OUTROS OLHARES

MUNDO COM 8 BI ESCONDE DESIGUALDADES DE GÊNERO

Autonomia de mulheres depende de políticas públicas e pode ditar futuro

Num mundo repleto de desigualdades, o ritmo de crescimento da população está, ao mesmo tempo, explodindo em alguns territórios e encolhendo em outros, mostram as projeções da ONU.

O dado por trás dessas diferenças é a taxa de fecundidade, a quantidade média de filhos que as mulheres têm em uma localidade. No Níger, na África Ocidental, esse índice é de 6,6 filhos, o maior do mundo. No outro extremo está a Coreia do Sul, com taxa de 0,9.

Esse dado, porém, não é necessariamente um reflexo do desejo das mulheres de ter muitos filhos ou de não ter filho nenhum. É, antes, um espelho do desenvolvimento do país e do grau de autonomia e de autodeterminação das mulheres em relação a sua vida sexual e reprodutiva.

“Há locais onde a mulher ainda não pode exercer o direito de controlar sua vida reprodutiva. E fatores como violência sexual e limitação de acesso ao aborto influenciam nesse resultado”, explica a demógrafa Márcia Castro, chefe do Departamento de Saúde Global e População da Escola de Saúde Pública de Harvard.

Segundo o Fundo de População das Nações Unidas(UNFPA), o mundo tem uma taxa de gravidez indesejada de 64 casos para cada mil mulheres de 15 a 49 anos. Entre gestantes adolescentes, de 15 a 19 anos, o índice é de 40 a cada mil.

Na demografia, a taxa de fecundidade necessária para repor a população é de 2,1 filhos por mulher. O cálculo, explica o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, é esse: um filho é para repor a mulher, o outro é para repor o homem, e o 0,1 é um excedente necessário porque nem todas as pessoas vão sobreviver até a idade fértil para potencialmente dar continuidade a esse ciclo.

Alves explica que países com alta fecundidade são, em geral, pobres e muito rurais, onde o custo de ter muitos filhos é menor que o benefício. “Neles, a desigualdade de gênero é muito grande, o que retira o poder de decisão das mulheres e também o acesso tanto a saúde e métodos contraceptivos quanto a educação formal e mercado de trabalho, num ciclo vicioso de pobreza”, diz.

Historicamente, o trabalho reprodutivo cabe às mulheres. E, segundo Sonia Corrêa, codiretora do Observatório de Sexualidade e Política, a redução das taxas de fecundidade indica que, de alguma maneira, as mulheres hoje têm maiores opções. “É um movimento de ciclo longo, iniciado nos anos 1950, mas que vem se acelerando desde os anos 1990”, explica.

Corrêa chama a atenção para recentes mudanças nas políticas de incentivo à natalidade de potências globais, que alternam o jogo de forças sobre autonomia e autodeterminação das mulheres na sua vida reprodutiva. Nos EUA, forças conservadoras impulsionaram a decisão da Suprema Corte de suspender o acesso ao aborto como um direito constitucional. O anúncio foi acompanhado pela proliferação de leis contrárias ao procedimento em muitos estados, o que pode impactar na fecundidade americana.

Já a China, depois de 30 anos da chamada “lei do filho único”, que restringiu o planejamento familiar e gerou uma série de violações de direitos, passou a admitir e a incentivar que casais tenham três filhos —até agora com poucos resultados. A Rússia de Vladimir Putin copia decreto de Josef Stálin e premia com medalhas e dinheiro as “mães heroínas”, com dez filhos ou mais.

Na França, existem políticas de incentivo da fecundidade desde o século 19. Elas se dão por meio da consolidação e da ampliação de licença-maternidade e paternidade, prêmios em dinheiro e políticas de garantia de creches gratuitas.

Completam o quadro de condições para o exercício dos chamados direitos sexuais e reprodutivos a educação sexual, o acesso a meios contraceptivos e ao aborto, quando necessário, explica Giulliana Bianconi, diretora da Gênero e Número, organização voltada ao debate de gênero.

Estudo do UNFPA em 57 países aponta que nem todas as mulheres têm o poder de decidir sobre suas relações sexuais, sobre seu acesso a saúde e a métodos contraceptivos. Na África Central, menos da metade (49%) afirma poder decidir sobre suas relações sexuais. No Níger, o índice é de 35%. No Senegal, 19%.

“São fatores que estão longe de serem garantidos em escala global”, aponta Bianconi. “Se as mulheres sem direitos vão parir, quem é que, depois, vai cuidar dessas crianças?”

A falta de autonomia e de autodeterminação tem implicação direta sobre o chamado dividendo demográfico —ou janela de oportunidade demográfica. É quando a fatia da população em idade economicamente ativa é maior, proporcionalmente, que a das pessoas na base da pirâmide etária (crianças e adolescentes) e no topo (idosos). Isso indica o potencial de um país de gerar riquezas.

Aproveitar o bônus demográfico é pré-requisito para melhoria do padrão de vida, defende Alves. “Todo país que perdeu o bônus demográfico ficou pobre ou preso na armadilha da renda média, sem o salto necessário para melhor desenvolvimento.”

Para Castro, o Brasil é um dos países que podem aproveitar o dividendo demográfico. “Essa população jovem vai entrar no mercado produtivo e vai ajudar no crescimento do país no momento em que há menor quantidade de crianças nascendo. A questão é se isso vai ocorrer em direção a igualdade de gênero ou não.”

“É preciso empoderar as meninas para que elas participem, estudem e trabalhem, já que são metade da população economicamente ativa do país. Quando elas não participam, o país joga fora metade do seu capital humano”, afirma a demógrafa.

GESTÃO E CARREIRA

SONHO DO PRÓPRIO NEGÓCIO CRESCE NA PERIFERIA

Programas de incentivo ajudam no difícil caminho para conseguir tirar uma ideia do papel

O potencial econômico das periferias tem incentivado o empreendedorismo entre os moradores das comunidades e ampliado o sonho de ter um negócio próprio. Segundo dados da pesquisa “Um país chamado favela”, do Data Favela, dos 17 milhões de brasileiros que vivem em comunidades, cerca de 35% (ou 6 milhões) sonham em ter o negócio próprio. Além disso, 50% dos moradores se consideram empreendedores e 41% têm o próprio negócio.

Para o morador da periferia, empreender surge como oportunidade de mudar de vida e crescer socialmente. Para isso, não é preciso sair do bairro em que nasceu. A capacidade produtiva das favelas é superior à de muitas cidades do interior do País. A pesquisa do Data Favela apontou que moradores de comunidade movimentam cerca de R$ 180,9 bilhões em renda própria por ano.

No entanto, o caminho que esses empreendedores percorrem é diferente do habitual. Eles têm de enfrentar mais barreiras que atrasam o desenvolvimento do negócio, como a falta de acesso a crédito e limitação de conhecimento para expandir o negócio.

O que surge como um facilitador para quem sonha empreender são os programas de incentivo. A gestora em inovação social empreendedora Josiane Santos faz parte do grupo Semente Negócios, que desenvolve projetos voltados à inovação. Em parceria com a ADE Sampa, o grupo desenvolve o Vai Tec, que ajuda jovens de comunidades a criar, expandir e validar empreendimentos. O objetivo é promover o desenvolvimento dentro das comunidades e gerar emprego e renda. A iniciativa já chegou a aumentar em 70% o faturamento dos participantes do projeto.

Diogo Bezerra, de 29 anos, é o fundador dos projetos PLT4Way, uma escola de idiomas de impacto social, e da Mais1Code, uma escola de programação para jovens da periferia. Ele começou a empreender aos 16 anos, mas, devido à falta de estímulo, os negócios não prosperavam. “Tive dois negócios, só que nenhum deu certo. Isso por causa do pouco conhecimento que eu tinha sobre empreendedorismo e gestão de fluxo de caixa.”

Ao decidir empreender pela terceira vez, ele buscou apoio para construir um negócio saudável. “Fui atrás de ajuda, porque eu não podia errar de novo, já estava com 21 anos e, na quebrada, você não pode ficar errando.” Diogo afirma que, com os programas de incentivos, adquiriu conhecimento e base financeira para crescer e competir de igual para igual com outros negócios.

Inspiração para quem quer ser empreendedor, a marca de roupas Az Marias, voltada ao street style, foi criada em 2015 e aposta no apelo sustentável. A empresa usa como matéria-prima o resíduo têxtil de grandes empresas do setor para fazer suas peças.

A criadora da marca, Cíntia Felix, conta que o início de sua carreira como empresária foi intenso e que teve que empreender na escassez. Para ela, os incentivos são de grande importância, pois sem investimento é impossível tocar um negócio.

Outro exemplo é o Todas Por Uma, aplicativo contra a violência doméstica, que conta com a Nice, inteligência artificial capaz de encontrar uma pessoa sequestrada. Desenvolvido pelo estudante Mateus Lima, de 23 anos, a equipe por trás do app conta com apenas duas pessoas. “Somos dois meninos lutando contra milhões de agressores.” Ele diz que é difícil empreender dentro da favela e que os projetos foram essenciais para fomentar o negócio e alimentar seu sonho.

EU ACHO …

PARENTESCO

Tenho um irmão. Adoraria ter quatro, cinco, mas só tive o Fernando. Pra compensar, ele vale por mil, é o cara mais boa gente que conheço. Nosso retrospecto é cristalino: sem brigas, competições, distâncias, nem mesmo as eventuais, comuns em qualquer família.

Nossa infância foi compartilhada com primos maternos em primeiro grau. Entre as meninas, eu era a mais moça, e me encantava com as de mais idade e suas histórias de namorados, um universo que eu ainda não tinha acesso. Estudei na mesma aula com uma delas e nos tornamos melhores amigas por anos. Entre os homens, nenhum era menos que lindo, e sabemos o fascínio que exerce um primo lindo. Éramos treze no total, todos portando o mesmo sobrenome Mattos, uns por parte de mãe, outros por parte de pai.

Então a infância terminou, minha melhor amiga trocou de colégio, os mais velhos se casaram e aos poucos cada um seguiu sua vida, mas o afeto permaneceu. Três já faleceram, e são lacunas que jamais serão preenchidas, vazios que ainda nos custam aceitar. Alguns se veem com frequência, eu os vejo menos, mas nunca, em nenhum momento, o orgulho d pertencer a essa família arrefeceu. Partimos do mesmo lugar Essa é a potência máxima do laço sanguíneo: partimos do mesmo lugar. Arrancamos juntos rumo à vida adulta. Até que surgiu Bolsonaro.

Sei de casos em que irmãos não conseguem mais almoçar na mesma mesa, primos nem se cumprimentam. Laços foram desfeitos enquanto a extrema direita esteve no poder, e agora que a centro-esquerda vem aí, tudo indica que a briga continuará. Poderia tentar defender um lado, mas estou em missão de paz: quero defender o parentesco.

Quem me conhece, sabe o quanto sou crítica às obrigatoriedades, ao carinho encomendado para datas festivas, à hipocrisia instituída a fim de manter as aparências. Não há quem não tenha algum desencaixe com pai, mãe, irmãos. Às vezes acontece de não gostarmos de alguém a quem deveríamos amar. Mas volto à frase mais importante deste texto: partimos do mesmo lugar. Como seres solitários que essencialmente somos, esse pertencimento tem valor. Houve um dia em que dividimos refeições, compartilhamos quartos, brincamos juntos. Choramos pelos mesmos avós, cultivamos as mesmas memórias. Viemos do mesmo núcleo fundador da vida. Bifurcações são naturais.

Uns têm um conhecimento que outros não têm, uns se apegam a preceitos que a outros não importam tanto. Mas, mesmo considerando as mágoas que as diferenças provocam, e excluindo casos extremos, sou a favor da manutenção do vínculo. Ninguém precisa tirar férias sob o mesmo teto. Basta um WhatsApp no aniversário, um abraço durante um encontro inesperado, um sinal qualquer de que a descendência está acima do rés do chão. Não viemos do nada.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

ESTAR BEM

É POSSÍVEL PREVENIR A SÍNDROME DO INTESTINO IRRITÁVEL?

Especialista avisa que sim, se forem focados os fatores que a causam, o que inclui desde hábitos alimentares ou infecções a casos de depressão ou estresse

Dores abdominais são comuns e podem ser apenas resultado de uma má digestão ou excesso de gases. Porém, quando são recorrentes e atreladas a outros sintomas, é um provável alerta para a síndrome do intestino irritável. Nesses casos, junto com o desconforto podem surgir sintomas como diarreia ou prisão de ventre, com alívio da dor após a defecação e alteração do formato das fezes.

O diagnóstico é feito quando há pelo menos dois desses três sintomas atrelados à dor abdominal, conforme explica Thaísa Barbosa, médica da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP). A frequência com que os sintomas aparecem também é levada em consideração. “A síndrome se caracteriza por ser uma dor recorrente. Por isso, para o diagnóstico é preciso ocorrer ao menos uma vez na semana durante três meses”, adverte.

Por afetar a função e não a estrutura do intestino, não existe a possibilidade de danos permanentes nem o risco do desenvolvimento de doenças mais graves, como câncer. Mas, para aqueles que buscam conviver com a síndrome com qualidade de vida, alguns cuidados são necessários. “É uma condição de fácil controle se respeitarmos os fatores que a precipitam.”

QUAIS AS CAUSAS DA SÍNDROME?

Não existe uma causa exata para o aparecimento da síndrome, mas uma combinação de aspectos que aceleram sua manifestação. A ansiedade e o estresse estão entre esses fatores. “Pacientes com ansiedade patológica, que passaram por alguma situação de estresse grave ou com depressão tendem a ter a síndrome com mais frequência”, diz Thaísa.

Ela explica que alterações psicossociais têm efeito na motilidade dos músculos que revestem as paredes internas do intestino. Isso significa que essas situações podem afetar a capacidade do intestino de realizar movimentos autônomos de forma coordenada e uniforme. “A alteração da motilidade do intestino, seja com aumento ou redução dos movimentos, pode causar diarreia ou constipação.”

Nas situações em que o peristaltismo – nome desse movimento da parede intestinal diminui, as contrações intestinais ficam mais fracas que o normal e o processo de passagem dos alimentos fica mais lento. É por isso que surgem a prisão de ventre e as fezes mais endurecidas. Nos casos em que a motilidade aumenta e as contrações ficam mais frequentes e fortes, a diarreia pode aparecer. Isso porque essa contração acelerada impede a correta absorção de líquidos do bolo fecal e deixa as fezes com excesso de água.

É POSSÍVEL SE PREVENIR?

Aspectos como hábitos alimentares, possíveis intolerâncias alimentares, infecções ou inflamações intestinais, alteração na microbiota do intestino, entre outras razões, podem deflagrar a síndrome. A combinação desses aspectos pode provocar desconforto abdominal e outros sintomas.

“Às vezes o paciente fica frustrado porque não há uma causa específica, ou ele não adere ao tratamento e continua tendo crises. Por isso é importante que ele entenda que a melhor forma de controle é adotando um estilo de vida saudável”, relata Thaísa.

COMO FUNCIONA O TRATAMENTO?

“A síndrome não tem cura, tem controle”, explica a médica. Ajustar a alimentação pode ser o primeiro passo. Diminuir o consumo de alimentos fermentáveis e bebidas alcoólicas pode reduzir a formação de gases e melhorar o desconforto abdominal. O exercício físico também é um importante aliado, uma vez que estimula o funcionamento intestinal e pode, assim, reduzir o desconforto. Atrelado a isso, o acompanhamento com psicólogo é essencial. A Organização Mundial de Gastroenterologia recomenda, como uma alternativa, a prática da hipnoterapia para relaxamento. “Essas medidas comportamentais costumam ser suficientes para controle dos casos leves.”

COMO ALIVIAR A PRISÃO DE VENTRE?

A síndrome pode causar duas alterações funcionais no intestino: diarreia e prisão de ventre. “O paciente pode ter as duas alterações em um período de três meses e intercalar diarreia com constipação ou pode ter só uma delas, que é o mais comum”, conta.

A recomendação para aqueles que sofrem com o intestino preso é aumentar a ingestão de líquidos e o consumo de fibras, como leguminosas, grãos e cereais. “Essa mudança na alimentação costuma ser suficiente. Quando não é, a gente prescreve um medicamento laxativo.”

O QUE FAZER EM CASO DE DIARREIA?

Em pacientes com a síndrome associada à diarreia, o foco é evitar o consumo dos alimentos que podem estar causando essa condição. “Dependendo da intensidade, também podemos indicar medicamentos antidiarreicos”, acrescenta.

Em casos em que os sintomas são mais intensos, pode ser necessário o uso de medicamentos próprios para a síndrome do intestino irritável, além daqueles para diarreia e prisão de ventre. “Esses medicamentos são específicos para regularizar a parede intestinal”, diz Thaísa.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VOCÊ SE SENTE NERVOSO OU ANSIOSO? EXPERIMENTE DANÇAR

Pesquisa sugere que a atividade pode fornecer mais benefícios para o humor e a saúde do que outros tipos de exercícios aeróbicos

Não sei se teria conseguido passar os últimos dois anos sem dançar – dançar com muita vontade e energia. Todo mundo enfrentou desafios pandêmicos. Entre os meus se encontraram: passar duas semanas de quarentena no hotel para chegar ao meu pai doente na Austrália, morar com ele pela primeira vez como adulta e, depois de voltar aos Estados Unidos, pegar covid-19, com meses de recuperação. Ao longo desse processo, eu punha meus fones de ouvido e dançava.

Não era uma coisa bonita de se ver: muitas vezes eu começava em silêncio, com calma, depois ficava doida, batendo os punhos com raiva, até meus ombros ficarem doloridos. Também ficava girando até ficar tonta, me jogava de um lado para outro, tremia o corpo todo, chorava e batia os pés no chão.

Mesmo que tivesse certeza de que tudo parecia meio estranho, eu tinha de botar os meus sentimentos para fora – e funcionou. Dançar me fez sentir aliviada, relaxada e até mesmo contente de um jeito que não conseguia nadando ou correndo. Essas atividades só esgotavam meu corpo, mas a dança limpava meu coração e aquietava minha mente também.

Não sou só eu: um pequeno, mas crescente corpo de pesquisa sugere que a dança pode fornecer mais benefícios para o humor do que outros tipos de exercícios aeróbicos. Embora 30 minutos de atividade de bombeamento cardíaco por dia sejam uma maneira bem conhecida de tonificar os músculos, fortalecer o cérebro envelhecido e melhorar o humor, estudos sugerem que a dança – de quase qualquer tipo – pode ajudar a reduzir a dor crônica e a ansiedade (mais do que exercícios aeróbicos genéricos). Um estudo revelou que a dança diminuiu a depressão em universitários. E mesmo que a pesquisa sobre terapia de dança e demência ainda seja limitada, vários estudos apontam que ela pode melhorar ou estabilizar a qualidade de vida em pessoas com Alzheimer e ter um efeito positivo no “desempenho cognitivo, físico, emocional e social” dos que têm demência.

Mas por que a dança funciona além dos benefícios de qualquer bom exercício aeróbico? Especialistas em dançaterapia dizem que ela pode fornecer um espaço para expressar aspectos de nossa personalidade que podem estar enterrados ou desencorajados por motivos pessoais ou culturais (como raiva, para as mulheres).

“Nós guardamos todas as experiências que já tivemos no nosso corpo, então conseguir se mover pode liberar algo que estávamos escondendo em algum músculo”, conta Ângela Grayson, psicóloga clínica e presidente da Associação Americana de Dançaterapia. “O músculo tem memória e, quando nos mexemos, podemos liberar essa memória.”

A terapia de dança e movimento (DMT, na sigla em inglês) se baseia na ideia de que a dança pode fazer parte do processo terapêutico como uma forma de comunicação não verbal. Ela combina alguns dos efeitos positivos e bem conhecidos que o exercício oferece à saúde mental com algo mais profundo, que pode ser útil quando a terapia falada não está funcionando. A dança é conexão e expressão, lembra Jacelyn Biondo, pesquisadora do Departamento de Terapias de Artes Criativas da Drexel University. “Se cinco pessoas andarem de bicicleta, vai parecer meio igual. Mas, se cinco pessoas diferentes dançarem, vai ter muita variação, porque elas estão se expressando”, afirma.

SAÚDE MENTAL

Biondo, que também é terapeuta de dança e movimento, garante que viu a terapia de dança ajudar pessoas que lutavam contra depressão e ansiedade. Mas sua experiência vem do trabalho com pacientes com sintomas agudos de esquizofrenia em hospitais psiquiátricos. Nesse contexto, ela observa que a dança pode ser uma boa ferramenta terapêutica.

Em estudo de 2021, Biondo e colegas descobriram que esquizofrênicos que faziam terapia de dança tiveram diminuição nos sintomas (incluindo alucinações auditivas, paranoia e pensamento delirante), quando comparadas com um grupo controle de pacientes que faziam apenas terapia falada. Essas pessoas também mostraram melhora na expressão emocional e redução do sofrimento psíquico.

Grayson acredita que a dançaterapia pode funcionar para muitas condições de saúde mental. Ela recomenda terapia de dança e movimento para pessoas que tiveram partos traumáticos e crianças com dificuldade em expressar sentimentos. A terapia também pode beneficiar pessoas em lares de idosos, prisões e centros de tratamento de dependências.

“Trabalhando com um terapeuta de dança e movimento formado, você ganha apoio para processar o que está sendo expresso na dança e estabelecer um tratamento.”

Assim como eu, muitas pessoas descobriram os efeitos da dança para o bem-estar fora do ambiente terapêutico. Prefiro dançar sozinha, com o simples objetivo de botar meus sentimentos para fora, mas surgiram opções sociais em todo o país. A Ecstatic Dance organiza danças em grupo em cidades de todo o mundo, com eventos em lugares fechados ou ao ar livre. É uma prática especificamente não verbal, então os dançarinos se expressam com batida, movimento e respiração. Em Venice Beach, Los Angeles, dançarinos descalços usam fones de ouvido para ouvir música tocada por DJs em evento semanal.

A 5Rhythms guia os praticantes por cinco estágios de movimento. A prática pode ser uma maneira de lidar com a dor, a raiva e o estresse. Lucia Horan dá aulas online e presenciais de 5Rhythms no Esalen Institute em Big Sur, Califórnia, e prepara professores. Embora tenha lecionado por mais de duas décadas, Horan descobriu que dançar a ajudou a lidar com os problemas e se curar do próprio conjunto de estresses pandêmicos: fugas de incêndios florestais devastadores na Califórnia e dois abortos espontâneos.

A CURA

Ela também fez terapia falada, meditação e trabalho de trauma, mas avalia que “a beleza da dança é que ela aborda todos os quadrantes de cura – o físico, o emocional, o mental e o espiritual”. Horan fala que este é um dos motivos pelos quais a dança funciona para muita gente – mas também porque força as pessoas a se concentrarem no momento presente, o que pode trazer alívio de preocupação, tristeza e dor emocional.

“Muito do sofrimento acontece quando estamos pensando no passado ou no futuro, repassando as coisas na cabeça”, narra Horan. “Mas a dança é uma prática baseada na presença, então nossa atenção é atraída para o momento presente.”

Especialistas dizem que, se você não quer participar de um programa terapêutico, e só tentar a dança em casa, não precisa de equipamento especial e pode vestir o que quiser. Basta abrir um espaço grande o suficiente para permitir um movimento expansivo, colocar uma música que você adora e começar a se mexer. Não há regras sobre o que ouvir ou como dançar.

E qualquer pessoa pode participar: segundo Horan, em suas aulas online já apareceram pessoas acamadas em tratamento contra o câncer, e todos os especialistas ressaltam que cadeirantes, pessoas incapazes de andar, cegas ou doentes também podem participar – porque a dança é para todo mundo, mesmo que for para mover apenas as mãos ou os braços.

“É só ficar no momento presente e começar a se mexer”, ensina Horan. “Dance até que o corpo desapareça e fique apenas a dança.” Depois, sente-se um pouco e fique com o corpo quieto. O movimento exterioriza e libera o estresse. A meditação abre espaço para a integração.

A pandemia tem sido um momento emocionalmente difícil, e muitos de nós ainda estão sofrendo. Horan conclui que a dança é uma maneira de “ouvir a verdade do corpo e permitir que ela seja explorada em todos os seus opostos – ela nos dá liberdade, nos dá permissão, nos dá um caminho”.

OUTROS OLHARES

JÁ OUVIU FALAR EM FUMAR COTONETE?

Desafio viral do TikTok pode afetar pulmão de crianças e adolescentes

Depois de países da Europa, o desafio perigoso de “fumar cotonete” também está circulando em redes sociais de usuários do Brasil. A nova moda entre crianças e adolescentes tem preocupado pais e especialistas, que alertam para os riscos à saúde provocados pela liberação de substâncias tóxicas a partir da queima do produto. Além de causar doenças respiratórias – com necessidade de internação em casos mais graves -, o uso prolongado pode causar o surgimento de câncer. Em vídeos publicados em redes sociais, jovens aparecem acendendo a haste flexível, que é conhecida popularmente como “cotonete” e utilizada para a higienização de ouvidos, nariz e umbigo. Em seguida, eles inalam a fumaça provocada pela queima do algodão (que fica nas pontas) e do plástico da haste flexível.

“O cotonete tem uma haste de plástico e as duas pontas de algodão. A queima desses materiais vai liberar substâncias que são tóxicas para o pulmão e para a saúde, de um modo geral. Estudos científicos ainda vão se aprofundar sobre os riscos, mas, em princípio, o plástico quando submetido à combustão libera substâncias comprovadamente cancerígenas. Ou seja, a exposição por um longo prazo pode aumentar, inclusive, o risco de câncer”, alerta Cláudio Luiz Ferraz, pneumologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Já o algodão tem fibras orgânicas que, quando são submetidas à queima, liberam substâncias tóxicas que causam inflamação e irritação. “Podendo ocasionar um estreitamento das vias aéreas, que pode provocar tosse, falta de ar, chiado no peito, broncoespasmos e internações”, acrescenta o pneumologista.

DOENÇAS RESPIRATÓRIAS

“Além de intoxicação pela fumaça do plástico e do algodão, a ação pode ainda provocar queimadura nos lábios e face (pelo plástico que pode pegar fogo e se alastrar), além de induzir o hábito de fumar”, acrescenta Caroline Peev, pediatra e coordenadora do Pronto-Socorro do Sabará Hospital Infantil.

“Os pacientes asmáticos ou com bronquite têm maior ‘hiperreatividade brônquica’, que significa maior chance de ter uma crise grave induzida por qualquer apercebo externo, incluindo o algodão e substâncias liberadas pelo plástico aquecido”, reforça Caroline.

O pneumologista Cláudio Luiz Ferraz concorda que o risco é ainda maior para pessoas que já sofrem com doenças respiratórias. “O risco de fumar cotonete é mais acentuado em pacientes com rinite alérgica e asma, doenças mais prevalentes em pessoas mais jovens, assim como em casos de enfisema pulmonar, como é popularmente conhecida a Dpoc (doença pulmonar obstrutiva crônica), em pessoas acima de 40 anos, principalmente com o risco de aumento de crises e de internações, como observamos em pacientes quando expostos durante período de queimadas pelo País”, afirma ele.

Ninguém deve fumar. Mas, caso a pessoa faça uso e tenha falta de ar, após inalar a fumaça, é importante que procure auxílio médico o quanto antes. “De falta de ar e chiado no peito até sinais de intoxicação por monóxido de carbono, como dor de cabeça, náusea, sonolência e cianose (lábios e extremidades roxas), que apontam para o risco de parada cardiorrespiratória”, ressalta Ferraz.

GESTÃO E CARREIRA

COMO SUPERAR UMA DEMISSÃO E RETORNAR AO MERCADO DE TRABALHO

Especialistas dão dicas de providências após o desligamento de uma empresa; uma das saídas é se abrir para o mercado e experimentar novas alternativas

Relatos de trabalhadores insatisfeitos com o tratamento dado pelos empregadores no processo de demissão têm viralizado nas redes sociais. Muitos deles se queixam da falta de justificativa para o desligamento e da insensibilidade para tratar do assunto. É o caso de Caroline Marci, de 33 anos, que decidiu compartilhar sua história de demissão na rede.

Após três anos como analista socioeconômico-ambiental em uma fundação instalada em Belo Horizonte, Caroline foi demitida, sem poder dar adeus aos colegas de trabalho ou até mesmo acessar o computador que usava. “Como profissional, não fiquei tão chateada porque sei que é o movimento do mercado. Mas, como pessoa, eu fiquei envergonhada, constrangida.”

Esse é um dos sentimentos citados pela psicóloga Ana Paula Nunes, de 33 anos, doutora em Medicina e Saúde pela Universidade Federal da Bahia e especialista em terapias comportamentais, como mais suscetíveis a surgir após a demissão. Mas, para ela, a melhor forma de lidar com esse trauma é, justamente, não se fechar no seu círculo.

“A pessoa precisa primeiro buscar uma rede de apoio (família, amigos) e aceitar que a demissão é um processo que faz parte quando se está vinculado a uma empresa.” Ana Paula também sugere que, tendo esse apoio, o trabalhador passe para a próxima fase: partir em busca de novas oportunidades.

“A demissão muitas vezes não caracteriza algo pessoal ou que a pessoa não é competente para aquele cargo. Simplesmente não houve compatibilidade entre os interesses da empresa e do trabalhador”, considera a psicóloga, que ressalta que a demissão pode servir como um impulsionador para que a pessoa busque um ambiente de trabalho com maior identificação.

A psicóloga Thais Knittel, que trabalha há oito anos na área de recursos humanos, afirma que o trabalhador fica vulnerável após uma demissão, mas esse momento também pode ser aproveitado para refletir. “É um bom momento para entender quais os pontos positivos e o que ela agregou à empresa; conversar com colegas para entender quais são suas fortalezas e o que ela pode oferecer em futuros empregos.”

Além disso, Thais ressalta a importância de considerar outros meios e não ficar preso apenas na busca por um emprego com carteira assinada. “Será que o melhor não seria migrar para uma carreira acadêmica ou até mesmo empreender? Há outras possibilidades no mercado que podem ser exploradas.”

Assim como Ana Paula, Thais acredita que o próximo passo natural é sair em busca de novas oportunidades. Para isso, a psicóloga recomenda o uso do LinkedIn, já que é a plataforma de negócios mais usada no mundo. “É muito importante mantê-lo atualizado, com dados da sua carreira, experiências anteriores, falar sobre suas realizações”, afirma.

Nas próximas entrevistas de emprego, seja sincero sobre os motivos da saída. “Muitas vezes os empregadores podem conversar, pedir referências aos antigos”, diz Thais Knittel.

EU ACHO …

ÚTERO E O OUTRO

Nada humano é mais metafórico que o útero. Em baixa desde a revolução de costumes dos anos 1960 e também por conta da explosão demográfica e da questão social do aborto, o útero se tornou desprestigiado, conservador e até um transtorno. Útero é a Métra, grego derivado do indo-europeu mater, a mãe, a fonte e origem de toda vida. Um órgão com design e função de formar um novo ser dentro de um ser. Um órgão com a misteriosa chave capaz de descortinar sentido e propósito.

É, portanto, um órgão umbilical com o projeto da vida já que é uma peça do corpo que não atende a si próprio; um elemento implantado em si para servir a um futuro corpo estranho e exterior ao seu. Seu prodígio maior é convencer o resto do organismo a não tratar o hospedado como um antagonista competidor e, mais incrível ainda, acolhê-lo organicamente. Repartir nutrientes, desconjuntar a anatomia para abrir espaço e atrelar sua programação sistêmica para servir por nove meses é transcendente. Daí, com certeza, a hospitalidade feminina.

A propriedade do útero de alterar o  sistema imunológico para não tratar o novo corpo como um vírus afeta o alicerce básico da vida de autoproteção. Vírus deriva do latim “veneno”, coisa ruim, que é organicamente atrelado ao “outro”. A entrada de um material genético estranho inicia uma batalha para que o outro não se aposse do corpo e o próprio estado de doença é uma metáfora de que nos tornamos um outro a nós mesmos. Seja qual for o hormônio ou enzima capaz de catalisar esse processo uterino, estamos necessitando, urgentemente, que seja sintetizado e aplicado à sociedade.

O processo eleitoral, refletindo a tendência mundial, instaurou uma hipersensibilidade a qualquer dissensão ou diferença, tratando-as como uma ameaça de um outro antagônico. O outro para além de violento se tornou virulento ‒ um outro desejoso e capaz de nos despersonalizar e exterminar. Precisamos de líderes mulheres, de participação feminina em todas as áreas da vida e da sociedade para que o elixir uterino possa irrigar e orvalhar os nossos tempos. Por trás das políticas e das insustentabilidades, estão o alongamento e a indiferença ao útero. Único órgão capaz de nos tirar do ensimesmado e dar espaço ao outro e ao futuro.

NILTON BONDER  – É rabino, escritor, dramaturgo e acadêmico da ACL

ESTAR BEM

CONHEÇA OS BENEFÍCIOS DA AVEIA PARA SUA SAÚDE

De origem asiática, superalimento ajuda a regular o funcionamento do intestino e aumentar a sensação de saciedade. O cereal não contém glúten em sua composição e pode ser ingrediente de várias receitas

A alimentação saudável e a prática de atividade física, juntamente com um bom descanso, soma-se à lista de bons hábitos para quem deseja seguir um estilo de vida consciente em seu dia a dia e para quem necessita de mudanças por razões de saúde. A lista de opções de alimentos naturais que estão disponíveis para uso em receitas simples e rápidas e os benefícios que esse tipo de ingestão traz para o corpo a médio e longo prazo são imensas.

Desse enorme universo de alternativas culinárias, existe um produto considerado essencial. Trata-se da aveia, um cereal bem completo devido aos seus componentes e propriedades que se caracteriza por não conter glúten.

Silvina Tasat, nutricionista e membro da Sociedade Argentina de Nutrição, explica que sua principal característica é ser um grão integral que mantém suas três partes intactas e também sua composição nutricional.

“O floco é dividido em: endosperma, onde se encontram os carboidratos conhecidos    como beta- glucano; germe, onde crescem e se localizam as gorduras poli-insaturadas, óleos, antioxidantes, vitaminas dos grupos E e B e zinco; e farelo, que corresponde ao exterior e contém fibras prebióticas”, comenta a nutricionista.

Ela explica que a particularidade dessas fibras é que são solúveis, ou seja, que o organismo consegue absorvê-las e digeri-las facilmente.

Diante dessas infinitas qualidades que posicionam a aveia como um superalimento de grande valor nutricional, uma publicação da Universidade de Harvard em sua revista Harvard Health Publishing menciona que os principais benefícios têm a ver com seu impacto no sistema gastrointestinal, pois as fibras regulam o sistema digestivo e dão saciedade.

“Sua função mais importante é estabilizar a saúde do cólon e do intestino porque permite que os carboidratos sejam digeridos lentamente. Por sua vez, seus componentes ajudam a regular a glicose e o colesterol no sangue e, como é um alimento que sacia e tira a sensação de fome, a pessoa não tem necessidade de continuar comendo”, explica Tasat.

COMO CONSUMIR

É possível encontrar o alimento em diferentes formatos e com diversas utilizações: por um lado, a aveia tradicional, que necessita ser cozida, e por outro, a aveia instantânea, que possui grãos maiores que já vêm com um processo de pré-cozimento. Aveia e farelo de aveia são usados em produtos de panificação.

Por sua vez, Tasat recomenda comer uma porção diária entre 20 e 30 gramas da maneira que cada um preferir.

“Pode ser usado em pudins, em panquecas e até mesmo junto com frutas”, destaca a profissional.

A aveia vem de uma planta da família das gramíneas e sua história é um tanto desconhecida e incerta. Estima-se que corresponda a uma cultura muito antiga e que tenha origem na zona da Ásia Central. Na época, foi apelidada de “erva daninha ruim”, pois seu consumo era desaprovado, pois nasceu como uma variante do trigo e da cevada. No entanto, ao longo dos anos, desembarcou na Europa e foi o principal alimento na Irlanda e na Escócia.

Ao incorporar este cereal na dieta, deve-se levar em conta uma série de cuidados. A nutricionista esclarece que, embora seja um alimento isento de glúten, durante o processo de industrialização, pode apresentar risco de contaminação cruzada. Portanto, não é seguro para todos os celíacos ou intolerantes trigo, aveia, cevada e centeio.

“Em alguns países europeus, foi adotada uma modalidade para que todos possam usufruir: há campos certificados apenas para o seu cultivo. Dessa forma, o consumidor fica tranquilo que isso não afetará sua saúde”, afirma a nutricionista.

Por outro lado, explica que para além de ser um produto saudável e biológico, deve ser consumido no contexto de uma alimentação saudável e equilibrada, “onde se incorpora a maior quantidade de minerais, vitaminas e nutrientes”. A especialista conclui que degustar um alimento saudável e depois uma dieta rica em ultraprocessados não vai garantir benefícios ao organismo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NOVOS DELÍRIOS

Jovens buscam drogas sintéticas na euforia do fim do isolamento

Não há dúvida de que os jovens penaram muito durante a pandemia. Meninos e meninas em pleno vigor físico e mental tiveram que aprender rapidamente a guardar e remoer sentimentos e angústias com a suspensão de suas vidas fora de casa. Quando finalmente as regras de saúde contra o coronavírus foram flexibilizadas, eles acreditaram então que reencontrariam a sensação de liberdade e a vontade de ser quem eles queriam ser, sem amarras. Mas ninguém saiu desse período de enclausuramento da mesma forma que entrou.

Parte deles passou a recorrer a substâncias ilegais na tentativa de fugir da realidade que se apresentava e tentar aproveitar o momento ao lado dos amigos sem se preocupar com os problemas do mundo real. Nesse cenário, novas drogas se encaixaram perigosamente pelos efeitos proporcionados (alucinógeno e estimulante) e local de consumo (baladas).

Essa nova geração de substâncias inclui os compostos sintéticos poppers, cocaína rosa e K2, que já começam a provocar estragos na nova geração, dizem especialistas. São inúmeros os relatos de usuários na internet. Inaláveis, os poppers, por exemplo, dão um prazer aos usuários descrito como “indescritível”. Entre os principais efeitos estão a desinibição, aumento da libido, crescimento do prazer sexual, euforia, e relaxamento muscular. A substância age em segundos, e funciona como uma névoa, fazendo a pessoa esquecer dos problemas da vida real.

Essa droga era prescrita pelos médicos na década de 1860 como medicamento para tratar angina, dor no peito causada pela diminuição do fluxo de sangue no coração. Era vendida em cápsulas, que deveriam ser quebradas – ou “popped”, por isso a origem do nome da droga – para o paciente inalar o conteúdo e, então, obter o alívio da dor.

Entretanto, pode ser viciante e ter consequências nocivas, como queda súbita da pressão sanguínea, tontura, elevação da frequência cardíaca, e até riscos mais graves, como pressão nos olhos, deflagrando para o glaucoma – a substância faz os vasos sanguíneos do corpo se alargarem. Além de reações respiratórias mais severas, como sinusite e chiados no peito.

VERSÕES SINTÉTICAS

A droga chamada K2 (ou maconha sintética) é a que mais cresce entre os jovens. Fabricada em laboratório em forma líquida, foi desenvolvida para simular os efeitos da droga orgânica, mas age de forma muito mais intensa no organismo. Ela atua no mesmo receptor que o THC (tetrahidrocanabinol) – responsável pelo efeito da erva – e proporciona uma onda mais imprevisível.

A K2 é liquida e sem cheiro, e costuma ser vendida borrifada em material vegetal seco, como flores ou orégano. O usuário fuma esses “temperinhos” apertados como um baseado ou em versão líquida, nos cigarros eletrônicos. Segundo a Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo, o aumento de apreensões da droga foi de quase 2.000% desde 2018. Já a cocaína rosa, também chamada de “erox”, em alusão a Eros, o deus grego do amor, tem forte efeito afrodisíaco. Com elevado custo de produção em laboratório, é praticamente restrita a usuários com alto poder aquisitivo. No fim do ano passado, houve uma grande apreensão dessa droga em Brasília, pela polícia civil do Distrito Federal.

“O que esses compostos têm em comum é serem estimulantes e amplificarem a realidade. Eles atraem jovens angustiados pela pressão de estudar e produzir mais. Isso os deixa ansiosos e depressivos. E a pandemia não ajudou em nada esse cenário. Atualmente, procuram cada vez mais algo para se sentirem anestesiados, ou uma fuga da realidade e do sofrimento. Eles precisam ter uma sensação positiva da vida, e só conseguem através dessas substâncias”, explica a psiquiatra Camila Magalhães, fundadora do centro Caliandra Saúde Mental.

A psiquiatra afirma ainda que grande parte dos efeitos nocivos da K2 e suas variações são desconhecidos.

“Muitas das ações da droga ainda são imprevisíveis. Para se ter uma ideia, os traficantes proíbem que os usuários consumam a substância nos pontos onde ela é vendida por causa disso”, afirma a médica.

Entre essas novas substâncias, há uma avassaladora. Com o nome de krokodil, a droga injetável é um dos entorpecentes mais perigosos do mundo. Ela começou a ser produzida clandestinamente na Rússia por volta dos anos 1990. Tendo como base a desomorfina, um derivado da morfina, pode causar insônia, depressão, ataques de pânico e pensamentos suicidas. O estrago não para por aí. Na região da aplicação, a pele costuma ficar com uma coloração escura e escamas, como a de um crocodilo – daí seu nome. Estima-se que ela tenha chegado ao Brasil nos últimos cinco anos.

OUTROS OLHARES

MAIS UMA IDEIA BIZARRA TRAZIDA VIA TIKTOK

Com o inverno europeu se aproximando e os custos da energia elétrica disparando como uma das consequências da guerra na Ucrânia, começam a circular receitas bizarras para aquecer ambientes residenciais e de trabalho.

O TikTok é uma fonte dessas receitas, algumas das quais muito perigosas para os que tentam usá-las; uma delas é acender velas e cobri-las com vasos de barro.

O Corpo de Bombeiros de Londres tem desaconselhado o uso desse método, por várias razões, que vão da possibilidade de queimaduras causadas por vasos superaquecidos até explosões, que podem acontecer em função de geração de gases produzidos pelo aquecimento do barro.

Vídeos mostrando como construir esses aquecedores começaram a circular no TikTok no início de 2021, mas em função da elevação dos custos de energia tem se tornado populares, já tendo gerado mais de dois milhões de visualizações.

Mas o assunto não é inteiramente novo: já em 2013, os bombeiros londrinos haviam emitido um alerta acerca de um vídeo postado no YouTube, que mostrava uma receita similar.

Ideias que além de bizarras são perigosas, tendem a se espalhar rapidamente, especialmente quando divulgadas via TikTok, o aplicativo mais baixado em todo o mundo.

VIVALDO JOSÉ BRETERNITZ – É Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas

GESTÃO E CARREIRA

FORA DA SALA DE AULA, CURSOS PARA EXECUTIVOS EXPLORAM EVENTOS COMO F1 E ROCK IN RIO

Experiência imersiva vira tendência de educação executiva para CEOs e diretores de vários setores da economia

Mais do que uma competição esportiva, o Grande Prêmio de São Paulo (GPSP) de Fórmula 1 é uma verdadeira plataforma de negócios. “Envolve uma força de trabalho de mais de 10 mil pessoas, 300 marcas, cerca de 200 mil espectadores em três dias e R$ 1 bilhão em impacto econômico para São Paulo. O mundo corporativo se encontra no GP”, afirma o CEO do GPSP, Alan Adler.

Desde a realização do evento de estreia na capital paulista há 50 anos, pela primeira vez, profissionais de várias áreas tiveram a oportunidade de conhecer os bastidores e entender como funciona a organização de uma corrida de Fórmula 1, num curso realizado no autódromo de Interlagos.

A iniciativa segue uma tendência de educação corporativa, segundo especialistas ouvidos pela reportagem. Cada vez mais, a sala de aula de líderes e executivos tem se transformado em experiências imersivas que colocam empresas e negócios de sucesso como protagonistas do ensino.

O objetivo é aumentar o engajamento e melhorar a absorção do conteúdo a partir de vivências práticas de acordo com o que demanda o mercado atualmente. Os formatos das capacitações imersivas são diversos e costumam incluir experiência de casos reais, experiências com tecnologias, viagens internacionais e metodologias interativas, como edutainment (junção entre educação e entretenimento) e fishbowl (método aquário).

“A nossa estrutura tem muitas áreas: operação, logística, engenharia, comercial, financeira, jurídica e um grande trabalho de planejamento e execução o ano inteiro. Temos metas, colaboradores, preocupações com o meio ambiente e com o social, ou seja, tudo o que se emprega nos negócios”, justifica o CEO do GPSP.

A etapa brasileira do campeonato automobilístico ocorreu entre os dias 11 e 13 de novembro. Pouco antes, no dia 7, cerca de 450 pessoas participaram do GPSP Academy, iniciativa promovida em parceria com a plataforma de educação HSM.

“A sala de aula hoje está em todo lugar. Falávamos muito de universidades corporativas e, agora, estamos chamando as organizações de empresas universitárias. Esse é o conceito. Toda companhia, de alguma forma, vai virar uma empresa de educação”, destaca o CEO da HSM, Reynaldo Gama.

Além de acompanhar a montagem do circuito em Interlagos, com direito à visita aos boxes e à pista da corrida, os profissionais participaram de palestras e painéis sobre temas ligados a negócios, como gestão, inovação, liderança, marketing e experiência do cliente. Ao todo, foram cerca de 10 horas de conteúdo em um dia, e a sala de aula era o próprio autódromo.

“Os executivos têm buscado por experiências mais imersivas, que saiam de seus ambientes de trabalho e core business. Eles querem aprender e levar essa experiência de excelência, como é o caso do GP, para o seu negócio. Vemos uma procura muito grande”, garante o CEO da HSM.

CUSTOS

A inscrição no GP Academy ainda dava acesso aos treinos, à Sprint (corrida de classificação) e à competição oficial na arquibancada “R”. O custo total era de R$ 4 mil por profissional. Essa é a primeira edição do curso em Interlagos, mas a HSM tem outros programas imersivos no portfólio em que o valor pode chegar à casa dos R$ 40 mil.

“Esse é o caso do Executive Program, em parceria com a Singularity University, que reuniu cerca de 80 CEOs em Campos do Jordão, interior de São Paulo”, lembra Gama. Outro curso promovido pela plataforma é o Rock in Rio Academy, que leva profissionais para uma vivência na cidade do rock, durante o festival.

Segundo o CEO da HSM, a absorção do conteúdo tende a ser maior quando a experiência acontece fora de uma sala de aula convencional. “Os próprios executivos relatam que conseguem se concentrar mais quando saem de um local formal e vão para um ambiente de aprendizado imersivo.”

Foi o que levou Eduardo Dallastra, CEO da Agro-Sol, empresa de sementes de soja, a participar do GPSP Academy. Ele sempre gostou do esporte e se interessou ainda mais pela história do negócio. Quatro colaboradores da companhia o acompanharam na imersão, como uma forma de premiação pelo bom desempenho.

O executivo afirma que foi interessante ouvir depoimentos de outros CEOs. “Vamos fazer conexões com a nossa realidade. O que aprendemos vai ficar bem registrado pela emoção que foi estar no GP Brasil.”

VIVÊNCIA PRÁTICA

Segundo o CEO da Startse, Junior Borneli, esse conceito do aprendizado por experimentação vem de uma mudança cultural global. “Antigamente, a gente era assistente das coisas, hoje, somos protagonistas. Por isso, o conhecimento, quando vai para o caminho da experimentação e de botar a mão na massa, é muito mais efetivo”, explica. A Startse, escola internacional de negócios que também aposta na educação experiencial, prevê crescer 120% este ano em relação a 2021. A empresa fornece capacitação para líderes, executivos e empresas, e realiza frequentemente imersões internacionais para locais onde a inovação se destaca, como Vale do Silício, Miami, Israel, Estônia e Portugal. Recentemente, a empresa realizou o Portugal Experience. Durante cinco dias, 50 executivos de companhias consolidadas participaram do Web Summit Lisboa 2022, evento global de tecnologia e empreendedorismo, e conhecer 10 cases diferentes do ecossistema português e mundial. O custo do programa foi de R$ 21 mil, por profissional.

ALTA LIDERANÇA ENGAJADA

A Startse já promoveu experiências imersivas para executivos de empresas diversas, como Bayer, Itaú, Volvo, Bradesco, Totvs, Zup, Nestlé e Disney. Na visão do CEO, as organizações precisam ser provedoras de conhecimento, com estratégia de crescimento.

O grande desafio, no entanto, quando se fala em criar cultura de aprendizagem nas organizações, segundo Glaucia Ghirardini, especialista em desenvolvimento de lideranças da Zup, é o engajamento das pessoas. “Não existe mais a ideia de obrigar a participar de um treinamento”, ressalta a executiva da empresa de tecnologia, que conta com 3 mil funcionários em 10 países.

Recentemente, a Zup promoveu um programa de desenvolvimento para a alta liderança, que contou com workshops presenciais e virtuais e uma imersão em 18 empresas e organizações em Israel. “Aproveitamos para conhecer a cultura e a história do país. Isso foi fundamental para entendermos o mindset que encontramos nas startups que visitamos. Esse foi um dos aprendizados mais relevantes”, diz Ghirardini.

EU ACHO …

A POSSUÍDA

Sentada em uma cadeira de plástico, Shirley agitava-se com força. Havia gritos de ‘Fora, Satanás!’

Ana viu o vídeo várias vezes. Observou detalhes com a atenção que seu treinamento de psicóloga pedia. Shirley estava sentada em uma cadeira de plástico. Agitava-se com força. O pastor a segurava e outros membros da igreja reforçavam os gestos e as falas do dirigente. Havia gritos de “Fora, Satanás!” e “Saia em nome de Jesus!”

Após um tempo longo, Shirley se acalmou e, finamente, abriu os olhos. O oficiante anunciou que ela estava livre do inimigo. Eram ouvidos coros de “aleluia” e de “amém”. O exorcismo estava terminado.

Religião era a área de pesquisa de Ana. Ela tentava não julgar seu objeto. Buscava os melhores conceitos freudianos e lacanianos para lidar com a situação que acompanhava. Estava escrevendo sobre possessões. “Julgar atrapalha a análise e mostra apenas você, não o paciente” – ela aprendera o princípio em Antropologia Religiosa, durante um curso na USP.

Havia uma luta interna. A pesquisadora não acreditava em entidades metafísicas divinas ou infernais. Ao mesmo tempo, sentia que a tradição psicanalítica era dura com a fé religiosa e bastante permissiva com crenças irracionais dos próprios psicanalistas. Sorriu, ao pensar em tantos colegas de trabalho para os quais uma boa sessão de exorcismo teria, pelo menos, o efeito de serem tocados por muitas mãos. Crítica, Ana pensava no seu lugar de fala (urbano, branco, acadêmico) e em seu olhar sobre a pessoa naquela cadeira de plástico. Tentaria entrar na gramática da possuída mais do que na de um teórico austríaco ou francês.

Havia uma questão narcísica, claro. Shirley, a ex- endemoniada, tinha sido libertada de uma entidade que, afinal de contas, tentara gente ilustre como Adão, Eva e, acima de tudo, Jesus. Ter Satanás no seu corpo era um upgrade imenso. Ela era alguém em uma disputa cósmica. Impossível não notar os efeitos hipnóticos da Bíblia que o pastor agitava em movimento pendular. Os gritos da comunidade funcionavam de forma tribal para derrubar uma barreira de racionalidade ou de intimidade. Shirley era o prêmio que dois grupos disputavam com força: o team Jesus e o team capeta. Tudo ali a elevava. O poder das mãos sobre o corpo dela tinha até certo caráter sexual.

Ana tomava notas para preparar o artigo sobre aquele exorcismo. Esbarrou na ideia de sentimento oceânico: o termo de Romain Roland incorporado por Freud. Era a sensação de eternidade no instante, o mundo sem limites perceptíveis. Ali estava o prazer absoluto do bebê ou da memória de um ego primitivo e forte.

Naquele instante, a renomada pesquisadora percebeu que sentia tristeza pela intensidade da entrega de Shirley. Era uma inveja sofisticada que envolvia o sentimento oceânico, porém, era inveja. Sem julgamentos, empoderada, Shirley reinava na situação cercada de atenções da sua comunidade em um jogo que envolvia o Céu e o Inferno. Mãos humanas e planos divinos cercavam-na em um mar de atenções, no líquido quente do protagonismo. Entregue a todos, a possuída flutuava, majestosa, com a certeza de que a fé lhe dava a vitória final. Shirley estava possuída de si (no sentido positivo do termo). O grupo ao seu redor lutava contra o sintoma secundário: um espírito imundo.

Ana invejou a entrega no silêncio da sua sala naquele fim de tarde. Sentada em uma sofisticada poltrona de design dinamarquês, a psicóloga invejou a cadeira de plástico da igreja. Ela, Ana, passava anos analisando pessoas lentamente, minuciosamente, criteriosamente. Ali, em 15 minutos, em um ritual teatralizado, as coisas tinham ocorrido diretamente.

Parece que o demônio tinha fugido do corpo vasto de Shirley e se alojado em Ana. Um espírito ardiloso tinha colocado a dúvida na profissional da mente. A psicóloga não tinha sido informada de que nunca se deve discutir com o Príncipe das Trevas: ele é mais astuto e tem mais argumentos. A vida dela pareceu racional e vazia. Ana experimentou uma profunda tristeza que contrastava com o entusiasmo de Shirley, ao final do vídeo. Lembrando-se de um conceito de Rudolf Otto, Shirley tinha entrado em estado “numinoso”, a maré suave que invade o fiel diante do “mysterium tremendum”. Havia um vasto e direto mistério ali… Shirley tinha sido capaz de alcançá-lo. Ana não.

Perturbada, a psicóloga saiu do consultório para buscar seu supervisor. Queria compartilhar com outro intelectual sua inquietação, talvez seu medo. Seria o caso de um remédio, talvez? Ana não conseguiu distinguir se estava possuída de algo novo ou se, finalmente, tinha sido abandonada pelo espírito seco e insistente da racionalidade. O corpo, sempre o corpo, tomou sua própria decisão. Ela evitou os Jardins e dirigiu-se à Radial Leste, em São Paulo. Deu as costas ao endereço do seu supervisor-doutor e foi direto para uma pequena igreja com cadeiras de plástico. Lá, diante do pastor que ela reconheceu pelo vídeo, pediu, entre lágrimas, que ele a exorcizasse. O homem, gentil, atendeu ao desejo dela.

Depois de meia hora, ela se sentia diferente. O que tinha ocorrido? No céu dos psicanalistas, Lacan e Freud sorriam. Ana estava em paz no vasto oceano de uma nova vida. Agora, ela tinha esperança.

LEANDRO KARNAL – É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras e autor de ‘A Coragem da Esperança’, entre outros

ESTAR BEM

O PODER DA RISADA

Rir melhora o humor e combate o estresse, além de fortalecer o sistema imunológico e beneficiar a saúde do coração

Quando se trata de saúde e bem-estar, o riso é um poderoso aliado e suas virtudes vão muito além do mero entretenimento. Cientificamente comprovados, os beneficias são inúmeros e ajudam a equilibrar a mente e o corpo. É um ato terapêutico, que não apenas melhora o humor e combate o estresse e a ansiedade, diminuindo a tristeza e mantendo as emoções negativas afastadas, como também facilita o sono, a digestão, fortalece o sistema imunológico, aumentando as defesas do organismo e prevenindo doenças.

Além disso, dissipa tensões e é uma arma de sedução que fortalece laços e a relação com as pessoas. Traz diversão, relaxamento e leveza para encarar os desafios da vida, às próprias falhas e as dos outros. Ele melhora a autoconfiança e eleva a autoestima. Tem efeito analgésico e antidepressivo, produz endorfinas, hormônios associados ao prazer. Oxigena o cérebro, promove relaxamento, melhora a memória e as capacidades intelectuais. A lista é extensa e, de acordo com a psicóloga Débora Benfatti, o riso também está associado a um aumento da longevidade.

”O ato de dar risada libera substâncias químicas como a serotonina e a endorfina, neurotransmissores responsáveis pela sensação de bem-estar, que ajudam a combater os efeitos da adrenalina e do cortisol, que são hormônios ligados ao estresse e  ao desgaste do organismo, reduzindo o risco de doenças psicossomáticas, de­ pressão e ansiedade. O riso também é eficaz para diminuir a tensão física, aliviando dores no corpo, em especial em casos de dores crônicas, visto que a percepção da dor está vinculada aos estados emocionais de estresse e relaxamento”, explica Débora.

FERRAMENTA DE SOBREVIVÊNCIA

Outro fator benéfico associado ao riso e à prática da gargalhada é a melhora nos relacionamentos. “Acredita-se que nos primórdios das organizações de grupos humanos, o riso era o que mantinha o grupo unido e funcionava como alerta para situações de perigo ou segurança. É um comportamento que evoluiu como uma forma de vínculo social e comunicação, necessários à sobrevivência da espécie “, destaca a psicóloga Débora Benfatti.

“É muito  mais fácil se identificar ou se sentir seguro para uma aproximação com uma pessoa que se apresente com um sorriso, que faz parte da nossa linguagem corporal e comunicação cotidiana”, diz Débora. A especialista cita ainda que um estudo realizado pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, que avaliou mais de 150 relacionamentos de longo prazo, concluiu que o riso é a cola que mantém os casais unidos. Aqueles que se consideram satisfeitos riem mais do que os que estão insatisfeitos com a relação.

“Com isso, é possível concluir que no âmbito das relações sociais o riso auxilia na resolução de conflitos em situações que antes se apresentavam como rígidas e pesadas, seja no ambiente familiar, no trabalho, na escola ou entre amigos. E como bem disse William Shakespeare, ‘é mais difícil obter o que se deseja com um sorriso do que à ponta da espada”‘, destaca Débora.

COMPORTAMENTOS POSITIVOS

A psicóloga Débora Benfatti destaca que o estresse provoca uma aceleração da mente, que pode favorecer quadros de ansiedade e uma visão pessimista das situações. No entanto, o ato de sorrir contribui para inspirar comportamentos positivos na própria pessoa e nas que estão ao redor.

“Para um efeito de melhora do otimismo ou automotivação, basta o sorriso interno para aliviar as questões da mente e propiciar uma visão mais clara da situação vivida e alternativas de enfrentamento”, afirma.

RIR POR OPÇÃO

A Yoga do Riso é uma prática terapêutica criada nos anos 90 por um médico indiano chamado Madan Kataria, que consiste em risadas auto-induzidas, até que o riso simulado se torne espontâneo.

A professora de yoga e terapeuta corporal de abordagem holística, Lilian Cruz, que trabalha com o método Vinyasa Yoga, afirma que a técnica é muito bem-vinda e pode ser praticada dentro de qualquer modalidade de yoga. “Ela foi desenvolvida baseada na alegria, na gratidão, na felicidade, nas emoções positivas e tem um poder muito grande sobre a questão do sistema imunológico, pois uma pessoa alegre e feliz vai repercutir o efeito nos seus órgãos internos, nas suas células, em todos os seus sistemas”, diz.

Diferente da yoga feita no tapetinho, Lilian explica que a Yoga do Riso é uma prática que às vezes utiliza todo o espaço da sala, onde as pessoas caminham e se relacionam umas com as outras, seja em duplas ou trios, estimulando de alguma forma o riso.

“É tão interessante que os praticantes saem da aula como se tivessem feito uma hora de exercício. A impressão que dá é que a pessoa fez abdominais, porque a ideia é rir com o abdômen, rir na barriga, e isso mobiliza muito a energia, que chamamos de 2 e 3 chakras, a energia mais baixa do corpo, e isso traz um pouco de força muscular nessa região, além de liberar hormônios, neurotransmissores da alegria, que trazem bem-estar e leveza, combatendo a depressão e até mesmo curando ou prevenindo doenças”, afirma.

RECEITA PARA UM CORAÇÃO SAUDÁVEL

O riso tem efeitos benéficos no sistema cardiovascular, promove a boa circulação sanguínea, melhora a oxigenação do coração e reduz a pressão arterial e o risco de coágulos. “Um remédio altamente eficaz e sem efeitos colaterais, que pode ser o melhor tratamento em muitas situações”, afirma o cardiologista Victor Rodrigues Ribeiro Ferreira. De acordo com o médico, pesquisadores de Maryland, nos Estados Unidos, relataram que a risada pode auxiliar na dilatação das artérias melhorando a circulação de sangue pelo corpo, além de reduzir marcadores sanguíneos relacionados a doenças com o infarto do miocárdio.

Ferreira afirma ainda que rir estimula vários músculos pelo corpo e auxilia na capacidade de funcionamento dos pulmões. “A musculatura relacionada à respiração é tonificada e a troca de gases sanguíneos torna-se mais abundante, melhorando a oxigenação do corpo”, diz.

Além disso, o ato de sorrir libera uma série de substâncias benéficas ao organismo, como a serotonina e a endorfina, responsáveis pela sensação de bem-estar e prazer, contribuindo para a diminuição dos hormônios relacionados ao estresse, melhorando a saúde cardiovascular. “Portanto, indico doses generosas de boas gargalhadas, sem moderação”, diz.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

RELAXAR, DEIXAR PREOCUPAÇÕES DE LADO E MANTER ROTINA AJUDAM A COMBATER ANSIEDADE NOTURNA

A ansiedade é uma reação normal do corpo a um acontecimento futuro. Pode ocorrer, inclusive, por algo bom que está para acontecer. Estudo conduzido pelo psiquiatra Luc Staner, do Rouffach Hospital, na França, mostrou que 36% das pessoas que costumam se sentir ansiosas percebem que os sintomas se intensificam à noite.

“De dia, quando estamos mais atarefados, o pensamento se estrutura no córtex pré- frontal do cérebro, onde estão as áreas de julgamento, planejamento e razão. Quando o córtex relaxa, ele se direciona às emoções. Consequentemente, os pensamentos ansiosos que estavam dormentes durante o dia surgem à noite”, explica Monica Machado, psicóloga e fundadora da Clínica Ame. C.

A ansiedade é caracterizada por sensações físicas de agitação, alerta, inquietação e pensamentos focados em ameaças. “Já o transtorno de ansiedade, ou seja, a ansiedade patológica, tem o cérebro ‘enganado’. Ele percebe o perigo onde não existe e não reconhece nossa capacidade de enfrentamento”, afirma o psiquiatra Marco Abud.

“Nesses casos, a ansiedade torna-se um padrão, um hábito tóxico de sensações, pensamentos negativos e comportamentos de fuga que causam muito sofrimento, não permitindo que a pessoa faça suas escolhas. Além disso, faz com que ela se torne refém da ansiedade com prejuízos no trabalho, nos relacionamentos e na saúde”, afirma o médico.

O tratamento para o transtorno de ansiedade é feito com sessões de psicoterapia com psicólogos, e, se necessário, medicamentos receitados por psiquiatra. Atividades como meditação, ioga e mindfulness também podem ajudar.

A seguir, a psicóloga Monica Machado dá dicas para enfrentar o problema.

DEIXE SUAS PREOCUPAÇÕES LONGE DA SUA CAMA

“Se você for deitar remoendo suas preocupações, será impossível pegar no sono, mesmo que esteja exausto. Pior: você acaba se forçando a dormir, vira de um lado, vira de outro, vê a hora passar, e o único resultado será mais ansiedade.

Antes de dormir, aposte em livros, uma música calma ou um filme leve. “O importante é distrair a mente e afastar os pensamentos negativos”, explica Machado.

APRENDA A RELAXAR

Se o sono não vem, procure relaxar, não dormir. Relaxando, o sono virá com mais facilidade. Uma dica é fazer exercícios de respiração. Respire profundamente, direcionando a atenção para o movimento do ar que entra e sai dos pulmões. Solte o ar lentamente pela boca e, a cada inspiração, imagine uma paisagem ou uma imagem mental que transmita calma e serenidade.

MANTENHA A ROTINA DO SONO

Segundo a psicóloga, não ter hora certa para dormir é forte gatilho para ansiedade e insônia. “Deite todos os dias no mesmo horário, com uma diferença de, no máximo, 30 minutos. O hábito regula o relógio biológico e o ritmo circadiano, fundamentais para o organismo ajustar o sono”, conta.

EVITE EXERCÍCIOS FÍSICOS À NOITE

Atividade física é essencial no combate à ansiedade, pois libera substâncias como dopamina e endorfina, que geram a sensação de bem-estar. Mas praticá-la nas últimas horas do dia pode fazer com que seu sistema nervoso fique muito ativo, inviabilizando o sono.

“Para muitos, o treino à noite gera tanto relaxamento que até ajuda a dormir melhor. Já para outros, causa agitação. Se você faz parte deste último grupo, prefira treinar na parte da manhã”, aconselha.

EVITE AS TELAS

Ao ir deitar para dormir, evite usar celular, tablet, notebook e televisão. As luzes fortes desses aparelhos comprometem a liberação da melatonina, o hormônio do sono.

Redes sociais e sites de notícias podem desencadear estímulos mentais negativos, aumentando a ansiedade e, consequentemente, dificultando que o cérebro se desligue.

ESQUEÇA OS BOLETOS

Se o dinheiro é uma preocupação, não se deite e pegue o celular para checar o extrato bancário ou a fatura do cartão de crédito. Você não vai solucionar nada a essa hora e só vai alimentar a ansiedade.

Se precisa organizar as finanças, deixe para fazer contas e rever o orçamento mensal durante o dia.

DEIXE O QUARTO ACONCHEGANTE

Quanto mais agradável for o quarto e a cama, mais fácil será dormir. Travesseiro confortável, temperatura ideal, e ambiente sem luzes e ruídos podem ditar a qualidade do sono.

OUTROS OLHARES

EU QUERO SOSSEGO

Existe o turismo gastronômico, o de aventura, o romântico e, agora, o do sono, em que destinos e hotéis investem em cuidados e programas pensados para quem busca, acima de tudo, noites bem dormidas

Quanto vale uma boa noite de sono? Para a publicitária Fernanda Chaves, muito. Quando foi planejar as suas férias, depois de mais de dois anos trancada em casa, não foi nos destinos de aventura ou de cultura, seus preferidos até então. Ela só queria dormir bem. “Vivi situações de muito estresse por causa da pandemia. Juntei o trabalho, com as aulas on-line do meu filho, a louça acumulada e, principalmente, o medo e as incertezas. Quando fui decidir as minhas férias, eu só pensava em um lugar que me permitisse dormir, coisa que fiz pouco nos últimos tempos”, conta.

Fernanda não é um caso isolado. No embalo dos traumas pandêmicos (período em que nasceu até a síndrome “coronasomnia”), criou-se o turismo do sono, em que spas e hotéis focam em oferecer noites muito bem dormidas. De acordo com o neurologista e médico do sono Paulo Mei, a insônia deu um boom. “Fizemos um estudo amplo durante o início da pandemia, e os resultados estavam em linha com várias outras pesquisas mundiais: praticamente metade da população tinha sintomas de ansiedade e sono de má qualidade. A minha percepção é que, mesmo após a melhora dos índices de infecção, as sequelas estão demorando a esmorecer”, afirma. Ele frisa ainda que noites mal dormidas geram um impacto negativo no funcionamento diurno, como dificuldade de concentração e memória, irritabilidade, falta de energia e dores. “O tratamento do sono está cada vez mais no centro de discussões sobre a saúde e é natural que negócios focados em promover  restauração comecem a se proliferar.”

O grupo Rosewood Hotels & Resorts lançou, em janeiro, o projeto global Alquimia do Sono, com retiros pensados para promover o descanso através de tratamentos indutores do descanso, com meditações, cardápios especiais e exercícios. E ainda tem a Curated Sleep Box, recheada de produtos que equilibram, como misturas de óleos essenciais, chás, aromaterapia e máscaras de seda para os olhos. “Buscamos fornecer aos hóspedes as ferramentas necessárias para desacelerar e estabelecer hábitos duradouros de higiene do sono, e assim alcançar um maior bem-estar geral”, comenta Emmanuel Arroyo, diretor regional de meditação no Rosewood Hotels & Resorts.

A tendência é forte mundo afora. E teve até fabricante de camas de luxo lançando hotel com tal bandeira. É o caso da marca sueca Hastens que inaugurou o Hästens Sleep Spa Hotel, um boutique com apenas 15 quartos, em Coimbra.

Tudo para as pessoas dormirem em suas camas (que podem custar 60 mil euros e demoram até 200 horas para serem produzidas) feitas com crina de cavalo, lã, algodão e linho. Ou ainda o projeto ainda não inaugurado Shleep Sanctuary, na Inglaterra, em que ovelhas numeradas pastam ao redor da suíte de vidro para fazer com que o hóspede adormeça. “Estamos lançando uma experiência de fuga única para oferecer a melhor noite de descanso por meio de uma experiência de sono com contagem de ovelhas, apoiada pela ciência e pioneira no mundo”, explicam no site sobre o futuro projeto. Melhor estilo de contar carneirinhos não há.

“Passamos praticamente um terço de nossas vidas dormindo. Dormir bem pode parecer evidente quando se fala em hotéis e turismo de luxo. Mas uma das tendências recentes do mercado de viagens é reforçar esse pilar de bem-estar através de experiências e infraestruturas voltadas para esse tema. Kit do sono, camas e travesseiros especiais, quarto com acústica impecável, lugares remotos silenciosos, chás e tratamentos específicos em spas são algumas das ofertas pensadas pelos hotéis para garantir uma melhor qualidade do sono a seus hóspedes. Um turismo cada vez mais voltado à natureza e reconexão com si mesmo está a caminho”, afirma Charles Piriou, consultor expert em hospitalidade.

Quem chega ao Lapinha, no Paraná, já entra automaticamente em um ritmo mais calmo. No primeiro spa médico do Brasil, estar com corpo e mente funcionando bem sempre foi o foco. Por isso, uma agenda de caminhadas matinais com exposição à luz natural do sol, regularidade de horários para refeições e jejum um pouquinho mais prolongado, hábitos que favorecem o repouso. Mas, este ano, houve necessidade de se criar um programa especial focado nas sagradas oito horas, o “Bem dormir” (a partir de R$ 5.128), criado pela médica especialista na área Simone Prezotti. Além de avaliações, ainda entram em cena playlist de músicas indutoras do sono, aromatizador com óleo essencial e um sleep journal, uma técnica em que a pessoa faz um diário do sono. “O objetivo principal deste programa é ajudá-lo a ter noites saudáveis e repousantes, melhorar seus padrões de sono e combater os desequilíbrios de saúde que causam cansaço”, comenta.

A nova hospedaria Bons Ventos, em Sebollas, colocou suítes (diárias a partir de R$ 1.350) no alto de uma colina para o silêncio ser maior e o mergulho na natureza mais profundo. Entre os cuidados para um sono reparador estão os chás calmantes com ervas da horta, sauna para relaxamento muscular e ainda blends relaxantes para aromaterapia.

Uma sleep box é uma das surpresas do Six Senses Botanique, em Campos do Jordão (diárias a partir de R$ 2.414). Dentro da caixa estão guias com posições de ioga que ajudam a dormir melhor, bloquinho de notas para escrever um pouquinho do seu dia e suas intenções, sais de banho para um momento bem relaxante na banheira, QR code para uma seleção de músicas que induz ao relaxamento, sachê com chá especial, óleo essencial e a máscara de dormir.

GESTÃO E CARREIRA

GREAT RESIGNATION: COMO EVITAR DEMISSÕES VOLUNTÁRIAS NAS EMPRESAS

As relações de trabalho vêm sendo intensamente ressignificadas

Muito mais do que salários atrativos e um plano de carreira bem desenhado, fatores como o match entre o propósito da empresa e o perfil dos candidatos se tornaram pontos decisivos para a retenção de talentos nas companhias.

Infelizmente, este vem sendo um cenário difícil de ser encontrado em diversos negócios – desencadeando índices preocupantes de demissões voluntárias que, se não forem revertidas com urgência, podem trazer danos drásticos para o mercado. Existem diversos fatores responsáveis por elevar o great resignation, como ficou conhecido este fenômeno de demissões por parte dos profissionais.

Em uma análise global, além da falta de identificação com os valores e propósitos da empresa, a insegurança dos trabalhadores frente a momentos de crise como a pandemia, o excesso de pressão rotineiramente ou em determinados projetos, e o descuido com o reconhecimento de suas contribuições, sempre se destacaram dentre os motivos mais frequentes para os desligamentos.

Contudo, ao longo da pandemia, novos critérios emergiram dentre as justificativas com- partilhadas. Dentre eles, o retorno ao trabalho presencial foi um dos mais polêmicos, visto que os benefícios proporcionados pelo home office atraíram cada vez mais adeptos para a procura de oportunidades que ofereçam essa modalidade.

De maneira relacionada, a busca por uma maior qualidade de vida também se mostrou mandatória, em vagas que possibilitem uma verdadeira conciliação entre o trabalho e a vida pessoal para maior tempo de lazer e entretenimento com amigos e familiares.

Em âmbito financeiro, a extrema preocupação causada diante dos altos números de desempregos, principalmente na pandemia, fez com que grande parte dos profissionais optassem por permanecer em seus empregos – mesmo sem estarem satisfeitos – como segurança de terem uma renda em meio à crise.

Porém, com o início da volta à normalidade, muitos já começaram a procurar por melhores oportunidades que se encaixem em seus perfis. Estamos presenciando um cenário alarmante. Segundo dados divulgados pelo Caged, o Brasil bateu o recorde de demissões voluntárias em agosto deste ano, representando 37,5% do total de desligamentos registrados ao longo do mês.

Diante de um fenômeno visto internacionalmente, reverter esta “grande renúncia” deve ser uma das maiores prioridades das companhias de todos os portes e segmentos, por meio de estratégias que alinhem os valores organizacionais aos dos candidatos e, assim, os mantenham felizes em seus ambientes de trabalho.

Após tantas mudanças sentidas ao longo do isolamento social, uma das ações mais importantes para este objetivo é viabilizar vagas que possam ser desempenhadas a distância – afinal, esta se tornou uma modalidade de trabalho com imensa aceitação global. Em um estudo realizado pela Frameable, comprovadamente, cerca de 73% dos profissionais são mais satisfeitos trabalhando em home office, junto com 81% que se sentem mais produtivos trabalhando a distância.

Muito além de permitir que realizem suas funções de qualquer lugar, esta liberdade geográfica também contribui para o balanço entre o trabalho e a vida pessoal. Afinal, a dispensa de se locomoverem até a sede da empresa permite um maior tempo em casa, menos estresse com trânsito e melhor aproveitamento de suas tarefas.

Por fim, a missão e propósito do negócio precisam ser repensadas, de modo que tragam uma significância social e ambiental defendidas, especialmente, pela nova geração de profissionais. As prioridades de retenção mudaram nitidamente. No lugar de remunerações elevadas, a flexibilidade, autonomia e liberdade conquistaram o pódio de critérios dos profissionais. Independente da área de atuação, não há como escapar desta realidade do mercado.

Por isso, é dever das empresas se adapta- rem a essas demandas e oferecer aquilo que estão valorizando. Em um mercado dinâmico, aquelas que se mantiverem atentas a tais transformações, certamente conseguirão impedir o avanço destas demissões voluntárias e reter seus talentos para um crescimento próspero.

JORDANO RISCHTER – É sócio da Wide, consultoria boutique de recrutamento e seleção – https://wide.works/

EU ACHO …

PESSOAS NEGRAS NÃO SÃO UMA MASSA

Não se pode combater o racismo reforçando lógicas coloniais ultrapassadas

É muito comum ouvir coisas como “tal pessoa é negra e não sabe sambar”, com ar de surpresa, às vezes até de indignação, como se existisse um destino determinado. É negado o direito à individualidade, como reflete a pesquisadora Joan Scott quando diz que, muitas vezes, os próprios movimentos podem reproduzir essa lógica ao impor um modo de ser para ativistas. Ou quando ela argumenta que um indivíduo branco é responsabilizado por um erro como indivíduo e o grupo negro é responsabilizado quando um indivíduo negro erra.

Muitas pessoas já me escreveram cobrando que eu desse respostas por comportamentos equivocados de pessoas negras, mas elas nunca se veem no lugar de fazer o mesmo quando pessoas brancas se equivocam.

Alia-se a tudo isso o apagamento das contribuições da população negra e a legitimação do epistemicídio, conceito cunhado pelo intelectual português Boaventura Souza Santos e difundido pela filósofa Sueli Carneiro no Brasil. Esse conceito refere-se ao assassinato das produções intelectuais das pessoas negras que “fere de morte a racionalidade delas”, citando Carneiro.

Dia 20 de novembro foi o Dia da Consciência Negra, uma data importante que celebra Zumbi dos Palmares e a luta do povo negro. Fundamental louvar o trabalho de Oliveira Silveira, responsável por pesquisar a data e seus significados.

Justamente por causa desse histórico de apagamento das pessoas negras é comum que pessoas brancas queiram evidenciar o trabalho e contribuições de muitas delas. Perdi as contas das citações e marcações que recebi em uma rede social. É louvável que muitas pessoas façam isso. Porém, em alguns casos, essas ações se mostram problemáticas justamente por legitimar a lógica colonial de homogeneização.

As pessoas postam coisas como: “pessoas negras para seguir”, misturando escritores, blogueiras, juristas, políticos, influenciadoras, julgando que todas as pessoas negras citadas, porque são negras, são naturalmente ativistas, quando muitas não são. Nem toda pessoa negra é ativista e muitas pessoas deveriam ser seguidas não porque são negras, mas porque seus trabalhos são inspiradores e relevantes. Muitas vezes essas pessoas negras só têm em comum o fato de serem negras. O post poderia ser “escritoras negras de não ficção para conhecer” ou “ativistas negros com trabalhos importantes” e explicar o trabalho de cada um, ou ainda “blogueiras que falam de beleza negra”. Dava para respeitar as diferenças entre as pessoas negras em vez de reforçar esse lugar de massa homogênea.

Muitos não se dão ao trabalho de esmiuçar porque estão indicando a obra daquelas pessoas. Há quem me indique assim:

“Djamila Ribeiro, conhecida por seu trabalho na internet”. Eu venho de uma família de ativistas, formada pelos movimentos sociais, tenho cinco livros publicados, traduções para cinco idiomas, um Jabuti, um mestrado em filosofia, sou membro da Academia Paulista de Letras, coordeno um selo editorial que publica autores negros, tenho diversos reconhecimentos internacionais —e sou resumida a um vago trabalho na internet.

A pessoa que me indica nem sequer conhece a profundidade do que represento, poderia citar meu trabalho e dizer que também tenho uma forte atuação nas redes sociais, mas escolhe me reduzir e em seguida já postar uma selfie. E é perceptível que esse tipo de redução a comete mais mulheres negras.

Seria inimaginável um post com “pessoas brancas para seguir”, certo? Geralmente, as pessoas brancas são tratadas em suas diversidades. As pessoas brancas não misturam em um mesmo post indicações de pessoas brancas professoras, blogueiras, ativistas, youtubers ou fazem uma lista de “políticos brancos para seguir” e incluem Lula e Bolsonaro ou Trump e Biden.

Um escritor branco não estará num post com um influenciador, a branquitude não os homogeneíza; ao contrário, são tratados em suas individualidades. Que haja a reflexão de que não se pode combater racismo reforçando lógicas coloniais. Essa visão essencialista é racista, ou, citando James Baldwin, “I am not your negro”.

DJAMILA RIBEIRO – É mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais

ESTAR BEM

CASOS DE PORTIOLLI E JUSTUS DÃO ALERTA SOBRE CÂNCER DE BEXIGA

Esse carcinoma é a 4.ª causa de morte oncológica mais comum em homens e só é menos tratado por urologistas que o tumor de próstata

Nas últimas semanas, dois famosos utilizaram das suas redes sociais para falar sobre seus tratamentos contra o câncer da bexiga. O apresentador do SBT Celso Portiolli justificou na sexta sua ausência no Teleton por causa de uma inflamação na bexiga, em meio ao tratamento do câncer, e o também apresentador e empresário Roberto Justus anunciou domingo a descoberta do tumor na região e a realização de uma “quimioterapia preventiva”, após retirada do carcinoma. Vítima da doença, morreu na sexta, 4, aos 72 anos, o músico e arranjador Paulo Jobim, filho de Tom Jobim. Ele tinha recebido o diagnóstico um mês antes.

Segundo o Instituto da Próstata e a Sociedade Brasileira de Urologia de São Paulo, o carcinoma da bexiga é a quarta causa de morte oncológica mais comum em homens e o segundo mais tratado por urologistas, só perdendo para o câncer de próstata. O chefe da oncologia clínica do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca), Alexandre Palladino, destaca que a estimativa no Brasil é de que a cada ano do triênio 2020-2022 haja cerca de 7,5 mil novos casos em homens. “É uma doença mais comum em homens do que em mulheres. A faixa etária varia, pode acontecer em qualquer idade, porém é mais frequente entre pessoas em torno de 60 e 70 anos”, explica. Apesar de mais frequente em homens, mulheres também podem ser afetadas, visto que o tabagismo ainda é o fator de risco mais predominante, segundo o urologista e presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, Alfredo Canalini.

Ele diz não acreditar que haja um grupo de risco e, sim, fator de risco. “Você tem grupo de mulheres também. Antigamente, você não via tanto tumor de bexiga nelas, porque elas não fumavam.”

Os tipos mais comuns de tumores neste órgão são os de células de transição, que começam no tecido interno da bexiga; os de células escamosas, que podem surgir na bexiga depois de infecção ou irritação prolongadas; e o adenocarcinoma que se inicia nas células de secreção e podem se formar na bexiga depois de um longo tempo de irritação ou inflamação.

Palladino explica ainda que o tratamento para esse câncer se divide em dois tipos. “No tumor superficial, tem como recurso fazer (a cirurgia) dentro da bexiga, como uma maneira de diminuir a recorrência local da doença. O paciente com tumor invasivo, ou seja, que se aprofundou mais, tem o risco de recorrência local, mas também de recorrência em outros órgãos”, diz.

FATORES DE RISCO

O tabagismo é conhecido como o principal fator de risco, sendo responsável por 50% dos casos no sexo masculino e em 35% entre o feminino. Segundo a SBU, a possibilidade de fumantes desenvolverem câncer na bexiga é de quatro a sete vezes maior do que entre não tabagistas. Ao deixar o cigarro, as probabilidades de apresentar a doença diminuem, embora a ação dos fatores cancerígenos possa perdurar por mais de dez anos.

Uma pesquisa do Inca mostra que o tabagismo não é o único fator relacionado ao desenvolvimento desse tipo de tumor. Existem pelo menos 28 profissões que têm presente nas suas atividades os agentes cancerígenos responsáveis pelo câncer de bexiga. Os trabalhadores mais expostos a produtos químicos são metalúrgicos, do setor de pneus, profissionais de radiologia, confecção de vidros, produção de tinta e salão de beleza.

O Projeto Diretrizes, da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina, mostra que cerca de 20% dos casos de câncer de bexiga estão associados à exposição ocupacional. Para Canalini, fatores relacionados ao trabalho já são evitáveis. “Você tem equipamentos que realmente protegem o paciente desse tipo de contato”, conclui.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTÍMULOS PRECOCES PRODUZEM MENTE SADIA

Pesquisas mostram que conexões dos primeiros anos de vida são cruciais para desenvolvimento cognitivo do adulto

Diversas pesquisas têm mostrado que, durante os primeiros anos de vida, são estabelecidos os alicerces da saúde mental, do bem-estar e da aprendizagem das crianças. Nesta fase, os mais novos têm a capacidade de aprender com mais facilidade diferentes tipos de competências, sendo fundamental o papel dos pais, familiares ou responsáveis pela educação.

As experiências científicas de diferentes comunidades mostram que populações nas quais a ênfase não tem sido colocada na comunicação, no desenvolvimento da linguagem, na capacidade de expressar afeto, ou no estabelecimento de padrões lúdicos adequados para cada idade – ou seja, onde não há investimento de tempo e energia no desenvolvimento dos primeiros anos de vida – o potencial cognitivo futuro dessas pessoas pode ser afetado.

Os pais são muito importantes na promoção de experiências iniciais com potencial de enriquecer as habilidades cognitivas, afetivas e linguísticas das crianças. Na primeira fase da vida, principalmente até os 3 anos de idade, o cérebro da criança é como uma massa moldável. E neste momento que se deve gerar todas as conexões necessárias para um crescimento saudável da mente desde a infância até a idade adulta.

Tanto é assim que o desenvolvimento dos primeiros anos de vida terá impacto, por exemplo, no rendimento escolar ou mesmo nas possibilidades de trabalho no futuro. Por esta razão, diferentes tipos-chave de desenvolvimento são distinguidos nesta fase:

DESENVOLVIMENTO COGNITIVO

Inclui a consolidação de várias capacidades de percepção, movimento, pensamento, organização, planejamento e tomada de decisão. Evidências científicas mostram que, para que essas habilidades se desenvolvam adequadamente, as crianças precisam conviver com pessoas que conversem com elas, cantem para elas, olhem para elas, respondam suas indagações, acolham quando choram e brinquem com elas.

Além disso, os mais novos precisam de rotinas organizadas para as principais atividades de cada dia, receber instruções breves, claras e precisas, bem como ser elogiados sempre que fizerem algo corretamente ou pela primeira vez.

DESENVOLVIMENTO AFETIVO E SOCIAL

Esse processo está relacionado com a forma como a criança aprende a expressar e controlar suas emoções, entender as manifestações dos colegas e se relacionar com outras pessoas.

Pesquisas mostram que, para potencializar essas habilidades, as crianças precisam receber amor, atenção, compreensão e aceitação dos adultos, desenvolvendo assim a confiança em seus pontos fortes.

DESENVOLVIMENTO LINGUÍSTICO E COMUNICATIVO

Abrange a aquisição das habilidades para reconhecer e produzir sons da fala, compreender palavras e produzir gestos significativos. Nesse sentido, a pesquisa mostra que conversar com a criança para que ela nomeie objetos e pessoas dentro e fora de casa, aproveite as situações cotidianas para dizer palavras novas e familiares, além de motivar e parabenizar quando ela usa corretamente uma palavra, estimula o desenvolvimento da linguagem com intenção comunicativa.

Pesquisas realizadas em diferentes países do mundo mostraram que o apoio dos responsáveis pela criação dos filhos com práticas e ferramentas facilitadoras é muito eficaz para favorecer o desenvolvimento das crianças, principalmente daquelas com menos recursos ou que crescem em contextos de pobreza.

OUTROS OLHARES

1 A CADA 3 MULHERES AGREDIDAS COM ARMA SOFREU VIOLÊNCIA ANTES

Estudo inédito aponta para falhas nos sistemas de prevenção e proteção

Uma a cada três mulheres que sofreram agressões com o uso de arma de fogo já havia sido vítima de violência em episódios anteriores. O dado é de um relatório inédito do Instituto Sou da Paz sobre o papel da arma de fogo na violência de gênero no Brasil e aponta para falhas nos mecanismos de prevenção e de proteção à mulher vítima de agressões que podem estar  perpetuando e agravando a vitimização de mulheres no país.

O levantamento usa os dados consolidados do SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade) e do Sinan (Sistema Nacional de Vigilância de Agravos de Notificação) entre 2012 e 2020, ano mais recente disponibilizado pelo Ministério da Saúde. Enquanto o SIM registra mortes violentas, o Sinan computa casos de agressão e outros tipos de violência que chegam à rede de atendimento em saúde.

A violência de repetição foi detectada em 31% dos casos de agressões por armas de fogo atendidos e registrados pela Saúde em 2020. Essa tipologia indica mulheres vítimas de violência armada que reportam violências anteriores quando recebem atendimento médico ou ambulatorial.

Em 2012, esse percentual era de 23%, e o aumento dessa proporção foi mais expressivo a partir de 2018, quando chegou a 26% para, dois anos depois, bater a marca de 31%. O cenário da grande maioria dessas agressões é a própria casa das vítimas: 72% dos casos de violência armada associados à violência de repetição ocorreram dentro da residência da mulher.

“O mais emblemático desse dado é que ele indica que a violência contra a mulher pode se apresentar como um ato contínuo”, avalia a advogada Carolina Ricardo, diretora-executiva do Sou da Paz.

“O nosso sistema de proteção falha ao não endereçar nem contribuir para o fim dessa violência de repetição. E cessar esse ciclo é muito importante para que os casos de violência armada não terminem em feminicídio.”

Ela aponta que a proliferação de armas no Brasil, promovida por decretos do governo Jair Bolsonaro (PL), tem potencial de agravar esse quadro. Estudos internacionais já associaram o aumento de posse de armas com o aumento da violência doméstica armada e de mortes de mulheres por parceiros e ex- parceiros, num contexto que se intensificou durante a pandemia da Covid-19.

Foi esse o desfecho trágico ocorrido em setembro deste ano após outras agressões e ameaças perpetradas contra Michelli Nicolich, 37, por seu ex-marido, Ezequiel Lemos Ramos, 38. Ela e o filho mais novo do casal, de dois anos de idade, foram mortos dentro do carro por tiros disparados por Ezequiel. Outra criança que estava no carro, também filha do casal, não se feriu no ataque.

Em maio, ela havia deixado a cidade de Ponta Porã (MT) para viver escondida com os filhos na capital paulista depois de sofrer ameaças por parte de Ezequiel, que tinha registro CAC (sigla para caçadores, atiradores e colecionadores) e mantinha armas em casa. Na época, Michelli denunciou Ezequiel à polícia por tentar expulsá-la de casa e ameaçá-la de morte “engatilhando uma arma em sua cabeça”. Ezequiel chegou a ser preso, e foram aplicadas medidas protetivas que o proibiam de chegar a menos de 200 metros de Michelli, e de manter contato com a vítima por qualquer meio de comunicação, entre outras medidas. Duas armas de Ezequiel também foram apreendidas pela polícia, mas elas não eram as únicas.

Para Cristina Neme, Coordenadora de projetos do Sou da Paz e coautora do estudo, “a violência doméstica tem dinâmicas próprias e a repetição é uma delas”. “Quando tem uma arma de fogo neste contexto, ela se torna um fator de risco importante para a violência e para a violência letal”, afirma. Neme destaca que, enquanto os homicídios de mulheres por arma de fogo caíram quando o contexto são as ruas, elespermaneceram em patamar semelhante ou até aumentaram um pouco quando o contexto é a residência da vítima.

Na violência não letal com arma de fogo, 42% dos casos acontecem também dentro de casa. No caso das mortes, a desigualdade de gênero fica evidente: 27% das mortes de mulheres com arma de fogo ocorrem em casa enquanto, entre homens, são 11% .

Para a socióloga Wânia Pasinato, especialista em violência de gênero, o fato de 31% das mulheres vítimas de violência  armada terem sido alvo de outras agressões levanta questões importantes sobre a implementação da Lei Maria da Penha (11-340/2006) e de protocolos de prevenção e proteção criados pelo poder público.

“É importante que o Poder Judiciário observe os dados deste estudo e os considere para implementar dispositivos contidos na lei, como os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher previstos no artigo 14. São juizados com competência civil e criminal, o que permite ao juiz uma avaliação integral do caso para a aplicação de medidas protetivas de maneira mais rápida e eficiente”, aponta.

Segundo Pasinato, ainda hoje há apenas quatro unidades desses juizados, implementadas em Mato Grosso do Sul.

“Outro instrumento importante é o formulário de avaliação de risco, desenvolvido em 2018, e que permite uma melhor gestão de medidas preventivas para que essa repetição da violência não aconteça nem seja agravada pelo uso de armas de fogo”, completa.

Além de perguntas a serem colhidas junto às mulheres, o formulário propunha uma classificação de riscos, entre baixo, médio e alto, para diferentes propostas de encaminhamento do caso.

Pasinato explica que o formulário, desenvolvido em parceria com especialistas no  tema, como ela, sofreu uma revisão no CNJ (Conselho Nacional de Justiça) por um grupo de trabalho formado sem a participação da sociedade civil.

“Fizeram várias alterações com perguntas que nunca foram testadas, e retiraram a parte de classificação e de gestão do risco”, relata. “Uma série de deturpações num instrumento que é importantíssimo”.

O CNJ, por meio de nota, diz que a mudança “para construção de um modelo único para o CNJ e o Conselho Nacional do Ministério Público foram necessárias para atender às múltiplas realidades brasileiras, nas quais nem sempre será possível a existência de uma equipe multidisciplinar”.

A nota afirma ainda que o formulário é uma “ferramenta extremamente importante para auxiliar magistrados na decisão da medida protetiva de urgência mais adequada e eficaz”, mas que se optou pela não inclusão de campos específicos destinados à quantificação e qualificação de fatores de risco.

“Não adianta a gente só aprovar leis se isso não for acompanhado por procedimentos junto a quem tem que aplicar essas leis”, critica Pasinato.

De acordo com o relatório do Sou da Paz, a arma de fogo é o instrumento mais utilizado nos assassinatos de mulheres no Brasil. Entre 2012 e 2020, em média seis mulheres foram assassinadas por dia com arma de fogo no país.

Armas de fogo estiveram presentes em metade dos homicídios femininos no período, um tipo de violência que atinge negras de maneira desproporcional: 7 a cada 10 mortas por armas de fogo em 2020 eram negras.

Mulheres negras são mortas 2,3 vezes mais em espaços públicos do que dentro de casa, enquanto, entre brancas, a diferença é menor (1,5 vezes maior nas ruas do que na residência). O dado sugere maior vulnerabilidade da mulher negra também fora de casa.

GESTÃO E CARREIRA

DEMISSÕES DERRUBAM MITO DA ‘DITADURA GENTIL’ NAS BIG TECHS

Até tentativas de sindicalização foram atacadas com argumento de que trabalhadores eram ‘privilegiados’

Era uma vez jovens graduados que achavam que tinham uma escolha a fazer: podiam ficar ricos mas infelizes, em um banco de investimentos ou escritório de advocacia, ou podiam viver sem um ótimo salário, mas fazendo algo divertido.

Depois, então, vieram as grandes empresas de tecnologia. De repente, era possível para uma pessoa comum certo conjunto de habilidades se divertir e ficar rico ao mesmo tempo.

As empresas de tecnologia pareciam representar um mundo de trabalho menos hierárquico, onde todos usavam jeans e camiseta e o mérito era o mais importante. Os salários eram altos e as opções de ações, abundantes. Se você tivesse sorte, seu patrão também cuidaria das partes chatas da vida, lavando suas roupas, preparando suas refeições e levando você para casa à noite.

Neste ano, as empresas de tecnologia representaram cinco dos dez melhores lugares para se trabalhar nos Estados Unidos, segundo avaliações de funcionários no site Glassdoor.

Formuladores de políticas e economistas logo passaram a ver os trabalhadores de tecnologia como os vencedores arquetípicos da economia do século21: firmemente na ponta “adorável” da crescente lacuna entre os empregos “adoráveis” e os “péssimos”. Quando alguns funcionários do setor tentaram se sindicalizar, a resposta de empresas e investidores foi, muitas vezes, argumentar que esses já eram empregos dos sonhos – então, qual o sentido de fazer isso?

Como afirmou um investidor, os trabalhadores de tecnologia que tentavam se sindicalizar estavam “se apropriando da linguagem dos mineiros de carvão explorados enquanto desfrutavam da experiência de trabalho em escritório mais privilegiada da história da humanidade”.

Essa conversa chegou ao fim com uma série de demissões em massa em empresas de tecnologia nas últimas semanas.

A Meta demitiu 11 mil trabalhadores, ou 13% de sua força de trabalho. Elon Musk, o bilionário que é o novo dono do Twitter, reduziu o número de funcionários do grupo pela metade.

A Amazon anunciou um corte de aproximadamente 10 mil empregos, enquanto a empresa privada de pagamentos Stripe abateu 14% dos trabalhadores.

Foi uma experiência brutal para os funcionários do ramo da tecnologia.

Na maioria dos casos, os cortes de empregos são a reversão de uma recente onda de contratações. Apenas no Twitter a história é um pouco diferente.

As empresas de tecnologia apostaram na continuidade de um ambiente macroeconômico incomumente benéfico que, na verdade, estava prestes a acabar.

Os consumidores não estão mais confinados em casa pela pandemia, tendo apenas o comércio eletrônico para gastar seu dinheiro. As taxas de juros das maiores economias do mundo não estão mais no fundo do poço.

Este não é o fim dessas empresas. A Meta ainda tem mais funcionários do que no  ano passado. Mas as demissões em massa oferecem algumas lições.

A primeira é que, estejam todos de jeans ou não, muitas empresas de tecnologia são altamente autocráticas. Foi impressionante – e revigorante – ver os presidentes executivos assumirem a responsabilidade pessoal pelas demissões. Mas também foi um lembrete de quanto poder eles têm.

Na Meta, por exemplo, os investidores estão cada vez mais frustrados com a quantidade de dinheiro que o executivo-chefe, Mark Zuckerberg, estava “afundando” no metaverso. Mas a estrutura de ações duplas da Meta permite que ele, com 13% do patrimônio, controle mais da metade dos votos.

“Tomei a decisão de aumentar significativamente nossos investimentos”, escreveu Zuckerberg em um memorando para a equipe há cerca de duas semanas. “Eu entendi errado e assumo a responsabilidade por isso.”

A velocidade das demissões nessas empresas globais também se chocou com o espírito das leis trabalhistas no Reino Unido e na Europa.

“Em muitos países europeus, é preciso alertar as administrações públicas ou conselhos de trabalhadores ou sindicatos, mesmo que a empresa não seja sindicalizada. É preciso ter um plano que atenue o impacto social de suas decisões”, disse Valério De Stefano, professor da Escola de Direito Osgoode Hall, em Toronto (Canadá).

A ideia dessas leis não é impedir que as empresas façam demissões, diz ele, mas garantir que ocorram de forma justa e com o devido aviso. “Temos um despertar muito duro agora, está acontecendo sem nenhum controle ou consulta, apenas alguém que diz: ‘Desculpem, a culpa é minha’”.

Para os funcionários, a experiência destaca o fato de que ditaduras benevolentes podem parecer boas até que não sejam mais tão benevolentes. Mesmo as pessoas que mantiveram os empregos estão vendo alguns benefícios mudarem. No Twitter, Musk anunciou que todos devem trabalhar longas horas em ritmo intenso no escritório, modificando a vida de pessoas que planejavam trabalhar remotamente.

Os sindicatos esperam que as demissões os ajudem a argumentar que os sindicatos não tratam apenas de tentar melhorar as condições precárias de trabalho, mas também de ter uma voz real e um lugar à mesa.

Mike Clancy, secretário-geral do sindicato britânico Prospect, diz que a entidade tem alguns membros no Twitter e espera recrutar mais no setor tecnológico. “Muitas vezes há um verniz progressista – somos todos técnicos juntos”, diz ele. “[O] clima todo é do tipo ‘nós oferecemos uma proposta de emprego diferente’. Não, você não oferece quando se trata de dispensar mão de obra, não é?”

A outra lição é não se deixar levar pela linguagem auto elogiosa sobre a “guerra por talentos”, que era onipresente no setor de tecnologia até recentemente.

Existem pessoas talentosas em todas as esferas da vida. O que importa para o salário é oferta e demanda. Trabalhadores mal pagos nos EUA vêm recebendo grandes aumentos salariais em termos nominais este ano. Ninguém está chamando isso de “guerra por talentos”; eles estão chamando de “falta de mão de obra”. As empresas de tecnologia podem ter oferecido vantagens incríveis, mas as pessoas não precisam tanto de empregos dos sonhos e sim de empregos que as tratem com decência. O problema dos sonhos é que eles desaparecem quando você acorda.

*** SARAH O’CONNOR – Colunista do Financial Times

EU ACHO …

GENTIL DEMAIS

Recebi um livro chamado A arte de ser gentil, com o dispensável subtítulo A bondade como chave para o sucesso, que, a meu ver, descredibiliza um pouco o autor, o sueco Stefan Einhorn, já que ser gentil deveria ser uma atitude para facilitar as relações humanas, e não uma meta para o sucesso. Que sucesso, o quê. Agora tudo o que a gente faz tem que visar o sucesso?

O texto da contracapa diz que uma pessoa gentil terá mais oportunidades de se tornar feliz, rica, bem-sucedida e realizada, e que o livro fornecerá soluções imediatas e de longo prazo para os interessados em se tornarem seres humanos melhores. Foi  tudo que li  até agora, a contracapa, e não vou adiante. Primeiro, porque tenho uma pilha de outros livros me aguardando, e em segundo lugar, porque já sou gentil. Nem sabia que sendo gentil eu poderia ficar rica, feliz, bem-sucedida e essa coisa toda. Sou gentil simplesmente porque acho mais fácil do que ser grosseira. Despende menos energia. E também porque não vejo graça em magoar as pessoas. Até aí, estou no padrão. O que ninguém nos ensina é que gentileza demais pode, por incrível que pareça, também ser um defeito, e dos graves.

Óbvio que não se deve ser rude com amigos, parentes, colegas de trabalho, vizinhos, comerciários, mas ser exageradamente gentil com todo mundo pode colocar a nossa vida em risco. Por exemplo: o que você faz se, ao chamar o elevador de um prédio estranho, à noite, a porta se abrir e lá dentro estiver um sósia do Curinga, com uma cicatriz perturbadora na face e vestindo um sobretudo enorme que poderia muito bem esconder duas pistolas, três granadas e um rifle? Você certamente teria uma vontade súbita de descer pela escada e sumiria de vista. Pois eu entraria no elevador toda faceira, daria boa noite e faria comentários sobre o clima, pois deus que me livre de ele achar que eu sou preconceituosa e que sua aparência me fez pensar que ele pudesse ser um esquartejador de mulheres. Por que ele não pode ser um pai de família como outro qualquer?

Se eu pego um táxi e o motorista demonstra não ter o menor senso de direção, arranha marchas, não usa o pisca-pisca e tira um fino dos outros carros, eu é que não vou mandá-lo de volta para a autoescola. Se ele correr a 200km/h, tampouco solto os cachorros, vá saber o dia horroroso que ele está descontando no acelerador, coitado. Neste caso eu simplesmente “me lembro” de que o endereço onde pretendo ir fica na próxima esquina, e não três bairros adiante, e saio pedindo desculpas pelo meu equívoco.

Se um garçom se aproximar perigosamente de mim com uma panela cheia de óleo fervente, eu não dou um pio, imagina se vou pedir para ele se afastar. Ele vai me considerar uma elitista estúpida – não basta ter pedido um fondue caríssimo, ainda vou ser grossa? Nada disso, uma queimadura no braço não mata ninguém. E se eu estou caminhando por uma rua escura e, na direção contrária, vem um adolescente com um gorro enterrado até o nariz e as duas mãos enfiadas numa jaqueta, eu começo a rezar, mas não troco de calçada, imagina o trauma que posso causar no menino: vai ver é até um amigo da minha filha.

Se você tem mais de nove anos de idade, já sabe reconhecer uma ironia e entendeu meu recado: seja gentil, mas não a ponto de perder o tino. Se tiver que ferir suscetibilidades para salvar sua pele, paciência. Atravesse a rua. Desça pela escada. Dê no pé. Sucesso é chegar em casa com vida.

ESTAR BEM

COMO AS TELAS PODEM MUDAR NOSSOS CORPOS?

Uso do smartphone em excesso pode prejudicar a cervical e é preciso estar atento a ações simples, como piscar, ter atividades físicas e moderar uso à noite

Você provavelmente viu a reprodução 3D que simula os impactos da tecnologia na aparência dos seres humanos. A imagem é resultado de uma projeção da empresa de telecomunicações Toll Free Forwarding e foi feita com base nas expectativas para o ano 3000.

Chamada de Mindy, o ser humano do futuro teria as costas curvadas e o pescoço mais largo como resultado do uso excessivo dos aparelhos digitais. As mãos seriam em formato de garra, em referência ao hábito de digitar no celular. Até uma segunda pálpebra apareceria como proteção à iluminação dos dispositivos eletrônicos. Não à toa, a simulação reverberou nas redes sociais. Porém, especialistas ouvidos apontam ressalvas nessa representação.

“Acredito que o estudo foi feito mais como uma forma de alerta do que como uma previsão do que vai acontecer”, defende Ricardo Paletta, médico oftalmologista e presidente da Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO). Ele explica que o surgimento de uma segunda pálpebra em menos de 800 anos de evolução humana – período estipulado pela projeção – é quase impossível.

As costas curvadas e o pescoço mais largo também são possibilidades descartadas por Ivan Rocha, médico ortopedista do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da USP. Segundo ele, ainda que a projeção use como base questões já identificadas e conhecidas – como os problemas de postura e a mão de garra –, ela desconsidera os avanços científicos a respeito da evolução humana. “Essa estimativa pressupõe que problemas na postura podem passar para os nossos descendentes como características mais adaptáveis. A projeção pode ter um fundo de verdade, mas não é assim que aconteceria.”

Ainda que essa representação esteja distante de se tornar realidade, não significa que cuidados durante o uso de aparelhos eletrônicos não sejam necessários. Veja as dicas.

CUIDADOS COM A CERVICAL

O uso do smartphone em excesso pode trazer problemas para a coluna cervical, conforme alerta Alexandre Fogaça, médico ortopedista e membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT). Ele explica que a posição comum ao usar o celular – aquela com o pescoço curvado para baixo – submete a musculatura cervical a um estresse prolongado. Isso pode trazer dores, torcicolo, hérnias de disco e doenças crônicas, como a artrose. “Por isso, o uso desses dispositivos tem de ser com moderação”, reforça.

ATENÇÃO AOS BRAÇOS

A digitação no aparelho também exige atenção. “Ficar digitando por muito tempo sobrecarrega a musculatura dos braços e pode causar lesões nos tendões”, explica. Por isso, ele recomenda o uso do smartphone com cautela e, quando necessário utilizar o aparelho, fazer isso com a tela mais próxima da altura dos olhos.

LEMBRE-SE DE PISCAR

Toda vez que olhamos para uma tela entramos em um estado de concentração visual. “Quando entramos nesse estado, diminuímos nossa frequência de piscadas e o olho fica ressecado”, alerta o oftalmologista. Esse ressecamento pode ocasionar ardência, coceira, e embaçamento visual. Por isso, lembrar de piscar os olhos enquanto usa aparelhos eletrônicos é essencial para garantir sua correta lubrificação. “Quando necessário, também pode ser receitado por um oftalmologista o uso de um colírio para repor a lágrima.”

PRATIQUE ATIVIDADES FÍSICAS

“É importante fazer atividade física condizente com a idade e com as comorbidades pelo menos três vezes na semana com supervisão de um educador físico”, recomenda Fogaça. Ele explica que a prática garante maior resistência na musculatura para suportar o estresse diário.

OBJETOS DE TRABALHO

Adotar um ambiente de trabalho ergonômico também é importante, em especial para quem continua em trabalho remoto. Uma boa cadeira pode fazer a diferença. A recomendação do ortopedista é utilizar uma com encosto, que permita apoiar os pés no chão e que mantenha quadril e joelhos curvados em 90 graus.

Fique atento também à posição do computador. Busque utilizá-lo na altura dos olhos, com mouse e teclado na altura do cotovelo dobrado. Evitar trabalhar no sofá ou na cama também ajuda a manter uma postura mais ergonômica.

EVITE TELAS ANTES DE DORMIR

As telas dos aparelhos eletrônicos emitem uma luz que afeta uma glândula do nosso cérebro chamada glândula pineal. “A glândula pineal controla o nosso estado de vigília e de sono”, alerta o oftalmologista. Ele explica que é ela que comanda os momentos de despertar e de dormir. “Ao usar telas próximo da hora de dormir é como se a iluminação das telas dissesse para a glândula pineal que ainda é dia e que precisamos estar em estado de vigília.” Por isso, ele aconselha suspender o uso de telas duas horas antes de dormir.

FAÇA PAUSAS

Estimular intervalos entre os usos dos equipamentos eletrônicos pode evitar problemas na coluna e na musculatura. No caso do trabalho – seja no computador ou no smartphone –, Fogaça recomenda pausas a cada duas horas. “É importante levantar, andar um pouco e alongar a musculatura. Isso favorece tanto a parte músculo-esquelética como a parte vascular”, explica.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PESQUISADORES CRIAM APLICATIVO NA TENTATIVA DE PREVENIR SUICÍDIO

Sensor no celular coleta dados sobre estado de espírito e interações sociais dos pacientes e dá alarme se preciso

Em março, Katelin Cruz deixou sua última internação psiquiátrica com uma já conhecida mistura de sentimentos. Estava aliviada por sair da enfermaria, na qual os funcionários escondiam os cadarços de seus sapatos e às vezes a seguiam até o chuveiro para garantir que ela não tentasse se ferir.

Mas ela contou que sua vida lá fora estava instável como sempre, com uma pilha de contas não pagas e sem um lar permanente. Foi fácil voltar para os pensamentos suicidas. Para o paciente frágil, as semanas depois da alta de uma instituição psiquiátrica são um período notoriamente difícil, com uma taxa de suicídio 15 vezes superior à média dos Estados Unidos. Contudo, dessa vez, Cruz, de 29 anos, deixou o hospital como parte de um projeto de pesquisa que tenta usar avanços na inteligência artificial para fazer algo que os psiquiatras procuram resolver há tempos: prever quem é suscetível à tentativa de suicídio e quando essa pessoa vai fazê-lo, para que uma intervenção seja possível.

No pulso, ela usava um Fit-bit programado para acompanhar seu sono e sua atividade física. Em seu smartphone, um aplicativo coletava dados sobre seu estado  de espírito, seus movimentos e suas interações sociais. Cada dispositivo fornecia um fluxo de informações a uma equipe de pesquisadores da Universidade Harvard.

No campo da saúde mental, poucas novas áreas geram tanta empolgação quanto o aprendizado de máquina, que usa algoritmos para prever melhor o comportamento humano. Ao mesmo tempo, há grande interesse em biossensores que acompanham o humor de uma pessoa em tempo real, analisando escolhas musicais, postagens nas redes sociais e expressão facial e vocal.

Matthew K. Nock, psicólogo de Harvard que é um dos maiores pesquisadores do suicídio no país, espera unir essas tecnologias em uma espécie de sistema de alerta precoce que poderia ser usado quando um paciente em risco recebe alta do hospital.

Ele deu um exemplo de como poderia funcionar: o sensor relata que um paciente tem o sono perturbado, relata o mau humor em questionários e o GPS mostra que ele não está saindo de casa.

E um acelerômetro no telefone mostra que a pessoa está se movimentando muito, o que sugere agitação. O algoritmo sinaliza o paciente. Um alarme soa em um painel. E, na hora certa, um médico oferece ajuda com um telefonema ou uma mensagem.

Há muitas razões para duvidar que um algoritmo possa chegar a esse nível de precisão. O suicídio é um evento raro, mesmo entre aqueles que correm maior risco, que qualquer esforço de previsão certamente resultará em falsos positivos, forçando a intervenção em pessoas que podem não precisar dela. Os falsos negativos  poderiam colocar a responsabilidade legal nos médicos.

Os algoritmos precisam de dados granulares de longo prazo de um grande número de pessoas, e é quase impossível observar um grande número de suicidas. Por fim, os dados necessários para esse tipo de monitoramento levantam a questão de invasão de privacidade.

Nock está ciente de todos esses argumentos, mas persiste, em parte por frustração. “Com todo o respeito àqueles que fazem esse trabalho há décadas, há um século, não aprendemos muito a identificar pessoas em risco e a intervir. A taxa de suicídio agora é a mesma de cem anos atrás.” Em uma tarde de agosto em Harvard, o cientista de dados Adam Bear estava diante de um monitor no laboratório de Nock, olhando para os gráficos em ziguezague dos níveis de estresse de um sujeito ao longo de uma semana. Quando os estados de ânimo são mapeados como dados, surgem padrões, e procurá-los é o trabalho de Bear. Ele passou alguns meses em meados deste ano analisando dias e horas de 571 participantes que, depois de procurar atendimento médico em decorrência de pensamentos suicidas, concordaram em ser rastreados por seis meses. Enquanto estavam sendo rastreados, dois se suicidaram e entre 50 e 100 fizeram tentativas. A equipe está mais interessada nos dias anteriores às tentativas de suicídio. Já surgiram sinais: embora os impulsos suicidas muitas vezes não se alterem no período anterior a uma tentativa, a capacidade de resistir a esses impulsos parece diminuir. A privação do sono parece contribuir para isso.

Nock procura maneiras de estudar esses pacientes desde 1994, quando teve uma experiência que o chocou.

Durante um estágio de graduação no Reino Unido, foi designado para uma unidade fechada, destinada a pacientes violentos e com tendência à autoagressão. Lá, viu coisas inéditas para ele: pacientes com cortes nos braços.

Um deles arrancou o próprio globo ocular. Um jovem com quem fez amizade, que parecia estar melhorando, foi encontrado mais tarde no rio Tâmisa.

Ele teve outro choque quando começou a fazer perguntas sobre o tratamento desses pacientes aos médicos e percebeu que estes sabiam muito pouco. Lembra-se de que um deles respondeu: “Receitamos alguns remédios, falamos com eles e esperamos que melhorem”.

Nock concluiu que uma das razões foi que nunca foi possível estudar um grande número de pessoas com ideias suicidas da mesma forma que somos capazes de observar pacientes com doenças cardíacas ou tuberculose.

“A psicologia não avançou tanto quanto outras ciências porque temos feito isso de maneira errada. Não encontramos algum comportamento importante e o observamos. Mas, com o advento de aplicativos baseados no smartphone e nos sensores de vestir, temos dados de muitos canais diferentes e, cada vez mais, a capacidade de analisá-los e observar as pessoas enquanto levam a vida.”

Foi por volta das 21h, algumas semanas depois do estudo de seis meses, que a pergunta apareceu no telefone de Cruz: “Quão forte é seu desejo de se matar?”. Sem pensar, ela arrastou o dedo até o fim da barra: 10. Alguns segundos depois, pediram-lhe que escolhesse entre duas declarações: “Certamente não vou me matar hoje” e “Certamente vou me matar hoje”. Ela optou pela segunda.

Quinze minutos depois, seu telefone tocou. Era uma integrante da equipe de pesquisa, que ligara para o 911 e manteve Cruz na linha até a polícia chegar; em seguida, ela desmaiou. Mais tarde, quando recuperou a consciência, uma equipe médica massageava- lhe o esterno, procedimento doloroso usado para reanimar quem sofreu overdose. Cruz tem o rosto pálido e angélico e usa uma franja de cachos escuros. Estava estudando para um curso de enfermagem quando uma série de crises mentais fez sua vida mudar de direção. Mantém o interesse nerd pela ciência, brincando que a caixa torácica desenhada em sua camiseta é “anatomicamente correta”.

Ela logo se interessou pelo experimento e respondia às questões obedientemente seis vezes por dia, quando os aplicativos do telefone perguntavam sobre pensamentos suicidas. As notificações eram intrusivas, mas reconfortantes: “Parecia que eu não estava sendo ignorada. Ter alguém que sabe como me sinto tira um pouco do peso”.

Na noite de sua tentativa, ela estava sozinha em um quarto de hotel em Concord, Massachusetts. Não tinha dinheiro suficiente para outra noite lá, e seus pertences estavam em sacos de lixo no chão.

Confessou que estava cansada “de sentir que não tinha ninguém e nada”. Comentou que achava que a tecnologia – seu anonimato e a ausência de julgamento – facilitava o pedido de ajuda: “Acho que é mais fácil dizer a verdade a um computador”.

Recentemente, quando o ensaio clínico de seis meses chegou ao fim, Cruz preencheu seu questionário final com uma pontada de tristeza. Perderia o dólar que recebia por cada resposta. E sentiria falta da sensação de que alguém a observava, mesmo que fosse alguém sem rosto, a distância, por intermédio de um dispositivo.

“Honestamente, me sinto um pouco mais segura ao saber que alguém se importa o suficiente para ler esses dados todo dia, sabe? Vou ficar meio triste quando acabar.”

OUTROS OLHARES

SAIBA COMO CONVENCER ANTIVACINAS A RECONSIDERAR

Caminho é ouvir sem julgar, para entender preocupações e oferecer dados científicos. Confronto deve ser evitado

No começo do ano, o então líder antivacina italiano Pasquale Bacco revelou ter mudado de ideia, para choque de seus seguidores. O médico disse que “tinha muitas perguntas e ninguém respondia” e por isso passou a criticar os antígenos contra o coronavírus. Decidiu, porém, parar com os discursos contra os imunizantes quando soube que um rapaz de 29 anos, fã de seus vídeos, morreu em decorrência da Covid-19. Especialistas em saúde alertam que, em muitos casos, os antivacinas são – assim como Bacco – pessoas com dúvidas ou receios sobreo funcionamento dos imunizantes. E não pessoas irracionais. O antídoto para ajudar os hesitantes, dizem psicólogos e outros especialistas de saúde, é ouvir com atenção as dúvidas de quem é contra os imunizantes, responder com paciência e evitar o conflito inflamado.

“Num diálogo com alguém que pensa diferente de nós, se simplesmente criticamos o outro ou falamos nosso ponto de vista, sem considerar quem ouve, corremos o risco de aumentar a resistência”, explica o mestre em psicologia clínica Artur Scarpato.

O diálogo, dizem os médicos, é a chave para conseguir colocar “pulgas atrás da orelha” de quem tem certeza de que não deve se vacinar – embora, reafirme-se, a ciência tenha oferecido inúmeras confirmações de que as vacinas em uso (seja qual for sua finalidade) são sim seguras e efetivas contra diversos tipos de doença.

É importante entender a fonte da resistência: se há um medo dos efeitos colaterais, se há desconhecimento sobre o processo de desenvolvimento e aprovação das vacinas. A informação de qualidade ajuda a diminuir esses receios.

Exemplo de como as dúvidas sem respostas podem ser danosas é a história da norte- americana Heather Simpson, cuja presença em grupos antivacina foi justificada pelo medo de fazer mal à filha com os imunizantes. Após anos de recusa, começou a reconsiderar sua posição após conversas com a médica da menina e por medo que a pequena contraísse tétano. Após ser convencida sobrea eficiência das vacinas, ela criou grupos de apoio a pessoas como ela, o “Back to de Vax” (do inglês: de volta à vacina). Ela aposta na informação com lastro na ciência para ajudar a convencer mais pessoas.

LINGUAGEM

O professor de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie Marcelo Alves dos Santos faz uma orientação prática: evitar dizer um sonoro “não” quando alguém relata seus receios. Ao contrário, é mais proveitoso ouvir o que a pessoa tem a dizer e, em caso de fake news, oferecer a informação correta de maneira a estimular a reflexão.

“O outro não pode entrar em estado de alerta, de defesa. Ser mais amigável ajuda a quebrar a barreira da pessoa, o não querer ouvir. O confronto nunca é a melhor opção”, explica o professor.

Em geral, é preciso estar disposto a retomar à conversa em outras ocasiões e entender que a outra pessoa não quer sentir-se desrespeitada nem diminuída por conta de suas opiniões.

“Para se ter uma conversa difícil é preciso deixar as emoções de lado, focando na racionalidade e sem tanto confronto. E, claro, é preciso ter algum tipo de embasamento sobre o assunto. Ao final da conversa, você tem que ter deixado para a pessoa a informação fundamental de que vacinar é importante”, diz Santos.

SEM JULGAMENTOS

No livro “Pense de novo” (editora Sextante), o psicólogo americano Adam Grant, relata a história de um médico que convenceu uma mãe antivacina a imunizar os filhos:

“Essa canadense teve um bebê prematuro em meio a um surto de sarampo. Chamaram um médico conhecido como “encantador de vacinas”. Ele falou com a mulher para entender a perspectiva dela, que dividiu suas preocupações, contou que vinha de uma comunidade em que poucos eram vacinados. Ele escutou sem julgamentos. Depois disse que, como médico, o objetivo dele também era proteger o bebê e que, se ela permitisse, gostaria de compartilhar algumas informações. Trouxe evidências dos benefícios, deu o entendimento dele como cientista e, no final, disse que a decisão era dela e que estava certo que ela faria o melhor. A mãe não só vacinou o bebê, como os outros filhos e os sobrinhos.

Segundo Grant, a estratégia seria julgar menos, praticar a escuta e reconhecer que não se pode obrigar as pessoas a mudar de ideia.

“Se encontram motivo que faça sentido e decidem por elas mesmas, se sentem mais livres e no controle.

O entendimento coletivo também contribui para a adesão, ou não, da imunização, afirma Sérgio Zanetta, professor de Saúde Pública e Epidemiologia do Centro Universitário São Camilo, em São Paulo. Daí a importância de campanhas nacionais robustas incentivando as famílias a buscar postos de saúde.

“A construção da opinião também passa por fatores externos, políticos e identidades em grupo. Em alguns casos, isso contribui para desinformação. Em outra mão, a relação entre médico e paciente torna-se ainda mais fundamental para reforçar o funcionamento das vacinas. Estamos em um momento de reconstrução”, explica.

“Assim como se faz no marketing, é preciso associar-se ao universo da pessoa. É preciso compreender onde a pessoa se informou e entender o que ela teme, para depois vender a ideia de que a ciência e a vacina são necessárias.

GESTÃO E CARREIRA

DIVERSIDADE NAS EMPRESAS TRAZ BEM-ESTAR E DINHEIRO

Combate ao preconceito resulta em produtividade, engajamento e valorização da marca

Empresas que procuram manter um quadro funcionários que reflita a diversidade da sociedade estão descobrindo vantagens econômicas na adoção dessa política. Uma delas é o ganho de produtividade, que vem sendo conquistado com o maior engajamento geral dos colaboradores. As equipes mais heterogêneas também se mostram mais criativas, o que contribui para a inserção de soluções inovadoras nos negócios, e a imagem da marca fica mais valorizada junto ao cliente.

De modo geral, a diferença de gênero, etnia, orientação sexual e idade, entre outros fatores, enriquecem o cabedal de experiências dos times das empresas. As habilidades diversificadas também proporcionam ganhos qualitativos, pois os grupos revelam-se mais capacitados a reagir às mudanças necessárias em mercados cada vez mais disruptivos e competitivos.

Estudos apontam que o sentimento de pertencimento ao grupo gera mais assiduidade, aumento de desempenho, tomadas de decisão mais assertivas e desenvolvimento de comportamentos mais colaborativos.

No entanto, uma pesquisa da consultoria Deloitte, feita entre agosto e setembro de 2021, com 215 empresas, mostra o grande desafio na busca por diversidade. A questão é mais delicada quando se trata de cargos de chefia. O levantamento apontou que em apenas 23% das organizações ouvidas as mulheres ocupam mais da metade dos cargos de liderança, enquanto em 24% delas sequer há pessoas do sexo feminino nos conselhos. Segundo o estudo, 41% das empresas entrevistadas estavam procurando adotar indicadores de inclusão.

Mas há casos em que a diversidade é um pilar natural. A fábrica de portas Rayflex, do interior de São Paulo, nunca estabeleceu cotas em 30 anos de mercado, mas, por adotar um modelo de seleção sem discriminação, tem em seu quadro pessoas de todas as faixas etárias e de diversas religiões e trabalhadores LGBTQIA+. A partir de um levantamento, foi constatado que 9,23% dos colaboradores têm mais de 50anos, o que foi alcançado sem que houvesse um programa específico para isso.

Para a CEO Giordania Tavares, fez diferença o exemplo vir de cima, pois a família escolheu uma mulher para a direção da empresa e destravou o caminho para a diversidade. A fábrica ainda estimula a apresentação de sugestões por parte dos integrantes das equipes, concilia diferentes bagagens no currículo e provoca maior engajamento.

“Não toleramos qualquer tipo de discriminação, mas, quando ocorre algum problema, tomamos as medidas necessárias. Hoje reforçamos a importância da diversidade por meio de palestras e comunicados, mas esse padrão foi alcançado porque não se trata apenas de marketing”, afirma Giordania.

ACOLHIMENTO

A empresa de gestão de tecnologia da informação Finch também acredita no processo top down – de cima para baixo – para que a cultura da diversidade seja efetivada, foi criado um comitê de diversidade e inclusão que passou a discutir medidas para garantir um clima de acolhimento.

O processo de conscientização começou pelas lideranças que assistiram a palestras sobre o tema. Apesar de não estabelecer cotas para os diferentes grupos, foi feito um censo para se conhecer a realidade do corpo de funcionários:

“As empresas que adotam os princípios do respeito à diversidade com certeza têm mais engajamento. Nossa preocupação é manter um ambiente p:sicologicamente seguro para que os colaboradores possam se dedicar ao trabalho e trazer o melhor resultado. E, se cliente perceber, valoriza”, explica Karina de Almeida Batistuci, diretora da Finch.

A busca pelo respeito à diversidade faz muitas empresas buscarem ajuda externa para implementar políticas corretas. A consultoria Fábrica de Criatividade apoia e dá treinamentos sobre o tema. Preparou até um workshop, que dura cerca de três horas, para uma conscientização mais rápida. A Ideia é mostrar para a equipe que o preconceito está no dia a dia e que premissas preconcebidas influenciam o comportamento e a atitude das pessoas. O workshop apresenta situações comuns de discriminação e ajuda as pessoas a combater os vieses preconceituosos.

“Quando presenciamos alguma atitude preconceituosa, temos que nos manifestar. Não podemos ficar calados ou dar risada. Muitas vezes o preconceito é fruto de crenças da criação, mas é preciso aprender a pedir desculpas quando alguém se sente ofendido. Essas questões são debatidas nos workshops”, explica Tita Legarra, sócia da ´Fábrica de Criatividade.

EU ACHO …

DEU CERTO! E AGORA? NÃO DEU CERTO! E AGORA?

“Vida, minha vida/ Olha o que é que eu fiz” (Chico Buarque, “Vida”)

Achei que dava e realmente deu certo. Consegui o meu intento. E agora?

Existem pessoas que, passada a euforia de uma conquista, experimentam uma sensação de vazio. Especialmente após terem êxito em uma empreitada que demandou esforço intenso ou que carregava o risco de não se realizar. Elas não veem mais graça em desafios menores ou em voltar a uma condição mais cotidiana.

Um  sentimento  semelhante  ao  que  expressa  o  compositor  baiano  Raul Seixas (1945-1989), na sua música “Ouro de tolo”: “Eu devia estar contente/ Por ter conseguido tudo o que quis/ Mas eu confesso, abestalhado/ Que estou decepcionado”.

A forma de se relacionar com aquilo que é considerado sucesso pelo senso comum carrega uma série de nuances. Em alguns casos, é mais complexa do que assimilar um fracasso. Se o insucesso for visto como oportunidade de aprendizado e aperfeiçoamento, a atitude mais saudável é reerguer-se e seguir em frente.

Mas essa relação depende muito da visão que se tenha de sucesso. Há pessoas que confundem sucesso com notoriedade. A busca é mais por serem famosas do que relevantes ou contributivas. Outras se importam menos com visibilidade, pois têm consciência do valor daquilo que fazem. Sucesso, por esse ponto de vista, vem da satisfação de ter feito algo com maestria, mesmo que não apareça tanto. Já outro tipo de pessoa se orienta apenas pelo resultado, menosprezando o processo. A seleção brasileira que jogou a Copa do Mundo de 1982 fracassou? Para quem é resultadista, sim. Para quem aprecia o futebol bem jogado, aquele é um time memorável.

Entre as ciladas que o sucesso pode trazer está a acomodação. Atingir o objetivo leva muitas pessoas a repousarem sobre a conquista. Em ambientes competitivos, essa atitude pode cobrar um preço alto, pois os concorrentes continuam mobilizados e desenvolvendo competências. Outra cilada é a da mediocridade. A pessoa consegue seu intento e depois passa a fazer mais do mesmo ou a achar que tudo o que faz está ótimo, porque teve aceitação anteriormente. Esse é um grande passo para cair na mediocridade.

O sucesso deve ser celebrado, especialmente quando resulta de um esforço honroso em tê-lo conseguido. Vale curtir a glória, mas sem perder a perspectiva de que ela é momentânea. Nada indica que o êxito vai se repetir na empreitada seguinte. O livro mais desafiador para um escritor costuma ser o segundo. Porque, mesmo que o primeiro tenha virado best-seller, pode ter resultado de uma conjunção de acasos favoráveis. Esse é um fenômeno relativamente comum na indústria da música. Há até a expressão em inglês “one hit wonder” para artistas que explodem na parada e depois não conseguem emplacar outro sucesso.

As pessoas que se sentem desmotivadas após conquistarem grandes feitos talvez devessem refletir sobre qual a razão de se fazer algo. Nos anos 1980, no auge do modelo yuppie (corruptela de young urban professional, que designava jovens executivos ambiciosos), o parâmetro de sucesso era o primeiro milhão de dólares amealhado. O que vem depois? Dois milhões, três milhões? Essa elevação da barra é uma possibilidade. Outra é atingir um milhão e estabelecer como próxima meta a fundação de uma associação de apoio a crianças em situação de vulnerabilidade social. Não há uma única maneira nem uma única coisa a fazer na sequência de uma conquista.

O criador da Microsoft, Bill Gates, é frequentador das listas de homens mais ricos do mundo. Em 2000, com a esposa Melinda, ergueu uma fundação que leva o nome do casal e se dedica a melhorar a condição de vida de pessoas, com ênfase no combate à pobreza e no incentivo para avanços na área da saúde. A entidade já destinou cerca de 4,5 bilhões de dólares para o combate de doenças como tuberculose, malária e Aids. Alguns poderiam dizer: “Doou porque tem”. Temos de lembrar: mas doou! Tem gente que tem de sobra e não doa.

A pessoa que consegue chegar ao ponto máximo em sua trajetória tem um desafio que é, se desejar, construir um outro ponto máximo, que não pode ser o mesmo ou um ponto acima, porque, a depender da situação, não há mais. Se ela insistir nessa perspectiva, é enorme a chance de cair no vazio.

Eu, Cortella, fiz carreira acadêmica, cheguei a professor-titular de uma universidade. O que tem depois de professor-titular? Não tem. Significa que encerrei a minha trajetória profissional? Não. A minha carreira não era só verticalizada. A minha noção de carreira também é horizontalizada. É como uma árvore, com galhos que crescem em várias direções. Ao chegar à condição de professor-titular, eu procurei oportunidades de publicar outros livros, de ter uma participação mais ativa na mídia, de fazer palestras. Então, eu não cheguei ao fim, cheguei ao topo de um dos modos da carreira. Havia toda uma ramificação de projetos possíveis não atrelados diretamente ao mundo acadêmico. Ser professor-titular de uma universidade foi honroso, resultado de dedicação, de concurso, de produção de material, de ser avaliado por bancas. Mas não era o último lugar, era o último passo num dos caminhos possíveis.

Isso vale para outras situações. Como a “síndrome do ninho vazio”, quando os filhos vão embora de casa. Muitos casais se questionam: “O que vamos fazer só nós dois aqui?”. Podem ficar em modo enfadonho ou melancólico, olhando os cômodos vazios. Mas podem também, liberados das responsabilidades em relação aos filhos, se matricular em um curso de dança de salão, dedicar-se a alguma forma de arte, destinar algum tempo a trabalhos voluntários, participar mais ativamente de ações para melhorar a região em que vivem.

Com imaginação e disposição, ainda dá para fazer muito em um mundo onde há muito por fazer.

Porém, temos que nos lembrar de um necessário “ainda dá”, que é também usarmos a nossa energia e inteligência individuais para a obra coletiva mais relevante: o cuidado com a Vida!

Lucrécio  (ca.  94  a.C.-50  a.C.),  pensador  latino,  escreveu:  “A  ninguém  foi dada a posse da vida, a todos foi dado o usufruto”. Sabemos: esse usufruto é comum  e  temos  de  participar  ativa  e  conscientemente  do  “ainda  não  deu, mas dará” coletivo.

Como dissemos desde o começo, o “ainda dá” é uma força intrínseca de cada indivíduo. Entretanto, existem muitos desafios que requerem uma conjunção de vários “ainda dá” em relação a este condomínio que habitamos.

Falamos em diversas situações que é preciso olhar para a frente, pois é no futuro que está a meta a ser conquistada, a linha de chegada do que projetamos. Porém, é no futuro também que se anunciam desafios de vulto, com os quais devemos nos preocupar e agir desde agora, porque envolvem as futuras gerações.

Atualmente somos cerca de 7,2 bilhões de habitantes na Terra. No início da Revolução Industrial, no século XIX, nossa espécie tinha por volta de 1 bilhão de indivíduos. As estimativas dão conta de que fecharemos o século XXI com uma população entre 9 bilhões e 10 bilhões, embora algumas projeções cheguem a apontar 12 bilhões em 2100.

Mais gente demanda mais recursos. Estima-se que de 3 bilhões a 4 bilhões de pessoas sejam inseridas no mercado de consumo nos próximos vinte anos. O fato de mais pessoas no mundo terem acesso a bens é, em si, uma boa notícia. A questão é que diversos estudos apontam que não haverá recursos suficientes para atender as necessidades humanas.

Por isso, será preciso, cada vez mais, consumirmos de modo consciente. Significa consumir menos? Em relação a alguns itens, sim. Mas, no âmbito geral, implica consumir de modo diferente. Estudos dão conta de que serão necessários de quatro e meio a seis planetas Terra para atender um contingente com esses novos consumidores em duas décadas.

Esses números gigantescos parecem minimizar a importância do impacto que cada indivíduo produz no quadro geral. “Ah, eu sou só um em meio a bilhões de pessoas.” Mas o raciocínio deve ser feito justamente pela via inversa, pois é a soma das ações individuais que afeta o coletivo. Imagine o impacto se cada um dos 12 milhões de habitantes da cidade de São Paulo, por exemplo, jogar um papel na rua por dia. Ou se cada paulistano resolver ficar diariamente uma hora debaixo do chuveiro.

Contribuir para a solução, portanto, se faz também pelos pequenos gestos. De que modo? Preferir o uso de energias renováveis, economizar água e energia elétrica, fazer pequenos percursos a pé, reduzir o desperdício de alimentos. E, sobretudo, se questionar a respeito de hábitos de consumo. Será que é preciso trocar de celular só porque outro modelo foi lançado e o seu colega de trabalho já o adquiriu? Você realmente se sente inferiorizado pelo fato de o seu vizinho ter um carro mais novo que o seu?

A nossa espécie, além de usar os recursos como se não houvesse amanhã (e, pelo andar da carruagem, pode ser que não haja mesmo), ainda os utiliza mal. Só para dar um exemplo, um estudo das Nações Unidas aponta 2 bilhões de pessoas adultas com excesso de peso ou obesas, ao passo que outros 2 bilhões de seres humanos têm deficiências nutricionais, e 815 milhões passam fome. Esse é um fracasso sobretudo no campo ético. Nós esquecemos um princípio básico de convivência: ser humano é ser junto.

Em relação à utilização de recursos, não podemos ser arrogantes a ponto de supor que o planeta é nossa propriedade e, portanto, podemos fazer o que bem entendermos. Somos usuários compartilhantes tanto em relação aos da nossa espécie quanto no que diz respeito aos outros 8,7 bilhões de espécies de seres vivos. Cada vez que alteramos o equilíbrio ecológico do nosso planeta, nós somos afetados. Pode não ser de imediato, mas uma hora o efeito desse desequilíbrio se fará notar de modo mais contundente.

A interdependência entre os seres é um princípio básico da existência. Não podemos pensar somente na nossa demanda mais premente e, para isso, exaurir solos, queimar florestas, extinguir outros animais, poluir a atmosfera e contaminar as águas.

O planeta é a nossa casa. O fato de termos as nossas necessidades individuais não implica, de modo algum, agir de modo egoísta. Vale ressalvar que individualidade não é sinônimo de egoísmo. Individualidade tem a ver com a proteção da nossa identidade e da nossa autonomia. Egoísta é aquele que considera que tudo gira em torno de si e que as suas necessidades são prioritárias em detrimento das outras pessoas. É nesse tipo de mentalidade que se origina a atitude predatória.

Se quisermos ir em frente na luta pela sustentabilidade, precisamos mudar esse tipo de orientação. Só assim será possível assegurar um nível de bem-estar coletivo para as próximas gerações.

No nosso cotidiano, alguns comportamentos já indicam uma interpretação do mundo mais coletivista, mais gregária. Na economia do dia a dia, é possível notar sintomas da mudança de mentalidade. Os espaços de coworking, por exemplo. O modelo de crowd-sourcing, que se baseia em conhecimentos coletivos agregados com a finalidade de desenvolver soluções, as quais podem gerar novos produtos e serviços. Atividades artísticas são viabilizadas por financiamento coletivo, o chamado crowdfunding. Aliás, essas obras podem ser de coletivos artísticos.

Assim como o uso das coisas vai sendo gradualmente alterado. Por exemplo, pessoas que passaram a utilizar um sistema de compartilhamento de veículos ou mesmo os aplicativos de mobilidade e abriram mão da posse exclusiva de um automóvel. Em alguns condomínios e edifícios existem as bicicletas de uso compartilhado, as lavanderias coletivas, entre outros itens de uso comunitário.

A junção de coletividades é algo cada vez mais frequente. Em São Paulo, por exemplo, há grupos de consumo responsável que operam de maneiras variadas. Dentre eles, moradores de condomínios diferentes que se reúnem para receber alimentos orgânicos cultivados por cooperativas agrícolas ou por associações de produtores adeptos da agricultura ecológica. Esses grupos se formam para organizar a logística e a distribuição dos produtos, da lavoura até os apartamentos e casas.

Se quisermos que ainda dê pé para as futuras gerações, será fundamental nos pautarmos por ações coletivas que busquem a equidade.

Os desafios são consideráveis. Sofremos reveses, enfrentamos contratempos, amargamos frustrações. Se algo não saiu como imaginávamos, nos sentimos derrotados. Faz parte. Só não podemos sofrer uma segunda derrota na sequência, que é a de achar que “não dá mais”.

A derrota pela circunstância é algo que acontece na vida. Mas a derrota da esperança nós não podemos admitir.

Ainda dá!

ESTAR BEM

COMO USAR O ELÁSTICO PARA FORTALECER OS MÚSCULOS

Antes restrito a tratamentos de reabilitação, acessório se popularizou nas casas e academias depois da pandemia

Ele chegou para revolucionar o uso de pesos e, sem pedir permissão, se infiltrou em academias e diferentes tipos de treinos. Trata-se do elástico, um acessório simples, mas que promete diversos benefícios.

Nos últimos tempos, passou a ganhar cada vez mais seguidores: de atletas profissionais a pessoas que precisam se reabilitar de uma lesão. É comum ver jogadores, como o atacante argentino Lionel Messi, se exercitarem com um elástico durante os treinos, fazerem agachamentos ou colocá-los na cintura para correr enquanto o treinador o segura por trás.

O produto é simples, mas versátil, sendo empregado em exercícios variados, com o objetivo de se tirar o máximo proveito, independentemente do nível de treinamento que você tenha. Por meio do uso dos elásticos, propõe-se uma prática intensa e eficaz.

“Cada músculo do corpo é trabalhado de forma localizada e em uma única sessão através de um processo de resistência gradual e progressiva a partir do próprio peso corporal”, diz o personal trainer argentino Francisco Piperatta.

Esse elemento elástico possui diferentes intensidades e espessuras: macio, intermediário e forte, o que lhe permite esticar mais ou menos, de acordo com a necessidade de esforço de cada pessoa, mas com a vantagem de que, ao não levantar carga extra, o corpo fica protegido de possíveis lesões.

Apesar dos benefícios, não requer muito conhecimento e não é difícil de usar: é colocado entre as extremidades, seja nas pernas, logo acima dos joelhos ou calcanhares, e nos braços, na altura dos pulsos ou acima dos cotovelos, e abre e fecha para os lados aplicando pressão.

“À medida que as faixas são esticadas, a tensão aumenta na área que está sendo exercitada”, diz a médica esportiva e membro do conselho de administração da Associação Argentina de Médicos do Esporte, Alejandra Hintze.

TODOS PODEM USAR

O item é considerado multidisciplinar, porque os tipos de usos que lhe são dados são os mais diversos. Nesse sentido, Hintze comenta que, por um lado, auxilia e facilita a prática de exercícios que envolvem o peso do corpo. Por outro, é um complemento para os treinos, pois pode aumentar sua dificuldade. Pode-se incluir o elástico em agachamentos, elevações pélvicas, polichinelos e pranchas.

“É gerado um treinamento conhecido como concêntrico e excêntrico, que é muito benéfico para o músculo, pois, ao abrir e fechar os braços ou pernas com o elástico, produzimos um efeito de relaxamento e contração que aumenta a força do músculo”, explica Hintze.

Graças a esses benefícios, o preparador físico Alejandro Mezzarapa reforça que as faixas são uma ótima opção para todas as idades. Além disso são aliadas para pessoas que estão perdendo músculo; para quem não tem tempo para ira uma aula de ginástica e quer treinar em casa, e para todos aqueles que estão deixando para trás o sedentarismo e iniciando atividade física.

Segundo Hintze, o sucesso dos elásticos começou durante a pandemia, como uma opção para todos que queriam continuar a treinar, mas não tinham os elementos necessários para se exercitar em casa. Anteriormente, seu uso era reservado a trabalhos de reabilitação e atletas de elite que precisavam manter e melhorar a força.

OS TRÊS EXERCÍCIOS ESSENCIAIS PARA FAZER COM OS ELÁSTICOS

Mezzarapa compartilha algumas atividades dinâmicas para fazer com os elásticos, na intensidade que cada um considerar adequada. Ele sugere fazer dez repetições por série durante três a cinco ciclos de exercícios, com uma pequena pausa de um a dois minutos.

DESLOCAMENTO LATERAL:

• Coloque a faixa apenas alguns centímetros acima dos joelhos;

• Fique na posição de agachamento e tome cuidado para que o joelho não ultrapasse a linha dos pés;

• Dê passos para a direita e depois para a esquerda.

ESTOCADAS:

• Coloque a faixa alguns centímetros acima dos joelhos;

• Fique em pé com os pés afastados na largura do quadril;

• Dê um passo à frente e dobre as pernas;

• Alterne.

OMBROS:

• Ponha a faixa no meio das mãos;

• Coloque os braços em forma de “V”, contraindo as escapulas;

• Abra o máximo possível e segure;

• Repita o movimento

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MUDANÇAS NO CLIMA IMPACTAM SAÚDE MENTAL

Ondas de calor fazem crescer admissões em emergências por quadros psiquiátricos graves, enquanto temperaturas extremamente baixas parecem aumentar risco para o desenvolvimento de depressão

As alterações climáticas e as suas consequências nas nossas vidas ena sociedade voltaram a ser assunto com a 27ª Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP 27. O principal indicador dessas mudanças é o aumento das temperaturas médias nos últimos tempos, que é medido por eventos extremos que ocorrem ano a ano. Como consequência, a sociedade vivencia momentos de seca prolongadas, tempestades e ciclones, ondas de calor e frio.

Esses indicadores de mudanças climáticas afetam a saúde mental de forma duradoura, se estendendo para além de eventos específicos como os citados acima e podendo, eventualmente, alterar as dinâmicas que pensávamos controladas.

Um exemplo é o impacto do aumento das temperaturas e a frequência das ondas de calor que são constantemente discutidos em relação às colheitas, desempenho econômico, mercados internacionais e escassez de alimentos. Em termos de saúde, a maior preocupação é como as ondas de calor afetam os idosos e os que têm empregos vulneráveis. No entanto, é menos conhecido que as visitas a serviços de emergência por problemas de saúde mental aumentam quando as temperaturas sobem e o mesmo se aplica às admissões hospitalares de pacientes com diagnósticos psiquiátricos graves.

Não é necessário que as temperaturas atinjam limites extremos para que ocorram essas mudanças nas consultas e internações. A relação entre as altas temperaturas e o aumento das consultas de saúde mental é observada quando o calor ultrapassa os limites da região geográfica. Esse é um dado que causa preocupação porque, na lógica do aumento gradual das temperaturas médias em relação às mudanças climáticas, pode-se esperar um aumento progressivo das demandas de saúde mental nos próximos anos, à medida que as cidades se tornarem cada vez mais quentes.

Alguns estudos propõem que os níveis de umidade, e não apenas a temperatura, estão envolvidos na maneira como a saúde mental é afetada, uma vez que altos níveis de umidade parecem aumentar significativamente o impacto que as altas temperaturas têm na percepção de desconforto e estresse. Nos casos de pessoas que já possuem histórico de diagnóstico e tratamento de problemas de saúde mental, esses aumentos implicam em maior vulnerabilidade.

DEPRESSÃO

Um estudo feito em Taiwan examinou dados de registros de diagnóstico de depressão entre 2003 e 2013 em associação com dados meteorológicos, como temperatura, duração do dia e precipitação. O risco de ter um diagnóstico de depressão era menor entre as pessoas que viviam em regiões onde as temperaturas médias giravam em torno de 20-23ºC, enquanto o risco aumentou cerca de 7º à medida que a diferença de temperatura média entre as zonas aumentou 1º C. Esteestudo destaca outra consequência das alterações climáticas associadas às mudanças de temperatura: as pessoas que residem em áreas de frio extremo também apresentam malar risco de depressão. Nesse sentido, não apenas o aumento das temperaturas médias mas também as condições climáticas extremas parecem ser capazes de produzir alterações negativas na saúde mental das populações.

Osresultados de um estudo feito nos Estados Unidos mostraram que um aumento da temperatura de 25ºC para médias acima de 30ºC durante um período de um mês representou quase 2 milhões de pessoas a mais com a percepção de alteração mental.

Uma série de estudos realizados com dados históricos desde 1950 gerou grande polêmica ao apresentar a ideia de que as mudanças do clima em escala planetária estão diretamente relacionadas ao aumento do comportamento violento no mundo todo.

OUTROS OLHARES

INGESTÃO DE PILHAS E BATERIAS VIRA RISCO DE MORTE PARA CRIANÇAS, ALERTA ESTUDO

Pesquisa americana estima que entre 2010 e 2019 dobrou número de crianças com ferimentos – e até mortes – por engolir os objetos

As pilhas de botão estão por toda parte: controles remotos, chaveiros, relógios, brinquedos. E, cada vez mais, elas estão entrando nos corpos das crianças, causando ferimentos e, em alguns casos, morte. De acordo com um artigo publicado na edição de setembro da revista Pediatrics, os atendimentos emergenciais de crianças que ingeriram pilhas e baterias entre 2010 e 2019 mais que dobraram os números de 1990 a 2009. As pilhas de botão estiveram presentes em 85% dos casos.

Quando essas baterias se alojam no esôfago, podem causar sérios danos em menos de 2 horas. Embora as células de lítio sejam mais preocupantes porque são maiores e mais propensas a parar no esôfago das crianças, pilhas-botão também podem causar ferimentos graves, especialmente em crianças menores de 1 ano.

Usando dados do Sistema Nacional de Vigilância de Lesões Eletrônicas da Comissão de Segurança de Produtos de Consumo, nos Estados Unidos, os pesquisadores estimaram que houve 70.322 atendimentos emergenciais de crianças relacionados a pilhas e baterias entre 2010 e 2019. E 90% dos atendimentos tiveram crianças que as engoliram (outras lesões envolveram inserções em nariz, ouvido e boca). A maioria dos casos ocorreu entre crianças de 5 anos ou menos, com o maior número envolvendo as de 1 ano.

O aumento nesses atendimentos de emergência provavelmente pode ser atribuído à maior prevalência das pilhas de botão nas residências, de acordo com Mark Chandler, pesquisador da Safe Kids Worldwide, que conduziu o estudo em cooperação com o Nationwide Children’s Hospital e o Global Injury Research Collaborative, ambos localizados em Columbus, Ohio. Chandler observou que pais e mães muitas vezes não sabem quantos dispositivos em sua casa são alimentados por pilhas-botão e o risco que podem representar para as crianças.

Os pesquisadores concluíram que os esforços de prevenção es- tão sendo insuficientes para reduzir os atendimentos de pronto-socorro e pediram “esforços regulatórios e adoção de designs mais seguros para reduzir ou eliminar lesões por ingestão em crianças”. Em 16 de agosto, o presidente Joe Biden assinou a Lei de Reese (em homenagem a uma criança que morreu após ingerir uma pilha-botão) A lei colocará esses esforços regulatórios em marcha nos EUA.

A legislação orienta o órgão responsável a desenvolver padrões de segurança para pilhas-botão, com embalagens mais seguras, etiquetas de advertência mais visíveis – nas próprias baterias – e compartimentos mais seguros nos dispositivos, para impedir o acesso de crianças de até 6 anos. A agência tem um ano para emitir as normas.

No estudo da Pediatrics, 12% de todos os casos de ingestão de pilhas e baterias resultaram em hospitalização; as ingestões envolvendo especificamente pilhas-botão foram duas vezes mais propensas a resultar em hospitalização. De acordo com o Sistema Nacional de Dados de Envenenamento dos EUA, 3.467 ingestões de pilhas-botão foram relatadas em 2019; dessas, 207 resultaram em efeitos moderados, 51 em efeitos mais graves e 3 em morte. Mais da metade dos casos envolvia crianças de 6 anos ou menos.

Varun Vohra, toxicologista clínico e diretor do Centro de Informações sobre Drogas e Venenos da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Wayne, informou que a maioria dos casos não resulta em danos graves e as pilhas de botão podem passar pelo sistema gastrointestinal da criança. Mas quando fica alojada no esôfago da criança, as consequências podem ser graves. A umidade das mucosas pode desencadear uma corrente elétrica que provoca uma reação química, ferindo o tecido adjacente (a corrente cria hidróxido, que causa queimaduras alcalinas). “Isso pode causar lesões graves, até mesmo perfuração esofágica, que pode resultar em complicações significativas.” Se o raio X revelar uma bateria no esôfago, ela precisará ser removida imediatamente, por endoscopia ou cirurgia, pois lesões graves no esôfago podem ocorrer em menos de duas horas. Mas a lesão pode progredir mesmo após a remoção da pilha, levando a complicações relativamente raras, como paralisia das cordas vocais ou fístula traqueoesofágica, uma conexão anormal entre a traqueia e o esôfago.

LEI REESE

Foi o que aconteceu com a criança que dá nome à Lei de Reese. Reese Hamsmith, de 18 meses, estava com dificuldades respiratórias em outubro de 2020 que foram inicialmente diagnosticadas como inflamação na laringe. Depois que a família percebeu que estava faltando uma pilha de botão em um controle remoto quebrado e que Reese a havia ingerido, ela passou por uma cirurgia para remover a bateria, mas desenvolveu uma fístula difícil de tratar entre o esôfago e a traqueia. Após semanas de hospitalização e complicações, ela morreu em 17 de dezembro de 2020.

Embora agradecida pela aprovação do projeto, Trista Hamsmith, mãe de Reese, disse que é necessário fazer mais para proteger as crianças. “Precisamos de baterias mais seguras.” Hamsmith, que fundou a organização Reese’s Purpose para defender crianças contra perigos como pilhas-botão, pede aos pais que “sejam muito conscientes de onde as pilhas e baterias estão em suas casas – se optarem por tê-las em casa”. Ela e Chandler deram algumas dicas de segurança para as famílias.

SE CRIANÇA ENGOLIU, PROCURE O SERVIÇO DE EMERGÊNCIA

*** Faça uma varredura em sua casa: você pode encontrar esse tipo de pilha em lugares surpreendentes, como algumas escovas de dentes elétricas para crianças. “Elas são projetadas para entrar na boca de nossos filhos e são alimentadas por pilhas de botão”, contou Trista Hamsmith.

*** Mantenha quaisquer dispositivos movidos a baterias de botão e pilhas soltas fora do alcance de crianças.

*** Compre baterias de botão embaladas, para reduzir a possibilidade de uma criança abrir a embalagem e ingeri-las. Por exemplo, disse Trista Hamsmith, alguns pacotes de baterias precisam ser abertos. Também observou que a Duracell vende baterias de botão com um revestimento amargo, projetado para desencorajar as crianças a engoli-las.

*** Examine seus dispositivos movidos a baterias de botão para se certificar de que o compartimento da bateria esteja protegido com a maior segurança possível. Dispositivos que prendem a tampa com um parafuso são considerados mais seguros para crianças, afirmou Mark Chandler.

*** Não tente fazer seu filho vomitar. Anote sintomas como chiado, salivação, vômito, sangramento, dor abdominal, dificuldade para engolir, desconforto no peito, tosse, asfixia ou engasgos, febre, diminuição do apetite ou recusa a comer.

*** Não dê nada para seu filho comer ou beber.

*** Se um ímã for engolido juntamente com a bateria, isso pode causar ferimentos mais graves. Ligue para a emergência ou vá até o pronto-socorro.

*** Se passaram menos de 12 horas desde que a bateria foi engolida e seu filho tem mais de 12 meses, você pode lhe dar mel – duas colheres de chá a cada 10 minutos até completar seis doses – a caminho do pronto-socorro. Isso vai revestir a bateria e evitar a geração de hidróxido, retardando as queimaduras nos tecidos adjacentes. No entanto, não substitui a remoção da bateria, pois ajuda a desacelerar, mas não elimina o risco de danos.

*** Em casos de criança com bateria alojada no nariz ou no ouvido, fique atento a sintomas de dor ou à remoção. Não administre gotas nasais ou auriculares antes de um exame completo por um médico; esses fluidos podem agravar os danos ao corpo da criança.

GESTÃO E CARREIRA

EMPRESAS APOSTAM EM JOGOS DE VIDEOGAME PARA MELHORAR A PRODUTIVIDADE DOS FUNCIONÁRIOS

Microsoft oferece o aplicativo Games for Work no serviço de comunicações Teams para aprimorar a produtividade e elevar o moral dos funcionários

A Microsoft tem uma nova solução para tornar os trabalhadores mais produtivos: deixá-los jogar videogames. A empresa acaba de anunciar o aplicativo Games for Work para seu serviço de comunicações e espaço de trabalho, o Microsoft Teams.

Gratuito, o app está disponível hoje no campo de aplicativos do Teams e permite aos usuários jogar quatro games de múltiplos jogadores com seus colegas durante reuniões. O objetivo é ajudar os funcionários a criar laços de confiança, melhorar a maneira com que trabalham juntos e impulsionar o moral – o equivalente à mesa de pebolim na lanchonete da firma.

O anúncio ocorre num momento em que várias empresas se voltam para forças de trabalho em regimes remotos ou híbridos, nos quais os funcionários vão ao escritório com menor frequência. Alguns gerentes afirmam que ter trabalhadores remotos dificulta construir e manter a cultura da empresa, assim como relações pessoais. Outros se preocupam que a produtividade pode cair – como resultado, um número crescente de empresas tem optado por monitorar os funcionários.

Especialistas afirmam que videogames, jogados com moderação, podem melhorar o ambiente de trabalho e a produtividade – ajudando a construir um capital social que pode estar se esvaindo, à medida que os trabalhadores deixam de se conectar com tanta frequência.

Mas os games podem criar problemas se os empregadores os tornam obrigatórios ou os usam como muleta para estabelecer a cultura. Também poderiam ser problemáticos se os funcionários gastam tempo demais jogando em vez de trabalhar.

O novo aplicativo de games da Microsoft é exemplo de uma empresa propondo uma solução digital para resolver um problema analógico do pós-pandemia, diz Matt Cain, analista da empresa de pesquisas Gartner.

“Estamos testemunhando o início de um novo capítulo, em que se pede ao pessoal de TI que aborde questões como cultura e saúde da equipe. Acho que isso veio para ficar.”

Jennifer Chatman, professora da Faculdade de Administração Berkeley Haas, afirma que fazer funcionários se reunirem em atividades não relacionadas às tarefas de trabalho pode gerar novas ideias e ajudar a deixar as pessoas mais à vontade para desafiar o status quo. Permitir que os funcionários se conectem nos games pode valer o investimento de tempo, afirma ela. Jogar videogames pode ser útil especificamente para funcionários novos na empresa, equipes que tiveram conflitos recentes ou empregados que se sobressaem no trabalho. “Você tem de se dar conta de que está apostando no longo prazo”, diz ela. “Não permitir tempo para as pessoas se conectarem poderia prejudicar você no longo pra- zo. As pessoas podem nunca se sentir confiantes o suficiente para falar em reuniões.”

Cain diz, porém, que empregadores não deveriam depender dos games como única forma de promover cultura e produtividade.

EU ACHO …

ATÉ ONDE DÁ? TEMPO, VIDA E FINITUDES…

“Além da própria força, mesmo que a vontade seja abundante, ninguém é forte.”

(Homero, Ilíada)

A expressão “ainda dá” é uma forma de assinalar a existência de uma força intrínseca na busca de um objetivo. Esse mote, contudo, precisa ter conexão com o rol de competências. Não pode ser uma forma de estímulo que, repetido tal como um mantra, crie uma ilusão de energia, de uma habilidade, que a pessoa passará a ter apenas pela disposição de fazer um esforço a mais.

O “ainda dá” pode ser um brado para seguir em frente, mas é bastante recomendável usar outra formulação mais questionadora: “ainda dá?”. Não como pretexto para desistir, mas como exercício de autoconhecimento. Eu realmente disponho de recursos para seguir nessa jornada? É comum, quando estamos empolgados com alguma ideia, fazermos avaliações imprecisas, apressadas, minimizando riscos ou superdimensionando virtudes.

Um post engraçado que circula pelas redes sociais (cuja autoria, portanto, é difícil de apontar) diz, com algumas variações, que “a trilha para o Everest está cheia de cadáveres de pessoas proativas, automotivadas e que queriam sair da zona de conforto”.

Esse é um modo bem-humorado de dizer “não vou”. Sucede que o fato de haver  pessoas que perecem (de qualquer modo, físico ou não) na trajetória não retira a   qualidade do esforço de quem ali pereceu. Ao contrário. O dramaturgo espanhol   Calderón de la Barca (1600-1681) escreveu que “a queda não cancela a glória de ter subido”.

De 1924 a 2018, foram 295 mortes na escalada da montanha mais alta do mundo (8.848 metros). O ano mais letal foi 2015, quando uma avalanche provocada por um terremoto no Nepal vitimou 22 pessoas. Afora os acidentes naturais, o cansaço é apontado entre as principais causas de mortes. Assim como em outras circunstâncias da vida, muitas vezes a pessoa assimila o desafio, mas não reúne todas as condições para enfrentá-lo. Esse meme, com seu modo de humor, não desqualifica o esforço, mas pode servir de alerta.

Não é porque eu quero ser fora da curva, não é porque eu estou muito motivado, não é porque eu gosto de desafio que tudo dará certo. A possibilidade de desastre está sempre me rondando. A própria palavra “desastre” significa “quando os deuses se afastam”. A circunstância desastrosa não depende exclusivamente das minhas ações. Não há nada que, em algum momento, não possa provocar um efeito indesejado.

Evidentemente, eu preciso fazer todo o esforço de inteligência para cercar as ações que farei, de modo a minimizar os riscos de um desastre. Mas essa conduta preventiva não zera o risco, apenas reduz a probabilidade de ocorrência. Reduzir a margem de erro não significa a extinção do erro!

São muito raras as situações em que podemos controlar todas as variáveis.

Nem no nível individual nem no coletivo. Uma empresa não domina todas as forças de interação do mercado em que ela atua. Não por acaso, as organizações trabalham com a noção de diminuição do risco ou minimização do risco. Não se vê a ideia de extinção do risco circulando no mundo corporativo.

Muitas pessoas devem se lembrar daquela cena que entrou para a antologia do esporte, da suíça Gabriele Andersen, cambaleante ao final da maratona feminina na Olimpíada de Los Angeles, em 1984. É muito emocionante imaginar o empenho daquela atleta que não quis desistir, embora ela tenha chegado a um limite muito perigoso, a ponto de colocar a própria vida em risco. Se ela tivesse um colapso vital, o motivo daquele esforço seria questionado. Nenhum de nós, no entanto, diria que ela não tem o direito de fazê-lo. Era a razão dela, ela queria chegar, nem que fosse daquele modo. Cabe contextualizar que aquela foi a primeira prova da maratona feminina na história dos Jogos Olímpicos. Entre as cinquenta competidoras, Gabriele chegou na 37a colocação.

Podem ser variadas as razões que fazem com que as pessoas forcem seus limites. Algumas se negam a desistir por considerar que seria um atestado de derrota, após tanto esforço feito. Aliás, há relacionamentos que continuam porque uma das partes (ou ambas) acha que separação é sinal de fracasso. “Por que separar agora, depois de tanto tempo?” Outras pessoas vão até o limite das forças por pensarem “se eu desistir disto, pode ser que eu comece a desistir de outras coisas também”. No âmbito da psicologia humana, o caráter simbólico dos eventos influencia as nossas decisões.

A piada no meme do Everest lotado de cadáveres é boa, porque a ideia nela contida tem de ser considerada. Ele não é uma sentença de realização, não é uma determinação que faz com que lá só estejam aqueles que tinham a perspectiva de sair da zona de conforto e se deram mal. Aquela é uma possibilidade, portanto, algo a ser levado em conta como reflexão. Uma pessoa que queira sucesso não pode afastar a possibilidade do fracasso. E também não se deve confundir coragem com insensatez, que é o ímpeto sem o devido preparo. É provável que os acomodados, ao lerem o meme, tenham o impulso de dizer: “Tá vendo? Eu, aqui, tô de boa”, quase que para justificar o imobilismo.

Há um desenho relativamente conhecido de um sapo sendo engolido pela garça. O anfíbio está com a cabeça já para dentro, mas, ainda assim, tenta esganar a garça. Essa é a imagem da não desistência. O sapo vai ser engolido, mas vai dar mais trabalho, vai “vender caro a derrota”. Qual é a ideia? Não é que aquele esforço do sapo vai evitar o final, mas vai honrar o sapo. Um sapo desistente é só um sapo. Um sapo que tenta até o último momento sobreviver é um sapo que faz com que a vida não seja tão banal.

O risco mais premente é o da banalização da vida, o apequenamento dos propósitos e o entristecimento evitável. São recorrentes as pesquisas que apontam percentuais altos de pessoas infelizes no trabalho que executam. Falta de reconhecimento, sobrecarga de tarefas, problemas de relacionamento com colegas e chefes são motivos que costumam aparecer no topo da lista dessas apurações.

Pessoas dedicam grande parte de seu tempo de vida à atividade laboral. Ademais, os limites entre casa e trabalho foram pulverizados. A qualquer momento, demandas aparecem. A percepção de que o tempo é despendido em um lugar que infelicita esvazia o propósito de se fazer o que se faz. Essa frustração fica ainda mais realçada pela impressão de que o tempo passa cada vez mais rápido à medida que envelhecemos.

Existem pessoas que passam a semana torcendo para a sexta-feira chegar. O que é absolutamente tranquilo. Basta permanecer vivo, que a sexta-feira chegará. Assim como a segunda… E assim a vida passa. Tempo é vida, e ambos finitos nessa relação.

“E quando eu tiver saído/ para fora do teu círculo/ não serei, nem terás sido/ tempo, tempo, tempo, tempo”, canta o compositor baiano Caetano Veloso, na sua monumental “Oração ao Tempo”.

É sempre conveniente fazer algumas reflexões a fim de evitar decisões precipitadas. Uma pergunta fundamental é se a insatisfação é realmente com o trabalho ou com aquele momento da carreira. Porque é bastante comum se deixar desanimar por alguma circunstância momentânea, como um projeto desgastante, uma equipe que não tem sinergia ou um job que se mostra muito mais complicado do que parecia inicialmente. O modo aborrecido pode ser despertado também por uma injustiça pontual, por um período de baixa performance pessoal ou da companhia, por um fornecedor ou por um cliente problemático.

Quando se avalia o momento profissional, é preciso distinguir o que é estratégico e o que é circunstancial antes de empreender uma mudança de rota. Uma pessoa que está infeliz no local de trabalho não precisa necessariamente mudar de carreira. Ela pode revigorar a vitalidade no local em que se encontra.

Vale lembrar que a vida se assemelha muito mais a uma maratona do que a uma prova de 100 metros rasos. A carreira também é assim. Na maratona, você às vezes acelera, às vezes guarda energia para os momentos mais críticos. A noção de uma perspectiva maratonista na carreira implica compreender que haverá trechos de maior dificuldade, assim como aqueles em que a passada será mais fluida.

Em alguns momentos, portanto, é necessário analisar aquilo que é circunstancial na insatisfação e aquilo que é estrutural. Há queixas em relação à carreira que são estruturais, não têm a ver com o momento, mas com aquela prática, com o tipo de negócio. Se aquilo que é estrutural me infelicita, seja porque eu não me enxergo como pertencente àquele meio, não me realizo, não tenho alegria naquilo que faço, então, eu não devo persistir.

A insistência, a persistência, a resiliência são necessárias quando você almeja algum resultado que te satisfaça. Não havendo essa perspectiva, torna-se um desperdício de tempo e, portanto, de vida. É um desgaste que não tem sentido. Afinal, uma vida com propósito é aquela em que eu tenho consciência das razões pelas quais faço o que faço, assim como dos motivos pelos quais deixo de fazer o que não faço.

Um indicador que contribui para esse diagnóstico é perceber se aquela atividade me cansa ou me estressa. Se for apenas cansaço, as pausas para o descanso me regeneram. Se a ideia do que faço me estressa, retira de mim a energia vital, me desanima só de pensar, então, trata-se de uma questão estrutural.

É bastante inapropriado, por exemplo, dizer “ainda dá” para uma pessoa com síndrome de burnout. Porque ela já atingiu um nível de esgotamento, está na iminência de um colapso. Mesmo que a intenção seja boa, de fortalecer o ânimo, pode-se incorrer num equívoco. Quando a pessoa chega a esse estágio, qualquer passo, por menor que pareça, é extremamente dificultoso. Além disso, proferir frases como “aguenta mais um pouco”, “você é forte”, é um modo de dizer que, se ela desistir, é fraca. E esse é um estigma que acompanha quem sofre dessa síndrome. A pessoa é vista como incapaz de suportar pressão, sem resiliência, emocionalmente desequilibrada.

Então, existem circunstâncias, entre elas a do burnout, em que a noção de “ainda dá” precisa ser mais bem balizada como recomendação, de maneira que não seja ofensiva. É possível usar o “ainda dá” para quem sofre com essa síndrome no sentido de “ainda dá para você recuperar a tua saúde”, “ainda dá para você restabelecer a tua harmonia”, “ainda dá para você repensar a tua trajetória daqui para a frente”. Se a pessoa foi consumida por uma determinada circunstância, cessada essa circunstância e feita a terapêutica adequada, decerto ainda dá para começar uma nova etapa na vida.

A partir dessa constatação, eu preciso procurar outro caminho, porque persistir naquilo que é equivocado não vai corrigir o equívoco. Não é o caso de mais um “ainda dá”, porque há momentos em que realmente não dá mais.

Esse é um dos modos de acreditar na máxima recebida pelo médium Francisco do Espírito Santo (de autoria muitas vezes atribuída a Chico Xavier), que diz que “embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora a fazer um novo fim”.

ESTAR BEM

SONO ATRASADO NÃO PODE SER REPOSTO NO FIM DE SEMANA

Deve-se dormir, pelo menos, sete horas todos os dias para evitar problemas de saúde associados à falta de descanso, como a obesidade

Costumamos chamar de sono atrasado aquela falta de sono que se acumula, ou seja, quando você tem menos descanso do que deveria. A quantidade de horas na cama depende da sua idade, mas o recomendado é dormir no mínimo sete horas por dia -os mais novos dormem mais, enquanto os mais velhos, menos.

Se você dorme menos do que isso durante a semana, não vai compensar dormindo mais horas no fim de semana. O que acontece é que se você dorme tempo suficiente, todos os dias, o fato de um dia você dormir menos não é muito relevante. O contrário não é válido: o sono atrasado não pode ser compensado em um único dia.

Se você acha que está dormindo menos de sete horas, tente descansar um pouco mais com o tempo. Se uma semana você trabalhou muito e dormiu um pouco menos, pode compensar na semana seguinte dormindo oito ou oito horas e meia. Você também não deve dormir mais do que isso, porque há chance de acordar mais cansado. Tentar compensar uma noite ruim de sono não funciona e também, a longo prazo, tem seu preço.

RISCOS

A falta de sono causa aumento do risco cardiovascular, uma alteração no metabolismo da glicose que causa aumento de chance de diabetes tipo 2 e aumento do risco de obesidade.

Há momentos em que adormecer é difícil, porque a pessoa está muito estressada, então a melatonina pode funcionar como indutor do sono se tomada uma hora antes de dormir. Mas isso não deve ser considerado uma solução para a falta de sono, somente se for um problema específico associado a picos de estresse, a melatonina pode ajudar. Em qualquer caso, recomendamos sempre consultar um médico antes de tomar qualquer tipo de medicação.

Há quem diga que dorme apenas três ou quatro horas por noite e fica bem. É possível que haja um caso, mas é difícil de acreditar. Eles também podem ser pessoas que certamente não dormem mais do que quatro ou cinco horas à noite, mas tiram uma soneca de duas horas durante o dia. No final, eles dormiram suas seis ou sete horas, ou seja, um tempo muito mais próximo do recomendado, pois o ciclo de sono é de 24 horas. Existem pessoas que sofrem de insônia crônica, mas até para elas a falta de sono acaba cobrando seu preço.

A primeira recomendação que se faz, de qualquer forma, à pessoas com esses problemas é não dormir durante o dia, pois assim, é mais fácil ter uma boa noite de sono.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O SEGREDO DA FELICIDADE

Estar alegre 100% do tempo é impossível. Mas reconhecer os altos e baixos da vida pode ser a chave para alcançar a sensação de contentamento

Ao pensar na palavra felicidade, pode ser que você associe o pensamento a uma pessoa especial, uma imagem bonita, um acontecimento inesquecível ou simplesmente ao jeito como seu cachorro te recebe ao chegar em casa. Ao mesmo tempo, a busca pela felicidade é uma das maiores preocupações do ser humano – a Organização das Nações Unidas (ONU), inclusive, divulga todos os anos um relatório com indicativos para eleger o país mais feliz do mundo. Mas se sempre buscamos algo que na verdade já temos, como responder, afinal, se somos ou não felizes?

Definir a felicidade não é algo simples. Mas, em poucas palavras, ela é um estado de contentamento. Nossa dificuldade em defini-la vem justamente por não sabermos para onde olhar em nossa vida para procurar o sentimento. “A felicidade é uma construção histórica, ela não existia antigamente. Mas foi construída pela capacidade do ser humano de abdicar do prazer imediato e projetá-la a longo prazo”, explica o neurocientista Álvaro Machado Dias. Ou seja, criamos algumas bases do que é preciso para ser feliz e buscamos, incansável e incessantemente, essas premissas como realizações de sonhos. Sejam viagens, dinheiro, amor ou família.

“Um papel importante na desmistificação do tema da felicidade é a compreensão de que esse aspecto de bem-estar emocional não tem a ver com estar alegre ou feliz 100% do tempo, o que seria humanamente impossível, mas com a compreensão de que todas as emoções são importantes e fazem parte da vida humana”, explica Gustavo Arns de Oliveira, professor de Psicologia Positiva, fundador do Centro de Estudos da Felicidade e idealizador do Congresso Internacional de Felicidade. “A construção do bem-estar emocional se dá pela forma como eu me relaciono com cada uma das minhas emoções. Quanto mais saudável é o meu relacionamento com o medo, com a raiva, com a tristeza, mais bem-estar eu vou colher.”

Assim, conforme ele explica, o segredo é o autoconhecimento e o reconhecimento de cada uma das emoções. “Os momentos felizes são ótimos; quanto mais melhor. Mas o fato é que não são momentos felizes que fazem a vida. Se eu restringir a minha compreensão de felicidade aos momentos felizes, tenho uma percepção muito pequena do tema”, diz o professor.

Pode ser, por exemplo, que algo desgastante seja muito satisfatório e dê um significado mais profundo à sua existência. Como foi, e está sendo, a maternidade para a produtora Cristine Marinho, de 36 anos.

“Eu estou há quatro meses sem dormir direito, com uma olheira que vai até o chão, não uso mais o meu cabelo solto, mas nada disso importa quando eu olho para o lado e a minha filha está dando risada. É um amor que ninguém nunca vai conseguir explicar porque é surreal”, declara ela, que nunca teve o desejo de ser mãe, mas descobriu essa felicidade quando Maria, hoje com 4 meses, apareceu de surpresa em sua vida e na do vendedor Leandro, de 34 anos. “Eu tinha certeza de que não podia engravidar e estava bem ok com isso, mas hoje nem sei mais quem sou sem ela. Agora sou Cris mãe, sou a mãe da Maria.” Conforme explica o neurocientista Álvaro, de um lado temos a felicidade hedônica, que associa o sentimento às atividades de recompensa do cérebro e à ausência de sofrimento imediato; a felicidade eudaimonia, que é baseada em princípios, ideais e conquistas. E um terceiro tipo que é a felicidade das experiências psíquicas. “Este último é um pouco daquela história do viver não é preciso, navegar é preciso. Então a pessoa precisa alimentar o espírito e o senso de estar vivo”, ensina ele.

A percepção de finitude trazida com a pandemia foi impulsor para que muitas pessoas se questionassem sobre suas escolhas de vida – seja em mudança de emprego, de país, de casamento ou de sentido de vida. “Na pandemia, entendi que não poderia ficar me prendendo à opinião dos outros, precisava confiar em mim”, conta o guia de turismo Renato Lima. Ele largou o emprego em uma multinacional da área de construção civil – depois de cursar Engenharia Civil na USP por cinco anos – para viver o sonho de trabalhar viajando. A ideia já era antiga. Surgiu em 2017 quando ele fez um intercâmbio de seis meses no Chile. “Na época, eu precisava procurar alguma coisa para me ajudar no sustento e conheci uma menina que trabalhava com turismo. Ela me ajudou a fazer uns trabalhos de freelancer e assim comecei”, diz. O negócio deu tão certo que, quando voltou para o Brasil, ele decidiu publicar seu conteúdo online. “Criei, com uma amiga, o Instagram @explora-chile_ e passei a divulgar informações sobre o país. Em poucos meses a minha remuneração estava quase o equivalente ao que eu ganhava no emprego. Porém com muito mais liberdade, novidade e qualidade de vida.”

DECISÃO

O pedido de demissão veio com o lockdown e o adeus de viajar tão cedo para conseguir mais conteúdos. “Com as restrições, voltei para Guaratinguetá, no interior de São Paulo, para ajudar o meu pai com o negócio dele. E dava para ver a expressão de tristeza dele e de alguns amigos com a minha decisão. E entendo, porque era uma segurança que eu tinha que estava trocando por uma coisa que era incerta”, conta. No entanto, ele diz que não se arrependeu da decisão e não aceitou outras opções de trabalho que surgiram. “Vi que eu tinha certeza do que eu quero.”

Apesar de uma reflexão de vida sempre ser válida, a busca pela obrigação de ser feliz pode ser algo negativo. “Essa obrigação de ser feliz é chamada, dentro da ciência da felicidade, como ditadura da felicidade, a qual nos impacta de acordo com o nosso nível de consciência sobre o que está acontecendo”, explica Gustavo Arns de Oliveira. “As pessoas imaginam que precisam estar felizes 100% do tempo e começam a forçar um estado irreal, mascaram tudo o que acontece de negativo ou qualquer outra emoção que não seja compreendida dentro de um aspecto positivo da vida. Isso é muito perigoso.”

Essa felicidade superficial passa a fazer com que os momentos felizes sejam cada vez mais efêmeros e pautados no prazer ou no “sentir-se bem”. Algo que a sociedade contemporânea nos lembra diariamente, seja por meio da publicidade (o produto que você precisa ter) ou das redes sociais (a vida que você precisa ter). “Essa busca pelo prazer faz com que a vida seja mais vazia”, declara Gustavo.

Isso não impede, porém, que o humor e o riso façam parte do dia a dia. “Essas são formas de a gente restaurar nosso bem-estar, assumindo que ele não é contínuo e trazendo a ideia de felicidade como uma possibilidade”, reflete o psiquiatra Daniel Martins de Barros, colunista do Bem-Estar e autor do livro Rir É Preciso: Descubra a Ciência por Trás do Humor e Aprenda a Usá-lo para Atravessar Períodos Difíceis e Criar Relações Mais Próximas.

O psicólogo Viktor Frankl (1905-1997) também deixa isso claro em seu livro Em Busca de Sentido. Ali, ele conta sobre sua experiência verídica em um campo de concentração e como encontrar uma razão para viver o ajudou em meio à tragédia. No entanto, no dia que essa razão não estava tão clara, o humor era algo que ajudava.

“O riso é uma estratégia de sobrevivência nesse sentido, pois ajuda a trazer alívio, mesmo que temporário. Então não negamos a dor, não negamos a tristeza, mas buscamos nos alegrar. E esse é um dos grandes poderes do humor, né? Porque quando você está rindo está olhando a vida de uma maneira que não era óbvia – porque se fosse óbvia não teria graça. A graça vem justamente de descortinar um aspecto que você não tinha visto e isso pode ser revelador”, afirma Daniel.

Encontrar um sentido foi algo que ajudou o empresário Mateus Guisasola, de 28 anos, a encontrar a sua felicidade. Ele nasceu com uma síndrome rara chamada artrogripose, e nem sempre lidou bem com a condição. “Houve um período em que eu usei muita droga, quase diariamente, mas quando entendi quem eu queria ser e o que queria da minha vida, não deixei me verem como um coitadinho que andava de muletas. Eu podia fazer tudo dentro das minhas limitações. Isso me deu muita força interna”, conta.

A síndrome fez com que Mateus tivesse má-formação nas articulações, o que o levou a encarar desafios como mais de 20 cirurgias, uma parada cardíaca e muito bullying. “Felicidade é como você se sente com você mesmo”, afirma. “Mesmo com muita coisa ruim acontecendo na minha vida, eu nunca achei que não iria melhorar. Quando eu olhava para as minhas conquistas, mesmo as pequenas, elas me traziam felicidade.”

Mateus conta que se encontrou quando começou a frequentar o candomblé. “Não importa o que falem, aquilo me faz bem”, diz ainda.

EXERCÍCIO

Claro que alguns aspectos externos e internos são essenciais para classificar essa felicidade. E daí surge o Relatório Mundial da Felicidade cria- do pela ONU, que se baseia em variáveis importantes para a vi- da humana, como o PIB per capita, a expectativa de vida e as percepções de corrupção. “A nossa felicidade individual deve ser cuidada, deve ser olhada, mas ela é logicamente impactada pelo meio onde eu habito. Por mais que esteja tudo bem comigo, se eu coloco o nariz para fora e me deparo com uma sociedade injusta, isso vai me impactar de alguma forma”, afirma Gustavo.

Para existir uma felicidade genuína, na qual seja possível lidar com as naturais ondas negativas de sentimento que surgem ao longo da vida, é preciso, além do já citado autoconhecimento, um sentido ou objetivo. A partir dessa premissa, a especialista em bem-estar e mentora em mudança de hábitos Carla Lubisco garante que a pessoa pode ser treinada.

“A felicidade é uma habilidade. A gente pode e deve aprimorar, desenvolver e qualificá-la por meio de hábitos saudáveis, pois a felicidade está intrinsecamente ligada à saúde”, garante. Como exemplos, ela traz terapia, exercício físico, cuidados com a alimentação, sono e amor-próprio. “Saber o seu valor, seus pontos fortes, é essencial para isso, assim como fazer coisas que você ama. Isso vai melhorar seu estresse e sua rotina.”

Uma maneira fácil de encontrar a felicidade como resultado de suas ações é por meio dos chamados “hormônios da felicidade”. A satisfação de fazer o que ama, por exemplo, traz a dopamina; já a atividade física pode liberar a endorfina ou a serotonina. Esses hormônios estimulam a sensação de bem-estar e inibem a irritação e o estresse. Seu estímulo pode afetar nossa frequência cardíaca, sono e apetite, mas seu desequilíbrio, por outro lado, traz consequências negativas para a saúde como insônia, estresse e mau humor.

POTE DE OURO

Todos os sentimentos são importantes para uma vida saudável – algo que rebate a ilusão utópica da felicidade plena como um pote de ouro no fim do arco-íris. Mas reconhecer a multiplicidade de emoções acumuladas que temos e aceitar os altos e baixos da vida seria uma felicidade possível. “Existe uma conexão entre autoconhecimento e a felicidade porque quando a gente não presta atenção na gente mesmo pode se tornar difícil discernir aquilo que estamos sentindo. E isso é funda- mental para a gente se livrar logo das emoções negativas e voltar a sentir as emoções positivas”, completa o psiquiatra Daniel.

São muitas as possibilidades de a gente engajar nossa atenção a essas emoções positivas – como, por exemplo, refletir qual foi o melhor momento do dia antes de dormir. “Esse estímulo neural faz com que a gente trabalhe uma sinapse, impactando a construção de um cérebro neuroquimicamente mais positivo. Então quando perguntarmos ‘como posso ser mais feliz amanhã’, isso vai colocar o meu cérebro no trabalho para encontrar essa resposta”, explica Gustavo, provando que, no final, a resposta da nossa felicidade está dentro de nós.

COMO SER MAIS FELIZ

AUTOAVALIAÇÃO

A felicidade é uma combinação de bem-estar físico, emocional, intelectual, relacional e espiritual. Olhar para esses cinco pontos pode ser um bom ponto de partida.

VEJA O LADO BOM

Apesar do nosso olhar estar voltado para os problemas e o que precisamos melhorar, é preciso não ignorar tudo aquilo que já está bom. Esse site pode ajudar: bit.ly/felicidadeteste.

NOVIDADE

Muito da felicidade em uma viagem ou um encontro é o fator desconhecido. Isso traz mistério e inovação, o que pode ser ótimo para os dias de mesmice. Que tal planejar algo inusitado?

ACEITAÇÃO

Dias ruins vão acontecer. Mas incluir atividades que possam te tirar desses momentos de dor pode ajudar.

OUTROS OLHARES

‘DIRIGI DORMINDO’

Sem controle, remédio para insônia provoca sonambulismo e dependência

“Dirigi por aí dormindo.” “Mandei áudios no grupo do trabalho.” “Esqueci como falar português.” Os relatos são muitos, e têm dominado as redes sociais. As experiências aconteceram durante a noite, mas foram descobertas apenas no dia seguinte. A causa é a mesma: o remédio hipnótico para insônia Zolpidem, cujas vendas explodiram no Brasil.

Especialistas explicam que o medicamento por si só não é um problema, mas o uso inadequado, o quadro de dependência e a busca para fins recreativos, que tem crescido entre os jovens, oferecem riscos graves que têm acendido o alerta em hospitais e consultórios.

A preocupação não é à toa. A compra do medicamento de fato cresce em ritmo alarmante entre os brasileiros: de 2017 até 2020, por exemplo, aumentou 121,5%, saltando de 10,5 para 23,4 milhões de caixas vendidas. Somente nos seis primeiros meses de 2022, já foram comercializadas 10,6 milhões.

“Esse crescimento ocorre em parte porque muitos médicos que prescreviam benzodiazepínicos, geração anterior de remédios para a insônia, passaram a indicar o Zolpidem. Mas também é pelo fácil acesso, que leva ao uso abusivo e inadequado, até mesmo de forma recreativa, o que é muito grave. E tem também essa característica de hoje as pessoas que querem ter tudo sob controle, até mesmo o adormecer, sendo que a realidade não é bem assim”, avalia a coordenadora do Ambulatório de Sono do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), Rosa Hasan.

Alguns efeitos colaterais do remédio são bem conhecidos, como a amnésia, a agitação e os pesadelos, porém um que tem ganhado destaque é o sonambulismo. Segundo um estudo publicado no periódico European Neuropsychopharmacology, a consequência acomete cerca de 5,1% dos pacientes, mas especialistas alertam que entre aqueles que fazem uso de forma inadequada, como tomar fora da cama ou além do período recomendado, de no máximo quatro semanas, a probabilidade é bem maior.

O sonambulismo foi justamente o que levou a dona de casa Rica Gomes Todeschini, de 49 anos, de São Paulo, a interromper a medicação. Ela começou a tomar o Zolpidem por orientação médica, em 2019, logo depois de ter perdido a mãe e ter descoberto um nódulo no pâncreas, cenário que a deixou com dificuldades intensas para dormir.

Antes de começar a tomar o remédio, ela ia para o seu ateliê de costura ao perder o sono. Por isso, seu marido não estranhou a princípio quando, após cerca de quatro meses tomando o hipnótico, Rica passou a se levantar e sair do quarto no meio da noite.

“Mas ele ficou cismado porque estava começando a ser quase todo dia. Então um dia decidiu me procurar no ateliê, mas não encontrou. Ao abrir a porta de casa, viu que o carro não estava na garagem. Eram 3h da manhã”, conta.

Ele esperou Rica retornar, pensando se tratar de uma emergência, mas quando ela voltou, aproximadamente 45 minutos depois, conversou com ele como se nada tivesse acontecido. No dia seguinte, ele perguntou se ela lembrava que havia dirigido na noite anterior, o que a pegou de surpresa.

“Eu não sei para onde eu fui, não sei o que eu fiz, não sei se parei num boteco e bebi, não me lembro de nada. Fico com medo de ter feito algo errado, é muito perigoso. Liguei para o psiquiatra e ele mandou eu parar, mas aos poucos, porque pelo tempo que eu estava tomando não poderia interromper imediatamente. Nesse meio tempo, meu marido escondeu a chave do carro”, diz.

USO INADEQUADO

Neurologistas ouvidas explicam que o Zolpidem não é um vilão, mas acabou não sendo o medicamento perfeito para a insônia como foi prometido nos anos 1990. Ele foi criado para substituir os benzodiazepínicos, descobertos nos anos 1960, que eram amplamente utilizados porém provocam quadros graves de dependência e déficit cognitivo a longo prazo.

O Zolpidem faz parte das chamadas drogas Z, ou não benzodiazepínicos, que atuam também no sistema do cérebro chamado de GABA. Esse mecanismo promove uma redução da atividade no sistema nervoso.

“É um hipnótico muito mais específico [que os benzodiazepínicos], atua no subtipo de receptor GABA A. Quando ele se liga, vai especificamente para um local onde existe o efeito de fazer a pessoa dormir rapidamente. Outros remédios induzem o sono de uma maneira menos abrupta, por serem menos específicos”, explica a neurologista Dalva Poyares, professora de medicina do sono na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora do Instituto do Sono.

Para Rosa Hasan, ele não foi o que se esperava porque hoje sabe-se que o remédio também promove dependência e tolerância, e pode levar a efeitos colaterais preocupantes, como os vividos por Rica. Porém, destaca que é importante para os casos de insônia desde que haja a devida orientação médica:

“Se é uma pessoa que toma direito, indicado pelo médico, na cama, sem ultrapassar o limite de quatro semanas, nós não temos problemas com a medicação. É um bom remédio, o problema é esse uso indevido”, afirma ela.

Poyares concorda que não se trata de uma terapia de uso prolongado, e que exceder o prazo da bula de quatro semanas é uma das principais causas da dependência.

“Com o uso crônico, você pode desenvolver tolerância, ou seja, precisar de uma dose maior para ter o mesmo efeito, e ele começa a reduzir o tempo de ação. Então passa a acordar no meio da noite, por causa do medicamento, e toma outro”, diz a especialista.

Tanto ela, como Rosa Hasan, contam atender muitos pacientes com quadros de vício, uma quantidade que cresce em ritmo alarmante. Além dos riscos já conhecidos pelo comportamento inconsciente – como bater o carro, ter relações sexuais indesejadas e desprotegidas, passar por situações de constrangimento ou criar despesas financeiras -, a dependência a longo prazo pode levar a problemas neurológicos, como perda de memória ou um quadro ainda pior de insônia.

“No HC nós temos até internado com uma certa frequência casos gravíssimos de dependência, com números absurdos de comprimidos, pessoas que tomam mais de 100 por dia. Toda semana eu atendo dois, três casos novos”, conta Hasan.

FISCALIZAÇÃO

Uma das críticas das especialistas sobre o fácil acesso ao Zolpidem é em relação às regras para a prescrição no Brasil. O fármaco faz parte da categoria B1 de medicamentos, os psicotrópicos, e portanto deveria demandar uma receita do tipo azul para a compra nas farmácias. Nessa modalidade, cada receita é padronizada, tem uma numeração controlada, fica retida e exige mais informações do médico e do paciente. Portanto, a fiscalização é mais rígida.

No entanto, medicamentos à base de Zolpidem com menos de 10 mg podem ser prescritos com a receita de controle especial, uma forma mais branda.

“Gostaria que fosse uma medicação mais controlada, porque a facilidade dá a sensação de ser um remédio tranquilo, para qualquer um. Na França, por exemplo, restringiram o acesso e isso reduziu bastante o consumo”, defende a neurologista.

GESTÃO E CARREIRA

CEOS NEGROS TRABALHAM O DOBRO PARA CONSEGUIR CHEGAR AO TOPO, DIZ PESQUISA

Entre os 500 líderes da revista ‘Fortune’, só 4 são negros; no Brasil, não há CEO negro entre as 423 companhias da B3

Um profissional negro tem de trabalhar o dobro para chegar ao topo. É o que aponta pesquisa da Korn Ferry, consultoria de gestão de pessoas. Mesmo com as políticas de diversidade em alta nas organizações, o alto escalão parece se manter quase intocável. Apenas 4 dos 500 CEOs listados na revista Fortune são negros, representando menos de 1% do total.

De acordo com Milene Schiavo, diretora de Diversidade, Equidade e Inclusão da Korn Ferry, o dado é ainda mais alarmante quando comparado ao de 10 anos atrás, quando o número de lideranças negras nas empresas listadas, apesar de baixa, era de 7 executivos.

A queda, segundo ela, é resultado da falta de ações mais afirmativas, com metas e objetivos claramente estabelecidos. “Hoje, existe um foco muito forte na questão do progresso feminino, mas não há, de fato, o estabelecimento de indicadores de metas quando o assunto é a inclusão de pessoas negras nesses cargos mais altos, por exemplo”, ressalta Milene.

No Brasil, segundo a B3, 79% das empresas listadas afirmaram ter de 0 a 11% de líderes negros, enquanto 78% têm o mesmo porcentual em cargos C-level. Não há nenhum CEO negro entre as 423 companhias da Bolsa. Da mesma forma, o salário dos profissionais negros chega a ser 43% menor do que o dos brancos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O estudo global “The Black P&L Leader”, realizado pela Korn Ferry, ouviu 28 executivos sêniores de P&L – função que, segundo os estudos, melhor prepara um líder para a função de CEO. Segundo o levantamento, 60% dos líderes negros relataram ter de trabalhar duas vezes mais e alcançar o dobro dos resultados em relação aos colegas brancos para ter o mesmo reconhecimento. Para efeitos de comparação, os líderes negros tiveram a maior pontuação em competências essenciais para o alto desempenho de executivos em relação aos demais líderes da base de dados.

De acordo com Yone Gonzaga, professora convidada da Fundação Dom Cabral, a ausência de pessoas negras em determinados postos de trabalho é resultado de uma série de condicionantes históricas que foram pensadas para que os negros estivessem na base e os brancos, no topo. Segundo ela, os dados só reforçam como o racismo estrutural impacta a vida dos negros no País.

Monalisa Gomes, CEO da Fronius entre 2016 e 2020, concorda. Segundo ela, enquanto as pessoas acharem que isso é uma questão de meritocracia, a discussão não vai avançar. Durante os anos em que esteve à frente da companhia no Brasil, sempre que participava de eventos ou encontros com os demais líderes na empresa, a executiva era recebida com surpresa pelos colegas.

“Quando eu estava acompanhada de uma das gerentes, era natural que as pessoas achassem que ela era eu. Porque ela era uma mulher loira e alta, e eu não me enquadrava nesse padrão de CEO de uma multinacional”, conta Monalisa, que trabalhou 12 anos antes de chegar ao topo.

Ser a única mulher negra da sala não era nenhuma novidade durante as reuniões com os clientes. Monalisa, que hoje trabalha numa empresa na Áustria, conta que as pessoas sempre tinham um pé atrás em relação a sua posição de liderança e que ela precisava se impor o tempo todo como autoridade máxima da empresa no País.

“As pessoas sempre perguntavam: ‘Você não precisa ligar para mais ninguém para fechar o negócio? Não tem de pedir mais nenhuma autorização?’”, afirma ela, também conselheira consultiva na Edmond Tech.

Para Yone Gonzaga, hoje há um discurso desconectado da prática. Quando a empresa assume a equidade como um valor, tem de não só garantir o acesso, mas também a ascensão funcional, afirma ela. “A oferta de oportunidades precisa ser igual para todos os grupos, mas sempre levando em consideração as diferenças, os pontos de partida e esses históricos sociais.”

O CEO da Amil, Edvaldo Vieira, membro do Grupo Mover, diz que o racismo é uma constante em sua vida pessoal e profissional. “Tive várias experiências, como quando um candidato a fornecedor, na sala de reunião, não dirigia a palavra a mim, só ao outro homem (branco) da sala – até se surpreender quando ele me chamou de chefe.”

Para mudar a realidade e dar espaço para que mais pessoas negras consigam progredir com autonomia na carreira, o CEO reitera a importância da propositividade das empresas para abrir portas e levar cada vez mais profissionais ao topo. “Não podemos só focar na diversidade pela diversidade. É preciso destinar orçamento e investir para incorporar o tema no dia a dia do negócio.”

TRANSFORMAR

Com a meta de ter 10 mil posições de lideranças ocupadas por negros até 2030, o grupo Mover é uma das principais iniciativas para transformar a alta liderança no País. Com 47 empresas associadas, como a Ambev, a Heineken e a Amil, o movimento promove ações e inclui o compartilhamento de boas práticas e a aceleração dos processos de diversidade, equidade e inclusão. O objetivo é potencializar o processo de aceleração de carreiras de negros e conscientizar líderes quanto ao racismo e os impactos positivos em ir além dos vieses inconscientes.

EQUIPES DIVERSAS GERAM 38% MAIS RECEITA

A questão da diversidade nas empresas, segundo especialistas, também passa pelas novas demandas de consumo da sociedade. Não por acaso, o relatório da Korn Ferry também mostra que as equipes executivas diversas são 70% mais propensas a conquistar novos mercados e geram 38% mais em receita com produtos e serviços inovadores.

Para a diretora de Diversidade, Equidade e Inclusão da Korn Ferry, Milene Schiavo, quando a empresa não traz diversidade, ela perde perspectiva. Também perde em diversidade de produto e em experiência para o consumidor.

“Estou falando de 56% da população brasileira. Ou seja, você está trazendo para dentro da sua empresa também grande parte de quem consome o seu produto ou seu serviço. Através disso, você consegue usar essa perspectiva na sua elaboração de portfólio, na sua experiência que você vai oferecer para o consumidor.”

Diretor financeiro e administrativo do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), Tom Mendes afirma que é preciso começar o letramento por quem tem o poder da caneta. “Estamos falando também sobre legado, como essas lideranças querem ser lembradas no futuro, como líderes omissos ou como lideranças que, através do poder que detêm, conseguiram fazer mudanças.”

EU ACHO …

COMEÇOS E RECOMEÇOS: CONSISTÊNCIA, PERSISTÊNCIA, RESISTÊNCIA

“Uma vontade, mesmo se é boa, deve ceder a uma melhor.” (Dante Alighieri, Purgatório)

Quando gravaram a música “Time is on my side”, em 1964, mais do que um hit, os Rolling Stones lançavam uma profecia. À época, a banda britânica tinha dois anos de carreira. Hoje é a mais longeva da história do rock. Os Stones começaram em 1962 (dois anos antes do The Who, a segunda mais longeva) e seguem eletrizando plateias em estádios lotados ao redor do planeta. Há quantos anos eles avaliam se ainda dá para fazer mais uma turnê mundial? Continua dando e as pedras rolando… O tempo segue do lado deles.

O tempo é finito, mas não representa necessariamente um impedimento. Há uma  série de empreitadas bem-sucedidas iniciadas por pessoas numa faixa etária em que tantas outras já estariam batendo em retirada. Em 1911, o norte-americano Charles   Flint fundou o grupo empresarial Computing-Tabulating-Recording Company, que daria origem à IBM. Flint tinha 61 anos na época (e ter 61 anos no começo do século  XX era bem diferente de ser sexagenário nos tempos atuais). Ele só se aposentou em 1930, quando deixou o conselho de administração aos 80 anos de idade.

A pesquisa Empreendedorismo no Brasil, do projeto Global Entrepreneurship Monitor (GEM), feita pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade com o Sebrae e a Universidade Federal do Paraná, mostra que 9,7% dos empreendedores que começaram um negócio em 2018 estavam na faixa de 55 a 64 anos. Esse percentual significa cerca de 2 milhões de novos negócios.

Além do aspecto etário, outros fatores determinam o começo de uma nova atividade  ou  uma  mudança  de  carreira.  Há  vários  exemplos  de  pessoas  que possuem   talentos   em   mais   de   uma   área.   O   compositor   carioca   Guinga, reconhecidamente   um   exímio   violonista,   por   muitos   anos   atuou   como dentista. O mineiro Guimarães Rosa (1908-1967), além de ter se tornado um gênio da literatura, era médico e exerceu carreira diplomática.

Assim como existem casos de profissionais, muito bem-sucedidos em suas trajetórias, que experimentam outros caminhos para dar vazão às suas paixões. Considerado o melhor jogador de basquete de todos os tempos, o norte-americano Michael Jordan, depois de três títulos seguidos na NBA pelo Chicago Bulls, surpreendeu o mundo do esporte em 1994, ao anunciar que começaria uma carreira no beisebol. Era um sonho de infância e que contava com o apoio do pai, que havia morrido meses antes da decisão. Jordan jogou por pouco mais de um ano e seu desempenho em campo nem chegou perto do que havia apresentado em quadra. “Posso aceitar a derrota. Todos nós falhamos em alguma coisa. O que não posso aceitar é não tentar. É por isso que não tive medo de me arriscar no beisebol”, declara no livro Nunca deixe de tentar (Sextante, 2009). Depois da incursão no mundo dos tacos, bases e bolinhas, Jordan voltou ao Bulls e faturou outros três títulos na NBA.

Algumas mudanças de rota não ocorrem de maneira deliberada, mas por força das circunstâncias. Foi o que aconteceu com o craque Tostão, que teve de encerrar a carreira futebolística aos 26 anos. Campeão do mundo no México em 1970, o jogador se despediu dos gramados três anos depois, após dois episódios de descolamento de retina. Decidiu prestar vestibular para Medicina. Em 1974, ele se viu fazendo prova no Mineirão, local onde anos antes era aplaudido pela torcida. Mas, naquele momento, o ex-jogador era apenas um entre tantos outros candidatos a uma vaga na universidade. Tostão foi aprovado e tornou-se o doutor Eduardo Gonçalves. Foi professor universitário e fez formação em psicanálise. Em 1994, foi convidado a comentar os jogos na Copa do Mundo nos EUA. Foi uma volta ao futebol por outra via. Depois, tornou-se colunista em jornais, considerado também um craque nos textos. Na autobiografia Tempos vividos, sonhados e perdidos (Companhia das Letras, 2016), Tostão escreve: “Morremos e renascemos várias vezes na vida, até desistirmos, ou até que a vida desista de nós”.

Fato é que estamos vivendo mais. Avanços nas ciências indicam populações mais longevas. Essa tendência de mais tempo de vida abre a possibilidade de fruir mais experiências, de exercitar mais habilidades e paixões. No âmbito do trabalho, está cada vez mais distante a imagem do profissional que passava a carreira toda numa empresa e era homenageado com plaquinhas, relógios ou bandejas pelo “tempo de casa”.

Carreiras surgem e desaparecem. A tecnologia elimina funções e cria outras. Produtos ficam obsoletos, novos serviços aparecem. Trata-se de um mundo mais volátil, de mudanças mais velozes (mudanças sempre aconteceram, a velocidade com que elas se processam é que dão o tom da nossa contemporaneidade). Vivemos mais e convivemos com mudanças muito mais rápidas do que os nossos antepassados. Portanto, viver e mudar são verbos com significados cada vez mais próximos.

Embora alguns campos da ciência falem em imortalidade como uma possibilidade, a eternidade não é um referencial para a espécie humana. Nós somos finitos e isso, muitas vezes, soa aflitivo. Quando falamos “ainda dá”, é sinal de que ainda há tempo. Portanto, ainda é viável exercer aquilo que se deseja, aquilo que se procura. Quando não houver mais tempo, também não haverá mais aflição. Há uma frase antiga que diz que “a vida é um problema dos vivos, os mortos não têm problemas”.

A perspectiva de não haver mais tempo é a anulação do “ainda dá”. A imagem do relógio em movimento é um recurso largamente utilizado em filmes, em cenas de prova em sala de aula ou mesmo nos programas televisivos de disputas culinárias. Os ponteiros avançando evidenciam a pressão presente naqueles ambientes. É a percepção do tempo como opressor.

Há uma frase forte, dita pelo goleiro Gianluigi Buffon, ao despedir-se da seleção italiana, em lágrimas, ainda no gramado: “O tempo é tirano”. Ele a pronunciou ao término da partida que alijou a Itália da Copa do Mundo de 2018. O empate sem gols com a Suécia colocava fim ao sonho de Buffon de disputar o seu sexto Mundial. Foi o jogador que mais vezes vestiu a camisa da Squadra Azzurra, 176 partidas até aquele momento. Depois, em 2018, ele aceitou a convocação para dois amistosos. De todo modo, a entrevista do goleiro mostra que até para os grandes o tempo é implacável. Chega uma hora em que não dá mais.

Remete  à  melancolia  do  célebre  “E  agora,  José?”,  do  magnífico  poeta mineiro  Carlos  Drummond  de  Andrade  (1902-1987):  “E  agora,  José?/  A  festa acabou,/ a luz apagou o povo sumiu E agora, José?”.

A nossa condição de finitude nos obriga a ter atenção a isso, porque sabemos que não temos todo o tempo do mundo para as coisas. E o mais paradoxal é que, mesmo que tenhamos essa consciência, às vezes fazemos de conta que não é com a gente. Algumas pessoas são indiferentes a essa condição de finitude e agem como se dispusessem de todo o tempo. Quando deparam com a areia da ampulheta escorrendo para o fim, entram em desespero. Há uma diferença entre desespero e aflição. Quando fico incomodado com algo e me ponho a tentar resolver, estou movido pela aflição. O desespero fica claro pela minha incapacidade de ação. Enquanto a aflição é mobilizadora, faz com que eu tome alguma providência, o desespero me paralisa, me coloca em expectativa aguardante, ao sabor dos acontecimentos.

A aflição me impele a fazer escolhas na vida, a fim de que eu preserve a minha saúde física e mental, a minha harmonia em relação à vida. Aflição é aquilo que me impulsiona para mais uma procura, mais um passo, mais uma tentativa. A aflição envolve o “ainda dá” no sentido anunciante de um movimento que farei para mudar a situação vigente. Claro que uma hora não dará mais, porque a finitude das coisas, sobretudo do nosso tempo de vida, é um fato e, como tal, inexorável.

Algumas religiões semeiam a crença em oportunidades em outras dimensões e, por essa perspectiva, o tempo vital seria episódico. Isto é, esta vida é só uma etapa de uma existência maior. Não é casual que religiões reencarnacionistas lidem com a perspectiva de um tempo que ultrapassa o modo meramente cronológico e, com isso, contemplam a possibilidade de outros “ainda dá”. A essência do indivíduo perdurará e poderá retornar de maneira que ele reinvente, corrija, retome, faça de outro modo.

Mas nem todas as perspectivas religiosas são marcadas por essa concepção. O catolicismo é ressurreicionista. Convém ressalvar que acreditar na ressurreição não é a mesma coisa que crer em reencarnação. Na concepção judaico-cristã, esta vida é única e é nela que você tem a tua chance. Um dia, segundo as crenças judaico-cristã e islâmica, no Juízo Final, a Divindade decidirá o teu destino. É uma continuidade de algo que se iniciou quando você de lá veio. Como a tua fonte é a tua alma imortal e ela de Deus veio – na crença de várias religiões – para Ele voltará. Poderá ficar na presença Dele, que é o paraíso, ou na ausência Dele, que é o inferno.

As religiões reencarnacionistas atribuem uma noção de tempo que é quase cíclico. Nesse tipo de percepção, a mensagem não carrega um tom conformista: “Poxa, não deu nesta vida, dará na outra”. Em algumas dessas religiões – como no budismo e no espiritismo kardecista –, a ausência de esforço para evoluir, a acomodação, a mediocridade desfavorecem a sua condição de retorno. A dificuldade que você terá numa outra vida poderá ser maior do que a enfrentada nesta atual. A própria noção de carma, dentro do budismo, não é a de um destino no qual você não intervém. O carma é composto a partir das tuas escolhas, daquilo que você decidiu fazer ou deixar de fazer. As concepções que na história religiosa lidam com a noção de reencarnação trabalham com a recusa da mediocridade. Você reencarna para ser melhor, não para fazer mais do mesmo.

As religiões, de maneira geral, trabalham com as nossas aflições, isto é, com a nossa procura pela paz interior, pela harmonia na vida, pelo afastamento do desespero. Mas todas elas lidam com a noção de tempo vital de algum modo.

Ao olhar a religião sob o ponto de vista do “ainda dá”, para ter esperança você precisa ter esforço, dedicação, atuação. Na crença reencarnacionista, o merecimento de uma vida melhor dependerá do esforço feito nesta passagem atual. Nas religiões ressurreicionistas, especialmente no cristianismo, você merecerá a salvação da tua alma, portanto, a eterna permanência dela ao lado do Criador, se você não tiver neste mundo aquilo que se chamava de acídia, que é o equivalente da preguiça.

Até Tomás de Aquino (1225-1274), que é o organizador de ideias circulantes na  teologia cristã, o pecado mortal mais insidioso era a preguiça. Foi ele o responsável  pelo ordenamento dos sete pecados capitais. Até o século XII, a ideia mais forte de  afastamento da fonte da vida era a preguiça ou a acídia. Não a preguiça no sentido  de não querer trabalhar, mas de não fazer esforço para salvar a própria alma. E esse  esforço de salvação da alma significa fazer o Bem. Se você for preguiçoso na feitura  do Bem, se não for piedoso, se não tiver percepção de fraternidade, se não praticar  a caridade, cometerá um pecado mortal. Na crença dos cristãos, especialmente na teologia católica, o pecado mais forte é a desesperança. Porque a perda da esperança significa impedir a manifestação da bondade divina.

A partir do momento que eu tenho a perspectiva de que não dá, a esperança fica demolida. Nessa hora, a aflição se transforma em desespero. É quando deixamos de acreditar que “ainda dá”.

Quando estamos com aflição em relação a alguma coisa, ou iniciamos um processo de demolição dessa aflição ou ela cresce de modo exponencial. Uma aflição só começa a se resolver quando tomamos a iniciativa de resolvê-la, isto é, quando vamos em busca da anulação da fonte daquela aflição. A mobilização surge da percepção de que algo precisa ser lidado para não sermos fustigados por um sofrimento maior.

Nessa hora, a ideia do “ainda dá” precisa de acolhimento. Não basta que “ainda dá” seja pronunciado por alguém como estímulo. É preciso acolhê-lo, introjetá-lo. Eu preciso crer que aquela movimentação que farei, que aquela energia que desprenderei trará, de fato, um benefício. Eu sei que não é garantia de que será, mas não mobilizar será a garantia de que não será.

Muitas vezes, a mudança acontece a partir das angústias que carregamos no dia a dia. A angústia não é sempre negativa, ela pode ser um fator a mais para nos mobilizar.

O único remédio contra angústia é a ação!

ESTAR BEM

SAIBA COMO ACELERAR O METABOLISMO APÓS OS 50 ANOS

O envelhecimento é um dos fatores que influenciam o processo de transformar o que se come e bebe em energia. Mas há formas de manter o corpo com um bom nível de gasto calórico e evitar o acúmulo de peso

O metabolismo é um dos processos mais completos e complexos do corpo. Pode funcionar em momentos diferentes dependendo da pessoa: alguns aceleram e outros desaceleram. São especialmente os adultos mais velhos que tendem a ter um funcionamento mais lento, por isso acham difícil perder peso.

De acordo com especialistas da Mayo Clinic, o metabolismo é o processo pelo qual o corpo converte o que você come e bebe em energia. Mesmo em repouso, ele continua a usar energia para funções básicas, como respiração, circulação sanguínea e reparo celular. A energia usada pelo corpo para essas funções básicas é chamada de taxa metabólica basal, um fator chave para manter a forma e também influencia no controle de peso.

“O metabolismo varia de acordo com diversos fatores, como genética, sexo, composição corporal e níveis hormonais, alterando-se em diferentes fases da vida”, diz a nutricionista Anabella Famiglietti.

Segundo a especialista, adultos após os 50 anos têm um metabolismo mais lento, pois existem vários fatores associados ao envelhecimento que influenciam o estado metabólico, como: diminuição da massa magra; aumento da gordura corporal associado à diminuição de atividade física, secreção de hormônios de crescimento e sexuais; e desregulação alimentar (como a diminuição da sede).

DE OLHO NO PRATO

Após os 50, a pessoa precisa de menos energia e acumula mais facilmente reservas na forma de gordura. Por esse motivo, existem métodos e hábitos que podem ajudar a acelerar o metabolismo.

De acordo com Chih-Hao Lee, professor de genética e doenças complexas da Escola de Saúde Pública de Harvard, o metabolismo aumenta cada vez que você come, digere e armazena alimentos: um processo chamado “efeito termogênico dos alimentos”. Segundo Lee, a proteína tem um efeito térmico maior em comparação com as gorduras e os carboidratos, porque leva mais tempo para o corpo queimá-la. Um estudo da Universidade de Cambridge descobriu que alimentos como cominho, canela, açafrão, pimentão e pimenta podem aumentar a taxa metabólica de repouso e diminuir o apetite.

O que você bebe também pode auxiliar no metabolismo. O consumo moderado de bebidas estimulantes e quentes, como café e chá, favorece a estimulação gástrica e a queima de energia, pois geram maior gasto de gordura do que outras bebidas. Por outro lado, um estudo publicado no Journal of Clinical and Diagnostic Research mostrou que a termogênese – o processo de produção de calor nos organismos – induzida pelo consumo de água gelada foi reconhecida como um componente importante do gasto energético diário. Dessa forma, beber água fria faz com que o corpo se sinta compelido a recuperar sua temperatura habitual (baixada pela ingestão do líquido) e, como consequência, mais energia é queimada.

MUDE SUA ROTINA

Dormir pouco provoca um aumento no consumo de calorias. A falta de sono gera mais cortisol, que é o hormônio que descontrola a sensação de fome e saciedade, causando a vontade de comer. Por isso, deve-se dormir mais de sete horas por dia.

Aumentar a massa muscular por meio da atividade física é outro fator que ajuda no metabolismo. Um estudo feito por pesquisadores do Instituto Nacional de Diabetes e Digestão dos Estados Unidos apontou que esse tipo de treinamento ajuda a elevar a taxa metabólica basal ao aumentar quantidade de músculo magro no corpo. É por isso que atletas aposentados ganham peso: a perda de massa muscular desacelera o metabolismo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CRUZADINHA PODE RETARDAR O DECLÍNIO COGNITIVO?

Prática regular de jogos ajuda algumas pessoas que sofrem com comprometimento leve, diz estudo

Durante anos, os cientistas tentaram descobrir se os treinos cerebrais”, como quebra-cabeças e jogos cognitivos online, poderiam fortalecer nossas mentes e retardar o processo de envelhecimento. Agora, um estudo publicado no New England Journal of Medicine descobriu que a prática regular de palavras cruzadas pode ajudar a retardar o declínio em algumas pessoas com comprometimento cognitivo leve, um estágio inicial de memória vacilante, que às vezes pode progredir para demência. Embora o estudo não tenha investigado se as palavras cruzadas também beneficiam jovens adultos que não estão lidando com o declínio cognitivo, sugere que manter a mente ativa à medida que envelhecemos pode beneficiar o cérebro. E a pesquisa fornece esperanças para aqueles diagnosticados com comprometimento cognitivo leve, de que possam evitar mais declínios na memória, problemas de linguagem e tomada de decisões, que são a marca registrada da doença.

A Academia Americana de Neurologia estima que o comprometimento cognitivo leve afeta cerca de 8% das pessoas com idades entre 65 e 69 anos; 10% das pessoas com idades entre 70 e 74 anos; 15% das pessoas de 75 a 79 anos; 25% daqueles com idades entre 80 e 84 anos e cerca de 37% das pessoas com 85 anos ou mais. A pesquisa, que foi financiada pelo National Institute on Aging, recrutou 107 adultos, com idades entre 55 e 95 anos, com comprometimento cognitivo leve.

O ESTUDO

Durante 12 semanas, todos foram convidados a jogar um dos dois tipos de jogos, quatro vezes por semana – passando 30 minutos em Lumosity, uma plataforma popular de treinamento cognitivo, ou 30 minutos jogando palavras cruzadas digitais. Após as 12 semanas, os participantes foram reavaliados e receberam doses de “reforço” de jogos mais seis vezes durante o experimento, dando um total de 78 semanas. No fim do estudo, os participantes receberam avaliações-padrão usadas para medir o declínio cognitivo e amigos e familiares relataram seu funcionamento diário.

Os exames de ressonância magnética também foram usados para medir as alterações do volume cerebral. Os pesquisadores descobriram que em medições chaves de pontuações de declínio cognitivo, habilidades funcionais e mudanças no volume cerebral, os jogadores regulares de palavras cruzadas se saíram melhor do que os jogadores do outro jogo. A descoberta surpreendeu os cientistas por trás do estudo, que esperavam que os jogos cerebrais desafiadores da web, que foram projetados especificamente para aumentar a função cognitiva, oferecessem maior benefício. “Nosso estudo mostra de forma bastante conclusiva que, em pessoas com deficiência cognitiva leve, as palavras cruzadas superam os jogos computadorizados em várias métricas”, disse Murali Doraiswamy, professor da Duke University e coautor do estudo. “Então, se você tem comprometimento cognitivo leve, que é diferente do envelhecimento normal, a recomendação seria manter seu cérebro ativo com palavras cruzadas.” Pessoas com graus mais altos de comprometimento cognitivo pareciam se beneficiar mais ao jogarem palavras cruzadas que foram projetadas para ser um quebra-cabeça moderadamente mais difíceis comparadas ao jogo do The New York Times. O estudo tem limitações. Alguns dos participantes podem estar mais familiarizados com palavras cruzadas e é por isso que responderam melhor aos quebra-cabeças do que aos jogos de computador de Lumosity. Anos de acompanhamento também são necessários para determinar se intervenções como palavras cruzadas podem “verdadeiramente prevenir a demência”, disse Doraiswamy. “Sabemos há quase 30, 40 anos que manter-se mentalmente ativo é realmente importante”, disse Doraiswamy. “Mas não traduzimos isso em uma intervenção de nível médico.”

D.P. Devanand, professor da Universidade de Columbia e principal pesquisador do estudo, disse que a descoberta precisa ser replicada em um estudo maior, com mais participantes e um grupo de controle que não esteja jogando nenhum jogo. “Não podemos dizer exatamente porque as pessoas se saem melhor jogando palavras cruzadas, mas sugerimos que praticar palavras cruzadas ajuda na cognição”, disse Devanand. Doraiswamy disse que espera que estudos futuros possam contribuir com as descobertas atuais para investigar o nível ideal de dificuldade e o tempo necessário na resolução de quebra-cabeças para pessoas com comprometimento cognitivo leve.

CÉTICOS

Alguns pesquisadores permaneceram céticos. Zach Hambrick, professor de cognição e neurociência da Michigan State University, disse que o estudo não investiga porque as palavras cruzadas podem oferecer mais benefícios do que um jogo de computador. Em 1999, Hambrick foi coautor de um estudo que não encontrou evidências que sugerissem que pessoas que praticam palavras cruzadas mais de duas vezes por semana tenham menos declínio cognitivo. Hambrick disse que completar um jogo de palavras cruzadas, que requer a capacidade de lembrar palavras e conhecimento histórico adquirido por meio da experiência, testa as “habilidades cognitivas cristalizadas de uma pessoa”. Ele disse que pessoas com comprometimento cognitivo leve têm mais problemas com “habilidades cognitivas fluidas”, como lembrar uma lista de palavras ou resolver um problema de lógica. Palavras cruzadas não desafiam esses tipos de habilidades associadas ao comprometimento cognitivo leve, disse Hambrick.

A Lumos Labs, empresa por trás dos jogos de computador usados no experimento, forneceu acesso tanto às palavras cruzadas quanto ao conjunto de jogos, mas não esteve envolvida no projeto ou na publicação do estudo. Doraiswamy é consultor da Lumos Labs. Laurie Ryan, chefe de intervenções clínicas do Instituto Nacional do Envelhecimento, disse que a agência financiou a pesquisa porque é importante encontrar tratamentos que reduzam o risco de Doença de Alzheimer e outros tipos de demência. “Provavelmente precisaremos de várias intervenções para diferentes pessoas”, disse Ryan. “Estamos tentando financiar o máximo de estudos possíveis.”

ZONA DE CONFORTO

A maioria dos pesquisadores concorda que manter o corpo e a mente ativos à medida que envelhecemos provavelmente beneficia o cérebro. Ronald C. Petersen, diretor da Clínica Mayo Alzheimer’s Disease Research Center, disse que, além do exercício regular, recomenda que seus pacientes passem mais tempo realizando tarefas intelectuais desafiadoras, como assistir a um documentário ou a uma palestra. É necessário procurar por atividades que “tirem da zona de conforto”, disse Sylvie Belleville, professora de neuropsicologia da Universidade de Montreal. Como experimentar diferentes tarefas “estimulantes” ou aumentar a dificuldade de uma determinada tarefa ao longo do tempo. “Se é muito bom em palavras cruzadas e continua fazendo apenas isso, ainda está na zona de conforto e não adota novas estratégias, novas redes cerebrais”, disse Belleville.

PREVENÇÃO

Cientistas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, revelaram no mês passado que é possível detectar sinais precoces de demência até nove anos antes de o paciente receber um diagnóstico específico, como Alzheimer. No trabalho publicado, o grupo de cientistas analisou informações do Biobank, o banco de dados biomédicos britânico. A equipe descobriu sinais de dificuldades em várias áreas específicas, como a solução de problemas e a lembrança de números específicos. As descobertas levantaram a possibilidade de, no futuro, pacientes com maior risco de desenvolver algum tipo de demência fossem mapeados para intervenções precoces ou para testes clínicos de novos medicamentos. Atualmente, existem poucos tratamentos eficazes para demências ou outras doenças degenerativas, como o Parkinson. Em parte, isso ocorre porque as doenças só são diagnosticadas depois que os sintomas aparecem, embora a degeneração propriamente dita comece muito anos (e até décadas) antes.

RISCO NA VIDA SEDENTÁRIA

Outra pesquisa, publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, aponta que a forma como os adultos acima de 60 anos gastam seu tempo sedentário – aquilo que fazem quando estão sentados, por exemplo – faz diferença até nas chances que eles têm de desenvolver demência. Aqueles cujo tempo sedentário é gasto majoritariamente assistindo à televisão têm um risco 24% maior de desenvolver demência, enquanto os que optam pelo computador têm 15% de risco reduzido. Os pesquisadores explicaram que assistir à televisão é uma atividade considerada cognitiva passiva, durante a qual é necessário pensar pouco.

OUTROS OLHARES

CROCANTE, MAS AINDA SAUDÁVEL

Air fryer se firma como boa opção às frituras

Atire a primeira pedra quem resiste a uma batata, mandioca ou polenta frita. Ou bife à milanesa? Enfim, qualquer alimento feito banhado no óleo. Entretanto, o sabor e a crocância característicos desses alimentos têm um alto custo para a saúde. Além de serem altamente calóricos, o excesso de gordura aumenta o risco de doenças que vão desde problemas cardiovasculares até obesidade e diabetes.

“A fritura de imersão é uma das técnicas culinárias mais prejudicais à saúde”, afirma a nutróloga Marcella Garcez, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).

Coma promessa de preparar alimentos crocantes de forma mais saudável do que a fritura de imersão, as air fryers ganharam popularidade. Nos últimos cinco anos, o volume de vendas desse produto cresceu 194,4%, segundo dados da Euromonitor, empresa de pesquisa de mercado. Apenas em 2020, as vendas do equipamento aumentaram 22%, segundo informações da consultoria para o varejo GFK.

Quem já tentou, sabe que preparar batata frita no forno convencional não chega nem perto, tanto em sabor quanto aspecto, da preparação em óleo. Nesse cenário, a air fryer ganhou popularidade por utilizar pouco ou nada de óleo para preparar alimentos com aspecto, textura e sabor muito semelhantes aos da fritura.

Mas, afinal, usar a air fryer para preparar um alimento é de fato saudável? De acordo com a nutricionista Priscilla Primi, mestre pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), sim.

“A air fryer prepara um alimento com uma qualidade nutricional melhor que a fritura de imersão e com aspecto e crocância parecido. Não fica igual, por isso a fritura ainda tem preferência em termos de palatabilidade, mas é muito parecido”, pontua a nutricionista.

Esse tipo de fritadeira elétrica sem óleo cozinha os alimentos por meio da rápida circulação de ar extremamente quente.

“Funciona como se fosse um ventilador de ar quente”, explica Primi.

Segundo ela, o preparo na air fryer pode ser até mais saudável do que assar o alimento no forno convencional porque no forno, a gordura do alimento – ou o óleo adicional utilizado – escorre e fica depositada na assadeira, banhando a parte inferior da comida. Já o cestinho dos aparelhos impede que isso aconteça.

“A gordura escorre e não fica em contato com o alimento, o que garante uma preparação final sem ou com pouquíssima gordura e, portanto, mais saudável”, avalia Primi.

Um estudo recente analisou as diferenças entre batatas fritas preparadas no óleo e em fritadeira elétrica. Concluiu-se que a versão feita na air fryer tinha um “teor de gordura substancialmente menor”, mas mantinham teor de umidade e coloração semelhantes. No entanto, o produto feito por convecção de ar pode ter características sensoriais diferentes, como uma textura um pouco mais dura e seca. Alimentos com menos gordura são mais saudáveis porque o excesso da substância, até mesmo da insaturada, que é considerada menos nociva, leva a uma ingestão calórica maior. Alguns alimentos têm seu valor calórico triplicado quando são fritos, em comparação com outros tipos de preparo. O excesso de calorias, por sua vez, está associado ao aumento do risco de sobrepeso e obesidade, que também pode levar ao desenvolvimento de outras doenças.

“Cada grama de gordura tem nove calorias. Sempre que se faz uma mistura de imersão, por mais “sequinha” que ela esteja, haverá muita gordura e as calorias provenientes dela”, ressalta Marcella Garcez.

ACRILAMIDA

Por outro lado, nada é 100% saudável. A crosta dourada ou marrom característica de alimentos fritos é resultado de reações químicas entre um aminoácido ou proteína e um carboidrato redutor, na presença de calor. Esse processo, que leva a alterações na cor e no sabor dos alimentos, é conhecido como reação de Maillard. A air fryer consegue reproduzir essa mesma reação com pouquíssimo óleo.

No entanto, essa crosta crocante pode ser prejudicial à saúde, mesmo na ausência de óleo. Ao cozinhar alimentos ricos em amido em altas temperaturas, há a formação de acrilamida. Essa substância, responsável pela coloração dourada/marrom e pelo sabor delicioso dos produtos, pode contribuir para o câncer. A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer classifica a acrilamida como um “provável carcinógeno humano”.

A boa notícia é que nas fritadeiras elétricas, a quantidade de acrilamida é menor que a da fritura tradicional, por exemplo. Um estudo revelou que o preparo na air fryer produziu cerca de 90% menos acrilamida do que a fritura em óleo.

Além da acrilamida, outros compostos nocivos podem ser formados durante o processo de fritura ao ar em alta temperatura, como aldeídos, aminas heterocíclicas e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos. Mais pesquisas são necessárias para determinar como a fritura ao ar pode afetar a formação desses compostos.

Dito isto, Primi recomenda maneirar no consumo de comidas preparadas em altas temperaturas, independentemente do método de cozimento.

VALOR NUTRICIONAL

As especialistas também ressaltam para a necessidade de parcimônia nos alimentos preparados na air fryer. Por exemplo, alimentos congelados como batata frita e nuggets são pré-fritos e a ausência de óleo na cocção final não os torna exatamente saudáveis.

“O ideal é ter uma alimentação equilibrada, com vegetais crus e preparações cozidas na água ou no vapor, onde não há a formação desse composto, mescladas com preparações assadas”, orienta a nutricionista.

Garcez ressalta que cozinhar vegetais na água pode tirar um pouco de seu valor nutricional, devido à perda de vitaminas hidrossolúveis, como as do complexo

B. Para esses alimentos, o preparo na air fryer, desde que sem “torrá-los”, pode ser até mais saudável.

“Se obedecer ao tempo recomendado, em termos nutricionais, os vegetais feitos na air fryer são mais parecidos com o cozimento a vapor do que na água, com a vantagem de ficar pronto mais rápido”, afirma a nutróloga.

GESTÃO E CARREIRA

STARTUPS ADAPTAM ESCRITÓRIOS E ABRAÇAM ‘MODELO HÍBRIDO’

Movimento vai na contramão da previsão feita no auge da pandemia de fim do uso de espaços corporativos

Até a pandemia, os escritórios das empresas ficavam lotados de segunda a sexta-feira, com funcionários marcando presença em todos os dias úteis da semana. Essa era uma realidade inclusive nas startups, companhias de tecnologia conhecidas por testarem novos métodos de trabalho, como o home office. Passados dois anos de covid, esses espaços deixaram de se tornar tão essenciais quanto antes, mas tampouco estão longe de ser acessórios para a cultura corporativa.

“O espaço físico corporativo se torna ainda mais relevante no mundo pós-pandemia”, diz Carolina Foley, diretora de real estate e soluções corporativas do Nubank. Se até 2020 era banal ir ao escritório diariamente, o ato ganha hoje ares especiais. Ir trabalhar presencialmente se torna algo muito mais proposital quando é uma ou duas vezes por semana”, completa ela.

Com prédio próprio em Pinheiros, o “roxinho” voltou às atividades presenciais em junho de 2022 com algumas novidades, como uma reforma na cafeteria do prédio, aberta ao público. Além disso, para os colaboradores foram criadas mais salas individuais (especialmente, para videochamadas) e adicionadas mesas colaborativas. Atualmente, os funcionários e equipes podem decidir quais dias da semana o trabalho deve ser presencial.

Além disso, o Nubank inaugurou no início de novembro um espaço de 10 mil metros quadrados no bairro da Vila Leopoldina. O local permite reuniões com equipes de mais de 200 pessoas, além da realização de grandes eventos e encontros com pessoas de fora.

O movimento vai na contramão daqueles que pregavam o fim dos espaços físicos há dois anos, auge da pandemia e do isolamento, por conta dos altos custos de se manter um escritório. “Na ponta do lápis, alugar um escritório é um gasto alto. Mas sabemos que vamos crescer muito, então buscamos um espaço diferente e totalmente eficiente para outros usos além da nossa torre corporativa”, conta Carolina.

Recentemente, outras companhias do setor de tecnologia também inauguraram escritórios, como 180º Seguros e a Alice, de planos de saúde.

TECNOLOGIA

Os escritórios do pós-pandemia estão mais equipados do que nunca: a infraestrutura precisa ser flexível para acender não só os funcionários que trabalham presencialmente, mas também aqueles que estão em casa

Isso significa que a conexão de internet deve ser de boa qualidade para as videochamadas. Além disso, salas colaborativas devem vir com televisores e monitores para a transmissão de reuniões “híbridas”.

“Não podemos ter uma barreira de comunicação entre quem está dentro e fora da empresa”, diz Renata Feijó, diretora de recursos humanos da Loft; uma das maiores startups do Brasil e que adota o regime híbrido de trabalho desde novembro de 2021, quando reabriu as portas.

Outro aspecto comum a esses escritórios é o sistema de conferência de chantadas, que inclui câmeras e microfones conectados a TVs. A startup Gympass, de benefícios corporativos de bem-estar, adotou esses aparelhos em suas salas de reunião em Nova York e São Paulo.

Apesar da política de “trabalhe de qualquer lugar”, que permite que funcionários fiquem em outras cidades ou até países uma vez a cada trimestre, a Gympass incentiva encontros presenciais. “As troca construtivas em pessoa continuam sendo muito mais produtivas”, diz Renato Basso, vice­ presidente de pessoas da Gympass no Brasil “Reforçamos a flexibilidade das pessoas, ao mesmo tempo que provemos um ambiente em que todos possam construir laços mais próximos.”

EU ACHO …

FARÓIS

Quando a gente nasce, pai e mãe são nossos ídolos, lideram as paradas de sucesso dentro de casa. Avós e irmãos completam a banda. Só escutamos a família e por ela somos influenciados. Mais tarde, brincando na rua, indo ao colégio, a gente descobre a existência de outras pessoas – os primeiros amigos.

Tive sorte: antes do meu aniversário de 10 anos, já conhecia Caetano, Mutantes, Gil, Chico, Milton, Bethânia – e Gal, claro. Assim que seus discos eram lançados, aterrissavam na eletrola da sala. Que bom que meus pais não monopolizaram o sucesso que faziam com os filhos. Intuíram que aqueles desconhecidos também teriam muito a nos dizer.

Ainda nem tinha entrado na adolescência e eu já era estimulada a abrir a cabeça para diferentes jeitos de existir, para a pulsão da poesia, para as provocações naturais do pensamento – with a little help from The Beatles, que também frequentavam o nosso pequeno apartamento no período. Cabiam diversas vozes, rimas, guitarras, violões. Cabia o mundo.

Entraram todos para a família. Ajudaram a me formatar e fizeram parte do que veio depois: a faculdade, os namorados, os livros – até chegar aqui.

Foi um choque perder Lennon e Harrison, lembro bem. Assim como Cazuza e Cássia Eller, que agreguei na fase adulta. Mas a morte de Gal teve um significado mais profundo. Já não sou jovem, agora também aproximo da finitude, sem poder quantificar o tamanho do futuro em frente. Antes não pensava nisso, hoje penso. E me atordoo. A turma da MPB entrou na minha vida muito cedo e cresceu comigo, éramos quase da mesma geração, eles ligeiramente avançados. Nesta atual e derradeira etapa da nossa existência, estou ainda perto da porta de entrada, enquanto eles mais perto da porta de saída – hipoteticamente, claro, mas é como o coração sente.

Queria poder agarrar a mão de cada um, deixar ninguém sair. Como a um pai, uma mãe, os faróis da nossa existência, nossas iluminações. Mas nem Deus consegue esse milagre.

Não chamo ele dor a perda de uma cantora que não cheguei a conhecer fora do palco, e que teve uma trajetória tão rica que sua partida não soa trágica – tragédia é partir sem ter vivido. Não é dor, porque quem fez parte de mim, não se vai localmente, até que eu vá também. Seguimos vivos uns nos outros. Não é dor, então é o quê? Ainda procuro dar um nome a este sentimento novo que me atravessa. Parece outro tipo de parto: sem pai, nem mãe, nem faróis. É um renascimento tardio e solitário. Chegou o momento de aprender a viver em estado de orfandade.

Contar com si própria e com o repertório acumulado durante a vida de antes, que começa a desaparecer lentamente. Pode ser bonito também, eu sei. Não é dor. Acho que é espanto.

MARTHA MEDEIROS

  marthamedeiro@terra.com.br 

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTUDO IDENTIFICA POSSÍVEL ELO ENTRE O CORONAVÍRUS E A DEPRESSÃO

Vírus atinge neurônios e pode desencadear efeito sobre o sistema nervoso central. País vive nova alta de casos da doença

Um estudo brasileiro identificou o mecanismo que pode estar por trás de quadros de depressão, ansiedade e perda de memória após infecção pelo coronavírus. A pesquisa fornece evidências de que o Sars- CoV-2 atinge não só os neurônios, como, principalmente, os astrócitos – que funcionam como uma espécie de bomba de combustível para o cérebro. O fenômeno produziria um efeito em cadeia no sistema nervoso central.

A covid longa afeta não só pacientes com quadros graves, mas também aqueles que tiveram poucos sintomas. Nas últimas semanas, o País entrou em uma nova onda de covid, associada a subvariantes da Ômicron. Com a alta de casos, médicos destacam a importância de atualizar a vacinação anticovid e orientam o uso de máscara em ambientes fechados e de aglomeração, sobretudo por pessoas mais vulneráveis.

ANÁLISE

“O grande problema que a gente vai vivenciar agora é a covid longa, tanto é que tem tanta gente querendo entender essa doença”, afirmou Thiago Mattar Cunha, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) e coautor do estudo.

Ele conta que, em uma das frentes, os pesquisadores fizeram biópsias de 26 vítimas fatais da covid e coletaram, além de amostras de pulmão, material cerebral.

Foram detectadas alterações neuronais em cinco dos pacientes analisados, e o Sars- CoV-2 foi identificado no cérebro de todos eles. “Foi aí que nós identificamos os astrócitos como as principais células que abrigavam os vírus no sistema nervoso central”, relembra ele, que explica que os astrócitos não só dão suporte para a célula neuronal, como têm outras funções de apoio.

Qualquer distúrbio que aconteça nos astrócitos afeta, de alguma forma, os neurônios e, consequentemente, o sistema nervoso central.”

Após as observações iniciais, os pesquisadores infectaram astrócitos in vitro com o Sars-CoV-2 e observaram que eles podem produzir até substâncias neurotóxicas, que são capazes de matar os neurônios.

O grupo começou a observar, então, que podia haver uma correlação entre o pós- covid e quadros de perda de memória, depressão e ansiedade, por exemplo. “Pacientes com covid longa tinham uma redução de massa, ou de tamanho, de determinadas estruturas cerebrais, como córtex pré-frontal e hipocampo”, disse Cunha.

O estudo, publicado recentemente na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (P- NAS), foi conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de representantes da USP. As análises, que começaram no primeiro ano de pandemia, compreendem pacientes afetados de diferentes formas pela doença.

REINFECÇÃO AUMENTA RISCOS DE AGRAVAMENTO E SEQUELAS, DIZ ESTUDO

A reinfecção por covid-19 parece trazer riscos adicionais de complicações em diversos órgãos, além de incrementar a chance de morte e de hospitalização, sugeriu um estudo da Universidade de Washington, publicado na revista científica britânica Nature.

Segundo os pesquisadores, os riscos foram mais pronunciados na fase aguda da doença, mas persistiram na fase pós-aguda, aos seis meses subsequentes. Além disso, os ônus foram cumulativos, com os resultados podendo ser piores a cada nova contaminação.

OUTROS OLHARES

BARRACA DE LUXO

já conhece o glamping? Fusão de glamour com camping, conceito está em alta no turismo e conquista fãs pelo Brasil, com hospedagens cinco estrelas em clima de aventura

Quando abriram o zíper da cabana em que ficariam hospedados, os amigos Maria do Rosário, Daniel Gorin, Guga Dale e Karen Couto soltaram um sonoro “uau”. Ficaram encantados com o conforto e a decoração do glamping Cabanas do Vale, em Itaipava. São apenas duas cabanas, localizadas dentro de um vinhedo butique e com Mata Atlântica ao redor. No deque, há espaço para fogueira e banheira a céu aberto. O termo, que mistura as palavras glamorous (encantador) e camping (acampamento), ocupa o topo nos rankings de tendência de viagem — não à toa, “glamping perto de mim” foi a expressão mais buscada do Google este ano. “Olhando de fora tem cara de cabana, mas, quando você entra, o pé direito é alto, os móveis são lindos. Um lugar de luxo mesmo”, comenta Gorin.

E é exatamente esse o trunfo das hospedagens (que, em média, tem diárias entre R$ 900 e R$ 1.500): ter o charme do clima de acampamento, mas com pegada de hotel sofisticado. “Foi uma experiência única de alto luxo. Você se sente acampando, não tem serviços, mas em uma cama ótima, com um chuveiro maravilhoso. Cozinhamos, curtimos a fogueira à noite. Ainda não tinha experimentado algo assim”, destaca Maria.

No Brasil, este ano, a tendência vem se espalhando. Outro glamping que está bem “instagramizado” é o Hidden Treasure – Glamping Chapada dos Veadeiros. Formado por quatro domos geodésicos em pleno cerrado, a ideia é interferir o menos possível na natureza. A sustentabilidade, assim como estar integrado à natureza, é regra. Essas estruturas redondas e transparentes são muito usadas por serem mais sustentáveis. “Optamos pelo estilo por proteger a vegetação. Estamos dentro do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e queremos, acima de tudo, preservar o cerrado. Fizemos tudo em palafitas para resguardar o solo. Os hóspedes chegam em busca de contato com a natureza e privacidade. Para se ter ideia, nosso endereço só é enviado depois da reserva, assim evitamos curiosos”, conta Ducan Egger, proprietário dali.

Os domos também aparecem no Esphera, em Gravataí, no Rio Grande do Sul, que tem uma estrutura de campos de esporte, lago, espaço kids, parrilla externa e ofurô. “Já me hospedei no Esphera quatro vezes. O que mais me encanta é o contato com a natureza, isso para mim é luxo. Também adoro o charme dos ambientes, superconfortáveis. E sem deixar de ser, em essência, uma barraca de camping”, diz a stylist Roberta Ahrons.

A apresentadora Mel Fronckowiak também é adepta. “Devo admitir que virou uma das minhas formas preferidas de hospedagem no Brasil e no mundo. É uma maneira mais consciente de viajar, já que são estruturas que causam menos impacto”, observa Mel, que cobriu a rota dos glampings em seu programa no YouTube, “Mel na estrada”.

Perto dos cânions gaúchos, em Cambará do Sul, fica o Parador, o primeiro glamping brasileiro. Ele faz parte do grupo Casa Hotéis, focado em hospedagens de charme do Rio Grande do Sul. São 28 acomodações, entre barracas luxo, barracas suítes, bangalôs e casulos, construídos com estrutura de madeira de reflorestamento em forma de círculo. No décor, elementos naturais, como galhos de árvores, peças em madeira e palha e luminárias de lã de ovelha assinadas pela artista Inês Schertel. Ainda tem banheira com vista para o campo e spa by L’Occitane. “Colocamos toda a nossa criatividade neste projeto e ficamos felizes com a possibilidade de oferecer uma experiência diferente aos nossos visitantes”, comenta Rafael Peccin, diretor de marketing do Casa Hotéis. “Trabalhamos como conceito de unique stays, ou seja, tipos de hospedagem que só se encontra em lugares exclusivos, combinando sofisticação e imersão junto à natureza”, completa.

GESTÃO E CARREIRA

PROFISSIONAL DE TI: ESCASSEZ DE TALENTOS X DEMANDA CRESCENTE

Apesar de ser um dos mercados que mais crescem, ele sofre com a falta de profissionais capacitados e, consequentemente, pela corrida das empresas atrás desses talentos.

Dados do relatório da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom), divulgado em 2021, apontam que o Brasil forma 53 mil pessoas por ano dentro da área e que a demanda anual, entretanto, é de 159 mil profissionais. Em cinco anos, estima-se que o país vá precisar de 500 mil desses profissionais.

“O mercado de TI está mais aquecido do que nunca. A pandemia trouxe uma necessidade muito grande das empresas investirem em tecnologia por conta do trabalho remoto e das novas demandas de consumo e formas de se relacionar com o mundo. E esse é um caminho sem volta”, ressalta José Barbosa Sobrinho Neto, gerente de TIC na MV, multinacional especializada na Transformação Digital no setor de Saúde.

Para ele, hoje não há nenhuma barreira para quem quer entrar na área. “Há tantas oportunidades e caminhos, que é preciso apenas gostar de estudar e se atualizar sempre. Há diversos cursos tecnólogos, outros de curta duração e faculdades cada vez mais preparadas para formar jovens capacitados para o mercado de trabalho. Mas encontrar bons profissionais ainda é um grande desafio”. Por isso algumas empresas estão investindo em programas para qualificar os profissionais. A MV é uma das companhias que sentiu a escassez de profissionais e uniu a necessidade com ações de responsabilidade social. Um exemplo é o lançamento do Programa CUBO focado na capacitação de desenvolvedores, que neste ano, ganhou uma nova versão exclusiva para a capacitação do público feminino, que ainda é significativamente menor do que o masculino no mercado de TI. Além da formação, as novas profissionais têm a oportunidade de estar dentro da MV exercendo o que aprenderam.

Além do CUBO, a MV promove outras iniciativas para promover e incentivar a entrada nesse mercado como a parceria com a ONG Generation Brasil para recrutamento de novos talentos em tecnologia para atuar em oportunidades profissionais oferecidas pela MV. A Generation é um programa global, que promove a formação qualificada de jovens, de 18 a 30 anos, em situação de vulnerabilidade social, que estão desempregados ou que desejam migrar para a carreira profissional de tecnologia.

E ainda o Programa Jovem Técnico, direcionado para jovens de 18 a 25 anos, que concluíram o ensino médio ou estão cursando ensino superior na área de tecnologia e que desejam construir uma carreira na área. “É uma oportunidade incrível não só para achar novos talentos, mas para ajudar a transformar a realidade do setor no Brasil.

Sabemos que os homens ainda são a grande maioria, mas também é visível o crescimento do interesse feminino na área”, destaca Andrey Abreu, diretor Corporativo de Tecnologia da MV. Dados divulgados pelo Caged, apontam que a participação feminina no mercado de tecnologia cresceu 60% nos últimos cincos anos, o que reforça as oportunidades que elas podem encontrar no setor.

EU ACHO …

QUEM PINTA A NEGRA?

‘A arte tem feito o trabalho que as instituições brasileiras resistem a realizar’

“De que forma a mulher negra foi pintada ao longo da história brasileira? Essa pergunta tem instigado relevantes reflexões sobre a arte produzida em nosso País e sobre como as narrativas canônicas estão comprometidas com olhares racistas e misóginos.

Quando falamos de episódios de heroísmo ou feitos históricos, a mulher negra é pouco lembrada, como se sua história fosse breve, nascida anteontem. No entanto, esse apagamento misógino e racista em relação às mulheres negras encontra na arte um poderoso antagonista. Nesse campo, as mulheres negras têm sido narradas em abundância, mas são fartas também as violências encontradas neste encontro entre arte e o corpo da mulher negra. Em uma análise sobre os limites das representações das mulheres negras na cultura, a socióloga Lélia González percebeu a repetição neurótica das categorias da mulata, da mucama e da mãe preta. O item mais popular desse trio possivelmente seja a criação imagética da mulata, que emerge nas festas populares – e sobretudo no carnaval – como sinônimo da forma perfeita e símbolo de uma obsessão nacional pelo corpo.

Na história da arte brasileira, a mulher negra é musa recorrente. Ela aparece nos principais museus do País, seja coberta de roupas insinuantes, seja com o seio descoberto, como é flagrante na obra de Di Cavalcanti, reconhecido por retratar as mulatas, termo hoje amplamente rejeitado por suas implicações políticas, ainda que, ironicamente, imprescindível para a consolidação do agora centenário Modernismo brasileiro.

Na sua representação icônica do feminino negro, também Tarsila do Amaral optou pela exposição do seio negro, traço comum, aliás, às telas de Di Cavalcanti. Na melhor das hipóteses, o retrato de Tarsila propõe um diálogo com a Vênus de Willendorf e com a linguagem do classicismo; na pior, trata-se do velho olho do exotismo, operando a objetificação do corpo da mulher negra. A mama que se esvai nesse tipo de representação nos conduz à representação da mãe preta.

Figura servil, atada ao passado escravagista luso-brasileiro, essa construção é, talvez, a mais normalizada na vida social brasileira, sedimentada em camadas de trabalho árduo e mal remunerado. Eis a transformação de uma relação de exploração em elo maternal. E, assim como a mãe preta, a mucama é personificada no nosso imaginário por meio de imagens tão antigas quanto as pintadas por Debret, mas que são revividas por meio das telenovelas.

Se tais imagens foram sedimentadas por séculos de uma máquina produtiva que nos olhava de longe e falava conosco de cima, é o pensamento de teóricas como González que nos desperta para as armadilhas dessa confluência de significados. É nesse sentido também que Djamila Ribeiro posiciona o pensamento de Grada Kilomba. Esta investiga o peso fatigante da carga colonial em nossas costas.

Na produção intelectual de outras línguas, também é notável o esforço da norte- americana Saidiya Hartman, que tem desvelado imagens de rebeldia e elaborado narrativas genuínas sobre identidades conquistadas após o trauma da escravidão.

Ao lado dessas teóricas que se dedicam a construir novas formas de olhar a opressão sobre as mulheres negras também marcham nossas artistas, que ousam desafiar o ciclo de falseamento e achatamento de nossas identidades. A paulistana Rosana Paulino, por exemplo, se debruça sobre a busca do fio condutor da trajetória dos sujeitos apagados para edificar uma Parede da Memória. A família que se alastra em centenas de retratos apresentados em patuás é originada de indivíduos que produzem novos significados do ser na coletividade. Como em um mural de investigação policial, a artista, na obra, convida o público a pensar sobre os desdobramentos das relações que as imagens associadas sugerem.

Refazendo nosso caminho em direção ao passado, encontramos a pelotense Maria Lídia  Magliani. Sua Vênus aparece em relevo em pinturas como Ela, em que o corpo volumoso é revisitado, mas dessa vez com cicatrizes aparentes. Essa ousadia estética lembra a história de Maria Firmina dos Reis, uma escritora de São Luís, que – em pleno século 19 – publica um romance abolicionista que constitui um dos relatos mais devastadores da nossa literatura. Úrsula é a imagem do passado matriarca negro, com suas vulnerabilidades e sua força fundadora. Esse livro é, a um só tempo, memória e ruptura.

Artistas como Paulino, Magliani e Reis criam narrativas que adensam o panorama de imagens das mulheres negras, colocando-as no centro da construção do País. A arte tem feito o trabalho que as instituições brasileiras resistem a realizar. Por isso, ainda que as imagens produzidas a partir do olhar de mulheres negras não sejam tão pacíficas ou tão sedutoras para os homens e mulheres brancas quanto as que compõem o repertório do senso comum, serão elas que irão repovoar o imaginário brasileiro nas próximas décadas.”

*** FERNANDA BASTOS – É jornalista, editora e CEO da Figura de Linguagem.

ESTAR BEM

SEUS PÉS MERECEM UMA MASSAGEM

A automassagem pode ser feita diariamente na hora de ir para cama. De 5 a 10 minutos são suficientes para sentir os seus benefícios

Muitas vezes a gente só lembra deles quando se machuca e não pode contar com esta dupla 100% boa. Os pés. Partes fundamentais para o equilíbrio, e não só no sentido físico. Uma forma de manter mente e corpo em harmonia é simplesmente incorporar à rotina uma massagem nos pés antes de dormir.

Embora exista a reflexologia podal, prática terapêutica que prevê a pressão em certos pontos dos pés com a finalidade de melhorar a saúde dos órgãos, ninguém precisa se preocupar com teoria ou ser um expert para fazer uma automassagem. Segundo o terapeuta Pedro Saliba, o importante é prestar atenção nas respostas do próprio corpo e começar devagar.

“Massagem é uma coisa que todo mundo pode tentar fazer. O primeiro conselho que eu dou é usar um toque leve. Imagine que tem de ser uma sensação prazerosa”, afirma.  Tampouco há necessidade de temer por algum malefício resultante da pressão feita nos pés. “Não tem nenhum ponto que a pessoa vai apertar e que vai dar tilt”, brinca o especialista, que desenvolveu um método chamado de Full Relax and Heal.

Nele, o terapeuta junta diferentes técnicas, aromaterapia, reflexologia e liberação miofascial. “Eu faço mais movimentos, uso o toque firme, mas sem dor. Quando a gente está fazendo essa manipulação, o corpo começa a produzir hormônios que trazem prazer, cura e recuperação muscular.” Veja as dica s do terapeuta e os benefícios da automassagem nos pés:

DESCANSO NA ÁGUA MORNA

O terapeuta recomenda que se prepare a região para receber a automassagem “Eu gosto que a pessoa comece fazendo um escalda-pés. Ela vai pegar uma bacia, colocar água bem quente do chuveiro, numa temperatura que o corpo aguente. Aí vai botar sal e, se tiver óleos essenciais, pode pingar umas gotinhas na água”, explica o profissional. Gerânio ativa a feminilidade, hortelã-pimenta auxilia quem tem problemas para manter o foco, recomenda Saliba. Os pés devem ficar de molho na água quentinha, durante cerca de dez minutos. “É o tempo em que a água vai esfriar’”, diz.

DEDICAÇÃO AOS PÉS

Depois de enxugar os pés, com um pouco de creme hidratante nas mãos, comece tateando toda a área com as pontas dos dedos, para sentir se tem algum ponto mais sensível e evitar pressioná-lo demais. “A pessoa pode fazer movimentos circulares na sola do pé e na curva, acompanhando a anatomia. Pode fazer nas duas direções livremente”, ensina o terapeuta. “Depois, massageia o peito do pé e também entre os dedos!”. No total, entre 3 e 5 minutos são suficientes para sentir os efeitos.

FREQUÊNCIA POR SEMANA

O hidratante pode ficar ao lado da cama e a automassagem ser feita todo dia, antes de dormir. Afinal, sem contar o escalda-pés, a prática leva só alguns minutos. “Ajuda muito a relaxar, em casos de ansiedade e quando a pessoa chega do trabalho e não consegue desligar. Vai melhorar a saúde do sono, para ele ser reparador”, diz Saliba A automassagem completa nos pés pode ser realizada quando você tiver condições de tirar um tempo maior para si, de repente no fim de semana. “Se a pessoa conseguir fazer isso uma vez por semana, já vai ter vários benefícios.”

AUTODESCOBERTA

Saliba explica que se massagear serve também como exercício de autoconhecimento. “Entre as mulheres principalmente existe muito tabu no toque do corpo. A prática ajuda nisso”, afirma.

FOCO NA PANTURRILHA

”Após a estimulação do pé, é bacana fazer o mesmo na panturrilha. Ali tem o acúmulo de toxinas do sistema linfático, principalmente para quem trabalha em pé.” Nessa região, é importante que o movimento contínuo seja feito sempre de baixo para cima, por causa da circulação. Segundo o especialista, basta massagear de 2 a 3 minutos.

ATENÇÃO A CONTRAINDICAÇÕES

“A massagem é contraindicada para pacientes com diagnóstico de câncer porque ela acaba espalhando essas células. Outra contraindicação é em casos de trombose porque o trombo pode mover-se e se alojar em outra parte”, explica Saliba. Já para quem sofre com pressão alta, ele recomenda a prática. “Diminui a pressão nas artérias e relaxa o corpo.”

HIDRATAÇÃO DA PELE

Para a automassagem nos pés, serve qualquer creme hidratante, de preferência com uma fragrância suave ou a que você já esteja acostumado. Quem quiser pode comprar um neutro, sem perfume, e pingar umas gotas de óleos essenciais. “Uma boa combinação pode ser melaleuca, ação anti-inflamatória, com lavanda, que é calmante”, indica o terapeuta.

INTENSIDADE DO TOQUE

“É importante respeitar os sinais do corpo. Se há uma parte dolorida no pé, não quer dizer que é para você ficar apertando ali até melhorar”, afirma o especialista Não vá além do limite, nem na frequência nem na intensidade. “Só vai ser dolorido se você realmente usar muita força.” Uma pressão exagerada pode acabar machucando também as mãos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AUTOESTIMA AJUDA A DRIBLAR CRUELDADE DO RACISMO NA INFÂNCIA

Crianças falam de partes legais e difíceis de serem negras e empresária lembra por que criou sua marca de bonecas

“Ser negra é algo que vai muito além da cor da pele.” Essa frase é da Gabrielly. Ela tem 13 anos e já entende muito sobre como funciona o mundo em que vive – para o bem, e para o mal.

“Ser negra significa ter que aguentar comentários ofensivos e idiotas, aguentar a desigualdade social, o racismo. É uma coisa que nós negros temos que carregar para o resto da vida”, enumera Gabrielly.

“Mas, independentemente disso, temos que ter orgulho da nossa cor.”

Quando era criança, a empresária Joyce Venâncio tinha uma consciência tão profunda de si mesma quanto a que Gabrielly tem hoje. Ela lembra que, mesmo tendo crescido em uma família que conversava muito sobre preconceitos e crueldades, ainda assim viveu momentos ruins.

“Era difícil enfrentar vários tipos de xingamentos, piadas. O racismo dói demais.” Uma vez, Joyce questionou em casa porque não havia bonecas da mesma cor que a sua. A avó não teve dúvidas: comprou uma cabeça de boneca (branca), revestiu com uma meia-calça tingida, e fez para a neta uma boneca parecida com ela.

Muitos anos depois, Joyce abriu em São Paulo uma loja de bonecas como a que ganhou na infância. Na Preta Pretinha, há brinquedos de todas as cores, mas as bonecas negras são maioria.

Para Joyce, ser negra é maravilhoso. “Eu me amo, gosto de me olhar no espelho. Ser negra é força, coragem, sabedoria. É ter fé, é conquistar.” A Larissa, de 11 anos, acha que uma das coisas mais legais de ser negra é dar entrevistas. “Já fiz uma antes, e agora essa”, disse. “Ser negra para mim é ser uma pessoa muito forte, cheia de conquistas e amor para dar.”

Uma das coisas mais legais que já aconteceram à Barbara, de 11 anos, foi receber elogios sobre seu cabelo. “E a pior coisa foi me sentir excluída em algumas situações de pessoas brancas”, lembra.

“Em uma foto, se você é negra você se destaca mais que as outras pessoas porque você tem uma cor diferente, e às vezes é legal, às vezes não é. Aconteceu uma vez comigo e não gostei”, conta Maria Paula, 11 anos.

Maria Eduarda tem 13 anos e gosta muito de ser negra, mas sabe que há quem não compartilhe desse ponto de vista. “Como os racistas, que acham que nosso cabelo é feio”, explica.

“Tem argumentos horríveis que já falaram pra mim como ‘cabelo ruim’, ‘cabelo de bombril’, ‘cabelo duro’. Ser negra é ser seguida em todo lugar que você entra, se sentir inferior. Um segurança te seguir com medo de você roubar algo.”

Mas, mesmo com o mundo lá fora tão bruto, Maria Eduarda mantém a autoestima. “Minha pele é uma das coisas mais bonitas que existem. Tenho traços lindos que lembram minha cultura, e essa é uma marca que vou carregar até o final da vida”, fala.

Joyce, dona da Preta Pretinha, gosta de lembrar quando se candidatou a miss primavera na escola. Eram 29 meninas concorrendo, e só 3 delas eram negras – Joyce, sua irmã e uma terceira aluna.

“Eu estava muito segura. Ganhei e minha irmã ficou em terceiro lugar. Muitas famílias racistas não aceitaram e mesmo assim foi incrível”, lembra. “É importante você, criança negra, olhar esse cabelo maravilhoso e saber que podemos fazer vários tipos de penteado”, ensina. “É fundamental se gostar, se olhar no espelho, e se enxergar como uma pessoa linda, cheia de potencial.”

OUTROS OLHARES

TIKTOK VIRA A NOVA ‘CASA’ DE VÍDEOS E FOTOS MANIPULADOS, OS ‘DEEP FAKES’

Montagens são usadas como forma de diversão na rede social chinesa, mas o recurso também ajuda a propagar discursos falsos e teorias da conspiração

Os jacarés do TikTok não são o que parecem. Eles aparecem em postagens espalhadas pelo serviço de vídeo e são inofensivos, como grande parte da mídia na rede disso. Apesar disso, sua existência preocupa as pessoas que estudam a desinformação, porque as mesmas técnicas são aplicadas a estas postagens que semeiam a divisão política, propagam teorias da conspiração e ameaçam princípios da democracia. “Esse tipo de manipulação está se tornando cada vez mais difundido”, disse Henry Ajder, especialista em mídia manipulada e sintética.

O material editado ou sintetizado também aparece em outras plataformas online, como o Facebook. Mas especialistas disseram que é especialmente difícil fiscalizar o TikTok, que incentiva seus 1,6 bilhão de usuários a colocar sua própria marca no conteúdo de outra pessoa. Por lá realidade, sátira e mentira às vezes se misturam.

A disseminação de mídia manipulada é difícil de se quantificar, mas pesquisadores dizem que estão vendo mais exemplos surgirem à medida que as tecnologias que tornam isso possível ficam mais acessíveis. A preocupação é de que, com o tempo, as manipulações podem ficar mais difíceis de se identificar.

Nas últimas semanas, usuários do TikTok compartilharam uma captura de tela falsa da CNN, alegando que as mudanças climáticas são sazonais. Outro vídeo, de 2021, ressurgiu com o áudio alterado para que a vice-presidente Kamala Harris parecesse dizer que praticamente todas as pessoas hospitalizadas com covid-19 foram vacinadas (ela disse o contrário).

Os usuários do TikTok adotaram até as postagens alteradas mais absurdas, como as que retratavam o presidente Joe Biden cantando “Baby Shark” em vez do hino nacional ou que sugeriam que uma criança na Casa Branca disse um palavrão à primeira-dama, Jill Biden.

Os deep fakes, que geralmente são criados ao enxertar um rosto digital no corpo de outra pessoa, estão sendo usados como desculpa por aqueles que esperam desacreditar a realidade e se esquivar da responsabilidade. O consultor político Roger Stone afirmou no Telegram que as imagens verdadeiras que o mostravam pedindo violência antes das eleições de 2020, que a CNN transmitiu, eram “vídeos deep fake fraudulentos”.

Os advogados de pelo menos uma pessoa acusada no motim de 6 de janeiro no Capitólio dos EUA tentaram lançar dúvidas sobre as evidências em vídeo do dia citando a tecnologia de criação de deep fakes. “Quando entramos nesse tipo de mundo, podemos simplesmente descartar fatos inconvenientes”, disse Hany Farid, professor da Universidade de Berkeley, que faz parte do conselho de conteúdo do TikTok.

As empresas de tecnologia passaram anos testando novas ferramentas para detectar manipulações como deep fakes. Durante a temporada eleitoral de 2020, o TikTok, o Facebook, o Twitter e o YouTube prometeram remover ou rotular conteúdo manipulado nocivo.

Uma lei da Califórnia de 2019 tornou ilegal criar ou compartilhar vídeos enganosos de políticos a 60 dias de uma eleição.

O TikTok disse, em nota, que removeu vídeos que violavam suas políticas. Disse ainda proibir falsificações digitais “que enganam usuários ao distorcer a verdade dos eventos e causar danos significativos ao assunto do vídeo”. “O TikTok é um lugar para conteúdo autêntico e divertido; por isso proibimos e removemos desinformação, incluindo mídia sintética ou manipulada, projetada para enganar a comunidade”, disse Ben Rathe, porta-voz do TikTok.

GESTÃO E CARREIRA

IMPULSIVIDADE NÃO COMBINA COM TOMADA DE DECISÃO

Decidir é algo rotineiro no dia a dia de quem está à frente de uma empresa ou organização. É, também, uma das grandes responsabilidades e desafios dessas lideranças – seja para fechar um negócio, fazer uma parceria, contratar, demitir, ou resolver um grande problema. Ter a palavra final é o bônus e o ônus de quem conquista o poder de liderar. E, nesses momentos, é normal que haja estresse e dúvida, seja pela expectativa da consequência, ou pela preocupação com como as pessoas irão interpretar o que foi decidido e reagir a como foi anunciado.

Ser assertivo, justo e não perder o equilíbrio é um dilema, mas que é possível de ser superado com maturidade. São inúmeros os fatores a serem avaliados nessa hora, principalmente pelo fato de que a decisão do líder impacta na vida de todo um grupo. E é possível que nem toda a equipe consiga enxergar a situação da mesma forma de quem está decidindo por ela. De maneira geral, é importante levar alguns fatores em consideração. Como ser o mais cauteloso e preciso possível.

Além de saber controlar a impulsividade e deixar que a maturidade assuma o protagonismo. Manter o controle e decidir com cautela, por mais que não seja algo simples, é fundamental, principalmente em momentos delicados. Se necessário for, respire fundo mais do que uma vez, se afaste por um instante, ou até postergue sua decisão para o outro dia. Isso não é sinal de fraqueza, mas, sim, garantia de acerto. Todo e qualquer fator que não seja racional vai certamente afastar você da possibilidade de acertar na sua tomada de decisão.

Lembre-se de que decisões emocionais, na maioria das vezes, geram riscos maiores que decisões racionais. E que quanto menos impulsividade, maior a probabilidade de acerto. Por isso, tente ser o mais racional e prudente possível e esteja seguro na hora de decidir. Se estiver tranquilo nesse momento, sabendo que considerou todas as variáveis, vai conseguir ser assertivo e transmitir a mensagem da melhor forma, sem potencializar o problema.

ROBERTO VILELA – É consultor empresarial e mentor de negócios

www.orobertovilela.com.br

EU ACHO …

AINDA DÁ TEMPO? NEM OITO E NEM OITENTA…

“Há uma medida nas coisas; existem enfim limites precisos, além dos quais e antes dos quais o bem não pode subsistir.” (Horácio, Sátiras)

A relação entre aquilo que fazemos e o tempo de que dispomos é um fator chave para a sensação de realização. Há pessoas que encaram essa relação como uma troca do tempo dedicado a uma determinada atividade por uma remuneração. Essa é uma conduta legítima. Faz-se algo que é necessário ser feito  e recebe-se por ele. O questionamento é se esse é um modo compensador de se investir o tempo disponível, que é sempre o tempo de vida. A pessoa recebe por aquilo que faz, mas não se sente recompensada por ter feito, porque aquele fazer não a realiza.

Quando  a  pessoa  se  sente  gratificada  pelo  que  faz,  essa  lógica  se  inverte. Ela  se  sente  tão  realizada  que  o  tempo  não  é  gasto,  mas  investido  naquela atividade.   Alguns   exemplos   são   bem   ilustrativos.   O   empresário   Antônio Ermírio de Moraes (1928-2014) tinha o hábito de trabalhar doze horas por dia e só aos 73 anos deixou a presidência do conselho de administração do grupo que comandava. Conciliava a atividade empresarial com a gestão de entidades sem fins lucrativos e ainda encontrou tempo para escrever peças de teatro.

Outro  exemplo  é  José  Mindlin  (1914-2010),  que,  ao  retirar-se  da  carreira empresarial aos 82 anos, dedicou-se ainda mais ao mundo das artes. Presidiu a   Sociedade   de   Cultura   Artística   e   deu   continuidade   à   sua   atividade   de bibliófilo, exercida desde os 13 anos de idade. Aos 95 anos, tinha cerca de 40 mil  livros,  acervo  que  doou  para  o  que  viria  a  ser  a  Biblioteca  Brasiliana,  na Universidade de São Paulo (USP).

São exemplos de pessoas que dedicaram muitos anos àquilo que faziam e ainda cultivavam outras paixões e afazeres. Por isso são exemplos. O mais comum é deixar paixões e sonhos engavetados em razão das demandas do cotidiano.

“Ah, mas eu me sentiria realizado mesmo, se estudasse piano clássico.” Consegue fazer isso, conciliando com o tempo para cuidar do emprego, dos filhos? “Não.”

Diante desse quadro, pode-se pensar em uma alternativa. Em vez de estudar piano clássico, que tal contar com um pequeno teclado para se exercitar, tocar umas peças, de modo a realizar, ainda que de forma aproximada, aquilo que deseja? Se a resposta for “assim eu não me contento, comigo é oito ou oitenta”, vale levantar algumas reflexões.

Primeira, aonde leva essa postura intransigente de “ou realizo por completo ou nem quero saber”? Segunda questão: essa é mesmo uma demanda da sua alma ou apenas uma quimera? Pode ser aquela forma de autoengano em que se sonha com algo, mas pouco se faz para concretizá-lo, porque esse percurso é árduo. Exige esforço, dedicação, renúncias. E, no íntimo, não se está disposto a despender os recursos necessários para seguir nesse caminho. Não é o sonho que realiza a possibilidade.

Aproximar-se    de    alguma    maneira    daquilo    de    que    se    gosta    é    um movimento   que   tem   força   vital.   No   mínimo,   a   pessoa   terá   um   trânsito naquele universo que a apaixona.

Sonhar com as estrelas não significa necessariamente alcançá-las de modo concreto. Eu posso sonhar com as estrelas e, na impossibilidade de alcançá- las, posso escrever sobre elas, posso fazer uma música, posso ler livros sobre astronomia, posso desenhá-las. São variações, outras maneiras de estabelecer um acordo de “ainda dá” comigo mesmo.

Se as condições tornarem-se mais favoráveis, eu posso investir mais na direção daquilo de que gosto. Não preciso ser radical: “Ou faço integralmente ou  não faço”, tampouco ser intempestivo: “Vou  jogar tudo para o alto e seguir meu sonho”. É possível encontrar soluções intermediárias até que seja possível equacionar a situação.

A trajetória do escritor italiano Luciano de Crescenzo (1928-2019) é um exemplo de  condução inteligente para conciliar desejos e necessidades. Até formar-se em  engenharia, Crescenzo havia desempenhado várias atividades, entre elas a de  cronometrista de provas de atletismo na Olimpíada de Roma, em 1960. Depois de   graduado, tornou-se executivo em uma empresa de tecnologia por mais de vinte anos. Perto dos 50 anos de idade, ele lançou seu primeiro livro. A obra deu sinais de  que seria bem-sucedida, mas Crescenzo permaneceu na empresa. Até que uma  participação em um programa de televisão alavancou consideravelmente as vendas  de seu livro. A partir dessa sinalização, Crescenzo decidiu enveredar de vez pela carreira artística. Não só literária, pois esse napolitano também foi ator, diretor e  dramaturgo. Pelos caminhos na arte, ele viveu dos 50 até quase os 90 anos de idade,  quando faleceu, em julho de 2019. O último papel que interpretou foi em 2017, e publicou obras até o ano de sua morte.

Além da versatilidade em atividades do mundo artístico, Crescenzo é um exemplo de “ainda dá” por começar uma nova atividade próximo de completar 50 anos. Mas é também uma referência de condução de carreira. Só deixou o cargo de executivo quando teve sinais consistentes de que a carreira artística seria viável. Ele não tomou nenhuma decisão intempestiva. Conciliou as atividades durante um tempo e optou por uma delas quando os ventos lhe sopraram favoráveis.

Faz pouco tempo, a linha da vida era simbolicamente dividida nos intervalos de 20-40-60 anos. Até os 20, a pessoa se formava. Daí até os 40, trabalhava de maneira mais intensa, em geral, constituía família e patrimônio. Dos 40 aos 60 anos, já ia se preparando para o final da atividade profissional.

Afortunadamente, nós estamos estendendo o tempo do “ainda”. Do “ainda” várias coisas: “ainda tenho tempo”, “ainda posso aprender”, “ainda tenho ambição”, “ainda tenho capacidades”.

Claro que uma pessoa que se aposente tem a perspectiva de que, a partir desse momento, ela nada pode fazer – desde que tenha reunido condições financeiras para tal. Como eu, Cortella, costumo alertar, aposentadoria não é sinônimo de desocupação, é sinônimo de diminuição da obrigatoriedade. É poder escolher ocupar-se de coisas que não são obrigatórias.

Mas o que parece, enfim, algo libertador, para muitos se revela um tormento. Com frequência, pessoas que podem fazer o que quiserem se veem perdidas.

É um fenômeno especialmente notado em executivos, profissionais que passaram anos em grandes corporações, em que seus sobrenomes eram quase que substituídos pelo nome da empresa. Fulano da (nome da empresa), Beltrano da (nome da empresa). Virada a página, se veem sem as referências que os guiaram por décadas. “Agora o que vamos fazer da vida?” A ocasião merece um “ainda dá”.

Ainda dá para buscar outros projetos, para ir atrás de desenvolver aptidões, de lidar com desejos que ficaram negligenciados. Ainda dá para fazer um trabalho de voluntariado. Ainda dá para formar gente. Ainda dá para transmitir conhecimento. Ainda dá para empreender.

Em certo sentido, a noção do “ainda” até se sobrepõe ao “dá”.  Porque o “dá” está  vinculado ao resultado e o “ainda” atesta a nossa esperança. Nós somos movidos a  esperança. Como diz o escritor e poeta italiano Cesare Pavese (1908-1950): “A única  alegria no mundo é começar. É bom viver porque viver é começar sempre, a cada instante”.

Estamos mais longevos. Se há três, quatro décadas, uma pessoa por volta dos 65 anos já estava quase que preparando a despedida da vida, hoje, alguém nessa faixa etária está plenamente capaz de realizar coisas.

A própria ideia de realização aponta para aquilo que nos torna reais. O que nos torna mais do que uma subjetividade? O que nos leva a ser mais do que uma mera vontade? Aquilo que realizamos.

E essa sensação de realização parece ser bastante íntima da longevidade. Fazer por mais tempo aquilo que nos realiza é estender a experiência de uma vida gratificante.

Em 2012, eu, Jebaili, estava na cobertura pela revista Placar da entrega da Bola de Prata, prêmio concedido aos melhores jogadores do Campeonato Brasileiro de Futebol. Ao final do evento, já na rua, passei por Zé Roberto, que carregava o troféu recebido pelo desempenho como meia no Grêmio. “Parabéns, Zé!”, o cumprimentei meio que me despedindo. Ele agradeceu e puxou um papo. Estava visivelmente feliz. Dali a pouco, perguntei se ele estava cogitando uma aposentadoria, pois já circulavam rumores sobre essa possibilidade. Aos 38 anos, ele respondeu: “Algumas pessoas têm falado nisso, mas eu mesmo não me vejo parando”. O aspecto atlético de Zé Roberto sempre falou alto em sua carreira, mas, naquele rápido bate-papo, tive convicção de estar diante de alguém que se sentia realizado naquilo que fazia.

Ele só viria a pendurar as chuteiras cinco anos depois, aos 43 anos. Não sem antes ganhar mais uma Bola de Prata, em 2014, pelo Palmeiras. Detalhe: dessa vez, como lateral-esquerdo, posição que exige ainda mais da condição física. Aos 40 anos, ele ganhava seu terceiro troféu (dezoito anos após o primeiro, em 1996, como lateral da Portuguesa). Ainda deu tempo de Zé Roberto sagrar-se campeão brasileiro pelo Palmeiras em 2016 e, no ano seguinte, de tornar-se o jogador com mais idade a marcar um gol na Libertadores, aos 42 anos, 10 meses e 18 dias.

Exemplo similar no futebol feminino é o da volante Formiga, que, aos 42 anos em 2019, seguia em atividade, carregando um currículo com seis Olimpíadas (de 1996 a 2016) e sete Copas do Mundo (de 1995 a 2019).

Os exemplos de longevidade no esporte vão se acumulando com o passar dos anos, graças a fatores como avanços na ciência e as metodologias utilizadas na preparação. Mas nos aspectos mental e anímico, há que se considerar uma parcela da atitude de “ainda dá” desses atletas na extensão de suas carreiras.

Desde os Jogos Olímpicos de 1992, a média de idade dos esportistas vem crescendo a cada edição. Segundo dados do Comitê Olímpico Internacional, em Barcelona, a faixa etária média era de 25,02 anos. Seis edições depois, no Rio de Janeiro, em 2016, a média havia subido para 26,97 anos entre os participantes de todas as modalidades.

Mas esse fenômeno notado no esporte, que claramente depende do desempenho do corpo, também pode ser observado em outros campos. Como no das ciências, por exemplo.

Em 2019, o norte-americano John B. Goode-nough foi premiado com o Nobel de Química, aos 97 anos (ao lado do britânico M. Stanley Whittingham e do japonês Akira Yoshino). Tornou-se o vencedor mais idoso da história do prêmio. No ano anterior, o também norte-americano Arthur Ashkin havia sido agraciado com o Nobel de Física, aos 96 anos (ao lado do francês Gerárd Mourou e da canadense Donna Strickland). Quando do anúncio do Nobel a Goode-nough, os relatos eram de que ele continuava em plena atividade, sendo visto cotidianamente nos laboratórios de pesquisa da Universidade do Texas.

No campo da estética, o espanhol Pablo Picasso, um dos mais influentes artistas plásticos do século XX, produziu mais de XX mil obras e, de acordo com depoimentos de quem viveu próximo a ele, trabalhou intensamente até o fim de sua vida. Mesmo com a visão já deficiente, seguiu criando até os 91 anos – um exemplo da arte de viver com arte.

ESTAR BEM

PEELING DE MILHÕES

Peeling de fenol promete rejuvenescer o paciente em até 10 anos, mas exige cuidados importantes, além de restrições

Recentemente viralizou na internet um vídeo publicado por uma clínica de dermatologia de Caxias do Sul (RS), com mais de 17 milhões de visualizações no Tik Tok, que mostra o resultado e as etapas de um procedimento estético chamado peeling de fenol, que promete o rejuvenescimento facial, promovendo a renovação celular. O tratamento é realizado com a aplicação de ácidos sobre a pele, que agem causando uma descamação das camadas danificadas, em diferentes graus.

“É indicado para pessoas com fotoenvelhecimento avançado, manchas, rugas profundas e cicatrizes de acnes. Se bem aplicado, o benefício é a troca cutânea do local, integralmente, de uma forma regular, resultando em uma pele com o aspecto totalmente novo. Com 30 dias os resultados já estão bem interessantes e após 3 meses a 6 meses, a pele estará mais saudável e praticamente sem vermelhidão”, explica o cirurgião plástico Rodrigo Mona, que realiza este procedimento há 13 anos.

A dermatologista Katia Reys afirma que os resultados costumam ser surpreendentes. “Um único procedimento pode rejuvenescer a aparência do paciente em até 10 anos, recuperando sua autoestima e características que foram perdidas com o envelhecimento ao longo do tempo. No entanto, sua indicação depende de uma criteriosa avaliação médica e somente para pessoas previamente saudáveis, acima de 40, 50 anos”, diz.

RECUPERAÇÃO

De acordo com a dermatologista Katia Reys, o paciente necessita de uma série de cuidados associados ao procedimento. “O paciente deve fazer uso de medicamentos analgésicos potentes, antibióticos e antivirais, e receber um curativo oclusivo impermeável, que deve ser mantido por pelo menos 48 horas. Após ser retirado o curativo, outros cuidados são reestabelecidos, como o uso de compressas úmidas, antibiótico tópico, antissépticos suaves, entre outros”, destaca.

Katia afirma ainda que é importante que o paciente fique aproximadamente um mês sem sair de casa, tempo necessário para pele possa se refazer. “É formada uma crosta bem intensa no rosto, e depois que cai a pele apresenta vermelhidão, ficando bastante sensível. Por essa razão, é preciso evitar totalmente o sol por pelo menos cerca de 30 a 40 dias, complementa a dermatologista Joana Tebar Figueira.

PROCEDIMENTO SURGIU NA DÉCADA DE 60

Segundo Rodrigo Motta, apesar de parecer ser uma novidade, a técnica é antiga e existe desde a década de 60. No entanto, devido aos avanços na medicina estética e o surgimento de novas tecnologias, procedimentos menos invasivos conquistaram o seu espaço. Além disso, devido à necessidade de contratação de uma equipe médica especializada e de uma estrutura hospitalar “o valor do procedimento é bastante alto e pode chegara custar deR$30 mil a R$ 40 mil”, diz.

CUIDADOS SÃO IMPORTANTES

De acordo com o cirurgião plástico Rodrigo Motta, é um procedimento doloroso, por isso precisa ser feito sob sedação e monitorização cardíaca e sinais vitais, ambulatorialmente ou no centro cirúrgico, com preparo para urgência e emergência, com equipamentos específicos. “Se a penetração do ácido ocorrer numa concentração elevada em grandes áreas poderá desencadear arritmias importantes no paciente, podendo desestabilizá-lo hemodinamicamente”, diz.

Ele  explica ser fundamental ter um profissional qualificado em tratamentos de urgência e emergência, como um cardiologista e um anestesista junto ao  profissional que estará executando o peeling, para diminuir as chances de complicações clínicas imediatas ao procedimento que possam pôr em risco a vida do paciente. Já os riscos pós-procedimentos incluem manchas na pele, cicatrizes inestéticas, queimaduras oculares graves e retrações cutâneas não desejadas, entre outros.

PROFISSIONAL QUALIFICADO

Segundo o cirurgião plástico Rodrigo Motta, a escolha de um profissional capacitado com conhecimentos técnicos sobre o peeling e de condução do pós-peeling são fundamentais para um resultado impactante e com menos chances de resultados desfavoráveis.

Além disso, ele ressalta que o procedimento é contraindicado para pessoas que possuem problemas cardíacos, como arritmias,  insuficiência hepática e renal ou que estejam usando ou feito recentemente o tratamento com o Roacutan, e também indivíduos com tendência para cicatrizes queloidianas.

Outro fator importante é com relação à cor da pele do paciente. De acordo com a dermatologista Joana Tebar Figueira, devido ao risco de complicações, o peeling de fenol é indicado  apenas para pessoas de pele mais clara. “Pessoas com um fototipo de 3 (escala de Fitzpatrick) para cima é contraindicado, porque existe um risco muito grande de alteração da coloração”, afirma.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NO EXAGERO E NA DIETA

Casais juntos há mais de 1 ano dobram o risco de engordar

Viver em casal traz muitas alegrias. Lucia sabe bem disso. Ela leva uma vida tranquila, saindo com o parceiro aos fins de semana, jantando mais em casa e comendo duas vezes mais sushi do que nos tempos de solteira. Ela não reclama, mas espera o momento ideal para começar uma dieta ou pelo menos retomar alguns de seus hábitos de solteira. Lucia ganhou alguns quilos e aumentou o tamanho das roupas, mas prefere não colocar um número na balança. Seu parceiro, Antônio, acha que não engordou e está igual.

Se as coisas vão bem, a vida a dois é como uma pizza: engorda, não importa a hora que se coma. Alguns estudos até indicam que quanto maior a felicidade mais ganho de peso. Se as coisas derem errado, parece que podemos perder aqueles quilos extras para “voltar ao mercado”.

Especialistas dizem que estudar o ganho de peso dos casais é particularmente difícil. Por um lado, geralmente há dados insuficientes sobreo consumo de alimentos a dois – nos ensaios apenas um deles costuma participar. Também não é fácil para os pesquisadores coletar informações sobre os hábitos que cada um tinha antes do relacionamento. Por fim, com a convivência e o tempo costumam vir outros eventos, como uma mudança de bairro, um novo emprego, outros amigos ou uma vida mais sedentária. Difícil calcular qual de todos esses fatores é aquele decisivo para o ganho de peso.

Mas é possível chegar bem perto. Um dos primeiros estudos que associou a vida de casal ao ganho de peso foi publicado na revista Obesity. De acordo com os resultados, quanto mais tempo uma mulher passa em um relacionamento estável, mais quilos ela ganha. Para os homens, esse risco disparou nos dois primeiros anos de convivência e depois se estabilizou. Mas as mulheres alguns anos após começarem a viver junto já dobravam o risco de obesidade em comparação com aquelas que ainda eram solteiras ou namoravam alguém.

A endocrinologista Ana de Hollanda, coordenadora da área de Obesidade da Sociedade Espanhola de Endocrinologia e Nutrição, avalia:

“O estudo mostrou que pessoas que começaram um relacionamento tinham tendência a ganhar peso, especialmente se a coabitação durou mais de um ano. É provável que uma situação mais estável facilite o ganho de peso, pois não estão procurando um parceiro. Provavelmente, o aumento da responsabilidade nos compromissos conjugais atrelado ao aumento da carga de trabalho, sedentarismo e estresse também podem explicar essas mudanças no peso.”

Para os autores, é impossível apontar um único culpado. Em vez disso, eles indicaram uma série de mudanças na vida: horários e logística mais complicados que impossibilitavam dedicar tempo aos esportes ou a um estilo de vida mais ativo, mais refeições em restaurantes com amigos e mais tempo no sofá assistindo TV. Acima de todos esses fatores paira uma característica do ser humano: comer em boa companhia nos deixa eufóricos, então se estamos com alguém que come mais do que nós, provavelmente nos servimos porções maiores do que quando estamos sozinhos.

“Casal pede mais comida em casa”, confirma a nutricionista especialista em transtornos do comportamento alimentar e obesidade, Azahara Nieto. “E costuma pedir coisas que não são feitas em casa: pizza, hambúrguer, comida chinesa, sushi… tudo muito calórico”, acrescenta.

O nutricionista Pablo Zumaquero, que acabou de publicar o livro “Na segunda-feira já começo a dieta” explica por que morar junto é capaz de modificar os hábitos de alimentação.

“Diga-me com quem você mora e eu lhe direi como você come”, brinca. “O junk food é mais agradável e, se há um no casal que quer se cuidar e o outro não, o mais comum é que os maus hábitos vençam. Por outro lado, quando as pessoas vão morar juntas, as preocupações estéticas diminuem.”

Para a especialista, o descontrole começa pelo lanche.

“Pegue uma cerveja com batatas fritas como aperitivo ou assista a um filme da Netflix com sorvete e biscoitos.”

FELICIDADE ENGORDA

Em 2016, outro teste mostrou que quanto mais feliz um casal era, mais gordo ficava. Quem estava chateado ou prestes a sair de um relacionamento começou a lutar contra o excesso de peso, antes mesmo de pronunciar o clássico “precisamos conversar”. A pesquisa confirmou que casais que viviam juntos há mais de quatro anos dobravam o risco de excesso de peso em comparação com aqueles que não se sentiam muito à vontade com o relacionamento. Ao longo de quatro anos, os felizes ganharam em média quatro quilos.

“É um indicador de que as pessoas estão confortáveis e priorizam o bem-estar sobre questões estéticas e físicas. Os menos felizes já estão motivados a voltar para o mercado e atrair um novo parceiro em potencial, então investem novamente na academia e cuidam mais da alimentação”, explica a professora de Psicologia da Hofstra University, e coautora do estudo, Sarah Novak.

Em casais é comum haver boicote. É assim que os nutricionistas entrevistados chamam alguém que vai ao supermercado e compra tudo o que o outro tenta evitar comer, ou alguém que insiste que faça mais acompanhamentos, porque não gosta de verduras, por exemplo.

“Na minha experiência, os boicotadores geralmente são homens. As mulheres são mais empáticas e facilitadoras, e estão mais acostumadas a cuidar da alimentação; é mais difícil para eles se adaptarem”, diz Nieto.

SEDENTARISMO

Em suas consultas, Pablo Zumaquero vê um padrão se repetir: homens que comem mal e são ativos e mulheres que comem melhor, mas são sedentárias.

“Elas estão acostumadas a fechar a boca e a estar sempre de dieta. Os homens acham que, se estão indo à academia, não tem problema.”

Zumaquero costuma iniciar suas consultas com uma pergunta: O que seu parceiro acha de você vir aqui? Segundo ele, as mudanças devem ser acordadas entre os três –  médico e o casal.

“Tenho que saber se estou pisando em terreno hostil. É muito difícil um casal fazer dieta”, diz o nutricionista, que prefere não recomendar mudanças muito radicais para evitar rejeição. Ana de Hollanda afirma que quando um na família faz dieta e emagrece há um “contágio” para os demais.

“Há dados que comprovam. Se temos amigos que praticam esportes ou são obesos, é mais provável que também pratiquemos esportes ou sejamos obesos. Por isso, as intervenções para todo o grupo familiar podem ter um alcance maior do que as individuais.”

“O bom e o ruim se espalham e os hábitos são reeducados”, resume Nieto e alerta que nada será alcançado se as mudanças no estilo de vida não forem mantidas por mais de seis meses ou um ano.

OUTROS OLHARES

INTIMIDADE VIOLADA

A cada dois dias, um caso de foto ou vídeo de nudez feito sem consentimento chega à polícia

No início da tarde de 19 de fevereiro deste ano, Rosileide Rodrigues do Nascimento, de 54 anos, escolhia uma calça jeans para comprar em uma loja de um shopping na Zona Norte do Rio. Como filho, de 11 anos, entrou no provador com uma das peças e começou a experimentá-la. Ao se olhar no espelho, notou a mão de uma pessoa, com aparelho de celular em punho, fazendo uma gravação. Ela se tornava alvo de uma violação de privacidade que tem se tornado mais frequente. Assim como a dona de casa, a cada dois dias, uma pessoa tem uma foto ou vídeo, com cena de nudez, de ato sexual ou libidinoso, de caráter íntimo e privado, produzida sem sua autorização.

Levantamento feito nos registros de ocorrência da Polícia Civil mostra que, entre 1º de janeiro e 15 de outubro deste ano, 136 pessoas procuraram delegacias (67 na capital, 53 no interior e 16 na Baixada Fluminense) para denunciar que foram vítimas do que o Código Penal prevê no artigo 216-B. Desde 2018,o dispositivo estabelece que é crime produzir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, esse tipo de conteúdo sem o devido consentimento. Ao longo de todo o ano passado, tinham sido 194 casos.

“Nunca vou me esquecer do constrangimento e da vergonha que senti quando percebi que um homem me filmava ao trocar de roupa, do lado do meu filho. Fiquei péssima, ainda mais por pensar o que ele poderia fazer com esse material, inclusive divulgar nas redes sociais. Também sofro só de pensar na quantidade de vítimas que ele já pode ter feito ou que deve continuar fazendo”, desabafa Rosileide.

Há três semanas, a dentista Laíris Aguiar, de 25 anos, foi vítima do mesmo crime. Quando deixava a Praia de Ipanema, na Zona Sul, parou em um posto de gasolina da Avenida Borges de Medeiros, na Lagoa, para abastecer o carro. Antes de seguir com o marido e um casal de amigos para São João de Meriti, na Baixada, resolveu ir ao banheiro. Ao utilizar o vaso sanitário, viu que era filmada por um celular colocado em um vão na parede. Levado para 14ª DP (Leblon), um frentista do estabelecimento confessou ter colocado o aparelho no local.

“A pena prevista para esse tipo penal é baixa: detenção de seis meses a um ano, o que enquadra essa infração como de menor potencial ofensivo. Nestes casos, o autor assina um termo circunstanciado, e o inquérito passa a tramitar no Juizado Especial Criminal, que, em linhas gerais, busca, com rapidez e informalidade, a reparação do dano sofrido pela vítima, a transação penal, a suspensão condicional do processo e, em último caso, uma possível condenação’, explica a delegada Camila Lourenço, assistente da 14ª DP e responsável pelo flagrante.

Na mesma região, a estudante X., de 24 anos, procurou a 13ª DP (Ipanema) após terminar o namoro de quatro meses com um empresário, de 43 anos. Na delegacia, a jovem contou que, durante o relacionamento, o homem tinha comportamentos ciumentos, possessivos e fiscalizadores, controlando, inclusive, suas senhas do celular e de computador. Quando a jovem tentou se afastar, soube que o empresário tinha armazenado no telefone dele fotos íntimas e vídeos de sexo entre os dois feitos sem consentimento.

CRIMES INFORMÁTICOS

Em seu relatório de vida pregressa, o empresário, que acumula 15 anotações por crimes como dano, furto e constrangimento ilegal, ainda exibe registros por difamação, calúnia, injúria e lesão corporal contra outras mulheres. Em uma das ocorrências, feita na 16ª DP (Barra da Tijuca), em 9 de novembro de 2020, uma garota de programa, de 25 anos, afirma ter sido filmada com os seios desnudos em um motel da Estrada da Barra da Tijuca. Após agendar o serviço sexual por um site, ele teria se escondido atrás da porta do banheiro do quarto com o telefone celular.

“As vítimas dessa modalidade criminosa não devem ficar envergonhadas em denunciar os casos nas delegacias. Trata-se de uma séria violação à dignidade, à honra e à imagem da pessoa. Por isso, não pode ficar impune. A confecção do registro de ocorrência é necessária para o início das investigações. Impede ainda a prática reiterada, evitando novas vítimas. Entendemos que, além da produção dessas imagens sem o devido consentimento, há também o risco de divulgação delas na internet, representando um novo crime e, sem dúvidas, gera danos também irreparáveis”, diz o delegado Felipe Santoro, titular da 13ªDP, que indiciou o empresário pelo crime de registro não autorizado da intimidade sexual contra a estudante.

Ao explicar o outro crime da divulgação das fotos, o delegado se referiu à Lei 12.737, de 2012, que ficou conhecida como Lei Carolina Dickmann. Naquele ano, a atriz teve fotos íntimas que estavam em seu computador pessoal reproduzidas na internet por um homem que a chantageou. O caso tipificou os chamados crimes informáticos.

INSTRUMENTO DE AMEAÇAS

Em outro caso, também na Zona Sul do Rio, um servidor público, de 24 anos, registrou na 10ªDP (Botafogo) ter sido filmado enquanto tomava banho no vestiário de uma academia, na Rua Bambina. Já uma empresária, de 28, conta ter sido ser vítima desse crime por parte do ex- companheiro, com quem dividia, desde 2015, uma casa na Rocinha. Ao terminar o relacionamento, ela procurou a Delegacia de Atendimento a Mulher (Deam) do Centro para relatar que um amigo do empresário a procurou para contar que o homem havia feito imagens íntimas dela e as divulgaria para, segundo ele, “destruir sua reputação”.

“Fiquei bastante tempo do lado dessa pessoa, convivendo com uma rotina infernal de agressões, tentativas de homicídio, cárcere privado, além de chantagens emocionais. Demorei até decidir colocar um ponto final na relação. Mas, ainda assim, não estou tendo paz. Ele já me ameaçou diversas vezes, inclusive sobre os vídeos que fez sem o meu consentimento, alegando até que em alguns momentos das filmagens eu olho na direção da câmera”, conta a jovem.

Professor de Direito Penal da PUC-Rio, o advogado Sergio Chastinet explica que o artigo 216-B foi inserido no Código Penal após a publicação da Lei 13.772, que entrou em vigor em 19 de dezembro de 2018. Naquela ocasião, um casal alugou um apartamento no litoral de São Paulo e, após se instalar, percebeu uma pequena luz atrás do espelho em um dos quartos. Ao vistoriarem o local, eles encontraram uma câmera instalada e, logo em seguida, receberam uma ligação do proprietário do imóvel, indicando que as imagens estavam sendo transmitidas em tempo real.

“O sentido geral dessa reforma na disciplina dos crimes sexuais é adequá-la à nova realidade social, com acesso facilitado à rede de computadores e divulgação de imagens. Anteriormente, havia a possibilidade de punir essas condutas se configurassem crimes contra a honra ou pedofilia, mas não havia a incriminação direta à exposição não autorizada da intimidade sexual de uma pessoa maior de 18 anos. Agora, quem for vítima deste tipo de conduta, atualmente muito utilizada como instrumento de vingança entre ex-namorados rancorosos, poderá reportá-la às autoridades e dar início a uma investigação criminal”, afirma o advogado.

GESTÃO E CARREIRA

FUNCIONÁRIOS NÃO QUEREM SER LÍDERES: O QUE FAZER?

Pelo senso comum, podemos achar que todo e qualquer funcionário tenha como o principal objetivo tornar-se líder um dia. Seja pelo reconhecimento de seus superiores, ou pelo aumento na remuneração, mas a realidade pode estar bem longe disso. Foi o que identificou um estudo da consultoria Robert Half em parceria com o Insper.

A conclusão partiu das respostas de 587 profissionais de diferentes empresas, no ano passado, e que indicou que há duas grandes preocupações por parte deles: a falta de competências técnicas para se tornar líder, ou o receio de não conseguir equilibrar bem a vida pessoal e profissional.

Apesar dessa pesquisa ser recente, o movimento não acontece de hoje. A revista Harvard Business Review, em 2014, divulgou resultados bastante semelhantes, com uma pesquisa nos Estados Unidos, que mostrou que de mais de 3 mil profissionais – em cargos diversos – 34% almejavam cargos de liderança, e apenas 7% gostariam de alcançar uma posição C-Level.

No entanto, é preciso lembrar que, atualmente, passamos pelo contexto da pandemia e as relações de trabalho foram bastante afetadas, sobretudo pelo home office em meio ao isolamento social e inúmeras outras inseguranças que a Covid-19 impôs. Tanto é que, nesse ano, a OMS passou a considerar a Síndrome de Burnout como uma doença ocupacional. Às empresas, cabe o papel de entender o momento de seus colaboradores e, mais do que isso, oferecer a eles ferramentas para lidar com as questões que mais lhe afligem.

Muitas delas, inclusive multinacionais, já entendem o coaching como um importante suporte nesse momento e, por isso, implementam programas para líderes promovidos à primeira gestão, ou seja, profissionais que deixam de atuar no segmento operacional e precisam adotar um olhar mais estratégico, além do desafio de gerenciar pessoas que, em alguns casos, é algo distante da realidade desses colaboradores.

Nessa transição de cadeira, o coaching vai atuar principalmente como facilitador do autoconhecimento e buscar a entender o que está por trás desse desejo de não ser líder, ou quais as competências que precisarão ser desenvolvidas para atuar nessa nova função. O que vai definir o sucesso dessa transição, sem dúvida, é a concordância de ambos os lados, alinhamento de expectativas e uma estrutura sólida.

Isso para que o colaborador se sinta seguro nessas movimentações, seja para dar  passos em  direção à liderança, ou até mesmo no desenvolvimento da carreira em Y, que consiste na ampliação de opções – promoção para a gestão, ou aprofundamento de habilidades técnicas do colaborador – o que permite autonomia para que o funcionário defina os próximos passos na trajetória profissional e, em contrapartida, desempenhe o trabalho com mais eficiência, ao entregar ainda mais resultados para a instituição.

CÂNDIDA SEMENSATO – É coach executiva e de carreira e atual presidente da International Coaching Federation Capítulo Brasil (ICF Brasil).

EU ACHO …

HOMENS TAMBÉM PODEM SER FELIZES SEM SEXO

Por que tantos homens e mulheres estão se libertando do modelo machista de sexualidade?

Na semana passada, o ator Stepan Nercessian, de 68 anos, revelou que não faz mais sexo com a esposa, de 61, com quem é casado há 35 anos:

“Dá muito trabalho, tem que tomar banho, se preparar. Parei com isso já faz tempo. Um quer, outro não quer, dá briga… Um dos motivos que o casal se separa é por não querer mais fazer sexo. Estou nessa fase há muito tempo. Não tem mais.”

Sei que vou provocar algum desconforto ao contar que boa parte das mulheres que tenho pesquisado – e também dos homens – não tem tanto prazer e interesse no sexo. Muitos me revelaram que o sexo deixou de ser uma prioridade em seus casamentos e que descobriram novos prazeres na maturidade. Mais velhos, eles se sentem mais livres para escolher como usar o tempo com atividades e projetos que consideram mais significativos e gratificantes.

Há uma inversão interessante, como mostrei no livro “A Invenção de uma Bela Velhice”. Para alguns homens, um novo prazer é ser “dono de casa”, principalmente para aqueles que passaram grande parte da vida mergulhados no mundo do trabalho. Quando se aposentam, querem ter mais tempo com a esposa, filhos e netos. Desejam desfrutar do mundo da família e da casa de que não puderam usufruir antes, pois se dedicaram quase que exclusivamente ao trabalho.

Já as mulheres querem ter mais tempo para sair com as amigas, fazer cursos, ir ao cinema e teatro, viajar, passear, rir e conversar. Querem ter mais tempo para cuidar de si mesmas, pois passaram a vida inteira cuidando dos outros. Preferem saborear o mundo da liberdade e da amizade que não puderam aproveitar quando mais jovens, já que se dedicaram prioritariamente ao mundo da família e da casa.

Para uma arquiteta de 56 anos, a aposentadoria sexual veio junto com a menopausa: “Eu tive uma vida sexual gostosa até a menopausa. Mas, infelizmente, o tesão acabou. Amo meu marido, temos um casamento maravilhoso, mas não tenho mais vontade de transar com ninguém, nem com ele, nem com o Chico Buarque, nem com o George Clooney. Sou cobrada pelas minhas amigas por ter me aposentado do sexo. Elas vivem me atormentando dizendo que meu marido vai me trair com alguma periguete, mas não sabem que ele também se aposentou do sexo. Como disse minha musa Rita Lee: “velho não quer trepar!”.

“Homens também podem ser felizes sem sexo”, declarou enfaticamente seu marido, um professor de 69 anos:

“Até a menopausa da minha mulher, nós transávamos duas ou três vezes por semana. Quando a menopausa chegou, nos aposentamos do sexo. Somos muito felizes juntos, somos amigos e companheiros, cuidamos um do outro, respeitamos o tempo e o espaço de cada um, namoramos, dançamos, vemos filmes e séries, viajamos, caminhamos na areia da praia de mãos dadas, fazemos massagem, brincamos e damos muita risada. A verdade é que o sexo não faz tanta falta. Porque não podemos gozar com os outros prazeres e alegrias da vida?”

“O machismo é uma prisão massacrante também para os homens”, afirmou:

“Os preconceitos e as pressões sociais são tão massacrantes que os homens não assumem que se aposentaram do sexo com medo de não corresponderem ao modelo machista de sexualidade. Somos obrigados a ter uma performance sexual potente e frequente, inclusive em momentos de doença, crise, depressão, exaustão e estresse. Diferentemente das mulheres, nós sofremos calados por vergonha e medo do estigma de não ser um ‘homem de verdade’. Um homem de verdade não pode chorar, não pode brochar e não pode se aposentar do sexo. Daí enche a cara, toma Viagra e antidepressivo, porque o homem de verdade não existe, é só um mito machista.”

Apesar de reconhecer alguns avanços dos comportamentos masculinos, o professor admitiu que o machismo não morreu:

“Meus amigos me xingam de velho brocha, cagão, corno, viado e boiola. Eles não entendem por que não tomo Viagra. Estão tão brochas quanto eu, mas são machistas e têm vergonha de assumir. Não tenho vergonha de admitir: homens também podem ser felizes sem sexo. É uma grande libertação.”

Parece que agora até os homens estão perdendo a vergonha de assumir que “velho não quer trepar”. Ou, ao menos, que nem todos querem. É (ou não é) uma grande libertação?

MIRIAN GOLDENBERG – É antropóloga e professora da universidade Federal do rio de Janeiro, é autora de ‘a invenção de uma bela velhice’

ESTAR BEM

MENOS É MAIS

Chamado de naturalização facial, novo conjunto de procedimentos estéticos promete resultados mais suaves do que os da harmonização facial

Foi na altura dos 30 anos que a atriz Monique Alfradique, hoje com 36, começou a cuidar melhor da pele, aderiu à rotina diária de proteção solar, lançou mão de um bom hidratante e deu chance ao uso recorrente da vitamina C. Aos 34, fez o primeiro procedimento estético, com o chamado laser “fotona”, sugerido para turbinar a produção de colágeno. Nos últimos meses, Monique foi além e apostou em uma nova técnica de tratamento global do rosto: a naturalização. “Decidi fazer para melhorara textura da face e a flacidez. Foi bem tranquilo e de imediato já notei resultados”, diz a atriz. “Venho de uma família de mulheres muito vaidosas. Minha avó passa maquiagem todos os dias, mas não dorme sem seu skincare. Então cresci vendo as duas (ela e minha mãe) cuidarem bastante da pele”, justifica.

A técnica, comenta o dermatologista responsável pelos cuidados do rosto da atriz, Alessandro Alarcão, consiste em realizar procedimentos em série na face: lasers, ultrassom, radiofrequência, fios de sustentação (em alguns casos) e aplicação de ácido hialurônico e toxina botulínica. A modalidade recém- lançada – dizem seus criadores, entre os quais Alarcão faz parte – é uma resposta à harmonização facial: nome que se dá aos preenchimentos que exterminam linhas de expressão e rugas, mas também criam novas proporções ao rosto, promovendo traços mais brutos sobretudo no nariz, na mandíbula, nas bochechas e nos lábios.

“A naturalização consiste em associações de tratamentos e tecnologias, a ideia é estimular a produção de colágeno em combinação com injetáveis (utilizados na harmonização facial), caso do ácido hialurônico. O foco está em fortalecer os ligamentos da face. Com a idade, alguns ligamentos ficam frouxos, o que ocasiona a flacidez”, afirma Alarcão. “A ideia é reestruturar a face por meio desses ligamentos, com ácido hialurônico. Usamos 2 mililitros de produto, enquanto a harmonização pode chegar a usar 15”, explica o especialista, que atende em Goiânia, SP e na clínica de Juliana Neiva, no Rio.

A modalidade deve ser feita por dermatologistas ou cirurgiões plásticos, justamente pela união de métodos de intervenções usados de maneira sistemática. Em oposição aos preenchimentos da harmonização que usam somente aplicação de toxinas, e normalmente são realizados por dentistas, biomédicos e outros profissionais.

A meta da naturalização é conter os efeitos do envelhecimento na face, mas sem tentar mudar proporções de nariz, boca e bochechas. “Um exemplo interessante é um lábio que tem efeitos da flacidez. Se há o preenchimento dessa boca flácida, há a projeção do tecido, o que cria uma aparência artificial, de bico. Outro tratamento possível, e melhor, é estimular os ligamentos ao redor da boca para que voltem a uma posição mais projetada para fora” diz Alarcão. Nesse caso, os fluídos preenchedores serão utilizados para refinamento do visual final, como arremate. O procedimento dura por volta de um ano — prazo em que se orienta repetir as aplicações.

A nova modalidade de procedimento surge nos braços de uma tendência que varre as redes sociais, a maquiagem e o mundo da estética: a busca por naturalidade. Há, por exemplo, o lançamento do “BeReal”, uma rede social, cujo aplicativo foi baixado mais de 53 milhões de vezes em todo o mundo. A sacada no programa de celular é que não há filtros para alterar os aspectos da imagem e da tez.

Na mesma toada, cresce nos consultórios o número de pessoas interessadas em retirar preenchimentos anteriores, com a intenção de conseguir um rosto mais próximo ao que era naturalmente.

Além de buscar um procedimento estético nos casos indicados, porém, é importante ressaltar que a busca por uma pele com mais saúde passa também pelo uso constante de filtro solar, alimentação balanceada e produtos que não agridam a chamada microbiota – camada de microrganismos responsáveis pela proteção da superfície da pele.

“Na naturalização ainda há a paralisia das rugas de expressão, mas com cautela para a pessoa não ficar com o aspecto de rosto congelado. Funciona para quem procura o rejuvenescimento”, diz o dermatologista Carlos Roberto Antônio, colega de Alarcão, co-responsável pelo desenvolvimento da nova modalidade, apresentada para 120 dermatologistas e cirurgiões plásticos em São Paulo, na semana passada.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FOME FORA DE HORA TRAZ PREJUÍZOS À SAÚDE

Pessoas que “assaltam a geladeira” à noite podem sofrer com a Síndrome do Comer Noturno

Pessoas que costumam sentir fome mesmo depois do jantar e querem devorar de tudo um pouco podem sofrer com uma patologia chamada de Síndrome do Comer Noturno (SCN), um distúrbio que está descrito junto a outros transtornos alimentares no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Psiquiátrica Americana.

Segundo a nutricionista Fernanda Uliana, nessa síndrome há um atraso na ingestão alimentar conforme o ciclo circadiano (conhecido como relógio biológico), com ausência de fome pela manhã e alto consumo de alimentos após o jantar. Neste caso, o consumo noturno é maior do que 25% da ingestão de calorias totais diárias, acordando ou não na madrugada para se alimentar, pelo menos duas vezes na semana. Outros sintomas da síndrome são comportamentos alimentares alterados, como a alimentação emocional ou dependência alimentar, além de distúrbios do humor e do sono.

“A pessoa tem consciência das ingestões noturnas e isso lhe causa sofrimento significativo (sentimento de culpa, vergonha e/ou medo do ganho de peso), e/ou prejuízo funcional (sonolência diurna, cansaço) por pelo menos três meses”, diz Fernanda.

A síndrome normalmente acomete pessoas com sobrepeso ou obesidade, alto estresse, que podem ter humor deprimido (ou piora do humor com a progressão do dia), baixa autoestima, e afeta igualmente homens e mulheres, de todas as etnias e faixas etárias. “Estresse psicológico, traumas, predisposição genética, baixo nível de serotonina, níveis elevados de glicemia e insulina são alguns fatores de risco para desenvolver a Síndrome do Comer Noturno”, aponta.

De acordo com o endocrinologista Gilberto Neves, o quadro deve ser diferenciado dos comedores noturnos compulsivos, em que as quantidades ingeridas de comida são muito grandes, enquanto os portadores da Síndrome da Fome Noturna não costumam ingerir mais de 280 calorias em cada despertar noturno. Também é diferente do distúrbio alimentar relacionado ao sono e ao sonambulismo, caracterizado pela ingestão de alimentos não apetitosos e falta de memória das refeições noturnas na manhã seguinte.

No caso da Síndrome da Fome Noturna, as refeições são totalmente conscientes, e o paciente se lembra perfeitamente delas na manhã seguinte.

Segundo o médico, a Síndrome da Fome Noturna afeta de 1,5% até 5,7% da população geral em diversos estudos, que também mostram relação dos afetados pela síndrome com humor deprimido. O quadro se relaciona com obesidade, embora muitos pacientes não apresentassem excesso de peso antes da instalação. “A causa mais aceita pela comunidade científica é a alteração no ritmo de libertação dos neurotransmissores nas diversas regiões cerebrais. É preciso procurar ajuda médica assim que os primeiros sintomas forem percebidos para tratamento da depressão, prevenção da obesidade e de todos os efeitos deletérios que os distúrbios do sono provocam”, alerta.

TER UMA ROTINA ALIMENTAR É FUNDAMENTAL

Segundo o endocrinologista Gilberto Neves, o tratamento mais efetivo é feito com serotoninérgicos. “A serotonina é um neurotransmissor altamente relacionado com mecanismos de fome e saciedade, embora estudos experimentais tenham testado drogas ansiolíticas e anticonvulsivantes para o tratamento da síndrome”, afirma.

A nutricionista Fernanda Uliana explica que para driblar a fome noturna, primeiramente é necessário alinhar o ritmo circadiano, uma espécie de  relógio  biológico. Ela ressalta que manter uma alimentação saudável e planejada durante o dia, sem pular refeições, e que atenda às necessidades nutricionais, ajuda a diminuir o “comer compensatório” à noite, quando normalmente as pessoas desaceleram da rotina.

“Quando fazemos refeições tarde da noite (quando o corpo deveria descansar), ou não temos regularidade nos horários para as refeições, ou trocamos o dia pela noite (com menor duração e qualidade do sono), vamos gradativamente desregulando o nosso ritmo circadiano, e descontrolando os hormônios de fome e saciedade, entre outras alterações metabólicas. Portanto, ter uma rotina com horários para se alimentar e dormir, é o primeiro passo para regulara fome”, orienta.

EVITE GATILHOS

Conforme esclarece a nutnc1onista Fernanda Uliana, longos períodos em jejum podem despertar a compulsão alimentar em pessoas com pré-disposição ao distúrbio. “É importante observar o comportamento do seu corpo com a prática do jejum, que é muito comum atualmente. Pessoas que possuem transtornos alimentares como a Síndrome do Comer Noturno (SCN) ou Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica(TCAP) têm mais dificuldade para controlar a ingestão de alimentos após longas horas de jejum ou restrição calórica. Evitar o jejum prolongado ou restrição calórica severa pode diminuir o comer noturno”, diz.

Para a nutricionista Alice Regatieri, muitas pessoas deixam de tomar um café da manhã completo alegando falta de tempo ou de fome, no entanto, essa refeição ajuda na manutenção do peso ideal e estabelece o equilíbrio do apetite ao longo do dia, permitindo uma dieta balanceada. “Pessoas que ‘pulam’ o café da manhã ou fazem dietas muito restritivas, tendem a consumir maior quantidade de alimentos durante o período noturno, pois o corpo necessita de nutrientes para recuperação do organismo. Por não saber identificar essa necessidade, o indivíduo consome alimentos calóricos a fim de suprir essa falta energética”, acrescenta.

Com relação ao jantar, ele deve ser uma refeição leve para não atrapalhar o sono, e que promova saciedade para evitar os ” beliscos” logo depois ou até mesmo de madrugada “Alimentos ricos em proteína e fibras são indicados, como carnes brancas, ovos, queijos, leguminosas (como opção de proteína para os veganos), verduras e legumes crus ou cozidos, raízes ou cereais integrais. Grande volume de alimentos, carne vermelha, frituras, alimentos gordurosos ou muito condimentados podem levar mais tempo para serem digeridos e prejudicar o sono, portanto, devem ser evitados”, alerta Fernanda Uliana.

CAUSAS

De acordo com a psicóloga Silmara Batista Brizoti, as causas da Síndrome do Comer Noturno são pouco conhecidas, mas podem estar relacionadas a diversos fatores como inconsistência do sono, desajustes hormonais, privação de uma alimentação equilibrada e pré-disposição genética, mas se reconhece que as causas mais frequentes são o estresse, a ansiedade e a relação simbólica estabelecida culturalmente com a comida

“Vimos ao longo dos tempos, a comida ser associada à afetividade. Deste modo, em momentos de angústias ou ansiedades, se busca o acalanto nos alimentos, como se o que fosse sendo ingerido, pudesse preencher o vazio angustiante sentido, daí o comer compulsivo ocorre como busca de aplacar a dor emocional mas que na maioria das vezes, o indivíduo não se dá conta deste funcionamento, tão pouco sabe como lidar com tal dinâmica”, destaca Silmara.

GANHO DE PESO E COMPROMETIMENTO PSICOLÓGICO SÃO CONSEQUÊNCIAS

A Síndrome do Comer Noturno pode levar ao ganho de peso, com desenvolvimento ou agravamento de diabetes, hipertensão e outros problemas relacionados ao excesso de peso e má alimentação, além, claro, do comprometimento psicológico. “É importante que a pessoa com essa síndrome, ou suspeita da mesma, tenha acompanhamento psiquiátrico para avaliar a presença e gravidade da síndrome, monitorar o uso de medicamentos se for necessário, além do acompanhamento nutricional e psicológico. Outros profissionais podem contribuir no tratamento, como educador físico e terapeutas, “destaca a nutricionista Fernanda Uliana.

OUTROS OLHARES

TRATAR OBESIDADE ESBARRA EM ALTO CUSTO E PRECONCEITO

Brasil não tem nenhum medicamento contra obesidade oferecido pelo SUS

Novos medicamentos para tratar a obesidade prometem mais efetividade e segurança, mas esbarram em entraves como a falta de acesso devido aos altos preços, a desconfiança e mitos como o de que perder peso é só uma questão de força de vontade.

Ao mesmo tempo, há uma unanimidade de que esses tratamentos podem funcionar do ponto de vista individual, mas não resolvem o problema da crescente obesidade populacional, que precisa ser enfrentada com mudanças comportamentais e políticas públicas de saúde.

O assunto tem sido discutido em várias mesas na principal conferência internacional sobre obesidade, a Obesity Week, que terminou sexta (4) em San Diego (Califórnia).

Enquanto nos Estados Unidos, diretrizes médicas como as da Sociedade Americana de Gastroenterologia recomendam quatro diferentes medicamentos para tratamento da obesidade (semaglutida, liraglutida, fentermina-topiramato de liberação prolongada e naltrexona-bupropiona), no Brasil não há nenhuma substância disponível na rede pública de saúde.

O protocolo de tratamento da obesidade no país sai da prescrição de dietas para a cirurgia bariátrica, sem passar pelos medicamentos. Atualmente, a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias) avalia a incorporação da liraglutida no SUS.

A substância está aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) desde 2016. Já semaglutida tem aval para tratamento de diabetes e aguarda sinal verde como terapia para a obesidade.

“Quando eu olho os bons resultados dessas novas substâncias, sei que vai ajudar os obesos a perder peso, reduzir comorbidades, melhorar qualidade de vida, eu só fico pensando: e os nossos pacientes? É sempre um dilema essa questão do acesso”, diz a endocrinologista Cíntia Cecato, presidente da Abeso (Associação Brasileira de Estudo sobre a Obesidade e Síndrome Metabólica).

Serviços como os do ambulatório de obesidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, onde Cecato atua, são exceções. “É uma ilha no meio do país. Lá temos os medicamentos para tratar obesidade, comprados pelo hospital.” A discussão sobre acesso ganhou força após a aprovação da semaglutida (também conhecida pela marca Wegovy, da Novo Nordisk), pela agência reguladora americana (FDA) em 2021.

O medicamento tem um preço de tabela nos Estados Unidos de US$ 1.349,02 (cerca de R$ 6.000) por mês e pode provocar uma perda de peso de 15% a 17% em pessoas obesas. A substância tornou-se popular nas redes sociais no mês passado, após o bilionário Elon Musk atribuir o seu emagrecimento a ela.

Há outras drogas promissoras em estudo, como a tirzepatide, da Elli Lilly, que prometem resultados iguais ou até superiores aos da semaglutida, mas, segundo especialistas, quando chegar ao mercado, terá a mesma faixa de preço da concorrente.

Segundo Simone Tcherniakovsky, diretora de assuntos corporativos e de sustentabilidade da Novo Nordisk Brasil, a discussão de acesso é global porque as políticas de enfrentamento da obesidade não têm sido frutíferas. “Só alguns poucos países estão conseguindo deter o avanço”, diz.

Ela afirma que no Brasil há alguns planos de saúde que já subsidiam medicamentos contra a obesidade para seus beneficiários porque entendem que essas pessoas têm mais comorbidades, internam mais e vão mais ao médico, condições que aumentam os custos.

No caso de uma eventual incorporação no SUS, Tcherniakovsky diz que sempre há uma grande negociação, o que leva à queda dos preços. Além disso, com a oferta de outras medicações e um ambiente mais competitivo, os preços também tendem a cair mais. Para o endocrinologista Dan Bessesen, professor da Universidade do Colorado e presidente da Obesity Week, além do preço, há outros motivos que emperram a prescrição dessas novas drogas, como a desconfiança que muitos médicos ainda têm em relação aos emagrecedores.

Ele afirma que até a década passada não havia medicamentos efetivos para obesidade, e que os anorexígenos que estavam no mercado produziam perdas de peso modestas e, alguns casos, graves efeitos colaterais, que levaram alguns serem retirados do mercado.

“Isso criou um senso comum de que as medicações para o emagrecimento não são seguras e acabou afetando a percepção sobre outras drogas que não tinham os mesmos problemas.”

Porém, segundo ele, o mundo vive uma nova era de tratamento da obesidade, com muitos medicamentos novos a caminho que vão promover mais perda de peso e redução do risco cardiovascular.

Essa nova classe de drogas são chamadas de incretinas, que são hormônios naturais que retardam o esvaziamento do estômago, regulam a insulina e diminuem o apetite. Os efeitos colaterais incluem náuseas, vômitos e diarreia, que costumam ser bem tolerados.

Para Bessesen, é preciso educar a sociedade para o fato de que a obesidade é uma doença crônica e que precisa ser tratada de forma adequada, com medicamentos acessíveis, combinados com mudança de estilo de vida.  

“A gente não trata diabetes ou hipertensão só com mudança de estilo de vida. Na obesidade acontece o mesmo. Os medicamentos são necessários e muitas pessoas vão ter que tomar para o resto da vida. Eu não tomo meu remédio da pressão ou da diabetes por uma semana e paro de tomar quando estão controladas.”

Para Cíntia Cecato, há outros desafios, como o reconhecimento da obesidade como uma doença crônica e que pode demandar tratamento contínuo. “Aspessoas acham que vão fazer o tratamento e podem parar [o medicamento]. A medicação auxilia na perda de peso e na manutenção a longo prazo.”

Porém, há controvérsias sobre esse conceito. Na opinião do cardiologista Luís Correia, diretor do centro de medicina da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, condições como hipertensão, dislipidemia e obesidade não são doenças, mas fatores de risco.

A diferença, segundo ele, é que a hipertensão e a dislipidemia não são modificáveis com mudança de hábitos de vida e, por isso, demandam tratamento crônico.

GESTÃO E CARREIRA

ECONOMIA 4.0 E OS NOVOS DESAFIOS PARA AS LIDERANÇAS NAS EMPRESAS

A Economia 4.0 traz novos processos e fluxos de trabalho, Utilizando a tecnologia como principal ferramenta.                                   

Com ela, vêm os desafios da transformação digital, da abertura para a inovação, do trabalho remoto, da atração e retenção de talentos. Como sobreviver e sair mais forte dessas transformações? Alguns exemplos de como a tecnologia mudou ferramentas já estabelecidas e fez com que o mercado tivesse que se adaptar são as criptomoedas, o metaverso, a inteligência artificial e até os novos aplicativos de streaming.

O avanço exponencial das empresas de tecnologia e sua força no mercado demonstram a clara necessidade que as empresas têm de se adaptar às novas tendências. O uso dessas novas tecnologias visa à redução de custos operac ionais e facilitar o acesso de consumidores e clientes ao serviço prestado pela empresa.

Com a inclusão dessas novas metodologias, outro assunto que vem à tona é a aplicação das metodologias ágeis, antes usadas apenas nos setores de tecnologia e inovação e hoje presentes em atividades mais tradicionais, como a advocacia.

Importante mencionar que, com o avanço da automação de serviços que antes eram manuais, o talento acaba sendo mais valorizado. Logo, não é mais preciso saber de tudo, mas, sim, entender como utilizar aquela ferramenta de automação de maneira correta.

Ao contrário do senso comum, de que a automação de processos acabaria extinguindo diversos empregos, o que se verifica é o movimento contrário, o aumento de vagas, justamente para profissionais capacitados nas áreas de tecnologia. Um grande exemplo são os profissionais voltados diretamente para o desenvolvimento e análise de dados internos, que buscam dentro da rotina de uma empresa a melhor forma de automatizar um serviço. A tecnologia não deve ser vista como substituta de um colaborador, mas como instrumento potencializador, valorizando o profissional pela atividade desenvolvida de forma conjunta, já que o uso das novas ferramentas e automações vem para facilitar o trabalho. Inclusive, tem o objetivo de fazer com que o funcionário utilize o tempo de trabalho de forma mais ágil.

Pesquisa feita pelo Portal da Indústria mostrou que 21,8% das empresas usarão algum método de tecnologia com o objetivo de automatizar seus processos internos até 2027, principalmente para melhorar a gestão da produção e dos negócios, ampliar o relacionamento com clientes e fornecedores e até mesmo no desenvolvimento de produtos.

Um grande desafio para o empresário é se preocupar justamente com a adaptabilidade de seu negócio para o futuro, devendo não somente investir nas ferra- mentas, mas também na capacitação de seu colaborador, para que a equipe possa gerir essas ferramentas de forma bem-sucedida, utilizando e potencializando os talentos que já existem dentro da empresa.

Ou seja, para acessar a economia 4.0, a empresa deve ter líderes dispostos a fazer adequações que visam o crescimento da empresa, à adequação ao mercado e à utilização das novas tecnologias. Será preciso investir nos colaboradores e talentos, para que não vejam essas ferramentas como substituição de seu trabalho.

Além de tudo, investir em capacitação interna para que a tecnologia seja grande aliada no trabalho.

HELOÍSA CAROLINE SEBOLD DA SILVA – É advogada no Rücker Curi Advocacia e Consultoria Jurídica.

EU ACHO …

O GOLPE TÁ AÍ…

Os celulares multiplicaram a chance de golpes. São de cada tipo: falsas pirâmides, ofertas de criptomoedas, oferecimento de serviços, falsos sequestros de familiares e assim por diante. Nossos sentimentos são sempre os mesmos: quando analisamos o golpe em setores que nunca nos enganariam, ficamos desolados com a ingenuidade alheia; quando se trata de algo que já fizemos ou que chega ao nosso universo de valores, somos compreensivos. Nossa empatia é narcísica, em geral.

Critiquei meu pai que quase caiu, lá por 2008, em um golpe de falso sequestro meu. “Como, pai, você, advogado, acostumado a analisar estelionatos, pode ter acreditado em uma história tão estapafúrdia?”

Ele argumentou comigo que o risco a um filho cegava quaisquer prudências e acionava um modo automático de defesa. O suposto grito de um filho apagava o título de advogado, e o risco à minha integridade o fragilizava. Aceitei que assim fosse. O amor tem razões alheias à razão em si, advertia Pascal.

Pensando nas muitas chances de golpes, acho importante que todos tenhamos presentes as zonas desprotegidas da mente. Risco aos filhos? Inquietudes financeiras? Histórias obscuras do passado? Carências de todo tipo? Sabendo onde estão nossos fios desencapados, fica mais fácil identificar risco de choque grave. Como posso agir então?

Devo programar meu cérebro a partir do risco. A voz gritando da minha filha me desestabiliza? Vou treinar e insistir muitas vezes que, em caso de ter o alarme acionado por uma ligação repentina, tomarei duas atitudes: ligarei para ela e para uma terceira pessoa (de preferência sem o mesmo envolvimento emocional) e seguirei a crise com a orientação alheia. Devo repetir, treinar, repetir e formar meu cérebro a essa reação.

Reitero comigo todos os dias: “Se minha filha estiver em risco, envolverei meu cunhado e ligarei para ela”. Treinar a reação não impede a cegueira das prudências mas cria um botão emergencial.

Ao vivo e em segredo, a família pode treinar uma palavra-passe de emergência. O nome da avó em comum, por exemplo, ou o nome de um animal de estimação conhecido de todos. A palavra-passe não deve estar no celular, pois ele pode ser clonado.

Uma pessoa com muito desejo sexual e carente pode ser enganada por um sedutor ou uma sedutora, nas redes. Alguém com ambição enorme pode ser atraído para um negócio imperdível. Todos possuímos fragilidades. Não devemos julgar as alheias, apenas aprender sobre o que nos tira do sério.

O golpe está aí: cairemos todos. Os que se prepararem internamente possuirão maior esperança de evitar trambiqueiros.

LEANDRO KARNAL – É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras. Autor de “A Coragem da Esperança”, entre outros.

ESTAR BEM

MAU HÁLITO NUNCA MAIS

Identificar a causa é fundamental para tratar corretamente e evitar consequências mais graves, além de constrangimentos

A halitose; ou simplesmente mau hálito, é caracterizada por um odor desagradável emitido durante a respiração, que pode ou não ser percebido por quem sofre com o problema, mas que induz desconforto em quem está  próximo. Embora ocorra com mais frequência com o avanço da idade, o distúrbio pode afetar qualquer pessoa, em qualquer idade.

A  causa mais comum geralmente é à má higiene bucal, que favorece a presença de bactérias na língua e nos dentes, podendo também estar relacionada a sinusites, amigdalites e outros fatores de origem metabólica e sistémica, como diabetes, enfermidades febris, alterações hormonais e doenças do aparelho digestivo.

”A causa do mau hálito muitas vezes está relacionada a algum hábito ruim que a pessoa tem, como, por exemplo, não escovar os dentes nem usar o fio dental após as refeições. Porém, em outros casos, pode ser sintoma de alguma doença mais séria, por isso, é importante investigar e tratar o problema com a ajuda de um profissional da área odontológica ou outro especialista da área média, se houver necessidade”, explica a dentista Fernanda Silvestre.

A especialista afirma, ainda, que pacientes com cáries abertas e extensas estão mais propensos a terem mau hálito, pois isso cria um ambiente propício para o acúmulo de alimentos em decomposição e bactérias que influenciam o odor da boca.

DOENÇAS DOS OUVIDOS, NARIZ E GARGANTA PODEM CAUSAR MAU HÁLITO

Se a higiene bucal estiver em dia, pode ser necessária a avaliação de outros especialistas, entre eles o otorrinolaringologista, já que dentre as diversas causas da halitose as doenças relacionadas aos ouvidos, nariz e garganta podem estar associadas. “As principais causas de halitose são por doenças da própria cavidade oral, como gengivites, infecções da língua, da garganta, e do ‘caseum’, que são aquelas massinhas formadas nas amígdalas, entre outras”, afirma o otorrinolaringologista Gustavo de Sousa Morais.

De acordo com o médico, o mau cheiro vem de gases produzidos pelas bactérias da própria boca, ao decompor os alimentos. “A principal prevenção é a higiene adequada dos dentes, escovando sempre após se alimentar, e a limpeza da língua. No entanto, caso o problema persista, mesmo com uma boa escovação e boa higiene oral, o ideal é procurar um otorrino para uma avaliação completa”, destaca.

O diagnóstico é feito pela avaliação do histórico de cada paciente, associado a um exame físico detalhado, para detectar a causa e fazer o tratamento correto. “O mau hálito também pode ser causado por refluxo, alterações pulmonares, alimentação e até mesmo algumas medicações. Um trabalho em equipe junto com um dentista e outras especialidades, como o gastroenterologista, é muito importante”, diz.

HALITOSE E DOENÇAS DO APARELHO DIGESTIVO

Em muitos casos, a halitose pode ser apenas um indício de diferentes tipos de doenças, que podem estar escondidas por trás de um odor desagradável e na boca, sinalizando que algo não está funcionando corretamente. Nesses casos é conveniente uma investigação mais profunda, para evitar consequências mais graves e iniciar o tratamento a tempo de evitar um mal maior. Segundo o gastroenterologista Roberto Luiz Kaiser Júnior, doenças do esôfago, gastrite ou doença do refluxo podem causar mau hálito.

O médico explica que há também outras doenças menos comuns, como tumores do esôfago ou estômago, úlcera estomacal ou duodenal e erosões gástricas. “Existe aquela sensação transitória de mau cheiro na boca que pode vir de um arroto ou de um refluxo, mas existem aquelas permanentes que o problema está no esôfago ou no estômago, mas que o cheiro se exterioriza pela boca”, diz.

O especialista alerta que, com o auxílio da endoscopia, é possível diagnosticar e resolver as principais causas de mau hálito, quando relacionadas à parte gástrica.

BOCA SAUDÁVEL

• Tenha uma boa higiene bucal e visite o dentista periodicamente

• Hidrate-se bem

• Mantenha a boca bem umedecida

• Raspe a língua para eliminar resíduos acumulados e bactérias

• Tenha uma alimentação adequada

• Alimente-se a cada duas ou três horas

• Não fume

• Procure ajuda médica caso o problema persista

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FELIZES PARA SEMPRE?

Pesquisa indica aumento no número de separações após os 50 anos. O chamado ‘divórcio grisalho’ traz novas perspectivas para quem achava que o único caminho era ‘até que a morte os separe’

Foram necessários 13 anos para que a empresária gaúcha Ângela Schirmann, de 65 anos, tivesse coragem para se separar do ex-marido, o também empresário Wagner Neumann (nome fictício), com quem ficou casada por 34 anos. Durante o período, ela suportou sucessivas traições, grosserias e o descaso dele com o casamento, até ouvir a seguinte frase de um de seus três filhos: “Você não pode ter coisas diferentes se continua com a mesma atitude”. O relacionamento era baseado em idas, vindas e o perdão sempre recorrente a tudo que Wagner fazia ou falava.

“Ele saía de casa, voltava, e eu o recebia. Ele vivia com roupa lavada e comida na mesa, e todos os dias me colocava para baixo, me detonava com palavras. Achava que não conseguiria viver sozinha”, desabafa Ângela.

Por ser de Ijuí, cidade com pouco mais de 80 mil habitantes no Rio Grande do Sul onde, segundo ela, todos se conhecem, Ângela era questionada sobre as razões que a levavam a continuar com o ex. “Minha autoestima era tão baixa…. Apesar de saberem o que acontecia, meus filhos nunca tomaram partido, mas um deles me indicou uma terapeuta, com quem fiquei por dez anos”, relata. Foi quando, enfim, tomou coragem e pediu para Wagner sair de casa, marcando o momento de sua libertação. “Entendi que eu não era uma pessoa que não prestava, e podia ser autossuficiente. Hoje, tenho meu carro, vou para onde quero, viajo, e aprendi que posso viver sozinha e ser feliz.”

Ângela faz parte de uma turma de homens e mulheres que estão, cada vez mais, encorajando-se a dizer “sim” aos próprios desejos e entendendo que nem sempre o “até que a morte os separe” é o caminho mais satisfatório a ser trilhado. Apesar de o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicar que, em 2020, em meio à pandemia, o número geral de divórcios caiu 13,6%, nos últimos 20 anos as separações de pessoas acima dos 50 aumentou em 28%. Para a antropóloga Mirian Goldenberg, a vontade das mulheres em seguir voo solo não é novidade, mas tomar a atitude, sim, já que as que estão nesta faixa etária buscam incessantemente pela liberdade.

“Nas minhas pesquisas, são sempre as mulheres que pedem o divórcio por volta dos 50 ou 60 anos. É uma fase em que, para elas, mistura a menopausa, a saída dos filhos de casa, ou, então, o entendimento de que estão há muito tempo em um casamento insatisfatório mesmo. É quando dizem ‘chega, não quero mais’”, explica Mirian. E por mais que estas mesmas mulheres voltem a se relacionar amorosamente, um novo casamento quase nunca está nos planos. “Elas viveram anos dedicando-se ao marido, aos filhos, cuidaram de todo o mundo. E a estrutura do casamento não permite que a mulher viva tudo o que quer. Elas têm uma urgência e não querem desperdiçar mais nada.”

Estudiosa das relações femininas e principalmente do envelhecimento, Mirian vai além ao dizer que formar uma família, casar-se e ter filhos é uma imposição social e cultural da sociedade brasileira, nem sempre representando um desejo verdadeiro. Afinal, os valores relacionados ao matrimônio, diz, ainda são muito fortes. “Não é importante para a mulher em si, mas sim, socialmente. Muitas nem pensam sobre isso. Eu não tive filhos, já casei e descasei. O que mais ouvi até os 45 anos foi: ‘Como você não vai ter filhos? Vai ser uma velha abandonada!’. E hoje, muitas que me criticaram no passado dizem que foi a melhor decisão que tomei”, provoca ela. “A ideologia da família feliz, da proteção, do marido, não funciona na prática.”

Quem viu, na prática, essa “ideologia” desmoronar foi a dona de casa e estudante de Psicologia Teka Gadelha, de 55 anos. Sua história, muito parecida com a de Ângela, envolve a descoberta de infidelidade, a religião dela e a do ex – ambos evangélicos – e a celebração de seu “renascimento” após o divórcio.

“Achei que, depois de mais de 30 anos de casada, não haveria traição ou a desistência do relacionamento. Eu não desisti na primeira (traição), mas aconteceram outras. Chegou um momento em que precisei colocar um ponto final”, relembra ela, separada oficialmente há cinco anos do ex, o motorista Roberto Cardoso (nome fictício).

Tachada de louca por ele, que tentou desmentir as infidelidades, Teka acreditou que após o rompimento fosse encontrar acolhimento na igreja, mas conta que todos se afastaram, até mesmo aquelas que acreditava ser suas amigas. Os dois filhos foram seu único refúgio em um período de dor que chegou a transformar-se em depressão, angústia e pensamentos suicidas. Foi com a ajuda da terapia que ela encontrou um novo caminho para realizar um antigo sonho: cursar a universidade. “Recomecei do zero, fui do luto à luta. Disse aos meus filhos que queria voltar a estudar e eles se dispuseram a pagar a minha faculdade. Ainda não estou bem como gostaria, mas sei que estou no caminho”, afirma.

Solteira, Teka consegue se ver como uma pessoa bem mais resolvida e, principalmente, livre. “Hoje eu digo a minha idade a quem perguntar, não tenho vergonha disso e também não tenho problema com aparência, gordura ou magreza”, conta. Mesmo sem ter a intenção de se casar novamente, ela não dispensa conhecer outros homens e, quem sabe, até namorar. “Não quero morar junto, não, mas gosto de conhecer gente, sair, passear e tomar um café. Isso me faz sentir viva”, comemora.

Se para as mulheres falar sobre o assunto divórcio funciona como uma espécie de desabafo e até a oportunidade para compartilhar experiências parecidas, para os homens é difícil mexer a fundo em certas emoções. Até por isso, ressalta Mirian Goldenberg, é difícil encontrar um ex-casal cuja história tenha terminado porque ele quis. “Para um homem se separar, a situação precisa estar insuportável.

Eles gostam da segurança, da companhia da mulher. Tanto é assim que quando eles se separam, buscam logo uma outra relação, geralmente com uma mulher mais nova, que esteja disposta a construir toda uma história novamente.”

O psiquiatra Alexandre Saadeh corrobora a opinião da antropóloga e diz que, além disso, para eles, é mais fácil ter relações paralelas enquanto estão vivendo o casamento. “Para que vão romper uma relação para se aventurar se podem conseguir isso estando casados?”, questiona. No entanto, seja para homens ou mulheres, repensar a união, ainda que isso signifique que ela deva chegar ao fim, é uma forma de entender e reconhecer os próprios objetivos, que mudam ao longo da vida. “Uma das perguntas que os casais se fazem é: ‘O casamento é para a vida inteira?’ ‘O que significa estarmos juntos?’. Elas não têm como objetivo destruir famílias, mas responsabilizá-las pelo motivo de ainda existirem, entendendo o por quê dessa sacralidade”, afirma.

Um desses “raros” casos, o dentista Eduardo Kowalski (nome fictício), de 68 anos, foi quem decidiu deixar para trás a mulher, após 27 anos juntos. “Chegou a um ponto em que não conseguíamos mais conviver nem conversar. Ela via defeito em tudo, reclamava da comida que eu fazia, das minhas roupas”, explica. Pai de um rapaz de 34 anos, Eduardo acredita que a personalidade difícil dele se deve, em parte, à forma como o ex-casal conduziu a própria relação. “Nosso filho cresceu em um ambiente egoísta, e hoje tem muitas inseguranças”, lamenta.

Apesar de ainda não estar na turma dos 50+, o arquiteto Joe Filho, de 41 anos, conta ter vivido “uma vida” em um casamento com outro homem, que durou 15. E deixou marcas. “Terminamos nos amando, sou muito grato por tudo, mas desgastes com a família dele e o fato dele ser muito controlador me fizeram perceber que não tinha mais volta. O que aprendi? A pensar em mim pela primeira vez. É difícil recomeçar uma vida sozinho, mas não existe relacionamento com amor e sem respeito”, fala.

OUTROS OLHARES

EM TRÊS FRENTES

Igualdade de gênero é desafio na ciência, na política e no salário

Apesar dos avanços, as mulheres brasileiras ainda estão longe de chegar aonde gostariam. A igualdade de gênero, destacada como prioridade pelo presidente eleito Luís Inácio Lula da Silva (PT), enfrenta desafios em três frentes importantes: na produção científica, na representatividade política e na busca de igualdade salarial.

As mulheres, embora sejam responsáveis por quase metade das pesquisas no país, aparecem bem menos na liderança acadêmica, em publicações e bolsas concedidas. A presença em cargos públicos está longe da paridade desejada. E os salários perdem para os dos homens, que foram 27,6% maiores no último trimestre deste ano, de acordo com o IBGE.

Na ciência, há uma expectativa de que a criação de um Ministério da Mulher, prometido para o governo Lula, possa acolher demandas antigas. Uma das principais, de acordo com a antropóloga Miriam Grossi, diretora da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, são mecanismos para aumentar o acesso de cientistas a bolsas de excelência. Grossi diz que as pesquisadoras, apesar da produção científica expressiva, são muitas vezes prejudicadas, pois as instituições levam em consideração os últimos cinco anos para a pontuação do candidato. No caso das mulheres, período muitas vezes interrompido por uma gravidez.

“Houve grande avanço na última década. As bolsas de iniciação científica contemplam muitas jovens. Mas menos de 30% das bolsas de excelência do CNPq, de nível 1A, vão para as mulheres. Quando avançamos na pirâmide do conhecimento, sofremos mais exclusão. A literatura mostra que isso acontece, em grande parte, devido a interrupções na carreira pela maternidade, por exemplo”, explica Miriam, acrescentando que algumas universidades e institutos de pesquisa já consideram em seus editais que a pontuação desconsidere a produção de dois anos subsequentes à maternidade e contemplem os dois anos anteriores. —É uma demanda muito antiga, mas não é uma política pública.

Segundo o CNPq, em 2021, eram 10.406 homens com bolsas em todas as categorias, contra 5.642 mulheres. De acordo com a Capes, as mulheres são maioria na pós-graduação (54%, ou 195 mil de 364 mil), mas não chegam a ter importância proporcional na pesquisa científica.

“Embora sejam maioria numérica, pesquisadoras ainda lutam por mais respeito e oportunidades. Mesmo as que conseguem vencer todos os desafios para alcançar cátedras ainda têm de superar toda uma sorte de práticas discriminatórias, intimidatórias e desrespeitosas”, reconhece a presidente da Capes, Cláudia Queda de Toledo.

EDUCAÇÃO É CENTRAL

Há vácuos de produção científica feminina em grandes universidades, que podem variar em cursos mais associados a homens. Estudo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP com uma amostra de mais de 3 mil professores aponta que 61,7% da produção científica na universidade paulista é de homens. Os homens também têm índices maiores de publicações, de citações por ano, de produtividade e de impacto científico.

Na Unesp, a professora Lídia Passos afirma que nos últimos cinco anos tem havido uma grande transformação. Ainda assim, as professoras, que representam 52% de toda a universidade, classificam como “árdua” a tarefa de se fazerem ouvidas.

“Os espaços públicos não têm distinção de salário. Mas no convívio interno, há uma luta para que nós sejamos tão vistas, ouvidas e valorizadas quanto os homens, simplesmente porque há o imaginário de que eles são feitos para esses papéis. Quando na verdade só têm mais oportunidades”, observa Passos.

Primeira mulher presidente da Associação Brasileira de Ciências, Helena Nader afirma que uma nova estrutura de país só será possível através da educação.

“A cultura conservadora foi intensificada no governo Bolsonaro, da mulher dona de casa e cuidadora dos filhos. A história do menino veste azul, a menina veste rosa. Todo mundo fala da Finlândia, da Islândia, da Dinamarca, mas nestes países meninos e meninas brincam de boneca e de casinha, de fazer comidinha e de serem engenheiros. Ou a gente muda a maneira como educamos nossos filhos ou não vamos avançar”, alerta a biomédica.

MINORIA NA POLÍTICA

A política está também entre os espaços onde a mulher ainda não tem tanta voz, especialmente se for negra. Embora sejam a maioria da população brasileira e acumulem mais anos de estudo que os candidatos homens, as mulheres foram 14% do total de candidatos a prefeito há dois anos, segundo um estudo divulgado este ano pela Oxfam Brasil e o Instituto Alziras. Nas câmaras de vereadores, elas equivaleram a 35% das candidaturas, por influência da política de cotas que determina que as legendas preencham ao menos 30% de suas listas com mulheres.

Nas eleições deste ano, o número de eleitas para a Câmara dos Deputados cresceu 18%. Apesar do aumento de 77 para 91, o maior número da História, elas ainda representam 17,7% do Congresso, segundo levantamento feito pelo +Representatividade, em parceria com o Instituto Update. Um levantamento do Mulheres Negras Decidem (MND) mostrou que candidaturas negras são ainda menores: entre as deputadas, pouco mais de 2% são pretas ou pardas. E apenas 1% do Senado é feminino e negro.

“As mulheres negras tiveram mais de 5 mil candidaturas, um número expressivo, apesar de o resultado nas urnas não ter se concretizado. Cada participação é uma semente, que deve ser regada com investimento na saúde, educação e empregabilidade feminina, para que elas tenham mais recursos para chegar a postos públicos”, defende Gabrielle Abreu, coordenadora do MND.

HOMENS GANHAM MAIS

Nas empresas, o cenário também é desfavorável. Em julho, agosto e setembro, em pesquisa do IBGE com 173 mil pessoas, constatou-se que homens ganharam em média R$ 2.835, e mulheres, R$ 2.221. Entre os desempregados, as mulheres são maioria (54,6%). Nos mesmos períodos de anos anteriores, a variação dos salários a favor dos homens ficou em torno de 27% a 28% superior aos ganhos de mulheres.

A equidade salarial é garantida por lei. Mas na prática, há defasagem. A desigualdade se intensifica na faixa de 25 a 49 anos entre mulheres que tenham crianças em casa com até 3 anos de idade. O nível de ocupação fica em 54,6%, contra 67,2% das que não têm filhos nessa faixa etária. No caso dos homens, a situação se inverte: com filhos na mesma idade, eles levam vantagem, e a ocupação alcança 89,2%, contra 82,4% dos que não têm filhos na mesma faixa etária.

Para a antropóloga Mirian Goldenberg, medidas precisam ser adotadas não só para igualar salários, mas para valorizar as mulheres em todo o espectro social, sobretudo em profissões tidas como femininas e que tendem a ser depreciadas.

“Igualar o salário é fundamental, mas o mais importante é fazer com que profissões que não são tradicionalmente masculinas, como enfermagem e professora, tenham vencimentos mais dignos. As profissões do cuidado são femininas e são as que têm os menores salários e menos prestígio. É preciso uma revolução para a mulher”, diz Goldenberg.

GESTÃO E CARREIRA

COMO UM GESTOR DEVE SUPERAR OS NOVOS DESAFIOS DA GESTÃO

A gestão de empresas guarda desafios que precisam ser superados diariamente. Esses desafios podem ser impulsionados por fatores externos, como atualmente as eleições, além do advento da internet e diversas mudanças sociais constantes. No entanto, para um gestor executivo de sucesso gerenciar ânimos internos e externos tomando todos os cuidados para que a empresa siga saudável está se tornando cada vez mais difícil e complexo.

Mas para superar esses desafios existem algumas habilidades essenciais que devem ser desenvolvidas, como explica o MBA em Marketing Executivo e doutorando em neurobusiness, André Afonso Silva. “O fato concreto é que ser gestor executivo de empresa hoje tornou-se um pouco mais difícil do que sempre foi, o contexto mudou e as suas tarefas se tornaram mais complexas, e para saber lidar corretamente com elas é essencial desenvolver algumas habilidades”.

PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DO GESTOR DE SUCESSO:

• GESTÃO DE RISCO: Como em qualquer momento das nossas vidas, a gestão de risco é fundamental, mas sua importância aumentou devido às várias incertezas que estamos vivendo;

• RESILIÊNCIA:  Em  um  mundo  de  constantes  mudanças sociais e evoluções tecnológicas que alteram todo o nosso contexto, saber ressurgir das cinzas e alçar novos voos é fundamental;

• GESTÃO DO TEMPO: você deve estar se perguntando, “mas como fazer tudo isso em 24 horas se eu ainda tenho que dormir”…. resposta: tempo é uma questão de prioridade, sempre, logo, saiba gerenciar da melhor maneira seu tempo;

• RESERVE UM TEMPO PARA O LAZER: Nenhum cnpj vale um desgaste na sua saúde, então ter um tempo seu com aqueles que você ama também é fundamental, pois, lembre-se, se você cair, muita gente cai junto…. então manter-se saudável, com uma dieta balanceada, exercícios físicos pelo menos 3x por semana, ficar com a família e fazer o que você gosta é importante para que seu corpo e mente mantenham-se saudáveis.

A NECESSIDADE DE ESTAR ATUALIZADO:

Além das características já citadas, André ressalta a importância de uma em especial: a capacidade de se manter atualizado. Em um cenário de constantes mudanças é crucial se atualizar conforme as ‘atualizações’ do mundo para conseguir seguir o mesmo ritmo e não ficar para trás no mundo dos negócios.

“A velocidade das mudanças é imensa e muitas vezes não estamos devidamente preparados para poder aproveitar as oportunidades que surgem, logo, manter-se atualizado e estudar sempre também é fundamental”, afirma André. www.essenciaconsultoria.com.br

EU ACHO …

O POLITEÍSMO SERIA MELHOR?

Em Roma, viviam, lado a lado, a crença e a descrença em diversos deuses

Afora as evidentes diferenças históricas e técnicas, Roma foi, pelo menos no Ocidente, a maior civilização e império que já existiu. O Império Britânico se aproximou, mas não foi nem de longe um império com tamanha duração e solidez. Os Estados Unidos são um nada. A experiência da longa duração do tempo é algo extinto em nosso mundo.

A pergunta que Edward Gibbon (1737·1774) faz a si mesmo no seu monumental “Declínio e Queda do Império Romano”, que conta com um compilado no Brasil pela Companhia das Letras é: que o incrível não é que o Império Romano – Roma e Constantinopla – tenha declinado e caído, o incrível é que tenha durado tanto tempo.

São muitas as hipóteses para responder a essa pergunta segundo Gibbon. Uma delas é assaz interessante e versa sobre a têmpera romana com relação à religião.

Já se sabe com razoável evidência que Roma – a original – estava longe de ser uma sociedade religiosamente intolerante, como o cinema e avaliações apressadas acabaram por produzir nos senso comum.

Gibbon apresenta o politeísmo como sendo um panteão de deuses que estava sempre aberto para novas adesões. A produção seria mesmo infinita, como mitologias gregas e romanas revelam ao historiador dessa antiguidade.

O homem e a mulher comuns aceitavam todos os deuses de forma natural, isto é, na dependência do necessidade, do caso específico, ou do pedido ou sofrimento em que estão. Rituais, ritos, liturgias de diferentes deuses ou crenças eram aceitos por todos, sem discriminação, inclusive produzindo sínteses mítico­ teológicas múltiplas.

Se as pessoas comuns rezavam para todos os deuses – e quanto mais deuses, melhor-, os filósofos não acreditavam em nenhum deles.

A filosofia antiga era um estilo de vida, como bem nos mostrou Pierre Hadot (1922-2010), o filósofo e historiador da filosofia antiga. Sendo um estilo de vida, a filosofia competia com a religião para aqueles que entendiam que a vida deveria ser conduzida pelo pensamento livre e não por práticas e crenças no sobrenatural de alguma forma.

Estoicos, epicuristas, céticos, todos ateus no sentido dado por Gibbon – os filósofos não acreditavam em nenhum dos deuses – ofereciam estilos de vida que, basicamente, desconfiavam da submissão à crença nos deuses.

Viviam, lado a lado, crenças em diversos deuses, com a descrença em todos eles.

Por outro lado, os magistrados, nos diz Gibbon, consideravam todas as crenças úteis porque garantiam alguma forma de constrangimento do comportamento, facilitando o trabalho de controle e imposição da lei.

Nesse sentido, a fé e a adesão a um conjunto de crenças e deuses diferentes, digamos, eram avaliados como uma ferramenta civilizadora, na medida em que  sustentava o convívio social, em vez de impor reveses em nome de apenas um deus verdadeiro.

Teria Roma durado tanto tempo, fosse ela monoteísta? Teria Roma sido capaz de assimilar povos tão distintos, fosse ela certa de carregar em seu seio uma verdade definitiva sobre o mundo divino? A fragmentação do politeísmo conviveu melhor com a expansão e poder dos romanos – não é à toa que, grosso modo, os mil anos da Constantinopla cristã foram um lento e gradual declínio do império.

Interessante notar que o biógrafo de Winston Churchill (1874·1965), Andrew Roberts, na sua obra “Churchill: Caminhando com o Destino”, falará da ausência, para o primeiro ministro inglês, de qualquer referência ao cristianismo como fundamento da expansão britânica em seu império.

Pelo contrário, nos diz o autor, foi exatamente a influência sobre Churchill do pensamento de Gibbon acerca de Roma, e seu modo de ver as religiões romanas que o teria levado a descrer na divindade de Jesus Cristo e mesmo nunca ter citado a palavra “Jesus” em seus milhares de discursos, e apenas uma vez, “Cristo” dissociado da ideia de salvador do mundo. Vale dizer que, diante de Churchill, todos os líderes posteriores são menores.

A chamada tolerância religiosa parece estar mais associada à descrença num deus único do que a apaixonada fé nele,

*** LUIZ FELIPE PONDÉ

ESTAR BEM

DORMIU MAL? SAIBA QUAL É O MELHOR TIPO DE TREINO APÓS UMA NOITE DE SONO RUIM

Estudo sugere que desempenho é menos afetado em exercícios de força e resistência do que em atividades complexas, como disputar uma partida

Após uma noite de sono ruim, nada parece certo. A mente fica confusa e os músculos, esgotados. Muitas vezes, a última coisa que você quer fazer é praticar exercícios e suar. Você pode se perguntar que tipo de treino deve fazer ou se é melhor adiar. Um artigo recente de pesquisadores da Austrália sugere que quem teve uma noite de sono insuficiente deve treinar no início do dia concentrando-se em exercícios de força e resistência, em vez de habilidades complexas. O estudo, publicado na edição de novembro da Sports Medicine, é o mais recente de uma série de análises que examinam a ligação entre sono e desempenho atlético.

“O fator chave é: “Qual foi o tipo de perda de sono que você teve?” E então, “Quando você vai treinar e o que você vai treinar?””, disse Jonathan Craven, estudante de pós-graduação da Griffith University, em Queensland, e um dos autores do artigo.

A meta-análise, que combinou dados de 77 estudos, examinou o efeito de uma noite de sono reduzida – ou seja, menos de seis horas – na força, resistência e habilidade atlética no dia seguinte. A equipe australiana descobriu que o sono ruim prejudica a maioria dos aspectos do desempenho atlético, como velocidade, potência, resistência e habilidades complexas – como acertar uma bola de tênis.

EFEITO NO CÉREBRO

Os cientistas colocaram o desempenho de cada praticante em uma escala percentual.

Eles perceberam que, após um sono ruim, as habilidades complexas diminuíram em até 23%, enquanto a força e a resistência tiveram perdas de até 8%, em comparação com exercícios realizados após uma noite inteira de sono. Em outras palavras, a capacidade de alguns sujeitos de acertar o alvo em uma sessão de tiro com arco foi muito mais afetada do que de outros de correr a uma certa velocidade ou levantar uma determinada quantidade de peso.

“Quanto mais longa uma atividade, ou quanto mais ela exige de uso do cérebro, maior a probabilidade de você ter um efeito negativo da privação do sono”, comentou Shona Halson, pesquisadora da Universidade Católica Australiana, em Brisbane, que estuda o efeito da privação de sono em atletas e não participou do estudo.

QUANTO MAIS CEDO, MELHOR

Os pesquisadores descobriram que malhar no início do dia, após acordar, ajuda a minimizar os efeitos da perda de sono. Além disso, os efeitos negativos aumentavam lentamente à medida que o dia passava.

“Se você tem escolha e está sem sono, é melhor treinar pela manhã”, disse Halson.

O desempenho dos atletas em habilidades complexas, por exemplo, caiu 14% quando o treino foi feito no início do dia e 23% à noite.

Os levantadores de peso tiveram um desempenho 2% pior do que o normal durante o treino matinal, enquanto esperar até a noite reduziu seu desempenho em 5%. O estudo mostrou que esse efeito foi mais forte entre aqueles que perderam o sono ao acordar cedo demais do que naqueles que foram dormir mais tarde. Os pesquisadores sugerem que, para os atletas que viajam para competições, pode ser melhor se deslocar à noite e dormir nas proximidades, em vez de acordar mais cedo para chegar ao local de competição. A razão para esse declínio de desempenho está relacionada ao ritmo circadiano do corpo, que naturalmente faz com que as pessoas se sintam mais alertas quando está claro e cansadas quando está escuro. O corpo libera adrenalina em resposta à luz da manhã, disse o cardiologista Virend Somers, que estuda o efeito da perda de sono.

A adenosina, uma substância química que cria uma sensação de sonolência, tende a ser mais baixa no corpo logo após acordar, aumentando à medida que o dia passa, explicou Halson – quanto mais adenosina em seu corpo, mais cansado você se sente.

Ela enfatizou que uma noite ruim não significa que você deva cancelar o treino. Se não puder se exercitar pela manhã, talvez o melhor seja pular a partida de tênis ou de basquete e concentrar-se em exercícios de força e resistência.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUANDO A TRISTEZA É NECESSÁRIA

Especialistas alertam que é preciso viver esse sentimento; jogá-lo ‘debaixo do tapete’ pode piorar tudo e até mesmo levar a uma depressão

É melhor ser alegre que ser triste. A frase, que inicia o Samba da Bênção, de Vinicius de Moraes, dificilmente vai ser contestada por alguém. Afinal, quem quer encarar esse sentimento incômodo, muitas vezes doloroso? Apesar disso, o músico e poeta nos próximos versos reconhece: “Mas pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”.

Os artistas ao longo da história foram admirados por se inspirarem na miríade de emoções humanas para produzir suas obras, mas parece que os sentimentos considerados negativos foram “cancelados” – nas redes sociais, predominam os sorrisos das festas e das viagens de famílias e amigos aparentemente perfeitos, entre outros registros de momentos incríveis vividos por tantas pessoas. Profissionais da saúde mental observam o comportamento de tentar esconder e ignorar a tristeza nos tempos atuais e alertam: é preciso reconhecer e acolher a tristeza, já que ao varrê-la para baixo do tapete se pode arrastá-la por mais tempo e até desencadear uma depressão.

A tristeza é uma resposta natural a nossas perdas e nos ajuda a gerenciá-las, explica o psicólogo e escritor Rossandro Klinjey, autor do livro O Tempo do Autoencontro: Como Fortalecer-se em Tempos Difíceis e Vencer os Desertos da Vida. “Embora possa ser desconfortável, não se permitir viver a tristeza prejudica a nossa vida emocional. Desenvolvemos a capacidade de nos adaptar e evoluir emocionalmente na medida em que respondemos à experiência de processar nossas dores. Ao fugir da tristeza, perdemos todo esse aprendizado essencial de nossas vidas”, diz.

MECANISMOS DE PROTEÇÃO

O psicólogo esclarece que acolher a tristeza não significa afundar-se na autopiedade. “Essa permissão de entristecer-se funciona como uma etapa inicial de sair da própria tristeza e de se desenvolver. É um equívoco levar a vida como se nada estivesse abalando seu universo íntimo.” Segundo Klinjey, quando uma pessoa está triste e prefere ficar só, está se valendo de um mecanismo de proteção para se manter seguro em um momento de vulnerabilidade – o que precisa ser respeitado pelas pessoas ao redor. “Além disso, ficar só quando estamos tristes nos ajuda a reduzir estímulos emocionais desnecessários, dando espaço para lidarmos com sentimentos intensos ou complexos”, acrescenta.

Ao ser diagnosticada com câncer de mama, a fisioterapeuta Mariana Fernandes, de 38 anos, entrou em desespero, assim como tantas mulheres que passam por essa situação. “Chorei de manhã, tarde e noite por uma semana. A gente tem de chorar porque é triste, doloroso e sofrido. Mas depois resolvi olhar pra frente”, conta. No início, ficou incomodada em demonstrar a tristeza para suas filhas, de 7 e 9 anos, mas depois percebeu que era importante que elas entendessem que a vida não era feita só de alegrias. “Expliquei para elas que eu estava triste, mas que ia melhorar. Elas sofreram junto, mas cresceram com tudo isso, assim como toda a família”, lembra ela, que fundou em outubro a comunidade Anjo Rosa, para ajudar pessoas em tratamento do câncer de mama.

A tristeza é um sentimento incômodo, mas isso é importante para ativar o foco da pessoa, afirma o psiquiatra Daniel Martins de Barros, autor do livro O Lado Bom do Lado Ruim. “Se a tristeza fosse agradável, não serviria de alarme para nós”, afirma. Segundo Barros, o sentimento de tristeza vem quando temos a noção de que perdemos algo, o que nos leva a uma baixa de energia, com uma postura de não enfrentamento. “Uma das funções da expressão das emoções é modular o comportamento do outro, que tende a interromper uma agressão ao perceber a expressão de tristeza e dor.”

O luto, que é a expressão máxima da tristeza humana, funciona como um amargo remédio para elaborar uma perda, afirma o psiquiatra. “É preciso viver a dor de reconhecer que as chances acabaram. É o único caminho para conseguir seguir em frente”, diz Barros. Quem não se permite vivenciar o luto não se liberta, afirma a psicóloga e psicanalista Beatriz Breves, autora de diversos livros sobre a “ciência do sentir”. “Há pessoas que caem no luto patológico e passam 20 anos de sofrimento, apegadas, com roupas e outras coisas da pessoa que se foi”, observa.

Saber reconhecer e nomear os sentimentos é fundamental – e eles aparecem como uma “salada de frutas”, já que não andam sozinhos, segundo a psicóloga. “A tristeza sempre vem acompanhada de outros sentimentos, como angústia, esperança”, ressalta. Para Beatriz, diante da complexidade de sentimentos, é preciso escutá-los para que seja possível digeri-los. A psicóloga explica que não é possível frear um sentimento. “A tristeza pode ser reprimida, mas sob o risco de ativar uma depressão”, alerta.

ACOLHER O OUTRO

Assim como é importante aceitar e gerenciar a própria tristeza, é preciso acolher a dor alheia, em vez de tentar abafá-la. “Tem quem diga para as crianças engolirem o choro e não ficarem tristes. Isso é muito ruim”, afirma a psicóloga Beatriz. Ao perceber que alguém está triste, a melhor atitude é oferecer a escuta. “Seja empático e não simpático. O simpático tenta apagar a dor, o empático entende que alguém está passando por uma dor e se oferece de suporte”, diferencia.

Mariana Fernandes, que recebeu o diagnóstico de câncer de mama duas vezes, acredita que a escuta empática é a melhor forma de apoiar quem está passando por uma fase difícil. “É importante estar ao lado e deixar a pessoa falar quando quiser e o que quiser, sem dizer nada. Isso ameniza a dor e faz a pessoa se sentir acolhida.”

Desde criança, a escritora e jornalista Leila Ferreira teve a permissão de vivenciar a sua tristeza. “Minha mãe nos ensinou a acolher os nossos estados de espírito e os dos outros. Ela nos liberava para sentir a vida como um todo, expressar os sentimentos, mesmo que fossem tristes, sem falsear. Ser mais verdadeiro é mais saudável”, analisa.

Em dezembro, ela fez uma palestra com o tema A Alegria de Poder Estar Triste no TEDx de uma faculdade em Minas Gerais, entre outras apresentações que tem feito sobre o assunto. Segundo ela, vivemos tempos em que as pessoas tentam banir a tristeza, o que empobrece a vida e reduz o próprio sentido da felicidade.

“É um mundo frenético, que quer manter uma felicidade forjada, esfuziante e permanente. Estimula o barulho, o falar. Há uma baixa tolerância ao silêncio, mas a vida pede eventualmente o recolhimento e o silêncio”, avalia.

Leila explica que não faz ode à tristeza: sempre equilibrou os momentos de melancolia com muita alegria de viver. “Sentir felicidade é o desejo mais legítimo do mundo. O que faz mal é simular uma alegria que não está sentindo, influenciado pela positividade tóxica dos nossos tempos.” Na visão dela, existem gurus da “ditadura da felicidade” que dizem que só depende de você se sentir bem. “Isso acaba sendo uma fonte de infelicidade, que só deixa as pessoas piores. Elas se sentem incompetentes, frustradas, culpadas, diante de milhões de postagens de pessoas supostamente felizes nas redes sociais.”

POSITIVIDADE TÓXICA

O filósofo e professor Marcio Krauss também enxerga a sociedade em que vivemos como obcecada pela positividade. “A dor, a frustração, a vulnerabilidade são ocultas, como se houvesse um filtro igual ao das redes sociais, que esconde os traços humanos de imperfeição”, adianta. Na visão de Krauss, esse é um sintoma da chamada “sociedade do cansaço”, definida pelo filósofo coreano Byung-Chul Han, na qual as pessoas são ao mesmo tempo escravas e algozes de si próprias, na busca incessante por produtividade.

“É o imperativo do ‘sim’, em que o próprio indivíduo se sente culpado ou fracassado, caso se sinta cansado ou triste, pois internalizou a cobrança. Todas as pessoas estão numa corrida inalcançável, seja no trabalho, em casa, no restaurante ou na academia”, descreve.

A indústria cultural, seguindo a lógica de mercado, também segue esse padrão, fazendo adaptações para trazer novos produtos de forma rápida, observa o filósofo. Tem um papel diferente da arte, que sempre foi importante para ajudar as pessoas a refletirem e ampliarem seus horizontes. “As músicas mais tocadas hoje sobre ‘sofrência’, por exemplo, não encaram a dor como deve ser encarada. Elas falam da tristeza de forma rasa, como um entretenimento esvaziado de sentido”, reforça Krauss.

ESTADO ‘AGRIDOCE’

Por milhares de anos, artistas e pensadores exploraram o poder do “agridoce”, que mescla os estados de saudade, pungência e tristeza, mas a cultura contemporânea é curiosamente silenciosa sobre isso, afirma a escritora norte-americana Susan Cain, que lançou em setembro no Brasil o livro O Lado Doce da Melancolia. “É hora de reviver essa tradição. A tristeza e a saudade têm o poder de nos tornar inteiros. São nossas lágrimas, não nossas risadas, que nos levam a um mundo melhor e mais conectado.” Susan explica que o estado agridoce traz uma alegria penetrante com a beleza do mundo por reconhecer a luz e a escuridão, o nascimento e a morte, o amargo e o doce.

Famosa por seu livro O Poder dos Quietos, que entrou na lista dos mais vendidos do jornal norte-americano The New York Times, Susan Cain conta que resolveu escrever o último livro porque queria entender o paradoxo de como uma música triste pode nos deixar felizes e como era possível sentir as duas emoções ao mesmo tempo. “Eu era obcecada por músicas tristes e em tons menores. Hallelujah de Leonard Cohen foi como meu hino pessoal”, recorda. Para desenvolver a sua obra, Susan mergulhou no tema por cinco anos. E sua mais importante conclusão foi que esse estado mental “agridoce” é uma porta de entrada para criatividade, conexão e transcendência.

É assim para a escritora Liana Ferraz, autora do livro de poesias Sede de me Beber Inteira. “Acho a tristeza tão misteriosa, tão introspectiva, tão… humana! E, por não ser o tema da nossa época, me sinto muito convidada a falar sobre”, destaca. Ao se deparar com esse sentimento, Liana não faz esforço para que suma. “Como tenho a criatividade como bússola, sei que estou diante de algo pulsante quando, ao olhar para a tristeza, quero dissecá-la e fazer composição com ela.” Liana afirma que adora ser escritora por ser obrigada a olhar todas as emoções, mas deixa claro que não devemos nos entregar à tristeza incapacitante. “Se o processo é patológico, nada brilha aos olhos.” Foi a partir de uma tristeza profunda que Liana se descobriu “artista das palavras”. Ela conta que queria ser atriz, o que era um segredo, mas teve uma doença que a impossibilitou temporariamente de andar e minou seu sonho. “Ficava achando palavras para a dor física, para a frustração de não estar na escola, para o sentimento de não pertencer ao meu grupo de amigos.” Percebeu, então, que se não fosse atriz poderia escrever e ser, ainda assim, artista. “No meio dessa dor, descobri que poderia ‘andar’ com as palavras”, conclui. Ela superou a doença, formou-se atriz, mas escolheu trabalhar como escritora.

OUTROS OLHARES

VÍTIMAS IMPROVÁVEIS

Crescem casos de câncer de mama entre os homens

Em setembro do ano passado, o agropecuarista Carlos Eduardo Coelho, de 68 anos, estranhou ao notar um caroço debaixo da mama esquerda no banho, mas não foi muito além disso. Tempos depois, percebeu que havia aumentado e decidiu então procurar um médico. O diagnóstico foi um choque: câncer de mama. Até então, pela falta de informação, ele acreditava que só mulheres tinham esse tipo de tumor. Carlos Eduardo teve sorte. Pelo formato e tempo do nódulo, as chances de cura eram enormes. Mesmo assim, ele teve de passar por oito sessões de quimioterapia, 28 de radioterapia e cirurgia de mastectomia —a retirada completa da mama.

“Minha autoestima não foi abalada, mas a vida muda drasticamente. Não sou mais o mesmo depois de tudo isso. Fiquei careca, perdi peso, me sinto mais cansado, mas tive um grande apoio, tanto dos médicos quanto da minha família, principalmente da minha esposa, que esteve sempre ao meu lado me dando forças e me passando alegria nas horas de grande angustia e depressão”, afirma Carlos Eduardo.

O câncer de mama é o tipo que mais acomete mulheres em todo o mundo e o que ocupa o primeiro lugar em mortalidade também. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), cerca de 2,3 milhões de casos foram estimados para o ano de 2020 em todo o mundo, o que representa cerca de 24,5% de todos os tipos de neoplasias diagnosticadas nas mulheres.

Mas, por mais que seja extremamente raro, os homens também têm risco de desenvolver este tipo de câncer. O número é baixo, representando apenas 1%, mas vem crescendo como passar do tempo, visto que há menos de cinco anos a incidência ficava pela metade. Muitos homens não sabem que podem ter a doença, não têm o diagnóstico certo, ou não sabem qual médico procurar para pedir ajuda. Como forma de comparação, em 2021, foram realizadas 3.497.439 mamografias em mulheres no SUS, enquanto nos homens foram feitas apenas 7.281.

Médicos ouvidos afirmam que a primeira coisa a fazer é falar para os homens, por mais banal que pareça ser, que eles têm mama. Ou seja, os homens também possuem a glândula e podem ter células cancerígenas.

“Para cada 100 mulheres, existe pelo menos um homem com câncer de mama e, infelizmente, não há recomendações médicas para fazer um rastreio dessa doença como têm para as mulheres. Este tipo de câncer não escolhe idade ou sexo, pode afetar todos embora o risco não seja o mesmo para todos”, explica a mastologista chefe do Serviço de Mastologia do Hospital Moinhos de Vento e presidente voluntária da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), Maira Caleffi.

DIAGNÓSTICO TARDIO

De acordo com a médica, o diagnóstico acaba sendo mais tardio para eles:

“Os homens não têm o hábito de se tocar e, por conta da falta de informação, dificilmente serão diagnosticados com o câncer de mama precocemente. Quando procuram o médico, em muitos casos, o tumor já está grande, em fase avançada, pegando outros órgãos e a chance de cura diminui”, esclarece Caleffi.

A médica afirma que a faixa etária de prevalência do câncer de mama em homens é mais alta do que em mulheres, por volta dos 60 anos, mas que o grande diferencial entre os dois está na hereditariedade. Enquanto nas mulheres, cerca de 90% dos tumores na mama não são hereditários, nos homens a maioria dos casos é relacionada à história familiar. Ou seja, se em algum momento um homem na família tiver câncer de mama, os filhos, netos e bisnetos, devem fazer exames de rastreio na região ou até aconselhamento genético porque passam a ser pessoas de risco, independentemente do sexo.

É o caso do cabeleireiro Messias Sartori, 76 anos, que recebeu o diagnóstico de câncer de mama há 26 anos. A sobrinha dele também teve câncer de mama, aos 24 anos, e acabou falecendo. O filho de Messias, Wellington Sartori, 53 anos, precisa fazer exames regulares para saber se corre o risco de desenvolver a doença.

“Há cinco anos fiz uma série de exames, incluindo uma ultrassonografia das mamas, e o médico chegou a me perguntar por que eu estava fazendo aquele exame, porque não era comum. Graças a Deus não tinha nada, nenhum caroço, ou sintoma que pudesse apontar para o câncer. Vou repetir os exames ainda este ano”, revela Wellington Sartori.

SINAIS E TRATAMENTO

Os sinais são os mesmos que nas mulheres. O homem precisa ficar de olho se a mama cresce mais do que o normal, se há dor, ou sangramento. O principal, no entanto, é se há nódulos nas mamas, ou por baixo das axilas. Ele deve procurar um médico especializado, de preferência um mastologista, para ajudar a diagnosticar de maneira certa a doença.

“Apesar de raro, todo homem que apresentar sintoma e sinal deve procurar serviço médico para exame clínico e afastar a possibilidade do câncer de mama. Os jovens de hoje usam e abusam de anabolizantes que ajudam no desenvolvimento das glândulas mamárias e as fazem crescer. Em alguns casos isso pode ajudar a expandir as chances de ter um câncer de mama, por exemplo. Em 90% dos casos não passa de uma ginecomastia, ou seja, quando há o crescimento anormal dos seios em homens, mas é algo benigno, sem riscos, causada pela utilização desses hormônios sem acompanhamento médico”, diz Luiz Abla, cirurgião da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Apesar da mamografia ser indicada e eficiente no caso das mulheres, para os homens, em razão do tamanho da mama ser inferior, na maioria dos casos o exame pode não ser benéfico, além de causar dor. Os médicos aconselham então a fazer uma ultrassonografia da mama e uma biópsia da região. Mesmo se a suspeita for de uma ginecomastia, é aconselhável fazer uma biópsia para verificar se não há células tumorais.

“Caso seja diagnosticado com câncer de mama, como não é algo muito investigado e demora para ser tratado, a maioria dos casos já chega com o tumor grande, com alto risco de metástase, então é necessário realizar cirurgia mais agressiva de retirada total da mama, ou seja, a mastectomia, e reconstrução imediata com equipe multidisciplinar. Raramente conseguimos fazer uma cirurgia mais conservadora”, explica Abla.

Todos os pacientes diagnosticados com câncer de mama, ouvidos identificaram os tumores durante o banho, enquanto se ensaboavam e sentiram um caroço com um simples toque. Caso seja descoberto precocemente, as chances de cura vão de 95 a 97%.

GESTÃO E CARREIRA

DEPOIS DO HOME OFFICE, SURGE O PUB OFFICE

A pandemia fez aumentar o que aqui chamamos trabalhar em home office. Agora que ela parece estar sob controle, o cenário torna-se confuso: empresas e profissionais muitas vezes têm opiniões divergentes acerca de qual o melhor local para se trabalhar – em casa ou no escritório.

Na Europa, há mais um fator para tornar as coisas ainda mais complexas: o ataque da Rússia à Ucrânia, entre outras coisas fez subir muito o preço da energia, esperando-se que as contas sejam muito altas no inverno que se aproxima. Além disso, a inflação está contribuindo para piorar a situação.

Os tradicionais pubs britânicos também têm sido prejudicados neste cenário, com queda de frequência, que inclusive fez alguns deles fecharem as portas.

Mas espíritos empreendedores estão procurando novas alternativas, dentre as quais se destaca o que chamaríamos no Brasil pub office: a ideia é dar aos profissionais a chance de desligar o caro aquecimento doméstico e trabalhar com seus seu notebooks em um pub quente e confortável.

Quase 400 pubs da cervejaria Fuller’s estão liberando o pub office por preços a partir de 10 libras esterlinas (cerca de R$ 55) ao dia, incluindo almoço e uma bebida. Outra grande cervejaria, a Young’s, que opera cerca de 220 pubs, por 15 libras oferece um sanduíche, chá e café à vontade.

O jornal britânico The Guardian diz que pubs independentes estão fazendo ofertas similares.

A Fuller’s começou a oferecer o pub office em pequena escala durante a pandemia e agora parece ter abraçado de vez a ideia, com seu portal anuncia- do a disponibilidade de Wi-FI de alta velocidade, pontos para carregamento e até mesmo salas privativas para reuniões, além evidentemente de comida e bebida.

E finaliza dizendo “ao final do dia de trabalho, baixe a tampa do laptop e levante o copo”; pode ser uma ideia interessante!

VIVALDO JOSÉ BRETERNITZ – É Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas.

EU ACHO …

NOVEMBRO E ALÉM

Já reparou que assim como março está para o Dia Internacional da Mulher, e setembro para a atenção à saúde mental, o mês de novembro parece dar um start, com data definida para pausa, em ações voltadas para o combate ao racismo e promoção da igualdade racial nas empresas? E ainda assim, de forma tímida. Nesta lista de eventos do concorrido penúltimo mês do ano, tem ainda a Black Friday e o Novembro Azul. Lembra de mais algum?

Efemérides são importantes para a demarcação de espaço e lembrete sobre temas que nos tocam de forma seletiva, num calendário agitado e cheio de eventos. Mas também precisamos pensar o quanto devemos ir além de um dia ou um mês, especialmente para assuntos que demandam ação contínua e estruturada, trazendo resultados sólidos.

Tenho a impressão de que ao entrarmos em novembro, algumas empresas começam uma corrida interna para mostrar que são comprometidas com a pauta antirracista. Será que essas ações continuam ao longo dos outros onze meses? Ou ficam limitadas ao checklist de novembro?

Qual fatia do orçamento as empresas destinam para ações voltadas à diversidade e inclusão? Quanto tempo dedicam de treinamento sobre a pauta ao longo do ano? Quantas pessoas negras e indígenas estão em seu quadro de funcionários?

Quantas delas estão em cargos de liderança? Quando comemoram marcos no LinkedIn, qual a cor das pessoas presentes na celebração?

As mesmas perguntas valem para o setor público: quantas pessoas negras e indígenas estarão presentes nos novos ministérios e secretarias de Lula, para além da importante pasta da Igualdade Racial e dos Povos Originários? E sim, serão conquistas, mas precisamos ir também além.

Não dá para investir pouco ou fazer algo limitado a uma época do ano ou a uma pasta restrita e depois reclamar dizendo que a estrutura não muda. Os esforços precisam ser proporcionais ao avanço que queremos. Infelizmente, muitas vezes, essas ações se restringem a um dia ou um mês específico, sendo jogadas para escanteio ao término dele.

Na contramão desta tendência, felizmente vimos um número crescente de companhias públicas e privadas que, pelo amor ou pela dor, estão realmente se engajando pela igualdade racial e abertas a reconhecer suas falhas e possibilidades de melhora. Porém, precisamos cobrar que esses avanços sejam projetados de forma longeva.

Este compromisso também deve ser assumido por todo o time da empresa e governos, garantindo um ambiente seguro e acolhedor. Quando falamos em igualdade racial, também estamos falando em poder de decisão. Em ter cada vez mais pessoas negras e indígenas nesses espaços. Para isso, é necessário uma postura intencional da diretoria e altas lideranças para promover mudanças.

Espero que o mês de novembro seja mais do que o start para ações antirracistas. Que tenhamos todos um compromisso a longo prazo e sejamos capazes de trazer resultados que comprovem que estamos acelerando nessa jornada. Que haja mais intencionalidade entre os tomadores de decisão para que não precisemos passar a eternidade batendo nessa tecla sobre a importância de algo que deveria ser tão básico como termos uma sociedade justa e igualitária.

LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

ESTAR BEM

CIENTISTA DO SONO DÁ DICAS PARA DORMIR MELHOR SEM RECORRER A MEDICAMENTOS

Organizar o quarto e fazer uma caminhada são algumas das orientações comprovadas pela ciência e indicadas pelo psicólogo Aric Prather

Uma boa noite de sono pode nos tornar mais empáticos, mais criativos, melhores pais e parceiros, de acordo com o psicólogo da Universidade da Califórnia em San Francisco Aric Prather, que trata insônia e é autor do novo livro “The Sleep Prescription” (Prescrição para dormir, em português). Uma pesquisa dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos em 2013 descobriu que um em cada oito adultos americanos com problemas para dormir relatou que usa soníferos. Mas Prather disse que há medidas simples que podemos adotar ao longo do dia e da noite para descansar melhor.

Aqui estão algumas de suas dicas, apoiadas na ciência, para ter um sono mais profundo.

PREOCUPAÇÃO PROGRAMADA

“Ninguém jamais diz: ‘Eu fiquei acordado no meio da noite e só pensava em coisas boas’”, disse Prather. Durante o dia, podemos estar muito ocupados para nos demorar em nossos pensamentos, mas à noite, quando tentamos deixar nosso cérebro pausar sem distrações, “os pensamentos podem ficar muito, muito barulhentos”, escreveu Prather.

Para combater a “ruminação” noturna e a ansiedade, o psicólogo recomendou em uma entrevista dedicar parte do seu dia à preocupação. Reserve de 10 a 20 minutos para escrever sobre o que o deixa ansioso, ou apenas pense a respeito, sem procurar uma solução. Se fizer isso de forma habitual, disse ele, suas preocupações não se infiltrarão na noite.

SUBSTITUA A CAFEÍNA

Se você costuma tomar café à tarde para superar a depressão, ainda terá cafeína em seu sistema na hora de dormir.

Em vez disso, ele recomenda obter um aumento de energia em outro lugar. Você pode fazer uma caminhada rápida à tarde, ou passar de 5 a 10 minutos fazendo uma pausa no trabalho e aplicando seu cérebro numa tarefa simples – arrancar ervas daninhas do jardim, arrumar uma estante, ligar o som e realmente se concentrar numa canção.

ORGANIZE O QUARTO

Seu computador, um monte de roupa usada, a pilha de notas adesivas lembrando-lhe de todas as tarefas inacabadas – tire tudo do quarto onde você dorme. Se isso não for possível, pelo menos mova-os para que você não possa vê-los de sua cama, aconselha Prather. Você quer que sua área de dormir o acalme, e não que o lembre de tudo o que você precisa fazer.

Para se preparar ainda mais para o sono, compre cortinas blecaute para bloquear a luz, ou invista em uma máscara confortável para dormir.

CÉREBRO NÃO É NOTEBOOK

Você não pode esperar que seu cérebro desligue instantaneamente como um notebook quando você fecha a tampa, disse Prather. Em vez disso, você deve planejar um período de transição para o cérebro poder relaxar.

Às vezes não é possível, ele reconheceu; prazos de trabalho e responsabilidades parentais podem significar que você está comprometido até desligar as luzes. O ideal é você se dar um período de duas horas para “diminuir o volume do seu sistema nervoso simpático”, disse.

Você deve passar esse tempo fazendo algo agradável e relaxante, como ouvir um podcast favorito, conversar no sofá com seu parceiro ou assistir TV.

REVEJA PROGRAMA FAVORITO

Muitos médicos alertam contra o “tempo de tela” antes de dormir, mas Prather disse que presta mais atenção no conteúdo que as pessoas consomem à noite, e não se estão olhando para um computador, um livro ou o telefone.

Um filme policial pode fazê-lo ficar acordado por mais tempo. Em vez disso, ele recomenda assistir a algo calmante e, idealmente, um programa que você já viu antes. Prather usa “The Office”, que ele já perdeu a conta de quantas vezes assistiu.

MEXA-SE

À medida que as pessoas envelhecem, especialmente nas casas de 50, 60 e 70 anos, o sono pode se tornar mais fragmentado, disse Prather. As pessoas podem precisar urinar à noite com mais frequência, ou alguma dor pode mantê-las acordadas. Mas é essencial que os idosos descansem o suficiente.

Em geral, se você tem dificuldade para adormecer ou continuar dormindo, deve sair da cama, disse Prather. Dê a si mesmo 20 minutos ou mais para tentar dormir, mas se ainda estiver conectado vá para o sofá ou a sala de estar e faça algo silencioso, aconselhou Prather, como tricotar ou meditar.

Você só quer associar a posição em que dorme com o fato de adormecer. Se o seu corpo se acostumar a ficar acordado e lutando para dormir nessa posição, você terá mais dificuldade para se condicionar a dormir a noite toda.

NÃO SE CULPE

Quando as pessoas estão no meio de uma noite sem dormir, muitas vezes se estressam sobre como a falta de sono vai surpreendê-las no dia seguinte, disse Prather. Mas uma, ou mesmo algumas noites de pouco descanso não vão arruinar a maneira como você dorme em longo prazo, disse.

Se você se sente constantemente incapaz de dormir, talvez queira procurar um terapeuta ou clínico treinado em terapia cognitivo-comportamental, que o doutor Prather usa para tratar a insônia. Mesmo em casos crônicos, disse ele, a falta de sono é curável. Um especialista em sono também pode prescrever medicamentos em casos extremos, ou tratar condições subjacentes que podem causar o problema, como apneia do sono. “Quando as pessoas têm insônia, como é muito angustiante, elas tentam descobrir todas as coisas que podem fazer para permitir que o sono venha novamente, como, ‘O que posso consertar?’, e esse tipo de esforço é realmente incompatível com o sono”, disse ele.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O ESTRESSE PODE SE ESPALHAR COMO VÍRUS?

Cientistas querem descobrir se o estresse é contagioso e, para isso, buscam provas no reino animal

O estresse é contagioso? Sim, diz o neurocientista Tony W. Buchanan, professor da Universidade de St. Louis. Em 2010, ele mediu a reação de pessoas que estavam simplesmente observando estresse em outras. Buchanan descobriu que os níveis de cortisol dos observadores aumentaram por meio de um fenômeno conhecido como contágio do estresse: a propagação do estresse de pessoa para pessoa, como um vírus.

Agora, mais pesquisadores estão investigando se esse contágio é algo observado em todo o reino animal. Os cientistas querem descobrir se o estresse pode passar por canais completamente distintos de grasnidos, rugidos e arrepios. O que eles descobrirem pode fornecer dados para o tratamento animal e esclarecer a natureza do estresse em humanos.

Os pesquisadores estão “tentando entender como esses processos podem acontecer simultaneamente em pássaros, humanos, peixes, camundongos, de modo que vemos o mesmo fenômeno ocorrendo em espécies muito diferentes, que evoluíram em níveis muito diferentes”, diz Jens Pruessner, professor de Psicologia da Universidade McGill, em Montreal.

Você provavelmente já experimentou o contágio do estresse. Um amigo aparece e passa alguns minutos reclamando do trabalho ou do relacionamento. De repente, mesmo que não sejam problemas seus, você está respirando mais rápido e sentindo certo nervosismo. Isso porque, enquanto você ouvia as reclamações, seu corpo lhe deu uma injeção rápida de adrenalina e cortisol – hormônios que mobilizam as reservas de energia para fugir, lutar ou terminar projetos no prazo. Pilhas de pesquisa mostram que, com o tempo, choques frequentes de estresse são corrosivos para o corpo e a reprodução.

CAMUNDONGOS

O neurocientista Jaideep Bains, por exemplo, estuda como o estresse afeta o cérebro. Em 2014, ele começou a investigar em seu laboratório na Universidade de Calgary como o estresse passa de camundongo a camundongo. Ele descobriu que um camundongo estressado emite um feromônio de suas glândulas anais, que é então cheirado por um camundongo próximo. “Isso meio que faz sentido, certo”, diz Bains. “Imagine o que um camundongo faria diante de um predador. Um sinal vocal provavelmente atrairia atenção, mas um sinal químico silencioso, que só é detectado por aqueles que estão muito próximos, seria uma ótima maneira de informar aos outros que existe um perigo”, acrescentou.

Bains descobriu que as conexões neuronais de um camundongo que cheira feromônios de estresse mudam e ficam idênticas às do camundongo que experimentou o estressor originalmente. Assim, o cérebro do camundongo que sentiu o cheiro do camundongo estressado também parece ter sentido um estressor. Em seguida, “perguntamos se o camundongo estressado conseguiria transmitir a informação para um segundo camundongo e se esse camundongo conseguiria levá-la a um terceiro”, disse Bains. “E a coisa funciona muito bem. O terceiro camundongo mostra as mesmas alterações no cérebro.”

Isso também tem implicações para os humanos. Assim como os camundongos, sentimos a ansiedade dos outros. “Gostamos de pensar que somos indivíduos que têm experiências próprias”, afirmou Bains. “E não pensamos muito na maneira como as experiências dos outros também podem nos moldar.”

Medir o estresse em animais selvagens é difícil fora de um laboratório de neurociência. Os cientistas são vistos como predadores pela maioria das espécies e desencadeiam uma resposta ao estresse apenas por sua presença. Os animais deixam vestígios de hormônios do estresse em suas fezes e penas, mas estas não são amostras em tempo real. E capturar animais para testar seus hormônios no sangue é um processo estressante. Novas tecnologias, no entanto, estão facilitando o trabalho.

GALINHAS

Hanja Brandl, da Universidade de Konstanz, na Alemanha, está estudando galinhas-d’angola no Quênia, usando pequenos registradores de frequência cardíaca juntamente com rastreadores GPS para observar como o estresse se move de um pássaro a outro. Resultados de estudos semelhantes sugerem que aves estressadas têm batimentos cardíacos mais altos e, entre outros comportamentos, tendem a ficar mais perto de seus bandos.

Brandl e seus colegas também estão usando armadilhas de câmeras de vídeo – câmeras acionadas por movimentos de animais – e aprendizado de máquina em outros estudos. “Saber quem vai aonde e com que frequência se alimentam pode evidenciar o estresse”, disse. O aprendizado de máquina também fornece aos cientistas dados melhores a partir de horas de vídeo. Antes dos algoritmos de aprendizado profundo, Brandl tinha de ficar assistindo vídeos por longos períodos, registrando comportamentos às vezes ambíguos. Agora, os algoritmos captam pequenas nuances. “Ao dar ao computador milhares e às vezes milhões de dados, basicamente deixo ele decidir.” Os cientistas também observaram que os grupos trabalham juntos para aliviar o estresse em membros ansiosos. Por exemplo, os morcegos acalmam os membros de sua rede social compartilhando comida.

BEZERROS

A pesquisa já está afetando a pecuária. Estudos mostraram que os bezerros se recuperam mais rapidamente após a descorna quando retornam ao seu grupo social, e os filhotes se beneficiam de estar perto da mãe depois de experimentar um estressor leve. “É muito parecido conosco. É como a criança que sofre um pequeno acidente no parquinho. Com a mãe por perto, ela vai ficar bem”, diz Brandl. Brandl escreveu um artigo no Proceedings of the Royal Society B este ano, pedindo mais estudos sobre a transmissão do estresse em animais. “São necessários mais achados de pesquisas de sistemas sociais animais para desvendar os mecanismos e as consequências da transmissão do estresse. Identificar até que ponto a transmissão do estresse modula os coletivos de animais representa uma importante via de pesquisa”, afirmou.

“No momento, estamos dando os primeiros passos na tentativa de entender quão importante é a transmissão do estresse”, disse  Brandl.  Mas com mais estudos e  descobertas, “poderemos ajustar ações que melhorem o bem-estar animal em cativeiro e na natureza”.

OUTROS OLHARES

TABUS E DÚVIDAS

Avanço do anticoncepcional masculino segue lento

As tentativas começaram nos anos 1960, na mesma época em que o anticoncepcional feminino foi lançado, mas, até hoje, nenhum contraceptivo reversível para os homens chegou à mesma eficácia da pílula para as mulheres. A mais alardeada entre as apostas é o Risug, um anticoncepcional masculino injetável desenvolvido na Índia e com previsão de lançamento para 2023. Mesmo assim, a lista de obstáculos neste e outros métodos contraceptivos para eles é longa: vai de dúvidas sobre eficiência e reversão ao tabu em uma sociedade que tradicionalmente delega às mulheres a responsabilidade da prevenção da gravidez.

Um dos principais desafios é o receio de impotência sexual e infertilidade entre os homens. Além disso, historicamente o interesse no tema é secundário entre as farmacêuticas, em um universo focado amplamente no controle da fertilidade feminina. Entram, ainda, preconceito e desconhecimento envolvendo os possíveis métodos, sejam eles hormonais, ou de barreira, como no caso do Risug (sigla para “inibição reversível do esperma sob controle”, em português), que vem chamando atenção desde o início da pesquisa, nos anos 1970.

O Risug promete esterilidade por até dez anos. Os testes mostraram que a injeção seria menos dolorosa do que a vasectomia, e reversível. Ele usa um gel que danifica os espermatozoides, impedindo a fertilização do óvulo. O medicamento é aplicado próximo à bolsa escrotal, nos dois ductos deferentes, canais que transportam os espermatozoides depois de amadurecidos, para que formem o sêmen.

Segundo o médico urologista Celso Gromatsky, do Centro de Medicina Sexual do Hospital Sírio Libanês, o procedimento pode ser revertido com uma nova injeção com uma mistura de bicarbonato de sódio e um ácido composto de moléculas redutoras.

“O gel atua na motilidade do esperma. O indivíduo vai ejacular normalmente, mas sem espermatozoides. Há uma semelhança com a vasectomia, a diferença é que a reversibilidade do Risug é mais simples”, explica Gromatsky.

RISCOS

Ainda assim, há dúvidas sobre taxas de sucesso, riscos de reversão, infertilidade e obstruções locais deste e de outros métodos contraceptivos para os homens, ressalta o médico urologista e coordenador do departamento de urologia do Hospital Oswaldo Cruz, Carlo Passerotti.

“É um gel sendo colocado num pequeno canal. Se o procedimento for malfeito, ou o corpo rejeitar, isso certamente causaria um trauma ou uma obstrução local. Isso também vale para o processo de reversão”, esclarece o especialista.

Desde que os primeiros trabalhos referentes à temática foram publicados, os cientistas enfrentam dificuldades para chamar a atenção das farmacêuticas, a começar pelo fator de risco da taxa de eficácia. Ao longo do tempo, a pílula anticoncepcional feminina acabou se firmando como um dos métodos mais seguros quando utilizada corretamente, sendo eficaz em 99,9% dos casos.

“É muito caro produzir medicamentos, ainda mais quando falamos de uma situação na qual existem métodos muito mais efetivos. A pílula feminina, por exemplo, tem maior custo-benefício e perfil de segurança. Para ser lançado ao mercado, tem que ser um produto que seja tão eficaz e seguro quanto”, afirma Erick José Ramo da Silva, professor do Departamento de Biofísica e Farmacologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

No entanto, os hormônios também trazem riscos e desconfortos às mulheres. Pode ocorrer, por exemplo, o sangramento intermenstrual, o escape, assim como o ganho de peso, já que os componentes da pílula estimulam a retenção de líquido. Outro problema é a acne, causada especialmente pelos anticoncepcionais sem estrogênio. A mudança de humor também pode ocorrer, dependendo do organismo de cada mulher. Há quem precise tomar cuidado se tiver, por exemplo, histórico de depressão ou algum parente com essa doença. E, para completar a lista, o efeito colateral mais perigoso: a trombose. O uso de alguns tipos de pílula pode aumentar de 1,2 a 1,8 vezes o risco de desenvolver trombose arterial, quadro que pode levar a um AVC ou infarto. Já o risco de ter trombose venosa fica de três a seis vezes maior ao tomar contraceptivo oral.

QUESTÕES CULTURAIS

Depois das barreiras financeiras e científicas, os candidatos a anticoncepcionais masculinos ainda precisam vencer questões culturais. Embora igualdade de gênero seja um tema cada vez mais recorrente na sociedade, especialistas observam reticência entre homens de assumir os cuidados pela contracepção com um método como o adotado pelas mulheres, para além do preservativo ou da vasectomia.

“Estamos no século 21, a vasectomia existe há mais de um século e há homens que acreditam que o procedimento impactaria no desempenho sexual. O advento do anticoncepcional masculino no mercado possibilitaria compartilhar a responsabilidade da gravidez de forma igualitária entre parceiro e parceira”, diz o urologista Gromatsky.

Para a socióloga especializada em contracepção Geórgia Pereira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tabu e machismo ajudam a explicar a distância do anticoncepcional masculino.

“Se não houvesse toda uma estrutura machista, seria mais fácil e eficaz pensar em contraceptivos masculinos, afinal eles são férteis a vida toda. Além disso, essa deveria ser uma responsabilidade compartilhada pelos outros diversos fatores envolvendo os riscos de contraceptivos para mulheres”, afirma Pereira.

O incentivo para que os homens assumam esse cuidado, diz a socióloga, deveria existir desde cedo, com aulas de educação sexual nas escolas e faculdades, e com a real inclusão deles nos programas de planejamento reprodutivo das redes de saúde:

“Podemos começar pela educação pública em saúde e sexualidade. Com programas que falam sobre planejamento familiar, incluindo as responsabilidades dos homens, direitos e deveres de cada um. É assim que se consegue estabelecer um programa de planejamento reprodutivo eficaz e que busca a equidade.

GESTÃO E CARREIRA

COMO MELHORAR O LINKEDIN PARA CHAMAR ATENÇÃO DOS RECRUTADORES

Especialistas contam como usam a rede social para encontrar profissionais e compartilham dicas sobre como conseguir uma entrevista através da plataforma

Ao mesmo tempo que o LinkedIn é a rede social preferida de quem está procurando emprego, a plataforma também tem papel estratégico para recrutadores que buscam novos talentos. Por isso, ter um perfil bem estruturado com informações-chave e entender a forma como os RHs usam a plataforma podem oferecer vantagens para quem quer ser contratado por meio da rede.

“Procurar emprego dá muito trabalho. Existe toda uma preparação para te ajudar a se destacar entre os 50 milhões de profissionais que a gente tem dentro da plataforma”, diz Ana Claudia Plihal, executiva de Soluções de Talentos do LinkedIn no Brasil.

Com mais de 50 milhões de usuários ativos na plataforma, o Brasil tem hoje a quarta maior comunidade na rede social, atrás apenas de China, EUA e Índia. De acordo com um levantamento divulgado pela Statistic Brain, 90% dos recrutadores entrevistados usam o LinkedIn para encontrar profissionais.

A ferramenta usada pelos recrutadores para encontrar candidatos ideais é o LinkedIn Recruiter – que é uma interface com acesso a toda a base de membros. Com mais de 20 filtros, é possível selecionar candidatos por palavras-chave, competências, probabilidade de resposta ou até buscar pessoas que já interagiram com publicações da marca na rede social.

“É como se você estivesse comprando um computador. Você seleciona o tamanho de tela, quanto de memória e qual a configuração quer”, explica Ana Claudia. A solução possibilita que os recrutadores apliquem uma série de pré-requisitos sobre a base de usuários e, a partir dali, recebam o retorno com os candidatos que mais se encaixam naquele perfil.

A executiva explica que a inteligência artificial do LinkedIn cruza uma série de informações sobre o usuário para comprovar as competências técnicas destacadas ou não no perfil. “Quando buscamos candidatos com competências voltadas ao relacionamento com o cliente, por exemplo, perfis com histórico de atendimento em call center ou gestão de atendimento levam vantagem, mesmo não destacando a habilidade no perfil.”

Segundo especialistas, é através da plataforma que é possível conhecer melhor a trajetória profissional do candidato, seja das qualificações ou até das conquistas profissionais ou projetos que já realizou.

A recrutadora para negócios no Google Brasil Carol Rocha afirma que o LinkedIn é uma grande vitrine de talentos com profissionais de todo o mundo. Além disso, é uma boa forma de buscar perfis que não se aplicariam às vagas de forma orgânica. “Sabemos que há pessoas que não se enxergam trabalhando no Google. É crucial que possamos trazer cada vez mais representatividade.”

Para Ana Cunha, recrutadora na multinacional, a busca por talentos na rede é indispensável. Ela explica que as chamadas candidaturas passivas estão desaparecendo e dando lugar a buscas ativas por talentos.

DICAS

SER NOTADO

Mantenha o perfil completo e atualizado. Isso aumenta as chances de aparecer nas buscas e de ser abordado por recrutadores

PERFIL

As palavras-chave são uma ferramenta estratégica para ser encontrado pelos recrutadores

POSTS

Faça o exercício de lembrar o que você tem feito de bom profissionalmente e compartilhe as conquistas na rede

EU ACHO …

PERNAS PRA QUE TE QUERO

Já quis ter olho claro, rosto largo, nariz menor, isso aos 13. Muitos aniversários depois, eu queria ter menos celulite, barriga chapada, nenhum sinal de expressão em torno da boca. E passaram-se outros tantos anos, até entender que, se eu não estava disposta a fazer nenhuma intervenção estética, que parasse de pirar. Passei a tratar do que importa: me alimentar direito, usar protetor solar, cuidar dos dentes, maneirar no vinho e continuar caminhando uns 10 mil passos por dia.

Caminhar é minha obsessão — ainda não diagnosticada como transtorno. Bastam 60 minutos, fones de ouvido e o par de pernas que me coube.

Compridas, bem torneadas, minhas pernas nunca entraram na lista das minhas insatisfações, sempre deram pro gasto, mas agora estão recebendo atenção plena. São meu investimento a longo prazo. É delas que precisarei até 2061 — nenhuma garantia de que eu chegue lá, mas andar com fé, eu vou.

Há um ano, venho fazendo treino de força com um profissional que já conseguiu tonificá-las; daqui para frente, é manutenção sem descanso. Nesta fase da vida, tudo o que preciso é de pernas firmes. Passadas sólidas. Agachar. Sentar. Levantar. Pedalar. Correr — não por esporte, mas para escapar dos motoristas que não desaceleram diante da faixa de pedestre.

Subir as ladeiras de Ouro Preto. Descer a escadaria da Sacre Coeur. Cruzar Roma de bicicleta. Ir do Leblon ao Arpoador pelo calçadão. E, na volta, desembarcar do avião no aeroporto Salgado Filho, até chegar à esteira de bagagens: só aí, dá uns dois quilômetros.

Desfilar numa escola de samba. Chutar uma bola que apareceu do nada. Nadar. Me equilibrar em cima de uma prancha de stand up paddle.

Dançar com ele. Dançar sozinha na sala como se estivesse no clipe de fim de ano da Globo. Saltitar durante a música escolhida para o bis do show, que nunca é lenta. Aplaudir de pé as peças que me arrebatam (e as que não arrebatam, por educação). Aplaudir de pé Fernanda Montenegro só de vê-la atravessar a rua.

Percorrer os corredores do supermercado. Aguardar na fila de autógrafos do meu autor favorito. Descer até a portaria do prédio para pegar a pizza. Passear com o cachorro.

Ficar na ponta dos pés para alcançar o livro na prateleira mais alta da estante. Sexo precisa de pernas? Lembrei, costumam ser úteis.

Tem uma garotada que se estressa com rugas inexistentes e surta diante do espelho por besteira, sem perceber

que nada será mais valioso, ali na curva do tempo, do que a autonomia. Muitos cadeirantes são mais ativos que a turma dos sedentários. A geração millennium é rápida na digitação, mas está sempre sentada, deitada, cansada. Eles procuram acessar o futuro nas telas, quando bastaria abrir a porta de casa e sair.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

ESTAR BEM

PARA EMAGRECER, O IDEAL É FAZER EXERCÍCIOS MAIS TARDE

Estudo mostrou que evitar atividades pela manhã e optar pelo horário vespertino ou noturno traz melhor controle da insulina

Fazer exercícios físicos regularmente, independentemente do horário, é fundamental para manter em dia a saúde física e mental. Entretanto, um novo estudo acaba de revelar que, para quem tem a meta de emagrecer, o ideal é ir à academia à tarde ou à noite, em vez de pela manhã.

Pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Leiden, na Holanda, analisaram quase 7 mil pessoas, com idades entre 45 e 65 anos. A maioria dos voluntários tinha um índice de massa corporal (IMC) de 27 ou mais, o que indica excesso de peso ou obesidade. Havia ainda um grupo de controle com peso considerado saudável.

Os participantes foram submetidos a um exame físico durante o qual foram coletadas amostras de sangue para medir os níveis de glicose e insulina em jejum e depois de comer. Os voluntários também responderam questões sobre estilo de vida e alguns foram selecionados aleatoriamente para ter seu acúmulo de gordura no fígado avaliado.

Um grupo aleatório de 955 pessoas também recebeu um acelerômetro (medidor de velocidade e distância usado no pulso) e um monitor de frequência cardíaca combinados para usar por quatro dias e noites consecutivos para acompanhar os níveis de movimento e atividade. Destas, cerca de 775 pessoas que forneceram dados completos foram incluídas em uma análise.

NÍVEIS DE INSULINA

Os resultados mostraram que aqueles que fizeram atividade física de intensidade moderada a vigorosa apresentaram redução do teor de gordura no fígado e de resistência à insulina. Quanto ao horário da prática, fazer exercícios à tarde ou à noite foi associado à redução da resistência à insulina em 18% e 25%, respectivamente, em comparação com uma distribuição uniforme da prática ao longo do dia.

Não houve diferença significativa na resistência à insulina entre a atividade matinal e a atividade distribuída uniformemente ao longo do dia, revelou o estudo publicado na revista científica Diabetologia.

A resistência à insulina ocorre quando as células dos músculos, gordura e fígado lutam para responder ao hormônio e não conseguem absorver facilmente a glicose do sangue, levando a um acúmulo maior de açúcar em circulação na corrente sanguínea.

Além de aumentar o risco de diabetes tipo 2, a resistência à insulina também pode levar ao ganho de peso. Portanto, obter um melhor controle desse marcador também contribui para a silhueta, de acordo com os pesquisadores.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ALIMENTOS ULTRAPROCESSADOS SÃO ALTAMENTE VICIANTES

Estudo aponta que este tipo de comida atende aos mesmos critérios de vício que classificaram o tabaco como prejudicial

Uma questão que pesquisadores do mundo inteiro debatem há anos é se alimentos ultraprocessados podem ser viciantes. Estudos já comprovam que para uma dieta saudável, a fim de evitar riscos de doenças como diabetes ou cardiovasculares, eles são um dos principais inimigos. Entretanto, uma nova análise feita pela Universidade de Michigan e da Virginia Tech mostrou que eles podem ser viciantes, tanto quanto o vício que as pessoas tem no tabaco.

Os cientistas se basearam em critérios usados há mais de três décadas que estabeleceu como o tabaco era viciante e aplicou nos alimentos. Segundo eles, batatas fritas, biscoitos, refrigerantes e salgadinhos atendem aos mesmos critérios usados para identificar o cigarro como substância viciante.

Ou seja, eles desencadeiam o uso compulsivo nas pessoas, quando elas são incapazes de parar ou reduzir o consumo, mesmo diante de doenças com risco de vida; eles podem mudar a maneira como nos sentimos e causar alterações no cérebro de magnitude semelhante à da nicotina nos produtos do tabaco; são altamente reforçados e desencadeiam desejos intensos em nós e no nosso organismo.

“Identificar que os produtos do tabaco eram viciantes realmente se resumia a esses quatro critérios, (que) resistiram a décadas de avaliação científica. Quando percebemos que os produtos de tabaco eram viciantes, percebemos que fumar não era apenas uma escolha adulta, mas que as pessoas estavam ficando viciadas e não conseguiam parar mesmo quando realmente queriam. A mesma coisa parece estar acontecendo com pessoas cuja dieta possui grande quantidade de alimentos processados e isso é particularmente preocupante porque as crianças são um dos principais alvos da publicidade desses produtos”, explica Ashley Gearhardt, professora associada de psicologia da Universidade de Michigan e principal autora do estudo, em comunicado. Dietas pobres dominadas por alimentos altamente processados agora contribuem para mortes evitáveis no mesmo nível dos cigarros. Semelhante aos produtos do tabaco, a indústria de alimentos projeta suas comidas altamente processadas para serem intensamente recompensadoras e difíceis de resistir.

A capacidade dos alimentos altamente processados de fornecer rapidamente altas doses não naturais de carboidratos refinados e gordura, segundo os pesquisadores, pode ser a chave para seu potencial viciante.

“É hora de parar de pensar em alimentos altamente processados apenas como alimentos, mas como substâncias altamente refinadas que podem ser viciantes”, disse Alexandra Di Feliceantonio, professora assistente do Fralin Biomedical Research Institute na Virginia Tech.

MORTES PREMATURAS

Recentemente um estudo brasileiro feito por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo), da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e da Universidade de Santiago de Chile mostrou que as mortes prematuras de pessoas entre 30 e 69 anos estão associadas ao consumo excessivo de alimentos ultraprocessados.

Segundo a análise, são mais de 57 mil óbitos por ano relacionados a este motivo. O número supera o de mortes por homicídio (45,5 mil óbitos em 2019, segundo o Atlas da Violência).

“O consumo de alimentos ultraprocessados representa uma importante causa de morte prematura no Brasil. A redução da ingestão de alimentos ultraprocessados promoveria ganhos substanciais de saúde para a população e deveria ser uma prioridade da política alimentar para reduzira mortalidade prematura”, concluíram os autores no estudo.

OUTROS OLHARES

POUCOS CARREGADORES, VÁRIOS TIPOS DE CONEXÃO E POLÊMICAS SEM FIM

Apple vende celular sem acessório, mesmo após decisão judicial. Outras marcas adotam prática similar. No mundo, cresce pressão por padronização

Os carregadores dos smartphones vêm ganhando papel de destaque na hora da compra de um novo celular. Isso porque as duas principais marcas em atuação no mercado brasileiro, Apple e Samsung, estão vendendo seus modelos sem os chamados adaptadores de alimentação, em um movimento que já ocorreu com os fones de ouvido há alguns anos.

A palavra final, ao que tudo indica, caberá à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Enquanto analisa o caso, a venda sem carregador é permitida, afirma a agência reguladora.

O tema voltou ao centro do debate quando, às vésperas do lançamento do novo iPhone 14, a Justiça determinou que a Apple reembolse ou entregue o carregador a quem comprou o aparelho sem o acessório. A sentença estipulou ainda uma indenização de R$100 milhões a ser depositada em um fundo de direitos difusos.

APPLE BUSCA SOLUÇÃO

A Apple, no entanto, já recorreu da decisão, obtida pela ação civil pública impetrada pela Associação Brasileira dos Mutuários, Consumidores e Contribuintes. No entanto, se ao fim do processo for confirmada a sentença, todos os consumidores brasileiros poderão se beneficiar da decisão.

A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), órgão do Ministério da Justiça, também disse que poderia impor nova punição milionária à gigante americana por descumprir a suspensão de venda de aparelhos sem carregador, determinada em 6 de setembro. Revendedores da marca foram notificados sobre a possibilidade de multa. A Senacon já multou a Apple em R$ 12 milhões. O recurso interposto pela empresa suspendeu a punição, mas o mérito ainda está em análise no Ministério da Justiça.

Procurada, a Apple afirma, em nota, que “os modelos de iPhone vendidos no Brasil estão em conformidade com os regulamentos locais”. A gigante americana diz estar trabalhando com a Senacon em uma solução. Mas informa que já ganhou várias decisões judiciais no Brasil sobre esse assunto.

A empresa ressalta ainda sua preocupação ambiental, destacando que a retirada do carregador na venda de novos aparelhos reduz o uso de zinco e plástico e ajudou a empresa a diminuir a emissão de mais de 2 milhões de toneladas métricas de carbono.

O imbróglio enfrentado hoje pela Apple também atingiu a Samsung há alguns meses. A fabricante coreana, no entanto, firmou um acordo como Procon-SP. A Samsung explica que os compradores dos aparelhos Galaxy Z Flip3, Galaxy Z Fold3, famílias Galaxy S21 e Galaxy S22 5G podem solicitar o resgate de carregador gratuitamente pelo site, cadastrando a nota fiscal e o IMEI do produto. A empresa informou que os demais modelos da marca vêm com o carregador.

A polêmica dos carregadores não é uma exclusividade do Brasil. A chinesa Xiaomi, uma das maiores fabricantes de celulares do mundo, já vende diversos aparelhos das linhas Redmi e Mi sem o carregador na China e na Índia, o que tem gerado queixas de clientes e órgãos de defesa do consumidor desses países. No Brasil, por enquanto, a empresa ainda vende os aparelhos com o acessório.

“Há de fato uma preocupação com a agenda ambiental nas empresas, com a redução do lixo eletrônico, mas elas precisam trabalhar melhor essa imagem para não criar a sensação de que é apenas corte de custo”, avalia Ingrid Queiroz, sócia da área de telecom da PDk Advogados.

CONEXÕES DIFERENTES

O argumento usado pela Apple de que há “bilhões de adaptadores de energia USB-A já em uso em todo o mundo” que podem servir para carregar os aparelhos de seus clientes também cria controvérsia. Isto porque, ao longo do tempo, os fabricantes vêm investindo em diferentes tipos de conexão entre o carregador (adaptador de alimentação) e o cabo de carga.

Hoje, os principais padrões são o tradicional USB, USB-micro, USB-A, USB-C e o chamado Lightning.

Para a advogada Renata Abalém, diretora do Instituto de Defesa do Consumidor e do Contribuinte (IDC) e membro da Comissão de Direito do Consumidor da OAB/SP, um ponto crítico da retirada do carregador é justamente que isso ocorre em um momento de mudança de padrões entre novas gerações de aparelhos:

“O aparelho vem sem o carregador, mas o que eu tenho em casa, do meu celular antigo, não encaixa. As empresas não fizeram ampla comunicação.

Além disso, a diferença de conexões entre as marcas dificulta que se use o carregador de um fabricante que não seja o do aparelho.

Especialistas explicam que as empresas têm estratégias diferentes. A Samsung migrou há alguns anos os padrões USB e Lightning para o USB-C. Já a Apple tem hoje os padrões USB-C e Lightning. A Motorola investe no USB-C. A Xiaomi tem os padrões USB-A e USB-C. Já a Realme tem USB-C e USB-micro.

Também smartphones, tablets, relógios e laptops têm diferentes conexões paa carregamento.

BRASIL ANALISA PADRÃO

Como forma de ajudar a reduzir o volume de lixo eletrônico, principal argumento dos fabricantes para retirar o carregador da caixa do celular, a União Europeia (UE) determinou, no início deste mês, a padronização da entrada USB-C para todos os aparelhos a partir de 2024.

Na última quarta-feira, a Apple anunciou que os próximo iPhones já virão com a porta USB-C, a mesma usada pela Samsung, em cumprimento à determinação do bloco.

“O avanço da tecnologia vai ser sempre com base em dois ou três padrões em separado. As empresas nunca chegam a um acordo. Isso faz parte do mundo da tecnologia, mas estamos caminhando para o padrão com USB-C”, afirma André Gildin, da RKKG Consultoria.

A padronização no Brasil também está em estudo. A Anatel realizou uma consulta pública sobreo tema e, agora, analisa as contribuições. A reguladora, no entanto, diz que ainda não há data para a conclusão desse estudo.

VEJA AS PRINCIPAIS DÚVIDAS

AS EMPRESAS PODEM VENDER APARELHOS SEM O CARREGADOR (ADAPTADOR DE ALIMENTAÇÃO)?

Sim. Hoje, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) libera a venda sem o carregador. Porém, o órgão regulador está analisando o tema, após pedido da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon).

QUANTO PODE CUSTAR UM CARREGADOR?

Os adaptadores de alimentação custam a partir de R$ 150 e podem chegar a R$ 500.

POSSO USAR QUALQUER CABO PARA CARREGAR O CELULAR?

Não. As marcas têm diferentes padrões de carregamento entre o aparelho celular e o carregador (adaptador de alimentação). Entre as conexões, há saídas como USB, USB-micro, USB-A, USB-C e Lightning.

A ANATEL HOMOLOGA TODOS OS CARREGADORES À VENDA NO BRASIL?

Sim. O carregador deve ter o selo da Anatel como número do certificado de homologação. A autenticidade pode ser verificada no site da agência (bit.ly/2kO3Mxm).

QUAIS OS RISCOS DE USAR UM CARREGADOR QUE NÃO CONTA COM O SELO DA ANATEL?

Há risco de queimar o smartphone e até de explosões por conta do superaquecimento do aparelho.

POSSO USAR CARREGADOR DE OUTRAS MARCAS MESMO CERTIFICADOS PELA ANATEL?

É possível utilizar carregadores e cabos de outras marcas certificados pela Anatel. No entanto, a recomendação é que se use carregador e cabo originais da marca do aparelho. Isso porque os fabricantes vêm investindo em carregadores que permitem completar a bateria em poucos minutos – o chamado carregamento super-rápido. Isso ocorre porque o processador do smartphone conta com uma arquitetura para receber a carga específica daqueles carregadores, garantindo máxima eficiência.

POSSO PERDER A GARANTIA DE FÁBRICA SE NÃO USAR O CARREGADOR ORIGINAL?

Sim. De acordo com advogados, caso o celular sofra avarias pelo uso de um carregador não original, a empresa pode alegar mau uso e cancelar a garantia.

CADA MARCA TEM UM TIPO DE CONECTOR PARA CARREGAMENTO. HÁ DISCUSSÃO DE PADRONIZAÇÃO?

A União Europeia determinou o conector USB-C como padrão para carregamento de aparelhos a partir de 2024. No Brasil, houve uma consulta pública, mas as contribuições ainda estão em análise.

JÁ POSSO ME BENEFICIAR DA DECISÃO JUDICIAL QUE GARANTE O CARREGADOR A CLIENTES DA APPLE?

A Apple recorreu da decisão liminar obtida pela ação civil pública, impetrada pela Associação Brasileira dos Mutuários, Consumidores e Contribuintes, que garante o reembolso ou entrega do carregador. Todos os consumidores brasileiros poderão se beneficiar da sentença, mas só se ela for confirmada ao fim do processo. Para tanto, é preciso ter a nota fiscal do aparelho e do carregador, caso tenha sido comprado separadamente.

A QUEM POSSO RECLAMARA FALTA DO CARREGADOR?

No caso da Samsung, pode-se requerer o carregador pelo site da empresa, que se compromete com o envio sem custo em até 30 dias. Quem não conseguir obter o carregador, independentemente da marca, pode registrar queixa no Procon ou pelo portal de intermediação de conflito da Senacon, o Consumidor.gov.br.

GESTÃO E CARREIRA

PARA RETER TALENTOS, EMPRESAS SE PROPÕEM A REALIZAR SONHOS DOS FUNCIONÁRIOS

Companhias fazem entrevistas periódicas para conhecer os maiores desejos de seus trabalhadores e tentar realizá-los

Quando era estagiário, Tercio Farias aplacou o sonho de um colega de trabalho sem querer. “Aquilo me arrasou”, conta. O episódio, no entanto, plantou a semente daquilo que viria a ser o propósito da Villa Camarão: um meio para transformar vidas e realizar sonhos. Hoje, CEO da companhia, o empresário contribui para tornar realidade alguns desejos dos funcionários, promovendo conexão e engajamento.

De forma estratégica, ele entende que perguntar o sonho de cada empregado ajuda no autoconhecimento da pessoa e faz a empresa compreender seu papel na oferta de desenvolvimento profissional.

O engajamento promovido traz benefícios e, consequentemente, leva à satisfação dos clientes. “O time vai se preocupar com o resultado do cliente, vai cuidar, entender como vender mais”, diz Farias. “Se o cliente tem um bom produto, vai comprar mais vezes.”

Práticas como essas de humanização no trabalho geram satisfação e fazem parte das políticas de empresas reconhecidas no Prêmio Gupy Destaca. A premiação acaba de divulgar as 100 companhias com os RHs mais inspiradores do Brasil, entre elas a Copastur, que figura no ranking pelo segundo ano consecutivo.

Na empresa de viagens e turismo, o time de pessoas e cultura também pergunta aos funcionários três sonhos, além do chocolate e de uma comida preferida. As respostas são usadas para ações especiais, como no anúncio de uma promoção. Fernanda Souza, por exemplo, era recepcionista e tinha o sonho de viajar de avião pela primeira vez. Quando foi promovida, teve a surpresa de ver a mãe e a filha na companhia para lhe entregar uma caixa com o chocolate favorito dela, fotos de pessoas queridas e uma passagem aérea.

“Não imaginei que teria um dos sonhos realizado. Ver minha família aqui fez toda diferença”, diz ela, que se sente mais valorizada, autoconfiante e orgulhosa de si. Fernanda estava há um ano na Copastur e afirma que esse reconhecimento é estimulante. “Venho me desenvolvendo mais a cada dia, já tive mais duas promoções. Dou meu melhor para estar sempre conquistando o que almejo e agora olho o futuro de forma diferente.”

A supervisora de pessoas e cultura na Copastur, Areli Petta, diz que a iniciativa está conectada ao propósito da empresa. “Entendemos que precisávamos anunciar a promoção de forma mais humanizada e tocar mais o funcionário”, comenta. “Envolver o familiar, seja por vídeo, pessoalmente, por carta ou fotos, e estar próximo do colaborador facilita a gente entender a história dele, do que ele gosta.”

ESTRATÉGIA DE NEGÓCIO

Pesquisa da Gupy, em parceria com a Ideafix, mostrou que 40% dos 1 mil RHs entrevistados estão investindo em humanização de processos. Porém, só 14% dizem ter práticas personalizadas para gestão de pessoas. O diretor de recursos humanos, Gianpiero Sperati, diz que os dados refletem o aprendizado das empresas de como equilibrar o “fazer humanizado” com uso da tecnologia.

“São algumas fases pelas quais o RH passa.” Alguns anos atrás, diz ele, era tudo feito por pessoas. “No modelo de tecnologia, tudo é feito de forma massificada. Agora estamos entrando na fase 3.0, usando tecnologia personalizada.” Como não há consenso sobre o que é humanização no trabalho, as ações são intuitivas. Ele diz que a prática passa por olhar cada um mais como pessoa, e menos como funcionário ou número na estrutura empresarial. “É preciso entender que as pessoas têm ciclos e momentos diferentes, que existe curva de adaptação e aprendizagem que traz olhar humano para o trabalho.”

Na Betterfly, plataforma que estimula hábitos saudáveis, o propósito também é levado para dentro da empresa. Entre os valores da companhia, um deles é o sonhar grande, que se materializa com o programa Dreams Come True. Todo ano, três funcionários são sorteados para terem um sonho realizado. Outra iniciativa é o Sports Buddy, que incentiva a prática de atividade física e tem um teto de custo para apoiar jornadas.

Quem deseja correr uma maratona ou participar de um concurso de dança, por exemplo, pode receber suporte financeiro e treinamento com profissionais da modalidade. Jin Klaus Terada, gestor de contas da empresa, foi um dos beneficiados. Adepto às aventuras na natureza, ele uniu o bem-estar à realização de um sonho: escalar o Nevado Sajama, o monte mais alto da Bolívia. A viagem foi custeada pela companhia.

A chefe de pessoas e cultura da Betterfly Brasil, Virginia Vairo, diz que, para construir a cultura humanizada, a empresa realiza ações mensais com funcionários. Há desde formação de líderes, grupos de conversa e projetos de voluntariado.

BENEFÍCIOS

Para Ingrid Rapold, chefe de pessoas da Villa Camarão, a estratégia focada nos sonhos é uma forma de reter talentos. “As pessoas estão pedindo demissão porque o trabalho não faz mais sentido. Não olhar para isso é estar por fora do que está acontecendo no mercado. A pessoa não está buscando única e exclusivamente uma remuneração.”

Ela cita o exemplo de um funcionário que entrou na companhia como vendedor e desejava comprar uma casa para a avó. A empresa não deu o imóvel, mas contribuiu para a viabilidade dele. Com um plano e desempenho, o profissional evoluiu e se tornou sócio, tendo realizado o que almejava.

Areli Petta, da Copastur, afirma que proporcionar experiências únicas em momentos que a pessoa não espera é um diferencial. Na Betterfly, o retorno é visto na qualidade das relações e nas pesquisas semanais acerca de ações realizadas. “Numa escala de 1 a 5, nossa meta é 4 e temos ficado sempre acima. Ouvimos muito as pessoas”, diz Virginia.

EU ACHO …

GENTE QUE OSCILA

O fleumático é uma linha reta; o ciclotímico, uma montanha-russa.

Os ingleses valorizam o termo fleumático. A palavra descreve alguém sem grandes oscilações emocionais, um pouco indiferente às adversidades cotidianas. Existe até uma expressão para falar de alguém com quem se pode contar em qualquer temperatura: “a man for all seasons”, ideia aplicada em peça e filme ao filósofo Thomas Morus.

Médicos antigos descreviam o temperamento baseados na teoria dos quatro humores básicos do corpo. Os humanos com mais fleuma seriam calmos, um pouco lerdos, imperturbáveis. Os tipos opostos seriam os sanguíneos e os coléricos. Para a cultura tradicional de um bretão, ser fleumático é uma virtude moral. Os hooligans, em eventos esportivos, mostram que ser tranquilo é um ideal cultural, mais do que uma realidade absoluta.

A cultura brasileira comporta maior tolerância com oscilações. Uma pessoa diz que viria a minha casa e manda mensagem dizendo que, “devido à chuva”, mudou de ideia. Não havia cláusula pluviométrica no nosso combinado, todavia aceitamos que alguém possa “descombinar” o acertado – sem dramas profundos. Não sei qual líquido específico confere personalidade ao sistema circulatório brasileiro, apenas entendo que aceitamos muito a oscilação.

Há palavras que possuem data de nascimento no meu cérebro. Lembro-me de, em um e-mail, quando trabalhava para um banqueiro, ler o termo ciclotímico pela primeira vez. Não era uma análise psiquiátrica ou descrição de um distúrbio. Era apenas a advertência sobre uma personagem importante que eu iria encontrar.

O dono do banco me advertia: “Ele é ciclotímico”. Procurei no dicionário e fui ao encontro. O fleumático é uma linha reta; o ciclotímico, uma montanha-russa. De novo: não estou usando o termo no seu conteúdo técnico de algum tipo de bipolaridade. O indivíduo assim descrito era aquele que dava “ok!” para tudo que era dito na reunião e, no dia seguinte, dizia que tinha mudado de ideia. Não era um candidato à ajuda profissional. Era um… brasileiro.

Vou defender os que oscilam. Quando vemos os planos de outra pessoa, suas ideias, disposições e propósitos, podemos aderir com certo entusiasmo. Depois, sozinhos, pesamos os argumentos ouvidos. Encontramos falhas na ideia. Surge um “cansaço prévio” para nossa cota de esforço. Usando a linguagem de Hamlet, “a consciência nos torna covardes”. Não ficamos mais fracos, apenas, talvez, mais prudentes.

Claro: o ideal no campo do trabalho e na vida pessoal é pesar tudo isso quando apresentado. Seria útil ouvir os argumentos sem fechar o negócio, sem aceitar a viagem familiar, sem entregar o valor pedido na emotividade instantânea da demanda apresentada.

Deveríamos incorporar o hábito de ouvir convites, sorrir e dizer que consideraremos com o máximo de atenção e daremos a resposta em pouco tempo. Se for pesado o protelamento, basta culpar terceiros: “Preciso perguntar à minha esposa, preciso consultar meu gerente de investimentos, terei de ver com o departamento X… etcétera, etc.” Um sim imediato tem alguma chance de ser precipitado e, tendo de voltar atrás, mesmo no Brasil, ficarei com a fama de ciclotímico ou “enrolado”.

Não somos ingleses. Temos uma quase solene indiferença ao horário. Nosso humor oscila mais aqui nos trópicos do que no aprazível vilarejo de Bourton-on-the-Water. Lá, a última grande angústia deve ter sido a chance de os bombardeios alemães atingirem a região de Cotswolds em 1940…

Aqui em São Paulo ou no Recife, a natureza, os criminosos, o governo e outros fatores fazem a fleuma ferver com maior facilidade. Uma partida de críquete favorece gente calma…

Quando eu digo que estarei em uma festa de casamento daqui a dois meses, estou estabelecendo um compromisso formal que ignora toda e qualquer mudança nos próximos sessenta dias. O aceite seguido do futuro é taxativo: “Sim,  eu irei!” O futuro é estranho ao comum da nossa fala. Preferimos o gerúndio ou algum termo que implique a possibilidade de mudança. “Eu vou ver se dá” é muito Brasil. “Se eu puder, eu ligo para você no dia.” São frases que podem ser traduzidas para o inglês ou alemão, todavia jamais serão compreendidas. Nossos termos garantem tal chance de revogação do contrato que fazem a glória de quem deixa para decidir segundo o clima do dia do evento e a morte de quem necessita planejar algo.

A questão com a qual encerro é mais subjetiva e está além das Ilhas Britânicas ou do nosso país. As culturas apresentam oscilações de práticas, e as linguagens registram as variáveis. Porém, em qualquer língua, se alguém disse que “vai ver se dá”, diante de um convite seu, é óbvio que a pessoa está esperando algo melhor para realizar até lá.

Quase sempre, mesmo levando em conta os humores de Hipócrates, há uma chance de você ser opção e não prioridade. A amizade é uma esperança que não oscila.

LEANDRO KARNAL – É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras e autor de ‘A Coragem da Esperança’, entre outros

ESTAR BEM

BIOESTIMULADORES DE COLÁGENO SÃO USADOS NO CORPO CONTRA FLACIDEZ

Produtos deixam a pele mais firme e podem dar volume e projeção, mas não substituem os exercícios físicos

Utilizados há mais de uma década para firmar a pele e promover um efeito lifting no rosto e no pescoço, os bioestimuladores de colágeno começam a ser injetados em pontos estratégicos do corpo para reduzir a flacidez. Empinar o bumbum e enrijecer áreas como barriga e coxas são algumas das promessas. As substâncias têm diferentes nomes comerciais e são derivadas de componentes como ácido polilático (Sculptra) e hidroxiapatita de cálcio (Radiesse).

“Os bioestimuladores atuam na derme, e não no músculo. Eles tornam mais firme aquela pele que continua flácida mesmo com musculação, mas não substituem os exercícios físicos”, afirma Herbeth Sobral, dermatologista da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia) que atende na Clínica Mais, em São Paulo.

O colágeno é uma proteína produzida naturalmente pelo corpo humano. Entre suas funções estão a sustentação e a firmeza da pele. Como a produção diminui a partir dos 25 anos, os tecidos vão se tornando mais flácidos.

Para frear essa ação, os médicos utilizam bioestimuladores em regiões que evidenciam a ação do tempo: no abdômen, para corrigir o chamado “umbigo triste”; na parte interna das coxas e dos braços; e no dorso das mãos, onde a pele é muito fina e enruga mais rapidamente.

Nas nádegas, os bioestimuladores funcionam como curinga. Dependendo da técnica, o tratamento pode dar projeção, volume e até melhorar o aspecto da celulite.

“Nós aplicamos em pontos específicos, onde a produção de colágeno será maior. Isso cria vetores de força na pele e, assim, conseguimos o resultado desejado”, diz Sobral. Uma das pacientes mais famosas de Sobral e adepta do procedimento é a cantora Anitta, 29.

“Ela emagreceu bastante, isso gerou um pouco de flacidez, que foi tratada com bioestimulador. Também conseguimos dar uma empinada e melhorar a celulite”, conta.

Outra celebridade que faz tratamento com bioestimulador de colágeno é a apresentadora Sabrina Sato, 41.

O objetivo dela, que tem pouca flacidez, era desacelerar o processo de envelhecimento, dar projeção e volume no bumbum, diz o dermatologista Alberto Cordeiro, que cuida de Sabrina há 4 anos.

“Para conseguir esse efeito, a gente optou por usar uma concentração um pouco maior de produto e uma marcação que favorecesse o empinamento”, relata.

À reportagem, Sabrina diz que começou a fazer o procedimento após o nascimento da filha Zoe, de 3 anos.

“Depois da minha gestação, eu ia desfilar como rainha de escola de samba e, então, o doutor Alberto indicou o bioestimulador de colágeno para deixar a pele mais firme, dar um aspecto de ‘cola’ na barriga. Depois disso, já usei na mão, no pescoço… Eu brinco que tomo banho de Sculptra.” Cordeiro aponta que os resultados ficam evidentes um mês após a aplicação – é preciso esperar um tempo para o produto sintetizar o colágeno – e duram até dois anos. “A bioestimulação gera um pico de produção de colágeno e depois começa a cair. Para manter o resultado, eu proponho que a manutenção seja feita a cada um ano ou um ano e meio, mas isso vai depender da avaliação médica e de cada paciente”, afirma.

O dermatologista conta que atletas de alta performance e pessoas que fizeram cirurgia bariátrica são pacientes que se beneficiam do tratamento.

“No caso daqueles que fizeram bariátrica, perderam peso e ficaram com muita pele sobrando, às vezes é necessário passar por uma cirurgia plástica antes”, pontua. “Mas depois, ou mesmo durante a cirurgia, é recomendado aplicar o bioestimulador para os tecidos ficarem mais firmes.”

Já atletas com pouca gordura corporal podem ter um aspecto de pele flácida. “Com os bioestimuladores, conseguimos devolver a firmeza. Quando precisamos de mais volume, podemos associar o tratamento a preenchimentos de ácido hialurônico.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POR QUE NOS APEGAMOS A UM EMPREGO OU UM AMOR MESMO QUANDO O ERRO ESTÁ CLARO?

“Sou uma lutadora e não desisto”, disse Liz Truss, um dia antes de desistir e  renunciar ao posto de primeira-ministra do Reino Unido. Ela estava citando palavras do parlamentar Peter Mandelson, mais de duas décadas atrás, embora Mandelson tenha tido o bom senso de fazer essa declaração depois de vencer uma luta política, não em meio a uma derrota.

É curioso, porém. Ser um “lutador” não é inteiramente um elogio. Em certas circunstâncias, essa qualidade é apreciada, mas não é uma palavra que eu usaria em meu currículo ou em meu perfil do Tinder.

Já sobre o termo “desistir”, não há muita dúvida. É um insulto. Isso é estranho, porque não só há briga demais no mundo como também as pessoas nem de longe desistem tanto quanto deveriam. Somos teimosos demais, e nos apegamos a uma ideia, um emprego ou um parceiro romântico mesmo quando se torna claro que cometemos um erro.

Há poucas ilustrações melhores disso que a popularidade viral do “quiet quitting”, prática que leva jovens exaustos a se recusar a trabalhar fora do horário contratado ou a assumir responsabilidades que vão além de suas funções.

É um termo mais poético do que ser “folgado”, que é a maneira como nós, da geração X, teríamos descrito o mesmo comportamento há 25 anos. É também uma resposta compreensível ao excesso de trabalho e à remuneração insuficiente. Mas, se você estiver com excesso de trabalho e ganhar mal, a melhor resposta, na maioria dos casos, não seria o “quiet quitting”; seria simplesmente pedir demissão.  

Não digo isso para criticar a geração Z. Lembro-me de me sentir péssimo em meu trabalho, quando tinha 20 e poucos anos, e também me lembro da pressão social que havia para que eu criasse um currículo ordenado. Um currículo desordenado tem seus custos, é claro. Mas, se você é um jovem que acaba de se formar, passar dois anos de sua vida em um emprego que odeia, enquanto acumula habilidades, experiência e contatos em um setor no qual não planeja continuar, também tem seu custo. A maioria das pessoas me alertava sobre os custos de deixar o emprego; só os mais sábios me alertaram sobre os custos de não deixar um emprego.

Aquilo de que você desiste abre espaço para que tente algo de novo. Tudo a que você diz “não” é uma oportunidade de dizer “sim” a algo mais. Em seu novo livro, “Quit”, Annie Duke argumenta que, quando estamos ponderando se devemos ou não desistir, nossos vieses cognitivos tendem a adulterar a balança em favor da persistência. E a persistência é superestimada. O que são esses vieses cognitivos que nos empurram para a persistência quando deveríamos desistir?

Um deles é o efeito do custo irrecuperável, sob o qual tratamos os custos passados como um motivo para manter um determinado rumo.

Se você está em seu shopping favorito, mas não consegue encontrar nada que queira comprar, o tempo e dinheiro gastos no percurso até ali não deveriam pesar em seus cálculos. Mas não é o que acontece. Nós nos colocamos sob pressão para justificar o esforço que já fizemos indo até o shopping, mesmo que isso venha a significar um desperdício ainda maior. A mesma tendência se aplica a muita coisa, de relacionamentos a projetos multibilionários. Em vez de cortar o prejuízo, preferimos continuar a gastar para tentar recuperar o que perdemos.

O “viés de status quo” também tende a nos empurrar para a perseverança quando deveríamos desistir. Destacado em estudo de 1988 dos economistas William Samuelson e Richard Zeckhauser, o “viés de status quo” é a tendência de reafirmar decisões anteriores e se apegar ao caminho existente, em lugar de fazer a escolha ativa de tentar algo diferente. Há alguns anos, Steve Levitt, um dos autores de “Freakonomics”, criou um site no qual pessoas que precisavam tomar decisões difíceis podiam registrar seu dilema, jogar um cara ou coroa para ajudá-las a escolher e, mais tarde, retornar para dizer o que haviam feito e como se sentiam. Eram decisões muitas vezes pesadas, como deixar um emprego ou terminar um relacionamento. Ele concluiu que quem decidiu fazer uma grande mudança – ou seja, quem desistiu— estava significativamente mais feliz, seis meses depois, do que quem decidiu não mudar—ou seja, o lutador.

A conclusão: se você chegou ao ponto de recorrer a um cara ou coroa para ajudá-lo a decidir se deve ou não desistir de alguma coisa, já deveria ter desistido há algum tempo. “Melhor desistir do que lutar.” Não é um grande slogan político. Mas, como orientação para a vida, já vi piores.

OUTROS OLHARES

O ENEM E OS NEM-NEM

Porta de entrada para universidade sofre com redução do número de inscritos

Com um esvaziamento no número de inscritos há cinco anos, o Enem enfrenta o desafio de voltar a atrair o interesse dos estudantes. Se em 2016 o exame registrou a inscrição de 8,6 milhões de jovens e adultos, em 2021, chegou a 3,1 milhões, o menor desde 2005, que teve pouco mais de 3 milhões de inscritos. O cenário não mudou no exame deste ano, com 3,4 milhões de inscritos.

Para Gregório Grisa, especialista na área da educação, a crise econômica de 2015 e a pandemia ajudam a explicar a queda. No entanto, segundo Grisa, outros fatores políticos e socioeconômicos também têm contribuído para um interesse tão baixo no exame, que é a principal porta de entrada para o ensino superior.

O pesquisador enumera problemas como a baixa expectativa da juventude em relação à universidade, a entrada mais cedo no mercado informal de trabalho de jovens em situação mais vulnerável e programas de financiamento defasados. Para Grisa, o Fies precisa de uma reformulação e o Prouni conta com um alcance modesto.

“É um fenômeno multicausal. O perfil do nosso sistema de ensino superior, majoritariamente privado, é pouco atrativo para um volume muito grande da juventude de classe média baixa e mais pobre. Ter uma chance remota de entrar nas instituições públicas faz com que os estudantes repensem essa possibilidade”, afirma.

Grisa diz que o fenômeno “nem-nem” (jovens que não estudam nem trabalham) mostra o desinteresse.

“O Brasil tem uma proporção de nem-nem elevada. O ensino superior não é uma prioridade vital de parte dessa juventude. Não temos um ecossistema de políticas de juventude robusto, com o acompanhamento da continuidade dos estudos, da conclusão do ensino médio e da ida ao ensino superior”, detalha.

DESLEGITIMAÇÃO

O professor lembra que houve nos últimos anos um forte movimento de deslegitimação das universidades públicas, encabeçado, sobretudo, pelo presidente Jair Bolsonaro e apoiadores:

“Bolsonaro sempre tratou a universidade como uma inimiga. Questionou muito tudo o que envolve a universidade pública, a ciência, o conhecimento. Retaliou essas instituições em alguns momentos.

Coordenadora do Laboratório sobre Acesso e Permanência na Educação Superior da UFF, Hustana Vargas diz que nos últimos três anos o decréscimo foi preocupante também entre pretos, pardos e indígenas. Ela diz que houve vários equívocos do Ministério da Educação na gestão Bolsonaro:

“Desde 2019, problemas em série ocorreram: divulgação incorreta de notas, mudanças sucessivas na gestão do Inep, baixíssimo índice de isenção nas instituições, suspeitas de controle ideológico nas provas, fora o abandono a que a maioria dos candidatos foi submetida na pandemia, pela ausência de uma coordenação central da educação nesse período.

ALTERNATIVAS AO SISU

Segundo a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), todas as universidades federais têm hoje entrada pelo Enem. Mas algumas, como a UnB, a Universidade Federal do Pará e a Universidade Federal do Piauí, decidiram fazer a seleção desses estudantes através de sistemas próprios, fora do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), do MEC, utilizado pela maioria das instituições.

Decisão parecida foi tomada pela USP. A reitoria explicou que a mudança, aprovada por todo o seu conselho, tem como objetivo possibilitar que o estudante aprovado via Enem possa fazer sua matrícula com quem ingressa pelo vestibular da Fuvest, não dependendo do sistema e do calendário do Sisu.

“Vamos continuar utilizando o Enem, mas inserindo a nota em novo modelo que permitirá maior agilidade e abrangência no processo de chamada e de matrícula dos novos estudantes”, explicou o reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti Junior, em nota.

Hustana explica que por causa do descompasso no calendário causado pela demora na divulgação de resultados do Sisu, algumas instituições já começaram a atribuir as notas do Enem a sistemas próprios, alternativos ao do MEC.

“Não existe Sisu sem Enem, mas existe o Enem sem Sisu”, resume a professora da UFF.

GESTÃO E CARREIRA

EQUIPES DE ALTA PERFORMANCE: COMO LIDERAR SOB UMA ÓTICA DISRUPTIVA

Que tipo de líder você é? O que desafia o status quo? Ou é daqueles que se sentem confortáveis com as coisas do jeito como elas são?

Como líder, pode ser tentador adotar uma mentalidade de ficar na zona de conforto quando tudo vai bem e os problemas são ocasionais.

Porém, uma gestão assim não tem nada a ver com o mindset disruptivo. O líder que tem a disrupção como base precisa ter uma mentalidade de crescimento, que se concentra nos aspectos positivos das mudanças. É curioso, tem a mente aberta e não teme incertezas.

Não há como negar: líderes disruptivos são a antítese da complacência e, mais do que isso, são catalisadores da inovação. O mindset disruptivo é uma oportunidade, pronta para abraçar as demandas do seu público-alvo. Afinal, novos mercados e soluções não surgem sem uma liderança forte e disposta a correr riscos, a errar, a ampliar o sucesso…e a romper com velhos padrões.

Veja, a seguir, algumas estratégias para colocar em prática a liderança disruptiva:

LIDERE COM PROPÓSITO

Mais do que fazer o que precisa ser feito, há quem queira fazer a diferença. E um levantamento da Mckinsey prova isso. Na pesquisa, 70% dos entrevistados disseram buscar propósito em seu trabalho. Só 15% deles, no entanto, o encontraram – e isso impacta a motivação de qualquer grupo.

Tão necessário quanto falar sobre objetivos e estratégias é conversar com a equipe sobre as transformações que cada talento pode realizar. Vale destacar, também, os impactos em contextos externos, especialmente se eles envolvem valores como inclusão, bem comum e sustentabilidade. Cuidado, porém, com discursos vazios.

Só mencione o que realmente integra a cultura organizacional e se encaixa nos seus princípios enquanto líder.

INSPIRE

No livro “Comece pelo porquê”, Simon Sinek faz distinções interessantes. Segundo ele, ser líder nada mais é do que assumir um cargo alto no organograma. Já liderar tem significados amplos que influenciam no comportamento do seu time. Ou seja, potencializar um grupo requer desconstruir noções de poder e hierarquia, tirando de cena o chefe que dá ordens para entrar o gestor que norteia com expertise, bons exemplos, histórias de superação.

O resultado mais evidente desses diálogos é a construção de relações mais fluidas, assim como um maior número de adesões a projetos corporativos por identificação – não obrigação.

APOIE SEU TIME

Frisar a importância do trabalho em equipe pode ser um clichê. Mas números do próprio mercado comprovam que o lema “um por todos e todos por um” segue atual. Segundo dados da Deloitte, 53% das organizações que trocam operações individuais por atuações em conjunto alcançam desempenhos de mercado superiores.

Algo semelhante atestou o ADP Research Institute apontando que, quando aliados uns aos outros, profissionais se engajam duas vezes mais ao trabalho. Potencializar resultados então, depende de escalar o time certo e promover a cooperação (não a rivalidade) entre seus membros.

SE ABRA AOS FEEDBACKS

Para 41% dos profissionais no mercado, habilidades de comunicação e boas relações interpessoais não podem faltar aos melhores líderes. Ao mesmo tempo, a capacidade de coordenar e oferecer feedbacks foi mencionada por mais de 21% das pessoas.

Os números aparecem num relatório da Training Industry e mostram que tão importante quanto a boa escuta é a capacidade de transformar informações em possibilidades. Portanto, seja o líder que se interessa pelo desenvolvimento dos processos, considere os insights da sua equipe e avalie, inclusive, a necessidade de mudar rotas. O caminho para o sucesso também tem curvas, paradas e retornos.

“LIDERE, MAS SAIA DO CAMINHO”

A frase de Brent Gleeson, autor de Taking Point e coach empresarial, tem significado simples: dê autonomia a seus liderados. A dinâmica de empoderar equipes nos faz lembrar que times capazes de se mover com poucas intervenções são originados a partir de lideranças sólidas.

E aqui vale citar Tom Brady: “Minha função é ser o melhor que posso para o time, não para mim mesmo”.

Fonte: Thaisa Passos – É gerente de Marketing global da S.I.N.

www.sinimplantsystem.com.br

EU ACHO …

O SUPERESTIMADO VALOR DA PERSISTÊNCIA

Por que muitas vezes o melhor é simplesmente desistir

“Sou uma lutadora, não uma desistente”, disse Liz Truss, ex-primeira-ministra do Reino Unido, um dia antes de desistir. Ela estava ecoando palavras proferidas há mais de 20 anos pelo parlamentar Peter  Mandelson, embora Mandelson tenha mostrado o bom senso de expressá-las depois de ter vencido uma luta política, e não perdido uma.

É uma questão intrigante, no entanto. Ser um “lutador” não é inteiramente um elogio. Em certas circunstâncias, é uma qualidade premiada, mas não é uma palavra que eu usaria no meu currículo ou, mais particularmente, no meu perfil no Tinder.

Já quanto ao termo “desistente,” no entanto, não há grandes dúvidas. Trata-se, inequivocamente, de um insulto.  É estranho, porque além de termos brigas demais no mundo, a frequência de desistências está longe de ser a ideal. Somos teimosos demais, apegando-nos a uma ideia, um trabalho ou um parceiro romântico, mesmo quando fica claro que cometemos um erro.

Há poucas ilustrações melhores disso do que a atual popularidade virai dos casos de “desistência discreta”, ou “quiet quitting”, quando jovens trabalhadores esgotados se recusam a trabalhar além das horas contratadas ou a assumir responsabilidades além das descritas em seus cargos. É um termo mais poético do que “fazer corpo mole”, como nós da Geração X teríamos chamado 25 anos atrás exatamente o mesmo comportamento. É também uma reação perfeitamente compreensível quando se está sobrecarregado e mal pago, No entanto, se você está sobrecarregado e mal pago, uma reação melhor na maioria dos casos não seria desistir discretamente, mas simplesmente desistir.

Não quero dizer isso como menosprezo à Geração Z. Lembro-me de, aos meus 20 e tantos anos, sentir-me totalmente infeliz em um emprego, e também me lembro do grau de pressão social para que aguentasse por mais alguns anos de forma a não deixar buracos em meu currículo. Um CV esburacado tem seus custos, é claro. Mas, se você é um recém formado, o mesmo vale para passar dois anos de sua vida em um trabalho que você odeia, enquanto acumula habilidades, experiência e contatos em um setor que deseja deixar. A maioria das pessoas me alertou para os custos de desistir; apenas os mais sensatos me alertaram sobre os custos de não desistir.

Toda desistência abre espaços para que se tente algo novo. Tudo para o que você diz “não” é uma oportunidade para dizer “sim” em outra frente.

Em seu novo livro, “Quit” (desista, em inglês). Annie Duke argumenta que, quando avaliamos se devemos ou não desistir de algo, nossos preconceitos cognitivos pesam na balança a favor da persistência. E o valo pela persistência é superestimado.

Trata-se de algo óbvio para um bom jogador de pôquer – e Duke costumava ser uma jogadora de pôquer muito boa.

“A desistência ideal pode ser a habilidade mais importante que diferencia os grandes jogadores dos amadores”, escreve, acrescentando que, sem a opção de desistir de uma mão, o pôquer não seria um jogo de habilidade. Jogadores experientes abandonam cerca de 80% de suas mãos na popular variante “Texas Holdem”. “Compare isso a um amador, que vai ficar com suas cartas iniciais mais da metade do tempo.”

Quais são esses preconceitos cognitivos que nos levam a persistir quando deveríamos parar?

Um deles é o efeito do “custo incorrido”, no qual vemos os custos passados como uma razão para manter determinado rumo. Se você está em seu shopping center de luxo favorito, mas não consegue encontrar nada a seu gosto, o tempo e o dinheiro gastos para chegar até lá deveriam ser irrelevantes. Mas não são. Exercemos pressão sobre nós mesmos para justificar o transtorno que já tivemos, mesmo que isso signifique mais desperdício.

A mesma tendência se aplica desde relacionamentos até megaprojetos multibilionários. Em vez de reduzir nossas perdas, jogamos “dinheiro bom” em cima de dinheiro ruim.

(A falácia do custo, incorrido é notícia velha para economistas, mas foi preciso o Prêmio Nobel Richard Thaler apontar que, se era comum o suficiente para ter um nome, também era comum o suficiente para ser considerada como parte da natureza humana).

O viés do status quo “também tende a nos levar a perseverar quando devemos parar. Destacado em um estudo de 1988 pelos economistas William Samuelson, Richard Zeckhauser, o viés do status que é a tendência a reafirmar decisões anteriores e a aferrar-se a manter o rumo em que estamos, em vez de fazer uma escolha ativa para fazer algo diferente.

Duke sente-se frustrada com a forma como retratamos essas escolhas de status quo. “Não estou pronto para tomar uma decisão”, dizemos. Duke, acertadamente , observa que não tomar uma decisão, por si só, é uma decisão.

Hl alguns anos, Steve Levitt o autor de “Freakonomics”, criou um site no qual as  pessoas que se encontram diante de decisões difíceis podiam registrar seus dilemas, jogar uma moeda para ajudá-las a escolher e depois voltar para dizer o que fizeram e como se sentiram a respeito. Frequentemente, essas decisões eram de alta importância, como deixar um emprego ou terminar um relacionamento. Levitt concluiu que  as pessoas decidindo a favor de grande mudança (ou seja, os desistentes) ficaram significativamente mais felizes seis meses depois do que aqueles que decidiram contra a mudança (ou seja, os lutadores). A conclusão: se você chegou ao ponto em que está disposto a jogar uma moeda para ajudá-lo a decidir se deve desistir, você já deveria ter desistido há algum tempo.

“Sou um desistente, não um lutador.” Não é um grande lema político. Mas, como regra geral para a vida, já vi piores.

*** TIM HARFORD, do Financial Times

ESTAR BEM

MAU HÁLITO TEM INÚMERAS CAUSAS, ALGUMAS GRAVES

Pequenas mudanças na alimentação e nos hábitos de higiene podem resolver o problema. No entanto, quando o odor não vai embora, um profissional de saúde deve ser consultado para descobrir o motivo do incômodo

Alho e cebola são duas das minhas comidas favoritas então não é surpresa que muitas vezes eu me pegue disfarçadamente cheirando meu hálito. Estudos sobre a prevalência do mau hálito são difíceis de encontrar, mas pesquisas estimam que até metade dos americanos se preocupam com o cheiro do hálito. A má notícia é que o mau hálito pode ter muitas causas, algumas mais graves que outras. Já a boa notícia é que existem várias maneiras de lidar com isso.

Um problema importante com o mau hálito é que você nem sempre sabe quando tem, mesmo que todos ao seu redor provavelmente saibam. Um teste popular e útil é colocar as mãos em concha sobreo nariz e a boca, expirar e depois inspirar, apontou Mark Wolff, dentista da Penn Dental Medicine. Outro método é lamber as costas da mão algumas vezes, esperar um minuto para que a água evapore e as moléculas do odor se concentrem e, em seguida, cheirá-la. Se o cheiro faz você querer desmaiar, é preciso fazer algo a respeito, disse o Wolff.

Apesar disso, nem sempre somos os melhores juízes de nossos odores bucais, de acordo com Antônio Moretti, periodontista da Faculdade de Odontologia Adams da Universidade da Carolina do Norte. Às vezes, as pessoas pensam que têm mau hálito quando não têm, por isso ele sugeriu pedir a alguém para fazer um teste de respiração para você.

Cebola e alho são culpados comuns do mau hálito por causa dos aromas fortes. Mas outros alimentos também podem desencadear o problema. Por exemplo, alimentos e bebidas que podem causar refluxo gastrointestinal, como álcool, café, tomate, frutas cítricas e cebolas, podem incitar o odor bucal, porque fazem você arrotar ou mesmo regurgitar pequenas quantidades de alimentos, de acordo com Landon Duyka, um médico de ouvido, nariz e garganta na Northwestern Medicine.

CUIDADO NA LIMPEZA

Bactérias da boca liberam os chamados compostos voláteis de enxofre, que “cheiram a ovo podre”, disse Wolff. Escovar os dentes duas vezes ao dia e usar fio dental uma vez ao dia pode ajudar a eliminar esses germes, bem como as partículas de alimentos.

Esses microrganismos também podem aumentar se você tiver boca seca – uma condição causada por desidratação, doenças como síndrome de Sjogren e diabetes, e como efeito colateral de medicamentos. A saliva ajuda a matar as bactérias, além de quebrar as partículas de alimentos e nos persuadir a engoli-las, então, quando não temos o suficiente, os germes podem prosperar, disse Duyka. Manter-se hidratado pode prevenir o mau hálito.

Enxaguantes bucais podem ajudar. A dentista Violet Haraszthy, da Universidade de Buffalo, recomendou não usar produtos que contenham álcool. O ideal é ter entre os ingredientes compostos antibacterianos, como o cloreto de cetilpiridínio.

“É um ciclo vicioso, uma vez que o álcool seca, o mau hálito volta ainda pior.

A gengivite pode causar mau hálito, porque as bactérias ficam presas em pequenos bolsos ao redor das gengivas, “provocando verdadeiro mau cheiro”, afirmou Wolff.

Em casos raros, o mau hálito pode ser causado por outros tipos de doenças ou infecções – amigdalite, sinusite ou infecções pulmonares, cirrose hepática, doenças renais, faringite ou até câncer de boca ou pescoço. Se o seu mau hálito não melhorar, procure um médico otorrinolaringologista para descartar causas graves, sugeriu Duyka.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO O TÉDIO PODE FAZER BEM PARA VOCÊ

Descobrir o que causa o desinteresse ajuda a organizar melhor o tempo e a escolher atividades mais gratificantes

Pelo menos uma vez a cada fim de semana, um dos meus filhos, de 8 e 11 anos, se aproxima de mim e reclama: “Estou entediado. Não tem nada para fazer”. Quando eu os lembro de todas as coisas que eles poderiam tentar – ler um livro, fazer um projeto de arte, tocar piano -, eles me encaram como se eu tivesse acabado de pedi-los para fazer 150 flexões.

Esse problema não atinge apenas crianças. Muitos adultos relataram se sentir entediados durante a pandemia. O tédio pode estar contribuindo para a falta de engajamento no trabalho. Algumas pesquisas sugerem que os adolescentes também estão experimentando mais tédio do que no passado.

O tédio não é divertido, mas pode ser uma fonte de informação útil. Para o filósofo Andreas Elpidorou, que estuda emoções e consciência na Universidade de Louisville, esse sentimento tem relação com tarefas pouco satisfatórias.

Pesquisas sugerem que o tédio pode aparecer por vários motivos e que descobrir sua causa pode ajudar a fazer melhores escolhas sobre como passamos o tempo – ou pelo menos reorganizar nossas experiências para que sejam mais gratificantes. Veja como fazer a ciência do tédio trabalhar para você.

POR QUE O TÉDIO ACONTECE?

A pesquisadora da Universidade da Flórida Erin Westgate passou anos investigando as várias causas do tédio e descobriu que ele surge em alguns tipos de situações. Se você está se sentindo desinteressado, a especialista sugere pensar nas várias causas para descobrir o que está incitando seu tédio. A tarefa que você está fazendo é muito difícil ou muito fácil? Você não acha isso significativo? Ou você simplesmente não sabe o que fazer consigo mesmo? Em sua experiência, ela disse, as pessoas podem facilmente determinar qual dessas situações está causando seu tédio.

RESOLVA O PROBLEMA

Há caminhos para sair do tédio, mas o que você fará dependerá da situação e da flexibilidade que tem. A melhor solução, se você está entediado fazendo algo, é parar e fazer outra atividade. Mas a escola, o trabalho e os cuidados muitas vezes exigem que façamos tarefas chatas repetidas vezes. Para piorar as coisas, segundo Westgate, quando sentimos que não temos controle sobre nossas ações, a falta de autonomia pode piorar o tédio. Um estudo descobriu que as pessoas que foram forçadas a ouvir aulas chatas sentiram que o tempo passou mais devagar do que as pessoas que escolheram ouvi-las.

De acordo com Karen Gasper, psicóloga da Universidade Estadual da Pensilvânia, se a tarefa que você está fazendo parece muito fácil, considere tentar algo novo ou desafiador, se tiver a opção. Se você não tiver escolha a não ser continuar fazendo a tarefa, pense em maneiras de adicionar complexidade a ela. Elpidorou disse que uma vez entrevistou um funcionário, cujo trabalho era descarregar e escanear caixas o dia todo, mas que disse que nunca se sentia entediado, pois ele e seus colegas inventam “jogos” para tornar o trabalho mais desafiador. Tocar música também pode ajudar, acrescentou Westgate, porque “absorve esses recursos extras de atenção que você tem, para que você possa, paradoxalmente, se concentrar melhor naquela coisa pouco estimulante que você está fazendo”.

Se você está entediado porque o que está fazendo é muito difícil, Westgate sugeriu dividir a tarefa em partes menores para que pareça mais gerenciável.

Quando uma tarefa necessária não é atraente porque não parece valer a pena, deve-se considerar utilidade, incluindo como ela pode ajudar a alcançar objetivos maiores. Por exemplo, se seu filho não gosta de matemática, incentive-o a pensar em como a matemática pode servir a seus interesses no futuro – isso poderia torná-lo melhor em seu emprego dos sonhos?

Dito isso, se você se sente constantemente entediado como que está fazendo, é inteligente ponderar se existem maneiras de evitar essas tarefas, segundo Westgate, talvez por meio de delegação ou mudança de carreira. O tédio frequente também pode ser um sinal de depressão, acrescentou ela, portanto, se você raramente gosta das atividades que faz – especialmente se costumava se divertir com elas – convém conversar com seu médico.

ATRAPALHA EM VEZ DE AJUDAR

Não pude deixar de me perguntar qual o papel dos celulares e das redes sociais no tédio. Eu percorro tanto o Instagram porque estou entediado? Ninguém sabe ao certo, mas algumas pesquisas sugerem que, embora usemos nossos telefones para aliviar o tédio, a tecnologia também pode nos fazer sentir mais entediados. Se você pegar o telefone toda vez que estiver entediado, isso poderá impedir que você faça outra coisa que considere mais gratificante.

OUTROS OLHARES

O TAMANHO DA VAIDADE

Falta de padrão da numeração das roupas escancara truques da indústria da moda que prejudicam autoestima feminina e aumentam as vendas e a gordofobia

De frente para um grande espelho, no provador com luz âmbar e música ambiente da sua loja favorita, a vendedora lhe oferece uma calça um ou dois números menores. A peça serve, deixa sua silhueta definida e você, surpresa com a situação, fica feliz por ter a peça na hora e compra. Embora fictícia, a cena tem sido cada vez mais frequente e escancara uma questão que as mulheres vêm percebendo ao longo dos anos: as etiquetas não são apenas irregulares, sem padrão definido. Elas andam “encolhendo” para “seduzir” as consumidoras. “Esse truque não é novo. Nós somos conscientes do nosso tamanho e qual é ele nas marcas e lojas onde compramos”, diz a stylist Manu Carvalho. “Mas existe aquela ilusão momentânea e acompanho isso com as minhas clientes. Um dia, uma delas falou: ‘Nossa, essa roupa é 38, e eu não sou 38!’. Ela vibrava, empolgada. O mesmo acontece com quem veste tamanhos maiores e se vê usando uma peça que não é de uma loja plus size. Essa emoção mexe com todas, independentemente do manequim”, completa a também consultora de moda.

A técnica, como diz Manu, tem nome: vanity sizing, ou tamanho da vaidade. “Importada” dos Estados Unidos, é uma maneira de “melhorar” a autoestima da consumidora fazendo com que ela se sinta mais magra ao provar uma roupa e, consequentemente, compre mais. “É muito comum também a vendedora falar, ‘vou pegar o tamanho 40, porque essa coleção veio menor. Ou, 36, porque essa está maior’. Outro ponto são as estéticas de cada coleção: você pode ter peças mais sequinhas e outras oversized. E isso também vai interferir no tamanho de cada pessoa. É muito difícil, quase impossível regulamentar isso. Se um dia for regulamentado, pode ter certeza que, no próximo, já vai ter alguém fazendo algo por fora”, analisa ela.

Na verdade, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) emitiu uma norma no fim do ano passado em que padroniza o tamanho das roupas, oferecendo novos referenciais de medidas para as marcas com base em dois tipos de corpos que, segundo a associação, são mais frequentemente observados nas brasileiras: “retângulo” e “colher”. Enquanto no primeiro, as medidas do busto e do quadril são parecidas e a cintura não é bem marcada, no segundo, as laterais são mais arredondadas e o quadril é maior que o tórax. “Ainda é uma coisa muito recente, essa norma tem menos de um ano e está sendo discutida. Quem ajudou a fazer o escaneamento dos corpos e medidas foi uma grande varejista, então, acredito que fatalmente outras redes devem ir na onda, senão, vão ficar para trás. O público pede essa inclusão”, diz a ativista e empresária paulista Flávia Durante.

Para ela, mais do que ilusão ou apenas uma tática das lojas para alimentar o consumo, a prática escancara a gordofobia e o fato de que a moda, apesar das recentes tentativas de inclusão com corpos diversos nas passarelas e campanhas, sempre prezou pelo biotipo magro. “Começaram a diminuir os tamanhos das roupas para que as pessoas, principalmente mulheres, se sentissem melhor, como se vestir um tamanho maior fosse algo desabonador ou ruim”, diz ela, que é criadora da Pop Plus, maior feira de moda plus size da América Latina. Flávia também critica o resgate da moda Y2K, que tem como um dos seus maiores símbolos a calça de cintura baixa. “Tem se falado muito sobre essa volta da magreza dos anos 2000, só que na verdade ela nunca deixou de ser valorizada. A gente, que é da militância gorda, sempre sofreu com a gordofobia, essa pressão estética nunca deixou de existir”. As mulheres ditas mid size, que usam entre 42 e 46, também não são contempladas pelas marcas tradicionais. “Elas não aumentam suas grades, e são as roupas plus size que estão diminuindo seus tamanhos para incluir essas mulheres. Está tudo errado. O ideal seria que todas as marcas fossem all sizes”, lamenta ela.

Filha da atriz Flávia Alessandra, a também atriz Giulia Costa, de 22 anos, fez um desabafo recente em suas redes sociais sobre o assunto. No período pós-pandemia seu corpo mudou, e Giulia começou a se sentir desconfortável ao entrar em lojas e experimentar roupas. “Percebi que o que eu vestia antes não estava mais cabendo em mim. Então, passei a comprar algumas calças tamanho 42 e 44. Não que isso seja um problema, mas se eu, que sou considerada uma menina magra e até dentro de um certo padrão, estou vestindo esse manequim, quem já vestia antes esses tamanhos, está usando o quê? Quem se encaixa nos tamanhos que temos hoje? Uma minoria”, questiona.

Ao jogar luz sobre a questão dos tamanhos das roupas, Giulia percebeu que não estava sozinha e recebeu muito apoio. “Entendi que, antes, eu não percebia que existia essa pressão (pelo corpo ideal) ou achava que era algo natural. Tenho uma mãe que é supervaidosa, e não falo isso de forma negativa, mas as pessoas lidam com o corpo e a comida de forma diferente. Dos 15 aos 18 anos, não tinha noção de que havia outra opção, que eu poderia ser de outra forma”, explica. “A gente sempre vai se achar fora do padrão, porque esse padrão, no fundo, não existe. A beleza é idealizada, inalcançável”, completa.

Construindo uma relação de paz com seu corpo, o que nem sempre foi uma tarefa fácil, a atriz Luana Xavier, de 35 anos, explica que antigamente justificava o seu não interesse pela moda por não ter suas necessidades atendidas. Porém, hoje, faz questão de usar marcas que produzem um vestuário mais inclusivo. “Fui pesquisar um pouco mais sobrea questão das modelagens e entendi que o padrão quer fingir que os corpos gordos não existem. Antigamente, eu vestia um tamanho 48, mas hoje parece que esse 48 virou 42 e ele segue sendo 48”, lamenta. Luana ressalta também que a situação piora quando há o recorte de classe. “Quando falamos de mulheres com menos grana, isso se complica. Porque elas não têm o direito nem de sonhar em usar uma roupa bacana”, completa.

Há mais de 30 anos fazendo uma moda praia chique e democrática, que contempla do PP ao GG, a estilista Lenny Niemeyer conta que o tamanho de suas peças sempre foi o mesmo. E que o vanity sizing é, sem dúvida, uma estratégia preconceituosa e sem espaço em sua grife. “Acho que as pessoas, na verdade, nunca gostam de achar que são G ou GG, mas isso vem mudando com a aceitação maior dos corpos. Eu nunca troquei o tamanho das minhas etiquetas. Quem usa meu M, vai usar sempre o M. Simular que a pessoa está mais magra é uma enganação”, explica. O que Lenny fez ao longo do tempo foi apenas descasar a venda de sutiãs e calcinhas de biquíni, para contemplar mulheres que podem ter, por exemplo, peito ou quadril maiores. “O corpo da brasileira é muito variado. Quando a gente cria a peça, temos modelos de prova, que no meu caso, são pessoas que trabalham comigo. Às vezes a mulher é magra embaixo ou tem um peito maior, então, existe essa facilidade”.

Ainda que por alguns minutos, aqueles do momento da compra, possa ser incrível levar para casa uma peça de tamanho menor, os efeitos para a autoestima não vão se manter a longo prazo. Presidente da Associação Brasil Plus Size, criada há seis anos para reunir dados e gerar inteligência de mercado, Marcela Liz acredita, assim como Lenny, que as mulheres foram condicionadas a não querer usar números maiores. E a solução para fazer as pazes com o armário e o próprio corpo vem do autoconhecimento.

“A indústria se apropria do desejo feminino de usar número menores. É preciso se olhar com consciência do seu tamanho, sem se envergonhar disso”, finaliza.

GESTÃO E CARREIRA

A PROFISSÃO DE TECH RECRUITER É A QUE ESTÁ EM ALTA

Uma recente pesquisa, conduzida pelo LinkedIn Economic Graphic, baseada em milhões de vagas via a plataforma de 2017 a 2021, ajudou a elencar quais os dez empregos em alta neste ano.

Para surpresas de muitos, a primeira colocação ficou com a posição de Tech Recruiter, profissional que exerce uma função muito importante dentro de empresas de tecnologia: selecionar os melhores candidatos para as vagas de TI, especialmente desenvolvedores, e garantir maior assertividade na hora de realizar o match entre candidato e empresa.

“Nos últimos anos, a demanda por profissionais de tecnologia, ainda mais de desenvolvedores e programadores, se tornou voraz. Com o aumento das oportunidades, esse mercado acabou se inflacionando, os salários aumentaram e a troca de emprego muito maior, o que acaba sendo oneroso para as empresas, já que a circulação deste tipo de funcionário acaba sendo muito grande”, explica Frederico Sieck, CEO da Koud, especializada em Alocação de Profissionais & Hunting, Sieck explica que a pesquisa do LinkedIn reflete mesmo o cenário de empregabilidade. Ter um Tech Recruiter capacitado para buscar desenvolvedores no mercado pode ser um divisor de águas para quem busca esse profissional.

Primeiro, porque o recruiter tem muito conhecimento na parte do negócio que essa empresa desenvolve, possuindo conhecimento técnico para explicar e deixar muito claro o que a vaga oferece, quais serão as responsabilidades do empregado, tarefas executadas e até mesmo o desenvolvimento de carreira.

Em contrapartida, ajuda a empresa a entender se os desenvolvedores têm capacidade técnica para a vaga. Na equipe de Tech Recruiters, por exemplo, um dos principais objetivos é encontrar profissionais que, além de técnicos, tenham o mesmo fit cultural com a empresa contratante, ou seja, estejam alinhados com os valores, forma e filosofia de trabalho, o que minimiza o risco de futuras frustrações com o alinhamento de expectativas. Isso leva a resultados muito mais assertivos no momento da contratação e redução no tempo de encontrar o profissional com match ideal. Um levantamento feito dentro da própria Koud com seus clientes aponta que o tempo de contratação de no- vos profissionais é 30% mais rápido e o turnover (quando profissionais  desistem da vaga depois de contratados) cai em até 40%.

Para se tornar um bom Tech Recruiter, por outro lado, há a exigência de se preparar bastante e estar sempre aprimorando os conhecimentos, já que o mercado exigirá cada vez mais profissionais completos que possam transitar entre a área do conhecimento técnico e também preparado para lidar com pessoas.

“Não adianta também o Tech Recruiter ser bom na parte técnica das vagas e não saber avaliar outros quesitos pessoais. Esse foi um dos grandes desafios aqui na Koud: desenvolver um processo de formação desse tipo de profissional que realmente une as expertises”, diz o CEO da empresa.

EU ACHO …

O MELHOR DO PIOR: SUCESSOS E FRACASSOS SÃO RELATIVOS!

“Confesso que até hoje só conheci dois sinônimos perfeitos: nunca e sempre.”

(Mario Quintana, Na volta da esquina)

Um dos bons conselhos na vida é “esperar o melhor temendo o fracasso, temer o pior procurando o melhor”. Não se trata de um mero jogo de palavras, mas de uma perspectiva relacionada à nossa capacidade de empreender uma ação que seja eficaz. Essa eficácia implica contar também com um nível de cautela durante a execução.

Esperar o melhor reside no campo do desejo. Temer o fracasso é estar atento aos potenciais riscos de uma ação. Quem espera o melhor e não teme o fracasso pode se sentir invulnerável. E esse é o modo mais direto de tornar-se vulnerável. Esse tipo de distração pode arruinar ideias que nasceram alvissareiras.

Por mais ímpeto realizador que se tenha, é sempre recomendável levar em conta que o pior que pode acontecer, de fato, pode acontecer. Por isso, é necessário ter essa hipótese no nosso horizonte. Isso não invalida o foco de sempre fazer o melhor.

Nesse  aspecto,  o  filósofo  holandês  Baruch  Espinosa  (1632-1677)  nos  faz um alerta especial. Em seu livro Ética, ele registra que “não há esperança sem medo,   nem   medo   sem   esperança”.   Na   primeira   parte   dessa   expressão, Espinosa constata a existência de um desejo de que algo aconteça, porém não descarta o temor de que aquilo que se almeja não se realize ou não se cumpra totalmente.    Mas,    ao    completar    a    sentença    com    “não    há    medo    sem esperança”,  o  filósofo  nos  lembra  que,  mesmo  que  a  situação  se  anuncie terrível,  ainda  existe  a  possibilidade  de  se  vislumbrar  uma  alternativa,  uma solução  para  aquela  dificuldade.  Feita  no  século  XVII,  essa  formulação  de Espinosa nos serve em vários momentos da vida.

Um exemplo que ilustra essa ideia foi a operação de resgate da nave Apollo 13, em 1970. Os três tripulantes da missão espacial (transformada em filme em 1995, dirigido por Ron Howard e estrelado por Tom Hanks) partiam para o terceiro pouso na Lua. Tudo parecia sob controle nas primeiras 55 horas de viagem. Até que um estampido foi ouvido, seguido de uma explosão. O módulo de comando estava danificado. A avaria ameaçava a sobrevivência dos três astronautas, comprometendo tanto o fornecimento de energia para a nave quanto o de água e oxigênio para os tripulantes. Outro fator de risco era o aumento do dióxido de carbono no interior do módulo lunar – projetado para duas pessoas e que, em decorrência das circunstâncias, precisou ser ocupado por três. Após a célebre frase “Houston, we’ve had a problem” [Houston, tivemos um problema], uma intensa força-tarefa foi montada pela Nasa, a agência espacial norte-americana. O plano inicial havia ido, literalmente, para o espaço. O pouso na superfície lunar precisava ser abortado e a missão naquele momento passou a ser o retorno da tripulação à Terra.

Durante quatro dias, foram tomadas medidas e feitas várias adaptações (como reduzir a temperatura da cabine para economizar energia) a fim de evitar um desastre. Nesse período, o melhor esperado esteve muito próximo de culminar com o pior desfecho, assim como a possibilidade de o pior se cumprir não paralisou os envolvidos naquela missão. Todas as tentativas foram feitas para superar as adversidades. Anos depois, o diretor de voo da Nasa à época, Eugene Kranz (interpretado por Ed Harris no filme), afirmou: “O maior erro não é tentar e falhar, mas não fazer o nosso melhor esforço naquilo que tentamos”.

Existem pessoas que, em diversas situações na vida, não cogitam a hipótese de algo ruim acontecer ou de serem afetadas por algum imprevisto. Algumas alegam que pensar em plano B retira o foco do plano A, ou que é perda de tempo e de energia se preocupar com algo que tem baixa probabilidade de ocorrer. A questão é que fenômenos com baixa probabilidade acontecem. E essa baixa probabilidade não necessariamente tem baixo impacto.

Não se trata de ser paranoico, agourento ou negativista; antecipar-se a eventuais problemas é, acima de tudo, uma forma de inteligência estratégica. É claro que uma pessoa impactada por um imprevisto tomará alguma decisão, mas não significa que será a melhor decisão, pois será tomada sob intensa pressão.

Pensar na possibilidade de o pior ocorrer não só auxilia a prevenção, como já deixa encaminhada uma possível solução, evitando fracassos, preparando sucessos.

De uns tempos para cá, ficaram em voga frases que dividem a humanidade em  dois  grupos.  Servem  para  qualquer  ideia  que  se  queira  passar.  “O  mundo se divide entre aqueles que pagam juros e aqueles que ganham com os juros.” “A humanidade se divide entre aqueles que estacionam na primeira vaga que aparece   e   aqueles   que   acreditam   que   haverá   outra   na   porta.”   Até   uma variação  muito  bem-humorada  do  escritor  pernambucano  Ariano  Suassuna (1927-2014):  “A  humanidade  se  divide  em  dois  grupos,  os  que  concordam comigo e os equivocados”.

Evidentemente, esse modo reducionista é usado para evidenciar contrastes, realçar a diferença entre os dois polos. Trata-se de um recurso de retórica que geralmente carrega um componente de humor.

Mas a complexidade da vida contempla muito mais nuances. Entre o claro e o escuro, existe uma extensa policromia. Isso vale também para o modo como definimos erro e acerto, fracasso e sucesso.

Como a vida é dinâmica, é mais interessante analisar sucesso e fracasso em perspectiva. O sucesso pode ser momentâneo. Quem o alcança pode se acomodar ou se distrair de tal modo, que aquele êxito passa a ser o passaporte para o fracasso. Empresas que nadavam de braçada em seus mercados de repente são engolidas porque outro modelo de negócio se sobrepôs naquele setor. Ou o jogador que se deslumbra com a notoriedade e perde o foco da sua condição atlética.

O  inverso  também  ocorre.  Alguns  fracassos  podem  ser  o  ponto  de  partida para  uma  empreitada  bem-sucedida.  Um  caso  emblemático  é  o  do  desenhista norte-americano  Walt  Disney  (1901-1966).  Após  passagens  por  agências  de publicidade,  Disney,  aos  20  anos,  montou  seu  próprio  estúdio  de  animação,  o Laugh-O-grams, na cidade de Kansas, no Missouri.

A habilidade com a gestão dos negócios estava longe da demonstrada com os traços. Após vários reveses, a empresa entrou em falência. Disney, no entanto, não desistiu. Decidiu recomeçar de outro modo na Califórnia. Uma noite, quando trabalhava sozinho ainda na antiga sede, percebeu a presença de ratos à procura de restos de comida nos cestos de lixo. Conseguiu engaiolar um deles, que veio a ser a inspiração para o personagem Mortimer Mouse, depois rebatizado Mickey Mouse, por sugestão de sua esposa Lilian Bounds. A continuidade da história, com a mudança da empresa para a Costa Oeste, é deveras conhecida.

Disney não se deixou abater pelo fracasso e esse foi um passo decisivo para que povoasse a imaginação de gerações com seus personagens. Aliás, o desenhista dizia: “Eu gosto do impossível, porque lá a concorrência é menor”.

Um exemplo do esporte brasileiro reforça a reflexão: a chamada geração de prata no vôlei perdeu a final olímpica de 1984 para os EUA por 3 x 0. Havia vencido o mesmo adversário na primeira fase por placar idêntico. Perder o ouro é fracasso? Depende. Vários daqueles que seriam campeões olímpicos em Barcelona oito anos depois se declararam diretamente inspirados pelos vice-campeões em Los Angeles. Sem contar a popularização do vôlei que os atletas prateados promoveram no país a partir dos anos 1980.

Do mesmo modo, a percepção de erros e acertos também é revestida de nuances. Um erro pode ser a senha de acesso ao acerto e vice-versa. Mas o nosso aprendizado vem daquilo que fazemos a partir deles, da maneira como lidamos com as nossas conquistas e com os nossos naufrágios.

O acerto em algumas situações pode nos servir de bússola, no sentido de sinalizar que aquele caminho é viável. Porém, o acerto de hoje não é garantia de decisões corretas no futuro. Por exemplo, uma empresa que consegue êxito comercial, mas não inova, corre sério risco de oferecer mais do mesmo para um mercado que muda, que é ávido por novidades. Uma escolha de investimentos que se mostre acertada hoje pode levar a prejuízos amanhã, conforme as oscilações do mercado financeiro. O acerto de hoje merece ser celebrado, contudo, não pode empanar a nossa visão em relação aos sinais à nossa volta.

Há erros que são irremovíveis, não se apagam da história. Imagine como se sentiram os executivos da gravadora Decca que, em 1962, após ouvir quinze canções, resolveram dispensar os Beatles, sob o argumento de que rock com guitarra não teria futuro.

Equívocos, como já dito, nos servem de aprendizado. A experiência muitas vezes minimiza o risco de erros, seja por vivências próprias ou por exemplos alheios.  Ainda  assim,  é  difícil  assegurar  que  não  repetiremos  erros  ou  que, mesmo   mais   experimentados,   não   cometeremos   novos   erros.   O   escritor francês   Marcel   Proust   (1871-1922),   autor   do   clássico   Em   busca   do   tempo perdido, alertava que “saber nem sempre permite evitar”. Novamente: somos humanos e, como tal, falíveis. Um craque perde pênalti. Um empresário bem- sucedido comete erros de avaliação em relação a novos projetos. Nem sempre temos o controle de todas as variáveis. Imprevistos acontecem.

O erro traz à tona a necessidade de elaborar, analisar, prevenir, antecipar- se, aprender a fazer melhor – e aprender, inclusive, a se perdoar, pois a intenção era de acertar. É diferente de quando se incide no erro por displicência, desatenção, teimosia ou descuido. Isso precisa ser evitado, pois seus efeitos podem custar caro.

Um  ponto  de  partida  interessante  para  refletir  sobre  o  erro  é  admitir  o erro.  Por  mais  que  fatores  intervenientes  tenham  gerado  o  mau  resultado, cabe    a    cada    um    refletir    sobre    sua    responsabilidade    naquele    evento. Fundamentalmente, por ser uma forma honrada de agir. O escritor e filósofo francês  Voltaire  (1694-1778)  registra  que  “os  homens  erram,  os  grandes homens  confessam  que  erraram”.  Existe  uma  dificuldade  em  admitir  o  erro, especialmente   em   ambientes   marcados   pela   competitividade.   No   mundo corporativo, por exemplo, ser visto como alguém que falhou pode representar uma  ameaça  à  carreira.  Não  só  em  relação  a  cargos  de  liderança,  em  que, muitas vezes, se espera atributos de um super-herói. Em qualquer camada da organização  pode  ter  o  “peixe  ensaboado”,  aquele  que  tenta  se  eximir  de qualquer  responsabilidade  pelos  maus  resultados.  Admitir  o  erro,  além  de uma questão de caráter, é uma atitude de elevação. Sinaliza um caminho para evoluir, ao mesmo passo que afasta o fantasma da arrogância.

Na complexidade do mundo contemporâneo, não cabe mais essa divisão de vencedores e derrotados. Esse recorte, além de reducionista, é empobrecedor da condição humana. Estamos em processo.

Seria mais saudável, em vários sentidos, inclusive no psíquico, que n nos víssemos como aprendizes em movimento.

ESTAR BEM

EXERCÍCIOS PARA TONIFICAR PODEM SER FEITOS NA CAMA

Realizar movimentos simples e curtos logo pela manhã, como abdominais, elevação de pernas e flexões, pode ajudar a gerar ativação muscular precoce e começar o dia com mais energia; mas é preciso regularidade

Sair da cama é um esforço, principalmente quando se trata de levantar para começar um longo dia de trabalho. Para muitas pessoas que não têm tempo de ir a uma academia ou praticar esportes, uma alternativa é ativar o corpo pela manhã com uma rotina de exercícios curta que pode ser feita no conforto da sua cama.

Apesar de toda a comodidade que essas atividades trazem, a médica especialista em medicina esportiva Julieta Alfonso faz um alerta: o mais adequado é sair da cama, se possível até trocar de cômodo.

“Embora possam ser feitas na cama assim que nos levantamos, é conveniente fazê-las no chão do quarto ou em outra parte da casa. Não é um treino de intensidade, mas traz benefícios para a saúde como melhora cardiorrespiratória, metabólica, óssea e muscular”, afirma.

A médica explica que essas vantagens são obtidas a curto, médio e longo prazo, mas para alcançá-las é preciso manter a regularidade e aumentar gradativamente a intensidade.

“O exercício é uma pílula que precisa ser mantida ao longo do tempo”, afirma Julieta Alfonso.

BENEFÍCIOS

Fazer exercícios simples e curtos pela manhã, como abdominais, elevação de pernas e flexões, ajuda a gerar ativação muscular precoce e começar o dia com mais energia.

Para se conscientizar da magnitude de sua importância, segundo o relatório Pinterest Predicts, da popular rede social Pinterest, rotinas de alto impacto serão substituídas por rotinas de baixo impacto enquanto o “flexercise” triunfa. Ou seja, uma forma de trabalhar o corpo por meio de movimentos suaves que podem ser feitos tranquilamente em casa e até na cama com rotinas que ajudam a tonificar os músculos.

O assunto “exercícios leves na cama” tem suscitado consultas na rede social, registando atualmente um aumento de 130%.

“Quero que as pessoas entendam que você não precisa correr uma maratona para ativar seu corpo. Acho que “exercício flexível” deve ser algo simples, não assustador”, diz a influenciadora de bem-estar Isabelle Dias na reportagem do Pinterest. Antes de realizar essa breve rotina, o treinador e professor de educação física Luciano Aguilera propõe alguns alongamentos para ativar as articulações e os músculos e avisar o corpo que a atividade física está prestes a começar.

De acordo com Aguilera, fazer esses exercícios é uma boa alternativa para quem não tem tempo de ir à academia ou tem dificuldade por motivos pessoais para fazer atividade física.

O profissional esclarece que, embora os exercício nesta página não tenham a mesma eficácia de um treino intenso, também são úteis para estar em movimento e são benéficos principalmente em idosos que precisam trabalhar mais a elasticidade e a mobilidade nos seus músculos.

“Existem quatro exercícios para quem tem pouco tempo que podem ser feitos rapidamente pela manhã ou a qualquer hora do dia, tanto na cama quanto fora dela”, enfatiza o professor de educação física. “Eles colocam todo o corpo em movimento, trabalham as pernas, glúteos, abdominais e braços.”

ATIVAR O CORPO

“A educação é fundamental: a pessoa deve entender porque o movimento pela saúde é importante. Quando você faz atividade física, seu humor, seu relacionamento com os outros, sua produtividade no trabalho, tudo melhora, e você se sente melhor, além de saber que está fazendo bem a si mesmo”, diz Julieta Alfonso.

Ela também insiste que os exercícios na cama têm seus prós e contras: por um lado, são bons para ativar o corpo ao acordar, no entanto o ideal é que a cama seja apenas para dormir.

“Recomendo sair da cama para ativar os músculos posturais e realizar os exercícios fora dela, mesmo que seja no chão ou tapete que fica ao lado de onde descansamos. Mas o importante é que cada movimento conta”, finaliza a médica.

MERGULHO DE TRÍCEPS

De costas para a beirada da cama e com os pés apoiados no chão à frente do corpo, mantenha os joelhos dobrados e os quadris levantados. Nesta posição, realize a flexão do cotovelo abaixando o quadril em direção ao solo sem que as nádegas encostem no chão. Recomenda-se fazer três séries de 15 repetições. O exercício trabalha os tríceps, endireita os braços e fortalece as articulações do cotovelo.

ABDOMINAL CRUNCH

Com os joelhos flexionados a 90°, mantenha as pernas levantadas e eleve o tronco para que as mãos toquem os pés. Aguilera recomenda fazer três séries de 20 repetições e levantar apenas as escápulas – ossos na região dos ombros. Trabalhe o reto abdominal – conjunto de músculos que compõem a parede abdominal – e os oblíquos externo e interno.

EXTENSÕES DA PERNA

Sentado na beira da cama, coloque um pé no chão e o outro, que está livre, vai trabalhar estendendo a perna e mantendo essa posição por 30 segundos. O ideal é fazer cinco repetições em cada perna. Quem está mais animado pode tentar fazer o exercício com as duas pernas elevadas ao mesmo tempo, mas por menos segundos. Eles trabalham os quadríceps, isquiotibiais, glúteos e até as panturrilhas. 

PONTE FEMORAL

Deitado de costas, mantenha os pés e as costas apoiados no chão ou no colchão. Em seguida, eleve o quadril por alguns segundos e abaixe novamente. Faça três séries de 15 repetições para trabalhar os isquiotibiais – parte posterior das coxas – e os glúteos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SUA PERSONALIDADE MUDOU COM A COVID

Estudo sugere que principalmente jovens adultos ficaram menos extrovertidos, criativos e conscienciosos após a crise

Fosse assistindo a palestras na escola, causando primeiras impressões memoráveis no primeiro emprego no escritório ou lotando a pista de um show de rock, muitos dos rituais sociais que eram ritos de passagem para os jovens foram interrompidos pela pandemia de coronavírus.

Isso deixou pessoas como Thuan Phung, calouro da Parsons School of Design que mora em Hell’s Kitchen em Manhattan (EUA), sentindo-se “meio esquisitas” diante das interações da vida real. Depois de dois anos de aulas virtuais, ele está de volta à sala de aula. “No Zoom, você pode silenciar”, disse Phung, de 25 anos. “Demorei um pouco para saber como falar com as pessoas.”

Agora, um estudo recente sobre a personalidade sugere que o desconforto que ele sente não é incomum para pessoas de sua geração, que se viram forçadas ao isolamento das restrições pandêmicas na faixa dos 20 anos, época de ansiedade social para muitas delas.

A covid-19 não apenas reformulou a maneira como trabalhamos e nos conectamos com os outros, mas também redesenhou a maneira como somos, conforme o estudo, que identificou que alguns dos efeitos mais pronunciados se deram entre jovens adultos.

Nossos principais traços de personalidade podem ter se diluído, deixando-nos menos extrovertidos e criativos, menos agradáveis e conscienciosos, de acordo com o estudo, publicado no mês passado na revista Plos One.

MATURIDADE INTERROMPIDA

Esses declínios equivaleram a “cerca de uma década de mudança de personalidade”, disse o estudo. Pessoas com menos de 30 anos exibiram “maturidade interrompida”. Essa mudança é o oposto de como a personalidade de um jovem adulto normalmente se desenvolve ao longo do tempo, escreveram os autores do estudo.

“Se as mudanças se provarem duradouras, essa evidência sugere que eventos estressantes em toda a população podem curvar levemente a trajetória da personalidade, sobretudo em adultos mais jovens”, diz o artigo.

Os autores do estudo de personalidade se basearam em dados do Understanding America Study, painel online da Universidade do Sul da Califórnia que começou a coletar respostas de pesquisas em 2014, com base em dados publicamente disponíveis de cerca de 7 mil participantes que responderam a uma avaliação de personalidade realizada antes e durante a pandemia.

Angelina Sutin, principal autora do artigo e professora da Universidade Estadual da Flórida, disse que os resultados do estudo mostraram que, em média, a personalidade se alterou durante a pandemia, embora ela tenha enfatizado que as descobertas capturaram “um instantâneo no tempo” e podem ser temporárias. “A personalidade tende a ser bastante resistente à mudança. Para alterá-la, talvez seja necessário algo como uma pandemia global”, disse Angelina Sutin. “Mas é difícil identificar exatamente o que havia na pandemia que gerou essas mudanças.” Os pesquisadores também não sabem se essas mudanças de personalidade persistirão.

BUSCA POR TERAPIAS

Eles analisaram cinco dimensões da personalidade: neuroticismo, tolerância ao estresse e emoções negativas; abertura, definida como não convencionalidade e criatividade; extroversão, ou quão sociável é a pessoa; amabilidade, ou se a pessoa é “confiante e direta”; e conscienciosidade, quão responsável e organizada é a pessoa.

Gerald Clore, professor emérito de Psicologia da Universidade da Virgínia, disse que os autores foram “devidamente cautelosos” em suas conclusões e enfatizaram a necessidade de mais estudos para reexaminar as descobertas. A pandemia em si foi uma “experiência infernal”, disse Clore, teorizando que pode ter sido a reestruturação das rotinas, e não o estresse geral, que remodelou a personalidade das pessoas.

Talvez ecoando as mudanças, o interesse pela psicoterapia disparou durante a pandemia, disseram vários terapeutas. A terapia virtual também cresceu.

Na Talkspace, plataforma que oferece terapia online, o número de usuários ativos individuais aumentou 60% de março de 2020 a um ano depois, disse John Kim, porta-voz da empresa.

O número de adolescentes que procuram terapia na BetterHelp quase quadruplicou desde 2019, disse um porta-voz da empresa de terapia online.

Terapeutas que atuam nos Estados Unidos disseram ter observado que seus pacientes estavam com dificuldades de enfrentar os limites da vida pandêmica e lidar com as vicissitudes das normas sociais.

Nedra Glover Tawwab, terapeuta de Charlotte, Carolina do Norte, com consultório particular e mais de 1 milhão de seguidores no Instagram, disse que notou um desconforto crescente à medida que as pessoas foram se reintegrando às rotinas do passado, como trabalhar dentro de escritório.

“Nós nos acostumamos tanto ao isolamento que agora o adoramos”, disse ela. “Mas será que você é mesmo essa pessoa? Ou isso é só o que você teve de aceitar durante esse tempo?”

Delta Hunter, terapeuta da cidade de Nova York que faz mediação de um grupo de terapia de ansiedade social, disse que a pandemia “agravou” a ansiedade já existente.

“As pessoas querem se conectar e processar as coisas juntas e não estávamos conseguindo fazer nada disso”, disse Hunter. “As pessoas estavam se sentindo perdidas com tudo.”

Adultos mais jovens, e especialmente adolescentes, enfrentaram maiores restrições em atividades e experiências típicas da adolescência e juventude, concluiu o estudo. A pesquisa descobriu que indivíduos com menos de 30 anos exibiram as quedas mais acentuadas em conscienciosidade e amabilidade.

“Quando todo o seu mundo vai para o espaço virtual, você perde esse campo de treinamento para poder ser mais consciencioso”, disse Harmon, acrescentando que viu muita ansiedade social nas gerações mais jovens, talvez porque elas não tenham acumulado muitas experiências presenciais e habilidades de enfrentamento.

Vários meses atrás, o consultório de Anviksha Kalscheur em Chicago estabeleceu um programa de apoio a adolescentes para ajudar os jovens a lidar com sentimentos de desconexão e isolamento.

Os adolescentes passaram a expressar uma visão geral negativa em relação ao futuro e aumentaram a ansiedade social, disse ela. Os terapeutas notaram uma “nuvenzinha escura” na perspectiva de seus pacientes diante da incerteza dos próximos anos, afirmou.

Conexão, apego e interação com os outros são fundamentais para o desenvolvimento da personalidade, disse Anviksha Kalscheur, acrescentando que a identidade e a personalidade ainda estão em formação nos adolescentes mais jovens.

“Eles estão naquele estágio de desenvolvimento, mas não estão recebendo os sinais, vivendo os apegos, passando pelos aprendizados, todas aquelas coisas que vão acontecendo sem que você perceba”, disse ela. “Então, é claro, seu ambiente tem um impacto muito grande nesse período de tempo específico.”

QUANTO TEMPO AS MUDANÇAS DO PERÍODO VÃO DURAR?

A duração dessas mudanças é uma questão em aberto, disseram os autores do estudo. Terapeutas, entre eles Glover Tawwab, disseram que o período de transição para a vida presencial após o pior da crise pode apresentar uma oportunidade para as pessoas se reintegrarem lentamente e se reconectarem com os outros e com as experiências de forma mais intencional.

“É um momento maravilhoso para observar as coisas de que você sente falta e as coisas das quais você prefere ficar longe”, disse ela. “Então, temos esse tempo agora para criar o que realmente queremos.”

Grace Wilentz, poeta de 37 anos que mora em Dublin, disse que o lado bom da pandemia é que ela ganhou uma autoconsciência que a fez reacender amizades perdidas. Ela tem tirado um tempo para se reconectar com velhos amigos durante os almoços durante a semana. “Eu achava que seria difícil reviver esses relacionamentos”, afirmou ela. “De certa forma, eles estão mais ricos e sólidos agora.”

É possível fazer transformações positivas em tempos de incerteza, disse Anviksha Kalscheur.

“Às vezes é preciso um verdadeiro colapso em nossas normas sociais, culturais e até de saúde mental para as transformarmos em algo melhor”, afirmou a terapeuta. “É quase como se você quebrasse tudo para reconstruir de novo.”

OUTROS OLHARES

CORPO MANIFESTO

Em um país onde 85% das pessoas gordas afirmam sofrer preconceito, assumir as curvas é um ato político. Convidamos a maior ativista brasileira na luta contra a gordofobia a escrever sobre o tema neste domingo de eleição

Após uma eleição que vai mudar o rumo do país, falar sobre o corpo gordo parece fora da realidade. Digo isso porque a nossa sociedade não tem referências desses corpos coabitando um espaço de enaltecimento, de poder, salvo os homens gordos da política e os grandes CEOs. Afinal, quando tivemos uma mulher na presidência foi a única vez na nossa História em que a líder máxima do poder Executivo foi questionada sobre o tamanho da cintura, a dieta que fazia e o por quê do cabelo curto.

Qual imagem vem à sua mente quando se pensa em uma mulher gorda? Será que ainda é a do estereótipo carregado de termos pejorativos como “desleixada”, “fracassada”, “coitada”, “incapaz”, “preguiçosa”, “indigna”, “inferior”…?

Uma pesquisa recente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica, intitulada Obesidade e Gordofobia – Percepções 2022, mostra que 85,3% das pessoas gordas afirmam sofrer gordofobia no Brasil, o segundo país que mais faz cirurgias plásticas e procedimentos estéticos no mundo, de acordo com a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética.

O mesmo país que entrou no mapa da fome e tem 33,1 milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade alimentar, é o país mais ansioso do mundo, segundo a OMS. Um Brasil com mulheres morrendo por conta de chá emagrecedor, lipo de alta definição e “modificações no rosto” consideradas simples. Uma nação que tem até vídeo ensinando a fazer rinoplastia em casa, e um rapaz que sofreu sérias consequências por isso.

Nada é simples. Nada é por acaso. E foi naturalizado. Uma sociedade com esses dados é a mesma que enaltece a cultura da magreza. Uma egrégora em torno do assunto “corpo”, onde o tamanho da roupa que se usa diz mais sobre você do que sua personalidade, seu caráter, suas capacidades.

É mais importante caber na calça 36 do que conquistar um diploma de faculdade. É mais urgente emagrecer para o verão do que curtir a estação mais quente do ano. A cultura da magreza faz com que você odeie sua imagem desde pequena e permaneça insatisfeita com ela durante toda a vida. Nunca foi e nunca será sobre emagrecimento saudável, uma relação intuitiva e consciente com a alimentação ou apologia à saúde mental. Tudo isso acontece porque fomos ensinadas desde pequenas que o corpo magro é o corpo certo.

Com 9 anos de idade, fui ao endocrinologista e ele me deu a seguinte “opinião” não solicitada: “Emagreça, ninguém vai te querer porque você é gorda”. Se já é cruel ouvir isso para uma adulta, pense em como foi para uma criança.

E o médico estava “certo”. Nos anos 1990, qual referência eu tinha? Olhei ao meu redor, nos desenhos, nas capas das revistas, e nunca me enxerguei. Alguém como eu não era merecedora de uma vida de grandes conquistas. Daí o meu maior objetivo: ser magra. Aí sim minha vida iria começar, e eu poderia me dar ao luxo de viver. De aproveitar.

Mas isso nunca aconteceu. A cultura da magreza enaltece dietas superrestritivas, exercícios extenuantes… E adivinha o que acontece? Estudos científicos comprovam que a restrição leva à compulsão, como li numa edição da Revista de Nutrição, publicada em 2005: “As restrições e autoimposições das pessoas que fazem dieta parecem ter um efeito rebote, resultando em compulsão alimentar, a qual pode associar-se a consequências psicológicas, como a perda da autoestima, mudanças de humor e distração”.

Você nunca sai desse ciclo de insatisfações, a dieta nunca acaba, precisa manter esse estilo de vida para sempre. Esse estilo de vida que a aprisiona, a torna fraca, literalmente sem energia para viver.

Uma criança de 11 anos do Reino Unido tinha anorexia nervosa, lidava com transtornos e, em tratamento, acabou com a própria vida, escrevendo nas paredes “meninas bonitas não comem”. A máxima dos distúrbios alimentares. É isso que queremos para as nossas crianças? Essa mentalidade de “você não é perfeita, dê um jeito e mude”. Acabar com a vida é a solução? Para mim pareceu durante um tempo, até que finalmente fiz uma lipo, coloquei silicone, vivi o “sonho do corpo perfeito” e, três meses depois, tentei suicídio. Como explicar chegar ao corpo dos sonhos e ainda assim estar triste, infeliz e desejando morrer? O nome do meu primeiro livro não é “Pare de se odiar” à toa.

A cultura da magreza nunca foi sobre saúde, mas sobre criar em todas as mulheres a sensação de não ser boa o suficiente. Em nada. Permanecer nessa busca incessante é bom para quem? Quem se beneficia disso? Será que é a indústria do emagrecimento que lucra bilhões ao ano? E se isso tudo acontece inclusive com pessoas magras e próximas ao padrão de beleza, imagine com quem está à margem… Se até a Jennifer Lopez faz modificação digital nas fotos do seu corpo, que já é tido como “perfeito”, como deve ser para a mulher gorda?

Não é lembrada pelas marcas de roupas, não é considerada em campanhas publicitárias, não é atendida com gentileza pelos médicos, não é enaltecida no entretenimento, não é tratada com afeto, não passa na catraca, não cabe nos espaços, não tem representatividade. É estar sempre marginalizada e patologizada como um corpo que precisa diminuir. Imagina se a mulher gorda for preta ou LGBTQIAP+, de baixa renda, uma pessoa com deficiência… Só piora a marginalização.

A gordofobia é o preconceito contra o corpo gordo apenas por ele existir. É a cantora Lizzo recebendo ódio de um dos maiores rappers do mundo por apenas ser gorda e livre. É ser “zombada” publicamente por um “humorista” depois de sair na capa de uma matéria importante para um veículo internacional. Gordofobia não é piada.

É a mulher ser julgada até pela forma como respira, senta, anda, se veste, se movimenta. Uma mulher gorda viver e existir na sociedade é um ato político. Apenas isso.

A mulher gorda nunca foi incentivada a viver. A sair dessa solidão que a aprisiona e entender que existe um mundo alternativo que pensa esse corpo, a diversidade desses corpos, nomenclaturas para gordas menores (com mais acesso) e as maiores (com menos acesso). É um mundo possível.

O que as fotos deste editorial dizem para você? O que elas representam? O que esta capa representa? E eu, ao escrever este texto? São muitas perguntas, mas vou responder: significa muito. É o maior veículo do país dizendo neste dia superimportante que devemos olhar para esses corpos com amor, gentileza, afeto. É começar a ver a revolução na sua amiga gorda que é livre com o corpo dela. Entender que o simples fato de ela estar ali já é resistência diante de uma sociedade inteira que a trata como errada.

Se isso lhe causa algum sentimento ruim, reflita, leia o texto de novo, siga os perfis do Movimento Corpo Livre nas redes. Um espaço seguro sobretudo no Instagram, considerado o mais nocivo à saúde mental dentre essas plataformas. Um lugar que vai inspirá-la a mudar seu olhar sobre tudo isso e finalmente pensar em saúde de verdade. Garanto que a liberdade vai lhe conquistar. Saia da prisão que lhe colocaram.

E hoje quem está enaltecida nesta capa é você, mulher gorda. Não estamos acostumadas com isso, mas aos poucos as coisas estão mudando. Eu mesma fui capa da ELA no ano passado e saí na capa da Vogue esta semana, quem diria? A menina de 9 anos nunca acreditaria nisso. Porque precisamos ser ensinadas a lidar com o poder das coisas. Você pode. Mesmo que queira emagrecer, mesmo que queira mudar seu corpo, mesmo que o preconceito continue tentando lhe derrubar. Você pode até cair, mas a liberdade vai lhe ensinar a se levantar e entender que o seu corpo pode ser livre. E político.

ALEXANGRA GURGEL – É carioca, jornalista, escritora e ativista. Em 2020, fundou o movimento #CorpoLivre para ajudar a mudar a percepção das pessoas sobre diferentes corpos, principalmente o gordo. Tem mais de 1 milhão de seguidores no seu perfil no Instagram, @alexandrismos.

GESTÃO E CARREIRA

MODELO DE TRABALHO AFETA SAÚDE MENTAL DE UM TERÇO DOS PROFISSIONAIS

Dos 32% que se sentem afetados, 50% estão no presencial e 21%, em home office, segundo levantamento da plataforma Conexa

Desde o começo do ano, empresas têm estruturado projetos de flexibilidade no trabalho a serem testados. Além de ouvir os funcionários constantemente sobre a preferência de formato e o que vem sendo aplicado, outro ponto a ser considerado é o impacto do modelo adotado na saúde mental e emocional deles.

Pesquisa da Conexa, empresa que presta serviços a operadoras de saúde e corporações, mostra que 32% dos profissionais sentem que o modelo de trabalho afeta a saúde emocional. Desses, 50% estão no presencial; 29%, no híbrido; e 21%, no home office. Para 56%, a modalidade em que atuam não causa interferência.

O levantamento foi realizado entre agosto e setembro deste ano com 1.818 pessoas que fazem acompanhamento psicológico na plataforma. Não é possível identificar o tipo de atividade que cada uma exerce, mas a empresa atende tanto organizações tradicionalmente de escritório quanto indústrias onde o trabalho presencial não é necessário.

A relação entre os modelos de trabalho e as condições emocionais não é unânime, mas encontra eco no histórico dos últimos dois anos. O home office, antes adotado em segmentos específicos, mostrou-se possível diante das restrições de contato impostas pela pandemia, mesmo com a desconfiança inicial sobre se daria certo.

“Percebeu-se que as pessoas acabam até se tornando mais produtivas no home office”, diz Luciene Bandeira, psicóloga e diretora de saúde mental da Conexa. “Por causa dessa experiência, os trabalhadores passaram a olhar para a relação de trabalho de maneira diferente, o que os fez refletir que é possível conciliar vida pessoal e profissional.”

Na pesquisa, os entrevistados perceberam aumentar ou surgir sinais e sintomas de ansiedade (65% em 2022 ante 25% em 2021), mas 80% dizem que fazer psicoterapia tem ajudado. A especialista comenta que isso também foi visto no começo da pandemia por causa do medo do vírus, das incertezas e da onda de demissões.

Assim como o estresse veio como uma resposta ao esforço de adaptação ao home office há dois anos, agora ele surge pela readaptação ao formato presencial. “E como as pessoas já estavam acostumadas, começaram a se questionar”, diz a psicóloga.

MAIS HOME OFFICE, MENOS SALÁRIO

Para melhorar a qualidade de vida, os profissionais até abrem mão de benefícios e salário mais alto. É o caso do analista de sistemas Juan Ferreira, de 26 anos, e da publicitária Michele Almeida, de 28 anos.

Eles sempre trabalharam presencialmente, mas depois de experimentar o home office desde 2020 optaram pela demissão quando as empresas em que trabalhavam retornaram ao escritório.

Na busca por novas oportunidades, a prioridade era trabalhar 100% remoto. “Para mim, o interesse não era salário ou aumento de benefícios, era mesmo o home office”, conta Ferreira.

Mesmo que considere importante fazer trocas presenciais com os colegas, ele acredita que não compensa o tempo gasto no deslocamento, sendo que consegue interagir e conversar tanto de trabalho quanto de amenidades de forma virtual.

Somam-se a isso os benefícios pessoais obtidos com o modelo remoto. “Tenho mais tempo para me exercitar, tenho me alimentado melhor em casa e, para a saúde mental, é mais tempo para ler um livro, descansar, jogar videogame e curtir a família”, relata. Michele expressa as mesmas vantagens e desejo futuro.

“Em outras propostas de trabalho, eu prefiro ganhar menos e trabalhar em casa do que trabalhar presencial ganhando mais”, afirma. Ela também percebe uma melhora no desempenho. “Eu tenho déficit de atenção e não consigo produzir bem no presencial, com pessoas à minha volta conversando.”

Uma pesquisa da consultoria e recrutadora Robert Half realizada com 1.161 profissionais de todo o País reforça os dados da Conexa: 39% dos funcionários buscariam um novo emprego se a empresa atual não oferecesse, ao menos, uma alternativa parcialmente remota.

Para 77% deles, o home office é mais um modelo de trabalho do que um benefício e a mesma proporção indica o formato híbrido como a melhor opção para equilibrar vida pessoal e profissional. Enquanto isso, 17% preferem o remoto e apenas 6% optam pelo totalmente presencial.

A diretora de saúde mental da Conexa diz que as impossibilidades de acordo sobre os modelos de trabalho é algo também novo para as corporações. “As empresas estavam acostumadas com o modelo tradicional, presencial, e agora estão tendo estresse organizacional.”

O OUTRO LADO

A consultora de RH e mentora de carreiras Karen Vasconcelos pondera que o home office não é para todos, seja porque alguns profissionais demandam maior interação humana ou porque o modelo não funciona para certos ramos de atividade.

Em alguns casos, o formato também pode causar sofrimento. Após sair do presencial, a publicitária Michele Almeida começou a atuar remotamente, mas o excesso de trabalho, as cobranças exageradas e o sono desregulado culminaram na síndrome de burnout. “Eu vivia em função do trabalho, então não tinha noção de qualidade de vida de fato. Mas hoje eu lido bem, descobri a terapia nesse período”, conta a profissional.

BEM-ESTAR

Em uma pesquisa realizada pela Vittude em parceria com a plataforma Opinion Box, 59% dos 2 mil entrevistados afirmaram que trabalhar presencialmente traz mais benefícios para a mente e bem-estar. Para 61% deles, a principal motivação é acreditar na importância da interação com os colegas para a saúde mental.

Quando o trabalho presencial se faz necessário ou é requerido, as companhias têm procurado atrair os funcionários. Karen enumera ações como desenvolvimento de liderança, programas de qualidade de vida, benefícios de autocuidado e ambientes humanizados, como os que aplicam neuroarquitetura.

Essas empresas também valorizam políticas ESG e de diversidade e inclusão. “Isso tem diminuído a resistência ao presencial”, ela observa.

Essas estratégias são favoráveis, inclusive, às próprias companhias. “A partir do momento em que a gente cria uma cultura organizacional mais leve, ambiente não tóxico, a cultura da colaboração cresce e equipes de alta performance têm mais entregas”, afirma Karen Vasconcelos.

“As empresas se beneficiam porque se tornam atraentes e daí vem a inovação, porque elas conseguem estimular o processo criativo a partir dessa relação construída com os colaboradores”, diz a consultoria de RH.

EU ACHO …

O ACIDENTE DO TIO DO ZAP

Raul vivia com os dedos sobre o celular. Repassava tudo que recebia sem ter terminado, por vezes, de ler o texto ou ver o vídeo. Considerava uma espécie de “dever cívico” divulgar denúncias de golpes, riscos e conspirações. Nos grupos de WhatsApp que frequentava, era – de longe – o que mais repassava coisas. A maioria ignorava, poucos reclamavam, quase ninguém lia.

A especialidade de Raul eram as profecias apocalípticas: “Ciclone se aproxima do Estado”; “Terça será o dia de frio histórico”; “Chuvas serão muito acima da média no mês de novembro”; “Morte por intoxicação alimentar cresce 234%”… e assim por diante. As denúncias proféticas eram acompanhadas de fotos e vídeos. O mundo era perigoso e estava próximo do fim… sempre.

A crença de Raul era clara e baseava-se em três leis pétreas: 1) Se está no zap, é verdade; 2) O fim é iminente; 3) Quem acessar o zap estará salvo. Era uma religião clara e com apenas esses mandamentos. A fé de Raul encontrava céticos. Na família, havia o grupo de WhatsApp oficial e o grupo “Sem tio Raul”. Ele nunca desconfiou do cisma familiar.

O hábito do tio tinha duas origens: formação fraca e tempo ocioso. Passava horas recebendo e transmitindo coisas. Riscos de vacina? Sabia de tudo sobre gente que morria na Ilha de Santa Helena, no meio do Atlântico. Alguém postava que a vacina era um plano mundial de dominação e, ainda por cima, o denunciante tinha diploma médico por Harvard? Para o tio, era um fato concreto e impossível de superar. Um sobrinho o enfrentava e duvidava do que ele dizia. Ele balançava a cabeça e concluía: “Bem, você fez USP, este estudo é de Yale…”. Era um argumento de autoridade forte e direto. Quem superaria o peso?

O mundo do tio Raul era uma redoma. Ele andava na rua feliz e satisfeito: sabia de coisas que a maioria ignorava sobre quase tudo. Graças ao seu celular, não havia dominação mundial e plano de controle que não fosse denunciado.

A esposa, ao vê-lo sair, advertiu: “Vá pela escada, o elevador está em obras hoje”. Prestando atenção no seu celular, ele ignorou os avisos. Chamou o elevador, abriu a porta e deu um passo em direção ao vazio. O elevador não estava naquele andar. Distraído com o grupo no celular, ele caiu no poço e quebrou o pescoço. No curto trajeto até o chão, ainda teve tempo de um último pensamento: “Por que não o tinham avisado no zap?”. Era a última e fatal conspiração. Esperança?

*** LEANDRO KARNAL – É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, autor de ‘A Coragem da Esperança’, entre outros

ESTAR BEM

AUTOMASSAGEM NOS PÉS, UM TOQUE DE EQUILÍBRIO

Leve pressão em toda a área pode ser feita diariamente, na hora de ir para cama. De 5 a 10 minutos são suficientes para sentir os benefícios

Muitas vezes a gente só lembra deles quando se machuca e não pode contar com esta dupla 100% boa. Os pés. Partes fundamentais para o equilíbrio, e não só no sentido físico. Uma forma de manter mente e corpo em harmonia é simplesmente incorporar à rotina uma massagem nos pés antes de dormir.

Embora exista a reflexologia podal, prática terapêutica que prevê a pressão em certos pontos dos pés com a finalidade de melhorar a saúde dos órgãos, ninguém precisa se preocupar com teoria ou ser um expert para fazer uma automassagem. Segundo o terapeuta Pedro Saliba, o importante é prestar atenção nas respostas do próprio corpo e começar devagar.

“Massagem é uma coisa que todo mundo pode tentar fazer. O primeiro conselho que eu dou é usar um toque leve. Imagine que tem de ser uma sensação prazerosa”, afirma. Tampouco há necessidade de temer por algum malefício resultante da pressão feita nos pés. “Não tem nenhum ponto que a pessoa vai apertar e que vai dar tilt”, brinca o especialista, que desenvolveu um método chamado de Full Relax and Heal.

Nele, o terapeuta junta diferentes técnicas, aromaterapia, reflexologia e liberação miofascial – informações em @pedrosalibamassagem no Instagram. “Eu faço mais movimentos, uso o toque firme, mas sem dor. Quando a gente está fazendo essa manipulação, o corpo começa a produzir hormônios que trazem prazer, cura e recuperação muscular.” Veja as dicas do terapeuta e os benefícios da automassagem nos pés:

DESCANSO NA ÁGUA MORNA

O terapeuta recomenda que se prepare a região para receber a automassagem. “Eu gosto que a pessoa comece fazendo um escalda-pés. Ela vai pegar uma bacia, colocar água bem quente do chuveiro, numa temperatura que o corpo aguente. Aí vai botar sal e, se tiver óleos essenciais, pode pingar umas gotinhas na água”, explica o profissional. Gerânio ativa a feminilidade, hortelã-pimenta auxilia quem tem problemas para manter o foco, recomenda Saliba. Os pés devem ficar de molho na água quentinha, durante cerca de dez minutos. “É o tempo em que a água vai esfriar”, diz.

DEDICAÇÃO AOS PÉS

Depois de enxugar os pés, com um pouco de creme hidratante nas mãos, comece tateando toda a área com as pontas dos dedos, para sentir se tem algum ponto mais sensível e evitar pressioná-lo demais. “A pessoa pode fazer movimentos circulares na sola do pé e na curva, acompanhando a anatomia. Pode fazer nas duas direções livremente”, ensina o terapeuta. “Depois, massageia o peito do pé e também entre os dedos.” No total, entre 3 e 5 minutos são suficientes para sentir os efeitos.

AUTODESCOBERTA

Saliba explica que se massagear serve também como exercício de autoconhecimento. “Entre as mulheres principalmente existe muito tabu no toque do corpo. A prática ajuda nisso”, afirma.

HIDRATAÇÃO DA PELE

Para a automassagem nos pés, serve qualquer creme hidratante, de preferência com uma fragrância suave ou a que você já esteja acostumado. Quem quiser pode comprar um neutro, sem perfume, e pingar umas gotas de óleos essenciais. “Uma boa combinação pode ser melaleuca, ação anti-inflamatória, com lavanda, que é calmante”, indica o terapeuta.

FREQUÊNCIA POR SEMANA

O hidratante pode ficar ao lado da cama e a automassagem ser feita todo dia, antes de dormir. Afinal, sem contar o escalda-pés, a prática leva só alguns minutos. “Ajuda muito a relaxar, em casos de ansiedade e quando a pessoa chega do trabalho e não consegue desligar. Vai melhorar a saúde do sono, para ele ser reparador”, diz Saliba. A automassagem completa nos pés pode ser realizada quando você tiver condições de tirar um tempo maior para si, de repente no fim de semana. “Se a pessoa conseguir fazer isso uma vez por semana, já vai ter vários benefícios.”

FOCO NA PANTURRILHA

“Após a estimulação do pé, é bacana fazer o mesmo na panturrilha. Ali tem o acúmulo de toxinas do sistema linfático, principalmente para quem trabalha em pé.” Nessa região, é importante que o movimento contínuo seja feito sempre de baixo para cima, por causa da circulação. Segundo o especialista, basta massagear de 2 a 3 minutos.

INTENSIDADE DO TOQUE

“É importante respeitar os sinais do corpo. Se há uma parte dolorida no pé, não quer dizer que é para você ficar apertando ali até melhorar”, afirma o especialista.

Não vá além do limite, nem na frequência nem na intensidade. “Só vai ser dolorido se você realmente usar muita força.” Uma pressão exagerada pode acabar machucando também as mãos.

ATENÇÃO A CONTRAINDICAÇÕES

“A massagem é contraindicada para pacientes com diagnóstico de câncer porque ela acaba espalhando essas células. Outra contraindicação é em casos de trombose porque o trombo pode mover-se e se alojar em outra parte”, explica Saliba. Já para quem sofre com pressão alta, ele recomenda a prática. “Diminui a pressão nas artérias e relaxa o corpo.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SEIS EM CADA 10 PESSOAS ESTÃO SOBRECARREGADAS

Desânimo, exaustão, irritabilidade, esquecimento, ansiedade e depressão – essas são algumas das consequências do excesso de atividades para a saúde mental

Frases do tipo “Trabalho enquanto eles dormem” ou ”Dou conta de tudo sozinha”, que romantizam a sobrecarga, podem estar no pensamento de pessoa que está passando por sofrimento emocional, extrapolando a sua saúde mental.

Para se ter uma ideia, uma pesquisa divulgada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que 43% dos entrevistados dizem que estão com sobrecarga de trabalho e 31% sofrem pressão por resultados e metas.

Mas não é só no trabalho que essa situação acontece, também é comum para quem é responsável por outros adultos que precisam de cuidados especiais, ou então por pais responsáveis por crianças pequenas. Segundo um levantamento com 1.086 brasileiros, realizado pelo grupo Consumoteca, pelo menos seis em cada dez participantes afumaram sentir falta de apoio no dia a dia com as crianças estarem sobrecarregados pelo acúmulo de trabalho – o que engloba emprego e cuidados com os filhos e a casa.

De acordo com o psicólogo Luiz Mafle, professor de psicologia e Doutor em Psicologia pela PUC Minas e Universidade de Genebra, a sobrecarga acontece quando a  pessoa tem diversas tarefas para realizar ao mesmo tempo ou quando está muito preocupada com uma atividade.

“O desgaste emocional pode acontecer; por exemplo, quando é preciso tomar conta de alguém que tem uma necessidade e precisa estar presente o tempo todo. Esses              cuidados geram uma sobrecarga. Outra situação pode ser um trabalho que apresente urgência a todo momento – ou seja, o tempo todo a pessoa precisa checar, verificar; lembrar. Tudo isso pode gerar uma sobrecarga. Na hora que essas duas situações se acumulam, é uma bomba. Nesse momento, o nível de estresse e depressão é possível dobrar ou quadruplicar”, explica

PSICOTERAPIA É FUNDAMENTAL

O especialista diz que, muitas vezes, a pessoa sobrecarregada se sente menos valorizada, então para mostrar seu valor busca assumir muitas tarefas, para as pessoas verem que ela tem muita capacidade.

”A psicoterapia é fundamental para ver até que ponto a responsabilidade deve ser assumida e até que ponto ela deve ser compartilhada com alguém, porque muitas vezes essas crenças centrais de não ser amado e de não ter valor nos fazem tomar decisões, ter atitudes e pensamentos que nos colocam em enrascadas e não vemos muitas saídas. A terapia é um ótimo lugar para lidar com as situações, trazendo menos peso para nosso dia a dia”, orienta Luiz Mafle.

TUDO À FLOR DA DELE

Uma das principais características de uma pessoa que está  tentando lidar com diversas tarefas é a irritabilidade. “A pessoa fica muito sensível, e isso pode refletir na forma de agressão, caso seja reativa, ou na forma de choro, caso seja mais  emotiva. Tem gente que chora por qualquer coisa que digam. Isso acontece porque ela está tentando se livrar  de qualquer outra demanda que possa surgir”, alerta Luiz.

INSÔNIA

Com tantas tarefas e a cabeça cheia de pensamentos, normalmente quem está sobrecarregado começa a ter perda de sono. “Com o sono desequilibrado, o cansaço se torna ainda mais frequente. Além disso, começa a gerar impactos na rotina e também na saúde física”, conta o especialista.

PERDA DE RENDIMENTO NO TRABALHO

O excesso de preocupações e tarefas também prejudica o foco e a atenção no trabalho. “Normalmente, quem está sobrecarregado se sente desmotivado e com dificuldades de concentração, o que pode impactar diretamente na rotina  profissional  Além disso, a irritabilidade e os sentimentos à flor da pele podem provocar conflitos entre os colegas”, orienta Luiz

AUMENTO OU PERDA DE APETITE

A sobrecarga emocional também atinge a  forma como cuidamos do nosso corpo e alimentação. “É possível ver pessoas que esquecem de comer e outras que descontam os sentimentos na alimentação. Necessitamos olhar com cuidado e entender porque está acontecendo esse desequilíbrio na alimentação, pode ser um sinal que o corpo e a mente precisam de ajuda”, explica Luiz.

SENTIMENTO DE FRACASSO

“Com tantas atividades sob seu controle, a pessoa sobrecarregada muitas vezes não consegue dar conta de tudo e se sente frustrada e com o sentimento de desamparo. Ela começa a abraçar o mundo e isso a sufoca e frustra”, conta.

ANSIEDADE

Quando vivemos além dos nossos limites normalmente também estamos em estado de ansiedade. “O cansaço mental pode vir acompanhado de dores no peito, falta de motivação e crises de ansiedade. Com tantas preocupações é comum que os indivíduos fiquem mais ansiosos e comecem a criar cenários em sua cabeça, o que pode aumentar ainda mais os gatilhos para ansiedade”, revela Luiz.

DEPRESSÃO

Quando vivida em grandes períodos, a sobrecarga é um dos principais fatores que causam ansiedade e depressão. É normal que existam períodos cansativos, mas ao atingir o objetivo que almejava, a pessoa deixa de ficar tão sobrecarregada. “Agora quando essa sobrecarga é vivida por longos períodos, a pessoa começa a se sentir frustrada, a vida começa a se paralisar porque não sobra espaço para outros crescimentos, desenvolvimentos, e vira uma rotina muito pesada. A pessoa vai se sentindo pior, cansada, sem energia e não consegue ter uma vida pessoal nem um autocuidado, além de se sentir desvalorizada e abandonada, o que aumenta o nível de ansiedade e depressão”, esclarece o especialista.

ISOLAMENTO

Em um nível mais avançado de sobrecarga, a pessoa começa a se fechar e a se isolar, não tendo contato com os amigos e familiares. “Ela se fecha e não conta com mais ninguém, quer se isolar. Tudo parece virar uma exigência, então ela acha que qualquer outra demanda vira uma tarefa, assim começam os problemas nas relações”, diz o psicólogo.

DEIXAR O AUTOCUIDADO DE LADO

Com tantas tarefas, a pessoa não consegue ter um tempo para olhar para si mesma “Normalmente perde o prazer em se cuidar, se arrumar e, às vezes, deixa de lado até os atos de higiene. Não se olha mais com carinho e atenção, porque a exaustão tomou conta e o autocuidado se torna mais uma tarefa em meio a tantas”, revela.

NÃO BUSCA AJUDA

É importante buscar ajuda e se cuidar. Uma pessoa com sobrecarga tira muito proveito da psicoterapia, porque ela vai compreender quais os motivos que estão levando ela a assumir todas essas responsabilidades de uma vez e provavelmente sozinha, o que ela sente que precisa compensar assumindo tanta responsabilidade para si e que não pode compartilhar com outras pessoas”, explica Luiz.

OUTROS OLHARES

BRASIL TEM MAIS MORTES DE CRIANÇAS POR SÍNDROME RARA

Complicações elevam riscos de sequelas cardíacas, apontam pediatras

A mortalidade por SIM-P (síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica) de crianças no Brasil é oito vezes a encontrada nos Estados Unidos.

De acordo com os dados divulgados no último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, foram confirmados 1.899 casos de síndrome rara em crianças no país, com 129 óbitos, do início da pandemia até o dia 17 de setembro de 2022.

Já nos EUA, dados levantados pelo CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) apontam 9.006 casos de SIM-P registrados até 3 de outubro de 2022, com 74 mortes.  

A taxa de letalidade no Brasil é, assim, de 6,8% – portanto, 8,2 vezes a dos EUA, que é de 0,82%. Em todo o mundo, estudos encontraram uma letalidade de SIM-P entre 1% e 7%, o que estaria de acordo com os dados indicados nos dois países.

A mortalidade no Brasil se concentra principalmente na idade de 1 a 4 anos, com 38 (29,4%) mortes por SIM-P nesta faixa etária – para a qual o governo federal ainda não iniciou a vacinação.

Os dados brasileiros podem, ainda, ser subnotificados, uma vez que o Ministério da Saúde até o momento não apresentou um estudo ou rastreamento de todos os casos de síndrome rara pós- Covid-19 em crianças, lembram especialistas.

“É difícil saber a real dimensão de SIM-P no país. Temos poucos dados de Covid, e menos ainda sobre a síndrome multissistêmica pós-Covid”, explica a cardiologista pediátrica Isabela Back.

Pesquisas até agora indicam que a SIM-P, caracterizada por uma reação exacerbada do sistema imunológico que acaba atacando o próprio organismo mesmo após alta da Covid, acomete uma a cada 3.000 crianças.

Além de SIM-P, sequelas cardíacas podem aparecer também em dois outros quadros, explica a cardiologista: Covid longa e durante a própria fase aguda da doença. “Os dados que existem são um número menor de casos, de crianças que foram hospitalizadas com Covid, e nessas 1 em cada mil crianças [0,1%] podem ter quadro cardiovascular.”

Back lembra que o país registrou um número muito alto de casos de síndrome respiratória aguda grave (Srag) nos menores que pode ser causada pelo coronavírus, mas o acompanhamento desses casos é insuficiente para dar conta da dimensão. “Algumas crianças podem ter morrido de sequelas cardíacas sem a confirmação do diagnóstico de Covid”, diz.

Crianças que tiveram quadro agravado de Covid, especialmente naquelas que foram hospitalizadas, o risco de desenvolver SIM-P ou sintomas de Covid longa é maior.

Nesse último grupo, a possibilidade de aparecerem sequelas cardíacas mesmo meses após a alta hospitalar pode continuar, e pediatras reforçam a importância do acompanhamento médico para avaliar se há danos no coração.

“Os estudos feitos aqui e lá fora já nos mostram que há alterações cardíacas importantes que podem surgir após esses quadros [de SIM-P e Covid longa], então a criança precisa passar por uma avaliação cardiovascular antes de ser liberada para a prática de atividade física”, afirma Back.

Um estudo realizado por pesquisadores do Instituto da Criança (ICr) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP apontou que 48% das crianças que foram hospitalizadas no instituto com Covid tinham alterações cardiológicas, e elas eram ainda mais frequentes nas crianças que desenvolveram SIM-P.

Para a cardiologista pediátrica Gabriela Leal, coordenadora do serviço de ecocardiograma do ICr e responsável pelo estudo, não é possível saber ainda se essas mudanças podem persistir e aumentar o risco cardiovascular no futuro.

A Covid pode causar inflamação e obstruções em pequenos vasos que nutrem o músculo do coração. Exames de ecocardiograma convencionais nem sempre conseguem identificar essas sequelas, mas um exame diferenciado, como o utilizado pelos pesquisadores do ICr, sim.

“É importante reforçar que a SIM-P é um evento raro e a letalidade também vai depender muito da condição do local onde a criança recebe atendimento, mas é uma condição potencialmente grave. O que nós queremos alertar é que mesmo as crianças que recebem alta podem ter algum grau de comprometimento, por isso é preciso continuar o acompanhamento”, afirma.

Em razão disso, médicos do Departamento de Cardiologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Cardiologia pretendem escrever uma carta científica com algumas diretrizes para acompanhamento dos pacientes pediátricos que tiveram quadro grave de Covid, SIM-P ou sintomas de Covid longa para avaliar os possíveis riscos cardiológicos nesta população.           

Os cientistas ainda não sabem se há alguma predisposição genética que pode ser um marcador para risco de sequelas cardíacas ou se esse quadro tem semelhança com a síndrome de Kawasaki – condição rara e de causa desconhecida que pode levar a febres, erupções no corpo e, em casos graves, inflamação dos vasos do coração.

“O que observamos, no entanto, é que no Brasil as crianças com SIM-P são muito mais jovens: enquanto a média de idade global é de 9 anos, aqui as nossas crianças com 5 anos têm esse quadro”, diz Back.

Até o momento, porém, sabe-se que a vacinação, por ter uma alta eficácia para prevenir os quadros graves da Covid, ajuda também a proteger contra SIM-P e contra risco de sequelas pós-Covid.

“É absolutamente necessário que as crianças sejam vacinadas, e com o esquema completo. Há muita desinformação, muitos pais se recusam a vacinar os filhos, é preciso alertar que a vacina tem uma segurança absoluta e com isso [a vacinação] conseguimos reduzir as formas graves da doença e o risco de sequela cardiovascular”, diz Leal.

Blog O Cristão Pentecostal

"Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva. Convertam-se! Convertam-se dos seus maus caminhos!" Ezequiel 33:11b

Agayana

Tek ve Yek

Envision Eden

All Things Are Possible Within The Light Of Love

4000 Wu Otto

Drink the fuel!

Ms. C. Loves

If music be the food of love, play on✨

troca de óleo automotivo do mané

Venda e prestação de serviço automotivo