ESTAR BEM

CARBOIDRATO: HERÓI OU VILÃO?

Fonte de energia, o nutriente deve fazer parte da dieta alimentar; eliminá-lo do cardápio pode trazer diversos malefícios e interferir até mesmo na qualidade do sono

Os carboidratos atuam como combustível para o corpo, sendo sua principal fonte de energia. O consumo adequado contribui para a saúde do organismo de modo geral, pois está associado ao transporte de proteínas para os músculos, à formação de células do sistema imunológico e à geração de energia para o cérebro, garantindo uma boa cognição e aprendizado, conforme explica a nutricionista Isabella Pinheiro.

Simples ou complexos, são formados por moléculas de carbono, hidrogênio e oxigênio, que podem se unir e formar outras ainda maiores que, por sua complexidade, são agrupadas em diferentes categorias, das quais as três mais importantes são monossacarídeos, dissacarídeos e polissacarídeos.

“Os monossacarídeos são açúcares formados por uma única molécula. Seus principais representantes são a glicose (fabricada pelos vegetais durante a fotossíntese), a frutose (encontrada no mel) e a galactose (presente no leite)”, explica. “Os dissacarídeos (maltose encontrada no malte da cevada, lactose encontrada no leite e a sacarose) consistem em dois monossacarídeos unidos por uma ligação de carbono. E, por fim, os polissacarídeos são grandes cadeias de ligações de monossacarídeos que têm em sua composição amido, celulose, pectina e glucana, não digeridas no intestino humano, mas muito importantes para a saúde, também conhecidos como fibras”, ensina.

SAUDÁVEIS

De acordo com a nutricionista lsabela Bovarot os carboidratos complexos possuem absorção mais lenta no organismo, promovendo a sensação de saciedade, enquanto que os simples são mais facilmente absorvidos, o que pode gerar uma sensação maior de fome durante o dia. “Pensando sempre na saúde em primeiro lugar, as melhores opções são os alimentos fontes de carboidratos complexos, pois eles não liberam picos de açúcar no sangue, garantindo disposição e sensação de saciedade por muito mais tempo do que a ingestão de um carboidrato simples. Porém, tudo depende da situação, principalmente se for necessário gerar energia mais rapidamente”, afirma

A nutricionista lsabella Pinheiro esclarece que o tipo de carboidrato importa muito para a manutenção da saúde, e o ideal é que sejam consumidos carboidratos de alimentos in natura como frutas, vegetais e cereais. “Este último grupo contempla os carboidratos complexos, que trazem uma grande quantidade de fibra para a alimentação, prevenindo doenças e reduzindo picos de insulina que podem aumentara fome”, diz.

Segundo a especialista, os melhores carboidratos para uma boa saúde são encontrados na aveia (contém betaglucana que ajuda na saúde intestinal e prevenção de doenças crônicas), chia (fonte de ômega 3 vegetal), linhaça, feijão e lentilha (rica em fibras e vitamina B12), pão integral e fruta.

QUANTIDADE IDEAL

A quantidade de carboidrato absorvida varia diariamente de um indivíduo para o outro, por conta das diferenças de metabolismo e nível de atividade. De acordo com a nutricionista Isabella Pinheiro, para um adulto saudável, sem complicações na saúde, estima-se uma média de 200g a 300g de carboidratos por dia. “Isso pode variar muito de acordo com a rotina e exercícios que cada pessoa faz no seu cotidiano”, afirma.

Para pessoas enfermas e acamadas, a especialista destaca que os cálculos mudam e os carboidratos são distribuídos de acordo com as necessidades específicas de cada situação. Além disso, em algumas situações pode ser necessário limitar a ingestão. “O consumo deve ser reduzido na presença de doenças crônicas, como a resistência à insulina, diabetes tipo 2 ou pressão alta, se a causa for correlacionada com outra doença crônica, epilepsia e casos específicos de mutações e doenças que exijam protocolos que reduzem a ingestão de carboidratos”, diz lsabella Pinheiro.

MELHORA O DESEMPENHO FÍSICO

Os carboidratos ocupam lugar de destaque antes da prática de um esporte, visto que sua principal função é fornecer energia, favorecendo esforços prolongados ou intensos de curta duração. O consumo ineficiente pode prejudicar o treino, especialmente devido à fadiga e indisposição.

“O carboidrato é a fonte de energia mais fácil de ser usada pelo organismo no momento do exercício. Assim, quando o estoque de glicogênio (forma de armazenamento do carboidrato no músculo) é baixa, o organismo passa a usar a glicose disponível no sangue, melhorando a quebra de gordura após o exercício”, explica a nutricionista Isabella Pinheiro.

Outro fator importante está relacionado à perda de massa muscular ocasionada pela falta do nutriente. “Sem carboidrato, a proteína não consegue entrar no músculo, fazendo com que ele não se recupere dos treinos – ou seja, é usado como fonte de energia se houver baixo consumo de carboidratos na dieta”, diz.

“Perdemos o músculo e, com isso, a gordura continua armazenada. Os rins e fígado ficam sobrecarregados porque, com a falta de carboidrato, comemos mais proteína. Assim, os órgãos ficam sobrecarregados por trabalharem mais que o normal. Além disso, o consumo exagerado de proteína aumenta o consumo de gorduras, que pode elevar o colesterol e o risco de doenças cardiovasculares”, complementa a nutricionista Isabela Bovaroti.

EQUILÍBRIO É FUNDAMENTAL

São muitos os prejuízos da retirada do carboidrato da alimentação. Portanto, eliminá-lo completamente da dieta traz diversos riscos à saúde, como osteoporose, osteopenia e cetose (processo tóxico para o organismo que acontece ao quebrar gordura em excesso para obtenção de energia). “Sentir dores de cabeça, fadiga, sono excessivo, ter lesões no exercício e fraqueza são os sintoma s iniciais da falta de ingestão de carboidratos”, destaca a nutricionista Isabella Pinheiro.

Dentre outros males, a exclusão dos carboidratos da dieta pode levar a situações desagradáveis, como mau hálito, dor de cabeça, tremor, tontura e desmaio. O consumo adequado está relacionado à melhora do humor e qualidade do sono. Pequenas porções à noite podem ajudar a dormir melhor, porque a serotonina e a melatonina (hormônio fundamental para o sono) são estimuladas com a ingestão desse nutriente”, acrescenta a nutricionista Isabela Bovaroti.

Já o consumo de carboidratos, principalmente os refinados, leva a um quadro de aumento de triglicerídeos, que pode sobrecarregar a produção de insulina e causar o diabetes tipo 2. “Os picos de insulina também desregulam os hormônios de fome e saciedade, causando mais fome e fazendo com que surjam casos de compulsão alimentar e mais agravos à saúde a longo prazo”, completa a nutricionista Isabella Pinheiro.

OUTROS OLHARES

HARMONIZAÇÃO MUDA FOCO PARA NATURALIDADE, MAS HÁ DESAFIOS

Profissionais veem individualização dos procedimentos como positiva, porém, alertam para padronização

A imagem de celebridade deformada por cirurgias plásticas ou com feições exageradas, quase caricaturais, com bochechas saltadas e queixo muito proeminente, vem perdendo espaço. Nos consultórios de dermatologia e clínicas de estética, a busca pela harmonização facial tem sido atrelada a pedidos de naturalidade e “leveza facial”, o que vem se refletindo nas redes sociais de artistas e influenciadores.

O procedimento é feito em uma sessão e seu preço pode superar R$ 30 mil.

Os resultados mais “perfeitos”, entretanto, podem induzir a uma padronização da beleza, provocando a sensação de que os adeptos aos métodos estão, de fato, mais bonitos – mas com traços tão semelhantes que parecem frutos de uma linha de montagem.

A associação do desejo de naturalidade com a busca por alcançar padrões de beleza torna a padronização um desafio a ser enfrentado, segundo especialistas. Para conseguir a leveza facial, o procedimento deve, dizem, realçar os traços naturais do paciente – algo que depende das escolhas, técnicas e habilidade do profissional responsável.

A individualização dos procedimentos, porém, é tendência crescente na área estética. Edileia Bagatin, 67, livre docente do departamento de dermatologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e coordenadora do departamento de cosmiatria da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia), diz que a palavra “harmonização”, por si só, já é problemática.

“O termo harmonização facial não é usado por médicos, criaram esse nome como diferencial para o que já existe”, pontua Bagatin.

A professora afirma que ainda existem, mesmo entre cirurgiões e dermatologistas, profissionais que exageram nos procedimentos, principalmente nos que envolvem toxina botulínica, que pode paralisar demais o rosto, ou bioestimuladores, causando volume excessivo nas bochechas e no queixo. Isso, porém, tem mudado.

“Mais natural é uma tendência, mas varia de profissional para profissional. Muitos, felizmente, estão optando por não mudar drasticamente a fisionomia das pessoas e por usar um tratamento mais individualizado, avaliar muito bem o formato da pele, o quanto existe de flacidez”, diz a dermatologista.

Bagatin afirma que o paciente deve sempre consultar um especialista antes de qualquer procedimento, por mais simples que pareça. Embora a pessoa possa considerar ideal algo que esteja na moda, a pele pode precisar de outro tipo de intervenção.

“Às vezes o paciente vem querendo toxina botulínica e o médico percebe que para ele seria melhor começar por um preenchimento ou mesmo um procedimento a laser”, exemplifica a docente.

O cirurgião-dentista Fábio Rafael, 30, sentia-se incomodado com o formato do rosto desde a adolescência. Por isso, em 2020, fez preenchimento full face (rosto inteiro, em português) e, apesar da mudança significativa, tentou manter uma identidade.

“Não me achava bonito e sempre quis mudar. O full face realmente me transformou, realçando pontos positivos que eu já tinha em meu rosto”, diz Rafael.

A recuperação, segundo ele, foi tranquila, sem hematomas ou dor, apenas inchaço. “Já tinha feito preenchimento, mas nada nessa dimensão. Amei o resultado, me achei o homem mais lindo do mundo. Superou todas as minhas expectativas e elevou demais a minha autoestima, meu amor-próprio”, relata.

Paciente modelo da cirurgiã-dentista Nayane de Souza Pacheco, 36, Rafael conheceu o trabalho da profissional pelo Instagram. Pacheco é referência em harmonização facial masculina e atende pacientes de todo o mundo, especialmente americanos.

Em sua rotina, a dentista diz que a naturalidade é um pedido cada vez mais comum.

“As técnicas são avaliadas e reavaliadas diariamente, com o avanço tecnológico temos conseguido aprimorar, trazendo resultados cada vez mais naturais”, afirma.

Pacheco defende que o papel do profissional é alinhar a expectativa do paciente com a realidade, pois há casos em que a mudança será quase imperceptível e, outros, em que correções de pequenas assimetrias podem gerar grandes alterações.

Adepta do ácido hialurônico, ela diz que a ferramenta é biocompatível por ser uma substância já produzida pelo corpo, além de proporcionar inúmeras possibilidades de transformação com o mínimo de risco.

“O cliente pode vir na sua hora de almoço realizar o procedimento e depois já retomar suas atividades laborais. E a qualquer momento você pode extrair o produto caso o efeito não tenha agradado”, acrescenta.

O tratamento é contraindicado para gestantes, lactantes, pessoas com doenças autoimunes não controladas ou com histórico de reações alérgicas graves.

A SBD enfatiza que, em caso de intervenções estéticas invasivas, o procedimento deve ser feito apenas por cirurgiões plásticos e dermatologistas. A instituição também recomenda não se orientar por imagens de redes sociais ou fazer escolhas com base em preço, como promoções e pacotes de tratamento.

“Busque a referência do profissional. A face tem uma anatomia muito complexa, muito vascularizada, muito enervada, há necessidade de conhecimento profundo do rosto, da sua fisiologia. Sem conhecer, o risco é muito elevado”, aponta Bagatin.

A professora recomenda buscar no site da instituição e do CRM (Conselho Regional de Medicina) o registro médico e de especialidade do profissional, pois desta forma é possível ter mais segurança na intervenção.

“Temos visto complicações, muitas graves, que prejudicam as pessoas para o resto de suas vidas”, afirma a dermatologista.

GESTÃO E CARREIRA

‘TIKTOKIZAÇÃO’ NO TRABALHO: O QUE OS PROFISSIONAIS PODEM OU NÃO FAZER NAS REDES

Especialistas tentam compreender o novo fenômeno para orientar como trabalhadores devem se comportar

O que uma psicóloga e uma analista de comunicação têm em comum? Ambas usam o TikTok – um dos aplicativos de mídia social mais populares do mundo – para divulgar a rotina de trabalho e dar dicas da profissão que exercem por meio de vídeos interativos. Elas acompanham a tendência de transformar o cotidiano em conteúdos de entretenimento, compartilhando seu dia a dia.

Segundo especialistas, o engajamento nas redes sociais pode ampliar o acesso a oportunidades e aproximar recrutadores de empresas, principalmente de áreas artísticas. Mas é preciso estar atento à forma e ao conteúdo compartilhado.

Entender o que pode e o que não pode publicar nas redes sociais é mais difícil do que parece. De acordo com a psicóloga Rafaela Abreu, coach de carreira e headhunter (recrutador), a escolha do que é publicável depende de três fatores: o propósito da pessoa, a área em que atua e qual perfil de empresa deseja atrair (para quem está em busca de emprego). “Quando têm muitos assuntos destoantes, a empresa pode olhar e não gostar do vídeo”, alerta a especialista.

Aqueles que divulgam a rotina de trabalho nas redes devem ter cautela ao utilizar o nome da empresa. ”Porque vai representar a instituição”, diz Rafaela. Em alguns casos, o funcionário pode ser responsabilizado profissionalmente.

“Por exemplo, se falar algo ofensivo, a empresa pode justificar demissão por causa da conduta do colaborador”, afirma ela. Para evitar advertências e até afastamento, o ideal é verificar com o jurídico da empresa.

CONSULTA

Foi esse estalo que a analista de comunicação Julia Rantechieri teve quando decidiu abrir uma conta no TikTok em abril deste ano. ”Perguntei se a empresa tinha interesse em fazer vídeos (sobre rotina de trabalho). E aí eles disseram que não tinham nenhum planejamento, mas que era uma ideia legal. Então, acabei fazendo por mim”, conta ela, cujo vídeo foi assistido por mais de 200 mil pessoas.

O conteúdo começa com a mensagem “hoje vou levar vocês para trabalhar comigo”, segue com a narração da jovem a caminho do trabalho, no carro, em espaços de convivência e recortes do cotidiano na empresa em que a analista trabalha.

“A pandemia trouxe interesse por coisas normais. Hoje, pegar um ônibus é um entretenimento para as pessoas que estão há quase três anos dentro de casa “, resume Julia, que planejou produzir algo espontâneo para gerar identificação com usuários do TikTok. “Pensei: ‘A primeira vez que entrei no escritório, o que mais me impressionou?”, relembra.

Na hora de colocar o conteúdo no ar, a prioridade da profissional foi descobrir como poderia envolver o público. “Eu tive mais o cuidado do que vai chamar atenção”, diz. A maioria dos comentários do post da analista é de pessoas solicitando dicas para melhorar o currículo e outras interessadas em ingressar na startup. ”Sonho! Que tipos de cursos preciso fazer para poder trabalhar nessa empresa?” escreveu um internauta.

O TikTok já acumula mais de 11 milhões de visualizações na #trabalhecomigo, hashtag em que Julia aparece entre as mais assistidas nos resultados de pesquisa.  Disputar alguns segundos com milhares de publicações é um desafio. ”Por isso, passar algo natural na mensagem é importantíssimo”, avalia a Rafaela.

APLICATIVO MAIS BAIXADO

Embora o TikTok tenha sido o aplicativo mais baixado do mundo no primeiro trimestre de 2022, conforme dados da Sensor Tower, lideranças e empresas ainda não estão alinhadas com os recursos da plataforma.

“As corporações estão um pouco devagar, tentando entender. porque é algo relativamente novo”, afirma Rafaela. Por outro lado, o engajamento nas redes pode ser um diferencial para alguns profissionais. “Setores artísticos, criativos e de marketing são bem-vistos nesses espaços.”

Algumas áreas, por sua vez, têm Código de Conduta e Ética com tópicos que orientam o profissional na divulgação do trabalho nas redes sociais, a exemplo do Direito. ”Mas nem tudo dá para ser replicado. A gente tenta trabalhar algo adaptado para a realidade do profissional. Isso vale para o advogado, dentista e outros”, comenta Beatriz Xavier, cofundadora e redatora da ConnectLaw, empresa especializada em marketing jurídico.

DRAMATURGIA E HUMOR

A área de psicologia tem o Código de Ética do Profissional Psicólogo, o CRP, que orienta a não anunciar preços de consultas, por exemplo. “Bom senso nessas horas é um excelente norte”, diz a psicóloga Gabriela Fonseca, de 27 anos, que tem 160 mil seguidores na rede. Ela tenta unir dramaturgia e humor para criar conteúdos informativos sobre psicoterapia em seus vídeos.

Em 2017, ela começou a publicar no TikTok por hobby, mas na medida que o alcance aumentou, percebeu que a plataforma poderia ser usada como instrumento de projeção e meio para “democratizar a profissão”.

CUIDADOS NECESSÁRIOS

“Antes não havia muito planejamento. Produzia o que fazia sentido para mim”, diz. Após cinco anos de atuação na plataforma, ela admite que não é fácil fazer escolhas totalmente certas nas produções dos vídeos. “Às vezes, confundo os termos. Por isso, sempre estou me atualizando, mas podem acontecer equívocos.”

No trabalho de filtrar informações, Gabriela conta que até um grupo no WhatsApp, formado por psicólogos, vira mecanismo de ajuda para tirar dúvidas. Ela acrescenta que, antes de publicar qualquer conteúdo, alguns questionamentos são feitos, como: se o material compartilhado pode assustar alguém, o que está sendo promovido a partir daquele vídeo e o que pode ser atraído após a divulgação.

A profissional também evita generalizar transtornos mentais no momento da produção de conteúdos por conta do risco de induzir usuários da plataforma a realizarem autodiagnostico sem acompanhamento médico.

Outro ponto importante, segundo especialistas, é ter atenção ao criticar outra pessoa nas redes sociais. Ofender, acusar ou citar um indivíduo publicamente, atribuindo a ele um fato específico, pode configurar o crime de difamação, o que renderia um processo judicial e causaria elevados prejuízos, além da dor de cabeça.

EU ACHO …

TALENTO E GÊNERO

Não se trata de criar cotas. Devemos quebrar o sistema de cotas já existente.

Quando eu era adolescente, ouvi um professor fazer uma afirmação: “Quem mais cozinha no mundo são mulheres; os grandes chefs são quase todos homens. Quem mais costura, idem; os maiores estilistas são homens. O mesmo pode ser dito de todos os campos”. As frases continham muito preconceito, porém, há tantos anos, eu não tinha como responder.

Se eu pegar os livros de história da arte ou frequentar museus, eu concordarei com meu interlocutor misógino. O que eu não percebia naquela época é que museus e livros sofrem curadoria. As escolhas não são livres. A lista do que deve ser exposto ou publicado é marcada pela subjetividade. Eu desconhecia a produção social da memória. Hoje, compreendo que as avenidas das grandes cidades apresentam um número enorme de homens brancos que podem traduzir a ideia, falsa, de que a sociedade repousa sobre os ombros masculinos com pouca melanina. Na verdade, outros homens brancos procuraram pessoas similares a eles e deram os nomes a logradouros.

É assim também na arte. Por que me ensinaram tanto sobre Rodin, nos cursos de arte, mas quase nada sobre Camile Claudel? Por que meus cursos, muitos, sobre barroco, esmiuçaram cada detalhe de Velásquez, Caravaggio, Rembrandt e nenhum de Artemisia Gentileschi? Na música, quantos ouviram Amy Beach, Ethel Smith ou Barbara Strozzi? Até minha amiga Olga Kopylova gravar, eu nunca tinha ouvido falar de Cécile Chaminade. Hoje, amo ouvir a música da compositora.

Eu não falo de um pensamento politicamente correto. Não invoco uma bandeira feminista. Não tenho lugar de fala para tais projetos. Falo de um processo de silenciamento indireto. Ninguém jamais nos dirá: “Vamos evitar falar de talentos femininos”. Isso é agressivo e desagradável. Pois é isto que estamos fazendo: insistindo em povoar, com homens brancos, o céu dos gênios.

Houve uma luta que pareceu menor a alguns. Era a existência de bonecas negras. Uma criança que apenas dispusesse de bonecas loiras e de olhos azuis tomaria aquilo como padrão de beleza único e necessário. Hoje, temos bonecas de muitas identidades étnicas. Isso é bom.

Poderia dizer, de alguma forma, que é um combate a uma certa política de cotas. Como assim? Quando eu olho nas vitrines das lojas de um país como o Brasil uma imensa coleção de bonecas caucasianas, criei cotas absolutas e excludentes. Existe o mesmo na arte: há cotas para homens brancos.

O filme Antonia (2018, Maria Peters) conta a história de Antonia Brico. No período entre a Grande Guerra e a Segunda, ela lutou para ser uma regente reconhecida. Apesar de estudar mais do que os outros alunos, apesar de ter que apresentar um desempenho acima da média, ela era excluída por… ser mulher. Com certeza, em 1925, deveria haver mais meninas do que rapazes estudando piano. Porém, na hora de profissionalizar alguém como pianista ou regente, o sistema se afunilava.

Para cada Magdalena Tagliaferro ou Guiomar Novaes que brilharam com força nos palcos, há milhares de outras mulheres que foram barradas. Sim, podemos nos encantar com a potência sonora de Martha Argerich hoje, mas eu me pego refletindo sobre tantas outras que desistiram devido à nossa política invisível e eficaz de cotas masculinas.

No campo das maestrinas, a política é ainda mais eficaz do que nos instrumentos individuais. Regência implica liderança e protagonismo: isso é sempre mais árduo para uma mulher no nosso mundo. Cite os dez maiores regentes na sua memória. Você descobrirá que eles possuem alguma coisa em comum: o gênero masculino.

Há alguma solução? Eu diria que podemos insistir em mostrar a meninos e meninas casos de sucesso em todos os campos. Não se trata de criar cotas. Devemos quebrar o sistema de cotas já existente.

Não se ataca Portinari ou Di Cavalcanti, apenas mostramos Tarsila, Anita Malfatti também. Há beleza enorme em Monet, Renoir e, juntamente, nos quadros de Mary Cassat e Berthe Morisot. Se uma criança tivesse visto, desde cedo, os quadros de Laura Muntz Lyall, visto suas obras em museus e na escola; se tivesse sido exposta a ela, teria visto com mais simpatia o talento feminino? “Você, minha filha, pode ser o que desejar” é uma frase educativa.

As escolhas falam muito dos que estão com poder para fazê-las. Há 36 doutores na Igreja Católica; apenas quatro são mulheres. Quer dizer que a sabedoria divina flui mais com a testosterona? Não, isso indica que os eleitores são papas, bispos e cardeais homens, formados por teólogos homens e leitores de livros escritos por… homens. Confundir a verdade objetiva com a subjetividade do eleitor é um dos mecanismos preconceituosos ou machistas.

Para quebrar a vigente política oficial de cotas, pais, mães, educadores e educadoras necessitam de ações efetivas. Não é produzir uma consciência feminista: trata-se de quebrar uma falsa consciência do masculino que passa pela soleira da porta dos lares. Precisamos tirar o véu dos olhos das crianças. Tenho esperança!

LEANDRO KARNAL – É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras e autor de ‘A Coragem da Esperança’, entre outros

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NEM TÃO PERFEITO ASSIM

 A ‘obrigação’ de não errar se soma à ideia de rejeitar o que poderia ter sido feito melhor. Psicólogos apontam como não se cobrar em demasia

O que vem à mente quando você pensa em um perfeccionista? Você pode lembrar de figuras exemplares como aquele aluno disciplinado nota 10, um profissional metódico e pontual de alto desempenho ou alguém que mantém todos os cantos da casa incrivelmente limpos. Embora muitas vezes seja incluído como uma característica positiva da personalidade (especialmente em entrevistas de emprego), o perfeccionismo pode manifestar sua faceta nociva.

Quando seus padrões são elevados e a autocrítica é feroz, a vida se torna cansativa, os projetos não saem do papel e a insatisfação é recorrente, minando a autoestima. Ansiedade, depressão e outros problemas da saúde mental podem decorrer dessa espiral de descontentamento.

A analista Jéssica Neves Rodrigues, de 33 anos, reconheceu há pouco tempo que o perfeccionismo atrapalha a sua vida. Quando escreve um bilhete à mão, por exemplo, costuma refazê-lo até que aprove a sua caligrafia. “Eu me cobro muito”, admite. “Tenho dificuldade em delegar funções porque sempre acho que faço melhor.” “Comecei a enxergar meu perfeccionismo como um defeito, não como uma qualidade, quando senti ansiedade diante das tarefas que eu adiava e não terminava. Isso me dava uma sensação de impotência que baixava a minha autoestima”, conta ela que, com o apoio de uma psicóloga, aprendeu a se cobrar menos.

Na psicologia, é mais comum encontrar pesquisas sobre os impactos negativos do perfeccionismo, mas há estudos que distinguem o perfeccionismo “adaptativo” – com efeitos positivos na vida da pessoa que sai da zona de conforto para buscar a evolução – e o “mal adaptativo”, que leva a pessoa a focar no erro, já que considera que não deveria errar, explica a neuropsicóloga clínica Priscila Covre. No seu consultório, ela recebe muitos pacientes que têm padrões de comportamento perfeccionistas, mas que não se percebem assim – nem fazem a correlação entre essa característica e os impactos negativos em suas vidas. “O perfeccionismo pode atrapalhar a vida quando a pessoa estabelece metas e padrões altos, pouco realistas e inflexíveis. Ela pode perder um tempo grande tentando alcançar esse padrão, sem coragem de dar um passo para trás, e ficar isolada”, diz a psicóloga.

Outro padrão nocivo entre os perfeccionistas é focar nos erros e só aceitar a “nota 10”, sem reconhecer pequenos avanços. “Quando conseguem algo, eles desvalorizam. Se não conseguem, fazem uma autocrítica pesada. Ou, então, nem começam a fazer por medo de errar, o que faz deles procrastinadores.”

MERITOCRACIA

Priscila percebe que o perfeccionismo tem se tornado um comportamento mais comum. “Isso porque os padrões culturais reforçam a meritocracia do valor próprio, que constrói uma autoestima baseada em desempenho: para eu merecer ser amado e ter valor como ser humano, eu preciso me esforçar, conquistar.”

Uma pesquisa da American Psychological Association identificou o aumento do perfeccionismo entre estudantes universitários, causado por altas expectativas e críticas de seus pais, com possíveis impactos na saúde mental desses jovens. No estudo, realizado com universitários em Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, foi identificado um aumento de 40% de percepção dos jovens em relação à expectativa dos pais entre 1989 e 2021.

“Se a criança tiver um perfeccionismo desadaptativo, a sensação de nunca satisfazer os padrões almejados internamente, somada à expectativa dos pais, pode comprometer a saúde psicológica com estresse, ansiedade e depressão”, afirma a psicóloga Ana Karla Silva Soares, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

SÍNDROME DO IMPOSTOR

Ana Karla coordena o Núcleo de Pesquisa em Psicometria e Psicologia Social (NPPS), em que o perfeccionismo é um dos temas mais estudados. Nas pesquisas do núcleo, os resultados demonstraram que o perfeccionismo está associado a outras variáveis psicológicas, como a autoestima, a procrastinação e a síndrome do impostor – sentimento de que é uma fraude e que o sucesso não se deve a nossa habilidade, mas sim a fatores externos, como sorte.

Apesar de ter conquistado diversos títulos acadêmicos, a sensação de ser boa o suficiente não chegou para a historiadora Mariana Sarkis Olson, de 33 anos. “Tenho dificuldade em comemorar as minhas conquistas”, afirma. Desde que estava no ensino fundamental, ela tem vergonha de não entregar algo perfeito, o que lhe traz ansiedade, frustração e insegurança.

“Vivi em constante sensação de estar paralisada, pois a meta sempre foi tão alta que eu torno a execução sofrida ou impossível. Daí vem a senhora procrastinação para me assombrar”, observa. Por conta disso, Mariana parou de escrever poesia, não deu continuidade às aulas de pintura e se esqueceu do quanto amava fazer teatro. Ela acredita que o perfeccionismo tenha raízes na sua infância. “Eu ouvia que tirar nota 10 não era mais do que minha obrigação e que, se não fosse para fazer direito, era melhor nem fazer.”

Mas Mariana procurou ajuda: ela se esforça para evitar os impactos negativos do perfeccionismo na sua vida com ajuda da psicoterapia há três anos. “Estou aprendendo a reconhecer os gatilhos, as vozes internas que me travam. Preciso me comparar menos e agir mais”, admite ela, que passou a “quebrar em pedacinhos” seus projetos e realizá-los aos poucos.

COBRANÇAS

Ela aprendeu a técnica com a designer de moda Lígia Baleeiro, de 38 anos, criadora do Jogo da Execução. Ligia organiza grupos de pessoas que se sentem travadas pelo perfeccionismo e propõe missões simples com prazo curto de entrega, como estratégia para que elas enfrentem o desconforto de não fazer a tarefa de forma perfeita. “Ao final das missões, elas retomam a confiança de executar seus projetos.”

Lígia afirma que sempre se cobrou excessivamente e não conseguia começar ou sustentar os seus projetos – mas não percebia que era perfeccionista. Quando saiu da faculdade de moda, ela abriu um brechó online com amigas que não vingou. “Eu ficava refazendo o trabalho das pessoas e achava que nunca estava bom.”

Na busca por entendimento de suas dificuldades, ela leu livros como Coragem de Ser Imperfeito, de Brené Brown, que lhe trouxe a luz. “Você não entrega as coisas por medo de dar errado e vai perdendo a confiança e seu brilho. Eu cheguei a me ver incapaz, sem forças para dar a volta por cima. É um padrão de pensamento que não sou só eu que tenho, pois vivemos em uma sociedade que fala das conquistas, mas não do processo”, conta. Lígia resolveu cursar uma especialização em comportamento humano e neurociência e passou a se dedicar profissionalmente a ajudar aqueles que se sentem “travados” pelo perfeccionismo.

Em um movimento semelhante ao de Lígia, o designer gráfico Tiago Henriques, de 33 anos, notou que tinha dificuldade de colocar em prática as suas ideias. “Notei que não tirava os projetos do papel por medo de que a ideia que estava perfeita na cabeça não ficasse tão legal assim. Era um mecanismo de proteção para não passar vergonha se desse errado”, conta. “Era difícil oferecer um jantar para os amigos, pois eu ficava pensando que a casa precisaria estar limpinha e a comida boa.” Em passos de formiga, ele resolveu enfrentar o perfeccionismo. “Comecei com um canal de humor, em que eu era anônimo. Com o tempo, ganhei coragem para fazer vídeos mais longos e a publicar conteúdo mais autoral”, diz. Hoje ele mantém o projeto Tira do Papel, que ajuda pessoas a engrenar projetos no seu ritmo, com mais de 250 mil seguidores no Instagram e 17 mil assinantes no YouTube. Também escreveu o livro Erra uma Vez – Uma Jornada Visual Sobre as Nossas Inseguranças Criativas e a Busca Utópica pela Perfeição, que traz dicas de como lidar com obstáculos criativos.

NO MERCADO DE TRABALHO

No mercado de trabalho, os perfeccionistas integram positivamente as equipes, contanto que entendam e valorizem a diversidade e sejam empáticos, ressalta Lucas Toledo, diretor executivo do PageGroup, empresa de recrutamento e seleção. “Se for uma pessoa organizada, que gosta de fazer tudo bem-feito, que gosta de seguir normas e procedimentos, vamos avaliar se ela tem flexibilidade para experimentar métodos novos, o que tem tudo a ver com inovação.” Nos esportes, o perfeccionismo também pode ser benéfico, na visão da psicóloga Leticia Capuruço, especialista em Psicologia do Esporte. “O esporte atrai e forma perfeccionistas. É uma característica que, se usada de forma positiva nos atletas, faz com que eles se esforcem e melhorem seu desempenho.”

EXCELÊNCIA

Perfeccionista assumido, o dentista André Rached Darcie, de 31 anos, vê muitas vantagens em buscar a excelência no esporte, na profissão, nos cuidados com a aparência e com a casa. “Sei que o perfeito não existe, mas acho válido ir nessa direção. É verdade que tudo isso cansa, mas é o preço que se paga para ter o prazer de ver tudo bem-feito”, admite.

Desde criança, André é meticuloso, por influência dos pais. “Meus cadernos sempre estavam com uma linda caligrafia, sem rasuras”, recorda-se ele, que mantém a casa limpa e organizada, com atenção aos detalhes que incluem a ordem das almofadas e o posicionamento das cadeiras. Se der tempo, ele até vira os rótulos dos produtos para frente na geladeira.

A mulher de André reconhece que é bom ter um marido ordeiro, mas acha que o perfeccionismo faz dele uma pessoa que cobra muito dos outros e de si próprio. “Ele é crítico e rígido comigo, com os pais dele, com a equipe do trabalho. Quando algo dá errado no trabalho e não é culpa dele, ele fica mal”, conta a publicitária Paula Rossi, de 33 anos, casada com André há três. Preocupada com o bem-estar do marido, Paula sugeriu que ele procurasse um psicólogo. “Ele começou há pouco tempo e já está melhorando”, garante. No entendimento da psicóloga Ana Karla Soares, não há problema em ser perfeccionista, mas em sofrer por conta disso. “Se você sente que o seu cotidiano é afetado de forma negativa por sua vontade de fazer tudo com perfeição, faça uma reflexão e tente modificar o padrão de comportamento. Se não conseguir, busque ajuda profissional”, orienta.

VOCÊ É PERFECCIONISTA?

Caso se identifique com um ou mais pontos abaixo, seja mais flexível consigo mesmo e valorize pequenas conquistas.

METAS IRREAIS

Você nunca está satisfeito com suas conquistas. Como seu padrão é muito elevado, você não se contenta com pequenos avanços.

INFLEXÍVEL

Se não for para fazer do seu jeito, você não aceita.

EXCESSO DE AUTOCRÍTICA

Você tem um carrasco interno que está sempre focado nos seus erros e imperfeições. Sua autocrítica é impiedosa.

DIFICULDADE EM DELEGAR

Você tem dificuldade de delegar tarefas, pois só gosta do seu jeito de fazer as coisas.

PROCRASTINAÇÃO

Você só encara suas tarefas na última hora, com a pressão do prazo. Você não consegue tirar projetos do papel, já que está sempre pensando nos mínimos detalhes.

ANSIEDADE

Você tem ficado desanimado por conta de uma ou mais situações citadas.

TPOC: QUANDO O PERFECCIONISMO É UM TRANSTORNO

Quem leva o perfeccionismo ao extremo pode ter Transtorno de Personalidade Obsessiva-compulsiva (TPOC). A pessoa com TPOC tem uma necessidade de controle grande e por isso leva uma vida caracterizada pela rigidez, explica a neuropsicóloga Priscila Covre. “O tratamento acaba sendo difícil porque ela acha que a forma como ela vê o mundo está certa e o resto está errado”, diz.

O TPOC é diferente do Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), que tem como base a ansiedade. “O que está por trás do TOC não é o desejo de controle. A pessoa que tem TOC tem ações compulsivas relacionadas à simetria, ordem, limpeza, por exemplo, para aliviar essa ansiedade”, explica. A forte ansiedade é disparada por obsessões, que são pensamentos ou imagens que aparecem para a pessoa com TOC sem que ela queira.

Apesar das diferenças entre TPOC e TOC, há pessoas que apresentam os dois transtornos. Além disso, é importante saber que quem tem TOC pode ter uma tendência controladora, por isso pode apresentar traços perfeccionistas. Caso apresente sintomas que estejam prejudicando a sua vida, procure um profissional da saúde mental, que irá ajudar no diagnóstico.

OUTROS OLHARES

TAXA DE SUICÍDIO ENTRE JOVENS AUMENTA EM 5 ANOS E PREOCUPA SAÚDE

Dados são do Sistema de informação sobre Mortalidade; tendência no brasil está na contramão do cenário global

O número de suicídios de jovens cresceu no Brasil nos últimos anos. De 2016 para 2021, a taxa de mortalidade por cem mil relacionada a essa causa aumentou 45% na faixa de 10 a 14 anos (de 0,92 para 1,33) e 49,3% nade 15 a 19 anos (de 4,40 para 6,56).

No mesmo período, a taxa na população geral variou 17,8% (de 5,6 para 6,6).

Os dados são do Sistema de Informação sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, que ressalta ainda que as informações do ano passado são preliminares.

Para a pasta, a situação no país mostra-se preocupante, mesmo tom expressado por especialistas. O ministério afirma que estimativas indicam tendência de aumento de suicídio de adolescentes no país nos últimos 20 anos, na contramão das estimativas globais.

Os dados referentes a jovens põem o país na 96ª posição em um ranking de 204 países e territórios, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde). Quando considerada a população como um todo, o país ocupa a 155ª posição, bem abaixo da média mundial.

“Se o crescimento de casos está assim [acentuado], significa que a base do ‘iceberg’ também está maior, o que ilustra que a saúde mental dos jovens está muito ruim. Não é um fenômeno isolado”, afirma o psiquiatra Rodrigo Bressan, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Coordenador de uma pesquisa em escolas em São Paulo e Porto Alegre para avaliar a saúde mental dos estudantes, ele considera que as autoridades de saúde e de educação devem tomar algumas ações para deter o crescimento de casos de suicídio.

“A primeira coisa é melhorar o acesso aos serviços de saúde mental, que podem ajudar a tratar depressão, ansiedade, autolesão, cuidado individual, alguns dos fatores que podem se relacionar ao ato final. A outra é falar sobre, melhorar a comunicação, pois o preconceito é o maior empecilho para tratar saúde mental.”

Ainda de acordo com o levantamento do ministério, o aumento de casos foi mais expressivo entre adolescentes do gênero feminino do que do masculino – embora nos números gerais, a taxa continue maior entre eles do que entre elas.

Enquanto entre os meninos de 10 a 19 anos a taxa passou de 3,8 para 5,1 (34% a mais) nesse período, entre as meninas cresceu de 1,6 para 2,9 (77% a mais).

“Os jovens estão adoecendo porque muitas vezes se sentem solitários, vivem uma cultura do medo, junto a uma cultura nas redes sociais de busca por um ideal”, afirma Julieta Jerusalinsky, psicanalista do Instituto Travessias da Infância e professora da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo.

“Quando há algo numericamente tão significativo [como as taxas de suicídio], precisamos interrogar o que isso nos diz como um sintoma coletivo”, acrescenta ela.

Bressan afirma que, por ser algo considerado evitável do ponto de vista de saúde pública, a melhora nos índices de mortalidade por suicídio precisa passar, principalmente, por campanhas de conscientização e de prevenção.

“A prevenção não é no sentido de estigmatizar ou dizer que os familiares ‘não viram os sinais’, mas de falar sobre para, aos primeiros indicativos, reconhecer e ajudar. Isso ajuda a reduzir os números”, afirma ele.

Nos Estudos Unidos, onde o suicídio é a segunda principal causa de mortalidade em jovens de 10 a 19 anos, o governo vem trabalhando para diminuir esses índices. No último dia 11, a Força-Tarefa para Serviços Preventivos publicou uma resolução demonstrando benefício em fazer inquéritos escolares para identificar depressão e risco de suicídio em adolescentes de 12 a 18 anos, mas sem benefício evidente para crianças com menos de 11 anos. O inquérito é feito por meio de um questionário direcionado a alunos e professores para avaliação da saúde mental.

O psiquiatra, no entanto, vê esse tipo de inquérito como controverso, pois além de ter muitas questões para as quais os jovens podem não responder de maneira verdadeira (gerando falsos positivos), pode também inflar artificialmente os números. Ele ressalta, porém, que ajuda na identificação de jovens depressivos. A mesma visão é compartilhada por Jerusalinsky, que diz acreditar que a saúde mental não é algo a ser tratado individualmente, pois está inserida no esteio coletivo. “Quando os jovens dizem que não entendemos o que é ter passado pela pandemia como adolescentes de fato não sabemos. Precisamos ouvi-los mais, dar-lhes voz e ajudá-los também a passar por essa mudança, para que eles possam sair da solidão.”

De acordo com o boletim do Ministério, os casos de suicídio em jovens na pandemia apresentaram aumento, mas não de forma linear. No primeiro trimestre de 2020 houve uma estabilização das taxas em relação a 2019, com uma pequena redução no último trimestre de 2020, tendência que se refletiu em outros países durante o primeiro ano da pandemia.

Já em 2021, esses índices passaram a subir, embora os números do último ano ainda sejam preliminares. Apesar de não ter sido observado no país aumento de casos de suicídio entre jovens no início da pandemia de Covid, o ministério afirma que é preciso manter o monitoramento do cenário, uma vez que o impacto da crise sanitária na saúde mental dos jovens tende a ser visto a longo prazo.

Na comparação entre as unidades federativas, os três estados que apresentam as maiores taxas de mortalidade em adolescentes por suicídio são Roraima (12,75 por cem mil), Mato Grosso do Sul (10,71) e Amazonas (7,57).

Segundo Bressan, as altas taxas de suicídio nas regiões Norte e Centro-Oeste podem ser explicadas pela incidência elevada desses casos nas populações indígenas.

“São populações que vivem próximas a centros urbanos, podendo apresentar choques culturais”, explica o pesquisador, que cita o alcoolismo como um dos fatores que podem estar por trás da alta taxa de suicídio em jovens indígenas.

GESTÃO E CARREIRA

INTELIGÊCIA EMOCIONAL

Como utilizá-la na busca para o sucesso profissional

Segundo a lista da Ibovespa, no Brasil a média anual de remuneração de um CEO é de cerca de R$11,28 milhões/ ano, valor que representa até 75 vezes mais que a remuneração de um colaborador.

Essa diferença unida a uma cultura de startup, onde a maioria dos líderes estão abaixo dos 40 anos, faz surgir um fenômeno entre profissionais que buscam o sucesso imediato, sem levar em consideração o desenvolvimento de um ponto fundamental quando o assunto é carreira: a inteligência emocional.

Um levantamento da PageGroup mostrou que a inteligência emocional é apontada como uma das habilidades mais valorizadas por 33,8% dos líderes de grandes empresas na América Latina, porém ainda pouco desenvolvida por muitos. “Negócios são feitos por pessoas e pessoas são movidas por emoções. Se a pessoa não tem contato com suas próprias emoções, como ela espera lidar com os outros? Ou mesmo com si próprio?

Saber reconhecer as próprias emoções é um processo essencial para que o profissional saiba administrar as fatalidades, os imprevistos e as questões do dia a dia de uma empresa. Sem isso, a pessoa tende a ter uma carreira mais limitada e até mais infeliz, uma vez que ela não conseguirá ter uma visão mais abrangente”, explica a coach, palestrante e diretora da Febracis Paraná, Daniella Kirsten, Ela aponta as dificuldades inclusive no processo de seleção dos candidatos, uma vez que muitos estão capa- citados, porém, a falta de inteligência emocional faz com que tenham um comportamento imaturo no momento das entrevistas, ou mesmo durante o trabalho. “A cultura do sucesso a todo custo apaga a importância do processo, do aprendizado, do crescimento pessoal e profissional.

Entender o que se quer é muito importante, mas nem todo mundo é um gênio da tecnologia, a maioria das pessoas vai encontrar o sucesso no dia a dia do trabalho e, às vezes, nas tarefas que não são as mais prazerosas está um aprendizado enorme. Se a pessoa não tem inteligência emocional para perceber isso, ela vai perder oportunidades em prol de um sonho inatingível.

Para Daniella um profissional emocionalmente inteligente tem características que o levam para o sucesso, como:

  • Reconhecer as próprias emoções e os limites dos outros.
  • Enxerga todos como seres humanos.
  • Tem motivação interna e sabe que os fatores externos não podem ser determinantes para o sucesso.
  • Busca sempre ter uma visão positiva e otimista.
  • Tem controle emocional e sabe quando e como se expressar.
  • Sabe dar e ouvir feedbacks.
  • Usa as críticas de forma construtiva em prol do seu desenvolvimento.
  • Consegue manter a calma em situações de pressão.
  • Reconhece a importância de cada um no processo e evita a competitividade tóxica.
  • Entende o seu papel na empresa.
  • Sabe identificar pontos fracos, conflitos e melhorias.
  • Enxerga desafios e oportunidades em vez de problemas.
  • Tem empatia e respeita a opinião e os sentimentos alheios.

EU ACHO …

SEXO, O SIMPLES E O COMPLEXO

Você pode achar que estou sendo reacionário, mas não estou, inclusive porque vivi também essa época e tenho certa noção (não toda, claro) do que estou dizendo: não dá para separar Darwin e Woodstock, o grande festival de rock que durou três dias, realizado numa fazenda americana em agosto de 1969.

A imagem mais forte do rock’n’roll é a selvageria; portanto, a pura natureza. O rock, o grito primal, a simplicidade primordial. O consumo de substâncias que nos fazem sair da racionalidade, a maconha, o LSD. O comportamento livre, a nudez, o se abraçar, o se juntar, o “paz e amor”, o sexo. Isso sem falar no ar livre, na natureza, na lama – o local primordial, aquele em que rolamos nos primórdios da espécie. Em Woodstock, o astro foi Jimmy Hendrix, que morreu jovem e ajudou a cultuar a imagem da Supernova, de estrela que brilha muito e desaparece rápido, da vida bela e da vida breve.

Woodstock é uma representação fortíssima da nossa descida da árvore do paraíso direto para a lama.

Woodstock ficou no passado associado a algo que está longe de ser um modelo, mas muito disso não se deveu a Woodstock, e sim a um grande show ao ar livre dos Rolling Stones, em dezembro de 1969, na Califórnia, no qual um jovem foi morto. Esse evento associou shows de rock à violência, embora isso não mude o fato de que o rock, o bom e velho rock, seja uma expressão darwinista do homem.

Já viu Jerry Lee Lewis tocando piano? É visceral, ele transava com o piano – algo condizente com a própria ideia dele de seguir seus instintos, que inclusive o levou a casar com uma parente de 13 anos e, portanto, ser acusado de pedofilia. E James Brown? Quer coisa mais darwiniana, mais animal, mais simples do que James Brown e sua sex machine?

Cabe perguntar: O que somos nós no nosso nível mais fundo, mais reptiliano, além de máquinas de sexo?

Como disse antes, lembrando de Henry Kissinger, imaturos gostam de sexo, maduros gostam de poder. O poder é sexual e, como o sexo, é uma energia de dominação – não só de dominar mas de constranger o outro, de violá-lo, violar o corpo, a mente, às vezes no sentido de violência mesmo.

Em última instância, a palavra certa é profanação – profanar a natureza, os relacionamentos sociais, as relações pessoais, a dignidade do outro. As pulsões freudianas, seja a erótica ou a de morte, são poderosas.

A natureza humana padece da ausência de simplicidade. À primeira vista não parece, mas as palavras “evolução” e “simplicidade” têm relação. Como se viu, “evoluir” vem de vol, que significa rolar ou dobrar. A origem da palavra “simples” tem a ver com o radical indo-europeu plek, ou plex, que também significa “dobra”. E sim, em latim, quer dizer único. Assim, uma coisa simples é aquela que tem uma só dobra, da mesma forma que dúplex tem duas, tríplex tem três e uma coisa complexa tem muitas dobras. A complexidade incomoda a humanidade. O homem tem dificuldade de explicar – isto é, dobrar para fora – coisas complexas.

A vida é complexa. E, quando tentamos explicar o complexo, não conseguimos viver o simples.

Essa é uma das razões por que o mundo masculino – que, na nossa cultura é mais básico, menos sofisticado, mais primal, mais simples – se irrita com a tendência de algumas mulheres de quererem explicar, de quererem “discutir a relação”. E as mulheres se irritam com os homens que viram para o lado e dormem depois do sexo. Muitas mulheres podem encarar como desprezo, mas muitos homens não enxergam dessa maneira.

Como dizia Guimarães Rosa, “o animal satisfeito dorme”. Assim, depois que o homem pratica uma de suas simplicidades naturais – o sexo –, nada mais natural que ele proceda a uma segunda simplicidade natural, o cochilo. Mas as mulheres gostariam que, ao praticar sexo, o homem ignorasse o mundo da natureza,

mergulhasse no mundo cultural e atribuísse uma aura mística a algo que é essencialmente simples, e não complexo.

Essa característica atrapalha ainda mais a busca da felicidade, inclusive porque muita gente não compreende que felicidade não é um estado ou uma condição de permanência – algo que só poderia ser obtido no Nirvana ou em qualquer outro lugar onde a paixão inexista. A felicidade é uma ocorrência eventual, um instante, um episódio – e é exatamente pelo seu caráter passageiro que ela deve ser valorizada. Assim, a felicidade pode existir por causa de um desejo de algo ou alguém, mas também pela ausência de algo ou alguém. Desse modo, a felicidade pode estar em episódios breves como um gole numa taça de vinho, ou em um gole na cerveja ou em um suco.

Mas, se você faz essas mesmas coisas de forma continuada, logo o sabor e o prazer vão embora, pois é preciso haver a ausência, a carência para valorizar a percepção do presente. É como naquelas frases clássicas: “a abstinência prolongada é o melhor afrodisíaco” ou, para usar uma imagem mais gastronômica, “a fome é o melhor tempero”. Fazer compras quando se está com fome é pedir para gastar mais, assim como ir ao supermercado depois do almoço é medida de economia.

O cheiro de um perfume pode ser delicioso num primeiro momento e enjoativo quinze minutos depois. Da mesma forma, a valorização da luz vem do escuro, e a valorização do escuro vem do excesso de claridade – algo que fica evidente no filme Insônia, no qual Al Pacino é um detetive que vai para o Alasca naquele período do ano em que o sol nunca se põe por lá, irradiando uma luz contínua e desesperadora.

A felicidade, assim como o erótico, precisa de latência, para repousar e renascer.

ESTAR BEM

DORMIR É MAIS IMPORTANTE PARA A SAÚDE DO CORAÇÃO QUE EXERCÍCIO

Segundo estudo, sono ruim está ligado a fatores de risco clínico e psicológico

Pesquisadores da Universidade de Saúde Pública de Columbia, nos Estados Unidos, comprovou que uma boa noite de sono é essencial para manter o coração saudável. A American Heart Association adicionou a duração do sono à sua lista de verificação de saúde cardiovascular, chamada de Life’s Essential 8 (Os oito essenciais da vida, em tradução livre).

São eles: parar de fumar, comer melhor, permanecer ativo, controlar o peso, administrar a pressão arterial, manejar o colesterol, reduzir o açúcar no sangue e, mais recentemente, ter um sono saudável.

Os cientistas analisaram o sono de dois mil adultos de 50 anos ou mais. Os participantes responderam uma pesquisa detalhada sobre seus hábitos noturnos e usaram um dispositivo para medir o sono por sete dias.

De acordo com os resultados, os maus hábitos noturnos são “onipresentes” entre todos os americanos. Cerca de 65% dos participantes dormiam menos de sete horas por noite e 30% dormiam menos de seis horas.

Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças americano (CDC), a duração do sono recomendada para a saúde de um adulto é entre sete e nove horas por noite.

A pesquisa apontou ainda que as pessoas que dormiam menos de sete horas por noite tinham maior chance de ter uma “baixa eficiência do sono”, padrões irregulares, sonolência diurna excessiva e apneia do sono – sendo que quase metade dos participantes do estudo apresentaram apneia de moderada a grave. Mais de um terço relatou sintomas de insônia e 14% relataram sonolência diurna excessiva.

Esse grupo ainda teve maior prevalência de fatores de rico para doenças cardiovasculares, como obesidade, diabetes tipo 2 e pressão alta.

“O sono ruim também está ligado a outros comportamentos de saúde ruins. Em poucas palavras, o sono está relacionado a fatores de risco clínicos ou psicológicos e relacionados ao estilo de vida para doenças cardíacas. Portanto, não é surpresa que o sono ruim aumente o risco futuro de doenças cardíacas”, afirmou Nour Makarem, autor do estudo e professor assistente de epidemiologia na Universidade de Columbia

A equipe espera realizar outros estudos que ajudem a fornecer evidências adicionais de uma conexão entre uma saúde saudável e o bom sono.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DIVÃ ELEITORAL

Brigas políticas viram assunto de consultórios e desafiam psicólogos

Nesta semana, no consultório do psiquiatra Arthur Guerra, em São Paulo, um dos pacientes incomodou-se com uma revista de colecionador que jazia em uma das mesas do especialista. O motivo da irritação era o número estampado em sua capa: 13. Não se tratava, vale dizer, de apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e sim da numeração do exemplar.

“Ele me disse para tomar cuidado porque poderiam achar que eu estaria apoiando um dos candidatos e virou a revista. Em outro caso, um paciente incomodou-se com um parente que vestia verde e amarelo (sem conotação política)”, afirma Guerra, autor do recém-lançado livro “Você aguenta ser feliz?” (Editora Sextante). “Estão todos extremados, dos dois lados, com muita propensão às fake news, sem distinção. É um cenário preocupante.”

Não só no consultório de Guerra que os pacientes relataram viver sob um cenário beligerante. Psicólogos e psiquiatras ouvidos relatam que, ao longo das eleições presidenciais, sobretudo diante do segundo turno entre Lula (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL), a política tornou-se um assunto recorrente e incontornável nas sessões e consultas.

A psiquiatra e psicanalista Erica Vasques Trench, mestre em saúde coletiva pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), destaca que conflitos causados pelas eleições aparecem como “pano de fundo” nos relatos de pacientes: estão em reclamações sobre brigas familiares, medo da violência e solidão. No início da semana, uma de suas pacientes, uma profissional de saúde negra, expôs a mágoa que sentia da mãe, única pessoa branca da família, que pretende votar em Bolsonaro. A filha teme o aumento da violência racial caso o atual presidente seja reeleito.

MAIS VULNERÁVEIS

A avaliação da psicanalista Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, é parecida: a violência política dos últimos tempos tende a afetar particularmente a saúde mental de pessoas que já estavam fragilizadas. Segundo ela, faltam-nos “recursos simbólicos” para reagir e apostar no diálogo diante de tanta briga.

“As pessoas descobriram, nas próprias famílias, divergências irreconciliáveis, que tornaram impossível a convivência. Isso traz muita mágoa. A descoberta de que fulano vota em sicrano apareceu como uma grande revelação que, se não fossem as eleições, passaria batida e as pessoas continuariam passando o Natal juntas”, diz.

“Há muita gente lamentando a perda da qualidade ou rompendo relações.

Ver a saúde mental sair do prumo às vésperas de um pleito presidencial não é algo exclusivo de eleitores brasileiros. Uma pesquisa da consultoria norte-americana The Harris Poll a pedido da Associação Americana de Psicologia mostrou que a disputa, em 2020, entre o democrata Joe Biden e o republicano Donald Trump, era uma fonte de estresse para 68% dos adultos no país. A fatia é maior do que a observada no pleito anterior: em 2016, essa taxa era de 52%.

O descompasso estendeu-se para os lençóis de casais em busca de intimidade. A psiquiatra Carmita Abdo, professora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) da Faculdade de Medicina da USP, diz que há muitas críticas de quem sentiu-se abandonado pelo parceiro recentemente.

“Há casos em que uma das partes do casal é demasiadamente envolvida com política, e a outra não. Um dos lados, por exemplo, queixa-se da distância. Nesses casos, quem vem ao consultório é o abandonado, não o politizado. A pessoa fica sem saber como chamar atenção, se sente escanteada”, afirma a psiquiatra.

Em alguns casos, por outro lado, há um aumento intenso da atividade sexual justamente como uma válvula de escape. Nesse sentido, o sexo ganha os contornos de uma “recompensa” para o bem-estar. Mas trata-se de uma minoria, diz a médica.

Renata Cox, especialista em carreira, afirma que as incertezas a respeito da política econômica do próximo governo têm incentivado várias pessoas a se reinventarem profissionalmente. Mas com cautela. Nada de chutar o balde. Cox nota, em pacientes, o desejo de tomar as rédeas da própria carreira, tirar da gaveta aquele “plano B”. Tudo para tentar se blindar de eventuais reviravoltas ou abalos econômicos.

“O aumento da inflação e do custo de vida tem motivado as pessoas a se organizar melhor financeiramente e a olhar de forma mais estratégica para suas carreiras. O foco não é “deixa a vida me levar”, mas “como é que está a minha vida profissional?”, “o que quero a curto, médio e longo prazo?”, “o que depende de mim?”, “como eu posso me tornar protagonista da minha carreira já que eu não controlo a economia e a política brasileiras?”, explica a especialista. “As eleições têm chamado as pessoas à responsabilidade, a vestir a própria camisa e não mais a da empresa.

REDES ANTISSOCIAIS

As redes sociais, sempre incendiárias, também causaram conflitos, dizem os especialistas. A psicóloga Pâmela Magalhães teve uma recente surpresa desagradável. Especialista em relacionamentos afetivos, ela decidiu postar nas suas plataformas uma mensagem para conclamar as pessoas a agir com mais calma no período pré-eleitoral, em nome da manutenção dos laços sociais. O resultado foi bem diferente do que ela esperava.

“Coloquei lá uma postagem falando justamente para as pessoas cuidarem de suas relações e não entrarem em briga política, para evitar separações que possam causar arrependimento no futuro. Fui muito atacada, por todos os lados, tive que apagar o post”, lamenta. “As pessoas diziam “como assim? Vou brigar, sim!”.

Embora não haja terapia capaz de resolver os problemas políticos do país, os brasileiros não devem se abster de levar as angústias eleitorais para o divã. Erica Vasques Trench explica que a “análise trata da relação do sujeito com o desejo do outro”. E esse “outro” pode tomar a forma de adversários políticos.

“Como eu me posiciono diante da diferença radical? Como posso lidar com a minha singularidade, o que já não é simples, diante de relações assimétricas, em que o outro não é o que eu gostaria que ele fosse e não me dá o que eu gostaria que ele me desse? Não há um encaixe perfeito, nem da vida cotidiana nem na política, mas alguma gestão disso é possível”, afirma a psicanalista.

Vera Iaconelli concorda que levar a ansiedade política para a terapia pode ser produtivo, pois, para o analista, “todos os caminhos levam ao inconsciente”. Inclusive, ela suspeita que, seja quem for vitorioso na eleição deste domingo, os brasileiros vão continuar falando de política no divã por um bom tempo.

“Voltar a ter relações civilizadas, que são fundamentais para a saúde mental, para termos estofo para lidar com nossas crises internas, vai nos custar muito trabalho. Como vamos reverter a permissão que foi dada para ultrapassar limites que não podem ser ultrapassados na vida em sociedade?”, questiona.

OUTROS OLHARES

TIKTOK E POLÍTICA EMBALAM INTERESSE POR MODA

Pesquisa mostra que assunto é muito importante para 44% dos jovens, que encaram vestuário como autoexpressão

Não é difícil esbarrar por aí naquele papo de que moda e consumo são futilidades, assuntos de patricinha ou conversas fru-fru de menina. Dados recentes, porém, dão conta de que uma parte considerável da juventude brasileira nutre grande interesse pelo assunto e, provavelmente, encara o tema de maneira até politizada, como uma forma poderosa de autoexpressão.

Pesquisa mostra que 44% dos jovens brasileiros entre 15 e 29 anos têm muito interesse por moda e consumo. Deles, 39% são homens e 48% são mulheres.

O estudo, que foi realizado entre os dias 20 e 21 de julho, aponta que 46% dos jovens têm pouco interesse pelos temas e que 10% não têm nenhum.

O levantamento tem margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos, dentro do nível de confiança de 95%. Foram realizadas mil entrevistas com pessoas desta faixa etária, em 12 capitais – São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza, Recife, Porto Alegre, Curitiba, Goiânia, Brasília, Manaus e Belém.

O alto grau de interesse por moda e consumo entre a juventude brasileira estaria atrelado à maneira como esses assuntos ganham destaque nas redes sociais, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.  

Dario Caldas, sociólogo e diretor do Observatório de Sinais, afirma que o TikTok, por exemplo, influencia várias das tendências juvenis atualmente. Nos últimos meses, a rede foi vitrine de modismos que marcaram o ano, como a estética rosa-choque do chamado Barbie core, as chuteiras que viram croppeds sensuais, os adereços infantis do estilo kid core, além da extravagância brilhosa do retorno fashionista dos anos 2000.

Segundo o sociólogo, o boom das redes sociais, que aconteceu na primeira década do século 21, foi um divisor de águas para o setor têxtil.

“Hoje não dá para falar de moda e consumo sem citar as redes sociais”, afirma ele. “A presença das marcas – com toda essa mística de influenciadores digitais -, o setor em si e o imaginário popular foram modificados.”

Se antes tendências de moda ficavam restritas às passarelas da alta-costura ou às revistas de nicho, agora não é difícil ver estilos despertando na internet, com incontáveis blogueiros de moda, vídeos com análises estéticas e fotos de streetwear.

Em redes como TikTok e Instagram, é comum ver publicações do tipo Get Ready With Me, ou arrume-se comigo, em que internautas, sobretudo jovens, mostram o passo a passo na escolha do look para diversas ocasiões.

De olho nessa movimentação, marcas também apostam em postagens do tipo, numa tentativa de se aproximar da linguagem jovem. Como exemplo, o sociólogo menciona as gigantes chinesas Shein e AliExpress.

Mas marcas populares não são as únicas a ocuparem os guarda-roupas dos novinhos. Grifes também têm espaço.

“O luxo contemporâneo é muito mais acessível do que antigamente. Não necessariamente no sentido de compra, mas de imaginário, com certeza”, afirma Caldas.

Não à toa, grifes como Balenciaga, Gucci e Lacoste costumam aparecer em peso em videoclipes de músicos jovens brasileiros, sobretudo os de funk e trap, gêneros que flertam com a ostentação.

Para os estilistas Pedro Batalha e Hisan Silva, fundadores da marca Dendezeiro, as roupas cada vez mais são entendidas como algo que vai muito além dos tecidos.

“Moda é a linguagem. Roupa é só a forma de falar”, afirma Silva. “É uma forma de expressão que sempre existiu, mas, agora, passa a ser monetizado de outra maneira.”

Ainda segundo ele, o setor têxtil vem passando por sucessivas mudanças atreladas a questões de raça e gênero – fatores que sempre pesaram bastante na balança de controvérsias da história fashion. “A moda não é mais só sobre entretenimento, ou só sobre vestir roupa. É algo político. E a juventude está cada vez mais engajada”, diz Silva.

“Antes, não víamos modelos negros ou indígenas, nas passarelas. Havia só um padrão”, acrescenta o estilista Batalha.

A pesquisa mostra ainda que 48% dos jovens autodeclarados pretos se interessam muito por moda. A parcela dos autodeclarados pardos é de 41%, e a de brancos, 43%.

O estudo revela também que 57% dos jovens que têm renda familiar superior a dez salários mínimos se interessam pouco por moda e consumo, enquanto 44% dos que ganham até dois salários têm muito interesse. A margem de erro para os segmentos de raça e de renda é de sete pontos para mais ou menos. Quanto aos 10% de jovens brasileiros que não nutrem nenhum interesse pelo assunto, a socióloga e fundadora do Rio Ethical Fashion, Yamê Reis, diz que o número pode estar relacionado à má fama do setor têxtil – atrelada a problemas da fast fashion, como acusações de manter trabalhadores em condições análogas à escravidão, além de conflitos travados com a bandeira sustentável.

“Há muitos jovens que contestam a moda porque ela é o propulsor do consumo no mundo capitalista”, diz Reis.

O estudo do mostra ainda que 23% dos jovens brasileiros têm muito interesse por celebridades e entretenimento, 49% têm pouco interesse, e 27% não têm nenhum.

GESTÃO E CARREIRA

O PAPEL DOS GESTORES FRENTE AO FENÔMENO DO ‘QUIET QUITTING`

O quiet quitting está se tornando uma expressão popular no mercado de trabalho. Em uma tradução livre para o português, o termo significa “desistência silenciosa” e essa tendência tem apresentado cada vez mais força entre os profissionais.

Apesar do nome sugestivo, isso não significa, efetivamente, dar entrada em um pedido de demissão. Mas sim, mostrar cada vez menos esforço em relação ao próprio trabalho, fazendo apenas o que lhes é solicitado. De acordo com Veridiana Barcelos, Líder de Pessoas e Cultura na abler, startup que tem o propósito de trazer facilidade na gestão dos processos seletivos, a tecnologia ajudou a construir esse movimento.

“Alguns conteúdos sobre o assunto estão começando a se popularizar em redes como o Twitter e o TikTok, que ganhou força com o uso de uma hashtag (#quietquitting), além de profissionais se identificando e compartilhando suas experiências. A ideia realmente é mostrar a insatisfação, falta de reconhecimento e remunerações que não são consideradas justas para o trabalho exercido”, relata.

O conceito de quiet quitting vem acompanhado do aumento da síndrome de burnout no ambiente de trabalho.

“Isso começou principalmente nos Estados Unidos, onde o número de pessoas que se sentem sobrecarregadas e foram afetadas pela doença durante a pandemia cresceu absurdamente”, pontua a psicóloga. Para Veridiana, o crescimento da atuação em home office também foi crucial para esse cenário, fazendo com que a linha entre vida pessoal e profissional fosse reduzida ainda mais.

“O quiet quitting ganhou força por ser uma forma dos profissionais dizerem que as coisas não estão bem, que falta propósito, equilíbrio e, até mesmo, condições humanizadas e dignas para se trabalhar. As em- presas precisam estar atentas a esses movimentos e repensar se realmente estão oferecendo algo além de um salário e um pacote de benefícios. É importante motivar esses colaborado- res a trabalharem diariamente e fazerem, efetivamente, mais do que o mínimo solicitado.

Ao invés de se amedrontar, os gestores devem perceber isso como uma oportunidade de rever ações, cultura e a forma como é conduzida a tratativa com a equipe”, declara. Quando um profissional não está feliz e chega ao ponto de criticar a empresa nas redes sociais, é um claro sinal de que a organização não fez sua parte para que ele tivesse uma boa experiência.

“Quando isso acontece, o primeiro passo é analisar se aquelas reclamações realmente fazem algum sentido e, se sim, é necessário corrigir esses pontos o quanto antes. Isso irá evitar que outros talentos deixem a companhia no futuro e garante uma evolução na comunicação daqueles que permanecem na empresa”, pontua a gestora.

A abertura e liberdade para o diálogo é fundamental para evitar esse tipo de situação. “Se os colaboradores sentem que têm espaço para falar com as lideranças e apontar deficiências no tratamento, na distribuição de atividades ou, até mesmo, em relação à remuneração, pode-se evitar que esse movimento se enraíze na organização.

Com essas informações em mãos, é possível analisar as mudanças que devem ser implementadas para uma melhor experiência dos profissionais naquele ambiente corporativo. Agir de forma preventiva também é uma possibilidade, com a realização de pesquisas de clima para identificar esse tipo de insatisfação”, finaliza a Líder de Pessoas e Cultura.

EU ACHO …

EVOLUÇÃO NEM SEMPRE É PARA MELHOR

O autoconhecimento é um processo necessário e fundamental para a melhoria de si mesmo – um processo interminável, pois tudo o que acontece a nossa volta nos afeta e nos transforma. Mas, quando pensam em autoconhecimento, geralmente as pessoas cometem um equívoco, pois associam autoconhecimento à evolução – e encaram evolução, necessariamente, como aperfeiçoamento.

Não é assim. Nem toda evolução significa uma mudança para melhor. Na cabeça da maioria das pessoas, a palavra evolução também está associada ao Darwinismo. Mas o fato é que Darwin tinha vergonha de usar o termo evolução. Em seu diário, ele prefere usar a palavra transformação, e só usava evolução no sentido de mudança. Ele fala apenas que as espécies se transformam – algumas inclusive para pior, pois desapareceram. O câncer evolui, as encrencas, os problemas, os confrontos evoluem, e ninguém pode dizer que isso é uma coisa boa.

O século 20 no Ocidente foi marcado por essa ideia equivocada da evolução como melhoria. Esse equívoco começa a nascer no Renascimento, que introduz o antropocentrismo. Antes disso, no mundo medieval, prevalecia o teocentrismo, que colocava Deus como o centro do Universo. Na Renascença, o humano substitui o divino como figura central. Essa passagem é representada, sobretudo, por duas imagens. Uma é o Homem vitruviano, de Leonardo da Vinci, rascunhado em 1490, o célebre desenho de um homem nu no meio de um círculo. O segundo é a representação da Criação, por mim citada em outro trecho, pintada por Michelangelo no teto da Capela Sistina, a famosa cena do dedo de Deus encontrando o dedo de Adão – uma cena em que não fica claro se é Deus que está criando o Humano para não ficar sozinho no Universo ou se é o Humano que está criando Deus para não ficar sozinho no Universo.

Mais do que uma antroposofia, o que a Renascença propõe é uma antropolatria, ou uma adoração do Humano, num movimento que culminará, no século 18, no Iluminismo e, no 19, no Historicismo e no Positivismo. E é aqui que um dos maiores representantes do Positivismo, o filósofo inglês Herbert Spencer, vai criar a ideia da sobrevivência do mais forte – algo que Darwin nunca comungou, pois sua tese gira em torno da sobrevivência do mais apto, sem que isso esteja vinculado à força.

Pelo ponto de vista de Darwin, quais seres são os grandes vencedores na batalha pela vida? As bactérias, que são os seres com maior poder de adaptação. O paleontólogo americano Stephen Jay Gold provou isso em números. Ele somou a massa de todas as bactérias que estão entre nós e constatou que o resultado é muito maior do que o peso dos mais de 6 bilhões de humanos que habitam a Terra. A antropolatria nos leva a cair numa armadilha que foi decantada por Shakespeare quando escreveu “que grande maravilha é o humano!”.

O nosso romantismo, quando desvairado, nos faz olhar as estrelas e nos embevecer com a ideia de que somos os únicos capazes de admirá-las. Não haveria nada de errado se a questão se resumisse a admirá-las. Mas o ponto é que o Humano se sente proprietário das estrelas, ou mesmo a razão de ser das estrelas – e o Humano não é o centro do Universo nem o proprietário de nada além de suas posses terrenas.

O curioso é que a palavra evolução se vale de um radical usado no grego e no latim – o radical vol (formador de palavras como “envolver” e “vulva”), que mais tarde será utilizado como “rol”, de “rolar”, que dá a ideia de desenvolvimento. Por isso, desenvolvimento, em espanhol, é desarollo. O inglês não chegou até o “rol”. Ficou no “vol”, de envelope, de algo fechado em si mesmo. Assim, desenvolvimento, em inglês, é development – ou seja, algo que se tira do envelope, da redoma, e faz crescer.

Na antiguidade, havia a percepção de que o homem segue um roteiro que já estava escrito antes de ele nascer, como se apenas representasse um papel numa peça de teatro. Mas, na antropolatria, o homem se imagina dominador, proprietário da vida e da existência.

E aqui voltamos ao começo: supor que evolução sempre significa uma melhoria é um equívoco, inclusive de natureza etimológica, uma vez que o radical “vol” indica somente mudança, desenvolvimento – e não aperfeiçoamento.

O “homem moderno” fala em evolução sempre acreditando que todos nós estamos avançando e rumando para um ponto ideal, aquele que o teólogo francês Pierre de Chardin chamou de Ponto Ômega, que seria o ápice da Vida e da Criação. E, quando o homem passa a enxergar a evolução como uma caminhada rumo à perfeição, acaba mergulhando no território da obsessão evolucionista e derrapando no raciocínio equivocado de que, se nós evoluímos, estamos indo todos em direção a um futuro melhor.

A grande encrenca é que isso dificulta a compreensão de muitos problemas, inclusive a questão ecológica.

Se nós acreditamos que a humanidade sempre evoluirá para melhor, a tendência é esquecer a natureza deletéria do homem, esquecer que ele é um animal destrutivo. Assim, até a própria noção de ecologia fica prejudicada, uma vez que as pessoas cultivam uma esperança vã de que a humanidade só vai melhorar e que, portanto, todos os transtornos causados pelo homem – efeito estufa, mudanças climáticas, poluição, o desequilíbrio da vida – são ritos de passagem para um mundo melhor. É como se a humanidade acreditasse que em algum momento da existência haverá uma purificação natural e incontestável do homem.

Bem, no mínimo, isso é uma postura arrogante e, certamente, errada. É preciso ter esperança, mas não tem cabimento não fazer nada para mudar a situação e achar que, por pior que seja, vai melhorar no final.

Essa postura ameaça não só a ecologia mas toda a convivência de maneira geral, pois desliga um item imprescindível à sobrevivência e à civilização, que é o alarme.

De maneira geral, nossas medidas de prevenção existem para nos fazer prestar atenção em um perigo.

Mas há uma enorme diferença entre a pura espera e ter realmente esperança, ir atrás das coisas, fazê-las acontecer. No fundo, de certa maneira, o século 20 atormentou o mundo com a ideia de que tudo dará certo para o homem, uma ideia levada à alma popular pelo escritor Fernando Sabino quando disse que “no fim tudo dá certo; se ainda não deu certo, é porque ainda não chegou no fim”.

Esse otimismo, porém, não muda o fato de que, assim como houve um começo, haverá um fim – não necessariamente da vida em si, mas talvez da nossa espécie, dizimada por catástrofe natural, meteoro, bomba, ignorância, vírus ou coisa parecida

É por tal razão que evolução não necessariamente é melhoria – e nem autoconhecimento. Muita gente acha que se conhece bem e que é a melhor companhia para si mesmo, sem perceber que pode estar sozinho e mal acompanhado.

Isso acontece quando as pessoas se alienam, quando não têm clareza daquilo que fazem, quando produzem aquilo que o escritor Eduardo Giannetti da Fonseca usou como matéria-prima em um ótimo livro, Auto Engano. Autoengano é o escondimento e a dissimulação de si mesmo.

Distraídos, perguntam alguns, alarme? Já soou?

ESTAR BEM

ERROS QUE SABOTAM O EMAGRECIMENTO

Contar calorias e fazer dieta líquida podem atrapalhar os planos de quem deseja emagrecer

Por que as pessoas sentem tanta dificuldade de emagrecer ou desistem no meio do caminho? De acordo com Edivana Poltronieri, especialista em emagrecimento, os erros geralmente são objetivos irreais e alimentação pobre em nutrientes.

Um dos principais erros, segundo Edivana, é investir em tratamentos de curta duração. Ela destaca que ter cautela antes de aderir a métodos milagrosos em curto tempo é uma forma responsável de tentar perder peso de forma efetiva, saudável e duradoura.

Tratamentos de curta duração, como emagrecer em 15 dias ou detox de 21 dias, são ineficazes por não dar o tempo adequado para o organismo fazer uma reprogramação celular baseada na fisiologia “Uma informação que é pouco divulgada é que o nosso organismo precisa de, no mínimo, 90 dias para se adaptar a novos hábitos. Ou seja, o processo de emagrecimento só será saudável se respeitar esse tempo”, explica. A especialista completa que métodos que prometem transformações em pouquíssimo tempo podem aumentar o efeito rebote em até 90%.

CONTAR E CORTAR CALORIAS

É importante saber distinguir comida e alimento. “Muita gente acha que pode comer o que quiser, desde que não ultrapasse a quantidade de calorias por dia”, explica Edivana Poltronieri. ” Mais importante do que calorias, é escolher alimentos com qualidade e variedade, fazendo trocas inteligentes. Se for comer uma pizza, por exemplo, opte por uma mais saudável, como a de atum, abobrinha ou rúcula. Troque o sorvete cremoso pelo picolé de frutas. Legumes, variedade de frutas e verduras, proteínas e gorduras de alta qualidade, tudo isso é fundamental para a perda de peso”, diz.

SUBSTITUIR ALIMENTAÇÃO POR SUCOS DETOX

Traçar uma dieta a base de sucos detox, frutas e vegetais podem ser perigosos. “A pessoa pode emagrecer, mas não terá resultados duradouros e pode ser prejudicial à saúde. Isso porque o nosso corpo já funciona como uma máquina de desintoxicação, que tem uma forma natural de eliminar toxinas e substâncias químicas indesejadas. Então é preciso atenção em dietas líquidas, pois não levará calorias e nutrientes necessários que o organismo precisa”, explica. Nesse caso, a dica é complementar a alimentação com cereais, legumes, proteínas e carboidratos variados. “Isso vai melhorar o funcionamento do organismo e, consequentemente, levar à perda de peso sustentável”, completa.

PERDER PESO MUITO RÁPIDO SEM REPOR VITAMINAS

Emagrecimentos rápidos deixam o corpo em déficit de aminoácidos e vitaminas, comprometendo a massa corporal. “Isso resulta em flacidez e sarcopenia, que é a diminuição da massa muscular”, explica Edivana. Para não cair no erro, a recomendação é fazer acompanhamento profissional com hábitos alimentares ricos em proteínas e suplementos do bem, de acordo com os objetivos traçados.

CORTAR AS GORDURAS BOAS

Muitas dietas demonizam as gorduras, mas Edivana Poltronieri explica que existem diferentes tipos de gorduras e nem todas são vilãs do estilo de vida saudável. “A gordura é tão essencial para a saúde quanto as proteínas e carboidratos e as benéficas estão presentes em manteiga, ovos, coco e abacate. Esse tipo de gordura ajuda a abastecer o corpo com energia. A falta dela pode levar a um desequilíbrio hormonal, ocasionando em um processo lento de emagrecimento”, destaca.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CHECK-UP DA INTIMIDADE

Terapia sexual enfrenta traumas e desacertos que atrapalham casais na cama

No verão de 2017, seis anos após o casamento, Kayti Christian marcou a primeira consulta de terapia sexual. Ela e o marido cresceram em famílias evangélicas, baseadas na crença de que qualquer desejo sexual fora do casamento era pecaminoso. Quando se casaram, esperavam que o sexo fosse intuitivo – até mesmo transcendental. Em vez disso, Christian diz que ela e o marido se sentiram entorpecidos e envergonhados.

Eles oraram, pediram orientação ao pastor, mas nada ajudou. Recentemente, Christian, que tem 32 anos, começou a buscar terapia sexual. Os dois fizeram cinco sessões. O terapeuta indicou exercícios simples, como sustentar o contato visual e expressar os desejos sexuais em voz alta.

“Pode parecer bobo, mas falar sobre sexo sem fazer sexo foi algo revolucionário para a gente”, afirma.

O sexo é algo complicado para quase todo mundo, um tema em constante mudança, influenciado por fatores psicológicos, físicos, culturais e sociais. Muitos indivíduos e casais podem se beneficiar da terapia para entender melhor sua sexualidade. Os terapeutas dizem que seu campo tem sido mal compreendido – visto como um último recurso em relacionamentos condenados, ou uma prática com exercícios embaraçosos. Para pessoas como Christian e o marido, pode levar anos de sofrimento até recorrerem a um profissional. Há evidências crescentes de que o mundo pode estar passando por uma fase difícil, sexualmente falando. Nos últimos dois anos, estudos sugerem que as pessoas estão fazendo menos sexo, com qualidade pior. Uma pesquisado Kinsey Institute de 2020 descobriu que 24% das pessoas casadas nos Estados Unidos estavam tendo relações com menos frequência do que antes da pandemia, e 17% das mulheres relataram uma diminuição na satisfação sexual. No entanto, abordar os problemas sexuais é um desafio. A medicina tem demorado a enxergar o sexo como uma parte importante da saúde. Muitos médicos não recebem treinamento formal em saúde sexual na faculdade, apesar das relações entre sexo e bem-estar.

CAUSAS MÚLTIPLAS

Os terapeutas explicam que muitos problemas podem prejudicar o sexo: traumas, vergonha, imagem corporal, preocupações com identidade de gênero, além de questões de relacionamento mais amplas, que podem afetar a capacidade de alguém se conectar sexualmente.

“Sempre lembro às pessoas que os terapeutas sexuais já ouviram de tudo”, afirma a psiquiatra e terapeuta sexual Elisabeth Gordon.

Terapeutas sexuais atendem tanto pessoas em relacionamentos (seja na companhia de seus parceiros ou não) como solteiros. Segundo Ian Kerner, um terapeuta e Nova York, na maioria das vezes, o que motiva uma ida o consultório é um problema específico. Ele trata regularmente pacientes com desejo sexual baixo ou incompatível, imprevisibilidade erétil e ejaculação precoce, ansiedade sexual, problemas com orgasmo ou pessoas que buscam romper a rotina.

Nos últimos anos, Kerner também viu um aumento nos pacientes que não têm um problema, mas estão à procura de um senso de aventura sexual; querem orientações para abrir a relação; ou ainda que começaram novos relacionamentos e simplesmente querem estabelecer uma vida sexual feliz e satisfatória desde o início.

A terapeuta de casamento e família Rachel Wright ressalta, porém, que esses profissionais não podem tratar quadros de saúde subjacentes que possam contribuir para questões sexuais, como disfunção erétil causada por doença cardíaca ou diabetes.

“O sexo é complexo. Às vezes pode haver um elemento fisiológico, como casos de baixo desejo provocados pelos efeitos colaterais sexuais de um medicamento”, afirma Kerner.

Os terapeutas geralmente começam perguntando aos pacientes sobre suas experiências sexuais passadas, além de seus objetivos. Wright salienta que não há um cronograma padrão.

“Você não precisa se encontrar com o terapeuta toda semana pelo resto da vida. Você pode fazer uma consulta, o profissional recomenda um livro, você lê e fica bem. Ou ele recomenda um livro, você lê e diz: “Ótimo, agora eu tenho cinco perguntas”, brinca.

DEVER DE CASA

As tarefas de casa entre sessões são comuns. Elas podem incluir atividades como massagear o parceiro enquanto se concentra em sensações como temperatura, textura e pressão. Às vezes, os pacientes podem trabalhar até o toque genital ou experimentar outras técnicas e fantasias – todas feitas no ritmo de cada um, explica Gordon. Para Christian e o marido, a lição de casa de terapia sexual, conta ela, “foi light”. Seu terapeuta recomendou que lessem livros sobre a conexão entre desejo e intimidade. Eles davam as mãos ou massageavam um ao outro, descrevendo o básico de como se sentiam.

Embora os terapeutas sexuais lidem com muitas questões, eles dizem que muito de seu trabalho se resume a oferecer validação.

”Muitas pessoas com quem trabalho me encontram na segunda ou terceira tentativa de terapia. Às vezes começam com um profissional que não demonstra conforto ou conhecimento para falar sobre as sexualidades específicas com as quais eu lido, e eles se sentiram julgados”, descreve a terapeuta sexual Elizabeth Harles, que frequentemente trabalha com clientes LGBTQIAP+ e se identifica como queer e poliamorosa.

Uma pesquisa de 2012 com ginecologistas descobriu que apenas 28% perguntam rotineiramente sobre atividade sexual, enquanto só 13% trazem questões sobre prazer no sexo.

“Nem sei dizer quantos pacientes eu tive que me contaram que seu médico recomendou: “Ah, basta relaxar. Tome um copo de vinho, um banho quente. Vai ficar tudo bem”, relata Gordon.

Para muitos, a terapia sexual pode ser a primeira parada na jornada para a cura, e não o último recurso.

Quando procuraram ajuda, Christian e o marido não estavam nervosos ou envergonhados. Simplesmente ouvir que eles não estavam sozinhos ajudou. Para ela, sua vida sexual não atendeu às expectativas irreais que tinha antes de se casar.

“Ter um terapeuta sentado lá conosco dizendo “Sua experiência é normal. Não há nada de errado com você. Você só precisa se comunicar mais sobre isso e praticar” foi um alívio”, conta.

OUTROS OLHARES

SOBRE O DIREITO ANTES DE NASCER

Aumentam em 300% os pedidos de pensão para despesas da gestação

Camille Lins, de 20 anos, descobriu que estava grávida com quase três meses de gestação. A revelação veio acompanhada de inúmeras inquietações, principalmente porque o relacionamento com o pai da criança havia sido breve. Os dois nem se falavam mais. Ele prometeu ajuda financeira, mas só após um exame de DNA que comprovasse a paternidade. Ainda com a criança no ventre, a dona de casa procurou a Defensoria Pública, no bairro de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, e deu entrada no pedido de alimentos gravídicos, um tipo de pensão direcionado à mulher para despesas da gravidez.

Na instituição, os números que envolvem esse benefício cresceram mais de 300% no estado: foram de 448 pedidos, em 2020, para 1.796 no ano passado. A estimativa de dois anos atrás pode ter sido afetada por restrições provocadas pela Covid-19, mas o fato é que o aumento continua: até setembro de 2022 foram abertos 1.847 casos de alimentos gravídicos na Defensoria do Rio. Para a defensora Christiane Serra, a pandemia, por outro lado, afetou em especial a população mais vulnerável, que é o público atendido pelo órgão estadual.

LEI POUCO CONHECIDA

O direito, garantido por lei ainda pouco conhecida, de 2008, busca contribuir para a proteção da mãe e do bebê durante os nove meses de gestação. Na avaliação da advogada Catarina Souto, as redes sociais também teriam parcela de contribuição para esse crescimento.

“As redes ajudaram a difundir informações e direitos que as mulheres ainda não conheciam, inclusive sobre alimentos gravídicos e como solicitá-los”, opina a advogada. A lei prevê auxílio de custo para cobrir alimentação especial, assistência médica e psicológica, exames complementares, internações, parto e medicamentos, entre outros itens. O valor em questão, que considera a parte do pai nos gastos, é definido pelo juiz e devido, em geral, a partir de sua citação no processo. Alguns advogados consideram que a fixação deve ser feita a partir da concepção da criança.

Depois do nascimento, a quantia estabelecida é automaticamente convertida na pensão alimentícia convencional. Não é necessária a requisição de teste de DNA para a solicitação de alimentos gravídicos, mas é imprescindível que a mulher comprove a existência de relação com indícios de paternidade.

“O relacionamento pode ser provado por conversas do WhatsApp, fotos, vídeos ou testemunhas. Se ficar evidente a possibilidade de aquele parceiro ser o pai, a justiça considera os indícios suficientes para fixar os alimentos gravídicos. O objetivo é garantir a segurança e prestar apoio a essa mulher em um momento delicado da sua vida”, esclarece a defensora Christiane Serra.

A ação de alimentos está sob o princípio jurídico de irrepetibilidade: isso quer dizer que não é possível solicitar a devolução dos valores pagos, mesmo se, após o exame, for negada a paternidade. Isso acontece porque o valor é concedido com a intenção de garantir a sobrevivência, logo não há possibilidade de restituição. A defensora explica que a exceção acontece quando fica clara a má-fé da solicitante, o que não é comum.

Joana (nome fictício), de 35 anos, descobriu a gravidez logo após se separar do pai da criança. Quando recebeu a notícia, ele quis retomar o relacionamento – e, depois da negativa da mulher, se recusou a dividir os gastos durante a gestação. Sem aceitar a decisão dela, o ex- companheiro chegou a prendê-la dentro de casa enquanto ela tentava retirar suas coisas.

“Tive que tirar meu filho da escola particular e parar de pagar o plano de saúde para conseguir arcar com os custos da minha gravidez, principalmente porque não tive apoio da minha família. Na época, cheguei a pensar em desistir da gravidez, mas Deus tirou isso da minha cabeça”, desabafa a moradora do bairro de Cosmos, também na Zona Oeste da cidade.

Na Defensoria Pública do Rio, mais de 160 mil atendimentos feitos no ano passado estavam ligados a pedidos de pensão alimentícia. Como nem todos os casos abertos pela instituição se tornam processos jurídicos, buscamos entender quantos deles foram decididos de forma extrajudicial, mas o órgão informou que não dispõe desses dados. A defensora Christiane Serra garante que sempre incentiva um acordo entre os pais para esse tipo de ação.

“Além de mais rápida e efetiva, essa forma de resolver o conflito causa menor desgaste emocional para as partes. Nesses casos, o atendimento da instituição consiste em auxiliá-los na construção de um acordo escrito que tenha validade jurídica.

PROCESSO DEMORADO

O Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro afirma que não são raros os casos em que a ação precisa prosseguir após o nascimento do bebê. Apesar do grande número de pedidos na Defensoria Pública, de setembro de 2021 até o mês passado, o TJRJ sentenciou apenas 91 processos, com pelo menos 28 decisões favoráveis para esse tipo de pensão. De acordo com o órgão, “os processos de alimentos gravídicos, por sua natureza, demandam uma instrução detalhada a fim de não prejudicar nenhuma das partes”. Ainda existem 551 casos pendentes de conhecimento do juiz.

“Procurei a Defensoria Pública com quatro meses de gravidez, mas só consegui iniciar o processo oficialmente três meses depois. Sempre me pediam um documento novo. Até hoje não houve nenhuma audiência”, queixa- se Camille. Seu filho, Kauê, já completou três meses de vida. O Tribunal de Justiça também esclarece que, muitas vezes, o suposto pai se esquiva de receber a citação do processo, o que torna “essa fase mais demorada”. Além disso, cada processo tem uma característica particular e “segue sua tramitação de acordo com os elementos apresentados pelas pessoas envolvidas”.

“Assim que a mulher descobre a gravidez, e o pai se nega a ajudar, é importante que se entre imediatamente com o pedido. Todo processo judicial demora, então o ideal é dar início o mais rápido possível”, explica Catarina Souto. Joana aguarda uma decisão nos processos de pensão para o filho mais velho, de 11 anos, e para o bebê, que já completou 5 meses. Depois de ter se afastado do trabalho às pressas por causa de uma gravidez de risco, e descobrir outros problemas de saúde, ela diz estar desolada:

“Sou sozinha, não tive ninguém do meu lado em momento nenhum. Sou só eu, Deus e meus filhos.”

GESTÃO E CARREIRA

FELICIDADE NO TRABALHO

De quem é a responsabilidade em garanti-la?

Ser feliz em seu ambiente de trabalho nunca foi um tema tão crucial. Isolados em nossas casas, relatos de desânimo, depressão e desgastes cresceram em níveis preocupantes – acendendo um alerta urgente em garantir que a rotina Organizacional seja a mais leve e satisfatória possível. Mesmo diante de inúmeras interferências externas, construir um ambiente harmônico fará toda a diferença para a retenção, produtividade e destaque dos talentos.

Mas, para isso, todos precisam trabalhar em conjunto nessa missão. Atribuir a responsabilidade de criar um local de trabalho feliz para apenas uma das partes é uma tarefa perigosa – afinal, nem sempre essa insatisfação é gerada pelo lado da contratante. De fato, muitas companhias que excedem nas cargas horárias atribuídas a seus profissionais, aplicando cobranças intensas sem o devido reconhecimento, abrem portas para a dispersão de seus times com prejuízos intensos em suas operações.

Mas, não podemos nos esquecer que somos seres emotivos por natureza. Em um dia estressante, por motivos pessoais, um simples olhar diferente dos superiores, ou um e-mail mal compreendido pode ser suficiente para despertar sentimentos negativos e até a busca por outras oportunidades. A linha de separação entre todos esses fatores vem se estreitando cada vez mais, tornando desafiador encontrar soluções que reduzam essas interferências e auxiliem na felicidade dos profissionais em trabalharem para a marca. Em um olhar prático, muitas empresas já compreendem o efeito dominó positivo em se preocupar com a felicidade de seus times. Quando contentes, cada profissional poderá não apenas ter uma melhor performance, como também sempre buscar soluções inovadoras para o crescimento corporativo. Um estudo da Harvard Business Review, comprovadamente, mostrou que organizações com colaboradores satisfeitos são 31% mais produtivos, 85% mais eficientes e 300% mais inovadores – principalmente, quando incorporam tais ações em sua cultura organizacional, transpassando esse reconheci- mento desde o processo seletivo. A felicidade no trabalho precisa ser enxergada e aplicada como uma preocupação genuína, e não como uma mera obrigação. Muito além do que oferecer um salário maior ou benefícios complementares, ela se constrói no relacionamento entre as equipes, na comunicação desenvolvida no dia a dia e em práticas que saem do papel. Após um distanciamento intenso enfrentado durante a pandemia, está mais do que na hora de todos se unirem em prol deste ambiente, construindo experiências satisfatórias que ajudem a dissipar qualquer estresse ou dificuldade que possa surgir.

Levando em consideração a migração de muitas companhias para modelos 100% remotos ou híbridos, organizar momentos de descontração presencial- mente com times é uma medida obrigatória de ser colocada em prática. As facilidades proporcionadas pelo trabalho a distância, por mais benéficas que sejam, não devem excluir estes momentos de união e relacionamento – capazes de fortalecer os laços internos e desenvolver uma comunicação muito mais saudável e próxima entre todos.

Cada profissional deve se tornar o grande protagonista desse processo, tanto por parte dos gestores quanto por si só. Todos temos que compreender quais ambientes, trabalhos e cargos são adequados para nossos perfis e anseios de carreira, analisando todos esses pontos antes de aceitar qualquer oportunidade. Se não soubermos o que nos faz feliz, nenhuma outra pessoa conseguirá responder essa questão por nós. Muito menos, uma organização.

Muitos cargos específicos para a promoção dessa felicidade já foram criados e colocados em prática em diversas companhias. Mas, mesmo diante desta contribuição, o envolvimento coletivo de ambas as partes fará uma diferença muito maior na conquista deste sentimento. Uma ação pautada no autoconheci- mento, como forma de atrair e reter cada vez mais profissionais satisfeitos, deve fazer parte do propósito de todas as empresas.

*** RICARDO HAAG – É sócio da Wide, consultoria boutique de recrutamento e seleção. (https://wide.works/).

EU ACHO …

FABRICAÇÃO DO PASSADO, ANSEIO DE FUTURO E DESESPERO DO CONSUMO

Desde sempre, e mais ainda nestes tempos, nossos grandes medos vêm do escuro. O homem não teme o que vê, mas o que não vê.

Uma das clássicas imagens do medo e do terror está naqueles olhos que podem ser vistos na penumbra sem que se consiga identificar de quem são, se de homem ou animal, se de vampiro ou algo mais assustador.

Há 50 ou 60 anos, nos antigos seminários, conventos e colégios religiosos, havia um quadro, nos dormitórios, nos mictórios, no refeitório. Era um quadro do olho de Deus dentro de um triângulo. Abaixo da imagem, havia esses dizeres: “Deus vê tudo”.

Nas tradições grega, romana e judaica, a visão de Deus ou dos deuses é terrível. Está aí a origem do terror diante de Deus: ser visto sem poder vê-lo. Ser visto sem saber como ele te vê. Não ser visto por você mesmo, mas ser visto só por ele. Como é uma situação sem saída, uma das maneiras que se encontrou de afastar o terror foi pintá-lo, retratá-lo de uma maneira menos agressiva. Surge então a imagem do senhor de barba branca, com jeito severo mas também paternal e amoroso.

O islamismo, por sua vez, é genial na manutenção do terror religioso (terror no seu sentido etimológico, de espanto); não há nem pode haver imagem de Alá, ou de Maomé, seu profeta. Como ele não morreu, pois foi levado aos céus, ele continua te vendo, sob a égide eventual do “ao infiel, a espada”. A propósito, uma das forças do cristianismo também está no fato de que não existe cadáver de Jesus, na crença dos adeptos, pois ele não morreu; foi para os céus. A vitória da vida sobre a morte – que é o segredo do cristianismo – é a vitória da luz sobre a sombra.

O mundo medieval é um mundo de sombras. Mas o mundo que nasce com a Renascença é o mundo da gravura, da pintura, da imprensa, da exposição.

Você quer coisa que exponha mais do que a imprensa? O escritor Guy de Maupassant tem uma frase bem-humorada e maldosa que aponta o alcance dessa invenção: “Ao alfabetizar o vulgo, a tolice se liberta”. Com a popularização de jornais, livros e revistas, as pessoas podem não só ler besteiras mas também escrevê-las e divulgá-las. A imprensa libertou a exposição e a internet a elevou à enésima potência.

Agora eu posso entrar no Google e ver quantas referências existem a meu respeito. Se não as encontro, isso é desesperador. De certa forma, o Orkut, o Facebook e o Twitter diminuem essa angústia – embora a substituam por outra. Nas comunidades virtuais, você cria suas referências e, sobretudo, vê e é visto. Por outro lado, as pessoas passam a se afligir numa competição desesperadora para ver quem consegue mais seguidores.

O anonimato, como antes falei, é o desespero. Para escapar desse subterrâneo, dessa penumbra numa sociedade que incentiva o consumo, o que resta às pessoas que não querem se identificar com o grotesco é tentar se destacar com a propriedade de bens. A capacidade de consumir, portanto, é o que vai dar valor às pessoas. E elas se sentirão mais valorizadas à medida que tiverem O carro, A tv, A roupa. Obviamente, os bens que atribuem valor variam conforme a camada social a cada qual pertence.

As camadas populares buscam coisas que brilham, indicadores de futuro, da luz no final do túnel. Por isso, compram móveis de fórmica ou de latão dourado. Móveis novos com linhas e cores futuristas, como são a maioria das cozinhas pré-moldadas.

Já a burguesia não quer futuro, pois isso já está quase garantido. A burguesia quer passado, que é algo que não tem. Como muitos de nós somos filhos de imigrantes, de gente que deixou seu país natal sem recursos, a atual burguesia das capitais não tem berço, tradição, heráldica – por isso, muitos compram em sites especializados a origem e o brasão da família.

Numa cidade como São Paulo, a classe média vai às feirinhas de antiguidades na praça Benedito Calixto ou no vão do Masp para comprar a cristaleira da vovó, a poltrona dos anos 1930, a luminária da década de 1940 ou a mesa que veio de uma fazenda do século passado – mesa que nunca é reformada, que é comprada para permanecer descascada, algo que nunca se verá nas casas populares. Nessas, móvel descascado é sinal de miséria. Na do burguês, de riqueza, pois o antigo tem valor.

É uma tendência tão forte que até se criou uma indústria de construção do antigo – Embu das Artes, em São Paulo, ou Tiradentes, em Minas Gerais, por exemplo, são polos de artesanato do passado, de fabricação das mais novas antiguidades que se podem adquirir.

Nesses lugares, no fundo, as pessoas vão atrás do conforto e da segurança de ter uma herança, um passado, uma história, uma família. Não deixa de ser outro sinal de desespero, ou infelicidade – nas feiras de antiguidade, é comum ver casais andando de mãos dadas em busca de laços que deem sentido a sua vida, não raro medíocre.

As camadas populares não precisam disso, pois já têm família. Aliás, sem família a vida não existe, pois não há como existir em meio à miséria sem laços. Família não quer dizer apenas pai, mãe, filhos, avós, primos e tios. No caso, é uma família ampliada que engloba vizinhos, a mulher da casa da esquina que empresta o açúcar, o cara da frente, aquele único que tem carro e leva quem precisa ao hospital de madrugada. A burguesia, por sua vez, se dá o direito de nem saber o nome do cara que mora na porta ao lado, pois pensa não ter nenhuma necessidade dele.

De qualquer modo, a família é um ninho de afeto e todos precisamos de afeto. Mas, no caso da burguesia, a família precisa ser construída por laços de história, ou laços de família.

A ideia de família ainda é estranha ao mundo burguês. Karl Marx estava certo ao dizer que o capital destruiu a família. Já a pobreza – que não foi atingida pelo capital a não ser como vítima – é solidária. Os vizinhos cuidam dos filhos da casa ao lado quando os pais estão no trabalho. Se o barraco desmorona, todo mundo que morava lá encontra abrigo na casa de alguém, pois, dizem, “onde comem cinco, comem dez”. A burguesia, por sua vez, não sabe o que fazer nem com os pais idosos. Em vez de abrigá-los em sua moradia, paga para alguém cuidar deles em uma casa de saúde.

A burguesia também quer solidez. Por isso compra móveis pesados, camas de ferro, estátuas de bronze.

O proletariado quer leveza, quase nada escuro – de pesada, já basta a vida –, quer cores. Isso é assim no mundo todo – na África, principalmente na porção Sul da África, por exemplo, as pessoas se vestem com roupas coloridas, vibrantes.

A burguesia cultua o escuro, o tédio. Na Europa, o movimento punk, o movimento dark nascem ligados à ideia de um mundo que não lhes serve, um mundo impregnado de riquezas – mas é a mesma riqueza que os sustenta. O movimento hippie das décadas de 1960 e 1970, do qual fiz parte, carregava a ideia da simplicidade – e a simplicidade era o brilho. Era o Flower power, o poder da flor, da cor; não o da olheira, do rímel, da Amy Winehouse.

Alguns lugares do Brasil ainda guardam o passado belo e simples, como Penedo ou Visconde de Mauá, onde moram o que eu chamo de “viúvas do John Lennon”, e onde há a maior concentração de óculos redondos do país. Assim como há os ninhos do pesado, do escuro, da balada gótica.

O gótico é o terror presente na vida – nos tempos medievais, as catedrais góticas eram propositalmente gigantescas, altíssimas, para que o homem se sentisse pequeno e diminuído diante de Deus. Como tendência, o gótico é sucedido pelo rococó do Barroco, pelo exagero do detalhe como diferencial (o punk, o gótico, o dark não deixam de ser o rococó revisitado, com seus cintos e braceletes com tachinhas, seus alfinetes, sua maquiagem escura e exagerada).

E o Barroco e seus rococós são substituídos, na Europa, pelo Romantismo, um movimento que é iluminado, que não tem nada de escuro – na música, por exemplo, surge Mozart, que consegue fazer uma missa de réquiem absolutamente esplendorosa.

Não é casual que a última obra de Beethoven seja uma ode à alegria. Ainda bem; é a luz de novo.

ESTAR BEM

DISTÚRBIOS RESPIRATÓRIOS FAZEM DO SONHO UM PESADELO

Desvio nó septo, rinites mal tratadas ou hipertrofia das amigdalas e adenoides afetam a qualidade do sono

A respiração e o sono estão intrinsecamente ligados. Por isso, muitas vezes aquelas noites agitadas e mal dormidas podem estar relacionadas a problemas respiratórios do sono, podendo trazer graves consequências que afetam diretamente a qualidade de vida de quem vive rolando na cama na hora de dormir, como estresse, indisposição física para realizar tarefas comuns do dia a dia e irritabilidade.

O importante é despertar desse pesadelo e procurar ajuda de um especialista no assunto para voltar a sonhar e viver bem. Segundo Adriano Guimarães Reis, otorrinolaringologista do Hiorp de Rio Preto, é preciso estar atento aos sintomas, agendar uma consulta e fazer um tratamento adequado para resolver ou minimizar esses problemas.

“Distúrbios respiratórios como desvio no septo, rinites mal tratadas ou hipertofia das amígdalas e adenoides afetam muito a qualidade de vida do paciente, com alterações profundas na respiração durante o sono, impedindo que a pessoa durma bem, despenando diversas vezes. As noites mal dormidas podem interferir até mesmo na diminuição da produtividade no trabalho e alterações no humor na vida pessoal. Para isso, existem modernos tratamentos medicamentosos e até, em alguns casos, cirurgias”, alerta.

APNEIA CENTRAL DO SONO

Causada por insuficiência cardíaca ou alguma doença ou lesão associada ao cérebro, como Acidente Vascular Cerebral (AVC), tumor cerebral, infecção viral no cérebro ou doença respiratória crônica. Em alguns casos, as vias respiratórias superiores estão abertas, mas o ar não chega aos pulmões devido à falta de comunicação entre o cérebro e o corpo.

SÍNDROME DA RESISTÊNCIA DAS VIAS AÉREAS SUPERIORES

Ocorre quando há um repetitivo ou contínuo aumento na resistência ao fluxo aéreo dentro das vias aéreas superiores, levando a despertares múltiplos breves e excessiva sonolência diurna. Com isso, a pessoa já acorda cansada no dia seguinte.

RONCO

Acontece quando a pessoa dorme e está com a musculatura da boca, do nariz e da garganta relaxadas. Suas principais causas são a flacidez nos músculos destas áreas, desvio de septo, pólipos no nariz, rinite, sinusite e obstruções nasais, além do envelhecimento. É péssimo para quem sofre deste problema e também para quem dorme junto.

APNEIA MISTA DO SONO

Tipo menos comum, o paciente apresenta obstrução das vias respiratórias superiores (apneia obstrutiva) e, simultaneamente, não há esforço respiratório (apneia central).

 APNEIA OBSTRUTIVA DO SONO

Tipo mais comum e corresponde a mais de 80% dos casos. Na maioria das vezes, o ar não chega aos pulmões por causa de alguma obstrução nas vias respiratórias superiores.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTUDO DIZ QUE COMEÇAR A AULA MAIS TARDE PODE AJUDAR OS ADOLESCENTES

Pesquisa feita no Brasil aponta impactos positivos para o humor em atrasar o início das atividades pela manhã; especialistas destacam importância da qualidade do sono

Atrasar em uma hora o início das aulas para adolescentes ajudou a melhorar o desempenho acadêmico e teve impacto no humor dos estudantes, segundo estudo feito no Brasil e publicado na revista científica Sleep Health. Especialistas destacam a importância, especialmente nessa fase, da qualidade do sono para a memória e absorção dos conhecimentos aprendidos em aula.

Para os adolescentes, a Associação Brasileira do Sono e a Associação Brasileira de Medicina do Sono recomendam dormir pelo menos oito horas por noite. Nessa fase, o ciclo circadiano sofre grandes alterações, o que faz com que o indivíduo precise de mais tempo para reparação. Segundo Dalva Poyares, médica especialista em medicina do sono e doutora em Neurociência pela Universidade de São Paulo (USP), nem sempre adianta só ir se deitar mais cedo. “O aluno já deita ansioso pela manhã seguinte, sabe que vai acordar bem cedo pra aprender coisas difíceis, o que já causa um estresse”, diz.

É nessa fase também o único momento da vida do ser humano no qual se tem menos circulação da dopamina, o hormônio responsável pela saciedade, pelo prazer e pelo contentamento, no chamado sistema de “recompensa”. A “deficiência” pode deixar os jovens com sentimentos mais negativos, e um bom sono pode ajudar nisso. No estudo Multiple positive outcomes of a later school starting time for adolescents, realizado em uma escola particular de Palotina, no Paraná, os pesquisadores analisaram, durante três semanas, a rotina de 48 alunos do ensino médio. Na primeira semana, o início das aulas foi mantido no horário normal, às 7h30. Na seguinte, passou para as 8h30 e na terceira, voltou para 7h30.

“Surpreendeu que eles não foram dormir mais tarde, mas sim acordaram mais tarde”, afirma Felipe Beijamini, professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e do programa de pós-graduação em biociências da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), e um dos autores do estudo. O tempo de sono foi medido por um método chamado actigrafia. Durante as três semanas, os alunos usaram um actígrafo, aparelho em formato de relógio que mede o sono por movimento, temperatura e exposição à luz.

Os participantes da pesquisa também responderam a questionários sobre o perfil emocional. As respostas indicaram alterações de humor, com relatos de menos cansaço, raiva, tensão, confusão e depressão. Eles também disseram estar com mais energia. Com a volta ao horário normal na terceira semana, os benefícios não foram mais descritos.

ENGAJAMENTO

Nos Estados Unidos, a Academia Americana de Pediatras recomenda que as aulas nas escolas não comecem antes das 8h ou 8h30. No Brasil, já existem instituições que resolveram atrasar um pouco o relógio, como o Colégio Castanheiras, em São Paulo. A diretora Sônia Magalhães explica que a mudança, em 2019, foi muito positiva. “Trouxe mais engajamento dos alunos, mais atenção”, afirma ela, sobre passar o começo das aulas de 7h15 para 7h50. Ian de Mello, de 15 anos, estudante da escola, conta que se sente mais confortável com o novo horário. “Preciso de tempo depois que acordo, para preparar a cabeça para o dia. A mudança ajuda bastante.”

Desde a criação, o Colégio Lumiar, também em São Paulo, adotou o horário de 8h30 para início das aulas do ensino médio. “Pensamos que a manhã tem de ser um momento mais tranquilo, o adolescente precisa acordar bem, se alimentar com calma”, conta Graziela Lopes, diretora da escola. João Pedro, de 16 anos, e Luísa França, de 15, do 1.º médio, apontam benefícios nesse esquema. “Eu fico mais descansado, durmo melhor, sinto que minha mente está pronta para absorver os assuntos, com mais foco”, diz João. “Antes eu ficava com sono o dia inteiro. Hoje presto atenção, faço tudo que precisa na escola e ainda chego em casa com energia para coisas extras”, afirma Luísa.

Adriana Fóz, especialista em Psicopedagogia e Neuropsicologia pela USP, afirma que, sem o sono mínimo, “não se consegue absorver (conteúdo), logo, tem mais estresse, ansiedade, diminuição do desempenho escolar, além de baixar a autoestima, porque ele vai achar que está mais lento, que não consegue aprender”.

Para quem começa cedo, ela sugere aos colégio realizar atividades mais recreativas nas primeiras horas. “Aula com movimento, engajamento.”

OUTROS OLHARES

CARRINHO MAIS VAZIO

Quantidade de produtos deixados na boca do caixa salta 63% em um ano

Apesar da deflação nos últimos meses, o alívio não chegou aos alimentos, e ir ao supermercado está quase 10% mais caro do que no início do ano. A perda do poder de compra fica evidente nos carrinhos, cada vez mais vazios. A quantidade de produtos deixados pelos consumidores na boca do caixa saltou 63,32% no terceiro trimestre de 2022, em relação ao mesmo período do ano passado.

De acordo com pesquisa realizada pela Nextop, foram mais de 285 mil itens abandonados de julho a setembro deste ano, ante pouco mais de 174 mil no mesmo período de 2021. As desistências acontecem principalmente quando os clientes passam os produtos no caixa e, na hora de fechar a compra, percebem que não têm como pagar pelo total de itens escolhidos.

Como orçamento apertado, a saída encontrada pelas famílias é enxugar as compras e tirar da cesta os itens mais caros, sejam eles supérfluos ou essenciais. Cerveja, leite, bebida láctea, açúcar, óleo, café e arroz são alguns dos itens que mais foram devolvidos pelos consumidores.

“O consumidor está deixando de levar, porque não tem condições. E a inflação tem a ver com isso”, diz Juliano Camargo, CEO da Nextop, empresa que atua há 25 anos com soluções de tecnologia de segurança de varejo e prevenção de perdas.

O levantamento foi realizado em 982 supermercados de pequeno e médio portes, que tiveram faturamento de R$ 2,5 bilhões no terceiro trimestre.

A alta dos alimentos e a redução do poder de compra estão por trás do abandono dos produtos. O grupo alimentação e bebidas teve inflação de 9,54% no acumulado do ano até setembro, e comer em casa ficou 13,3% mais caro nos últimos 12 meses, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE.

AUMENTOS FREQUENTES

Os preços dos alimentos e das bebidas recuaram 0,5% em setembro pela primeira vez em quase um ano, mas encher o carrinho no supermercado continua desafiador para as famílias, sobretudo as mais pobres. O leite longa vida, visto como um dos vilões para a inflação dos alimentos nos últimos meses, chegou a ter queda de 13% em setembro pelo fator sazonal. Mas ainda acumula alta de 37% em 12 meses.

O produto foi um dos itens que a administradora Brunna Belmonte, de 31 anos, deixou de comprar recentemente, quando se deparou com o valor de R$ 10 o litro. Morando com a mãe, Alcione Santos, de 75 anos, na Zona Sul do Rio, ela conta que já enxugou a lista de compras e, mesmo assim, acaba deixando para trás alguns itens na hora de pagar.

“Quando chega ao caixa, a gente vê que a conta não fecha. Nós abandonamos o que é supérfluo para comprar os itens do dia a dia”, comenta Brunna, que prioriza frutas e legumes e carnes de segunda.

Luis Otávio Leal, economista-chefe do banco Alfa, avalia que o aumento dos itens deixados no caixa reflete o descompasso entre a velocidade de variação dos preços e do aumento da renda real (descontada a inflação), que tem subido nos últimos meses:

“Fazia tempo que não víamos uma alta de preços nessa velocidade, por isso surpreende. A pessoa não vai preparada para gastar aquele dinheiro todo no supermercado, porque os preços de alguns itens já haviam aumentado da última vez que ela foi.”

O carrinho de compras do aposentado Geovah Correia dos Santos, de 89 anos, morador do bairro Mallet, na Zona Oeste do Rio, não é mais o mesmo. Ele cortou carne, reduziu a quantidade de arroz, e tirou a cervejinha da lista.

“Nem lembro quando foi a última vez que enchi um carrinho de compras no supermercado. Agora só bebo cerveja se for convidado”, brinca.

Guilherme Dietze, assessor econômico da Fecomércio- SP, enfatiza que a conjuntura econômica atual limita a capacidade de consumo das famílias. Além da taxa de juros – que subiu 11,75 pontos desde março do ano passado, saltando de 2% para os atuais 13,75% – e do endividamento recorde das famílias, o aquecimento do emprego não foi suficiente para impulsionar a recuperação da renda, pois quem ingressa agora no mercado de trabalho ganha salários menores, lembra ele:

“As famílias estão pagando mais juros do que há um ano, então se torna cada vez mais difícil equilibrar as contas, e isso impacta sobretudo as famílias de renda mais baixa.

Na fila do caixa do mercado, Vinícius Pereira Castro, de 30 anos, conversava com a mulher, Débora Muniz, de 29, sobre como está difícil manter a casa. Presidente da Associação de Moradores da Comunidade Mangueiral, em Realengo, na Zona Oeste do Rio, Castro conta que frutas para os três filhos menores só entram em casa uma vez por mês:

“Até o arroz e feijão, que comprávamos em grande quantidade, para nunca faltar, tivemos que reduzir. Farinha láctea nunca mais compramos. Sobrevivemos comprando aos poucos.

‘O PIOR JÁ PASSOU’

Com uma lista de compras nas mãos, o pintor de automóveis, Carlos Alberto Oliveira, de 67 anos, morador do Sulacap, também na Zona Oeste, riscava vários itens, inclusive os da cesta básica, como óleo.

“Costumava vir ao mercado e levar um carrinho cheio, agora uso a cestinha porque o dinheiro não está dando para nada”, queixa-se Oliveira, que aproveita os dias de promoção para economizar.

Na avaliação de economistas, a boa notícia é que o cenário macroeconômico parece reservar uma trajetória melhor para a inflação dos alimentos nos próximos meses, sem tanta volatilidade, ainda que alguns alimentos tenham um aumento no fim de ano, como ocorre historicamente nesta época:

“O pior já passou. Alguns produtos já começaram a cair de preço, como o leite, as carnes e o óleo de soja (por conta do clima e da queda dos preços das commodities no mercado internacional), embora no final do ano vão subir um pouco pelo efeito sazonal. A inflação de alimentos ainda vai fechar 2022 em dois dígitos, mas ano que vem cairá para um. Historicamente a inflação de alimentos é elevada, a média de alta fica em torno de 8% ao ano”, lembra Leal.

O obstáculo à frente é que, uma vez que a economia brasileira entrou num patamar mais elevado de inflação, é desafiador sair de um nível de preços elevados para um cenário menos pressionado:

“Vamos ter uma nova referência de preços, um pouco mais alta do que tínhamos antes da pandemia. Para voltar aos preços normais sem risco, vai demorar mais um pouco”, avalia Dietze.

Patrícia Lino Costa, economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), concorda:

“O preço do óleo de soja começou a cair por conta da redução do valor da commodity no mercado internacional. Mas, em 2019, ele custava em torno de R$ 3,50, hoje custa em média R$ 7,50. O patamar de preço subiu e mudou muito. E os produtos que passam por algum tipo de elaboração industrial tendem a não voltar (ao nível de preços anterior).

GESTÃO E CARREIRA

COMO LIDAR COM CRÍTICAS NO TRABALHO

Ter dedos apontados para si, com destaques negativos às características da personalidade, das atitudes ou da conduta profissional, representa um cenário capaz de provocar crises de ansiedade

O medo da crítica externa está relacionado ao receio de se sentir rejeitado por um grupo social e é natural do ser humano. De acordo com a coordenadora do curso de Psicologia da Faculdade Anhanguera, professora Mariana Negri, a tendência a reagir às críticas é uma ação natural e as pessoas podem responder de várias formas, como com explosões de humor ou com a introspecção.

O caso pode se tornar um problema quando evolui para um quadro de fobia e o indivíduo não consegue lidar com a opinião alheia, com preocupação excessiva e dificuldade na superação. “As reações vão depender de diferentes fatores, principalmente de como o comentário foi compartilhado e do olhar que o sujeito que recebeu a crítica tem de si mesmo”, afirma a docente.

O medo excessivo pode inibir o indivíduo criticado até quando ele estiver em situações em que haja interações sociais (ligações telefônicas, falar em público, comer fora de casa) ou em que a pessoa corra o risco de ser observada (reuniões, festas, grupos de estudo). Dentre os sintomas mais comuns, estão o aceleramento cardíaco, tremores involuntários e a sensação de falha na memória ou interrupção de pensamentos, sintomas semelhantes a crise de ansiedade, muitas vezes confundido com ataques cardíacos.

AUTOCONHECIMENTO

Para lidar melhor com a crítica externa, a recomendação de especialistas é a de que seja feito um processo de autoconhecimento. Para avaliar o que foi dito por outra pessoa é preciso ter como referência o pilar da autoestima e do autoconceito.

“Dessa forma, é possível identificar o que é um comentário destrutivo e o que pode ser utilizado para o crescimento pessoal, sem ficar vulnerável ao que os outros dizem”, afirma a professora da Anhanguera. Sessões de terapia com um psicólogo qualificado podem apresentar caminhos para a compreensão de si mesmo, além de proteger a saúde mental e contribuir na melhora da qualidade de vida. O movimento indicado é o da reflexão, não o da reação imediata.

TRABALHO

Críticas no ambiente de trabalho podem ser recebidas como um desafio por alguns, porém, é importante entender o motivo das afirmações feitas por líderes e colegas. Além da auto- análise, a comunicação assertiva é fundamental para compreender o que foi dito e avaliar o que pode ser aproveitado para o desenvolvimento profissional.

“Nesses casos, é aconselhável separar um tempo para conversar sobre as diferentes opiniões, separar que é ou não é verdade permitir o aprendizado”, finaliza a professora.

EU ACHO …

CIÊNCIA PARA ALÉM DA CIÊNCIA

É essencial conhecer os elementos extrarracionais que impactam a ciência

Existe a ciência do senso comum, a ciência praticada por profissionais no dia a dia e a ciência que é objeto da especialidade em filosofia chamada epistemologia. Esta reflete sobre o método científico, a demarcação entre ciência e não ciência, e os elementos extrarracionais que impactam a prática científica.

Epistemólogos são filósofos especializados em refletir sobre a ciência para além do que sua infantaria – pesquisadores e todo o corpo social que se dedica ao cotidiano da pesquisa e aplicação desta – é capaz de fazê-lo, inclusive porque está ocupada com a prática, o ganho financeiro da sua vida, o reconhecimento dos pares, publicação de artigos e garantia de espaços nas instituições financiadoras, que são universidades, fundações ou empresas de capital privado – a “indústria” como é conhecida.

Essa infantaria se caracteriza, às vezes, por desconhecer o que a teoria da ciência – a epistemologia – reflete ao longo das últimas décadas. Grande parte da epistemologia tem se dedicado a identificar o que seria o método científico. O entendimento básico é: hipóteses, experimentos, verificação ou refutação das hipóteses que se dá via redes de colaboração entre pares e instituições.

Entretanto, tem se tornado cada vez mais importante o estudo dos elementos extrarracionais ao método científico que impactam a materialidade cotidiana da ciência. Quais seriam esses elementos?

Thomas Kuhn (1922-1996) ficou famoso por introduzir no entendimento da ciência elementos exteriores ao método em si. Criador da concepção de paradigma em ciência, e sua quebra – termo que ganhou vida autônoma em palestras motivacionais no mundo empresarial e de coaching -, Kuhn entendia que na ciência não há pessoas nem instituições em busca de descobrir nada de novo, mas apenas profissionais preocupados em reforçar suas posições institucionais e teóricas. A descobertas, as anomalias, acontecem à revelia do paradigma dominante.

Paul Feyerabend (1924-1994), mais radical, afirmava que na ciência não há método algum, mas interesses institucionais, ações isoladas de leigos, vaidades, fatos aleatórios, financiamentos, brigas políticas e similares, que juntos causam o funcionamento da ciência sem nenhuma previsibilidade. Um anarquista em epistemologia.

Bruno Latour, antropólogo, chegou mesmo a propor uma etnologia de laboratório para identificar como funciona o cotidiano comportamental dos pesquisadores e os materiais através do quais a ciência “avança”, para além dos discursos idealizadores da ciência ou o marketing das marcas, entre elas as universidades.

Na prática, o senso comum considera ciência os resultados de exames, vacinas, diagnósticos, aviões, computadores, inteligência artificial, celulares, enfim, produtos da interação entre tecnologia e aplicação útil, mas não entende nada sobra a ciência de fato. O epistemólogo Imre Lakatos (1922-1974) buscou um “meio-termo” entre o idealismo da ciência pura e o olhar atento de Kuhn e Feyerabend para os elementos extrarracionais que atuam sobre a ciência. Lakatos produziu um dos modelos mais interessantes em epistemologia, que faria muito bem à infantaria da ciência tomar conhecimento, assim como o senso comum que pensa ciência como novas descobertas a cada dia.

A ciência é composta pelo núcleo racional – o método -, um cinturão racional – as teorias científicas dependentes do método – e elementos extrarracionais tais como financiamentos, vaidades, modas teóricas, lutas por espaços institucionais, mercados e reserva de mercados, lobbies que envolvem profissionais das áreas, lutas políticas ideológicas, presença na mídia.

O cinturão racional é poroso. Essa porosidade opera como pressão sobre os profissionais em busca de sobrevivência. Não há ciência pura. Arriscaria dizer que esses elementos extrarracionais, hoje em dia, dominam muito mais o espaço de validação pública do que é ciência por parte do senso comum e dos próprios profissionais do que o núcleo racional. Quanto mais marketing e mídias sociais, menos núcleo racional.

*** LUIZ FELIPE PONDÉ – É escritor e ensaísta, autor de ‘notas sobre a esperança e o desespero’ e ‘Política no Cotidiano’. É doutor em filosofia pela USP.

ESTAR BEM

EXERCÍCIOS FÍSICOS AJUDAM A MELHORAR A MEMÓRIA, MOSTRA ESTUDO; VEJA QUAIS

A intensidade da prática afeta o tipo de lembrança, episódica ou espacial, por exemplo, a ser fortalecida, sugere publicação

Não é segredo que a prática regular de exercícios físicos traz muitos benefícios. Eles protegem contra o desenvolvimento de condições crônicas, como diabete e doenças cardíacas e, em alguns casos, podem melhorar a saúde mental.

Mas que efeito eles têm em funções específicas, como a memória? Um regime de exercícios pode te ajudar a lembrar as pontuações do jogo de ontem, onde você foi em seu primeiro encontro com sua namorada (ou namorado) ou onde deixou suas chaves? É possível. Estudos ao longo dos anos têm sugerido que um único treino pode melhorar a memória e que a prática regular ao longo de anos ou décadas não apenas melhora a memória, como também ajuda a fortalecer contra problemas futuros.

Agora, um estudo recente do Dartmouth College (EUA) se concentra em como a intensidade do exercício, durante um período de tempo, pode desempenhar um papel importante no reforço de diferentes tipos de memória.

“Sabemos que o exercício funciona, mas não sabemos quais variáveis de exercício o tornam mais eficaz”, disse Marc Roig, professor de fisioterapia e terapia ocupacional da Universidade McGill, que estuda o efeito do exercício na cognição e não participou do estudo. “Acreditamos que a intensidade é um desses fatores.”

Um dos principais desafios ao estudar a ligação entre o exercício regular e a memória é que as mudanças são difíceis de medir. Isso é complicado pelo fato de que muitos outros fatores afetam a memória, como trabalhar num emprego sedentário ou sofrer privação crônica de sono. Além disso, existem diferentes tipos de memória, o que explica como uma pessoa pode perder constantemente suas chaves (memória espacial ruim), mas ter um talento especial para lembrar datas de nascimento (memória semântica forte).

Os relógios rastreadores de atividades podem oferecer uma solução para esses problemas. Em um artigo recente publicado na revista Nature Scientific Reports, pesquisadores analisaram dados de um ano de rastreadores Fitbit de 113 pessoas, que também completaram uma série de testes de memória, como lembrar detalhes de um conto, detalhes espaciais, termos de língua estrangeira e listas de palavras aleatórias.

A vantagem do método é que ele vinculou um ano inteiro de dados dos padrões de atividade dos participantes – quanto exercício eles fizeram, quão intenso, com que frequência – ao seu desempenho em testes de memória.

Outros estudos rastrearam padrões de atividade por meio de dados autorrelatados, que geralmente são menos confiáveis do que os dados do rastreador, pois as pessoas tendem a subestimar quanto tempo passam paradas e se lembram incorretamente de seus níveis totais de atividade.

“Você pode obter uma imagem muito mais detalhada com os dados do rastreador de atividades”, disse Jeremy Manning, professor do Dartmouth College e um dos autores do estudo.

Manning e seus colegas descobriram que as pessoas ativas tinham melhor memória em geral, em comparação com as sedentárias, mas também que os tipos de testes em que se saíam bem variavam dependendo da intensidade com que se exercitavam. Por exemplo, os participantes que se envolveram em atividades leves a moderadas, como caminhadas regulares, tiveram melhor memória “episódica”. Ou seja, a capacidade de lembrar detalhes sobre fatos cotidianos, como encontrar um amigo em um café.

Diversos estudos anteriores já mostraram que quanto mais as pessoas são ativas, melhor, em média, é sua memória episódica.

Os participantes que se exercitavam regularmente com mais intensidade – como correr ou fazer um treino HIIT (treino intervalado de alta intensidade, em português) – eram mais propensos a ter melhor desempenho em tarefas de memória espacial.

A memória espacial é a capacidade de lembrar relações físicas entre objetos ou locais no espaço, como onde você colocou suas chaves.

Vários outros estudos mostram que o exercício de alta intensidade pode ser mais útil para esse tipo de memória do que para outro. Porém, é preciso mais estudos para solidificar essas associações.

“Quanto mais pudermos conectar os padrões de atividade cotidiana ao desempenho cognitivo, mais perto estaremos de pensar sobre o estilo de vida”, o quão ativo você é durante todo o dia e os padrões de sono, disse Michelle Voss, neurocientista cognitiva da Universidade de Iowa. Para Phillip Tomporowski, professor de cinesiologia da Universidade da Geórgia, do estudo, esse trabalho é um “primeiro palpite muito bom” sobre como certos padrões de exercícios afetam certos tipos de memória.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESAFIO DE SER ADULTO

Longevidade crescente de pessoas com Down impõe novos desafios

Aos 43 anos e com Síndrome de Down, a massoterapeuta Helga Almeida não apenas chegou à fase adulta – algo impensável há um século – como acredita estar no auge de sua vida. A síndrome, causada por uma modificação no cromossomo 21 do DNA humano e também chamada de trissomia, não a impediu de frequentar a escola e fazer atividades sozinha, como pegar ônibus, cozinhar e trabalhar com atendimento ao público. Hoje é ela quem planeja sua rotina de trabalho no Instituto Mano Down e no Banco Inter. Quando não está trabalhando, divide o tempo entre aulas de zumba, capoeira, yoga e natação. No fim de semana, o programa é ir à balada com amigos.

“Sempre acreditei em mim. Meus pais são médicos e me deixaram livre para que eu aprendesse a fazer as coisas de que gostava. Ando sozinha na rua, pego metrô, já trabalhei como secretária e em supermercado aos 20 anos e, quando descobri que amava fazer massagem, fiz um curso. Hoje atendo crianças, idosos e adultos com e sem Síndrome de Down”, conta a mineira, natural de Belo Horizonte.

O Brasil tem cerca de 300 mil pessoas com Síndrome de Down, e a expectativa de vida desta população não para de crescer. De 35 anos, em 1991, pulou para 55, em 2000, e, agora, já está em 60. Experiências como a de Helga se multiplicam e trazem os desafios da “idade adulta”. A mudança de rotina com a saída de casa, o início e término de relações amorosas, a chegada dos filhos e dos boletos são parte desse novo momento. Mas uma preocupação se instala: e quando faltar a família?

“À medida que a ciência vai avançando e os cuidados vão sendo aprimorados, naturalmente as pessoas com Síndrome de Down experimentam um aumento de longevidade, exatamente como acontece com a sociedade em geral. Esses avanços, além de motivos de comemoração, trazem também a preocupação com as mudanças. O que antes era apenas a “possibilidade” de um filho com Down viver mais do que seus pais vira uma “probabilidade”. É aí que reside a angústia dos pais sobre quem cuidará dessa pessoa”, afirma Etiene da Rosa, enfermeira doutora em gerontologia.

O desafio do adulto com Down tem levado à construção de novos arranjos familiares. De acordo com Rosa, os pais tendem a procurar por um parente próximo que possa assumir a responsabilidade de ser um apoio futuro para o filho na ausência deles. Na maioria das vezes, a missão cabe a um irmão, na esperança de que a ligação fraterna proporcione a mesma atenção, carinho e cuidados após o falecimento dos pais.

NOVA FASE

Rogério França, de 63 anos, teve uma vida muito independente e sempre trabalhou, mas passou a depender mais de ajuda por volta dos 45, quando os sinais do envelhecimento, marcados pela falta de memória e medo de sair à rua, começaram a aparecer. Com a morte da mãe, há cinco meses, Rogério conta hoje com o auxílio da irmã mais velha, Rosângela Franca, de 74 anos. Ela diz que, mais do que as preocupações com o futuro, seu foco atualmente é proporcionar ao irmão uma vida melhor e mais saudável no presente:

“Ele cumpre atividades fixas desde que era mais novo. Minha mãe faleceu aos 97 anos, lúcida, e sempre o auxiliou. Hoje somos eu e meu irmão ao lado dele.

A dissertação “Os idosos com Síndrome de Down e a exclusão social na velhice: um estudo de caso”, de Etiene da Rosa, mostra que os avanços na longevidade graças à ciência têm um outro lado que exige atenção. Há um risco de que essas pessoas tenham de lidar com um cenário de exclusão ao se aproximarem da velhice, se não forem bem compreendias.

“Retração, dificuldade de locomoção, depressão, introspecção, lapsos de memória, lentidão acentuada na realização de atividades rotineiras, manias e até demência” são alguns dos exemplos citados no estudo.

Na avaliação dela, isso acontece porque eles envelhecem numa faixa etária diferente e bem anterior à da sociedade em geral. Rosa afirma que muitas das transformações que são causadas pelo envelhecimento precoce acabam sendo interpretadas como eventos isolados e aleatórios.

“Por exemplo, episódios de perda de memória causados por um início de Mal de Alzheimer, na faixa dos 30 anos, muitas vezes são confundidos com deficiências intelectuais advindas da própria síndrome, quando na verdade fazem parte de um processo de transformação de todo o organismo”, diz a especialista.

A família de Izabel da Silva, de 68 anos, conta que nos últimos cinco anos, ela aparenta ter envelhecido mais rapidamente do que o observado em pessoas sem Síndrome de Down. Izabel já não tem mais tanta força física como antes e apresenta lapsos de memória. No entanto, a filha dela, Cristinna da Silva, ressalta que a mãe ainda cuida dos três netos quando ela precisa de apoio, faz comida, limpa a casa e ajuda o pai, que tem doença de Fahr – uma enfermidade neurodegenerativa rara.

“Eu aprendi o que era Síndrome de Down na escola e, na época, a expectativa de vida era de 36 anos. A minha mãe me gerou com essa idade. Vivia desesperada porque achava que ela fosse morrer a qualquer momento. Graças a Deus, ela está aqui com ótima saúde. O cuidado que temos é com os remédios que ela precisa tomar, comuns para a idade, e com as saídas à rua sozinha”, afirma Silva, que ainda este ano lançará o livro “Minha mãe tem Down, e daí?” para contar a história de Izabel.

AUTONOMIA É A META

Coordenador do Projeto de Envelhecimento Saudável do Instituto Serenidade, que oferece gratuitamente acompanhamento médico a pessoas com deficiência intelectual atendidas na ONG Apoie, em São Paulo, o geriatra Marcelo Altona alerta para a importância de cuidados diversificados durante o envelhecimento de pessoas com Down.    

“É importante ter bons hábitos e um estilo de vida que inclua o controle de doenças crônicas, estímulos cognitivos e físicos, além de cuidados com sono e estresse. A socializaçãotambém é um fato importante. Tudo isso está no cerne da prevenção de problemas cognitivos, como o Alzheimer”, observa Altona, que é médico do Hospital Albert Einstein.

Pesquisadores que trabalham com longevidade de pessoas com Síndrome de Down apontam que os cuidados, mais do que nunca, devem começar quando elas ainda são crianças. Pediatra e cardiologista especialista em Síndrome de Down da UFMG e do Instituto de Educação e Pesquisa em Saúde e Inclusão Social, Carolina Bragança Capuruço afirma que é importante orientar o crescimento delas com base nas características próprias de cada uma – algumas, por exemplo, têm mais problemas cardíacos e nenhuma ou quase nenhuma dificuldade cognitiva.

“Com a perspectiva de maior longevidade, potencializar ao máximo o que a criança pode ser quando adulta é ainda mais urgente. A ênfase deve ser criar autonomia”, afirma ela, destacando a necessidade de maior foco em fisioterapia, terapia ocupacional e trabalho com psicopedagoga especializada.

OUTROS OLHARES

CIRURGIA QUE AUMENTA ALTURA PODE PREJUDICAR MOVIMENTOS

Procedimento é indicado para casos específicos e tem pós-operatório complexo

“Todo mundo olhava e achava que eu parecia um ET.” É assim que o engenheiro ambiental Daniel Stockler, 29, recorda-se dos olhares durante um dia que foi a uma praia nas festas de final de ano em 2011. O motivo para o espanto era um equipamento de metal fixado entre seu joelho e pé.

O aparelho era composto de hastes que, parecidas com parafusos perfurados na perna de Daniel, saíam do membro. Elas se ligavam a outras estruturas semelhantes, mas que estavam paralelas ao seu corpo. Essas, por outro lado, eram presas a três armações que circundavam a perna dele. Além da estranheza que o aparelho provocava, ele dificultava a mobilidade de Daniel – para entrar na água, só carregado.

Daniel não é um ser de outro planeta, e sim uma das pessoas no Brasil que fizeram cirurgia de alongamento ósseo – não há dados sobre quantas operações são realizadas.

Indicado em casos específicos, o procedimento é capaz de corrigir problemas em pacientes com deformidade óssea, como uma perna maior que a outra. Pessoas com nanismo também se beneficiam do tratamento, já que ele causa o aumento da estatura.

Em parte, esse era o caso de Daniel. Ele sabia do procedimento desde criança porque foi diagnosticado com acondroplasia, que é o desenvolvimento ósseo anormal. Por conta da condição, ele tinha 1,45 m de altura aos 18 anos.

Mesmo tendo conhecimento da cirurgia antes, o engenheiro ambiental só foi tomar as primeiras medidas para realizá-la quando tinha em torno de 16 anos. Foi quando descobriu, em um evento de família, que havia a chance de fazer o procedimento pelo plano de saúde.

O caso de Daniel, porém, é raro. Normalmente, os convênios não cobrem uma cirurgia de alongamento ósseo e, pelo particular, o preço é bem alto.

Ricardo Girardi, ortopedista e traumatologista com enfoque em cirurgia de reconstrução e alongamento ósseo, afirma que o valor varia de R$ 140 mil a 240 mil – faixa de preço que ele adota no seu consultório no Rio Grande do Sul. “Eu duvido que alguém cobre barato para fazer isso”, diz Guilherme Gaiarsa, presidente da Asami (Associação Brasileira de Reconstrução e Alongamento Ósseo).

O alto preço tem relação com a complicada técnica envolvida. No Brasil, uma das formas mais comuns é separar em duas partes o osso que passará pelo alongamento. Então, um fixador é acoplado com uma porção do equipamento para fora do corpo – fora do país, já existem modelos totalmente internos.

O paciente precisa, por um período, acionar o fixador para que ele separe o osso – o normal é ter um distanciamento ósseo diário de um milímetro. O osso passa por um processo de regeneração natural que demora meses para ser finalizado por completo. Nesse meio tempo, complicações podem acontecer.

Em alguns cenários, o paciente tem a regeneração do osso rápida demais. Em outros, demora muito. Às vezes, perde-se amplitude de movimento. Infecções podem aparecer, principalmente quando não ocorre a higienização adequada do fixador. Dores no pós-operatório ainda trazem bastante incômodo.

“Eu operei num sábado e, durante a madrugada para domingo, eu sentia muita dor no hospital, mesmo com morfina”, conta Daniel sobre a primeira cirurgia, realizada no fêmur em março de 2011.

Com o passar das semanas, as complicações continuaram. Daniel não conseguia dobrar o joelho e precisou de uma cadeira de rodas para se locomover. “Eu tentei ficar de pé no quarto [do hospital], mas doía absurdamente. É uma coisa que você não aguenta.”

Ele ficou dependente da sua mãe e avó. Dormir passou a ser um problema porque não conseguia encontrar uma posição confortável. Passou a se alimentar menos e a saúde mental foi abalada “por causa de toda dor e estresse”.

Depois de um mês do procedimento, ele trocou a cadeira de rodas por um andador e começou a realizar fisioterapia para melhorar a mobilidade. Tudo isso enquanto ele estava com o fixador externo em sua perna. O equipamento só foi retirado quatro meses depois da cirurgia, em julho de 2011.

Já em novembro, ele passou por um segundo procedimento, agora na tíbia – osso abaixo do joelho – e ficou com o fixador até abril de 2012. O procedimento foi parecido ao anterior, só que as complicações, mais leves.

Realizar o alongamento em diferentes ossos é uma forma de proporcionar uma maior estatura ao paciente. Girardi, no entanto, diz que a pessoa pode aparentar uma proporção estranha entre as partes do corpo – pernas muito longas, tronco muito pequeno.

Para ele, é importante que pessoas interessadas no procedimento tenham cautela ao escolher um cirurgião. “É preciso ter cuidado com promessas mirabolantes de alongamento.” Isso porque existem impeditivos no crescimento pela cirurgia.

Enquanto os ossos têm grande capacidade de prolongamento e regeneração, outros tecidos, não. Quanto mais se esticar os músculos, por exemplo, maior a chance de causar problemas. “Quando começa a ter uma tensão muscular muito grande, precisamos parar”, resume Girardi.

No caso de Daniel, ele “cresceu” 13 cm. Agora, o engenheiro ambiental conta com 1,58 m de altura.

As dificuldades foram muitas, e ele só conseguiu ter segurança para realizar atividades físicas mais intensas, como correr, seis meses após tirar o segundo fixador externo. Antes disso, até se arriscou em andar de bicicleta ainda com o equipamento abaixo do seu joelho. “Eu tentava ter uma vida normal, não tendo.”

Ele não se arrepende. “Tem suas dificuldades, mas acho que o resultado vale a pena.” O motivo da satisfação de Daniel não é só por causa da acondroplasia. A estética de ser mais alto foi um fator decisivo para ele se sentir satisfeito com o produto da cirurgia.

Esse ponto tem relação direta com o status que a altura confere. “Existe uma aceitação social de que as pessoas dominantes são mais altas. O baixinho sempre é discriminado”, diz Gaiarsa.  

Daniel, por exemplo, encaixa-se nessa situação, já que tinha baixa autoestima com sua altura antes do alongamento. Em uma caraterística, no entanto, ele se difere de outros pacientes: fala abertamente sobre o assunto, algo raro para essas cirurgias. “A maioria dos pacientes desaparece porque se nega a falar sobre o assunto”, afirma Gaiarsa.

A ideia de que a altura traz benefícios sociais já foi observada em estudos. Uma pesquisa americana concluiu que, em uma carreira de 30 anos, uma pessoa com 1,8 m de altura pode ganhar cerca de US$ 166 mil a mais em comparação a outra com 1,5 m.

Para Gaiarsa, existem situações em que os benefícios de ser mais alto não é verdade. “Eu vejo enormes vantagens de ser menor: você pode viajar de econômica no avião tranquilo”, diz.

GESTÃO E CARREIRA

SAÚDE MENTAL NO MUNDO CORPORATIVO: UMA PREOCUPAÇÃO IMPORTANTE OU PASSAGEIRA?

Manter um equilíbrio mental no ambiente de trabalho se tornou uma das pautas mais importantes nos últimos anos, especialmente ao longo da pandemia

Isolados em casa e sobrecarregados com jornadas extensas e uma alta pressão, a preocupação em garantir uma boa saúde mental é a base para uma qualidade de vida e um bom desempenho nas tarefas necessárias. Muitas companhias, felizmente, se preocupam genuinamente com essa questão e se esforçam para estimulá-la entre seus times. Entretanto, muitas outras ainda não compreendem tal importância, evidenciando um comportamento preocupante que deve ser levado em consideração por todos os profissionais. Diversos estudos realizados ao longo do isolamento social constataram uma relação crítica entre o excesso de trabalho e o desenvolvimento de problemas de saúde psicológicos.

Em uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos, como exemplo, 53% dos trabalhadores do Brasil relataram uma piora em sua saúde mental em 2020 – a quinta maior alta no mundo. As consequências destes diagnósticos podem ser severas, com a capacidade de desenvolverem inúmeros transtornos mentais, como a Síndrome de Burnout, e comprometer, assim, a rotina pessoal e profissional de todos.

Qualquer atividade em excesso é indiscutivelmente prejudicial à saúde. Muito mais do que uma questão ideológica, o descanso é uma necessidade biológica de todo ser humano, indispensável para que possamos recompor nossas energias e ter a disposição física e mental para sermos produtivos em nossas tarefas. Porém, a dinâmica mercadológica vista atualmente é propensa à sobrecarga de responsabilidades, o que dificulta ainda mais a disposição deste tempo precioso que precisamos para não sobrepor o trabalho aos nossos limites psicológicos.

Mais do que nunca, é preciso criatividade por parte das empresas em criar alternativas benéficas na estruturação de suas jornadas sem que interfiram na saúde mental de seus times – especialmente, levando em consideração a subjetividade no tempo de descanso considerado como necessário por cada um.

Desenvolver uma política interna equilibrada e igualitária para todos esses perfis não é fácil, mas passível de ser elaborada mediante uma análise aprofundada sobre a rotina de suas equipes e suas satisfações.

Uma cultura de estímulo à saúde mental dos profissionais deve ser uma preocupação nitidamente vivida internamente e não apenas uma imagem de fachada passada na tentativa de atrair bons talentos. Aqueles à frente dessa tarefa devem aprimorar um olhar empático sobre cada um, compreendendo sua rotina de trabalho, nível de pressão sentido e a carga de trabalho enfrentada em sua rotina.

No menor sinal de excesso em qualquer um desses pontos, é preciso encontrar soluções que tragam um balanço saudável entre seu bom estado mental e o cumprimento com as responsabilidades profissionais. Do outro lado, todos os trabalhadores também devem se atentar e enxergar se essas ações estão, de fato, sendo uma prioridade clara para os gestores e estimuladas internamente.

Afinal, de nada adianta se vender como uma companhia preocupada com a saúde mental de seus times, mas não praticá-la diariamente como, por exemplo, marcando reuniões em horários fora da jornada ou ainda um acúmulo de tarefas que impossibilita o término do trabalho no horário previamente acordado. Exceções sempre irão existir, mas caso essas situações se tornem recorrentes, é um sinal de atenção que precisa ser analisado.

A definição sobre uma boa saúde mental sempre será algo subjetivo, uma vez que cada um possui seu próprio conceito sobre o que caracteriza uma rotina equilibrada. Por isso, é importante conhecer a fundo a cultura organizacional estabelecida por cada companhia sobre este aspecto desde o processo seletivo, avaliando suas práticas e se estão de acordo com o perfil e necessidades individuais.

Quando realmente preocupadas em prover tal aspecto, as empresas não apenas conquistarão uma boa imagem no mercado, como também se destacarão no radar de cada vez mais profissionais qualificados e dedicados a integrar seu time.

*** RICARDO HAAG – É sócio da Wide, consultoria boutique de recrutamento e seleção (htps://wide.works/).

EU ACHO …

GUERREIRAS DO SIM

Quantas vezes dizemos “não” às perguntas que estão na cabeça das crianças? Lembro de vários adultos na família e na escola dizendo que eu era muito nova para entender sobre tal assunto. Ou que a pergunta era difícil demais. Ou que não tinham tempo para responder.

Há ainda a técnica de romantizar uma realidade por acreditar que não devamos trazer dureza à infância quando o assunto é complexo. Ou ainda que a criança é incapaz de aprender cedo, mesmo que com uma linguagem adaptada, sobre múltiplas questões com as quais nos deparamos ao longo da vida.

Logo que saímos do calor do ventre as interrogações surgem. Fico imaginando um bebê chorando nos primeiros minutos de vida já com sua primeira pergunta existencial sobre por que teve que sair de um lugar tão confortável onde tinha proteção e comida garantida. Dali em diante, as perguntas não param de surgir.

Lembro de, na infância, quando sofria racismo na escola, ter os adultos me dizendo que aquilo era brincadeira de criança ou que todos éramos iguais e que não deveria me importar com isso. Havia quem dissesse que eu era muito nova para entender o que estava acontecendo. E quem via nos livros que os personagens azuis viviam em perfeita harmonia com os verdes, mostrando que racismo parecia coisa de outro mundo.

Ora, se todos éramos iguais por que eu era tratada como a diferente? Eu pensava. Se racismo não existe no mundo dos livros que eu lia, por que existia no meu mundo? O pior é que eu nem sabia dar nome a ele e achava que era algo que eu estava inventando.

No alto de meus 6 ou 9 anos, essas pareciam questões sem resposta e que, portanto, eu deveria aceitar. E foi assim que passei quase 20 anos da minha vida. Só quando entendi e comecei a dar nome ao racismo e ao machismo estruturais comecei a saber navegar melhor e encarar de frente um mundo que tem estruturas maiores do que as minhas próprias vontades. E infelizmente não eram só coisa da minha cabeça.

Hoje estou do outro lado como a adulta imperfeita, desafiando o tempo para tentar dar respostas complexas, numa linguagem acessível às múltiplas perguntas que têm na cabeça da minha filha de 4 anos e seus amiguinhos.

E até entendo com mais empatia a perspectiva da figura dos adultos impacientes que faziam cara feia para mim.

Meu posicionamento hoje é de não romantizar a realidade acreditando que se esconder o racismo ou o machismo eles irão sumir e ela não irá se deparar com eles.

Conto para ela contos e as histórias dos povos originários aldeados ou em cidades para que ela consiga não passar da mesma forma pelo apagamento de nossas próprias histórias. E que saiba desde cedo da multiplicidade dos povos indígenas em nosso país.

E vale dizer que ainda muitas das minhas questões de criança permanecem aqui na cabeça. Minha relação com as perguntas hoje é de afeto. Minhas perguntas afetam minha relação com o mundo e fiz até um livro infantil chamado “Guerreiras do Sim” em homenagem a possibilidade de lutar pelo sim às perguntas que moram nas nossas cabeças desde pequenos.

Acredito que não preciso responder às perguntas sozinha, até porque tenho muitas. Aciono a minha aldeia de pais, amigos e parentes para que também dialoguem sobre tantas questões.

Na prática, não é tão fácil quanto no livro, há barreiras físicas, de agendas e de disponibilidade, mas poder pedir ajuda e entender que não dizer não às perguntas é o caminho, já tem sido um bom começo.

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

ESTAR BEM

BALÉ DEPOIS DOS 50

Não há idade para começar na dança, que traz benefícios físicos, sociais e psicológicos

A goiana Lucilene Lopes de Lorenzo Fernandez, que gosta de ser chamada de Lu, nunca se considerou uma pessoa ativa para fazer exercícios físicos. Desde criança, alimentava a paixão de aprender balé e só teve coragem e oportunidade de realizar esse sonho quando fez 60 anos. E não só ela, mas muitos adultos acima dos 50 têm investido em aulas de dança, que ajudam tanto no desenvolvimento biopsíquico quanto nas habilidades de socialização.

Primeira-bailarina do Teatro Municipal do Rio, Ana Botafogo, hoje com 65 anos, segue dançando diariamente – mas agora como forma de bem-estar e fora dos palcos. Segundo ela, a prática do balé para adultos só traz benefícios, por alongar e fortalecer a musculatura do corpo. Ela aponta também que o uso da música faz com que a experiência seja mais agradável e que é preciso estimular a memória e coordenação motora para aprender a sequência de passos ensinada pelo professor ou pela professora. “Os alunos adultos têm muito prazer em fazer as aulas e faltam pouco, além de um estimular o outro”, conta ela, que criou a academia Maison Botafogo em 2007, onde, hoje, Lu faz suas aulas. “É um encantamento bonito de se ver e minha mensagem para esse público é que vocês não desanimem e concretizem seus sonhos. A dança sempre conduziu minha vida e sigo me beneficiando dela, tanto física quanto psicologicamente.”

Desde que fez a primeira aula particular de balé, em 1.º de janeiro de 2022, Lu se sente bailarina. A rotina inclui práticas três vezes por semana, por uma hora, e muita dedicação para aprender e executar os movimentos da dança, que costuma exigir disciplina e demanda bastante consciência do corpo. Em oito meses, ela sentiu evolução a ponto de perder o medo de fazer aulas com Ana Botafogo, que a tem orientado em algumas sessões, e o ator e músico Leo Jaime, um dos entusiastas da prática do balé para homens. “Sinto que meu corpo ganhou muito, de ter mais elasticidade. Além da satisfação e o prazer de dançar, o balé tem me trazido benefícios como consciência corporal, fortalecimento muscular e equilíbrio.”

O diretor da Faculdade de Fisioterapia da Universidade Federal do Rio (UFRJ), Fernando Zikan, concorda que o balé é uma excelente ferramenta para a população de 50 ou mais e ajuda a frear a perda muscular com o avanço da idade, a sarcopenia. Segundo Zikan, que dança e trabalha cuidando de bailarinos do Municipal há 17 anos, o balé auxilia na manutenção de peso e ganho de gordura. “A dança faz com que haja mais produção do líquido sinovial dentro das articulações. Quanto mais se movimenta, mais quantidade do líquido se forma nelas e isso evita o surgimento de dores articulares e de doenças como a artrite e a artrose.”

Ele também aponta o retorno venoso dentro do corpo, ajudando na circulação do sangue e do oxigênio nas veias, além de evitar o desenvolvimento de varizes e edemas. “O balé é excelente para estimular a memória, o funcionamento cerebral e a interação social do aluno, além de desenvolver consciência corporal e emocional. É um estilo de dança potente para experimentar seu corpo”, conta ele. “Muitas mulheres não conseguiram mostrar seu corpo como gostariam, seja por repressão, vergonha, e hoje têm mais possibilidades de fazer isso e devem fazer.”

A psicóloga Ana Carolina del Nero, que dança balé há dez anos, ressalta que o ambiente das aulas é de leveza e acolhimento, o que facilita a construção de novos círculos sociais além da família e do trabalho, e movido por interesses em comum. “Para mim, o balé é uma grande fonte de prazer e ajuda bastante no desenvolvimento socioemocional, especialmente para os mais velhos, pois há um declínio natural das habilidades cognitivas e motoras. Por ser uma dança codificada, com combinação de música e sequências de passos, a atividade potencializa o estímulo cerebral e ajuda o aluno a ter uma relação de auto- conhecimento do corpo.”

REALIZAÇÃO

Lu conta que o desejo de fazer balé voltou com força quando fez 45 anos e se aposentou no funcionalismo público. Ela pensou em procurar um lugar para fazer aulas, mas, na época, não encontrou nenhuma academia que ensinasse adultos sem experiência em dança no Rio de Janeiro, onde vive. Dessa forma, ela guardou essa vontade até que começou a ter contato com pessoas acima de 50 anos que estavam praticando. “Mesmo assim, não tinha coragem e pensava no julgamento que os outros fariam de mim”, recorda.

Lu só realizou seu sonho ao completar 60 anos, quando, como conta, “teve um estalo”.

“Vou realizar duas coisas que tenho vontade: uma tatuagem e aprender balé. Não contei nem para meu marido nem para minhas filhas. Criei um perfil no Instagram, o @balletaos60, me senti fortalecida e passei a receber tantas mensagens de incentivo que me desarmei”, revela.

Outros pontos que Lucilene trabalha é em não deixar que a perda auditiva a prejudique no entendimento das instruções das professoras. Também se vale de uma minibarra auxiliar para ajudá-la nos movimentos que exigem levantar e manter as pernas esticadas. Ela conta que segue seu ritmo, e recomenda a todos que têm um sonho para não ter medo de realizá-lo. “Tenha coragem e não fique esperando. Perdi tempo demais me preocupando com a opinião das pessoas e me acovardei. Deveria ter começado há muito mais tempo”, diz.

CONEXÃO

Assim como Lucilene, outras mulheres adultas também vêm investindo na prática do balé adulto como forma de atividade física e de bem-estar. A psicóloga Lia Camargo von Brusky, de 53 anos, e a médica Maria Heloisa Bernardini, de 59, frequentam quase diariamente a Academia Anacã, em São Paulo, onde há turmas dedicadas a diversas faixas etárias.

Lia conta que praticou balé dos 7 aos 18 anos, chegando a dançar profissionalmente. Mas parou quando entrou na faculdade e, por contado nível de exigência imposto pelos estudos, ficou 22 anos sem calçar sapatilhas.

Foi só aos 42, ao levar a filha para dançar, que ela percebeu quanto tempo tinha perdido. “O balé é uma atividade muito social e funciona como uma terapia para mim. É preciso fazer algo que te dê prazer e vida”, observa. No entanto, ela precisou entender que os objetivos, na vida adulta, eram diferentes de quando ela dançava na juventude. “Aprendi que a dança me faz feliz e que não posso ter o mesmo excesso de cobrança que tinha com ela quando era mais jovem.”

Maria Heloisa também conheceu o balé na infância, mas só foi retomá-lo no início da pandemia. Com as academias fechadas e sem a possibilidade de correr, ela passou a fazer aulas online da dança até que a academia fosse reaberta. Para ela, que trabalhou na linha de frente do combate à covid-19, manter o corpo e cabeça ativos é uma das chaves para uma vida feliz.

Segundo ela, é importante manter qualquer atividade física para uma vida saudável. “O primeiro passo para te tirar do sedentarismo é mover seu corpo. Caminhar é uma excelente prática para começar e se interessar por outras atividades físicas”, ensina. Ela deixou de praticar corrida, mas conta que tem planos de retomar a prática – e até de disputar uma São Silvestre.

As duas alunas procuram tomar alguns cuidados antes e depois das aulas, que duram entre uma e duas horas. O primeiro deles é fazer um bom aquecimento e seguir as orientações da professora, para que a execução dos movimentos saia correta e evite mais sobrecarga nas articulações. Além disso, procuram seguir uma dieta balanceada, consumo frequente de água e boa higiene do sono.

HOMENS DE SAPATILHA

O balé para adultos não tem idade para começar, nem distinção de gênero. Tanto homens quanto mulheres podem dançar e um dos alunos mais velhos do Brasil, o carioca Hélio Haus, só decidiu calçar as sapatilhas aos 75 anos, depois de aposentado. Aos 80, ele chega a fazer cinco aulas por dia e assegura que a prática é seu melhor investimento em saúde. “Não quero ser refém de consultório médico e não acho engraçado nenhum tipo de remédio, doença.”

Quem também é adepto do “balé positive” é o ator e músico Leo Jaime, que conheceu a dança na adolescência, mas só foi retomar as aulas após ser convidado a participar do quadro Dança dos Famosos, do Domingão do Faustão, na TV Globo, em 2018. Ele venceu o desafio e, ao saber que havia aulas de balé básico no estúdio da coreógrafa Débora Colker, decidiu se matricular. “A dança cria uma conexão forte entre o tempo e o espaço e ajuda a criar intimidade com seu corpo. É um ambiente gostoso, lúdico e divertido”, avalia.

Aos 62 anos, Leo Jaime diz não se importar com as críticas que sofre por não se encaixar em um suposto corpo padrão de dançarino – e por ser um homem que gosta de balé. “Não gasto tempo com isso e me preocupo em agradar a mim mesmo. Cada um deve curtir do seu jeito e escolher o que te faz bem, sem se importar com o que o outro vai pensar.”

CONSCIÊNCIA CORPORAL

A professora Esmeralda Gazal, que se dedica há dez anos ao ensino de balé adulto, traz algumas dicas de como praticar a dança de forma saudável e como ela ajuda a criar uma melhor consciência corporal para as atividades do dia a dia. Aos 69 anos – 53 deles dedicados à dança e uma década como bailarina do Corpo de Baile do Teatro Municipal de São Paulo –, ela salienta que o início das aulas deve ser feito de maneira gradativa, para que cada aluno ou aluna possa organizar seu corpo e perceber como ele está naquele dia. “Iniciamos sempre com posições naturais, para que haja um aquecimento e isso possibilite executar os movimentos do balé.

O neurorradiologista Leonardo Stellati Garcia, que descobriu o balé há pouco mais de um ano, explica que, por ser uma atividade física, há risco de lesões e quedas, mas que elas são minimizadas quando se pratica a dança sob supervisão de um professor ou professora que guie o corpo dos alunos dentro dos limites de cada um. “Os riscos do balé são baixos perto dos benefícios de bem-estar mental, social, emocional e de melhora da forma física que trazem.”

Esmeralda ressalta que a prática do balé também é uma ótima aliada para manter o alinhamento ósseo em dia. “Vivemos em um período com muito tempo no celular, no computador, e isso altera a organização do nosso corpo e da coluna. Dançar ajuda a manter nossas articulações preservadas para fazermos os movimentos do dia a dia com maior autonomia, sem limitações ou dores.”

DICAS E CUIDADOS

OUÇA sempre as orientações do professor e faça um bom alongamento.

RESPIRE com cuidado e de forma constante.

NÃO se jogue com força nos movimentos e use o apoio dos pés, pernas e core para preservar as curvas naturais da coluna.

CONTROLE as descidas das sequências da dança e vá no seu ritmo.

HIDRATE-SE antes, durante e depois das aulas. Mantenha uma alimentação saudável e coma com intervalos de três em três horas.

DURMA bem e ao menos oito horas por noite.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

REDES SOCIAIS AMPLIAM DEBATE SOBRE NOVAS FORMAS DE AMOR ENTRE CASAIS

Arranjos envolvem pessoas que optam por viver juntas relacionamentos não monogâmicos; especialistas avaliam que há crescimento e falam do fim do romantismo

Aberta, não monogâmica, poliamorosa. A vida conjugal não está mais restrita a dois. Muitos casais têm explorado novas formas de amar sem abrir mão da parceria fixa na construção do lar e dividem o desejo do futuro compartilhado. Nas redes sociais, esses arranjos motivam debates acalorados entre defensores e opositores, enquanto quem vive isso na prática aproveita a chance para abrir a intimidade e desmistificar dúvidas comuns de quem nunca cogitou um formato diferente de relação. Mas, embora cada vez mais comuns, essas relações trazem os desafios inevitáveis, como o ciúme.

Autora do livro Open monogamy: A guide to co-creating your ideal relationship agreement (ainda não lançado no Brasil), a terapeuta, psicóloga e sexóloga Tammy Nelson explica que relacionamentos “não monogâmicos” habitam um amplo espectro de possibilidades que vão desde os “trisais” (três na mesma relação) e o “poliamor” (mais de um parceiro fixo ao mesmo tempo, em dupla ou individual) até aqueles que frequentam juntos “festas adultas”.

“Monogamia aberta é quando você tem uma relação ‘primária’, ‘comprometida’ ou ‘essencial’ e também um acordo fluido e flexível sobre ela”, define Tammy, que relata ver tal configuração com mais frequência que algo “livre para todos e tenha quantos parceiros quiser”. “Existe uma ampla variedade, mas no fim do dia é o que o casal decide.”

Tammy tem algumas teorias para explicar por que esses relacionamentos se popularizaram nas últimas duas décadas. “Depois de várias gerações em que as pessoas cresceram com pais divorciados, tendo amantes, mentindo e traindo, algumas decidiram que isso não funciona para elas. E entenderam também que só porque estamos casados não significa que estamos mortos.”

Abrir o jogo e admitir que sente atração por outros nem sempre é tarefa fácil para o casal, mas pode ao mesmo tempo trazer uma chance única de diálogo e transparência. “O mais interessante é passar por esses pontos e falar sobre eles. Não é por ser livre que vai estar bom sempre”, avalia a psicóloga e psicanalista Marcela Valle, de 27 anos.

Desde abril de 2021, Marcela está em um relacionamento não monogâmico com a líder de operação em vendas Amanda Alves, de 26 anos. O arranjo foi proposto pelas duas “desde que começou o flerte” em Belo Horizonte e ambas queriam “viver um amor livre”. “Foi sempre uma conversa trocando as questões teóricas e aprimorando. Vimos o que encaixava melhor para nós nessas teorias todas”, diz ela.

CRESCIMENTO

Um dos livros que ajudaram Amanda a entender melhor a questão foi o Novas Formas de Amar (Editora Planeta, 2017), da psicanalista Regina Navarro Lins. A autora diz que “não tem a menor dúvida de que relacionamentos não monogâmicos estão crescendo no Brasil e no Ocidente”. Esse movimento, acrescenta, coincide com a “saída de cena do amor romântico”.

“A questão é que ninguém combina nada quando começa uma relação. A monogamia é um imperativo na nossa cultura”, avalia a psicanalista. “Quando um casal começa a namorar, já está implícito que um só pode ter relações sexuais com o outro, que é impossível amar duas pessoas ao mesmo tempo. Os dois acreditam que vão se transformar em um só, que um terá todas as necessidades atendidas pelo outro, que quem ama não se relaciona com mais ninguém”, explica.

O ideal de amor romântico começou nos idos do século 17, mas só se tornou uma possibilidade nos casamentos mais de 200 anos depois, passada a Revolução Industrial, e quando o matrimônio deixou de ser uma configuração arranjada por famílias e dotes. Nas décadas seguintes, filmes de Hollywood, contos de fadas, poesia e literatura povoaram o imaginário do final feliz após o “sim” das metades da laranja que se encontram.

Esse contrato de casamento, porém, já passou por importantes “viradas de chave” posteriores. Foi-se o tempo, por exemplo, em que o divórcio, só aprovado no Brasil em 1977 por uma emenda constitucional, podia levar à perda de emprego e dava à mulher a pecha de “desquitada”.

Outros marcos são a invenção da pílula anticoncepcional e os avanços dos movimentos feminista e LGBT+, nos anos 1960, assim como figuras disruptivas que ajudavam a jogar luz sobre tabus sexuais e comportamentais de suas épocas. “Os anseios contemporâneos são em busca da individualidade. Cada um quer saber seu potencial de desenvolver possibilidades na vida, o que não tem nada a ver com egoísmo. Isso bate de frente com a proposta do amor romântico, que é a não individualidade.”

LIBERDADE

Foi essa busca e a autorreflexão sobre si mesma que impulsionaram a atriz Fernanda Nobre, de 39 anos, a falar abertamente sobre o “pacto” que fez com o companheiro, o diretor e produtor José Roberto Jardim, de 45, com quem está há dez anos. Era 12 de junho de 2020, Dia dos Namorados em meio ao isolamento da pandemia, quando ela contou para seus milhares de seguidores nas redes sociais que eles viviam um relacionamento não monogâmico.

Fernanda, que diz ter sido criada por “pais de cabeça aberta”, começou a se aprofundar em estudos sobre Antropologia, Sociologia e feminismo, movimento do qual se reconhece como “pesquisadora” para entender questões que a incomodavam. “A forma como nos comportamos, o valor à beleza e à maternidade, como nos relacionamos, o amor romântico são algumas dessas questões. Entendi o quanto a monogamia foi determinada para nos controlar, nosso corpo, sexualidade, e o quanto ela é hipócrita em relacionamentos heterossexuais”, avalia.

Já o casal Giovana Rodrigues, estudante de 22 anos, e Luís Moreira, assessor de 31 anos, utiliza o site Sexlog e o aplicativo Ysos para encontrar parceiros fora do relacionamento. Juntos há seis anos, eles moram no Rio e contam que a relação é aberta desde o início.

Mas o hábito, antes restrito a festas esporádicas com iniciativas dos dois juntos, agora é um novo combinado. Cada um também tem espaço para explorar seus interesses de forma separada.

CUIDADOS E DICAS

Independentemente do tipo de relacionamento, os princípios fundamentais para toda e qualquer relação saudável e duradoura são os mesmos, afirmam os especialistas: transparência, honestidade e diálogo. Diz o ditado que “o combinado não sai caro”, mas às vezes até os acordos pré-acertados podem causar desconforto quando postos em prática.

“Estamos vivendo uma transição entre antigos e novos valores, então não temos parâmetros para nos apoiar. Nos modelos tradicionais, sabemos dizer o que não funciona: possessividade, ciúme, descontrole e desrespeito à individualidade do outro”, avalia Regina Navarro Lins. “Não consigo ver melhor forma do que total franqueza”, completa.

OUTROS OLHARES

JOVENS QUEREM SAÚDE E FAMÍLIA E MINIMIZAM CASAMENTO

Pesquisa analisou quais os temas mais e menos importantes para a faixa de 15 a 29 anos no Brasil

O jovem brasileiro quer saúde e família – e não quer sexo e casamento. Uma nova pesquisa que mapeou essa parcela da população apontou que enquanto os dois primeiros temas são os mais importantes para o grupo, os outros dois estão no fim da lista dos assuntos prioritários.

Para o levantamento, foram realizadas mil entrevistas com pessoas entre 15 e 29 anos entre os dias 20 e 21 de julho em 12 capitais (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza, Recife, Porto Alegre, Curitiba, Goiânia, Brasília, Manaus e Belém).

O instituto apresentou para esse grupo uma lista de 11 itens e pediu aos entrevistados que dissessem o grau de importância de cada um. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos, dentro do nível de confiança de 95%.

Segundo o levantamento, 87% dos jovens brasileiros classificam a saúde como muito importante, enquanto 13% afirma que ela é importante. Já a família aparece em segundo lugar, considerada muito importante para 81%, importante para 15%, mais ou menos importante para 2% e pouco importante para 1%. Em seguida na lista aparecem em ordem estudo, trabalho, lazer, dinheiro, amigos e religião. Nas últimas posições estão sexo, beleza e casamento. Último colocado no ranking, o matrimônio é visto como muito importante para 22%, importante para 28%, mais ou menos importante para 19%, um pouco importante para 17% e nada importante para 14%. Entre as mulheres, a parcela que considera casamento nada importante é maior que para homens: 17% para elas versus 11% para eles. Jairo Bouer, psiquiatra e especialista em sexualidade, diz que saúde não costuma aparecer na lista de prioridades da faixa etária analisada. Para ele, o resultado pode indicar um aumento da preocupação com prevenção, principalmente após a pandemia.  “Essa idade foi uma das mais impactadas, principalmente os adolescentes. Não me parece estranho que algumas prioridades de outras faixas de idade tenham sido incorporadas por eles”, diz.

O sexo nas últimas posições vai ao encontro de pesquisas feitas nos Estados Unidos e no Japão que também apontam a falta de interesse dos jovens pelo assunto.

“O fácil acesso que eles têm a conteúdos eróticos, aplicativos e às próprias redes sociais, dão a impressão de que essas questões de sexualidade ficam mais na esfera do virtual”, afirma Jairo.

Ele também não descarta que isso seja um reflexo da pandemia. “Eles mudaram, o corpo mudou, eles não estão satisfeitos com a autoimagem e autoestima. Acho que isso impacta na vivência da sexualidade”, afirma.

O desprezo dos jovens pelo matrimônio também não surpreende o psiquiatra, já que as pessoas têm se casado cada vez mais velhas – a tendência, assim, é que o tema ganhe importância conforme a pessoa envelheça.

Além disso, a própria percepção social sobre o assunto tem mudado, aponta o médico. “Será que é preciso mesmo ter um casamento ou estar em uma relação estável para ter filhos? A mulher quer mesmo ter filhos? Esses novos modelos e essa flexibilidade maior de modelos de relacionamento, paternidade, maternidade, também influenciam na questão do casamento”, afirma.

A designer Mayara Borges de Almeida, 25, também acha que a idade influência na importância que se dá ao casamento. “Sou formada, trabalho e estou em um relacionamento há seis anos, então já estou em uma fase pensando em me casar. Se os mais novos não estão num relacionamento, talvez isso influencie”, diz. Ela afirma ainda que sua geração tem mais dificuldade para conseguir estabilidade financeira, o que poderia influenciar a menor importância do casamento.

A pesquisa aponta que o matrimônio ganha mais importância entre quem tem de 25 a 29 anos – nesta faixa, 31%consideram muito importante. Já no grupo de 15 a 19 anos, o número cai para 13%. Também é maior entre evangélicos (35%) do que entre católicos (20%). Quanto ao sexo, Mayara considera que o prazer não é uma prioridade porque os jovens estão sempre “na correria”, em busca de outras conquistas. “A preocupação é em estudar, se formar, arrumar um emprego, conseguir se manter. O sexo acaba sendo algo superficial, diante de tantos outros problemas que já temos que lidar.”

A professora Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da USP, concorda com Jairo que a relação com o virtual pode influenciar na baixa importância do sexo.

“Enquanto a internet explode de estímulos sexuais, a atividade presencial pode sim estar se ressentindo”, diz ela. “Como a libido é uma energia vital, que não necessariamente está atrelado ao sexo, pode ser que a atividade esteja sendo substituída por outra forma de entretenimento, tesão e prazer”, afirma.

Mestrando em antropologia na USP, Sasha Cruz chama atenção para outros pontos levantados pela pesquisa. Aponta, que a preocupação com a saúde pode estar ligada a questões psicológicas.

GESTÃO E CARREIRA

LIDERANÇA: QUAIS OS MAIORES DESAFIOS DE QUEM É CHEFE HOJE?

Em empresas e organizações, lidar com a saúde emocional dos colaboradores é um dos principais desafios contemporâneos – fora a carga tributária e a perspectiva de recessão. Essa é a opinião de Daniela Marques Medeiros, professora do curso de Liderança e Gestão de Pessoas da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP).

“O aumento cada vez mais expressivo nas taxas de afastamento por burnout, ansiedade, depressão e síndrome do pânico têm causado mudanças significativas na maneira de se liderar, especialmente após a pandemia. Outro importante desafio tem sido inserir a temática da diversidade no ambiente corporativo, o que tem levado a uma maior tentativa de adaptação por parte da liderança”, opina a especialista.

QUE TIPO DE LÍDER É VOCÊ?

Existem várias tipologias que buscam encaixar perfis em estilos conservadores, motivadores, democráticos, burocráticos, coach, aflitivo… e todos esses tipos são e devem ser partes de um líder.

“A liderança dita ideal deve saber transitar entre esses vários tipos de acordo com a necessidade. A questão sobre encaixar na empresa está mais vinculada à cultura da empresa e propósitos pessoais. A pessoa que é líder deve alinhar sua postura de acordo com a demanda e o objetivo a ser alcançado. Sendo assim, o líder que é flexível consegue ser muito mais adaptativo”, reforça Daniela.

LÍDER RUIM TRAZ PROBLEMAS PARA A EMPRESA

São diversos os problemas que um líder ruim pode trazer para a empresa, como a falta de alinhamento na equipe, que afeta diretamente a produtividade.

A liderança ineficaz pode causar desde desmotivação até assédio moral, o que é um peso absurdo para as empresas; desgaste mental e emocional dos colaboradores, que causa a incapacidade de seguir tendências; além dos problemas de insubordinação e quebra de hierarquia.

A liderança é base para a saúde da empresa, é uma competência, e toda competência pode ser desenvolvimento com estudo e treinamento. O primeiro passo é buscar informações, compreender em que estágio se está e identificar onde se pretende chegar.

A partir do estudo e diagnóstico inicial, é preciso ter atitude para treinar a liderança, seja em que nível for: familiar, profissional ou outros. Dentro da liderança existem várias competências a serem desenvolvidas: é um caminho sem volta de evolução e desenvolvimento constante.

EU ACHO …

HÁ LÓGICA NO MUNDO?

Nós, humanos, estamos nos juntando aos ciclos do passado para diminuir ou extinguir a vida.

Existem dois enfoques básicos sobre a harmonia da natureza. Há os que observam os astros e a vida na Terra como uma imensa e coordenada “dança cósmica”. As marés sobem e descem, as abelhas colhem o que necessitam das flores, o Sol ilumina, a Lua reflete e, assim, todos vivem o teatro natural com direção, sentido. Geralmente, os adeptos da harmonia universal buscam e defendem que um autor, na verdade um Autor, com letra maiúscula, seria a única possibilidade para explicar tanta inteligência diluída nas plantas, nos animais. Os adeptos desse enfoque destacam a ordem de tudo, perfeitamente inserida com propósitos elevados. No outro canto do ringue há os que não realçam harmonia ou coordenação. A natureza é instável e amoral. Houve, só na Terra, cinco extinções massivas da vida antes do período atual. Há 252 milhões de anos, por exemplo, 95% da vida sumiu. Talvez meteoro ou atividades vulcânicas estejam na chamada “extinção do Permiano”. Não foi causada por humanos que ainda estavam muito longe da existência. Foi um fato natural que alterou toda a forma de vida por aqui. Foi a mais ampla, porém não a única das extinções em massa.

A novidade atual é que nós, humanos, estamos nos juntando aos ciclos desastrosos do passado para diminuir ou extinguir a vida.

Os que se lembram desses desastres mostram planetas e estrelas em colisão, meteoros devastadores, cometas terríveis, terremotos monstruosos e vulcões que arrasam continentes. O balé coordenado do primeiro grupo vira uma rave confusa, com batida policial.

Para o segundo grupo, que analisa colisões e desastres, se existe um autor ou Autor, ele seria, no mínimo, confuso; no extremo, cruel.

Um universo harmônico, coordenado, onde tudo encontra seu lugar ou um cenário de sucessivos desastres cósmicos? Você certamente conhece representantes das duas visões da natureza. Talvez elas coexistam no churrasco da família ou no seu grupo de WhatsApp.

Existe um problema anterior aos dois polos da questão: fazemos leituras antropológicas do mundo natural. Dizer que a natureza é boa (ou que o mar está furioso) é uma projeção humana sobre fatos naturais. O mar não é “bom” ou “ruim”, não tem acessos de fúria ou de tranquilidade: a água não age por causa de traumas de infância ou por influência da filosofia estoica. A água age porque houve movimentos tectônicos, mudanças de temperatura, ventos, atração da Lua, etc. São equações físicas, químicas e não psíquicas.

Imprimir sentimentos aos fatos naturais é uma estratégia de criar uma lógica universal a partir do humano. As forças da natureza nunca são morais, boas ou ruins. As placas tectônicas se movem, e a energia vai atingir seres vivos na superfície. Morrerão (ou não) gente boa e malvada, filhotes de coala fofos ou cobras venenosas. A parede que cai pode matar um bebê ou uma aranha. O tsunami afoga- rá o bandido violento e o jovem engajado na luta pela justiça social.

Como o amoralismo universal da natureza nos desagrada! Gostamos de criar códigos artificiais a partir dos nossos valores que regeriam erupções vulcânicas e migrações de antílopes. Isso nos acalma como em uma festa onde os convidados chegam na hora, a comida é suficiente e boa, ninguém se excede na bebida, todos se divertem e, de forma educada, saem na mesma hora. A gaivota que come a tartaruga recém-nascida é indiferente ao meu afeto pelos animais. E, se eu salvar a tartaruguinha, talvez conde- ne a gaivotinha à fome.

Eu posso construir sobre qualquer base meu sistema ético. Posso defender a punição aos criminosos. Necessito de torcer pelos bons e desejar a premiação aos honestos. Isso pode ocorrer aqui no mundo ou, ainda, posso imaginar um além – onde cada erro será castigado e cada ação benemérita, recompensada. Isso acalmará minha consciência, de forma a instaurar uma ordem simbólica favorável aos meus valores. Não é um erro, apenas um desejo torna- do imaginário na floresta dos signos. O enredo não é da Natureza, porém meu. Minha mente é o supremo autor de qualquer ordem. Sou o talentoso criador de ficções que me acalmam. Minha angústia contra o império das coisas circunstantes pode se aninhar em sistemas morais. Os meteoros continuarão caindo sobre nós, e os terremotos acontecendo. Pessoas boas morrerão durante as pandemias, e canalhas sobreviverão. O contrário também ocorrerá porque a natureza não é boa ou ruim, ela apenas é.

No entanto, meu narciso e meu medo criarão lógicas e, dessa forma, saberei que o céu se abriu em um azul maravilhoso de primavera porque hoje eu tenho minha festa de casamento.

Agraciado pela proteção climática de algum maior, eu poderei casar em harmonia comigo, com as nuvens. Meu coração brilhará, como o sol lindo em outubro. Isso conforta mais do que supor que o jogo meteorológico não observou minha escolha matrimonial ou o aleatório dos meus compromissos. O céu claro e seco que favoreceu minha festa prejudicou o agricultor ansioso pela chuva que daria uma boa colheita. O céu me ama, protege-me e, por um mistério, odeia o agricultor.

Por isso, se há uma lógica no mundo, é o fato de que sou o centro dele. Minha mente adora dizer “Faça-se a luz!”. Assim, sou capaz de criar esperança. Um consolo?

*** LEANDRO KARNAL – É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras e autor de ‘A Coragem da Esperança’, entre outros

ESTAR BEM

ALONGAMENTOS DE FIBRA DE VIDRO PODEM CAUSAR INFECÇÕES NAS UNHAS

Dermatologistas afirmam que o procedimento feito em salões de beleza não é indicado para gestantes, alérgicos e imunodeprimidos

Os alongamentos com fibra de vidro prometem manter a unha esmaltada por mais tempo garantindo uma aparência natural, além de permitir a modelagem de acordo com o gosto do freguês: quadrada, redonda ou a famosa stiletto, ou seja, com a ponta afiada.

No entanto, infecções causadas pela técnica levaram questionamentos sobre a segurança do método. Afinal, como colar filamentos de fibra ao longo da unha pode criar uma festa para fungos e bactérias?

Reinaldo Tovo, coordenador do departamento de dermatologia do Hospital Sírio Libanês, afirma que o processo para colocar as unhas artificiais é, como um todo, problemático. Por serem posicionados dentro da cutícula, os filamentos machucam a matriz original.

“Problemas inflamatórios, às vezes infecciosos, no final, acabam deixando essa unha fraca e alterada”, afirma.

O dermatologista Leonardo Abrucio Neto, da BP- a Beneficência Portuguesa de São Paulo, diz que o procedimento é normalmente feito por aqueles que têm unhas frágeis e não procuram tratamentos fortalecedores adequados, o que piora o quadro.

Para o médico, o alongamento não deve ser feito de forma recorrente.

“Os dermatologistas como eu acreditam que isso é algo que deve ser feito com bastante parcimônia porque é um processo traumático que pode levar a matriz a gerar alterações definitivas e ficar irregular, com sulcos, com a superfície mais áspera, descolada”, aponta.

A técnica utiliza filamentos de vidro que são fixados na unha natural com um gel específico. Se fixados corretamente e seguirem a curvatura da unha, a promessa é de um visual natural com resistência e durabilidade.

Ao receber suas clientes, a designer de unhas Gi Camargo recomenda que as alérgicas à fibra de vidro não façam o procedimento. Ela ainda orienta que “se a pessoa perceber algo diferente depois do alongamento, o melhor é consultar um dermatologista para tirar a dúvida se fica ou não com ele”.

Entre os cuidados, a manicure aponta a manutenção a cada 15 ou 20 dias como essencial para evitar infiltração de água e outros agentes que possam levar a um quadro de infecção ou proliferação de fungos.

Profissional do ramo há 24 anos, Negra Ba deixou de usar a técnica. “Tenho algumas ressalvas por ser perigosa tanto para mim como profissional quanto para cliente, pois são microfibras de vidro, são microcortantes”.

Segundo ela, quando a fibra se quebra, pode afetar tanto o material quanto a unha. “Como pode estar esmaltada, a cliente não vai perceber e vai ficar aqueles dias com todos os fungos possíveis imaginários entrando porque ali tem um canal aberto.”

Entre as técnicas de alongamento, uma das mais antigas é a base de gel, que consiste em uma camada do produto aplicada diretamente na unha com manutenção a cada 20 dias, feita no máximo três vezes. Após o período, retira-se o produto por completo.

Já a técnica de alongamento com acrílico é feita a partir de uma massa com monômero líquido e pó acrílico. Com a ajuda de um pincel, a mistura é moldada pela profissional e a secagem é feita com luz natural. Sua manutenção é quinzenal.

A recomendação é que alongamento devem ser feitos por especialistas que dominem as técnicas e utilizem produtos certificados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Não devem fazer o procedimento gestantes, diabéticos, imunodeprimidos, pessoas que têm unhas muito frágeis, alérgicas aos componentes usados no alongamento, que tenham dermatite em outras regiões, tiveram alergia na infância ou tenham rinite ou asma acentuadas, segundo o dermatologista Leonardo Abrucio Neto.

Coceira e vermelhidão no dedo são os sintomas mais comuns. A pele do rosto também pode desenvolver dermatite de contato. Buscar ajuda médica especializada é fundamental para evitar que as manifestações se agravem.

O quadro pode piorar com sintomas como dor e sensibilidade nas unhas, manchas esbranquiçadas ou esverdeadas e formação de bolsas de pus. Em casos graves, mesmo com o tratamento médico tópico ou oral, a unha pode nunca mais se recuperar por conta da matriz danificada.

Como alerta o coordenador do departamento de dermatologia do Hospital Sírio Libanês, “toda vez que você mexe nesse aparelho ungueal, acaba por facilitar a incursão de fungos e bactérias que eram normais estarem sob a camada externa da pele”.

Ele diz que é importante manter a integridade da unha e sugere evitar a técnica por conta de sua agressividade com a região. “Do ponto de vista médico, pintar a unha é adequado. Fazer a cutícula não, mas é um modismo que a brasileira incorporou. No máximo, empurrar muito pouco a cutícula.”

Quem quer unhas saudáveis deve manter sempre a higiene da região. Evitar usar produtos à base de acetona e preferir removedores de esmalte. Além disso, a indicação dos médicos é usar luvas ao ter contato com produtos de limpeza fortes.

Já os profissionais que trabalham com as técnicas mencionadas, devem se proteger com luvas e máscaras durante o procedimento, além de lavar a mão após finalizar os alongamentos para retirar resquícios dos produtos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO CUIDAR DA CASA AFETA A SAÚDE MENTAL DAS MULHERES

Estudo mostra que a pressão para exercer o trabalho doméstico, associada ao emprego remunerado, causa também problemas físicos

No mundo inteiro, as mulheres realizam mais trabalho não remunerado – tarefas domésticas, cuidados com crianças e idosos e a carga mental de administrar uma família – do que os homens. Novas pesquisas sugerem que isso afeta a saúde de muitas delas.

Quanto mais desse trabalho as mulheres fazem, pior é sua saúde mental descobriu uma meta-análise de 19 estudos, abrangendo 70 .310 pessoas em todo o mundo, publicada este mês na revista The Lancet Public Health. O estudo analisou o trabalho não remunerado de pessoas que também tinham empregos remunerados. Outras pesquisas recentes descobriram ainda que o trabalho doméstico das mulheres está associado a problemas de saúde, tanto físicos quanto mentais.

As descobertas apontam para uma razão pela qual as mulheres são mais frequentemente diagnosticadas com ansiedade e depressão do que os homens, e ajudam a explicar por que, agora que as escolas estão abertas e as mães estão de volta ao trabalho, elas ainda sentem mais estresse do que antes da pandemia. Os efeitos desse trabalho adicional na saúde mental que as mães fizeram no período de isolamento, e ainda fazem, continuam.

“Demuitas maneiras, a covid paralisou ou, em alguns casos, reverteu alguns dos ganhos duramente conquistados na igualdade de gênero”, disse Jennifer Ervin, autora do estudo e doutoranda no Centro de Equidade em Saúde da Universidade de Melbourne, na Austrália. Mas, ela acrescentou, os resultados mostram que ”reduzir a carga desproporcional de trabalho não remunerado das mulheres, permitindo que os homens assumam igualmente sua parte, tem o potencial de melhorar a saúde mental das mulheres”.

O trabalho doméstico e os cuidados com os filhos, segundo a pesquisa, têm muito menos impacto na saúde mental dos homens. Provavelmente porque eles fazem muito menos disso. Nos Estados Unidos, as mulheres realizam em média 4,5 horas desse tipo de trabalho por dia, em comparação com 2,8 horas dos homens, segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. (O cálculo considerou as médias gerais, independentemente de as pessoas estarem empregadas). Na Grécia, as mulheres fazem 4,3 horas desse trabalho enquanto os homens fazem 1h30. Mesmo nos países com maior igualdade de gênero, como a Suécia, as mulheres fazem 50 minutos a mais por dia do que os homens.

Durante os lockdowns, os homens fizeram mais trabalho não remunerado do que antes, mas as mulheres também, de modo que suas partes totais permaneceram as mesmas. Isso foi verdade em vários países.

Mas isso também ocorre porque o tipo de trabalho que os homens fazem, geralmente é menos sensível ao tempo e mais agradável, ou pelo menos mais tolerável. Por exemplo, os homens são mais frequentemente responsáveis por tarefas ao ar livre, como cortar a grama, que são feitas com menos frequência e de acordo com o próprio horário. As mulheres são mais propensas a assumir tarefas diárias que precisam ser feitas em determinados momentos, como preparar refeições ou limpar.

PRESSÃO DA SOCIEDADE

Provavelmente as expectativas da sociedade também desempenham um papel. Estudos mostraram que as mulheres se sentem pressionadas a manter as casas limpas, por exemplo, e se sentem julgadas se não o fizerem. Os homens, por outro lado, são frequentemente elogiados por tarefas mundanas, como limpar uma casa ou levar uma criança a um compromisso.

O trabalho não remunerado em si não é problemático, segundo a pesquisa. O problema é toda a bagagem em torno disso – se ele entra em conflito com as outras responsabilidades de alguém, como o trabalho remunerado, e se é realmente o que alguém quer fazer.

A “pobreza de tempo”- um termo que os cientistas sociais usam para descrever a falta de tempo suficiente para trabalhar ou ter atividades de lazer ­ afeta particularmente as mulheres com demandas de cuidado e pessoas com empregos inflexíveis e mal pagos. A pobreza de tempo contribui para o declínio da saúde mental, mostra a pesquisa, e também torna mais difícil fazer coisas que melhoram a saúde, como se exercitar, dormir ou cultivar amizades. Um estudo descobriu que, embora os casais de sexo oposto sejam cada vez mais propensos a compartilhar a responsabilidade pelo trabalho remunerado e não remunerado, os homens têm significativamente mais tempo de lazer nos fins de semana. enquanto as mulheres fazem mais tarefas domésticas.

Em alguns casos, descobriu-se que aqueles que renunciam ao trabalho remunerado para cuidar dos filhos ficam mais felizes com o trabalho não remunerado -mas nem sempre. Depende de isso estar alinhado com o que queriam fazer, ou se sentiram que tinham pouca escolha a esse respeito.

“Não está claro que fazer uma quantidade maior ou uma parcela maior de trabalho doméstico não remunerado esteja negativamente associado à saúde física ou mental em si”, disse Daniel L. Carlson, sociólogo da Universidade de Utah, que estuda o assunto. “Mães que têm responsabilidade majoritária por essas tarefas, mas também são muito convencionais em seus papéis de gênero, aceitam essa responsabilidade. Mas para as mulheres que acreditam mais no igualitarismo essas responsabilidades levam a uma saúde mental mais deficiente.”

As identidades discordantes são parte disso, ele observou: “Eu quero ser essa pessoa, mas não sou”.

DIVISÕES DIFERENCIADAS

Surpreendentemente, embora os casais do mesmo sexo tendam a dividir a principal responsabilidade pelo trabalho e pela família depois de terem filhos, eles tendem a ficar mais felizes com a divisão. A pesquisa descobriu que é porque, frequentemente, há mais conversa sobre quem fará o que, em vez de uma suposição baseada no gênero.

Os pesquisadores da Lancet disseram que tirar conclusões definitivas dos 19 estudos era difícil e que mais pesquisas seriam bem-vindas. Uma lacuna na pesquisa acadêmica, que alguns estudos mais recentes estão começando a abordar, é uma visão mais detalhada de como os diferentes tipos de tarefas e responsabilidades afetam as pessoas.

As pessoas tendem a gostar mais de fazer compras do que de lavar roupa, por exemplo, e de cozinhar mais do que de lavar a louça. Cuidar das crianças pode ser mais gratificante do que o trabalho doméstico ­ e ler ou passear com uma criança mais agradável de que lidar com uma birra ou com um despertar às 3h da manhã.

Mas o que parece claro, concluíram os pesquisadores, é que quando os homens fazem mais trabalho não remunerado isso alivia os impactos nas mulheres.

OUTROS OLHARES

PRODUTOS PARA ALISAR O CABELO PODEM ELEVAR O RISCO DE CÂNCER DE ÚTERO

Estudo com pessoas que usaram alisadores nos Estados Unidos fez ligações preliminares com incidência da doença

Um estudo surpreendente encontrou associação entre produtos químicos de alisamento de cabelo e câncer de útero, deixando muitas mulheres que usam os produtos com dúvidas sobre a segurança dessa rotina de cuidados. A pesquisa, publicada segunda-feira, dia 17, no Journal of the National Cancer Institute, acompanhou milhares de mulheres americanas por mais de uma década.

Conforme o estudo, as mulheres que usaram produtos para alisar os cabelos mais de quatro vezes por ano eram duas vezes mais propensas a desenvolver câncer do que aquelas que não os usaram. As descobertas, relatadas pelo National Institutes of Health (NIH), são vistas como preliminares, e mais estudos são necessários antes de um aconselhamento específico.

RISCO

O novo estudo, lidera- do pelo Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental do NIH, analisou dados de quase 34 mil mulheres nos Estados Unidos do Sister Study, um estudo de uma década que analisou fatores de risco para câncer de mama e outros problemas de saúde entre mulheres de 35 a 74 anos.

Os pesquisadores descobriram que, durante esse período, 378 mulheres do Sister Study foram diagnosticadas com câncer e encontraram uma associação entre seus diagnósticos e certas rotinas de cuidados com os cabelos. Embora o risco geral de câncer fosse baixo, os pesquisadores descobriram que o risco parecia aumentar com o uso mais frequente dos produtos químicos. Entre as mulheres que usaram os produtos pelo menos uma vez no ano passado, 2,82% podem desenvolver câncer aos 70 anos – um risco 1,18% maior do que aquelas que nunca usaram os produtos. Entre os usuários frequentes de alisadores de cabelo – aqueles que usaram os produtos mais de quatro vezes no ano passado –, cerca de 4% podem vir a desenvolver câncer, o que se traduz em um risco 2,5 vezes maior em comparação com aqueles que nunca usaram os produtos.

O câncer de útero é raro, mas os casos e as mortes relacionadas têm aumentado nos EUA. Em 2022, estima-se que cerca de 66 mil mulheres foram diagnosticadas com câncer, e mais 12,5 mil pacientes morreram da doença, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer. Os dados mostram que as taxas de mortalidade são mais altas entre as mulheres negras não hispânicas.

Pesquisas mostram ainda que o câncer de útero, especialmente os subtipos mais agressivos, afeta desproporcionalmente as mulheres negras, mas o novo estudo descobriu que mulheres de todas as raças e etnias que usavam produtos químicos de alisamento de cabelo estavam em maior risco de desenvolver câncer.

No entanto, vale considerar que, como as mulheres negras relataram alisar seus cabelos com mais frequência, os pesquisadores sugeriram que pode ser mais um fardo para essa população.

TRATÁVEL

“Eu não acho que as mulheres negras estejam necessariamente em maior risco por usar esses produtos. Mas elas são mais propensas a serem as que estão usando esses produtos”, disse Alexandria White, que dirige o Grupo de Epidemiologia do Câncer dentro do Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental do NIH e é a principal autora do estudo.

Para Susan Taylor, professora de dermatologia da Perelman School of Medicine da Universidade da Pensilvânia, que diz esperar estudos adicionais sobre o assunto, a pesquisa “é suficiente para eu mencionar aos meus pacientes e para eles pensarem se precisam de fato alisar seus cabelos”. Médicos explicam ainda que o câncer de útero é tratável, com taxa de sobrevida em cinco anos para mulheres com a doença de 81%.

Os pesquisadores reconheceram no estudo que não analisaram os ingredientes específicos nos produtos de alisamento de cabelo que as mulheres usaram, mas levantaram a hipótese de que vários produtos químicos encontrados rotineiramente em tais produtos – formaldeído, metais e parabenos – poderiam estar associados ao aumento do risco de câncer.

GESTÃO E CARREIRA

COMO LIDAR COM PRESSÕES RELATIVAS À ELEIÇÃO NO AMBIENTE DE TRABALHO

Especialistas afirmam que a tentativa de persuasão do trabalhador e a constante exposição do voto pelo empregador podem ser classificadas como crimes eleitorais

A polarização política invadiu o ambiente de trabalho, esgarçando as relações entre colegas e entre chefes e empregados. Nas últimas semanas, vários casos de assédio explícito surgiram nas redes sociais.

Muitos são violações da legislação trabalhista, segundo Adriane Reis de Araújo, procuradora regional do Trabalho, como abuso de poder, sobrecarga de informação (com mensagens em grupos de WhatsApp), convencimento, manipulação, chantagem, persuasão, constrangimento, humilhação, promessas e ameaças. “É muito grave”, afirma.

Foi o que ocorreu em uma empresa de frutas de Pernambuco. Um funcionário, que pediu para não ser identificado por medo de retaliação, disse que seu chefe levou um candidato ao pátio da empresa para discursar. Não obrigou ninguém a votar, mas enviava mensagens e entregava “santinhos”.

Segundo a procuradora regional, o ponto de alerta está justamente na relação desigual entre o empregado e o empregador, já que este último detém “o valor econômico”.

“Além de violar os direitos trabalhistas, o assédio eleitoral também fere direitos individuais”, complementa a advogada Maria Laura Alves, especialista em Direito do Trabalho.

Apesar das práticas indevidas surgirem principalmente dos superiores hierárquicos, eles não são os únicos a cometer delitos no trabalho. O assédio eleitoral pode acontecer de forma horizontal, entre os funcionários. Sentimentos de ódio e raiva do colega por votar no candidato oposto ou pela ideologia política são fatores para um espaço com alto risco de relacionamento, diz a psicóloga Juliana Bley, especialista em segurança do trabalho.

Em situações onde não há espaço para o debate saudável, o ideal é sugerir outra opção. “Se não há habilidades sociais para conversas, os debates devem ficar fora do trabalho”, afirma a psicóloga.

Por outro lado, a implementação de acordos e códigos de ética é um caminho possível, mas cada empresa precisa estar atenta ao modelo adotado. Compliance e setores dedicados a evitar casos de violência, como a política, são bons exemplos em grandes companhias.

Já em pequenos comércios, existe a probabilidade da decisão vertical em que o patrão ordena o que é proibido, ou a horizontal, em que todas as vozes são ouvidas.

A advogada Maria Laura Alves reforça que os trabalhadores “não podem ser punidos por expressar opinião fora do ambiente de trabalho”, por exemplo, nas redes sociais pessoais. O funcionário tem direito a manifestar suas ideias, desde que não sejam contrárias à Constituição e à democracia.

Para formalizar denúncia é preciso estar munido de provas: áudios, fotos, vídeos e cópias de mensagens. Em caso de trabalhadores que são acompanhados por testemunhas, não é permitido que seja parente até 3º grau nem pessoas que tenham interesse no processo. As denúncias podem ser feitas no site do Ministério Público do Trabalho.

EU ACHO …

BASTIDORES DE UMA FAKE NEWS

Vou contar a história, alguns já conhecem. Em 1 de novembro de 2000, véspera de Finados, publiquei uma coluna chamada “A morte devagar”, toda ela com parágrafos iniciando da mesma forma: “Morre lentamente quem não troca de ideia… Morre lentamente quem vira escravo do hábito… Morre lentamente quem evita uma paixão….”. O recado era simples: nem sempre a morte nos colhe em definitivo, ela pode subtrair nossa vida em suaves prestações, à medida que colecionamos desistências.

O texto foi muito compartilhado por e-mail, a principal rede social da época. Não demorou, passou a circular com novo título – “Morre lentamente” – e novo autor: Pablo Neruda.

Um texto inédito do maior poeta chileno, Nobel de Literatura? Ganhou o mundo, claro, enquanto algumas pessoas, intrigadas, me mandavam mensagens: mas não foi você que escreveu? Ainda bem que a Fundação Neruda também tirava as dúvidas de quem a consultava, mas como esclarecer a grande massa de leitores que ignorava a estatura da obra de Neruda e que, inocentemente, acreditou na mentira sem averiguar?

Tempos depois, um repórter me ligou. Queria uma declaração sobre a reviravolta que havia acontecido na Itália. Ué, o que aconteceu na Itália? Ele me contou: Clemente Mastella, ex-ministro italiano da Justiça, havia lido o meu texto no Parlamento do país, atribuindo-o a Neruda. Seu discurso ganhou notoriedade na imprensa, pois comunicava sua renúncia ao cargo, precipitando o fim do apoio do seu partido ao governo de Romano Prodi, o que provocou a também renúncia do então primeiro-ministro. Olha a confusão.

Os jornalistas italianos logo descobriram o equívoco na atribuição da autoria e tive meus 15 minutos de fama por lá. A partir desse episódio, “Morre Lentamente” ganhou ainda mais repercussão, agora com minha assinatura recuperada. Passou a ser utilizado em aberturas de palestras nos Estados Unidos, virou letra de música na França, inspirou uma exposição de fotos na Índia, ganhou traduções mundo afora. Nunca ganhei um centavo com isso, é como se fosse de domínio público. Tudo bem, nem tudo precisa virar dinheiro. Me dei por feliz com a correção feita, com o alcance da leitura e guardei as lições. Mentiras se espalham mais rápido que a verdade. A maioria das pessoas acredita em tudo o que escuta e lê, sem checar. Um texto sem pretensões pode ganhar uma projeção inesperada, basta que algum detalhe seja manuseado.

Agora imagine o tamanho do estrago provocado pela avalanche de informações intencionalmente falsas que têm sido disparadas, de hora em hora, no WhatsApp. Por preguiça em conferir se é verdade antes de espalhar, podemos não só passar atestado de ignorantes, mas ajudar a matar o país lentamente.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

ESTAR BEM

ALONGAMENTO, UM ALIADO VITAL NA REPARAÇÃO DO CORPO

Especialistas defendem que hábito complementa trabalho de força e protege músculos e articulações depois ou durante atividades

No mundo dos esportes, o alongamento parece algo óbvio, um ritual dado como certo ao iniciar ou encerrar uma rotina de treinamento. A sabedoria popular defende que ele é um aliado para evitar lesões, gerar maior flexibilidade e proteger os músculos de uma possível fadiga durante os dias posteriores aos exercícios.

No entanto, há muitas pessoas que optam por pular essa prática e se recusam a incorporá-la como parte de sua rotina de exercícios, argumentando que ele consome seu tempo e que não enxergam os benefícios. Para outros, o alongamento é igual ou até mais importante do que o próprio treino. Há também aqueles que são indiferentes ao hábito.

São muitas teorias e mitos, porém não há pesquisas que validem ou contraindiquem a prática de forma definitiva. Mas o que se entende por alongamento? Segundo o especialista em fisiologia do exercício e alta performance Diego Demarco, ele consiste em realizar movimentos estáticos e sustentados por alguns segundos – até minutos – para alongar o músculo que se contraiu e encurtou durante a atividade física.

“Quando você termina de trabalhar, o músculo está a uma distância menor do que você começou, então é importante trazê-lo de volta ao seu tamanho original”, diz. Caso contrário, Diego explica que existe a possibilidade de contratura muscular e isso, na próxima sessão, limitará a produção de força. Para Francisco Piperatta, conhecido como o Urso Treinador, o alongamento prolonga a vida saudável.

“Com o passar dos anos, perde-se flexibilidade, entendida como a combinação entre mobilização, fortalecimento, alongamento, e destreza nos movimentos. Assim (mantendo o hábito), as pessoas são ajudadas a cuidar e manter sua estrutura”, afirma Piperatta.

MOMENTO IDEAL

Há uma discussão antiga sobre o melhor momento de fazê-lo. Os especialistas consultados enfatizam a importância de dedicar um tempo ao alongamento logo após o término da rotina de exercícios, pois os músculos ainda não esfriaram e, assim, podem se regenerar, reduzir a inflamação e se acalmar de novo. Depois, o passo não terá efeito e “o corpo sofrerá no futuro”, segundo Piperatta.

Com base nisso, Demarco sugere gastar o tempo que cada um considere necessário para se alongar. Ele incentiva o foco na respiração consciente e no relaxamento de cada músculo que está sendo trabalhado por uma média de 30 a 90 segundos.

“De qualquer forma, a intensidade e a forma de fazer vai depender do objetivo, do esporte e do físico de cada um”, defende.

Quando se trata do pré-treino na prática de qualquer atividade, os especialistas alertam para não alongar como parte do aquecimento, porque os músculos ainda estão frios e podem ser lesionados. Por isso recomendam uma etapa dinâmica, ou seja, em movimento, onde sejam realizados exercícios de coordenação, rápidos e explosivos por cinco a dez minutos.

“Essas ações estimulam e preparam as fibras para outros movimentos”, afirma a wellness coach Gaby Galvé.

Demarco sugere pequenos alongamentos entre séries, que abrangem os diferentes grupos musculares que estão sendo mobilizados. Ele aconselha ações de cinco a dez segundos, “para devolver ao músculo a vitalidade que atrofia ao treinar”, explica.

Outras vantagens do alongamento incluem manter as articulações ativas e fortes, evitar contraturas, diminuir revoluções e “dar ao corpo uma sensação de bem-estar e integridade”, diz Galvé.

Ele sugere reservar alguns minutos do dia para se alongar, descontrair e relaxar:

“Quando você se levanta de manhã, no meio do dia ou à noite para liberar a tensão.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FADIGA DE DECISÃO

Estudo aponta como esforço de pensar demais intoxica cérebro

Quem nunca saiu do trabalho se sentindo destruído depois de um dia longo e cansativo? Sem vontade de pegar o carro e voltar para casa, com os olhos ardendo, exausto até para um papo com os amigos? Um novo estudo conduzido pelo Paris Brain Institute (ICM) descobriu que essa condição, que acomete milhares de pessoas diariamente, pode ser prejudicial para a saúde mental. Isso porque tarefas com alta demanda, que exigem concentração intensa e constante, podem levar ao acúmulo tóxico de uma substância química chamada glutamato.

O glutamato é um neurotransmissor, uma proteína que transmite sinais entre neurônios no cérebro. Em quantidades excessivas, no entanto, pode alterar o desempenho da região cerebral envolvida no planejamento e na tomada de decisões, o córtex pré-frontal lateral.

“O glutamato é o aminoácido mais abundante no sistema nervoso central, agindo como neurotransmissor excitatório e atuando no desenvolvimento neural, na plasticidade sináptica, no aprendizado e na memória. No entanto, há uma concentração ideal para que ele tenha essas funções benéficas”, explica Arthur Danila, coordenador do Programa de Mudança de Hábito e Estilo de Vida do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

O psiquiatra diz que falhas nesses mecanismos regulatórios levam ao fenômeno chamado de excitotoxicidade, no qual células nervosas são danificadas ou mortas devido à estimulação excessiva por neurotransmissores como o glutamato.

TESTE DE ATENÇÃO

O trabalho dividiu os participantes em dois grupos. Ambos se sentaram em um escritório de frente para um computador por seis horas e meia. Alguns voluntários foram convocados a realizar tarefas difíceis que exigiam memória de trabalho e atenção constante, como classificar letras que apareciam na tela do monitor a cada dois segundos entre vogais ou consoantes, ou dependendo da cor da letra, maiúsculas ou minúsculas.

A segunda turma fez tarefas semelhantes, mas muito mais simples. Ambos os grupos conseguiram uma taxa média de 80% de respostas corretas. Os cientistas usaram espectroscopia de ressonância magnética para escanear os cérebros dos participantes e medir seus níveis de metabólitos. Os autores fizeram leituras no início, meio e fim do dia.

Os pesquisadores encontraram aumento de glutamato apenas no grupo de alta demanda, que foi detectado apenas no córtex pré-frontal lateral e não em outras áreas do cérebro, como no córtex visual primário.

Os dois grupos também tiveram que passar por testes de decisão, que incluíam escolhas sobre sua vontade de exercer esforço físico (andar de bicicleta em diferentes intensidades), demanda cognitiva (realizar versões mais difíceis ou mais fáceis de tarefas) e paciência (decidir quanto tempo estavam dispostos a esperar para receber uma recompensa maior).

Os autores descobriram que o grupo de alta demanda – ou seja, o que tinha usado mais o cérebro, estava fadigado e tinha um nível elevado de glutamato no cérebro – preferia escolhas menos exigentes. Entre elas, pedir comida pronta e ficar esparramado no sofá na frente da televisão.

As pupilas desses participantes estavam menos dilatadas, ou seja, não tinham excitação por estarem ali, ou pelas recompensas que poderiam receber. Eles também levavam menos tempo para tomar decisões, o que indica que eles experimentaram essa parte do experimento como pouco exigente.

“O acúmulo de glutamato desencadeia um mecanismo de regulação que torna a ativação do córtex pré-frontal lateral mais difícil de ocorrer. Com isso, o controle cognitivo passa a ser mais difícil de ser mobilizado após um dia de trabalho extenuante, e acaba desencadeando comportamentos de busca por prazer imediato, seja na compulsão alimentar, sexo ou compras desenfreadas”, diz Danila.

O glutamato pertence a classe de substâncias que são eliminadas durante o sono. O estudo confirma que as tomadas de decisões devem ser feitas com o cérebro limpo e relaxado, por isso é sempre melhor esfriar a cabeça, ir para casa e ter uma excelente noite de sono restauradora dos processos cognitivos para o dia seguinte fluir com maior leveza e sem desequilíbrio.

“Assim como as beta-amiloides, que são as proteínas de depósito do nosso cérebro, o glutamato é afetado pelo sistema glinfático, que atua na limpeza e tira o acúmulo que deixa o nosso cérebro pesado e cansado. Essa faxina é feita sobretudo durante o sono. Estudos já confirmaram que ficar 48 horas sem dormir tem o mesmo efeito de tomar quatro doses de vinho, pois o nosso cérebro está com excesso dessas proteínas”, diz o neurologista João Brainer Andrade, professor da Universidade Federal de São Paulo. Por isso, pessoas com privação do sono, depressão, insônia, aliadas a uma má alimentação e menos exercícios físicos, passam a ter menos concentração, disposição, energia e ficam mais inclinadas a agir com baixo esforço em busca de recompensas rápidas.

SOB PRESSÃO

Os médicos também sofrem com esse cotidiano de pressão excessiva. Um estudo divulgado pela JAMA afirma que a demanda cognitiva cumulativa de decisões pode corroer a capacidade desses profissionais de resistir a escolhas potencialmente inadequadas – o ato inclusive ganhou uma nomenclatura cunhada pelos psicólogos: fadiga de decisão.

De acordo com o estudo, os profissionais de saúde tendem a prescrever mais antibióticos desnecessários para infecções respiratórias agudas conforme as horas do plantão se estendem, pois é a forma mais fácil e segura de eliminar aquela bactéria do paciente.

A pesquisa analisou 21.867 consultas de infecções respiratórias agudas em 23 consultórios e observou 204 médicos. Da prescrições deles, 44% incluíram antibióticos, que foram mais progressivamente mais indicados ao longo das sessões clínicas.

Possíveis tratamentos e remédios para a fadiga de decisão podem incluir horários flexíveis e modificados, pausas obrigatórias entre os plantões para lanchar ou até mesmo socializar.

OUTROS OLHARES

OMISSÃO MÉDICA COM CLITÓRIS AFETA MULHERES

Falta de conhecimento sobre anatomia feminina faz pacientes perderem a sensibilidade na região após cirurgias

Se havia uma coisa que Gillian sabia, era que ela não queria um instrumento furador perto de sua genitália.

Assim, em 2018, quando um ginecologista recomendou uma biópsia vulvar para averiguar a presença de sinais de câncer, ela hesitou.

O médico desconfiava que uma pequena área de pele esbranquiçada que Gillian encontrara ao lado de seu clitóris era líquen escleroso, uma doença de pele que normalmente é benigna. Para Gillian, enfermeira registrada, retirar um pedaço da parte mais sensível de seu corpo lhe parecia um pouco extremo demais.

Mas ela acabou consentindo. Ele era médico, ela era enfermeira. Ela supôs que ele fosse a autoridade em relação a essa parte do corpo. “Nunca trabalhei com ginecologia e obstetrícia”, disse Gillian, que pediu para ser identificada só pelo primeiro nome.

Para a biópsia, Gillian foi colocada numa mesa com apoios para as pernas e recebeu uma injeção epidural a fim de anestesiar a área. Depois do procedimento, para conter o sangramento, o médico pôs uma mão sobre a outra e fez pressão forte sobre sua vulva – a genitália feminina externa, incluindo os lábios grandes e pequenos, a abertura da vagina e o clitóris. Mesmo anestesiada, Gillian sentiu a pressão sobre seu osso púbico. Ela gritou.

Um mês mais tarde, Gillian estava na cama com seu namorado quando percebeu que não conseguia mais chegar ao orgasmo.

Quando ela informou seu ginecologista, ele especulou que ela poderia estar com insensibilidade causada pela cicatrização e disse que o problema desapareceria com o tempo. Não desapareceu. Alarmada, Gillian começou a procurar um especialista depois de outro em busca de uma solução.

Foi quando ela descobriu que ninguém queria falar de seu clítoris. Quando ouviu sobre a lesão que ela sofrera, um urologista comparou Gillian a uma vítima de estupro e disse que ela possivelmente sofrera uma reação traumática.

Em seguida, uma especialista em saúde feminina fez o diagnóstico de perimenopausa e prescreveu creme de testosterona. Um ginecologista recomendou um procedimento de rejuvenescimento vaginal.

Quando Gillian tentava direcionar a conversa para seu clítoris, a reação dos especialistas era um olhar indiferente.

Segundo o urologista Irwin Goldstein, pioneiro no campo da medicina sexual, alguns urologistas comparam a vulva a “uma cidade pequena no Meio- Oeste”.  Ou seja, os médicos tendem a passar por ela, mal parando para olhá-la, a caminho de seu destino final: o colo do útero e o útero. É ali que acontece a ação médica de verdade: ultrassonografias, papa-nicolaus, inserção de DIUs, parto.

“O clitóris é completamente ignorado por praticamente todo o mundo”, disse Rachel Rubin, urologista e especialista em saúde sexual, de Washington. “Não há nenhuma comunidade médica que tenha assumido as pesquisas, os cuidados e o diagnóstico de problemas relacionados à vulva.”

Questionada sobre o que aprendeu sobre o órgão na escola de medicina, Rubin respondeu: “Nada que tenha ficado na minha memória. Se ele chegou a ser mencionado, foi uma consideração secundária, no máximo.”

Foi apenas anos mais tarde, quando estudou medicina sexual com Goldstein, que ela aprendeu como examinar a vulva e a parte visível do clitóris, conhecida como glande. Ela aprendeu que o órgão inteiro é uma estrutura profunda, composta principalmente de tecido erétil, que se estende na pelve e circunda a vagina.

Em um estudo de 2018 publicado no periódico Sexual Medicine, Rubin, Goldstein e colegas constataram que o fato de não examinarem a vulva e o clítoris leva médicos a deixar de tomar nota de problemas de saúde sexual.

Quase uma em cada quatro mulheres que procuraram a clínica de Goldstein tinham adesões clitoridianas, que ocorrem quando o capuz do clítoris adere à glande e pode provocar irritação, dor e redução do prazer sexual.

Os autores concluíram que médicos que atendem mulheres deveriam examinar o clitóris como questão de rotina. Mas a maioria “não sabe examinar o clitóris nem se sentem à vontade em fazê-lo”.

Essa omissão pode prejudicar as mulheres, além de homens trans, e outras pessoas com vulva. Já houve casos documentados de lesões ao clítoris em procedimentos que incluem cirurgias com malha pélvica, episiotomias realizadas no parto e até mesmo cirurgias de quadril.

Por que não sabemos mais sobre o clitóris? Para Rubin, o motivo é simples: o órgão está intimamente envolvido com o prazer e o orgasmo da mulher. E, até muito recentemente, essas temas não estavam no topo da lista de prioridades da medicina, nem sequer eram vistos como áreas apropriadas de pesquisa médica. Helen O’Connell, a primeira urologista de mulheres da Austrália, lembrou que quando ela própria foi à escola de medicina, o clitóris mal chegou a aparecer em cena.

Na edição de 1985 do livro didático médico “Last’s Anatomy”, que ela estudou, um corte transversal da pelve feminina omitiu o clítoris por completo, e aspectos da genitália feminina eram descritos como “mal desenvolvidos” e uma “falha” de formação genital masculina.

Para O’Connell, esse desinteresse médico generalizado ajuda a explicar por que seus pares urologistas se esforçavam para preservar nervos no pênis em cirurgias de próstata, mas não tinham o mesmo cuidado nas cirurgias pélvicas de mulheres.

O’Connell decidiu investigar a anatomia completa do clitóris, usando microdissecação e ressonâncias magnéticas.

Em 2005 ela publicou um estudo mostrando que a ponta externa do órgão – a parte que pode ser vista e tocada – é apenas a ponta do iceberg, equivalente à glande peniana. O órgão se estende abaixo da superfície e abrange dois bulbos em formato de lágrima, dois braços e uma coluna.

Quando deixam de apreciar essa anatomia, cirurgiões que operam nessa região correm o risco de lesionar os nervos sensíveis responsáveis pelo prazer e o orgasmo que percorrem o topo da coluna.

Em cirurgias com malha pélvica ou cirurgias da uretra, “as coisas podem estar em um fogo cruzado”, disse O’Connell.

Cada vez mais mulheres estão vindo a público falar de lesões que sofreram nessa região durante procedimentos de rotina. Uma delas é Julie, 44 anos, gerente de um escritório em Essex, a leste de Londres.

Em 2012 ela fez uma cirurgia de quadril para resolver uma dor de costas, e o procedimento a levou a perder a capacidade de chegar ao orgasmo. No ano passado ela compartilhou sua história publicamente no jornal The Telegraph, omitindo seu sobrenome.

Julie contou que acordou da anestesia sentindo dor lancinante na região do clítoris. O cirurgião lhe disse que ela ficara com um hematoma, e que o problema desapareceria. Alguns meses mais tarde, ela descobriu que não conseguia mais chegar ao orgasmo.

Ela passou dois anos fazendo buscas na internet até perceber que um poste cilíndrico posicionado entre suas pernas durante a cirurgia provavelmente esmagara seus nervos clitoridianos.

Julie comparou sua lesão à perda do paladar ou do olfato. “Já se passaram dez anos e ainda não consigo acreditar.”

Gillian ainda está tentando entender a causa de sua lesão. Terá sido a biópsia? A pressão esmagadora? Quatro anos e 12 especialistas mais tarde, ela já se conformou com o fato de que talvez nunca recupere aquela sensação. “Isso mudou minha vida inteira”, ela disse. “É arrasador, é uma coisa da qual você não consegue se recuperar. Nunca.”

GESTÃO E CARREIRA

TEMPO EM TROCA DE DINHEIRO

Até onde esse modelo de trabalho será sustentável?

Em uma breve conversa com nossos pais ou avós, notamos que a estabilidade em seus empregos, com a possibilidade de efetivação a cargos cada vez mais relevantes, era um dos maiores sonhos de todo profissional. Por muitos anos, essa premissa social era fortemente permeada no mercado, em um modelo pautado pelas horas de trabalho em troca de uma remuneração adequada para tal serviço

Mas hoje, após muitas mudanças e questionamentos colocados à mesa, especialmente pelas novas gerações, esse sistema já não se mostra sustentável, abrindo portas para soluções mais saudáveis às classes, que se não forem logo adaptadas pelas empresas, poderão levar à falência muitos negócios ao redor do mundo. Por anos, a lógica profissional aplicada no mercado era determinada pela ascensão de cargos em uma linha racional, recompensando os empregados por seus trabalhos prestados com remunerações crescentes conforme seu crescimento na companhia.

Um processo seguro, determinado e estável, que deixou de ser predominante em vista das novas demandas e exigências do mercado. A percepção de receber uma quantia justa frente a seus esforços se tornou alvo de questionamento perante as novas gerações, em vista de novos fatores que ganharam relevância e maior importância, como critérios de seletividade nos processos seletivos.

Muito mais do que ter um emprego registrado com um plano de carreira, as novas relações de trabalho estão se baseando, cada vez mais, no propósito dos serviços ofertados pelas empresas – e, acima de tudo, o quanto essas características estão alinhadas aos ideais e projetos buscados por cada profissional. Antes da pandemia, a tolerância sobre tais aspectos mais tradicionais era elevada, sem espaço para dúvidas sobre seus benefícios.

Mas hoje, após intensas mudanças nas relações de trabalho intensificadas ao longo do isolamento social, este modelo dificilmente continuará existindo por muito tempo – dando es- paço para propostas mais flexíveis que já podem ser vistas ao redor do mundo. Dentre tantos exemplos, o home office é um dos mais nítidos e significativos, viabilizando uma opção remota de trabalho que, há poucos anos, era inimaginável por muitos empresários.

Com a proposta de muitas empresas para a volta ao presencial, inclusive, diversos profissionais já se declararam completamente contra tal mudança, afirmando até mesmo a busca por oportunidades que tragam essa possibilidade do trabalho a distância, junto com outras vantagens que proporcionem uma melhor qualidade de vida.

Segundo uma pesquisa realizada pela página Festa da Firma, 85% dos profissionais gostariam que seus empregadores provessem mais iniciativas voltadas para a melhoria da saúde mental, uma vez que 67% declaram que sofreram sérios prejuízos nesse quesito em seus ambientes de trabalho.

Como solução para este cenário, muitos países europeus estão ofertando contratos de trabalho temporários para evitar jornadas extensas e desgastantes, enquanto, no Brasil, esse modelo ainda é encarado com maus-olhados por muitas organizações. Em complemento a essas variações trabalhistas, a oferta de benefícios flexíveis também deverá ser explorada mais a fundo.

Ao invés de serem disponibilizados via uma gama de opções predefinidas, muitas companhias já os dispõem por meio de uma quantia financeira em um cartão de crédito, dando ao empregado o poder de escolha para definir como e quando deseja gastar este valor. Para as empresas, essa opção se torna muito mais benéfica economicamente, uma vez que será dispensada de altas tributações que costumam incidir quando concedidos via depósito na conta dos profissionais.

É difícil determinar com precisão até quando o modelo de trabalho visto hoje continuará sendo exercido. Mas, algo é certo: conforme novas gerações forem dominando o mercado, a tolerância sobre jornadas mais tradicionais será cada vez menor – perdendo força para contratações mais dinâmicas e alinhadas a propósitos sociais, como a crescente onda do ESG em inúmeras empresas.

Nesse cenário, o empreendedorismo poderá ganhar cada vez mais destaque, como alternativa de carreira perante estes profissionais mais questionadores. O tempo em troca de dinheiro, certamente, não será o modelo predominante na grande maioria dos países. Em seu lugar, novos projetos sob demanda poderão emergir, com empregados cada vez mais especializados em seus segmentos de interesse e com políticas sociais bem mais definidas.

Neste momento de questionamento intenso, cabe às empresas se atentarem a essas novas demandas e se adequarem, de forma que não se percam e fiquem estagnadas perante seus concorrentes.

FERNANDO POZIOMCZYK – É sócio da Wide, consultoria boutique de recrutamento e seleção. https://wide.works/

EU ACHO …

A CRIAÇÃO DE DIFERENCIAIS

Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos Estados Unidos da América, disse que “sexo é para principiantes; os experientes gostam é de poder”. A questão central do poder é ser visto para não ser esquecido. Kissinger está certo. O que mais levaria certos políticos brasileiros que já tiveram tudo a continuar na vida pública até a degradação? O que leva alguém que poderia conviver mais com os netos, ter um hobby, desfrutar melhor a vida, o que leva esse alguém a se ver em situações constrangedoras? Para que continuar? Porque eles precisam continuar visíveis.

Por essa mesma razão, pessoas que têm certa exposição gostam de fazer um arquivo com tudo o que mencione seu nome. Eu, por exemplo, às vezes dou entrevistas para jornais e revistas. Eu dei a entrevista, sei o que falei, não preciso dela para me lembrar de nada mas mesmo assim quero recortá-la e guardá-la. Também por isso eu mando enquadrar a capa da revista com uma fotografia minha. Para quê? Ora, eu quero me ver vendo e sendo visto. Nem os serial killers fogem disso. Eles matam para ter exposição. Não é só o policial que recorta tudo o que saiu sobre o assassino nos jornais. O serial killer também guarda todos os recortes para se ver sendo visto. Assim, o maior castigo para um assassino desses seria não ter uma linha publicada nos jornais, seria ser ignorado.

O desejo de não ser esquecido assumiu muitas formas no mundo moderno. Até a desfiguração é uma forma de exposição – haja vista a trajetória de Michael Jackson, que se desfigurou a ponto de comprovar o filósofo Friedrich Nietzsche quando ele disse que “alguns homens nascem póstumos”. A desfiguração contínua fez com que Michael Jackson perdesse sua identidade até ganhar uma outra identidade pública.

Note que “identidade pública” é uma contradição em termos, pois a noção de identidade só faz sentido para um indivíduo. Mesmo assim, a “identidade pública” é um dos maiores desejos da modernidade. Por isso, tantas garotas pagam a agências e fotógrafos para fazer um book. Se uma mãe já não tem idade para desfilar nas passarelas, tenta a todo custo que sua filha tenha a exposição que ela não teve. Se alguém foi viajar, faz questão de postar as fotos num blog ou numa comunidade virtual.

No fundo, tudo isso é o mesmo grito: “Olha eu aqui”. Tudo é a personificação daquilo que Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro escreveram na música Pesadelo: “Você corta um verso, eu escrevo outro. Você me prende vivo, eu escapo morto. De repente olha eu de novo”.

Numa época em que todo mundo tem as mesmas condições e a mesma facilidade de se expor, seja no Facebook, no Orkut, no Twitter, o excesso de exposição devolve as pessoas ao anonimato.

No desespero para se destacar na multidão, a única chance que resta é criar um diferencial – e, nesse jogo, parece que agora vale tudo. Um exemplo disso está no livro Zonas úmidas, da jornalista inglesa Charlotte Roche. É um livro escatológico sobre uma garota de 18 anos que já experimentou de tudo sobre sexo. Essa moça não usa perfume convencional – ela passa a mão no próprio sexo e depois espalha o cheiro pelo corpo, numa forma extremada de demarcar o diferencial do seu desejo de exposição.

Pergunto: depois disso, que outro tipo de registro, de diário, faltaria ser escrito por uma garota? Temos o diário de Anne Frank, que narra todo o desespero por ter ficado trancada num gueto durante o Holocausto. O diário de Anne Sulivan, que trata da capacidade de alguém enxergar sem enxergar. O diário de Bridget Jones, uma mulher que se sente desconfortável consigo mesma e que pensa em homens e calorias durante 95% do seu tempo. Diários de adolescentes, de felizes e infelizes, de perdidos e achados, diários de todo jeito. Como alguém faz para se diferenciar se quase tudo já foi feito?

Um coloca piercing, o outro também. Um expande a orelha, outro imita. Uma transa com quem quer, a outra também. Uma faz tatuagem, a outra vai atrás. Faço mais uma, duas, três tatuagens, o outro faz quatro, cinco, seis, até só sobrarem os olhos. E aí voltamos à desfiguração, que leva à perda de identidade. Se todos têm tatuagem no corpo todo, o que virá agora? Tirar toda a pele certamente seria um diferencial, assim como se perfumar com os próprios cheiros ou descobrir uma outra coisa que ninguém fez para se distinguir na multidão.

Hoje, a diferenciação está ligada à exposição hiperbólica, ao exagero pleno, ao grotesco. Nos nossos tempos, o grotesco se tornou altamente sedutor. É a mulher com a bunda do tamanho de melancia, o seio explodindo de silicone, o lábio inflado como uma boia de sinalização. É o homem com os músculos estourando, com o cabelo hiperproduzido, com a vaidade desvairada de uma diva ou uma violência desmedida a troco de nada.

A hipérbole é mais necessária para quem está por baixo. Veja o exemplo dos Estados Unidos da América da década de 1970, quando a nação mais militarizada do Ocidente foi humilhada pelos vietnamitas. Para resgatar sua autoestima, hiperbolizou a figura do herói de guerra, do Rambo. Antes disso, era um país que cresceu dizimando os índios e, por isso, precisou hiperbolizar a figura do “mocinho” e do cowboy. Essa compulsão ao exagero faz com que a penumbra e o anonimato sejam ainda mais desesperadores.

Essa, de verdade, é a divina comédia humana.

ESTAR BEM

DOR E PRAZER MOLDAM OS TREINOS DE INICIANTES

Dividir os exercícios entre alta e baixa intensidade pode ajudar, mas gostar do que se faz é ainda a melhor opção

A primeira tentativa de Katy Kennedy de desenvolver o hábito de correr foi um fracasso. Ela se inscreveu em uma meia maratona, sofreu subindo e descendo as ladeiras de seu bairro para se preparar, depois lutou durante toda a corrida.

“Eu andei no último quilômetro, e alguém gritou para mim: ‘Corra!’. Eu fiquei tipo ‘não consigo’”, lembrou Kennedy, hoje professora na Universidade de Chichester, na Grã-Bretanha. “Foi horrível, na verdade. Achei que ia morrer. Então eu desisti de correr durante dez anos.”

Na oportunidade seguinte, ela decidiu fazer as coisas de modo diferente. “Eu queria ter uma experiência mais agradável”, disse. “E pensei: como posso aprender a curtir a corrida?”

Essa pergunta acabou impulsionando sua pesquisa de doutorado sobre as experiências de corredores iniciantes – como eles se sentem e como isso afeta sua capacidade de manter o novo hábito. E segundo seus colegas no campo emergente da psicologia do exercício as respostas são muito mais importantes para a saúde física e mental em longo prazo do que os detalhes monótonos de quanto tempo, com que intensidade ou com que frequência você se exercita.

Mas a conexão entre como uma rotina de exercícios faz você se sentir e se a continuará fazendo daqui a seis meses não é tão simples.

Se isso o deixa infeliz, como a experiência de Kennedy com a corrida, você provavelmente vai desistir. Se for muito fácil, por outro lado, pode achar chato – ou, talvez pior, inútil. Os praticantes mais comprometidos geralmente anseiam por uma certa quantidade de desconforto.

POR QUE O PRAZER É ÚTIL

De acordo com uma estimativa, 97% das pessoas concordam que a atividade física é importante para a saúde. E um estudo com 3.500 americanos adultos que usaram dispositivos portáteis para rastrear hábitos de exercícios descobriu que apenas 3,2% deles realmente atingiram o limite recomendado de 150 minutos de atividade moderada por semana.

Uma teoria para essa lacuna entre intenções e ações é que estamos muito ocupados para nos exercitar, o que propiciou o aparecimento dos treinos de alta intensidade ultracurtos e intervalados ao longo da última década.

Mas Panteleimon Ekkekakis, psicólogo do exercício e presidente do departamento de cinesiologia da Universidade Michigan State, acredita que a explicação é mais visceral: para muitas pessoas, o exercício parece desagradável.

Claro, no meio de um treino cansativo, até os amantes da academia muitas vezes classificam sua experiência como desagradável, e novos praticantes geralmente a odeiam. Mas depois, de acordo com Ekkekakis, praticamente todo mundo se sente bem.

Essa sensação pode acontecer simplesmente porque é muito bom terminar o treino. Ou talvez seja porque seu corpo produz sua própria versão de analgésicos opioides, as endorfinas, durante exercícios intensos, o que te deixa com uma sensação positiva persistente e desejo de voltar à academia.

Pesquisas, entretanto, sugerem que a sensação de leveza após o treino não se correlaciona com a prática de uma rotina de exercícios em longo prazo. Em vez disso, como você se sente durante o treino é um preditor mais forte. Se os primeiros treinos na piscina ou na academia forem muito duros, você pode supor que a dureza é inevitável.

Kennedy costuma ver isso entre os corredores iniciantes: “Eles diziam: ‘Bem, estou me sentindo mal, mas correr supostamente faz você se sentir mal. Portanto, continuarei nesse ritmo, em vez de apenas desacelerar ou caminhar’.”

Essa é a atitude errada, disse Kennedy; se você está tendo dificuldade, relaxe um pouco. E considere o que poderia tornar sua experiência mais agradável. Quando ela mesma retornou à corrida, por exemplo, deu prioridade para correr com outras pessoas.

Distrair-se com música, vídeo ou até realidade virtual pode diminuir o desconforto. E ajustes sutis em seu ambiente, como remover espelhos e evitar observadores críticos, podem tornar a experiência de treino mais agradável.

Como você pensa sobre seu treino faz diferença. Por exemplo, um estudo de 2018 de pesquisadores da Universidade Tufts e da Equipe de Ciência Cognitiva do Exército dos Estados Unidos descobriu que correr parecia mais fácil quando os sujeitos pensavam sobre isso de uma maneira desapaixonada e menos negativa, como imaginar que eram cientistas ou jornalistas examinando a corrida objetivamente no momento.

POR QUE A DOR É ÚTIL

A suposição subjacente é que os humanos estão programados para buscar o prazer e evitar o sofrimento. No entanto, isso é desmentido por nossos comportamentos: comer pimenta malagueta, escalar montanhas geladas, suar em saunas superaquecidas. Paul Bloom, psicólogo da Universidade de Toronto cujo livro de 2021 “The Sweet Spot” (O ponto delicado, em português) explorou esse paradoxo, sugeriu que um treino desagradavelmente intenso pode servir a vários propósitos. Não só a boa sensação ao parar, mas se esforçar é uma fuga de preocupações.

Bloom diz que os humanos não são hedonistas puros – nós também buscamos significado. E o significado, disse ele, muitas vezes está intimamente ligado ao sofrimento. Pesquisadores descobriram que as pessoas valorizam os móveis que elas mesmas montaram 63% mais do que os móveis pré-montados.

“As pessoas evitam o esforço, mas também é algo que podemos aprender a gostar”, disse Michael Inzlicht, colega de Bloom na Universidade de Toronto. Além do prazer, os humanos buscam coisas como competência, maestria e autocompreensão. “Você não pode conseguir isso sem se esforçar”, disse ele.

Inzlicht e seus colegas criaram uma escala do significado do esforço para medir o quanto as pessoas derivam propósito de fazer coisas difíceis.

Algumas realizam tarefas difíceis de má vontade, arrastando-se até a academia só porque sabem que fará bem a elas. “Mas outras, talvez você possa chamá-las de trabalhadores alegres, é para isso que elas vivem”, disse ele. “É o que as ajuda a dar sentido ao mundo.”

Novos trabalhos não publicados do laboratório de Inzlicht sugerem que, com o incentivo certo, as pessoas podem adotar gradualmente a perspectiva do “trabalhador alegre”. Para começar, Inzlicht sugeriu “engatinhar no esforço”: inclua alguns picos de 30 segundos, por exemplo. Então siga a dica dos designers de videogames, disse ele, e continue aumentando a dificuldade dos treinos apenas o suficiente para se manter interessado sem desanimar.

ENCONTRE UM MEIO TERMO

 Mesmo os atletas de elite não buscam sofrimento toda vez que saem pela porta. Na verdade, raramente o fazem.

No início dos anos 2000, Stephen Seiler, um cientista esportivo do Texas que recentemente se mudou para a Noruega, começou a analisar os hábitos de treinamento de atletas de elite em diversos esportes de resistência, incluindo remo, esqui cross-country, ciclismo e corrida.

O que ele encontrou contradizia a filosofia “sem dor não há ganho” que ele havia encontrado em sua própria carreira como remador.

Em todos os esportes, os melhores atletas pareciam gastar cerca de 80% do tempo de treinamento com um esforço relativamente baixo. Os outros 20% eram muito puxados. Essa distribuição de treino “polarizada”, como ficou conhecida, permitiu que os atletas acumulassem grandes quantidades de exercícios em se esgotarem, enquanto ainda colhiam os benefícios dos treinos de alta intensidade.

Essa divisão 80/20 permite que os profissionais e os guerreiros de fim de semana equilibrem prazer e significado.

Durante os treinos de baixa intensidade, os atletas conversam com amigos e geralmente se divertem. O treinamento de alta intensidade é difícil, mas os pesquisadores descobriram que os atletas de elite consideram esses exercícios os mais satisfatórios. Se você estiver se exercitando quatro vezes por semana, escolha um dia para se esforçar e mantenha os outros três fáceis.

Um teste para saber se você está indo com calma nos dias mais leves é a capacidade de falar em voz alta frases completas – o que pode exigir que você diminua a velocidade. Quanto aos dias difíceis, isso depende do seu nível de experiência e seus gostos, mas devem incluir, pelo menos, breves períodos de desconforto prolongado.

No fim das contas, a questão de saber se seu treino deve ser doloroso ou prazeroso pode ser equivocada, disse Inzlicht: “Eu realmente acho que é as duas coisas”, disse.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SAÚDE MENTAL ULTRAPASSA CÂNCER COMO PRINCIPAL PREOCUPAÇÃO

As pessoas estão mais preocupadas com a saúde mental do que com o câncer. Essa foi a constatação da pesquisa “Monitor Global dos Serviços de Saúde”, feita pelo Instituto Ipsos.

De acordo com o levantamento,36% dos entrevistados apontaram o bem-estar psicológico como o principal fator de preocupação, atrás apenas da Covid-19, citada por 47%. O câncer ficou em terceiro lugar como motivo de inquietação, mencionado por 34%.

A sondagem foi realizada entre os dias 22 de julho e 5 de agosto de 2022, com 23.507 pessoas, em 34 países: África do Sul, Alemanha, Austrália, Argentina, Arábia Saudita, Bélgica, Brasil, Canadá, Chile, China, Colômbia, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Espanha, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Holanda, Hungria, Índia, Indonésia, Irlanda, Itália, Japão, Malásia, México, Peru, Polônia, Portugal, Romênia, Suécia, Suíça, Tailândia e Turquia. A margem de erro é de 3,5 pontos percentuais.

Os entrevistados foram questionados sobre qual condição eles viam como o maior problema de saúde enfrentado pela população do seu país. Entre os tópicos estavam Covid-19, saúde mental, câncer, estresse, obesidade, diabetes, abuso de drogas, abuso de álcool, doenças cardíacas, tabagismo, demência, superbactérias hospitalares e infecções sexualmente transmissíveis.

No Brasil, os números refletem que a população tem as mesmas preocupações em relação à saúde. Aqui também a Covid ficou em primeiro lugar, apontada por 62% dos entrevistados. A saúde mental ficou na segunda posição, lembrada por 49%. O câncer vem logo em seguida, citado por 29%.

Em 2018, apenas 18% dos brasileiros disseram que a saúde mental era uma preocupação no país. Essa percepção cresceu no contexto da pandemia da Covid-19 – em 2020 foi mencionada por 27% e, em 2021, por 40%. A pesquisa não foi realizada em 2019.

No mundo todo, 27% dos entrevistados escolheram a saúde mental como motivo de preocupação em 2018. Em 2020, foram 26% e, em 2021, 31%.

Para Cassio Damacena, líder de Healthcare da Ipsos Brasil, a grande apreensão com a pandemia gerou uma discussão sobre saúde que foi ampliada para a saúde mental.

“A pesquisa evidenciou uma maior preocupação com a saúde mental em relação às medições anteriores. Essa preocupação vem se mantendo mesmo com a flexibilização e retomada da normalidade no pós-pandemia. Vários efeitos vividos pela população, em diversos países do mundo, amplificaram a preocupação com a saúde mental, o que sinaliza que para os próximos anos esta deve continuar sendo uma pauta da saúde da população brasileira”, observa. Levantamentos como esse, segundo Damacena, ajudam a evidenciar as necessidades da população para o setor público e as ações que devem ser realizadas.

“As pesquisas auxiliam não apenas no conhecimento, mas evidenciam as necessidades para o setor público e as ações que devem ser realizadas, como no suporte médico com psiquiatras, psicólogos e grupos de apoio, além de buscar formas de educar a população em como lidar com as questões trazidas pela pandemia. Essas ações direcionadas à saúde mental devem ser pauta, não somente do setor público, mas, também da saúde privada e do cotidiano da população”, ressalta.

OUTROS OLHARES

MANTO DE SILÊNCIO

Pesquisa revela que 7 em 10 mulheres veem menopausa como tabu no país

Embora seja um marco inevitável na vida das mulheres, a menopausa é considerada um tema deixado de fora da conversas pela maioria da população. É o que mostra uma nova pesquisa da empresa de higiene e saúde Essity, que entrevistou 2 mil brasileiras e constatou que sete a cada dez delas (69%) concordam que essa fase ainda é um tema tabu.

Especialistas apontam que não abordar a questão pode afastar mulheres do conhecimento necessário sobreo período, das maneiras de prevenir e amenizar os sintomas incômodos e de entender o que de fato acontece com o corpo quando ele deixa de menstruar.

O levantamento da Essity revelou também que, embora a estimativa seja de que em apenas três anos mais de um bilhão de mulheres vivenciem uma das fases associadas à menopausa no mundo, 55% das brasileiras disseram não gostar de falar sobre o assunto por ser ligado à velhice e à “deterioração” do corpo.

“Existe o estigma, que não é verdadeiro, de que a menopausa é ligada basicamente a um monte de sintomas ruins, ao envelhecimento, à perda capacidade sexual, o que é muito forte para alguém de 50 anos que hoje é uma mulher jovem”, explica a ginecologista e obstetra Marianne Pinotti, do grupo de cirurgia oncológica e mamária da Beneficência Portuguesa, em São Paulo.

Essa realidade da falta de informação não é restrita ao Brasil. Uma pesquisa do Reino Unido, encomendada para o Dia Mundial da Menopausa, celebrado dia 19 de outubro, mostrou ainda que 80% das britânicas entre 18 e 74 anos relatam estar “despreparadas” para o momento, e apenas 17% disseram saber amenizar os impactos no corpo.

“Nós percebemos na prática uma parcela bastante grande de mulheres que realmente conhecem pouco a respeito da menopausa e que, por isso, logicamente não estão tão preparadas quando esse momento acontece”, afirma o ginecologista Luciano de Melo Pompei, presidente da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

GAMETAS CONTADOS

Ao nascer, as mulheres já têm um número de folículos – células que vão desenvolver os óvulos – pré-estabelecido. Após a puberdade, elas passam a liberar esses gametas aos poucos durante os períodos férteis até a última menstruação, que é a chamada menopausa.

“A idade da menopausa é parecida no mundo todo, sempre por volta dos 48 aos 51 anos, porque o ovário nasce com a capacidade de produzir os hormônios, especialmente o estrogênio, para liberar os óvulos por um tempo limitado. Quando o ovário interrompe essa produção, a mulher para de menstruar”, explica Pompei.

Muitas pessoas confundem, no entanto, a menopausa com o período que a antecede, em que a liberação dos hormônios femininos começa a cair e provocar os sintomas característicos. Esse período, de forma mais ampla, é chamado de climatério – fase de transição do período reprodutivo para o não reprodutivo na vida da mulher.

Nem toda a mulher vive os famosos sinais da menopausa, porém a prevalência é alta. Segundo um estudo brasileiro, conduzido por Pompei e publicado no periódico Climacteric, cerca de 88% delas relatam os sintomas.

Embora mais de 30 sintomas sejam reconhecidos hoje pela ciência, a pesquisa da Essity mostrou que as principais queixas entre as brasileiras são as ondas de calor, por 69% das entrevistadas, e a irritabilidade, por 40%, seguidos por secura vaginal e insônia.

“A maioria das mulheres têm sintomas leves ou moderados durante dois ou três anos nesse período. Uma pequena minoria não sente nada, apenas para de menstruar, e outra pequena quantidade tem sintomas muito fortes durante muito tempo. Mas os sinais, na maioria das vezes, são passageiros e existem maneiras de controlá-los”, afirma Pinotti.

No primeiro momento, os especialistas explicam que o principal sintoma são as ondas de calor, também chamadas de fogachos. Segundo a pesquisa da Climacteric, geralmente elas surgem aos 47 anos, quando a produção do estrogênio começa a cair.

“Elas acontecem porque o estrogênio tem uma função de regulação térmica, de calor, e a hora que a produção dele abaixa, essa regulação fica desbalanceada”, explica a ginecologista.

Pinotti afirma que, assim como para os demais sintomas, as principais formas de amenizar as ondas de calor são alimentação adequada e uma rotina de exercícios.

GESTÃO E CARREIRA

COMO IMPULSIONAR A LIDERANÇA FEMININA NAS EMPRESAS

A presença feminina em cargos de liderança nas empresas ainda é tímida.

De acordo com dados do IBGE, apenas 37,4% dos cargos gerenciais existentes em 2019 eram ocupados por mulheres. O desafio para reverter o quadro é enorme, mas requer mais atenção ao se considerar a interseccionalidade, em que são levados em consideração aspectos étnico-raciais e de orientação sexual

“Existe uma infinidade de grupos, que infelizmente são ainda menos representados em cargos de gestão nas organizações. As mulheres negras são muito mais raras em cargos de diretoria e de gestão no país. Não se trata apenas de abrir mais espaços para mulheres dentro das organizações, mas também de uma mudança completa, tanto cultural, como estrutural, de toda a sociedade”, explica Daniela Brites, sócia da área de Gestão de Pessoas da EY.

Para Daniela, as mulheres desenvolvem um papel funda- mental na criação de ambientes mais acolhedores, criativos e com alta performance, promovendo um impacto e um resultado mais positivo nas organizações. Por isso, é funda- mental criar programas de liderança focados em mulheres ou processos de recrutamento específicos para contratação de grupos minorizados.

Em entrevista à Agência EY, a consultora fala dos de- safios, da resistência em aceitar lideranças femininas e a importância da equidade nas empresas.

QUAIS OS DESAFIOS DAS EMPRESAS PARA MUDAR O CENÁRIO APONTADO PELO IBGE?

“Estamos lidando com um cenário repleto de fatores históricos, culturais e sociais, que precisam ser desconstruídos com o tempo. Quando debatemos sobre liderança feminina nas empresas, inevitavelmente, precisamos englobar uma série de outros grupos intrínsecos a tal categoria.

Afinal, dentro de “mulheres” existe uma infinidade de grupos, que infelizmente são ainda menos representados em cargos de gestão nas organizações. As mulheres negras são ainda mais raras em cargos de diretoria e de gestão no país. Não se trata apenas de abrir mais espaços para mulheres dentro das organizações, mas também de uma mudança completa, tanto cultural, como estrutural, de toda a sociedade.

E, nesse contexto, as iniciativas empresariais têm um papel fundamental. Estamos falando da atuação e da adaptação e gestores e de setores de RH. É necessário englobar todos na organização de modo a encarar os processos seletivos ou promocionais de uma forma mais justa, honesta e com valores que não dizem respeito ao sexo, gênero e crédulo.

COMO ESTABELECER UM PLANO PRÁTICO E ESTRATÉGICO PARA AUMENTAR A PRESENÇA FEMININA EM CARGOS DE LIDERANÇA?

“Todas as empresas podem (e devem) promover ações para impulsionar a liderança feminina no mundo corporativo, criando oportunidades de desenvolvimento profissional e ascensão de carreira.

Para isso, criar programas de liderança focados em mulheres ou processos de recrutamento específicos para contratação de grupos minorizados é uma estratégia que vem sendo muito adotada pelas organizações. Muito se fala sobre os programas de mentoria e coaching, relevantes para o desenvolvimento de lacunas técnicas e comportamentais.

Muitas vezes, o maior problema com a falta de representação das mulheres no poder é a falta de bons modelos a serem seguidos. Mas há ainda outros dois direcionadores importantes: o patrocínio interno e o acesso a oportunidades que mudam a carreira de qualquer profissional de talento.

Observamos três ações que têm gerado um impacto positivo nesse movimento: atuação em projetos de grande visibilidade, atuação em projetos complexos e experiência a internacional. Mais importante do que ter as iniciativas a é garantir que as mulheres estão sendo consideradas na e mesma proporção que seus colegas homens.

AINDA EXISTE RESISTÊNCIA DE FUNCIONÁRIOS COM LIDERANÇAS FEMININAS?

“Existe uma questão cultural muito o forte nesse contexto, embora nas últimas décadas as mulheres venham ocupando novas posições no mercado de trabalho. Há ainda o preconceito e o descrédito em relação às capacidades das mulheres no espaço de trabalho.

E isso vai muito além das diferenças quanto às oportunidades das mulheres assumirem posição de liderança: há e desrespeito, assédio sofrido por muitas delas, disparidade – salarial de gênero e falta de políticas favoráveis à família.

Ainda que já existam soluções previstas em lei para situações como essas, o machismo enraizado em nossa sociedade contribui para o agravamento desse cenário.

Em cargos de liderança feminina isso pode ser percebido de forma ainda mais evidente, pois envolve muitas responsabilidades e decisões estratégicas e o que observamos, eventualmente, é que liderados ou diretores tendem a questionar escolhas ou desrespeitar sua autoridade.

COMO AS LIDERANÇAS FEMININAS PODEM SE FORTALECER NOS SEUS CARGOS E AJUDAR NA EQUIDADE?

“Acredito que as mulheres desenvolvem um papel fundamental na criação de ambientes mais acolhedores, criativos e com alta performance, trazendo um impacto e um resultado mais positivo nas organizações.

É preciso conscientizar a liderança predominantemente masculina e incentivar homens no poder a adotar alguns dos comportamentos de liderança mais eficazes, comumente encontrados em mulheres.

Isso pode ajudar a criar um debate produtivo nas empresas, construindo um ambiente muito mais equânime a partir de um conjunto de mindsets e comportamentos que abrem caminho para que homens e mulheres competentes avancem.

EU ACHO …

PINTOU UM CLIMA

Os homens se sentem confortáveis para dizer absurdos sobre corpos de meninas

Foi indignação o que senti quando tomei ciência de que o atual presidente sentiu ter pintado um clima entre ele e adolescentes de 14 anos de uma comunidade de São Sebastião, em Brasília.

Disse ele: “Parei a moto numa esquina, tirei o capacete e olhei umas menininhas. Três, quatro, bonitas, de 14, 15 anos, arrumadinhas, num sábado, numa comunidade. E vi que eram meio parecidas. Pintou um clima, voltei. ‘Posso entrar na tua casa?’ Entrei. Tinham umas 15, 20 meninas, sábado de manhã, se arrumando. Todas venezuelanas. E eu pergunto: meninas bonitinhas de 14, 15 anos se arrumando no sábado para quê? Ganhar a vida”.

Reações foram fortes apontando como era inadequado um homem de 67 anos se expressar dessa forma, enfatizar que essas meninas eram “bonitas”, “bonitinhas”, que eram “meio parecidas”, por ter presumido e insinuado que estavam ali para serem sexualmente exploradas. Enfim, um depoimento grotesco, principalmente vindo de um presidente da República. Mas o que chamou a atenção mesmo foi sua declaração “pintou um clima” e como isso o levou a voltar e entrar na casa onde elas estavam.

Apesar de ser uma declaração bem evidente, a partir da repercussão veio a alegação de ser tudo um grande “mal-entendido”. A atual primeira-dama, Michelle Bolsonaro, foi uma das pessoas que buscaram justificar a frase. Segundo ela, o atual presidente tem mania de falar “pintou um clima”. Ele seria uma pessoa que fala isso a todo momento para as mais variadas circunstâncias.

Ocorre que um levantamento do jornal O Estado de S. Paulo mostra que, em 128 lives de Bolsonaro registradas pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo entre 2019 e 2022, não houve a expressão uma única vez.

E ainda veio a conhecimento público que o lugar citado por ele de modo algum se tratava de um espaço de exploração sexual infantil. O que estava acontecendo ali era uma ação social para meninas refugiadas.

Ou seja, tudo um grande absurdo, uma mentira do começo ao fim, com trechos bem problemáticos no meio do caminho. E, mesmo sabendo se tratar de uma personalidade que faz uso de declarações absurdas a todo momento, desta vez ele se superou.

Por exemplo, dizer que todas as meninas se parecem é uma arrogância particular típica do grupo social branco. Lembro-me de que me diziam que eu era parecida com minhas primas, mesmo nós sendo completamente diferentes. Era só porque éramos negras. Isso vale para pessoas descendentes de famílias japonesas, chinesas, ou para o que acontece com os indígenas. O racismo busca homogeneizar grupos inteiros. “É tudo igual”, diz o colonizador. “Só nós temos a prerrogativa da diferença.”

Mas, sobretudo, acredito que o episódio nos mostra como abuso infantil e exploração sexual de crianças e adolescentes não são temas que podem ser tratados com leviandade. São inúmeras crianças e adolescentes estupradas anualmente no Brasil, fato este que trato reiteradamente nesta coluna e que penso que deveria ter cobertura de imprensa muito maior, bem como ser enfrentado por políticas públicas fortes, perenes e em todo o território nacional.

É um gravíssimo problema social e fonte de muitos outros que atingem toda a população, sobretudo as meninas e mulheres.

O fato de trazermos à luz a inadequação de parte da fala de Bolsonaro quando se refere a adolescentes como “bonitas” é importante para desnaturalizarmos a sexualização de crianças e adolescentes. Quando minha filha tinha apenas 13 anos, lembro-me de um comentário infeliz que ouvi: “Ela está um mulherão!”. E eu respondi imediatamente: “Ela é apenas uma criança”.

Os homens se sentem muito confortáveis para olhar, comentar e dizer coisas absurdas sobre os corpos de meninas. Eu me lembro que os olhares maliciosos de homens começaram quando eu tinha 11, 12 anos. Quando fui professora de escola pública, arrumava briga com professores que diziam coisas como “essas meninas de 14 anos sabem muito bem o que querem”. E eu os repreendia por olharem para elas. Há sempre uma tentativa de desresponsabilizar homens adultos por suas atitudes abusivas.

Em um país que tem em suas bases o estupro de mulheres e meninas – lembremos que essa realidade decorre desde a colonização -, prática essa que foi romantizada, inclusive por intelectuais que defendiam a democracia racial, há muito a ser feito. E não podemos mais admitir que um lugar de tanta responsabilidade como a Presidência da República seja também um lugar de comportamentos e declarações tão rebaixados.

DJAMILA RIBEIRO – Mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais

ESTAR BEM

OS MELHORES EXERCÍCIOS PARA COMBATER A CELULITE

Especialistas ensinam o que deve ser feito para reduzir ou evitar o problema, além de atividades aliadas da pele

A palavra celulite costuma ser uma das mais temidas do universo feminino. As ondulações na pele são uma das eternas batalhas que as mulheres enfrentam em algum momento da vida. Cobri-las, escondê-las, às vezes até o impossível é feito, mas lidar com isso não costuma ser um desafio fácil e muitas vezes é em vão, porque elas ainda vão continuar lá. No entanto, existem maneiras de combatê-las ou atrasar seu aparecimento.

Segundo dados da Europa Press, entre 90% e 98% das mulheres sofrem com a celulite em alguma fase da vida. Diante dessa situação, o exercício físico se tornou um dos aliados para combater as covinhas espalhadas pelo corpo.

A atividade colabora no processo de firmeza da pele e queima da gordura que se acumula por baixo dela, produzindo as celulites. O desafio é fortalecer ou tonificar as pernas, principalmente a parte superior e interna das extremidades, uma das áreas mais afetadas por essa condição, que costuma aparecer pela primeira vez durante a adolescência.

“A celulite é uma alteração no tecido celular subcutâneo, está localizada acima do músculo e abaixo da pele. É acompanhada de acúmulo de gordura, retenção de líquidos, fragilidade capilar e variação na microcirculação”, explica a dermatologista Clarisa Rodríguez.

De acordo com a médica, a razão pela qual essa área é mais propensa a ser acometida por essa patologia tem ligação com os hormônios.

“Essa área possui um número elevado de receptores hormonais que fazem com que níveis mais altos de gordura sejam depositados e uma matriz extracelular seja gerada”, explica.

Quando se trata do que pode desencadear o problema, há muitos fatores que se somam. Segundo Rodríguez, o principal gatilho é a genética. Por sua vez, a celulite pode indicar um distúrbio hormonal ou um estilo de vida sedentário, mas ao contrário da genética, essas duas questões podem sofrer intervenção.

COMO TRATAR

Embora acometa uma região específica do corpo, existem muitas maneiras de treiná-la. O preparador físico, Francisco Piperatta, conhecido no mundo fitness como Trainer Bear, recomenda a realização de exercícios de baixo impacto, localizados e utilizando o peso corporal, além de adicionar cargas e até elásticos. Paralelamente, sugere também a prática de aeróbica, como caminhadas, elíptico, bicicleta ou zumba no mínimo três vezes por semana, de 30 a 40 minutos.

“A variedade de atividades a fazer é ilimitada e, com base nisso, o fundamental é que cada pessoa encontre o que se sente melhor de acordo com suas características e condições físicas”, afirma o treinador.

Piperatta ressalta que trabalhar essa área do corpo traz também uma série de outros benefícios paralelos: fortalece os músculos, melhora o equilíbrio, a postura e, consequentemente, ajuda a prevenir lesões.

Para a médica Alejandra Hintze, membro da diretoria da Associação Argentina de Médicos do Esporte, há dois fatores que tornam a celulite menos perceptível. Primeiro, que a pessoa tenha pouca gordura sobre o músculo e boa musculatura, ou seja, tonicidade que só se consegue fazendo trabalho de força.

Outro aspecto que os especialistas consultados enfatizam é que o treino seja acompanhado de uma boa alimentação, baseada principalmente no consumo de proteínas, alimento que ajuda a reduzir a gordura corporal e define sua estrutura.

“Tudo o que comemos afeta a pele, para o bem ou para o mal. Uma alimentação equilibrada, consciente e variada é outro dos pilares fundamentais desse processo e que vai ajudara mantê-la saudável”, afirma Francisco Piperatta.

A hidratação à base de muita água também não deve ser negligenciada, pois “durante os treinos o corpo perde muito líquido, fazendo com que a pele seque e perca elasticidade”, explica o treinador.

Agora, para todos os supersticiosos sobre o que evitar para que esse fenômeno não aumente, Hintze derruba mitos e comenta que, embora atividades de alto impacto e vibração, como a corrida, possam estimular essa condição porque potencializam o movimento da pele, “é importante notar que a celulite é um processo natural do corpo que ocorre ao longo do tempo, por isso é melhor fazer amigos e não se privar do esporte, que sempre será mais benéfico do que um estilo de vida sedentário”, reflete a esportista.

EXERCÍCIOS

Piperatta dá exemplos de atividades para combater e prevenir a celulite, e recomenda que cada uma acerte o peso e a intensidade de acordo com o que mais lhe convém. Além disso, ele insiste na importância de cuidar da postura durante todo o processo para evitar possíveis lesões e dores.

ESTOCADAS

*** Separe os pés na largura do quadril;

*** Mantenha a postura ereta com os olhos voltados para a frente e os braços nos quadris para não perder o equilíbrio;

*** Avance dando passos com as pernas dobradas;

MOVIMENTOS ALTERNADOS

Você pode adicionar um pouco de carga usando alguns halteres.

AGACHAMENTO COM ELÁSTICO

*** Coloque a faixa na altura dos joelhos para gerar maior trabalho de força;

*** Separe as pernas um pouco mais do que a largura dos quadris;

*** Desça o máximo possível com as costas retas e os olhos voltados para a frente;

*** Mantenha os joelhos para fora, certificando-se de que eles não ultrapassem as solas dos pés.

CHUTE DE TORNOZELO

*** Coloque uma cinta de tornozelo em cada perna;

*** Fique de quatro, certificando-se de estar em linha reta;

*** Estique uma perna 90 graus e chute para cima;

*** Faça pernas alternadas;

*** Também pode ser feito com um alongamento ou em pé lateralmente.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

8 A CADA 10 JOVENS RELATAM PROBLEMAS DE SAÚDE MENTAL

Ansiedade e até pensamentos suicidas afetaram brasileiros de 15 a 29 anos recentemente

Durante suas crises de ansiedade, cada vez mais frequentes, a atriz e influenciadora manauara Evelyn Félix, 23, passou a filmar o próprio rosto angustiado, às vezes com os olhos cheios d’água.

“Queria mostrar um outro lado da minha vida, muito diferente daquela rotina fake das redes sociais”, diz. “Cheguei num lugar em que me sentia vazia e desesperada. Às vezes, não queria nem acordar”, lembra ela, que hoje está em tratamento.

As imagens que ela fez foram publicadas numa rede social e o vídeo viralizou. É um sinal dos tempos.

Oito a cada dez brasileiros de 15 a 29 anos apresentaram recentemente algum problema de saúde mental, segundo dados inéditos de pesquisa.

A maioria desses jovens sofreu com pensamentos negativos (66%), dificuldade de concentração (58%) e crise de ansiedade (53%). E uma minoria significativa relatou ter transtornos alimentares (20%) e pensamentos suicidas (13%) ou ainda ter ferido o próprio corpo por meio de automutilação (6%). Mais da metade (51%) considera sua saúde mental como regular, ruim ou péssima.

No levantamento, foram ouvidos mil jovens entre 15 e 29 anos em 12 de algumas das maiores capitais do país. Feita em 20 e 21 de julho deste ano, a pesquisa tem margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos.

A identificação dessas sensações e comportamentos não pode ser tomada como diagnóstico, afirma a psiquiatra da infância e adolescência Gabriela Viegas Stump, que atua no Hospital das Clínicas e no Sírio Libanês, ambos em São Paulo.

Por outro lado, os relatos da sensação de tristeza, ansiedade ou do que os jovens autodenominaram como depressão, afirma a profissional, ou indicam que essas pessoas estão com um problema de saúde mental ou precisam ser tomadas como fator de risco de desenvolverem problemas no futuro.

Esses e outros sintomas enfrentados pelos jovens brasileiros em tempos recentes se intensificaram após a pandemia da Covid-19, ao mesmo tempo em que aumentou o diagnóstico formal de ansiedade e de depressão entre crianças e adolescentes no mundo inteiro, numa espécie de pandemia de adoecimento mental.

“Estudos mostram claramente um aumento do índice de problemas de saúde mental entre jovens e uma intensificação desse aumento no pós-pandemia”, afirma Stump. Ela aponta que houve tanto uma crescente nos problemas entre pessoas que já tinham patologias prévias quanto uma ampliação de quadros novos de depressão e ansiedade.

Especialistas apontam que a vulnerabilidade jovem tem a ver também com a maior exposição a violência doméstica e parental que ocorreu no período de confinamento e com a perda de fatores importantes de proteção da mente, como a frequência à escola ou universidade e a prática de atividades esportivas, aspectos prejudicados nos últimos anos por causa da pandemia.

De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), metade de todas as condições de saúde mental começam por volta dos 14 anos, mas a grande maioria dos casos não é diagnosticada ou tratada. E as consequências dessa falta de cuidado tem repercussões na vida adulta, limitando oportunidades futuras.

Uma análise feita no âmbito da LSE (London School of Economics), no Reino Unido, estima que transtornos mentais que levam jovens à incapacidade ou à morte acarretam uma redução de contribuições para as economias de quase US$ 390 bilhões por ano.

A pesquisa aponta que esses problemas são mais relatados por meninas e mulheres (90%) do que por meninos e homens (76%). Também surge com maior frequência entre pessoas que se identificam como LGBTQIA+ (92%) do que entre aqueles que se declaram heterossexuais (81%).

Uma maior suscetibilidade da mulher a alguns sintomas, afirma Stump, podem estar relacionados às questões hormonais da adolescência. “Mas devemos levar em consideração que existe uma diferença cultural de gênero e que mulheres parecem ter menos vergonha do que homens de se colocar no lugar de alguém que precisa de cuidados de saúde mental”, afirma.

Estudos internacionais também apontaram que pessoas LGBTQIA+ têm duas vezes mais chances de se sentirem deprimidas e de 2 a 6 vezes mais risco de cometerem suicídio.

“São pessoas que têm menos suporte emocional da família, mais chance de sofrer bullying, de viver em meios segregados, de não poder expressar sua identidade. Tudo isso torna a população LGBT como a de maior risco de problemas de saúde mental”, avalia.

A literatura médica internacional que se debruça sobre a questão da saúde mental pós-pandemia aponta que jovens se queixam de solidão duas vezes mais que outras faixas etárias. Pesquisas também apontam que automutilação e ideações suicidas aumentaram no grupo em todo o planeta.

No Canadá, pensamentos suicidas cresceram de 6% para 18% entre jovens. Nos Estados Unidos, de 17% para 27%. Na China, de 23% para 30%.

“Houve um aumento muito importante de tentativa de suicídio de adolescentes. Nunca tive tantos pacientes internados por tentativa de tirar a própria vida”, relata a psiquiatra. Stump salienta a importância do crescente movimento de atenção à saúde e de diminuição de estigmas, o que permite que mais pessoas se sintam à vontade para buscar ajuda.

“É preciso que haja uma maior conscientização de que existem possibilidades de tratamento psicológico e psiquiátrico para problemas de saúde mental”, alerta. “São condições tratáveis, e com repercussões muito importantes no bem-estar das pessoas.”

Foi assim com a influenciadora de Manaus Evelyn Félix. “Fiquei anos tentando viver de maneira boa sem o auxílio de ninguém e, depois de muito sofrimento, decidi buscar ajuda de alguém que não me julgasse pelos meus pensamentos e que me ajudasse a encontrar novos meios de lidar ou reverter minhas crises”, diz. “A ajuda profissional tem sido fundamental”, comemora.

OUTROS OLHARES

MAIORIA DOS BRASILEIROS NA FAIXA ETÁRIA DE 15 A 29 ANOS NÃO CONVERSA COM OS PAIS SOBRE SEXO

Menos da metade dos jovens brasileiros conversam com os pais sobre assuntos considerados tabus. Aqueles que falam com os pais sobre consumo de drogas são 47%, enquanto os que falam sobre problemas com seus namorados 45%. Se o assunto é a vida sexual, o número cai para 40%.

Temas considerados menos delicados, como o desempenho escolar, é tema de diálogo para 67% deles, e o consumo de bebidas alcoólicas, 57%.

O levantamento também mostrou que as mulheres têm mais disposição do que os homens para falar sobre todos os assuntos questionados.

A maior discrepância é em relação aos problemas de relacionamento, em que 51% delas declaram conversar com os pais contra 39% deles, seguido por consumo de drogas, com 50% das mulheres e 39% dos homens, e vida sexual, com 43% contra 37%.

Para essa pesquisa, foram ouvidos mil jovens de 15 a 29 anos, de 12 capitais brasileiras, entre os dias 20 e 21 de julho deste ano. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos.

Especialistas dizem que adolescentes buscam independência em relação aos pais e, por isso, é normal que evitem falar sobre alguns assuntos. A diferença geracional e a facilidade dos jovens em buscar informações por outros meios como a internet podem acentuar a dificuldade em estabelecer diálogo.

Para Manuela Moura, psicóloga na UFBA (Universidade Federal da Bahia) e especialista em terapia de casal e família, a abertura para conversar sobre esses assuntos deve partir dos pais, mesmo que pensem diferente dos filhos. Para isso, é necessário que os tabus sejam deixados de lado – sexo, drogas e relacionamentos fazem parte da vida e precisam ser discutidos.

“Para ouvir o que seu filho ou sua filha tem a dizer, você não precisa concordar. Eles vão dizer coisas que são diferentes, você vai dizer que discorda, mas que isso seja feito de um jeito que não seja pela via da violência, dos xingamentos e da desqualificação”, afirma.

É o caso da estudante de arquitetura Rafaela Azevedo Neves, 21, moradora de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Rafaela diz que ela e a irmã sempre tiveram abertura para conversarem sobre tudo com os pais, mesmo assuntos considerados polêmicos. O acolhimento que sentem desde a infância foi determinante para estabelecer esta confiança, afirma.

O projetista Flávio José Neves, 53, pai das meninas, afirma que esta era uma preocupação da família. Ele e a mãe, a vendedora Luciana Azevedo Neves, 51, temiam que, caso se isentassem de conversar sobre temas difíceis dentro de casa, elas se informariam sobre eles por meio dos amigos ou pela internet.

“Se a gente criar esses tabus aqui dentro, vai vir de fora. Vindo de fora, a gente não sabe como vai chegar”, diz.

Para a psicóloga da UFBA, esse tipo de dinâmica familiar faz com que o jovem entenda que pode contar com a família, mesmo que pensem diferente. Por outro lado, quando os pais adotam posturas muito críticas e combativas, isso pode se transformar em afastamento e falta de confiança.

Hostil é a palavra que Evelyn Xavier, 22, usa para descrever a reação da sua mãe quando soube que a filha fez sexo pela primeira vez. Moradora de São Paulo, a estudante sempre morou apenas com a mãe, de quem era muito próxima. Aos 15 anos, quando mudou de escola para cursar o ensino médio, a relação entre elas começou a mudar.

O contato com pessoas diferentes fez com que a então adolescente se aproximasse de ideias mais progressistas e se envolvesse com pautas sociais, como o feminismo. Sua mãe, porém, não aprovou a mudança. Quando a estudante deixou de acompanhá-la em cultos evangélicos, esse afastamento se intensificou.

Embora Evelyn não culpe a mãe pela forma como reagiu em relação às mudanças da filha, a jovem afirma que teria tido menos dificuldade se tivesse conversado sobre as novas experiências.

“Todo mundo sabe que se você vai começar a transar precisa usar camisinha. Eu sabia que precisava usar, mas não sabia como colocar, por exemplo. Muita coisa eu só aprendi depois que comecei a fazer. Isso eu acho que poderia ter sido melhor trabalhado se tivesse acontecido uma conversa anterior”, diz.

Para a psicóloga Talita Fabiano de Carvalho, presidente do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, devido a falta de suporte e o despreparo de alguns pais, a escola deve estar capacitada para assumir esse papel, além de criar um ambiente em que assuntos sejam discutidos e ensinados sem tabus.

Para as especialistas, a autonomia do jovem é importante para o amadurecimento, mas a liberdade para conversar com os pais sobre qualquer assunto é fundamental para a construção da maturidade e da confiança emocional.

O principal passo para estabelecer essa confiança é a alteridade – é preciso entender que o jovem pode pensar de maneira diferente e que isso precisa ser respeitado.

GESTÃO E CARREIRA

TÉCNICAS CAPAZES DE MANTER UMA EQUIPE MOTIVADA E PRODUTIVA

Existem muitos questionamentos sobre como manter uma equipe motivada e produtiva. Nos últimos anos, as metodologias de treinamento e os conceitos sobre a gestão de pessoas se modernizaram e tiveram grandes mudanças tratando colaboradores como peças fundamentais para alcançar o sucesso em uma companhia.

De acordo com Karen Julliet Cartagena Rodriguez, especialista em gestão de talentos, algumas características podem definir se uma equipe é produtiva ou não.

O ponto inicial é a autogestão individual. A primeira liderança que exercemos é sobre nós mesmos e, por isso, saber como gerir bem seu tempo, cuidar de seus hábitos, rotinas, saúde mental, aptidão física e bem-estar na maioria das vezes, faz com que a pessoa realize suas atividades com maior agilidade e eficiência.

Existem ferramentas de gestão que são capazes de manter uma equipe produtiva.

O time deve estar sempre alinhado e preparado. Quando cada pessoa da equipe está olhando para um objetivo diferente, as entregas e projetos não saem como esperado atrasam e não dão resultados. É importante garantir que todos estejam em constante desenvolvimento para que isso não ocorra.

Lembrem-se que o talento vence jogos, mas só o trabalho em equipe ganha campeonatos. Construa confiança e crie uma cultura na qual as pessoas enxerguem o feedback como uma forma de melhorar e se desenvolver. Defina metas, mantenha o foco no que realmente importa e faça com que a comunicação aconteça de forma objetiva entre os colaboradores.

Para a gestora, a capacitação das equipes é primordial para que os colaboradores de uma empresa desempenhem seu papel com maestria. Durante a pandemia, ficou ainda mais evidente que um bom gestor é aquele que dá o suporte que seus liderados precisam, atendendo as necessidades individuais dos mesmos. E o treinamento faz parte disso. Ninguém consegue alcançar o objetivo planejado sem saber como chegar lá.

O gestor precisa mapear constantemente os gaps de seus colaboradores e desenvolvê-los de acordo com as suas capacidades e ferramentas disponíveis. Uma empresa é definida pelas pessoas que estão nela, e o treinamento constante garante que as pessoas estejam testando coisas novas e melhorando processos.

Quando os resultados apresentados não são os esperados, é importante buscar a verdadeira causa do problema em relação a cada colaborador. Podem ser muitas as variáveis causantes da baixa performance. Sabendo disso, acredito que todas as pessoas devem ter suas chances de melhoria e, nesse caso, é importante uma pausa para fazer o alinhamento entre líder e liderado.

A ferramenta mais assertiva para isso é o feedforward, que ajuda o colaborador a entender onde quer chegar e qual caminho percorrer para alcançar os objetivos planejados. Essa abordagem permite a visualização de competências e comportamentos futuros que devemos trabalhar e desenvolver nesse determinado profissional. Ouvir os colaboradores é fundamental para humanizar uma empresa e isso é possível aplicando uma liderança autêntica e empática. Além de ser movido por um propósito, o líder autêntico expressa seu ‘eu’ verdadeiro no ambiente de trabalho e permite que seus colaboradores sejam, também, eles mesmos. É importante ser transparente quanto às suas falhas, opiniões e objetivos dentro da empresa.

Por outro lado, a empatia é necessária porque um líder humano respeita e cuida genuinamente das pessoas, protege o bem-estar emocional da sua equipe e garante que a produtividade seja sustentável ao longo do tempo.

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EU ACHO …

HIPOCRISIA, MORAL E POLÍTICA

Deus e Cristo ‘parecem gostar’ de mulheres vadias e homens maus

A substância da moral pública é a hipocrisia. Quando Nelson Rodrigues (1912-1980) dizia “mintam, mintam por misericórdia”, ele se referia à necessidade de que mintamos em família para salvar o dia a dia das desgraças que podem vir à luz se rompermos os vínculos protetivos proporcionados pela mentira e pela ignorância.

Esses vínculos da mentira misericordiosa nos protegem dos efeitos nefastos das verdades indesejadas. Nelson fala aqui de nossa incapacidade de viver sob a luz das verdades sobre nós mesmos. Nelson é o maior moralista da literatura brasileira. Moralista em filosofia não é alguém que “caga regra”, mas, sim, um especialista em natureza humana.

Por sua vez, quando o moralista francês La Rochefoucauld (1613-1680) dizia que “a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”, ele se referia à farsa e à presunção de virtude onde há, na verdade, fingimento. É dessa hipocrisia que falo hoje.

A suspeita de que a manifestação pública das virtudes seja pura farsa vem de longa data, seja de Jerusalém, seja de Atenas.

Na Bíblia, quando os israelitas precisam encontrar alguém de coração puro em Jericó, antes da conquista da cidade, Deus diz que a prostituta Raab é a única pessoa confiável em meio à população.

Jesus Cristo defende a adúltera de seus acusadores questionando quem ali seria sem pecado o suficiente para atirar a primeira pedra na infeliz – salvando-a, assim, do apedrejamento até a morte -, e a trata com respeito e doçura.

O mesmo Cristo promete ao bom ladrão, são Dimas, o paraíso diante do fato que ele tem plena consciência de que é um pecador.

Prostitutas, adúlteras e ladrões são figuras bíblicas clichês de pecadores santos. Deus e Cristo “parecem gostar” de mulheres vadias e homens maus, justamente porque não são fingidos e a sociedade aponta o dedo acusador para eles. Nelson Rodrigues e Fiódor Dostoiévski (1821-1881) seguem essa tradição de suspeita dos publicamente virtuosos em suas obras.

Na “Apologia de Sócrates”, texto de Platão (427-348 a.C.) em que Sócrates (470-399 a.C.) faz sua própria defesa diante da acusação da democracia ateniense contra ele, o fundador da filosofia descreve sua vida como sendo a busca de desmascarar aqueles que mentem sobre o que dizem saber, ou por pura ignorância ou por pura farsa pública. Sócrates com sua ironia desfaz a hipocrisia daqueles que fingem ser sábios e virtuosos diante da cidade.

Nada mudou desde então. E, provavelmente, nunca mudará. A farsa pública da moral domina a política, as religiões institucionais, os vínculos sociais, as relações profissionais e familiares, o mundo corporativo e os poderes da República, e tudo mais que o homem toca.

A força da hipocrisia como moral pública reside justamente no fato da possibilidade de humilhação, destruição e perda de patrimônio que a violência da maioria das pessoas tem sobre o infeliz acusado de falta. Além, claro, do gozo específico de ver o outro sangrar enquanto você posa de virtuoso.

Nosso mundo contemporâneo tem suas próprias farsas públicas. Nossas modas morais são exemplos claros de ativismo da hipocrisia como moradia da falsa virtude. O cancelamento é apenas um dos exemplos.

Um dos traços da hipocrisia como substância da moral pública está na cobrança contínua de que nada manche seu perfil com suspeitas de pecado mortal contra a norma pura do dia.

Exemplos: a pureza antirracista, a pureza antitransfobia, a pureza antissexista, a pureza politicamente correta, a pureza da cobrança pelo voto declarado no Lula- cobrança típica de espíritos da inquisição -, a pureza da defesa do “marco civilizatório” – novo fetiche dos petistas -, enfim, toda exigência de pureza moral ou ideológica é marca da falsidade das virtudes públicas.

A hipocrisia moral social sempre esteve mais vinculada ao ambiente religioso, como bem mostrou o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard no século 19. A partir do momento em que a política tomou o lugar da graça como redenção do mundo – a partir da Revolução Francesa -, ela passou a acolher essa forma de hipocrisia no seu seio.

*** LUIZ FELIPE PONDÉ – É escritor e ensaísta, autor de ‘notas sobre a esperança e o desespero’ e ‘Política no Cotidiano’. É doutor em filosofia pela USP.

ESTAR BEM

FRASCO DO SABOR

Conservas caseiras devem ser feitas com cuidado para evitar doenças

Há momentos em que acumulamos tanta comida que não sabemos o que fazer com ela. Como vegetais que sobraram da feira ou frutas que foram colhidas no pé. Para não ter que jogar fora, uma boa opção são as conservas caseiras: ratatouille, pimentas, molho de tomate, doces de frutas etc. Assim, garantimos que esses alimentos permaneçam em boas condições por vários meses, prontos para consumo em qualquer período.

As etapas para fazer conservas caseiras consistem em lavar e cortar os alimentos, colocá-los em potes junto com um líquido, que pode ser água com sal ou óleo, fechar esses recipientes com tampa e aquecê-los em banho-maria. Depois os potes esfriam de cabeça para baixo para verificar se estão completamente vedados.

A técnica, que é transmitida de geração em geração há décadas, parece simples. É por isso que existem inúmeros artigos e vídeos na internet incentivando a fazer conservas caseiras seguindo essas instruções. O problema é que alguns fatores essenciais para garantir a segurança e evitar riscos à nossa saúde são, muitas vezes, omitidos.

Não basta seguir a receita, é preciso controlar o processo, ter cuidados e saber o que se está fazendo. Isso nem era do conhecimento de Nicolas Appert, o inventor das conservas por tentativa e erro. Só anos depois da criação, graças ao trabalho de Louis Pasteur, foi descoberto a base da conservação de alimentos através da técnica.

O “segredo” das conservas se baseia em dois pontos. Em primeiro lugar, o aquecimento durante a preparação elimina os microrganismos presentes (especialmente bactérias), responsáveis por estragar os alimentos e que também podem nos deixar doentes. Em segundo, o recipiente deve ser bem vedado para evitar a contaminação dos alimentos.

Quando não são bem preparadas, as conservas podem se contaminar com patógenos. O que mais preocupa é o Clostridium botulinum, uma bactéria potencialmente perigosa e resistente ao calor, que pode sobreviver ao tratamento caseiro, se não for bem feito.

Essa bactéria fica no solo ou em sedimentos aquáticos, por isso pode estar nos alimentos. Ela é muito resistentes a condições adversas para a maioria das bactérias, como falta de oxigênio, umidade, nutrientes e altas temperaturas. De fato, a maioria das bactérias é facilmente morta por aquecimento abaixo de 100°C, mas as formas esporuladas de C. botulinum podem resistir até 120°C. O aquecimento em banho-maria, onde são atingidos 100°C, pode não ser suficiente.

Essa bactéria produz um dos compostos mais tóxicos conhecidos: a toxina botulínica – a dose letal para uma pessoa de 70 quilos é de apenas 70 microgramas. É uma neurotoxina que causa paralisia muscular. Em caso de envenenamento, ocorre o botulismo, uma doença grave. Com uma taxa de mortalidade entre 5% e 10%, pode causar morte por parada respiratória, especialmente se não tratada a tempo.

A esta altura, costuma-se dizer que “bom, na minha casa as conservas sempre foram feitas assim e nunca aconteceu nada”. O mais comum é que nada de ruim aconteça, já que a incidência dessa doença é muito baixa. Mas a questão é que quando um risco é avaliado, dois aspectos devem ser levados em consideração: a probabilidade de ocorrência e a gravidade.

Talvez isso seja melhor compreendido com um exemplo simples. Ao atravessarmos uma estrada por onde passam poucos trens, como a frequência é muito baixa, é improvável que soframos um atropelamento. Mas em caso do acidente acontecer, será muito grave, por isso é aconselhável ter muita atenção. Da mesma forma, a incidência de botulismo é também possivelmente tão baixa, porque são poucas as conservas caseiras feitas hoje.

COMO FAZER

É possível preservar os alimentos com segurança em casa, mas para isso há algumas coisas muito importantes a ter em mente. Em primeiro lugar, é essencial manter condições higiênicas adequadas.

Mãos, utensílios e superfícies da cozinha devem estar limpos e secos.

Os potes e tampas devem estar limpos, higienizados e secos. Para desinfetá-los, recomenda-se mergulhá-los em água fervente por 15 minutos e depois deixá-los escorrer até que estejam secos. Além disso, os frascos devem estar em bom estado e as tampas devem ser novas, para garantir que fechem hermeticamente.

Os alimentos devem estar limpos e em boas condições. No caso de vegetais (frutas, legumes, verduras), recomenda-se lavar e desinfetar (para isso podemos usar água sanitária para uso alimentar, seguindo as instruções do fabricante). Finalmente, é conveniente secá-los com papel de cozinha.

A próxima coisa que devemos fazer é preparar os ingredientes (cortar, descascar, etc.), colocá-los nos frascos, deixando um espaço de cerca de dois ou três centímetros na parte superior para que no final do processo o vácuo possa ser feito bem. Antes de fechar, mexa o conteúdo do frasco para que não se acumulem bolhas de ar no interior.

Depois de fechar os fracos, é hora da etapa mais importante: o aquecimento. Ao aplicar um tratamento térmico, é necessário considerar dois parâmetros: tempo e temperatura. Assim, se a temperatura que aplicamos for muito alta, o tratamento exigirá pouco tempo e vice-versa.

No caso de conservas, as condições de tratamento térmico são determinadas pela acidez do alimento, pois os esporos de Clostridium botulinum podem germinar em ambientes pouco ácidos, com pH maior que 4,5. Isso significa que alimentos com baixo teor ácido (por exemplo, carne, peixe ou legumes) requerem atenção especial. De fato, recomenda-se que o aquecimento seja feito numa panela de pressão, pois no interior se atinge uma temperatura superior a 100°C. Para isso, devemos introduzir os frascos e cobri-los completamente com água, deixando um espaço de ar entre a superfície da água e a tampa da panela. Uma vez fechado, recomenda-se cozinhar de 20 a 60 minutos a partir do momento em que o vapor começa a sair da válvula (o tempo depende do tamanho do recipiente).

No caso de alimentos ácidos – pH menor que 4,5 -, como frutas cítricas ou tomates, podemos aquecê-los em banho-maria, mergulhando os potes verticalmente em água fervente (100°C), por uma ou duas horas, dependendo do tamanho do frasco. Claro, é sempre mais aconselhável usar a panela de pressão. Em caso de dúvida, podemos acidificar os alimentos adicionando ácido cítrico ou ingredientes como vinagre ou suco de limão.

Terminado o aquecimento, retiramos os frascos e os colocamos de cabeça para baixo em uma superfície plana enquanto esfriam, para verificar se a vedação está hermética.

CUIDADOS

Quando o processo estiver concluído, é aconselhável rotular cada frasco com o conteúdo e a data de produção, pois estima-se que o prazo de validade dessas conservas seja de um ano.

Caso o tratamento não tenha sido realizado de forma adequada, os esporos de Clostridium botulinum podem ter sobrevivido e, durante o armazenamento, podem germinar e produzir toxinas, principalmente se o alimento não for ácido.

Muitas pessoas acreditam que isso pode ser verificado olhando o recipiente para ver se ele está inchado, mas a verdade é que a presença das toxinas produzidas por essa bactéria não gera nenhuma alteração no recipiente ou no alimento, ou seja, não modifica a aparência, cheiro, sabor ou textura, por isso não é um critério confiável.

Por essa razão, antes de consumir uma conserva caseira, é aconselhável aquecer os alimentos durante 10 minutos a 80°C, poiso calor destrói as toxinas, caso estejam presentes.

Outro detalhe que devemos levar em consideração é que, uma vez aberto o pote, devemos mantê-lo na geladeira, e o ideal seria ingeri-lo em até três dias. Dessa forma, podemos fazer e consumir conservas caseiras com segurança.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OUVIR CANTO DOS PÁSSAROS FAZ BEM PARA SAÚDE MENTAL

Estudo mostrou que trinados reduzem ansiedade e pensamentos paranoicos. Já o ruído de tráfego agrava depressão

Ouvir o canto dos pássaros faz bem para a saúde mental. De acordo com es- tudo publicado recentemente na revista Scientific Reports, do grupo Nature, esse tipo de som reduz a ansiedade e os pensamentos irracionais. A influência positiva do trinado das aves no humor não é novidade, mas, segundo os pesquisadores, este é o primeiro trabalho a revelar seu efeito benéfico nos estados paranoicos.

A equipe do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano e da Universitätsklinikum Hamburg-Eppendorf (UKE), na Alemanha, analisou como o ruído do tráfego e o canto dos pássaros afetam o humor, a paranoia e o funcionamento cognitivo. Para isso, eles recrutaram 295 voluntários e realizaram um experimento online.

Os participantes ouviram seis minutos de ruído de tráfego ou canto de pássaros. O tempo de cada um desses sons era variável. Antes e depois de ouvir a gravação, os participantes preencheram questionários avaliando sua saúde mental e realizaram testes cognitivos.

Os resultados mostraram que, ao ouvir o canto dos pássaros, os participantes apresentavam menos ansiedade e paranoia. Por outro lado, não houve influência sobre estados depressivos. Já o ruído do tráfego piorava a depressão, especialmente se a gravação envolvesse muitos tipos diferentes de sons. Os pesquisadores também descobriram que nem o trinado das aves nem os barulhos de veículos tiveram influência sobreo desempenho cognitivo.

O efeito positivo do canto dos pássaros na saúde mental se deve ao fato de esse som desviar a atenção das pessoas de fatores estressantes que poderiam sinalizar uma ameaça aguda, para um estímulo que indica um ambiente natural intacto. Estudos anteriores já haviam levantado essa hipótese. Cientistas da Universidade de Surrey, na Inglaterra, descobriram que, de todos os sons naturais, os cantos dos pássaros eram os mais citados pelas pessoas como algo que ajudou a reduzir o estresse e permitiu que elas restaurassem e reorientassem sua atenção.

NA NATUREZA

“O canto dos pássaros poderia ser aplicado para prevenir transtornos mentais. Ouvir um CD de áudio seria uma intervenção simples e de fácil acesso. Mas se já conseguimos mostrar tais efeitos em um experimento online realizado por participantes, podemos supor que isso seja ainda mais forte ao ar livre, na natureza”, especula Emil Stobbe, autor do estudo e bolsista de pré-doutorado do Gripo Lise Meitner para Neurociência Ambiental no Instituto Max Planck para Desenvolvimento Humano.

Simone Kühn, chefe do grupo de pesquisa, conta que, recentemente, a equipe realizou um estudo mostrando que uma hora de caminhada na natureza reduz a atividade cerebral associada ao estresse. Ainda não se sabe quais características desse ambiente – cheiros, sons, cores ou uma combinação deles – são responsáveis pelo efeito. Mas está claro é que ter contato com a paisagem natural melhora a saúde mental e o bem-estar.

OUTROS OLHARES

BEREAL DESAFIA O INSTAGRAM E TENTA EVITAR SER UM ‘NOVO CLUBHOUSE’

App ganha força por incentivar fotos ‘reais’, sem filtros ou grandes elaborações; gigantes rivais já copiam recurso e grande desafio da plataforma é não cair em desuso

Nova onda nos últimos meses, principalmente entre os mais jovens, a rede social BeReal tem uma proposta simples: o usuário só pode publicar uma única imagem por dia, tirada simultaneamente da câmera traseira e frontal do celular – nada de filtros ou edições. A pegada ”minimalista” rendeu ao aplicativo francês o apelido de “anti-Instagram”, que tenta evitar repetir a trajetória meteórica de outro fenômeno recente, o Clubhouse. “O Be Real não vai te fazer famoso. Se você quer se tornar um influenciador, vá ao TikTok e ao Instagram”, diz a rede social sobre si mesma, em tom de manifesto. “Queremos uma alternativa às redes sociais viciantes, que incentivam comparações e retratam a vida com o objetivo de acumular influência.”

Para evitar os excessos de uso vistos em outras redes sociais, a BeReal criou um método excêntrico: uma vez ao dia, em horários aleatórios, o app envia uma notificação a todos os celulares de uma mesma região. “É hora de ser real!”, diz o texto. Nos dois minutos seguintes, eles são incentivados a postar uma foto do que estão fazendo naquele momento.

“Um dos pontos mais fortes do BeReal é o fato de saber o que meus amigos estão fazendo em tempo real”, diz o diretor de arte Clayton Varela, 26 anos, que trabalha com filtros para redes sociais como o Instagram.

As fotos ficam disponíveis até a próxima notificação, nenhuma publicação permanece no app. “E por não ter filtros, todo mundo é muito desapegado (com o que posta). Não existe a pressão do Instagram”, diz Varela, no BeReal desde setembro.

A proposta tem funcionado: o app criado na França em 2020, por Alexis Barreyat, já soma 53 milhões de instalações desde janeiro, segundo dados da plataforma Sensor Tower.

Recentemente, a empresa levantou US$30 milhões junto a investidores, como a 16ze Accel – dois nomes conhecidos por terem investido no Facebook ainda no início.

Para Matt Navarra, consultor britânico de redes sociais, a autenticidade é um dos elementos que tem levado usuários ao BeReal, que funciona com Android e iPhone. “Existe o fato de não entrarem na mesma fórmula de outras plataformas sociais, como Facebook e Instagram, de má reputação, questões de confiança e todos os outros problemas pelos quais essas redes têm sido criticadas.”

Foi assim que Giuliana da Silva Borges, 24 anos, se sentiu na plataforma. A estudante de Relações Públicas relutou em ter mais uma rede social, mas, após aparecer em fotos de amigos e conhecer o funcionamento, entrou. “Eu estava postergando para não ter mais um app de rede social. Mas, no fim, a proposta é diferente do Instagram, em que a gente se preocupa com ângulo, filtro e outras coisas porque tem muita gente vendo.”

DESAFIO

O sucesso repentino lembra o da plataforma Clubhouse, em 2021. Conhecido pelas salas de áudio em tempo real, o app americano se destacou pelo formato inovador, mas, após rivais copiarem o formato, caiu em desuso.

Evitar esse destino é o desafio do BeReal, cujas notificações diárias e fotos sem filtro já são “copiadas” pelas duas maiores plataformas do mercado: o Instagram e o TikTok. No app da Meta (dona de Instagram, Facebook e WhatsApp), o recurso está em testes desde agosto com o nome “lG Candid” (IG Puro, em tradução livre) e funcionamento similar ao do BeReal. Já o TikTok lançou o “TikTok Now”, app que foi desmembrado da plataforma principal e pode ser baixado separadamente em lojas de aplicativos.

“Uma das forças do BeReal é que eles tiveram a ideia original”, diz Navarra. “Mas uma única ferramenta não vai ser suficiente para proteger o app da ameaça das cópias. Parece um risco que vai ao encontro do que aconteceu com o Clubhouse.”

Para Edney Souza, professor de marketing de produto da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM), o BeReal não tem, por exemplo, a originalidade que o Clubhouse mostrou ao surfar na era da comunicação por voz: “O  app francês tenta criar um novo efeito psicológico baseado não em um comportamento existente, mas na repulsa a algo. Apps ‘anti-algo’ não necessariamente viralizam”, aponta.

FUTURO INCERTO

O BeReal é a primeira ferramenta de plataformas do Ocidente a ser “copiada” com destaque pelo TikTok. A inspiração do gigante chinês deve acender o sinal de alerta no BeReal. “O TikTok está ciente de como o Facebook colocou vários recursos diferentes em seu aplicativo e acabou assustando todo mundo”, diz Chris Stokel-Walker, autor do livro TikTok Boom. Em outras palavras, o desenvolvimento de uma ferramenta como o BeReal não foi aleatório e pode fazer do TikTok um centralizador de usuários ainda maior, o que traria problemas à rede francesa. “Não uso TikTok, mas, se as pessoas migrarem e pararem de usar o BeReal, eu também não devo ficar lá”, diz Giuliana, estudante de Relações Públicas.

COMO FUNCIONA A REDE SOCIAL DE FOTOS BEREAL

USABILIDADE

A interface é simples, com três telas navegáveis, para foto, feed e descobertas, que permite ver as imagens de pessoas “aleatórias”. Para ver os cliques dos amigos, é necessária uma solicitação que deve ser aceita mutuamente.

ADICIONAR PESSOAS

Na aba “Amigos”, há uma barra de pesquisa para digitar o nome de usuário. Lá também é possível acessar a aba de solicitações para aceitar convites de outras contas.

FEED

Ao contrário do Instagram, o BeReal só permite publicar uma foto por dia e incentiva que essa imagem seja o mais natural possível.

COMO POSTAR

Todas os dias, em um horário aleatório, o app envia uma notificação com a mensagem “É hora de ser real!”. Ao clicar na notificação, surge uma tela com câmera dupla, frontal e traseira, cuja ideia é mostrar quem é você e o que você está fazendo agora. O usuário tem dois minutos para fazer a foto que fica disponível até a próxima notificação. Nenhuma publicação permanece no app.

INTERAÇÃO

Para interagir com os posts de amigos, o BeReal permite que o usuário personalize reações únicas a partir do próprio rosto, recurso batizado de “Realmoji”. Como padrão para todas as pessoas, a rede permite cadastrar reações como “joinha”, “rosto feliz” e “rosto apaixonado”, entre outras.

GESTÃO E CARREIRA

MUDANÇAS EM EXCESSO PODEM GERAR PEDIDOS DE DEMISSÃO E ABANDONO DE CARREIRA

Há mais de 2.500 anos o filósofo grego Heráclito de Éfeso afirmava que o mundo e nós mesmos mudamos o tempo todo e em uma frase que se tornou famosa: “Um homem não se banha duas vezes no mesmo rio, pois a cada segundo o rio é outro e o homem também”. Desde então, escutamos este ditado “a única certeza nesta vida é a mudança.”

Embora saibamos que isso é verdade, esse conhecimento parece não facilitar os inúmeros processos de mudanças que vivemos.

Isso ocorre porque fomos programados biologicamente para resistir à mudança. Embora sejamos uma espécie adaptativa, nossa primeira resposta a qualquer alteração é a suspeita e a resistência, classificadas como biológicas e que nos ajudaram a sobreviver por centenas de anos.

Nos últimos anos, a neurociência nos mostrou que a amígdala examina constantemente o ambiente em busca de qualquer sinal de mudança, porque esse cenário diferente é o precursor de uma ameaça ou perigo iminente. Hoje, sabemos que fomos programados para assumir o pior até que seja mostrado o contrário. Quando olhamos para as mudanças nas organizações, o “como” e o “quanto”, os líderes comunicam a mudança o que pode exacerbar ainda mais essas respostas ou ajudar a nos levar à aceitação e à resignação.

A neurociência também nos mostrou que fomos programados para sermos influenciados pelas pessoas ao nosso redor. Somos uma espécie tribal, biologicamente programada para viver em pequenas comunidades. O instinto de sobrevivência é tão forte que somos influenciados pelo medo dos outros. Nas organizações, algumas pessoas espalhando perspectivas de “caos e tristeza” podem aumentar o medo e a angústia de todo o grupo.

É por isso que devemos ser ainda mais cautelosos com quem interagimos nas mídias sociais, pois embora isso nos ajude na conexão com os nossos amigos e familiares, pode nos levar a esse sentimento de alerta máximo o tempo todo, algo que nos conduz a um esgotamento físico e emocional e em alguns casos levar ao burnout. Mesmo antes deste cenário de pandemia, o burnout já estava em ascensão globalmente.

A Organização Mundial da Saúde já tinha declarado o problema como uma doença ocupacional, com cerca de 53% dos trabalhadores impactados por essa condição. No entanto, nos últimos dois anos, esse número bateu recordes com milhares de profissionais americanos e brasileiros acometidos de alguma forma, o que tem sido a principal razão pela qual os norte-americanos têm desistido dos seus postos de trabalho durante esse período da Grande Resignação.

Em 2021, uma média de quatro milhões de estadunidenses pediram demissão voluntariamente, todos os meses. No Brasil, meio milhão de brasileiros pedem demissão a cada mês – um ritmo nunca antes visto. “Burnout é uma síndrome conceituada como resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso”, define a CID-11. É caracterizado por três componentes:

EXAUSTÃO EMOCIONAL

Fadiga crônica que decorre de preocupação excessiva com os desafios por muito tempo. Gera insônia, prejuízo na concentração, ansiedade, depressão, raiva e sintomas físicos como palpitações cardíacas, falta de ar, dor gastrointestinal, além de tontura, dores de cabeça e desmaios.

DIMINUIÇÃO DA SENSAÇÃO DE REALIZAÇÃO

O trabalho perde o sentido e surge aquela sensação invencível de que nada do que você faz tem propósito ou faz diferença. Sentimentos crescentes de apatia, desesperança e irritabilidade. Isso contribui para a falta de produtividade e baixo desempenho.

DESAPEGO

O esgotamento da empatia, carinho e compaixão pelos outros ou por nós mesmos. Inclui o isolamento, bem como a perda da sensação de prazer das coisas que costumavam ser boas, incluindo o próprio trabalho e os relacionamentos.

Global e coletivamente, estamos em um estado de esgotamento nunca visto antes. O burnout ocorre quando trabalhamos demais e descansamos pouco. A SHRM, Society for Human Resource Management, ou Sociedade de Gestão de RH, em tradução livre, descobriu que 70% dos trabalhadores que fizeram a transição para o trabalho remoto na pandemia disseram que agora trabalham aos finais de semana e 45% relatam trabalhar regularmente mais horas do que antes do isolamento.

A resposta para o esgotamento é descansar e recarregar – embora pareça simples, são dois momentos difíceis de vivenciar nos últimos dois anos. Precisamos começar a fazer atividades que nos tragam alegria e bem-estar novamente, como sair para jantar, fazer coisas divertidas com os amigos e fazer cursos presenciais.

O problema é que para quem está vivenciando o Burnout, tudo isso parece menos atraente, então essas pessoas podem dizer “não” quando o que realmente precisam dizer é “sim” aos convites e oportunidades de interação e diversão, entendendo que com o tempo, a alegria retornará. Reservar tempo para jogos e brincadeiras é uma parte importante do autocuidado. A ludicidade é fundamental para nos fazer desconectar de problemas e estresse.

Estudos mostram que os jogos são capazes de nos colocar em estado de flow.

Ainda assim, os adultos sobrecarregados por atividades profissionais tendem a negar esses momentos a si mesmos. Várias pesquisas mostram que jogar e brincar é fundamental para nosso bem-estar psicológico e físico. O investimento crescente em momentos de Team Building nos meses pós-pandemia tem sido um indicador da necessidade deste convívio saudável mediado por jogos e atividades lúdicas.

A pandemia, com todos os seus desdobramentos, fez com que aumentassem os índices de burnout e fadiga da mudança com a qual muitas organizações estão lutando neste momento, mas isso não é tudo. A transformação digital, a introdução do 5G, a Web 3.0 são indicadores de que o volume de mudanças tende a ser cada vez maior. Na verdade, o volume de mudanças organizacionais já é a segunda maior razão pela qual as pessoas alegam deixar empresas e carreiras.

A fadiga da mudança é provocada pela sequência de transformações sem espaço de recuperação e estabelecimento do novo normal entre uma e outra. Existem seis sintomas de fadiga de mudança:

*** desengajamento,

*** exaustão,

*** absenteísmo,

*** confusão,

*** conflito.

Os líderes certamente podem ajudar a reduzir a fadiga da mudança sendo mais cuidadosos e deliberativos sobre “como” e “quando” a mudança é implementada e fornecendo mais recursos para ajudar as pessoas a passarem pela mudança de forma eficaz.

Entretanto, mesmo estando do lado receptor da mudança, ainda podemos nos capacitar para prosperar nestes períodos de grandes transformações. Podemos usar estratégias para lidar com esse cenário e aumentar seu poder participando de práticas como atenção plena, meditação ou ioga.

Estudos de neurociência mostram que a atenção plena cria uma mudança permanente no cérebro, reduzindo a hiperatividade da amígdala e nos ajudando a nos recuperar mais rapidamente de uma variedade de estressores, incluindo mudanças. A boa notícia é que, embora sejamos programados para resistir às mudanças, também somos uma espécie adaptativa. Quando nos envolvemos em atividades como brincadeira, descanso e atenção plena de forma deliberada, aumentamos a nossa resiliência e podemos ajudar os outros a fazer o mesmo

FLORA ALVES – É Master Trainer pela ATD, Designer de Aprendizagem e palestrante internacional.

TATIANE MELECCHI – É Palestrante internacional, autora da ATD Sales Enablement Community of Practice.

BRITT ANDREATTA – Autoridade internacionalmente reconhecida na área, que cria soluções baseadas na ciência do cérebro para os desafios de hoje.

http://www.atdgroup.com.br.

EU ACHO …

AS TAIS DAS CRENÇAS LIMITANTES

Para quem não me conhece, sou Psiquiatra e Psicoterapeuta. Para muita gente, isso parece ser a mesma coisa, mas não é.

Para ser Psiquiatra, é preciso cursar uma Faculdade de Medicina e, após sua conclusão, fazer mais alguns anos de Residência e Especialização. Para ser Psicoterapeuta, lá se vão alguns anos de formação. É uma boa parte da vida estudando para isso.

Não me fecho a opiniões e insights de pessoas que não passaram tanto tempo queimando as retinas na frente dos livros, mas confesso que às vezes eu fico um pouco impaciente com os psicologuês de Facebook. Particularmente com um que anda muito em voga, que é a luta contra as “Crenças Limitantes”.

Segundo a galera de coachs e gurus motivacionais, são aquelas crenças repetidas em nossa cabeça que nos impedem de ter uma vida maravilhosa. Vou dar um exemplo contando uma história: li um livro sobre o silêncio no budismo, e o autor, um desses monges carequinhas e muito simpáticos, contou a história de outro monge que era dirigente de um Mosteiro.

Acontece que o Mosteiro um belo dia pegou fogo e se consumiu todo no incêndio. O abade organizou os recursos da comunidade e de benfeitores para a sua reconstrução, mas, no meio da empreitada, começou a ser perseguido por pensamentos pessimistas. O principal pensamento (ou falsa crença) era que ele não tinha sorte. Desde a infância, tudo de errado acontecia com ele. O Mosteiro tinha se incendiado e queimado porque ele não tinha sorte.

Apesar dos apelos das pessoas próximas, o monge foi minguando em uma profunda tristeza, até ter que ser substituído em suas funções. Morreu algum tempo depois. Li essa história com a caneta e o carimbo pulando no meu bolso: evidentemente que o abade teve uma Depressão e que a falta de tratamento fez com que a mesma se aprofundasse.

E tudo começou com um pensamento, que se espalhou como um vírus pelas suas células. Essa crença limitante literalmente tomou a vida do homem até roubar sua energia. Isso quer dizer que esse tipo de crença limitante pode tomar a mente de uma pessoa como uma Assombração? Claro que sim. O que me causa então a implicância com os gurus gritando que vão tirar de todos suas crenças limitantes?

Por vários motivos.

Antes de mais nada, as Crenças não são crenças. São engramas. O que? Calma, eu explico. Engramas são pedaços de Memórias, Cenas, Traumas e Imagens que são gravadas em nossas Redes Neurais sem que a gente perceba. Buscá-los demanda muito trabalho interno. Ouvir um guru motivacional berrando não remove os engramas. E eles mandam mais em nossa vida do que gostaríamos. O tal do monge, por exemplo.

Vamos imaginar que ele fosse de uma família grande, onde os irmãos eram mais brilhantes e ele era mau aluno. Ou que as melhores coisas aconteciam sempre com os outros, nunca com ele. Digamos que ele foi virar monge porque a família não tinha como alimentar a todos, mas ele se dedicou, fez seu trabalho, estudou as Escrituras e depois de muitos anos virou o responsável pelo mosteiro.

Quando ocorreu um acidente, ele foi possuído pelo pensamento que estava lá como um engrama, um tumor pronto a se espalhar. Se, alguns anos antes tivessem perguntado se ele tinha a crença de ser azarado ou sua vida nunca ia dar certo, claro que negaria. A falsa crença apareceu num contexto de estresse e perda. E o que é pior, a falsa crença não está na superfície da nossa Consciência.

O que devemos fazer então? Parar de ouvir os gurus de internet combatendo as falsas crenças? Claro que não. Mas saiba que buscar e ressignificar as Crenças Limitantes leva muito tempo e dedicação. Entender como começaram, como cresceram e que estrago fizeram e fazem em nossa vida é trabalho de elaboração e reprocessamento.

É melhor sempre desconfiar de quem oferece soluções rápidas e aparentemente milagrosas. A Natureza não dá saltos.

*** MARCO ANTONIO SPINELLI – É médico, com mestrado em psiquiatria pela USP, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”.

ESTAR BEM

APRENDA EXERCÍCIOS EMOCIONAIS PARA FORTALECER SUA SAÚDE MENTAL

Diante de ansiedade, depressão ou estresse, medidas de autocuidado ajudam a enrijecer músculos psicológicos e a enfrentar os desafios da vida

A pandemia continua e a crise de saúde mental, também. Muitas pessoas estão sofrendo com a dor e o trauma que o coronavírus desencadeou. Com tanto sofrimento, há mais necessidade de terapia, mas muitos psicoterapeutas – inclusive eu – não conseguem atender à demanda crescente.

Quando novos pacientes entram em contato comigo, ajudo aqueles que estão em crise a encontrar atendimento de emergência e conecto outras pessoas com conselheiros ou apoio em grupo. Mas quando os maiores estressores rugem alto – ansiedade implacável, depressão esgotante e insônia – alguns pacientes precisam de ajuda mais imediata. Isso pode explicar por que muitos pacientes em potencial me perguntam: “O que posso fazer agora para melhorar minha saúde mental?”.

Uma solução possível, diz a psicóloga clínica Emily Anhalt, é a adicionar um “exercício emocional” ao seu regime de autocuidado. “Assim como malhar previne pressão alta e doenças cardíacas, estar em boa forma emocional pode ser uma postura proativa em relação ao controle do estresse”, conta Anhalt, cofundadora da Coa, uma academia de saúde mental.

Nas aulas virtuais da Coa, Anhalt e sua equipe ensinam exercícios chamados “flexões emocionais”, que são pequenas maneiras de se exercitar todos os dias. “O objetivo é fortalecer os músculos da saúde mental, para que você esteja em melhor posição para enfrentar os desafios da vida”, reforça ela.

As ferramentas de autocuidado podem ser úteis, especialmente quando barreiras podem dificultar o pagamento ou o acesso aos cuidados de saúde mental. Se você está esperando para ver um terapeuta, os exercícios emocionais são uma maneira de enrijecer seus músculos psicológicos. Embora esses exercícios não substituam a terapia, Anhalt garante que eles podem promover a resiliência e ajudar você a se fortalecer.

MARQUE UM ENCONTRO COM SUA PREOCUPAÇÃO

O aumento na turbulência mundial está, compreensivelmente, abalando nossa saúde mental. Vaile Wright, diretora sênior de inovação em saúde da Associação Americana de Psicologia, observa que o ciclo quase constante de “más notícias” e as discussões nas redes sociais podem aumentar nossos sentimentos de peso e preocupação.

Os pesquisadores afirmam que a preocupação tem um componente cognitivo, e é por isso que as ruminações muitas vezes estimulam pensamentos perturbadores que se repetem. Uma maneira de lidar com essa angústia é marcar um “encontro com sua preocupação.” “Defina um horário na sua agenda para se preocupar e ficar ruminando as coisas”, propõe Anhalt. Durante esse momento, reserve de 10 a 15 minutos para anotar seus problemas.

Em seu livro Cards Against Anxiety, a autora e educadora de saúde mental Pooky Knightsmith admite que um encontro com a preocupação pode impedir que esse sentimento desconfortável assuma o controle.

PRATIQUE A FLEXÃO DE AUTORREFLEXÃO

Quando você está furioso porque seu parceiro foi a um show sem máscara ou um colega de trabalho puxou seu tapete, é natural ver o outro como um problema. Mas outra abordagem é aproveitar a oportunidade para aprender sobre si mesmo, adianta Anhalt.

Sentir mágoa ou irritação com o comportamento de outra pessoa pode refletir algo que não gostamos em nós mesmos. Para examinar essa possibilidade, Anhalt sugere praticar um exercício que era chamado de “flexão de autorreflexão”.

Pergunte a si mesmo se o comportamento da outra pessoa é algo que você também faz, se é inveja ou se você está julgando. Por exemplo, se você está irritado com o egoísmo de seu amigo, pode perceber que já se comportou da mesma maneira. Lançar luz sobre nossas ações nos permite assumir a responsabilidade, recomenda Anhalt.

Quando se trata de construir relacionamentos, pesquisas mostram que a autoconsciência pode aumentar a empatia cognitiva, capacidade de entender as emoções de outra pessoa a partir de sua perspectiva.

FAÇA AMIZADE COM AS EMOÇÕES DIFÍCEIS

Como humanos, somos programados para evitar a dor. Quando surgem emoções desconfortáveis, como raiva ou tristeza, tentamos nos distrair para não nos sentirmos mal. Ficamos rodando as redes sociais, bebemos uma taça a mais de vinho ou passamos horas na Netflix. Essas táticas são chamadas de “defesas”, que são pensamentos e comportamentos que nos fazem esquecer o insuportável. Mas quando recorremos apenas às defesas, evitamos sentir nossas emoções, o que dificulta nossa capacidade de processá-las.

Quando surgirem emoções perturbadoras, tente fazer amizade com seus sentimentos. Comece dando nomes a suas emoções, uma técnica que os psicólogos chamam de “rotulagem de afetos”. Você também pode investigar os pontos em que seus sentimentos aparecem em seu corpo. Sempre pergunto aos meus pacientes: “Onde você sente essa emoção?” e “O que ela está tentando lhe dizer “O objetivo não é alterar a emoção, mas tomar consciência de como ela se manifesta.

Uma análise de pesquisas de 2018 afirma que “focar em nossos sentimentos, sem tentar mudá-los” pode aliviar o sofrimento. Essa mentalidade de “foco no momento” é o que a terapeuta de comportamento Marsha Linchan chama de “aceitação radical”, e é uma maneira de impedir que a dor persista. Muitas pessoas partem do pressuposto de que a aceitação radical impede a mudança, mas essa postura libertadora pode acompanhar a transformação, aponta a psicóloga Jenny Taitz.

NA ANSIEDADE, EXERCITE A CURIOSIDADE

Cerca de 32% dos adultos norte-americanos apresentaram sintomas de transtorno de ansiedade ou transtorno depressivo na semana anterior a 8 de agosto, mostrou a Pesquisa Domiciliar, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Para uma porcentagem menor de pessoas, os sintomas de ansiedade são um transtorno mental., como transtorno de ansiedade generalizada, que afeta 3% dos americanos, ou transtorno de ansiedade social, que afeta cerca de 7% da população em geral.

Se você quiser desarmar sua ansiedade, adote uma mentalidade curiosa. Quando o medo e a incerteza atacam, muitas vezes nos perguntamos: ”Porque isso está acontecendo”’, analisa o psiquiatra e neurocientista Judson Brewer, autor de Umvinding Axiety e diretor médico da Sharecare. “A mente se prende a essa pergunta porque acreditamos que descobrir a resposta resolverá nossa ansiedade”, indica Brewer. Mas essa mentalidade também nos deixa enclausurados e desamparados. Para sair dessa situação, tente entrar na “zona livre de ansiedade”, recomenda o neurocientista.

Um exercício de aterramento é se sentar, olhar para os pés e perguntar: qual “pé está mais quente que o outro?”. Essa pergunta ajuda a despertar a curiosidade, sinaliza Brewer. Essa sensação também pode abrir a mente para possibilidades, o que nos permite ver nossas situações sob uma luz diferente, mostra a pesquisa. “Quando entramos em parafuso por causa da ansiedade, substituir ‘Porque isso está acontecendo?’ por ‘O que está acontecendo?’ pode nos tirar da zona mais carregada de ansiedade”, conclui.

A PSIQIE E AS PSICOLOGIAS

‘SEXONAMBULISMO’ CAUSA EPISÓDIOS DE ESTUPRO E ATO LASCIVO INVOLUNTÁRIO

Conhecida como sexônia, a disfunção pode acometer tanto homens como mulheres; em caso de violência, dano maior é para vítima

Imagine levantar de manhã com a parceira toda machucada após ser atacada sexualmente durante o sono e não ter a menor ideia de como aquilo aconteceu? Ou, então, estar no serviço militar, masturbar-se à noite e depois acordar achando que os colegas estão fazendo uma brincadeira de mau gosto?

Os dois casos são reais e foram relatados por pacientes que receberam o diagnóstico de sexônia ou “sexonambulismo”, uma disfunção rara do sono que leva a um comportamento sexual involuntário e impróprio, muitas vezes violentos.

O distúrbio é medicamente conhecido como uma parassonia, que é reconhecida pela CID (Classificação Internacional de Doenças) como movimentos anormais ou eventos psicológicos que ocorrem durante o sono.

Especialistas ponderam, porém, que a disfunção precisa ser melhor conhecida e estudada, principalmente quando envolve agressão. Nestes casos, dizem, o judiciário deve diferenciar o paciente com a parossonia do estuprador buscando inocência.

O primeiro é comum a três homens diferentes que tiveram o distúrbio confirmado no Brasil pela médica Luciana de Oliveira Palombini, especialista em medicina do sono. O segundo caso é de um soldado norte-americano, citado no artigo “Sexônia: que sexo é esse?”, publicado pela Revista Brasileira De Sexualidade Humana, em 2019, por Palombini e pela psicoterapeuta e sexóloga Glaury Coelho.

Palombini conta que se trata de um diagnóstico bastante difícil, mas real e capaz de gerar danos emocionais ao paciente e riscos para quem dorme ao lado dele.

“As parassonias são comportamentos inadequados durante o sono, dos quais a pessoa realmente não tem controle.” As causas vão desde fatores genéticos e físicos, como apnéia do sono e problemas respiratórios ou até psicossociais, como uso de drogas ou presença de transtornos mentais como borderline. O tratamento inclui mudanças de hábito com objetivo de reduzir o estresse, evitar a privação de sono e eliminar a rotina sedentária. A terapia e o uso de aparelhos noturnos para correção da respiração podem ser associados.

“Quando a gente aborda todos esses aspectos da parassonia, esses comportamentos anormais cessam sim, mas se existe tendência, tem que haver sempre acompanhamento e manutenção da boa higiene do sono”, reforça Palombini. A investigação de sexônia inclui exame de polissonografia com um especialista e avaliação psicoterápica. Coelho diz que este transtorno é pouco conhecido e demanda mais estudos para melhor prevenção. Apesar de raro, esse “sonambulismo sexual” é polêmico, pois envolve desde transtornos conjugais até situações criminais.

“O sistema judicial tem que comprovar se é uma parassonia ou um estuprador tentando se safar do dolo. É fundamental fazer a distinção. Há poucos especialistas ainda, mas informação clara e referendada já contribui como prevenção”, afirma.

Prevalente em homens, essa percepção distorcida da consciência sexual pode também acontecer em mulheres. Orgasmos durante o sono não são considerados sexônia.

O transtorno pode se manifestar nos dois gêneros como masturbação violenta do outro (estupro) e de si, e por meio de falas com conteúdo sexual. Em sua fase mais agressiva em homens, leva a tentativa e consumação do ato por meio do sexo oral, penetração vaginal ou anal até alcançar o orgasmo.

OUTROS OLHARES

NASCE UMA ESTRELA

Criada como pet e moradora da ilha do governador, a ovelha Rebeca faz sucesso no Instagram com seu perfil que promove a arte e a conscientização sobre o meio ambiente

Bastou Rebeca tocar seus cascos no chão da Praça Mauá, na Zona Portuária do Rio, na manhã da última terça, para que celulares fossem apontados em sua direção tal qual uma Kardashian em semana de moda gringa. “O Instagram dela é @rebecaovilha. Ela é modelo, atriz e ativista”, avisava o criador da ovelha, Evilásio Carneiro, cujo sobrenome é mera coincidência.

Com quase 20 mil seguidores na rede social, Rebeca começou a ganhar notoriedade depois que deu os primeiros rolês pelas praias da Zona Sul carioca e apareceu no programa “Mais você”, da apresentadora Ana Maria Braga, na TV Globo. Desde então, abocanha uma nova leva de admiradores por onde desfila o andar ligeiro, embalado por um ritmado balançar de suas orelhas caídas e do rabo comprido.

Nos últimos meses, começou a passear também por museus e centros culturais, já que seu dono quer aproveitar a visibilidade para atrair mais pessoas para esses locais. A sessão de fotos para esta reportagem foi feita no Museu do Amanhã e, meses antes, ela já havia dado pinta nas mostras “Portinari raros”, no CCBB Rio, e “Calder + Miró”, na Casa Roberto

Marinho, além de ter saracoteado pela ArtRio. “Ela fica olhando para tudo, gosta de conhecer coisas novas”, diz Evilásio, que também levou a fiel escudeira para o local de votação, no primeiro turno. “Quando me perguntam em quem ela votou, digo que é a favor da democracia.”

A entrada de Rebeca nos lugares é franqueada por um laudo psiquiátrico que assegura a sua condição de suporte emocional. Evilásio a adotou depois de sofrer um burnout no banco onde trabalhava, e o médico sugerir um animal de estimação como ajuda para superar a depressão. “Não queria mais me comunicar com ninguém. Consegui resgatar isso através dela.”

A ideia de criar uma ovelha veio de uma memória da infância, vivida no Piauí, onde Evilásio tinha Sabrina, uma cabrita, como pet. Ela chegou a sua casa ainda filhote, depois de ser rejeitada pela mãe, e seguiu como parte da família até crescer e se tornar serelepe além da conta. “Ela pulava na mesa da cozinha e fazia uma muvuca. Meu pai, então, a levou embora”, recorda-se.

Rebeca, porém, não corre esse risco. Foi adotada ainda filhote de um criador de ovelhas, após também ter sido rejeitada pela mãe, e já completou 2 anos sob a guarda de Evilásio. Na casa onde ele mora, na Ilha do Governador, há um quintal só para ela e um cardápio especial para dar conta de seus 46kg: ração, sal mineral e frutas (melancia é a favorita). À noite, dorme sob a janela de seu tutor, em meio a um amontado de feno que também adora mastigar e, vez ou outra, pode entrar dentro de casa. “Temos que ficar de olho porque ela come tudo. Outro dia, minha mãe veio me visitar e pendurou as roupas no varal. Quando viu, ela havia mastigado as barras dos vestidos.”

O apetite voraz só poupa alimentos feitos de carne, dadas as características naturais de Rebeca. Um comportamento que inspirou Evilásio a se tornar vegetariano e usar a notoriedade da amiga felpuda para falar sobre o assunto. “Muita gente só conhece ovelha como um pedaço de carne congelado”, comenta.

É por isso, inclusive, que o laço cor de rosa e o colar de miçangas na mesma cor viraram marcas registradas da influencer ovina. “Um dia, estávamos passeando, e um cara me perguntou se a estava levando para o abate. Fiquei desconcertado e resolvi adotar os acessórios para que ninguém mais tivesse dúvidas de que se trata de um pet”, conta o criador.

Domesticar um animal amplamente criado para o consumo, de fato, traz reflexões oportunas.

O psicólogo e médico veterinário Carlos Artur Lopes Leite, professor do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Lavras, lembra que, quando um bicho é visto apenas como fonte de carne, leite ou ovos, pode sofrer dor, ferimento, medo, sede e fome durante a criação, o que vai de encontro ao seu bem-estar. “No momento em que este animal é aproximado da rotina dos humanos, muitos desses sofrimentos podem ser amenizados ou mesmo anulados”, compara.

A julgar pelas falas de Evilásio, a ovelha não tem mesmo com o que se preocupar. Ele garante não estar interessado em ganhar dinheiro com a imagem dela, assim como as parcerias com marcas são feitas em benefício do pet. O foco, diz, está nas atividades educativas, como as visitas a escolas para falar sobre meio ambiente e um livro infantil que será lançado em breve.

Enquanto prova o gosto da fama, Rebeca tem ido até onde alcança o carro de seu dono, um Twingo ano 1995 especialmente adaptado para transportá-la na parte de trás. Os planos, porém, são bem mais ambiciosos: “O sonho dela é visitar um museu em Nova York. Temos que sonhar grande”.

GESTÃO E CARREIRA

COMO UTILIZAR A GAMIFICAÇÃO PARA O ENGAJAMENTO DOS COLABORADORES

Rankings de pontuação, medalhas e prêmios são elementos da gamificação, uma tendência do mercado uti- lizada pelas empresas com o intuito de engajar mais os colaboradores. Dados da Review 42 apontam que 72% dos colaboradores se sentem mais motivados para trabalhar mais intensamente quando os processos do dia a dia são lúdicos.

Ilustrar o caminho do trabalho até o cumprimento das metas, torna a rotina mais agradável, inovando no campo da motivação dos funcionários e destacando os pontos positivos de suas tarefas cotidianas.

Por isso, qualquer empresa pode implementar esse modelo de interação, mas é importante considerar alguns fatores antes de gamificar as atividades de sua equipe, como explica Thiago Gomes, CEO do Smartleader, sistema que ajuda as lideranças na gestão de pessoas:

“A gamificação é um processo muito positivo, principalmente para o engajamento, mas é preciso pensar na matemática por trás dessa ideia, definir bem as regras do jogo, incitar uma competição saudável entre os funcionários e equilibrar as etapas de implementação dessa ferramenta”, explica o executivo.

Para gamificar as tarefas na sua empresa, as primeiras ações a serem tomadas devem ser a definição de seus objetivos e a análise das dificuldades da equipe em atingir as metas. A segunda, deve ser estabelecer um sistema de feedbacks para pontuar o que está dando certo e o que não está; e a terceira está relacionada ao envio de pesquisas de satisfação aos colaboradores, dando espaço para ouvi-los. Os objetivos podem ser muito variados e envolver diferentes públicos-alvo, por isso, é importante definir as metas com clareza e demarcar bem as atividades que devem ser executadas para chegar no ponto desejado. Arcade, quebra-cabeça, RPG, simulação e estratégia são alguns modelos que podem ser utilizados na hora de elaborar o jogo mais compatível com a sua equipe e os seus objetivos.

Gomes considera esta uma das partes mais difíceis do processo, porque é a que mais exige criatividade – para criar emblemas, os tipos de avatares, os prêmios para cada fase e a representação da jornada para atingir a meta.

ESTRUTURANDO A PLATAFORMA DE GAMIFICAÇÃO PARA RECEBER OS COLABORADORES

Esta é a fase que define as tarefas a desempenhar, as métricas de sucesso e a forma como elas serão medidas, além de ser decisiva na adesão dos funcionários a esse novo modelo: é preciso criar um jogo que trabalhe muito bem o limbo entre o tédio e a ansiedade, de forma que os colaboradores se sintam estimulados para jogar e atingir as metas, mas que isso não se torne uma atividade apressada. O convívio social é um dos pontos positivos da vida corporativa e pessoal, portanto, também deve ser um aspecto levado em consideração na hora de construir sua plataforma gamificada. Então, é preciso analisar como os funcionários poderão interagir uns com os outros dentro do jogo, se haverá tarefas que devem ser realizadas em equipe, se estarão disponíveis para interação, ou até mesmo se o jogo vai promover atividades que incentivem a interação pessoalmente.

“A gamificação previne que os colaboradores percam o engajamento ou a motivação para realizar o escopo de trabalho. Além disso, esses processos mais lúdicos podem, além de incentivar o trabalho, também manter a equipe mais feliz”, finaliza Gomes.

Fonte e mais informações: https://www.smartleader.com.br.

EU ACHO …

AS PALAVRAS E NÓS

A língua não pertence apenas aos especialistas. É justo supor que ela também não é só minha.

A língua é viva e pertence aos usuário. Regras consagradas mudam. A grande questão é que existe um equilíbrio desejável entre a tradição e o uso do Português, por exemplo. Sim, a língua não pertence apenas aos especialistas. É justo supor que ela também não é só minha.

Shakespeare inventou muitas palavras. Algum tradicionalista que invoque os grandes autores do passado, em relação ao Inglês, deveriam imaginar que clássicos eram, também, transgressores. Guimarães Rosa era um gênio da composição de termos não dicionarizados ou de usos linguísticos pouco usuais. Difícil saber se o autor do Grande Sertão: Veredas inventava ou apenas registrava oralidades e falas populares mineiras. Quando alguém me diz que temos de imitar os clássicos, sempre imagino que a pessoa saiba pouco da capacidade inventiva e rebelde de escritores de primeira linha.

Devo e posso adaptar os usos da língua ao momento atual. “Delivery”, abaixo do Equador, não existia há poucos anos. Hoje, é termo necessário. Profetizo vida longa ao “air bag”, milk shake”, “trailer” e “shopping center”. Num dia, podem vestir trajes adequados à última flor do Lácio. Assim ocorreu com os termos basquete, iate, uísque e xampu (grafo sem aspas ou itálico, porque eram anglicismos que foram adaptados). Eram convidados com passaporte estrangeiro; hoje, pertencem ao time verde e amarelo.

Os termos de origem francesa ou inglesa interagem sem um debate forte. A língua tropeça quando estamos falando dos novos usos de gênero. Usar o masculino, implicando toda a espécie humana, é norma vigente há séculos. Reconheçamos: a norma nasceu de um mundo patriarcal e misógino. Evita-se o feminino não apenas como prática gramatical, todavia pela exclusão real das mulheres. Gramática tem gênero, ideologia e preconceito. É estranho querer manter uma norma da época de Dom Dinis (1261-1325) lendo um texto no seu smartphone contemporâneo. A língua não é de pedra, nem é de vapor. Ela não me pertence; ela não me ignora.

Gosto de usar “todas e todos” para abandonar o invisível do feminino. Não tenho raiva, mas ainda não consigo empregar regularmente “todes”. Acho exótico grafar txdxs, deixando o x como incógnita a ser preenchida pela identidade de cada pessoa.

Vamos refletir. Uma pessoa tem raiva porque vê “todes”. Alega que isso não existe. Se eu escrevi e alguns usam, existe. Porém, a mesma pessoa não apresenta raiva contra as outras mudanças. Vejamos. “Vossa Mercê” era usado apenas para os reis que concediam benefícios, mercês. O “vós” também era exclusivo de altos aristocratas. No fim da Idade Média, pelo uso, grandes comerciantes passaram a usar Vossa Mercê entre si. Na Idade Moderna, Vossa Mercê reduziu-se para “você”. Eclodem formas populares no Brasil como “vosmecê”. Claro: o uso do você encontrou vozes contrárias. Avancemos para o mundo da digitação. A forma sem vogais é quase consagrada: “vc”.

Que ”você” seja uma palavra consagrada sem disputas, mas o uso de “todas e todos” desperte tantos debates é apenas sinal de que os irritados nunca estudaram linguística ou gramática histórica. Volto a dizer: eu estranho ”todes”.

Em 2050, na prova de Redação no Enem, pode existir uma questão sobre os tempos primitivos quando um grupo impunha o masculino, subentendendo o feminino. Lembre-se disto: pelas normas atuais, Camões não seria aprovado em prova de redação.

Leio bastante sobre os debates gênero e língua. Há mais paixão do que conhecimento dos processos transformadores do nosso idioma.

Tenho de incorporar ”shopping center” porque, até 1966, não existia o conceito contido nas palavras em Inglês. Um novo modelo de compras implicou novo termo. Há duzentos anos, os homens comandavam tudo; as mulheres não tinham acesso ao voto ou ao estudo superior. O masculino dominava sobre o feminino, e o uso gramatical consagrava isso. Não é uma norma divina ou feita de aço: é uma convenção que correspondeu a um momento. O momento mudou, outros gêneros foram reconhecidos como possíveis (claro, já existiam). Você aceita todos os termos estrangeiros no seu computador, usa palavras variadas para novas ferramentas e, quando se trata de gênero, torna-se um purista estudioso da gramática, invocando a tradição que você ignora em todos os outros campos.

Como eu respondi a uma senhora em uma palestra, que me exclamou: “Machado de Assis usava apenas todos!”

Eu disse: “Sim, mas só admitiu homens na sua nova Academia Brasileira de Letras. Excluiu pessoas como a senhora”.

Continuei: “Machado não desejou mulheres no seu grêmio linguístico. A senhora reconhece valor no uso da palavra, mas quer ter a voz que teria sido negada na época? Uma coisa implicava a outra”.

Reconheço que tenho certos conservadorismos em Português. Reconheço ainda mais que minha posição pessoal não faz a língua mudar. Se você usa “todes”, tudo bem. Se prefere fazer uma “feminagem” para evitar o termo homem em “homenagem”, sem problema. Cada um de nós tem uma velocidade específica diante do que é novo. Apenas devemos prestar atenção que as mais diversas mudanças na língua são aceitas com tranquilidade por todas e todos. De repente, quando se trata de gênero, surge o ódio.

Tenho esperança de que você perceba: seu problema pessoal não está na gramática normativa, mas em outro lugar.

*** LEANDRO KARNAL – É historiador, escritor, membro da academia paulista de letras e autor de ‘A coragem da Esperança’, entre outros

ESTAR BEM

COMO SUBSTITUIR OS ALIMENTOS ULTRAPROCESSADOS

Eles respondem por 25% a 50% das calorias consumidas no País; mas há como cortá-los

Qual dieta é ultraprocessada? Em muitos lares, os alimentos ultraprocessados são os pilares da cozinha. E incluem produtos que você talvez nem pense como junk food, como cereais matinais, muffins e iogurtes adoçados, além de refrigerantes e energéticos.

Esses alimentos representam uma parcela cada vez maior da dieta mundial. Quase 60% das calorias que os adultos nos Estados Unidos comem vêm de alimentos ultraprocessados. Eles respondem por 25% a 50% das calorias consumidas em muitos outros países, como Inglaterra, Canadá, França, Líbano, Japão e Brasil.

Todos os anos, as empresas de alimentos lançam milhares de novos produtos ultraprocessados, com uma variedade infinita de sabores e ingredientes. Esses produtos oferecem combinações potentes de gordura, açúcar, sódio e sabores artificiais. São o que os cientistas chamam de hiperpalatáveis: irresistíveis, fáceis de comer e capazes de sequestrar o sistema de recompensa do cérebro e provocar desejos poderosos.

OBESIDADE

No entanto, em dezenas de grandes estudos, cientistas descobriram que os alimentos ultraprocessados estão ligados a taxas mais altas de obesidade, doenças cardíacas, hipertensão, diabete tipo 2 e câncer de cólon. Um estudo recente com mais de 22 mil pessoas descobriu que pessoas que comiam muitos alimentos ultraprocessados tinham uma probabilidade 19% maior de morte precoce e um risco 32% maior de morrer de doença cardíaca, em comparação com pessoas que comiam poucos alimentos ultraprocessados.

Então, como podemos quebrar nossa dependência de alimentos ultraprocessados? Você pode começar aprendendo quais alimentos de sua dieta são considerados ultraprocessados.  Você não necessariamente precisa desistir deles. Mas, quando você sabe identificar um alimento ultraprocessado, fica mais fácil encontrar um substituto menos processado.

O foco crescente em alimentos ultraprocessados representa uma mudança de paradigma na forma como a comunidade científica e de saúde pública está pensando a nutrição. Em vez de se concentrar nos nutrientes, calorias ou tipos de alimentos, a ênfase está no que acontece com os alimentos depois de criados ou cultivados e nos processos físicos, biológicos e químicos que ocorrem antes de chegarem à nossa mesa.

Os alimentos podem ser não processados ou minimamente processados – como frutas e vegetais inteiros, carnes refrigeradas ou congeladas, laticínios e ovos que compramos. Outros alimentos passam por uma quantidade moderada de processamento – geralmente você pode identificar esses alimentos porque eles têm apenas alguns ingredientes no rótulo. É o caso de pães e queijos feitos na hora, manteiga de amendoim salgada, molho de macarrão, sacos de pipoca e frutas enlatadas, peixes e legumes.

Depois, temos os alimentos ultraprocessados. Em essência, são misturas industriais que contém uma infinidade de aditivos: sal, açúcar e óleos combinados com sabores artificiais, corantes, adoçantes, estabilizantes e conservantes. Normalmente, são submetidos a vários métodos de processamento que transformam seu sabor, textura e aparência em algo que não é encontrado na natureza. São coisas como cereais matinais, lanches congelados, rosquinhas, salsichas, biscoitos e macarrão com queijo na caixinha.

ESTUDOS

Pesquisas mostram que nossos corpos parecem reagir de maneira diferente a alimentos ultraprocessados em comparação com alimentos semelhantes que não são tão altamente processados. Em um ensaio clínico rigoroso realizado pelos Institutos Nacionais de Saúde, cientistas compararam o que aconteceu quando alimentaram um grupo de pessoas com uma dieta de alimentos ultraprocessados por duas semanas e, em uma ocasião separada, uma dieta de refeições combinadas que eram feitas praticamente do zero.

Ambas as dietas continham quantidades semelhantes de gordura, açúcar, sódio e fibra, e todos os participantes podiam comer até ficarem satisfeitos. Mas, para surpresa dos pesquisadores, as pessoas ingeriram substancialmente mais calorias quando foram alimentadas com alimentos ultraprocessados. Em média, elas comiam cerca de 500 calorias a mais por dia – aproximadamente a quantidade de uma porção grande de batatas fritas do McDonald’s.

Na dieta de alimentos ultraprocessados, os participantes ganharam peso e gordura corporal rapidamente. Mas, na dieta caseira não processada, aconteceu o inverso: eles perderam peso e tiveram reduções no colesterol e um aumento nos níveis de um hormônio supressor do apetite chamado PYY. Eles experimentaram uma queda em seus níveis de grelina, que é conhecido como o hormônio da fome. Não está claro por que os alimentos não processados e ultraprocessados tiveram efeitos tão diferentes.

“Ainda não conseguimos explicar”, disse Kevin Hall, principal autor do estudo e cientista do Instituto Nacional de Diabete e Doenças Digestivas e Renais. ”Temos uma dúzia de teorias sobre por que os alimentos ultraprocessados causaram esses efeitos”. Alguns especialistas argumentam que os alimentos ultraprocessados capturam nossos cérebros e sobrecarregam nossa biologia porque contêm combinações não naturais de gordura e carboidratos, juntamente com sódio e outros intensificadores de sabor.

TEXTURA

Alguns cientistas da nutrição apontam para a textura dos alimentos ultraprocessados: eles geralmente contêm pouca ou nenhuma fibra e são fáceis de mastigar e digerir rapidamente, apesar de serem ricos em calorias. Pense em como é fácil devorar nuggets de frango de fast­food ou um muffin de mirtilo úmido cheio de açúcar, farinha e óleos vegetais. Esses alimentos são rapidamente absorvidos quando saem do estômago e entram no intestino delgado, o que causa um pico de açúcar, insulina e outros hormônios. “Várias coisas ruins acontecem com esses grandes fluxos de nutrientes em nossa corrente sanguínea”, disse Dariush Mozaffarian, cardiologista e reitor da Friedman School de Ciência e Política da Nutrição da Universidade Tufits.

Muitos alimentos ultraprocessados são feitos em máquinas industriais que submetem grãos, milho e outros ingredientes crus a pressões e temperaturas extremamente altas. Isso pode destruir micronutrientes e criar novos compostos que podem ser prejudiciais, até carcinógenos, disse Carlos A. Monteiro, especialista em alimentos ultraprocessados e professor de Nutrição e Saúde pública da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, no Brasil. “Esses alimentos contêm muitos compostos químicos que não são nutrientes”, acrescentou ele. Alimentos ultraprocessados geralmente contêm uma série de aditivos cujos efeitos sobre nossa saúde ainda não entendemos completamente, disse Mozaffarian. “Não são apenas o sal e o açúcar, que são os óbvios, mas os adoçantes artificiais, corantes artificiais, emulsificantes, estabilizantes, goma guar e goma xantana”, disse. “Nós não sabemos se eles são inócuos.”

A maneira mais simples de cortar os alimentos ultraprocessados da sua dieta é comprar menos alimentos preparados e embalados e consumir mais alimentos integrais e minimamente processados. Em vez de comprar iogurtes de frutas adoçados carregados de aditivos, compre iogurte natural e adicione frutas vermelhas e mel, se quiser. Pense em pular os nuggets de frango congelados e fazer nuggets assados em casa, o que não leva muito mais tempo. Você também deve eliminar refrigerantes açucarados e energéticos, que têm muitos aditivos e pouco ou nenhum valor nutricional. Substitua por água com gás com limão ou lima, chás sem açúcar e água pura ou aromatizada com frutas de verdade.

Se você precisa da praticidade dos alimentos ultraprocessados, pode conferir os rótulos e compará-los no supermercado. Tente escolher os produtos com menos ingredientes. Para obter ajuda durante as compras, você pode acessar um site chamado truefood. tech. No site você pode digitar o alimento que deseja comprar – como nuggets de frango ou cereais matinais – e em resposta receberá dezenas de marcas e recomendará as versões menos processadas. O site usa aprendizado de máquina para classificar os alimentos em uma escala de 1 a 100, com base em fatores como quantidade de aditivos e grau de processamento. Quanto menor a pontuação, melhor.

O site foi criado por Giulia Menichetti e Albert- László Barabási, dois cientistas da Northeastern University que estudam alimentos ultraprocessados e desenvolveram um banco de dados com mais de 50 mil alimentos vendidos em supermercados. Você pode se surpreender com a grande variação no processamento entre os diferentes tipos de macarrão com queijo, ou com o fato de que seus nuggets orgânicos e sem glúten favoritos têm uma pontuação mais alta do que a receita padrão. Menichetti disse que substituir alguns dos alimentos ultraprocessados que são básicos em sua dieta por versões não processadas ou menos processadas pode trazer benefícios à saúde. “Não estamos sugerindo que. você mude drasticamente sua dieta”, disse ela. “Estamos empurrando você para padrões alimentares mais saudáveis”.

RÓTULOS

Outros especialistas pediram políticas públicas agressivas, como rótulos de alimentos mais rígidos e advertências de saúde que forcem a indústria de alimentos a fabricar produtos mais saudáveis. “Vai levar um tempo para as pessoas mudarem dietas”, disse Monteiro. “Mas, se as pessoas começarem a consumir menos alimentos ultraproccssados, a indústria alimentícia será forçada a produzir mais alimentos minimamente processados”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AMAMENTAR É UM ‘PESADELO SENSORIAL’ PARA MÃES AUTISTAS

Nos EUA, escassez de fórmula para bebês afeta de forma intensa esse grupo

Wendy Graves estava cada vez mais preocupada. Antes mesmo de a mídia começar a noticiar uma escassez aguda de fórmula infantil nos EUA, no início de maio, ela já havia voltado de duas idas ao supermercado de mãos vazias.

Graves, que é autista e particularmente sensível ao toque, depende da fórmula infantil desde que teve sua filha, em 2018. Inicialmente, ela pretendia amamentá-la, mas mudou de ideia quando a consultora de lactação do hospital tocou seus seios sem avisá-la antes. Sua filha, com quatro anos, também é autista e não come muita coisa a não ser macarrão e legumes cortados em palitos. Para suprir suas necessidades nutricionais, Graves compra seis latas de fórmula hipoalergênica por mês.

Mas esse tipo especial tem estado particularmente em falta, obrigando-a a dirigir por horas de sua casa em Hope, Arkansas, para chegar a alguma loja que tenha algumas latas no estoque. Graves já pediu ajuda a amigos, familiares e até em grupos do Facebook de apoio a pais neurodivergentes para comprar o produto.

“Estou numa enrascada e a situação só está piorando”, comentou. “Já tive que pagar centenas de dólares adicionais para cobrir o transporte, só para conseguir a fórmula da qual minha filha depende.”

A crise da fórmula infantil começou há meses e milhões de famílias americanas ainda estão em situação difícil. Segundo a empresa de pesquisas de mercado IRI, em meados de setembro os estoques de fórmulas para bebês ainda estavam 19% abaixo do ideal nas lojas. Mães autistas, que têm probabilidade menor de amamentar seus filhos, têm sido especialmente afetadas.

Numa revisão recente, pesquisadores britânicos identificaram várias razões que explicam a baixa taxa de mulheres autistas que amamentam seus filhos. Para algumas delas, ser mãe significa ter menos controle sobre sua rotina, elevando o risco de ansiedade e depressão. Os serviços de lactação raramente são adaptados para pessoas autistas, o que gera situações incômodas que podem desencorajar mulheres como Wendy Graves, que também tem a síndrome de Ehlers-Danlos, doença rara do tecido conjuntivo.

“Já é difícil para a mãe branca de classe média, que mesmo assim não está recebendo apoio suficiente”, disse Aimee Grant, pesquisadora da Universidade de Swansea, que ajudou a redigir a revisão. “Quando somamos as barreiras extras, como ser autista e fazer parte de um grupo marginalizado, os problemas se agravam.” Grant pesquisa aleitamento materno há anos. Em 2019, decidiu estudar mães autistas, após ela própria receber o diagnóstico.

Segundo pesquisadores, um dos obstáculos mais comuns para essas mães é a sensibilidade ao toque. A amamentação é uma experiência física intensa. Um bebê esfomeado, aconchegado contra o peito da mãe, pode chutar ou agitar seus punhos e então abocanhar um bico do seio que já está dolorido e inchado.

Essas sensações são incômodas e dolorosas para muitas mulheres, mas a sensibilidade aumentada das mães autistas pode converter a amamentação em um “pesadelo sensorial”, segundo Jane Wilson, professora de enfermagem na Palm Beach Atlantic University e especialista em saúde materna e infantil.

Em 2020, Wilson e uma colega, Bri Andrassy, conduziram um pequeno estudo sobre as experiências de mães autistas de todo o mundo com a amamentação. Entrevistaram 23 mulheres autistas, 14 das quais viviam nos EUA, fazendo uma pergunta apenas: “Pode nos falar de sua experiência de amamentação?”.

A maioria das mulheres falou que o contato físico durante a amamentação era excessivo para elas. Estudos já mostraram que as pessoas autistas vivenciam sinais corporais – como arrepios, barriga tensa ou bexiga cheia – diferentemente das pessoas não autistas. Algumas das mulheres no estudo de Wilson só sentiam dor quando seus mamilos já estavam sangrando. Outras, porém, tinham sinais corporais hiperativos, tornando o ato da amamentação incrivelmente doloroso.

Sam, uma mulher de 40 anos de Washington, teve dificuldade em produzir leite suficiente após dar à luz uma menina. A especialista em lactação a aconselhou a bombear leite regularmente. Mas a bomba fria e dura, além do barulho rítmico alto que emitia, eram insuportáveis para ela.

O impacto do estresse gerado pela bomba de leite não era apenas psicológico: afetava o volume de leite que Sam conseguia produzir depois de 30 minutos bombeando. “Às vezes eu olhava e tinha vontade de chorar”, disse ela, que pediu para que seu sobrenome não fosse informado. “Não dava nem para encher um copinho para uma dose de bebida.”

Quando sua filha tinha cinco meses, os médicos aconselharam Sam a dar-lhe uma fórmula hipoalergênica para ajudá-la a ganhar peso. Ela ainda tentou continuar amamentando ocasionalmente, mas sentiu tristeza intensa por não conseguir alcançar suas metas de lactação.

Para melhorar a experiência dessas mães, especialistas disseram que as profissionais que prestam atendimento a lactantes deveriam, idealmente, receber treinamento de uma pessoa autista sobre como comunicar-se com mães autistas. Mesmo considerações simples podem fazer uma grande diferença, disseram – medidas como nunca tocar os seios de uma mãe sem pedir permissão ou suavizar a iluminação forte do quarto de hospital.

Os pesquisadores também têm conselhos a dar a pessoas autistas que esperam um filho. Falar com uma consultora de lactação antes do parto pode diminuir a ansiedade em torno da amamentação. Algumas mães também podem sentir-se reconfortadas se puderem fazer contato com outras mães autistas que optam por amamentar.

Jay Eveson-Egler e Tayler Egler são autistas e terão uma filha em outubro. As duas vêm se preparando há meses com a ajuda de uma equipe de profissionais especializados em aconselhar indivíduos neurodiversos com parto, amamentação e depressão pós-parto. Mas a escassez de fórmula infantil as está levando a sentirem ansiedade e incerteza.

Eveson-Egler, que está gestando o feto, prevê que sentirá sobrecarga sensorial quando amamentar e achou que a fórmula infantil serviria de auxílio. Com esse apoio comprometido devido à escassez de fórmula, ela vem tendo pesadelos recorrentes sobre não conseguir cuidar corretamente da bebê.

Devido às circunstâncias incertas, Egler, que é mais sensível a estímulos sensoriais que Eveson-Egler, começou mesmo assim a tomar medicamentos para induzir a lactação. Ambas as mães estão determinadas a amamentar a filha, a despeito de suas dificuldades sensoriais.

“Muita gente pensa que pessoas autistas não podem ser boas mães ou não são capazes de ser mães”, disse Egler. “Precisamos de mais compreensão por parte do sistema médico.”

OUTROS OLHARES

VIOLÊNCIA PEDE CARONA

Casos de importunação sexual registrados pela polícia nos transportes sobem 30%

O último dia 7 de julho deveria ficar guardado na memória como o primeiro de uma nova e feliz fase na vida da estudante de Pedagogia Letícia Ramos, de 20 anos. Ela faria o exame admissional após ser aprovada para um estágio numa escola. Logo cedo, embarcou num ônibus na estação do BRT de Santa Cruz, na Zona Oeste. Estava distraída no celular até que percebeu que o homem sentado ao lado dela estava se masturbando. Sem reação para falar uma palavra, tampouco pedir ajuda, ela se levantou e desceu no ponto seguinte, bem longe de seu destino.

“Quando nós vemos acontecer algo assim com outra pessoa, sempre pensamos que, se fosse conosco, gritaríamos e xingaríamos. Mas, quando acontece de verdade, é outra história. Eu não tive reação, só me levantei”, contou ela.

Letícia foi vítima de importunação sexual, situação que se tornou crime em 2018. Mas ela decidiu não levar o caso à delegacia. Segundo dados da Polícia Civil, obtidos via Lei de Acesso à Informação, de janeiro a maio deste ano foram 554 vítimas no estado. Destas, 56 foram importunadas no transporte público. O número é 30% maior que o registrado no ano mesmo período do ano passado.

A reação de Jenifer Gabriele, de 22 anos, foi diferente da de Letícia. Transtornada diante do desrespeito, ela foi à polícia. A jovem, que trabalha com eventos, viajava em pé também no BRT quando sentiu um homem atrás dela e, logo, seu short ficou molhado: o passageiro havia ejaculado em seu corpo. Ele foi expulso do ônibus por um outro usuário, e o ônibus seguiu viagem.

“Eu ainda fui trabalhar. Cheguei lá desesperada, mas voltei para casa e joguei a roupa fora. Estava com nojo de tudo”, desabafou.

‘É CONSTRANGEDOR’

No dia seguinte, ela foi à 30ª DP (Marechal Hermes), na Zona Norte:

“Eles fizeram o registro, que não deu em nada. Falaram que demoraria de dois a três meses para retornarem o contato, mas nunca retornaram. Eu não sei se foi pior eu ter ido à polícia, porque indo ou não, deu na mesma coisa: nada. É constrangedor porque, depois de ter que relatar tudo, ainda me perguntaram se eu sabia o que era assédio.

A titular da Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de Caxias, Fernanda Fernandes, explica que a importunação sexual é a prática de ato libidinoso na presença de alguém, sem sua autorização e com a intenção de satisfazer lascívia própria ou a de outra pessoa. Já o crime de assédio sexual envolve uma relação de hierarquia entre as partes.

“Importunação é o caso mais comum no transporte. O homem que se masturba ou aquele que se aproveita do transporte cheio e encosta no corpo da mulher”, explicou a delegada. “É um crime que tem muita subnotificação. Acho que, além da vergonha, do medo e do constrangimento, elas têm até dificuldade de acreditar que aquilo está acontecendo. E, muitas vezes, por não terem provas, desistem de denunciar.

No último dia 6, um passageiro foi preso depois de ejacular em uma mulher dentro de um trem, na altura da estação Maracanã. Procurada, a vítima contou que está muito abalada e que “vive um dia de cada vez” para retomar a sua rotina. A Secretaria estadual de Administração Penitenciária (Seap) informou que o acusado continua preso. A pena para o crime de importunação é de um a cinco anos de prisão. A operadora de caixa Fabiana Sabino, de 19 anos, viveu um pesadelo em 2 de junho. Ela tirava um cochilo durante a viagem na linha 410 (Saens-Peña – Gávea) quando sentiu a mão de um homem em sua perna.

“No começo, achei até que estava sonhando, mas quando acordei vi esse homem alisando minha coxa e tentando c colocar a mão por dentro do meu short. Olhei para ele, e ele riu para mim. Demorei a entender o que estava acontecendo”, relembra.

O trajeto e o meio de transporte podem até mudar, mas o crime, não. Brenda Dias, de 21 anos, mãe de uma menina de 5 anos e funcionária de uma consultoria de seguros, estava no metrô em julho quando um homem começou a se encostar nela. Ela percebeu que ele estava excitado.

“Na terceira vez, eu perguntei: “Você está com algum problema?”. Comecei a ficar nervosa, gritei, xinguei. Parecia que ele estava acostumado a fazer isso”, destacou ela.

Pior ainda, segundo Brenda, foi a reação dos passageiros. Teve quem a chamasse de louca. Sozinha, ela conseguiu expulsar o homem da composição. Ela não foi à polícia, mas informou o caso ao Metrô Rio. Traumatizada, agora só anda no vagão feminino do metrô.

“Eu não vou me calar. Eu vou gritar e, se precisar expor esse homem mil vezes, eu vou”, repetiu Brenda.

Esse tipo de abuso é tão comum que setores só para mulheres foram criados nos meios de transporte, mas a iniciativa é ignorada por homens e pela fiscalização. Uma equipe de reportagem flagrou um carro “cor-de-rosa” repleto de homens no ônibus do BRT da Avenida Cesário de Melo, em Campo Grande.

GESTÃO E CARREIRA

SOBRECARGA CAUSA INSÔNIA E SENTIMENTO DE FRACASSO

Assumir muitas tarefas afeta saúde psicológica e física, explica psicólogo

Com certeza você já ouviu que o caminho para o sucesso profissional é trabalhar incansavelmente. Nunca desistir. Mas saber os seus limites e descansar é essencial para a saúde mental.

Uma pesquisa realizada pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), em parceria com as empresas Talenses e Gympass, mostrou que 43% dos entrevistados disseram que estão com sobrecarga de trabalho. Outros 31% afirmaram sofrer pressão por resultados e metas. O levantamento foi feito em janeiro deste ano com 572 pessoas.

O psicólogo Luiz Mafle, professor de psicologia e doutor em psicologia pela PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) e pela Universidade de Genebra, explica que a sobrecarga acontece quando temos diversas tarefas para realizar ao mesmo tempo ou quando estamos muito preocupados com uma atividade.

Além das demandas do trabalho, somam-se as tarefas de casa e os cuidados com a família. “Por exemplo, quando é preciso tomar conta de alguém que tem uma necessidade e precisa estar presente o tempo todo, com cuidados, isso gera uma sobrecarga. Ou quando se está num trabalho que a todo momento apresente uma urgência, o tempo todo você precisa checar, verificar, lembrar. Na hora que essas duas situações se acumulam é uma bomba. Os níveis de estresse e de depressão podem dobrar”, explica o especialista.

A seguir, o psicólogo lista dez sintomas do excesso de responsabilidades que podem levar a um quadro de burnout.

IRRITABILIDADE

Uma das principais características de uma pessoa que está tentando lidar com diversas tarefas ao mesmo tempo é a irritabilidade. “A pessoa fica muito sensível. A irritabilidade pode surgir na forma de agressão, quando ela é reativa, ou também quando chora mais do que o normal. Isso acontece porque ela está tentando se livrar de qualquer outra demanda que possa surgir”, alerta Mafle.

INSÔNIA

Com tantas coisas para fazer e a cabeça cheia de pensamentos, normalmente quem está sobrecarregado não consegue dormir bem. “Com o sono desequilibrado, o cansaço se torna ainda mais intenso. Além disso, começa a gerar impactos na rotina e também na saúde física”, diz o psicólogo. Uma forma de driblar essa situação é criar uma rotina de higiene do sono, evitando tomar café após as 15h, praticar exercícios físicos e ficar longe das telas ao menos duas horas antes de dormir.

QUEDA DE RENDIMENTO

O excesso de preocupações e tarefas também prejudica o foco e a atenção no trabalho. “Quem está sobrecarregado se sente desmotivado e com dificuldades de concentração, o que pode impactar diretamente na rotina profissional. Além disso, a irritabilidade e os sentimentos à flor da pele podem provocar conflitos entre os colegas”, afirma.

ALTERAÇÃO NO APETITE

A sobrecarga emocional também atinge a forma como cuidamos do nosso corpo e da alimentação. “É possível ver pessoas que esquecem de comer e outras que descontam os sentimentos na alimentação. Precisamos olhar com cuidado e entender porquê está acontecendo esse desequilíbrio na alimentação. Pode ser um sinal de que o corpo e a mente precisam de ajuda.”

SENTIMENTO DE FRACASSO

“Com tantas atividades sob seu controle, a pessoa sobrecarregada muitas vezes não consegue dar conta de tudo e se sente frustrada e com o sentimento de desamparo. Ela começa a abraçar o mundo e isso a sufoca e a frustra”, conta.

ANSIEDADE

O excesso de demandas é um prato cheio para a ansiedade. “O cansaço mental pode vir acompanhado de dores no peito, falta de motivação e crises de ansiedade. Com tantas preocupações é comum que os indivíduos fiquem mais ansiosos e comecem a criar cenários em sua cabeça, o que pode aumentar ainda mais os gatilhos para ansiedade”, revela Mafle.

DEPRESSÃO

A sobrecarga, quando é enfrentada durante longos períodos, é um dos principais fatores que causam ansiedade e depressão. “Quando essa sobrecarga é vivida por longos períodos, a pessoa começa a se sentir frustrada, a vida começa a se paralisar, porque não sobra espaço para outros crescimentos, desenvolvimentos, e vira uma rotina muito pesada”, observa.

“A pessoa vai se sentindo pior, cansada, sem energia, não consegue ter uma vida pessoal nem um autocuidado, vai se sentindo desvalorizada, abandonada e isso aumenta o nível de ansiedade e depressão.”

ISOLAMENTO

Em um nível mais avançado de sobrecarga, a pessoa começa a se fechar, a se isolar, não tendo contato com os amigos e familiares. “Ela se fecha e não conta com mais ninguém, quer se isolar. Tudo parece virar uma exigência, então ela acha que qualquer outra demanda vira uma tarefa, assim começam os problemas nas relações”, diz.

DEIXAR O AUTOCUIDADO DE LADO

Com tantas tarefas, a pessoa não consegue ter um tempo para olhar para si mesma. “Ela perde o prazer em se cuidar, de se arrumar e, às vezes, deixa de lado até os atos de higiene”, comenta Mafle.

“Ela não se olha mais com carinho e atenção, porque a exaustão já tomou conta, e o autocuidado se torna mais uma tarefa em meio a tantas.”

NÃO BUSCAR AJUDA

“É importante buscar ajuda e se cuidar. Uma pessoa com sobrecarga tira muito proveito da psicoterapia, porque ela vai compreender quais os motivos que estão levando ela a assumir todas essas responsabilidades de uma vez, e provavelmente sozinha”, explica. De acordo com o psicólogo, a pessoa sobrecarregada se sente menos valorizada, então para mostrar seu valor assume muitas tarefas para as pessoas perceberem que ela tem capacidade. “A psicoterapia é fundamental para ver até que ponto a responsabilidade deve ser assumida e até que ponto ela deve ser compartilhada, porque muitas vezes essas crenças centrais de não ser amado, não ter valor, nos fazem tomar decisões que nos colocam em enrascadas. A terapia é um ótimo lugar para encontrar novas saídas para lidar com as situações, trazendo menos peso para nosso dia a dia”, diz.

EU ACHO …

CORPOLÍTICA

Na semana passada falei sobre a importância da representatividade na política. Na prática, isso tem a ver com mais intencionalidade na hora de votar em quem representa nossos ideais e ajuda na construção de políticas concretas. Mas representatividade não é 2+ 2, tampouco mero patrulhamento ideológico ou “mimimi”.

O assunto não se restringe ao reforço do discurso que defende mais mulheres na política e ponto. Isso diz respeito, por exemplo, à visão que elas podem acrescentar à política, com suas vivências e olhares na construção de políticas públicas que possibilitem outras pessoas terem mais oportunidades de educação, saúde e emprego. Com projetos de lei e iniciativas que podem contemplar mais mulheres. Afinal, se nós, que somos maioria no país, estivermos bem educadas, empregadas, seguras e com saúde, o Brasil vai bem.

Obra recente que retrata a representatividade na política, o documentário “Corpolítica”, de Pedro Henrique França e Marco Pigossi, conta a trajetória de 4 jovens que iniciavam suas carreiras políticas em 2020: Erika Hilton (mulher trans), Andreá Bak (mulher bissexual), Monica Benício (mulher lésbica) e William de Lucca (homem gay). Eles são de grupos subrepresentados, e há um reforço identitário público para chamar pra perto quem também se identifique com estas narrativas. E mais: há compromisso visível nas pautas em se colocarem numa trajetória política para alavancar oportunidades de melhor educação, emprego, saúde para os grupos que pertencem e para toda a sociedade.

Erika Hilton, eleita deputada federal, já foi expulsa de casa quando se assumiu mulher trans. Hoje, tem na mãe evangélica, uma aderente à postura antitransfóbica, mostrando que é possível o diálogo reconciliatório de um Brasil conservador e cheio de nuances. Também é possível, em certa medida, avançar no discurso que descola identidade de gênero e orientação sexual da demonização.

O filme também conta com entrevistas e trechos de falas de políticos como Fernando Holiday, Clodovil e Thammy Miranda, que considero de suma importância para refletirmos sobre o tema da representatividade. Eles são colocados como políticos que, mesmo se identificando com a comunidade LGBTQIAP+, não pautam estas questões diretamente em seus projetos políticos. E fazem refletir sobre o quanto a associação automática entre pessoas negras, indígenas ou trans em posição de poder a avanços diretos para estas comunidades pode ser equivocada.

Para que estes avanços aconteçam, é preciso que os corpos políticos, para além de visivelmente pertencentes a grupos subrepresentados, tragam pautas que apoiem os avanços coletivos de modo intencional, visível e com cobranças e acompanhamentos nossos. Em um cenário ideal, a responsabilidade de avançar não deve estar ligada somente a grupos minoritários, mas a todos que desejem construir um país sem deixar ninguém pra trás. Que em meio a tantas informações, não percamos o foco. Em suma, vote! Mas vote com cuidado com a embalagem e as caixinhas identitárias.

Analise a caixa, e acima de tudo, o conteúdo. Estejamos atentos, acompanhando e cobrando sempre para aqueles que nos representam, o façam para valer.

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

ESTAR BEM

HPV TAMBÉM ATINGE OS HOMENS; VEJA COMO PREVENIR

O problema, que atinge 54% dos brasileiros, pode até levar ao câncer se for malcuidado

O HPV é uma das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) mais comuns no Brasil. Em 2017, estimava-se que 54,6% dos brasileiros estavam infectados pelo vírus, de acordo com uma pesquisa do Ministério da Saúde. Nesse sentido, especialistas alertam para a importância de os homens estarem atentos a sua saúde sexual, tendo em vista que o vírus pode trazer complicações.

A maior parte dos casos de HPV é transmitida via relações sexuais e contato físico. Entretanto, também é possível se infectar pelo contato com objetos contaminados.

Um sinal conhecido da infecção são lesões em forma de verruga. No entanto, de acordo como coordenador de ISTs da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) de São Paulo, Júlio Máximo, apenas 20% dos casos de HPV causarão lesões visíveis. “Não há sintomas. A verruga é um sinal. Então pode aparecer o sinal, mas geralmente não dói e raramente pode sangrar”, explica o especialista.

Nos casos em que as lesões são invisíveis, o paciente pode encontrar as verrugas na região genital, seja no pênis, escroto ou ânus, e em outras mucosas, como boca e garganta. Máximo alerta, entretanto, que as lesões subclínicas, não vistas a olho nu, geralmente têm o tipo mais agressivo e mais relacionado ao câncer.

Segundo Máximo, assim como acontece com as mulheres, as complicações pelo HPV nos homens também são tipos de câncer. “Você pode ter o câncer de pênis, que não é tão frequente, você pode ter um homem com câncer anal e o câncer da cavidade oral”, diz ele.

PREVENÇÃO E DIAGNÓSTICO

Máximo conta que a melhor forma de prevenção é a vacinação contra o HPV, associada ao uso de preservativo para relações sexuais. Isso porque a camisinha protege apenas a região coberta, enquanto a vacina oferece proteção somente para alguns tipos do vírus. Para se ter uma ideia, a vacina disponível para os homens é a quadrivalente, que imuniza contra o HPV 6, 11, 16 e 18. Entretanto, existem mais de 200 tipos virais de HPV. “A gente sempre orienta a combinação dos métodos de prevenção: o uso do preservativo e a vacinação contra HPV”, esclarece.

Já a colposcopista Flávia Menezes reitera a importância dos exames preventivos. “Muita gente acha que o preventivo rastreia bactéria, fungo. Na verdade, não. Ele serve para rastrear pacientes infectados por HPV o mais cedo possível.” Para diagnosticar casos de HPV que não apresentam lesões na pele, há que fazer exames especializados. Neles, o médico utiliza aparelhos para localizar lesões microscópicas nas regiões suspeitas. Podem ser solicitados exames de genitoscopia, anuscopia e laringoscopia. O tratamento consiste em eliminar as lesões visíveis. Para isso, há métodos – como uso de pomadas; a crioterapia, o eletrocautério, que retira a verruga, e o laser.

Já a segunda fase do tratamento consiste em tirar os fatores que favoreçam a persistência do HPV. Dessa forma, é necessário complementação para melhorar o sistema imunológico do paciente.

De acordo com a colposcopista, apesar de o vírus não ser eliminado do corpo, as lesões podem se curar com um tratamento adequado. ”O HPV vai ficar no nosso organismo, então se pode dizer que não tem cura. Mas o importante é que as lesões têm cura”, enfatizou Flávia. Com o tratamento, é possível ter uma vida sexual ativa sem risco de infecção.

VACINA

Pelo SUS, a imunização contra o HPV está prevista no Plano Nacional de Imunização (PNI) para meninos e meninas de 9 a 14 anos. A vacina vem em duas doses, com intervalo de seis meses. Também podem receber o imunizante gratuitamente pessoas com HIV/aids, transplantado de órgãos sólidos, medula óssea e pacientes oncológicos, todos entre 9 e 45 anos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SELEÇÃO SEXUAL É INFLUENCIADA POR HABILIDADES ESPORTIVA E ARTÍSTICA

Atividades causam efeito de ‘ornamento’ e ‘armamento’, considerado um dos mecanismos mais importantes da evolução, aponta estudo

Pessoas com habilidades artísticas e esportivas levam uma ligeira vantagem na disputa por parceiros do sexo oposto e na concorrência com gente do mesmo sexo, indica pesquisa feita por cientistas do Brasil, da República Tcheca e do Canadá. Os dados, que foram obtidos com quem pratica atividades atléticas e artísticas de forma não profissional, dão mais peso à ideia de que a arte e o esporte surgiram, em parte, graças à chamada seleção sexual. Trata-se de um dos mecanismos mais importantes da evolução dos seres vivos, proposto originalmente pelo naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882). As conclusões foram publicadas em edição recente do periódico especializado Frontiers in Psychology. Entre os autores da pesquisa está o casal formado pela tcheca Jaroslava Varella Valentova e pelo brasileiro Marco Antônio Correa Varella, ambos ligados ao Departamento de Psicologia Experimental da USP, onde Valentova é professora e Varella é pesquisador de pós-doutorado e professor visitante. Para o estudo, a equipe recrutou um total de 852 voluntários de ambos os sexos, dos quais 248 eram brasileiros e o restante eram naturais da República Tcheca. A idade média dos participantes ficou em torno dos 27 anos, e os incluídos na pesquisa eram todos heterossexuais – isso porque outros estudos haviam mostrado que os processos ligados à seleção sexual são diferentes em pessoas que se sentem atraídas por parceiros do mesmo sexo.

Conforme explica Varella, é comum dividir o funcionamento da seleção sexual em duas vertentes: “ornamentos” e “armamentos”. O primeiro pilar é bem conhecido de todas as pessoas que já viram um pavão. As características muito chamativas dos membros de um dos sexos (frequentemente, o masculino, embora existam muitas exceções) servem como um sinal de que o indivíduo é forte e saudável, já que seu organismo é capaz de “investir” na ornamentação espalhafatosa.

Já os “armamentos” são, por exemplo, os chifres de carneiros-monteses e a massa de músculos dos gorilas. Funcionam como mecanismo para estabelecer uma hierarquia (com base em disputas de exibição ou físicas) entre os membros de um dos sexos, a qual, por sua vez, dá a eles um acesso maior a parceiros do outro sexo.

“É esperado que exista uma relação mais forte entre as formas de seleção sexual e as capacidades de artistas e atletas profissionais. Isso porque eles não só chegam a maiores níveis de proficiência e performance, o que aumenta o efeito de ‘ornamento’ e ‘armamento’ de suas capacidades, mas também porque eles se aproveitam da fama e da exposição como figuras públicas”, diz o pesquisador da USP.

No entanto, a aposta dos pesquisadores era que as habilidades de pessoas normais também têm um impacto nessa seara. Para isso, eles usaram um questionário criado para medir indicativos indiretos de seleção sexual – por exemplo, a quantidade de parceiros que a pessoa já teve, a sua facilidade de ter sucesso na paquera, sua competitividade com pessoas do mesmo sexo etc. Depois, cruzaram esses dados com questões sobre as capacidades das pessoas em uma série de atividades artísticas e habilidades esportivas.

A análise estatística dessa massa de dados indica que, no caso das mulheres, as atividades artísticas parecem funcionar tanto como “ornamento” quanto como “armamento”, enquanto entre os homens as associações mais claras são entre a arte e os “armamentos”.

Já no caso dos esportes, ambos os aspectos estão presentes entre os homens, enquanto o lado de “armamentos” predomina entre as mulheres. “A função dupla de ornamento e armamento para ambos os tipos de capacidades é algo inédito”, diz Varella.

OUTROS OLHARES

SUPERINTESTINO

Perda de bactérias boas da microflora afeta a saúde, mas pode ser reposta

Estudos indicam que o cérebro humano pesa em torno de 900 gramas. A somatória das bactérias boas e ruins do intestino pesa entre 2 e 3 quilos. Ou seja, dentro de cada um de nós há um universo (superpovoado) que apenas começa a ser explorado. A má notícia é que esse universo não anda muito bem.

O pesquisador e cardiologista americano William Davis escreveu o livro “Superintestino” (editora Sextante) no qual afirma que, com o uso abusivo de antibióticos, consumo de agrotóxicos, alimentação cada vez mais rica em ultraprocessados, entre outros fatores, as bactérias boas do nosso intestino têm sido eliminadas e substituídas por outras, ruins.

“Quando você perde os micróbios saudáveis, os não saudáveis podem proliferar, espécies fúngicas ou fecais por exemplo. Imagino que metade da população dos EUA tem esses micróbios subindo para o intestino delgado, com espécies não saudáveis. A bactéria só vive por algumas horas, mas quando morre libera componentes na corrente sanguínea”, explica Davis.

Essa situação em que a população de espécies bacterianas no intestino muda e algumas sobem pelo trato digestivo é chamada SIBO (supercrescimento bacteriano no intestino delgado, na sigla em inglês).

Os sinais indicativos do problema são: gotas de gordura no vaso sanitário, intolerância a alimentos com fibras prebióticas (leguminosas, frutas e verduras, por exemplo), intolerâncias alimentares, condições como síndrome do intestino irritável, fibromialgia, síndrome das pernas inquietas, erupções cutâneas persistentes ou recorrentes, hipotireoidismo, doenças neurodegenerativas ou qualquer outra autoimune ou inflamatória. Uso de medicamentos inibidores de acidez estomacal ou históricos de cirurgias abdominais também favorecem.

Segundo o médico, essa microflora maligna está por trás de diversos problemas de saúde, como doenças autoimunes, gordura no fígado, síndrome do intestino irritável, erupções cutâneas, doenças de Parkinson e Alzheimer, depressão, ansiedade, síndrome das pernas inquietas, obesidade e diabetes.

“O impacto é tão grande que todas as doenças humanas deveriam ser reconsideradas à luz das contribuições sobre microbioma. É revolucionário, muda tudo que sabíamos. Essa é a parte ruim. A boa é que coisas incríveis acontecem quando você restaura a parte perdida desses micróbios bons.

Exames comuns, como uma cultura de muco ou urina, geralmente não captam todos os micro-organismos pois só cresce uma pequena parcela dos micróbios envolvidos. Por isso, às vezes, as pessoas ficam muito doentes e não respondem aos antibióticos. Um novo aparelho é capaz de medir o gás que essas bactérias liberam, definindo assim em que parte do corpo elas estão.

Bactérias são, de longe, a classe dominante entre os micróbios que vivem no trato intestinal, mas há outro grupo capaz de se proliferar como elas e aterrorizar seu corpo: os fungos. Supercrescimento fúngico está associado a sintomas muitas vezes parecidos com os das bactérias, como erupções cutâneas, alergias, doenças autoimunes, desconforto abdominal, inchaço diarreia, cansaço e mudanças de humor.

Para Davis, no entanto, boa parte dos médicos ainda não conhece a dimensão do impacto do microbioma.

“Sempre que há algo novo e revolucionário, toma décadas para mudar o modo de pensar dos médicos. Eles dizem “não me ensinaram assim na faculdade”, 25 anos atrás. Imagine alguém pegar um celular hoje e dizer não me ensinaram a mexer nisso em 1999? É o que acontece com saúde.

O QUE FAZER

Embora o cenário não seja animador, o médico elaborou um programa, que envolve alterações na dieta, um novo cardápio e uso de probióticos para recuperar as bactérias boas.

Além de evitar doenças, ele promete melhorias na qualidade da pele, humor, libido, perda de peso, sono e até aumento no QI.

“O Lactobacilus reuteri, por exemplo, estava no leite materno em todo o planeta, mas nós o perdemos, quase ninguém tem mais, porque é muito suscetível a antibióticos. Quando você repõe, coisas maravilhosas acontecem, porque está presente da boca ao ânus e manda um sinal ao seu cérebro para liberar ocitocina, o hormônio do amor, empatia e generosidade”, afirma.

Mas, como tudo na vida tem um custo, a primeira etapa desse programa consiste em eliminar açúcar, alimentos açucarados, adoçantes sintéticos, trigo e grãos cereais. Além, é claro, de reduzir uso de medicamentos, cortar ultraprocessados e preferir orgânicos.

Depois é hora de começar com os probióticos, comer pelo menos um alimento fermentado. E investir mais em alimentos ricos em fibras prebióticas, como legumes, frutas, sementes de chia e linhaça, óleo gelatinosas e cogumelos.

“Órgãos de saúde dizem para cortar a gordura e comer mais grãos integrais. É um conselho ridículo se considerar como os humanos evoluíram. Não somos vacas, cabras, cavalos, que são capazes de comer as sementes de grama. Não temos o equipamento necessário. Mas é como o sistema controla a dieta”, diz o cardiologista, que defende uma alimentação rica em gorduras como carne, vísceras, manteiga, leite integral, azeite de oliva e abacate.

ESTUDOS EM ANDAMENTO

O cardiologista e nutrólogo Daniel Magnoni, presidente do Instituto de Metabolismo e Nutrição, considera que a noção de uma microbiota doente ainda é nova e precisa de mais avaliações científicas.

“Esse conceito é muito recente e quando é recente há verdade verdadeira, verdade relativa e fake news. Mas muitos estudos estão sendo feitos com relação às bactérias intestinais. Algumas com perfil de diminuir absorção das glicose ou colesterol, outras com ação relativa a proteger a mucosa intestinal fazendo crescer mais e proteger de câncer. Começa a ase falar de probióticos, mas isso ainda é muito empírico”, afirma.

Magnoni considera o uso de probióticos uma boa suplementação para viajantes, pessoas em tratamentos médicos, como quimioterapia, ou quem fez uma dieta muito rigorosa, por exemplo.

Mais do que isso, o médico recomenda uma alimentação rica em fibras solúveis, que servem de combustível para as bactérias boas:

“Tomar probiótico e não comer fibra não adianta nada. Se tomar só probiótico e comer churrasco com farinha, não vai resolver.”

Magnoni recomenda cinco porções do reino vegetal por dia. Por exemplo: uma fruta é uma porção, um prato de salada outra, um acompanhamento de legumes, outra. O consumo de iogurtes, mesmo os de supermercado, cinco vezes por semana também ajuda a manter a microflora intestinal mais equilibrada.

GESTÃO E CARREIRA

DESISTIR OU ORGANIZAR?

Adotado por profissionais sobrecarregados, o ‘Quiet Quitting’, termo do momento para demissão silenciosa, é mais uma estratégia de sobrevivência no trabalho do que o ato de largar a toalha

Tão logo foi contratada em uma grande empresa de turismo, Luísa (nome fictício) teve a qualidade de seu trabalho elogiada pelos chefes e, embora ainda ocupasse o cargo de analista, ganhou responsabilidades de líder e passou a orientar três assistentes. Achou glamouroso e seguiu se dedicando. Encarou maratonas de horas extra e teve a oportunidade de trabalhar uma temporada nos Estados Unidos.

Veio a pandemia, e a jovem, de 32 anos, enfrentou redução salarial e de jornada em 75%, demissão de colegas, aumento das demandas e nenhum reconhecimento pelo esforço. Cinco anos se passaram desde a contratação, e ela segue como… analista. Virou, então, uma chave: “Continuava batendo as minhas metas, mas não recebi promoção. Senti-me traída. Você sempre trabalha mais e ganha pouco”.

Foi então que ela passou a se cobrar menos. Deixou de correr para entregar imediatamente as demandas e se esforçar para superar os resultados. “Já tive medo de que me demitissem, mas hoje quero que isso aconteça”, diz ela, que definiu o próximo dia 15 como limite para deixar a empresa. Quer mudar de carreira e ingressar na faculdade Pedagogia.

Só recentemente Luísa descobriu que existia um nome para a sua saga: “quiet quitting”. A expressão inglesa, que pode ser traduzida como “demissão silenciosa”, tem a ver com uma postura em que os funcionários estabelecem limites claros entre a vida pessoal e profissional e entendem que não fazer nada mais do que o estabelecido no contrato de trabalho é um direito quase sagrado. O termo se popularizou na esteira de outro fenômeno recente identificado no universo profissional, a chamada grande demissão ou “the great resignation”, aferido nos Estados Unidos, onde uma onda de pessoas infelizes com suas ocupações abdicaram de seus empregos mesmo em tempos de recessão.

Os tópicos serviram como um prato cheio para as redes sociais sedentas por novas pautas e, no Brasil, logo ganharam postagens acaloradas defendendo a adesão desses comportamentos ou comemorando uma possível mudança de paradigmas. Segundo especialistas, porém, tudo deve ser observado com cautela. A Firjan, por exemplo, foi atrás de números e identificou que, de fato, foram registradas 2,9 milhões de demissões voluntárias no Brasil, de janeiro a maio de 2022. Embora seja um número alto, uma análise mais aprofundada mostrou se tratar de uma realidade um tanto restrita. Cargos na área de Tecnologia da Informação ocupados por pessoas com nível superior respondiam por boa parte dessas ocorrências. São profissionais que podem se dar ao luxo de agirem assim porque têm um mercado aquecido. “A grande demissão no Brasil abarca os mais jovens e com um nível de instrução alto”, resume o gerente de estudos econômicos da Firjan, Jonathas Goulart.

Fora desse recorte, portanto, não há uma grande mudança em curso, como identifica a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da sede brasileira da International Stress Management Association. Ela lembra que uma pesquisa feita pela entidade há cerca de cinco anos descobriu que menos de 5% das empresas no Brasil têm políticas efetivas em relação à saúde mental dos funcionários, algo que não mudou significativamente. “Os gestores sabem que essas demandas existem, mas, infelizmente, a cultura do empresariado ainda é de sugar os funcionários até o bagaço e, quando eles não têm mais nada a oferecer, os demitem. Sabem que podem substituí-los num estalar de dedos”, resume, reiterando profissionais da tecnologia como exceção por terem mais oportunidades. “A grande maioria da população depende de seus empregos e tem medo de perdê-lo”, diz ela, lembrando que, por isso, muitas pessoas acabam convivendo com o assédio e abuso. “Nestes casos, resta ir à Justiça, o que nem sempre é fácil.”

Ainda assim, segundo ela, quando esses fenômenos encontram ecos por aqui tendem a abarcar jovens que ainda não constituíram família e têm a possibilidade de morar na casa dos pais. “As pessoas estão dando mais valor à vida do que ao trabalho, o que pode ter a ver com a pandemia. Todo o mundo viu como a existência pode ser breve. Preferem, muitas vezes, ganhar menos do que ficar numa empresa até adoecerem e ter um burnout.”

Professora da ESPM nas áreas de carreira e gestão de pessoas, Edna Rodrigues Bedani também considera esses fenômenos como algo fora da realidade brasileira, mas percebe mudanças em curso. “Estamos num momento de transição e aprendizado grande para entender como manter a produtividade e a competitividade, sem exigir que os profissionais façam muito além do que está no contrato de trabalho”, afirma. “Há empresas flexibilizando a jornada com modelos híbridos e revisando o programa de benefícios com oferta de ações de cuidado à saúde.”

Do ponto de vista dos gestores, Edna lembra que eles estão no mesmo contexto de aprendizado do que os demais funcionários e também são cobrados por resultados pelas empresas. “Alguns líderes, mais humanizados e maduros, gerenciam de forma adequada as adversidades e outros não, o que deixa as pessoas mais inseguras”, pondera. “O desafio é encontrar o equilíbrio entre as exigências e as horas de trabalho contratadas. Afinal, as jornadas longas são sufocantes e não produtivas.”

Trata-se aqui de uma questão bastante cara aos defensores do “quiet quitting”. Mas, antes de adotar essa máxima, lembrar que toda atitude implica em consequências também pode ser importante. O recado é dado por uma gerente de projetos que mora no Rio e trabalha numa empresa europeia onde, segundo ela, há uma colega que sempre “fecha a lojinha” na hora exata do fim do expediente, independentemente das demandas.

A profissional, que tem 37 anos e prefere não se identificar, afirma ter tirado uma lição dessa experiência. “O ideal seria que as próprias empresas cuidassem para que ninguém se sobrecarregasse. Como isso não acontece, acho mais válido nós mesmos nos organizarmos para dividir melhor as tarefas”, afirma. Ao dizer isso, ela lembra que, quando sua colega se recusa a fazer mais do que deve, alguém terá que dar conta do que foi deixado pelo caminho. “Quando olho para essa situação, penso na máxima de que ‘nenhuma revolução se faz sozinha’.”

EU ACHO …

AS NOVAS CERIMÔNIAS DE CASAMENTO

Quando eu estava na casa dos 20, tinha festa de casamento a cada mês: meus amigos formavam seus pares com a bênção de Deus, na igreja, e dos Bee Gees, no salão de algum clube. Na casa dos 30, foi a vez das nas visitas na maternidade. E hoje, infelizmente, tenho encontrado o pessoal em velórios, despedidas dos familiares mais idosos.

Ainda bem que os ciclos se renovam: estou voltando a frequentar festas de casamento, desta vez dos filhos dos amigos, aqueles bebês que um dia visitamos ao nascerem. E tudo mudou. Menos solenidade, mais simplicidade.

Menos ambientes fechados, mais sítios, jardins, beira de praia. Menos sermões autoritários (“até que a morte os separe”) e mais palavras poéticas e divertidas do celebrante, em geral alguém do círculo íntimo dos noivos. Promessas? Claro, enquanto fizerem sentido, não mais um pacto indestrutível. E como muitos casais já moram juntos e até procriaram, não raro são os filhos que levam as alianças do pai e da mãe no cortejo de entrada. Já vi até cães de estimação nesta função, e se saíram muito bem. Fim do mundo? Novo mundo.

Vida em movimento: estamos saindo do que é cerrado e exclusivo, rumo ao que é aberto e inclusivo. Falo de expansão de energia, de bons fluidos contaminando o ar. Foi o que senti num recente casamento realizado numa zona rural,

a poucos quilômetros de Porto Alegre. A previsão era de chuva, mas à medida que os convidados iam chegando, à tardinha, e se posicionavam no gramado, os raios de sol sobressaíram e fiquei pensando que uma celebração que começa ainda de dia é transparente em suas intenções, convoca a luz natural para destacar a largura dos sorrisos e os olhares cintilantes.

As crianças se soltam, os trajes são mais criativos, a música se espalha. As risadas ganham eco, as pessoas se misturam e a natureza não cobra pela decoração: sem paredes, os sentimentos se amplificam. Ninguém fica prestando atenção se fulana está com o vestido adequado, se cicrano deixou a gravata em casa — ao ar livre, somos menos críticos, mais fraternos uns com os outros. Não há lugar marcado.

A noite caiu e teve jantar, pista de dança, mesa de doces – sob teto firme – e tudo continuou belo e despojado. Casamentos (seja um churrasco ou um bufê, um piquenique ou um banquete) são sempre festas felizes. É quando recuperamos a confiança no amor, sublime amor, superando as maledicências e preconceitos. Sabemos que a vida não é um passeio no bosque, mas quando duas pessoas se dispõem a unir-se a despeito de todas as dificuldades que a convivência traz, a gente suspira aliviado: as cerimônias estão diferentes, sim, mas a motivação segue a mesma, como lindamente demonstraram Clarissa e Laura, as noivas daquele fim de tarde em que o céu abriu.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

ESTAR BEM

EQUILÍBRIO SOBRE A BALANÇA

Movimento exalta saúde em vez de ideal de magreza

O preconceito contra pessoas obesas não tem fronteiras, atinge gente de distintos níveis educacionais e de sucesso profissional. Nas críticas veladas, está subentendida a ideia equivocada de que o obeso falhou. Pesquisas já mostraram os terríveis efeitos dessa discriminação na saúde mental de quem é alvo de olhares e comentários críticos relacionados ao peso.

Criado nos Estados Unidos, o movimento Health At Every Size (Saudável Em Qualquer Tamanho) busca combater a intolerância e o sofrimento que ela causa.

O ponto de partida do movimento é enfatizar a importância de adotar hábitos saudáveis, no lugar de ter um corpo esbelto, lembrando que existem muitas pessoas magras com sérios problemas de saúde.

Ao tirar o foco da balança e focar no bem-estar, o Health At Every Size quer ajudar na batalha contra a preocupação doentia com o corpo. Entre os obesos, essa obsessão costuma abalar a autoestima. Entre os demais, alimenta a gordofobia.

A endocrinologista Maria Edna de Melo, presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e diretora da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), considera importante o aspecto inclusivo dessa abordagem.

“Mesmo representando mais de 20% da população brasileira, as pessoas com obesidade apanham muito. Apanham da sociedade, de profissionais de saúde e até de si mesmas”, avalia Melo.

FORA DOS ESTEREÓTIPOS

Deacordo com a Associação para Diversidade de Tamanho e Saúde (ASDA), na sigla em inglês), criadora do conceito Health At Every Size, as normas sociais atuais priorizam e normatizam corpos esbeltos e magros, mas excesso de peso não equivale sempre a problemas de saúde.

“Você deve aceitar seu corpo e deixar de lado estereótipos de que só é bonito quem é magro ou tem a cintura de determinado tamanho”, afirma a nutricionista Priscilla Primi, mestre pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

“Cada um tem sua individualidade de composição corporal, que varia muito de acordo com raça, sexo e genética”, completa Primi.

Uma das perguntas mais repetidas em consultas a nutricionistas é: “qual é o meu peso ideal?

Primi está entre os profissionais que respondem não saber e que o caminho é descobrir conjuntamente com o paciente.

Os defensores do Health At Every Size rejeitam o uso de medidas como peso, índice de massa corporal (IMC) ou tamanho do corpo como fator central para a saúde.

Da mesma forma, eles desaprovam intervenções centradas exclusivamente na perda de peso, como dietas restritas e exercícios com foco único no emagrecimento.

Um dos princípios do movimento épromover uma alimentação que equilibre as necessidades nutricionais do indivíduo e que considere aspectos como fome, saciedade, apetite e prazer.

A prática de atividade física segue a mesma linha: os exercícios devem ser prazerosos e sustentáveis.

O QUE É SER SAUDÁVEL?

O enfoque dos defensores do Health At Every Size não raras vezes provoca polêmica entre os especialistas, que perguntam: é possível ser saudável mesmo estando muito acima do peso?

Existe uma corrente que defende que uma pessoa com excesso de peso, sem alterações metabólicas, não precisa emagrecer, pois ela já é saudável.

Parâmetros bioquímicos, como exame de colesterol, triglicérides e hemoglobina glicada também fazem parte dessa avaliação.

E a abordagem, porém, não equivale a um passe livre para se comer e engordar de forma desenfreada.

“Uma pessoa acima do peso, com exames bons, sem problema de mobilidade, que faz atividade física tem uma porcentagem de gordura e de circunferência abdominal dentro da faixa, não tem porque perder peso. Ela é saudável”, defende Prima.

Por outro lado, quando a classificação entra na faixa de obesidade – definida por um IMC a partir de 30 -, o debate muda de figura. A maioria dos especialistas concorda que tal situação exige cuidado.

“Tem muita gente que vai fazer exames e os resultados serão normais. Só que isso não é um atestado de saúde”, ressalta Melo.

“Existem estudos que mostram que muitas pessoas com obesidade são metabolicamente saudáveis, mas, no longo prazo, após 10 a 20 anos, isso não se sustenta e os exames começam a se alterar”, completa a endocrinologista.

OBESIDADE CONTROLADA

Todos os especialistas ouvidos são unânimes em dizer que a obesidade precisa ser tratada. No entanto, ao contrário do que a maioria pensa, o objetivo não é fazer com que a pessoa fique magra e sim que ela fique mais saudável. Nessa linha, surge um novo conceito, defendido por entidades médicas como a Abeso e a SBEM, conhecido como obesidade controlada.

O endocrinologista Márcio Mancini, vice-presidente do departamento de obesidade da SBEM, explica que esse estágio de controle é obtido quando o paciente perde de 10% a 15% de seu peso máximo.

“Vários trabalhos mostram que isso é suficiente para melhorar diversos indicadores de saúde”, ressalta Mancini.

Ele acrescenta que a abordagem serve como estimulo para a pessoa persistir.

“A ideia é que o paciente se sinta acolhido e que tanto ele quanto o médico fiquem satisfeitos com perdas que melhorem a saúde e que sejam sustentáveis no longo prazo. Do contrário, eles acabam com metas inatingíveis que podem levar a busca de métodos pouco saudáveis e insustentáveis ou à desistência de emagrecer”, sustenta o médico.

Essa nova estratégia segue a mesma lógica de tratamentos de outras doenças crônicas, como hipertensão e diabetes.

Por exemplo, o hemoglobina glicada, um exame utilizado para avaliar o índice glicêmico, é considerada normal abaixo de 5,7%. Entretanto, no caso de pacientes com diabetes, a doença é considerada controlada quando esse valor está abaixo de 7%.

“Não é uma barra de chocolate que vai te engordar nem um prato de alface que vai te emagrecer. E um conjunto de hábitos, que é difícil mudar mas é possível, principalmente quando se encontra prazer e propósito”, afirma Primi.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESCOLHER UM PSICÓLOGO ENVOLVE TENTATIVA E ERRO E MUITAS PERGUNTAS

Há várias vertentes e técnicas que ajudam a aliviar sofrimento mental, mas estabelecer boa relação com terapeuta é fundamental

Não importa se você está passando por uma crise pontual, como um luto, ou se quer apenas se conhecer melhor. Há momentos na vida em que não sabemos como lidar com alguma situação e, nessas horas, a ajuda de um terapeuta pode fazer toda a diferença. Ele pode funcionar como um guia para trilhar o caminho – ainda que caiba somente ao paciente percorrê-lo.

Mas como escolher o melhor profissional para ajudar?

O mais importante é a relação que se estabelece com o psicólogo, já que é ele quem vai acompanhar essa jornada. Como em qualquer relacionamento, o que funciona para uns pode não funcionar para outros. É aqui que entra o tipo de abordagem terapêutica, como as técnicas usadas em cada sessão, além da própria maneira de conduzir do profissional.

Isso porque, independentemente da linha, todas as vertentes têm o mesmo objetivo: ajudar o paciente no processo de autoconhecimento e aliviar o sofrimento mental pelo qual está passando.

“É um trabalho de ressignificação e cuidado”, diz a psicóloga Thaís Martins, do Hospital Israelita Albert Einstein. “O paciente tem que se identificar com a forma como está sendo guiado e cuidado.”

Por isso, essa “química” é a primeira pista para saber se as sessões estão funcionando e se vale a pena seguir o processo. “Essa relação é cultivada, construída. É difícil estabelecer esse vínculo em uma só sessão”, lembra Martins.

Muita gente desiste na primeira ou acha que não deve fazer terapia porque não gostou daquela experiência – sem saber que com outra pessoa ou outra técnica o resultado poderia ser completamente diferente. “É importante ver se está bem, percebendo como se sente, se isso faz sentido.” Se for o caso, parta para outro profissional.

Por outro lado, alguns sinais de alerta mostram que há algo totalmente errado nas sessões: o psicoterapeuta não pode de nenhuma forma impor suas visões de mundo, preconceitos, crenças, nem dizer o que o paciente deve fazer. “É um espaço de fala e experiência do paciente, não do terapeuta.”

Além disso, não se trata de dar conselhos. É o paciente que vai chegar às suas próprias conclusões e respostas: “É um processo muito mais para dentro do que para fora, que às vezes gera mais perguntas”, explica a especialista do Einstein.

Nesse processo, não há fórmulas prontas, respostas fáceis e soluções padronizadas. Ele também depende muito da abertura da pessoa, inclusive para tocar em temas espinhosos. Dependendo do objetivo da terapia e do perfil de cada um, pode levar semanas, meses e até anos.

Ainda que para o leigo não faça muita diferença saber o que está por trás de cada abordagem terapêutica, algumas informações podem ajudar a nortear essa escolha.

Existem diversas linhas e cada uma delas tem várias vertentes. Mas, seja qual for a opção do paciente, é importante se informar se o profissional tem cursos de formação específica na área, se faz parte de instituições e sociedades, entre outras referências.

Abaixo, algumas das vertentes mais tradicionais:

PSICANÁLISE

Talvez seja a mais conhecida devido à fama do seu fundador, Sigmund Freud. Ela busca a origem inconsciente dos conflitos e sofrimentos que a pessoa vivencia, causando sintomas como ansiedade ou dificuldade de relacionamento, por exemplo.

Há várias linhas dentro dela (freudianos, os lacanianos, entre outros). Na mais clássica, usa-se o divã, o paciente fica de costas para o analista, que costuma ficar calado. Mas nem todos os profissionais trabalham assim. O paciente fala o que lhe vem à cabeça. A ideia é que ele faça associações livres e, com a ajuda do terapeuta, consiga interpretar o conteúdo.

TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL

O objetivo é elucidar as relações entre pensamento, cognição, emoções e comportamento para entender porque a pessoa desenvolve certos padrões de comportamento.

Trata-se de uma abordagem mais prática, com objetivos terapêuticos bem definidos. Por isso, as sessões incluem uma agenda bem estruturada, inclusive dos tópicos a tratar, e podem incluir exercícios, listas e metas. A proposta é ajudar o paciente a achar soluções mais adequadas para seus problemas. Aqui o terapeuta tem um papel mais ativo, instigando insights.

PSICODRAMA

Usa técnicas de dramatização, com interpretação de papéis, para provocar reflexões que ajudem a pessoa a entender seus comportamentos em cada situação. Por isso, além da linguagem verbal, utiliza também a expressão corporal, encenações e exercícios para explorar possibilidades de solução de problemas.

GESTALT

Parte da premissa que o ser humano tem a capacidade de escolher, sendo responsável pela sua própria história. Trabalha com o presente, sem excluir as lembranças do passado e as perspectivas para o futuro. A partir do contexto em que a pessoa está inserida, ajuda a identificar o significado de cada situação e a tomar consciência.

OUTROS OLHARES

ESTÍMULO PRECOCE

Pediatras alertam para perigos da cafeína entre crianças e jovens

Nos últimos anos, uma série de estudos tem apontado os muitos benefícios da ingestão do café. Uma rotina que envolva uma média de duas a três xícaras da bebida por dia já foi associada, por exemplo, a uma redução no risco de diabetes, de doença de Parkinson e até mesmo de morte no geral. Porém, a Academia Americana de Pediatria (AAP) agora desaconselha seu consumo por menores de 12 anos.

Para a academia, a cafeína em doses regulares traz uma série de efeitos negativos para a saúde de crianças e até mesmo de adolescentes. Um estudo conduzido por pesquisadores do Centro Médico de Boston, nos Estados Unidos, e publicado no periódico científico Journal of Human Lactation, identificou na região que cerca de 15% dos bebês de apenas 2 anos bebem aproximadamente 32 ml de café por dia. Embora pareça pouco, já é o suficiente para impactar o organismo, defende a AAP.

A academia americana explica que a cafeína presente na bebida é um estimulante com potencial comprovado para aumentar a atenção e evitar a fadiga em adultos. No entanto, nunca foi avaliado do ponto de vista científico o consumo por crianças e adolescentes. Além disso, os efeitos nocivos associados à ingestão excessiva nos mais velhos são observados de maneira muito mais rápida nas crianças.

Isso porque, devido ao menor peso corporal e ao organismo ainda em formação, quantidades consideradas pequenas para os adultos podem ser já uma sobrecarga para a metabolização da cafeína pela criança. As consequências desse excesso envolvem aumento da frequência cardíaca (taquicardia), elevação da pressão arterial, sintomas de ansiedade, dificuldade para dormir, problemas gástricos e, em doses ainda mais altas, a bebida chega a ser tóxica.

Em publicação sobre o assunto na revista científica Pediatrics, a AAP cita que, em 2005, a Associação Americana de Centros de Controle de Intoxicações registrou mais de 4,6 mil relatos de doses tóxicas de cafeína, com 2,6 mil, mais da metade, envolvendo pacientes menores de 19 anos.

“Preocupações adicionais em relação ao uso de cafeína em crianças incluem seus efeitos no desenvolvimento dos sistemas neurológico e cardiovascular e o risco de dependência física e vício. Por causa dos consequências adversas potencialmente prejudiciais e dos efeitos da cafeína sobreo desenvolvimento, a ingestão deve ser desencorajada para todas as crianças”, escrevem os autores do documento.

As questões relacionadas aos sistemas neurológicos e cardiovasculares são justamente pelos efeitos da cafeína nos órgãos do corpo. Uma situação de taquicardia e pressão alta a longo prazo, por exemplo, acelera o desenvolvimento de problemas no coração, como arritmias – distúrbios do ritmo cardíaco que provocam a sensação de que o coração não está batendo direito.

Além disso, sintomas de saúde mental, como ansiedade, agravam ainda mais a dificuldade para dormir, e podem ser afetados por estimulantes. Isso é ainda mais perigoso nos pequenos, que necessitam de mais horas de sono por terem o cérebro ainda em formação – um processo chamado de mielinização, que só termina aos 21 anos.

É durante o sono que o corpo também libera os hormônios do crescimento e acontece o fortalecimento muscular. Por isso, problemas nesse período podem provocar atrasos não apenas no desenvolvimento neurológico, como no físico.

“O efeito estimulante pode provocar insônia, agitação, irritabilidade, mas o café pode também atrapalhar a absorção de ferro, levando a um quadro de anemia – acrescenta o pediatra Carlos Amino, do Hospital Santa Catarina – Paulista, em São Paulo.

Há ainda o receio pela cafeína ser normalmente ingerida acompanhada de açúcar, o que em excesso aumenta o risco para diabetes tipo 2 e obesidade.

Por esses riscos, a academia é rígida e orienta que apenas a partir dos 12 anos seja permitida a ingestão de café. Ainda assim, até os 18 anos esse consumo deve ser limitado a menos de 100 mg de cafeína por dia, o que corresponde a pouco menos que uma xícara pequena. Para adultos saudáveis, o indicado é até 400 mg diários

Porém, há especialistas que consideram rigorosa a orientação da academia, e afirmam que é possível começar a ingestão antes, desde que seja em doses moderadas. Para eles, a partir dos 2 anos a criança já pode experimentar o sabor da bebida de forma pontual e, depois dos 6, ela passaria a poder consumi-la em baixas quantidades.

“Até 2 anos, existem muitas arritmias fisiológicas do coração da criança, então não é bom tomar nenhum café antes disso. Mas no caso dos acima de 6 anos, é possível beber uma xícara por dia, moderadamente, de preferência pela manhã para não atrapalhar o sono – avalia o cardiologista Fernando Costa, da Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Amino diz ainda que uma boa ideia, se for o caso, é misturar o café com leite para que seja ingerida também uma quantidade de cálcio na bebida, e que o total da cafeína seja reduzido.

OUTRAS BEBIDAS

Os especialistas reforçam, no entanto, que todas as orientações relacionadas à cafeína não são exclusivas do café, uma vez que uma série de bebidas contêm a substância na composição. É o caso, por exemplo, de refrigerantes, energéticos e isotônicos, que buscam oferecer uma dose extra de energia, mas também são nocivos para os mais novos.

A AAP alerta que algumas bebidas energéticas excedem 500 mg da substância, o que é “claramente alto o suficiente para resultar em uma toxicidade pela cafeína” nesse público.

“Além disso, um grande problema no caso dos adolescentes é que muitos fazem o uso do energético com bebidas alcoólicas, então são consequências piores ainda”, diz Amino.

Já os refrigerantes costumam ter 25 mg em cada lata. Outros alimentos comuns que têm cafeína são alguns iogurtes, barras de proteína, sorvetes, chocolates e alguns chás, como o preto.

Engana-se ainda quem pensa que bebidas descafeinadas são isentas de cafeína. Nessa classe de produtos, há uma quantidade reduzida em relação às versões tradicionais, mas a substância ainda está presente. Uma xícara de café descafeinado, por exemplo, costuma ter uma dose de até 15 mg.

GESTÃO E CARREIRA

CURTO-CIRCUITO

Burnout afeta 1 a cada 5 profissionais brasileiros

Uma pesquisa inédita conduzida pela empresa Gattaz Health & Results, liderada pelo presidente do conselho diretor do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, Wagner Gattaz, mostra que 18% dos profissionais brasileiros, uma cada cinco, sofrem com a síndrome do burnout. Além disso, 43% deles relataram sintomas depressivos, com 13% tendo sido diagnosticados coma doença; e 24%, queixas relacionadas à ansiedade, embora apenas 5% oficialmente tenham o diagnóstico para o transtorno.

O levantamento foi apresentado durante o Congresso Brasileiro de Psiquiatria, no início do mês, em Fortaleza, Ceará. O trabalho teve início em 2015 e nos últimos sete anos contou com o auxílio de uma ferramenta de inteligência artificial para identificar funcionários de grandes empresas brasileiras e enviar a eles um questionário sobre os aspectos de saúde mental.

Até agora, foram contactados 86,5 mil profissionais, dos quais 38,1 mil responderam às perguntas. A maioria dos entrevistados eram mulheres e, além dos resultados referentes ao burnout, à depressão e à ansiedade, a pesquisa identificou que 9% relataram problemas com álcool. O professor explica que o objetivo é dar continuidade nos próximos anos ao levantamento para incluir um número cada vez maior de trabalhadores brasileiros.

“Nós já aumentamos e estamos com mais de 100 mil envios dos questionários. Quanto maior a participação, mais você pode fazer subgrupos. Isso é importante, estudar por áreas, por ramos de trabalho, porque a prevalência (de burnout) entre um funcionário de TI (tecnologia da informação) é diferente daquela de um mecânico, por exemplo. É importante termos esses perfis porque eles orientam os programas de prevenção, para saber quais áreas têm mais incidência. Geralmente, os profissionais que lidam com o público são os que têm maiores taxas, como os bancários, os funcionários de callcenters”, afirma Gattaz.

FASES DA SÍNDROME

O pesquisador explica que a síndrome do burnout, incluída na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2019, afeta três dimensões. A primeira é relacionada à falta de energia, a um cansaço excessivo. Em seguida, passa a ocorrer a fase chamada de despersonalização, em que o profissional sofre instabilidade emocional. Por fim, há como consequência um estado contínuo de insatisfação com o trabalho.

Os principais fatores de risco para o quadro são situações de comunicação deficiente, como falta de feedback adequado; baixa autonomia do funcionário; baixo apoio social, como conflitos entre chefes e colegas; um número elevado de demandas e uma pressão relacionada ao tempo, por exemplo, com o simultâneo aumento das responsabilidades.

A pressão por produzir mais em menos tempo é um dos principais fatores que ajudam a desencadear o burnout, segundo estudos. Já combater os casos da síndrome, com programas de saúde mental em empresas e acompanhamento psicoterápico, não apenas melhora a qualidade de vida dos funcionários como oferece um retorno econômico positivo para a corporação, defende Gattaz.

Uma comissão da revista científica The Lancet, composta por 28 especialistas internacionais em psiquiatria, neurociência e saúde pública, chegou a estimar o gasto mundial de US$ 16 trilhões até 2030 no tratamento de problemas de saúde mental.

Por outro lado, um estudo da OMS, publicado na The Lancet Psychiatry, mostra que cada dólar investido no tratamento dos diagnósticos psiquiátricos é revertido em quatro dólares de retorno. Isso porque reduz, por exemplo, dispensas do trabalho, cenários de baixa produtividade e aumenta o número de indivíduos empregados e, portanto, colaborando com impostos.

“O cenário no Brasil é bastante parecido com o dos demais países, inclusive o aumento visto com a pandemia. A parte boa é que a Covid-19 trouxe uma atenção maior das empresas para programas de saúde mental. Nós (profissionais da saúde) somos chamados hoje por empresas que no passado recente nem reconheciam a existência do problema, mas agora veem que investir na saúde mental é um dos fatores principais inclusive para a sustentabilidade do negócio”, conclui.

MEIOS DE PREVENÇÃO

Em relação ao tratamento e à prevenção, além do acompanhamento por médicos especialistas e a redução de fatores de risco, a diminuição de algo chamado de “índice de distância do poder” também é associada a menores taxas de burnout. Esse cálculo é relacionado à maneira pela qual membros de determinada hierarquia encaram a desigualdade de poder naquela estrutura. Quando esse indicador é maior, há um distanciamento entre chefes e funcionários, uma sensação de medo imposta pelos superiores e menor acessibilidade a eles, o que foi ligado a mais casos de burnout. Já quando ele é menor, há uma relação melhor entre os profissionais de diferentes níveis da empresa, o que diminuiu os registros.

Gattaz também destacou a baixa prevalência de transtornos de ansiedade entre os profissionais na pesquisa, de 5%, menor que a taxa média do Brasil segundo a OMS, acima de 10%. Para ele, uma explicação é que esses indivíduos e podem ter mais dificuldade de entrar no mercado de trabalho por avaliações desfavoráveis em processos seletivos feitos por equipes de e recursos humanos.

EU ACHO …

VIVER EM PAZ

As pessoas falam em amor à primeira vista. Não creio que isso exista – a mim, parece ilógico, uma conexão

impossível, uma vez que o amor é uma construção, e não uma fagulha, um instante. Acredito em paixão à primeira vista, pois é a paixão que solta faíscas, é a paixão que dá o disparo, a paixão que desassossega e faz perder a razão.

O amor é um produto da convivência, da admiração, do pensar sobre o outro, do sentir a ausência de maneira calma, e não em desespero. Por isso, uma vida em paz é uma vida com amor, uma vida que surge depois que a energia explosiva da paixão se converte em amor perenizável. Gosto mesmo da ideia de amar o amor – a capacidade de guardar aquilo que me faz bem. É claro que a paixão também faz bem, mas só por um certo tempo. Ela não pode ser persistente, caso contrário ela faz adoecer, ela descontrola, suspende a noção de tempo e espaço.

Assim, paz de espírito é aquilo que faz com que eu consiga orquestrar as minhas paixões de maneira que elas se convertam em energia positiva e controlável.

Por esse ponto de vista, para ter paz de espírito, viver em paz é saber que está fazendo o que precisa fazer. Isso exige racionalidade.

Obedecer ao coração não é ser dominado pelo coração, não é excluir a razão. Obedecer ao coração é agir em equilíbrio, numa parceria entre o coração e a razão. Para mim, o equilíbrio ideal é aquele da bicicleta, o equilíbrio que só existe quando se está em movimento.

Algumas religiões consideram o equilíbrio e o alcance da paz como estados de ausência de qualquer emoção. Para mim, equilíbrio não é um ponto estático entre dois opostos, não é estar no meio. É ir aos extremos e não se perder, seja na ciência, na religião, na política, nos experimentos, no erótico. É ser capaz de vivenciar os múltiplos territórios da vida sem neles se ancorar.

A pessoa que vai para a “balada” e fica com um, depois fica com outro e no próximo final de semana fica com mais outro, bem, essa pessoa não é alguém que tem muitas possibilidades, e sim alguém com uma lacuna de sentimentos. Excesso de oferta muitas vezes é incapacidade de escolha. Quem transa com quem quer quando quer não é um libertário, e sim uma pessoa com um sentimento caótico em relação a suas escolhas. Pode-se argumentar que a pessoa escolheu ficar com muitos. Tudo bem, mas tenha em mente que, se tudo é prioridade, então não existe prioridade nenhuma. É como mural de faculdade: lotado ou vazio dá no mesmo, já que ninguém lê.

Escolher é adotar certas posturas e deixar outras de lado. Em sânscrito, havia uma ótima palavra para isso: cria, que quer dizer purificar. Ela deu origem à palavra crisis, em grego, de onde vem a palavra crítica e também a palavra critério. Criticar é separar o que uma pessoa deseja do que ela não deseja. Assim, ter uma vida crítica é ter uma vida consciente. Aquele que leva uma vida não crítica, ou sem critérios, não tem rumo, é um alienado.

Por isso, o equilíbrio não está em vivenciar tudo e qualquer coisa, mas em saber fazer escolhas sabendo que nem toda escolha é válida. Se toda escolha tiver validade, estamos no campo do relativismo, que é ausência de critério.

Se tudo tem validade, até a apreciação do mundo fica afetada. Gostar de qualquer comida ou de qualquer pessoa denota que a noção de gosto está prejudicada. Gostar, ter afeto, desejar sem critério só demonstra ausência de capacidade de entendimento.

Assim como a carência define os nossos rumos, é a ausência que molda nossos gostos. Uma pessoa só sente felicidade ou paz porque a felicidade e a paz não são contínuas. Nós só valorizamos algo quando há a possibilidade desse algo se ausentar. O exílio dá saudade. A felicidade contínua é uma impossibilidade, uma vez que as pessoas vivem em meio a outras pessoas e a atribulações. Mas, se a felicidade pudesse ser um estado contínuo, nós não a perceberíamos, assim como não percebemos nossa respiração, exceto na carência, quando o ar falta.

O erótico, claro, é um princípio vital. Freud dizia que as pessoas são regidas por duas pulsões, dois impulsos, aos quais ninguém consegue resistir: o erótico (vital) e o tanático (destrutivo). Freud tem uma grande descrença na capacidade humana. Para ele, biologia é quase destino.

Para mim, não é bem assim. Concordo, por exemplo, que o impulso tanático deve ser controlado, pois, se não fosse, não haveria civilização. Mas discordo quando ele diz que o erótico é o impulso da paixão e, portanto, também destrutivo e insustentável. O erótico, na minha concepção, é o impulso do amor, da construção, da vibração – pois a vida vibra. Vibrar significa ressoar, fazer sentir a presença. E você vibra perante a pessoa que você ama, o prato que aprecia, a música que frui, numa vibração que inevitavelmente estabelece uma conexão. Os gregos chamavam essa conexão de simpatia, ou aquilo que cria uma ligação, uma união entre nós. Já em latim, isso seria conhecido como amizade.

Tudo isso passa por uma lógica que aprendi com Janete Leão Ferraz, com quem sou casado. Quando começamos a namorar, mais de 25 anos atrás, ela colocou uma música do Djavan para deixar claro como deveria ser um relacionamento no entender dela:  ”Se você quer zero a zero, eu quero um a um”.

São dois empates, mas dois empates diferentes. O empate do zero a zero é aquele do caminho do meio, aqueles que os gregos antigos chamavam de caminho da virtude. Já o empate do um a um exige movimento.

Exige esforço e apego, e não acomodação e desapego.

ESTAR BEM

COMER TARDE REDUZ METABOLISMO E ELEVA FOME NA MANHÃ SEGUINTE

Estudo mostrou que jantar depois das 22h aumenta risco de ganho de peso

Jantar depois das 22h aumenta o risco para o desenvolvimento da obesidade. É o que aponta um novo estudo feito por pesquisadores da Universidade Harvard e publicado na revista cientifica Cell Metabolism. A refeição feita tão tarde foi associada pelos cientistas à desaceleração do metabolismo nas horas após ao jantar e ao aumento da fome na manhã seguinte.

Participaram do estudo 16 voluntários com sobrepeso ou obesidade entre 20 e 60 anos. Eles foram divididos em dois grupos: os que precisavam fazer a última refeição do dia às 18h e os que deveriam jantar às 22h. Ambos comeram a mesma refeição oferecida pelos pesquisadores.

Ao longo do dia, os voluntários fizeram anotações o nível de apetite e fome que estavam sentindo. Além disso, os pesquisadores recolheram dados sobre a temperatura do corpo e gasto energético, e ainda coletaram amostras de sangue. Os cientistas também controlaram os fatores ambientais que pudessem interferir no estudo, como prática de exercícios, sono e exposição à luz.

Todos os voluntários foram instruídos a ir dormir e acordar sempre no mesmo horário nas três semana que antecederam o experimento, que se prolongou por 12 semanas.

MAIS FOME

Os resultados apontaram que as pessoas que fizeram a última refeição às 22h queimaram menos calarias no dia seguinte e tiveram uma produção maior do hormônio grelina, associado à fome, em comparação com aquelas que se alimentaram até as 18h. Alimentar-se mais tarde dobrou a sensação de fome, apontaram os cientistas.

Os exames de sangue demonstraram também que os voluntários que comiam mais tarde apresentavam níveis mais baixos de compostos químicos que regulam a sensação de saciedade após as refeições, como o hormônio leptina.

“Durante o episódio de vigília de 16 horas, a ingestão tardia diminuiu a leptina média em 16%, e aumentou a relação grelina/leptina em 34%, consistente com o aumento da probabilidade de fome durante esse período”, escreveram os autores do estudo, liderados pelo professor de medicina Frank Scheer, diretor do Programa de Cronobiologia do hospital Brighamand Women’s.

As pessoas que comeram mais tarde queimaram calorias mais lentamente e tiveram aumento de gordura. Quem fez sua refeição tardiamente gastou 5.03% menos de caloria na comparação com os que jantaram cedo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A FAVOR DO TEMPO

Prática de desligar celulares à noite e acordar com os velhos despertadores tem ganhado cada vez mais adeptos; especialistas reconhecem benefícios

O apagar das luzes no quarto não garantia que Luciana Kreimer, de 50 anos, desfrutaria de uma boa noite de sono. Ainda acostumada a deixar o celular ligado à noite, a designer de interiores se despertava a cada barulho soado pelo aparelho, quando não estava no modo silencioso, ou no acender da tela, com a chegada de alguma notificação. “Sentia uma vontade incontrolável de ver, o som chama você. Tomei uma atitude porque ficava muito ligada”, relata.

No meio da pandemia, Luciana resolveu dar um basta na situação: passou a desligar o telefone das 18h às 9h do dia seguinte e deixá-lo na sala, na hora de dormir. Para acordar e não se atrasar para os compromissos, a carioca ressuscitou um velho amigo, o rádio- relógio, item que já foi hit, mas andava extinto das mesinhas de cabeceira.

Embora soe radical, a atitude de Luciana encontra ecos em diferentes lares mundo afora. A prática vem ganhando adeptos nos últimos tempos, principalmente pelo reconhecimento dos impactos negativos que os celulares causam ao bem-estar. “Os despertares provocados por um telefonema, ou pelo som de algum aplicativo, fazem com que haja uma interferência na qualidade do sono por diversos motivos”, atesta Fabrício Hampshire, neurologista da Casa de Saúde São José.

Segundo ele, esses fatores impactam até mesmo em compostos hormonais. “A liberação de melatonina, hormônio produzido na glândula pineal (localizada no crânio) e fundamental para um sono adequado, pode ficar comprometida com um aumento de cortisol provocado por uma agitação mediante a algum conteúdo no celular. Isso vai influenciar tanto nas horas que uma pessoa dorme, como também dificulta a atingir fases mais profundas do sono, importantes para nossa recuperação e saúde de uma maneira geral”, diz.

Atenta aos sinais, Luciana foi além e espalhou despertadores pelos quatro quartos da casa, num esforço para influenciar os seis filhos a diminuírem o tempo on-line. Nos últimos dois anos, vários modelos já foram usados pela designer, dos analógicos aos digitais. Os com formatos divertidos também caíram nas graças da família, como um urso, um pato e o ratinho Mickey Mouse, da Disney. “Não tive problema com meu marido em relação ao uso do celular porque ele é igual a mim. Inclusive, a decisão de desligá-lo à noite foi conjunta. Nossos filhos é que são mais difíceis. Brigo direto com o meu caçula, que não tira o celular da mão. O do meio me enrola. Sei que não faz o que peço tanto assim, mas tenta. Ele entende a necessidade de se desligar um pouco”, conta ela, que mantem um telefone fixo para receber ligações eventuais quando fica off-line. “É qualidade de vida.”

A psicóloga Daniela Faertes, especialista em terapia cognitiva e mudanças de comportamentais, observa um aumento de pacientes interessados em desapegar dos aparelhos telefônicos no período da noite. Mas, em geral, eles citam a sensação de “estar perdendo alguma coisa” como empecilho para isso. “O celular criou essa percepção de que todas as demandas são urgentes e, com isso, o nosso corpo fica superativado. Há a necessidade de nos desligarmos porque nos coloca num constante estado de emergência, algo completamente antagônico à higiene do sono”, esclarece a profissional.

É justamente essa abstinência de notícias e sociabilidade virtual por horas a fio que mais satisfaz Débora Thomé, de 45 anos.

“Adoro o dia seguinte. Quando você passa um tempão sem falar com ninguém, aparecem várias notificações depois”, conta. Autodenominada como uma “mulher analógica”, resistente a todos encantos da multifuncionalidade dos celulares e aplicativos, a escritora e cientista política, que tem o costume desligar o aparelho por volta das 20h todos os dias, nunca abandonou os despertadores à moda antiga.

“Na minha cabeça não tem porquê deixar o telefone ligado na hora de dormir. É curioso isso. Para mim não é estranho, é algo completamente normal e que me faz muito bem, principalmente pelo costume de ler. O celular me tiraria essa atenção.”

Sandra Doria, médica que atua no Instituto do Sono, enaltece o ato de deixar o telefone desligado, fora do quarto, e recorrer aos despertadores quando há a necessidade de acordar num horário determinado. Ela ainda enumera os benefícios da prática à saúde.

“Um sono reparador, com quantidade, qualidade e ritmo nos dá disposição, foco e concentração na execução de tarefas do dia. Melhora nossa saúde cardiovascular, metabólica e, principalmente, imunológica, que é a área em que o sono mais atua. Além de nos ajudar a ter equilíbrio emocional. É uma solução bem pensada.” E sem prazo de validade.

OUTROS OLHARES

PROGRAMA RESOLVE METADE DAS BUSCAS POR PATERNIDADE

Parceria em São Paulo vai realizar três mutirões de coleta de DNA até dezembro

A primeira e única vez que a assistente social Fabiana Carvalho teve contato com o pai foi quando ela tinha 4 anos. Após a morte do avô, o pai deixou São Paulo e nunca mais voltou. Foram mais de três décadas de espera até que ela, enfim, o reencontrasse e pudesse ter o nome dele na certidão de nascimento e no documento de identidade.

“No encontro que eu tive, era como seu eu estivesse com uma caneta e uma folha de papel em branco, pois não sabia nada dele”, diz Fabiana, 43. “Mas hoje tenho o nome do meu pai na certidão de nascimento e no RG.”

Corsino Borges Pinto, pai de Fabiana, foi encontrado pela ação do Ministério Público de SP na cidade de Porteirinha, no norte de Minas Gerais, em 2017. Segundo a assistente social, ele dispensou o exame de DNA e reconheceu Fabiana como filha legítima. Dois anos depois, eles finalmente se reencontraram.

“Fui até a cidade onde ele estava para ver que estava vivo e poder dizer ‘eu te amo, pai’”, diz Fabiana, que desde então mantém contato com Borges, hoje com 71 anos.

O reconhecimento de paternidade para Fabiana ocorreu por meio do programa Encontre Seu Pai Aqui, uma parceria entre o Ministério Público e o Imesc (Instituto de Medicina Social e de Criminologia de São Paulo) que tenta diminuir a burocracia encontrada por aquelas pessoas que buscam o reconhecimento de paternidade no estado.

O programa foi lançado em 2016 e, de lá para cá, segundo dados da promotoria, cerca de 12 mil casos já foram atendidos em todo o estado. Por meio dele, 51,5% das questões de paternidade foram resolvidas sem que houvesse necessidade de um processo mais demorado na Justiça.

“A ideia do programa é que a paternidade seja reconhecida de forma consensual, evitando o conflito entre as partes. Não passar pelo Judiciário e fazer ali a composição, estimulando sempre esse reconhecimento espontâneo”, diz a promotora Maria Cecília Alfieri, assessora do Centro de Apoio Operacional Cível.

No programa, a pessoa interessada em realizar o teste de paternidade deve procurar qualquer unidade do Poupatempo no estado e preencher uma ficha indicando o relatado pai – o que Fabiana fez na unidade de São Bernardo do Campo. A partir daí, o Ministério Público passa a investigar o paradeiro dele.

Quando localizado, o indivíduo é ouvido e, se concordar com a paternidade atribuída, é feita a requisição de averbação na certidão de nascimento, ou então é agendada a realização do exame de DNA.

Se o pai for de outra localidade, é solicitada uma carta precatória para que ele seja ouvido. “Os arranjos familiares vão mudando em uma velocidade muito grande e isso traz consequências para o registro civil. Ele não é apenas uma formalidade, ele vai trazer uma série de outros direitos. É o resgate daquela dignidade e os direitos mais fundamentais da pessoa”, diz Maria Cecília.

Fernando José da Costa, secretário estadual de Justiça e da Defesa da Cidadania, segue na mesma linha. “Além da harmonia familiar, traz legitimidade financeira com relação a direitos sucessórios, patrimônio, pensões alimentícias. Acaba sendo muito importante socialmente e legalmente.”

No último dia 30 de setembro, Ministério Público e Imesc realizaram um mutirão para coleta de exames de DNA, sem a necessidade do agendamento. Segundo o instituto, foram feitas duas solicitações para localização dos pais e 22 coletas de material para DNA.

Esse mutirão será repetido nos dias 20 de outubro, 25 de novembro e 9 de dezembro. Na ação, mãe, filho e o apontado como pai, que estejam de acordo com a realização do exame, devem comparecer juntos à sede do Imesc para a coleta do material de DNA, apresentando documento com foto. A coleta é feita na hora e o resultado sai em cerca de 15 dias.

Se der positivo, os envolvidos serão chamados pela promotoria e encaminhados ao cartório, onde o novo documento será emitido.

“Qualquer pessoa pode ir [ao mutirão] fazer o exame, mesmo não tendo processo judicial, e vai receber o resultado. Estamos abrindo uma oportunidade principalmente para aquela população vulnerável, que não tem como pagar advogado”, diz o secretário.

Caso mãe e filho não estejam acompanhados do suposto pai, eles poderão realizar o atendimento e dar continuidade ao processo no Ministério Público, dentro do mutirão. Se o suposto pai já estiver morrido, a mãe deve comparecer junto com parentes de primeiro grau dele.

“Se mesmo com o exame de DNA a pessoa se recusar a ir, aí, sem dúvida, vai nascer o interesse em uma ação judicial para confirmar a paternidade. Ainda que o exame seja positivo”, diz a promotora. Segundo Maria Cecília, por causa da pandemia, ficaram represadas muitas demandas, pois o Imesc teve que paralisar as atividades.

De acordo com dados da Arpen (Associação dos Registradores de Pessoas Naturais), nos sete primeiros meses deste ano, 100.717 crianças foram apresentadas em cartórios por mães solo em todo o país.

GESTÃO E CARREIRA

EMPREENDEDORES 50+ TÊM CHANCE MAIOR DE SUCESSO NOS NEGÓCIOS

Experiência para lidar com adversidades e responsabilidade são algumas características positivas desse grupo de profissionais

Profissionais maduros, acima de 50 anos, têm mais chances de sucesso na abertura de um negócio ou empresa. É o que revela a pesquisa “Empreendedores 50+, o futuro do Brasil”, da consultoria Empreendabilidade. O levantamento conectou dados macroeconômicos, indicadores do mercado empresarial e do perfil de profissionais maduros. O relatório, que usou Big Data Analytics (cruzamento de informações), relaciona as taxas de sucesso de fundadores de empresas em diferentes faixas de idade.

Segundo Ricardo Meireles, fundador da Empreendabilidade e responsável pelo estudo, algumas características do profissional 50+ são a maior vivência, a capacidade de lidar melhor com adversidades, aceitar mais riscos, fazer boas negociações e ser mais responsável na tomada de decisões. Pela pesquisa, 15,6% dos empreendedores com idade entre 55 e 64 anos têm empresa estabelecida, ou seja, que está ativa há mais de 3,5 anos. Entre pessoas de 18 a 34 anos, esse porcentual é de 3,8% e, entre 35 e 50 anos, 11,1%. É acima dos 50 anos que muitos profissionais decidem realizar algum sonho e deixar de ser empregado, segundo a pesquisa. Além disso, alguns já conseguiram juntar poupança e querem continuar ativos no mercado. É o caso de Bete Marin, de 52 anos. Depois de 30 anos de experiência e uma carreira consolidada, ela decidiu montar, ao lado de uma amiga, a agência digital MV Marketing, focada em Economia Prateada – mercado voltado às necessidades das pessoas maduras. “Empreender na maturidade é uma oportunidade quase única”, diz Bete.

Qualidade de vida e motivação foram os pontos de partida para a veterana montar um negócio. Mas, antes de investir na nova empreitada, ela precisou planejar. “Essa é a essência de você ser bem-sucedido”, destaca. Primeiro, fez uma retrospectiva de vida, relembrou a virada de carreira e o que mais a impactou. A partir dali, percebeu que estava longe de querer se aposentar. Hoje, a agência conta com dez clientes fixos e a previsão é investir em produtos digitais dedicados ao público alvo.

NEGÓCIOS DE MULHERES

Embora pessoas acima de 46 anos tenham mais chances de aprovação na tomada de crédito, segundo pesquisa do Sebrae em parceria com a FGV, as mulheres enfrentam mais dificuldades que os homens na hora de abrir um negócio por conta da falta de acesso ao crédito, como critica Bete. “Precisamos nos livrar de estereótipos e focar no mercado.”

Foi justamente o preconceito com idade que impediu Gisele Correia, de 56 anos, de conseguir uma oportunidade de emprego aos 40 anos.

Na época, ela atuava na área de advocacia. Desempregada, a saída foi montar um brechó na garagem de sua casa para conseguir pagar o aluguel. “Comecei a empreender por necessidade”, lembra.

A empreitada só teve fim porque Gisele precisou se mudar de Curitiba para São Paulo. Na capital paulista, conseguiu um bico como representante de vendas de roupas de ginástica. “Me descobri apaixonada pelo varejo.”

A grande oportunidade surgiu em 2006, quando a empresária se interessou por uma lojinha, ao lado da academia em que malhava. O estabelecimento foi posto à venda após o dono declarar falência, enquanto migrava para o e-commerce. O proprietário era Marcio Kumruian, atual CEO da Netshoes. “Mas não era uma, eram três lojas. Quando eu fui conversar, ele disse: ‘Ou é três ou é nada’.” Ela topou e, com um empréstimo no BNDES, inaugurou a Use Best Fit. Quatorze anos depois, a empresária já somava 14 lojas físicas.

O negócio estava consolidado, até a pandemia, que fechou as portas de vários empreendimentos Brasil afora. Nesse período, metade dos trabalhadores com mais de 50 anos perdeu o emprego, segundo levantamento da PwC Brasil.

“Pensávamos que não íamos sobreviver”, desabafa Gisele. Foram seis lojas físicas fechadas e um novo recomeço. A loja migrou para o digital e as vendas online foram ampliadas com martketplace.

CAPACITAÇÃO

Cursos e treinamentos de curto prazo podem potencializar as características de empreendedores 50+. Veronique Forat, 65 anos, queria uma mudança na carreira após décadas no setor de marketing – e se aposentar não era opção. Mas precisou encarar o meio digital e até aprender a editar sites. Em 2017, junto com a amiga Marta Monteiro, 68 anos, abriu um negócio de moradia compartilhada.

A ideia era criar uma espécie de Tinder, com match-making para conhecer pessoas com quem gostaria de morar. O diferencial do modelo estava no volume de informações que o usuário poderia encontrar: sexo, orientação sexual, se fuma ou não, vegetariano, pets. Assim nasceu a plataforma Coliiv, que agora deve expandir o menu de informações incluindo recorte por religião e tendência política.

EU ACHO …

INDEPENDÊNCIA PARA QUEM?

Coletânea reúne textos de intelectuais negros para discutir equidade racial

Foi lançado nesta semana o livro “A Resistência Negra ao Projeto de Exclusão Racial – Brasil 200 Anos”. Organizado pelo professor e doutor Hélio Santos, o livro reúne textos de 34 intelectuais negras e negros de diversas regiões do país para refletir sobre os 200 anos da Independência do Brasil.

O livro foi lançado pela editora Jandaíra, no selo Sueli Carneiro, o qual tenho a alegria de coordenar e cujo nome homenageia a grande pensadora negra que também contribui com um texto nessa produção. O selo tem trabalhado nos últimos anos pela publicação de mulheres e homens negros e, com a obra, alcança seu 21º título em três anos de história. Quando o professor Hélio me ligou no meio deste ano para apresentar sua ideia, o sentimento foi que esse livro já havia acontecido no plano espiritual. Faltava vê-lo materializado na Terra, mas muito trabalho seria necessário. Para que fosse possível, dependeríamos de uma atuação memorável por parte de Lizandra Magon, diretora-executiva da Jandaíra, trabalho este que foi realizado com louvor.

Como dizem, o que é para ser vem com muita força. O projeto contou com o suporte financeiro do Instituto Çarê, que desde 2019 se dedica a preservar e difundir acervos brasileiros relevantes. As pessoas convidadas entregaram textos inéditos a tempo de serem publicados – feito que deve ser creditado à irresistível força gregária do professor Hélio.

Contribuem para este livro intelectuais fundamentais para a compreensão do Brasil, como Conceição Evaristo; Kabengele Munanga; Zélia Amador de Deus; a relatora-geral da terceira Conferência Mundial contra o Racismo, realizada na África do Sul, Edna Roland; os escritores Ana Maria Gonçalves, Cuti e Elisa Lucinda; e colegas brilhantes, como Cida Bento e Michael França. Destacam-se textos de acadêmicas e acadêmicos fundamentais de várias gerações e regiões do país que tratam dos mais variados temas contemporâneos para a população negra, como também leituras críticas sobre o que, de fato, representou o grito de independência no Brasil. Quem gritou independência?

E independência para quem?

E o livro, claro, conta ainda com um texto memorável do professor Hélio Santos sobre um novo acordo para a equidade racial no Brasil. Trata-se de um manifesto contundente e pormenorizado por um marco de bem-estar sociorracial.

“Esta coletânea sonha inspirar um novo acordo para a equidade racial; me refiro a um New Deal customizado para o Brasil, país de maioria negra. Trata-se de construir não o Estado do bem-estar social padrão, mas o Estado do bem-estar sociorracial, que é o caminho adequado para nos levar a um patamar civilizatório condizente com o de um país rico, de dimensões continentais”, afirma o professor Hélio Santos em seu texto. Foi com muita satisfação que pude contribuir com um texto sobre a urgência de democratização das mídias. Desenvolvi meu argumento a partir de uma noção de Osmar Teixeira Gaspar, grande pensador negro que nos deixou na pandemia, mas cujo legado sobre a necessidade de debatermos mídias e concessões está mais atual do que nunca. No artigo, falo sobre a importância da construção da memória coletiva e do direito de contar essas memórias. Conto sobre como fiquei irritada com a novela “Nos Tempos do Imperador” – pelo que considerei uma afronta ao trazer a romantização dos tempos coloniais nos tempos atuais e também pelo fato de a população negra não ter meios de fazer sua própria novela e contar sua narrativa. A partir da noção do professor Gaspar em seu livro “Mídias: Concessões e Exclusão”, argumentamos como a população negra brasileira está sendo submetida a uma censura nos meios de comunicação, por ter obstadas diversas formas de representação nas mídias, que são concessões públicas. Nas palavras do próprio professor Gaspar: “A democratização dessas concessões, por outro lado, permitiria aos próprios negros corrigir as intencionais distorções de sua imagem como grupo social”.

Trata-se de uma abordagem gaspariana do debate de democratização das mídias, ultrapassando a discussão sobre um maior equilíbrio nas perspectivas políticas da imprensa. A abordagem gaspariana vai além: posiciona o debate na urgência de a população negra estar representada em todas as esferas da sociedade brasileira, inclusive na posição de falar por si. E é essa contribuição que deixo neste livro fundamental para pensar a nação nos 200 anos de Independência.

DJAMILA RIBEIRO – Mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais

ESTAR BEM

NOVO REMÉDIO CONTROLA AÇÚCAR NO SANGUE DE PESSOAS COM DIABETES

Medicamento já aprovado nos EUA é tido por especialistas como ‘mudança de paradigma’ no combate à doença

Um novo medicamento pode revolucionar o tratamento do diabetes tipo 2, a forma mais comum da doença. Dados de uma série de estudos fase 3 apresentados recentemente no Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia (CBEM) mostram que a tirzepatida normalizou os níveis de açúcar no sangue de pacientes em 51%. Para efeito de comparação, a taxa foi de 20% nas pessoas que tomaram a semaglutida, considerado o principal tratamento para a doença hoje. Além disso, os pacientes que utilizaram tirzepatida perderam, em média, 12,4 quilos, o dobro na comparação com a semaglutida.

“A tirzepatida se mostrou um medicamento superior aos que existem no mercado tanto na melhorado controle glicêmico quanto na redução de peso. Realmente é um marco na história da diabetes”, diz o endocrinologista Alexander Benchimol, pesquisador do Departamento de Endocrinologia da Escola Médica de Pós-Graduação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia.

A redução de peso possibilitada pelo novo medicamento também foi saudada como um divisor de águas, mas na luta contra a obesidade.

Um dos estudos, o SUR- PASS-2, comparou a eficácia e a segurança da tirzepatida com a semaglutida em adultos com diabetes tipo 2. No total, 1.879 pessoas participaram da pesquisa, que teve duração de 40 semanas.

Os resultados mostraram que 51% dos pacientes que tomaram tirzepatida 15 mg alcançaram níveis de hemoglobina glicada inferior a 5,7%, contra apenas 20% daqueles que tomaram semaglutida. Esse exame é usado como medida para diagnóstico de pré-diabetes e controle do diabetes pois traça uma espécie de histórico do nível de açúcar no organismo dos últimos meses.

Para pessoas com a doença, a meta de controle é ter a hemoglobina glicada inferior a 7%, valor alcançado por 92% dos voluntários que usaram tirzepatida. Para fator de comparação, o valor de 5,7% é encontrado em pessoas sem diabetes.

“Esse dado é uma mudança de paradigma e fará com que a gente tenha que rediscutir o controle do diabetes porque é um nível de controle a que não estávamos habituados”, avalia Benchimol.

Outro ponto considerado importante pelos especialistas é que esse benefício foi obtido sem que o paciente corra risco de hipoglicemia.

“Um dos efeitos colaterais de alguns medicamentos para o diabetes é a hipoglicemia. Já esse medicamento é de alta potência na redução da glicose e mesmo assim não causa o problema”, diz o endocrinologista Rodrigo Moreira, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

Novos resultados do mesmo estudo e de sua continuação, o SURPASS-3, foram apresentados na reunião anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes, realizado este mês, na Suécia. Eles revelam que adultos tratados com tirzepatida atingiram mais rapidamente as metas de glicose no sangue e perda de peso.

Análises adicionais do SURPASS-2 descobriram que o tempo médio para atingir 5% ou mais de perda de peso foi de cerca de 12 semanas com as duas doses mais altas de tirzepatida (10 e 15 mg), em comparação com 24 semanas para semaglutida. Pode parecer pouco, mas um emagrecimento desse patamar está associado a melhorias clinicamente significativas nos problemas de saúde, em especial para pacientes com diabetes tipo 2.

“A velocidade que estamos vendo na redução da glicose e na perda de peso está além de qualquer outra coisa que temos disponível no momento e pode colocar os adultos com diabetes tipo 2 em uma posição melhor para prevenir complicações a longo prazo. Mas é importante lembrar que esses medicamentos devem ser usados além da dieta e do exercício”, disse o líder do estudo, o patologista químico Adie Viljoen, do East and North Hertfordshire NHS Trust, no Reino Unido.

EFEITOS COLATERAIS

Os principais eventos adversos relatados foram de intensidade leve a moderada e incluíram náusea, vômito e diarreia. Todos diminuíram ao longo do tempo.

“A tirzepatida é um medicamento muito bem tolerado, com uma baixíssima incidência de efeitos colaterais. O principal é o enjoo nas primeiras semanas de uso”, afirma Moreira.

O endocrinologista explica que a tirzepatida é o primeiro produto de uma nova classe de medicamentos. Ela atua no organismo imitando a ação dos hormônios GLP-1 e GIP, que estimulam a produção de insulina e promovem a sensação de saciedade. A semaglutida, por exemplo, imita só a ação do GLP-1.

“Toda vez que a gente come, em especial carboidrato, nosso intestino produz as duas substâncias, que têm um efeito no pâncreas, melhorando a supressão de insulina, e no cérebro, diminuindo a fome e aumentando a saciedade. O medicamento atua como essas duas substâncias juntas”, explica Moreira.

Neste ano, a tirzepatida foi aprovada pela FDA, agência que regula medicamentos nos Estados Unidos. Segundo a farmacêutica Eli Lilly, o aval para uso da droga já foi solicitado à Anvisa e, se aprovado, pode estar disponível “em meados de 2023”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A CONVERSA É NOSSA MAIOR FERRAMENTA PARA ALINHAR MENTES

Neurocientista desenvolveu um estudo para entender como um grupo chega a um consenso

Colegas de trabalho presos em uma chamada do Zoom, deliberando sobre uma nova estratégia para um projeto crucial. Colegas de apartamento na mesa da cozinha, discutindo sobre como dividir as contas de forma justa. Vizinhos em uma reunião de bairro, debatendo sobre como pagar reparos nas ruas.

Todos nós já fizemos isso – em um grupo, tentando o nosso melhor para colocar todos na mesma página. É sem dúvida uma das tarefas mais importantes e comuns nas sociedades humanas. Mas chegar a um acordo pode ser excruciante.

“Muito de nossas vidas parece estar nesse tipo de efeito Rashomon; as pessoas veem as coisas de maneiras diferentes e têm relatos diferentes sobre o que está acontecendo”, disse Beau Sievers, neurocientista social do Dartmouth College.

CONSENSO

Alguns anos atrás, Sievers desenvolveu um estudo para melhorar a compreensão de como exatamente um grupo de pessoas chega a um consenso e como seus cérebros individuais se modificam após essas discussões. Os resultados, publicados recentemente online, mas ainda não revisados por pares, mostraram que uma conversa robusta que resulta em consenso sincroniza os cérebros dos falantes – não apenas quando se pensa no tópico que foi explicitamente discutido, mas também em situações relacionadas que não foram abordadas. O estudo também revelou pelo menos um fator que torna mais difícil chegar a um acordo: um membro do grupo cujas opiniões ferrenhas se sobrepõem às dos outros.

“A conversa é nossa maior ferramenta para alinhar mentes”, disse Thalia Wheatley, neurocientista social do Dartmouth College que aconselha Sievers. “Não pensamos no vácuo, mas com outras pessoas.” Sievers projetou o experimento usando filmes como base, porque queria criar uma situação realista na qual os participantes pudessem mostrar mudanças rápidas e significativas em suas opiniões. Mas ele disse que era surpreendentemente difícil encontrar filmes com cenas que pudessem ser vistas de maneiras diferentes. “Diretores de filmes são muito bons em restringir os tipos de interpretações que você pode ter”, ele disse.

Raciocinando que os grandes sucessos normalmente não ofereciam muita ambiguidade, Sievers se concentrou em filmes que os críticos adoravam, mas que não trouxeram grandes audiências, incluindo O Mestre, Sexy Beast e Reencarnação, um drama de 2004 no qual um garoto misterioso aparece na festa de noivado de uma mulher.

Nenhum dos voluntários do estudo tinha visto nenhum dos filmes antes. Enquanto estavam deitados em um scanner cerebral, eles assistiram a cenas de vários filmes sem som, incluindo uma de Reencarnação, em que o menino desmaia em um corredor após uma conversa tensa com a mulher elegantemente vestida e seu noivo.

Depois de assistir aos trechos, os voluntários responderam a perguntas da pesquisa sobre o que achavam que havia acontecido em cada cena. Em seguida, em grupos de três a seis pessoas, sentaram-se ao redor de uma mesa e discutiram suas interpretações, com o objetivo de chegar a uma explicação consensual.

Todos os participantes eram estudantes do mesmo programa de mestrado em administração de empresas, e muitos deles se conheciam em graus variados, o que gerou conversas animadas refletindo a dinâmica social do mundo real, disseram os pesquisadores.

Após as conversas, os alunos voltaram aos scanners cerebrais e assistiram aos trechos novamente, bem como novas cenas com alguns dos mesmos personagens. A cena adicional de Reencarnação, por exemplo, mostrava a mulher colocando o menino na cama e chorando.

O estudo descobriu que a atividade cerebral dos membros do grupo – em regiões relacionadas à visão, som, atenção, linguagem e memória, entre outras – ficou mais alinhada após a conversa. Curiosamente, seus cérebros estavam sincronizados enquanto assistiam às cenas que haviam discutido, bem como às novas.

INTERPRETAÇÕES

Grupos de voluntários apresentaram diferentes interpretações do mesmo trecho do filme. Alguns grupos achavam que a mulher era a mãe do menino e o havia abandonado, enquanto outros achavam que não tinham parentesco. Apesar de ter assistido aos mesmos trechos, os padrões cerebrais de um grupo para outro eram significativamente diferentes, mas dentro de cada grupo, a atividade era muito mais sincronizada. Os resultados foram submetidos para publicação em uma revista científica e estão em análise. O experimento também destacou uma dinâmica familiar para qualquer pessoa que já tenha se sentido triturada em uma reunião de trabalho: o comportamento de um indivíduo pode influenciar drasticamente uma decisão do grupo.

Alguns dos voluntários tentaram persuadir seus colegas de grupo de uma interpretação cinematográfica com agressividade, sendo autoritários e discutindo com seus colegas. Mas outros – particularmente aqueles que eram atores centrais nas redes sociais da vida real dos alunos – atuaram como mediadores, ouvindo os outros e tentando encontrar um terreno comum.

Os grupos com os falastrões foram menos alinhados neuralmente do que aqueles com mediadores, segundo o estudo. E talvez o mais surpreendente foi o fato de que os mediadores geraram consenso sem forçar suas próprias interpretações, mas encorajando outros a falar e depois ajustar suas próprias crenças – e padrões cerebrais – para combinar com o grupo.

“Estar disposto a mudar de ideia, então, parece a chave para colocar todos na mesma página”, disse Wheatley.

Como os voluntários tentavam ansiosamente colaborar, os pesquisadores disseram que os resultados do estudo eram mais relevantes para situações, como locais de trabalho ou salas de júri, nas quais as pessoas estão trabalhando em direção a um objetivo comum.

Mas e quanto a cenários mais controversos, nos quais as pessoas têm interesse em uma determinada posição? Os resultados do estudo podem não valer para uma pessoa negociando um aumento ou políticos discutindo sobre a integridade de nossas eleições. E para algumas situações, como um brainstorming criativo, o pensamento de grupo pode não ser o resultado ideal.

“O tópico da conversa neste estudo foi provavelmente bastante ‘seguro’, pois nenhuma crença pessoal ou socialmente relevante estava em jogo”, disse Suzanne Dikker, neurocientista cognitiva e linguista da Universidade de Nova York, que não esteve envolvida no estudo.

Estudos futuros podem se concentrar na atividade cerebral durante as conversas de construção de consenso, ela disse. Isso exigiria uma técnica relativamente nova, conhecida como hyperscanning, que pode medir simultaneamente o cérebro de várias pessoas. O trabalho de Dikker nessa área mostrou que traços de personalidade e dinâmicas de conversação, como revezamento, podem afetar a sincronia cérebro a cérebro.

Wheatley concordou. A neurocientista disse que está frustrada há muito tempo com o foco de seu campo no cérebro isolado.

“Nossos cérebros evoluíram para serem sociais; precisamos de interação e conversas frequentes para manter a sanidade”, ela disse. “E, no entanto, a neurociência continua mapeando o cérebro isolado como se isso fosse alcançar uma compreensão profunda da mente humana. Isso tem que mudar e vai mudar.”

OUTROS OLHARES

MICRODOSES DE COGUMELOS CONTRA ANSIEDADE VIRAM MODA NO PAÍS

Produtos são usados em retiros e vendidos em lojas online, apesar dos riscos

No auge da pandemia, com tanta falta de ar que achou que fosse Covid, Davi, 24, comprou um punhado de cogumelos pela internet, triturou-os e os comeu puros.

O estudante de psicologia, que pediu para ser citado com um nome fictício na reportagem, soube da existência das microdoses de Psilocybecubensis, conhecidos como “cogumelos mágicos”, por podcasts, documentários e artigos, enquanto pesquisava uma alternativa para combater o que tinha: ansiedade. O estímulo ao consumo de microdosagens de um dos princípios ativos da espécie, a psilocibina, avança nas redes sociais no Brasil, move lojas no e-commerce, cerimônias e retiros.

Estudos apontam potencial para redução de sintomas de depressão e ansiedade, mas a substância, além de proibida no mercado, pode trazer riscos, segundo especialistas.

“Essas drogas do jeito que estão vindo, meio empurradas pela cultura, são muito perigosas. As pessoas mais vulneráveis mentalmente têm mais risco, por exemplo, de psicotizar com a psilocibina. A psicose é um dos efeitos possíveis a longo prazo”, diz a psiquiatra e vice- coordenadora da Comissão de Adicções da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Carla Bicca.

“Tem colegas sérios estudando isso? Tem. Mas até agora não tem nada que nos diga que essa é uma grande droga e que realmente está funcionando. As evidências atuais são muito frágeis, e a dose entre o céu e o inferno é difícil de medir”, reforça.

Entre outras potenciais reações que cita estão náuseas, problemas no sono e crise de pânico – a ansiedade em grau máximo.

A microdosagem seria o consumo de uma dose pequena, de 0,1 a 0,4 grama. O diretor de fotografia André Henrique Pamplona, 56, encontrou em uma loja virtual cápsulas com os “cogumelos mágicos” nessa quantidade, vendidos como uma opção “saudável e eficaz para tratar depressão, TDAH e ansiedade”.

“Eu não sinto reação adversa após o uso. Vinte minutos depois de tomar a psilocibina, sinto a ansiedade indo embora, me sinto bem e feliz.”

A substância entrou na rotina dele, no Rio de Janeiro, desde março, após ele ver um documentário e pesquisar mais, por indicação de um amigo que usa. “Como já fiz uso da substância como recreação na juventude e nunca me fez mal, não vejo porque não utilizá-la para acabar com o meu problema. Tenho ansiedade muito forte pela manhã e as sensações são muito ruins. É taquicardia, o ar não é suficiente, sinto um bolo na garganta.”

Para Eduardo Schenberg, doutor em neurociências, pesquisador e presidente do Instituto Phaneros, o uso desses produtos “é uma moda sem evidência científica que tem sido propagandeada principalmente entre usuários, mas também por alguns cientistas”.            

“Os estudos científicos vão mostrando cada vez mais que quando se faz um estudo duplo cego – em que algumas pessoas vão receber a microdose e outras, não, sem elas saberem quem está recebendo ou não – praticamente não há diferenças detectáveis entre os grupos. Então as melhoras são mais devido à expectativa, ao fato de estarem envolvidas em uma comunidade. Isso é geralmente chamado de efeito placebo”, observa.

A defesa do uso surge nas redes, segundo o neurocientista, sem que as pessoas saibam de fato quais são os riscos. Os possíveis efeitos, a segurança e a eficácia são objeto de estudos no Brasil e no exterior.

Resultados atuais apontam aspectos positivos, mas também o oposto. E “a moda”, alerta Schenberg, pode levar pacientes a entenderem equivocadamente que devem abandonar tratamentos como psicoterapia e medicamentos para apostar na substância que salta aos olhos como alternativa.

“Eu recebo e-mails com frequência, e mensagens no Instagram, que querem saber como trocar o antidepressivo por microdoses de cogumelo, mas não há indicação de que as pessoas devam fazer isso”, reforça. Outro risco é o de potenciais usuários adiarem a busca pelo tratamento psiquiátrico e o transtorno ir se aprofundando.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) aponta o Brasil como líder global em número de ansiosos. São mais de 18,6 milhões, incluindo Davi. O estudante enxergou microdoses como ajuda ao ouvir um podcast, em 2021. O momento, analisa ele, foi uma “virada de chave”. “A partir do relato que ouvi, mergulhei fundo nos estudos até que cheguei nas microdoses e decidi tentar por conta própria.” O experimento foi compartilhado com seguidores em uma rede.

Em uma escala de 0 a 10, ele diz estar hoje em nível 6 de ansiedade. Não está usando microdoses agora, mas acredita que é preciso desmistificar o assunto. “A primeira coisa que percebi foi que eu estava calmo e aquela angústia no peito tinha sumido, mas também senti muita dor de cabeça. Pensei que talvez tivesse tomado mais do que o necessário. O efeito que senti foi bem claro, e não sutil, como eu via nos relatos”.

Hoje, no Brasil, não existem medicamentos legalmente registrados com psilocibina, nem pedidos na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) com esse objetivo. Atividades com cogumelos Psilocybe cubensis são ilegais no país, segundo a agência. A exceção são pesquisas de órgãos e instituições autorizadas.

Pelo menos sete estudos que envolvem ansiedade e psilocibina foram aprovados pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa desde 2018, cinco coordenados por Schenberg, do Instituto Phaneros. Ele pesquisa efeitos de drogas psicoativas, com foco em substâncias psicodélicas como a psilocibina, há mais de dez anos.

Os trabalhos que realiza não usam microdoses, mas doses altas, com acompanhamento terapêutico antes, durante e depois de sessões chamadas psicoterapia assistida com psicodélicos. As substâncias nos estudos são feitas em indústria farmacêutica, com controle de qualidade, medida de dosagem com precisão e segurança de ali não haver impurezas e contaminantes – o que, segundo ele, é difícil atestar em produtos das redes.

Em cursos para profissionais da saúde e estudantes, o neurocientista ensina como orientar pacientes no consultório caso tenham interesse no assunto. “É preciso ajudar o paciente a tomar uma decisão respeitando um dos princípios bioéticos mais importantes da área da saúde, que é a autonomia do paciente de buscar opções”, afirma ele.

“Mas é importante que os profissionais tragam também que há pouca evidência científica de que as microdoses possam tratar a depressão, por exemplo, e que as evidências mais robustas de que possa ajudar são obtidas com outros modelos, que envolvem doses altas de psilocibina e que jamais devem ser tentados como automedicação em casa.”

GESTÃO E CARREIRA

TRABALHO DOMÉSTICO ESCANCARA INFORMALIDADE E DESIGUALDADE DE GÊNERO

Quase 75% dos empregados da categoria não têm carteira assinada e mais de 90% são mulheres

O crescimento do número de trabalhadores domésticos revela uma fragilidade estrutural do emprego no Brasil. Eles costumam estar na informalidade, o que muitas vezes impede um ganho fixo mensal. São 4,37 milhões de brasileiros nessa situação, segundo mapeamento do Instituto Doméstica Legal, quase 75% da categoria (que soma 5,85 milhões de pessoas).

“Quem não tem serviço fixo sempre passa por alguma coisinha. Agora, eu comecei a trabalhar direitinho, e a minha vida está mudando. Mas (antes), sempre que chegava uma conta de luz, e vinha outra em seguida, eu me atrapalhava toda”, conta Maria de Lourdes Torres da Silva, de 43 anos.

No ano passado, ela teve de se mudar para o Paraná e precisou deixar todos os seus trabalhos em São Paulo. Só conseguiu se recolocar neste ano, depois de ter retornado à capital paulista. “Era muito difícil arrumar emprego como diarista no Paraná. Quando eu voltei, a maioria das minhas patroas já estava com outras pessoas”, diz. “Mas tem uns quatro meses que consegui trabalho, porque as pessoas que ficaram no meu lugar não deram certo e, aí, me chamaram de volta.”

Hoje, Maria de Lourdes consegue uma renda mensal de R$ 1,8 mil. Ela mora com um companheiro e um filho de 13 anos na zona leste de São Paulo. A vida dela sempre foi dedicada ao trabalho doméstico. Alagoana, chegou a São Paulo há 24 anos. Por três anos, trabalhou numa casa de família. Depois, sempre foi diarista.

Em 2013, o Congresso Nacional aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) das domésticas numa tentativa de ampliar a formalização do setor. A medida passou a regulamentar e consolidar direitos trabalhistas da categoria, como definição da jornada de trabalho e contribuição para o INSS. “A PEC contribuiu para que as trabalhadoras domésticas tenham os mesmos direitos de qualquer outro trabalhador. Ao menos perante a lei, essa é uma categoria profissional como outra qualquer, mas há uma mudança cultural a ser feita”, afirma Joana Costa, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “Em termos de formalização, um estudo nosso discute evidências empíricas que indicam que a PEC das domésticas não afetou as chances de ter carteira assinada, mas também não aumentou significativamente as chances de ser informal ou se tornar desempregada. O único efeito robusto encontrado teria sido a redução de horas.”

PERFIL FEMININO

Os números do trabalho doméstico também indicam uma realidade profundamente desigual na questão de gênero. Dos 5,85 milhões de brasileiros que trabalham nessa área, 5,36 milhões são mulheres – o que equivale a 13% de toda a população feminina ocupada no País.

“Essa precariedade na oferta de trabalho se dá para um segmento que sempre luta contra a discriminação, que são as mulheres, em particular, as negras”, afirma Cida Bento, conselheira do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades. “Se você pegar qualquer estatística ao longo do tempo, vai ver que as mulheres negras são sempre a maioria (em trabalho doméstico). Isso é um indicativo de que há uma baixa oferta de outras possibilidades para elas.”

Na sua avaliação, o Brasil precisa de um bloco de medidas para transformar essa realidade. “São políticas públicas que precisam capacitar a mulher negra para ocupar diferentes lugares, inclusive no trabalho doméstico, se assim ela quiser; garantir o cumprimento da legislação que as domésticas conquistaram e adotar medidas de combate ao racismo, o que é fundamental para possibilitar que as pessoas avancem no mercado de trabalho.”

EU ACHO …

O RAIO DA PAIXÃO E A CONTRUÇÃO DO AMOR

Nós vivemos numa civilização e, em sociedade, a irracionalidade é a princípio inaceitável. Mas a paixão, que é irracional, é aceita – e é aceita porque somos seres apaixonados.

Não há invenção sem dor e paixão, assim como não há religião sem temor ou terror, ou a possibilidade de conceber um ser superior sem você ter de se reconhecer como inferior. Da mesma forma, não há necessidade de divindade se alguém se considera completamente potente. Mas, se você supõe que uma entidade pode machucar ou “puxar seu tapete”, é preciso encontrar modos de agradá-la. A fonte da religião é o terror, mas seu significado vai muito além.

De maneira geral, a Ciência, a Arte, a Filosofia e a Religião são quatro caminhos que têm por trás uma mesma questão: “Por que algo – nós, o mundo, o universo – existe?”. Ou: “Por que existimos em vez de não existirmos?”. Reconheça que é um tema que desperta paixões, assim como o futebol e a política…

Observo aqui que a palavra latina “paixão” vem do grego pathos, que é a raiz da palavra patologia, que carrega consigo doença e afecções, ou seja, aquilo que te afeta (quando o mal está dentro, é uma infecção). Por isso, a Paixão de Cristo. Não é “paixão” porque Cristo estava apaixonado por alguém, e sim porque sofreu. Paixão é transtorno, é ebulição. E a metáfora do frescobol nos ajuda a lembrar que uma das coisas que precisamos aprender é a transformar paixão em amor.

A paixão agride, suspende todas as referências, suspende o tempo e o espaço. A paixão é a suprema negação do óbvio. Um casal de apaixonados num banco de parque está sempre sozinho – ao redor, não existem crianças, bolas, cães, parque, trânsito lá fora, cidade em volta. A paixão é uma explosão de energia que exige um desgaste imenso para sustentar sua produção de energia. Se ela não for transformada em amor, ela sucumbe em si mesma, implode, se transforma em um buraco negro – buracos negros se originam em estrelas superpoderosas que, num dado momento, deixam de produzir energia e, por isso, passam a consumir apenas a energia que já têm. E aí elas têm, digamos, um momento de paixão fulgurante, que é quando explodem. No momento da explosão, são chamadas de supernovas. Mas, depois disso, elas desabam, arrastando tudo ao redor, inclusive a gravidade, e se transformam num buraco negro.

O psicanalista alemão Erich Fromm afirmava que o amor imaturo diz que te ama porque precisa de você. E que o amor maduro diz que precisa de você porque te ama. A paixão é movida por necessidade. Por esse ponto de vista, nós não conseguimos existir sem paixão – mas ela não pode ser contínua, pois não pode fornecer, para usar uma palavra da moda, sua própria sustentabilidade.

A paixão tem de ser o ponto de partida, mas não pode ser o ponto de chegada. Ela precisa ser transformada em algo que seja menos explosivo e mais propício à constância, como o amor. Gosto muito de uma frase de Roland Barthes, escritor e filósofo francês, que consta de um livro chamado Fragmentos de um discurso amoroso: “Você não ama alguém, e sim ama o amor”.

Uma pessoa que te ama é aquela que guarda o teu amor consigo. Quando ela deixa de te amar, ela também deixa de guardar o teu amor dentro dela.

Assim, o amor é uma sensação de pertencimento recíproco que almeja a plenitude. No fundo, o amor é uma identidade, pois eu me encontro no outro ou na outra. O amor tem turbulências, mas ele não é confronte, e sim conflitante. O amor, ao contrário da paixão, oferece paz – sendo que paz não é ausência de conflitos, e sim a capacidade de administrar conflitos para que não haja ruptura. Assim, se você consegue guardar o meu amor, se cuida dele, eu fico. Mas, se não cuida nem o guarda, eu parto. Há também os casos em que o amor não é cuidado nem guardado e a pessoa resolver ficar mesmo assim. Nesses casos, isso é conveniência, e não convivência.

Ao contrário do amor, a paixão não tem a ver com o outro, e sim com você mesmo, com a sua obsessão por uma pessoa ou situação. Há pessoas que são viciadas em paixão, na adrenalina da paixão, para alimentar uma necessidade que só pertence a si mesmo, e não ao outro.

Ninguém é isento de paixão, mas é preciso ter em mente que a paixão é eventual e rápida. A paixão, insisto, consome uma energia impossível de sustentar. Se o amor e a vida são uma maratona, a paixão são os cem metros rasos – e todo mundo que já viu uma corrida dessas sabe que o atleta a termina mal conseguindo se sustentar em pé, tamanho o consumo de energia. Ninguém consegue se manter em disparada, há um limite físico para isso. A paixão é como um raio; ela brilha, ilumina, tem uma energia imensa – uma energia que precisa ser contida ou canalizada para não fulminar aquilo que está na sua frente, uma energia que precisa ser transformada para que não origine uma perturbação ou um transtorno.

Ao contrário da paixão, o amor compreende. Compreensão é diferente de dominação ou de aceitação, até porque alguém que não seja um preconceituoso contumaz só pode aceitar ou rejeitar depois de ter compreendido. Compreender é ser capaz de entender as razões, mesmo sabendo que razões são sempre provisórias. Quando você tem consciência da fugacidade das razões, mata qualquer indício de fanatismo e se torna uma pessoa mais acolhedora, apta a receber o outro como a um igual. Caso contrário, está à mercê da paixão, vulcânica e devastadora.

Só quando a paixão arrefece, quando fica sob controle, que pode se transformar em amor e, assim, em paz de espírito. Observo mais uma vez que paz não é ausência de conflito ou a inexistência de desacertos, e sim a capacidade de administrar as turbulências sem se perder.

São inevitáveis as pedras no meio do caminho (quando Drummond escreveu sua poesia, ele estava brincando com Olavo Bilac, que tem um poema chamado No meio do caminho da nossa vida, que, por sua vez, é o primeiro verso da Divina Comédia, de Dante Alighieri).

Mas pedras são apenas pedras, umas grandes, outras menores. São obstáculos a serem contornados. O que não pode acontecer é que as pedras se tornem barreiras. Pedras são fronteiras: elas demarcam um território de risco, mas não indicam impossibilidade.

Impossibilidade é haver paz enquanto há paixão.

ESTAR BEM

PLANEJAR O PARTO AJUDA A EVITAR A VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA

Gestante pode tomar alguns cuidados para se prevenir, como estar apoiada por uma equipe própria, incluindo doula e ginecologista

A enfermeira e doula Mayra Barbosa não se esquece do modo como a médica que era responsável por seu pré-natal a tratou quando estava grávida do primeiro filho. “A obstetra do posto era conhecida por falas grosseiras e muita falta de empatia. Eu era hipertensa crônica e fui negligenciada nas duas gravidezes. Não tive acesso ao protocolo de profilaxia de pré-eclâmpsia, apenas fui medicada quando a pressão já estava alterada”, relembra ela.

Usuária do Sistema Único de Saúde (SUS), Mayra relata que não pôde escolher o time de médicos que iria acompanhá-la no processo do pré-natal até o parto, o que a deixou vulnerável a passar por violência obstétrica. “Na primeira gravidez, quando fui encaminhada para a maternidade, a médica que me internou foi de uma grosseria que não esqueço. O parto foi induzido, e o único profissional disposto a me ajudar me encontrou em um estado de exaustão física e emocional. Quando entrei no período expulsivo fui levada para a sala de parto e fizeram uma episiotomia em mim.”

O procedimento a que Mayra se refere, a episiotomia, é uma incisão feita na região do períneo para ampliar o canal do parto. A justificativa dada por alguns profissionais é uma emergência que ajudaria a mãe no processo de indução do bebê para fora; entretanto, não existe necessidade de ser feito.

A episiotomia é uma das várias maneiras que existem de praticar violência obstétrica. Negar protocolos médicos, remédios, não permitir a entrada de acompanhantes na sala do parto, afastar a possibilidade de ter uma doula dando apoio à gestante em todo o processo, e frases de assédio como “não chora não que ano que vem você estará aqui de novo” também caracterizam a violência obstétrica, que é um conjunto de maus-tratos físicos e verbais dirigidos à mãe antes e durante o parto. Desse grupo de mulheres que recebem o corte no períneo, as mulheres negras são as mais afetadas pelo não recebimento de anestesia no procedimento: 10,7%, enquanto mulheres brancas são 8%, segundo dados de pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz.

A advogada Maria Luiza Gorga, doutora em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Direito Médico, diz que a gestante pode tomar alguns cuidados para se prevenir da violência obstétrica – dentre eles, que o ginecologista que acompanhou a paciente em todo o processo do pré-natal também esteja presente no parto.

“É importante que a parturiente esteja com acompanhante. É direito dela, amparado pela lei. A ausência dele também é uma faceta da violência obstétrica. Levar uma doula também é permitido”, explica ela. A presença do acompanhante é garantida pela lei federal 11.108/2005, mas ela não regulamenta a participação da doula. No entanto, diversas cidades têm leis próprias permitindo a presença de ambos – em São Paulo, trata-se da 380/2014.

ESCOLHAS

A médica obstetra Laura Penteado, diretora clínica e obstetra da Theia, espaço especializado em ginecologia e obstetrícia, dá dicas de como a gestante pode escolher o melhor time para o parto. Ela ressalta que cada parturiente tem uma experiência individual. Preferências, indicações baseadas na estrutura física, psicológica e na cultura da paciente devem ser observadas com muita atenção.

“O que mais vai dar tranquilidade para a mulher é a informação. Ir atrás dela, entender o que ela quer e como ela quer”, indica. O primeiro passo, diz, é fazer um plano de parto e colocar exatamente o que se planeja para o momento. “Eu até brinco falando que se tem uma coisa que o parto não segue é um plano, mas isso (o plano de parto) ajuda a alinhar expectativas. Dizer o que você espera desse momento, entender com a sua equipe onde cada intervenção pode ser realizada e qual o seu limite. Porque, às vezes, o que uma paciente não quer a outra vai querer.”

A importância de a mulher escolher o seu time abrange também sua rede de apoio. É essencial que a família, amigos e pessoas próximas da parturiente saibam cada processo a ser feito no pré-natal, a fim de evitar qualquer tipo de violência obstétrica, desde as verbais e sutis às mais escancaradas. Essa conscientização evitará que a gestante desenvolva, entre outras doenças, a depressão pós-parto.

“O pós-parto é um momento em que os hormônios estão numa fragilidade maior. Então, parturientes que sofreram violência têm um maior risco de não criar um vínculo com o bebê nesses primeiros dias”, afirma Laura. Apesar de cada caso ser individual, a obstetra explica que a violência pode fazer com que a mulher se sinta incapaz. “Dependendo do grau, isso causar uma vergonha de não ter conseguido se impor. E acaba deixando-a mais insegura na posição de mãe, principalmente as que estão tendo filho pela primeira vez.”

DOULAS

Mayra ressalta a importância de ter uma doula em todo o processo de gravidez, do pré-natal ao nascimento da criança. “Muitas mulheres são enganadas por médicos fofinhos, mas que na verdade querem agendar cesárea, mesmo não havendo real indicação, simplesmente por comodidade. Tenha uma doula que a auxilie a fazer escolhas fundamentadas, com informações baseadas em evidências.”

A doula ajuda a família a se preparar para a chegada do bebê, com informações e também na construção do plano de parto. “A presença de uma doula diminui a ocorrência de violência obstétrica. Ela permanece ao lado da gestante o tempo todo, ajudando com massagens, sugerindo posições e dando suporte também ao acompanhante, incentivando sua participação ativa no trabalho de parto”, explica Mayra. Segundo ela, a doula também se faz presente no pós-parto, orientando na amamentação, por exemplo.

A advogada Maria Luiza também ensina que, caso tenha passado por alguma violência obstétrica, a lei ampara as parturientes e seus acompanhantes. “A gestante pode gravar ou filmar o que está acontecendo no momento. Quem está com ela também pode registrar essas agressões. Ela pode pedir o prontuário da atendente, com todas as anotações. É um direito seu. Pode denunciar tanto no hospital, já que toda instituição tem de ter um Comitê de Ética, como recorrer ao conselho da classe. Aqui em São Paulo, por exemplo, isso cabe ao Conselho Regional de Medicina (Cremesp). Tudo isso é gratuito, o acesso é muito fácil.”

A parturiente ainda pode recorrer ao Poder Judiciário. De- pendendo da natureza das agressões sofridas, ela ou sua rede de apoio podem fazer um boletim de ocorrência. “Se ela foi xingada, pode alegar crime contra a honra, lesão corporal se for o caso, desde algo mais leve até prejuízos gravíssimos como a perda de um órgão, no caso do útero.” Segundo Mayra, tanto o hospital quanto os médicos e sua equipe podem ser responsabilizados criminalmente. A gestante pode buscar uma reparação material ou moral.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

INSEGURANÇA LEVA MULHER A FINGIR ORGASMO, APONTA ESTUDO

Pesquisa também avaliou correlação desse comportamento no sexo com a dificuldade de chegar ao clímax

Mulheres que têm dificuldade para chegar ao clímax no sexo fingem orgasmo com mais frequência. A conclusão, confirmada por um estudo, pode parecer óbvia, mas os pesquisadores foram além e tentaram entender quais são os motivos por trás disso.

Segundo o trabalho científico, publicado no periódico Sexual Medicine, da Sociedade Internacional de Medicina Sexual, são dois motivos principais que levam mulheres a fingirem terem tido um orgasmo mesmo quando não chegaram lá: o medo de abalarem a autoestima do parceiro e a insegurança de passarem a impressão de que há algo errado com elas.

Os autores do artigo são cientistas do Instituto de Psicologia da universidade Eötvös Lorand, em Budapeste, e da universidade de Valparaíso, no estado de Indiana, nos EUA. Eles aplicaram com 2.200 mulheres um questionário online com perguntas sobre dados demográficos e médicos e histórico sexual, sobretudo com relação ao orgasmo. Foram selecionadas 360 mulheres heterossexuais e cisgênero, que já haviam se masturbado alguma vez, estavam em um relacionamento com sexo e admitiram já ter fingido ter orgasmo em algum momento da vida. Elas tinham uma média de 32 anos de idade e de sete anos de relacionamento. Segundo estimativas, de 30% a 75% das mulheres já fingiram orgasmo ao longo da vida, e esse índice aumenta no caso daquelas mais jovens. Os pesquisadores se surpreenderam, porém, com o fato de isso acontecer mesmo em relações longas. “Esse padrão de fingir orgasmo pode ser esperado em relacionamentos de curto prazo ou em estágio inicial, mas ficamos bastante surpresos ao encontrar esse padrão em mulheres em relacionamentos contínuos”, dizem os autores do artigo.

A análise das respostas mostrou que quanto mais dificuldade as mulheres tinham em sentir orgasmo, mais elas fingiam, e também que as duas maiores motivações para esse comportamento eram o medo de ferir a autoestima do parceiro e a insegurança de serem consideradas anormais ou disfuncionais – especialmente esta última.

As conclusões não surpreendem a ginecologista Carolina Ambrogini, especialista em sexualidade feminina e coordenadora do Centro de Sexualidade Feminina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). A médica diz que fatores como ansiedade, o julgamento do outro e a expectativa de uma grande performance atrapalham a relação. Corroborando isto, o estudo destacou que um dos motivos para uma pessoa fingir orgasmo é a insegurança com relação ao corpo e à performance. “As pessoas acham que sexo é uma coisa natural e tem que ser performática. Mas ninguém nasce sabendo”, observa a ginecologista. Para ela, é importante se masturbar e “entender o que te excita”.

Ambrogini também critica a ênfase que se dá ao orgasmo, o que pode atrapalhar justamente chegar ao clímax. “Na nossa sociedade, o orgasmo é a prova concreta de que o sexo foi bom, mas a principal razão pelo qual as pessoas transam deveria ser a conexão uma com a outra.”

A ginecologista Teresa Embiruçu, especialista em sexualidade humana e membro do Coletivo Ser – Sexualidade e Saúde, conta que, em seu consultório, ainda vê mulheres que nunca pegaram um espelho para observar a própria vulva. “A região íntima ainda hoje é mais conhecida pela depiladora, pela parceria sexual e pelo ginecologista.”

Outro fator que leva a fingir o orgasmo, de acordo com o estudo, é a insatisfação com o relacionamento.

“É muito comum a gente ver a dinâmica do relacionamento impactar a satisfação sexual”, aponta Embiruçu. A saída escolhida por muitas mulheres é fingir que está tudo bem no sexo e na relação, para evitar conversas indesejadas e a exposição de falhas.

De acordo com as especialistas ouvidas pela reportagem, o machismo e o conservadorismo têm um papel significativo nesse resultado, não apenas por julgar de forma negativa as mulheres que buscam conhecer seus corpos e ter uma vida sexual ativa, mas também por legar aos homens a responsabilidade pelo orgasmo da parceira. A crítica à performance de um parceiro fere o ego masculino. “Como é que você vai dizer que não está gostando?”, questiona Embiruçu. “A pessoa cresce achando que sabe, que domina e que a mulher tem que gozar apenas com o pênis. Se isso não acontecer ainda tem que ouvir que é diferente das outras e que tem um problema.”

“O machismo não gosta que a mulher saiba mais sobre o corpo e defende que este não deve ser um comportamento de mulher direita”, afirma Carolina Ambrogini.

Para deixar de fingir orgasmo, a indicação é autoconhecimento e, dependendo do caso, terapia sexual. Além disso, a comunicação tem um papel importante nesta mudança. “Para conseguir um orgasmo é preciso que a mulher seja livre para seguir seu desejo e seu tesão”, orienta Ambrogini, da Unifesp. “Quanto mais presas e tolhidas somos pela reação do outro, mais dificuldade teremos de que o orgasmo se manifeste livremente”. Deixar de lado a performance e focar nas sensações é a recomendação de Teresa Embiruçu. “A corrida pela performance sexual atrapalha e tira o foco do cheiro da pele, do toque e de tudo o que está acontecendo ali”, lembra.

OUTROS OLHARES

84 MIL CRIANÇAS E ADOLESCENTES FAZEM TRABALHO DOMÉSTICO

Levantamento, de 2019, mostra que maioria era de meninas e negras

Cerca de 84 mil crianças e adolescentes de 5 a 17 anos estavam exercendo algum tipo de trabalho doméstico em 2019, diz estudo elaborado pelo Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil a partir de dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua Anual.

Elas trabalhavam principalmente como cuidadores de outras crianças (48,6%) e desempenhando serviços domésticos (40,3%).

Desde2016, quando o grupo fez a primeira análise de dados sobre esse tipo de trabalho, o número de crianças e adolescentes trabalhadores domésticos caiu 22%. De 107,5 mil, em 2016, para 83,6 mil, em 2019.

Katerina Volcov, secretária-executiva do Fórum de Erradicação do Trabalho Infantil, diz que o rosto do trabalho doméstico infantil reflete o que ela considera o modo colonial e a herança da escravidão do trabalho reprodutivo doméstico.

“O trabalho infantil reproduz o desequilíbrio de gênero, de que esses papéis são destinados às mulheres.”

O trabalho infantil doméstico é principalmente feminino e negro, reproduzindo, ao mesmo tempo, o desequilíbrio de gênero apontado por Volcov, e o racismo estrutural. Em 2019, 85,2% das crianças e adolescentes nessas atividades eram mulheres, e 70,8% eram negras.

Segundo o estudo, 66,2% dos trabalhadores domésticos infantis tinham entre 16 e 17 anos, e a maioria (63,3%) vivia em residência onde o chefe da família não tinha instrução.

As entidades consideram também como trabalho infantil quando a atividade é exercida por adolescentes. Segundo o artigo 7º, inciso XXXIII, da Constituição, menores de 16 anos não podem trabalhar (a exceção é a aprendizagem profissional a partir dos 14 anos). O estudo aponta que as crianças e adolescentes dedicaram 22,2 horas por semana ao trabalho doméstico. A remuneração média era de R$ 3,10 por hora. Em 2019, o salário mínimo era de R$ 998, e o piso por hora, de R$ 4,54.

Além do direito à infância, que é violado quando a criança precisa trabalhar, esse tipo de obrigação pode ter efeito sobre o nível de educação, mas, segundo Volcov, os indicadores são insuficientes para dizer o quanto o trabalho interfere na aprendizagem.

“Parte delas está na escola, mas a gente não consegue saber nem se a criança está no ano adequado para a idade nem se está aprendendo. Os indicadores de educação também não conseguem fazer essa relação”, afirma.

“Sabemos que acarreta prejuízo, seja porque ela não vai exercer a infância em plenitude, seja por outras questões, como correr risco físico. Imagina uma criança cozinhando feijão em uma panela de pressão?”

Segundo o estudo do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, a incidência de trabalhadores domésticos infantis sem remuneração foi baixa ante o contingente total, mas um pouco maior em algumas regiões. Enquanto ficava em 1,7% na média nacional, era de 9,9% na região Norte.

Os dados que basearam o estudo são de 2019. Quase três anos depois, em 2022, o fórum não espera que a situação esteja melhor. No entanto, faltam dados que permitam uma avaliação.

“Essa é uma dificuldade que a gente tem, que é a falta de dados atualizados, algo comum sobre todas as aéreas de violação de direitos, mas isso não deve impedir que a gente pense em políticas públicas.”

Para Volcov, o retrospecto desde 2019 permite levantar algumas hipóteses sobre as condições do trabalho doméstico infantil atualmente. “O governo federal mudou e, comisso, desde então, houve uma redução de investimentos em todas as áreas sociais.”

Depois, a pandemia iniciada em 2020 agravou diversos indicadores econômicos, como insegurança alimentar – 33 milhões de pessoas estão famintas, segunda a Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional) – e informalidade no trabalho – 39,3 milhões estavam nessa situação no trimestre encerrado em agosto.

GESTÃO E CARREIRA

PATRÃO QUER MENOS HOME OFFICE QUE FUNCIONÁRIO

Estudo feito em 27 países também aponta que trabalhadores trocariam parte do salário por mais dias em casa

Brasileiros gostariam, em média, de trabalhar 2,3 dias em casa na reabertura pós-pandemia, mas empregadores só querem 0,8 dia de home office, também em média. Os dados são do estudo Working from Home Around the World (Trabalhando em casa ao redor do mundo), feito por seis pesquisadores, entre eles o professor do Departamento de Economia da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, Nicholas Bloom.

O Brasil (ao lado do Egito) é o país em que a distância é maior entre o que os trabalhadores desejam e o que as empresas estão dispostas a ofertar em dias fora do escritório.

Em média, hoje as pessoas estão trabalhando 1,5 dia em casa (sendo 1,7 no Brasil). Os países asiáticos concentram os maiores e menores indicadores: na Índia, esse patamar chega a 2,6 dias e é mais baixo na Coreia do Sul (0,5 dia).

Bloom afirma que os estudos mostram que em diferentes países esses funcionários trabalham de forma mais produtiva em casa, são mais felizes e têm menos vontade de deixar a empresa.

”Empregadores estão adotando o home office não por serem obrigados, mas por isso gerar lucro. O melhor impulsionador do trabalho remoto é o fato de melhorar os resultados financeiros da empresa.” Ele diz que as companhias nos EUA e na Europa tendem a ser mais abertas ao trabalho em casa. “Na América do Sul, ainda estão um pouco atrás. Um fator é a cultura, outro é a estrutura de moradia – é preciso ter espaço físico, principalmente para um casal poder trabalhar em casa.”

Bloom avalia que as empresas ainda esbarram na baixa capacidade de gestão para o trabalho em casa, que demanda boas ferramentas de avaliação de desempenho. “Como você não pode estar com o funcionário, é preciso revisar processos para garantir que eles estejam realmente trabalhando.”

Isso explicaria o maior número de trabalhadores híbridos (que passam dias em casa e no escritório) e remotos no Brasil estar concentrado nas empresas de grande porte, principalmente as multinacionais, que têm bons sistemas de gestão de desempenho.

“As empresas menores, tipicamente de gestão familiar, tendem a ser mais informais e dependem da gestão direta, o que é difícil de fazer remotamente”, diz o pesquisador.

Na avaliação do pesquisador do FGV Ibre Fernando Veloso, a divergência entre a vontade de empresas e trabalhadores ocorre porque nem sempre os benefícios que o funcionário percebe ao ficar em casa são valorizados pelas empresas.

“Os trabalhadores em geral declaram ter tido um aumento de produtividade em trabalhar em casa superior ao aumento percebido pelos empregadores, que em grande medida está relacionado ao tempo economizado no deslocamento para o trabalho.”

A pesquisa com os 27 países espelha médias amostrais, com grupos de trabalhadores de tempo integral, com um nível de formação relativamente bom e que têm acesso a smartphones, computadores e similares para responder a uma pesquisa online.

Foram feitas duas rodadas, na metade de 2021 e no início de 2022, com trabalhadores de 18 setores da indústria de idades de 20 a 59 anos.

Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi o percentual do salário que os trabalhadores estariam dispostos a trocar por 2 ou 3 dias trabalhando fora da empresa. Na média, eles estariam dispostos a perder 5% de seu salário habitual por essa oportunidade – entre os entrevistados brasileiros, esse percentual vai a 7,4%.

Bloom argumenta que isso deixa claro como trabalhar em casa não apenas é algo vantajoso para os funcionários, quanto oferece uma enorme oportunidade de restruturação para as empresas.

Veloso ressalta que essa é uma média, mas o valor que o funcionário aceita perder pela chance de trabalhar de casa deve variar bastante.

“Provavelmente quem se diz disposto a ter uma redução de salário não teve perda significativa de renda real durante a pandemia.”

Apesar de as novas modalidades de trabalho terem ficado mais comuns com a crise sanitária, os estudos sobre trabalho remoto e híbrido no Brasil e em outros países mostram que essa é uma realidade para uma minoria de trabalhadores de escolaridade maior.

“Ter ensino superior completo aumenta muito a probabilidade de o trabalhador poder fazer home office. A razão é que trabalhadores com maior escolaridade em geral têm ocupações mais intensivas em tecnologia ou que se adaptam melhor a esse modelo, como profissionais liberais e de tecnologia da informação”, diz Veloso.

Um levantamento da Catho apontou que as vagas de home office cresceram 496% no primeiro semestre, na comparação com o mesmo período de 2021. Esse aumento se deu, sobretudo, nos anúncios em busca de programadores, consultores comerciais e analistas de testes.

Recentemente, uma reportagem mostrou que, mesmo com a reabertura da economia com o avanço da vacinação, as maiores empregadoras do país mantinham parte de suas equipes em trabalho híbrido e não tinham planos de suspender a modalidade reforçada com a pandemia.

Trabalhando como linguista para uma empresa de teleatendimento, Vanessa Serrani comemora a possibilidade de manter o emprego em uma companhia sediada em São Paulo e continuar morando com a família no Centro-Oeste. “A liberdade e o apoio que temos são únicos. Não penso em voltar ao presencial.”

Na avaliação de Bloom, a concorrência deve forçar a empresa a adotar mais o trabalho em casa. “Se você estiver em disputa com outras empresas, qualquer coisa que o torne mais produtivo e mantenha os funcionários felizes será adotada.”

Por outro lado, ele diz acreditar que as forças do mercado levarão as empresas brasileiras a adotar o trabalho em casa para aumentar os lucros e crescer. “Vimos isso nos EUA, onde o trabalho em casa agora é amplamente adotado como prática para melhorar o desempenho do funcionário.”

Ele ressalta que a adoção do trabalho híbrido não é algo que precise ser pressionado pelos governos, pois as empresas tendem cada vez mais a permitir que os funcionários trabalhem em casa um, dois ou até três dias por semana como forma de aumentar as vendas e economizar custos.

Para o especialista em direito do trabalho Ricardo Calcini, com a nova legislação trabalhista do teletrabalho no Brasil, a empresa pode obrigar o funcionário a retornar ao sistema presencial, bastando que essa comunicação seja feita com no mínimo 15 dias de antecedência.

“Caso fique estabelecida uma jornada híbrida, isso deve ser registrado em contrato, porque a lógica da legislação do teletrabalho ou trabalho à distância é que essa sistematização do regime híbrido seja definida em termo aditivo contratual.”

COMO CONVENCER SEU CHEFE A TRABALHAR EM CASA?

MELHOR PARA TODOS

Ao fazer o pedido, dê destaque às vantagens que o trabalho remoto ou híbrido pode ter para a empresa, em vez de apenas listar os benefícios pessoais

EM NÚMEROS   

Baseie o argumento em dados, mostrando para os superiores que você teve um rendimento maior quando estava em casa ou que conseguia dar mais sugestões e ser mais proativo no trabalho remoto

FLEXIBILIDADE       

Não pareça inflexível, escute os argumentos da empresa para voltar ao presencial e já faça uma contraproposta, como ir ar no escritório por menos dias na semana ou só em reuniões e eventos

QUANDO É NECESSIDADE

Além da flexibilidade, fale abertamente ao chefe se o trabalho em casa é uma possibilidade que facilitaria a rotina da família, seja para cuidar de crianças por alguns dias ou de um familiar doente

DIVERSIDADE    

Quem mora longe da sede da empresa pode lembrar que a pandemia conscientizou parte dos empregadores das vantagens de ter funcionários de regiões diferentes na equipe, o que é possibilitado pelo home office

AUMENTO REMOTO  

Para quem já está em casa e quer pedir um aumento, é melhor fazer isso pessoalmente ou ao menos marcar uma reunião por vídeo. Evite começar a conversa de surpresa ou fazer o pedido por e-mail ou mensagem

EU ACHO …

O ABORTO, EM POUCAS PALAVRAS

Livro da Nobel Annie Ernaux reprime subjetividade ao falar do tema

Quando alguém morre, o sentimento das pessoas é muitas vezes mais de surpresa do que de dor. “Como assim, morreu? Falei com ele a semana passada!”

O fato não admite explicação. Fulano estava aqui, agora não está mais. Sofrendo ou não sofrendo, nossa reação é também de surpresa, de choque intelectual.

Não se fala tanto disso a propósito de um nascimento, mas acredito ter experimentado a mesma impressão de incompreensibilidade, de mistério, quando meus filhos nasceram.

Duas pessoas entram na maternidade, com uma malinha. Dali a uns poucos dias, saem não duas, mas três pessoas. E a malinha. “Aquilo”, o bebê, não existia; agora existe.

Claro que a experiência masculina, nesse sentido, é mais intensa. A mãe deve ter percebido a presença do bebê dentro dela, alguma coisa já estava vivendo lá. Para o homem, a ligação entre a barriga da grávida e o bebê recém-nascido não é tão direta. A barriga era “lá dela”; já o bebê é posto nos braços do pai, como um presente, um pacotinho, um peixe dourado fora do aquário de vidro. Dá bem para acreditar que foi uma cegonha quem deixou a criança para você.

Em boa hora chega para Annie Ernaux o Prêmio Nobel de Literatura. Seu livro mais famoso, “O Acontecimento”, saiu neste ano pela editora Fósforo, com tradução de Isadora Pontes. Torna-se mais do que nunca recomendável com a onda antiaborto que toma conta dos Estados Unidos, com reflexos óbvios no Brasil. É um texto curto (74 páginas), que para mim nem mesmo se inscreve no gênero autoficção. Trata-se mais de um depoimento, ao mesmo tempo desesperado e seco, contando a luta da autora para fazer um aborto clandestino, na França de 1964.

A interrupção voluntária da gravidez só seria legalizada, por lá, em 1975. Quando Annie Ernaux ficou grávida, aos 23 anos, o procedimento era arriscadíssimo e, pelo que ela conta, quase inacessível. É como se tudo se passasse em 1910, em 1860, ou no Brasil de 2022.

O pior é a insensibilidade, a brutalidade de todos que a rodeiam. Com a família católica do interior, nem pensar em conversa. Mas e o pai da criança? Não tem nada a dizer, nem se dispõe a ajudar financeiramente a operação. Amigas, colegas de faculdade, olham-na como um ser estranho.

O aborto é feito, vem uma hemorragia, Annie tem de ser levada a um hospital, e a tratam malíssimo lá também. O médico faz uma piada estúpida na mesa de operações; a enfermeira é uma égua.

Talvez isso não se deva tanto à época em que “o acontecimento” se deu, e mais à rispidez dos franceses em geral. Em “Na Pior em Paris e Londres”, George Orwell conta a diferença que existia, nos anos 1930, entre os médicos da rede pública francesa e os da Inglaterra.

Como depoimento, o livro de Annie Ernaux merece ser lido. Como obra literária, o caso é mais complicado.

Tenho dificuldade em chamar o livro de autoficção porque a autora parece determinada a eliminar do seu relato qualquer sinal mais visível de subjetividade. Não que tudo não seja subjetivo: ela fala das dificuldades que tem para rememorar os fatos, aponta um ou outro detalhe que a marcou especialmente naqueles dias, associa suas memórias ao que está vivendo no momento em que escreve.

Mas é como se, por um ato voluntário, Annie Ernaux eliminasse a “experiência interior” das páginas de seu livro. Tudo parece narrado na terceira pessoa, sem grande espaço para conflitos íntimos, dúvidas, remorsos, alívios.

Quando vai chegando a hora do aborto, a autora escreve: “Ainda não sei quais palavras virão para mim. Não sei o que a escrita está trazendo. Queria atrasar esse momento, ficar um tempo ainda nessa espera. Medo, talvez, deque a escrita dissolva estas imagens, como as do desejo sexual que se apagam instantaneamente depois do orgasmo”.

Tudo é contado sob um véu de opacidade, como o fato da morte, como o fato do nascimento, como aquele outro fato entre esses dois. Não por acaso, é tão neutro e frio o título desse livro: “O Acontecimento”.

Talvez esteja nisso, e naquela frase que citei acima, o segredo estético do livro. Essa espera para contar o aborto, essa impossibilidade de achar as palavras para a própria experiência, essa luta da autora com seu próprio objeto são em si mesmas espécie de gravidez – indesejada, estranha e incômoda, da qual a escrita, como num aborto, se desvencilha.

*** MARCELO COELHO – autor dos romances ‘Jantando com Melvin’ e ‘Noturno’, é mestre em sociologia pela USP.

ESTAR BEM

TENDÊNCIA ENTRE CELEBRIDADES, VINAGRE DE MAÇÃ TRAZ BENEFÍCIOS PARA A SAÚDE

Bebida pode ajudar a absorver ferro dos alimentos e melhorar a pele, mas não faz emagrecer

O novo fenômeno das redes sociais é recomendado por gurus da alimentação saudável e se tornou viral devido aos benefícios milagrosos atribuídos a ele por famosas que o consomem, incluindo: Victoria Beckham, Jennifer Aniston, Gwyneth Paltrow e Megan Fox. Os shots de vinagre de maçã em jejum são o novo elixir do bem-estar.

Dentre alguns dos múltiplos benefícios que lhe são atribuídos estão a melhoria da digestão, o aumento da ingestão de vitaminas e minerais, a diminuição dos níveis de açúcar no sangue, a melhoria do aspecto da pele e a ajuda na perda de peso.

A verdade é que o vinagre de maçã tem uma longa história como remédio caseiro. Durante anos tem sido usado para tratar doenças como dores de garganta e varizes. No entanto, a maioria desses poderes atribuídos a ele não foram comprovados pela ciência e permanecem como mitos. Somente nos últimos anos alguns pesquisadores começaram a olhar mais de perto os possíveis benefícios desse tipo de vinagre.

Seus poderes curativos não são novidade. Na Grécia antiga, feridas eram tratadas com o vinagre feito com a fruta. Até hoje, há quem busque nele a solução para problemas do dia a dia, mas até que ponto essas propriedades se justificam?

O vinagre de maçã é o suco fermentado de maçãs esmagadas, que contém ácido acético e nutrientes importantes como as vitaminas B e C. Embora seja popularmente usado em molhos para saladas ou para cozinhar, há quem decida tomá-lo de estômago vazio, como um “shot” para incorporar rapidamente todos os seus benefícios.

“Até agora, a única propriedade positiva e verificável para a saúde do vinagre de maçã é que, graças ao seu teor de ácido acético, ele melhora o uso do ferro contido nos alimentos de origem vegetal”, esclarece a nutricionista Emília Sosa.

Estudo científicos também apontam outros benefícios atribuídos ao consumo do vinagre de maçã.

TEM UM ALTO TEOR DE SUBSTÂNCIAS SAUDÁVEIS

Os pesquisadores acreditam que o ácido acético é responsável pelos benefícios para a saúde do vinagre de maçã. Além disso, o líquido tem entre seus ingredientes potássio, aminoácidos e antioxidantes que são essenciais para o bom funcionamento do organismo.

REDUZ A GORDURA ABDOMINAL

Um estudo realizado pela Universidade de Ciências Médicas de Israel mostrou que consumir vinagre de maçã e complementá-lo com rotinas de exercícios ajuda a perder gordura no abdômen. O líquido por si só não faz você “perder peso”, mas ao se exercitar e cuidar de suas refeições, a pessoa consegue que seu metabolismo acelere e ela emagrece.

REGENERA E MELHORA A CONDIÇÃO DA PELE

Muitos jovens afirmam usar este líquido concentrado para tratar infecções de pele, acne, além de prevenir o envelhecimento. A pele é naturalmente ácida, portanto, o uso tópico de vinagre de maçã pode ajudar a equilibrar seu pH natural, melhorando sua barreira protetora.

REDUZ OS NÍVEIS DE AÇÚCAR NO SANGUE

Um estudo da American Diabetes Association sugere que o vinagre de maçã pode melhorar a sensibilidade à insulina de 19% a 34% durante uma refeição rica em carboidratos e reduzir significativamente o açúcar no sangue e a resposta à insulina no geral.

Os gurus da saúde bebem o vinagre diretamente na forma de uma dose, mas os profissionais recomendam diluir uma ou duas colheres de sopa do líquido em pelo menos 200 ml de água à temperatura ambiente.

Além disso, devido à sua acidez, sua ingestão diária e prolongada pode danificar o esmalte dos dentes, o esôfago e o sistema digestivo.

Sobre as alegações de que aparentemente consumi-lo ajuda a perder peso, Sosa ressalta que não há evidências consistentes nesse sentido.

“O ganho de peso é causado por diversos fatores ambientais, genéticos e metabólicos, por isso seu tratamento deve ser abordado com seriedade pela consultoria de profissionais que acompanham esse objetivo”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

USAR REDES COM LIMITES AJUDA A PRESERVAR SAÚDE MENTAL

Especialistas dão dicas como ajustar o tempo máximo no Instagram e pensar sobreo efeito de cada conteúdo ou perfil

Os impactos do mau uso e da adesão excessiva às redes sociais para a saúde mental são bem conhecidos. Um estudo recente, publicado na revista científica Journal of Affective Disorders Report, concluiu que adultos jovens que passam mais tempo nas mídias são significativamente mais propensos a desenvolver um quadro de depressão em somente seis meses, seja a personalidade deles qual for. O cenário é preocupante, mas há dicas para um uso mais responsável das redes àqueles que desejam se proteger dos malefícios.

O assunto foi um dos mais discutidos no Congresso Brasileiro de Psiquiatria, da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) deste ano. Os especialistas elencaram for- mas para proteger a saúde mental dos usuários e como alguns hábitos podem minimizar os impactos.

A líder de políticas públicas do Instagram para a América Latina, Natália Paiva, explica que de fato é uma frente da plataforma que o uso seja mais saudável, por isso algumas ações passaram a ser proibidas na rede. Conteúdos que promovam ou ensinem atos autodepreciativos, por exemplo, são excluídos do aplicativo por meio de inteligência artificial. Além disso, o app faz um alerta quando usuários fazem buscas em relação a temas que abordam saúde mental.

“Toda vez que alguém no Instagram procura palavras como ansiedade e depressão, ela recebe uma notificação com a mensagem “podemos ajudar?”, e se ela escolher que sim ela é conectada com o Centro de Valorização da Vida (CVV) no Brasil ou com a Associação Brasileira de Transtornos Alimentares, se forem buscas relacionadas a bulimia e anorexia, por exemplo”, explica Paiva.

Já em relação ao usuário, há a revenir o adoecimento pelo impacto das redes. O primeiro deles é limitar o acesso, já que o uso excessivo é diretamente ligado a um impacto negativo maior. Para isso, basta clicar no menu “sua atividade”, no aplicativo, e em seguida “tempo gasto”. Ali há a alternativa “definir limite de tempo diário”, em que é possível estipular um período máximo para que o próprio Instagram encerre a navegação.

O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Antônio Geraldo da Silva, discorreu sobre os hábitos que o usuário deve ter em mente durante a experiência na rede social. O primeiro deles é pensar na intencionalidade do uso. Ou seja: sempre que abrir o app, perguntar a si mesmo o porquê, se é para olhar o perfil de um amigo, buscar uma informação específica, e assim não se perder no mar de conteúdos.

OUTRAS OPÇÕES

O segundo é pensar por que não realizar outra atividade no lugar. Muitas vezes o ato de entrar nas redes é automático, e nos esquecemos de cogitar alternativas para ocupar o momento de lazer que podem ser mais saudáveis, fora do mundo digital.

Além disso, eles destacam que é importante refletir sobre como os conteúdos e perfis fazem o usuário se sentir.

Para Antônio Geraldo da Silva, as plataformas disseminam informações que podem ser inimigas ou aliadas de quem precisa de ajuda. Um exemplo positivo é uma parceria da ABP com a Alexa, assistente virtual de voz da Amazon, que alimenta o sistema com todas as evidências científicas sobre saúde mental e retira conteúdos que são duvidosos e não têm fundamentação:

“Isso começou com a definição sobreo que é burnout quando as pessoas perguntavam à Alexa, e daí cresceu. Nosso objetivo é entregar à população brasileira informação de qualidade, o que ela realmente precisa para cuidar da saúde mental.

OUTROS OLHARES

PARA ESPECIALISTA, SEXO NÃO É NECESSIDADE

Enfermeira defende que falta de relações sexuais pode ser saudável desde que não gere frustração

As relações sexuais causam bem-estar físico e mental já comprovados, mas não tê-las não provoca nenhum desconforto. Há pessoas assexuadas, que não se interessam por sexo, e não fazê-lo não lhes causa nenhum problema. Naquelas pessoas que não são assexuadas, a relação sexual também não é uma necessidade básica como respirar, comer ou beber.

Em geral, quando falamos de relações sexuais, estamos nos referindo a fazer sexo com outra pessoa, do mesmo ou de outro sexo. Mesmo entre as pessoas que se definem como assexuadas, essa definição não significa que não pratiquem a autossexualidade através da masturbação, que é outra forma de fazer sexo (e, portanto, de exercer sua sexualidade).

O desejo sexual provoca respostas físicas como: aumento da tensão e temperatura ou pulso mais rápido. Todas essas manifestações são fisiologicamente normais. No estudo do desenvolvimento da sexualidade humana, a fase entre aproximadamente 3 e 5 anos de idade é chamada de fase fálica, onde o interesse erótico se desloca para a região genital.

Meninos e meninas tocam seu pênis ou vagina porque lhes dá prazer e, sem sentir vergonha, o fazem naturalmente e em qualquer lugar. Por outro lado, durante a puberdade, os adolescentes aprendem a concentrar seus impulsos sexuais nas relações e no sexo em particular; já manifestam a maturidade sexual-genital do adulto e conhecem o conceito de masturbação. Os seres humanos têm a capacidade de se masturbar por prazer.

Em resumo, a relação sexual não é necessária, mas quando consentida e desejada, é benéfica tanto física quanto mentalmente. O sexo é uma fonte de prazer físico e mental, e esse prazer tem muitas consequências benéficas de vários pontos de vista, tanto organicamente quanto psicologicamente.

A falta de relações para quem as deseja pode ter consequências negativas. Por exemplo, se uma pessoa quer fazer sexo e não consegue encontrar um parceiro, esse fato poderia causar frustração. Além disso, o desejo sexual tem uma resposta física. Se depois do desejo, a pessoa não faz sexo, essa resposta precisa ser reprimida sem ter sido satisfeita. Às vezes, essa resposta também ocorre porque a pessoa tem algum tipo de repressão educacional, religiosa, entre outras.

GESTÃO E CARREIRA

HOME OFFICE AUMENTA BUSCA POR CURSOS DE COMUNICAÇÃO NÃO VIOLENTA

Com a adoção do trabalho remoto, procura por ferramentas para ajudar num comunicação mais assertiva e com maior empatia cresceu 80% entre 2020 e 2021

trabalho, é mandar uma mensagem por WhatsApp ou e-mail e perceber que o destinatário se sentiu ofendido, quando não era essa a intenção. Ou, no caminho inverso, receber uma mensagem de alguém e achar que a pessoa foi descuidada, grosseira ou impaciente. Só que, ao ser interpelado a respeito, o remetente se vê confuso: “Não foi nada disso que eu quis dizer.” E haja conversa para resolver o mal-entendido.

Com a mudança para o home office e a consequente transformação na comunicação entre colaboradores e gestores, esse problema entrou no radar das empresas, que passaram a buscar ferramentas e treinamentos para evitar as “falhas de transmissão”. São instrumentos que auxiliam as pessoas a se comunicar de forma assertiva e empática, seja na escrita, seja na fala.

De acordo com o Instituto CNV Brasil, especializado em comunicação não violenta, a busca por treinamentos corporativos aumentou 80% de 2020 para 2021. Além disso, dobrou a demanda das empresas por treinamentos mais longos (acima de 9 horas) no primeiro semestre de 2022, em comparação ao mesmo período de 2021. Segundo a cofundadora do instituto, Liliane Sant’Anna, a CNV trabalha competências como empatia, segurança psicológica e confiança para uma comunicação mais assertiva. “É uma ferramenta que faz com que as pessoas se escutem e se entendam melhor. Serve para a conversa não virar um cabo de guerra, mesmo que o assunto seja difícil”, explica.

Especialista em psicologia positiva e ciência do bem-estar, ela explica que a redução do tempo de contato causada pelo home office é só uma das dores da comunicação no trabalho. “O modelo antigo do ‘eu mando e você obedece’ também começou a ser questionado. As pessoas agora querem se nutrir do trabalho, pertencer ao grupo, ter propósito. E aí a urgência por uma comunicação de mais escuta e sem julgamentos começou a aumentar.” Segundo ela, quando se fala em violência na comunicação, não é só sobre bate-boca, mas sobre as entrelinhas.

OLHO NO OLHO

Segundo Mário Reys, diretor-geral da KTBO no Brasil, a agência sempre viu a segurança psicológica como uma competência importante para enfrentar desafios diários e gerir eventuais conflitos com tranquilidade, mas a pandemia teve um impacto significativo nisso ao impossibilitar a comunicação frente a frente.

“No momento em que passamos a interagir somente a distância, seja por e-mail ou celular, perdemos nuances importantes de postura, ritmo e tom de voz. Uma simples conversa, com palavras fora do lugar, pode terminar em desentendimento”, diz Reys.

Segundo ele, depois da pandemia, ter atenção e cuidado ao falar ou escrever passou a ter mais importância. “Hoje é nítido que há um esforço na escolha das palavras.”

EU ACHO …

A ARTE DA PACIÊNCIA

Esperar é um verbo que conjugo sem dificuldade. Não lembro de nenhum instante da minha vida em que tenha conquistado algo na hora exata em que o desejei – tudo pra mim demora. Começando pela infância, ela própria.

Houvesse opção, eu teria crescido mais rápido, mas não havia. Então me distrai andando de bicicleta em volta da quadra, brincando com bonecas que tinham um único vestido e colecionando livrinhos de história, enquanto aguardava o mundo adulto me puxar para o outro lado, onde eu escreveria meus próprios livros, usaria os vestidos que quisesse e daria algumas voltas pelo mundo, não só no quarteirão.

Foi um processo lento. Nunca fui desbravadora, pioneira, essas palavras que dão consistência a um currículo. Mais cautelosa que impulsiva, fui subindo cada degrau lentamente, um a um – inclusive retrocedendo alguns – e deu tudo certo, vem dando.

Quando caí em mim, já era expert em paciência. Passei a confiar no tempo. Hoje, sei que ele nunca traz minhas “encomendas” no ato. Confabula antes com os astros e só então decide quando será a entrega. A mim, resta tocar a vida e aguardar com a casa limpa, bebida gelada, flores nos vasos.

Paciência não é preguiça. A pessoa paciente não espera sentada. Ela continua em movimento e tropeça em meia dúzia de erros até ser encontrada pelo acerto. Respeita o relógio do destino. Fui apresentada a meu atual namorado 44 anos atrás, e nunca mais nos vimos, até que nos reencontramos e aconteceu. Demorou? Aconteceu pontualmente, nós é que não sabíamos, ainda, que a hora certa estava programada para mais tarde.

A maturidade ajuda a lapidar a paciência. Tenho procurado ser mais dócil com minhas filhas, apesar da ansiedade natural de todas as mães – e com minhas orquídeas, cujos brotos estão custando a abrir. Mais tolerante com meus pais, que apresentam as dificuldades inerentes à sua idade, e paciente comigo mesma, que sempre dependi de algumas convicções antes de agir, e elas têm sido mais raras, as dúvidas se acumulam. E mesmo quando as tenho – convicções – não bastam que sejam só minhas. Se bastasse, hoje estaríamos celebrando a volta da normalização política do país, o fim de um período de autoritarismo e de ameaças à ordem. Continuaríamos a divergir, como sempre se diverge, mas não com tal nível de agressividade. Voltaríamos a acusar e a exigir decência diante dos fatos, sem ficarmos alienados por sigilos de 100 anos. Mas a paciência é uma arte. Enquanto espero, escuto Lenine: “mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma/até quando o corpo pede um pouco mais de alma/a vida não para”. Talvez tenhamos que aguardar mais quatro anos, talvez apenas mais uns 20 dias. Respiremos fundo.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

DUAS A TRÊS XÍCARAS DE CAFÉ POR DIA REDUZEM RISCOS CARDÍACOS

Quantidade da bebida foi associada a menos doenças e a vida mais longa

Beber duas a três xícaras de café por dia está associado a uma vida mais longa e a um menor risco de doenças cardiovasculares em comparação com evitar a bebida. É o que mostra um estudo publicado nesta semana no European Journal of Preventive Cardiology. Os resultados se aplicaram às versões moídas, instantâneas e descafeinadas. Há pouca informação sobre o impacto de diferentes preparações de café na saúde e sobrevivência do coração. O novo estudo examinou as associações entre tipos de café e arritmias, doenças cardiovasculares e morte usando dados do UK Biobank – um banco de dados de saúde no Reino Unido – com monitoramento de adultos entre 40 e 69 anos de idade. A categoria doença cardiovascular englobou doença cardíaca coronária, insuficiência cardíaca congestiva e acidente vascular cerebral isquêmico.

O estudo incluiu 449.563 participantes livres de arritmias ou outras doenças cardiovasculares no início da pesquisa. A idade mediana foi de 58 anos, e 55,3% eram mulheres. Os participantes preencheram um questionário perguntando quantas xícaras de café bebiam por dia e se geralmente bebiam café instantâneo, moído (como cappuccino ou café filtrado) ou descafeinado.

Eles foram então agrupados em seis categorias de ingestão diária, consistindo em nenhum, menos de um, um, dois a três, quatro a cinco e mais de cinco xícaras por dia. O café instantâneo era consumido por 198.062 (44,1%) participantes, o moído, por 82.575 (18,4%) e o descafeinado, por 68.416 (15,2%). Havia 100.510 (22,4%) não bebedores que serviram como grupo de comparação.

Os bebedores de café foram comparados aos não bebedores para a incidência de arritmias, doenças cardiovasculares e morte, após ajuste para idade, sexo, etnia, obesidade, hipertensão arterial, diabetes, apneia obstrutiva do sono, tabagismo e consumo de chá e álcool. As informações de desfecho foram obtidas por meio de prontuários médicos e registros de óbito.

QUALQUER TIPO

Houve um total de 27.809 (6,2%) mortes de participantes durante o acompanhamento, que levou 12 anos. Todos os tipos de café foram associados a uma redução na mortalidade por qualquer causa. A maior redução de risco foi observada com duas a três xícaras por dia, que em comparação com não beber café foi associada a uma probabilidade 14%, 27% e 11% menor de morte, percentuais relativos a preparações descafeinadas, moídas e instantâneas, respectivamente.

A doença cardiovascular foi diagnosticada em 43.173 (9,6%) participantes durante o acompanhamento. Todos os subtipos de café foram associados a uma redução na incidência de doenças cardiovasculares. Mais uma vez, o menor risco foi observado com duas a três xícaras por dia, que em comparação com a abstinência de café foi associada a uma probabilidade reduzida de 6%, 20% e 9% de males do gênero para café descafeinado, moído e instantâneo, respectivamente.

A arritmia foi diagnosticada em 30.100 (6,7%) participantes durante o acompanhamento. Café moído e solúvel, mas não descafeinado, foi associado à redução desse problema, incluindo fibrilação atrial. Em comparação com não bebedores, os menores riscos foram observados com quatro a cinco xícaras por dia para café moído e duas a três xícaras por dia para café solúvel, com riscos reduzidos de 17% e 12%, respectivamente.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MEMÓRIAS TRAUMÁTICAS

Movimentos oculares ajudam a vencer trauma

O trauma sobrecarrega a mente. O cérebro tenta se defender dos fragmentos do desastre: a explosão de vidro estilhaçado quando o carro colide com outro, o cheiro de fumaça. Pessoas com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) às vezes restringem suas vidas, evitando ruas, cheiros ou músicas que as fazem se lembrar do que viveram. Mas as memórias se impõem – na forma de pesadelos, flashbacks e pensamentos intrusivos.

Desde que o TEPT foi incluído no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, em 1980, os médicos identificaram um punhado de terapias que ajudam as pessoas a lidar com memórias traumáticas. E, na última década, um tratamento aparentemente não convencional ganhou muita atenção.

A dessensibilização e reprocessamento por meio de movimentos oculares, terapia mais conhecida pela sigla em inglês EMDR, pode parecer uma prática bizarra. Ela envolve persuadir as pessoas a processar memórias traumáticas enquanto interagem simultaneamente com imagens, sons ou sensações que ativam os dois lados do cérebro. Solicita-se aos pacientes que movam os olhos para frente e para trás, seguindo o dedo de um terapeuta, ou olhem para rajadas de luz em lados alternados de uma tela. A ideia é ancorar o cérebro no momento presente enquanto o paciente relembra o passado.

Nos últimos anos, a EMDR atraiu mais atenção por causa, pelo menos em parte, do aumento da demanda por tratamento de trauma durante a pandemia e às celebridades que compartilharam suas experiências. O príncipe Harry filmou uma sessão de EMDR para uma série de documentários com Oprah. Sandra Bullock disse que recorreu à EMDR depois que um perseguidor invadiu sua casa em 2014; Jameela Jamil, atriz de The Good Place, escreveu um post no Instagram em 2019: “A EMDR salvou minha vida”.

Os pacientes que procuram a EMDR podem se inspirar em outra fonte: The Body Keeps the Score, livro seminal sobre trauma que permaneceu na lista de best-sellers do New York Times por mais de duzentas semanas. Bessel van der Kolk, o autor do livro, apresenta o tratamento como uma das formas mais eficazes de combater os sintomas de TEPT. “Não é mais um tratamento inovador”, disse ele. “É algo que está muito bem estabelecido.”

O QUE É EMDR?

A psicóloga Francine Shapiro desenvolveu a EMDR em 1987, quando lutava com as próprias memórias perturbadoras – primeiro, experimentando em si mesma, movendo os olhos para frente e para trás enquanto caminhava por um parque e, em seguida, expandindo gradualmente o tratamento para outras pessoas.

Os terapeutas realizam a EMDR em oito fases que normalmente se desdobram em seis a 12 sessões, embora esse número varie de pessoa para pessoa. Cada sessão tende a durar entre 60 e 90 minutos. Primeiro, o terapeuta discute os desafios do paciente, coletando informações sobre sua história; em seguida, propõe um plano de tratamento, disse Deborah Korn, médica e coautora de Every Memory Deserves Respect.

O paciente precisa “fazer o caminho de volta” de seus sintomas, disse ela, explorando explosões emocionais ou ataques de pânico para isolar os gatilhos. O objetivo é identificar uma memória traumática que o paciente possa trabalhar nas fases posteriores da EMDR.

“A maioria das pessoas não aparece dizendo ‘Quero trabalhar com minhas memórias traumáticas dos 5 aos 11 anos’”, disse Korn. “Elas dizem: ‘Estou me sentindo muito mal’”.

A partir daí, paciente e médico elaboram estratégias de enfrentamento, como exercícios respiratórios ou meditação, para ajudar a combater a dissociação, as quais o paciente pode usar se ficar angustiado durante ou entre as sessões.

Uma vez estabelecidas essas estratégias, geralmente após uma ou duas sessões, o terapeuta instrui o paciente a recordar o aspecto mais difícil do evento traumático. Pode ser uma imagem, som ou cheiro que se intrometa em seus pensamentos com mais frequência; para alguns pacientes, a memória mais vívida de um trauma ocorreu pouco antes de o evento acontecer, disse Sanne Houben, pesquisadora da Universidade de Maastricht que estuda EMDR.

Os pacientes se concentram nas sensações e emoções que experimentam quando pensam nesse aspecto, ao mesmo tempo em que se envolvem em atividades como mover os olhos, bater no corpo ou ouvir um bipe fraco que se alterna entre os ouvidos. Cada conjunto desses estímulos bilaterais normalmente dura entre 30 e 60 segundos.

O terapeuta fica perguntando ao paciente o que ele está percebendo ou sentindo, incentivando-o a avaliar sua memória de uma perspectiva presente. “Se você disser: ‘É tudo culpa minha’, o terapeuta pode perguntar: quantos anos você tinha? Você realmente acha que poderia se proteger quando criança?”, disse Vaile Wright, diretor sênior de inovação em saúde da Associação Americana de Psicologia. “Não é só sentar lá e pensar na memória”.

COMO FUNCIONA A TÉCNICA EMDR?

Forçar o paciente a revisitar o passado não é uma característica apenas da EMDR; a maioria das terapias para TEPT, incluindo exposição prolongada e terapia de processamento cognitivo, leva os pacientes a “ir ativamente em direção ao trauma”, disse Shaili Jain, especialista em TEPT da Universidade Stanford.

Revisitar o trauma pode ativar a resposta do corpo ao estresse – os níveis de cortisol aumentam e a frequência cardíaca dispara. Mas, com o tempo, o processo pode gradualmente dessensibilizar o paciente em relação às suas memórias, habituando seu corpo ao estresse e à ansiedade que experimenta quando confrontado com algo que relembre o trauma.

“Essa resposta de luta ou fuga é reduzida vários níveis, então você retoma as rédeas da sua vida”, disse Jain. “Em vez de ficar sofrendo com os gatilhos.”

Na EMDR, o componente adicional de estimulação bilateral teoricamente ancora o paciente no momento presente enquanto ele está envolvido com o trauma. “Usamos a frase ‘Um pé no presente e um pé no passado’”, disse Marianne Silva, assistente social e clínica de EMDR em um hospital para veteranos de guerra.

A estimulação bilateral precisa ser convincente o bastante para distrair os pacientes, mas não avassaladora a ponto de eles se concentrarem totalmente nela. Tabelas de multiplicação, por exemplo, exigiriam muito esforço, disse Richard McNally, professor de Psicologia da Universidade Harvard.

Nossos cérebros não têm capacidade de se concentrar completamente na estimulação bilateral e na memória traumática ao mesmo tempo, disse Houben. A teoria por trás da EMDR é que as memórias ficam menos vívidas e emocionais quando o paciente consegue não se concentrar completamente nelas.

“No final da sessão de terapia, você coloca a memória de volta na prateleira”, afirmou McNally. “Ela fica em uma forma degradada, menos evocativa em termos emocionais”.

A EMDR É REALMENTE EFICAZ?

Hoje, os médicos geralmente consideram a EMDR um tratamento eficaz para o trauma. A Organização Mundial da Saúde e a Associação Americana de Psicologia a recomendaram para pessoas com TEPT e emitiram diretrizes para administrar o tratamento. Na Inglaterra, o Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados, autoridade no campo psicológico, lista a EMDR como uma ferramenta para adultos que sofrem com traumas e crianças que não responderam à terapia cognitivo-comportamental focada no trauma.

Mas os cientistas estão debatendo se a EMDR é mais eficaz do que outros métodos de tratamento de trauma. Pim Cuijpers, professor de Psicologia Clínica da Vrije Universiteit Amsterdam, analisou quase 80 estudos sobre EMDR e descobriu que, embora a pesquisa apontasse para os efeitos positivos do tratamento, “a qualidade da pesquisa é muito ruim”, disse ele.

Muitos tratamentos psicológicos carecem de estudos rigorosos, disse ele, mas as evidências para a EMDR são particularmente frágeis, com amostras pequenas e potencial viés por parte dos médicos que conduzem a pesquisa.

Embora a EMDR provavelmente seja eficaz, disse Cuijpers, ele alertou contra endossar cegamente as evidências por trás do tratamento. E há pouquíssimos estudos que mostram que a EMDR funciona a longo prazo, disse Henry Otgaar, pesquisador e professor de Psicologia Forense da Universidade de Maastricht, nos Países Baixos.

Otgaar, Houben e outros pesquisadores estão investigando se a EMDR aumenta a suscetibilidade dos pacientes a memórias falsas. Embora criar memórias falsas seja um risco em muitas terapias, Houben disse que “é muito cedo para dizer se isso é inerente à EMDR”.

Quando a EMDR começou a ficar mais amplamente divulgada no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, McNally, então pesquisador de traumas, foi um dos críticos mais sinceros contra o tratamento – escrevendo que a EMDR era “apenas uma das muitas modas terapêuticas que sujam o panorama da psicologia hoje”, em uma edição do Journal of Anxiety Disorders. Ele reconheceu que a EMDR pode dessensibilizar as pessoas às suas memórias, mas não achou que houvesse evidências convincentes de que a característica mais distinta da terapia – os movimentos oculares – tivesse algum benefício adicional. Hoje, a questão permanece em debate: processar o trauma com um terapeuta levaria a resultados semelhantes? Jain diz que é uma “pergunta de 1 milhão de dólares”.

Ainda assim, há pacientes e médicos que defendem o tratamento e juram que existem “dados sólidos” suficientes para apoiá-lo, disse Jain. Os pacientes relatam menos sintomas de TEPT após as sessões, disse Wright, com menos flashbacks e pensamentos intrusivos.

QUEM A EMDR PODE AJUDAR?

“Qualquer pessoa que tenha sofrido um trauma” pode se beneficiar da EMDR, disse Trisha Miller, psicoterapeuta da Cleveland Clinic. Pessoas com outras condições de saúde mental além de TEPT, como depressão, distúrbios alimentares, fobias e vícios também podem se beneficiar, acrescentou ela, embora ainda não haja pesquisas robustas confirmando que o tratamento é eficaz para essas condições.

As pessoas que procuram terapeutas de EMDR devem tomar o cuidado de encontrar um especialista certificado, enfatizou Miller. A Associação Internacional de EMDR, que administra a certificação e o treinamento para a terapia, mantém um diretório de profissionais que foram formados e certificados pela organização.

“Do ponto de vista clínico, eu fico: “o importante é que funcione’”, afirmou Jain. “Se a EMDR funciona para você, então faça”.

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