PSICOLOGIA ANALÍTICA

A tormenta da Ira

A TORMENTA DA IRA

Sentimentos nos tomam de assalto e nos arrastam com eles – e, no entanto, precisamos a todo momento conter nossos impulsos. Como combinar as duas coisas? Psicólogos estudam o controle de nossas emoções mais sombrias, como a raiva e o medo.

O calor do verão convida à vida ao ar livre. Mas, mal ouvimos, lá vem o vizinho com seu maldito aparelho de som, animando o churrasco de domingo. “Que abuso”, pensamos, já tomados de raiva. Alegria ou irritação, medo ou surpresa, pesar ou orgulho: os acontecimentos mais banais despertam múltiplas emoções. Elas acompanham cada instante do nosso cotidiano, onipresentes como o ar que respiramos.

No entanto, empenhamo-nos quase sempre em conter nossos sentimentos ou em mantê-los dentro de limites toleráveis. Assim, quase nenhuma emoção escapa ao crivo da consciência.

Todos gostam de receber um elogio do chefe, mas, se o colega invejoso está por perto, melhor não deixar transparecer demais o orgulho. Se alguém no trabalho se comporta de maneira desajeitada, contemos o riso, para não provocar antipatia. Nós, humanos, não somos apenas seres emocionais, somos seres que controlam suas emoções.

Para pesquisadores que se dedicam ao assunto, duas questões são de interesse particular, A primeira é: por que, afinal, buscamos controlar nossas emoções? Elas não são valiosas demais para ser reprimidas. Sem o afeto, por exemplo, dificilmente ajudaríamos outro ser humano ou criaríamos nossos filhos, e, sem nos roer de raiva, talvez jamais criássemos coragem para pôr o vizinho no seu devido lugar. Portanto, para que o esforço em reprimi-los?

E a segunda questão, como conseguimos conter nossas emoções? Profundamente enraizado em nossa herança biológica, o animal dentro de nós parece muito mais forte que qualquer mecanismo mental de mediação.

O porquê e o como do “controle das emoções “encontram-se no centro de uma área de pesquisa, em que psicólogos, sociólogos, antropólogos e, mais recentemente, neurocientistas têm adquirido valiosos conhecimentos. Tradicionalmente, aquela primeira questão –  se o homem pode de fato controlar emoções – sempre foi respondida afirmativamente. Os estoicos já o postulavam. Marco Aurélio (120-180 d.C.), por exemplo, escreveu em suas Meditações, “Livre da paixão, a mente humana” torna-se mais forte”. E, quase 2 mil anos depois, em O mal-estar da civilização, Sigmund Freud explicou por que emoções transbordantes seriam inconciliáveis com o convívio social. Com certeza, as emoções nem sempre trazem à tona apenas o que há de bom em nós, como o comportamento altruísta ou a solução criativa de problemas. Elas têm também seu lado sombrio: a raiva, que pode transformar-se e violência, os medos, em depressões, que por vezes, conduzem ao suicídio. Como hoje sabem os psicólogos clínicos, transtornos psíquicos são com frequência    resultado de reações emocionais desmedidas, já fora de controle.

A isso vem se somar o fato de que, em nosso mundo altamente tecnologizado, sentimentos sem freios são rápidos na produção de efeitos devastadores. Se um maluco armado ou um motorista endoidecido resolvem dar livre vazão a sua raiva, é fácil prever a catástrofe. A capacidade de regular as próprias emoções parecem, portanto, construir necessidade vital para a sobrevivência do Homo sapiens.

Como é possível, porém, regular as próprias emoções é uma questão que há muito tempo vem provocando dor de cabeça nos pesquisadores. Os exemplos mencionados por certo mostram que se trata de algo que fazemos todos os dias. Mas cuidado:  acreditar que temos nossos sentimentos sob controle está longe de significar que isso acontece de fato. Talvez eles continuem borbulhando sob a superfície da consciência. Como se sabe, essa era a opinião de Freud, que introduziu na psicologia o conceito de recalque, sentimentos muito dolorosos ou incompatíveis com o ideal que temos de nós mesmos são exilados sem maiores delongas no inconsciente. Mas a energia própria das nossas emoções precisa de escape – como numa panela de pressão -, e acaba se manifestando, por exemplo, sob a forma de perturbações neuróticas ou mesmo físicas.

Outros pesquisadores mais tarde sustentaram a hipótese de Freud. Na década de 30, Franz Alexander (1891-1964), psicanalista e um dos fundadores da medicina psicossomática, descobriu que a pressão sanguínea tende a subir de forma constante nas pessoas que reprimem sistematicamente suas emoções. Ou talvez pessoas com hipertensão que tendem a reprimir sentimentos. Não era apenas de parâmetros confiáveis para as emoções e o seu controle que Alexander carecia. Na verdade, suas descobertas baseavam-se em meros dados estatísticos, e não na experimentação. Por isso, ele não conseguiu elucidar a possível relação de causa e efeito existente entre o controle das emoções e a saúde de um indivíduo.

De lá para cá, no entanto, a psicologia estudou melhor as emoções e é capaz de manipulá-las em laboratório. Isso abre caminho para que o modo como os seres humanos regulam seus sentimentos seja estudado em experimentos controlados. É o que faz, por exemplo, James Gross, psicólogo da Universidade Stanford, na Califórnia. Ao lado de sua equipe, ele investiga as estratégias que permitem controlar os sentimentos e de que forma isso afeta o bem-estar psíquico e a saúde. De início, uma surpresa desagradável aguarda os voluntários no laboratório de Gross: eles teriam de assistir a filmes chocantes, gravações em vídeo que despertam repulsa, como a amputação de um braço ou rituais africanos exibindo a prática da circuncisão. Não vale virar o rosto. Afinal, só dessa maneira é possível assegurar a indução de estados emocionais intensos.

Num desses experimentos, Gross solicitou à metade de seus voluntários que, na medida do possível, não fizessem caretas ao assistir às cenas. Eles deveriam se concentrar em manter expressão neutra, de modo que ninguém pudesse ver o que estavam sentindo. Esse tipo de autocontrole é chamado de “supressão” pelos psicólogos.

A outra metade não recebeu instrução alguma. Gross filmou as expressões faciais do grupo e registrou reações fisiológicas como condutabilidade elétrica da pele e frequência e imensidade dos batimentos cardíacos. Todos os participantes responderam a um questionário sobre o que haviam sentido durante a exibição dos vídeos.

REPRESSÃO FATAL

A maioria dos participantes solicitados a manter a expressão neutra conseguiu esconder sinais de suas emoções. Nem por isso, no entanto, eles sentiram menos repugnância, nojo ou até medo – conforme se verificou pelas respostas ao questionário – do que aqueles que haviam assistido às mesmas cenas sem ter recebido instruções específicas. Mas um dado chamou a atenção: apesar da suposta impassibilidade, o sistema nervoso autônomo reagiu com particular imensidade nos que haviam reprimido a emoção, o que permite inferir uma reação veemente de stress. Esse dado fortalece a noção de que controlar emoções fortes pode ser nocivo à saúde.

Todavia, o efeito negativo do controle da expressão emocional não se restringe ao aumento do stress. Como já puderam demonstrar em vários estudos os psicólogos Roy Baumeister e Dianne Tice, ambos da Universidade Estadual da Flórida, em Tallahassee, pessoas que reprimem suas emoções são menos capazes de resolver desafios intelectuais. Jane Richards, da Universidade do Texas, em Austin, descobriu que os repressores de sentimentos têm mais dificuldade em memorizar detalhes de experiências emocionalmente significativas. Tampouco no relacionamento interpessoal desse se saem tão bem, como demonstrou Emily Butler, da Universidade do Arizona em Tucson. Em questionários com respostas anônimas, pessoas que não deixam transparecer nenhum sentimento em conversa com seus interlocutores foram consideradas por estes menos simpáticas – e também menos interessantes.

Claro está que, além dos efeitos físicos de curta duração, o controle das emoções acarreta consequências duradoras. Num estudo publicado em 2003, James Gross e Oliver John, da Universidade Berkeley, perguntaram a estudantes em que medida descontrolavam seus sentimentos no dia-a-dia. Com base nas respostas, os voluntários foram divididos em dois grupos, o daqueles que davam expressão mais frequente as suas emoções e o dos “repressores”.

A comparação resultou numa série de diferenças significativas. Quem preferia engolir a raiva, o medo, e o pesar revelou-se em média, mais pessimista, com tendência à depressão e mais inseguro. Além disso, essas pessoas fazem menos amizades e suas relações tendem a ser superficiais. Temperamentos mais frios, portanto, parecem de início em desvantagem, em diversos aspectos.

Um estudo do pesquisador belga Johan Denollet, médico do Hospital Universitário de Antuérpia, deu ainda um último empurrãozinho nessa conclusão já preocupante. Ele perguntou a pessoas que haviam sofrido infarto quais eram seus “hábitos emocionais”. Denollet queria saber desses pacientes com que frequência eles tinham mau humor ou outras emoções negativas, tais como medo, raiva ou remorso, e se compartilhavam seus estados de espírito com os outros ou preferiam guarda-los para si. Quando, dez anos depois, Denollet tornou a contatar os mesmos pacientes, com o intuito de repetir as perguntas, cerca de 5% deles haviam morrido. Mas tanto entre os que haviam relatado ter emoções negativas com frequência acima da média como entre os que tinham demonstrado tendência a à repressão emocional, os mortos perfaziam um total de 25%. Ou seja, uma taxa de mortalidade cinco vezes maior. Dar vazão aos sentimentos parece, portanto, não apenas humano como também –  e literalmente – de importância vital.

INTERIORIDADE E EMOÇÃO

As descobertas de Denollet nos deixam num dilema. A psicologia nos diz que, sem controlar as emoções, não podemos ir adiante; mas, ao fazê-lo, nos tornamos indivíduos mais solitários e fisicamente doentes. Felizmente, pesquisas mais recentes apontam uma possível saída. Controlar as emoções não tem necessariamente consequências ruins, basta fazermos uso correto desse controle.

Nos estudos mencionados os voluntários controlavam apenas seu comportamento, e não os sentimentos em si. Mas outra modalidade de controle das emoções tem por alvo menos o comportamento visível que a experiência menor, subjetiva.

A vida cotidiana nos mostra que isso é possível. Somos capazes de ver a mesma situação sob diferentes ângulos e, mediante uma alteração no modo de pensar, de exercer influência sobre nossas emoções. Um garçom demorado, por exemplo, é capaz de nos fazer ferver o sangue. Em geral, porém, basta observar que o pobre homem está apenas atarantado com o grande fluxo de fregueses que nossa irritação se dissipa.

Diversos pesquisadores estudam de que forma esse controle cognitivo das emoções atua – e se ele é capaz de evitar as consequências negativas já descritas. Mas como ensinar voluntários a se sentir, com a força do pensamento, menos mal diante de imagens de cenas horripilantes solicitando a eles, por exemplo, que reflitam sobre as sequências em vídeo com a máxima objetividade, ou seja, que contemplem as cenas de uma amputação, por exemplo, com os olhos de um médico voluntarioso que se valem dessa estratégia de racionalização não apenas deixam transparecer mais raramente sentimentos negativos em seu comportamento, como também dizem experimentar menos mal-estar e repulsa. Além disso, nesses experimentos, verificou-se menor ativação do sistema nervoso autônomo.

É possível, portanto, que certas estratégias cognitivas sejam o caminho das pedras para o controle das emoções. Se podemos manipular nossos sentimentos de acordo com o modo como avaliamos uma situação, então isso deve ser passível de verificação no cérebro. Assim pensaram também Kevin Ochsner e Silvia Bunge, hoje pesquisadores da Universidade Columbia, em Nova York, e da Universidade da Califórnia, em Davis, respectivamente.

A MENTE NO TOMÓGRAFO

Os neuropsicólogos examinaram voluntários com o auxílio da tomografia por ressonância magnética funcional (flvtRI).  Esse método torna visível a atividade em diferentes regiões cerebrais por meio do teor de oxigênio no sangue. Durante a tomografia, Ochsner e seus colegas exibiram imagens chocantes de cirurgias, de crianças com doenças fatais e de cães bravos mostrando os dentes. Eles ora pediam aos participantes que apenas as contemplassem, ora que se distanciassem delas o máximo possível, empregando para tanto uma estratégia específica, treinada de antemão. Essa estratégia consistia na reelaboração cognitiva da “história por trás da imagem.” Por exemplo, “Imagine que o bebê da imagem logo estará curado”. Ou, “O cachorro está bem longe de você, contido por uma cerca alta”. Deu certo. quando os voluntários seguiram o conselho de refletir sobre a imagem com distanciamento, o córtex pré-frontal revelou nítido aumento de atividade. Essa região cerebral é responsável pelo chamado controle executivo – isto é, por quase tudo que tenha a ver com planejamento, decisão e execução de ações. Quanto mais ativas se revelavam as células nervosas dessa região, maior era a calmaria em regiões do sistema límbico e sobretudo na amígdala, que, como se sabe, tem participação no modo como se lida com emoções negativas. Estratégias de pensamento podem, portanto, balizar reações emocionais com eficácia. Ou se, as coisas em si não são nem boas nem ruins, é o pensamento que as faz assim. As pessoas que se saíram bem com a estratégia de reelaboração cognitiva disseram ter tudo menos náusea e nojo e demonstraram atividade reduzida em seu sistema nervoso autônomo.

A grande questão, no entanto, é se esse método é de alguma valia também na vida cotidiana, ou seja, em situações reais. Foi com o intuito de examinar essa questão que Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin, em Madson, partiu ao encontro dos mestres do controle emocional: os monges tibetanos. Método importante dos budistas é se desligar de todos os sentimentos negativos e pensar sempre de forma positiva. Vistos de fora, os monges de fato aparentam impassibilidade admirável. Declaram sentir muito menos medo, pesar ou raiva. Mantêm ao contrário, uma inclinação para a calma e a passividade. Mesmo em situações nas quais outros morrem de medo, os monges tibetanos exibem solene autocontrole mental. Literalmente: ameaçados de tortura pela ocupação chinesa, alguns preferiram a auto- anulação pelo fogo – com sorriso nos lábios, conta-se.

Para o estudo do controle emocional humano, a meditação dos monges seria o objeto de pesquisa ideal, afirma Davidson. Para sorte do pesquisador; o Dalai Lama, supremo representante do budismo tibetano, é bastante aberto às neurociências e já estimulou em diversas ocasiões encontro entre budistas, psicólogos e neurocientistas.

Davidson, portanto, pôs mãos à obra. Por meio da eletroencefalografia(EEG), registrou as ondas cerebrais de oito monges enquanto estavam mergulhados em práticas meditativas. Os participantes desse estudo tinham de 10 mil a 50 mil horas de meditação – não eram, portanto, iniciantes. Os padrões de seus EEG foram comparados aos de novatos em meditação que tinham passado por treinamento de apenas uma semana.

RUMO AO TlBET?

Resultado desse duelo desigual: durante a meditação, os monges apresentaram maior porcentagem das chamadas ondas gama – padrões velozes, de frequência entre 25 e 42 hertz -, que acompanham estados elevados de atenção. As ocorrências revelaram-se especialmente pronunciadas em duas regiões do lobo frontal, ambas envolvidas no controle das emoções. De acordo com Davidson, a atividade gama dos monges está entre as mais intensas já descritas na literatura não-patológica. Na opinião do pesquisador, esses parâmetros neuronais expressam a capacidade dos monges de controlar pensamentos e sentimentos, exercitada durante anos.

Devemos, então, partir todos para o Tibete e seguir o modelo dos monges budistas? Não necessariamente. Exemplos de outras culturas mostram que o controle bem-sucedido das emoções pode ser aprendido de diversas maneiras.

No final da década de 60, por exemplo, a antropóloga americana Jean Briggs viveu vários meses entre os utkus, tribo lnuit do ártico canadense. A pesquisadora espantou-se sobretudo com a raridade de conflitos entre eles. Submeteu sua anfitriã a questionários pormenorizados e observou seu dia-a-dia. Ao fazê-lo, constatou que a manifestação de emoções cognitivas, como irritação e raiva era extremamente malvista. Até mesmo os bebês eram ignorados pelos Utkus quando começavam a berrar. Adultos que, furiosos, levantassem a voz eram tidos ou por idiotas ou um perigo para a comunidade – o que a própria antropóloga teve o desprazer de experimentar na pele quando certa vez perdeu o controle diante da família que a hospedava: precisou de imediato encontrar novas acomodações.

Ainda assim, Briggs ficou tão fascinada com o convívio pacífico da tribo que descreveu suas pesquisas de campo num livro que se tornou clássico. Nele, recomendava tomar os utkus como exemplo no controle eficaz de emoções negativas. Nos anos seguintes, outros pesquisadores classificaram as conclusões da antropóloga como parciais. Ela teria, por exemplo, se deixado levar apenas pela expressão emocional que os utkus demonstravam, e não por relatos da vida emocional interior. Seria, portanto, possível supor que eles pertencem à categoria dos repressores de sentimentos.

Contudo, pesquisas mais recentes corroboram a hipótese de que valores e concepções culturais contribuiriam de fato para moldar a experiência subjetiva das emoções. Psicólogos culturais, como 1-Hazel R. Markus, de Stanford, sabem em que medida e condições socioculturais marcam o trato com as emoções – que podem ser tudo, menos reações determinadas por fatores biológicos. Markus comparou por exemplo, as posturas de americanos e japoneses com as emoções. Os padrões asiáticos demandam do indivíduo em geral um controle emocional mais rígido que aquele observado no Ocidente. Por essa razão, e de acordo com os resultados obtidos por Markus, os ocidentais avaliam negativamente o controle do próprio sentimento: veem-no como dissimulação ou engodo. Muitos chegam a identificar nesse intuito a possível causa de doenças físicas, tais como o câncer ou as enfermidades cardiovasculares.

Os japoneses, por sua vez são de opinião diferente. Para eles, o estado de espírito equilibrado é sinal tanto de saúde física e mental como de contentamento. E, de fato, a população japonesa está entre as mais longevas do mundo.  Assim, enquanto os americanos são mais adeptos do “pôr tudo para fora, os Japoneses se contêm na manifestação de irritação ou mesmo de alegria.

PAPÉIS MENTAIS

Se influências sociais e culturais nos ensinam desde crianças qual o trato “correto’ com os sentimentos, isso significa também que a capacidade de controlar emoções não tem raízes profundas e imináveis na personalidade humana. Valendo-se de estratégias apropriadas, qualquer um poderia, em princípio, aprender a conviver de forma saudável com suas emoções. Voltemos ao garçom atrapalhado, um método de controle emocional interessante para não explodir com o pobre homem consistiria, digamos, em nos colocarmos por um momento na pele dele. Essa mudança de perspectiva tenderá a suscitar compreensão, um pequeno atraso já não parece coisa tão dramática; afinal, não estamos com pressa, e a comida vai acabar chegando, mais cedo ou mais tarde. Graças a tal estratégia, podemos modificar impulsos negativos. E, com algum treino, ela nos permite ver as coisas com outros olhos, sem que a consciência se veja obrigada volta e meia nos repreender para que o façamos.

Todavia, muitas questões permanecem abertas. Por que algumas pessoas têm mais dificuldade em controlar as próprias emoções? Que estratégias de controle são mais eficazes? Como ele pode aprendê-las? O que podemos assimilar de outras culturas? Seja como for, o balanço provisório dos pesquisadores é esperançoso. Não estamos simplesmente à mercê dos nossos sentimentos. O ser humano deve – e pode – se tomar senhor das próprias emoções.

APRENDIZADO EMOCIONAL

Psicólogos distinguem pelo menos três aspectos diferentes na reação aos sentimentos: 1) os reflexos físicos deles decorrentes, tais como taquicardia ou suor, 2) sua expressão comunicativa, mediante gestos e linguagem e 3) o plano da atividade mental. Desde a década de 60, estudiosos das emoções vem se dedicando com ênfase à questão de como as experimentamos e Interpretamos subjetivamente. E isso porque a avaliação cognitiva de uma situação parece contribuir para nossa reação emocional ao mundo que nos cerca. Foi isso que demonstraram, por exemplo os psicólogos Stanley Schachter e Jerome Singer num estudo famoso: voluntários que, sem saber, receberam pequenas doses de adrenalina experimentaram altos picos ou grandes quedas de animo quando comparados respectivamente com tipos brincalhões ou sombrios.

Hoje, o aprendizado de estratégias cognitivas desempenha papel importante no tratamento dos transtornos do afeto, como a angústia e a pressão. Abordagens terapêuticas como a da “reelaboração cognitiva”, desenvolvida por Aaron Beck, auxiliam pacientes de forma sistemática a abandonar hábitos negativos de pensamento. Em vez de partir sempre da pior das hipóteses, procura-se reanalisar mentalmente momentos de crise. Para que uma tal reappraisal (reavaliação) tenha êxito, pode ser útil colocar-se no papel de outra pessoa (“há outros jeitos”), lmaginar cenárlos alternativos (“não estou em perigo”) ou voltar a atenção para aspectos positivos da questão. Mediante o exercício repetido, essas técnicas são, então, internalizadas e podem contribuir para manter impulsos negativos sob controle.

O poder do pensamento, no entanto, tem seus limites. Como descobriu o pesquisador americano Joseph LeDoux, com base em experimentos com animais no final da década de 90, por meio de conexões neuronais diretas, informações sensoriais recebidas estimulamos centros cerebrais da emoção no sistema límbico. Por essa via, desencadeiam-se reações rapidíssimas de pavor, sem que elas tenham de passar pelo refúgio do pensamento consciente, o córtex cerebral.

Mestres da emoção

 

Como se acalmar

IRIS MAUSS é formada em psicologia e doutoranda da Universidade Stanford, em Palo Alto, Califórnia, onde pesquisa de que forma controlamos a raiva e a irritação.

GESTÃO E CARREIRA

Divergências no trabalho

DIVERGENCIAS NO TRABALHO

Na internet, é comum os temas polêmicos tomarem conta das discussões. Mas como agir quando essa conversa acontece no escritório?

Você conhece o ditado: futebol, política e religião não se discutem. Apesar da máxima, esses temas tem sido objeto de brigas constantes nas redes sociais, como Facebook e Twitter. Em 2014 e 2015, foram assuntos relacionados à política, por exemplo, diferenças de forma respeitosa terá pouco lugar nas equipes. O caminho não é tão fácil: discutir com calma e respeito, como muitas coisas, é algo que só melhora com a prática. “O essencial é lembrar que nenhuma opinião surge do nada, diz Ana. Todo conjunto de ideia vem de determinado contexto histórico, moral e social. Ter essa consciência ajuda a avaliar com mais frieza tanto as próprias ideias quanto a dos outros e a ter argumentos mais sólidos e baseados nos conceitos apresentados –  e não nas pessoas em si. “Algo que fazemos muito é já pensar na resposta que daremos enquanto ouvimos o outro falar”, diz Ana. Isso quer dizer que, em vez de escutarmos com atenção o que estão dizendo para podermos reagir sobre o que foi apresentado, nos preocupamos mais em ter um discurso pronto e que vença, de vez, a discussão. Qualquer chance de ter aquela conversa com calma e com cuidado ao ouvir o outro diminui com essa atitude. Os mais citados no facebook entre os brasileiros: direitos humanos, impeachment, aborto e crises migratórias são outros temas que povoam as conversas na internet – e nas ruas. Afinal, se a discussão tem esquentado nas redes, não deixa de ter repercussão no nosso dia a dia. Brigas entre manifestantes de diferentes bandeiras políticas, casos de intolerância sexual e religiosa e denúncias de racismo são divulgados frequentemente. Mas o que fazer quando essas discussões invadem o ambiente de trabalho?

As estatísticas mostram episódios de violência e intolerância, mas, ao vivo e entre conhecidos, a história é um pouco diferente. “O brasileiro não sabe discutir e tem o hábito de evitar o debate”, diz Fernando Lanzer, autor de Cruzando Culturas.

Mas há certas situações em que não vale a pena insistir. Se um colega não está aberto ao debate, não adianta forçar. Também é pouco produtivo provocar alguém com quem você já discutiu outras vezes. E, quando o ambiente de trabalho estiver pedindo concentração em uma tarefa, o melhor é deixar as discussões para depois. Nesses casos, buscar alguma coisa em comum para manter o alinhamento da equipe como um objetivo da empresa ou um valor partilhado por todos, pode ajudar a manter um clima mais produtivo. No entanto, se você sentir que, por conta dessas diferenças, fica isolado do grupo e constantemente incomodado com as ideias defendidas pelos colegas, talvez seja hora de repensar se está realmente no lugar certo. Fica difícil fazer um bom trabalho em equipe e ficar feliz no dia a dia se não se identifica com a maioria das pessoas. Existem diversos ambientes corporativos, se você sentir que precisa mudara companhia inteira, é melhor você mesmo mudar, diz Lúcia Costa, diretora na consultoria Stato, de São Paulo.

Por outro lado, as empresas que estão interessadas em ter mais diversidade de ideias e de opiniões deveriam abrir um espaço para as discussões ocorrerem de maneira organizada. Precisa estabelecer alguns pressupostos, como jamais cair em desrespeito e manter a conversa estritamente no mundo das ideias, diz Fernando. Para quem quer disco dar de maneira mais saudável, antes de partir para assuntos muito polêmicos, o melhor é começar por temas neutros. Encarar toda conversa como uma forma de ganhar novas perspectivas é outra forma de iniciar o exercício. Perdemos muito quando não queremos ouvir o outro, quando não nos abrimos para o diferente”, diz Ana. Tantas ideias boas deixam de existir porque não temos coragem de falar algo menos popular.” Entender que as pessoas devem ser respeitadas e que as diferenças sempre existirão (e devem existir em uma democracia) é o primeiro passo.

ALIMENTO DIÁRIO

20180104_191605

MATEUS 5:1-2

O Sermão da Montanha

Aqui temos uma apresentação geral do sermão.

I – O pregador foi nosso Senhor Jesus, o Príncipe dos pregadores, o grande Profeta da sua igreja, que veio a este mundo para ser a Luz do mundo. Os profetas e João tinham trabalhado vigorosamente na pregação, mas Cristo os superou a todos. Ele é a Sabedoria eterna, que esteve no seio do Pai antes de todos os s éculos, e que conhecia perfeitamente a sua vontade (João 1.18); e Ele é a Palavra eterna que nestes últimos dias falou a nós. As várias curas milagrosas realizadas por Cristo na Galileia, que lemos no capítulo anterior, tiveram a intenção de abrir caminho para este sermão, e deixar as pessoas predispostas a receber instruções de alguém em quem se manifestavam tanto poder divino e tanta bondade, e, provavelmente, este sermão foi o resumo, ou a repetição, do que Ele tinha pregado nas sinagogas da Galileia. As suas palavras eram: ”Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus”. Este é um sermão sobre a primeira parte deste texto, mostrando do que devemos nos arrepender; ele deve modificar tanto o julgamento quanto o procedimento, e aqui o Senhor nos diz de que maneira isto deve ocorrer, em resposta à pergunta (MaIaquias 3.7) “Em que havemos de tornar?”. Posteriormente, Jesus pregou sobre a segunda parte do texto, quando, em diversas parábolas, Ele mostrou como era o Reino dos céus (cap. 13).

II – O lugar foi uma montanha na Galileia. Como em outros aspectos, também neste, o nosso Senhor Jesus estava mal acomodado; Ele não tinha um lugar conveniente onde pregar, corno não tinha um lugar onde repousar a cabeça. Enquanto os escribas e os fariseus tinham a cadeira de Moisés onde se sentar, com toda a comodidade, honra e cerimônia, e ali deturpavam a lei, o nosso Senhor Jesus, o grande Mestre da verdade, é levado ao deserto, e não encontra um púlpito melhor do que aquele fornecido por urna montanha; e não era nenhuma das montanhas sagradas, nem urna das montanhas de Sião, mas uma montanha comum, razão pela qual Cristo dá a entender que não existe distinção de lugares sagrados agora, sob o Evangelho, como havia sob a lei, mas que é a vontade de Deus que os homens orem e preguem em todas as partes, em qualquer lugar, desde que tudo transcorra de forma decente e conveniente. Cristo pregou este sermão, que foi uma explicação da lei, sobre uma montanha, porque sobre uma montanha a lei foi dada; e este sermão também foi uma solene promulgação da lei cristã. Mas observe a diferença: quando a lei foi dada, o Senhor desceu sobre a montanha; agora o Senhor subiu. Naquela ocasião, Ele falou em trovões e relâmpagos; agora, em voz suave; naquela ocasião, recomendou-se às pessoas que mantivessem distância; agora, elas são convidadas a se aproximar. Uma mudança abençoada! Se a graça e a bondade de Deus são (como certamente são) a sua glória, então a glória do Evangelho é a glória maior, pois a graça e a verdade vêm por Jesus Cristo (2 Coríntios 3.7; Hebreus 12.18 etc.). Falou-se de Zebulom e Issacar, duas das tribos da Galileia (Deuteronômio 33.19), que elas “chamarão os povos ao monte”; a este monte somos chamados, para aprender a oferecer sacrifícios de justiça. Agora este era o monte, do Senhor, onde Ele nos ensinou os seus caminhos (Isaias 2.2,3; Miquéias 4.1,2).

III – Os ouvintes eram os seus discípulos, que vieram até Ele; atenderam ao seu chamado, o que se entende comparando Marcos 3.13 e Lucas 6.13. A eles, Ele dirigiu suas palavras, porque eles o seguiram por amor e para o aprendizado, ao passo que os outros o procuravam somente para as curas. Ele os ensinou por­ que eles queriam ser ensinados {“aos mansos ensinará o seu caminho”); porque eles compreenderiam o que Ele ensinava, algo que par a outros poderia parecer não ter sentido. E porque eles deveriam ensinar aos outros, e, portanto, era necessário que eles tivessem um conhecimento claro e distinto destas coisas. Os deveres prescrios neste sermão devem ser conscientemente cumpridos por todos aqueles que desejam entrar neste reino dos céus. Eles devem trabalhar pelo seu estabelecimento, com a esperança de se beneficiarem dele. Mas embora este sermão se destinasse aos discípulos, ele foi ouvido pela multidão; pois foi dito (cap.7.28) que “a multidão se admirou”. Não houve limites ao redor desta montanha, para manter afastadas as pessoas, corno houve no monte Sinai (Êxodo 19.12); pois, por intermédio de Cristo, nós temos acesso a Deus, não somente para falar com Ele, mas para ouvir as suas palavras. Ele também se dirigiu à multidão quando pregou este sermão. Quando a fama dos seus milagres tinha reunido uma grande multidão, Ele aproveitou a oportunidade de uma confluência tão grande de pessoas para instruí-las. Observe é um incentivo para um ministro fiel lançar a rede do Evangelho onde há muitos peixes, com a esperança de que alguns sejam alcançados. A visão de urna multidão dá vida a um pregador, mas ela precisa nascer de um desejo pelo hem da multidão, e não do seu próprio louvor.

 IV – A solenidade do seu sermão é dada a entender pelas palavras “assentando- se”. Cristo pregou muitas vezes ocasionalmente, e por meio de conversas, mas este era um sermão definido, kathi santos aiitoii, em que Ele tinha se colocado de maneira a ser bem ouvido. Ele se sentou como um Juiz, ou um Legislador: Isto sugere a tranquilidade e a serenidade de espírito com que as coisas de Deus devem ser ditas e ouvidas. Ele se sentou, para que as Escrituras fossem cumpridas (MaIaquias 3.3): “E assentar-se-á, afinando e purificando a prata; e purificará os filhos de Levi e os afinará como ouro e como prata”. Ele se assentou “no tribunal, julgando justamente” (Salmos 9.4); pois as palavras que Ele disse irão nos julgar. As palavras “abrindo a boca” são uma perífrase em hebraico, como Jó 3.1. Mas alguns pensam que estas palavras sugerem a solenidade deste sermão; uma vez que a congregação era grande, Ele ergueu a sua voz e falou mais alto do que normalmente. Ele tinha falado muitas vezes por meio dos seus servos, os profetas, e abriu as suas bocas (Ezequiel 3.27; 24.27; 33.22), mas agora Ele abria a sua própria boca, e falava com liberdade, como alguém que tinha autoridade. Um dos antigos observa o seguinte: “Cristo ensinava mesmo sem abrir a sua boca, isto é, por meio da sua vida santa e exemplar”. De fato, Ele os ensinou quando, sendo levado como um cordeiro à morte, não abriu a sua boca. Mas agora Ele a abriu, e ensinou que as Escrituras deveriam se cumprir (Provérbios 8.1,2,6). “Não clama, por ventura, a Sabedoria?… No cume das alturas… os meus lábios se abrirão para a equidade”. Ele os ensinou, de acordo com a promessa (Isaias 54.13): “Todos os teus filhos serão discípulos do Senhor”; devido a este objetivo, Ele capacitou a língua dos eruditos (Isaias 50.4), concedendo-lhes o seu precioso Espírito (Isaias 61.1). Ele os ensinou qual era o mal que eles deveriam detestar e em qual bem eles deveriam perseverar, pois o cristianismo não é uma questão de especulação, mas se destina a regular a disposição das nossas mentes e a tendência das nossas conversas; a era do Evangelho é uma era de correção (Hebreus 9.10); e pelo Evangelho nós devemos ser corrigidos, devemos melhorar a cada dia, tornando-nos bons. A verdade ensinada pelo Senhor Jesus é a verdade que “é segundo a piedade” (Tito 1.1).

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Doença de Huntington - a dança mortal

DOENÇA DE HUNTINGTON : A DANÇA MORTAL

 Conhecida desde a Idade Média, a doença de Huntington é causada por mutação genética. Manifesta-se principalmente em adultos e provoca dor, fraqueza, espasmos, perda de mobilidade e até problemas cognitivos.

A doença de Huntington é uma patologia genética rara: determinadas áreas cerebrais são destruídas progressivamente. Ela leva inevitavelmente à morte. Desde que eu a mutação genética causadora da doença foi descoberta em 1993, a situação se modificou dramaticamente para os grupos de risco: após a maioridade, qualquer um pode realizar o teste e saber anos ou décadas antes do surgimento dos primeiros sintomas se vai padecer da doença de Huntington no futuro. Pois esse teste genético fornece um resultado certeiro – todo portador da mutação será, cedo ou tarde, vítima da doença.

O teste de DNA é tão assertivo porque a doença é causada por um único fator genético: o gene da extremidade cromossomo número 4 é um pouco mais longo em pacientes com Huntington que em pessoas saudáveis. Tipicamente, nesse gene os componentes do DNA citosina, adenina e guanina se sucedem repetidamente. Esse bloco CAG representa o aminoácido glutamina. Quanto mais vezes a combinação CAG aparece no DNA, maior a quantidade de glutamina no produto genético: a proteína também chamada huntingtina. Em um gene saudável, o bloco CAG se repete de 10 a 30 vezes. Se, no entanto, ele aparece mais de 37 vezes, então as características da proteína huntingtina se modificam de forma decisiva: quanto maior o número de repetições do CAG no DNA, mais longa a cadeia de glutamina na proteína, mais cedo a doença de Huntington se manifestará e mais penoso será o seu desenvolvimento.

Como é essencialmente hereditária – a mutação transmitida por apenas um dos pais já causa a doença – os riscos para parentes consanguíneos podem ser calculados com exatidão: 50% para os filhos, 25% para a geração seguinte.

Antes de realizar o teste de DNA, os consultores em genética humana do Centro Huntington da Universidade de Ruhr, Alemanha, procuram organizar a distribuição da doença na árvore genealógica da família a partir dos dados daqueles que os procuram. “Nossa avó se jogou na frente de um trem. Não deve ter sido acidente, conta Martin que teve diagnóstico positivo, ao lado da irmã mais nova, Susanne. “E o pai de nossa avó, nosso bisavô, se tornou um pouco estranho com a idade.”

A mãe de Martin teve a doença, mas naquele tempo ainda não era possível confirmar o diagnóstico pela genética molecular.

Martin e a irmã tornaram finalmente coragem para realizar o teste a fim de tirar a dúvida e planejar melhor sua vida pessoal e profissional. Susanne também é portadora da mutação.

Seus outros irmãos ainda não se dispus eram a fazer nenhum exame preventivo – por uma boa razão: o resultado do teste transforma pessoas fisicamente saudáveis em futuros doentes. Um teste de DNA, portanto, deve ser feito apenas depois de muita reflexão, pois uma vez que se conhece da predisposição genética, não se pode mais esquecê-lo.

Martin já apresenta os primeiros sintomas, como espasmos nos braços e nas pernas. Susanne permanece até agora sem manifestação, mas ela se pergunta se já não surgiram indícios inocentes que ela mesma não tenha percebido. A doença costuma se manifestar tipicamente entre os 35 e 45 anos e pode se desenvolver de formas muito diferentes mesmo entre parentes próximos. Sendo assim, irmãos podem padecer de Huntington em diferentes idades. No caso do filho de Martin, ninguém queria ou conseguia acreditar – nem mesmo os pediatras que o acompanhavam – que o menino já pudesse manifestar os primeiros sinais da doença antes dos 1O anos.

 As crises de dor, a fraqueza muscular e as inexplicáveis dificuldades de movimentação foram atribuídas a outras causas. Após seis anos da doença, o teste de DNA revelou doença de Huntington infantil causada por um gene huntingtina extremamente longo, com desenvolvimento atípico.

Mas por que a doença ataca cm fases tão diferentes da vida: Através de exames em pacientes, já conseguimos comprovar que, além da mutação do gene huntingtina, outros fatores hereditários também influenciam. Assim, existem no cérebro diversas variações das chamadas proteínas receptoras que produzem o transmissor glutamato assegurando, dessa forma, a emissão das informações entre as células nervosas. De acordo com a variante desses receptores, a doença se manifesta mais cedo ou mais tarde.

HISTÓRICO DA DOENÇA

Essa moléstia é conhecida há séculos. Na Alemanha da Idade Média, os “dançarinos exagerados” peregrinavam até a Veitskapelle (capela de São Vitus), em Ulm, na esperança de serem curados – dando assim o nome à doença: “Chorea Sancti Viti” ou “Dança de Veit”. Em 1872, o jovem neurologista americano George Huntington (1851-1916) descobriu que se tratava de uma doença hereditária. Junto com seu pai, ele acompanhou o destino de uma família afetada em Long lsland e conseguiu diferenciar claramente a doença da “Chorea Minor”, uma infecção por estreptococo de sintomas semelhantes. A tríade clínica descrita por Huntington – hereditariedade, tendência a distúrbios psíquicos e surgimento em idade adulta – ainda hoje é considerada típica da moléstia que recebeu o seu nome.

O sintoma que lhe dava o nome originalmente (do grego choreia, “dança”) refere-se aos movimentos “dançantes” exagerados dos membros como uma das suas características mais frequentes e marcantes. No início, os pacientes tentam disfarçar os pasmos abruptos como se fossem um sinal de embaraço, balanço de cabeça ou dar de ombros, ou procuram integrá-los a movimentos voluntários. Mas, pouco a pouco, a pessoa perde o controle da musculatura e faz caretas repentinas. Falar e engolir se tornam tarefas difíceis.

Em estágio avançado, as sequências de movimentos se tornam mais lentas e o tônus muscular elevado provoca a paralisia dos membros numa contração dolorosa. Os diversos sintomas, que vão muito além da ‘dança”, substituíram a denominação “Coréia Huntington”, por “doença de Huntington”.

Também são características graves distúrbios psíquicos, que antecedem em anos, às vezes em décadas, os sintomas motores. A própria doença pode provocar episódios de depressão – mas, antes, o stress dos pacientes causado pelo resultado positivo do teste eventualmente leva a variações de humor. Muitas vezes, os parentes percebem mudanças na pessoa afetada: eles passam a se comportar de forma paranoica, tiranizam os que estão à sua volta com ciúmes injustificados ou reagem com uma agressividade exagerada para situações insignificantes.

EFEITOS DELETÉRIOS

Eles falam durante dias e semanas sobre coisas irrelevantes, importunando a família e, não raramente, rompendo ligações sociais. A capacidade cognitiva dos pacientes se reduz, sua memória já não funciona bem e eles têm cada vez mais dificuldade de concentração. A doença se transforma por fim em grave demência com total desamparo. Os distúrbios psíquicos podem ter rapidamente efeitos catastróficos sobre a vida pessoal e profissional, sem descartar tentativas de suicídio –  algumas vezes até com uma brutalidade fora do comum.

Em compensação, a patologia é bastante rara: na Europa estima-se que há 45 mil afetados e, na América do Norte, 30 mil. Na Alemanha, uma em cada 10 mil pessoas tem Huntington, mas há pelo menos 6 a 8 mil com a mutação genética, e a quantidade de portadores desconhecidos deve ser considerável: a estigmatização social e mesmo a onda de eutanásia que houve durante o  período do nazismo  têm como efeito o silencio de muitas famílias sobre doenças hereditárias – muitas vezes com consequências desastrosas para as gerações seguintes.

Apesar da raridade, a doença de Huntington (modelo para várias outras doenças degenerativas – inclusive para males mais frequentes e conhecidos como Parkinson ou Alzheimer. A doença causa a destruição de neurônios em uma pane do cérebro chamada núcleo estriado ou striatum, que produz o neurotransmissor GABA. A redução de liberação desse neurotransmissor determina os movimentos involuntários e a degeneração mental progressiva.

Desde a descoberta do gene huntingtina os cientistas já adquiriram conhecimentos exemplares a respeito dos mecanismos que levam à destruição das células nervosas. Como a proteína huntingtina é a única causadora da doença, ela é perfeita para o estudo dos processos causadores.

A huntingtina em si não é uma proteína má. Em animais vertebrados, ela é aparentemente essencial para o desenvolvimento embrionário, pois ratos knock-out, alterados geneticamente para ter o gene huntingtina silenciado, morrem já em estágio embrionário. Supõe-se, porém, que a proteína huntingtina de comprimento anormal se conecte a outras proteínas importantes para a sobrevivência da célula, prejudicando, assim o seu funcionamento.

São afetados por esse processo, por exemplo, os chamados elementos reguladores de transcrição –  proteínas que asseguram a leitura ordenada da informação genética. Se a huntingtina, com a sua cadeia alongada de poli glutaminas, se liga a um desses reguladores de transcrição, a atividade genética da célula é sensivelmente prejudicada, a regulação da síntese de proteínas entra em colapso.

 Certas proteínas que eliminam neurotransmissores, como o glutamato, se instalam nas sinapses. Se essas proteínas falham, devido a um defeito no processo de síntese, então sobra glutamato na sinapse que estimula constantemente a célula conectada, a qual é então prejudicada. Tal modelo de toxicidade fatal pôde ser comprovado em experiências com animais: as células nervosas de ratos morreram depois que foi injetada quinolina nos animais, substância que age como o glutamato. Os roedores apresentaram sintomas típicos da doença de Huntington.

Há cada vez mais indícios de que a huntingtina participa da comunicação entre as células nervosas. Pois uma proteína ligada à huntingtina chamada HIPI (Hunting-lnteracting Protein1) regula, junto com outras proteínas existentes na membrana celular, a distribuição assim como a reassunção dos transmissores celulares. Devido à sua longa cadeia de poli glutaminas, a proteína huntingtina anormal não consegue mais se conectar corretamente à HIPI – com consequências fatais: a HIP1, então desimpedida, cria com a proteína HIP-Pl (HI Protein lnteractor) um complexo que dá início a uma cascata de enzimas. Entre vários outros processos, esse complexo ativa as chamadas caspases que, por sua vez, dão início à morte celular programada, a apoptose. A cascata provocada leva, assim, as células nervosas ao “suicídio”.

Devido à longa cadeia de poli glutaminas, a huntingtina corrompida é copiada de forma errada. Quando isso ocorre, entram em ação certas enzimas chamadas chaperon, ou acompanhante em inglês) que tem como tarefa, assim como as “damas de companhia”, consertar ou eliminar proteínas com defeito. Para tanto, elas transportam as proteínas defeituosas para o núcleo da célula e as decompõem.

COMUNICAÇÃO FALHA

Realmente, podem ser encontrados corpúsculos incrustados nos núcleos de neurônios prejudicados com partículas da huntingtina modificada. Com o desenvolvimento da doença, a quantidade desses pedaços de proteínas aumenta e, por fim, elas podem ser encontradas até mesmo fora do núcleo celular. Ainda não se sabe se as próprias partículas são as causadoras da doença ou se esta seria uma tentativa desesperada, mas fracassada, das células de eliminar os fragmentos de proteína soltos.

Uma outra teoria parte do princípio de que a huntingtina defeituosa atrapalha a transferência de energia das células nervosas. Pois foi possível observar que diferentes membros da cadeia respiratória das mitocôndrias, espécie de “usina energética” da célula, não funcionam mais corretamente. A falta de energia causada por esse fenômeno acaba levando à morte da célula.

E o que se pode fazer contra essa destruição fatal? A resposta é desanimadora: pouco, pois as opções medicamentosas até agora se limitam a combater os sintomas. Portanto, os neurologistas utilizam os chamados neurolépitcos, como a tiaprida e a tetra benzina. Originalmente desenvolvidos para o tratamento de psicoses esquizofrênicas, um de seus efeitos colaterais indesejáveis é a redução da capacidade motora dos pacientes – efeito desejável no caso dos afetados pela doença de Huntington.

Os médicos procuram combater os distúrbios psíquicos de seus pacientes com antidepressivos, sedativos ou neurolépticos antipsicóticos. Contra a perda da capacidade intelectual ainda não existe nenhum remédio eficaz.

Enquanto isso, vários grupos de estudo do mundo todo tentam atacar o mal pela raiz: eles procuram substâncias que desacelerem ou mesmo interrompam a decadência dos neurônios. Um exemplo de tais substâncias neuroprotetoras são os chamados antagonistas de glutamato, os quais influenciam a liberação do glutamato. O Riluzol, por exemplo, já se mostrou eficaz no tratamento de uma outra doença grave e de desenvolvimento acelerado do sistema nervoso, a esclerose lateral amiotrófica. A substância está sendo testada clinicamente em 450 pacientes de Huntington em um es tudo que abrange toda a Europa.

DOCE ALÍVIO

A minociclina, um antibiótico que era usado originalmente contra acne, também traz esperanças. Ela inibe as caspases, enzimas que causam a morte das células nervosas. O grupo de trabalho de Robert Friedlander, da Escola Médica de Harvard, em Boston, conseguiu, em 2003, interromper assim o avanço dos sintomas de Huntington em ratos.

Outras substâncias, por sua vez, conseguem impedir a aglutinação da proteína huntingtina.  A trehalose, açúcar existente em plantas desérticas, por exemplo, promete um doce alívio”, também em ratos, pesquisadores coordenados por Motomasa Tanaka, do Instituto Riken, em Wako, Japão, conseguiram com isso bloquear a aglutinação da proteína e o início da doença.

Médicos tentam também interferir na transferência defeituosa de energia das células através de substâncias como a coenzima Q e a creatina. A coenzima Q coleta radicais livres de oxigênio na forma de antioxidantes, enquanto a creatina, produzida no fígado e nos rins, funciona como depósito de energia nos músculos e no cérebro. Nesse caso, as experiências com animais também obtiveram sucesso, mas a comprovação de sua efetividade em seres humanos, bem mais cara e demorada, ainda não existe. E, por fim, ainda estão sendo testados medicamentos contra tumores como o fenilbutirato, que deve reabilitar a síntese de proteína, prejudicada pela huntingtina anormal.

Paralelamente a tais estudos farmacológicos, há experiências com terapia genética. Em 2005, cientistas coordenados por Scott Harper, da Universidade de Iowa, conseguiram impedir a leitura do gene huntingtina transmutado. Para tanto, os pesquisadores injetaram no cérebro de animais curtos trechos de RNA exatamente idênticos ao RNA que deveria ser produzido para a proteína huntingtina transformada e que, então, a bloqueavam. Os roedores passaram a produzir uma menor quantidade da proteína que provoca a doença – e a produção da huntingtina saudável não foi influenciada.

Pesquisadores depositam também esperanças nas células-tronco. No ano 2000, Anne-Catherin Bachoud Levi e seus colegas do Centro Hospitalar Universitário Henri Mondor, em Créteil, França, implantaram em pacientes com Huntington células-tronco neurônicas de fetos abortados na esperança de que substituíssem as células cerebrais destruídas. Três anos mais tarde, cientistas coordenados por Robert Hauser, da Universidade do Sul da Flórida, em Tampa, realizaram uma experiência semelhante. Alguns pacientes responderam bem ao tratamento, porém outros sofreram hemorragia cerebral e seus sintomas chegaram mesmo a piorar. Todos os pacientes tiveram de utilizar medicamentos para impedir a rejeição das novas células. E os efeitos de longo prazo do tratamento ainda não são conhecidos.

Portanto, para Martin ainda não existe uma substância que impeça a evolução impiedosa de sua doença. Porém, nunca foram abertas tantas novas possibilidades nas investigações sobre ela. Os cientistas e clínicos europeus se preparam para realizar grandes estudos e já participam do Euro Huntington’s Diseasc Network (Rede Europeia da Doença de Huntington) a fim de trocar informações e coordenar melhor grandes estudos. Várias pessoas do grupo de risco e afetadas pela doença estão dispostas a participar de tais estudos – sem elas, não seria possível alcançar o seu objetivo. Talvez Martin também consiga encontrar um caminho para lidar com sua doença de forma mais eficaz.                          

Repetição fatal

JÜRGEN ANDRICH e JÕRG T. EPPLEN – são médicos e pesquisadores do Centro Huntington (NRW) da Clínica Neurológica da Universidade de Ruhr, em Bochum, Alemanha.

GESTÃO E CARREIRA

Aprenda a ouvir

APRENDA A OUVIR

Para os americanos Sheila Heen e Douglas Stone, quem tem o real poder sobre o feedback é aquele que escuta as críticas, e não quem faz as sugestões.

Por que ainda temos tanta dificuldade em fazer um bom processo de feedback?  Foi essa questão que levou os americanos Sheila Heen e Douglas Stone a estudar o tema profundamente. Autores do livro Obrigado pelo Feedback e professores da Escola de Direito da Universidade de Harvard, eles notaram que há um erro na percepção geral dessa prática: as pessoas acreditam que, para ser eficiente, é preciso treinar quem dá feedback. Mas os estudiosos dizem que o mais importante é treinar quem recebe o feedback. Se isso não for feito, ninguém muda – por mais competente que seja quem está fazendo as críticas. A seguir, aprenda técnicas para receber melhor os conselhos dos outros.

OS GATILHOS DO FEEDBACK

Sheila e Douglas dizem que, embora existam várias maneiras de dar feedback, nossas reações a esse momento se resumem em três gatilhos emocionais, cada um deles é acionado por uma válvula diferente e provoca reações distintas na gente. O lado bom é que eles sempre se repetem e, ao conhecê-los, você já sabe de antemão qual será o resultado emocional.

PODER AOS RECEPTORES

Os especialistas Sheila Heen e Douglas Stone explicam por que precisamos treinar, os ouvidos para aproveitar, melhor os feedbacks.

O livro diz que é necessário treinar para receber o feedback, e não só para dá-lo. Por que isso é tão importante?

É o receptor que determina o que o feedback significa e se irá levar aquilo em consideração ou não. E é ele que se beneficia mais se engajando na conversa em busca de aprendizado e desenvolvimento. Profissionais que solicitam feedback – principalmente negativos tendem a ter avaliações de desempenho melhores. Em parte, isso acontece porque quem tem essa postura é visto como alguém confiante e possuidor de inteligência emocional. Mas acontece também porque quando você pede feedback você ganha o feedback, e quando você ganha” o feedback, você melhora.

O Brasil está em crise. Por isso, os líderes se sentem pressionados e dão feedbacks mais duros. Qual a maneira correta de agir?

Durante as crises, tudo se torna mais desafiador e é compreensível que os lideres ajam assim. De todo modo, durante tempos mais duros, além de fazer uma avaliação justa dos colegas e subordinados e de demonstrar como eles podem melhorar, é necessário mostrar gratidão. Todo ser humano quer se sentir necessário e valorizado e quer saber que seu trabalho é apreciado e faz a diferença. Quando a economia piora, as relações corporativas acabam lidando com o fantasma do estresse. E é durante esses períodos que os relacionamentos são mais importantes para a nossa felicidade e bem-estar. Os líderes têm a responsabilidade de cuidar bem deles.

Quando é melhor ignorar um feedback?

Receber bem um feedback não significa que você tenha que aceitá-lo sempre. Há inúmeras razões para ignorá­Io. Depois de pensar sobre aquilo, você pode decidir se o que foi dito é um bom conselho ou não. Ou pode decidir que não é a hora de melhorar aquele ponto especifico porque tem outras coisas mais importantes para desenvolver antes. Ou pode ser que você não concorde com o ponto de vista de quem dá o feedback. O erro que cometemos é rejeitar o feedback antes de compreendê-lo. É por isso que uma conversa franca e reciproca é tão importante.

ALIMENTO DIÁRIO

20180104_191613

MATEUS 4:23-25

Cristo Prega na Galileia

 Observe aqui:

I – Que pregador habilidoso Cristo era. Ele passou por toda a Galileia, ensinando nas sinagogas e pregando o Evangelho do reino. Entenda:

1.O que Crista falava sobre o Evangelho do reino. O Reino dos céus, isto é, o rei no de graça e glória, é enfaticamente o reino, o reino que estava chegando; o reino que iria sobreviver, que superaria todos os reinos da terra. O Evangelho compreende os estatutos deste reino, contendo o juramento de coroação do Rei, pelo qual Ele se obriga graciosamente a perdoar, proteger e salvar os súditos daquele reino e a procurar a sua honra. Este é o Evangelho do reino; dele, o próprio Cristo foi o pregador, para que a nossa fé no reino possa ser confirmada.

2.Onde Ele pregava. Nas sinagogas. Não apenas ali, mas ali principalmente, porque estes eram os lugares onde a multidão se reunia, onde a sabedoria erguia a sua voz (Provérbios 1.21); porque eram os lugares onde o povo se reunia para a adoração religiosa e ali, esperava-se, a mente do povo estaria preparada para receber o Evangelho; e ali as Escrituras do Antigo Testamento eram lidas, e a sua exposição poderia facilmente introduzir o Evangelho do reino.

3.O empenho que Ele tinha em pregar. Ele passou por toda a Galileia, ensinando. Ele podia ter publicado uma proclamação, convocando todas as pessoas para que viessem até Ele; mas para mostrar a sua humildade, e a condescendência da sua graça, Ele vai até eles; pois Ele espera ser gracioso e vir para buscar e salvar. Josefo disse que havia aproximadamente duzentas cidades e vilas na Galileia, e Cristo visitou todas elas, ou a sua maioria. Ele viajava fazendo o bem. Nunca houve um pregador itinerante assim, tão infatigável, como era Cristo. Ele ia de cidade em cidade, para pedir aos pobres pecadores que se reconciliassem com Deus. Este é um exemplo para os ministros, para que se dediquem a fazer o bem, e para que sejam insistentes e constantes, a tempo e fora de tempo, em pregar a palavra.

II – Que médico poderoso era Cristo! Ele viajava, não se limitando a ensinar, mas também curava. Ele ensinava e curava através da sua palavra, e a exaltava até mesmo acima de seu nome. Ele lhes dava a sua palavra e os curava. Note:

1.Que Ele curou todas as doenças, sem exceção. Ele curou todos os tipos de enfermidades, e todos os tipos de doenças. Existem doenças que são a vergonha dos médicos, sendo obstinadas a todos os métodos que eles podem prescrever. Mas mesmo aquelas foram a glória deste médico, pois Ele curou todas, por mais crónicas que fossem. A sua palavra era um verdadeiro remédio para todos os males.

Três palavras são aqui usadas para dar a entender isto. Ele curava todas as doenças, noson, como cegueira, deficiências físicas, febre, acúmulos de líquidos; todas as enfermidades, ou debilitações, malakian, como fluxos e fraquezas; e todos os tipos de aflições, basanous, como gota, cálculos, convulsões e outras perturbações semelhantes; fosse a doença aguda ou crônica, fosse uma enfermidade aguda ou enfraquecedora, nenhuma delas era terrível demais, nenhuma delas era difícil demais para Ele. Cristo curava a todos proferindo a sua palavra.

Três moléstias, em particular, são especificadas: a paralisia (os paralíticos), que é o maior enfraquecimento do corpo; a loucura (os lunáticos), que é o maior mal da mente; e a possessão demoníaca (os endemoninhados), que é a maior infelicidade e calamidade para o corpo e para a mente; e Cristo as curava, a todas; pois Ele é o Médico soberano, tanto do corpo como da alma, e tem poder sobre todas as doenças.

2.Os pacientes que Ele tinha. Um médico com acesso tão fácil, com um êxito tão garantido, que curava imediatamente, sem sequer um suspense doloroso, ou uma expectativa, ou aqueles remédios dolorosos que são piores que a doença; que curava gratuitamente, e não aceitava pagamentos, não podia evitar ter uma abundância de pacientes. Veja aqui, como as pessoas o procuravam. De todas as partes; grandes multidões vinham, não somente da Galileia e das regiões vizinhas, mas até mesmo de Jerusalém e da Judéia, que ficavam distantes; pois a sua fama per correu toda a Síria, não somente entre os judeus, mas entre as nações vizinhas, que, pelas notícias que agora se espalhavam por todas as partes a seu respeito, estariam preparadas par a receber o seu Evangelho, quando, posteriormente, ele fosse levado a elas. Entende-se que esta era a razão pela qual estas multidões vinham até Ele, porque a sua fama se espalhava de maneira tão abrangente.

3.O mistério que havia nelas. Cristo, ao curar as doenças do corpo, pretendia mostrar que a sua grande missão no mundo era curar as enfermidades espirituais. Ele é o Sol da Justiça, que se levanta com esta cura sob suas asas. Sendo o Transformador dos pecadores, Ele é o Médico das almas, e nos ensinou a chamá-lo assim (cap. 9.12,13). O pecado é a doença, a enfermidade e o tormento da alma; Cristo veio para tirar o pecado, e para curar os pecadores. E as histórias, em particular, das curas que Cristo realizou podem não somente ser aplicadas espiritualmente, como alusões e exemplos, mas, creio eu, têm a intenção de revelar-nos coisas espirituais e de nos mostrar o caminho e o método que Cristo usa para lidar com as almas, na sua conversão e santificação. E estas curas foram registradas, pois se­ riam mais significativas e instrutivas desta maneira; e devem, portanto, ser explicadas e compreendidas para a honra e o louvor daquele glorioso Redentor, que perdoa todos os nossos pecados e que cura todas as nossas enfermidades.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Os sonhos

OS SONHOS: NOSSO ORÁCULO BIOLÓGICO

Eles funcionam como simuladores que nos avisam sobre potenciais perigos ou oportunidades – Um verdadeiro “oráculo biológico” capaz de orientar e aconselhar sobre as melhores decisões a serem tomadas no mundo real.

 Quando as diferentes espécies do gênero Homo ainda se misturavam, matavam e amavam entre si, há 30 mil anos, sonhar já era um imenso mistério diariamente renovado. O que seriam esses mundos cheios de universos, verdadeiros cinemas neolíticos, tão vívidos e interessantes à percepção e à emoção? De que modo eram interpretadas essas imagens de gente, bisões, mamutes e tudo o mais que povoava as paredes e a imaginação de nossos arqui-tataravós, ainda tão longe da escrita, da roda e da agricultura? Seria real o mundo daqui ou o de lá? As crianças de hoje têm dificuldade para entender que seus sonhos de satisfação do desejo mais intensos não geram consequências quando elas despertam. E entre aborígines australianos não há dúvida: o mundo real é ilusão, o mundo dos sonhos é que é real.

Não que os outros mamíferos não sonhem. Sonham sim, sonham demais. Basta olhar seu cachorro de estimação dormindo para inferir a rica experiência onírica que devem ter os animais. O sonho ocorre majoritariamente numa fase específica do sono chamada REM (iniciais de rapid-eye-movement), movimentos rápidos dos olhos que caracterizam essa etapa, acompanhada de um completo relaxamento dos outros músculos do corpo.

Quando estamos mais distantes da ação do mundo real, ficamos imersos no interior dos sonhos. Os mamíferos que experimentam mais sono REM são os que ocupam o topo da cadeia alimentar – e por isso não têm muito receio da predação. Os campeões do sono são os felinos, canídeos e símios, dominantes em suas esferas por força das presas, garras ou ação coletiva articulada. Provavelmente, os sonhos desses animais devem ser construídos em torno dos imperativos darwinistas de matar, não morrer e procriar, simulações de comportamentos adaptativos, ensaios de atos essenciais. Mas não, nenhum cão jamais sonhou com a riquíssima variedade de símbolos típica dos humanos. Quando José interpretou os sonhos do faraó no Egito imemorial, tratava-se de um fenômeno essencialmente humano. Como chegamos a isso? Sonhar deve ter sido profundamente perturbador para nossos ancestrais por milênios incontáveis de noites intensamente estreladas e mágicas. Longuíssima noite dos xamãs oníricos através de glaciações e degelos, até a ideia de que o sono e a morte são apenas passagens para outras vidas, gerando coisas completamente novas na cultura primata: as tumbas multicoloridas, as múmias, os sacerdotes sibilantes e os intérpretes de sonhos. De que modo esses elementos culturais se entrelaçaram na gênese da consciência humana é mistério a ser decifrado nos fragmentos de texto remanescentes da Antiguidade. Sabemos por meio desses escritos que cabia aos intérpretes oníricos decifrar as mensagens recebidas em sonhos pelos reis e chefes militares. Como eram tais sonhos?

Os textos mais antigos indicam que eram sonhos de aconselhamento ou comando das ações do sonhador, tipicamente advindos de ancestrais já falecidos. Uma inscrição egípcia de 4 mil anos atrás proclama “instruções que sua majestade o rei Amenemhet I deu ao seu filho quando lhe falou num sonho”. No Épico de Tukulti-Ninurta – rei assírio possivelmente identificado como Nimrod, bisneto do bíblico Noé -, um bem preservado texto cuneiforme escrito em acádio narra a aparição em sonhos de anjos enviados pelo poderoso deus Marduk para consolar e aconselhar o protagonista. Quase mil anos depois, ainda no Império Assírio, presságios oníricos eram coletados em volumes como o Ziqiqu, que estabelecia associações entre eventos ocorridos em sonhos e suas consequências.

Na Antiguidade, era comum ouvir em sonhos as vozes dos mortos. Conta a lenda que Anfiarau, heroico príncipe de Argos famoso por seus poderes divinatórios, suicidou-se do alto de uma ravina por influência de um Zeus colérico. Na vida real, essa ravina na Beócia tornou-se um foco de peregrinação, pois acreditava-se que de suas profundezas ecoava a voz do príncipe morto murmurando conselhos. Com o tempo ali se estabeleceram sacerdotisas que passaram a mediar as consultas, sobretudo através da interpretação dos sonhos dos peregrinos. Mas nem sempre os personagens oníricos traziam conselhos, às vezes eram apenas ecos fantasmagóricos dos que haviam morrido. Na Ilíada, provavelmente escrita no século 8° a.C., o semideus Aquiles é visitado em sonho pelo espírito de Pátrodo, morto em batalha contra os troianos. Quando Aquiles tenta abraçar seu melhor amigo, este simplesmente desaparece no chão fazendo ruídos estranhos…

A sequência causal entre memórias reverberantes, sonhos e impressões dos antepassados foi proposta em 1976 por Julian Jaynes, psicólogo da Universidade Princeton, no célebre livro The origin of consciousness in the breakdown of the bicameral mind (“A origem da consciência no colapso da mente bicameral”). Jaynes postulou que na aurora de nossa consciência atual encontram-se as memórias dos comandos verbais proferidos pelos chefes dos clãs. Tais comandos reverberavam no sistema auditivo de modo a permitir o trabalho continuado ao longo do dia, caçando, coletando, pastoreando, plantando, lutando e trabalhando arduamente mesmo na ausência do chefe por horas a fio. Esses líderes – em geral parentes de todo o grupo -, ao morrer, tinham o corpo untado, pintado e embalsamado com esmero e adoração… e deixavam reverberando em seus súditos as memórias de suas vozes plenas de autoridade. Uma reverberação que era mais forte nos sonhos do que na vigília, pela mera ausência de interferência sensorial propiciada pelo sono. Desses sonhos nasceram Marduk e os outros deuses da Babilônia, bem como todos os inúmeros deuses mais antigos. E com eles a casta de pessoas que ajudavam, de todas as formas possíveis, o transe místico dos que podiam evocar e interpretar as diretrizes divinas. Sacerdotes, pitonisas e outros oráculos divinatórios tiveram um grande poder real, fato bem ilustrado pelo escravo judeu José feito vizir no Egito por ter oferecido uma interpretação satisfatória dos sonhos do faraó.

Mas chegou o tempo em que ruíram as sociedades piramidais colossais, em que centenas de milhares de pessoas eram comandadas por um deus vivo que alucinava as vozes dos deuses mortos. Nessa ruína em que o número de bocas a alimentar e de fronteiras a proteger era maior do que toda a sabedoria dos velhos deuses, suas vozes se calaram. Do Eufrates ao Nilo os textos remanescentes denunciam esse silêncio, até que se rompeu a separação mental entre deuses e humanos. Passamos a entender que a voz incessante de nosso diálogo interno é apenas nossa, não de outra entidade. Desapareceram as pessoas bicamerais, que escutavam anjos e demônios. Surgiram as pessoas unicamerais, unificadas na representação de um “eu” autônomo que dispõe de um vasto repertório de memórias não para alucinar, mas para imaginar planos. Não mais o bicameral, brutal e ingênuo Aquiles que, sem passado ou futuro, apenas buscava a glória movido por comandos divinos. Agora sim, o unicameral Ulisses, “eu” cheio de estratagemas capaz de enganar os troianos num cavalo de madeira, antever os efeitos nefastos do canto das sereias, ludibriar Polifemo com seu conhecimento da mente alheia e principalmente viajar de maneira persistente por dez anos numa odisseia dolorosa, a fim de reencontrar esposa e filho na Ítaca distante. Hoje somos todos Ulisses em nossa capacidade de planejar o futuro usando as memórias do passado como antecipação da recompensa para levar adiante o trabalho. Aqueles hoje em dia que não vivenciam essa fusão, aqueles ainda cindidos numa mentalidade de múltiplos compartimentos seriam os esquizofrênicos. Platão comparou o delírio psicótico a um sonho perpétuo em que alguns homens acreditavam “que eram deuses e podiam voar”.

Impossível recontar nossa história sem mencionar os oráculos oníricos que hoje seriam chamados de loucos, mas que em sua época eram agentes sociais e políticos valorizados e sacralizados. Fundamentais durante muitos milênios, paulatinamente perderam importância e foram relegados, nos séculos mais recentes, ao limbo das superstições, no qual submergiram magos e profetas, até que o fenômeno onírico foi resgatado pela psicanálise.

Integrar toda essa evidência histórica com a ciência contemporânea é uma tarefa que apenas recentemente começou a ser possível. Um dos maiores avanços veio da pesquisa realizada nos anos 90 pelo psicanalista e neuropsicólogo Mark Solms, da Royal London School of Medicine. Estudando centenas de pacientes neurológicos, Solms descobriu que a capacidade de sonhar – mas não o sono REM – é especificamente abolida por lesões dos circuitos dopaminérgicos relacionados a recompensa e punição. Essa descoberta disso­ ciou pela primeira vez o sonho do sono REM, dando um sentido surpreendentemente exato à celebre noção freudiana de que o desejo é motor do sonho.

Apesar do desprezo com que o sonho foi tratado pela biologia e medicina do século 20, a interpretação onírica foi preservada no mundo ocidental por meio da cultura divinatória do povo iletrado, bem como no divã dos psicanalisados pelo método de Sigmund Freud e seus tantos seguidores. Carl Jung, seu colaborador, discípulo e desafeto, afirmou que “o sonho prepara o sonhador para o dia seguinte”. Em 2010, foi demonstrado pela primeira vez de forma sistemática e quantitativa um papel cognitivo para os sonhos. Os pesquisadores Robert Stickgold e Erin Wamsley, da Escola de Medicina da Universidade Harvard, estudaram a relação do repertório onírico com o desempenho de voluntários experimentais na navegação de um labirinto virtual. Os pesquisadores descobriram que apenas os voluntários que relataram sonhar com o labirinto tiveram melhora substancial de desempenho quando jogaram novamente, horas depois. Sonhos com outros assuntos distintos do labirinto não foram acompanhados de benefícios cognitivos: apenas pensar no labirinto, em estado de vigília, tampouco resultou em efeitos benéficos. Os resultados demonstraram que sonhar é adaptativo – e não simplesmente um epifenômeno do sono. Em 2012, um grupo de pesquisa liderado por Yukiyasu Kamitani nos laboratórios ATR de Neurociência Computacional, em Kyoto, publicou a primeira tentativa bem-sucedida de decodificar o conteúdo de um sonho, isto é, de reconstruir o enredo onírico com base apenas no sinal extraído do cérebro.

Com essas mais recentes descobertas, começa a ser delineado um cenário emocionante da evolução dos sonhos em nossa linhagem. A capacidade de imaginar o futuro com base no passado, eixo central de nossa consciência reflexiva, talvez represente a invasão durante a vigília de algo muito mais antigo, que é justamente a capacidade de sonhar. A função primordial dos sonhos teria sido, então, a de simuladores capazes de avisar sobre potenciais perigos ou oportunidades – um “oráculo” biológico que aconselhas se ou orientasse as pessoas sobre as melhores decisões a tomar num provável mundo real.

Tal oráculo não seria determinístico, e sim probabilístico, produzindo “palpites bem informados” que, a julgar pelo registro histórico, tiveram um papel poderoso na passagem do homem pré-histórico até nossos dias. As vantagens desse oráculo são evidentes, pois nada do que é simulado no mundo dos sonhos acarreta risco real para o sonhador.

Segundo essa teoria, nossos antepassados produziram em sonhos, protegidos pelo manto do sono, as ideias mais criativas e transformadoras de nossa espécie. Com o tempo desenvolveram complexos rituais para acessar o conhecimento oculto nas brumas oníricas. Em pouco tempo já não ousavam fazer qualquer coisa sem tal aconselhamento, dependendo dele para planejar as caçadas, determinar as colheitas, iniciar guerras e escolher as datas dos casamentos e demais eventos de importância social.

Que sorrisos dariam Freud e Jung se tivessem vivido para conhecer essas ideias? Que expressão de assombro veríamos nas faces de um sacerdote assírio ou xamã siberiano se pudessem observar, com seus próprios olhos, um sonho revelado não por uma pitonisa, mas por um escâner de ressonância magnética funcional? Seus olhos certamente brilhariam e então talvez suas pálpebras se fechassem para sonhar um sonho louco.

Motivos para mudar os planos

Ainda hoje, muitas pessoas interpretam sonhos como aviso ou premonição digna de orientar ações de compra e venda, casamentos, ocorrências trágicas, viagens, contratos e apostas a dinheiro. Numa pesquisa realizada por pesquisadores das universidades Carnegie Mellon e Harvard com passageiros do metrô, a maioria dos entrevistados declarou que os sonhos têm impacto efetivo em seu comportamento cotidiano, influenciando suas relações sociais (67%) e tomada de decisões (52%). Essa influência foi justificada pela crença de que os sonhos podem prever o futuro (68 %). Foi pedido aos participantes que imaginassem possuir um bilhete marcado para viagem aérea e lhes foi perguntado como reagiriam caso experimentassem um dos quatro cenários alternativos a seguir: alerta de ameaça terrorista, pensamento consciente na vigília sobre um possível acidente aéreo, sonho sobre um acidente aéreo e notícia sobre um acidente aéreo real. Curiosamente, os participantes declararam ter mais possibilidade de alterar seus planos de viagem em resposta ao sonho do que em qualquer outro cenário – até mesmo no caso de acidente de verdade.

Emoção, memória e aprendizagem

Para entender para que serve o sonho, necessitamos compreender algo básico: o homem contemporâneo tende a esquivar-se de todo risco. Em vez de caçadas perigosas coletas incertas, fazemos visitas regulares ao supermercado. No lugar de turnos de guarda noturna alternados para evitar um ataque traiçoeiro na madrugada, temos a segurança de muros, portas trancadas e alarmes. Em lugar de pedras e peles, dormimos sobre colchões anatômicos. Não enfrentamos dificuldade de encontrar parceiros sexuais férteis que não sejam parentes próximos, apenas o risco de levar um não de uma pessoa desconhecida numa festa ou bar. Se os sonhos alguma vez foram essenciais para nossa sobrevivência, já não o são. Isso não quer dizer, entretanto, que os sonhos não mais desempenhem um papel cognitivo.

Para esclarecer que papel é esse, é preciso em primeiro lugar desconstruir a noção de que os sonhos refletem algum tipo de processamento neuronal aleatório. Embora regiões profundas do cérebro de fato promovam durante o sono REM um bombardeio elétrico aparentemente desorganizado do córtex cerebral, há bastante evidência de que os padrões de ativação cortical resultantes desse processo reverberam memórias adquiridas durante a vigília. Mesmo que não soubéssemos disso, bastaria um pouco de reflexão e introspecção para refutar a teoria aleatória dos sonhos. A ocorrência múltipla de um mesmo sonho é um fenômeno detectável, ainda que ocasional, na experiência da maior parte das pessoas. Pesadelos repetitivos são sintomas bem estabelecidos do transtorno de estresse pós-traumático, que acomete indivíduos submetidos a eventos excessivamente violentos. Dada a imensa quantidade de conexões neuronais existentes no cérebro, seria impossível ter sonhos repetitivos se eles fossem o produto de ativação ao acaso dessas conexões.

Além disso, sonho e sono REM não são o mesmo fenômeno e sequer têm bases neurais idênticas. Temos certeza disso porque existem pacientes neurológicos que perdem a capacidade de sonhar, mas não deixam de apresentar o sono REM. Nesse caso, as regiões lesionadas, descritas por Mark Solms, são circuitos relacionados com a motivação para receber recompensas e evitar punições. Essas estruturas utilizam o neurotransmissor dopamina para modular a atividade de regiões relacionadas à memória, emoção e percepção. Sonhar com algo na vigília é o mesmo que desejar – e é exatamente de desejo que são feitos os sonhos. Curiosamente, são os níveis de dopamina que, em experimentos com camundongos transgênicos, regulam a semelhança entre os padrões de atividade neural observados durante o sono REM e a vigília. Portanto, a ideia de que psicose é sonho, ridicularizada por décadas, também encontra apoio na neuroquímica moderna.

E ainda, ao contrário da teoria de que os sonhos são subproduto do sono sem função própria, prevalece cada vez mais a noção de que o sono e o sonho são cruciais para a consolidação e a reestruturação de memórias. Ambos os processos parecem ser dependentes da reverberação elétrica de padrões de atividade neural que ocorrem enquanto dormimos e representam memórias recém-adquiridas. Essa reverberação se beneficia da ausência de interferência sensorial durante o sono e resguarda o processamento mnemônico de perturbações ambientais. A reverberação é favorecida também pela ocorrência de oscilações neurais durante o sono sem sonhos, chamadas de ondas lentas. Os pesquisadores Lisa Marshall, Jan Born e colaboradores da Universidade de Lübeck, na Alemanha, demonstraram que é possível aumentar a taxa de aprendizado realizando estimulação elétrica de baixa frequência durante o sono de ondas lentas.

Em contrapartida, como venho demonstrando junto com outros grupos de pesquisa desde 1999, o sono REM parece ser fundamental para a fixação de longo prazo das memórias em circuitos neuronais específicos. Esse processo depende da ativação de genes capazes de promover modificações morfológicas e funcionais das células neurais. Tais genes são ativados durante a vigília quando algum aprendizado acontece e voltam a ser acionados durante os episódios de sono REM subsequentes. Como resultado, memórias evocadas por reverberação elétrica durante o sono de ondas lentas são consolidadas por reativação gênica durante o sono REM.

Essa reativação cíclica das memórias em diferentes fases do sono e da vigília vai paulatinamente fortalecendo os caminhos neurais mais importantes para a sobrevivência do indivíduo, enquanto as memórias inúteis são gradativamente esquecidas.

Experimentos eletrofisiológicos e moleculares mostram ainda que as memórias migram de um lugar para outro do cérebro, sofrendo importantes transformações com o passar do tempo. Meu laboratório tem mostrado que áreas do cérebro envolvidas na estocagem temporária de informações, como o hipocampo, apresentam reverberação elétrica e reativação gênica apenas durante os primeiros episódios de sono após o aprendizado. Em contraste, áreas do córtex envolvidas na armazenagem duradoura das memórias apresentam persistência desses fenômenos por muitos episódios de sono após a aquisição de uma nova memória.

PASSAGEM BIBLICA: o faraó sonhou com sete vacas magras que devoravam novilhas gordas, o que foi interpretado por José do Egito como um prenúncio de anos de fartura seguidos por um período de miséria

José interpreta o sonho de faraó

José interpreta o sonho de faraó.2

José interpreta o sonho de faraó.3

SIDARTA RIBEIRO é neurobiólogo, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e professor titular da UFRN.