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DIABETES É A VARIÁVEL QUE MAIS IMPACTA EM MORTES POR INFARTO

Já são conhecidos vários fatores que aumentam o risco de infarto como glicose elevada (hiperglicemia), obesidade, colesterol alto, hipertensão e tabagismo. E agora um estudo publicado na revista Plos One mensurou o impacto de cada um deles nas estatísticas de morte por doença cardiovascular. A hiperglicemia mostrou uma associação com esse desfecho de cinco a dez vezes maior do que outros fatores.

Foram usados dados de fontes governamentais, como os ministérios do Desenvolvimento Social e da Saúde e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística(IBGE), registrados entre 2005 e 2017.Os números foram confrontados com informações de outros bancos, como o Global Health Data Exchange (GHDx) e o repositório do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), da Universidade de Washington (EUA).

Por meio de métodos estatísticos, os pesquisadores determinaram o número de óbitos atribuídos a cada fator de risco. O objetivo da pesquisa, apoiada pela Fapesp, foi ajudar a encontrar estratégias mais eficazes para reduzir a incidência de doenças cardiovasculares – que ainda são as maiores causas de morte no país.

“Independentemente do controle que usávamos – e testamos diferentes tipos de variável, modelos estatísticos e métodos – o diabetes sempre se associava à mortalidade por doenças cardiovasculares. Mais do que isso: é uma associação que não se restringia ao ano analisado, mas perdurava por até uma década” explica Renato Gaspar, pós- doutorando no Laboratório de Biologia Vascular do Instituto do Coração (InCor), vinculado à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP).

Estudos anteriores estabeleceram uma equação para calcular o número de mortes prevenidas ou adiadas devido a mudanças em fatores de risco. Assim, foi possível analisar também as taxas de mortes “prematuras”, calculadas em relação à expectativa de vida padrão. Os autores concluíram que cerca de 5 mil pessoas não teriam morrido por doença cardiovascular no período analisado caso os índices de diabetes fossem menores na população. Por outro lado, a pesquisa também permitiu concluir que pelo menos 17 mil mortes foram evitadas somente pela diminuição do consumo de cigarros durante esses 12 anos.

“Nossos achados fornecem evidências de que as estratégias para reduzir o tabagismo foram fundamentais para a redução da mortalidade por doença cardiovascular”, apontam os autores.

Outro ponto que chamou a atenção dos cientistas foram as diferenças de gênero. “As disparidades sexuais reiteram outros estudos que apontam o diabetes e a hiperglicemia como fatores de risco mais fortes para doença cardiovascular em mulheres do que em homens”, advertem. A mortalidade e a incidência de doenças cardiovasculares diminuíram 21% e 8%, respectivamente, entre 2005 e 2017 no Brasil. Além da redução do tabagismo, o maior acesso à saúde básica é listado como um dos responsáveis pela melhora nos índices. Essa observação levou em conta a questão da hipertensão, frequentemente associada a problemas cardíacos. No entanto, ela representou sete vezes menos mortes por doenças cardiovasculares do que a hiperglicemia. Uma das possibilidades é que o acesso ao sistema de saúde universal, com aumento na cobertura de atenção primária, tornou alta na população a taxa de controle da hipertensão.

Corrobora esse achado o fato de que a associação entre hiperglicemia e mortalidade por doença cardiovascular foi independente do nível socioeconômico e do acesso aos cuidados de saúde. Os pesquisadores inseriram covariáveis nos modelos analisados para contabilizar dados como renda familiar, benefício do Bolsa Família, produto interno bruto (PIB) per capita, número de médicos por habitantes e cobertura de atenção primária. “Além de aumentar a renda, diminuir a desigualdade e a pobreza e ampliar a qualidade e o acesso à saúde, precisamos olhar para o diabetes e para a hiperglicemia de maneira específica”, aponta Gaspar, ressaltando que o país tem discutido pouco questões como o alto consumo de açúcar.

“Precisamos de uma política de educação nutricional. Debater se vale a pena colocar uma tarja nos produtos açucarados com um alerta, como nas embalagens de cigarro, ou taxar produtos com açúcar adicionado de forma a incentivar as indústrias a reduzir esse ingrediente. São questões bastante debatidas em outros países e que precisam ser pautadas aqui.”

Para mitigar os índices de doença cardiovascular no Brasil, as políticas de saúde devem ter como objetivo reduzir diretamente a prevalência de hiperglicemia, seja pela educação nutricional, pela restrição a alimentos com açúcar adicionado ou pelo mais amplo acesso às novas classes de medicamentos capazes de diminuir a chance de o paciente diabético morrer por infarto.

GESTÃO E CARREIRA

A FUGA DOS JALECOS

Uma turma de brasileiros da área da saúde tem voado para os Estados Unidos e países da Europa atrás de boas vagas abertas em velocidade sem precedentes no cenário pós-pandemia

Os últimos tempos foram especialmente penosos para os profissionais da saúde, que engataram em jornadas extenuantes em hospitais abarrotados pela pandemia em todos os cantos do planeta. Exauridos, muitos anteciparam a aposentadoria ou foram em busca de alternativas de carreira, deixando uma lacuna sem precedentes em hospitais que, para completar, estão sendo acionados como nunca antes. Muita gente, afinal, adiou a visita ao médico enquanto as curvas do vírus estavam a toda.

E dá-lhe multidões atrás de exames e cirurgias, fazendo formar filas como a registrada na Inglaterra, onde quase 5 milhões de pessoas aguardam por atendimento em uma unidade do National Health Service (NHS), o sistema público de lá. É nesse contexto de elevada demanda que países como Estados Unidos, Alemanha, Canadá e o próprio Reino Unido estão abrindo as portas para uma multidão de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e dentistas de variadas nacionalidades. Pois os brasileiros descobriram a rota, que percorrem movidos por salários melhores, um horizonte de crescimento e uma reviravolta na vida.

No ranking de pedidos de vistos americanos de trabalho concedidos em 2021, o Brasil figura entre os cinco primeiros e só cresce, de acordo com o Serviço de Imigração e Cidadania dos Estados Unidos. Detalhe: o pessoal da área médica aparece em peso.

Segundo as principais empresas de consultoria especializadas em desenrolar os labirintos burocráticos da papelada exigida no processo, eles representam em torno de 40% dos que querem mudar de ares. Entusiasmado integrante da leva, o enfermeiro Marlon Miranda, 39 anos, desembarcou em fevereiro no sul da Califórnia e ali tem carga horária menos pesada e um salário (em torno de 104.000 dólares anuais) maior do que o que recebia em um hospital do Exército no Rio Grande do Sul. Ele vivia às voltas com altos e baixos no emprego e penava com a escassez de equipamentos. “Mesmo hoje, morando em uma região cara, estou muito bem, e ainda sobra dinheiro para enviar ao Brasil”, conta.

Os Estados Unidos registram 16.000 vagas ociosas para médicos e enfermeiros e precisam de 7.000 especialistas no tão demandado segmento da saúde mental – uma bola de neve, já que 300.000 profissionais da saúde vão se aposentar em uma década, como revela uma projeção da Associação Americana de Hospitais. Uma oportunidade e tanto, talvez única, para estrangeiros na área. Na Alemanha, são aproximadamente 200.000 postos a ser preenchidos, déficit cuja previsão é mais do que dobrar nos próximos anos. O Canadá também sofre, assim como o Reino Unido, onde faltam atualmente 160.000 médicos e enfermeiros. Há um ano, a médica paraense Julie Sanz, 36 anos, exerce a otorrinolaringologia em Bristol, onde tem plano de carreira e já foi surpreendida com um aumento de salário depois de seis meses no batente. “Cada vez mais colegas me procuram atrás de informações sobre o trâmite migratório”, relata ela, bem adaptada à rotina britânica.

Essa não é, porém, uma trilha tão fácil. Para dar certo, há de se ter paciência em meio a um mundaréu de exigências e testes. O candidato precisa, para obter a permissão de trabalho, revalidar o diploma, comprovar experiência e ainda passar em uma prova da língua estrangeira que usará no ofício – esse, aliás, um terreno que envolve um esforço adicional, já que é necessário aprender uma enxurrada de termos técnicos. Ultrapassada essa fase, aí, sim, o interessado pode correr atrás da almejada vaga. No Reino Unido, uma agência ligada ao NHS se encarrega do visto. Nos Estados Unidos, são as empresas que facilitam a obtenção do ambicionado documento. Elas também dão, em geral, uma mãozinha nas despesas iniciais, incluindo a passagem e os primeiros aluguéis. Mas tanto lá quanto em outros países os custos da epopeia burocrática são arcados pelo próprio candidato: eles começam em 6.000 reais, podendo alcançar os 40.000 reais.

Os brasileiros despertam interesse porque costumam demonstrar alta capacidade de adaptação e ter boa formação. “Se estamos conquistando vagas no exterior, é sinal de que nossas universidades estão colocando no mercado mão de obra bastante qualificada”, avalia Marcelo Dantas, cônsul-geral do Brasil em Los Angeles. Há um consenso de que, em muitas especialidades, as condições de trabalho em hospitais brasileiros são para lá de precárias e faltam incentivos para que os profissionais deslanchem. Daí tantos tentarem a sorte no exterior. O impulso para a fisioterapeuta Roberta Barbieri, 33 anos, voar para a Flórida, em junho, veio de uma sensação de que sua carreira em São Paulo andava emperrada, aliada à busca por mais qualidade de vida, sobretudo em relação à segurança. Com ainda pouco tempo de estrada na rotina americana, ela espantou-se com o vigor do mercado. “Recebo propostas de emprego quase todo dia”, conta. Como se vê, os jalecos made in Brazil fazem sucesso.

EU ACHO …

A DIFERENÇA ESTÁ NA ATITUDE

Hoje a maioria dos pais trabalha por mais tempo e, mais distante, e não tem como acompanhar direito o cotidiano dos filhos – e menos ainda o processo de aprendizagem, a evolução na escola. Para isso, recomendo duas providências. A primeira se resume a um simples olhar nas lições que foram feitas durante o dia. Olhar não é vigiar, que é uma agressão. É supervisionar. Há uma enorme diferença de postura, de atitude entre uma coisa e outra. Quem dá uma festa supervisiona os convidados, não os vigia.

A segunda providência exige humildade dos pais perante os filhos. Normalmente, quando uma criança chega da escola, a mãe, ou o pai, chama-o e pergunta, parecendo que está fazendo uma auditoria: “E aí, filhão, o que você aprendeu hoje?”. Mas dá para fazer muito melhor mudando a pergunta: “E aí, filhão, o que você pode me ensinar hoje?”. A resposta provavelmente será a mesma. A diferença está na atitude. Isso vale para a família, para a comunidade, para as empresas. Auditoria é a caça ao culpado para aplicar punição, enquanto avaliação é análise de processos para alcançar melhorias.

A possibilidade de que o outro se pronuncie gera uma disponibilidade, cria uma oportunidade para o relato. Muitos pais, muitos educadores reclamam que os filhos não estão abertos ao diálogo. Isso só é verdade quando não se estabelece uma ponte com eles, ignorando um dos princípios básicos da política: Não se queimam pontes. Só com pontes se estabelecem conexões. Se não há diálogo com os jovens, é por que pais e educadores não encontraram a ponte para se conectar com eles. O maior prazer do ser humano, não importa a idade, é falar de si mesmo. Outro grande prazer é ensinar, pois ensinar é uma afirmação de valor, do seu próprio valor.

Pergunte a um jovem como funciona um programa do computador, como baixar uma música da internet, como mudar a aparência da tela do celular. Num primeiro momento, ele pode até reagir com uma risada, com aquela cara de “não vai me dizer que você não sabe fazer uma coisa tão fácil?!”. Tudo bem, os pais precisam estar preparados para ouvir isso, até porque eles também fazem o mesmo com os filhos em relação a outros assuntos, como uma operação matemática ou a capital de um país. Mas, num segundo momento, se os pais demonstram interesse sincero pelo que o filho pode lhes ensinar, imediatamente cria-se uma ponte, estabelece-se uma conexão. Há aqui uma constatação óbvia, mas que muitas vezes é negligenciada: só sabe ensinar quem sabe aprender. Se eu peço a um jovem que me ensine alguma coisa, isso gera não só uma oportunidade para que ele se valorize como também cria uma predisposição para que ele me escute na hora que quero ensinar algo.

Se você quer mesmo saber algo de alguém, não o investigue nem o interrogue. Isso só fará com que a pessoa se sinta pressionada, acuada. Mas, se tem interesse legítimo em conhecer algo, se quer uma resposta sincera, pergunte: “O que você pensa disso?”, pois essa é uma pergunta que pressupõe uma troca. Todo mundo aprende melhor quando há a possibilidade de ensinar alguém. E todo mundo ensina melhor quando há chance de também aprender. Em outras palavras, quando existe uma condição de respeito e de igualdade. E a igualdade, no caso, não é financeira, de classe social nem nada disso. É uma igualdade expressa numa clássica frase do grande educador Paulo Freire, meu mestre: “Ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho. As pessoas se educam reciprocamente mediatizados pelo mundo”. Isto é: eu não sou apenas líder, sou também liderado. Não sou apenas chefe, sou também chefiado. Não sou apenas professor, sou também “aprendente”.

Pais e filhos aprendem a sê-los juntos e se ensinam reciprocamente – o pai ensina o filho ao mesmo tempo em que filho vai ensinando o pai a ser pai. A própria relação faz com que um mude o outro. Eis, inclusive, uma coisa que vale para todas as relações pessoais, o que torna ainda mais curiosa aquela frase em tom de reclamação que todo mundo ouve mais cedo ou mais tarde, aquele fatídico “quando eu te conheci, você não era assim”. Mas é claro que eu não era! Pois quando eu te conheci, eu era “sem você”. E, quando eu me tornei alguém “com você”, passei a ser diferente, pois não sou impermeável à mudança. A convivência traz mudanças. A coerência contínua é sinal de loucura – uma das maiores características da loucura é nunca ter dúvidas, é pensar como faz e fazer como pensa.

Convicção absoluta é loucura plena. Quem não tem dúvida faz sempre do mesmo modo. Quem tem dúvida se inova, se reinventa.

ESTAR BEM

A GENÉTICA DO PALADAR

Cientistas descobrem que a influência dos genes nas preferências alimentares é enorme. A informação é uma das chaves para a criação de dietas que realmente funcionem

Não é difícil compreender porque guloseimas fazem com que tantas pessoas salivem e como pode ser doloroso eliminar sabores adocicados, frituras e outras delícias do gênero para seguir uma dieta equilibrada. O intrigante mesmo é ver a facilidade de algumas pessoas para abrir mão dos pratos calóricos e demonstrar real prazer diante de um prato com vegetais cozidos no vapor. A resposta para esse enigma tem potencial para trazer alívio aos que sofrem para resistir às tentações calóricas e pouco saudáveis e surge como ferramenta na luta contra a balança. Nós até podemos ser o que comemos, mas em boa medida comemos por ordem dos nossos genes. Vêm deles uma decisiva influência na forma como cada um decide se vai de hambúrguer ou de salada.

A informação abre mais uma perspectiva para a formulação de tratamentos assertivos na briga contra a balança. Ela é resultado de uma análise com cerca de 162.000 pessoas que tiveram o gosto para 139 alimentos avaliados porpesquisadores da Universidade de Edimburgo, na Escócia. O objetivo era realizar a mais abrangente investigação sobre o tema. Eles cumpriram a missão e encontraram 255 variantes genéticas relacionadas às preferências alimentares. A pesquisa nasceu da necessidade de compreender o que leva uma pessoa a gostar de determinado alimento para, a partir daí, indicar abordagens realmente eficazes. O entendimento do ponto de vista genético pareceu o mais natural para os pesquisadores, que haviam se debruçado, como tantos outros, na formulação de dietas que levavam em conta os benefícios dos alimentos, porém muitas vezes fadadas ao fracasso por não atenderem às necessidades do paladar.

A questão é que, por mais que a população conheça os riscos da alimentação rica em gorduras, carne vermelha em excesso e comidas industrializadas, o consumo desses produtos permanece alto, refletindo diretamente no aumento da obesidade. A Organização Mundial da Saúde estima que 1 bilhão de pessoas no mundo são obesas e, até 2025; 167 milhões de indivíduos, entre crianças e adultos, terão algum impacto na saúde por estar acima do peso. Os mais comuns são aumento de risco para infarto e acidente vascular cerebral e para alguns tipos de câncer.

A pesquisa usou dados de participantes do Biobanco do Reino Unido, que reúne 500.000 voluntários, sobre preferências alimentares e composição genética. Os estudiosos chegaram a três grupos de paladares que estão sob forte influência dos genes. O “altamente palatável” se caracteriza pela busca de alimentos como sorvetes, salgadinhos, pães, bolos e outras delícias. O que foi denominado “baixo calórico” tem por trás material genético que estimula o consumo do cardápio dos sonhos dos nutricionistas: grelhados, frutas e sementes. O último é o “adquirido”, cuja predominância genética incentiva a experimentação de sabores diferentes, criando apreciadores de café sem açúcar, queijos fortes, bebidas alcoólicas e comidas amargas, de chocolates a vegetais.

A avaliação permitiu o entendimento de pontos complexos e até inesperados. A vontade de comer vegetais, por exemplo, não está somente sob o controle dos genes por trás do grupo dos alimentos com baixas calorias. Enquanto as saladas integram a categoria, os que têm sabores acentuados fazem parte das preferências adquiridas. Os gostos, na verdade, podem transpassar os três grupos em alguns indivíduos. “Temos todos os tipos de pessoas, desde aquelas que gostam dos três tipos de alimentos até quem prefere os específicos”, explica Nicola Pirastu, um dos autores do estudo. O pesquisador está otimista em relação às possibilidades trazidas pelo trabalho. “Podemos avançar na criação de alimentos do time dos palatáveis que sejam saudáveis, de dietas mais personalizadas e, quem sabe, de medicamentos para alterar o gosto alimentar”, planeja. Que cheguem logo os novos instrumentos para tornar menos árdua a batalha contra o sobrepeso e a obesidade.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A PERDA QUE SE MEDE

A persistência da dor dilacerante provocada pela morte de alguém próximo agora tem nome, transtorno do luto prolongado, e tratamento, um alívio para o sofrimento

A dor dilacerante da perda de um ente querido atravessa o tempo e o espaço e, compreensivelmente, afeta o cotidiano de quem fica, dando lugar a dias e dias em que a desolação supera todas as demais sensações e toma conta da pessoa. Mas a vida segue em frente, um clichê que, no caso dos enlutados, se confirma de forma tão inconsciente e imprevista que chega a causar surpresa – um belo dia, percebe-se que a tristeza que não passa continua lá, mas acomodada em um segundo plano que não compromete as demais emoções, inclusive a felicidade. A duração desse processo varia, claro, mas agora a medicina define um prazo a partir do qual ele pode deixar de ser considerado natural: quem permanece consumido pela angústia tendo se passado vários meses desde a morte de alguma pessoa próxima pode estar padecendo de uma doença, o transtorno do luto prolongado, que requer cuidados específicos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu a patologia, no início do ano, entre os 55.000 códigos da Classificação Internacional de Doenças (CID), que serve de base para estatísticas de saúde em todo o mundo. Em março, a condição também passou a integrar o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria e considerado a bíblia do setor. Nos dois documentos, a diferença entre luto normal e o patológico segue o critério cronológico. O DSM especifica que o diagnóstico de transtorno do luto prolongado se aplica a pacientes que apresentarem anseio intenso pela presença da pessoa que se foi, bem como raiva, amargura, tristeza e culpa de forma aguda e crônica – a ponto de incapacitar para a vida normal -, passados doze meses desde a morte. Já o prazo estabelecido pela OMS para a definição do transtorno é menor, de seis meses.

A maior parte dos psiquiatras e psicólogos aplaudiu a iniciativa de qualificar o luto intenso e prolongado como patologia, ampliando a chance de tratamento para pessoas que não conseguem sair do poço de sofrimento, uma angústia cotidiana que afeta 7% dos enlutados no mundo, segundo levantamento recente da Universidade de Aarhus, da Dinamarca. “Trata­ se de uma condição rara mas incapacitante, que traz prejuízos para a vida social e a saúde dos enlutados e pode até levar ao suicídio”, alerta Holly Prigerson, diretora do Centro de Pesquisas em Cuidados Paliativos da Universidade Cornell, em Nova York. Segundo especialistas consultados, a proporção de indivíduos afetados pelo transtorno do luto prolongado tende a crescer devido ao aumento exponencial de mortes causadas pela Covid-19. “O impedimento de se despedir de forma digna dos familiares em razão das medidas sanitárias gerou seriíssimos problemas no processo de luto”, afirma o psiquiatra Rafael Moreno, que viu o número de pacientes impactados pelo luto aumentar significativamente nos últimos dois anos.

A técnica em radiologia Simone Carvalho, 42 anos, soube da morte do pai por Covid quando estava na UTI lutando contra a mesma doença, em março de 2021, e sentiu a ausência dele de maneira tão insuportável que não conseguia trabalhar ou estudar. “O sentimento me bloqueou. Eu me sentia incapaz de tudo, até de dormir e comer”, explica. Diagnosticada com o distúrbio há cinco meses, Simone diz que dar nome a seu problema foi “uma luz no fim do túnel”. “Nunca tinha ouvido falar do transtorno, mas me senti acolhida ao perceber que não era a única a sofrer”, conta ela, que participa de um grupo de apoio com mais de 200 pessoas na mesma situação e faz tratamento psicológico e psiquiátrico.

Além de dar visibilidade ao transtorno, o reconhecimento da gravidade do luto prolongado tem impulsionado o desenvolvimento de tratamentos específicos para o distúrbio, que é frequentemente confundido com depressão. Katherine Shear, diretora do Centro de Luto Complicado da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, está na linha de frente das pesquisas em torno de um método terapêutico mais adequado para a doença. “O tratamento com antidepressivos não é eficaz no luto prolongado, que é diferente da depressão na origem e em alguns sintomas”, diz. Flaviana de Souza, dona de casa de Pontes Gestal, interior de São Paulo, entende bem a diferença: sofrendo de depressão há anos, mergulhou em um novo e dolorido tormento quando perdeu o pai de infarto, há dois anos. “Eu vivo esse luto a todo momento. Parece que minha vida parou”, descreve ela, que recebeu o diagnóstico há dois meses e está sendo tratada com terapia e medicamentos.

Mesmo tendo ampla aceitação, no entanto, a classificação do transtorno enfrenta resistência de uma parcela dos profissionais. “A patologização do luto é emblemática de uma sociedade que não tolera sentimentos desagradáveis e não pode parar para que as pessoas processem o sofrimento no seu tempo”, critica Artur Mamed, psicólogo e autor de Apontamentos para uma Clínica Compreensiva da Perda, livro sobre as mudanças na abordagem do luto ao longo do século XX. Um dos maiores opositores da “medicalização” generalizada, Allen Frances, psiquiatra e professor da Universidade Duke, dos Estados Unidos, alerta sobre a possibilidade de erros de diagnóstico. “Alguns profissionais podem abusar do novo rótulo, correndo o risco de estigmatizar o luto e receitar tratamentos para um processo natural”, diz ele.

Atravessar a dura perda de pessoas queridas é um aprendizado individual e inescapável a que praticamente todo mundo está sujeito, em algum momento. Como outros sentimentos profundos e marcantes, o luto transita com frequência pela música (caso da bela e tristíssima Pedaço de Mim, de Chico Buarque), pelas telas (como na delicada e ácida série After Life, de Ricky Gervais) e, claro, pela literatura, onde foi dissecado por grandes pensadores. Justamente por estar contido em um sentimento tão abrangente, o diagnóstico do transtorno do luto prolongado tem de ser feito com cautela – a experiência mostra que a maioria dos enlutados, por mais que sofra, dificilmente vai adoecer por causa da dor. “A avaliação clínica tem de examinar todos os aspectos e ir além de encaixar o paciente dentro do inventário de sintomas da CID ou do DSM”, observa Cecí1ia Rezende, psicóloga e coordenadora do Entrelaços, instituto especializado no atendimento a enlutados.

Há quem passe por um longo período de extremo sofrimento sem, no entanto, parar de trabalhar e de se comunicar com outras pessoas, ambos sintomas do transtorno do luto prolongado. Coordenador da Diversidade Sexual da prefeitura do Rio de Janeiro, o estilista Carlos Tufvesson enfrentou durante a pandemia a morte da mãe e do marido em questão de seis meses. “É uma dor insuportável, que tira a noção de futuro – eu estava vivendo uma vida a dois e, do nada, fiquei ali sozinho”, relata Tufvesson, que, no entanto, não se sentiu paralisado. “Acho que cada um tem sua forma de reagir a essa dor. Meu trabalho me ajuda a seguir em frente”, explica. Para quem não consegue sair sozinho do fundo do poço, porém, a possibilidade de tratamento abre uma fresta não na saudade, que nunca passa, mas na intensidade com que é sentida.

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