EU ACHO …

PEQUENO BREVIÁRIO DO DESEJO

Como pernas poderiam ser tão essenciais no mundo?

Encantadoras. O que elas pensam? Quando moleques, assistindo-as pular corda, o sonho era que o vento levantasse suas saias e pudéssemos contemplar o segredo das suas calcinhas. Desde cedo, o lento caminho da maturidade estaria marcado pela descoberta que muito do mistério da vida residia entre as pernas das mulheres.

Suas conversas. Tanta conversa, tudo parecia interessante quando comparado a nossa maior vocação ao silêncio. Como ficavam lindas de uniforme escolar. Seus cadernos coloridos, arrumadinhos – poder carregá-los era uma forma de eleição.

A vergonha de olhar no olho delas. De trair o medo da recusa. Um “não” público seria um trauma a resolver na solidão dos intervalos de aula. A inveja do colega que sabia falar com elas sem medo. Que as fazia rir. Logo, descobriríamos que fazê-las rir era uma chave para o sucesso. Antes que o mundo fosse arrastado pelas angústias dos ganhos materiais como suspeita de condição necessária para a sedução, fazê-las rir era, seguramente, o caminho para seus corações.

As brigas entre nós moleques, como forma de galinhos se mostrarem. A vontade ruidosa de que capturássemos um olhar escondido delas em nossa direção.

À medida que os anos se passavam, toda essa dança tomou, cada vez mais, a forma de arte. Demorava um tempo para que um moleque deixasse de ser um orangotango e conseguisse articular duas palavras diante de uma colega linda sem gaguejar.

Agora a coisa ficaria mais séria. Chegava o momento em que elas queriam ser beijadas, mas escolhiam a dedo o felizardo que receberia o troféu. E, ainda que existam muitas teorias sobre como funciona o desejo feminino, fato é que ser escolhido por uma delas sempre pareceu um tanto obra da contingência.

Com o passar do tempo, quase tudo parecia ser devorado por essa dança que as meninas executavam. Seus desejos, modo de falar e de agir como centro das nossas expectativas. A descoberta do que a palavra “gostosa” queria dizer era como a descoberta de todo um continente.

De fato, tínhamos vontade de pôr a boca nelas, seja onde fosse. Parecia haver um gosto delicioso e incógnito a ser descoberto. Por isso tantas músicas eram dedicadas ao que chamavam de amor.

Mas o grande desafio era quando as festas aconteciam, porque elas se preparavam como se aquela noite fosse a primeira noite do mundo, ou a última. Qualquer erro de abordagem poderia determinar sua humilhação. A festa estaria acabada para você, a menos que alguma outra mais generosa levasse em conta sua miséria e mau jeito na lida com esses seres, que, naquela época, pareciam ser o centro do mundo.

Cheirosas. Quando começavam a usar batom, então, atingiam o grau máximo de letalidade para os mais fracos, ou mais apaixonados.

Suas pernas. Como pernas poderiam ser tão essenciais no mundo? Mas eram. Seus seios. Misteriosamente, pareciam nos pedir beijos. Mas todo e qualquer beijo seria fruto de algum tipo de competência no modo de aproximação. Uma arte: estudar seus gestos, o modo de mexer no cabelo, de como olhar obliquamente para o mundo a sua volta. O mundo estava dividido entre aqueles que dominavam essa arte e os que permaneciam no mundo dos incapazes.

Hoje todo esse mundo passou a ser domínio de camadas hermenêuticas superpostas. Essa palavra difícil, técnica, figura o terreno pantanoso em que esse mundo, aparentemente ingênuo e espontâneo, se tornou. São muitas as camadas interpretativas – portanto, hermenêuticas – que tomaram de assalto esse território do desejo entre meninos e meninas.

A percepção da fragilidade feminina e o desejo de cuidar delas passou a ser signo do pequeno patriarcado instalado ali nos hormônios do futuro predador sexual tóxico que seria esse menino. Se antes ele enxergava encanto ali, agora enxergava risco de algum tipo de comportamento suspeito de sua parte.

A partir do momento em que todo esse universo passou a ser lido pela chave das teorias da opressão entre os sexos, fundou-se um outro universo, no qual a indiferença passou a ser um modo de sobrevivência.

LUIZ FELIPE PONDÉ – É escritor e ensaísta, autor de ‘notas sobre a esperança e o desespero’ e ‘Política no Cotidiano’. É doutor em filosofia pela USP

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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