobre os homens as sombras e as esconde rápidas; mostra o mundo e a sua glória, e esconde dos olhos dos homens o pecado, a tristeza e a morte que mancham o orgulho de toda esta glória, as preocupações as calamidades que aparecem com as grandes posses, e os espinhos com que as próprias coroas são adornadas. Em quarto lugar, a glória do mundo é a tentação mais sedutora para os inconscientes e imprudentes, e aquela infligida com mais frequência a os homens. Os filhos de Labão se ressentem da glória de Jacó; o orgulho pela vida é a cilada mais perigosa.

[2] O que ele disse a Cristo (v. 9): “Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares”. Veja:

Em primeiro lugar, como foi vã esta promessa. “Tudo isto te darei”. O diabo parece ter certeza de que nas tentações anteriores ele tinha, parcialmente, atingido o seu objetivo, e provado que Cristo não era o Filho de Deus, porque Ele não tinha lhe dado as evidências que ele exigia; assim, aqui ele considera Cristo como um mero homem. Em outras palavras, “Venha”, diz ele, “parece que Deus, cujo Filho você pensava ser, está lhe abandonando, e priva você de alimento como um sinal de que Ele não é o seu Pai. Mas se você for governado por mim, eu vou cuidar melhor de você; considerem e como o seu pai, e peça a minha bênção, e tudo isto eu lhe darei”. Satanás faz dos homens presas fáceis, quando consegue persuadi-los a pensar que foram abandonados por Deus. A falácia desta promessa está em: “Tudo isto te darei”. E o que é” tudo isto”? Não era nada além de um mapa, um quadro, uma m era fantasia, que não tinha nada de real ou sólido, e isto ele daria a Cristo: um prêmio considerável! Mas assim são as ofertas de Satanás. Multidões deixam de ver o que é real, vendo o que não é. As iscas do diabo são todas simulações, elas são espetáculos e sombras com os quais ele engana as pessoas, ou melhor, elas se enganam. As nações da terra tinham sido, há muito tempo, prometidas ao Messias; se Ele era o Filho de Deus, elas pertenciam a Ele. Satanás a gora finge ser um bom anjo, provavelmente um daqueles que tinham sido colocados sobre os reinos, e finge ter recebido a missão de entregar posses a Jesus, de acordo com uma promessa. Lembre-se, nós devemos tomar cuidado para não receber até mesmo o que Deus prometeu, pelas mãos do diabo; nós fazemos isto quando precipitamos o cumprimento das promessas, agarrando-nos a elas de uma maneira pecaminosa.

Em segundo lugar, como era vil esta condição: “Se, prostrado, me adorares”. Toda a adoração que os pagãos faziam aos seus deuses se dirigia ao diabo (Deuteronômio 32.17), que, portanto, é chamado de deus deste século (2 C o 4.4; P 1 C o 10.20). E, satisfeito, ele atrairia Cristo aos seus interesses, e o persuadiria, estabelecendo um Professor, para pregar a idolatria dos gentios e para introduzi-las outra vez no meio dos judeus, e então as nações da terra correriam para ele. Que tentação seria mais abominável, P mais obscura? Observe que o melhor dos santos pode o s e r tentado ao pior dos pecados, especialmente quando g está sob o poder da melancolia; como, por exemplo, ser E atraído ao ateísmo, à blasfêmia, ao assassinato, à auto­destruição e a outras coisas. Esta é a sua aflição. Mas então quanto não houver consentimento, nem aprovação, não há pecado por parte dele; Cristo foi tentado a adorar Satanás, mas resistiu.

(2) Veja como Cristo evitou o golpe, frustrou o ataque e emergiu como um vencedor. Ele rejeitou a proposta:

[1] Com repulsa e ódio: “Vai-te, Satanás”. As duas tentações anteriores tinham algum a coisa atraente, algo que admitiria uma consideração, mas esta era tão grosseira a ponto de não admitir negociação. Ela pareceu abominável à primeira vista, e, portanto, é imediatamente rejeitada. Se o melhor amigo que tivermos no mundo nos sugerir algum a coisa como esta: “Vamos e sirvam os a outros deuses”, ele não deve ser ouvido com piedade (Deuteronômio 13.6,8). Algumas tentações têm a sua maldade escrita na testa, são conhecidas de antemão; não devemos sequer discutir sobre elas, mas rejeitá-las imediatamente. “Vai-te, Satanás”. E m outras palavras: “Leve isto embora daqui eu não suporto pensar nisso!”. Enquanto Satanás tentou a Cristo para que causasse mal a si mesmo, lançando-se para baixo, embora Ele não cedesse, Ele ouviu a proposta; mas agora, que na tentação se impõe claramente a Deus, Ele não consegue suportá-la. “Vai-te, Satanás”. Observe que esta é uma indignação justa, que se ergue contra a proposta d de qualquer coisa que se sobreponha à honra de Deus, e c atinja a sua majestade. Não, não importa qual seja a coisa abominável que saibamos com certeza que o Senhor é odeia, nós devemos abominá-la. Que Deus não permita que tenhamos algum a coisa a ver com ela. Observe que é bom ser categórico ao resistir à tentação, e fechar os ouvidos aos encantos e enganos de Satanás. e

[2] com um argumento extraído das Escrituras. Observe que, para fortalecer as nossas resoluções contra o pecado, é bom vermos quantas razões existem para estas resoluções. O argumento é muito adequado e exato p ao propósito, extraído de Deuteronômio 6.13 e 10.20. “Ao n Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele servirás”. Cristo não discute se ele, o diabo, era um anjo de luz, como ele fingia ser, ou não; mas mesmo que fosse, ainda assim não t devia ser adorado, pois esta é uma honra devida somente a Deus. Observe que é bom darmos à tentação respostas tão completas e tão breves quanto possível, para não deixar lugar para objeções. O nosso Salvador, neste caso, tem o auxílio da lei fundamental, o que é indispensável e universalmente obrigatório. A adoração religiosa é devida somente a Deus, e não deve ser oferecida a nenhuma outra criatura. E um a flor na coroa que não pode ser separada, um ramo da glória de Deus que Ele não dará a outrem. Se o seu próprio Filho não fosse Deus, igual a Ele e um só com Ele, Ele não exigiria que todos os homens honrassem ao Filho, como honram ao Pai. Cristo cita esta lei a respeito da adoração religiosa, e o faz aplicando-a a si mesmo. E m primeiro lugar, para mostrar que no seu estado de humilhação Ele mesmo estava sujeito a esta lei: embora, como Deus, fosse adorado, ainda assim, como Homem, Ele adorava a Deus Pai, tanto publicamente como em particular. Ele nos obriga a nada além do que Ele primeiramente se obrigou a fazer. Assim, lhe convinha cumprir toda a justiça. E m segundo lugar, para mostrar que a lei da adoração religiosa é de obrigação eterna: em bora Ele anulasse e alterasse muitas instituições da adoração, ainda assim Ele veio ratificar e confirmar e fazer vigorar sobre nós a lei fundamental da natureza, de que som ente Deus deve ser adorado.

V – Temos aqui o desfecho e o resultado deste combate (v. 11). Embora os filhos de Deus possam passar por muitas e grandes tentações, ainda assim Deus não irá submetê-los a se r tentados acima das forças que cada um deles tem, ou que Ele lhe dará (1 Coríntios 10.13). Eles só estarão em dificuldades durante uma época, em meio aos tipos mais variados de tentação.

Agora, o resultado foi glorioso, e para a honra de Cristo; pois:

3.O diabo ficou frustrado e abandonou o campo de batalha; “então, o diabo o deixou”, forçado a fazer isto pelo poder que acompanhava aquelas palavras de ordem: “Vai-te, Satanás”. Ele fez uma retirada vergonhosa e desonrosa, e retirou-se em desgraça; e quanto mais ousadas tinham sido as suas tentativas, mas mortificante foi a frustração que recebeu. No entanto, a tentativa na qual ele fracassou foi ousada. Quando ele tinha feito a pior tentativa, tinha tentado a Cristo com todos os reinos do mundo e a sua glória, e descobriu que Ele não se deixava influenciar por aquela isca, que ele não venceria com aquela tentação, com a qual tinha derrubado tantos milhares de filhos dos homens, então ele deixa o Senhor; é quando ele o considera como mais do que um homem. Como isto não influenciou Jesus, ele desiste de influenciá-lo e começa a concluir que Ele é o Filho de Deus, e que é inútil continuar a tentá-lo. Se resistirmos ao diabo, ele se afastará de nós; ele desistirá, se nós conservarmos os nossos fundamentos. Quando o diabo deixou o nosso Salvador, ele tinha sido justamente derrotado; a sua cabeça estava rompida pelo esforço que tinha feito para ferir o calcanhar de Cristo. Ele o deixou porque ele não tinha nada nele, nada a que agarrar-se; ele viu que não tinha sentido e desistiu. O diabo, embora seja um inimigo de todos os santos, é um inimigo derrotado. O Capitão da nossa salvação já o derrotou e desarmou; nós não temos nada a fazer, exceto possuir e manter a vitória.

4.Os santos anjos vieram e serviram ao nosso Senhor.

Visto que chegaram os anjos e o serviram”. Eles vieram sob uma aparência visível, como o diabo tinha feito nas tentações. Enquanto o diabo estava desferindo seus ataques sobre o nosso Salvador, os anjos mantiveram-se à distância, e foram suspensos o seu auxílio e o seu serviço imediatos, para que ficasse a parente que Jesus tinha derrotado a Satanás com suas próprias forças, e para que a sua vitória fosse ainda mais exemplar. Também para que posteriormente, quando Miguel fizer uso dos seus anjos para luto e seus anjos, fique aparente que não é porque Jesus precise deles, ou porque não conseguiria realizar o seu trabalho sem eles, mas porque Ele se alegra em honrá-los, tanto quanto em usá-los. Um dos anjos poderia ter lhe trazido comida, mas havia muitos que o serviam, para dar testemunho do respeito que tinham por Ele, e da disposição e prontidão deles para receber as suas ordens. Note isto! É importante observar que:

(1) Assim como existe um mundo de espíritos malignos e mal-intencionados que lutam contra Cristo e a sua igreja – contra todos os crentes fiéis também existe um mundo de anjos santos e benditos, engajados e usados a favor dos cristãos. A respeito da nossa luta contra os demônios, podemos ter uma abundância de consolo devido aos anjos que pelejam contra estes.

(2) As vitórias de Cristo são os triunfos dos anjos. Os anjos vieram comemorar com Cristo o seu sucesso, alegrar-se com Ele e dar a Ele a glória que deve ser dada ao seu nome; pois isto foi cantado com v oz alta no céu, quando o grande dragão foi expulso (Apocalipse 12.9,10): “Agora chegada está a salvação, e a força”.

(3) Os anjos ministraram ao Senhor Jesus não apenas alimento, mas qualquer coisa de que Ele necessitou depois deste esforço tão grande. Veja com o os exemplos da condescendência e da humilhação de Cristo estão equilibrados com os sinais da sua glória. Como quando Ele foi crucificado em fraqueza, e ainda assim viveu pelo poder de Deus; como quando em fraqueza Ele foi tentado, passou fome e cansaço, e ainda assim pelo seu poder divino Ele ordenou o serviço dos anjos. Assim, o Filho do Homem comeu o alimento trazido pelos anjos e, como Elias, foi alimentado por um anjo no deserto (1 Reis 19.4,7). Observe que embora Deus possa permitir que o seu povo passe necessidades e dificuldades, ainda assim Ele tomará cuidados efetivos para o seu sustento, preferirá enviar anjos para alimentá-los a vê-los perecer. “Confia no Senhor e… verdadeiramente, será alimentado” (SaImos 37.3).

Cristo foi auxiliado depois da tentação:

[1] para que tivesse a coragem de prosseguir em sua missão, para que pudesse ver os poderes do céu ao seu lado quando visse os poderes do inferno contra Ele.

[2] para nosso incentivo, a fim de confiarmos nele; pois Ele soube, por experiência, o que é sofrer sendo tentado, e como esta situação é difícil. Assim, Ele soube o que é ser ajudado, depois de ser tentado, e como isto é reconfortante. Portanto, podem os esperar não apenas que Ele se solidarize com o seu povo, quando tentado, mas que Ele ofereça um alívio razoável a cada um, como o nosso grande Melquisedeque, que saiu ao encontro de Abraão quando este retornava da batalha, e como os anjos ministraram a ele ali.

Finalmente, Cristo, tendo sido, desta maneira, distinguido e feito grande no mundo invisível, por meio da voz do Pai, da descida do Espírito, da sua vitória sobre os demônios, e do seu domínio sobre os anjos, foi inquestionavelmente qualificado para aparecer no mundo visível como o Mediador entre Deus e o homem. “Considerai, pois, quão grande era este”!

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 3: 13-17

 O Batismo de Jesus

O nosso Senhor Jesus, desde a sua infância até agora, quando estava com quase trinta anos de idade, tinha estado escondido na Galileia, como se estivesse enterrado vivo. Mas agora, depois de uma longa e escura noite, eis que o Sol da justiça se levanta em glória. A plenitude dos tempos era chegada para que Cristo pudesse assumir o seu trabalho profético, e Ele decide fazê-lo, não em Jerusalém (embora seja provável que Ele tivesse estado ali nas três festas anuais, como todas as outras pessoas), mas ali, onde João estava batizando; pois Ele procurou aqueles que esperavam o consolo de Israel, os únicos para os quais Ele seria bem-vindo. João Batista era seis meses mais velho que o nosso Salvador, e supõe-se que tenha começado a pregar e batizar cerca de seis meses antes da manifestação de Cristo; até então ele se dedicava a preparar o caminho do Senhor, na região próxima ao rio Jordão. E muito mais se fez para isto nesses seis meses do que tinha sido feito em muitos séculos antes. A vinda de Cristo, da Galileia ao Jordão, para ser batizado, nos ensina a não nos escondermos da dor e do trabalho árduo, para podermos ter a oportunidade de nos aproximarmos de Deus, ao seu serviço. Devemos estar dispostos a nos excedermos na comunhão com Deus, e não a sentirmos falta dela. Para encontrar, é preciso procurar.

Na história do batismo de Cristo, podemos observar:

 I – Com que dificuldade João foi persuadido a fazê-lo (vv. 14,15). Foi um exemplo da grande humildade de Cristo o fato de Ele se oferecer para ser batizado por João; que aquele que não conheceu pecado se submetes­se ao batismo do arrependimento. Observe que assim que Cristo começou a pregar, Ele pregou humildade, pregou-a segundo o seu exemplo, pregou-a a todos, especialmente aos jovens ministros. Cristo estava destinado às maiores honras, mas no seu primeiro passo Ele se humilha desta maneira. Observe que aqueles que se destinam a subir mais alto, devem começar mais baixo. “Diante da honra vai a humildade”. Esta era uma grande demonstração de respeito por João, pois Cristo veio até ele; e foi uma retribuição pelo ser viço que ele tinha prestado ao Senhor, avisando da sua chegada. Observe que Deus honrará aqueles que o honram. Aqui, temos:

1.A objeção que João fez contra batizar Jesus (v. 14). João objetou, da mesma maneira como Pedro o fez, quando Cristo foi lavar seus pés (João 13.6,8). Note que a condescendência graciosa de Cristo é tão surpreendente, que parece inacreditável, à primeira vista, para os crentes mais vigorosos; tão profunda e misteriosa, que mesmo aqueles que conhecem bem o seu modo de pensar não conseguem descobrir o significado dela, mas, por razões de falta de esclarecimento, colocam objeções contra a vontade de Cristo. A modéstia de João o leva a pensar que esta é uma honra excessivamente elevada para ele receber, e ele assim se expressa ao Senhor, da mesma maneira como a sua mãe tinha feito com a mãe de Cristo (Lucas 1.43): “Eu careço de ser batizado por ti, e vens tu a mim?” João tinha conquistado um nome, e era nacionalmente respeitado; ainda assim, veja como ele ainda é humilde! Observe que Deus tem grandes honras reservadas para aqueles cujo espírito continua humilde quando a sua reputação cresce.

(1) João acha que é necessário que ele seja batizado por Cristo. “Eu careço de ser batizado por ti”, com o Espírito Santo e com fogo, pois este era o batismo de Cristo (v.11).

[l] Embora João estivesse cheio do Espírito Santo desde o útero (Lucas 1.15), ainda assim ele reconhece que tem a necessidade de ser batizado com aquele batismo. Note que aqueles que têm uma grande comunhão com o Espírito de Deus, ainda assim, neste estado imperfeito, percebem que precisam de mais; e par a que tenham mais precisam pedir a Cristo.

[2] João tem a necessidade de ser batizado, embora ele fosse o maior homem já nascido de uma mulher; mas, tendo nascido de uma mulher, ele está contaminado, como os outros da semente de Adão estão, e sabe que precisa de purificação. Observe que as almas mais puras são mais sensíveis à sua própria impureza residual, e procuram ansiosamente a purificação espiritual.

[3] Ele sente necessidade de ser batizado por Cristo, aquele que pode fazer por nós o que ninguém mais pode; aquilo que deve ser feito para nós, caso contrário seremos arruinados. Observe que os melhores e mais santos homens têm necessidade de Cristo, e quanto melhores eles são, mais percebem esta necessidade.

[4] Isto foi dito diante da multidão, que tinha uma grande veneração por João, e que estava pronta a aceitá-lo como o Messias; mas ele publicamente reconhece que tinha necessidade de ser batizado par Cristo. Note que não é nenhum menosprezo, aos maiores homens, reconhecer que estão perdidos, sem Cristo e a sua graça.

[5] João era o precursor de Cristo, e ainda assim reconhece que tinha a necessidade de ser batizado por Ele. Observe que mesmo aqueles que nasceram antes de Cristo neste mundo dependem dele, recebem dele e têm os olhos nele.

[6] Embora João estivesse tratando das almas dos outros, observe com quanto sentimento ele fala do caso da sua própria alma: “E u careço de ser batizado por ti”. Note que os ministros, que pregam aos outros e que batizam os outros, se preocupam em pregar para si mesmos, e serem, eles mesmos, batizados com o Espírito Santo. “Tem cuidado de ti mesmo e… te salvarás” (1 Timóteo 4.16).

(2), Portanto, ele acha que é completam ente absurdo e ilógico que Cristo seja batizado por ele. “Vens tu a mim?” O santo Jesus, que está separado dos pecadores, vem par a ser batizado por um pecador, como um pecador, e entre os pecadores? Como isto é possível? Como podemos descrever isto? Lembre-se que a vinda de Cristo até nós, pode ser também espantosa.

2.A rejeição dessa objeção (v. 1 5). Jesus disse: “Deixa por agora”. Cristo aceitou a sua humildade, mas não a sua recusa; Ele queria fazer isso; e é adequado que Cristo siga o seu método, embora não possamos compreendê-lo, nem apresentar uma razão para ele. Observe:

 (1) Como Cristo insistiu nisto. “Isto deve ser assim, por ora”. Ele não nega que João tivesse necessidade de ser batizado por Ele, mas ainda assim Ele será agora batizado por João. Que seja assim, por agora. Observe que tudo está bem, na sua ocasião. Mas por que agora’? Por que hoje?

[1] Cristo estava naquele momento em um estado de humilhação; Ele estava vazio, e não tinha uma reputação. Ele não apenas era encontrado como homem, mas à semelhança da carne pecadora, e, portanto, “agora”, Ele deveria ser batizado por João. Como se Ele precisasse ser lavado, embora fosse perfeitamente puro; e assim Ele se fez pecado por nós, embora não conhecesse o pecado.

[2] O batismo de João agora adquire reputação, é aquele pelo qual Deus está agora realizando o seu trabalho; esta é a presente relação, e, portanto, Jesus será agora batizado com água, mas o seu batismo com o Espírito Santo está reservado para mais tarde, não muito depois destes dias (Atos 1.5). O batismo de João tem o seu dia, e, portanto, deve ser honrado, e aqueles que o procuram devem ser incentivados. Aqueles que são os maiores destinatários de dons e graças devem, ainda, por sua vez, dar o seu testemunho aos rituais instituídos, comparecendo humilde e diligentemente a eles, para poderem dar um bom exemplo aos demais. Nós precisamos receber o que vemos que pertence a Deus, e enquanto vemos que Ele o está concedendo. João agora estava crescendo, e, portanto, isto deveria ser assim naquele momento; dentro de pouco tempo, ele irá decair, e então as coisas serão diferentes.

[3] Isto deve ser assim agora, porque agora é o momento da manifestação de Cristo em público, e esta é uma boa oportunidade para isto (veja João 1.31,34). Assim Ele foi manifestado a Israel, e houve maravilhas do céu como sinais, naquele seu ato, que era de completa condescendência e humilhação pessoal.

(2) A razão que Ele dá para isso: “Assim nos convém cumprir toda a justiça”. Observe:

[1] Havia uma adequação em tudo o que Cristo fez por nós. Havia graça (Hebreus 2.10; 7.26); e nós devemos estudar para fazer não somente aquilo que nos é conveniente, mas também aquilo que é digno de nós; não somente aquilo que é indispensavelmente necessário, mas aquilo que é agradável e bom.

[2] O nosso Senhor Jesus viu isto como algo perfeita mente digno dele, para cumprir toda a justiça, isto é (como o Dr. Whitby o explica), para possuir toda a instituição divina, e para mostrar a sua disposição em estar de acordo com todos os preceitos da justiça de Deus. Assim, Ele justifica a Deus Pai, aprovando a sua sabedoria, ao enviar João para preparar o seu caminho, por meio do batismo do arrependimento. Desse modo, é digno estimularmos e incentivarmos tudo o que for bom, tanto por padrão como por preceito. Cristo frequentemente mencionou João e o seu batismo com honra; e o que é melhor, Ele mesmo foi batizado. Assim, Jesus começou primeiro a agir, e depois a ensinar; e os seus ministros devem seguir o mesmo método. Portanto, Cristo cumpriu a justiça da lei cerimonial, que consistia de várias lavagens. Dessa forma, Ele recomendou, no Evangelho, a ordenança do batismo para a sua igreja, honrou este batismo, e mostrou que virtude Ele lhe destinava. Foi conveniente a Cristo submeter-se à lavagem com água de João, porque isto era um mandamento divino; mas foi conveniente a Ele opor-se à lavagem com água dos fariseus, porque isto era uma invenção e imposição humanas; e Ele justificou os seus discípulos que se recusavam a realizá-la. Com a vontade de Cristo, e a sua razão para isto, João ficou completamente satisfeito, e então ele fez o que devia. A mesma modéstia que o fez, a princípio, declinar da honra que Cristo lhe oferecia, agora o levou a, mas tinha sido previsto que o Espírito do Senhor repousaria sobre Ele (Isaias 11.2; 61.1), e aconteceu isto aqui; pois:

[1] Ele devia ser um Profeta, e os profetas sempre falavam pelo Espírito de Deus, que descia sobre eles. Cristo devia realizar a obra profética, não pela sua natureza divina (diz o Dr. Whitby), mas pela inspiração do realizar o serviço que Cristo lhe impunha. Observe que – Espírito Santo.

[2] Ele devia ser a Cabeça da igreja; e nenhuma desculpa de humildade deve fazer-nos recusar qualquer dever.

 

II – Com que solenidade o Céu se alegrou em honrar o batismo de Cristo com uma exibição especial de glória (vv. 16,17). “Sendo Jesus batizado, saiu logo da água”. Os outros que eram batizados permaneciam para confessar os pecados (v. 6) , mas Cristo, não tendo nenhum pecado a confessar, saiu imediatamente da água; é isto o que lemos, mas não exatamente; pois é apo toit hydalos da água, da margem do rio, ao qual ele desceu para lavar-se na água, isto é, para lavar a sua cabeça ou o seu rosto (João 13 .9); pois não há menção de Cristo tirando ou recolocando as suas roupas, o que não teria sido omitido, se Ele tivesse sido batizado nu. Ele se levantou imediatamente, como alguém que inicia o seu trabalho com a determinação e a alegria mais completas. Ele não podia perder tempo. Ele se endireitou e se levantou assim que o batismo foi realizado!

Quando Ele estava saindo da água, e todo o grupo colocou os olhos sobre Ele:

1.Os céus se abriram sobre Ele, como para descobrir alguma coisa acima e além do firmamento estrelado, pelo menos para Ele. Isto aconteceu:

(1) Para incentivá-lo a prosseguir em sua empreitada, com a perspectiva da glória e da alegria que se apresentava diante dele. O céu estará aberto para recebê-lo, quando Ele tiver concluído a obra que agora está começando.

(2) Para nos incentivar a recebê-lo, e a nos sujeitar a Ele. Observe que em Jesus Cristo, e por meio dele, os céus estão abertos para os filhos dos homens. O pecado trancou o céu, interrompeu todas as relações amistosas entre Deus e o homem; mas agora Cristo abriu o Reino dos céus a todos os crentes. A luz e o amor divinos são derramados sobre os filhos dos homens, e nós temos a ousadia de entrar no Santo dos Santos. Nós temos recibos da misericórdia de Deus, nós retribuímos com nosso dever a Deus e tudo por meio de Jesus Cristo, que é a escada que tem o pé na terra e o topo no céu. Somente através dele é que podemos ter um relacionamento confortável com Deus, ou qualquer esperança de chegar, por fim, ao céu. Os céus se abriram quando Cristo foi batizado, para nos ensinar que quando comparecemos, como devemos fazer, aos rituais de Deus, nós podemos esperar a comunhão com Ele e a comunicação por parte dele.

2.Ele viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre Ele, ou pousando sobre Ele. Cristo viu (Marcos1.10) e João viu (João 1.33,34), e é provável que todos os presentes também tenham visto, pois esta devia ser a sua primeira manifestação pública. Observe:

(1) Ele viu o Espírito de Deus, que desceu e pousou sobre Ele. No início do mundo, o Espírito Santo se movia sobre a face das águas (Genesis 1.2), flutuando como uma ave sobre o ninho. Aqui, no começo deste novo mundo, Cristo, como Deus, não precisava receber o Espírito Santo, mas tinha sido previsto que o Espírito do Senhor repousaria sobre ele (Isaias11.2, 61.1), e aconteceu isto aqui; pois:

[1] Ele devia ser um Profeta, e os profetas sempre falavam pelo Espírito de Deus, que descia sobre eles. Cristo devia realizar a obra profética, não pela sua natureza divina (diz o Dr. Whitby), mas pela inspiração do “Espírito Santo.

{2] Ele devia ser a Cabeça da igreja; e o Espírito desceu sobre Ele, para ser, por seu intermédio, transmitido a todos os crentes, com os seus dons, as suas graças, e o seu consolo. A unção sobre a cabeça desceu até às bordas das vestes; Cristo recebeu dons para os homens, para que Ele os pudesse dar aos homens.

 (2) O Espírito desceu sobre Ele como uma pomba; se esta era uma pomba real, e viva, ou, como era normal em visões, a representação ou a semelhança de uma pomba, não se sabe. Se é necessária uma forma corpórea (Lucas 3.22), não poderia ser a de um homem, pois o ser visto como homem era peculiar à Segunda Pessoa: nenhuma forma, portanto, era mais adequada do que a forma de uma das aves do céu (que agora estava aberto), e entre todas as aves, nenhuma era tão significativa quanto a pomba.

{1} O Espírito de Cristo é um Espírito que pode ser tipificado por uma pomba; não corno uma pomba enganada, sem entendimento (Oséias 7.11), mas como uma pomba inocente, sem amargura e sem ódio. O Espírito desceu, não sob a forma de uma águia, que, embora seja uma ave real, é uma ave predatória, mas sob a forma de uma pomba, que é a mais inofensiva das criaturas. Assim é o Espírito de Cristo: Ele não luta nem grita; assim os cristãos devem ser, inofensivos como pombas. A pomba é notável por seus olhos; nós descobrimos que tanto os olhos de Cristo (Cantares 5.12) como os olhos da igreja (Cantares 1.15; 4.1) são comparados aos olhos das pombas, pois têm o mesmo espírito. A pomba geme muito (Isaias 38.14). Cristo chorava; e as almas penitentes são comparadas às pombas dos vales.

[2] A pomba era a única ave que era oferecida em sacrifício (Levítico 1.14), e Cristo, pelo Espírito, o Espírito eterno, se ofereceu, imaculado, a Deus.

[3] As notícias do fim do dilúvio de Noé foram trazidas por uma pomba, que tinha um ramo de oliveira no bico; na ocasião adequada, portanto, as alegres notícias da paz feita com Deus são trazidas pelo Espírito, como uma pomba. Isto fala da boa vontade de Deus em relação aos homens; que os seus pensamentos sobre nós são pensamentos de bem, e não de mal. Através da expressão: “a voz da rola ouve-se em nossa terra” (Cantares 2.12), a paráfrase em aramaico dá a entender que esta é a voz do Espírito Santo. O fato de que Deus está em Cristo, reconciliando consigo o mundo, é uma mensagem de alegria, que chega até nós sobre as asas de uma pomba.

3.Para explicar e completar esta solenidade, veio uma voz do céu, que, temos razões para pensar, foi ouvida por todos os que estavam presentes. O Espírito Santo se manifestou à semelhança de uma pomba, mas Deus, o Pai, por uma voz; pois quando a lei foi entregue, não se viu semelhança, somente se ouviu uma voz (Deuteronômio 4.12). E este Evangelho veio assim, e realmente é um Evangelho, a melhor boa-nova que já veio do céu à terra; pois ela fala clara e plenamente sobre a graça de Deus para com Cristo, e também para conosco nele.

(1) Veja como o nosso Senhor Jesus pertence a Deus: “Este é o meu Filho amado”. Observe:

[1] A relação que Eles tinham; Ele é o meu Filho. Jesus Cristo é o Filho de Deus, por geração eterna, como foi gerado do Pai antes de toda a criação, ou seja, “dos mundos” (Colossenses 1.15; Hebreus 1.3), e por concepção sobrenatural; portanto, Ele foi chamado de Filho de Deus, porque foi concebido pelo poder do Espírito Santo (Lucas 1.35). Mas isto não é tudo. Ele é o Filho de Deus por designação especial para o trabalho de Redentor do mundo. Ele foi santificado, selado, e embalado para esta missão, e sempre esteve de pleno acordo com o Pai para o desempenho dela (Provérbios 8.30), indicado para ela. “Lhe darei o lugar de primogênito” (Salmos 89.27).

[2] O afeto que o Pai sentia por Ele: “Este é o meu Filho amado”; o seu Filho amado, o Filho do seu amor (Colossenses 1.13). Ele tinha estado no seu seio por toda a eternidade (João 1.18), sempre tinha sido a sua alegria (Provérbios 8.30), mas, particularmente como mediador, e ao assumir a obra da salvação do homem, Ele era o seu Filho amado. “Ele é o meu Eleito. em quem se compraz a minha alma” (veja Isaias 42.1). Por ter consentido no concerto da redenção, e se alegrado por realizar esta vontade de Deus, o Pai o amou (João 10.17; 3.35). Observem, então e maravilhem-se: que tipo de amor o Pai nos concedeu, para nos entregar aquele que era o Filho do seu amor para sofrer e morrer por aqueles que eram a geração da sua ira; portanto, Deus Pai o amou, porque Ele deu a sua vida pelas ovelhas! Agora nós sabemos que Deus Pai nos amou, porque Ele não poupou o seu próprio Filho, o seu único Filho, o Isaque que Ele amava, mas, ao invés disso, o entregou para ser um sacrifício pelos nossos pecados.

(2) Veja aqui corno Ele está disposto a nos tornar pertencentes a Ele, em Cristo: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”. Ele se compraz com todos os que estão nele, e estão unidos a Ele pela fé. Até agora, Deus tinha estado descontente com os filhos dos homens, mas agora a sua ira foi afastada e Ele nos fez agradáveis a si no Amado (Efésios 1.6). Que todo o mundo saiba que este é o Pacificador, o Ancião de dias, que colocou a sua mão sobre nós, e que não há como ir a Deus Pai senão por Ele, como Mediador (João 14.6). Nele, nossos sacrifícios espirituais são aceitáveis, pois é dele altar que santifica todas as ofertas (1 Pedro 2.5). Sem Cristo, Deus é um fogo consumidor; mas, em Cristo, Ele um Pai reconciliado. Este é o resumo de todo o Evangelho; é uma mensagem fiel e merecedora de toda a aceitação, a de que Deus declarou, por meio de uma voz do céu, que Jesus Cristo é o seu Filho amado, em quem Ele se compraz, com o que nós devemos, pela fé, alegremente estar de acordo e dizer que Ele é o nosso amado Salvador, em quem nos comprazemos.

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MATEUS 3: 7-12

 

A Pregação de João Batista

A doutrina que João pregava era a do arrependimento, considerando que era chegado o Reino dos céus; aqui nós temos o uso desta doutrina. A sua aplicação é uma vida de pregação, e esta era a pregação de João.

Observe:

1.A quem ele a aplicava; aos fariseus e aos saduceus que vinham ao seu batismo (v. 7). Aos outros, ele pensava que era suficiente dizer: ”Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus”; mas quando ele viu estes fariseus e saduceus se aproximando, achou que era necessário explicar-se, e ser mais específico. Estas eram duas das três seitas destacadas entre os judeus daquela época, a terceira era a dos essênios, sobre os quais nada lemos nos Evangelhos, pois eles se afastavam e evitavam se envolver em questões públicas. Os fariseus eram zelosos pelas cerimônias, pelo poder da sinagoga e pelas tradições dos anciãos; os saduceus estavam no extremo oposto, e eram ligeiramente melhores que os deístas, negando a existência de espíritos e de um estado futuro. E estranho que eles viessem ao batismo de João, mas a sua curiosidade os trouxe para ouvir; e alguns deles, provavelmente, se submeteram ao batismo, mas certamente a maioria deles não o fez, pois Cristo diz (Lucas 7.29,30) que “todo o povo que o ouviu e os publicanos, tendo sido batizados com o batismo de João, justificaram a Deus. Mas os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido batizados por ele”. Observe que muitos vinham para os rituais e não eram influenciados por eles. Para estes, aqui João se dirige com toda a devoção, e o que ele disse a eles, o disse à multidão (Lucas 3.7), pois o que ele dissesse seria aplicável a todos eles.

2.Qual era a aplicação. Era clara e familiar, e dirigida às suas consciências. Ele fala como alguém que vem não para pregar diante deles, mas para pregar a eles. Embora a sua educação fosse reservada, ele não era acanhado quando aparecia em público, nem temia a presença dos homens, pois estava cheio do Espírito Santo e de poder.

 

I – Aqui está uma mensagem de condenação e de despertamento. Ele começa de maneira áspera, não os chama de rabinos, não se dirige a eles por seus títulos, e tampouco lhes dedica os aplausos aos quais eles estão acostumados.

1.O título que lhes atribui é “raça de víboras”. Cristo lhes atribuiu o mesmo título (12.34; 23.33). Eles eram como víboras; embora de aparência enganosa, eram venenosos, e cheios de maldade e inimizade a tudo o que fosse bom; era uma raça de víboras, a semente e a descendência de outros que tinham tido o mesmo espírito; isto já nascia com eles. Eles se vangloriavam disso, de serem a descendência de Abraão; mas João Batista mostrou-lhes que eles eram a semente da serpente (compare Genesis 3.15); a semente do pai deles, o diabo (João 8.44). Constituíam um grupo mau, todos semelhantes; embora inimigos entre si, ainda se uniam em maldades. Observe que uma geração malvada é uma geração de Víboras, e eles precisavam saber disso; é necessário que os ministros de Cristo sejam ousados ao mostrar aos pecadores o verdadeiro caráter deles.

2.O alerta que João dá é o seguinte: “Quem vos ensinou a fugir da ira futura?” Isto dá a entender que eles estavam se arriscando à ira futura; e o caso deles era quase tão desesperado, e seus corações estavam tão endurecidos pelo pecado (os fariseus, pela sua exibição de religião, e os saduceus, pelos seus argumentos contra a religião), que era necessário algo muito próximo a um milagre para realizar alguma coisa que trouxesse esperança entre eles. “O que os traz aqui? Quem iria imaginar vê-los aqui? Que medo incutiram em vocês, para que vocês procurem o Reino dos céus?” Observe:

(1) Existe uma ira futura; além da ira presente, cujos pequenos frascos são derramados agora. Existe a ira futura, o que está acumulado para o futuro.

(2) É do maior interesse de cada um de nós fugir dessa ira.

(3) É pela misericórdia divina que nós somos advertidos claramente para fugir dessa ira. Pense: Quem nos advertiu? Deus nos advertiu, Ele que não se alegra com a nossa ruína. Ele nos adverte pela palavra escrita, pelos ministros, pela consciência.

(4) Estas advertências, às vezes, assustam aqueles que parecem ter estado muito endurecidos na sua segurança e boa opinião sobre si mesmos.

 

II – Aqui há uma mensagem de exortação e orientação (v. 8). “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento”. Portanto, como vocês foram advertidos a fugir da ira futura, deixem que o temor ao Senhor vos conduza a uma vida santa. Ou, portanto, como vocês professaram arrependimento, e ouviram a doutrina, e passaram pelo batismo do arrependimento, mostrem que são verdadeiros penitentes. O arrependimento nasce no coração. Ele está ali, como uma raiz; mas em vão fingiremos possuí-la, se não produzirmos os frutos dele, em urna transformação universal, abandonando todo o pecado e nos apegando ao que é bom. Estes são frutos dignos do arrependimento. Observe que aquele que afirma que lamenta os seus pecados, mas continua persistindo neles, não é digno de ser chamado de penitente, nem de ter os privilégios dos penitentes. Aquele que professa arrependimento, como o fazem todos os que são batizados, deve agir como um ser penitente e nunca fazer qualquer coisa imprópria a um pecador penitente. É conveniente que os penitentes sejam humildes aos seus próprios olhos, que sejam gratos à menor graça, pacientes sob as maiores dificuldades, que estejam alertas contra todas as manifestações do pecado e às suas investidas, que sejam abundantes no cumprimento de todos os seus deveres, e que sejam caridosos ao julgar os outros.

 

III – Aqui há uma mensagem de recomendação para que não confiem nos seus privilégios externos, pois esta atitude pode retardar estes chamados ao arrependimento (v. 9). “Não presumais de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão”. Observe que há muita coisa que os corações carnais são aptos a dizer a si mesmos, deixando de lado o poder persuasivo da Palavra de Deus (que é repleta de autoridade). Os ministros devem procurar prever estas atitudes, para que possam tratá-las no tempo certo; os pensamentos vãos que se alojam naqueles que são chamados a lavar os seus corações (Jeremias 4.14). “Não finjam, não sejam presunçosos, dizendo estas coisas dentro de si mesmos. Não pensem que isto poderá salvá-los; o refúgio não está na arrogância”. Alguns interpretam esta passagem da seguinte maneira: “Não sintam prazer dizendo isto; não se embalem para dormir com isto, nem se elogiem no paraíso de um tolo”. Observe que Deus percebe aquilo que nós dizemos dentro de nós, o que não ousamos proferir em voz alta, e conhece todos os falsos descansos da alma e as falácias com as quais ela se engana. Mas ela não os revelará, para que o engano não seja apontado. Muitos escondem a mentira que os destrói na sua mão direita, e a ocultam sob a língua, porque têm vergonha de possuí-la. Estas pessoas trabalham para satisfazer os interesses do diabo, sob a orientação do diabo. Agora, João lhes mostra:

1.Qual era a sua desculpa: “Temos por pai a Abraão”; nós não somos pecadores gentios; é adequado, realmente, que os gentios sejam chamados a arrepender-se, mas nós somos judeus, uma nação santa, um povo especial, o que representa isto para nós? Observe que a mensagem não traz nenhum benefício, se nós não a assumirmos corno dirigida e pertencente a nós. Portanto, não pensem que por serem filhos de Abraão:

(1) Vocês não precisam se arrepender; vocês não têm nada de que se arrepender. A sua relação com Abraão e o seu interesse no concerto feito com ele é o que os denomina de santos, a ponto de não haver oportunidade de que vocês mudem de ideia ou de rumo.

(2) Que vocês estão suficientemente bem, embora não se arrependam. Não pensem que isto irá evitar o seu julgamento e protegê-los da ir a futura. Que Deus irá tolerar a sua impenitência, porque vocês são a semente de Abraão. Observe que é presunção vã pensar que as nossas boas relações irão nos salvar, embora nós mesmos não sejamos bons. Embora sejamos descendentes de antepassados religiosos, tenhamos sido abençoados com uma educação religiosa, tenhamos uma família na qual o temor a Deus é absoluto e tenhamos bons amigos que nos aconselham e oram por nós, de que maneira tudo isto poderá nos beneficiar, se não nos arrependermos e vivermos uma vida de arrependimento? Nós temos Abraão como nosso pai, e, portanto, temos direito aos privilégios do concerto realizado com ele sendo sua semente, nós somos filhos da igreja, o templo do Senhor (Jeremias 7.4). Observe que muitos, repousando nas honras e nas vantagens da sua filiação visível à igreja, não conseguem alcançar o céu.

2.Como era tola e infundada esta desculpa; eles pensavam que, sendo semente de Abraão, eram o único povo que Deus tinha no mundo e, portanto, se eles fossem rejeitados, Deus não teria uma igreja; mas João lhes mostra a tolice desta arrogância: “Eu vos digo (não importa o que dizeis em si mesmos) que mesmo destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão”. Ele estava batizando no Jordão, em Betânia (João 1.28), o lugar da passagem, onde os filhos de Israel atravessaram o rio; e ali estavam as doze pedras, uma para cada tribo, que Josué erigiu como um memorial (Josué 4.20). Não é improvável que ele apontasse para estas pedras, que Deus poderia fazer com que fossem mais do que uma representação das doze tribos de Israel. Ou talvez ele estivesse se referindo a Isaías 51.1, onde Abraão é chamado de rocha da qual todos tinham sido cortados. Aquele Deus, que trouxe Isaque daquela rocha, pode, se necessário, fazer a mesma coisa em um outro contexto, pois para Ele nada é impossível. Alguns opinam que ele apontou para os soldados pagãos que estavam presentes, dizendo aos judeus que Deus iria erigir uma igreja para si mesmo em meio aos gentios, e conceder a bênção de Abraão sobre ela. Assim, quando os nossos primeiros pais caíram, Deus poderia tê-los deixado perecer, e das pedras teria criado outro Adão e outra Eva. Ou podemos interpretar da seguinte maneira: ”As próprias pedras serão consideradas semente de Abraão, em lugar de pecador es endurecidos, secos, e infrutíferos como vocês”. Observe que da mesma maneira como isto está diminuindo a confiança dos filhos de Sião, também está incentivando as esperanças dos filhos de Sião de que, aconteça o que acontecer com a geração atual, Deus nunca ficará sem um a igreja neste mundo; se os judeus forem arrancados, os gentios serão enxertados (cap. 21.43; Romanos 11.12 etc.).

 

 

IV – Existe uma mensagem de terror para os fariseus, os saduceus e outros judeus descuidados e seguros, que não conhecem os sinais dos tempos, nem o dia da sua visitação (v. 10). “Agora olhem à sua volta, agora que o Reino de Deus está prestes a se manifestar, a ponto de podermos senti-lo”.

1.”Como é rígido e curto o seu julgamento. ‘Agora, está posto o machado’ diante de vocês, está junto “à raiz das árvores, e agora vocês dependem do seu bom comportamento, e estarão assim por um curto período de tempo; agora vocês estão marcados para a ruína, e não podem evitar, a não ser por meio de um arrependimento rápido e sincero. Agora vocês precisam esperar que Deus faça com vocês um trabalho mais rápido, pelos seus julgamentos, do que fez antes, e isto terá início na casa de Deus. onde Deus dá mais meios, Ele concede menos tempo”. “Eis que venho sem demora”. Naquele momento, eles estavam diante do seu último julgamento: era agora ou nunca.

2.“Como será doloroso o seu destino, se vocês não melhorarem”. Então, vem a declaração – como machado junto à raiz – para mostrar que Deus é sincero na declaração de que toda árvore, ainda que alta em dons e honras, mas verde nas profissões de fé e nos desempenhos externos, se não der bons frutos – os frutos obtidos pelo arrependimento – será cortada, repudiada como um a árvore na vinha de Deus que é indigna de ter o seu espaço ali, e será lançada no fogo da ira de Deus, que é o melhor lugar para as árvores infrutíferas. Para que mais elas servem? Se não servem para dar frutos, servem como combustível. Provavelmente, isto se refere à destruição de Jerusalém pelos romanos, o que não foi, como o foram outros julgamentos, como o podar dos galhos ou o derrubar de uma árvore, deixando a raiz para brotar novamente, mas seria a extirpação completa final e irrevogável destas pessoas, na qual pereceriam todos os que continuassem impenitentes. Agora Deus traria o desfecho final, e a ira que cairia sobre eles seria completa.

 

V – Uma mensagem de orientação a respeito de Jesus Cristo, em quem toda a pregação de João Batista estava centrada. Os ministros de Cristo pregam, não a si mesmos, mas a Ele. Aqui temos:

1.A dignidade e a superioridade de Cristo acima de João. Veja de que maneira humilde ele fala de si mesmo para poder engrandecer a Cristo (v. 11): “Eu, em verdade, vos batizo com água”, e isto é o máximo que eu posso fazer. Observe que os sacramentos não obtêm a sua eficácia de quem o s administra; estas pessoas somente podem aplicar o sinal; é prerrogativa de Cristo dar significado às coisas (1 Coríntios 3.6; 2 Reis 4.31). “Mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu”. Embora João tivesse muito poder, pois ele veio no espírito e poder de Elias, Cristo tinha mais; embora João fosse verdadeiramente grande, grande aos olhos do Senhor (nenhuma pessoa nascida de uma mulher o superou), ainda assim ele se julga indigno de estar no mero lugar de auxiliar de Cristo: “Não sou digno de levar as suas sandálias”. Ele vê:

 (1) O quão poderoso Cristo é, em comparação consigo mesmo. Observe que é um grande consolo para os ministros fiéis pensar que Jesus Cristo é mais poderoso do que eles, que Ele pode fazer as coisas para eles, e por eles, o que eles não podem fazer; a sua força se aperfeiçoa na fraqueza dos ministros.

(2) Quão inferior ele é, em comparação com Cristo, sentindo-se indigno de levar as suas sandálias! Observe que aqueles que Deus honra são, por esta razão, muito humildes e inferiores aos seus próprios olhos; desejam ser humilhados para que Cristo possa ser enaltecido; desejam ser qualquer coisa, ou nada, para que Cristo possa ser tudo

2. O modo e a intenção da manifestação de Cristo, que eles agora deviam esperar. Quando foi profetizado que João seria enviado como o precursor de Cristo (Malaquias 3.1,2), imediatamente a seguir está escrito que “virá o Senhor, a quem vós buscais, o anjo do concerto… e assentar-se-á… e purificará” (v. 3). E depois da vinda de Elias, “aquele dia vem ardendo como forno” (Malaquias 4.1), que é ao que João Batista parece referir-se aqui. Cristo virá para fazer uma distinção:

(1) Pela obra poderosa da sua graça: “Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo”. Observe:

[1] É prerrogativa de Cristo batizar com o Espírito Santo. Isto Ele fez concedendo os dons extraordinários do Espírito, desde os dias dos apóstolos, aos quais o próprio Cristo aplica estas palavras de João (Atos 1.5). Isto Ele faz na graça e no consolo do Espírito, concedendo-os àqueles que lhe pedem (Lucas 11.13; João 7.38,39; veja Atos 11.16).

[2] aqueles que são batizados com o Espírito Santo, são batizados como que com o fogo. Os sete espíritos de Deus aparecem como sete lâmpadas de fogo (Apocalipse 4.5). O fogo ilumina? Também o Espírito é um Espírito que ilumina. O fogo aquece? E os corações não queimam dentro deles? O fogo consome? E o Espírito de julgamento, como um Espírito que arde, não consome as impurezas das corrupções dos pecadores? O fogo torna tudo o que alcança semelhante a si? E se move para o alto? Também o Espírito torna a alma santa como Ele mesmo o é, e tende a se dirigir para o céu. Cristo diz: “Vim lançar fogo na terra” (Lucas 12.49).

(2) Pela determinação final do seu julgamento (v. 12): “Em sua mão tem a pá”. A sua capacidade de distinguir, pela sabedoria eterna do Pai, que vê tudo como verdadeiramente é, e a sua autoridade de distinguir, como a Pessoa à qual todos os julgamentos se submetem, é a pá que está na sua mão (Jeremias 15.7). Agora, Ele se assenta e purifica. Observe aqui:

 [l] A igreja visível é a eira de Cristo: ”Ah! Malhada minha, e trigo da minha eira!” (Isaias 21.10). O Templo, um tipo da igreja, foi construído sobre uma eira.

[2] Nesta eira, há uma mistura de trigo e palha. Os verdadeiros crentes são como o trigo, importantes, úteis e valiosos; os hipócritas são como a palha, leves e vazios, inúteis e sem valor, e levados pelos ventos; agora, eles estão misturados, os bons e os maus, sob a mesma profissão exterior de fé, e na mesma comunhão visível.

[3] Virá, porém, o dia em que a eira será purificada, e o trigo e a palha serão separados. Alguma coisa desse tipo sempre é feita neste mundo, quando Deus chama o seu povo da Babilônia (Apocalipse 18.4). Mas é o dia do Juízo Final que será o grande dia da colheita, da distinção, que de maneira inequívoca irá determinar o resultado das doutrinas, das obras (1 Coríntios 3.13), e das atitudes das pessoas (cap. 25.32,33). Os santos e os pecadores serão separados para sempre.

[4] O céu é o celeiro onde Jesus Cristo em breve irá reunir todo o seu trigo, e nem um grão sequer dele será perdido; Ele o reunirá como os frutos da colheita. A ceifadeira da morte será usada para reuni-los ao seu povo. No céu, os santos serão reunidos, e não mais ficarão espalhados; estarão seguros, e não mais expostos; separados dos vizinhos corruptos e dos desejos corruptos interiores, e não haverá mais palha entre eles. Eles não somente são reunidos no celeiro (cap. 13.30), mas no silo, onde são completamente purificados.

[5] O inferno é o fogo inextinguível, que irá queimar a palha, o que certamente será a punição eterna dos hipócritas e descrentes. Dessa forma, aqui estão a vida e a morte, o bem e o mal, dispostos diante de nós; de acordo com a maneira que estiverem no campo, estaremos então na eira.