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A FEBRE DO LEITE DOURADO

Chegou ao Brasil o hábito americano de consumir bebidas à base de cúrcuma. As propriedades da especiaria podem ser benéficas – mas estão longe de fazer milagres

A febre do leite dourado

Vitaminas que prometem corpo esbelto e ânimo no cotidiano vêm e vão como ondas no mar. Se não existissem, seria preciso inventá-las. A estrela da hora são as bebidas à base de cúrcuma, vendidas nos Estados Unidos em quantidades garrafais. É o golden milk, ou leite dourado. Em doses pequenas ou maiores, misturado com leite, o preparo de cor alaranjada é consumido sobretudo por quem pratica esportes, está em busca de disposição, bem-estar e, é claro, emagrecimento. O modismo já começou a desembarcar no Brasil. Aqui é possível comprar a mistura pronta em lojas de produtos naturais. Os consumidores dizem que os efeitos do leite dourado podem ser reais. A atriz americana Gwyneth Paltrow, a socialite Kourtney Kardashian e a estilista Victoria Beckham, entre outras, publicaram recentemente nas redes sociais os benefícios experimentados e receitas com o ingrediente. Diz a nutricionista Patrícia Davidson Haiat, do Instituto Brasileiro de Nutrição Funcional: “A cúrcuma tem um potencial enorme para a saúde por ser uma das especiarias mais ricas em qualidades medicinais”.

Também conhecida como açafrão-da-terra, a cúrcuma é uma raiz cultivada desde a Antiguidade na Ásia. Ela é usada especialmente como tempero, dando um sabor picante e ao mesmo tempo adocicado aos alimentos. No leite, o sabor forte se dissipa. Os estudos de benefícios para a saúde ganharam velocidade na última década. Na maior base de dados científicos do mundo, o PubMed, há 4.438 pesquisas publicadas sobre a cúrcuma – o dobro em relação ao número de trabalhos sobre outros temperos. Seu poder está em sua substância mais abundante, a curcumina. Concentram-se nela pelo menos quatro propriedades essenciais para o funcionamento do organismo. Trata-se de um poderoso antioxidante, capaz de reduzir os danos causados pelos radicais livres – partículas que danificam a membrana celular, alteram o DNA e provocam a morte das células -, o que traria como consequência mais disposição. Ela é termogênica, característica que ajuda na aceleração do metabolismo – associada ao emagrecimento. É analgésica, contribuindo para o bem-estar.

E, por fim, é anti-inflamatória, com poder de impactar no tratamento de doenças.

A curcumina é um dos anti-inflamatórios mais potentes já estudados. Tem efeito comparável ao dos corticoides, uma classe de medicamentos com essa ação controlada e estabelecida. Essa sua propriedade foi alvo de um trabalho publicado em março deste ano no The American Journal of Geriatric Psychiatry, que mostrou o papel da especiaria no combate a uma das doenças de origem neurológica mais complexas e de difícil tratamento – o Alzheimer. Em pacientes com problemas de memória, o consumo de cúrcuma ao longo de dezoito meses reduziu os sintomas e diminuiu o nível de duas proteínas cerebrais associadas ao Alzheimer, a tau e a beta­ amiloide. Os resultados do estudo foram atingidos com o equivalente a uma colher de chá diária de cúrcuma. Para os efeitos procurados por pessoas saudáveis, essa porção também seria suficiente. A ingestão de uma quantidade maior, frise-se, não controlada por um médico, pode ser arriscada, provocando agressões ao estômago e alergias. A cúrcuma faz bem – mas está longe de ser milagrosa e, em dose exagerada, faz mal.

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O DIREITO DE MATAR

Na sociedade do “eu mereço”, será proibido ter bebês deficientes?

O dIreito de matar

“Meu gladiador baixou o escudo e criou asas.” Dificilmente alguém terá feito um epitáfio mais comovente, ainda mais sendo um pai de apenas 21 anos que acabou de perder seu filhinho. A história do pequeno Alfie, que morreu antes de completar 2 anos, é espantosa. Vitimado por uma doença cerebral nunca exatamente diagnosticada, ele foi condenado à morte pela mão implacável do Estado. Os médicos mandaram desligar os aparelhos. A Justiça negou os recursos dos pais para levá-lo ao hospital do Vaticano oferecido pelo Papa Francisco. Ir para casa, passar as últimas horas com a família? Nem pensar.

Isso tudo aconteceu na Inglaterra, mas é chocante até para nós, brasileiros, tristemente acostumados a um mundo orwelliano em que predomina o exato contrário das placas nas portas dos “doutores”. Juízes pelo direito de chicanear, jornalistas pelo direito de não informar e advogados pelo direito de traficar são algumas das anomalias com as quais convivemos. Mas médicos pelo direito de matar só para mostrar que podem, num ato de reafirmação da autoridade suprema do Estado sobrea vida e a morte, expõem um desafio ético que só vai aumentar. Os avanços da genética, que vai juntando as letras para ler o infinitamente complexo código da vida, estão refinando escolhas estonteantes. Qual embrião vai viver e qual será “descartado”? O de olhos azuis, heterossexual? Com genes ligados à presença de tendências liberais e à ausência de câncer?

Abortar um feto com síndrome de Down já é um fato incorporado à sociedade. Nos Estados Unidos, dois terços das mulheres com teste positivo interrompem a gestação, a expressão light. Uma escolha torturante para muitas mães que a jornalista Ruth Marcus banalizou recentemente, num artigo em que dizia que teria abortado, nas duas vezes em que ficou grávida, se o exame fosse positivo, “porque não seria o filho que queria ter”. Uma declaração condizente com a sociedade da auto- indulgência acelerada, na qual a frase “eu mereço” é usada para justificar futilidades consumistas destinadas a mimar egos fracos. Bebês com Down não ficam bem no Instagram. Como todo mundo praticamente já decidiu que existem os bebês descartáveis, avançamos para o próximo estágio: surgiu uma “corrente” segundo a qual é antiético ter filhos com deficiências graves, mesmo que os pais queiram. Não é difícil imaginar o passo seguinte. Alfie Evans reproduziu em praticamente tudo o caso de outro bebê condenado, Charlie Gard.

Os dois teriam a alternativa de ser levados para hospitais no exterior, numa prorrogação de vida mantida por aparelhos. Não agravariam os custos da combalida saúde pública na Inglaterra. Os bem-pensantes horrorizaram-se com as manifestações em frente aos hospitais, onde grupos de mulheres rezavam, numa desprezada exibição de fé. Alfie e Charlie tinham de morrer, mais do que por suas doenças, exatamente como os detentores da verdade, e do poder sobre o corpo das crianças, determinaram. Acostumada a elogiar o papa por qualquer bobagem anti­capitalista que diga, a revista The Economist considerou que seu papel no caso de Alfie foi “lamentável”. Para quem?

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A ARMADILHA MASCULINA

De um lado, a imagem tradicional do homem-provedor persiste no ambiente de trabalho. De outro, espera-se cada vez mais deles na divisão das tarefas domésticas. Falar sobre o tema, porém, traz dois temores: ser tachado de machista pelas mulheres e de frouxo por outros homens.

A armadilha masculina

 Nathan é um advogado bem-sucedido, que vive e trabalha em Manhattan. Ele não parece um sujeito digno de pena: tem um emprego num respeitado escritório do bairro de Midtown, usa ternos de caimento impecável e ganha um bom salário. Nathan negocia contratos e direitos de propriedade intelectual para a dinâmica indústria de entretimento de Nova York. Divorciado, beirando os 50 anos, ele fala com carinho dos filhos adolescentes, não esconde o amor pela noiva (com quem vai se casar em breve) e garante que tem uma vida confortável e uma carreira em ascensão. Por isso, Nathan hesita antes de confessar algo que não costuma dizer em público – nem mesmo aos amigos mais próximos. “Na sociedade em que vivo, e considerando que sou um profissional em Nova York, acredito que hoje é mais fácil ser mulher do que homem.”

Imediatamente ele ressalta que ser mulher não é fácil – de maneira alguma. Nathan entende por que muitas se frustram diante da expectativa de que “façam tudo, de que trabalhem e sejam mães, um pacote muito contraditório de coisas”. Mas poucas mulheres parecem notar que os homens também estão penando para enfrentar o próprio pacote, que nem sempre é simples. “Sinto que esperam que eu, o homem, seja o provedor, mate as baratas, conserte tudo o que quebrar na casa. Ao mesmo tempo, tenho de ser sensível, ajudar na cozinha, cuidar das crianças.” Nathan teve dois relacionamentos longos, e suas parceiras puderam equilibrar carreiras sólidas com uma flexibilidade que lhes permitiu estar à disposição das crianças. Mas ele sentiu-se obrigado a ter uma profissão com um contracheque polpudo o suficiente para sustentar a família. “Passei os últimos 20 anos acorrentado a uma mesa no escritório”, desabafa. “Adoro ser advogado. Mas se eu tivesse 20 e poucos anos e me dissessem que eu poderia fazer o que quisesse da vida, talvez eu tomasse um rumo diferente.” Nathan fala com inveja de amigas que decidiram abrir mão da carreira para ser mães. “Elas não são vistas como fracassadas. No máximo, alguém diz: ‘que legal, você optou por ficar com seus filhos, eles são a coisa mais importante do mundo’. Para os homens, essa opção não existe.”

Nathan não é o único a enfrentar esses dilemas. Entre 1977 e 2008, a porcentagem de pais americanos que sofrem com a equação família + trabalho aumentou de 35% para 60%, enquanto a porcentagem de mães com o mesmo conflito subiu apenas de 41% para 47% (a pesquisa foi feita com casais em que ambos os cônjuges trabalham). Os homens jovens encarregados de sustentar a família relatam altos níveis de estresse e tristeza, por não poderem passar mais tempo com os filhos.

Uma vez que os homens – sobretudo os brancos – ocupam uma posição de inigualável privilégio na sociedade, Nathan reluta em falar abertamente sobre o assunto. “Eu nunca disse isso para as mulheres com quem convivi, e acho melhor não fazê-lo.” A desconfiança tem fundamento. Boa parte das conversas sobre desigualdade de gênero acaba situando pessoas na situação de Nathan do lado do problema. Em todo o mundo, as mulheres estão obtendo mais diplomas universitários do que os homens, e mesmo assim elas ainda não desfrutam do mesmo sucesso profissional que eles. A culpa parece estar na divisão desequilibrada das tarefas domésticas. Nos países desenvolvidos, os homens de hoje passam mais tempo do que nunca lavando, cozinhando e cuidando dos filhos; o grosso do trabalho doméstico, porém, ainda cabe às mulheres. Nos Estados Unidos, por exemplo, elas dedicam quase duas vezes mais tempo ao cuidado com a casa e as crianças do que os companheiros. Mesmo casais que fazem um esforço consciente para estabelecer uma parceria igualitária acabam caindo na divisão tradicional de papéis quando os filhos entram em cena. Um estudo recente pediu a casais americanos de alta escolaridade, nos quais ambos trabalham, que registrassem diários com os horários de suas tarefas. O resultado mostrou que pais de primeira viagem desfrutam de até três horas e meia a mais de lazer do que as mães, já que elas têm empregos em tempo integral e ainda por cima ficam com a maior fatia da chamada “segunda jornada”.

Há tempos as feministas argumentam que os homens não veem tanta necessidade de ajudar em casa, já que desfrutam de todos os benefícios do casamento e da paternidade sem ter de oferecer uma contribuição adicional. “Embora a situação esteja mudando, o casamento ainda é bom negócio para os homens no que diz respeito à mão de obra prestada pelas mulheres”, afirma Scott Coltrane, sociólogo da Universidade do Oregon. Ele realizou uma pesquisa que considerava variáveis como idade e grau de instrução, e descobriu que os homens americanos casados têm renda consideravelmente superior à dos solteiros ou divorciados. Essa renda, vale acrescentar, aumenta a cada novo filho. Isso indica que o casamento deixa o homem mais produtivo no escritório, uma vez que boa parte das tarefas domésticas acaba sendo transferida para a esposa. As mulheres, por sua vez, não desfrutam desse “bônus”: a renda delas tende a diminuir a cada novo filho. Os mesmos efeitos podem ser observados em diversos países ocidentais, e são ainda mais visíveis em nações conservadoras como Áustria e Alemanha (e menos em países progressistas, como a Suécia). O desequilíbrio no ambiente doméstico parece explicar por que a taxa de emprego entre as mulheres segue em ritmo lento desde a década de 90, e está estável desde o início dos anos 2000, depois de passar por um aumento acentuado entre os anos 60 e 80. Ou seja: para que mais mães possam avançar no terreno do trabalho remunerado, mais pais precisam assumir o trabalho em casa. O problema é que as coisas não são tão simples assim, conforme demonstra o desabafo de Nathan.

Embora as mulheres não estejam entrando em universos predominantemente masculinos tão rápido quanto as feministas gostariam, esse movimento é mais acelerado do que a entrada dos homens em universos predominantemente femininos. Para entender a discrepância, é preciso observar de perto o valor relativo que atribuímos aos conceitos de masculinidade e feminilidade. Muita gente supõe que o gênero se resume a um sistema de classificação de diferenças, ou a um modelo que orienta o comportamento das crianças. A realidade é bem mais perniciosa do que isso. Temos o costume de atribuir maior valor a atributos associados aos homens – competência, força, virilidade e estoicismo. Por outro lado, as características associadas às mulheres – vistas como calorosas, gentis e subservientes – são subestimadas. Nós nos sujeitamos às opiniões e vontades dos homens, e somos lenientes com as mulheres. Ou seja: gênero é muito mais do que um amontoado de características corporificadas por pessoas. É um sistema com estratificações sutis, que oferece vantagens aos homens e desvantagens às mulheres.

Isso significa que as mulheres têm mais incentivos para agir de forma masculina do que vice-versa. Uma profissional que se comporta como os colegas do sexo masculino pode até ser vista como “agressiva” ou chamada de “trator”. Mas essas penas são compensadas por um aumento na probabilidade de obter mais poder e maior remuneração financeira. Quando um homem adota comportamentos tidos como femininos, ou tem um emprego tradicionalmente associado às mulheres, a tendência é perder status, ter menos benefícios e sofrer sanções sociais – sobretudo por parte de outros homens. “Se um homem decide se afastar do trabalho, abre-se uma crise inesperada”, afirma Barbara Risman, diretora do departamento de sociologia da Universidade de Illinois, em Chicago. “O problema não é ser visto como um homem parecido com uma mulher, e sim ser visto como um homem ‘menor’. Justamente porque as mulheres são vistas como menores.”

Uma vez que enxergamos a masculinidade como uma irmandade que que confere privilégios especiais, fica explicada a implacável patrulha cultural aplicada aos integrantes do grupo. Nem todos os homens são aceitos no clube, e os rituais de iniciação começam na infância. Os pais dizem às filhas que elas podem ser e fazer o que quiserem, e ao mesmo tempo compreendem suas lágrimas quando elas sofrem. Aos meninos, porém, ensinamos a importância de ser “durão”, de não amolecer, de encarar a vida “como um homem”. Ao ver uma menina deixar a boneca de lado e jogar futebol, muitos pais e mães sorriem encantados – como se as garotas estivessem aprendendo a “se impor” no microcosmo do parquinho. Mas um menino que decide trocar as chuteiras por um par de sapatilhas será alvo de preocupação. À medida que as crianças crescem, os meninos não medem esforços (e com frequência sofrem) para provar aos outros que são machos; enquanto isso, as meninas têm à disposição uma gama bem mais ampla de comportamentos aceitáveis. “Se esse jogo está virando uma competição para ver quem leva a pior, a verdade é que as garotas saem em vantagem quando o assunto é a definição da feminilidade”, diz Lisa Damour, psicóloga especializada em adolescentes. “A menina que tem jeito de moleque é bem-vista pelos colegas. A que gosta de maquiagem também. Mas os meninos têm uma margem de manobra extremamente estreita.” Aqueles que ultrapassam as fronteiras tradicionais costumam ser alvo de bullying e violência. Seu status como homens é a um só tempo valioso e precário – e tem de ser constantemente reconquistado.

A definição de masculinidade continua igualmente rigorosa depois que os meninos crescem. Para muitos homens, o ambiente de trabalho é apenas mais uma versão do pátio da escola, um território onde eles terão de defender seu posto de macho alfa. “Há empresas que vivem num clima constante de negociação entre os homens, de modo a estabelecer uma hierarquia entre eles”, diz Joan Williams, jurista feminista que fundou o Center for WorkLife Law, na Universidade da Califórnia. “Ficar mais tempo no escritório pode ser uma forma de provar que ‘o meu é maior que o seu’ – e aqui me refiro ao horário de trabalho. Os homens se sentem pressionados a fazer esse tipo de coisa.”

Entre os profissionais, a frustração dos pais com a carga de trabalho é a mesma que a das mães – e quase sempre eles ficam igualmente tristes por não estarem com os filhos tanto quanto gostariam. O problema é que os homens temem ser malvistos por seus pares. Por isso, a probabilidade de um homem desfrutar de políticas de auxílio à paternidade é menor. Eles relutam diante da ideia de se tornarem donos de casa. Sarah Thébaud, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, e David S. Pedulla, da Universidade do Texas em Austin, realizaram uma enquete com homens da chamada geração millennial – aqueles nascidos depois de 1980, os primeiros a se tornarem adultos no atual milênio. Os entrevistados sentem-se mais inclinados a aproveitar os benefícios do trabalho flexível quando acreditam que outros colegas fariam o mesmo. Outros estudos sobre a licença paternidade mostram que os homens só optam por ficar em casa com os filhos quando o benefício é claramente dirigido a eles, e quando outros pais também tiram a licença. Na Noruega, os pesquisadores perceberam que a probabilidade de sair em licença paternidade aumenta quando um irmão ou outro colega do sexo masculino já o fez.

Fora isso, a maioria dos homens supõe que as políticas de trabalho flexível, mesmo quando criadas para homens e mulheres, são coisa de mulher. Eles acreditam que serão menosprezados pelos colegas se utilizarem esses benefícios. Muitos temem ser vítimas da postura de profissionais como Chase – um pai de 40 e tantos anos, sócio de um grande escritório de advocacia em Chicago. “Às vezes vejo uma mulher que tem filhos e trabalha fora, e sei que o marido dela também tem um emprego. Entendo que os dois estão se matando de trabalhar, e penso que isso não é bom para as crianças”, diz. “Mas quando vejo um pai que decide parar de trabalhar para cuidar dos filhos, confesso que não formo uma imagem muito boa dele. Pode me chamar de machista, do que quiser. Mas acho meio covarde. É pular fora do jogo, desistir de batalhar pelo sucesso, afastar-se de coisas que, para mim, têm valor.”

A renda da mulher pode até cair quando ela decide se afastar do trabalho para cuidar dos filhos, mas mesmo assim ela será vista como uma boa mulher. Já um pai que fizer o mesmo poderá ser visto como “menos homem”. “Os mitos que envolvem a masculinidade continuam mais fortes que os da feminilidade”, observa Stephanie Coontz, do Evergreen State College, historiadora que estuda família e casamento. “O homem ainda enfrenta uma imensa pressão para agir como homem.” E, no ambiente de trabalho, a pressão está cada vez maior.

Eric é um advogado de direito societário, e trabalha num grande escritório da Filadélfia. Para se tornar sócio da empresa, ele precisa passar cerca de 50 horas por semana na empresa. “A altura do sarrafo muda o tempo todo”, suspira ele. As contas do mês incluem o financiamento da casa e as mensalidades da escola particular de dois filhos. Sua mulher optou por ficar em casa com as crianças (ela também é advoga- da, mas seu salário mal cobria os custos da babá). Eric confessa que se sente “empacado”. “Ninguém nunca me explicou que a vida real seria assim. De repente a gente se vê no meio da engrenagem, e aí o negócio é tocar para a frente do jeito que for possível.” Ele diz que o ideal seria dividir de forma equilibrada as tarefas domésticas, mas seu emprego não permite que seja as- sim. Recentemente, Eric perdeu a reunião de pais dos filhos porque tinha de atender um cliente. “Eu nem me dei ao trabalho de tentar mudar o horário com o cliente. Sabia que levaria um sermão ou receberia um olhar torto, como se eu fosse difícil de lidar.”

Alguns empregos estão se tornando mais exigentes. Profissionais com salários baixos têm de encarar horários e agendas que mudam constantemente, sempre em cima da hora. Dos profissionais bem pagos, esperam-se mais horas de trabalho e jornadas que com frequência avançam madrugada adentro. Em 1979, 16% dos americanos assalariados trabalhavam no mínimo 50 horas por semana. Em 2014, essa proporção havia aumentado para 21%.

As pesquisadoras Youngjoo Cha, da Universidade de Indiana, e Kim Weeden, de Cornell, descobriram que funcionários que trabalham mais horas tendem a ganhar mais e receber mais promoções. Essa tendência surgiu nos anos 90; antes disso, o cenário era inverso: quem trabalhava mais eram os profissionais de salários baixos. Em 2014, um profissional que trabalhasse no período integral regular ganhava, em média, US$ 26 por hora; já o que trabalhasse mais de 50 horas por semana recebia quase US$ 33 por hora.

Essa elevação das expectativas no ambiente profissional acaba reforçando o desequilíbrio no trabalho doméstico entre homens e mulheres. As mulheres são empurradas para empregos de meio período, e os homens acabam por delegar o cuidado com os filhos para as parceiras. Muitos empregadores partem do pressuposto que as mães vão – e devem – colocar a família em primeiro lugar, e de que as crianças fatalmente impedem que a mulher avance na carreira. Não à toa, economistas americanos afirmam que ter um filho reduz a renda da mulher em 6%, e ter dois diminui o salário da profissional em 15%. Por outro lado, a chegada de filhos leva os homens a aumentar a carga de trabalho em cerca de 80 horas por ano, em média. Isso eleva a renda masculina em 6%. Além disso, entre 1965 e 2000 o tempo gasto pelos homens trocando fraldas e cuidando da casa dobrou. As mães costumam trabalhar fora de casa menos do que gostariam; já os pais costumam ficar no escritório mais do que desejam.

Essas expectativas, é claro, estão mudando rapidamente. Uma pesquisa realizada em 2013 pelo Pew Research mostrou que apenas 28% dos americanos concordam com a seguinte frase: “de maneira geral, o casamento é melhor quando o marido ganha mais do que a mulher”. Em 1997, 40% dos entrevistados concordavam com a mesma afirmação. De todo modo, é difícil encontrar alguém que esteja totalmente imune a séculos de convenções sociais. O roteirista Steve confessa que “sem dúvida foi bem esquisito” ganhar 50% a menos que sua mulher durante o primeiro ano de casamento. Ele tem 40 e poucos anos, vive no Brooklyn e diz: “Somos todos muito modernos e avançados, e queremos que o casamento seja uma divisão equilibrada de tarefas. Mas, quando a coisa apertava, ela às vezes me dizia: ‘você é que deveria estar sustentando a gente’”. Steve esclarece que o fio de tensão era tênue, pois eles nunca enfrentaram problemas financeiros de verdade. “Mas de vez em quando o assunto surgia, e ela vinha com essa cartada: o problema nem deveria ser dela, afinal de contas ela é a esposa. Um homem não pode usar esse argumento.”

Alguns homens também acreditam que o sucesso profissional é parte do que os torna atraentes para as mulheres. Robert tem 32 anos e trabalha com mídias digitais em São Francisco. Ele confessa invejar os amigos que vivem num regime financeiro mais frugal. “Se a gente tivesse uma vida modesta, talvez eu não tivesse de trabalhar tanto”, afirma. “Mas é difícil sugerir isso. Minha noiva me enxerga como um cara bem-sucedido, capaz de sustentar o casal.”

As mulheres reclamam, com razão, que costumam ser relegadas apenas ao papel de mães – com direito a salários mais baixos, menos promoções e menor prestígio (quer elas façam essa escolha ou não). Os homens, no entanto, também parecem insatisfeitos com o papel que lhes cabe como pais. Beirando os 40 anos, o apresentador de televisão Brian conta que decidiu tirar a licença paternidade após o nascimento do segundo filho. “Foi um pesadelo. Eu não conseguira nem saber quais eram meus direitos. A decisão de dar um tempo no trabalho é tão rara que ninguém entende como funciona.” Depois de muita confusão, ele descobriu que poderia usar seus dias de licença médica para ficar com as crianças. Brian acredita que poucos homens aproveitam o benefício por “medo de serem olhados com cara feia”.

O receio tem fundamento. Pesquisas mostram que pais que desfrutam da licença ou solicitam horários de trabalho flexíveis costumam, sim, ser punidos – com longos intervalos sem aumento, menos promoções e pior avaliação de desempenho pelos superiores. É claro que o mesmo ocorre com as mulheres. Para os pais, porém, o golpe parece ter mais força, já que eles estão desafiando expectativas culturais e sociais. Alguns estudos descobriram que tanto os homens quanto as mulheres associam características como fraqueza ou inadequação a pais que tiram a licença para ficar com os filhos. Na Austrália, uma enquete realizada com profissionais mostrou que a probabilidade de ter a licença concedida pelo chefe é duas vezes menor para o homem do que para a mulher. Um dos entrevistados relatou ter ouvido a seguinte justificativa de seu superior: “A gente costuma oferecer trabalho em meio período para mulheres, mas não para homens.” Além disso, outras pesquisas revelam que pais com uma postura mais progressista em relação ao cuidado com os filhos costumam ser alvo de chacota dos amigos. Um estudo da Deloitte com mil homens americanos mostrou que um terço deles acredita que a licença paternidade “coloca em risco” o cargo ocupado pelo profissional. Diante desse estigma, não surpreende que 75% dos trabalhadores que aproveitam a lei estadual de licença paga, adotada pela Califórnia, sejam mulheres.

Patrick, um jornalista de televisão que vive em Atlanta e tem 40 e poucos anos, descobriu logo no início da vida profissional que não deveria nutrir nenhuma expectativa em relação à possibilidade de ter mais tempo para ficar em casa. Casado com uma médica obstetra, coube a ele boa parte do cuidado com os três filhos, já que a esposa cumpria dois turnos de trabalho num hospital. Certo dia, ele tentou explicar ao chefe que não poderia mais fazer plantão nos fins de semana. A resposta foi seca: “Patrick, todo mundo aqui tem família. Ninguém está nem aí para a sua”. Difícil imaginar um homem dizer o mesmo para uma mulher.

Muitos pais confessam que as longas jornadas de trabalho trazem insegurança em relação ao papel exercido em casa. “Às vezes viajo a negócios, ou então trabalho das 7 da manhã até a meia-noite porque estou me preparando para um julgamento”, conta o advogado Eric. “Quando volto para casa, minha mulher diz que as coisas pioram, porque ela já estabeleceu uma rotina da qual não faço parte. É como se eu fosse uma visita dentro da minha própria casa.”

A maioria das mulheres acredita que os homens se agarram aos papéis tradicionais porque é mais confortável para eles. Sem dúvida, progredir na carreira traz maiores salários, mais poder e status do que o caminho seguido pelas mães. Mas essas vantagens têm um custo. Christin Munsch, da Universidade de Connecticut, realizou uma pesquisa durante 15 anos com homens e mulheres americanos de idade entre 18 e 32 anos. Ela descobriu que a saúde dos homens é melhor enquanto eles dividem o sustento da casa com as mulheres. À pro- porção que a responsabilidade de pagar as contas aumenta, a saúde e o bem-estar dos homens diminui. Com frequência, as piores condições de saúde e os mais altos níveis de estresse são registrados nos períodos em que as esposas param de trabalhar por completo.

Tudo indica que os casamentos mais igualitários funcionam melhor. Um estudo, por exemplo, compilou dados de 2006 e descobriu que casais com uma divisão equilibrada das atividades domésticas são mais felizes, e têm mais (e melhores) relações sexuais do que pares que seguem o script tradicional. Pais que dedicam mais tempo ao cuidado com os filhos e a casa não apenas tendem a viver mais felizes e mais próximos das crianças e da companheira: eles também vivem mais. Na Suécia, um trabalho feito com 72 mil homens que tiveram filhos entre 1988 e 1989 mostrou que aqueles que tiraram entre 30 e 60 dias de licença paternidade reduziram em 24% o risco de morrer até o ano de 2008, em comparação com os que não desfrutaram do benefício. Para os autores da pesquisa, pais que abraçam as tarefas domésticas têm menos probabilidade de adotar comportamentos arriscados para comprovar a própria masculinidade.

Isso sugere que os homens (à semelhança das mulheres) também vivem mais felizes em relacionamentos equilibrados. No entanto, de maneira geral, não é assim que as coisas funcionam. Ideias ultrapassadas sobre o comportamento esperado de cada sexo, aliadas à pressão por “mostrar serviço” no trabalho, impedem que se avance mais rápido. Essa conclusão não é novidade para tantas mães que há tempos reclamam da impossibilidade de “ter tudo”. Os problemas enfrentados por homens que se tornam pais, porém, são menos debatidos. Na verdade, muitos preferem nem falar sobre o assunto em público – em parte porque sabem que as queixas das mulheres costumam ser mais sólidas do que as deles. No entanto, o silêncio masculino deve-se também ao medo de que o lamento sobre as dificuldades de ser homem e pai possa romper com um código tácito estabelecido entre os machos. “É um tabu tão grande quanto a polêmica das cotas raciais”, diz Jesse, um escritor de quase 50 anos, pai de dois filhos. “Vivo numa região cosmopolita de Minneapolis, e nessa minha bolha o foco das atenções é o desenvolvimento das mulheres. Ninguém discute os problemas dos homens.”

Essa discussão terá de acontecer se os casais realmente quiserem mudar convenções culturais e econômicas, e atingir parcerias mais igualitárias. “As mulheres pedem que os homens sejam solidários e compreensivos, e elas têm razão”, diz Patrick, o jornalista de Atlanta. “Mas eu gostaria que também houvesse mais solidariedade e compreensão com os homens.”

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O PROBLEMA DOS CÁLCULOS BILIARES

Aprenda como prevenir e tratar uma crise

O problema dos cálcullos biliares

Para uma parte do corpo tão pequena e pouco essencial, a vesícula biliar pode causar muita dor. Mais ou menos do tamanho e do formato de uma pera, o órgão fica no lado direito do abdome. Sua função é guardar a bile, líquido produzido pelo fígado que ajuda a digerir a gordura da alimentação. A vesícula libera o líquido no intestino delgado quando necessário.

Quando o delicado equilíbrio químico da bile se altera – não sabemos direito como nem por quê-, seus componentes podem se cristalizar. Com o tempo, esses cristais se combinam para formar cálculos (colelitíase), pequenos como grãos de areia ou grandes como bolas de golfe. Em pelo menos 75% dos casos, os cálculos biliares não causam sintomas nem complicações e, portanto, não exigem tratamento. No entanto, caso um cálculo obstrua temporariamente um dos dutos da bile que entram e saem da vesícula, o resultado é um surto súbito e rápido de dor intensa no abdome, na área das costelas e/ou nos ombros. Isso não causa problemas duradouros, mas é bom ir ao médico para confirmar se é mesmo a vesícula, e não outro problema, como uma úlcera.

A obstrução prolongada ou permanente dos dutos pode provocar complicações graves, como infecções e inflamações. Vá ao médico imediatamente se tiver icterícia, febre, arrepios ou dor incessante.

Os cálculos biliares são mais comuns em mulheres com mais de 40 anos e em pessoas com histórico familiar da doença. O principal fator de risco passível de correção é a obesidade, diz o Dr. Stephen Ryder, consultor médico do British Liver Trust. Mas ele é contra emagrecer depressa demais, pois isso pode dar início à formação de cálculos ou provocar sintomas; ”portanto, é melhor um emagrecimento controlado”; diz ele.

Se você já tem cálculos biliares sintomáticos, e os ataques são leves, é possível controlar seus efeitos com analgésicos; uma alimentação com baixo teor de gordura também faz uma modesta diferença. Se os sintomas forem graves e frequentes, o único tratamento eficaz é a remoção cirúrgica da vesícula.

É possível viver sem ela, pois o fígado continua a produzir bile, que passa direto ao intestino delgado em vez de se acumular primeiro na vesícula. Depois da cirurgia, cerca de um em dez pacientes sofre diarreia ocasional enquanto o sistema digestivo se adapta à liberação contínua da bile. Isso pode durar de semanas a anos, mas medicamentos chamados sequestradores de ácidos biliares ajudam a controlar o problema. Mas, para a maioria, a diferença entre ter ou não vesícula é imperceptível.

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A MORTE COMO PUNIÇÃO

A aplicação da pena de morte, quando pune o homicídio, comete o erro de tentar estabelecer justiça mediante o grave crime cometido pelo acusado, como se a execução dessa pessoa anulasse o seu erro original.

A morte como punição

Os meios de comunicação de massa noticiam, a cada dia, a ocorrência de crimes terríveis que são capazes de chocar mesmo as consciências mais embotadas, que de alguma forma já naturalizam em suas vidas a experiência do horror. A impressão generalizada é que se vive em uma selva de pedra desprovida de leis, de ordem, de segurança, de qualquer possibilidade de estabelecimento de um modo de vida tranquilo. As ameaças espreitam por todos os lados. Nunca talvez a filosofia política de Thomas Hobbes (1588-1679) tenha se apresentado tão atual.

Dentro dessa conjuntura social sufocante hiperbolizada pelos grandes aparatos midiáticos, um dos temas mais recorrentes em nossa agenda social consiste nos projetos de aplicação da pena de morte para a punição de crimes hediondos (dentro de um amplo espectro de possibilidades, pois conforme a interpretação muitos crimes podem receber tal imputação). Seus defensores, inflamados por uma agitação nervosa, suspendem momentaneamente a razão crítica em prol do afloramento das disposições mais rudimentares de sua consciência atormentada, não compreendendo que, se porventura a pena capital fosse efetivada em nosso País, apenas os sujeitos desprovidos de condições financeiras mais razoáveis para contratar um ótimo aparato jurídico sofreriam na carne a punição extrema. Talvez apenas a idiossincrática China aplique punições capitais para os cidadãos de tal quilate que atentem economicamente contra a coisa pública.

Podemos afirmar que a pena de morte nada mais é do que o assassinato legalizado pelo Estado, cumprindo não apenas o propósito de punir exemplarmente o criminoso para que outrem não cometa ações similares e vivencie assim o mesmo destino fatal, mantendo-se então o tecido social coeso sob um rígido controle moral, mas também atuando como uma vingança judiciária do poder estabelecido contra a pessoa. Os otimistas defendem que grande parte das penas capitais atualmente aplicadas são assépticas e distintas dos horríveis suplícios infamantes de tempos passados; contudo, toda execução é uma violação da dignidade humana, não importa sob qual método.

Em alguns países, a punição capital se converte em um negócio altamente lucrativo. Traficantes de órgãos prosperam consideravelmente em negócios escusos com governos criminosos que realizam esses empreendimentos clandestinos. Há casos controversos de países que apresentam elevado índice de execuções anuais para fomentar esse negócio altamente lucrativo para esses governos corruptos, movimentando uma sórdida rede empresarial que prospera mediante a anulação existência de uma massa de miseráveis que não devem mais viver em prol da salvação das vidas de uma elite capaz de pagar altas taxas pela aquisição de um coração, de um fígado, de um rim. A despeito do arrogante sentimento de onipotência de muitos magistrados, o poder judiciário brasileiro, além de plutocrático e burocrático, é falho, não apenas por questões morais, mas também por fatores epistemológicos, em decorrência da incerteza latente e dos erros que acometem os juízos humanos, obscurecendo a precisão das suas decisões. Em caso de dúvida, é sempre mais sensato que se mantenha uma posição moderada acerca dos julgamentos. Por conseguinte, será que um ser humano possui capacidades razoáveis para decidir sobre a vida e a morte de outra pessoa? Levando em consideração essa questão, o jurista Pietro Verri (1728-1797) apontara que “mais valeria perdoar vinte culpados do que sacrificar um inocente”.

Ao longo da história da humanidade, diversas pessoas inocentes foram executadas a partir de indícios imprecisos de culpabilidade, muitas vezes sendo reconhecidas como inocentes pelos todo-poderosos magistrados, que mantiveram a sentença capital como forma de se proclamar a pretensamente infalível autoridade absoluta do sistema penal. Quantos homicídios travestidos como execuções legais praticadas pelo Estado detentor do monopólio legítimo da violência (e da morte) não ocorreram contra pessoas inocentes, sem que houvesse em tempo hábil revisão de pena, de modo a se evitar a efetivação dessa barbárie legalizada contra a vida do condenado? O renomadíssimo jurista Cesare Beccaria (1738-1794) considerava absurdo que “as leis, que são a expressão da vontade pública, que abominam e punem o homicídio, o cometam elas mesmas e que, para dissuadir o cidadão do assassínio, ordenem um assassínio público”

A caça às bruxas não ocorreu apenas em regiões contagiadas pela onda histérica de luta contra o Diabo, mas também se manifesta na conjuntura social da república laica, laica apenas na teoria, pois na prática impera o espírito supersticioso e reativo do homem de ressentimento que deseja impor sua visão de mundo doentia sobre todos os divergentes. Para essa massa raivosa, a passagem dos seus desejos homicidas para o ato só é bloqueada por uma tênue linha divisória, seja o medo da punição legal ou talvez o temor perante a punição divina. Contudo, esses “cidadãos de bem” não são verdadeiros homens religiosos, mas pessoas pobres de espírito que chafurdam afetivamente na miséria interior e querem colorir o mundo com suas tintas tenebrosas, para as­ sim esconder suas escórias.

 EXECUÇÃO NA INDONESIA

A opinião pública brasileira, ontologicamente reacionária, tripudiou o fato de a presidenta deposta Dilma Rousseff solicitar comutação de pena ao presidente indonésio Joko Widodo em prol de Marco Archer e de Rodrigo Gularte, condenados à pena capital por narcotráfico em  2015,  evidenciando mais uma vez sua tacanha falta de conhecimento jurídico acerca do Direito Internacional, mais precisamente, do conteúdo Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos,  adotado pela XXI Sessão da Assembleia­ Geral das Nações Unidas, em 16 de dezembro de 1966, ratificado inclusive pelo governo indonésio de então.

Vejamos os itens que nos interessam em nossa argumentação: PARTE III, ARTIGO 6, parágrafo 2: “Nos países em que a pena de morte não tenha sido abolida, esta poderá ser imposta apenas nos casos de crimes mais graves, em conformidade com legislação vigente na época em que o crime foi cometido e que não esteja em conflito com as disposições do presente Pacto, nem com a Convenção sobra a Prevenção e a Punição do Crime de Genocídio. Poder-se-á aplicar essa pena apenas em decorrência de uma sentença transitada em julgado e proferida por tribunal competente”. PARTE III, ARTIGO 6, parágrafo 4:”Qualquer condenado à morte terá o direito de pedir indulto ou comutação da pena. A anistia, o indulto ou a comutação da pena poderá ser concedido em todos os casos.” Em nome de sua pretensa soberania constitucional, o governo indonésio cometeu crimes contra a humanidade, devendo, portanto, ser responsabilizado juridicamente por isso. A então presidenta Dilma Rousseff, nas prerrogativas legais de seu cargo, fez o seu papel diplomático de interceder pela conservação da vida de cidadãos brasileiros submetidos a um processo jurídico prenhe de violações jurídicas, tal como diversos outros governantes de grandes nações o fizeram em relação a seus cidadãos que sofriam de mesma sorte.

Na pior das hipóteses, somente uma nação que possuísse uma constituição impecável e cuja casta política apresentasse plena probidade administrativa na gestão pública poderia talvez conquistar legitimidade moral se porventura aplicasse a pena capital aos seus condenados, o que não é o caso da Indonésia. Um país que calcou sua história moderna através de governos tirânicos e que exerceu políticas imperialistas sobre seus vizinhos geográficos não possui qualquer legitimidade moral para aplicar a pena capital sob quaisquer circunstâncias. Cabe lembrar que entre 1975 a 1999, durante o controverso regime do ditador Suharto, a Indonésia espoliou politicamente o Timor-Leste, massacrando milhares de vidas em um regime de terror, destruição da qual até hoje esse país não se recuperou, sem receber qualquer tipo de indenização significativa para a reconstrução nacional. Quando ocorreu o tsunami de 2004, que arrasou o território indonésio, seus governantes não hesitaram em solicitar e aceitar ajuda humanitária internacional, e a comoção mundial pelo desastre fez que a opinião pública se esquecesse desse passado sombrio indonésio. O espírito de solidariedade da sociedade midiatizada escamoteia os delitos políticos de outrora. As leis trabalhistas indonésias se submetem piamente ao crivo neoliberal e permitem que seus trabalhadores sejam explorados até a última gota de sangue por multinacionais consagradas pelo mercado consumidor, que recebe o produto final adornado por seus encantos fetichistas que escondem sua trajetória brutal. No modus operandi jurídico indonésio, estupros são crimes que recebem mais condescendência legal do que os delitos do narcotráfico, circunstância que evidencia os preconceitos patriarcalistas do país e suas incoerências morais.

A morte como punição.2

A crucificação, pena capital muito utilizada durante o Império Romano, é um poderoso símbolo de terror e intimidação

INEFICÁCIA DA PENA CAPITAL

A aplicação da pena de morte suprime toda possibilidade de aprimoramento moral do condenado mediante arrependimento dos seus delitos, interrompendo bruscamente esse processo de transformação pessoal. Nos países democráticos, em que ainda se aplica a pena capital, o prisioneiro pode esperar por décadas para a efetivação da execução, que perde assim todo sentido moral, pois, após tantos anos, o efeito do crime, mesmo que talvez ainda ocasione problemas para o tecido social atingido e para os familiares da vítima, já sofreu desgastes em sua intensidade. É difícil esquecermos um delito terrível, mas a única possibilidade de nos libertarmos dos efeitos corrosivos do ressentimento é através da concessão magnânima do perdão ao criminoso que vivencia essa mudança radical no seu modo de ser. Se porventura o condenado vivencia um processo positivo de transformação interior, não faz mais qualquer sentido executá-lo, mesmo que não seja a função do Estado moralizar o cidadão, mas apenas impedi-lo de atentar novamente contra a ordem pública. Nessa lógica, a execução sumária de um condenado é, horresco referens, absurdamente mais coerente, pois o poder executor não visa obter qualquer reparação moral da pessoa, apenas lhe exercer o peso da justiça-vingança oficial do sistema jurídico pelos danos cometidos contra o Estado e seus cidadãos. Em casos que a gravidade do crime seja tão intensa e chocante, a prisão perpétua seria a melhor alternativa para manter o condenado isolado do convívio social, e se porventura houvesse efetiva mudança de comportamento do criminoso, o mesmo, após um período extenso de confinamento penitenciário, poderia vir a ser analisado por uma comissão de diversos profissionais em prol de sua possível libertação, sendo assim reintegrado ao seio social de modo a desenvolver novamente sua capacidade humana de relacionamento com as demais pessoas.

Um Estado realmente forte não necessita apelar para a aplicação de pena de morte em  determinados crimes, e se porventura recorre a tal expediente, é porque ele não encontra  capacidade suficiente para estabelecer os preceitos civilizacionais em sua jurisdição  territorial  e  promover a qualidade de vida plena para todos os seus membros, evidenciando sua decadência política, pois seu poder se consolida mediante os corpos profanados dos mortos assassinados por suas mãos frias. Friedrich Nietzsche (1844-1900) apresenta uma valiosa reflexão sobre esse problema: “O que faz com que toda execução nos ofenda mais que um assassinato?  É a frieza dos juízes, a penosa preparação, a percepção de que um homem é ali utilizado como um meio para amedrontar outros, pois a culpa não é punida, mesmo que houvesse uma; esta se acha nos educadores, nos pais, no ambiente, em nós –  não no assassino –  refiro-me às circunstâncias determinantes”.

Em um sistema jurídico regido pelo espírito burocrático, esperarmos pelo perdão é uma disposição talvez utópica, mas a clemência é a maior prova de poder de um Estado, representando a sua capacidade de, mesmo nas ocasiões em que suas instituições são atingidas pela ação da violência individual, permanecer incólume. Conforme o argumento de Jean-Marie Guyau (1854-1888), “O que está feito, está feito; o mal moral permanece, apesar de todo mal físico que se pode acrescentar a ele. […] é irracional buscar a punição ou a compensação do crime”.

A estupidez reacionária que clama pela aplicação da pena de morte em nome da justiça, da ordem e da pureza social estabelece distinções de classe em suas aspirações, criminalizando a pobreza como o vilipêndio por excelência, ainda que muitos defensores da pena de morte sejam eles mesmos economicamente desfavorecidos, que não se reconhecem como tais. A pior servidão voluntária é a do sujeito oprimido que assimila o discurso do opressor. Não vemos essa gente clamar pela execução de políticos e mandatários corruptos, bastando então que essas “pessoas especiais” sejam privadas de sua liberdade, não de suas vidas preciosas (apesar de que, na histeria “anticomunista” que vigora, muitos revoltosos fascistas defenderam as execuções de importantes nomes políticos da esquerda). Esses discursos extremistas são perigosos, pois alimentam a sanha truculenta e fascista dos parlamentares associados aos grupos sociais que chancelam a violência oficializada do Estado, como policiais e forças armadas. Aliás, já não deixa de existir uma espécie de pena de morte no Brasil, que atende pelo nome de auto de resistência perpetrada pelas forças policiais contra os suspeitos que não possuem mais direito de viver, onde o executor atua também como juiz, situação ainda mais absurda do que a execução sumária praticada em alguns países, conforme destacamos anteriormente. Não é raro ouvir estudantes de Direito e de Serviço Social, cursos cujas bases axiológicas estão comprometidas com a dignidade incondicional da vida humana e dos seus direitos inalienáveis, defenderem, em casos de crimes violentos de grande comoção social, a aplicação da pena de morte para os seus praticantes, mas jamais vi revoltas virulentas desses estudantes alienados contra a corrupção na política, contra as arbitrariedades policiais, contra as especulações bancárias, dentre outras situações, crimes tão hediondos como os sanguinários. A mesma colocação pode ser feita em relação a alguns segmentos direitistas do alunado do curso de Administração, desvinculados de maiores preocupações sociais, mas apenas aos paradigmas mercadológicos perante os quais estão submetidos. A truculência do mundo corporativo dissolve a humanidade dos seus participantes, inoculando-lhes o veneno do esnobismo perante os males concretos da sociedade cindida.

Há crimes terríveis que afetam talvez dezenas de vítimas, há crimes ainda muito mais graves que afetam milhões de cidadãos, e nesses casos os meliantes sequer sofrem os rigores legais na carne. A consciência massificada, reacionária, dejeta sua virulência apenas nos crimes hediondos realizados pela base da pirâmide social, se esquecendo de que os piores crimes são os praticados pelos meliantes de colarinho branco, pois estes afetam diretamente todo o tecido social e suas ações indébitas retiram das camadas populares os benefícios legais que deveriam receber para que adentrem na condição de cidadãos de fato. Nesse ponto, a reflexão de Adam Smith (1723-1790) é surpreendentemente atual: “A violência e a injustiça de grandes conquistadores são frequentemente vistas com tola admiração e assombro, as dos ladrões, assaltantes e assassinos, em todas as ocasiões, com desprezo, ódio e até horror. As primeiras, ainda que cem vezes mais danosas e destrutivas, se alcançam êxito, passam amiúde por façanhas de heroica magnanimidade. As últimas são sempre vistas com ódio e aversão, como as loucuras e os crimes dos piores e mais baixos seres humanos”.

Comumente, cristãos afastados do espírito evangélico primordial, quando impressionados pelo impacto social de um crime hediondo, clamam pela pena de morte contra o agente da violência, dando vazão aos pecaminosos sentimentos de ira e de vingança, totalmente incompatíveis com a beatitude crística; mais ainda, ousam julgar, quando em verdade jamais deveriam julgar. Melhor seria se renunciassem efetivamente ao credo cristão, pois moralmente já não fazem mais parte dessa comunhão religiosa, não obstante toda proclamação contrária.

Uma vez que a lógica de espetacularização da vida absorve todas as performances sociais, não seria de estranhar de se, no futuro não muito distante, conglomerados televisivos recebessem autorização legal para a exibição de execuções de condenados mediante pagamento de assinatura da parte de espectadores interessados em contemplar esses eventos macabros. Certamente essas redes de televisão conquistariam grandes somas para os seus cofres, pois são bilhões de pessoas dominadas pela concupiscência do olhar que tanto seduz perante cenas mórbidas.

 PENA DE MORTE NÃO INSTITUCIONALIZADA

Usualmente se repete o discurso de que já temos uma pena de morte informal em nossa estrutura social, intrinsecamente necrófila. As forças policiais, axiologicamente associadas ao espírito fascista, matam diariamente pessoas desprovidas de dignidade humana em decorrência de sua condição social e fazem desse exercício de brutalidade uma cerimônia de autoglorificação dos seus atos (vide os brasões de armas dessas corporações), encontrando na massa social o apoio moral para essas mortes. Eficiência policial não significa aumento no índice de letalidade contra os marginais sociais, mas sim a capacidade de prevenir os delitos associada a uma política pública efetivamente democrática que garanta a emancipação social dos sujeitos alheados da cidadania plena dando-lhes empoderamento e autonomia na construção das suas histórias de vida.

 A morte como punição.3

RENATO NUNES BITTENCOURT – é doutor em filosofia pelo PPGF-UFRJ, professor da FACC-UFRJ.

e-mail: renatonunesbittencourt@gmail.com

OUTROS OLHARES

VALE A PENA SER FELIZ

Vale a pena ser feliz

Um grande susto ligado á saúde: foi disso que Kaye Newton, de 48 anos, precisou para se transformar em uma pessoa mais feliz. Antes da doença, Kaye, escritora que mora em Nashville, Estados Unidos, se descrevia como hipocondríaca, sempre preocupada com as armadilhas que se esconderiam em seu futuro. Mas, depois de enfrentar uma adversidade real, ela aprendeu a mudar seu ponto de vista.

”A cirurgia me ajudou a perceber que me preocupar com a saúde não me protege de doenças nem me prepara para uma cirurgia’: diz Kaye. ”Hoje me preocupo menos. Sou mais feliz e, conscientemente, presto mais atenção ao que está acontecendo:’

Seu livro Incision Decisions (”Decisões sobre incisões”) fala de como permanecer positiva depois de cirurgias.

Quanto mais vivemos, mais provável é que sejamos felizes. Incontáveis pesquisas já mostraram que, no decorrer da vida, a felicidade forma uma curva em U: somos mais felizes na infância e na velhice. No início da idade adulta, o nível de felicidade se reduz sem parar e chega ao mínimo entre os 40 e os 50 anos. Aos 50, o nível de felicidade volta a subir.

A queda na curva da felicidade é compreensível, dados o estresse e as mudanças importantes que ocorrem na vida aos 20, 30 e 40 anos: trabalhar muitas horas, estabelecer-se em uma carreira, casar-se, criar filhos pequenos, guardar dinheiro para o futuro.

E a melhora da curva da felicidade? Após viver 45 ou 50 anos, a experiência acumulada nos ajuda a ver melhor a situação. ”Depois de seis décadas ou mais, a maioria já viu que a vida tem pontos altos e baixos’; diz Lisa F. Carver, professora adjunta do Departamento de Sociologia da Universidade Queen’s, em Kingston, Ontário, Canadá. ”O otimismo da juventude, que pode refletir o pensamento mágico de que o sucesso na vida é inevitável, é substituído pela realidade de que nem tudo é bom. No entanto, há também a compreensão de que o bem pode vir do mal”.

Aprender a ver com bons olhos os eventos da vida nos ajuda a ser mais felizes quando envelhecemos. E vale a pena ser feliz: temos benefícios nos relacionamentos, no trabalho, na saúde, na atitude e em outros aspectos da vida.

FELICIDADE E RELACIONAMENTOS

Você tem amigos ou parentes em quem possa confiar? Se tiver, automaticamente é mais feliz do que quem não tem a quem recorrer em busca de conselhos ou companhia. ”A satisfação nos relacionamentos é o previsor mais forte de felicidade que temos’; diz Meik Wiking, presidente executivo do Instituto de Pesquisa da Felicidade, em Copenhague, Dinamarca. ”Ela surge o tempo todo nos dados sobre felicidade. A solidão é um dos maiores desafios”; em toda parte. A pesquisa mostra que pessoas casadas ou que vivem com parceiros tendem a ser mais felizes do que as solteiras simplesmente porque têm menos probabilidade de sentir solidão. ”Quem tem alguém com quem contar em situações difíceis é mais feliz do que quem não tem”; diz John Helliwell, pesquisador da felicidade, assessor do Instituto de Pesquisa da Felicidade e professor aposentado de Economia da Universidade da Colúmbia Britânica, em Vancouver, no Canadá. ”É mais provável que os casados, diferentemente dos solteiros, tenham com quem contar:”

A pesquisa de Helliwell constatou que o casamento aumenta a felicidade a longo prazo, de tal modo que sua queda na meia-idade não é tão acentuada entre os casados. Os mais felizes de todos são os que consideram o cônjuge seu melhor amigo. A pesquisa de Helliwell é a primeira a examinar a interseção entre casamento e amizade e seu efeito sobre a felicidade. ”Chamar o cônjuge de melhor amigo é outra maneira de dizer “Tenho um casamento feliz”; diz Helliwell. ”Se pensarmos bem, eles são felizes por estarem casados:”

Carol Gee, de Atlanta, Geórgia, nos Estados Unidos, está casada há 44 anos com o mesmo homem. ”Percebo que sou realmente feliz. Não estou mantendo o relacionamento só porque investimos muito tempo nele”; diz ela. ”Não acredito em não ser feliz:”

 FELICIDADE E TRABALHO

Os pesquisadores estudaram características dos empregos que levam à felicidade e à maior satisfação na vida. A maioria prefere, acima de tudo, um bom equilíbrio entre vida e trabalho. ”A variedade e o aprendizado de coisas novas são importantes, mas menos do que o equilíbrio entre vida e trabalho”; diz Jan-Emmanuel De Neve, professor associado de Economia e Estratégia da Escola de Administração Said da Universidade de Oxford. ”Quem sente que o emprego o impede de dedicar seu tempo à família ou ao parceiro, quem se preocupa com problemas profissionais mesmo quando não está trabalhando, ou quem fica cansado demais depois do trabalho para apreciar outras coisas, sofre um efeito imenso sobre seu bem-estar:”

Como era de esperar, a aposentadoria aumenta a felicidade da maioria dos adultos. ”Isso se deve a duas coisas”; diz De Neve. ”Uma está ligada a poder fazer mais, porque o equilíbrio vida-trabalho pende mais para o lado da vida. Há mais tempo para o lazer. A outra coisa é que as pessoas passam a adaptar suas expectativas, que talvez fossem altas demais quando começaram a trabalhar. Elas aceitam o resultado da vida:”

 

FELICIDADE E SAÚDE

Viva o suficiente e provavelmente você enfrentará doenças ou incapacidade. Mas, com a atitude certa, esses reveses não afetarão seu nível de felicidade. ”Com os participantes de nosso estudo, aprendemos que envelhecer com perdas e doenças são desafios que trazem novas ideias e apreciação da vida”; diz Lisa Carver.

Pesquisadores da Itália descobriram que as pessoas com percepção positiva do envelhecimento são mais felizes do que quem tem percepção negativa. ”A percepção positiva do envelheci­ mento nem sempre está ligada à boa saúde’; diz Ligia Dominguez, especialista em geriatria da Universidade de Palermo e um dos autores do estudo. ”Em nossa prática clínica cotidiana, vemos exemplos tocantes dessa capacidade humana de resiliência em muitos idosos que, de forma independente ou com o apoio social ou da família, mantêm uma boa qualidade de vida e declaram se sentir bem, apesar dos problemas de saúde:”

FELICIDADE E CUIDADOS PESSOAIS

O otimismo e a resiliência podem ajudar você a ser feliz na velhice. ”O mecanismo da associação entre otimismo e envelhecimento bem-sucedido talvez seja que os idosos otimistas têm capacidade de lidar com os golpes da vida”; diz Carver. ”Eles são resilientes. Exprimem satisfação com a vida, apesar das perdas e dos planos frustrados, porque adaptaram suas expectativas e aceitaram que eventos considerados negativos podem ter resultado positivo:”

A vida levou Maggie Georgopoulos, de 46 anos, moradora de Glasgow, na Escócia, a um caminho sinuoso por vários empregos e continentes. No entanto, ela encontrou felicidade na vida que tem. ”Minha felicidade vem de dentro de mim”; diz ela. ”Como criei um caminho para a vida que gostaria de ter, fico bem quando algo dá errado, porque posso ver o bem que está por vir:”

DICAS DE FELICIDADE NA VIDA

Para quem pretende permanecer feliz até o fim de seus dias, os pesquisadores recomendam o seguinte:

1.  Ajuste sua atitude – Talvez você não seja capaz de controlar o que lhe acontece, mas pode controlar sua reação. ”É possível desenvolver o hábito de ver o lado positivo das coisas”; diz Ligia Dominguez. ”Muita gente se queixa de não ser feliz, mas não faz nada para mudar a situação.”

2.  Aprender a ser mais otimista é um bom primeiro passo. ”Comece reconhecendo os pensamentos negativos assim que surgirem e questione-os”; diz ela. ”Por exemplo, a situação é tão ruim quanto parece? Haverá outra maneira de abordá-la? O que posso aprender com essa experiência para aplicar no futuro?”

3.  Interaja com seu cônjuge de outra maneira – Depois de passar décadas juntos, muitos maridos e mulheres estão tão acostumados um com o outro que não são tão gentis quanto deveriam. Isso pode causar infelicidade no casamento, o que afeta o nível de felicidade cotidiana. ”Não é justo tratar o cônjuge tão mal quanto você se trata’; diz John Helliwell. ”Pergunte-se: esse é o tipo de comportamento que eu teria com um bom amigo? Se você tratar seu cônjuge como se fosse um amigo, isso envolverá me­ nos pressupostos e mais positividade.”’

4. Concentre-se no que já tem – Se você está mais fraco ou menos ágil do que há alguns anos, agradeça por ainda estar lúcido, quando tantos outros sofrem com demência e perda de memória. ”Esse é um exemplo excelente de pessoa positiva e otimista, que aprecia o que tem em vez de se concentrar no que não tem”; diz Dominguez. ”Ser grato faz parte do cultivo de uma atitude positiva: procurar oportunidades de saborear os pequenos prazeres da vida cotidiana e concentrar-se nos aspectos positivos daquele momento, e não nas sombras do passado nem nos maus pensamentos que podem estragar tudo.”

5.  Retribua – Depois de se aposentar, você terá mais propósito na vida e mais razões para se ligar aos outros regularmente se fizer trabalho voluntário em sua comunidade. ”É benéfico se envolver mais”; diz Meik Wiking, ”principalmente naquele estágio em que o trabalho fica para trás e a identidade da pessoa não se liga mais à profissão:’ Encontre uma causa ou entidade que seja importante para você e descubra como ajudar. ”Acho que muita gente vê o trabalho voluntário como bom para os outros, mas desdenha o benefício que podemos obter”; diz Wiking. ”Esse é um modo de fazer e conhecer novos amigos. Talvez também ajude as pessoas a se tornarem mais gratas pelo que têm, porque certos tipos de trabalho caritativo nos expõem a como vive quem recebe a caridade.

 Vale a pena ser feliz2

OUTROS OLHARES

PSIQUIATRIA FORENSE: A LEI EXISTE PARA SER APLICADA

É importante ressaltar sempre que um crime grave não se caracteriza somente pela agressão física, mas também pela violência psicológica.

A lei existe para ser aplicada

Recentemente foi preso um homem de 27 anos que, dentro de um ônibus, na av. Paulista (centro financeiro de São Paulo), ejaculou no pescoço de uma mulher. Trata-se de caso de exibicionismo que se caracteriza por desejo de expor os genitais em público. A excitação sexual ocorre durante a exposição e o orgasmo é atingido por meio de masturbação, como ocorreu nesse caso. Aqui é preciso lembrar que os exibicionistas apreciam a reação da vítima à exposição, se fica brava, surpresa etc.

Levado à delegacia de polícia, depois ao juiz para audiência de custódia, este o liberou sob o argumento de que não houve violência ou grave ameaça, ou seja, a sua conduta não caracterizara, para o magistrado, estupro. Passados dois dias, o mesmo indivíduo, no mesmo local, praticou outro crime semelhante.

Assim nascem as primeiras perguntas: qual o tipo de transtorno que esse indivíduo tem e o que deve ser feito?

Antes de responder, seja-nos permitido dizer que o juiz e o Ministério Público erraram ao não caracterizar crime violento, lembrando que violência não é somente agressão física, mas também psicológica.

O homem é soma e psiquê, corpo e alma, que são duas substâncias diferentes amalgamadas a formar um composto uno e indiviso; por isso se denomina indivíduo, indivisível. Isso quer dizer que quando há uma agressão física, o psiquismo também apanha e vice-versa.

Ora, ser vítima de uma ejaculação em um coletivo, de maneira totalmente indesejada, claro que é altamente agressivo para a moral, os costumes, o pensamento, o sentimento, o humor, os valores éticos do indivíduo-vítima.

Quanto ao criminoso, em vez de soltá­lo, o juiz e o representante do Ministério Público deveriam fazer o que manda a lei nessas circunstâncias: instaurar incidente de insanidade mental para verificar o que esse anormal apresenta. Lembremos que ele já foi pego mais de 15 vezes praticando os mesmos atos. E quem é pego 15 vezes é porque praticou no mínimo 50, ou seja: faz três e pegam uma.

E quem age dessa maneira bizarra, escancarada, impulsiva, agressiva, com absoluta certeza não está em uma condição mental normal. Há algo a ser avaliado. Assim, determinado o mal do qual esse perturbado padece, em vez de cadeia, seria aplicada medida de segurança detentiva, por apresentar periculosidade social, consistente em internação na casa de custódia e tratamento psiquiátrico (antigo manicômio judiciário) e lá permanecer por um período inicial, mínimo, de um a três anos, para tratamento e para a salvaguarda social.

O que não é tolerável é um indivíduo com tal comportamento, multireincidente específico, continuar a agir impunemente e, o que é pior, amparado por uma lei mal interpretada e aplicada de forma errada por alguém que deveria, isso sim, proteger a sociedade.

 

 GUIDO ARTURO PALOMBA – é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.