OUTROS OLHARES

LUXO NO LIXO

Para continuar vendendo seus produtos a preços estratosféricos, grifes voltadas para clientes de alto poder aquisitivo destroem mercadorias caríssimas que encalharam nas prateleiras.

Luxo no lixo

A prática parece estúpida, mas é corriqueira no mercado de alto luxo. Itens que não encontram compradores acabam no lixo, são destruídos ou incinerados. É literalmente, uma queima total e não no sentido em que o termo aparece nas liquidações. Para a indústria que fabrica joias, relógios, perfumes e roupas exclusivas, reduzir preços é heresia. Na semana passada, a grife britânica Burberry, ícone de luxo cuja fundação remonta 1856, anunciou ter queimado, em apenas um ano, o equivalente em produtos a 28 milhões de libras, cerca de R$141 milhões. Os dados constam do relatório anual da Burberry, relativo a 2017. Não foi a primeira vez. Nos últimos cinco anos, a marca incinerou aproximadamente 90 milhões de libras esterlinas, algo próximo de RS 446 milhões. Os produtos, segundo a grife, haviam sido produzidos em quantidades muito acima do que o mercado era capaz de absorver. Ou seja, encalharam.

“Uma das características da marca de luxo é a exclusividade. O conceito de escassez planejada da oferta explica essa necessidade que marcas como a Burberry têm de manter o preço”, diz Amnon Armoni, especialista em luxo e professor do MBA em Gestão Estratégica de Negócios da FAAP, em São Paulo. Para ele, marcas que atuam nesse segmento não podem correr o risco de perder relevância – o que ocorreria no caso de desequilíbrio da oferta em relação à demanda.

Embora tenha um alto custo tanto financeiro quanto ambiental, a destruição do excedente não gera prejuízo. Pelo contrário. Segundo Armoni, os acionistas são extremamente sensíveis aos resultados e ao valor da marca. “É preciso garantir o lucro, crescer, obter dividendos”, afirma. Ainda assim, ele acredita que tornar pública a informação sobrea destruição de mercadorias pode ser prejudicial para a imagem da grife. “Foi bizarro” diz Armoni. “Se a Burberry decidiu divulgar esse procedimento para chamar atenção. o tiro saiu pela culatra. Como sera a percepção dos consumidores daqui em diante?”, questiona. Em pronunciamento à imprensa, representantes da Burberry afirmaram que a incineração não deteriora o meio ambiente: “A energia gerada a partir dessa queima é armazenada, então o processo não polui”.

Para o professor do Instituto de Energia e Meio Ambiente da USP, Pedro Roberto Jacobi, a incineração é uma ação cada vez mais combatida, e o fato de a prática ser recorrente por parte das grifes “representa uma aberração do ponto de vista ambiental mas, principalmente, social. É uma atitude escandalosa e a melhor maneira de combater esse absurdo é boicotar seus produtos”, afirma Jacobi.

“ABSURDO”

Uma alternativa bem mais sustentável seria doar os produtos excedentes pelas instituições filantrópicas, que poderiam leiloá-los e destinar os recursos obtidos para causas sociais e humanitárias. Patrocinar programas de combate à pobreza extrema, a fome e a destruição ambiental seria bem mais interessante que destruir objetos que empregaram não apenas recursos naturais valiosos como o trabalho de centenas de pessoas. Em um mundo marcado pela crescente concentração de renda e onde cada vez mais se questiona a ostentação e o desperdício, destruir parte dos estoques para garantir mais lucros é um convite a críticas. “Um absurdo”, afirma Katherine Braun, professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e especialista em moda. Ela relembra que o grupo Richemont, proprietário das marcas Montblanc e Cartier, “redirecionou” cerca de 500 milhões de euros R$ 2,1 bilhões) em estoque excedente nos últimos dois anos. Nesse caso, parte dos itens foi reciclado, mas muito do material acabou destruído. Não é de estranhar que o bilionário sul-africano Johann Rupert, principal acionista do grupo Richemont tenha declarado. anos atrás, que a desigualdade social o perturba a ponto de ele não dormir tranquilo. Suas práticas comerciais são mesmo capazes de tirar o sono de qualquer um.

Luxo no lixo.2

Anúncios

OUTROS OLHARES

TREMOR SEM FIM?

A doença de Parkinson ainda é considerada incurável. Pesquisadores procuram ao menos, atenuar seus sintomas por meio da terapia genética, de transplantes celulares e do marca-passo cerebral.

Tremor sem fim

Atlanta, 9 de julho de 1996. Solenemente, Cassius Clay acende a pira olímpica na abertura dos XXVI Jogos de Verão. Mas a mão do antigo campeão mundial de box treme. O mundo é testemunha de um mal que Clay – mais conhecido como Muhammad Ali – compartilha com pelo menos outras 4 milhões de pessoas hoje no mundo. Estamos falando de uma doença cujos sintomas o médico e farmacêutico James Parkinson (1755 – 1824) descreveu pela primeira vez em 1817. Devido ao acentuado tremor de seus pacientes, ele a denominou shaking palsy, ou seja, “paralisia agitante”. Uma designação errônea, já que ela não causa paralisia e nem vem obrigatoriamente acompanhada de tremores. Na verdade, seu principal sintoma é um crescente e generalizado empobrecimento dos movimentos. Parkinson ainda não sabia nada sobre suas causas – e recomendava sangria e aplicação de ventosas.

Se diagnosticada a tempo, a doença pode ser bem controlada com medicamentos em seu estágio inicial. Em um tratamento ideal é possível atenuar os sintomas durante oito a 15 anos – e a expectativa de vida dos afetados permanece quase normal. No entanto, o diagnóstico quase nunca é feito em seu início, pois a doença começa com sintomas pouco específicos, como tensões musculares em um dos ombros ou braços, o que faz as pessoas visitar primeiro o ortopedista, e não o neurologista. Antes dos primeiros distúrbios de movimento, são frequentes cansaço, depressão ou crises repentinas de suor.

Muitas vezes, nada acontece durante anos – podem se passar de nove a 12 anos até a doença se manifestar completamente. Mas, pouco a pouco fica cada vez mais difícil lidar com objetos cujo manejo exige habilidade motora tina, como enfiar linha na agulha. Também o ato de escrever é afetado e a letra dos pacientes vai se tomando menor e de difícil leitura. Por fim, as atividades cotidianas se tomam obstáculos quase intransponíveis, escovar os dentes, pentear os cabelos, amarrar os sapatos, abotoar a camisa. A longo prazo, os doentes precisam de acompanhamento e sua qualidade de vida diminui sensivelmente.

Às dificuldades motoras somam-se problemas psíquicos, assim como os movimentos, os processos mentais ficam mais lentos. O fluxo de pensamentos se torna vagaroso, a fala soa arrastada e baixa. Cerca de um em cada dois pacientes é depressivo ou tem distúrbios de ansiedade, além disso, um em cada três sofre crises de demência.

Depois do mal de Alzheimer, Parkinson é a doença neurodegenerativa mais comum do mundo ocidental: aproximadamente 4 milhões de pessoas são afetadas no mundo todo, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU). Apesar de também existirem parkinsonianos de 30 a 40anos, a doença é típica da velhice e atinge principalmente homens. Cerca de 1% das pessoas com mais de 60anos tem Parkinson e tal probabilidade aumenta l% a cada década de vida. Com expectativa de vida crescente e taxa de natalidade progressivamente menor, haverá no futuro cada vez mais doentes. Crianças nascidas hoje devem viver em média 90 anos, e calcula-se que cerca de 7,5% delas terão a doença até chegar a essa idade. Nesse cenário, a pesquisa médica tem sido cada vez mais desafiada a descobrir as causas do mal e desenvolver tratamentos efetivos. Apesar de progressos significativos já terem sido alcançados nos últimos anos, as causas da doença permanecem obscuras.

Desde os anos 60 sabe-se que as células nervosas do mesencéfalo se atrofiam com a doença. Os mais afetados por essa perda são os gânglios basais, situados abaixo do telencéfalo, responsáveis pelo controle da execução de movimentos automáticos. Ao escorregarmos em uma casca de banana, quase sempre um rápido movimento de equilíbrio – coordenado inconscientemente pelos gânglios basais – nos protege da queda. Se, por outro lado, quiséssemos controlar tudo conscientemente pelo telencéfalo, o processo levaria muito mais tempo – nós cairíamos muito mais vezes de cara no chão.

Entre os gânglios basais encontra-se a substância negra, que deve seu nome à grande concentração de pigmentos escuros, a melanina. Suas células nervosas altamente especializadas, que perfazem aproximadamente 1% do volume cerebral, produzem a dopamina – uma das mais importantes substâncias transmissoras do cérebro. Responsável principalmente pela regulação de todos os movimentos corporais, esse neurotransmissor atua como inibidor e também como ativador sobre outras áreas menos importantes como por exemplo o corpo estriado, que repassa os sinais para o telencéfalo. Pacientes com Parkinson perdem entre 20 e 25 mil dessas células nervosas dopaminérgicas.

Na ausência de dopamina o controle de estímulos no mesencéfalo não funciona corretamente. O paciente fica rígido, só consegue controlar seus movimentos com dificuldade e caminhar se transforma em um esforço quase insuperável. Sequer passar por locais estreitos, fica paralisado de repente – os clínicos denominam esse temido fenômeno de freezing.

 COMANDANTE INVISÍVEL

O tálamo, uma área de conexão do mesencéfalo, também depende da dopamina. Em estado saudável, ali aparentemente reina o caos – os neurônios trabalham desordenadamente. Porém, se o nível dopaminérgico cai, as células nervosas reagem de forma peculiar, sincronizam suas atividades – como sob ordens de um comandante invisível – e passam a trabalhar sincronicamente. Como consequência, os dedos, as mãos ou as pernas começam a tremer. Médicos descobriram tal fenômeno quando extraíram por engano parte do tálamo de um paciente: após a operação, o tremor em estado de descanso desapareceu.

Na maioria dos casos não é possível encontrar o causador da atrofia neuronal. Apenas em raras ocasiões pode-se rastrear uma meningite ou um tumor que sufoca a substância negra. Esses poucos casos são facilmente revelados por tomografia computadorizada ou ressonância magnética; nos pacientes típicos de Parkinson, no entanto, as imagens cerebrais raramente apresentam anomalia. Os casos da doença que atinge frequentemente boxeadores como Muhammad Ali, cujos cérebros foram constantemente expostos a golpes, também são considerados exceções. Outros fatores de risco possíveis são substâncias nocivas ao ambiente como pesticidas e metais pesados.

Entre 5% e 10% dos pacientes têm um defeito genético. Nesse caso, o mal se manifesta bem cedo. Se a doença afeta algum parente próximo, o risco é dobrado. Até agora foram identificados nove lócus gênicos envolvidos no surgimento da doença de Parkinson. Pelo menos quatro desses genes participam da produção de proteínas dentro da célula. Por esse motivo, vários neurologistas partem do princípio de que a doença tem como base uma sobrecarga dos neurônios com suas próprias proteínas. Se elas não podem mais ser eliminadas nem transformadas, a célula literalmente é sufocada pelos produtos de seu próprio metabolismo. Um outro gene controla a produção de energia pelas mitocôndrias. Se essas “usinas elétricas” das células deixam de funcionar, vários processos produtivos se paralisam – entre eles, a produção de dopamina.

O estudo das bases genéticas modificou nossa visão do problema, de um lado, percebemos que a doença de Parkinson não pode ser atribuída a uma causa apenas, e de outro, abrem-se novas possibilidades de diagnóstico. Cientistas esperam que, no futuro, a doença possa ser reconhecida precocemente por meio de um teste genético. Já se fala em tratamentos baseados em engenharia genética, mas até agora nenhum deles saiu da fase experimental. O plano é inserir genes no mesencéfalo do paciente através de vírus especialmente manipulados. Lá, os genes devem, por exemplo, ativar determinadas enzimas que liberam ou transportam dopamina. Os primeiros testes com animais já tiveram bons resultados – possivelmente este será um caminho pelo qual os sintomas da doença poderão ser atenuados ainda mais drasticamente.

Os pesquisadores estão introduzindo fatores neurotróficos – compostos que promovem o crescimento e a diferenciação neuronal – no cérebro. Esses agentes não só aliviam os sintomas como prometem proteger os neurônios dos danos e recuperar os que já foram prejudicados. Uma linha de pesquisa em animais sugere que uma família de proteínas chamada fator neurotrófico derivado de células gliais (GDNF; do inglês gliaI cell – derived neurotrophic factor) pode aumentar a sobrevivência de neurônios dopaminérgicos lesionados e reduzir drasticamente os sintomas parkinsonianos. Em macacos, essa substância conseguiu estimular a regeneração celular e interromper o declínio da formação de novos neurônios.

Em 2002, Stephen Gill e seus colegas já arriscaram testá-la em seres humanos no Hospital Frenchay, em Bristol, Inglaterra: o grupo administrou o GDNF por um cateter diretamente no corpo estriado, principal receptor dos gânglios de base da dopamina secretada pelos neurônios da substância negra, de cinco pacientes com Parkinson em estágio avançado. E vejam só: os sintomas realmente recuaram e a produção de dopamina aumentou. Em um dos pacientes, hoje falecido, os médicos comprovaram, até mesmo novos axônios neuronais. Mas muitos cientistas ainda mantêm- se reservados em seus prognósticos sobre a terapia genética. Ainda há poucos experimentos para avaliar sua efetividade e seus riscos.

Sendo assim, por enquanto, entre os métodos à escolha figuram apenas os medicamentos clássicos, entre os quais, no entanto, não há nenhum capaz de realmente curar a doença. O tratamento dos sintomas, porém, melhorou muito nos últimos 30 anos. O desenvolvimento da, L- Dopa, um estágio preliminar da dopamina que se transforma em dopamina no cérebro, foi o avanço mais revolucionário. Contrariamente à dopamina pura, a L- Dopa atravessa a barreira hematoencefálica – um revestimento de pouca permeabilidade dos vasos cerebrais que impede a penetração de substâncias nocivas no sensível órgão. Por isso, a L-Dopa pode ser simplesmente tomada na forma de comprimido.

Os primeiros resultados da L- Dopa impressionam: o medicamento devolve a autonomia de movimentos aos pacientes e lhes possibilita voltar a viver ativamente. No entanto, após alguns anos de tratamento, fica cada vez mais difícil calcular a quantidade ideal de L- Dopa, pois os receptores dopaminérgicos da região neuronal visada, o corpo estriado, tornam-se extremamente sensíveis com a evolução da doença. Apenas poucos neurônios dopaminérgicos continuam disponíveis para equilibrar as variações do nível de dopamina. Quando há uma overdose de L – Dopa, os movimentos se tornam exagerados e incontroláveis – a chamada discinesia. Por outro lado, uma dose menor que a necessária leva a um bloqueio completo. Muitos pacientes acham tal alternância entre essas fases “on” e “off” mais estressante que os sintomas originais da doença.

Uma alternativa são as substâncias da classe das agonistas da dopamina que imitam a sua função. Anualmente há uma enorme variedade de substâncias desse tipo no mercado. Mesmo que não tenham efeito tão forte quanto a, L – Dopa no início, a longo prazo, elas se mostram eficientes, são mais fáceis de dosar e a inutilizavam. Desde metade dos anos 90, surgiram opções mais elegantes. Veio da França a estimulação cerebral profunda, os cirurgiões implantam um eletrodo em um dos dois alvos dos gânglios de base – os gânglios basais ou o núcleo subtalâmico – ligado a um dispositivo que gera impulsos, implantado no tórax. Dessa forma a atividade do tálamo deve ser interrompida por meio de pequenos choques dirigidos.

A operação é extremamente complicada e demanda um trabalho de precisão milimétrica. O eletrodo não pode atingir um vaso em hipótese alguma. Há a ameaça de hemorragias cerebrais – que teriam como consequência uma paralisia ou um derrame. Felizmente, tais complicações raramente surgem. Como o cérebro não tem receptores de dor, os cirurgiões realizam a intervenção com o paciente em estado consciente. Uma vantagem decisiva, pois assim os médicos podem lhe lazer perguntas ou pedir que conte uma história durante a operação – e ter assim certeza de que não estão prejudicando nenhuma área cerebral importante. Por fim, o eletrodo é conectado a um marca-passo através de um cabo invisível sob a pele. O dispositivo normalmente emite impulsos de 90 microssegundos e 3 volts até 185 vezes por segundo. A caixinha, do tamanho de um maço de cigarros, é colocada sob a clavícula ou a pele da barriga, a troca de bateria a cada três a seis anos se dá sem complicações.

Se a operação for bem-sucedida, o paciente vive uma mudança impressionante que chega a lembrar um filme de ficção científica, um assistente opera um controle remoto e o paciente, que antes mal conseguia se movimentar, perde a rigidez e atravessa a sala lepidamente.

O procedimento parece muito promissor, o efeito da estimulação no núcleo subtalâmico se mantém estável por anos, de forma que a dose dos medicamentos muitas vezes pode ser reduzida pela metade. Porém, a estimulação permanente afeta também as áreas cerebrais vizinhas podendo causar sensação de surdez, distúrbios de fala ou problemas de equilíbrio. Portanto, cientistas trabalham para criar um marca-passo que trabalhe de forma mais cuidadosa, supervisionando o tálamo permanentemente e só o estimulando quando necessário.

TRATAMENTO DE LONGO PRAZO

O objetivo das pesquisas continua a ser o tratamento das causas da doença. A solução mais próxima parece ser a simples substituição das células atrofiadas. No entanto, as primeiras tentativas com células da medula supra- renal do próprio paciente não tiveram o resultado desejado, nem mesmo a implantação de tecidos de cérebros de suínos.

Até hoje quase todas as tentativas de curar a doença de Parkinson através do transplante celular fracassaram. Além da rejeição ao tecido estranho, o principal problema é a transferência do número correto de células. Em alguns casos de sucesso, o efeito placebo parece ter tido um papel importante: Cynthia McRae da Universidade de Denver fez seus pacientes acreditarem que havia implantado neles novas células nervosas. Um ano após essa operação fictícia ela ainda pôde observar uma melhora significante dos sintomas. Pesquisadores coordenados por Fabrízio Benedeni da Universidade de Turim injetaram uma solução com sal de cozinha em pacientes com Parkinson. Após o procedimento, seus movimentos musculares melhoraram e até mesmo a atividade de alguns neurônios aumentou significativamente.

Esperançosa parece ser a implantação de células epiteliais pigmentares capazes de produzir L-Dopa. Elas são encontradas na retina de fetos abonados e podem ser facilmente reproduzidas em cultura. Ligadas aos chamado msicrocamer, esferas de proteína microscópicas, o sistema imunológico quase não percebe as células implantadas, o que diminui o risco de rejeição. Com a retina de um único prematuro podem ser tratados 200 pacientes de Parkinson. Depois do sucesso de um estudo piloto com seis pessoas, o procedimento está sendo testado em 50 pacientes nos Estados Unidos.

Além disso, os médicos depositam grandes esperanças nas células-tronco que conseguem se transformar em diferentes tipos de células com funções específicas. Essas desejadas multifuncionais existem não apenas em embriões, mas também no organismo adulto. Uma grande reserva fica na chamada zona subventricular do mesencéfalo onde se formam novas células nervosas a fim de manter a plasticidade do cérebro. Principalmente o hipocampo, indispensável para a função da memória, responde pelo acréscimo regular de novas células.

A chamada célula C representa um estágio intermediário entre as células nervosas e as células-tronco. O grupo de trabalho de Marburg liderado por Günter Hoglinger e Wolfgang Oertel conseguiu demonstrar que o crescimento dessas células reage à dopamina. Se a produção de dopamina é interrompida em ratos, são produzidas menos células C. Como a dopamina nos seres humanos também estimula a divisão das células-tronco, forma-se um ciclo vicioso nos pacientes de Parkinson: devido à perda das células produtoras de dopamina, seu cérebro torna-se incapaz de substituir as células nervosas atrofiadas.

Pesquisadores coordenados por Jun Takahashi da Universidade de Kyoto, no Japão, tentam transformar células-tronco embrionárias através de processos de crescimento naturais em neurônios dopaminérgicos para só então transplantá-los. No início deste ano eles conseguiram o primeiro resultado positivo com macacos. Porém, antes que o tratamento de Parkinson com células-tronco embrionárias possa se aproximar de um estágio tecnicamente factível, há ainda várias perguntas a serem respondidas.

Está claro que todos esses casos tratam de possibilidades futuras. E não apenas o tratamento médico, mas também o ambiente em que vive o paciente têm um papel importante para o desenvolvimento da doença. Estar cercado de cuidados pode muitas vezes reduzir espantosamente os sintomas psíquicos, enquanto a fisioterapia regular estimula a capacidade de movimentação.

Muitos doentes revelam-se grandes inventores quando se trata de administrar sua rotina. Eles ouvem música em um walkman para falar mais alto e claramente; desenhos no tapete os ajudam a se concentrar em seu caminho. Hoje, a indústria oferece sistemas ópticos para reduzir o grande risco de quedas, integrado em óculos especiais, o sistema denominado “Park Aid projeta desenhos gráficos no campo de visão do paciente a fim de facilitar a sua orientação espacial. E IBM desenvolveu um mouse especial que possibilita aos pacientes trabalhar ao computador sem tremores.

O grupo coordenado por Alfons Schnitzler, da Universidade de Dusseldorf, também trabalha com técnicas de vídeo. Para facilitar o controle de sintomas, os pesquisadores instalaram câmeras nos apartamentos de cem pacientes. O que à primeira vista lembra um Big Brother possibilita a observação do ambiente caseiro, os pacientes apresentam sua mobilidade quatro vezes ao dia, o que faz com que o médico possa decidir a distância se os seus sintomas se modificaram. Se for este o caso, então a dose de medicamentos provavelmente precisa ser readequada. O ajuste leva normalmente duas semanas na clínica, o que aumenta consideravelmente os custos. No entanto, um estudo de controle ainda precisa comprovar o quanto este método realmente funciona.

Por fim, fica a pergunta sobre o que as pessoas saudáveis podem fazer para evitar o mal. Como no caso da maioria das doenças, movimentação corporal não faz mal algum – a não ser que se trate de boxe. Pelo menos para homens, o grupo de trabalho de Alberto Aschiero, da Escola de Saúde Pública de Harvard, em Boston, pôde comprovar em 2005 que a atividade esportiva reduz pela metade o risco do surgimento da doença. Em que se baseia tal proteção, ainda não está claro. Talvez o esporte eleve o nível de dopamina – um efeito que também foi atribuído à nicotina recentemente. Nancy Pedersen, do Instituto Karolinska, de Estocolmo, também pôde comprovar em 2004 aquilo que pesquisadores da Universidade de Magdeburg, coordenados por Wiebke Hellenbrand, descobriram em 1997, amantes do cigarro aparentemente são vítimas menos frequentes da pérfida paralisia agitante. Os fumantes teriam então nova desculpa.

 

OUTROS OLHARES

O DEFICIENTE ESTATUTO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA

Lei brasileira de inclusão apresenta problemas por integrar, na mesma legislação, indivíduos com deficiência física e mental.

O Deficiente estatudo da pessoa com deficiência

Em 6 de julho de 2015 foi instituída a Lei nº 13.146, que passa a se chamar Lei Brasileira de Inclusão. A ideia do legislador era “assegurar e promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania”, conforme o seu art. 1°.

Com respeito às opiniões divergentes, essa lei apresenta problemas insuperáveis por incluir, na mesma legislação, indivíduos com deficiência física e mental.

Do ponto de vista médico, não há qualquer possiblidade de equipará-los, colocando-os em uma mesma categoria, uma vez que os transtornos mentais estão relacionados à capacidade de entendimento e de determinação do agente, enquanto as outras deficiências são de natureza eminentemente física ou relacionadas ao comprometimento da sensopercepção.

Para ficar apenas no que interessa à psiquiatria forense, é preciso lembrar que muitos doentes mentais precisam ser interditados, pois a interdição, que tem suas origens na Lei das Doze Tábuas, foi por milênios aperfeiçoada para proteger o indivíduo incapaz de gerir a sua pessoa e de administrar os seus bens. E quem elaborou o Estatuto da Pessoa com Deficiência viu a interdição como um castigo ao interdito, ao passo que é exatamente o contrário, ou seja, um remédio jurídico-social, o qual, como qualquer fármaco, se bem administrado, é medida salutar e necessária. O grande e incompreensível problema da lei em comento está no Capítulo II art. 6°, que estabelece: “A deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa” (ou seja, não existe mais interdição total).

Afeta sim, é impossível o esquizofrênico grave, o encefalopata maior, o demente senil, o sequelado grave de acidente vascular cerebral, o alcoolista crônico, o toxicômano grave, o enfermo de mal de Pick, o que está há longo tempo em estado comatoso etc. ter capacidade mental para praticar qualquer ato civil, seja lá qual for. Devem ser protegidos pela lei, pois são totalmente incapazes. Sem a proteção legal, ficam vulneráveis e expostos a toda a sorte de desgraça física, patrimonial, social, pessoal e tudo mais.

Os problemas dessa Lei nº13.146/2015 não param aí. Apenas para citar mais um: o art. 84, § 2°, diz respeito à tomada de decisão apoiada, quando a pessoa com deficiência elege pelo menos dois indivíduos para lhe prestar apoio na tomada de decisão sobre atos da vida civil (art. 1.783-A do Código Civil).

Imagine o leitor um indivíduo limítrofe intelectualmente – ingênuo, sugestionável e com diminuição da inteligência -, sem o pai, a mãe morreu e não tem irmãos ou parentes, na posse da legítima herança. Não estaria correndo o risco de apontar dois espertalhões, dentre tantos que não minguam em qualquer sociedade, que estão sempre prontos para “ajudar”? E como ficam os psicopatas e fronteiriços de todo o gênero? Parece que o legislador que elaborou a referida Lei nº 13.146/2015 foi deficiente em compreender que a interdição total, como dito, não é um castigo, mas a necessária proteção jurídico-social para alguns que possuem transtornos intelectuais.

Se essa lei, com todo respeito, caolha para a psiquiatria forense, não for rapidamente revista, vamos assistir a inúmeras injustiças e práticas condenáveis recaírem naqueles que mais precisam de proteção social e legal.

 

GUIDO ARTURO PALOMBA – é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.

OUTROS OLHARES

A CIÊNCIA DA PERSUASÃO

A psicologia social identificou os princípios básicos que levam uma pessoa a dizer “sim”.

A ciência da persuasão

Olá, espero que esteja gostando da matéria. Por ora, eu gostaria de apresentar algo que pode ser de extrema importância pessoal para você. Você já foi induzido a dizer sim? Já se sentiu forçado a comprar algo que não queria ou a contribuir com alguma causa suspeita? Alguma vez já desejou entender porque agiu desse jeito, para que, no futuro pudesse resistir a esses ardis? Sim? Então este artigo é perfeito. Ele contém informações de grande valor sobre as mais poderosas pressões psicológicas que fazem você responder sim a pedidos. E é repleto de pesquisas NOVAS e APRIMORADAS que mostram exatamente como e por que essas técnicas funcionam. Então não perca tempo, apenas relaxe e acesse as informações – que, no fundo, você já concordou que quer.

O estudo científico do processo de influência social tem mais de 50 anos, tendo começado de modo mais sério com os programas de propaganda, informes públicos e de persuasão da Segunda Guerra Mundial. Desde aquela época, inúmeros cientistas sociais investigaram os meios pelos quais uma pessoa pode influenciar as atitudes e ações de outra. Participei nos últimos 30 anos dessa empreitada, concentrando-me em especial nos principais fatores que causam uma forma específica de mudança de comportamento – a concordância com uma solicitação. Seis inclinações básicas do comportamento humano atuam para gerar uma resposta positiva, reciprocidade, coerência, validação social, gostar (de alguém), autoridade e escassez. Pelo fato de essas inclinações ajudarem a orientar nossas transações comerciais, nossa participação social e nossas relações pessoais, o conhecimento das regras da persuasão pode efetivamente ser pensado como algo que aumenta nosso poder enquanto cidadãos.

RECIPROCIDADE

Quando a organização dos Veteranos Americanos Incapacitados envia por mala-direta pedidos de contribuição, a requisição é atendida em apenas 18% dos casos. No entanto, quando a correspondência inclui um conjunto gratuito de etiquetas personalizadas de endereço, a aceitação praticamente dobra, chegando a 35%. Para entender o efeito desse presente não solicitado, devemos reconhecer o alcance e a força de uma regra elementar da conduta humana, o código de reciprocidade.

Todas as sociedades endossam normas que obrigam os indivíduos a retribuir de algum modo àquilo que recebem. Pressões da seleção evolutiva provavelmente fixaram esse comportamento em animais sociais, como é o nosso caso. A exigência de reciprocidade explica em parte o grande aumento de doações feitas ao grupo de veteranos. Receber um presente não solicitado – e talvez até mesmo não desejado – convenceu um número significativo de doadores a retribuir o favor. Organizações beneficentes não estão sozinhas na utilização dessa abordagem, pelo contrário, supermercados oferecem degustações grátis, dedetizadores fornecem orçamentos sem compromisso, academias de ginástica propõem aulas-teste. Desse modo, os clientes são expostos aos produtos e serviços, mas também obrigados a retribuir. Mas os consumidores não são os únicos sob a influência da reciprocidade. Indústrias farmacêuticas gastam milhões de dólares por ano para financiar pesquisas e para oferecer presentes a médicos – atividades que podem influenciar indiretamente as descobertas dos pesquisadores e as recomendações dos médicos. Estudo de 1989 publicado no New England Journal of Medicine descobriu que apenas 37% dos pesquisadores que haviam publicado conclusões críticas sobre a segurança dos bloqueadores de canais de cálcio já tinham recebido financiamentos de indústrias farmacêuticas. Todavia, entre aqueles cujas conclusões atestavam a segurança do remédio, o número de pesquisadores que tinham recebido viagens gratuitas, financiamento para pesquisa ou emprego disparava – para 100%.

A reciprocidade envolve mais que presentes e favores; ela também se aplica a concessões que as pessoas fazem umas às outras. Suponha, por exemplo, que você recuse meu pedido principal, e eu então lhe proponha algo mais simples. É muito provável que você retribua com uma concessão de sua parte: a concordância com a minha segunda proposta. Em meados dos anos 70, meus colegas e eu realizamos uma experiência que ilustra com clareza a dinâmica das concessões recíprocas. Nós abordávamos uma amostra aleatória de passantes na rua e perguntávamos se eles se ofereceriam como voluntários para ciceronear jovens infratores em um passeio ao zoológico. Como era de esperar, pouquíssimos concordaram – apenas 17%.

No entanto, em outra amostra aleatória de passantes, começamos com um pedido ainda maior: trabalhar, sem remuneração, como conselheiro no centro de detenção juvenil, duas horas por semana pelos próximos dois anos. Todo mundo dessa segunda amostra rejeitou esse pedido excessivo. Nesse ponto, oferecíamos a eles uma concessão. “Se não podem fazer isso, perguntávamos, vocês poderiam ciceronear um grupo de jovens infratores em um passeio ao zoológico” Nossa concessão estimulou fortemente a retribuição. Comparado ao pedido direto para acompanhar os jovens ao zoológico, o nível de aceitação praticamente triplicou, chegando a 50%.

COERÊNCIA

Em 1998 Gordon Sinclair, proprietário de um famoso restaurante em Chicago, lutava contra um problema que aflige todos os restaurantes.  Os clientes com frequência reservavam mesas e não compareciam nem ligavam para desmarcar. Sinclair resolveu o problema pedindo que a recepcionista mudasse duas palavras do que ela dizia aos fregueses que solicitavam reservas. A mudança fez com que os casos de pessoas que não apareciam nem ligavam para desmarcar a reserva imediatamente despencassem de 30% para 10%.

As duas palavras surtiram efeito porque elas mobilizavam a força de outra forte motivação humana, o desejo de ser, e de parecer, coerente. A recepcionista simplesmente mudou seu pedido de ‘Por favor, ligue se você tiver de mudar seus planos” para ‘Você pode, por favor, ligar se tiver de mudar seus planos? Nesse momento ela fazia, de modo cortês, uma pausa, e aguardava a resposta. A espera era fundamental porque induzia os clientes a preencher a pausa com um compromisso público. E compromissos públicos, mesmo aqueles aparentemente banais, determinam as ações futuras.

Em outro exemplo, a equipe de Joseph Schwarzwald, da Universidade Bar-llan, em Israel, praticamente dobrou as contribuições em dinheiro para deficientes físicos em determinados bairros. O principal fator, duas semanas antes de solicitar as contribuições, eles colheram assinaturas entre os moradores para um abaixo-assinado em apoio aos deficientes, o que fez com que eles assumissem um compromisso público com aquela causa.

VALIDAÇÃO SOCIAL

Em uma manhã fria de inverno no final dos anos 60, um homem parou numa movimentada calçada na cidade de Nova York e fitou o céu por 60 segundos, sem nenhum motivo especial. Fez isso como parte de um experimento realizado pelos psicólogos Stanley Milgram, Leonard Bickman e Lawrence Berkowitz, da Universidade da Cidade de Nova York, planejado para descobrir que efeito essa ação teria sobre os passantes. A maioria simplesmente se desviava ou esbarrava nele, 4% se juntavam ao homem olhando para cima. O experimento foi então repetido com uma pequena modificação. Com a mudança, um grande número de pedestres foi induzido a parar, aglomerar-se e olhar para o alto.

Essa única alteração incorporava o fenômeno da validação social. Um dos modos fundamentais de decidirmos o que fazer numa determinada situação é olhar o que os outros estão fazendo ou fizeram naquela circunstância. Se muitos optaram por uma certa ideia, tendemos a segui-la, porque vemos a ideia como sendo mais correta, mais válida.

Milgram, Bickman e Berkowitz introduziram a influência da validação social em seu experimento simplesmente fazendo com que cinco homens, em vez de apenas um, fitassem coisa alguma. Com mais pessoas no grupo inicial olhando para cima, a porcentagem de nova-iorquinos que fizeram o mesmo mais que quadruplicou, chegando a 18%. Grupos iniciais com mais pessoas olhando para o alto causaram uma reação ainda maior: um grupo inicial de 15 pessoas fez com que 40% dos passantes se juntassem a eles, praticamente parando o trânsito em menos de um minuto.

Aproveitando-se da validação social, aqueles que nos pedem algo podem estimular nosso consentimento demonstrando (ou simplesmente insinuando) que outras pessoas como nós já consentiram. Por exemplo, um estudo descobriu que, quando um arrecadador de doações mostrava aos moradores uma lista de vizinhos que haviam feito doações para uma instituição de caridade local, o número de contribuições aumentava significativamente; quanto maior a lista, maior o efeito. Por essa razão os publicitários se desdobram para nos informar que seu produto é o que mais vende ou cresce entre os seus similares, e os comerciais de televisão retratam multidões correndo às lojas para comprar o produto anunciado.

No entanto, são menos óbvias as circunstâncias sob as quais a validação social sai pela culatra, produzindo o oposto da intenção de quem pedia algo. Um exemplo é a compreensível, mas potencialmente equivocada, tendência de especialistas em saúde a chamar a atenção para um problema caracterizando-o como lamentavelmente frequente. Campanhas de conscientização apontam que o consumo de álcool e drogas é muito elevado, que os índices de suicídio entre adolescentes é alarmante e que quem polui está destruindo o ambiente. Independente do fato de essas afirmações serem não só verdadeiras como bem-intencionadas, os criadores dessas campanhas não perceberam algo básico sobre o processo de aquiescência. Na frase “Veja quantas pessoas estão fazendo essa coisa indesejável” esconde-se a mensagem poderosa e corrosiva “Veja quantas pessoas estão fazendo essa coisa indesejável”. Pesquisas mostram que, como resultado, muitos desses programas têm um “efeito bumerangue”, aumentando ainda mais o comportamento que se queria evitar.

Foi o caso de um programa de prevenção de suicídios dirigido a adolescentes de Nova Jersey, que os informava sobre o alto número de suicídios entre jovens. O pesquisador da área de saúde David Shaffer e seus colegas da Universidade Columbia descobriram que os adolescentes participantes se tornavam significativamente mais inclinados a ver o suicídio como uma solução potencial de seus problemas. As campanhas mais eficazes são as que retratam, de forma franca, a atitude indesejada como sendo nociva, independente do fato de que relativamente poucos indivíduos a praticam.

GOSTAR

“Afinidade”, “empatia” e “afeição” descrevem um sentimento de conexão entre as pessoas. Mas a singela palavra “gostar” é a que expressa de modo mais completo o conceito, tendo por isso se tornado a definição corrente na literatura das ciências sociais. As pessoas preferem dizer sim àqueles de quem gostam. Pensemos no sucesso mundial da Tuppeware Corporation e seu programa de “festas em casa”. No encontro de demonstração em casa, a estratégia é fazer os consumidores comprarem de alguém de quem eles gostam, o anfitrião, em vez de comprarem de um desconhecido. O efeito sobre as vendas foi tão positivo que, segundo dados da corporação, a cada dois segundos tem início uma “festa” da Tuppeware em algum lugar do mundo. Na verdade, atualmente 75 % de todas as “festas” da Tuppeware acontecem fora dos Estados Unidos, em países onde os laços sociais do grupo são muito mais importantes que nos Estados Unidos.

É claro que a maioria das transações comerciais se dão fora da casa de amigos. Nessas circunstâncias – muito mais comuns -, aqueles que querem se valer da força do gostar utilizam táticas centradas em certos fatores que, segundo pesquisas, efetivamente podem funcionar.

A atração física pode ser um desses instrumentos. Em um estudo de 1993 conduzido por Peter H. Reingen, da Universidade Estadual do Arizona, e Jerome B. Kernan, da Universidade George Mason, os arrecadadores mais bonitos da Associação Americana do Coração conseguiram quase o dobro de doações (42% contra 23%) que os outros arrecadadores. Nos anos 70, Michael G. Efran e. W. J. Patterson, da Universidade de Toronto, descobriram que, nas eleições federais canadenses, os eleitores davam muito mais votos a candidatos fisicamente atraentes. Mesmo assim, esses eleitores insistiam que suas escolhas não eram influenciadas por algo tão fútil como a aparência.

A similaridade também pode facilitar a criação de empatia. Em geral, vendedores procuram, ou simplesmente inventam, uma conexão entre eles e seus clientes: “Ah, você tá brincando, você é de Minneapolis? Eu estudei em Minneapolis!”. Arrecadadores de doações fazem o mesmo, com bons resultados. Em 1994, os psicólogos R. Kelly Aune e Michael D. Basil, da Universidade de Denver, publicaram uma pesquisa em que arrecadadores correram um campus solicitando contribuições para uma instituição de caridade. Quando a frase “Eu também sou estudante” era acrescentada às solicitações, o número de doações mais que dobrava.

Elogios também incentivam o gostar, e vendedores que trabalham cm contato direto com os clientes treinam a lisonja. Na verdade, mesmo a adulação forçada pode funcionar. Pesquisas da Universidade da Carolina do Norte em Chappel Hill descobriram que elogios, tanto faz se falsos ou sinceros, produzem empatia pelo bajulador.

A cooperação é outro fator que produz ações e sentimentos positivos. Vendedores, por exemplo, empenham-se em se mostrar como parceiros cooperativos aos possíveis fregueses. Gerentes de revendedoras de carros costumam assumir o papel de vilões, para que o vendedor possa “lutar” pelo cliente. Essa manobra naturalmente estabelece uma forma de o cliente gostar do vendedor, o que estimula as vendas.

AUTORIDADE

Retomemos o caso do homem que usava a validação social para conseguir que um grande número de passantes parasse e fitasse o céu. Ele poderia conseguir o efeito oposto e colocar estranhos em movimento ao arrogar-se o papel de autoridade. Em 1995, Monroe Lefkowitz, Robert R. Blake e Jane S. Mouton, pesquisadores da Universidade do Texas em Austin, descobriram que um homem podia, mudando apenas uma coisa, aumentar em 350% o número de pedestres que o seguiam quando ele atravessava a rua com o sinal fechado. Em vez de estar vestido casualmente, ele trajava sinais de autoridade, terno e gravata.

Quem se gaba demais de sua experiência, habilidade ou reputação científica pode estar tentando se aproveitar do poder da autoridade. “Bebês são nosso negócio, nosso único negócio”, “Quatro de cada cinco médicos recomendam”, e por aí vai. (A biografia do autor serve, em parte, para isso.) Não há nada de errado com tais afirmações quando elas são verdadeiras, porque em geral nós queremos a opinião de pessoas que realmente são autoridades. Suas opiniões nos ajudam a escolher de forma rápida e acertada.

O problema é quando nos impingem afirmações falsas. Se deixamos de pensar como em geral ocorre quando nos deparamos com símbolos de autoridade, podemos ser facilmente manipulados por falsos especialistas – aquelas que apenas afetam ar de legitimidade. Aquele texano de terno e gravata atravessando a rua de modo irresponsável não era mais autoridade em cruzar ruas que o resto dos pedestres que, não obstante, o seguiram. Na década de 70, uma campanha publicitária de tremendo sucesso mostrava o ator Robert Young apregoando os benefícios à saúde do consumo de café descafeinado. Aparentemente, Young podia apresentar com legitimidade essa opinião médica porque, na época, ele vivia o papel do médico mais famoso do país. O fato de o dr. Marcus Welby ser apenas um personagem de um programa de TV era menos importante que a aparência de autoridade.

ESCASSEZ

Quando trabalhava na Universidade Estadual da Flórida, nos anos70, o psicólogo Stephen West após colher as opiniões dos estudantes sobre a cozinha do refeitório, reparou num fato estranho: a avaliação da comida havia subido significativamente em relação à semana anterior, apesar de não ter havido nenhuma mudança no cardápio, na qualidade da comida ou na preparação das refeições. Na verdade, a mudança foi causada pela notícia de que, devido a um incêndio, o refeitório ficaria interditado por várias semanas.

Essa história põe em relevo o efeito da percepção da escassez sobre o julgamento humano. Há muitos indícios que mostram que produtos e oportunidades se tornam mais desejados por nós à medida que eles ficam menos disponíveis. É por esse motivo que publicitários apregoam os benefícios das características exclusivas dos produtos que oferecem. E é por essa razão também que eles sempre realizam promoções do tipo “por tempo limitado”, ou nos põem para competir uns com os outros através de campanhas baseadas em “estoque limitado”.

Menos conhecido é o fato de que a escassez afeta não apenas o valor das mercadorias, mas também o das informações. Informações exclusivas têm maior poder de persuasão. Tomemos como exemplo os dados usados na dissertação de um ex-orientando meu, Amram Knishinsky, dono de uma empresa que importava carne bovina para os Estados Unidos e a revendia para supermercados. Para verificar os efeitos da escassez e da exclusividade sobre a aquiescência, ele instruiu seus operadores de telemarketing a ligar para uma amostra aleatória de clientes e fazer a oferta padrão de venda de carne. Knishinsky também orientou seus vendedores a fazerem o mesmo com uma segunda amostra aleatória de clientes, mas acrescentando que haveria falta de carne bovina australiana devido a fatores climáticos, o que era verdade. A informação extra de que haveria falta de carne bovina, mais que dobrou as vendas.

Por último, ele determinou que sua equipe ligasse para uma terceira amostra de cliente e lhes dissesse que (1) era iminente a falta de came bovina australiana e que (2) essa informação fora obtida de fontes exclusivas da empresa no instituto meteorológico nacional australiano. Esses clientes aumentaram seus pedidos em mais de 600%. Eles foram influenciados pelo temor de dois tipos de escassez: não apenas havia pouca carne, mas a própria informação de que a carne era escassa era, ela mesma, escassa.

SABER É PODER

É digno de nota que muitos dos dados apresentados neste artigo foram tirados de estudos sobre as técnicas dos profissionais da persuasão – especialistas em marketing, publicitários, vendedores, arrecadadores de contribuições e aqueles cujo bem-estar financeiro depende de sua habilidade de fazer com que os outros digam sim. Uma espécie de seleção natural age sobre essas pessoas, uma vez que aqueles que utilizam táticas ineficientes vão logo à falência. Por outro lado, aqueles que usam táticas que funcionam bem sobrevivem, crescem e disseminam essas estratégias vencedoras. Desse modo, com o passar do tempo, os princípios mais eficientes de influência social podem ser vistos nos repertórios das profissões tradicionais de persuasão. Meu próprio trabalho aponta que esses princípios incorporam as seis inclinações humanas básicas examinadas neste artigo, reciprocidade, coerência, validação social, gostar (de alguém), autoridade e escassez.

De um ponto de vista evolutivo, cada um dos comportamentos apresentados teria sido, aparentemente, selecionado para animais que, como nós mesmos, precisam encontrar os melhores modos de sobreviver vivendo em grupos sociais. E, com efeito, na imensa maioria das vezes esses princípios nos orientam de maneira correta. Em geral, faz todo sentido retribuir favores, agir com coerência, imitar pessoas com quem nos identificamos, dar preferência aos pedidos daqueles de quem gostamos, prestar atenção à autoridade legítima e valorizar recursos escassos. Assim, pessoas influentes que usam esses princípios nos fazem um verdadeiro favor. Se uma agência de publicidade, por exemplo, centrasse sua campanha de remédios para dor de cabeça em dados científicos baseados em verdadeiras autoridades da área médica, em benefício de seus consumidores, todas as pessoas corretas ganhariam com isso – a agência, o fabricante e o público. O que não seria o caso se a agência, não vendo nenhum mérito cientifico no analgésico, introduzisse clandestinamente o princípio da autoridade por meio de anúncios que mostrassem atores vestidos com jalecos brancos.

Será que estamos condenados a ser manipulados por esses princípios? Não. Ao compreendermos as técnicas de persuasão, podemos começar a reconhecer essas estratégias e, desse modo, analisar criticamente os pedidos e ofertas. Nossa obrigação é fazer com que os profissionais da persuasão prestem contas pelo uso daqueles seis poderosos motivadores, comprando seus produtos e serviços, apoiando suas propostas políticas ou fazendo doações apenas quando eles agirem de modo sincero.

Se, ao lidarmos com esses mestres das artes persuasivas, fizermos essa distinção vital, será pouco provável que consintamos com o engodo. Em vez disso, daremos a nós mesmos uma opção muito melhor: dizer um sim bem fundamentado. Além disso, ao aplicarmos a mesma distinção a nossas próprias tentativas de influenciar os outros, nós podemos legitimamente mobilizar aqueles seis princípios. Ao tentar persuadir mostrando a existência de verdadeiro domínio do assunto, validação social crescente, compromissos pertinentes ou reais oportunidades de cooperação, entre outras coisas, atendemos aos interesses de ambas as partes e, no processo, aprimoramos a qualidade do tecido social.

 

Bem, é claro que alguém com a sua inteligência compreende o bem que este artigo pode fazer. E como você parece ser uma pessoa tão, mas tão bondosa que faz questão de dividir estas importantes informações com outros, permita-me fazer-lhe um pedido. Você por acaso compraria esta edição da revista para dez amigos? Bem, se não pode fazer isso, poderia pelo menos mostrar para um único amigo? Espere, não responda ainda. Por eu gostar de você do fundo do coração, vou incluir – sem nenhum custo extra – um conjunto de referências que você pode consultar para saber mais sobre este assunto tão pouco conhecido.

Como é, você declara a sua disposição de ajudar?… Por favor, reconheça que estou fazendo uma pausa bastante cortês aqui. Mas enquanto eu espero, quero que saiba que muitos outros como você certamente darão seu consentimento. Por sinal, que linda camisa você está usando!  

A ciência da persuasão.2                                                  

INFLUÊENCIA SEM FRONTEIRAS

Será que os seis fatores básicos da influência social funcionam de modo similar entre as fronteiras nacionais? Sim, mas com pequenas diferenças. Afinal, os cidadãos do planeta são seres humanos, portanto suscetíveis às tendências básicas que caracterizam todos os membros da nossa espécie. No entanto, normas culturais, tradições e experiências podem alterar o peso desempenhado por cada um dos fatores.

Examinemos os resultados de um relatório publicado em 2000 por Michael M. Morris, Joel M. Podolny e Sheira Ariel, da Universidade Stanford. Eles estudaram os funcionários do Citibank, uma corporação financeira multinacional. Os pesquisadores selecionaram quatro sociedades para ser investigadas: os Estados Unidos, a China, a Espanha e a Alemanha. Eles pesquisaram as filiais do Citibank em cada país e mediram a disposição dos funcionários de atender voluntariamente o pedido de ajuda de um colega para executar uma tarefa. Embora fatores diferentes pudessem influir, o principal motivo que fazia com que funcionários se sentissem obrigados a atender ao pedido variava de país para país. Cada um desses motivos incorporava um princípio diferente da influência social.

Os funcionários americanos adotavam uma postura baseada na reciprocidade ao decidirem se atenderiam ao pedido. Eles se perguntavam: “O que essa pessoa fez por mim recentemente?”, e sentiam-se obrigados a ajudar se eles devessem a ela algum favor. Os funcionários chineses reagiam basicamente à autoridade, na forma de lealdade aos ocupantes das posições hierárquicas mais elevadas em seu pequeno grupo. Eles se perguntavam: “Essa pessoa que está pedindo é ligada a alguém de minha equipe, em especial a algum superior?”.  Se a resposta fosse afirmativa, eles se sentiam obrigados a prestar auxílio.

Os funcionários do Citibank espanhol baseavam a decisão de atender ao pedido sobretudo no gostar/amizade. Dispunham-se a ajudar seguindo regras de amizade que incentivam a lealdade aos amigos, independentemente de sua posição ou status. Eles se perguntavam: “A pessoa que está pedindo é ligada a meus amigos?”. Caso a resposta fosse positiva, era muito provável que eles atendessem ao pedido.

Os funcionários alemães eram movidos pela coerência. Oferecendo ajuda para que fossem coerentes com as regras da organização. Eles decidiam se iriam atender ou não ao pedido perguntando: “De acordo com os regulamentos e categorias oficiais, devo atender esse pedido?”. Se sim, eles se sentiam efetivamente obrigados a consentir no pedido.

Em suma, apesar de todas as sociedades humanas aparentemente agirem sob o mesmo conjunto de regras, os pesos relativos de cada uma dessas regras podem variar de uma cultura para outra. Pedidos persuasivos dirigidos a públicos de diferentes culturas devem levar em conta essas diferenças.

 

ROBERT B. CIALDINI – é professor de psicologia da Universidade Estadual do Arizona. Seu livro Influence, resultado de três anos de pesquisa sobre os motivos que levam as pessoas a atender pedidos do dia-a-dia, já teve inúmeras edições e foi traduzido em nove idiomas. Seu profundo interesse pelos mistérios da influência deve-se ao fato de ter crescido em uma família italiana, num bairro predominantemente polonês de uma cidade de tradição alemã (Milwauke), localizada em um estado rural.

 

OUTROS OLHARES

O VAZIO ALÉM DO COPO

O abuso crônico de álcool é uma das causas da Síndrome de Wernicke-Korsakoff, que provoca grave estado de desorientação e perda da memória de curto prazo.

O vazio além do copo

Passada meia-noite quando Eleonora, 67 anos, é levada ao pronto-socorro. Depois de vagar pelas ruas, policiais a interpelam. Eleonora sabe seu nome, mas é incapaz de dizer onde mora. Na verdade, trata-se de uma velha conhecida do hospital, que frequenta a seção de neurologia há mais de dez anos. Veio trazida pelo filho e pelo marido, devido a uma série de distúrbios neurológicos de causa desconhecida. Pouco antes, começara a cambalear a ponto de cair constantemente, mesmo em casa.

Apesar do bom nível sociocultural (era física e fora gerente de informática de uma loja de departamentos), já apresentava na época alguns traços característicos curiosos, tendia a se esquecer de algumas pessoas mesmo as vendo com regularidade, mas não admitia ter dificuldades de memória. Segundo ela (e os familiares), tudo andava na mais perfeita normalidade.

Na primeira internação, infelizmente, os médicos não entenderam a gravidade da situação. Mas dois anos depois, quando retornou ao hospital, a situação piorara. Caminhar com equilíbrio estava cada vez mais complicado, assim como memorizar acontecimentos. Tanto que, depois de alguns meses, foi aposentada de forma compulsória.

A razão dos distúrbios veio à tona da maneira mais brutal: uma noite Eleonora começou a gritar, porque via “enormes aranhas negras no teto”. Suava, estava agitada e fria, não foi preciso muito mais para entender que se tratava de um episódio de delirium tremens, a síndrome de abstinência alcoólica.

O marido, informado do acontecido, exclamou indignado: “Minha mulher jamais colocou uma só gota de álcool, e não ousem dizer o contrário. Em nossa casa, não há sequer urna garrafa de bebida alcoólica. Todas foram eliminadas”. Foi inútil explicar-lhe que precisamente com esta última afirmação ele se traíra. O médico explicou que os distúrbios de Eleonora poderiam derivar de uma intoxicação por álcool. “É uma situação muito conhecida: chama-se síndrome de Wernicke, e se deve a um defeito na absorção da vitamina B1, causado pelo próprio álcool. Podemos tentar ajudá-la e fazer regredir ao menos em parte, os sintomas.”

Uma terapia vitamínica melhorou os sintomas neurológicos, mas não aqueles relacionados    memória. Ela teve alta, mas não voltou para as consultas de controle. Cinco anos, acompanhada pelo filho e pela nora, que ingressara recentemente na família e estava decidida a enfrentar a situação. Eleonora retornou ao hospital. Mas já era tarde. Ao entrar no ambulatório, disse: “Querido, você não deveria ter-se perturbado, eu viria por mim mesma testar os novos produtos”.

O filho então contou que a mãe não reconhecia mais ninguém, nem ele próprio. “Meu pai não quer mais tê-la em casa, o médico da família disse que provavelmente ela tem Alzheimer’, contou. “Ela continua bebendo? “, perguntou o neurologista. Um silêncio embaraçoso acolheu a pergunta.

A nora confessa que Eleonora bebia sim, e muito. “Parece que sempre bebeu, desde os primeiros tempos depois do casamento.” O marido de Eleonora fez com que desistisse da carreira universitária, e procurasse trabalho num escritório. Ela obedeceu, mas depois do nascimento do filho começou a beber. Foi submetida a terapia antidepressiva e quase entrou em coma por misturar pílulas e bebida. Depois da primeira internação, há alguns anos, começou a beber garrafinhas de bebida de má qualidade e chegou a ser detida ao tentar roubar aguardente num supermercado. Foi então que começou a confundir as pessoas e os fatos.

Durante essa longa conversa, Eleonora olhava ao redor com ar de desorientação. ”Quantos anos a senhora tem?”, pergunta o médico. “Quarenta”, “Lembra de mim?”  “Claro, você é o meu contador. A propósito, precisa calcular o imposto da casa da praia”. “Mamãe, já a vendemos há mais de dez anos!” Jovenzinho, você não se intrometa, que já fez bastante estrago com aquele sistema informatizado. Veja, engenheiro”, continua dirigindo-se ao médico, como eu lhe dizia…”.

Parar seu falatório era impossível. O diagnóstico não deixava dúvidas: tratava-se de síndrome de Korsakoff, evolução do distúrbio de sete anos antes e que derivava da destruição de regiões cerebrais destinadas à memorização de novas recordações e à recuperação coerente das antigas. A causa é sempre a mesma, o álcool e a sua interferência no metabolismo da vitamina B1, mesmo se alguns casos podem apresentar-se também em jovens anoréxicas ou em mulheres grávidas com vômito incontrolável, todas situações em que algo interfere com a correta absorção das substâncias nutritivas.

Em Eleonora, os exames revelaram a destruição completa dos corpos mamilares, duas pequenas formações vizinhas ao hipocampo que têm o papel de regulador dos circuitos da memória nem mesmo enchendo-a de vitamina seria possível regenerar os neurônios mortos pelo álcool. O dano anatômico é típico da síndrome de Korsakoff.

Desta vez, chegava de ambulância. Durante o período de internação, um psiquiatra procurou estabelecer um diálogo, na esperança de tornar-lhe ao menos familiar o ambiente ao redor.

A cada dia, Eleonora acreditava estar em um lugar diferente, uma colônia de férias, um centro de bem-estar, um balneário (do qual lamentava a baixa qualidade da comida), um congresso. E todo dia o psiquiatra refazia a mesma pergunta, “Eleonora, você sabe o que está fazendo aqui?”.

Grande foi a surpresa do médico quando, depois de algumas semanas, ela se mostrou séria e lhe encarou com olhos tristes: “Eu tenho um problema de memória, é um cartão defeituoso, mas não se consegue trocá-lo. Todos os dados estão confusos e o banco de dados não está acessível. “E você, como se sente?”, insistiu o médico. “Sozinha, ela respondeu, desconsolada. Mas depois de poucos segundos a expressão do rosto mudou de novo, “Caro advogado, não precisava se incomodar, eu teria lhe mandado um envelope pela secretária”.

 

DANIELA OVADIA – é jornalista médico-científica e desenvolve atividades de pesquisa no laboratório de neuropsicologia do Hospital Niguarda de Milão.

 

OUTROS OLHARES

A AMEAÇA CRESCENTE DA OBESIDADE

O número de pessoas acima do peso no Brasil saltou de 24% da população nos anos 1970 para mais da metade dos brasileiros hoje em dia.

A ameaça crescente da obesidade

Os dados são precisos, recentes e, sobretudo, alarmantes. De acordo com o Ministério da Saúde, dos 207,6 milhões de brasileiros, 53,8¾ estão acima do peso. Na década de 70 o índice no país era bem menor: 24%. A marca ultrapassou 50% da população em 2016 – o que equivale a dizer que o salto não ocorreu de uma hora para outra; desenhou-se aos poucos, é verdade, mas não sem deixar pistas. A crônica da obesidade no Brasil foi, sim, anunciada.

Para além dos fatores genéticos, as causas do sobrepeso se multiplicam – e as mudanças nos hábitos ali1mntares verificadas mundo afora nas últimas décadas têm enorme responsabilidade no avanço da obesidade. Houve, por exemplo, um aumento significativo no consumo de alimentos semipronto congelado. A popularização dos micro-ondas, e dos freezers contribuiu bastante para isso. Embora prático, esse cardápio é quase sempre pouco saudável; como a maioria das atrações das redes de fast-food.  E o pior: muitas vezes, engorda.

Não bastasse o alastramento do sobrepeso entre os adultos – que no Brasil atinge 57,7% dos homens e 50,5% das mulheres -, a obesidade se espalha de forma avassaladora na população infantil. No país, 12,7% dos meninos e 94% das meninas estão obesos. O índice nos Estados Unidos para ficar em um exemplo, é maior; no entanto, observando-se a curva dos últimos vinte anos, nota-se que o crescimento de casos de crianças acima do peso na população americana foi de 66%, enquanto no Brasil esse índice subiu 239%. A Organização Mundial da Saúde projeta que até 2022 o número de crianças obesas no planeta deva ultrapassar o das que se situarem abaixo do peso.  Para tentar ao menos abrandar essa perspectiva, a entidade defende a elevação de impostos sobre produtos açucarados e a restrição a alimentos industrializados nas escolas. A propósito, os especialistas chamam a atenção para o fato de que frequentemente em supermercados os alimentos naturais ocupam menos espaço, e com menor destaque, que os produtos industrializados. Outra medida para frear o avanço da obesidade infantil seria uma estudada na regulação da publicidade destinada ao público infanto-juvenil.

A ameaça crescente da obesidade.2

 Tamanha preocupação com a infância vai, na realidade além da própria infância. A probabilidade de uma criança gorda tornar-se um adulto acima do peso é enorme. Isso porque o, número de células adiposas, que retêm gorduras conhecidas como adipócitos, é geralmente definido até os 20 anos. Depois dessa idade, nada, absolutamente nada é capaz de diminuir a quantidade de adipócitos – nem a mais radical das dietas. Quando uma pessoa emagrece, os adipócitos apenas perdem volume, entretanto, continuam lá.

A ameaça crescente da obesidade.3

Adultos com obesidade grave desde a infância vivem até dez anos menos em relação aos que mantiveram a linha. A condição aumenta ainda em três vezes o risco de diabetes do tipo 2. Num mundo onde não existissem pessoas acima do peso, o índice de infartos e de hipertensão seria 30% menor e o de diabetes cairia 70¾. Em outras palavras, a obesidade é uma doença – aliás, só reconhecida como tal em 2017 -, que provoca outros males. Calcula-se que 30% dos casos de sobrepeso ocorram por causa dos genes, isto é, em razão de uma disfunção biológica. Seja qual for a origem do problema, o emagrecimento só deve ser orientado e acompanhado por profissionais de medicina e não por consultores, blogueiros e outros curiosos.

Uma vez que a obesidade já se instalou o desafio é como combatê­la de forma eficaz. Atualmente, o Brasil tem sete compostos aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o tratamento da doença. É preciso ressaltar, contudo, que os medicamentos reduzem, no máximo, apenas. 

A ameaça crescente da obesidade.4

OUTROS OLHARES

POP COMEÇA COM K

Os jovens brasileiros mergulham no K- pop, um movimento embalado por música, moda e séries de TV feito para espalhar a cultura da Coreia do Sul pelo mundo.

pop-comec3a7a-com-k-2.jpg

De calças rasgadas e justas casacos coloridos e cabelos perfeitamente despenteados, sete jovens na casa dos 20 anos sobem ao palco. Dançam em movimentos sincronizados, numa coreografia enérgica e ultra ensaiada que bebe da fonte do hip-hop, enquanto cantam em inglês, canções melosas de refrão-chiclete: “Eu estou tão cansado desse / Amor falso, amor falso, amor falso/ eu sinto muito, mas é um / Amor falso, amor falso, amor falso”. A plateia enlouquece. Meninas adolescentes pulam e gritam os nomes dos integrantes (cada um deles encarna um personagem –   o “líder”, o “bonito” o “caçula”). O grupo se chama BTS e aquela apresentação em Las Vegas em maio teve um gostinho especial: os meninos da Coreia do Sul ganharam o prêmio máximo do público no célebre Billboard Music Awards, desbancando artistas como Justin Bieber e Ariana Grande.  Além de comprovar o sucesso da banda, criada em 2013, o troféu foi a consagração do K-pop – estilo de música e de comportamento minuciosamente desenvolvido pela indústria e pelo governo coreano com o intuito já largamente alcançado, de ganhar o mundo. O Brasil também se rendeu.

Na primeira vez em que o BTS se apresentou no país, em 2014, reuniu minguados 1.500 fãs. Na terceira, em 2017, 14.000 jovens cantaram e dançaram suas coreografias em São Paulo – enquanto 30.000 amargavam a fila de espera na venda de ingresso on-line. Só a recepção ao grupo no Aeroporto de Guarulhos juntou 8.000 fãs ensandecidos. Atualmente, no Rio de Janeiro dezenas de grupos cover de K-pop se reúnem toda semana na Zona Norte. Alguns chegam a cobrar 5.000 reais para apresentar-se em festa de debutantes. No ano passado, quando o Centro Cultural Coreano convidou fãs interessados em fazer teste com uma das principais agências de talentos de Seul 6.000 brasileiros compareceram.

O K- pop é apenas a ponta mais visível de um fenômeno batizado de Hallyu (pronuncia-se ráliu). Em uma tradução livre; significa “onda coreana” – produto de um esforço concentrado da iniciativa privada e do governo para fincar a marca da Coreia na moda, na gastronomia, em séries de televisão e até no vocabulário de outras nações. Em 2005 o governo daquele país canalizou 1 bilhão de dólares para patrocínios culturais.

”O sucesso do K- pop não é acidente. É fruto de publicidade e de uma gestão inovadora de talentos -,” afirma o compositor coreano Won Yrong-Oh. Um dos mais bem-sucedidos exemplos de investimento em soft power; a força que não vem das armas o Hallyu ajudou a Coreia a acumular não apenas divisas (só no ano passado o negócio das bandas movimentou 4,7 bilhões de dólares) como também prestigio. Ser coreano passou a ser cool. Nada mau para uma comunidade cujos integrantes, nos Estados Unidos, eram até pouco tempo atrás conhecidos pelo jocoso apelido de “kinchi” – o prato nacional de cheiro forte, à base de repolho fermentado.

Hoje, o canal do BTS no YouTube tem 10 milhões de inscritos e os vídeos acumulam 11,5 bilhão de visualizações. A também coreana banda feminina Black Pink vai ainda mais longe: tem 2,4 bilhões de views. Isso sem falar no recordista, o rapper Psy, o primeiro fenômeno global da onda: seu hit Gangnam Style, de 2012 atingiu 3,1 bilhões de visualizações. Por trás do sucesso das bandas de K-pop estão os gigantes SM, YG e JYP, três fábricas de grupos musicais. ‘A indústria de criação de ídolos parece uma linha de montagem”, compara a pesquisadora Daniele Mazur, da Universidade Federal Fluminense, especialista em cultura coreana. Essas empresas recebem 300.000 inscrições de adolescentes por ano em seus programas de treinamento. Os candidatos selecionados fazem um curso de até três anos e saem com banda formada contrato e patrocinador. Por causa do K-pop, a Coreia do Sul é um dos últimos lugares do mundo desenvolvido em que ainda se compram e vendem CDs. “Para os fãs, adquirir um álbum é uma experiência bem diferente da de consumir as músicas por streaming”, diz Pedro Pereira. Autor do livro O Melhor Guia de K pop Real Oficial – a primeira obra brasileira sobre o tema, ele explica que cada CD produzido por essas bandas sai em diferentes versões e traz na embalagem pôsters exclusivos e sortidos de seus integrantes; que depois, são trocados entre os fãs. Dessa forma, os grupos conseguem a proeza de vender mais de 1 milhão de cópias de suas obras, mesmo que todas as músicas estejam nas plataformas de streaming. ”Às vezes, o lançamento funciona mais ou menos como o dos filmes de super-heróis. Os clipes são apresentados aos poucos, cada um com um integrante. No fim, lançam o grupo completo. Fica todo mundo na maior expectativa”, diz Pereira.

O guarda-roupa do K-popper, como a turma é chamada, é composto de saia plissada, curta para as meninas e calça bem justa para os meninos, moletom esportivo e camiseta estampada. A pele do rosto das garotas é a mais clara e imaculada possível. A maquiagem dos olhos inclui delineador reto e lentes de contato para ampliar as pupilas – cópia dos desenhos orientais. Na boca; batom só no centro dos lábios. A publicitária Larissa Lair, 24 anos, fez um mês de intercâmbio em Seul. “Voltei cheia de cremes para a pele. São o melhor do ulzzang”‘, diz, usando a palavra coreana para “rosto bonito”. Muitos fãs passaram a aprender coreano. Nas salas de aula do Centro Cultural paulistano estudam 400 alunos e outros 600 aguardam vaga. A World Study, agência especializada em intercâmbios, viu a demanda por viagens para a Coreia triplicar em seis meses. Surfando na mesma onda, o catálogo da Netflix no Brasil conta com mais de oitenta doramas – como são chamadas as séries e novelas coreanas. “Os enredos são bem água com açúcar e acho que é isso que atrai o público”, explica Daniele. A estudante de arquitetura Thais Midori, 23 anos, morou um ano na Coreia, em 2016. Já voltou várias vezes e hoje é a maior youtuber brasileira de temática K-pop. Para quem ainda não aprendeu a reconhecer os entusiastas do movimento, fica a dica: viu algum cabelo pintado de azul ou rosa por aí?

Pop começa com K.3

 

Pop começa com K.4