OUTROS OLHARES

CIRURGIA QUE AUMENTA ALTURA PODE PREJUDICAR MOVIMENTOS

Procedimento é indicado para casos específicos e tem pós-operatório complexo

“Todo mundo olhava e achava que eu parecia um ET.” É assim que o engenheiro ambiental Daniel Stockler, 29, recorda-se dos olhares durante um dia que foi a uma praia nas festas de final de ano em 2011. O motivo para o espanto era um equipamento de metal fixado entre seu joelho e pé.

O aparelho era composto de hastes que, parecidas com parafusos perfurados na perna de Daniel, saíam do membro. Elas se ligavam a outras estruturas semelhantes, mas que estavam paralelas ao seu corpo. Essas, por outro lado, eram presas a três armações que circundavam a perna dele. Além da estranheza que o aparelho provocava, ele dificultava a mobilidade de Daniel – para entrar na água, só carregado.

Daniel não é um ser de outro planeta, e sim uma das pessoas no Brasil que fizeram cirurgia de alongamento ósseo – não há dados sobre quantas operações são realizadas.

Indicado em casos específicos, o procedimento é capaz de corrigir problemas em pacientes com deformidade óssea, como uma perna maior que a outra. Pessoas com nanismo também se beneficiam do tratamento, já que ele causa o aumento da estatura.

Em parte, esse era o caso de Daniel. Ele sabia do procedimento desde criança porque foi diagnosticado com acondroplasia, que é o desenvolvimento ósseo anormal. Por conta da condição, ele tinha 1,45 m de altura aos 18 anos.

Mesmo tendo conhecimento da cirurgia antes, o engenheiro ambiental só foi tomar as primeiras medidas para realizá-la quando tinha em torno de 16 anos. Foi quando descobriu, em um evento de família, que havia a chance de fazer o procedimento pelo plano de saúde.

O caso de Daniel, porém, é raro. Normalmente, os convênios não cobrem uma cirurgia de alongamento ósseo e, pelo particular, o preço é bem alto.

Ricardo Girardi, ortopedista e traumatologista com enfoque em cirurgia de reconstrução e alongamento ósseo, afirma que o valor varia de R$ 140 mil a 240 mil – faixa de preço que ele adota no seu consultório no Rio Grande do Sul. “Eu duvido que alguém cobre barato para fazer isso”, diz Guilherme Gaiarsa, presidente da Asami (Associação Brasileira de Reconstrução e Alongamento Ósseo).

O alto preço tem relação com a complicada técnica envolvida. No Brasil, uma das formas mais comuns é separar em duas partes o osso que passará pelo alongamento. Então, um fixador é acoplado com uma porção do equipamento para fora do corpo – fora do país, já existem modelos totalmente internos.

O paciente precisa, por um período, acionar o fixador para que ele separe o osso – o normal é ter um distanciamento ósseo diário de um milímetro. O osso passa por um processo de regeneração natural que demora meses para ser finalizado por completo. Nesse meio tempo, complicações podem acontecer.

Em alguns cenários, o paciente tem a regeneração do osso rápida demais. Em outros, demora muito. Às vezes, perde-se amplitude de movimento. Infecções podem aparecer, principalmente quando não ocorre a higienização adequada do fixador. Dores no pós-operatório ainda trazem bastante incômodo.

“Eu operei num sábado e, durante a madrugada para domingo, eu sentia muita dor no hospital, mesmo com morfina”, conta Daniel sobre a primeira cirurgia, realizada no fêmur em março de 2011.

Com o passar das semanas, as complicações continuaram. Daniel não conseguia dobrar o joelho e precisou de uma cadeira de rodas para se locomover. “Eu tentei ficar de pé no quarto [do hospital], mas doía absurdamente. É uma coisa que você não aguenta.”

Ele ficou dependente da sua mãe e avó. Dormir passou a ser um problema porque não conseguia encontrar uma posição confortável. Passou a se alimentar menos e a saúde mental foi abalada “por causa de toda dor e estresse”.

Depois de um mês do procedimento, ele trocou a cadeira de rodas por um andador e começou a realizar fisioterapia para melhorar a mobilidade. Tudo isso enquanto ele estava com o fixador externo em sua perna. O equipamento só foi retirado quatro meses depois da cirurgia, em julho de 2011.

Já em novembro, ele passou por um segundo procedimento, agora na tíbia – osso abaixo do joelho – e ficou com o fixador até abril de 2012. O procedimento foi parecido ao anterior, só que as complicações, mais leves.

Realizar o alongamento em diferentes ossos é uma forma de proporcionar uma maior estatura ao paciente. Girardi, no entanto, diz que a pessoa pode aparentar uma proporção estranha entre as partes do corpo – pernas muito longas, tronco muito pequeno.

Para ele, é importante que pessoas interessadas no procedimento tenham cautela ao escolher um cirurgião. “É preciso ter cuidado com promessas mirabolantes de alongamento.” Isso porque existem impeditivos no crescimento pela cirurgia.

Enquanto os ossos têm grande capacidade de prolongamento e regeneração, outros tecidos, não. Quanto mais se esticar os músculos, por exemplo, maior a chance de causar problemas. “Quando começa a ter uma tensão muscular muito grande, precisamos parar”, resume Girardi.

No caso de Daniel, ele “cresceu” 13 cm. Agora, o engenheiro ambiental conta com 1,58 m de altura.

As dificuldades foram muitas, e ele só conseguiu ter segurança para realizar atividades físicas mais intensas, como correr, seis meses após tirar o segundo fixador externo. Antes disso, até se arriscou em andar de bicicleta ainda com o equipamento abaixo do seu joelho. “Eu tentava ter uma vida normal, não tendo.”

Ele não se arrepende. “Tem suas dificuldades, mas acho que o resultado vale a pena.” O motivo da satisfação de Daniel não é só por causa da acondroplasia. A estética de ser mais alto foi um fator decisivo para ele se sentir satisfeito com o produto da cirurgia.

Esse ponto tem relação direta com o status que a altura confere. “Existe uma aceitação social de que as pessoas dominantes são mais altas. O baixinho sempre é discriminado”, diz Gaiarsa.  

Daniel, por exemplo, encaixa-se nessa situação, já que tinha baixa autoestima com sua altura antes do alongamento. Em uma caraterística, no entanto, ele se difere de outros pacientes: fala abertamente sobre o assunto, algo raro para essas cirurgias. “A maioria dos pacientes desaparece porque se nega a falar sobre o assunto”, afirma Gaiarsa.

A ideia de que a altura traz benefícios sociais já foi observada em estudos. Uma pesquisa americana concluiu que, em uma carreira de 30 anos, uma pessoa com 1,8 m de altura pode ganhar cerca de US$ 166 mil a mais em comparação a outra com 1,5 m.

Para Gaiarsa, existem situações em que os benefícios de ser mais alto não é verdade. “Eu vejo enormes vantagens de ser menor: você pode viajar de econômica no avião tranquilo”, diz.

GESTÃO E CARREIRA

SAÚDE MENTAL NO MUNDO CORPORATIVO: UMA PREOCUPAÇÃO IMPORTANTE OU PASSAGEIRA?

Manter um equilíbrio mental no ambiente de trabalho se tornou uma das pautas mais importantes nos últimos anos, especialmente ao longo da pandemia

Isolados em casa e sobrecarregados com jornadas extensas e uma alta pressão, a preocupação em garantir uma boa saúde mental é a base para uma qualidade de vida e um bom desempenho nas tarefas necessárias. Muitas companhias, felizmente, se preocupam genuinamente com essa questão e se esforçam para estimulá-la entre seus times. Entretanto, muitas outras ainda não compreendem tal importância, evidenciando um comportamento preocupante que deve ser levado em consideração por todos os profissionais. Diversos estudos realizados ao longo do isolamento social constataram uma relação crítica entre o excesso de trabalho e o desenvolvimento de problemas de saúde psicológicos.

Em uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos, como exemplo, 53% dos trabalhadores do Brasil relataram uma piora em sua saúde mental em 2020 – a quinta maior alta no mundo. As consequências destes diagnósticos podem ser severas, com a capacidade de desenvolverem inúmeros transtornos mentais, como a Síndrome de Burnout, e comprometer, assim, a rotina pessoal e profissional de todos.

Qualquer atividade em excesso é indiscutivelmente prejudicial à saúde. Muito mais do que uma questão ideológica, o descanso é uma necessidade biológica de todo ser humano, indispensável para que possamos recompor nossas energias e ter a disposição física e mental para sermos produtivos em nossas tarefas. Porém, a dinâmica mercadológica vista atualmente é propensa à sobrecarga de responsabilidades, o que dificulta ainda mais a disposição deste tempo precioso que precisamos para não sobrepor o trabalho aos nossos limites psicológicos.

Mais do que nunca, é preciso criatividade por parte das empresas em criar alternativas benéficas na estruturação de suas jornadas sem que interfiram na saúde mental de seus times – especialmente, levando em consideração a subjetividade no tempo de descanso considerado como necessário por cada um.

Desenvolver uma política interna equilibrada e igualitária para todos esses perfis não é fácil, mas passível de ser elaborada mediante uma análise aprofundada sobre a rotina de suas equipes e suas satisfações.

Uma cultura de estímulo à saúde mental dos profissionais deve ser uma preocupação nitidamente vivida internamente e não apenas uma imagem de fachada passada na tentativa de atrair bons talentos. Aqueles à frente dessa tarefa devem aprimorar um olhar empático sobre cada um, compreendendo sua rotina de trabalho, nível de pressão sentido e a carga de trabalho enfrentada em sua rotina.

No menor sinal de excesso em qualquer um desses pontos, é preciso encontrar soluções que tragam um balanço saudável entre seu bom estado mental e o cumprimento com as responsabilidades profissionais. Do outro lado, todos os trabalhadores também devem se atentar e enxergar se essas ações estão, de fato, sendo uma prioridade clara para os gestores e estimuladas internamente.

Afinal, de nada adianta se vender como uma companhia preocupada com a saúde mental de seus times, mas não praticá-la diariamente como, por exemplo, marcando reuniões em horários fora da jornada ou ainda um acúmulo de tarefas que impossibilita o término do trabalho no horário previamente acordado. Exceções sempre irão existir, mas caso essas situações se tornem recorrentes, é um sinal de atenção que precisa ser analisado.

A definição sobre uma boa saúde mental sempre será algo subjetivo, uma vez que cada um possui seu próprio conceito sobre o que caracteriza uma rotina equilibrada. Por isso, é importante conhecer a fundo a cultura organizacional estabelecida por cada companhia sobre este aspecto desde o processo seletivo, avaliando suas práticas e se estão de acordo com o perfil e necessidades individuais.

Quando realmente preocupadas em prover tal aspecto, as empresas não apenas conquistarão uma boa imagem no mercado, como também se destacarão no radar de cada vez mais profissionais qualificados e dedicados a integrar seu time.

*** RICARDO HAAG – É sócio da Wide, consultoria boutique de recrutamento e seleção (htps://wide.works/).

EU ACHO …

GUERREIRAS DO SIM

Quantas vezes dizemos “não” às perguntas que estão na cabeça das crianças? Lembro de vários adultos na família e na escola dizendo que eu era muito nova para entender sobre tal assunto. Ou que a pergunta era difícil demais. Ou que não tinham tempo para responder.

Há ainda a técnica de romantizar uma realidade por acreditar que não devamos trazer dureza à infância quando o assunto é complexo. Ou ainda que a criança é incapaz de aprender cedo, mesmo que com uma linguagem adaptada, sobre múltiplas questões com as quais nos deparamos ao longo da vida.

Logo que saímos do calor do ventre as interrogações surgem. Fico imaginando um bebê chorando nos primeiros minutos de vida já com sua primeira pergunta existencial sobre por que teve que sair de um lugar tão confortável onde tinha proteção e comida garantida. Dali em diante, as perguntas não param de surgir.

Lembro de, na infância, quando sofria racismo na escola, ter os adultos me dizendo que aquilo era brincadeira de criança ou que todos éramos iguais e que não deveria me importar com isso. Havia quem dissesse que eu era muito nova para entender o que estava acontecendo. E quem via nos livros que os personagens azuis viviam em perfeita harmonia com os verdes, mostrando que racismo parecia coisa de outro mundo.

Ora, se todos éramos iguais por que eu era tratada como a diferente? Eu pensava. Se racismo não existe no mundo dos livros que eu lia, por que existia no meu mundo? O pior é que eu nem sabia dar nome a ele e achava que era algo que eu estava inventando.

No alto de meus 6 ou 9 anos, essas pareciam questões sem resposta e que, portanto, eu deveria aceitar. E foi assim que passei quase 20 anos da minha vida. Só quando entendi e comecei a dar nome ao racismo e ao machismo estruturais comecei a saber navegar melhor e encarar de frente um mundo que tem estruturas maiores do que as minhas próprias vontades. E infelizmente não eram só coisa da minha cabeça.

Hoje estou do outro lado como a adulta imperfeita, desafiando o tempo para tentar dar respostas complexas, numa linguagem acessível às múltiplas perguntas que têm na cabeça da minha filha de 4 anos e seus amiguinhos.

E até entendo com mais empatia a perspectiva da figura dos adultos impacientes que faziam cara feia para mim.

Meu posicionamento hoje é de não romantizar a realidade acreditando que se esconder o racismo ou o machismo eles irão sumir e ela não irá se deparar com eles.

Conto para ela contos e as histórias dos povos originários aldeados ou em cidades para que ela consiga não passar da mesma forma pelo apagamento de nossas próprias histórias. E que saiba desde cedo da multiplicidade dos povos indígenas em nosso país.

E vale dizer que ainda muitas das minhas questões de criança permanecem aqui na cabeça. Minha relação com as perguntas hoje é de afeto. Minhas perguntas afetam minha relação com o mundo e fiz até um livro infantil chamado “Guerreiras do Sim” em homenagem a possibilidade de lutar pelo sim às perguntas que moram nas nossas cabeças desde pequenos.

Acredito que não preciso responder às perguntas sozinha, até porque tenho muitas. Aciono a minha aldeia de pais, amigos e parentes para que também dialoguem sobre tantas questões.

Na prática, não é tão fácil quanto no livro, há barreiras físicas, de agendas e de disponibilidade, mas poder pedir ajuda e entender que não dizer não às perguntas é o caminho, já tem sido um bom começo.

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

ESTAR BEM

BALÉ DEPOIS DOS 50

Não há idade para começar na dança, que traz benefícios físicos, sociais e psicológicos

A goiana Lucilene Lopes de Lorenzo Fernandez, que gosta de ser chamada de Lu, nunca se considerou uma pessoa ativa para fazer exercícios físicos. Desde criança, alimentava a paixão de aprender balé e só teve coragem e oportunidade de realizar esse sonho quando fez 60 anos. E não só ela, mas muitos adultos acima dos 50 têm investido em aulas de dança, que ajudam tanto no desenvolvimento biopsíquico quanto nas habilidades de socialização.

Primeira-bailarina do Teatro Municipal do Rio, Ana Botafogo, hoje com 65 anos, segue dançando diariamente – mas agora como forma de bem-estar e fora dos palcos. Segundo ela, a prática do balé para adultos só traz benefícios, por alongar e fortalecer a musculatura do corpo. Ela aponta também que o uso da música faz com que a experiência seja mais agradável e que é preciso estimular a memória e coordenação motora para aprender a sequência de passos ensinada pelo professor ou pela professora. “Os alunos adultos têm muito prazer em fazer as aulas e faltam pouco, além de um estimular o outro”, conta ela, que criou a academia Maison Botafogo em 2007, onde, hoje, Lu faz suas aulas. “É um encantamento bonito de se ver e minha mensagem para esse público é que vocês não desanimem e concretizem seus sonhos. A dança sempre conduziu minha vida e sigo me beneficiando dela, tanto física quanto psicologicamente.”

Desde que fez a primeira aula particular de balé, em 1.º de janeiro de 2022, Lu se sente bailarina. A rotina inclui práticas três vezes por semana, por uma hora, e muita dedicação para aprender e executar os movimentos da dança, que costuma exigir disciplina e demanda bastante consciência do corpo. Em oito meses, ela sentiu evolução a ponto de perder o medo de fazer aulas com Ana Botafogo, que a tem orientado em algumas sessões, e o ator e músico Leo Jaime, um dos entusiastas da prática do balé para homens. “Sinto que meu corpo ganhou muito, de ter mais elasticidade. Além da satisfação e o prazer de dançar, o balé tem me trazido benefícios como consciência corporal, fortalecimento muscular e equilíbrio.”

O diretor da Faculdade de Fisioterapia da Universidade Federal do Rio (UFRJ), Fernando Zikan, concorda que o balé é uma excelente ferramenta para a população de 50 ou mais e ajuda a frear a perda muscular com o avanço da idade, a sarcopenia. Segundo Zikan, que dança e trabalha cuidando de bailarinos do Municipal há 17 anos, o balé auxilia na manutenção de peso e ganho de gordura. “A dança faz com que haja mais produção do líquido sinovial dentro das articulações. Quanto mais se movimenta, mais quantidade do líquido se forma nelas e isso evita o surgimento de dores articulares e de doenças como a artrite e a artrose.”

Ele também aponta o retorno venoso dentro do corpo, ajudando na circulação do sangue e do oxigênio nas veias, além de evitar o desenvolvimento de varizes e edemas. “O balé é excelente para estimular a memória, o funcionamento cerebral e a interação social do aluno, além de desenvolver consciência corporal e emocional. É um estilo de dança potente para experimentar seu corpo”, conta ele. “Muitas mulheres não conseguiram mostrar seu corpo como gostariam, seja por repressão, vergonha, e hoje têm mais possibilidades de fazer isso e devem fazer.”

A psicóloga Ana Carolina del Nero, que dança balé há dez anos, ressalta que o ambiente das aulas é de leveza e acolhimento, o que facilita a construção de novos círculos sociais além da família e do trabalho, e movido por interesses em comum. “Para mim, o balé é uma grande fonte de prazer e ajuda bastante no desenvolvimento socioemocional, especialmente para os mais velhos, pois há um declínio natural das habilidades cognitivas e motoras. Por ser uma dança codificada, com combinação de música e sequências de passos, a atividade potencializa o estímulo cerebral e ajuda o aluno a ter uma relação de auto- conhecimento do corpo.”

REALIZAÇÃO

Lu conta que o desejo de fazer balé voltou com força quando fez 45 anos e se aposentou no funcionalismo público. Ela pensou em procurar um lugar para fazer aulas, mas, na época, não encontrou nenhuma academia que ensinasse adultos sem experiência em dança no Rio de Janeiro, onde vive. Dessa forma, ela guardou essa vontade até que começou a ter contato com pessoas acima de 50 anos que estavam praticando. “Mesmo assim, não tinha coragem e pensava no julgamento que os outros fariam de mim”, recorda.

Lu só realizou seu sonho ao completar 60 anos, quando, como conta, “teve um estalo”.

“Vou realizar duas coisas que tenho vontade: uma tatuagem e aprender balé. Não contei nem para meu marido nem para minhas filhas. Criei um perfil no Instagram, o @balletaos60, me senti fortalecida e passei a receber tantas mensagens de incentivo que me desarmei”, revela.

Outros pontos que Lucilene trabalha é em não deixar que a perda auditiva a prejudique no entendimento das instruções das professoras. Também se vale de uma minibarra auxiliar para ajudá-la nos movimentos que exigem levantar e manter as pernas esticadas. Ela conta que segue seu ritmo, e recomenda a todos que têm um sonho para não ter medo de realizá-lo. “Tenha coragem e não fique esperando. Perdi tempo demais me preocupando com a opinião das pessoas e me acovardei. Deveria ter começado há muito mais tempo”, diz.

CONEXÃO

Assim como Lucilene, outras mulheres adultas também vêm investindo na prática do balé adulto como forma de atividade física e de bem-estar. A psicóloga Lia Camargo von Brusky, de 53 anos, e a médica Maria Heloisa Bernardini, de 59, frequentam quase diariamente a Academia Anacã, em São Paulo, onde há turmas dedicadas a diversas faixas etárias.

Lia conta que praticou balé dos 7 aos 18 anos, chegando a dançar profissionalmente. Mas parou quando entrou na faculdade e, por contado nível de exigência imposto pelos estudos, ficou 22 anos sem calçar sapatilhas.

Foi só aos 42, ao levar a filha para dançar, que ela percebeu quanto tempo tinha perdido. “O balé é uma atividade muito social e funciona como uma terapia para mim. É preciso fazer algo que te dê prazer e vida”, observa. No entanto, ela precisou entender que os objetivos, na vida adulta, eram diferentes de quando ela dançava na juventude. “Aprendi que a dança me faz feliz e que não posso ter o mesmo excesso de cobrança que tinha com ela quando era mais jovem.”

Maria Heloisa também conheceu o balé na infância, mas só foi retomá-lo no início da pandemia. Com as academias fechadas e sem a possibilidade de correr, ela passou a fazer aulas online da dança até que a academia fosse reaberta. Para ela, que trabalhou na linha de frente do combate à covid-19, manter o corpo e cabeça ativos é uma das chaves para uma vida feliz.

Segundo ela, é importante manter qualquer atividade física para uma vida saudável. “O primeiro passo para te tirar do sedentarismo é mover seu corpo. Caminhar é uma excelente prática para começar e se interessar por outras atividades físicas”, ensina. Ela deixou de praticar corrida, mas conta que tem planos de retomar a prática – e até de disputar uma São Silvestre.

As duas alunas procuram tomar alguns cuidados antes e depois das aulas, que duram entre uma e duas horas. O primeiro deles é fazer um bom aquecimento e seguir as orientações da professora, para que a execução dos movimentos saia correta e evite mais sobrecarga nas articulações. Além disso, procuram seguir uma dieta balanceada, consumo frequente de água e boa higiene do sono.

HOMENS DE SAPATILHA

O balé para adultos não tem idade para começar, nem distinção de gênero. Tanto homens quanto mulheres podem dançar e um dos alunos mais velhos do Brasil, o carioca Hélio Haus, só decidiu calçar as sapatilhas aos 75 anos, depois de aposentado. Aos 80, ele chega a fazer cinco aulas por dia e assegura que a prática é seu melhor investimento em saúde. “Não quero ser refém de consultório médico e não acho engraçado nenhum tipo de remédio, doença.”

Quem também é adepto do “balé positive” é o ator e músico Leo Jaime, que conheceu a dança na adolescência, mas só foi retomar as aulas após ser convidado a participar do quadro Dança dos Famosos, do Domingão do Faustão, na TV Globo, em 2018. Ele venceu o desafio e, ao saber que havia aulas de balé básico no estúdio da coreógrafa Débora Colker, decidiu se matricular. “A dança cria uma conexão forte entre o tempo e o espaço e ajuda a criar intimidade com seu corpo. É um ambiente gostoso, lúdico e divertido”, avalia.

Aos 62 anos, Leo Jaime diz não se importar com as críticas que sofre por não se encaixar em um suposto corpo padrão de dançarino – e por ser um homem que gosta de balé. “Não gasto tempo com isso e me preocupo em agradar a mim mesmo. Cada um deve curtir do seu jeito e escolher o que te faz bem, sem se importar com o que o outro vai pensar.”

CONSCIÊNCIA CORPORAL

A professora Esmeralda Gazal, que se dedica há dez anos ao ensino de balé adulto, traz algumas dicas de como praticar a dança de forma saudável e como ela ajuda a criar uma melhor consciência corporal para as atividades do dia a dia. Aos 69 anos – 53 deles dedicados à dança e uma década como bailarina do Corpo de Baile do Teatro Municipal de São Paulo –, ela salienta que o início das aulas deve ser feito de maneira gradativa, para que cada aluno ou aluna possa organizar seu corpo e perceber como ele está naquele dia. “Iniciamos sempre com posições naturais, para que haja um aquecimento e isso possibilite executar os movimentos do balé.

O neurorradiologista Leonardo Stellati Garcia, que descobriu o balé há pouco mais de um ano, explica que, por ser uma atividade física, há risco de lesões e quedas, mas que elas são minimizadas quando se pratica a dança sob supervisão de um professor ou professora que guie o corpo dos alunos dentro dos limites de cada um. “Os riscos do balé são baixos perto dos benefícios de bem-estar mental, social, emocional e de melhora da forma física que trazem.”

Esmeralda ressalta que a prática do balé também é uma ótima aliada para manter o alinhamento ósseo em dia. “Vivemos em um período com muito tempo no celular, no computador, e isso altera a organização do nosso corpo e da coluna. Dançar ajuda a manter nossas articulações preservadas para fazermos os movimentos do dia a dia com maior autonomia, sem limitações ou dores.”

DICAS E CUIDADOS

OUÇA sempre as orientações do professor e faça um bom alongamento.

RESPIRE com cuidado e de forma constante.

NÃO se jogue com força nos movimentos e use o apoio dos pés, pernas e core para preservar as curvas naturais da coluna.

CONTROLE as descidas das sequências da dança e vá no seu ritmo.

HIDRATE-SE antes, durante e depois das aulas. Mantenha uma alimentação saudável e coma com intervalos de três em três horas.

DURMA bem e ao menos oito horas por noite.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

REDES SOCIAIS AMPLIAM DEBATE SOBRE NOVAS FORMAS DE AMOR ENTRE CASAIS

Arranjos envolvem pessoas que optam por viver juntas relacionamentos não monogâmicos; especialistas avaliam que há crescimento e falam do fim do romantismo

Aberta, não monogâmica, poliamorosa. A vida conjugal não está mais restrita a dois. Muitos casais têm explorado novas formas de amar sem abrir mão da parceria fixa na construção do lar e dividem o desejo do futuro compartilhado. Nas redes sociais, esses arranjos motivam debates acalorados entre defensores e opositores, enquanto quem vive isso na prática aproveita a chance para abrir a intimidade e desmistificar dúvidas comuns de quem nunca cogitou um formato diferente de relação. Mas, embora cada vez mais comuns, essas relações trazem os desafios inevitáveis, como o ciúme.

Autora do livro Open monogamy: A guide to co-creating your ideal relationship agreement (ainda não lançado no Brasil), a terapeuta, psicóloga e sexóloga Tammy Nelson explica que relacionamentos “não monogâmicos” habitam um amplo espectro de possibilidades que vão desde os “trisais” (três na mesma relação) e o “poliamor” (mais de um parceiro fixo ao mesmo tempo, em dupla ou individual) até aqueles que frequentam juntos “festas adultas”.

“Monogamia aberta é quando você tem uma relação ‘primária’, ‘comprometida’ ou ‘essencial’ e também um acordo fluido e flexível sobre ela”, define Tammy, que relata ver tal configuração com mais frequência que algo “livre para todos e tenha quantos parceiros quiser”. “Existe uma ampla variedade, mas no fim do dia é o que o casal decide.”

Tammy tem algumas teorias para explicar por que esses relacionamentos se popularizaram nas últimas duas décadas. “Depois de várias gerações em que as pessoas cresceram com pais divorciados, tendo amantes, mentindo e traindo, algumas decidiram que isso não funciona para elas. E entenderam também que só porque estamos casados não significa que estamos mortos.”

Abrir o jogo e admitir que sente atração por outros nem sempre é tarefa fácil para o casal, mas pode ao mesmo tempo trazer uma chance única de diálogo e transparência. “O mais interessante é passar por esses pontos e falar sobre eles. Não é por ser livre que vai estar bom sempre”, avalia a psicóloga e psicanalista Marcela Valle, de 27 anos.

Desde abril de 2021, Marcela está em um relacionamento não monogâmico com a líder de operação em vendas Amanda Alves, de 26 anos. O arranjo foi proposto pelas duas “desde que começou o flerte” em Belo Horizonte e ambas queriam “viver um amor livre”. “Foi sempre uma conversa trocando as questões teóricas e aprimorando. Vimos o que encaixava melhor para nós nessas teorias todas”, diz ela.

CRESCIMENTO

Um dos livros que ajudaram Amanda a entender melhor a questão foi o Novas Formas de Amar (Editora Planeta, 2017), da psicanalista Regina Navarro Lins. A autora diz que “não tem a menor dúvida de que relacionamentos não monogâmicos estão crescendo no Brasil e no Ocidente”. Esse movimento, acrescenta, coincide com a “saída de cena do amor romântico”.

“A questão é que ninguém combina nada quando começa uma relação. A monogamia é um imperativo na nossa cultura”, avalia a psicanalista. “Quando um casal começa a namorar, já está implícito que um só pode ter relações sexuais com o outro, que é impossível amar duas pessoas ao mesmo tempo. Os dois acreditam que vão se transformar em um só, que um terá todas as necessidades atendidas pelo outro, que quem ama não se relaciona com mais ninguém”, explica.

O ideal de amor romântico começou nos idos do século 17, mas só se tornou uma possibilidade nos casamentos mais de 200 anos depois, passada a Revolução Industrial, e quando o matrimônio deixou de ser uma configuração arranjada por famílias e dotes. Nas décadas seguintes, filmes de Hollywood, contos de fadas, poesia e literatura povoaram o imaginário do final feliz após o “sim” das metades da laranja que se encontram.

Esse contrato de casamento, porém, já passou por importantes “viradas de chave” posteriores. Foi-se o tempo, por exemplo, em que o divórcio, só aprovado no Brasil em 1977 por uma emenda constitucional, podia levar à perda de emprego e dava à mulher a pecha de “desquitada”.

Outros marcos são a invenção da pílula anticoncepcional e os avanços dos movimentos feminista e LGBT+, nos anos 1960, assim como figuras disruptivas que ajudavam a jogar luz sobre tabus sexuais e comportamentais de suas épocas. “Os anseios contemporâneos são em busca da individualidade. Cada um quer saber seu potencial de desenvolver possibilidades na vida, o que não tem nada a ver com egoísmo. Isso bate de frente com a proposta do amor romântico, que é a não individualidade.”

LIBERDADE

Foi essa busca e a autorreflexão sobre si mesma que impulsionaram a atriz Fernanda Nobre, de 39 anos, a falar abertamente sobre o “pacto” que fez com o companheiro, o diretor e produtor José Roberto Jardim, de 45, com quem está há dez anos. Era 12 de junho de 2020, Dia dos Namorados em meio ao isolamento da pandemia, quando ela contou para seus milhares de seguidores nas redes sociais que eles viviam um relacionamento não monogâmico.

Fernanda, que diz ter sido criada por “pais de cabeça aberta”, começou a se aprofundar em estudos sobre Antropologia, Sociologia e feminismo, movimento do qual se reconhece como “pesquisadora” para entender questões que a incomodavam. “A forma como nos comportamos, o valor à beleza e à maternidade, como nos relacionamos, o amor romântico são algumas dessas questões. Entendi o quanto a monogamia foi determinada para nos controlar, nosso corpo, sexualidade, e o quanto ela é hipócrita em relacionamentos heterossexuais”, avalia.

Já o casal Giovana Rodrigues, estudante de 22 anos, e Luís Moreira, assessor de 31 anos, utiliza o site Sexlog e o aplicativo Ysos para encontrar parceiros fora do relacionamento. Juntos há seis anos, eles moram no Rio e contam que a relação é aberta desde o início.

Mas o hábito, antes restrito a festas esporádicas com iniciativas dos dois juntos, agora é um novo combinado. Cada um também tem espaço para explorar seus interesses de forma separada.

CUIDADOS E DICAS

Independentemente do tipo de relacionamento, os princípios fundamentais para toda e qualquer relação saudável e duradoura são os mesmos, afirmam os especialistas: transparência, honestidade e diálogo. Diz o ditado que “o combinado não sai caro”, mas às vezes até os acordos pré-acertados podem causar desconforto quando postos em prática.

“Estamos vivendo uma transição entre antigos e novos valores, então não temos parâmetros para nos apoiar. Nos modelos tradicionais, sabemos dizer o que não funciona: possessividade, ciúme, descontrole e desrespeito à individualidade do outro”, avalia Regina Navarro Lins. “Não consigo ver melhor forma do que total franqueza”, completa.

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