OUTROS OLHARES

VOLTA DE MODAS DOS ANOS 2000 ESTIMULA DEBATE SOBRE MAGREZA EXTREMA

Especialistas dizem que o reaparecimento das peças pode ser um problema devido ao aumento dos transtornos alimentares

Vestir a calça saint tropez que deixa o umbigo de fora tem tirado o sono das adolescentes cada vez mais cedo. O retorno da cintura baixa e das microssaias dos anos 2000, assim como a tendência de extrema magreza entre as famosas, tem preocupado médicos e ativistas. A estudante Sabrina Menezes Santos, 15, comprou um modelo da calça, mas ainda não teve coragem de usar e até entrou na academia para melhorar o que viu no espelho.

“Não uso nada de cintura baixa, não consegui. Acho que o corpo não está bom, e que as pessoas vão ficar olhando e julgar. Não fiquei confortável”, conta. A adolescente tem IMC (índice de massa corporal) considerado saudável, mas diz que ser magra é assunto recorrente nas conversas com amigas e primas e que muitas delas também não gostam do próprio corpo.

A influenciadora Clara Cocozza, 17, viralizou quando fez um vídeo de humor com críticas que recebia sobre o próprio peso. “As pessoas sempre me criticaram por ser gorda e levei para redes sociais. Recebi muitos comentários de apoio e, naquela época, não era muito feliz comigo”, afirma.

Ela então começou a seguir influenciadoras do body positive, um movimento focado na aceitação de todos os corpos como são, e a se olhar com mais frequência no espelho. “Decidi me amar e deu certo. Menina gorda pode usar o que quiser, qualquer pessoa pode, é o padrão que nos impede de usar”, afirma Cocozza, que adora uma calça de cintura baixa e já fez três vídeos sobre este tipo de peça. A volta dos modelos dos anos 2000, somada à tendência de extrema magreza entre as celebridades aparece em um momento de alta dos transtornos alimentares. Estudos mostraram pioras nos sintomas de pacientes com distúrbios após a pandemia, e ambulatórios brasileiros observam aumento no número de atendimentos.

No interior e na capital de São Paulo, dois dos mais importantes centros de atendimento tiveram alta na procura por tratamentos de jovens. No Grata (Grupo de Assistência em Transtornos Alimentares), a idade média dos atendidos era entre 15 e 18 anos, mas agora há pacientes de 10 a 13 anos. O grupo multidisciplinar é vinculado ao ambulatório de nutrologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP (Universidade de São Paulo).

“Tem chegado mais casos e chamam a atenção por serem pessoas cada vez mais jovens, principalmente com anorexia nervosa, que é uma subnutrição grave e tem risco de morte”, afirma a médica Vivian Marques Miguel Suen, 57, professora de nutrologia e coordenadora do Grata. A fila de espera do ambulatório dobrou no último ano, saltando de 15 para 30. O grupo atende cerca de 15 pacientes por vez, apenas casos diagnosticados e mais extremos. O tratamento, quando bem-sucedido e sem abandono, leva em média de 3 a 5 anos.

O Ambulim (Programa de Transtornos Alimentares) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP da capital está com três turmas lotadas e teve um aumento na procura por tratamento para crianças.

A unidade tem hoje 2.116 questionários preenchidos no site aguardando avaliação médica para confirmação de transtorno alimentar.

Para Fábio Tapia Salzano, 53, médico psiquiatra e vice- coordenador do Ambulim, é preciso conscientizar mídias, agências de modelos e influenciadores. “São excessos na busca de uma magreza que na verdade é desnutrição”, diz. Suen afirma que os transtornos alimentares são multifatoriais e crônicos, mas geralmente começam depois de um episódio de bullying na escola ou de ver o padrão de beleza magro nas redes sociais. “Quando chega ao diagnóstico de anorexia e bulimia, o tratamento é muito difícil, um único profissional não trata sozinho. Muitas vezes é preciso tratar a família, não só o paciente”, explicou Suen. A terapia, nesses casos, envolve psicólogo, psiquiatra, terapeuta ocupacional, nutricionista e nutrólogo.

As redes sociais podem indicar o início do problema, uma vez que jovens com distúrbios alimentares trocam informações sobre como perder peso vomitando ou tomando remédios, e como evitar questionamentos dos pais online. “Comida tem muito a ver com afeto. Se no dia a dia o filho passa a pular alimentação, come em quantidade menor e tem muitas idas ao banheiro após as refeições, esses podem ser os primeiro sinais e é importante entrar com ajuda terapêutica”, afirma Patrícia Capuani, terapeuta familiar e diretora do socioemocional do Colégio Novo em Ribeirão Preto.

A modelo e ativista Lettícia Muniz, 32, foi adolescente nos anos 2000 e chegou a desenvolver bulimia para ficar magra e ter uma carreira na TV. “Não existia ninguém falando sobre corpo. Se ligasse qualquer canal, todo mundo era magra, todas as revistas mostravam para gente que só aquilo era o certo”, conta. Aos 28 anos, já no Instagram, Muniz viu uma mulher acima do peso que achou linda – a modelo norte-americana plus size Ashley Graham. “Essa mulher postou uma foto simplesmente existindo e sendo feliz e me libertou de uma prisão de 18 anos. Minha mente explodiu e vi que não precisava mais lutar contra quem eu era.”

Para a ativista, que lançou uma coleção para pessoas grandes em parceria com a marca Vista Magalu, permitir que mulheres de variadas formas corporais acessem diversos tipos de roupa faz toda a diferença. “A moda é feita por pessoas magras e para pessoas magras. A mulher está ali naquele caminho de se amar, se aceitar e vem esse movimento que diz: “não é para você’”, aponta Muniz.

GESTÃO E CARREIRA

RECRUTAMENTO DE EXECUTIVOS BATE RECORDE

Número de admissões cresceu 62% no primeiro semestre, indica pesquisa, com retorno do trabalho presencial e troca de profissionais que haviam sido contratados na pandemia

O mercado de recrutamento de altos executivos encerrou o primeiro semestre em ebulição e com as consultorias especializadas em garimpar esses profissionais atingindo volume recorde de trabalho. É que a dança de cadeiras nos postos mais elevados das corporações se intensificou com o arrefecimento da pandemia e a volta das atividades presenciais.

A maior parte do aumento das movimentações no alto escalão se deve a trocas nos quadros adiadas pela covid-19 e a projetos interrompidos e, agora, retomados. Mas uma parcela do aumento das contratações ocorre também por causa do fim da “lua de mel” entre empresas e executivos – no caso daqueles que trocaram de emprego no auge da pandemia e, sem conhecer as equipes, não conseguiram liderá-las remotamente.

Pesquisa da consultoria americana Signium, especializada na contratação de alto escalão (o chamado C-Level, no jargão do mercado), mostrou crescimento de 62% no número de admissões no primeiro semestre ante o mesmo período de 2021. As contratações foram feitas por multinacionais e grandes empresas nacionais.

Do total de admissões, 80% foram motivadas por substituições e, destas, 32% dizem respeito a movimentações de profissionais que tinham mudado de emprego na pandemia e não deram certo. “É um número considerável”, diz Eduardo Drummond, sócio da Signium.

Ele ressalta que, para esses cargos, o principal requisito é a capacidade de influenciar e gerenciar pessoas. E, se o executivo não consegue fazer isso a distância, é difícil mantê-lo na empresa.

“Alguns executivos mudaram na pandemia e perceberam que o novo emprego não era o que esperavam. Agora, estão fazendo um novo movimento”, diz Tiago Salomão, sócio sênior da Korn Ferry, outra importante consultoria.

FUSÕES

Além da retomada de projetos – o principal fator –, Salomão diz que as fusões entre empresas têm levado a mudanças na governança e exigido novas contratações.

Entre fevereiro e abril, por exemplo, a Korn Ferry teve crescimento de 22% na receita global com serviços de recrutamento de executivos, presidentes e membros de conselhos ante os mesmos meses de 2021. “Foi o melhor trimestre da história globalmente, regionalmente e localmente.”

Também a Page Executive, especializada em alto escalão, ampliou em 135% a receita no País no primeiro semestre em relação a igual período de 2021. “Parece um número absurdo, mas é histórico, é real”, diz Paulo Dias, sócio da Page. Os cargos mais demandados foram diretor financeiro, presidente, diretor comercial, diretor de negócios, diretor de operações e conselheiros.

EU ACHO …

O NOVO RISCO DE RIR

Tudo foi transformado de forma radical. Em poucos anos, nossas referências sofreram metamorfose profunda. É natural que o humor acompanhasse o ritmo. Não rimos mais das mesmas coisas.

A minha infância transcorreu no interior da classe média gaúcha. As piadas na escola eram, quase sempre, preconceituosas. Achávamos natural rir do que percebíamos diferente. Nem posso dizer que éramos politicamente incorretos, pois, na verdade, nem sabíamos que poderia existir uma correção. Repetíamos o mundo ao nosso redor. Meu pai era um zeloso católico e muito sensível às necessidades das pessoas. Não obstante, quando dizia piadas, dr. Renato era o modelo daquilo que, hoje, seria a base para um cancelamento total. Talvez sofresse processo em 2022. O que houve?

Eu sou a geração de borda. Vivi um mundo e vi o nascimento de outro. Cresci com piadas incorretas e humor que não poupava a diferença e, atualmente, respiro o ar do novo mundo. Claro: dei “foras” em função da minha adaptação. Funciona como a mudança de nomenclatura de estudos: você disse “Primário” por tanto tempo que a “primeira etapa do Ensino Fundamental” fica estranha. A metáfora tem limites: não há ofensa se eu trocar Ensino Médio por Segundo Grau.

Novos tempos implicam desafios para um humor. Imagine uma piada que não inclua portugueses, loiras, negros, indígenas, gays ou judeus. Suponha um humor que não ofenda. Conseguiu? Muito difícil, querida leitora e estimado leitor.

É importante lembrar que as vítimas de piadas sexistas, racistas ou homofóbicas dificilmente lamentam a transformação da nossa sensibilidade. Propagandas “vintage” são assustadoras no preconceito. Há uma imagem das gravatas Van Heusen em que um homem está na cama, e uma mulher ajoelhada lhe traz o café da manhã. A chamada insiste: ele deve mostrar a ela que este é um mundo dos homens. Há material publicitário de automóveis falando do preço baixo dos consertos de lataria porque, afinal, mulheres também dirigem. É um show de horrores que hoje causaria filas de protestos nas concessionárias. Um dia, no entanto, já ajudou a vender.

Reforço o desafio. Encontre (e treine) piadas não ofensivas. O esforço ajudará na sociabilidade; tende a diminuir problemas. Se precisar rir de alguém, ironize a si.

Moacyr Scliar, por exemplo, era brilhante em buscar o melhor do humor judaico. Se o custo de causar graça passageira for arrasar com a autoestima de alguém de um grupo, a decisão racional você sabe qual é. O palhaço deveria causar graça em toda a plateia, não apenas no público branco, hétero e masculino. É uma escolha errada de mercado fazer rir meia dúzia e ofender quase todos. Tenha esperança na graça coletiva.

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

PORQUE É IMPORTANTE CONTROLAR A QUANTIDADE DE SAL NAS REFEIÇÕES

Brasileiro ultrapassa muito a quantidade de sódio indicada pela OMS; tirar o saleiro da mesa é o primeiro passo para mudar hábitos

Mineral essencial para o funcionamento do corpo, o sódio contribui para o equilíbrio dos líquidos no nosso organismo, com participação em centenas de funções fisiológicas, como musculares e neurais – e só é possível obtê-lo por fontes externas, ou seja, pela alimentação, principalmente pelo sal de cozinha (cloreto de sódio). Mas, quando consumido em excesso, prejudica a saúde, muitas vezes de forma sorrateira, levando a problemas que podem culminar em enfarte ou acidente vascular cerebral (AVC).

“Estima-se que mais de 46 mil mortes ao ano por doenças cardiovasculares poderiam ser prevenidas ou adiadas caso a ingestão média de sal dos brasileiros fosse reduzida a 5 gramas por dia em adultos de mais de 30 anos”, diz a cardiologista Salete Nacif, do HCor, hospital referência em cardiologia, em São Paulo (SP). O brasileiro, de forma geral, extrapola esse limite: consome 9,3 gramas por dia, quase o dobro recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2013, realizada pelo Ministério da Saúde.

O levantamento indicou consumo elevado em todas as faixas etárias e níveis de escolaridade, embora o excesso seja maior em homens e mais jovens. Esse comportamento alimentar é um fator importante para a alta prevalência de hipertensão (pressão alta), doença crônica que atinge cerca de 30% dos brasileiros, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

Um estudo publicado este mês no European Heart Journal revelou que aqueles que sempre adicionam sal às refeições correm um risco 2.8% maior de morte prematura do que aqueles que raramente o fazem.

Pelo bem de sua saúde, o engenheiro Guilherme Rabello, de 53 anos, deixou de lado o biscoito, o fast-food e a feijoada, para encher o prato de legumes – com pouco sal -escolhidos no bufê do restaurante na hora do almoço. Resolveu mudar após uma arritmia cardíaca nas férias de 2018. Ele estava a bordo de um navio, no Caribe, e precisou desembarcar em uma ilha para receber atendimento médico, por estar com 180 batimentos por minuto.

“Meu coração quase saiu pela boca”, conta. Os exames não indicaram nenhuma doença, mas a cardiologista recomendou mudanças no estilo de vida, como a prática de exercícios físicos frequentes e alimentação com pouco sódio. “Sou cuidadoso, pois tenho histórico de pressão alta na família e quero reduzir o meu risco de ter problemas de saúde”, diz ele, que nunca mais apresentou arritmia.

Quando consumimos muito sódio, o corpo trabalha para retirar o excesso do corpo e buscar o seu equilíbrio de líquidos corporais. “Se uma pessoa come muito churrasco, sente sede, bebe mais líquido e elimina o excesso de sódio ao urinar mais. Mas, a longo prazo, isso pode sobrecarregar os rins e o coração. Uma pessoa que consome muito sal pode ficar com pressão alta, que lesa os rins, em um círculo vicioso”, explica o nefrologista Osvaldo Merege Vieira Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN).

As principais fontes de sódio na dieta do brasileiro são o sal adicionado diretamente nos pratos e os temperos à base de sal usados para preparar os alimentos (74,4%) e o consumo de alimentos processados e ultraprocessados (20%), segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2008-2009), realizada pelo IBGE. Por isso, a primeira recomendação é tirar o saleiro da mesa de jantar.

“A tendência das pessoas é pôr mais sal se ele estiver ao alcance”, alerta a nutricionista Cintia Pereira da Silva, pesquisadora da Faculdade de Saúde Pública da USP.

DE OLHO NO RÓTULO

Não basta controlar a adição de sal no preparo dos alimentos, mas também restringir o consumo de alimentos processados e ultraprocessados, que recebem na indústria aditivos (como sódio) para serem conservados por mais tempo ou para ficarem mais agradáveis ao paladar. “É preciso educar o olhar na hora de escolher um produto no supermercado e fazer boas escolhas”.

Em outubro, entram em vigor novas regras de rotulagem nutricional de alimentos. Uma das mudanças é a inclusão do selo frontal que indica alto teor de gordura saturada, açúcar adicionado ou sódio. No caso dos alimentos sólidos ou semissólidos, o selo será acrescentado quando uma porção de 100 gramas tiver mais de 600 gramas de sódio. Nos líquidos, a sinalização será obrigatória quando houver mais de 300 gramas de sódio em 100 mililitros do alimento.

“O consumidor está mudando de comportamento e quer entender o que consome”, diz Cintia. Ela estudou a rotulagem nutricional adotada no Chile, que desde 2016 alerta para o excesso de sódio, açúcar e gordura nos produtos alimentícios.

Ela acha que o selo frontal será importante para que as pessoas descubram que alguns produtos alimentícios não são saudáveis como parecem. Mas alerta que não basca evitar os alimentos sinalizados. “Não quer dizer que o alimento que não tem o selo está isento de sódio e pode ser consumido à vontade. Essa visão binária é um risco.”

Embora sejam práticos, alimentos enlatados, embutidos e refeições prontas industrializadas devem ser consumidos com parcimónia, reforça a nutricionista Fernanda Sardella. “Nossa alimentação deve se basear em frutas, legumes e verduras”, orienta. E recomenda caprichar no uso de temperos naturais na hora de cozinhar como forma de reduzir o consumo de sal sem perder o sabor. “Quando adotamos alho, cebola, gengibre, alecrim e outros temperos, sejam eles frescos ou desidratados, reduzimos a quantidade de sal e garantimos o sabor.”

A cozinheira Betricia Daniela Barg, de 46 anos, proprietária da Cuca Fresca Gastronomia, garante que passa longe do tempero artificial. “Um alimento industrializado contém muitos conservantes, aditivos químicos e o sódio é um inimigo da saúde. Não dá para comparar uma lasanha industrializada

com uma feita em casa. “Ela mesma foge dos produtos alimentícios processados e vê a diferença na saúde. “Quando me alimento com ingredientes frescos, meu organismo responde bem. Percebo melhora em tudo, do humor ao intestino.”

MODERE O CONSUMO

HÁBITOS

Tente educar o seu paladar e diminuir, aos poucos, a adição de sal nas refeições. Tire o saleiro da mesa, para dificultar o ato de salgar (muitas vezes automaticamente) a refeição.

CARDÁPIO

Evite o consumo de alimentos ultraprocessados. Refeições industrializadas prontas, embutidos (presunto, mortadela, salame, etc.), enlatados, bolachas doces e salgadas, molhos prontos (maionese, mostarda, ketchup, shoyu), salgadinhos, macarrão instantâneo costumam ter muito sódio.

RÓTULOS

A nova rotulagem, a partir de outubro, vai indicar os alimentos com alto teor de sódio, que devem ser evitados, mas isso não quer dizer que os alimentos que não têm podem ser consumidos à vontade. Portanto, é importante procurar no rótulo a quantidade de sódio presente no produto alimentício para ter uma ideia da quantidade ingerida.

PREPARO

Cozinhar sem sal e salgar na hora de servir pode ser uma boa estratégia, pois o alimento absorve menos sal. Abuse dos temperos naturais para dar sabor aos pratos, em vez de exagerar no sal.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS SOLITÁRIOS

Em meio a epidemia de solidão, homens de meia-idade sofrem mais

O jornalista americano Billy Baker havia acabado de fazer 40 anos, era casado e tinha dois filhos pequenos quando seu editor disse que tinha uma pauta “perfeita para ele”: uma reportagem sobre o fato de homens de meia-idade não terem amigos. Foi um choque. Billy sempre se considerou um cara extrovertido, com vários amigos, uma vida bacana. Não se sentia um solitário. Mas descobriu que sim, ele era.

“Eu nunca me senti sozinho. Eu tinha amigos, mas não tinha tempo para eles. Sentia que algo faltava na minha vida, mas não sabia o que era. Não pensava “poxa, preciso de tempo com meus amigos”, era algo que eu deixava para depois que as coisas importantes fossem resolvidas, como trabalho, família, atividade física… Mas isso nunca é resolvido. E só então entendi que amizade é também uma coisa importante”, afirma.

Billy escreveu a reportagem “Precisamos nos ver mais”, que acabou fazendo tanto sucesso que gerou um livro, publicado no Brasil pela editora Sextante. O motivo por trás de tantas pessoas se identificarem com o jornalista é simples: o mundo vive uma epidemia de solidão.

Uma pesquisa de 2019 apontou que 61% dos americanos são comprovadamente solitários, porcentagem que havia crescido sete pontos de um ano para outro —antes dos impactos da pandemia. Outro grande estudo, conduzido pela AARP (uma ONG focada em pessoas com mais de 50 anos), mostrou que mais de 42 milhões de americanos acima dos 45 anos sofrem de “solidão crônica”. E isso não é um fenômeno exclusivo dos Estados Unidos.

Mas se Billy e tantos outros solitários não têm consciência disso, qual o problema? A questão é que, mesmo quando não sabemos que estamos sós, nosso corpo sabe. Pesquisa da Universidade Brigham Young, que usou dados de 3,5 milhões de pessoas coletados ao longo de 35 anos, descobriu que indivíduos solitários têm um aumento de 32% no risco de morte prematura.

Pesquisadores vinculados à Associação Americana do Coração constataram que o isolamento social e a solidão elevam o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC) em até 30%. Isso sem falar em todas as perdas cognitivas e de saúde mental daqueles que não podem contar com outras pessoas.

MASCULINIDADES

Em suas pesquisas para o livro, o jornalista descobriu que o gênero faz diferença.

“Eu sou um cara e nunca admitimos quando estamos vulneráveis e as coisas não vão bem. Eu não teria admitido se não fosse meu editor. As mulheres são mais bem equipadas como animais sociais, têm compaixão natural, e quando o estresse acontece os mesmos químicos que levam um homem à resposta de luta ou fuga levam as mulheres a procurar outras pessoas, formar uma rede. Homens falam ombro a ombro e mulheres falam olho no olho. Mas há erros culturais também”, afirma. Para o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral, que coordena um grupo terapêutico de homens, o problema maior está, justamente, nesses erros culturais.

“A sensação de conexão com o outro acontece quando o encontro não passa só pelo relato racional, pela troca de dados, as conquistas, os números, os projetos. Para que uma pessoa possa se sentir acompanhada, ela precisa se sentir vista e, para isso, precisa falar de si. É muito comum que os homens tenham poucas relações efetivas em que há, realmente, esse nível de entrega e intimidade. Essa conexão com o outro, em geral, os homens têm pouco”, avalia Amaral.

Isso não vale para todos os homens, segundo o psicólogo. É uma questão muito mais presente nos héteros, que às vezes só se abrem mesmo com a mulher:

“Para o homem gay, essa dinâmica é diferente, porque a entrega da intimidade tem a ver com nosso lado mais feminino. O que barra isso no homem heteronormativo é que ele não pode mostrar o que não servir como vantagem competitiva. Ele só mostra o que o coloca no pódio da sociedade. Essa intimidade, que constrói o contrário da solidão, só se desenvolve numa perspectiva mais colaborativa da vida. É o oposto da competição: não preciso fazer tudo sozinho, posso ajudar e ser ajudado, posso falhar e reconhecer o direito do outro de ter falhas”, analisa o psicólogo.

O impacto dessa forma de relacionamento preocupa Amaral. De acordo com ele, essa armadura impede que os homens se conectem com suas dores e desenvolvam questões de saúde física que, no fundo, têm “gênese emocional”.

RECRIANDO LAÇOS

Billy Baker empreende, então, uma jornada em busca da amizade. Vive um fracasso total quando tenta retomar relações do ensino médio. Atravessa o Atlântico para tentar se reconectar com o melhor amigo que, surpresa, já nem morava mais nos Estados Unidos e ele não sabia. Mas, sobretudo, aprende a fazer novas conexões.

“O primeiro passo foi reconhecer que precisava melhorar nesse aspecto. A cura da solidão é a amizade. E para isso é preciso experimentar estratégias. Eu tentei coisas que deram errado, como reunir a turma da escola. O passado é legal de visitar, mas você não vive nele. É preciso fazer amigos na comunidade em que está agora. Outra coisa é se colocar numa posição mais vulnerável, como fazemos numa relação amorosa”, conta ele.

O jornalista considera que o caminho mais fácil é integrar ou criar uma tribo, que tenha algo em comum, como, digamos, boliche. As pessoas se encontram semanalmente, têm aquele gosto em comum, vão criando conexões até surgir uma amizade. Ele também aconselha que se olhe para o colega de trabalho, que está cotidianamente ao seu lado e pode se tornar um bom amigo. Outra estratégia do jornalista foi segmentar relações que, para ele, foram: a turma da academia, o grupo do pôquer nas noites de quarta, o amigo de surfe, outro de corrida e outro com quem faz um podcast.

Talvez uma das dicas mais importantes dele seja abandonar a passividade: é preciso propor, receber não, propor de novo e ser específico: trocar o “precisamos nos ver mais” por “vamos almoçar no sábado?”. Uma hora acontece.

“Se você botar um pouquinho de esforço nas amizades, vai ter um retorno enorme. Não é como comer vegetais ou treinar por horas. É o caminho mais fácil para ter saúde. As pessoas sociáveis são mais felizes e saudáveis”, conclui.

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