ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 7: 7-11

O Sermão da Montanha. A Bondade de Deus

No capítulo anterior, nosso Senhor falou sobre a oração como a obrigação de um mandamento pelo qual Deus é honrado, e que, se for feita corretamente, será recompensada. Aqui, Ele diz que ela é uma maneira de obtermos aquilo que precisamos, especial mente a graça para obedecermos aos preceitos que Ele nos deu, alguns dos quais bastante desagradáveis à carne e ao sangue.

I – Eis aqui um preceito feito com três palavras e com o mesmo significado: “Pedi, Buscai e Batei” (v. 7), ou em uma única palavra: “Ore, ore muitas vezes, ore com sinceridade e seriedade; ore e ore novamente; tome consciência da oração e seja constante nela. Dedique-se à oração, e ore com fervor. Peça como um mendigo pede esmolas. Aquele que deseja ser rico em graças deve se valer da humilde função de pedir, e descobrirá que ela é repleta de sucessos”. Peça; apresente seus desejos e obrigações a Deus e peça seu apoio e auxílio, pois isso está de acordo com a sua promessa. Peça como um viajante que pergunta sobre o caminho. Orar é pedir a Deus (Ezequiel 36.37). Busque, como se tivesse perdido uma coisa de grande valor, ou como um mercador procura pérolas preciosas. Busque através da oração (Daniel 9.3). Bata, como aquele que deseja entrar na casa bate na porta. Seremos admitidos para conversar com Deus, introduzidos no seu amor, no seu favor e no seu reino. O pecado fechou e travou a porta contra nós. Através da oração nós batemos e chamamos: Senhor, Senhor, abre para nós. Cristo bate à nossa porta (Apocalipse 3.20; Cantares 5 .2) e nos deixa bater na dele – um favor que não concedemos aos mendigos comuns. Buscar e bater implica alguma coisa além de pedir e orar.

1.Não devemos apenas pedir, mas buscar. Devemos acompanhar nossas orações com nossos esforços, e usando os meios indicados. Buscar pelo que pedimos para não desafiar a Deus. Quando o vinhateiro pediu mais um ano para a figueira estéril, ele acrescentou: Irei escavá-la e estercá-la (Lucas 13.7,8). Deus concede o conhecimento e a graça àqueles que o procuram nas Escrituras, e aguardam nas portas da Sabedoria. E também o poder contra o pecado àqueles que evitam as suas ocasiões.

2.Não devemos apenas pedir, mas bater. Devemos ir até a porta de Deus e pedir insistentemente. Não devemos apenas orar, mas suplicar e lutar com Deus. Devemos buscar diligentemente e continuar batendo. Devemos perseverar na oração e no uso dos seus meios, devemos perseverar até o fim nesse dever.

II – Aqui foi incluída uma promessa: nosso esforço ao orar, se realmente isso representar algum esforço, não será em vão. Onde existe um coração piedoso, ele encontrará um Deus atento. Ele nos dará uma resposta de paz. O preceito é tríplice: pedi, buscai e batei. Mas existe uma norma para esse preceito. A promessa tem seis partes, regra após regra, para nos encorajar; porque uma sólida crença nessa promessa nos tornará alegres e constantes na nossa obediência. Agora vejamos:

1.A promessa foi feita de modo a dar uma resposta exata ao preceito (v. 7). “Pedi, e dar-se-vos-á”. Aquilo que foi pedido não será emprestado e nem vendido, mas concedido, e o que pode valer mais que um presente? De acordo com essa promessa, qualquer coisa pela qual você estiver orando será concedida, se Deus julgar que ela lhe ser á conveniente, e o que mais você pode desejar? Basta pedir para receber. Se não recebermos, é porque não pedimos, ou não pedimos corretamente. O que não é digno de ser pedido, não vale a pena ter, pois de nada vale. Busque e encontrará, e seu esforço não será perdido. Quando buscamos a Deus, sempre o encontramos, e isso nos será suficiente. “Batei, e abrir-se-vos-á”. A porta da misericórdia e da graça se abrirá, e nunca mais se fechará diante de você como se fosse algum inimigo ou intruso, mas se abrirá como se fosse um amigo ou uma criança. Alguém perguntará: “Quem está à porta?” Se for capaz de responder que é um amigo, e tiver o bilhete da promessa nas mãos, pronto para ser mostrado com fé, não tenha dúvidas de que será admitido. Se a porta não se abrir à primeira batida, continue a perseverar em oração. E uma afronta a um amigo bater em sua porta, e logo se retirar. Mesmo que pareça que Ele está demorando a atender, espere.

2.Essa promessa é repetida no versículo 8 com a mesma intenção, embora com algumas inclusões.

(1) Ela foi feita para se estender a todos que oram correta mente. ”Não só vocês, meus discípulos, receberão o que pedem, mas também todos os outros que pedirem irão receber, sejam eles judeus ou gentios, jovens ou velhos, ricos ou pobres, nobres ou plebeus, senhores ou escravos, cultos ou ignorantes. Todos eles serão igualmente bem recebidos no trono da graça, se vierem com fé, pois Deus não respeita a aparência humana”.

(2) Ela foi feita de modo a significar uma concessão, sendo expressa no presente, e isso vale mais do que uma promessa par a o futuro. Todo aquele que pedir, não só irá receber, como já recebeu. Ao se apropriar da promessa, e aplicá-la, através da fé, estaremos realmente atraídos e envolvidos por ela. Tão certas e invioláveis são as promessas de Deus, que elas real e efetivamente concedem uma posse. Um crente ativo tomará posse imediatamente, e fará das bênçãos prometidas algo que já é seu. De acordo com a promessa, aquilo que esperamos é tão certo, e deve ser tão doce, como aquilo que já temos em mãos. Deus falou no seu santuário: “Meu é Gileade, meu é Manasses” (SaImos 108.7,8); tudo será meu, se eu acreditar. Dádivas condicionais se tornam definitivas de acordo com a nossa atitude em relação às condições; portanto, aquele que pede, recebe. Dessa forma, Cristo aprova as petições que lhe são feitas e, como Ele tem todo o poder, isto nos basta.

3.Ela foi ilustrada com um exemplo retirado dos pais terrenos e da sua inata disposição de conceder aos filhos tudo que pedem. Cristo apela a seus ouvintes: “E qual dentre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente?” (vv. 9,10). Em seguida, Ele conclui (v. 11): “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” Agora, algumas coisas práticas:

(l)Para dirigir as nossas orações e expectativas.

[1] Devemos nos aproximar de Deus como as crianças se aproximam do Pai celestial, com reverência e confiança.  É muito natural que uma criança procure o pai quando tem alguma necessidade ou aflição para lhe apresentar suas queixas. ”Ai, a minha cabeça! ai, a minha cabeça!” Dessa maneira, a nova natureza deveria nos direcionar a Deus para pedir a sua ajuda e as suas bênçãos. 

[2] Devemos ir até Ele em busca de coisas boas, daquelas que Ele concede àqueles que lhe pedem. Isto nos ensina que devemos confiar a nossa vida a Ele. Não sabemos o que é melhor para nós (Eclesiastes 6.12); portanto, devemos deixar estas escolhas a critério dele. Pai seja feita a tua vontade. Seu filho está aqui para pedir o pão que é necessário, e um peixe, que é saudável. Mas se, insensatamente, o filho pedir uma pedra, uma serpente, uma fruta verde para comer, ou uma faca afiada para brincar, seu pai, embora seja bondoso, deverá ser prudente e negar. Muitas vezes pedimos a Deus alguma coisa que nos faria mal, se a tivéssemos. Ele sabe disso, portanto irá negar. É melhor uma negativa feita com amor do que uma dádiva concedida com ira. A nossa vida não seria tão saudável se já tivéssemos recebido tudo que desejamos.

(2) Para encorajar nossas orações e expectativas. Podem os esperar que não existam recusas ou desapontamentos. Não teremos uma pedra em lugar do pão para quebrar nossos dentes (embora tenhamos uma crosta dura para aplicar a nossa mordida), nem uma serpente para nos morder, no lugar do peixe. Na verdade, temos razão para ter medo deles, porque merecemos a ambos. Mas Deus fará melhor por nós que o deserto pelos nossos pecados. O mundo sempre oferece pedras em lugar de pão, e serpentes em lugar de peixe, mas isso nunca acontece com Deus. Seremos ouvidos e atendidos, como fazem os pais com os filhos.

[1] Deus colocou no coração dos pais uma amorosa inclinação para socorrer e ajudar seus filhos de acordo com suas necessidades. Mesmo aqueles que têm pouca consciência do dever, ainda assim agem como por instinto. Nenhuma lei jamais foi necessária para obrigar os pais a cuidarem dos seus filhos legítimos, e nem dos seus filhos ilegítimos, mesmo no tempo de Salomão.

[2] Ele adotou a posição de um Pai em relação a nós, e nos considera seus filhos. Da mesma maneira como nos encontramos prontos para socorrer nossos filhos, podemos nos sentir estimulados a buscar o nosso socorro em Deus, para obtermos o nosso alívio. Todo amor e ternura que existem nos pais provêm dele. Eles não vêm da natureza, mas do Deus da natureza. Portanto, devem ser infinitamente maiores nele. Ele compara seus cuidados para com o seu povo aos cuidados de um pai para com os seus filhos (SaImos 103.13). E também com aqueles de uma mãe, que são geralmente mais carinhosos (Isaias 49.14,15). Podemos supor que nele, esse amor, ternura e bondade em muito excedam aos de qualquer pai terreno. Portanto, se eles se manifestam com mais intensidade é porque estão baseados nessa indubitável verdade, de que Deus é o melhor Pai. Infinitamente melhor do que qualquer pai terreno, pois seus pensamentos se colocam acima dos pensamentos terrenos. Nossos pais terrenos podem cuidar de nós, assim como cuidamos dos nossos filhos. Mas Deus irá cuidar ainda mais dos seus filhos, porque eles são originalmente pecadores, descendentes da degenerada semente de Adão. Eles perderam grande parte da boa natureza que pertencia à humanidade e, entre outros tipos de corrupção, têm dentro de si mesmos a má disposição e a maldade. No entanto, eles transmitem coisas boas aos seus filhos e sabem como dar de forma adequada e oportuna. Mas Deus é capaz de dar muito mais, pois Ele os irá recolher quando estiverem desamparados (SaImos 27.10). Em primeiro lugar, Deus conhece bem todas as coisas, ao passo que os pais são, muitas vezes, levados por seus sentimentos, mostrando -se insensatamente amorosos. Deus é infinitamente mais sábio. Ele sabe do que precisamos, aquilo que queremos e o que é melhor para nós. Em segundo lugar, Deus é mais bondoso. Se a somatória da compaixão de todos os pais do mundo pudesse ser reunida nas entranhas s de um único pai, quando comparada à terna misericórdia do nosso Deus ela não seria mais que a luz de uma vela perto do sol, ou uma gota no oceano. Deus é mais rico e está disposto a dar mais aos seus filhos que os pais humanos, pois Ele é o pai do nosso espírito, um pai eternamente amoroso e presente. As entranhas do nosso Pai anseiam até pelos filhos ingratos e pelos pródigos, como o anseio de Davi por Absalão. Será que tudo isso não basta para calar os incrédulos?

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ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 6: 19-24

O Sermão da Montanha

O materialismo é um sintoma comum e fatal de hipocrisia como qualquer outro, porque por nenhum pecado Satanás pode ter um domínio mais seguro e mais rápido da alma, sob a capa de uma profissão de religião visível e admissível, do que por meio do materialismo. Portanto, tendo nos alertado contra cobiçar o louvor dos homens, Cristo, em seguida, nos alerta contra cobiçar a riqueza do mundo; também devemos prestar atenção a isto par a que não sejamos como os hipócritas e não façamos o que eles fazem. O erro fundamental de que eles são culpado s consiste em escolher o mundo como seu galardão. Devemos, portanto, estar alertas contra a hipocrisia e o materialismo, na escolha que fazemos do nosso tesouro, do nosso fim, e dos nossos senhores.

I – Ao escolher o tesouro que acumulamos. Tudo o que homem tem compõe o seu tesouro, a sua porção. O seu coração está nesta porção. É para lá que ele transporta tudo que puder conseguir, e é dele que o homem depende para o futuro. É sobre este bem, este bem principal, que Salomão fala enfaticamente (Eclesiastes 2.3). Este bem é algo que a alma terá, algo que ela considera como a melhor coisa, que tem a sua complacência e a sua confiança acima de outras coisas. Cristo não planeja nos privar do nosso tesouro, mas nos guiar na escolha dele; e aqui temos:

1.Uma boa advertência contra fazer das coisas que são vistas, que são temporais, as nossas melhores coisas, e colocar nelas a nossa felicidade. “Não ajunteis tesouros na terra”. Os discípulos de Cristo haviam deixado tudo para segui-lo, mantendo uma boa consciência. Um tesouro é a abundância de algo que é, em si, ao menos em nossa opinião, precioso e valioso, e que poderá nos ser útil no futuro. Entretanto, não devemos acumular tesouros na terra, isto é:

(1) Não devem os considerar as coisas terrenas como as melhores, ou as mais valiosas em si mesmas, nem as mais proveitosas para nós. Não devemos chamá-las de glória, como fizeram os filhos de Labão, mas devemos ver e possuir as coisas terrenas que não têm glória, em comparação com a glória que é a mais excelente.

(2) Não devemos cobiçar a abundância destas coisas, nem estar tomando posse delas cada vez mais, e acrescentando-as, como fazem os homens com aquilo que é o seu tesouro, sem nunca saberem quando já têm o suficiente.

(3) Não devemos confiar nas coisas terrenas para o futuro, para serem a nossa segurança e suprimento no tempo por vir – não devemos dizer ao ouro: “Tu és a minha esperança”.

(4) Não devemos nos satis fazer com as coisas terrenas, como tudo o que precisamos ou desejamos; devemos nos contentar com o suprimento de nossas necessidades neste mundo, não desejando que a nossa porção seja exagerada. Não devemos fazer destas coisas a nossa consolação (Lucas 6.24). Também não devemos nos sentir consolados pelos nossos bens (Lucas 16.25). Consideremos que estamos acumulando, não para a nossa posteridade neste mundo, mas para nós mesmos no porvir. Precisamos fazer a nossa escolha, como se fôssemos os escultores de nossa própria vida; isto é, seremos aquilo que nós mesmos delinearmos. Cabe a nós escolher sabiamente, pois estaremos escolhendo para nós mesmos, e teremos aquilo que escolhermos. Se soubermos o que somos e considerarmos a nós mesmos; se conhecermos para o que fomos feitos, qual é a dimensão da nossa capacidade, e a duração da nossa continuidade, e que a nossa alma corresponde a nós mesmos, veremos que é tolice acumular os nossos tesouros na terra.

2.Aqui está um bom motivo do por que não devemos olhar para as coisas terrenas como o nosso tesouro, porque ele está sujeito à perda e à obsolescência:

(1) Pela corrupção. Aquilo que é considerado tesouro na terra, a traça e a ferrugem consomem. Se o tesouro acumulado consistir de roupas boas, a traça as corrói, e quando pensamos que elas estão acumuladas da forma mais segura, elas desaparecem e se estragam insensivelmente. Se o tesouro acumulado consistir de grãos ou outras coisas comestíveis, como o tesouro daquele homem rico, que tinha os seus celeiros cheios (Lucas 12.16,17), a ferrugem (assim lemos) os corrói (versão RA). Brasis consumido, consumido pelos homens, porque quando os bens aumentam, eles aumentam para serem consumidos (Eclesiastes 5.11); consumidos pelos ratos ou outros vermes (o próprio maná criou vermes). Eles ficam mofados ou embolorados, são atacados, ou ficam cheios de fuligem, ou se estragam; no caso das frutas, elas logo apodrecem. Ou, se entendermos como tesouro a prata e o ouro, eles perdem o brilho e sua pureza; eles se desgastam com o uso, e também ao serem guardados (Tiago 5.2,3); a ferrugem e a traça crescem no próprio metal e na própria roupa. Note que as riquezas do mundo têm em si a corrupção e a decadência; elas se deterioram e desaparecem.

(2) Pela violência exterior. Os ladrões minam e roubam. Toda mão violenta estará direcionada para a casa onde há algum tesouro acumulado. Nada pode ser acumulado de forma muito segura, e qualquer riqueza material pode ser subtraída de seu possuidor. É loucura fazer do nosso tesouro algo que pode ser tão facilmente roubado.

3.Um bom conselho: Devemos fazer das alegrias e das glórias do mundo porvir – aquelas coisas que não são vistas e que são eternas – as nossas melhores coisas, e colocar a nossa felicidade nelas. Ajuntai tesouros no céu. Note que:

(1) Há tesouros no céu, assim como há tesouros nesta terra; e os tesouros do céu são os únicos tesouros verdadeiros. As riquezas, as glórias e os prazeres que estão à mão direita de Deus estão preparados para aqueles que são verdadeiramente santificados, e que os receberão quando chegarem à presença do Senhor, onde serão perfeitamente santificados.

(2) A nossa sabedoria deve nos fazer acumular estes tesouros. Devemos empregar toda a diligência para nos certificar de que temos o nosso título para a vida eterna através de Jesus Cristo, dependendo dele para a nossa felicidade, olhando par a todas as coisas aqui na terra com um desprezo santo, corno indignas de serem comparadas a Ele. Devemos crer firmemente que há tal felicidade, ficando satisfeitos com ela, e não nos contentar com nada menos. Se, portanto, nos apropriarmos destes tesouros, eles serão acumulados, e poderemos confiar em Deus para mantê-los em segurança para nós; a partir daí, vamos considerar todos os nossos planos, e entender todos os nossos desejos; a partir daí, vamos empreender os nossos melhores esforços, e aplicar os nossos melhores sentimentos. Não devemos nos sobrecarregar com o dinheiro deste mundo (que somente nos sobrecarregará e nos contaminará), que está sujeito a nos fazer naufragar, mas devemos acumular bons valores. As promessas são letras de câmbio, pelas quais todos os crentes verdadeiros remetem o seu tesouro ao céu. São como títulos pagáveis no estado futuro; e assim passamos a possuir a herança que com toda a certeza será concedida a cada cristão.

(3) A possibilidade de acumularmos o nosso tesouro no céu é um grande encorajamento par a nós. Estando ali seguro, ele não se deteriorará, nenhuma traça ou ferrugem o corroerá; não seremos privados dele pela força ou por fraude; ali os ladrões não minam nem roubam. É uma felicidade que está acima e além das mudanças e das circunstâncias do tempo; trata-se de uma herança incorruptível.

4.Um bom motivo pelo qual devemos escolher, e uma evidência de que o temos feito (v. 21): “Onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. Devemos, portanto, estar preocupados em escolher sabiamente o nosso tesouro, porque a disposição da nossa mente, e, consequentemente, o sentido da nossa vida, serão desta forma carnal ou espiritual, terreno ou celestial. O coração segue o tesouro, como a agulha segue o ímã, ou como o girassol segue o sol. Onde estiver o tesouro, ali estarão o valor e a estima, o amor e a afeição (Colossenses 3.2). Dessa forma, o desejo e as buscas se seguem, os objetivos e os intentos são equilibrados, e tudo é feito tendo isto em vista. Onde estiver o nosso tesouro, ali estarão os nossos cuidados e os nossos medos, para que não nos privemos dele; sobre ele seremos mais solícitos. Ali estará a nossa esperança e a nossa confiança (Provérbios 18.10,11); ali estarão as nossas alegrias e os nossos deleites (SaImos 119.111). E ali estarão os nossos pensamentos, como também o nosso pensamento interior, o primeiro pensamento, o livre pensamento, o pensamento fixo, o pensamento frequente e familiar. Deus tem todos os direitos sobre o nosso coração (Provérbios 23.26), e esta é uma grande bênção para nós. Ele deve ser o nosso tesouro, e então as nossas almas serão elevadas a Ele.

Esta instrução de acumular o nosso tesouro pode muito adequadamente ser aplicada à precaução anterior, de não fazermos nada na religião para sermos vistos pelos homens. O nosso tesouro são as nossas esmolas, orações e jejuns, e o galardão que estas atividades nos trazem. Se fizermos tudo isso somente para ganhar o louvor dos homens, acumularemos este tesouro na terra, estaremos depositando-o nas mãos dos homens, e jamais deveremos esperar receber algo além dele. Entretanto, é loucura fazer isso, porque o louvor dos homens, que tanto cobiçamos, está sujeito à corrupção; logo estará enferrujado, corroído pela traça, e desgastado; uma pequena loucura ou tolice, como uma mosca morta, estragará tudo (Eclesiastes 10.1). A difamação e a calúnia são ladrões que minam e roubam, e assim perdemos todo o tesouro que receberíamos. Corremos em vão, e trabalhamos em vão, porque posicionamos mal as nossas intenções. Os serviços hipócritas não acumulam nada no céu (Isaias 58.3); o ganho deles desaparece quando a alma é chamada à eternidade (Jó 27.8). Mas se orarmos, jejuarmos e dermos esmolas em verdade e retidão, com os olhos em Deus e em sua aceitação, e formos aprovados na presença dele, acumularemos este tesouro no céu. Há um memorial escrito ali (Malaquias 3.16), e estando ali registrado, será ali recompensado, e encontraremos novamente o conforto do outro lado da morte e da sepultura. Os nomes dos hipócritas estão escritos sobre a terra (Jeremias 17.13), mas os fiéis a Deus têm os seus nomes escritos no céu (Lucas 10.20). A aceitação na presença de Deus é um tesouro no céu que não pode ser corroído nem roubado. O bem que o Senhor fará àqueles que o buscam permanecerá para sempre; portanto, se acumularmos o nosso tesouro na presença dele, com Ele estarão os nossos corações. E será que haveria um outro lugar em que alguém poderia estar melhor do que na presença do Senhor?

II – Devemos nos acautelar contra a hipocrisia e o materialismo ao escolhermos o fim que desejamos. A nossa preocupação quanto a isso é representada por dois tipos de olhos que os homens podem ter: um olho bom ou um olho mau (vv. 22,23). As expressões aqui são um pouco tenebrosas por serem concisas; devemos, portanto, considerá-las em diversas interpretações. A luz do corpo é o olho, que é reto; o olho descobre e guia; a luz do mundo nos proporcionaria pouco sem esta luz do corpo; a luz dos olhos alegra o coração (Provérbios 15.30), mas vejamos o que é aqui comparado ao olho no corpo.

1.O olho, isto é, o coração (segundo alguns), se for singelo (versão inglesa KJV) – generoso e abundante (assim as palavras deste grupo são frequentemente traduzidas, como em Romanos 12.8; 2 Coríntios 8.2; 9.11,13; Tiago 1.5, e também lemos sobre o olho generoso em Provérbios 22.9). Se o coração for dado à liberalidade e à generosidade, e permanecer inclinado à bondade e a caridade, ele guiará o homem a ações cristãs. Toda a sua conduta será cheia de luz, cheia de evidências e exemplos do verdadeiro cristianismo, a religião pura e imaculada para com Deus, o Pai (Tiago 1.27). Ela estará cheia de boas obras, que são a nossa luz brilhando diante dos homens; mas se o coração for mau, cobiçoso, duro, invejoso, dominador e rancoroso (esse estado de espírito é frequentemente expressado por um olho mau, cap. 20.15; Marcos 7.22; Provérbios 23.6,7), o corpo será cheio de trevas, e assim toda a sua conduta será pagã, e não cristã. Os instrumentos do avarento serão sempre maus, mas o generoso projeta coisas nobres (Isaias 32.5-8). Se a luz que está em nós, aqueles sentimentos que devem nos guiar para o que é bom, forem trevas, se eles forem corruptos e mundanos, se não houver no homem uma boa natureza, uma disposição gentil, a corrupção do homem será muito grande, assim como as trevas em que ele estará! Este sentido parece concordar com o contexto; devemos acumular tesouros no céu através da nossa generosidade ao darmos esmolas, e não com rancor, mas com alegria (Lucas12.33; 2 Coríntios 9.7). Mas estas palavras na passagem paralela não aparecem em nenhuma ocasião desse modo (Lucas 11.34). Portanto, a coerência aqui não se torna o sentido delas.

2.O olho, isto é, o entendimento (segundo alguns); é o juízo prático, a consciência, que é para as demais capacidades da alma aquilo que o olho é para o corpo, guiando e dirigindo os seus movimentos. Se este olho for bom, se ele fizer um juízo verdadeiro e correto, e discernir coisas que diferem, especialmente na grande preocupação de acumular tesouros de modo a fazer escolhas certas, ele guiará corretamente os sentimentos e as ações, que estarão repletas de luz, de graça e conforto. Mas se este for mau e corrupto, e ao invés de conduzir os poderes inferiores for conduzido, subornado e afastado, se for equivocado e mal informado, o coração e a vida estarão repletos de trevas, e toda a conduta será corrompida. Aqueles que não entendem isto são citados corno aqueles que andam em trevas (SaImos 82.5). É triste quando o espírito de um homem, que deveria ser a candeia do Senhor, é um ignisfatuus: quando os líderes do povo, os líderes das capacidades, fazem com que as pessoas errem, é uma infelicidade, por que aqueles que são guiados por eles serão destruídos (Isaias 9.16). Um erro no juízo prático é fatal, é chamar de bom o que é mau, e chamar de mau o que é bom (Isaias 5.20); portanto, precisamos entender as coisas de modo certo, tendo os nossos olhos ungidos com o colírio do Senhor.

3.O olho, isto é, os propósitos e as intenções; pelos olhos fixamos o nosso propósito diante de nós mesmos, a marca que estabelecemos, o lugar para onde vamos. Mantemos o nosso objetivo em vista, e, consequentemente, dirigimos os nossos movimentos. Em todas as coisas que fazemos em nossa caminhada cristã, há uma coisa ou outra que temos em vista. Se o nosso olho é bom, se contemplamos todas as coisas honestamente, fixamos propósitos certos, e nos movemos corretamente em sua direção. Se miramos puramente e somente a glória de Deus, buscamos a sua glória e o seu favor, e dirigimos tudo inteiramente para Ele, então o nosso olho é bom. O olho de Paulo estava nesta condição, quando o apóstolo disse: “Para mim o viver é Cristo”. E se formos corretos aqui, todo o nosso corpo será cheio de luz, todas as ações serão regulares e bondosas, agradando a Deus e nos confortando; mas se o olho for mau, se, em vez de mirarmos somente a glória de Deus, e a nossa aceitação por parte dele, desviarmos o nosso olhar para o aplauso dos homens, e se enquanto professamos honrar a Deus, tramarmos honrar a nós mesmos, e buscarmos as nossas próprias coisas, sob o pretexto de buscarmos as coisas de Cristo, isto estragará tudo, e toda a conduta será perversa e instável. Os fundamentos estarão assim fora de posição. Só poderá haver confusão e toda obra má na sua, estrutura. Se você traçar retas em uma circunferência a partir de qualquer outro ponto que não seja o centro, elas se cruzarão. Se a luz que está em ti for não só fraca, mas as próprias trevas, haverá um erro fundamental que será destrutivo para tudo o que vier a seguir: Os nosso s objetivos especificam as nossas ações. E da maior importância que, na religião, estejamos certos em nossos propósitos, e que façamos das coisas eternas – e não das temporais – o nosso objetivo (2 Coríntios 4.18). O hipócrita é como o remador que olha para uma direção e rema para outra; o verdadeiro cristão é como o viajante, que tem bem claro, diante de seus olhos, o destino de sua jornada. O hipócrita voa alto como o pássaro milhano, com o seu olhar sobre a presa que está abaixo. Ele está pronto para descer quando tiver uma boa oportunidade; o verdadeiro cristão voa alto como a cotovia, cada vez mais alto, esquecendo-se das coisas que estão abaixo.

III – Devemos prestar atenção na hipocrisia e no materialismo ao escolhermos o senhor a quem serviremos (v. 24). Nenhum homem pode servir a dois senhores. Servir a dois senhores é contrário ao olho bom; porque o olho atenta para a mão do seu senhor (SaImos 123.1,2). O Senhor Jesus aqui expõe o engano que alguns colocam sobre as suas próprias almas: eles pensam que podem se dividir entre Deus e o mundo, para terem um tesouro na terra e também um tesouro no céu, para agradarem a Deus e também aos homens. Por que não? dizem os hipócritas; é bom “ter duas cordas em um arco”. Eles esperam fazer com que a sua religião sirva aos seus interesses seculares, e assim procuram tirar proveito de ambas as coisas. A falsa mãe estava disposta a permitir que Salomão mandasse partir a criança ao meio; os samaritanos estarão dispostos a fazer algum tipo de acordo entre Deus e os ídolos. Não, diz Cristo, isto não servirá; isto é apenas uma suposição de que a piedade seja causa de ganho (1 Timóteo 6.5). Aqui está:

1.Um princípio geral estabelecido; é provável que este fosse um provérbio entre os judeus: Nenhum homem pode servir a dois senhores, muito menos a dois deuses; porque as suas ordens, em um momento ou outro, serão contraditórias ou conflitantes, e haverá uma interferência inevitável. Enquanto dois senhores caminham juntos, um servo pode seguir a ambos; mas quando eles se separam, você verá a qual deles ele realmente serve; ele não poderá amar, e observar, e manter-se fiel a ambos como deveria. Dedicando-se a um, não se dedicar á a outro; um ou outro será comparativamente odiado e desprezado. Esta verdade é clara o suficiente nos casos comuns.

2.A aplicação deste conceito à situação em questão. “Não podeis servir a Deus e a Mamom”. Mamom é uma palavra siríaca que significa ganho; ela pode se referir a qualquer coisa neste mundo que reputemos como um ganho (Filipenses 3.7). Tudo aquilo que o mundo valoriza – como, por exemplo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos, e a soberba da vida – é mamom. Para alguns, o seu ventre é o seu mamom, e eles o servem (Filipenses 3.19); para outros, a sua tranquilidade, seu sono, seus esportes e passatempos, são o seu mamom (Provérbios 6.9); para outros, as riquezas deste mundo (Tiago 4.13); para outros, honras e cargos honoríficos. O louvor e o aplauso dos homens eram o mamom dos fariseus. Em uma palavra, a própria pessoa, a unidade na qual a trindade do mundo se centraliza, o ego sensual e secular, é o mamam que não pode ser servido juntamente com Deus; porque se ele for servido, haverá uma competição com o Senhor e uma contradição em relação a ele. Jesus não diz: Não devemos ou não deveríamos, mas não podemos servir a Deus e a Mamom; não podemos amar a ambos (1 João 2.15; Tiago 4.4), ou nos manter fiéis a ambos, ou colocar ambos em observância, obediência, assistência, confiança e dependência, porque eles são contrários um ao outro. Deus diz: “Dá-me, filho meu, o teu coração”. Mamom diz: “Não, dê o seu coração a mim”. Deus diz: “Contentai-vos com o que tendes”. Mamom diz: ”Apanhe tudo o que puder. Deus diz, em outras palavras: Não defraudeis, nunca mintais, sejais honestos e justos em todos os assuntos. Mamom diz: “Engane a teu próprio Pai, se isto te trouxer ganho”. Deus diz: “Seja caridoso”. Mamom diz: “Guarda para ti mesmo: este ato de dar nos prejudica a todos”. Deus diz: “Não estejais inquietos por coisa alguma”. Mamom diz: “Estejais inquietos por todas as coisas”. Deus diz: “Santifique o teu sábado”. Mamom diz: “Faça uso deste dia da mesma forma que qualquer outro dia para o mundo”. Portanto, as instruções de Deus e de Mamom são incoerentes, de forma que não podemos servir a ambos. Não vacilemos, então, entre Deus e Baal, mas escolhamos hoje a quem iremos servir, e perseveremos na nossa escolha.

 

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 6: 25-34

O Sermão da Montanha

Dificilmente há um pecado contra o qual o nosso Senhor Jesus advirta mais ampla e intensamente os seus discípulos, ou contra o qual Ele os arme com maior variedade de argumentos, do que o pecado de cuidados que perturbam, distraem e trazem a desconfiança em relação às coisas da vida. Esta ansiedade é um mau sinal, que indica que o tesouro e o coração de uma pessoa estão na terra; portanto, o Senhor insiste fortemente nisto. Aqui vemos:

I – AII proibição estabelecida – O conselho e a ardem do Senhor Jesus é que não pensemos nas coisas deste mundo: Eu “vos digo”. Ele diz isto como o nosso Legislador, e o Soberano das nossos corações; Ele diz isto como o nosso Consolador, e o Ajudador que nos traz alegria. O que é isto que Ele diz? É o seguinte: “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça”. “Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida… nem quanto ao vosso corpo” (v. 25). “Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos ou que beberemos?” (v. 31) e outra vez (v. 34): “Não andeis… inquietos”. Assim como contra a hipocrisia, a advertência contra os cuidados deste mundo é repetida três vezes; no entanto, nenhuma repetição é vã. Todos os preceitos são coerentes e podem ser sobrepostos, linha sobre linha, trazendo o mesmo significado. A Palavra de Deus nos liberta daquilo que nos cerca facilmente. Isto sugere o quão agradável é para Cristo, e o quanto isto diz respeito a nós mesmos, que vivamos sem um cuidado excessivo. O Senhor Jesus repete aos seus discípulos a ordem de que eles não deveriam dividir, nem mesmo despedaçar, as suas próprias mentes por causa do cuidado com as coisas deste mundo. Há um pensamento e um cuida do com relação às coisas desta vida, que não só é lícito, mas obrigatório, como é mostrado no caso da mulher virtuosa. Veja Provérbios 27.23. A palavra é usada com relação ao cuidado de Paulo para com as igrejas, e o cuidado de Timóteo com relação ao estado das almas (2 Coríntios 11.28; Filipenses 2.20).

Mas o cuidado (ou preocupação) aqui proibido é:

1.Um cuidado (ou preocupação) perturbador e atormentador, que agita a mente de um lado para outro, e a coloca em suspense; um cuidado que perturba a nossa alegria em Deus, e que pode chegar a ser um desânimo sobre a nossa esperança nele; um cuidado que interrompe o sono, e prejudica o nosso gozo, o gozo dos nossos amigos, e daquilo que Deus nos deu.

2.Um cuidado (ou preocupação) que demonstra desconfiança e incredulidade. Deus prometeu prover – para aqueles que são seus – todas as coisas necessárias para a vida, tanto as materiais como as espirituais. Ele prometeu alimento e abrigo; não as coisas supérfluas, mas as necessárias. Ele nunca disse: “Eles se banquetearão”, mas: “Verdadeiramente, serás alimentado”. O cuidado desordenado pelo futuro, e o medo de querer tais provisões, surgem de uma descrença em várias qualidades de Deus: em suas promessas, em sua sabedoria, e na bondade da providência divina – e aí está o mal de tais atitudes. Quanto ao nosso sustento atual, podemos e devemos usar meios legítimos para consegui-lo, do contrário tentaremos a Deus. Devemos ser diligentes em nosso trabalho, e prudentes ao ajustar as nossas despesas com o que temos, e devemos também orar pelo pão de cada dia; e se todos os outros meios falharem, podemos e devemos pedir o seu alívio e provimento. Não foi o melhor dos homens que disse: “De mendigar tenho vergonha” (Lucas 16.3). Também surgem dificuldades tamanhas, a ponto de alguém desejar ser alimentado com migalhas (v. 21). Mas com relação ao futuro, devemos lançar o nosso cuidado sobre o Senhor nosso Deus, não andando inquietos, porque parece que o Senhor chega a ter um tipo de ciúme. Ele sabe como nos dar o que queremos quando não sabemos como consegui-lo. Que as nossas almas habitem tranquilamente nele! Esta despreocupação misericordiosa é a mesma daquele sono que Deus proporciona aos seus amados, em oposição ao trabalho difícil da pessoa incrédula (SaImos 127.2). Observe as advertências expressas aqui:

3.”Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida”. A vida é a nossa maior preocupação neste mundo. O homem dará, pela sua vida, tudo o que possui; no entanto, não devemos andar cuidadosos quanto a ela.

[1] Não devemos ficar ansiosos em relação à duração de nossa vida; cabe a Deus aumentar ou reduzir a sua duração; o tempo de nossa vida está nas mãos de Deus – e está em boas mãos, nas melhores mãos!

[2] Não devemos ficar ansiosos pelos confortos desta vida; cabe a Deus torná-la amarga ou doce. Não devemos andar solícitos quanto às necessidades de sustento, alimento e roupas desta vida. Deus prometeu estas coisas e, portanto, podemos esperar com mais confiança; não devemos dizer: “O que comeremos?” Esta é a linguagem de alguém que não sabe o que fazer, e que está quase desesperado; embora muitas pessoas boas tenham urna perspectiva bastante limitada, nem todas têm o sustento de que precisam.

1.Não andeis inquietos quanto ao amanhã, quanto ao dia por vir. Não se preocupe demais com o futuro, como você viverá o ano seguinte, ou quando você envelhecerá, ou com o que você deixará para trás. Assim como não devemos nos vangloriar do amanhã, não devemos nos preocupar com o amanhã, nem com os eventos que ele trará.

II – As razões e os argumentos para reforçar esta proibição. Alguém poderá pensar que o mandamento de Cristo foi suficiente para nos manter afastados deste pecado tolo de preocupação perturbadora e desconfiada, independentemente do conforto das nossas almas, e que está tão intimamente ligado a elas. Entretanto, mostrar o quanto o coração de Cristo está nisto, e que prazer Ele tem naqueles que esperam em sua misericórdia, é mostrar que o mandamento está baseado nos argumentos mais poderosos. Se pudéssemos ser dirigidos somente pela razão, certamente nos aliviaríamos destes espinhos. Para nos livrarmos dos pensamentos ansiosos, e expulsá-los, Cristo aqui nos sugere pensamentos confortantes. Que possamos estar cheios deles! Vale a pena nos esforçarmos em nossos próprios corações, confrontarmo-los em relação aos nossos cuida dos perturbadores, e nos envergonharmos deles. Eles podem ser enfraquecidos por razões convincentes, mas é somente através de uma fé ativa que podemos vencê-los. Considere então:

1. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo, mais do que a vestimenta?” {v. 25). Sim, sem dúvida. Então Ele diz que há motivos para entendermos o verdadeiro valor das coisas presentes, porque Ele as fez, Ele as sustenta, e nos sustenta através delas; e esta situação fala por si só. Perceba que:

(1) A nossa vida é uma bênção maior do que a nossa subsistência. E verdade, a vida não pode subsistir sem o sustento; mas o mantimento e a vestimenta, que são aqui representados como inferiores à vida e ao corpo, são como o ornamento e o prazer, e temos a tendência de ser solicitas em relação a estas coisas. O mantimento e a vestimenta são úteis para a vida, e o seu fim é mais nobre e excelente do que os meios. A comida mais saborosa e a melhor roupa são da terra; mas a vida é o sopro de Deus. A vida é a luz dos homens; o mantimento é apenas o azeite que alimenta a luz; de forma que a diferença entre o rico e o pobre é muito insignificante, visto que, nas maiores coisas, eles ficam no mesmo nível, e diferem apenas em algo que tem dimensões menores.

(2) Isto é um encorajamento para que confiemos que Deus nos dará o mantimento e a vestimenta, e assim fiquemos tranquilos quanto a todos os cuidados e toda a perplexidade que estão ligados a eles. Deus nos deu a vida e o corpo – este foi um ato de poder, um ato de favor, algo que foi feito sem o nosso cuidado. Será que aquele que fez tudo isto por nós não poderia fazer outras coisas? Será que haveria algo que Ele não faria por nós? Devemos cuidar dos assuntos referente s à nossa alma e à eternidade, que são mais do que o corpo e a vida, deixando que Deus nos forneça o mantimento e a vestimenta, que são itens menores. Deus tem mantido a nossa vida até aqui. Se, às vezes, nem tudo acontece como desejamos, devemos entender e aceitar que tudo isto tem uma finalidade; Ele nos tem protegido e nos mantido vivos. Aquele que nos guarda dos males aos qual estamos expostos, nos proporcionará as coisas boas de que necessitamos. Se Ele se agradasse de nos matar, deixando-nos morrer de fome, Ele não daria aos seus anjos – com tanta frequência – a incumbência de nos guardar.

2.”Olhai para as aves do céu”, e “olhai para os lírios do campo”. Aqui está um argumento tomado da providência comum de Deus para com as criaturas inferiores, e sua dependência – de acordo com as suas capacidades desta providência. Um homem caído, porém, em boa situação psicológica, pode voltar a si, entendendo que deve ser enviado para a escola para ser ensinado pelas aves do céu! (Jó 12.7,8).

(1) Olhe para as aves do céu, e aprenda a confiar em Deus quanto ao mantimento (v. 26), e não se preocupe com o que você irá comer.

[1] Observe a providência de Deus em relação às aves. Olhe para elas e receba instrução. Há vários tipos de aves; elas são numerosas, algumas delas são de rapina, mas todas são alimentadas, e alimentadas com alimento conveniente para elas. É raro que qualquer uma delas pereça por necessidade de comida, mesmo durante o inverno, e não há falta de comida durante todo o ano. Como as aves, de maneira geral, são menos úteis aos homens, elas praticamente não recebem nenhum cuidado de sua parte. Os homens frequentemente se alimentam delas, mas raramente as alimentam; mesmo assim elas são alimentadas, não sabemos como, e algumas delas são melhor alimentadas durante o clima mais adverso; e é o seu Pai celestial que as alimenta. Ele conhece todas as aves selvagens dos montes, melhor do que você conhece as aves domésticas em seu quintal (SaImos 50.11). Nenhum pardal desce ao chão para apanhar um grão de milho, exceto pela providência de Deus, que se estende até às criaturas mais cruéis. Mas o que é especialmente observado aqui, é que elas são alimentadas sem qualquer cuidado ou projeto próprio; elas “não semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros”. A formiga, na verdade, faz isso, assim como a abelha, e nos são apresentadas como exemplos de prudência e trabalho sistemático; mas as aves do céu não fazem isso; elas não fazem nenhuma provisão para o futuro. Contudo, todos os dias, tão pontualmente quanto vem o dia, a provisão é feita para elas, e seus olhos esperam em Deus, o grande e bom Administrador, que fornece o alimento para todos os seres.

[2] Utilize isto como um encorajamento para confiar em Deus. “Não tendes vós muito mais valor do que elas?” Sim, com certeza nós temos. Note que os herdeiros do céu são muito melhores do que as aves do céu; seres mais nobres e mais excelentes, e, pela fé, eles voam mais alto; eles são de uma natureza e criação melhores, são mais sábios do que as aves do céu (Jó 35.11). Embora os filhos deste mundo, que não conhecem o juízo do Senhor, não sejam tão sábios quanto a cegonha, o grou, e a andorinha (Jeremias 8.7), devemos saber que somos mais preciosos para Deus, e mais próximos a Ele, embora eles voem no firmamento aberto do céu. Ele é o Mestre e Senhor dos animais, o seu Dono e Senhor; mas, além disso tudo, Ele é o Pai, e em seu parecer, você vale mais do que muitos pardais. Você é filho dele, como se fosse um primogênito. Uma vez que Ele alimenta os seus pássaros, certamente não deixará os seus filhotes morrerem de fome. Os animais confiam na providência do seu Pai; e você não confiará nela? Nesta relação de dependência, eles não se preocupam com o amanhã; e, sendo assim, eles vivem a vida mais aprazível de todas as criaturas; eles cantam entre os galhos (Salmos 104.12), e louvam o nosso Criador com o melhor de si mesmos. Se fôssemos, pela fé, tão despreocupados sobre o dia de amanhã como eles, deveríamos cantar tão alegremente quanto eles; porque é o cuidado deste mundo que estraga o nosso contentamento, desalenta a nossa alegria, e silencia o nosso louvor, tanto quanto qualquer outra coisa.

(2) Olhe os lírios, e aprenda a confiar em Deus para ter as suas vestes. Esta é outra parte da nossa preocupação: o que vestiremos. Por decência, para nos cobrir; por defesa, par a nos manter aquecidos; e muitos se preocupam com as vestes por dignidade e ornamento, para que pareçam estar bem e serem finos. Outros estão tão preocupados com o esplendor e a variedade de sua vestimenta, que este cuidado é quase tão intenso quanto a ansiedade que sentem por seu pão de cada dia. Par a nos tranquilizar quanto a esta preocupação, devemos considerar os lírios do campo; não só observá-los (todo olho faz isto com prazer), mas considerá-los. Note que há muitas coisas boas para se aprender do que vemos todos os dias, se tão somente as considerarmos (Provérbios 6.6; 24-32).

[1] Considere como os lírios são frágeis; eles são a erva do campo. Os lírios, embora distintos por suas cores, não passam de erva; portanto, toda carne é erva. Embora alguns sejam bem-dotados de mente e corpo, chegando a ser como os lírios, muito admirados, ainda assim são erva. São como a erva do campo, em natureza e constituição; eles estão no mesmo nível que os outros. Os dias do homem, na melhor hipótese, são como a erva, como as flores da erva (1 Pedro 1.24). Esta erva hoje existe e amanhã é lançada no forno; em pouco tempo, o lugar que nos conhece, não nos conhecerá mais. A sepultura é o forno no qual deveremos ser lançados, e no qual seremos consumidos como erva no fogo (Salmos 49.14). Isto sugere uma razão para não andarmos preocupados com o dia de amanhã, com o que vestiremos, porque no dia de amanhã talvez possam os precisar de roupas de sepultamento.

[2] Considere como os lírios são livres de preocupação; eles trabalham não como os homens, para conseguir a roupa, mas como servos, para ganharem a sua aparência característica. Eles não fiam, como as mulheres, para tecerem uma roupa. Isto não significa, no entanto, que devamos negligenciar, ou fazer de forma descuidada, as atividades próprias desta vida; a mulher virtuosa é louvada por colocar a sua mão no tear, fazer linho fino e o vender (Provérbios 31.19,24). A ociosidade tenta a Deus, em vez de demonstrar confiança nele; mas aquele que provê para as criaturas inferiores, sem que trabalhem, proverá muito mais para nós, abençoando o nosso trabalho, que Ele nos deu como o nosso dever. E se, por motivo de doença, formos incapazes de trabalhar e fiar, Deus poderá nos fornecer o que nos for necessário.

[3] Considere como os lírios são belos e finos; como eles crescem; de onde eles crescem. A raiz do lírio ou da tulipa, com o as raízes de outros bulbos, é, no inverno, perdida e enterrada debaixo da terra. Contudo, quando a primavera chega, ela aparece e brota em pouco tempo; assim foi prometido ao Israel de Deus – que eles deveriam florescer como o lírio (Oséias 14.5). Considere para o que eles crescem. Em meio à obscuridade, em apenas algumas semanas, eles passam a ser muito belos: “Nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles”. As vestes de Salomão eram muito esplêndidas e magníficas; aquele que possuía o tesouro peculiar dos reis e províncias, e diligentemente gostava de pompa e elegância, sem dúvida tinha a roupa mais rica, e do melhor feitio que poderia ser obtido. Principalmente quando ele aparecia em sua glória, em dias especiais. No entanto, vestindo-se de forma tão elegante quanto podia, ele não chegava sequer perto da beleza dos lírios, e um canteiro de tulipas o ultrapassaria em brilho. Ambicionemos, portanto, a sabedoria de Salomão, na qual ele não era excedido por ninguém, em nada (sabedoria para fazer os nossos deveres em nossos lugares), em vez de ambicionarmos a glória de Salomão, na qual ele era excedido pelos lírios. A perfeição do homem é o conhecimento e a graça, não a beleza, muito menos as roupas finas. Aqui é dito que Deus veste a erva do campo. Note que todas as excelências da criatura fluem de Deus, que é a fonte delas. Foi Ele quem deu ao cavalo a sua força, e ao lírio a sua beleza. Toda criatura (incluindo cada um de nós) é, em si mesma, aquilo que Ele a criou para ser.

(4] Considere como tu do isso é instrutivo para nós (v. 30). Em primeiro lugar, como no caso da roupa fina, este versículo nos ensina a não nos preocuparmos, de modo algum, com o que vestiremos, a não cobiçarmos, não nos orgulharmos, nem fazermos das nossas vestes o nosso adorno, porque apesar do nosso cuidado por isto, os lírios em muito nos excederão. Não podemos nos vestir de forma tão elegante quanto eles. Por que então devemos tentar competir com eles? O adorno dos lírios logo perecerá, assim como o nosso; eles hoje existem, e amanhã serão lançados no forno, como outra coisa sem valor; e as roupas de que nos orgulhamos se desgastam, o brilho logo se vai, a cor desbota, o modelo fica fora de moda, ou em um momento a vestimenta em si se desgasta; assim é o homem em toda a sua pompa (Isaias 40.6,7), especialmente os homens ricos (Tiago 1.10); eles se desvanecem em seus caminhos.

Em segundo lugar, quanto à roupa necessária, isto nos ensina a lançar o nosso cuidado sobre Deus, Jeová-Jiré. Confie naquele que veste os lírios, para lhe prover o que você vestirá. Se Ele dá tais roupas finas para as ervas, muito mais dará roupas adequadas para os seus próprios filhos; roupas que os aqueçam, não só quando Ele refrigera a terra com o vento do Sul, mas quando Ele a agita com o vento do Norte (Jó 37.17). Quanto mais Ele lhe vestirá, pois você é uma criatura mais nobre, um ser mais excelente! Se Ele veste a erva que vive tão pouco tempo, muito mais vestirá você que é criado para a imortalidade. Se os filhos de Nínive eram preferidos em relação à aboboreira (Jonas 4.10,11), quanto mais o serão os filhos de Sião, que es tão em aliança com Deus. Observe o título que Ele lhes dá (v. 30), “Homens de pequena fé”. Isto pode ser entendido:

1.Como um encorajamento à fé verdadeira – mesmo que seja fraca, ela nos encomenda ao cuidado divino, e a uma promessa de suprimento adequado. Uma grande fé deve ser elogiada, e alcançará grandes coisas, mas a pequena fé não deve ser rejeitada, mesmo aquela que, na prática, está em busca de mantimento e vestimenta. Os crentes sadios devem ter as suas necessidades supridas, mesmo que não sejam crentes fortes. Os bebês na família são alimentados e vestidos, bem como aqueles que são adultos, e com um cuidado e ternura especiais; não diga: Sou apenas uma criança, nada mais que uma árvore seca (Isaias 56.3,5), porque embora sejas pobre e necessitado, o Senhor cuida de ti. Ou:

2.Como uma repreensão à fé fraca, embora ela seja verdadeira (cap. 14.31). Isto sugere o que está no fundo de toda a nossa preocupação e atenção desordenadas; a fraqueza da nossa fé, e os resquícios da incredulidade em nós. Se tivéssemos mais fé, teríamos menos preocupações.

3.”Qual de vós”, o mais sábio, o mais forte de vós, “poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?” (v. 27), ou à sua idade, segundo alguns. A medida de um côvado pode se referir à estatura. A idade mais avançada pode ser considerada como apenas um breve espaço de tempo, como a extensão de um “palmo” (Salmos 39.5). Consideremos:

(1) Nós não chegamos à estatura que temos hoje pelo nosso próprio cuidado e atenção, mas pela providência de Deus. Uma criança de colo bem pequena cresce chegando à altura de 1.80m. E como é que um côvado após o outro foi acrescentado à sua est atura? Não pela sua própria previsão e recursos; ela cresceu sem saber como, pelo poder e bondade de Deus. Aquele que fez os nossos corpos, e que os fez de tal tamanho, certamente cuidará de prover para cada um de nós. Note que Deus deve ser reconhecido no aumento da estatura e da força do nosso corpo, e receber a nossa confiança quanto a todos os suprimentos necessários, porque Ele declarou que se importa com o nosso corpo. A idade do crescimento é a idade irrefletida e despreocupada, mas mesmo assim crescemos. E aquele que nos criou para isso não nos sustentaria agora que estamos crescidos?

(2) Não poderíamos alterar a nossa estatura, se quiséssemos. Quão tolo e ridículo seria para um homem de baixa estatura ficar perplexo, perder noites de sono, ficar constantemente pensando, e estar continuamente preocupado sobre como poderia ficar um côvado mais alto, quando ele sabe que não pode fazer nada a respeito disso. Portanto, seria melhor ficar satisfeito e aceitar a sua estatura! Nós não somos todos do mesmo tamanho, no entanto a diferença em estatura entre um e outro não é uma característica decisiva, nem de grande valia. Um homem pequeno está pronto para desejar ser tão alto quanto outra pessoa, mas ele sabe que isto não lhe serviria para nada; portanto, ele deve se contentar com o seu próprio físico. Deveríamos considerar a nossa situação neste mundo da mesma forma com o consideramos a nossa estatura.

[l] Não devemos cobiçar ter a abundância das riquezas deste mundo, da mesma forma que não cobiçaríamos a adição de um côvado em nossa estatura; isto seria algo muito impactante na estatura de uma pessoa. É suficiente crescer alguns centímetros; tal adição apenas nos tornaria desajeitados, e um fardo pesado demais para nós mesmos.

[2] Devemos nos contentar com a nossa condição, assim como fazemos com a nossa estatura; devemos avaliar as conveniências e as inconveniências, e assim fazer um balanço das nossas verdadeiras necessidades. Aquilo que não pode ser remediado deve ser tratado da melhor maneira possível. Não podemos alterar os desígnios da Providência. Portanto, devemos concordar com estes, nos acomodar a eles, e nos consolar o quanto pudermos em relação às inconveniências, como fez Zaqueu contra a inconveniência de sua estatura, subindo em uma árvore.

4.”Porque todas essas coisas os gentios procuram” (v. 32). A preocupação com as coisas do mundo é um pecado pagão, e não condiz com os cristãos. Os gentios buscam estas coisas, porque eles não conhecem coisas melhores; eles desejam ardentemente este mundo, porque não conhecem algo melhor; eles buscam estas coisas com cuidado e ansiedade, porque não têm a Deus no mundo, e não entendem a sua providência. Eles temem e adoram aos seus ídolos, mas não podem confiar neles quando precisam de livramento e sustento. Portanto, estão cheios de cuidado. Mas isto é uma vergonha para nós cristãos, que edificamos sobre princípios mais nobres, e professamos uma religião que nos ensina não só que existe uma providência, mas que há promessas feitas para o bem da vida que temos agora, que nos ensina sobre a confiança em Deus e o desprezo ao mundo, e oferece as razões para isto. É uma vergonha andarmos como os gentios andam, enchendo as nossas mentes e corações com as crenças deles.

5.O Vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas essas coisas”. As coisas necessárias, mantimento e vestimenta. Deus conhece aquilo que queremos melhor do que nós mesmos. Embora Ele esteja no céu, e os seus filhos na terra, Ele observa o que o menor e o mais pobre deles necessita (Apocalipse 2.9): “Eu sei [a tua] pobreza”. Isto nos leva a pensar que, se um amigo tão bom quanto este souber das coisas que queremos e conhecer as nossas dificuldades, podemos nos acalmar rapidamente. O nosso Deus as conhece; Ele é o nosso Pai que nos ama e que tem compaixão de nós, e está pronto a nos ajudar. O seu Pai celestial possui os recursos para suprir todas as suas necessidades. Longe, portanto, devem estar todos os pensamentos e preocupações perturbadores. Fale com o seu Pai; diga-lhe que Ele conhece as coisas de que você precisa. Ele pergunta: “Filhos, tendes alguma coisa de comer?” (João 21.5). Diga-lhe se você tem ou não tem. Embora Ele saiba as coisas que queremos, Ele quer ficar sabendo por nós; e quando as revelarmos a Ele, nos submeteremos alegremente à sua sabedoria, ao seu poder e bondade, e teremos o nosso sustento. Portanto, devemos nos livrar da carga da preocupação excessiva, lançando-a sobre Deus, porque é Ele que cuida de nós (1 Pedro 5.7). E quais são as necessidades que todos nós temos? Se Ele cuida de cada um de nós, por que devemos nos preocupar?

6.”Buscai primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (v. 33). Aqui está um argumento duplo contra o pecado da preocupação excessiva: não ande preocupado com a sua vida, a vida do corpo; porque:

(1) Você tem coisas maiores e melhores para cuidai; a vida da sua alma, a sua felicidade eterna; esta é a sua maior necessidade (Lucas 10.42), a quilo em que você deve empregar os seus pensamentos, e que é comumente negligenciada naqueles corações em que predominam os cuidados deste mundo. Se fôssemos mais cuidadosos em agradar a Deus, e tratássemos da nossa própria salvação, deveríamos nos preocupar menos em agradar a nós mesmos, e em tratarmos daquilo que possuímos no mundo. A preocupação com a nossa alma é a cura mais eficaz para a preocupação com as coisas do mundo.

(2) Você tem uma maneira mais segura, mais fácil e mais sucinta de obter as coisas necessárias a esta vida, do que oprimindo-se, preocupando-se, e queixando-se delas; e isto é buscando primeiro o Reino de Deus, e fazendo da vida com Deus o seu assunto principal. Não diga que este é o modo mais fácil para morrer de fome. Não. Este é o modo de ser bem sus tentado, mesmo neste mundo. Observe aqui:

[1] O grande dever exigido é a soma e a essência de toda a nossa obrigação: “Buscai primeiro o Reino de Deus” – “tenha a fé cristã como a sua grande e principal preocupação”. O nosso dever é buscar – desejar, procurar, e considerar cuidadosamente estas coisas. Buscar é uma palavra que tem em si uma grande parte da constituição da nova aliança em nosso favor. Embora não tenhamos alcançado, mas falhado e sido insuficientes em muitas coisas, a busca sincera (uma preocupação cuidadosa e uma tentativa perseverante) é aceita. Agora observe, em primeiro lugar, o objeto desta busca: “o Reino de Deus, e a sua justiça”. Devemos considerar o céu como o nosso objetivo, e a santidade como o nosso caminho. “Busque os confortos do reino da graça e da glória como a sua felicidade. Tenha como alvo o Reino dos céus; esforce-se nesta direção; dedique-se a garanti-lo; resolva não restringi-lo; busque esta glória, honra e imortalidade; prefira o céu e as bênçãos celestiais muito mais do que a terra e os prazeres terrenos”. A religião não nos será proveitosa se não nos conduzir ao céu. E com a felicidade deste reino, busque a sua justiça; a justiça de Deus, a justiça que Ele exige que seja operada em nós, e desenvolvida por nós, que deve exceder ajustiça dos escribas e dos fariseus. Devem os seguir a paz e a santificação (Hebreus 12.14). Em segundo lugar, a ordem desta busca: “Buscai primeiro o Reino de Deus”. Que o cuidado pela sua alma e pelo mundo por vir tome o lugar de todos os outros cuidados; e que todas as preocupações desta vida fiquem subordinadas à preocupação pela vida futura. Devemos buscar as coisas de Cristo mais do que as nossas próprias coisas; e se elas entrarem em competição, devemos nos lembrar a qual devemos dar a preferência. “Busque estas coisas em primeiro lugar; que sejam as primeiras em teus dias; que a melhor parte da tua juventude seja dedicada a Deus. A sabedoria deve ser buscada em primeiro lugar e sem perda de tempo; é bom começar a ser religioso logo. Busque, todos os dias, aquilo que precisa estar em primeiro lugar; que ao despertar pela manhã, os seus pens amentos sejam dirigidos a Deus”. Que este seja o seu princípio: fazer primeiro o que for mais necessário, dando o primeiro lugar àquele que é o Primeiro.

[2J A promessa da graça e da misericórdia de Deus anexada. Todas estas coisas, os suportes necessários da vida, lhe serão acrescentados; serão dados abundantemente; portanto, estas coisas ficam na margem. Você terá o que busca, o Reino de Deus e a sua justiça, porque aquele que busca com sinceridade nunca busca em vão. E além disso, você terá mantimento e vestimentas com abundância. Quando buscamos o Reino de Deus e a sua justiça em primeiro lugar, as demais coisas nos são acrescentadas da mesma maneira como papel e barbante são ofertados àqueles que compram mercadorias após uma negociação. A piedade tem a promessa para a vida presente (1 Timóteo 4.8). Salomão pediu sabedoria, e a recebeu, além das outras coisas que lhe foram acrescentadas (2 Crônicas 1.11,12). Que mudança abençoada seria feita em nossos corações e vidas se crêssemos firmemente nesta verdade: que a melhor maneira de sermos sustentados confortavelmente neste mundo é nos preocuparmos com o mundo por vir! Começamos no ponto correto do nosso trabalho, quando começamos com Deus. Se nos preocuparmos em garantir para nós mesmos o Reino de Deus e a sua consequente justiça quanto a todas as coisas desta vida, Jeová-Jiré, o Senhor proverá, nos concederá estas coisas com a finalidade de ver o nosso bem, além de outras coisas que sequer imaginaríamos. Será que temos confiado nele para termos a porção da nossa herança no nosso final, e não confiaremos nele para termos a porção do nosso cálice enquanto estivermos a caminho desse final? O Israel de Deus não só foi levado finalmente até Canaã, mas as suas cargas foram levadas através do deserto. Quão bom seria se fôssemos mais interessados nas coisas que não são vistas, nas coisas que são eternas, e menos interessados (e, de fato, precisamos ser menos interessados nas coisas que são vistas, que são temporais! Não considere tanto as suas próprias coisas (Genesis 45.20,23).

7.”O dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal” (v. 34). Não devemos ficar excessivamente perplexos sobre os eventos futuros, porque cada dia traz consigo o seu próprio fardo de cuidados e dificuldades. Porém, se olharmos ao nosso redor, e não sofrermos os medos que nos levam a trair o socorro que a graça e a razão oferecem, cada dia também trará juntamente consigo a sua própria força e sustento. Desta forma, somos aqui informados:

1.Que o cuidado excessivo com o amanhã é desnecessário. Deixe que o amanhã cuide de si mesmo. Se os desejos e os problemas forem renovados a cada dia, os auxílios e as provisões serão renovados da mesma forma; as misericórdias do Senhor “novas são cada manhã” (Lamentações 3.22,23). Os santos têm um amigo que é o seu braço a cada manhã (Isaias 33.2), e que lhes distribui suprimentos frescos diariamente, de acordo com a atividade exigida por cada dia (Esdras 3.4). E assim Ele mantém o seu povo em constante dependência de si. Devemos, portanto, utilizar a força do amanhã para fazer a obra de amanhã, e carregar o fardo de amanhã. O amanhã, e as coisas concernentes a ele, serão supridos sem a nossa interferência. Sendo assim, por que precisamos nos preocupar ansiosamente com coisas que já são cuidadas sabiamente? Isto não proíbe uma previsão prudente e uma consequente preparação, mas é necessário evitar uma solicitude perplexa, e uma ideia preconcebida de dificuldades e calamidades, que podem talvez nunca vir. Se estas vierem, poderão ser facilmente tratadas, e seremos guardados de seu mal O significado de tudo isto é o seguinte: consideremos o dever presente, e então deixemos os eventos sob a responsabilidade de Deus; façamos o trabalho do dia em seu próprio dia, e então deixemos que o amanhã traga consigo o seu cuidado.

2.Que o cuidado excessivo com o amanhã é uma das concupiscências tolas e dolorosas, nas quais caem aqueles que se enriquecem. Esta é uma das muitas dores com que eles mesmos se afligem. Basta a cada dia o seu mal. O dia de hoje tem dificuldades suficientes para serem resolvidas, e não devem os acumular fardos antecipando o nosso problema, nem tomar emprestadas perplexidades dos males do amanhã, acrescentando-as aos males do dia de hoje. Não sabemos ao certo que males o dia de amanhã poderá trazer; mas seja o que for, haverá tempo suficiente para agirmos sobre eles quando vierem. Que tolice é tomarmos sobre nós neste dia – por cuidado e temor – os problemas que pertencem ao amanhã, e que não serão mais leves quando chegarem! Não nos sobrecarreguemos com todos os problemas de uma só vez, visto que a Providência sabiamente ordenou que eles ocorram aos poucos, par a que os vençamos em etapas. A conclusão de todo este assunto, então, é que a vontade e o mandamento do Senhor Jesus é que os seus discípulos não sejam os seus próprios atormentadores. Eles também não devem tornar a sua passagem por este mundo mais tenebrosa e desagradável do que Deus a fez originalmente, através da apreensão que sentem devido aos problemas. Por meio de nossas orações diárias, podemos conseguir a força de que precisamos para suportar os nossos problemas diários, e nos armar contra as tentações que nos afligem, não permitindo que nenhuma dessas coisas nos mova, ou nos abale.

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 6: 16-18

 O Sermão da Montanha

Somos aqui advertidos contra a hipocrisia no jejum, como fomos anteriormente quanto a dar esmolas e a orar.

I – Aqui está implicado que o jejum religioso é um dever exigido dos discípulos de Cristo, quando Deus, em sua providência, o requer, e quando o jejum se fizer necessário como a solução para algum problema particular: “Dias … virão em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão” (cap. 9.15). O jejum é colocado por último, devido ao fato de não ser uma obrigação em si, mas um meio para nos preparar para as outras obrigações. A oração está entre a atitude de dar esmolas e o jejum, como sendo a vida e a alma de ambos. Cristo aqui fala especialmente dos jejuns em nossa privacidade, jejuns que são feitos em particular. O mesmo ocorria com as ofertas voluntárias, comum ente praticadas pelos judeus devotos. Alguns jejuavam um dia, alguns, dois, todas as semanas; outros, mais raramente, ao verem um motivo par a isso. Naqueles dias, eles não comiam até o pôr-do-sol, e o faziam com muita moderação. Não foi o fato de os fariseus jejuarem duas vezes por semana que Cristo condenou, mas o fato de eles se vangloriarem de fazê-lo (Lucas 18.12). Esta era uma prática louvável, e temos razões para nos lamentar que ela seja geralmente negligenciada entre os cristãos na atualidade. Ana jejuava muito (Lucas 2.37). Cornélia jejuava e orava (Atos 10.30). Os primeiros cristãos também jejuavam (veja Atos 13.3; 14.23). O jejum particular é sugerido (1 Coríntios 7.5). É um ato de renúncia e de mortificação da carne, uma vingança santa sobre nós mesmos, e uma maneira de nos humilharmos sob a mão de Deus. A maior parte dos cristãos adultos deve jejuar, uma vez que estão muito longe de ter qualquer coisa de que se orgulhar pois são indignos até mesmo do seu próprio pão cotidiano. O jejum é um meio de reprimir a carne e os seus desejos, e nos tornar mais vigorosos nos exercícios religiosos, uma vez que a plenitude de pão pode nos tornar indolentes. Paulo jejuava frequentemente, e assim se mantinha corno senhor do seu corpo, e o trazia à sujeição.

II – Somos advertidos a não jejuar como os hipócritas jejuavam, para não perdermos o galardão do jejum; e quanto mais difícil for o cumprimento deste de­ ver, maior será o galardão perdido. Isto posto, observemos:

1.Os hipócritas fingiam jejuar, quando em suas almas não havia nada de contrição ou humilhação – era a aparência e a sombra sem a essência. Eles demonstravam estar mais humilhados do que realmente estavam, e assim tentavam enganar a Deus; mas agindo assim, não podiam apresentar maior afronta diante dele. O jejum que Deus nos ensinou a fazer consiste em separarmos um dia para afligirmos a alma, e não para abaixarmos a cabeça como um junco, e nem tampouco para nos vestirmos de saco e espalharmos cinzas sobre a nossa cabeça – estaremos enganados se chamarmos isso de jejum (Isaias 58.5). O exercício físico, se for apenas isso, tem pouco proveito, uma vez que isto não é jejum para Deus, nem para nós mesmos.

2.Os fariseus hipócritas proclamavam o seu jejum e cuidavam para que todos os que os vissem notassem que eles estavam jejuando. Nestes dias, eles apareciam nas ruas, ao passo que deveriam permanecer em seus aposentos; e demonstravam uma aparência abatida, um semblante melancólico, um passo lento e solene. Eles se desfiguravam perfeitamente, para que os homens pudessem ver com que frequência eles jejuavam, e pudessem exaltá-los como homens devotos e mortificados. Note como é triste que homens que tenham, em certa medida, dominado o seu prazer, que é a impiedade sensual, sejam destruídos por seu orgulho, que é a impiedade espiritual. Esta impiedade espiritual não é menos perigosa do que a impiedade sensual. Aqui também eles recebem o seu galardão – o louvor e o aplauso dos homens que eles cortejam e cobiçam tanto – eles o têm, e isso é tudo o que terão.

III –  Somos instruídos a como fazer um jejum: devemos fazê-lo na privacidade; devemos mantê-lo em oculto (vv. 17,18). Jesus não nos diz com que frequência devemos jejuar. As circunstâncias variam, e a sabedoria é proveitosa a esse respeito para instruir. O Espírito que está na Palavra deixou esta decisão para o Espírito que está no coração (e este é um só Espírito!) Mas torne isto como uma regra, sempre que você cumprir este dever: examine o assunto para que você possa ser uma pessoa aprovada diante de Deus, e não para recomendar a si mesma, para ter uma boa opinião por parte dos homens. A humildade deve sempre se manifestar em nossa humilhação. Cristo não nos instrui a diminuir nada da realidade do jejum. Ele não diz: “Coma um pouco, ou beba um pouco”. Não. Ele diz: “Deixe o corpo sofrer, mas não deixe transparecer; tenha um semblante comum, um aspecto comum, e vestimentas comuns; e enquanto nega a si mesmo os revigoramentos do corpo, faça-o de modo a não chamar a atenção de ninguém, nem mesmo daqueles que estão mais próximos a você; esteja em boas condições físicas, passe óleo na cabeça e lave o seu rosto, como em qualquer dia comum, com o propósito de esconder a sua devoção. E, por fim, você não falhará no louvor ao Senhor; porque, embora o jejum não seja do agrado dos homens, ele agrada a Deus”. O jejum é a humilhação da alma (SaImos 35.13), e este é o âmago do dever. Que esta, portanto, seja a sua preocupação principal; e, quanto ao exterior, não haja a cobiça de ser visto. Se formos sinceros nos nossos jejuns solenes, nos humilharmos e confiarmos na onisciência de Deus para confirmar o nosso testemunho, e na sua bondade para nos dar o nosso galardão, descobriremos que Ele viu a nossa dedicação em secreto, e que nos recompensará abertamente. Os jejuns religiosos, se observados corretamente, logo serão recompensados com um banquete eterno. A nossa aceitação diante de Deus, em nossos jejuns na privacidade, deve nos tornar como mortos para o aplauso dos homens (não devemos jejuar na esperança de sermos elogiados), como também para as censuras dos homens (não devemos deixar de jejuar por temor a eles). O jejum de Davi tornou-se em afronta: “Eu, porém, faço a minha oração a ti, Senhor, num tempo aceitável” (Salmos 69.10,13).

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 6: 9-15

Continuação do Sermão da Montanha

Quando Cristo condenou o que era errado, Ele os instruiu a fazer o melhor; as suas instruções foram de reprovação. Devido ao fato de não sabermos pelo que orar como deveríamos, Ele aqui nos ajuda em nossas deficiências, colocando palavras em nossos lábios: “Portanto, vós orareis assim” (v. 9). Tantas foram as adulterações que se infiltraram no dever da oração entre os judeus, que Cristo achou necessário dar novas instruções para a oração, com o objetivo de mostrar aos seus discípulos qual deve ser, pela ordem, o assunto e o método de sua oração, e assim Ele apresenta estas instruções em palavras que devem ser usadas como um padrão; como o resumo ou conteúdo de vária s particularidades das nossas orações. Isto não significa que estejamos presos somente ao uso desse formato, como se este fosse necessário para a consagração das nossas orações diárias. Aqui somos instruídos a orar dessa maneira, utilizando ou não essas mesmas palavras, porém devemos manter o sentido das palavras que nos foram ensinadas pelo Senhor. A oração encontrada no Evangelho de Lucas difere dessa; percebemos que ela não foi tão utilizada pelos apóstolos. Não somos ensinados aqui a orar em nome de Cristo, como acontece posteriormente. Somos ensinados a orar para que o Reino venha a nós corno veio quando o Espírito foi derramado. Contudo, sem dúvida, é muito bom usá-la como um padrão, e ela é uma garantia da comunhão dm, santos, tendo sido usada pela igreja em todas as épocas, pelo menos (diz o Dr. Whitby) a partir do século III. Esta é a oração do nosso Senhor, foi Ele quem a compôs, Ele mesmo escolheu o seu sentido e as suas palavras; ela é muito sucinta, embora seja, sem dúvida, muito abrangente, repleta de compaixão pelas deficiências que temos em nossas orações. O assunto é seleto e necessário, o método é instrutivo, e a expressão muito concisa. Ela possui muito em poucas palavras, e requer que estejamos familiarizados com o seu sentido e significado, pois é usa da de forma aceitável, como também com entendimento e sem vãs repetições.

A oração do Senhor (como toda oração), é uma carta enviada da terra ao céu. Nela consta a inscrição da carta; a pessoa a quem ela é dirigida, o nosso Pai; o endereço do destinatário, o céu; o seu conteúdo em várias mensagens que são petições; a conclusão, “pois teu é o Reino”; e o selo, o Amém. E se você também quiser a data, é hoje.

Assim vemos claramente que há três partes na oração.

I – O prefácio: “Pai nosso, que estás nos céus”. Antes de tratarmos do nosso assunto, deve haver uma apresentação solene a Deus, que é a pessoa a quem vamos nos dirigir. Ele é o nosso Pai, e isto sugere que devemos orar, não apenas sozinhos e por nós mesmos, mas com os outros e pelos outros; porque somos membros uns dos outros, e somos chamados para a comunhão uns com os outros. Somos aqui ensinados sobre a quem devemos orar: somente a Deus, e não aos santos ou aos anjos, pois eles não nos conhecem, não devem receber a honra elevada que damos na oração, e não podem conceder os favores que esperamos de Deus, e que título podemos lhe atribuir. Ele é bom e magnífico, porém devemos nos lembrar de que é a sua bondade que faz com que possamos nos aproximar do trono da sua graça com ousadia.

1.Devemos nos dirigir a Deus como o nosso Pai, e devemos chamá-lo assim. Ele é o Pai de toda a humanidade, pela criação (Malaquias 2.10; Atos 17.28). Ele é o Pai, de um modo especial pra a os santos, pela adoção e pela regeneração (Efésios 1.5; Gálatas 4.6); e este é um privilégio indescritível. Portanto, devemos olhar para Ele em oração, mantendo sempre bons pensamentos a respeito dele. Corno é encorajador, e não assustador, chamar a Deus de Pai; não há nada mais agradável a Deus, nem a nós mesmos, do que isto. Na maior parte de suas orações, Cristo chamou a Deus de Pai. Se Ele é o nosso Pai, Ele se compadecerá de nós devido às nossas fraquezas e enfermidades (SaImos 103.13), nos poupará (Malaquias 3.17), fará o melhor do nosso desempenho. E embora sejamos muito defeituosos, o Senhor precioso não nos negará bem algum (Lucas 11.11-13). Nós temos acesso a Ele com ousadia, com o a um pai, e temos um advogado junto ao Pai, além do Espírito de adoção. Quando nos chegamos a Deus, arrependidos dos nossos pecados, devemos ver a Deus como um Pai, como fez o filho pródigo (Lucas 15.18; Jeremias 3.19). Quando nos chegamos pedindo graça, paz, a herança e a bênção dos filhos, sentimo-nos incentivados a nos chegarmos a Deus não como se fôssemos a um Juiz irreconciliável e vingativo, mas como a um Pai amoroso, bondoso e reconciliado através do sacrifício do Bendito Salvador, Jesus Cristo (Jeremias 3.4).

2.Devemos nos dirigir a Deus como o nosso Pai que está nos céus: tanto no céu como em qualquer outro lugar, pois o céu não pode contê-lo; assim no céu como em outros locais para manifestar a sua glória, porque é o seu trono (SaImos 103.19), e este é para os crentes um trono de graça – para lá devemos dirigir as nossas orações, porque Cristo, o Mediador, está agora no céu (Hebreus 1). O céu está fora de vista; é um mundo de espíritos. Portanto, a nossa conversa com Deus em oração deve ser espiritual. O céu está no alto; portanto, na oração, devemos ser erguidos acima do mundo, elevando os nossos corações (SaImos 5.1). O céu é um lugar de pureza perfeita, e assim devemos levantar mãos puras, devemos estudar maneiras de santificar o seu Nome (que é o mais Santo de todos), do Senhor que habita naquele lugar santo (Levíticos 10.3). Do céu, Deus vê os filhos dos homens (SaImos 33.13,14). Em oração, devemos ver os seus olhos sobre nós, pois Ele tem uma visão completa e clara de tudo o que queremos e de todos os nossos fardos e desejos, e também de todas as nossas enfermidades. O céu é o firmamento do seu poder, o contexto em que o Senhor vive (Salmos 150.1). Ele, não só como um Pai, é capaz de nos ajudar, de fazer grandes coisas por nós, mais do que podemos pedir ou pensar; Ele possui recursos para suprir as nossas necessidades, porque toda boa dádiva vem do alto. Ele é o nosso Pai, e assim podemos nos aproximar dele com ousadia; mas Ele é o nosso Pai celestial, e, portanto, devemos nos aproximar dele com reverência (Eclesiastes 5.2). Assim sendo, todas as nossas orações devem corresponder ao nosso grande objetivo como cristãos: estar com Deus no céu. Este é o fim de tudo aquilo que ansiosamente aguardamos, e deve ser particularmente observado em cada oração. Esta é a direção à qual todos nós tendemos. Através das nossas orações, nos transportamos para a presença do Senhor, o local para onde professamos estar indo.

II – As petições – são seis. As três primeiras dizem respeito mais diretamente a Deus e à sua honra, e as três últimas às nossas preocupações, tanto temporais como espirituais. Como nos dez mandamentos, em que os quatro primeiros nos ensinam o nosso dever em relação a Deus, e os seis últimos os nossos deveres em relação ao nosso próximo. O método dessa oração nos ensina a buscar primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e então esperar que todas as outras coisas nos sejam acrescentadas.

1.”Santificado seja o teu nome”. Esta palavra é, em outras passagens, traduzida com o mesmo termo. As pessoas se acostumaram com o termo “santificado” devido a esta oração. Nestas palavras:

(1) Glorificamos a Deus. Esta expressão pode ser tomada não como uma petição, mas como uma adoração; nela o Senhor é exalta ­ do, ou glorificado, pois a santidade de Deus é a grandeza e a glória de todas as suas perfeições. Devemos começar as nossas orações louvando a Deus, e é muito adequado que Ele deva ser servido primeiro, e que devamos dar glória a Deus, antes de esperarmos receber dele misericórdia e graça. Vamos oferecer a Ele o louvor que lhe é devido por causa de sua perfeição, e então receberemos os benefícios dela.

(2) Nós fixamos o nosso objetivo, e o objetivo certo que devemos almejar é que Deus possa ser glorificado; este deve ser o nosso objetivo em todas as nossas petições, assim como a finalidade principal e definitiva em cada uma delas. Todos os nossos demais pedidos devem estar sujeitos a isso, e voltados à busca disso. “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. Perdoa-nos as nossas dívidas…” Uma vez que tudo é dele e vem através dele, tudo deve ser para Ele e por Ele. Na oração, os nossos pensamentos e sentimentos devem ser executados principalmente para a glória de Deus. Os fariseus faziam de seu próprio nome o principal objetivo de suas orações (v. 5, “serem vistos pelos homens”), em oposição ao que somos dirigidos a fazer: fazer da glorificação ao nome de Deus o nosso objetivo principal. Todas as nossas petições devem ser centradas e reguladas por esse objetivo. “Faça assim por mim, para a glória do teu nome, e até que o teu nome seja glorificado”. (3) Desejamos e oramos pedindo que o nome de Deus, isto é, o próprio Deus, em tudo pelo que se fez conhecido, possa ser santificado e glorificado tanto por nós como pelos outros, e especialmente por si mesmo. “Pai, que o teu nome seja glorificado como um Pai, e um Pai no céu; sejam reconhecidas a tua bondade e a tua sublimidade, a tua majestade e misericórdia. Que o teu nome seja santificado, pois é um nome santo. Não importa o que aconteça com os nossos nomes impuros; mas, Senhor, o que farás pelo teu grande nome?” Quando oramos para que o nome de Deus possa ser glorificado:

[1] Fazemos da necessidade uma virtude; pois Deus santificará o seu próprio nome, quer os homens desejem isso ou não: “Serei exaltado entre as nações” (Salmos 46.10).

[2] Pedimos aquilo que temos certeza que será concedido. Quando o nosso Salvador orou: “Pai, glorifica o teu nome”, a resposta foi imediata: “Já o tenho glorificado e outra vez o glorificarei”.

1.”Venha o teu Reino”. Este pedido tem claramente uma referência à doutrina que Cristo pregou nesta época e que João Batista havia pregado anteriormente. Mais tarde, João enviou os seus discípulos para pregarem que o Reino dos céus estava às portas. O reino de seu Pai que está nos céus, o reina do Messias, está às portas; e devemos orar para que ele venha. Note que devemos transformar a palavra que ouvimos em oração, e os nossos corações devem ecoá-la. Cristo promete: “Certamente cedo venho.” Sim. Então os nossos corações devem responder: “Sim, Senhor, venha!” Os ministros devem orar sobre a palavra: quando eles pregam que o Reino de Deus está às portas, eles devem orar, dizendo: “Pai, venha o teu reino”. Devemos orar pelo que Deus prometeu, pois as promessas foram feitas não par a substituir, mas para agilizar e encorajar a oração; e quando o cumprimento de uma promessa estiver próximo e às portas, quando o Reino dos céus estiver prestes a vir, deveremos então orar por esta bênção mais veementemente: “Venha o teu reino”. Devemos agir como Daniel, que dirigiu o seu rosto ao Senhor para orar pela libertação de Israel quando entendeu que o tempo desse acontecimento estava às portas (Daniel 9.2. Veja Lucas 19.11). Assim era a oração diária dos judeus a Deus: “Que Deus implante o seu reino, que a sua redenção floresça, e que o Messias venha e livre o seu povo”. Diz o Dr. Whitby: “Que o teu reino venha, que o Evangelho seja prega do a todos e abraçado por todos; que todos sejam trazidos ao conhecimento do registro que Deus deu em sua palavra, a respeito de seu Filho, e o abra cem como o seu Salvador e Soberano. Que os limites da igreja evangélica sejam ampliados, que o reino do mundo passe a ser o reino de Cristo, e todos os homens se tornem sujeitos a Ele, e vivam como seus súditos”.

2.”Seja feita a tua vontade, tanto na terra como no céu”. Oramos para que, tendo o reino de Deus chegado, nós e os outros possamos ser trazidos para a obediência a todas as suas leis e ordenanças. De sejamos que o reino de Cristo venha, que a vontade de Deus seja feita; e com isso, que Ele venha como o reino do céus, que Ele apresente um céu na terra. Fazemos de Cristo apenas um Príncipe, se o chamamos de Rei e não fazemos a sua vontade. Entretanto, quando oramos para que Ele nos governe, pedimos para ser governados por Ele em tudo. Observe:

(1) Pelo que oramos: “Seja feita a tua vontade”. “Senhor, faça comigo e com o que tenho o que bem quiseres (1 Samuel 3.18). Eu me sujeito a ti, e estou bem satisfeito pelo fato de todo o teu conselho a meu respeito ser executado”. Neste sentido, Cristo orou: “Não se faça a minha vontade, mas a tua”. “Capacita-me a fazer o que agrada a ti; dá-me a graça que é necessária para o conhecimento correto da tua vontade, e uma obediência que seja aceitável. Que a tua vontade seja feita conscienciosamente por mim e pelos outros, não a nossa própria vontade, a vontade da carne, ou da mente, não a vontade dos homens (1 Pedro 4.2), muito menos a vontade de Satanás (João 8.44); que não desagrademos a Deus em nada que fizermos, nem sejamos desagradados em nada que tu faças”.

(2) O padrão: que o padrão de Deus possa ser seguido na terra, neste lugar da nossa tribulação e provação (onde o nosso trabalho deve ser feito, ou nunca será feito), como é feito no céu, aquele lugar de descanso e alegria. Oramos para que a terra possa retornar cada vez mais como o céu, através da observância da vontade de Deus (esta terra, que, através da prevalência da vontade de Satanás, se tornou tão semelhante ao inferno), e que os santos possam se tornar mais como os santos anjos em sua devoção e obediência. Estamos na terra, bendito seja Deus, mas não debaixo da terra; oramos somente pelos vivos, não pelos mortos que desceram para o silêncio.

3.”O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. Devido ao fato de nosso ser natural ser necessário para o nosso bem-estar espiritual neste mundo, depois das coisas da glória, do reino e da vontade de Deus, oramos pelos suprimentos e confortos necessários nesta vida presente, que são as dádivas de Deus, e que devemos pedir a Ele. Pão para o dia que se aproxima, e também para toda a nossa vida. Pão para o tempo porvir, ou pão para a nossa existência e subsistência, o que está de acordo com a nossa condição no mundo (Provérbios 30.8). Um alimento conveniente para nós e nossas famílias, de acordo com a nossa classe ou posição social.

Cada palavra aqui possui uma lição: 

(1) Pedimos pão. Isto nos ensina a sobriedade e a temperança. Pedimos pão, e não guloseimas.  Não estamos pedindo algo supérfluo, mas aquilo que é saudável, mesmo que não seja agradável. (2) Pedimos o nosso pão. Isto nos ensina honestidade e esforço. Não pedimos o pão da boca das outras pessoas, não o pão da mentira (Provérbios 20.17), não o pão da preguiça (Provérbios 31.27), mas o pão conquistado honestamente.

(3) Pedimos o nosso pão de cada dia. Isto nos ensina a não nos preocuparmos excessivamente pelo dia seguinte (v. 34), mas dependermos constantemente da Providência divina, como aqueles que vivem com poucos recursos disponíveis.

(4) Rogamos a Deus que nos dê o pão, não que nos venda, nem que nos empreste, mas que nos dê. Até mesmo o maior dos homens precisa ser contemplado pela misericórdia de Deus no que diz respeito ao seu pão de cada dia. 

(5) Oramos: ” Nos dê o pão, não só a mim, mas aos outros que o compartilharão comigo.” Isto nos ensina a caridade, e uma preocupação compassiva pelos pobres e necessitados. Também sugere que devemos orar com as nossas famílias; nós e aqueles que fazem parte da nossa casa comemos juntos, e, portanto, devemos orar juntos.

(6) Oramos para que Deus nos dê o pão neste dia. Isto nos ensina a renovar o desejo das nossas almas em relação a Deus, assim como os desejos dos nossos corpos são renovados.  Tão certo como vem o dia, devemos orar ao nosso Pai celestial, entendendo que não poderíamos passar o dia sem oração, assim como não podemos passar o dia sem os alimentos.

4.”Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós per doamos aos nossos devedores”. Este versículo está ligado ao anterior. As palavras “perdoa-nos” sugerem que a menos que os nossos pecados sejam perdoados, não podemos ter conforto na vida ou o sustento dela. Se os nossos pecados não forem perdoados, o nosso pão de cada dia apenas nos alimentará como cordeiros que estão destinados ao matadouro. Isto sugere que devemos orar pelo perdão de cada dia do mesmo modo que oramos pelo pão de cada dia. Aquele que está lavado, necessita lavar os pés. Aqui temos:

 

(1). Um pedido: “Pai…que estás nos céus, (…) perdoa-nos as nossas dívidas”, as nossas dívidas para contigo. Note;

[l] Os nossos pecados são as nossas dívidas; há uma dívida, que, como criaturas, devemos ao nosso Criador. Não oramos para ser dispensados disso [das nossas dívidas], mas ao não pagarmos a dívida, surge então uma dívida que implica em punição. Na falta de obediência à vontade de Deus, nos tornamos ofensivos para a ira de Deus; e por não obedecermos ao preceito da lei, somos obrigados a sofrer a pena. Um devedor arca com as despesas do processo, e nós também. Um criminoso é um devedor da lei, e nós também.

[2] O nosso desejo e a oração do nosso coração ao Pai celestial todos os dias devem ser no sentido de que Ele perdoe as nossas dívidas; que a obrigação à punição possa ser cancelada e anulada, que não entremos em condenação; que possamos ser dispensados, e ter o consolo. Ao solicitarmos o perdão dos nossos pecados, o grande ponto em que devemos confiar é a satisfação da justiça de Deus, que foi feita a favor do pecado do homem através da morte do Senhor Jesus Cristo. Ele é a nossa certeza, ou, antes, o nosso Fiador, aquele que assegurou a nossa justificação.

(2). Um argumento para reforçar este pedido: “Como nós perdoamos aos nossos devedores”. Este não é um pedido de mérito, mas um pedido de graça. Note que aqueles que se chegam a Deus através do perdão de seus pecados contra Ele, devem perdoar aqueles que os ofenderam, caso contrário estarão retendo o próprio perdão que os beneficiaria quando oram o “pai-nosso”. Temos o dever de perdoar os nossos devedores. Quanto às dívidas financeiras, não devemos ser rigorosos e severos ao exigir o pagamento por parte daqueles que não podem nos pagar sem arruinar a si mesmos e suas famílias. Mas aqui o texto se refere a uma dívida de injúria; os nossos devedores são aqueles que cometem transgressões contra nós, que nos atacam (cap. 5.39,40), e na rigidez da lei, poderiam ser processados por isso. Devem os relevar, perdoar, e esquecer as afrontas que nos são feitas, e as coisas erradas que alguém fez contra nós; e esta é uma qualificação moral para o perdão e a paz. Isto nos encoraja a ter a esperança de que Deus irá nos perdoar; porque se houver em nós esta disposição misericordiosa, ela será a operação de Deus em nossa vida, e assim será uma perfeição eminente e transcendental em si – será para nós uma evidência de que Ele nos perdoou, tendo operado em nós a condição do perdão.

5.”E não nos induzas à tentação, mas livra-nos do mal”. Este pedido é expressado:

(1) Negativamente: “Não nos induz as à tentação”. Tendo orado para que a culpa do pecado possa ser removida, oramos, como é adequado, para que jamais possamos voltar novamente à loucura, que não sejamos tentados a isso. Não é como se Deus tentasse alguém a pecar; mas: “Senhor, não permita que Satanás permaneça solto sobre nós; acorrente este leão rugidor, pois ele é sutil e malévolo. Senhor, não nos deixe sozinhos (SaImos 19.13), pois somos muito fracos. Senhor, não coloque pedras de tropeço e laços diante de nós, nem nos coloque em circunstâncias que possam ser uma ocasião de queda”. Devemos orar contra as tentações, tanto por causa do desconforto como do transtorno causados por elas. E também por causa do perigo que correm os de ser vencidos por elas, sofrendo a culpa e a dor que então se seguem.

(2) Positivamente: “Mas livra-nos do mal”; do maligno, do diabo, do tentador. “Nos guarde de ser atacados por ele, ou de que sejamos vencidos por estes ataques”. Livra-nos da coisa maligna, do pecado, o pior dos males; um mal, um único mal; aquela coisa maligna que Deus odeia, e para a qual Satanás tenta os homens, e por ela os destrói. “Senhor, livra-nos do mal do mundo, da corrupção que está no mundo através da concupiscência; da iniquidade de toda condição no mundo; do mal da morte; do aguilhão da morte, que é o pecado; livra-nos de nós mesmos, dos nossos próprios corações maus; livra-nos dos homens maus, para que eles não sejam um laço para nós, e nem nós uma presa par a eles”.

III – Conclusão: ” Por que teu é o Reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém!” Alguns relacionam este trecho com a doxologia de Davi (1 Crônicas 29.11). “Tua é, Senhor, a magnificência”.

1.Esta conclusão é uma forma de apelo para reforçar as petições anteriores. Ê nosso dever pleitear com Deus em oração, encher a nossa boca com argumentos (Jó 23.4), não para mover a Deus, mas para tocar a nós mesmos; para encorajar a fé, para estimular o nosso fervor; e para evidenciar ambos. Os melhores pedidos em oração são aqueles que são conquistados em luta com Deus, e daquilo que Ele revelou a respeito de si mesmo. Devemos lutar com Deus em oração através da força que Ele mesmo no concede, expressando tanto a natureza como a urgência dos nossos pedidos. Aqui o pedido tem uma referência especial às três primeiras petições: “Pai nosso, que estás nos céus, (…) venha o teu Reino, (…) por que teu é o Reino. Seja feita a tua vontade, (…) por que teu é o poder. Santificado seja o teu nome, (…) e a glória”. E quanto à nossa situação particular, estas palavras são animadoras: “Teu é o Reino; tu tens o governo do mundo, e proteges os santos; a tua vontade é feita neste mundo”. Deus dá bênçãos e salva como um rei. “Teu é o poder, para manter e sustentar este Reino, e tornar todas as tuas ações proveitosas para o teu povo”. “Tua é a glória, como o fim de tudo o que é dado e feito aos santos, em resposta às suas orações; porque o louvor deles te aguarda”. Esta é uma questão de conforto e santa confiança na oração.

2.E uma forma de louvor e ação de graças. A melhor coisa na súplica a Deus é louvá-lo; este é o modo de obter mais misericórdia, pois esta atitude nos qualifica para recebê-la. Todas as vezes que nos dirigimos a Deus, é adequado que o louvor seja uma parte considerável da nossa oração, porque louvar é uma tarefa dos santos; pertencemos a Deus pelo se u nome, e pelo louvor que lhe oferecemos. Isto é justo; louvamos a Deus, e lhe damos glória, não por que Ele necessite disso, mas porque Ele o merece. Ele é louvado por um mundo de anjos, e é o nosso dever dar-lhe glória, de acordo com o seu intento de se revelar a nós. O louvor é a obra e a felicidade do céu; e todos aqueles que irão par a o céu no futuro, devem começar a se conscientizar sobre o céu agora. Observe como esta doxologia é completa: O Reino, o poder, e a glória, tudo é “teu”. Note que nos convém ser abundantes ao louvar a Deus. Um ver dadeiro santo nunca pensa que pode honrar a Deus o suficiente através de suas palavras de louvor e adoração: aqui deve haver uma fluência misericordiosa, e esta situação deve durar para sempre. Atribuir glória a Deus para sempre sugere um reconhecimento, que é eternamente devido, e um desejo profundo de glorificar ao Senhor eternamente, com os anjos e santos que vivem na presença de nosso Pai celestial (Salmos 71.14).

Por fim, a tudo isso somos ensinados a juntar o nosso amém, “que assim seja”. O amém de Deus é urna dádiva; a sua confirmação significa “assim seja”. O nosso amém é apenas um desejo resumido; a nossa confirmação é que assim seja: é o penhor do nosso desejo e a garantia de sermos ouvidos – é por isso que dizemos “amém”. O amém se refere a toda petição feita antes de pronunciarmos esta palavra. Portanto, em compaixão para com as nossas debilidades, somos ensinados a resumir tudo em uma palavra, juntando, de forma geral, o que por acaso não tenhamos pedido, por termos nos enveredado em particularidades. É bom concluirmos as nossas atividades religiosas com calor e vigor, para que possamos sentir um doce paladar em nosso espírito. Sempre foi um hábito dos bons cristãos dizerem amém, de forma audível, no final de cada oração, e esta ainda é uma prática recomendável, contanto que seja feita com entendimento, como o apóstolo Paulo nos orienta (1 Coríntios 14.16), e com sinceridade, com vida e energia, e com expressões interiores que possam ser uma resposta a esta expressão exterior de desejo e confiança.

A maior parte das petições encont1·adas na oração do “pai-nosso” era comumente usada pelos judeus em suas devoções, como também palavras com um efeito semelhante; mas esta frase na quinta petição, “como nós perdoamos aos nossos devedores”, era perfeitamente nova, e, portanto, o nosso Salvador aqui mostra por qual motivo Ele a acrescentou, sem qualquer reflexão pessoal sobre a irritação, litígio e a má natureza dos homens daquela geração – embora houvesse uma causa suficiente para isso – mas que só se estendia à necessidade e importância da própria causa. Deus, ao nos perdoar, leva em consideração a nossa atitude de perdoarmos aqueles que nos feriram; portanto, quando oramos por perdão, devemos mencionar que temos consciência deste dever; esta atitude nos lembra do nosso dever, e nos liga a ele. Veja a parábola em Mateus 18.23-35. A natureza egoísta é pouco inclinada a concordar com isso. Por esta razão, ela é confrontada por este texto (vv. 14,15).

1.Em uma promessa. Se perdoardes, o vosso Pai celestial também vos perdoará. Não como se esta fosse a única condição exigida; deve haver arrependimento e fé, e uma nova obediência; mas onde outras graças são verdadeiras, haverá isto, de forma que esta será urna boa evidência da sinceridade das nossas outras graças. Aquele que se compadece do seu irmão, mostra que se arrepende diante de Deus. Aqueles que na oração são chamados de devedores, aqui são chamados de transgressores – dívidas de injúria, coisas erradas que são contra nós em nossos corpos, bens ou reputação: transgressões é um termo extenuante para ofensas, paraptomata tropeços, deslizes, quedas. Note que é uma boa evidência, e uma boa ajuda perdoarmos aos outros; chamarmos as injúrias que nos são feitas por um nome suavizador e perdoador. Não chame as ofensas que lhe são feitas de traições, mas de transgressões; não de injúrias intencionais, mas de inadvertências casuais. Pode ser que tal ofensa tenha sido um erro (Genesis 43.12), portanto faça o melhor. Devemos perdoar como esperamos ser perdoados. Portanto, devemos não só não ter malícia, nem mediar vingança, mas também não devemos censurar o nosso irmão pelas ofensas que ele nos fez, nem nos alegrarmos caso lhe suceda qualquer aflição, mas devemos estar prontos para ajudá-lo e fazer-lhe bem. E se ele se arrepender e desejar ser nosso amigo outra vez, devemos tratá-lo com amabilidade e sinceridade, como antes.

2.Em uma ameaça. “Mas se você não perdoar aqueles que lhe ofenderam, este será um mau sinal – ele mostrará que você não tem as outras condições necessárias, mas está totalmente desqualificado para o perdão; e, portanto, o seu Pai, a quem você chama de Pai, e que, como um pai lhe oferece a sua graça em termos razoáveis, não lhe perdoará. E se houver outra graça sincera, contudo você for grandemente deficiente em perdoar, não poderá esperar o conforto do seu perdão, mas terá o seu ânimo abatido por alguma outra aflição que lhe sobrevirá devido a esta obrigação”. Note que aqueles que quer em alcançar a misericórdia de Deus devem mostrar misericórdia aos seus irmãos. Não podemos esperar que Ele estenda as suas mãos para nos conceder o seu favor, a menos que levantemos a Ele mãos santas, sem ira nem contenda (1 Timóteo 2.8). Se oramos guardando ira em nosso coração, temos motivos para temer que Deus responda com ira. Diz-se que as orações feitas com ira são escritas com fel. Que motivo Deus terá para nos perdoar pelas grandes somas que lhe devemos, se não perdoamos o nosso irmão pela pequena soma que este nos deve? Cristo entrou no mundo como o grande Pacificador, e não só para nos reconciliar com Deus, mas uns com os outros, e nisto devemos concordar com Ele. É uma grande presunção – e de consequências perigosas – amenizar uma questão a que Cristo aqui dá tanta ênfase. As paixões dos homens não frustrarão a Palavra de Deus.

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 6: 1-4

Continuação do Sermão da Montanha.

Esmolas, Oração, Jejum

Assim como devemos fazer melhor que os escribas e fariseus, evitando os pecados do coração, o adultério do coração, e o assassinato do coração, devemos igualmente manter e seguir a religião do coração, fazendo o que fazemos a partir de um princípio interior e vital, para que possamos ser aprovados por Deus, e não para sermos aplaudidos pelos homens. Isto é, devemos vigi­ ar contra a hipocrisia, que era o fermento dos fariseus, bem como contra sua doutrina (Lucas 12.1). Esmolas, oração e jejum são os três grandes deveres cristãos, e os três fundamentos da lei, dizem os árabes. Por eles, honramos e servimos a Deus com os nossos três interesses principais; através da oração, honramos e servimos ao Senhor com as nossas almas; através do jejum, honramos e servimos ao Senhor com os nossos corpos; através das esmolas, honramos e servimos ao Senhor com os nossos bens. Portanto, não só devemos nos afastar do mal, mas precisamos fazer o bem, e fazê-lo corretamente, e assim habitaremos com Ele para sempre.

Nestes versículos, somos advertidos contra a hipocrisia no ato de dar esmolas. “Guardai-vos”. O fato de sermos solicitados a nos guardar indica que isso é pecado.

1.Estamos em grande perigo. Este é um pecado sutil; a vanglória se introduz no que fazemos antes que possamos estar cientes dela. Os discípulos seriam tentados a este pecado pelo poder que tinham de fazer muitas obras maravilhosas; a convivência deles com alguns que os admiravam, e com outros que os desprezavam, se tornava como duas tentações que podiam levá-los a procurar fazer uma boa demonstração na carne.

2.É um pecado no qual estamos em grande perigo. Guarde-se da hipocrisia, porque se ela reinar em você, vai destruí-lo. Uma mosca morta estraga um frasco inteiro de um perfume precioso.

Supõem-se duas coisas aqui:

I – Dar esmolas é um grande dever, e um dever no qual todos os discípulos de Cristo, de acordo com a sua capacidade, devem cumprir de modo abundante. Este dever está prescrito na lei da natureza e na lei de Moisés, e os profetas dão grande ênfase a ele. Diversas cópias antigas aqui, em lugar de ten eleemosynen, ten dikaiosynenvossas esmolas, trazem  vossas justiças, pois esmolas são justiças (SaImos 112.9; Provérbios 10.2). Os judeus chamavam a caixa de esmolas para os pobres de “caixa da justiça”. Diziam que era dever deles dar esmolas aos pobres (Provérbios 3.27). A obrigação é algo muito importante, e pode ser considerada necessária e excelente; porém, pode ser utilizada pelos hipócritas para servir ao seu orgulho. Os papistas supersticiosos atribuíram um mérito às obras de caridade, porém esta não pode ser uma desculpa para protestantes cobiçosos que são estéreis em tais boas obras. E verdade que as nossas esmolas não merecem o céu; mas também é verdade que não podemos ir para o céu sem demonstrar o fruto da nossa salvação. Essa é a religião pura e imaculada (Tiago 1.27), e será o teste no grande dia. Cristo aqui tem como certo que os discípulos deem esmolas e façam boas obras; e aqueles que não o fizerem, não pertencerão a Ele.

II – Que este é um dever que tem ligado a si uma grande recompensa – recompensa que será perdida, se ele for desempenhado com hipocrisia. Ele é, às vezes, recompensado com a abundância de coisas temporárias (Provérbios 11.24,25; 19.17); com a segurança de não passar necessidades (Provérbios 28.27; SI 37.21,25); com o socorro na angústia (SaImos 41.1,2); com a honra e um bom nome, que segue aqueles que praticamente não o cobiçam (SaImos 112.9). No entanto, ele será recompensado na ressurreição dos justos (Lucas 14.14), com as riquezas eternas.

Isto posto, observe agora:

1.Qual era a prática dos hipócritas em relação a esta obrigação? Eles certamente a faziam, mas não com base em qualquer princípio de obediência a Deus, ou de amor ao homem, mas por orgulho e vanglória; não por compaixão pelos pobres, mas puramente por ostentação, para que pudessem ser exaltados como homens bons, e assim pudessem ganhar algo mais na consideração das pessoas, junto às quais eles sabiam como servir em causa própria, e para receberem muito mais do que deram. De acordo com esta intenção, eles escolhiam dar as suas esmolas nas sinagogas e nas ruas, onde havia um grande fluxo de pessoas para observá-los – pessoas que aplaudiam a sua liberalidade porque viam estas atitudes; mas eram, na verdade, ignorantes, porque não discerniam o orgulho abominável que motivava estas ações. Eles provavelmente faziam coletas para os pobres nas sinagogas, mas os pedintes comuns andavam pelas ruas e estradas, e eles escolhiam dar esmolas nestes lugares públicos. Não que seja ilegal dar esmolas quando os homens estão nos vendo; podemos fazer isso; mas não para que os homens possam nos ver; devemos, antes, escolher aqueles objetos de caridade que são menos observados. Os hipócritas se dessem esmolas para as suas próprias casas, soariam uma trombeta, sob o pretexto de ajuntar os pobres para serem servidos. Mas na realidade teriam a intenção de proclamar a sua caridade, e o fariam para que isso fosse notado e para que passasse a ser um tema de discurso.

A condenação de Cristo a esta atitude é bem observável: “Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão”. A primeira vista, isso parece uma promessa. Se eles têm o seu galardão, eles já têm o suficiente, mas duas palavras no versículo tornam a recompensa uma ameaça.

2.É um galardão, mas é um galardão de homens; não o galardão que Deus lhes promete e que faz bem, mas o galardão que eles mesmos prometem, e que é pobre. Eles dão esmolas para serem vistos pelos homens, e são vistos pelos homens. Eles escolheram as suas próprias desilusões com as quais enganam a si mesmos, e terão o que escolheram. Os professores carnais tentam impor diante de Deus a sua suposta dignidade, honra, riqueza, e terão os seus ventres cheios dessas coisas (Salmos 17.14); mas que eles não esperem mais; estas coisas são a sua consolação (Lucas 6.24), os seus bens (Lucas 16.25), e eles serão despedidos com eles. “Não ajustaste tu comigo um dinheiro?” Assim, cada um deve se contentar com o pagamento previamente combinado.

3.Ê um galardão, mas é um galardão para o presente; e não há nenhum galardão reservado para eles no estado futuro. Eles agora têm tudo o que podem ter da parte de Deus. Eles possuem o seu galardão aqui, e não têm nenhum galardão por que esperar no futuro. Isto significa um recibo completo. As recompensas que os cristãos têm nesta vida são apenas parte do pagamento; há ainda mais, muito mais; mas os hipócritas têm todas as suas recompensas nesta vida, e esta será para eles a condenação; eles mesmos decidiram isto. O mundo tem a finalidade de prover para os santos; é aqui que gastam o se u dinheiro. Mas ele é o pagamento dos hipócritas, é a sua porção.

2.O preceito de nosso Senhor Jesus sobre isto (vv. 3,4). Ele, que foi um exemplo de humildade, exigiu esta qualidade dos discípulos como algo absolutamente necessário para a aceitação de suas obras. “Quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”. Talvez isso se refira ao estabelecimento do Corbã, a caixa do homem pobre, ou o baú no qual eram lançadas as ofertas voluntárias, à direita da passagem para o Templo – para que eles colocassem as suas ofertas dentro dela com a mão direita. Dar esmolas com a mão direita também pode sugerir presteza e resolução; faça de modo direito, não de forma desajeitada, nem com um a intenção sinistra. A mão direita pode ser usada para ajudar os pobres, erguendo-os, escrevendo para eles, tratando de seus ferimentos, e outras maneiras além de lhes dar esmolas. Mas, “não deixe que a tua mão esquerda saiba de qualquer bem que a tua mão direita fizer aos pobres: esconda o quanto for possível; diligentemente mantenha isso em segredo. Faça isso porque é uma boa obra, e não porque lhe conferirá uma boa reputação”. “Em todas as nossas ações, devemos ser influenciados pela consideração ao objeto, e não ao observador”. É sugerido:

(1) Que não devemos deixar que os outros saibam o que fazemos; não, não aqueles que ficam à nossa esquerda, que estão muito perto de nós. Em vez de aproximar-se deles com isso, esconda deles a ação, se for possível; no entanto, aparente ter o desejo de ocultar estas ações deles, como por educação. Mesmo que observem, eles podem fazer parecer que não perceberam nada, e assim guardarão o fato que testemunharam para si mesmos, sem divulgá-lo.

(2) Que nós mesmos não devemos observar muito a ação: a mão esquerda faz parte de nós mesmos; não devemos, dentro de nós mesmos, notar demais as boas ações que fazemos, não devemos aplaudir e admirar a nós mesmos. Vaidade e auto complacência, e uma adoração da nossa própria sombra, são ramos de orgulho, tão perigosos quanto a vangloria e a ostentação diante dos homens. Encontramos aqueles que tiveram as suas boas obras lembradas em sua honra, mesmo tendo se esquecido delas: “Quando te vimos com fome, ou com sede?”

3.A promessa feita àqueles que são sinceros e humildes ao darem as suas esmolas: Dá “a tua esmola…ocultamente, e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente”. Note que quando damos pouca atenção às boas obras que fazemos, Deus dá muita atenção a elas. Do mesmo modo como Deus ouve as coisas erradas que fazem contra nós, quando não as ouvimos (Salmos 38.14,15), assim Ele vê as coisas boas feitas por nós, quando não as vemos. O fato de Deus ver todas as coisas em secreto é um terror para os hipócritas, mas é um conforto para os cristãos sinceros. Mas isso não é tudo. Não são só a observação e o louvor que pertencem a Deus: a recompensa também é dele. Ele mesmo nos recompensará abertamente. Note que os hipócritas, ao darem esmolas, buscavam aprovar a si mesmos diante de Deus, voltando-se a Ele simplesmente como o seu Pagador. Os hipócritas tentam agarrar as sombras, mas o homem reto mantém a essência das coisas. Observe como isto é expresso enfaticamente: Ele mesmo recompensará, Ele mesmo é o Galardoador (Hebreus 11.6). Que o próprio Senhor expresse a bondade, pois Ele, e somente Ele, é a sua fonte; e mais ainda, Ele mesmo será o galardão (Genesis 15.1), nosso grandíssimo galardão. Ele nos recompensará como o nosso Pai, não como um senhor que dá ao seu servo somente o que ele ganha como pagamento e nada mais, mas como um pai que dá abundantemente mais, e sem restrição, ao seu filho que o serve. E mais ainda, Ele nos recompensará abertamente; se não nos dias atuais, com certeza no grande dia. Então todo homem deve louvar a Deus, com um louvor aberto. Você será confessado diante dos homens. Se a obra não for manifesta, o galardão o será; e isto é ainda melhor.

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MATEUS 6: 1-4

Continuação do Sermão da Montanha.

Esmolas, Oração, Jejum

Assim como devemos fazer melhor que os escribas e fariseus, evitando os pecados do coração, o adultério do coração, e o assassinato do coração, devemos igualmente manter e seguir a religião do coração, fazendo o que fazemos a partir de um princípio interior e vital, para que possamos ser aprovados por Deus, e não para sermos aplaudidos pelos homens. Isto é, devemos vigi­ ar contra a hipocrisia, que era o fermento dos fariseus, bem como contra sua doutrina (Lucas 12.1). Esmolas, oração e jejum são os três grandes deveres cristãos, e os três fundamentos da lei, dizem os árabes. Por eles, honramos e servimos a Deus com os nossos três interesses principais; através da oração, honramos e servimos ao Senhor com as nossas almas; através do jejum, honramos e servimos ao Senhor com os nossos corpos; através das esmolas, honramos e servimos ao Senhor com os nossos bens. Portanto, não só devemos nos afastar do mal, mas precisamos fazer o bem, e fazê-lo corretamente, e assim habitaremos com Ele para sempre.

Nestes versículos, somos advertidos contra a hipocrisia no ato de dar esmolas. “Guardai-vos”. O fato de sermos solicitados a nos guardar indica que isso é pecado.

1.Estamos em grande perigo. Este é um pecado sutil; a vanglória se introduz no que fazemos antes que possamos estar cientes dela. Os discípulos seriam tentados a este pecado pelo poder que tinham de fazer muitas obras maravilhosas; a convivência deles com alguns que os admiravam, e com outros que os desprezavam, se tornava como duas tentações que podiam levá-los a procurar fazer uma boa demonstração na carne.

2.É um pecado no qual estamos em grande perigo. Guarde-se da hipocrisia, porque se ela reinar em você, vai destruí-lo. Uma mosca morta estraga um frasco inteiro de um perfume precioso.

Supõem-se duas coisas aqui:

I – Dar esmolas é um grande dever, e um dever no qual todos os discípulos de Cristo, de acordo com a sua capacidade, devem cumprir de modo abundante. Este dever está prescrito na lei da natureza e na lei de Moisés, e os profetas dão grande ênfase a ele. Diversas cópias antigas aqui, em lugar de ten eleemosynen vossas esmolas, trazem ten dikaiosynen vossas justiças, pois esmolas são justiças (SaImos 112.9; Provérbios 10.2). Os judeus chamavam a caixa de esmolas para os pobres de “caixa da justiça”. Diziam que era dever deles dar esmolas aos pobres (Provérbios 3.27). A obrigação é algo muito importante, e pode ser considerada necessária e excelente; porém, pode ser utilizada pelos hipócritas para servir ao seu orgulho. Os papistas supersticiosos atribuíram um mérito às obras de caridade, porém esta não pode ser uma desculpa para protestantes cobiçosos que são estéreis em tais boas obras. E verdade que as nossas esmolas não merecem o céu; mas também é verdade que não podemos ir para o céu sem demonstrar o fruto da nossa salvação. Essa é a religião pura e imaculada (Tiago 1.27), e será o teste no grande dia. Cristo aqui tem como certo que os discípulos deem esmolas e façam boas obras; e aqueles que não o fizerem, não pertencerão a Ele.

II – Que este é um dever que tem ligado a si uma grande recompensa – recompensa que será perdida, se ele for desempenhado com hipocrisia. Ele é, às vezes, recompensado com a abundância de coisas temporárias (Provérbios 11.24,25; 19.17); com a segurança de não passar necessidades (Provérbios 28.27; SI 37.21,25); com o socorro na angústia (SaImos 41.1,2); com a honra e um bom nome, que segue aqueles que praticamente não o cobiçam (SaImos 112.9). No entanto, ele será recompensado na ressurreição dos justos (Lucas 14.14), com as riquezas eternas.

Isto posto, observe agora:

1.Qual era a prática dos hipócritas em relação a esta obrigação? Eles certamente a faziam, mas não com base em qualquer princípio de obediência a Deus, ou de amor ao homem, mas por orgulho e vanglória; não por compaixão pelos pobres, mas puramente por ostentação, para que pudessem ser exaltados como homens bons, e assim pudessem ganhar algo mais na consideração das pessoas, junto às quais eles sabiam como servir em causa própria, e para receberem muito mais do que deram. De acordo com esta intenção, eles escolhiam dar as suas esmolas nas sinagogas e nas ruas, onde havia um grande fluxo de pessoas para observá-los – pessoas que aplaudiam a sua liberalidade porque viam estas atitudes; mas eram, na verdade, ignorantes, porque não discerniam o orgulho abominável que motivava estas ações. Eles provavelmente faziam coletas para os pobres nas sinagogas, mas os pedintes comuns andavam pelas ruas e estradas, e eles escolhiam dar esmolas nestes lugares públicos. Não que seja ilegal dar esmolas quando os homens estão nos vendo; podemos fazer isso; mas não para que os homens possam nos ver; devemos, antes, escolher aqueles objetos de caridade que são menos observados. Os hipócritas se dessem esmolas para as suas próprias casas, soariam uma trombeta, sob o pretexto de ajuntar os pobres para serem servidos. Mas na realidade teriam a intenção de proclamar a sua caridade, e o fariam para que isso fosse notado e para que passasse a ser um tema de discurso.

A condenação de Cristo a esta atitude é bem observável: “Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão”. A primeira vista, isso parece uma promessa. Se eles têm o seu galardão, eles já têm o suficiente, mas duas palavras no versículo tornam a recompensa uma ameaça.

(1).É um galardão, mas é um galardão de homens; não o galardão que Deus lhes promete e que faz bem, mas o galardão que eles mesmos prometem, e que é pobre. Eles dão esmolas para serem vistos pelos homens, e são vistos pelos homens. Eles escolheram as suas próprias desilusões com as quais enganam a si mesmos, e terão o que escolheram. Os professores carnais tentam impor diante de Deus a sua suposta dignidade, honra, riqueza, e terão os seus ventres cheios dessas coisas (Salmos 17.14); mas que eles não esperem mais; estas coisas são a sua consolação (Lucas 6.24), os seus bens (Lucas 16.25), e eles serão despedidos com eles. “Não ajustaste tu comigo um dinheiro?” Assim, cada um deve se contentar com o pagamento previamente combinado.

(2)É um galardão, mas é um galardão para o presente; e não há nenhum galardão reservado para eles no estado futuro. Eles agora têm tudo o que podem ter da parte de Deus. Eles possuem o seu galardão aqui, e não têm nenhum galardão por que esperar no futuro. Isto significa um recibo completo. As recompensas que os cristãos têm nesta vida são apenas parte do pagamento; há ainda mais, muito mais; mas os hipócritas têm todas as suas recompensas nesta vida, e esta será para eles a condenação; eles mesmos decidiram isto. O mundo tem a finalidade de prover para os santos; é aqui que gastam o se u dinheiro. Mas ele é o pagamento dos hipócritas, é a sua porção.

(2)O preceito de nosso Senhor Jesus sobre isto (vv. 3,4). Ele, que foi um exemplo de humildade, exigiu esta qualidade dos discípulos como algo absolutamente necessário para a aceitação de suas obras. “Quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”. Talvez isso se refira ao estabelecimento do Corbã, a caixa do homem pobre, ou o baú no qual eram lançadas as ofertas voluntárias, à direita da passagem para o Templo – para que eles colocassem as suas ofertas dentro dela com a mão direita. Dar esmolas com a mão direita também pode sugerir presteza e resolução; faça de modo direito, não de forma desajeitada, nem com um a intenção sinistra. A mão direita pode ser usada para ajudar os pobres, erguendo-os, escrevendo para eles, tratando de seus ferimentos, e outras maneiras além de lhes dar esmolas. Mas, “não deixe que a tua mão esquerda saiba de qualquer bem que a tua mão direita fizer aos pobres: esconda o quanto for possível; diligentemente mantenha isso em segredo. Faça isso porque é uma boa obra, e não porque lhe conferirá uma boa reputação”. “Em todas as nossas ações, devemos ser influenciados pela consideração ao objeto, e não ao observador”. É sugerido:

(1) Que não devemos deixar que os outros saibam o que fazemos; não, não aqueles que ficam à nossa esquerda, que estão muito perto de nós. Em vez de aproximar-se deles com isso, esconda deles a ação, se for possível; no entanto, aparente ter o desejo de ocultar estas ações deles, como por educação. Mesmo que observem, eles podem fazer parecer que não perceberam nada, e assim guardarão o fato que testemunharam para si mesmos, sem divulgá-lo.

(2) Que nós mesmos não devemos observar muito a ação: a mão esquerda faz parte de nós mesmos; não devemos, dentro de nós mesmos, notar demais as boas ações que fazemos, não devemos aplaudir e admirar a nós mesmos. Vaidade e auto complacência, e uma adoração da nossa própria sombra, são ramos de orgulho, tão perigosos quanto a vangloria e a ostentação diante dos homens. Encontramos aqueles que tiveram as suas boas obras lembradas em sua honra, mesmo tendo se esquecido delas: “Quando te vimos com fome, ou com sede?”

(3)A promessa feita àqueles que são sinceros e humildes ao darem as suas esmolas: Dá “a tua esmola…ocultamente, e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente”. Note que quando damos pouca atenção às boas obras que fazemos, Deus dá muita atenção a elas. Do mesmo modo como Deus ouve as coisas erradas que fazem contra nós, quando não as ouvimos (Salmos 38.14,15), assim Ele vê as coisas boas feitas por nós, quando não as vemos. O fato de Deus ver todas as coisas em secreto é um terror para os hipócritas, mas é um conforto para os cristãos sinceros. Mas isso não é tudo. Não são só a observação e o louvor que pertencem a Deus: a recompensa também é dele. Ele mesmo nos recompensará abertamente. Note que os hipócritas, ao darem esmolas, buscavam aprovar a si mesmos diante de Deus, voltando-se a Ele simplesmente como o seu Pagador. Os hipócritas tentam agarrar as sombras, mas o homem reto mantém a essência das coisas. Observe como isto é expresso enfaticamente: Ele mesmo recompensará, Ele mesmo é o Galardoador (Hebreus 11.6). Que o próprio Senhor expresse a bondade, pois Ele, e somente Ele, é a sua fonte; e mais ainda, Ele mesmo será o galardão (Genesis 15.1), nosso grandíssimo galardão. Ele nos recompensará como o nosso Pai, não como um senhor que dá ao seu servo somente o que ele ganha como pagamento e nada mais, mas como um pai que dá abundantemente mais, e sem restrição, ao seu filho que o serve. E mais ainda, Ele nos recompensará abertamente; se não nos dias atuais, com certeza no grande dia. Então todo homem deve louvar a Deus, com um louvor aberto. Você será confessado diante dos homens. Se a obra não for manifesta, o galardão o será; e isto é ainda melhor.