EU ACHO …

DEU CERTO! E AGORA? NÃO DEU CERTO! E AGORA?

“Vida, minha vida/ Olha o que é que eu fiz” (Chico Buarque, “Vida”)

Achei que dava e realmente deu certo. Consegui o meu intento. E agora?

Existem pessoas que, passada a euforia de uma conquista, experimentam uma sensação de vazio. Especialmente após terem êxito em uma empreitada que demandou esforço intenso ou que carregava o risco de não se realizar. Elas não veem mais graça em desafios menores ou em voltar a uma condição mais cotidiana.

Um  sentimento  semelhante  ao  que  expressa  o  compositor  baiano  Raul Seixas (1945-1989), na sua música “Ouro de tolo”: “Eu devia estar contente/ Por ter conseguido tudo o que quis/ Mas eu confesso, abestalhado/ Que estou decepcionado”.

A forma de se relacionar com aquilo que é considerado sucesso pelo senso comum carrega uma série de nuances. Em alguns casos, é mais complexa do que assimilar um fracasso. Se o insucesso for visto como oportunidade de aprendizado e aperfeiçoamento, a atitude mais saudável é reerguer-se e seguir em frente.

Mas essa relação depende muito da visão que se tenha de sucesso. Há pessoas que confundem sucesso com notoriedade. A busca é mais por serem famosas do que relevantes ou contributivas. Outras se importam menos com visibilidade, pois têm consciência do valor daquilo que fazem. Sucesso, por esse ponto de vista, vem da satisfação de ter feito algo com maestria, mesmo que não apareça tanto. Já outro tipo de pessoa se orienta apenas pelo resultado, menosprezando o processo. A seleção brasileira que jogou a Copa do Mundo de 1982 fracassou? Para quem é resultadista, sim. Para quem aprecia o futebol bem jogado, aquele é um time memorável.

Entre as ciladas que o sucesso pode trazer está a acomodação. Atingir o objetivo leva muitas pessoas a repousarem sobre a conquista. Em ambientes competitivos, essa atitude pode cobrar um preço alto, pois os concorrentes continuam mobilizados e desenvolvendo competências. Outra cilada é a da mediocridade. A pessoa consegue seu intento e depois passa a fazer mais do mesmo ou a achar que tudo o que faz está ótimo, porque teve aceitação anteriormente. Esse é um grande passo para cair na mediocridade.

O sucesso deve ser celebrado, especialmente quando resulta de um esforço honroso em tê-lo conseguido. Vale curtir a glória, mas sem perder a perspectiva de que ela é momentânea. Nada indica que o êxito vai se repetir na empreitada seguinte. O livro mais desafiador para um escritor costuma ser o segundo. Porque, mesmo que o primeiro tenha virado best-seller, pode ter resultado de uma conjunção de acasos favoráveis. Esse é um fenômeno relativamente comum na indústria da música. Há até a expressão em inglês “one hit wonder” para artistas que explodem na parada e depois não conseguem emplacar outro sucesso.

As pessoas que se sentem desmotivadas após conquistarem grandes feitos talvez devessem refletir sobre qual a razão de se fazer algo. Nos anos 1980, no auge do modelo yuppie (corruptela de young urban professional, que designava jovens executivos ambiciosos), o parâmetro de sucesso era o primeiro milhão de dólares amealhado. O que vem depois? Dois milhões, três milhões? Essa elevação da barra é uma possibilidade. Outra é atingir um milhão e estabelecer como próxima meta a fundação de uma associação de apoio a crianças em situação de vulnerabilidade social. Não há uma única maneira nem uma única coisa a fazer na sequência de uma conquista.

O criador da Microsoft, Bill Gates, é frequentador das listas de homens mais ricos do mundo. Em 2000, com a esposa Melinda, ergueu uma fundação que leva o nome do casal e se dedica a melhorar a condição de vida de pessoas, com ênfase no combate à pobreza e no incentivo para avanços na área da saúde. A entidade já destinou cerca de 4,5 bilhões de dólares para o combate de doenças como tuberculose, malária e Aids. Alguns poderiam dizer: “Doou porque tem”. Temos de lembrar: mas doou! Tem gente que tem de sobra e não doa.

A pessoa que consegue chegar ao ponto máximo em sua trajetória tem um desafio que é, se desejar, construir um outro ponto máximo, que não pode ser o mesmo ou um ponto acima, porque, a depender da situação, não há mais. Se ela insistir nessa perspectiva, é enorme a chance de cair no vazio.

Eu, Cortella, fiz carreira acadêmica, cheguei a professor-titular de uma universidade. O que tem depois de professor-titular? Não tem. Significa que encerrei a minha trajetória profissional? Não. A minha carreira não era só verticalizada. A minha noção de carreira também é horizontalizada. É como uma árvore, com galhos que crescem em várias direções. Ao chegar à condição de professor-titular, eu procurei oportunidades de publicar outros livros, de ter uma participação mais ativa na mídia, de fazer palestras. Então, eu não cheguei ao fim, cheguei ao topo de um dos modos da carreira. Havia toda uma ramificação de projetos possíveis não atrelados diretamente ao mundo acadêmico. Ser professor-titular de uma universidade foi honroso, resultado de dedicação, de concurso, de produção de material, de ser avaliado por bancas. Mas não era o último lugar, era o último passo num dos caminhos possíveis.

Isso vale para outras situações. Como a “síndrome do ninho vazio”, quando os filhos vão embora de casa. Muitos casais se questionam: “O que vamos fazer só nós dois aqui?”. Podem ficar em modo enfadonho ou melancólico, olhando os cômodos vazios. Mas podem também, liberados das responsabilidades em relação aos filhos, se matricular em um curso de dança de salão, dedicar-se a alguma forma de arte, destinar algum tempo a trabalhos voluntários, participar mais ativamente de ações para melhorar a região em que vivem.

Com imaginação e disposição, ainda dá para fazer muito em um mundo onde há muito por fazer.

Porém, temos que nos lembrar de um necessário “ainda dá”, que é também usarmos a nossa energia e inteligência individuais para a obra coletiva mais relevante: o cuidado com a Vida!

Lucrécio  (ca.  94  a.C.-50  a.C.),  pensador  latino,  escreveu:  “A  ninguém  foi dada a posse da vida, a todos foi dado o usufruto”. Sabemos: esse usufruto é comum  e  temos  de  participar  ativa  e  conscientemente  do  “ainda  não  deu, mas dará” coletivo.

Como dissemos desde o começo, o “ainda dá” é uma força intrínseca de cada indivíduo. Entretanto, existem muitos desafios que requerem uma conjunção de vários “ainda dá” em relação a este condomínio que habitamos.

Falamos em diversas situações que é preciso olhar para a frente, pois é no futuro que está a meta a ser conquistada, a linha de chegada do que projetamos. Porém, é no futuro também que se anunciam desafios de vulto, com os quais devemos nos preocupar e agir desde agora, porque envolvem as futuras gerações.

Atualmente somos cerca de 7,2 bilhões de habitantes na Terra. No início da Revolução Industrial, no século XIX, nossa espécie tinha por volta de 1 bilhão de indivíduos. As estimativas dão conta de que fecharemos o século XXI com uma população entre 9 bilhões e 10 bilhões, embora algumas projeções cheguem a apontar 12 bilhões em 2100.

Mais gente demanda mais recursos. Estima-se que de 3 bilhões a 4 bilhões de pessoas sejam inseridas no mercado de consumo nos próximos vinte anos. O fato de mais pessoas no mundo terem acesso a bens é, em si, uma boa notícia. A questão é que diversos estudos apontam que não haverá recursos suficientes para atender as necessidades humanas.

Por isso, será preciso, cada vez mais, consumirmos de modo consciente. Significa consumir menos? Em relação a alguns itens, sim. Mas, no âmbito geral, implica consumir de modo diferente. Estudos dão conta de que serão necessários de quatro e meio a seis planetas Terra para atender um contingente com esses novos consumidores em duas décadas.

Esses números gigantescos parecem minimizar a importância do impacto que cada indivíduo produz no quadro geral. “Ah, eu sou só um em meio a bilhões de pessoas.” Mas o raciocínio deve ser feito justamente pela via inversa, pois é a soma das ações individuais que afeta o coletivo. Imagine o impacto se cada um dos 12 milhões de habitantes da cidade de São Paulo, por exemplo, jogar um papel na rua por dia. Ou se cada paulistano resolver ficar diariamente uma hora debaixo do chuveiro.

Contribuir para a solução, portanto, se faz também pelos pequenos gestos. De que modo? Preferir o uso de energias renováveis, economizar água e energia elétrica, fazer pequenos percursos a pé, reduzir o desperdício de alimentos. E, sobretudo, se questionar a respeito de hábitos de consumo. Será que é preciso trocar de celular só porque outro modelo foi lançado e o seu colega de trabalho já o adquiriu? Você realmente se sente inferiorizado pelo fato de o seu vizinho ter um carro mais novo que o seu?

A nossa espécie, além de usar os recursos como se não houvesse amanhã (e, pelo andar da carruagem, pode ser que não haja mesmo), ainda os utiliza mal. Só para dar um exemplo, um estudo das Nações Unidas aponta 2 bilhões de pessoas adultas com excesso de peso ou obesas, ao passo que outros 2 bilhões de seres humanos têm deficiências nutricionais, e 815 milhões passam fome. Esse é um fracasso sobretudo no campo ético. Nós esquecemos um princípio básico de convivência: ser humano é ser junto.

Em relação à utilização de recursos, não podemos ser arrogantes a ponto de supor que o planeta é nossa propriedade e, portanto, podemos fazer o que bem entendermos. Somos usuários compartilhantes tanto em relação aos da nossa espécie quanto no que diz respeito aos outros 8,7 bilhões de espécies de seres vivos. Cada vez que alteramos o equilíbrio ecológico do nosso planeta, nós somos afetados. Pode não ser de imediato, mas uma hora o efeito desse desequilíbrio se fará notar de modo mais contundente.

A interdependência entre os seres é um princípio básico da existência. Não podemos pensar somente na nossa demanda mais premente e, para isso, exaurir solos, queimar florestas, extinguir outros animais, poluir a atmosfera e contaminar as águas.

O planeta é a nossa casa. O fato de termos as nossas necessidades individuais não implica, de modo algum, agir de modo egoísta. Vale ressalvar que individualidade não é sinônimo de egoísmo. Individualidade tem a ver com a proteção da nossa identidade e da nossa autonomia. Egoísta é aquele que considera que tudo gira em torno de si e que as suas necessidades são prioritárias em detrimento das outras pessoas. É nesse tipo de mentalidade que se origina a atitude predatória.

Se quisermos ir em frente na luta pela sustentabilidade, precisamos mudar esse tipo de orientação. Só assim será possível assegurar um nível de bem-estar coletivo para as próximas gerações.

No nosso cotidiano, alguns comportamentos já indicam uma interpretação do mundo mais coletivista, mais gregária. Na economia do dia a dia, é possível notar sintomas da mudança de mentalidade. Os espaços de coworking, por exemplo. O modelo de crowd-sourcing, que se baseia em conhecimentos coletivos agregados com a finalidade de desenvolver soluções, as quais podem gerar novos produtos e serviços. Atividades artísticas são viabilizadas por financiamento coletivo, o chamado crowdfunding. Aliás, essas obras podem ser de coletivos artísticos.

Assim como o uso das coisas vai sendo gradualmente alterado. Por exemplo, pessoas que passaram a utilizar um sistema de compartilhamento de veículos ou mesmo os aplicativos de mobilidade e abriram mão da posse exclusiva de um automóvel. Em alguns condomínios e edifícios existem as bicicletas de uso compartilhado, as lavanderias coletivas, entre outros itens de uso comunitário.

A junção de coletividades é algo cada vez mais frequente. Em São Paulo, por exemplo, há grupos de consumo responsável que operam de maneiras variadas. Dentre eles, moradores de condomínios diferentes que se reúnem para receber alimentos orgânicos cultivados por cooperativas agrícolas ou por associações de produtores adeptos da agricultura ecológica. Esses grupos se formam para organizar a logística e a distribuição dos produtos, da lavoura até os apartamentos e casas.

Se quisermos que ainda dê pé para as futuras gerações, será fundamental nos pautarmos por ações coletivas que busquem a equidade.

Os desafios são consideráveis. Sofremos reveses, enfrentamos contratempos, amargamos frustrações. Se algo não saiu como imaginávamos, nos sentimos derrotados. Faz parte. Só não podemos sofrer uma segunda derrota na sequência, que é a de achar que “não dá mais”.

A derrota pela circunstância é algo que acontece na vida. Mas a derrota da esperança nós não podemos admitir.

Ainda dá!

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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