OUTROS OLHARES

CARRINHO MAIS VAZIO

Quantidade de produtos deixados na boca do caixa salta 63% em um ano

Apesar da deflação nos últimos meses, o alívio não chegou aos alimentos, e ir ao supermercado está quase 10% mais caro do que no início do ano. A perda do poder de compra fica evidente nos carrinhos, cada vez mais vazios. A quantidade de produtos deixados pelos consumidores na boca do caixa saltou 63,32% no terceiro trimestre de 2022, em relação ao mesmo período do ano passado.

De acordo com pesquisa realizada pela Nextop, foram mais de 285 mil itens abandonados de julho a setembro deste ano, ante pouco mais de 174 mil no mesmo período de 2021. As desistências acontecem principalmente quando os clientes passam os produtos no caixa e, na hora de fechar a compra, percebem que não têm como pagar pelo total de itens escolhidos.

Como orçamento apertado, a saída encontrada pelas famílias é enxugar as compras e tirar da cesta os itens mais caros, sejam eles supérfluos ou essenciais. Cerveja, leite, bebida láctea, açúcar, óleo, café e arroz são alguns dos itens que mais foram devolvidos pelos consumidores.

“O consumidor está deixando de levar, porque não tem condições. E a inflação tem a ver com isso”, diz Juliano Camargo, CEO da Nextop, empresa que atua há 25 anos com soluções de tecnologia de segurança de varejo e prevenção de perdas.

O levantamento foi realizado em 982 supermercados de pequeno e médio portes, que tiveram faturamento de R$ 2,5 bilhões no terceiro trimestre.

A alta dos alimentos e a redução do poder de compra estão por trás do abandono dos produtos. O grupo alimentação e bebidas teve inflação de 9,54% no acumulado do ano até setembro, e comer em casa ficou 13,3% mais caro nos últimos 12 meses, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE.

AUMENTOS FREQUENTES

Os preços dos alimentos e das bebidas recuaram 0,5% em setembro pela primeira vez em quase um ano, mas encher o carrinho no supermercado continua desafiador para as famílias, sobretudo as mais pobres. O leite longa vida, visto como um dos vilões para a inflação dos alimentos nos últimos meses, chegou a ter queda de 13% em setembro pelo fator sazonal. Mas ainda acumula alta de 37% em 12 meses.

O produto foi um dos itens que a administradora Brunna Belmonte, de 31 anos, deixou de comprar recentemente, quando se deparou com o valor de R$ 10 o litro. Morando com a mãe, Alcione Santos, de 75 anos, na Zona Sul do Rio, ela conta que já enxugou a lista de compras e, mesmo assim, acaba deixando para trás alguns itens na hora de pagar.

“Quando chega ao caixa, a gente vê que a conta não fecha. Nós abandonamos o que é supérfluo para comprar os itens do dia a dia”, comenta Brunna, que prioriza frutas e legumes e carnes de segunda.

Luis Otávio Leal, economista-chefe do banco Alfa, avalia que o aumento dos itens deixados no caixa reflete o descompasso entre a velocidade de variação dos preços e do aumento da renda real (descontada a inflação), que tem subido nos últimos meses:

“Fazia tempo que não víamos uma alta de preços nessa velocidade, por isso surpreende. A pessoa não vai preparada para gastar aquele dinheiro todo no supermercado, porque os preços de alguns itens já haviam aumentado da última vez que ela foi.”

O carrinho de compras do aposentado Geovah Correia dos Santos, de 89 anos, morador do bairro Mallet, na Zona Oeste do Rio, não é mais o mesmo. Ele cortou carne, reduziu a quantidade de arroz, e tirou a cervejinha da lista.

“Nem lembro quando foi a última vez que enchi um carrinho de compras no supermercado. Agora só bebo cerveja se for convidado”, brinca.

Guilherme Dietze, assessor econômico da Fecomércio- SP, enfatiza que a conjuntura econômica atual limita a capacidade de consumo das famílias. Além da taxa de juros – que subiu 11,75 pontos desde março do ano passado, saltando de 2% para os atuais 13,75% – e do endividamento recorde das famílias, o aquecimento do emprego não foi suficiente para impulsionar a recuperação da renda, pois quem ingressa agora no mercado de trabalho ganha salários menores, lembra ele:

“As famílias estão pagando mais juros do que há um ano, então se torna cada vez mais difícil equilibrar as contas, e isso impacta sobretudo as famílias de renda mais baixa.

Na fila do caixa do mercado, Vinícius Pereira Castro, de 30 anos, conversava com a mulher, Débora Muniz, de 29, sobre como está difícil manter a casa. Presidente da Associação de Moradores da Comunidade Mangueiral, em Realengo, na Zona Oeste do Rio, Castro conta que frutas para os três filhos menores só entram em casa uma vez por mês:

“Até o arroz e feijão, que comprávamos em grande quantidade, para nunca faltar, tivemos que reduzir. Farinha láctea nunca mais compramos. Sobrevivemos comprando aos poucos.

‘O PIOR JÁ PASSOU’

Com uma lista de compras nas mãos, o pintor de automóveis, Carlos Alberto Oliveira, de 67 anos, morador do Sulacap, também na Zona Oeste, riscava vários itens, inclusive os da cesta básica, como óleo.

“Costumava vir ao mercado e levar um carrinho cheio, agora uso a cestinha porque o dinheiro não está dando para nada”, queixa-se Oliveira, que aproveita os dias de promoção para economizar.

Na avaliação de economistas, a boa notícia é que o cenário macroeconômico parece reservar uma trajetória melhor para a inflação dos alimentos nos próximos meses, sem tanta volatilidade, ainda que alguns alimentos tenham um aumento no fim de ano, como ocorre historicamente nesta época:

“O pior já passou. Alguns produtos já começaram a cair de preço, como o leite, as carnes e o óleo de soja (por conta do clima e da queda dos preços das commodities no mercado internacional), embora no final do ano vão subir um pouco pelo efeito sazonal. A inflação de alimentos ainda vai fechar 2022 em dois dígitos, mas ano que vem cairá para um. Historicamente a inflação de alimentos é elevada, a média de alta fica em torno de 8% ao ano”, lembra Leal.

O obstáculo à frente é que, uma vez que a economia brasileira entrou num patamar mais elevado de inflação, é desafiador sair de um nível de preços elevados para um cenário menos pressionado:

“Vamos ter uma nova referência de preços, um pouco mais alta do que tínhamos antes da pandemia. Para voltar aos preços normais sem risco, vai demorar mais um pouco”, avalia Dietze.

Patrícia Lino Costa, economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), concorda:

“O preço do óleo de soja começou a cair por conta da redução do valor da commodity no mercado internacional. Mas, em 2019, ele custava em torno de R$ 3,50, hoje custa em média R$ 7,50. O patamar de preço subiu e mudou muito. E os produtos que passam por algum tipo de elaboração industrial tendem a não voltar (ao nível de preços anterior).

GESTÃO E CARREIRA

COMO LIDAR COM CRÍTICAS NO TRABALHO

Ter dedos apontados para si, com destaques negativos às características da personalidade, das atitudes ou da conduta profissional, representa um cenário capaz de provocar crises de ansiedade

O medo da crítica externa está relacionado ao receio de se sentir rejeitado por um grupo social e é natural do ser humano. De acordo com a coordenadora do curso de Psicologia da Faculdade Anhanguera, professora Mariana Negri, a tendência a reagir às críticas é uma ação natural e as pessoas podem responder de várias formas, como com explosões de humor ou com a introspecção.

O caso pode se tornar um problema quando evolui para um quadro de fobia e o indivíduo não consegue lidar com a opinião alheia, com preocupação excessiva e dificuldade na superação. “As reações vão depender de diferentes fatores, principalmente de como o comentário foi compartilhado e do olhar que o sujeito que recebeu a crítica tem de si mesmo”, afirma a docente.

O medo excessivo pode inibir o indivíduo criticado até quando ele estiver em situações em que haja interações sociais (ligações telefônicas, falar em público, comer fora de casa) ou em que a pessoa corra o risco de ser observada (reuniões, festas, grupos de estudo). Dentre os sintomas mais comuns, estão o aceleramento cardíaco, tremores involuntários e a sensação de falha na memória ou interrupção de pensamentos, sintomas semelhantes a crise de ansiedade, muitas vezes confundido com ataques cardíacos.

AUTOCONHECIMENTO

Para lidar melhor com a crítica externa, a recomendação de especialistas é a de que seja feito um processo de autoconhecimento. Para avaliar o que foi dito por outra pessoa é preciso ter como referência o pilar da autoestima e do autoconceito.

“Dessa forma, é possível identificar o que é um comentário destrutivo e o que pode ser utilizado para o crescimento pessoal, sem ficar vulnerável ao que os outros dizem”, afirma a professora da Anhanguera. Sessões de terapia com um psicólogo qualificado podem apresentar caminhos para a compreensão de si mesmo, além de proteger a saúde mental e contribuir na melhora da qualidade de vida. O movimento indicado é o da reflexão, não o da reação imediata.

TRABALHO

Críticas no ambiente de trabalho podem ser recebidas como um desafio por alguns, porém, é importante entender o motivo das afirmações feitas por líderes e colegas. Além da auto- análise, a comunicação assertiva é fundamental para compreender o que foi dito e avaliar o que pode ser aproveitado para o desenvolvimento profissional.

“Nesses casos, é aconselhável separar um tempo para conversar sobre as diferentes opiniões, separar que é ou não é verdade permitir o aprendizado”, finaliza a professora.

EU ACHO …

CIÊNCIA PARA ALÉM DA CIÊNCIA

É essencial conhecer os elementos extrarracionais que impactam a ciência

Existe a ciência do senso comum, a ciência praticada por profissionais no dia a dia e a ciência que é objeto da especialidade em filosofia chamada epistemologia. Esta reflete sobre o método científico, a demarcação entre ciência e não ciência, e os elementos extrarracionais que impactam a prática científica.

Epistemólogos são filósofos especializados em refletir sobre a ciência para além do que sua infantaria – pesquisadores e todo o corpo social que se dedica ao cotidiano da pesquisa e aplicação desta – é capaz de fazê-lo, inclusive porque está ocupada com a prática, o ganho financeiro da sua vida, o reconhecimento dos pares, publicação de artigos e garantia de espaços nas instituições financiadoras, que são universidades, fundações ou empresas de capital privado – a “indústria” como é conhecida.

Essa infantaria se caracteriza, às vezes, por desconhecer o que a teoria da ciência – a epistemologia – reflete ao longo das últimas décadas. Grande parte da epistemologia tem se dedicado a identificar o que seria o método científico. O entendimento básico é: hipóteses, experimentos, verificação ou refutação das hipóteses que se dá via redes de colaboração entre pares e instituições.

Entretanto, tem se tornado cada vez mais importante o estudo dos elementos extrarracionais ao método científico que impactam a materialidade cotidiana da ciência. Quais seriam esses elementos?

Thomas Kuhn (1922-1996) ficou famoso por introduzir no entendimento da ciência elementos exteriores ao método em si. Criador da concepção de paradigma em ciência, e sua quebra – termo que ganhou vida autônoma em palestras motivacionais no mundo empresarial e de coaching -, Kuhn entendia que na ciência não há pessoas nem instituições em busca de descobrir nada de novo, mas apenas profissionais preocupados em reforçar suas posições institucionais e teóricas. A descobertas, as anomalias, acontecem à revelia do paradigma dominante.

Paul Feyerabend (1924-1994), mais radical, afirmava que na ciência não há método algum, mas interesses institucionais, ações isoladas de leigos, vaidades, fatos aleatórios, financiamentos, brigas políticas e similares, que juntos causam o funcionamento da ciência sem nenhuma previsibilidade. Um anarquista em epistemologia.

Bruno Latour, antropólogo, chegou mesmo a propor uma etnologia de laboratório para identificar como funciona o cotidiano comportamental dos pesquisadores e os materiais através do quais a ciência “avança”, para além dos discursos idealizadores da ciência ou o marketing das marcas, entre elas as universidades.

Na prática, o senso comum considera ciência os resultados de exames, vacinas, diagnósticos, aviões, computadores, inteligência artificial, celulares, enfim, produtos da interação entre tecnologia e aplicação útil, mas não entende nada sobra a ciência de fato. O epistemólogo Imre Lakatos (1922-1974) buscou um “meio-termo” entre o idealismo da ciência pura e o olhar atento de Kuhn e Feyerabend para os elementos extrarracionais que atuam sobre a ciência. Lakatos produziu um dos modelos mais interessantes em epistemologia, que faria muito bem à infantaria da ciência tomar conhecimento, assim como o senso comum que pensa ciência como novas descobertas a cada dia.

A ciência é composta pelo núcleo racional – o método -, um cinturão racional – as teorias científicas dependentes do método – e elementos extrarracionais tais como financiamentos, vaidades, modas teóricas, lutas por espaços institucionais, mercados e reserva de mercados, lobbies que envolvem profissionais das áreas, lutas políticas ideológicas, presença na mídia.

O cinturão racional é poroso. Essa porosidade opera como pressão sobre os profissionais em busca de sobrevivência. Não há ciência pura. Arriscaria dizer que esses elementos extrarracionais, hoje em dia, dominam muito mais o espaço de validação pública do que é ciência por parte do senso comum e dos próprios profissionais do que o núcleo racional. Quanto mais marketing e mídias sociais, menos núcleo racional.

*** LUIZ FELIPE PONDÉ – É escritor e ensaísta, autor de ‘notas sobre a esperança e o desespero’ e ‘Política no Cotidiano’. É doutor em filosofia pela USP.

ESTAR BEM

EXERCÍCIOS FÍSICOS AJUDAM A MELHORAR A MEMÓRIA, MOSTRA ESTUDO; VEJA QUAIS

A intensidade da prática afeta o tipo de lembrança, episódica ou espacial, por exemplo, a ser fortalecida, sugere publicação

Não é segredo que a prática regular de exercícios físicos traz muitos benefícios. Eles protegem contra o desenvolvimento de condições crônicas, como diabete e doenças cardíacas e, em alguns casos, podem melhorar a saúde mental.

Mas que efeito eles têm em funções específicas, como a memória? Um regime de exercícios pode te ajudar a lembrar as pontuações do jogo de ontem, onde você foi em seu primeiro encontro com sua namorada (ou namorado) ou onde deixou suas chaves? É possível. Estudos ao longo dos anos têm sugerido que um único treino pode melhorar a memória e que a prática regular ao longo de anos ou décadas não apenas melhora a memória, como também ajuda a fortalecer contra problemas futuros.

Agora, um estudo recente do Dartmouth College (EUA) se concentra em como a intensidade do exercício, durante um período de tempo, pode desempenhar um papel importante no reforço de diferentes tipos de memória.

“Sabemos que o exercício funciona, mas não sabemos quais variáveis de exercício o tornam mais eficaz”, disse Marc Roig, professor de fisioterapia e terapia ocupacional da Universidade McGill, que estuda o efeito do exercício na cognição e não participou do estudo. “Acreditamos que a intensidade é um desses fatores.”

Um dos principais desafios ao estudar a ligação entre o exercício regular e a memória é que as mudanças são difíceis de medir. Isso é complicado pelo fato de que muitos outros fatores afetam a memória, como trabalhar num emprego sedentário ou sofrer privação crônica de sono. Além disso, existem diferentes tipos de memória, o que explica como uma pessoa pode perder constantemente suas chaves (memória espacial ruim), mas ter um talento especial para lembrar datas de nascimento (memória semântica forte).

Os relógios rastreadores de atividades podem oferecer uma solução para esses problemas. Em um artigo recente publicado na revista Nature Scientific Reports, pesquisadores analisaram dados de um ano de rastreadores Fitbit de 113 pessoas, que também completaram uma série de testes de memória, como lembrar detalhes de um conto, detalhes espaciais, termos de língua estrangeira e listas de palavras aleatórias.

A vantagem do método é que ele vinculou um ano inteiro de dados dos padrões de atividade dos participantes – quanto exercício eles fizeram, quão intenso, com que frequência – ao seu desempenho em testes de memória.

Outros estudos rastrearam padrões de atividade por meio de dados autorrelatados, que geralmente são menos confiáveis do que os dados do rastreador, pois as pessoas tendem a subestimar quanto tempo passam paradas e se lembram incorretamente de seus níveis totais de atividade.

“Você pode obter uma imagem muito mais detalhada com os dados do rastreador de atividades”, disse Jeremy Manning, professor do Dartmouth College e um dos autores do estudo.

Manning e seus colegas descobriram que as pessoas ativas tinham melhor memória em geral, em comparação com as sedentárias, mas também que os tipos de testes em que se saíam bem variavam dependendo da intensidade com que se exercitavam. Por exemplo, os participantes que se envolveram em atividades leves a moderadas, como caminhadas regulares, tiveram melhor memória “episódica”. Ou seja, a capacidade de lembrar detalhes sobre fatos cotidianos, como encontrar um amigo em um café.

Diversos estudos anteriores já mostraram que quanto mais as pessoas são ativas, melhor, em média, é sua memória episódica.

Os participantes que se exercitavam regularmente com mais intensidade – como correr ou fazer um treino HIIT (treino intervalado de alta intensidade, em português) – eram mais propensos a ter melhor desempenho em tarefas de memória espacial.

A memória espacial é a capacidade de lembrar relações físicas entre objetos ou locais no espaço, como onde você colocou suas chaves.

Vários outros estudos mostram que o exercício de alta intensidade pode ser mais útil para esse tipo de memória do que para outro. Porém, é preciso mais estudos para solidificar essas associações.

“Quanto mais pudermos conectar os padrões de atividade cotidiana ao desempenho cognitivo, mais perto estaremos de pensar sobre o estilo de vida”, o quão ativo você é durante todo o dia e os padrões de sono, disse Michelle Voss, neurocientista cognitiva da Universidade de Iowa. Para Phillip Tomporowski, professor de cinesiologia da Universidade da Geórgia, do estudo, esse trabalho é um “primeiro palpite muito bom” sobre como certos padrões de exercícios afetam certos tipos de memória.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESAFIO DE SER ADULTO

Longevidade crescente de pessoas com Down impõe novos desafios

Aos 43 anos e com Síndrome de Down, a massoterapeuta Helga Almeida não apenas chegou à fase adulta – algo impensável há um século – como acredita estar no auge de sua vida. A síndrome, causada por uma modificação no cromossomo 21 do DNA humano e também chamada de trissomia, não a impediu de frequentar a escola e fazer atividades sozinha, como pegar ônibus, cozinhar e trabalhar com atendimento ao público. Hoje é ela quem planeja sua rotina de trabalho no Instituto Mano Down e no Banco Inter. Quando não está trabalhando, divide o tempo entre aulas de zumba, capoeira, yoga e natação. No fim de semana, o programa é ir à balada com amigos.

“Sempre acreditei em mim. Meus pais são médicos e me deixaram livre para que eu aprendesse a fazer as coisas de que gostava. Ando sozinha na rua, pego metrô, já trabalhei como secretária e em supermercado aos 20 anos e, quando descobri que amava fazer massagem, fiz um curso. Hoje atendo crianças, idosos e adultos com e sem Síndrome de Down”, conta a mineira, natural de Belo Horizonte.

O Brasil tem cerca de 300 mil pessoas com Síndrome de Down, e a expectativa de vida desta população não para de crescer. De 35 anos, em 1991, pulou para 55, em 2000, e, agora, já está em 60. Experiências como a de Helga se multiplicam e trazem os desafios da “idade adulta”. A mudança de rotina com a saída de casa, o início e término de relações amorosas, a chegada dos filhos e dos boletos são parte desse novo momento. Mas uma preocupação se instala: e quando faltar a família?

“À medida que a ciência vai avançando e os cuidados vão sendo aprimorados, naturalmente as pessoas com Síndrome de Down experimentam um aumento de longevidade, exatamente como acontece com a sociedade em geral. Esses avanços, além de motivos de comemoração, trazem também a preocupação com as mudanças. O que antes era apenas a “possibilidade” de um filho com Down viver mais do que seus pais vira uma “probabilidade”. É aí que reside a angústia dos pais sobre quem cuidará dessa pessoa”, afirma Etiene da Rosa, enfermeira doutora em gerontologia.

O desafio do adulto com Down tem levado à construção de novos arranjos familiares. De acordo com Rosa, os pais tendem a procurar por um parente próximo que possa assumir a responsabilidade de ser um apoio futuro para o filho na ausência deles. Na maioria das vezes, a missão cabe a um irmão, na esperança de que a ligação fraterna proporcione a mesma atenção, carinho e cuidados após o falecimento dos pais.

NOVA FASE

Rogério França, de 63 anos, teve uma vida muito independente e sempre trabalhou, mas passou a depender mais de ajuda por volta dos 45, quando os sinais do envelhecimento, marcados pela falta de memória e medo de sair à rua, começaram a aparecer. Com a morte da mãe, há cinco meses, Rogério conta hoje com o auxílio da irmã mais velha, Rosângela Franca, de 74 anos. Ela diz que, mais do que as preocupações com o futuro, seu foco atualmente é proporcionar ao irmão uma vida melhor e mais saudável no presente:

“Ele cumpre atividades fixas desde que era mais novo. Minha mãe faleceu aos 97 anos, lúcida, e sempre o auxiliou. Hoje somos eu e meu irmão ao lado dele.

A dissertação “Os idosos com Síndrome de Down e a exclusão social na velhice: um estudo de caso”, de Etiene da Rosa, mostra que os avanços na longevidade graças à ciência têm um outro lado que exige atenção. Há um risco de que essas pessoas tenham de lidar com um cenário de exclusão ao se aproximarem da velhice, se não forem bem compreendias.

“Retração, dificuldade de locomoção, depressão, introspecção, lapsos de memória, lentidão acentuada na realização de atividades rotineiras, manias e até demência” são alguns dos exemplos citados no estudo.

Na avaliação dela, isso acontece porque eles envelhecem numa faixa etária diferente e bem anterior à da sociedade em geral. Rosa afirma que muitas das transformações que são causadas pelo envelhecimento precoce acabam sendo interpretadas como eventos isolados e aleatórios.

“Por exemplo, episódios de perda de memória causados por um início de Mal de Alzheimer, na faixa dos 30 anos, muitas vezes são confundidos com deficiências intelectuais advindas da própria síndrome, quando na verdade fazem parte de um processo de transformação de todo o organismo”, diz a especialista.

A família de Izabel da Silva, de 68 anos, conta que nos últimos cinco anos, ela aparenta ter envelhecido mais rapidamente do que o observado em pessoas sem Síndrome de Down. Izabel já não tem mais tanta força física como antes e apresenta lapsos de memória. No entanto, a filha dela, Cristinna da Silva, ressalta que a mãe ainda cuida dos três netos quando ela precisa de apoio, faz comida, limpa a casa e ajuda o pai, que tem doença de Fahr – uma enfermidade neurodegenerativa rara.

“Eu aprendi o que era Síndrome de Down na escola e, na época, a expectativa de vida era de 36 anos. A minha mãe me gerou com essa idade. Vivia desesperada porque achava que ela fosse morrer a qualquer momento. Graças a Deus, ela está aqui com ótima saúde. O cuidado que temos é com os remédios que ela precisa tomar, comuns para a idade, e com as saídas à rua sozinha”, afirma Silva, que ainda este ano lançará o livro “Minha mãe tem Down, e daí?” para contar a história de Izabel.

AUTONOMIA É A META

Coordenador do Projeto de Envelhecimento Saudável do Instituto Serenidade, que oferece gratuitamente acompanhamento médico a pessoas com deficiência intelectual atendidas na ONG Apoie, em São Paulo, o geriatra Marcelo Altona alerta para a importância de cuidados diversificados durante o envelhecimento de pessoas com Down.    

“É importante ter bons hábitos e um estilo de vida que inclua o controle de doenças crônicas, estímulos cognitivos e físicos, além de cuidados com sono e estresse. A socializaçãotambém é um fato importante. Tudo isso está no cerne da prevenção de problemas cognitivos, como o Alzheimer”, observa Altona, que é médico do Hospital Albert Einstein.

Pesquisadores que trabalham com longevidade de pessoas com Síndrome de Down apontam que os cuidados, mais do que nunca, devem começar quando elas ainda são crianças. Pediatra e cardiologista especialista em Síndrome de Down da UFMG e do Instituto de Educação e Pesquisa em Saúde e Inclusão Social, Carolina Bragança Capuruço afirma que é importante orientar o crescimento delas com base nas características próprias de cada uma – algumas, por exemplo, têm mais problemas cardíacos e nenhuma ou quase nenhuma dificuldade cognitiva.

“Com a perspectiva de maior longevidade, potencializar ao máximo o que a criança pode ser quando adulta é ainda mais urgente. A ênfase deve ser criar autonomia”, afirma ela, destacando a necessidade de maior foco em fisioterapia, terapia ocupacional e trabalho com psicopedagoga especializada.

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