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CRESCE O NÚMERO DE CRIANÇAS QUE SÃO REGISTRADAS SEM O NOME DO PAI

Registros por mães solo têm maior marca em balanço iniciado em 2016; reconhecimento tardio cai

A dona de casa Bárbara de Oliveira, 32, teve seis filhos. Quatro moram com ela, sendo que três foram registrados pelos pais. Já uma das meninas, de 10 anos, não possui o sobrenome paterno.

O genitor, segundo Bárbara, se nega a reconhecer a filha. A mulher, que vive na periferia do Recife, entrou na Justiça e aguarda um teste de reconhecimento de paternidade.

A filha de Bárbara é uma das milhares de crianças brasileiras registradas todos os anos sem o sobrenome do pai. Só nos sete primeiros meses deste ano, 100.717 crianças foram apresentadas em cartórios por mães solo. É o maior volume desde 2016, quando a Arpen (Associação dos Registradores de Pessoas Naturais) passou a recolher dados sobre o tema.

Em 2022 também foi registrado o menor número de nascimentos para um primeiro semestre desde 2016, pouco mais de 1,5 milhão. Isso significa que 6,5% do total de nascidos entre janeiro e julho de 2022 possuem pais ausentes.

A porcentagem é maior que os 5,8% do mesmo período de 2019, quando 99 mil recém-nascidos foram registrados por mães solo até julho, o maior número de notificações até então. No primeiro semestre de 2016 o percentual foi de 5,17%.

Para o presidente da Arpen, Gustavo Fiscarelli, os números mostram que há muito a evoluir quando se trata de responsabilidade paterna.

“Pai e mãe são responsáveis pela criação dos filhos e possuem responsabilidades a serem compartilhadas. Obviamente, cada família vive uma realidade, mas são dados que podem embasar as políticas públicas”, diz.

Pernambuco, o estado de Bárbara, teve mais de 4.000 crianças registradas sem o sobrenome do pai até julho deste ano. No mesmo período, o estado de São Paulo, líder nas estatísticas, teve 17,4 mil. A dona de casa foi acolhida pela Apemas (Associação Pernambucana de Mães Solteiras), uma das primeiras a se dedicar ao reconhecimento paterno no país. Além de amparo jurídico, o grupo oferece auxílio alimentar a Bárbara e seus filhos.

O projeto foi idealizado pela advogada Marli Cristina da Silva, 60. Quando tinha 29 anos, Marli, que nunca pensara em ser mãe, foi convencida pelo companheiro à época a ter um bebê. Uma semana depois de dar à luz um menino, ela foi abandonada pelo genitor. “Ele foi até a casa onde eu morava, disse que eu daria conta de criar a criança sozinha e sumiu”, diz.

Sozinha, Marli foi expulsa pelo cunhado do imóvel em que morava. Após semanas de casa em casa, se estabeleceu em uma residência na periferia do Recife e abriu um comércio para sustento da família. Durante esse período, auxílios eram raros, mas o julgamento, recorrente.

“Me achavam a pior mulher do mundo, e o genitor do meu filho era, para as pessoas, um herói. Eu não entendia o porquê. Isso tornou muito difícil a experiência da maternidade para mim, acho que até hoje é”, diz.

Em outubro de 1992, ela fundou a associação de mães solo pelo desejo de que histórias como a dela não se repetissem, mas conquistar adeptas foi um trabalho árduo. As mulheres se negavam a reconhecer a situação.

Marli não desistiu. Organizou encontros e começou a discursar pelo empoderamento das mães. Nos primeiros, o quórum era mínimo, mas a mensagem se disseminou. Em alguns meses, a advogada tinha um discurso e muitas histórias. Faltava a Justiça.

Até o início dos anos 2000, lutar pelo reconhecimento de paternidade não era tarefa fácil. Machismo e travas judiciais andavam juntos, diz Marli.

Apesar das dificuldades, a associação seguiu firme até que, em 2006, a Justiça pernambucana mudou sua jurisprudência e passou a apoiar a iniciativa. O primeiro mutirão de reconhecimento voluntário de paternidade do estado aconteceu naquele mesmo ano, com mais de 1.700 genitores registrando seus filhos. Desde então as campanhas são anuais, e iniciativas similares se repetem em estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Ainda assim, os dados divulgados pela Arpen preocupam a Associação Pernambucana de Mães Solteiras, que credita o cenário ao pouco trabalho preventivo das autoridades e ao preconceito ainda vigente contra mães sem companheiros, em especial as mais pobres.

“Meu sonho é que um dia não precisem mais da Associação das Mães Solteiras. Após tantos anos, o poder público poderia agir sozinho e investir mais nesse trabalho. Os dados mostram que precisamos de muita ajuda”, desabafa a fundadora da Apemas.

Assim como a Arpen, o IBDFAM (Instituto Brasileiro de Direito de Família) mantém um levantamento sobre paternidade no Brasil. Nele, há também o número anu- al de reconhecimentos tardios desde 2016, quando 14.696 pais o fizeram.

O índice teve um pico em 2019, quando mais de 35 mil pais reconheceram seus filhos. O ano de 2020, início da pandemia de Covid-19, marca uma queda, com quase 24 mil registros, a mesma projeção do instituto para este ano. Márcia Fidelis, presidente da comissão nacional dos notários e registradores do IBD- FAM, diz que a progressão negativa de crianças sem paternidade e a diminuição dos reconhecimentos podem ser explicados por dois fatores: pandemia e crise financeira. “A diminuição da mobilidade social provocada pela pandemia fez com que puérperas postergassem o registro dos filhos. Por isso, entre 2019 e 2020, tivemos uma diminuição de registros. Posteriormente, a crise financeira pode ser o fator preponderante para o afastamento paterno”, afirma Fidelis.

Ela diz ainda que as ações voltadas ao incentivo do reconhecimento, além da edição de normas que desburocratizam os procedimentos de inclusão de paternidade, tanto biológica quanto socio afetiva, são as providências mais promissoras para mudar o quadro atual.

“Privilegiar a formalização de parentescos originados da socio afetividade é muito mais efetivo do que impor as responsabilidades de um reconhecimento de vínculo biológico não desejado.”

A partir de 2012, o reconhecimento de paternidade passou a ser autorizado diretamente nos cartórios de registro civil, não sendo mais necessária decisão judicial nos casos em que todas as partes concordam com a resolução. Quando a iniciativa for do próprio pai, basta que ele compareça ao cartório com a cópia da certidão de nascimento do filho, sendo necessária a autorização da mãe ou do próprio filho, caso seja maior de idade.

Nos casos em que o pai não quer reconhecer o filho, a mãe deve indicar o suposto genitor no próprio cartório, que comunicará aos órgãos competentes para que seja iniciada a investigação de paternidade.

GESTÃO E CARREIRA

COMO JUNTAR, DE FORMA EQUILIBRADA, PRODUTIVIDADE COM BOA SAÚDE MENTAL?

Jornadas exaustivas e burnout já atingem 43% dos consultados em pesquisa da FGV; veja o que fazer para ficar livre desses riscos

Perder a motivação por atividades que antes despertavam o seu interesse. Ficar com a sensação de que não se reconhece mais. Sentir dificuldade em controlar algumas emoções. Se você já sentiu algum desses sintomas, é provável que as exigências do mercado de trabalho o estejam sobrecarregando. Essa é uma realidade comum para muitos profissionais, que precisam lidar com jornadas exaustivas, entregas cada vez mais rápidas e metas bastante rigorosas.

Um levantamento conduzido por Paul Ferreira, vice-diretor do Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas da Fundação Getúlio Vargas, em parceria com as empresas Talenses e Gympass, mostrou que 43% dos 572 entrevistados relatam estar com sobrecarga de trabalho – 50% deles trabalham de forma híbrida, 28% estão de forma remota e 22% estão de forma presencial. “A gente percebe que a saúde mental está ficando cada vez pior”, adverte Paul.

O estudo revelou que pressão por resultados é o motivo com mais efeito negativo na saúde mental dos trabalhadores, seguido do custo de estar disponível o tempo todo. Dessa forma, saber como lidar com as exigências do mercado de trabalho sem abrir mão do bem-estar, que já era uma tarefa complicada antes da pandemia, tornou­ se indispensável.

RECONHEÇA OS SINAIS

Reconhecer os alertas do nosso corpo é o primeiro passo. Especialistas avisam que alguns sinais físicos, como diminuição da imunidade, aumento ou diminuição do apetite e dores musculares, podem ser pontos de atenção. “Qualquer mudança brusca é um sinal para investigar o que está acontecendo”, avisa Clarissa Freitas, psicóloga e coordenadora do Núcleo de Estudos em Psicologia Positiva Organizacional.

É importante ficar atento às dificuldades de controle emocional, como uma crise de choro. “Não que isso não possa acontecer eventualmente, mas às vezes a pessoa tem uma reação exagerada para uma situação em que não cabe tal reação”, aponta Clarissa. Além disso, a perda de motivação por atividades antes interessantes também pode ser um sinal.

Às vezes, os sinais são mais difíceis de serem percebidos, como no caso do burnout, que começa com uma dedicação intensa – na qual o trabalhador vê sentido no que está fazendo -. mas acaba desencadeando um esgotamento mental. “Por qualquer que seja o motivo desse engajamento, ninguém aguenta dar tudo de si o tempo inteiro. Dessa forma, esse engajamento vai sendo sucedido por uma desistência”, diz Renata Paparem, psicóloga e coordenadora do Núcleo de Ações em Saúde do Trabalhador (Nast).

GESTÃO DE TEMPO

Saber organizar as tarefas pode ser um passo importante para uma produtividade mais saudável. A recomendação dos especialistas é começar o dia definindo tarefas, prazos de entrega, relevância e o tempo necessário para que elas sejam concluídas.

Existem até técnicas para esse processo, como a Smart. “É uma forma de fazer as tarefas a partir da importância delas”, indica Clarissa. São cinco pontos principais: especifique o que precisa ser feito, mensure o progresso da tarefa, garanta que seja uma tarefa possível de ser realizada, tenha clara a relevância dela e defina prazos.

Além disso, outra recomendação fundamental é saber equilibrar sua rotina entre trabalho e outras atividades, como prática de esportes, meditação e leitura. “A gente percebe baixos níveis de ansiedade e estresse em pessoas que investem um tempo no trabalho, mas também um tempo em outras atividades relevantes”, esclarece Clarissa.

SEPARE O PESSOAL DO PROFISSIONAL

Com a pandemia, vida pessoal e profissional se misturaram. O trabalho remoto – ou home office – tomou a separação entre esses dois universos um desafio. E a tendência é que esse modelo continue. Uma pesquisa da Fundação Instituto de Administração (FIA) mostrou que 29% das empresas planeja uma tarefa possível de ser realizada, tenha clara a relevância dela e defina prazos.

Além disso, outra recomendação fundamental é saber equilibrar sua rotina entre trabalho e outras atividades, como prática de esportes, meditação e leitura. “A gente percebe baixos níveis de ansiedade e estresse em pessoas que investem um tempo no trabalho, mas também um tempo em outras atividades relevantes”, esclarece Clarissa.

Ter objetos que nos remetem ao trabalho, como uma xícara de café, pode ser uma estratégia útil para que seu cérebro entenda onde começa a vida pessoal e termina o trabalho e tocar o pijama por outras roupas.

No entanto, Renata acredita que outras ações precisam ser tomadas. “É necessário que a legislação alcance essa nova configuração de trabalho”, defende a psicóloga. Ela propõe que as empresas forneçam um celular corporativo e evitem mensagens fora do horário de trabalho.

METAS CONVERSADAS

Com o objetivo de motivar os colaboradores, muitas empresas adoram o sistema de metas. Porém, em muitos casos, essa prática tem um efeito negativo na saúde mental e bem-estar dos funcionários – seja pela sobrecarga de atividades ou por adotar longas jornadas de trabalho.

O que o trabalhador pode fazer para lidar melhor com a cobrança por resultados, de acordo com a psicóloga Renata, é ”tentar não equiparar seu valor pessoal ao fato de atingir metas”. Por isso, a recomendação dos especialistas é que essas metas sejam definidas em acordo entre colaboradores e a liderança. “As pessoas não têm problema em ter metas e responsabilidades. Elas têm problemas em não ter autonomia para definir a forma de atingir esses resultados. O ponto não é ter ou não ter metas, mas como elas são negociadas”, explica Paul.

UMA BOA NOITE DE SONO

Dormir bem é importante por várias razões – mas, após uma rotina estressante, isso é indispensável. Isso porque, após uma situação que cause algum tipo de prejuízo, é necessário ter tempo e oportunidade para se recuperar do desgaste sofrido. “Ter um sono não reparador abre espaço para outras fragilidades e para um maior nível de esgotamento”, afirma Renata.

“Isso éo que a gente chama de espiral de perda”, completa Clarissa, para quem um sono não restaurador pode desencadear problemas como ansiedade e baixo rendimento no trabalho. Por isso, os especialistas recomendam algumas atividades para melhorar a qualidade do sono, como encaixar a prática meditativa e  de exercícios físicos em algum momento do seu dia.

PEÇA AJUDA

É possível encontrar suporte no SUS. Procure a UBS mais próxima da casa e fale sobre os sintomas. Você também pode procurar um médico ou psicólogo ou um serviço especializado, como o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest).

EU ACHO …

DOSTOIÉVSKI CONTRA A PSICOLOGIA POP

Somos sombras, às vezes circundadas por luz misteriosa, que andam pelo mundo

Seríamos nós previsíveis? Alguma teoria detém os segredos da vida psíquica? Há toda uma tradição que crê ter descoberto o segredo de como nos moldar para que cheguemos aonde essa tradição diz ser capaz de nos levar. Como moldar bons cidadãos, consumidores conscientes, enfim, como nos fazer pensar da forma que devemos pensar para atingir certos fins?

Stewart Justman, professor da Universidade de Montana, escreveu um livro que é uma verdadeira pérola para quem quer entender um pouco da nossa cultura contemporânea obcecada com os poderes da psicologia. “The Psychological Mystique”, ou a mística psicológica, publicado pela Northwestern University Press, em 1998, sem tradução no Brasil. O autor tem dedicado parte da sua obra a investigar os efeitos perversos do que ele chama de “pop psychology” – psicologia para consumo -, tema que ele relaciona coma busca contemporânea pelo paraíso dos idiotas – título de outro livro dele.

No caso da mística psicológica, a investigação do método de educação do filósofo John Locke (1632-1704) é seu ponto de partida. E qual é esse método?

Pegue uma criança e ensine a ela boas ideias, porque a mente é formada por uma associação de ideias que lhe são dadas pelo meio à sua volta. Por sua vez, o método de introduzir boas ideias na cadeia de associação de ideias, que seria o modo de funcionamento da mente, moldará bons cidadãos, consumidores proativos, profissionais motivados, enfim, pessoas mais felizes e participativas. Resumindo a ópera: somos previsíveis e manipuláveis para o bem – e os maus nos manipulam para o mal. Simples assim?

Justman problematiza brilhantemente essa tese, não só para a pôr em dúvida no seu pressuposto – descobrimos como funciona nossa mente e podemos retirar dela muito potencial -, mas também para descrever alguns dos seus efeitos nefastos, senão ridículos. Comecemos por esta segunda crítica.

Aqui entra em cena um personagem importante: o duplamente sobrinho de Freud, duas vezes. O que isso significa? Edward Bernays era filho do irmão de Martha Bernays – nome de solteira da mulher do Freud – e da irmã do próprio Freud. Logo, sobrinho duas vezes do famoso médico vienense inventor da psicanálise, que, aliás, considerava o sobrinho um picareta, como todo americano.

E qual era sua picaretagem? Dizendo-se herdeiro intelectual do seu tio – que Freud negava veementemente -, ele criou uma psicologia para as relações públicas e a propaganda. Bernays queria salvar o mundo vendendo cigarros Lucky Strike para mulheres emancipadas. O psicanalista da opinião pública, como gostava de ser visto, fez campanhas envolvendo mulheres famosas, ricas e bonitas em Nova York – na França, com a aristocracia feminina -, em que essas celebridades eram fotografadas fumando Lucky Strike.

Feminista, ele entendia que podia emancipar as mulheres dando a elas o direito de ascender à condição de fumante de Lucky Strike. As vendas bombaram! Eis a previsibilidade que Bernays pôs em prática e, desde a sua “descoberta”, o mundo do marketing, das empresas, das relações-públicas, do coaching e da educação em geral repete a fórmula à exaustão do ridículo.

A primeira crítica, aquela que nega a previsibilidade humana a partir da modelagem das nossas ideias, é mais complexa. Não somos previsíveis nem quando fazemos o mal, mas podemos ser manipulados por cálculos estratégicos – os mesmos de Bernays. Para essa crítica, o autor faz uma leitura primorosa de Dostoiévski.

O grande russo criou personagens permeados pela indeterminação infinita da alma e, por isso mesmo, por uma opacidade que é humilhada por teorias como a de Bernays. A polifonia – vozes infinitas internas em contradição contínua -, descrita por Mikhail Bakhtin (1895-1975) como sendo a marca dos personagens de Dostoiévski, é essa impermeabilidade à modelagem estratégica da alma.

Os personagens de Dostoiévski são profundos porque nem mesmo o narrador sabe o que eles pensam e sentem. Sombras, às vezes circundadas por uma luz misteriosa, que caminham pelo mundo, sofrendo, amando, matando – este é o resultado. Justman e eu concordamos com Dostoiévski.

*** LUIZ FELIPE PONDÉ

ESTAR BEM

ADEUS, DIETA

Sem regras rígidas, nutrição intuitiva foca em escolhas alimentares conscientes – e sem culpa

Dieta da lua, chá emagrecedor, proibição de carboidratos. Juliana Pessoa Ramos, psicóloga, de 36 anos, havia testado muitas fórmulas para emagrecer, mas nunca tinha conseguido um resultado satisfatório e consistente. “Sempre sofri com o efeito sanfona, ansiedade e compulsão alimentar. Mas os nutricionistas nunca me perguntaram nada sobre isso, só me passavam um cardápio para seguir. Eu entrava num ciclo ansioso ao precisar cumprir uma meta de peso até a próxima consulta, o que levava a me render à compulsão”, conta.

Há dois anos, no entanto, ela conheceu sua atual nutricionista, que trabalha com a abordagem da alimentação intuitiva, e sentiu diferença. “Ela não proíbe o consumo de nenhum alimento e não foca o peso corporal. A consulta é leve e sem ‘terrorismo’.”

Juliana não ficou supermagra como sonhava, mas afirma que hoje está em paz com a comida e com o seu corpo, com um peso saudável e estável. “Aprendi a me relacionar com os alimentos, a ouvir o que o meu corpo realmente quer. Como de tudo, com consciência, responsabilidade. Alguns dias eu como salada, em outros como pizza, com zero culpa”, conta ela, que atualmente frequenta bares e festas sem sofrimento, mas se planeja para não extrapolar.

Priscila Monomi, nutricionista que atende Juliana, acredita que a “mentalidade de dieta”, que promove o sacrifício para obter resultados em curto prazo, não promove o bem-estar físico e mental das pessoas. “A alimentação intuitiva foca no relacionamento de paz com a comida. Quanto mais conectados estivermos com nossos sinais de fome e saciedade, melhor é a nossa saúde. O peso é uma das consequências positivas dessa relação”, diz.

AUTOCONHECIMENTO

A abordagem da alimentação intuitiva (intuitive eating), criada nos anos 1990 por duas nutricionistas norte-americanas, dá permissão para que cada pessoa coma o que quiser, sem restrições, mas mediante autoconhecimento, atenção às emoções e aos sinais de fome e saciedade. Essa e outras abordagens, modelos e metodologias “não dieta”, com foco na mudança de comportamento, começaram a ser adotadas no Brasil na última década, mas ainda são pouco conhecidas pela população em geral, que prefere soluções “milagrosas”, dizem os especialistas entrevistados.

“Infelizmente, as faculdades de nutrição ainda formam pessoas para calcular calorias da dieta e o nutricionista virou um profissional do emagrecimento. Isso é triste”, diz a nutricionista e pesquisadora Sophie Deram, autora do livro O Peso das Dietas, lançado em 2014. Segundo ela, as dietas restritivas, que deixam as pessoas passarem fome ou eliminam grupos alimentares, podem trazer resultados rápidos, mas a longo prazo não funcionam, pois as pessoas voltam ao peso anterior – ou mais alto.

“Você nunca sai igual de uma dieta, que mexe com o seu apetite e metabolismo. O cérebro vai pedir por mais ali- mento, sem contar que quando você é proibido de comer algo fica pensando nisso o dia inteiro. Isso resulta no efeito sanfona, que é prejudicial à saúde”, diz. No atendimento, Sophie coloca o paciente como o protagonista de sua alimentação. “Ele vai aprender a dirigir o seu barco.” Segundo ela, pessoas com qualquer patologia podem se beneficiar da abordagem nutricional.

Paciente de Sophie desde 2015, a coach de carreira Flavia Gisela Wahnfried, de 46 anos, conta que teve dificuldade, no início, de praticar a alimentação intuitiva. “Eu estava extremamente condicionada a seguir fórmulas, receitas e quantidades. Havia perdido a conexão com o meu corpo, com a minha sensação de fome e de saciedade. Por muitos anos fiz dietas frustradas e estava cansada de não conseguir atingir e sustentar um peso saudável.” Flavia percebeu que quanto mais restritiva era a dieta, mais tinha episódios de comer em excesso, o que a levava a ganhar peso novamente. Ela foi encorajada por Sophie a escolher as refeições a partir de suas preferências, priorizando ingredientes naturais. Com isso, chegou a um peso satisfatório, que não oscila. “Ela me devolveu o prazer de fazer uma refeição sem culpa. Sem proibições, sinto menos compulsão. Consigo apreciar um chocolate ou ir a uma festa e seguir depois minha rotina equilibrada, sem me castigar no dia seguinte com jejuns e exercícios malucos.”

GENTILEZA

Tratar a si próprio com gentileza é uma das premissas da alimentação intuitiva, afirma a nutricionista Marle Alvarenga, fundadora do Instituto de Nutrição Comportamental. “Uma pessoa que não é compassiva consigo mesma acaba se punindo só porque comeu um alimento um pouco mais gorduroso, sem olhar o contexto. A culpa gera estresse, que interfere na sensação de fome e saciedade”, ensina. Para promover essa autocompaixão, o nutricionista comportamental pode valer- se de terapias cognitivas comportamentais, que utilizam ferramentas como um diário alimentar, no qual o paciente escreve aquilo que come, onde, quando e os sentimentos e sensações do momento, exemplifica Marle.

O nutricionista que trabalha com a alimentação intuitiva pode atuar em parceria com um psicólogo. “Há pessoas que não encontram outras possibilidades para lidar com as emoções que não seja pela comida”, explica a psicóloga Mariana Esteves Shnaiderman. No seu consultório, ela ajuda o paciente a reconhecer as emoções e a desenvolver repertório para lidar com elas.

Amanda Cardoso da Silva, de 30 anos, assistente social, conheceu os princípios da alimentação intuitiva com Mariana. Para ela, romper com a ideia de que existem alimentos “proibidos” fez a diferença, pois ela deixou de sentir culpa e se punir por isso. “Eu passava horas na esteira para me punir por algo que tinha comido”, conta ela, que tinha episódios de compulsão alimentar diariamente.

“Eu comia qualquer alimento em abundância. Chegava a acabar com uma panela de arroz e feijão.” Ao perceber os seus gatilhos emocionais na psicoterapia e resgatar o prazer de comer, hoje ela se alimenta e se exercita para se cuidar. “Rompi com a mentalidade da dieta, incutida em mim por anos e anos.”

PRESSÃO ESTÉTICA

Para os especialistas em transtornos alimentares, o contexto de pressão estética, amplificado nas mídias sociais e na publicidade, gera insatisfação com o corpo – que traz lucros. O mercado da perda de peso movimenta US$ 72 bilhões nos Estados Unidos, de acordo com um levantamento da Market Research de 2019.

“A indústria está empenhada em promover a insatisfação para gerar desejo e consumo, além de interferir nas políticas públicas pelo lobby. Por isso uma abordagem não dieta vai na contramão do que vemos no mundo”, analisa a nutricionista Marcela Cristina Elias Villela. O recorte da “vida perfeita”, com pratos e corpos ideais dos influenciadores digitais, promove uma distorção da autoimagem, afirma a nutricionista. “Comparar-se com outras pessoas, inclusive aquela blogueira que vive em função da aparência, gera um nível de julgamento e autocrítica grande”, avisa. Marcela atende principalmente pacientes com transtornos alimentares e obesidade na abordagem da alimentação intuitiva e health at every size (saúde em todos os tamanhos). “Ajudo a pessoa a compreender que ainda que ela não atinja o IMC (Índice de Massa Corporal) ideal, ela pode ser saudável, já que o peso é apenas um dos elementos que podemos usar como parâmetro. Promovo o cuidado das pessoas com obesidade sem estigmas e preconceitos.”

ATENÇÃO PLENA

Checar os posts do Instagram na hora das refeições é uma ação comum, mas nada recomendada pelos profissionais que trabalham com alimentação intuitiva. Por isso, mesmo quando a rotina fica corrida, o momento das refeições é inegociável para a administradora Maria Clara Ferraz, de 22 anos. Há um ano, ela aderiu ao Mindful Eating, prática de alimentação com atenção plena, que traz foco ao momento presente.

“Monto pratos bonitos, saboreio com calma os alimentos, presto atenção nas texturas, cheiros, temperatura. Escolho com consciência o que quero comer, considerando o bem-estar físico e mental. É um momento de prazer e autocuidado do meu dia”, admite. Antes de praticar o Mindful Eating, Maria Clara sentia que estava com um comportamento alimentar problemático, pois só pensava em calorias e em comida. “Ganhei alguns quilos no isolamento e queria emagrecer. Me consultei com uma nutricionista que me passou uma dieta bem restritiva: o café da manhã era obrigatoriamente líquido, o pão era proibido e o jantar sem carboidratos. Isso me levou a um ciclo de exagero. Ganhei mais peso do que antes de começar a dieta.”

A psicóloga Lauren Frantz Veronez, instrutora de Mindful Eating, afirma que atende muitas pessoas como Maria Clara, que já fizeram várias dietas e passaram por nutricionistas, mas nunca conseguiram melhorar a alimentação e o peso. “Eles não resistem à comida quando estão ansiosos ou estressados e depois sentem culpa”, avalia.

Lauren explica que o Mindful Eating pressupõe abandonar as regras impostas pelas dietas e devolve autonomia para as pessoas, para que façam as próprias escolhas alimentares. “Quem pratica é capaz de reconhecer os sinais que o corpo dá e usa como base para decidir o que vai ou não comer, em vez de seguir regras externas.”

No início de sua carreira como psicóloga, Lauren trabalhou em uma clínica de emagrecimento tradicional e ficou incomodada. “Era proibido falar o nome dos alimentos proibidos. Até comer frutas era demonizado. As pessoas sofriam muito e a comida virava uma obsessão”, recorda. Na busca de ajuda para aquelas pessoas, ela encontrou o Mindful Eating, que também a levou a melhorar a própria alimentação e a perder peso.

A médica e instrutora de Mindful Eating Paula Teixeira ensina as técnicas de alimentação com atenção plena a pacientes que apresentam compulsão alimentar ou que comem por motivos emocionais, encaminhados por psicólogos, psiquiatras e endocrinologistas. “A ciência avançou na direção de instruir o paciente sobre o que ele precisa fazer para ter uma vida mais saudável. Mas os pacientes não têm recursos e repertório para sustentar mudanças de hábitos alimentares. O Mindful Eating ajuda as pessoas que querem aprender como comer e se relacionar com a comida”, adianta. Paula vale-se de sua própria história para mostrar os benefícios do Mindful Eating. Dos 7 aos 18 anos, ela fez dietas. Com 160 quilos, aos 10 anos, se submeteu à cirurgia bariátrica e perdeu 40 quilos. Precisava emagrecer mais, mas outros 10 anos de dieta não a fizeram perder peso. “Eu odiava comer, mas nunca emagrecia”, conta. Em 2013, parou com as dietas e começou a praticar o Mindful Eating. “Emagreci 30 quilos sem dieta. Aprendi a amar a comida e a cuidar de mim.”

COMER SEM CULPA – E COM CONSCIÊNCIA

SINTONIZE-SE AO SEU CORPO

 Observe os sinais de fome e saciedade.

FOME EMOCIONAL

Veja se você recorre à comida quando está entediado, triste ou ansioso. Busque outras for- mas de lidar com esses senti- mentos, como praticar esportes ou encontrar amigos.

BALANÇA

Seu peso não é o único indicador de uma boa alimentação. Evite ficar obcecado pelos números da balança.

ATENÇÃO PLENA

Desligue o celular ou a TV e faça as suas refeições com atenção ao sabor. Mastigue devagar e aprecie o alimento.

PLANEJE-SE

Coloque na sua rotina o hábito de ir à feira ou ao mercado fazer compras de alimentos nutritivos e saborosos.

COMA COM PRAZER

Seja qual for a sua escolha alimentar, desfrute da comida que você escolheu. Não demonize nenhum alimento.

SEJA GENTIL

Acolha suas vontades e não se puna quando algo sair do esperado.

REDES SOCIAIS

Deixe de seguir perfis que promovem o “terrorismo nutricional”, com muitas proibições e rotulagem de alimentos “heróis” e “vilões” que prometem soluções milagrosas.

TENHA PACIÊNCIA

Para evitar o efeito sanfona, é preciso buscar uma mudança de comportamento sustentável e consistente, sem pressa.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROME DO IMPOSTOR AFETA TAMBÉM OS RELACIONAMENTOS

Estudo indica que 70% das pessoas já se sentiram como ‘uma fraude’ ao menos uma vez na vida, inclusive na vida amorosa

“Eu sentia um estranhamento quando me ofereciam um afeto romântico. Era como se fosse um território estranho a ser habitado por mim. Estou acostumada é com o medo.” Esse é relato de Mariana, de 23 anos, que conta sofrer, na sua vida amorosa, da chamada síndrome do impostor.

Ainda que o senso comum atrele esse termo à carreira, a sensação de ser uma fraude é comum e recorrente em outros âmbitos da vida. Na verdade, 70% das pessoas já se sentiram assim pelo menos alguma vez na vida, segundo o International Journal of Behavioral Science. De acordo com Henrique Bottura, psiquiatra e diretor clínico do Instituto de Psiquiatria Paulista, a síndrome do impostor não é um quadro clínico nem uma psicopatologia específica. No entanto, pessoas com transtorno de ansiedade generalizada podem se deparar com essa sensação frequentemente.

O QUE É

O psiquiatra explica que essa ansiedade advém de uma personalidade muito autocrítica, um sentimento crônico de insuficiência, culpa e baixa autoestima. A pessoa “sente ansiedade constante, pensando que pode ser descoberta, como se fosse uma fraude, como se tivesse mentido e enganado. Como se não pertencesse àquele espaço. Está sempre na expectativa de ser descoberta”, detalha a psicóloga Gabriela Luxo, mestre e doutora em distúrbios do desenvolvimento.

Juliana, de 22 anos, diz conviver com esse sentimento de insuficiência e pondera que isso impacta mais sua vida afetiva do que a profissional. “Essa questão da autoestima se reflete em vários âmbitos e ainda mais no amor, porque é nos relacionamentos que expomos a nossa vulnerabilidade.”

Juliana, que atualmente está em um relacionamento, percebe que essa insegurança potencializa o ciúme. Já Mariana, que está solteira, revela que, inconscientemente, sabota qualquer relação amorosa, antes mesmo de ela começar. “Quando estou começando a ficar com uma pessoa, só consigo pensar que irei me magoar e sofrer. Então, começo a ‘caçar’ tudo sobre ele, se ele está conhecendo outra pessoa ou algo do tipo. E eu sempre encontro, até porque a pessoa é solteira- assim como eu. Mas é como se um gatilho muito forte fosse acionado indicando que aquele lugar não era para ser meu e sim de outra pessoa melhor, mais bonita. etc. Acho que pode ser uma brecha inconsciente para sair disso o mais rápido possível”.

A mestre em psicologia positiva Adriana Drulla explica que a síndrome pode levar a duas situações. Em uma delas, a pessoa se dedica ao extremo para sustentar uma imagem que ela acredita ser capaz de torná-la mais valiosa, amada ou aceita. Isso faz com que haja uma dificuldade em se abrir e revelar as suas vulnerabilidades. Ou seja, fica mais difícil construir intimidade quando você está sempre na defensiva.

INFERIORIDADE

Por outro lado, a expectativa do abandono iminente também pode criar urna dificuldade para levar adiante o relacionamento, desconfiando do parceiro ou sabotando a relação. Além disso, a crença de não ser boa o suficiente faz com que qualquer erro seja sentido como sinal de inferioridade. No fundo, elas sentem como se não merecessem o parceiro ou o relacionamento.

Mariana e Juliana sofreram bullying na adolescência e, para além do sentimento de inferioridade, o psiquiatra Henrique Bottura destaca o papel dos pais na infância. “A causa tem a ver com tendência de auto exigência, urna autoconfiança muito distorcida”, diz. “Uma família muito exigente pode gerar isso.”

Outro ponto levantado por Juliana é a referência de relacionamentos que, assim como ela, muitas meninas tiveram, com filmes de princesas: ”Quando eu era criança, a gente sempre teve essa ideia de que um príncipe ia salvar a gente e isso acaba desembocando na dependência emocional de buscar desesperadamente um relacionamento para nos completar. Quando você não tem, não se sente completa e, se tem, não se sente boa o suficiente”.

VIRE A CHAVE

A psicóloga Gabriela Luxo aponta a psicoterapia cognitivo-comportamental como tratamento recomendado para a síndrome do impostor. Ela lista (abaixo) alguns exercícios de autoconhecimento e auto-observação.

ELOGIOS

Aceite elogios e não se desmereça ou se autodeprecie.

SEJA GENTIL COM VOCÊ

 Comemore pequenas vitórias: celebrar mudanças de comportamento é importante.

INFORME-SE

Verifique se os pensamentos ruins sobre si mesmo podem ser comprovados. Buscar informações é uma forma de perceber a realidade.

Blog O Cristão Pentecostal

"Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva. Convertam-se! Convertam-se dos seus maus caminhos!" Ezequiel 33:11b

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