OUTROS OLHARES

NAS PRATELEIRAS, A CONFUSÃO DOS PRODUTOS SIMILARES

Novos itens chegam como opção mais barata, mas embalagens semelhantes e disposição em mercados dificultam diferenciação

Sempre que a inflação está alta —a taxa acumulada em 12 meses, fechada em agosto, é de 8,73% —, a indústria tenta se adequar ao bolso dos consumidores. O fenômeno mais comum, até aqui, era a redução de embalagens. No entanto, em alguns segmentos, em que a alta de preços está mais acentuada, uma nova solução tem surgido: o lançamento de produtos similares aos tradicionais como alternativa mais barata. O problema é que a semelhança das embalagens e o local da exposição nos mercados, algumas vezes, confundem o consumidor, que acaba levando um item achando que era outro, o famoso gato por lebre.

Mais do que erros na rotulagem, encontramos problemas na exposição dos produtos nos supermercados, que podem dificultar a diferenciação dos itens pelo consumidor. É o caso dos mixes de manteiga e margarina no meio das manteigas, encontrado numa loja do Mundial no Rio de Janeiro. No Extra, no Centro do Rio, foram vistas caixas de mistura de creme de leite entre as embalagens do produto tradicional.

Já em uma unidade do Guanabara, na Zona Norte do Rio, o mix manteiga e margarina Leco foi identificado na etiqueta como blend, apesar de o uso de termo estrangeiro ser vedado pelo Código de Defesa do Consumidor (CDC) por dificultar a compreensão. Na mesma loja, o queijo processado sabor requeijão da marca Supremo foi nomeado na etiqueta de preço como requeijão.

Nem o café escapou. Na última semana de agosto, viralizou o pó para preparo de bebida sabor café tradicional da marca Pingo Preto, apelidado jocosamente por internautas de “cafake”.

A dona de casa carioca Andreia de Souza, de 52 anos, tem o hábito de conferir tim- tim por tim-tim os rótulos. Mas conta que o marido, mais distraído, já se enganou duas vezes e acabou levando o produto errado para casa:

“Ele comprou um creme de leite que na verdade era uma mistura láctea e um composto lácteo achando que era leite em pó. Voltei ao mercado e consegui trocá-los. O fato é que a alta de alimentos está pesando no bolso. A manteiga, por exemplo, subiu, nos últimos 12 meses até agosto, 22,6%; o requeijão, 26,10%; o leite condensado, 21,95%; o leite longa vida, 60,81%; e o café, 46,34%. Nesse cenário, o lançamento de produtos similares mais baratos é visto como alternativa para parte dos consumidores. No entanto, todo mundo quer saber o que põe no carrinho.

A aposentada Glória Barbosa de Melo, de 62 anos, trocou o azeite, que subiu cerca de 10% em 12 meses, pelos óleos compostos de soja e oliva. O produto tem composições que mistura de 5% a 20% de azeite e preços mais acessíveis.

“Na salada, o gosto não é o mesmo. Mas, ultimamente, só compro extra virgem quando tem uma promoção muito boa. Comparando os preços, tenho que levar o que tem óleo mesmo”, diz.

DESAFIO DE INFORMAÇÃO

Para Ricardo Morishita, professor de Direito do Consumidor no Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), os produtos similares trazem um de- safio extra de informação:

“Nas crises, a redução de embalagens já era um clássico para driblar o aumento de preço. Agora, há mudança de fórmula, produtos similares, mas há diferenças qualitativas. Essa tendência impõe um desafio de informação clara a toda a cadeia. Não só para o fabricante na rotulagem, mas aos mercados na forma de apresentá-los para que o consumidor faça, de fato, uma escolha consciente.

O professor Eduardo França, coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da ESPM, pondera que a organização do supermercado é pensada por setores e, por isso, faz sentido que produtos similares fiquem lado a lado.

Mariana Gondo, advogada do programa de Alimentação Saudável do Instituto de Defesa ao Consumidor (Idec), argumenta, no entanto, que, para garantir clareza, esses itens não deveriam ser posicionados nas prateleiras entre produtos tradicionalmente conhecidos pelo público:

“A clareza deve estar na descrição do produto, mas também nas ilustrações na embalagem. Um vidro de óleo composto de soja e apenas 5% de azeite com imagem de azeitonas e oliveiras, por exemplo, pode gerar interpretações falsas. Da mesma forma o consumidor pode não identificar diferença se o produto estiver exposto misturado aos itens tradicionais que ele conhece.

Em nota, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), órgão do Ministério da Justiça, afirma que, quando o consumidor se confunde, tanto fabricante quanto varejista podem ser responsabilizados. Apesar de admitir que pode ser fácil se confundir devido à semelhança das embalagens nas gôndolas, França, da ESPM, explica que há uma coerência do ponto de vista do fabricante.

“As indústrias usam embalagens parecidas porque o novo produto continua próximo àquela categoria. E não há nenhuma regra que determine uma mudança radical de embalagem. Neste ponto, a regra é subjetiva”, diz o professor.

Um dos casos de grande repercussão nas redes sociais sobre produtos similares foi o do soro de leite, que passou a ocupar as gôndolas ao lado do leite, quando este chegou a custar próximo de R$ 10. O caso da bebida láctea Cristina, feita com 50% de soro de leite, com embalagem parecida com a do longa vida, repercutiu na web e acabou se transformando num projeto- piloto do Procon-SP.

O órgão de defesa do consumidor paulista se reuniu com a Nova Mix Alimentos, fabricante do produto, para propor mudanças na embalagem de forma a tornar mais claro para o consumidor o que ele está levando para casa. A proposta foi bem aceita e já há tratativas com outras empresas de alimentos para alterações na rotulagem com o mesmo objetivo.

“Não somos contra a existência de produtos mais acessíveis ao consumidor, mas os produtos precisam ter informações corretas e adequadas”, ressalta Rodrigo Tritapepe, diretor de Atendimento e Orientação do Procon-SP.

A Nova Mix informou, em nota, que a conversa com o Procon foi “produtiva” e que “tanto ficou claro o cumprimento das normas vigentes aplicáveis, como a boa-fé” da empresa. A fabricante esclareceu que alterou o rótulo da bebida láctea Cristina e materiais de apoio à gôndola para tornar a comunicação mais clara.

Em nota, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) destaca que as regras de rotulagem de alimentos têm como princípio geral que o rótulo não pode conter textos, expressões, imagens ou símbolos que “possam induzir o consumidor a equívoco, erro, confusão ou engano, em relação à natureza, composição, procedência, tipo, qualidade, quantidade, validade, rendimento ou forma de uso do alimento”.

A Anvisa reforça que as designações dos produtos— que devem estar em destaque na embalagem — têm o propósito de nomear diferentemente alimentos que tenham componentes de identidade distintos, mesmo com finalidades ou uso semelhantes.

O QUE DIZEM AS EMPRESAS

Em nota, o Mundial afirma que “deixa claro o que está sendo oferecido na gôndola e no encarte”. E acrescenta que “é de responsabilidade da indústria disponibilizar as informações sobre os produtos para os clientes de maneira clara, em rótulos e descrições”. A rede afirma posicionar os produtos em setores sugeridos pelo fornecedor.

O Guanabara informou que “os produtos são expostos por categoria e, dessa forma, os clientes podem comparar e escolher itens de marcas diferentes, mas de tipos similares, de modo a não se confundirem”.

A rede Pão de Açúcar, responsável pelo Extra, disse que não iria responder.

A Nestlé destacou que a mistura de creme de leite Nestlé é uma alternativa mais acessível ao creme de leite tradicional. E ressaltou que o termo “mistura de creme de leite” está em destaque na embalagem.

A Jurerê, responsável pela Pingo Preto, disse que o pó para preparo de bebida sabor café é aprovado pela Anvisa e teve respaldo positivo do Procon de Santa Catarina.

A Vigor, dona da marca Leco, informou que “a manteiga e margarina cremosa Leco foi lançada em 2002 e segue todas as normas de rotulagem e regulamentos técnicos”.

A Cargill, detentora das marcas de óleo composto Maria e Olívia, disse que ambas as embalagens atendem às leis.

Já a Buritis, que responde pelo queijo processado sabor requeijão da marca Supremo, disse que a descrição do item “está de acordo com o exigido pela lei”.

GESTÃO E CARREIRA

COMO PROMOVER A CULTURA DE UMA EMPRESA NO TRABALHO REMOTO

Companhias que sempre trabalharam no regime a distância dão dicas de como criar uma cultura forte mesmo com funcionários espalhados por diferentes locais

O trabalho remoto pode seguir uma cultura organizacional de sucesso. Para isso, é preciso apenas se esforçar um pouco, dizem as empresas que adotam o regime.

À medida que os líderes das companhias continuam lidando com as políticas de local de trabalho pós-pandemia, muitos se perguntam se as opções remotas deveriam fazer parte do plano. Uma das principais preocupações deles é se isso causará danos à cultura da empresa. Para essa questão, algumas instituições que sempre operaram de forma remota toparam dar sugestões de como criar e manter a cultura organizacional mesmo com uma equipe espalhada em diferentes lugares.

Empresas como a plataforma de desenvolvimento de software GitLab, a do software de marketing de redes sociais Buffer e a plataforma de fluxo de trabalho automatizado Zapier funcionam com operações remotas desde que foram criadas. A Corel, empresa canadense de software de design gráfico, adotou durante a pandemia uma política permanente que prioriza o trabalho remoto.

Confira alguns conselhos dessas empresas para criar uma cultura organizacional forte.

INTENÇÃO CLARA

As empresas não devem mudar para o trabalho remoto e esperar que a cultura da empresa se desenvolva por conta própria. As lideranças remotas disseram que não basta apenas a adesão dos principais chefes da empresa, mas também um esforço intencional para criar um sentimento de conexão e valores compartilhados quando os trabalhadores não estão todos no mesmo lugar.

Portanto, para tornar o processo mais fácil, desenvolva uma estratégia focada em como a empresa ajudará os trabalhadores no novo ambiente.

TRANSPARÊNCIA

Quando os trabalhadores não estão reunidos em um mesmo local, a transparência torna-se ainda mais importante. Empresas que trabalham apenas de forma remota disseram ter descoberto que documentos compartilhados ou fóruns internos funcionam melhor e que trabalhadores e líderes devem documentar todo o progresso em projetos, anotações de reuniões, anúncios, políticas e decisões.

ESPAÇOS DE SOCIALIZAÇÃO

Sem um escritório, os funcionários podem facilmente entrar em suas cavernas de trabalho e ficar isolados. Mas as empresas podem fazer algumas coisas para combater isso e criar um ambiente virtual que lembra o do escritório físico.

Os especialistas sugerem reservar um tempo e criar um espaço onde os trabalhadores possam ter conversas casuais que podem, ou não, estar relacionadas com o trabalho.

AJUSTE ESTILOS DE GESTÃO

Um novo modelo de trabalho exige um novo estilo de gestão. Para as empresas que trabalham assim há anos, essa gestão significa focar nos resultados versus tarefas diárias ou por hora. Em alguns casos, isso pode significar treinar os gestores para lidar corretamente como trabalho remoto.

EU ACHO …

ENVELHECIMENTO ESTOICO

Alguns filhos se tornam verdadeiros tiranos na relação com seus pais idosos

Há basicamente duas formas de envelhecer hoje: ou você se transforma num hipocondríaco ou num retardado. O que vem a ser esse fenômeno psicológico?

Sabemos que nossa espécie não é adaptada a viver tanto tempo. Daí que tristeza, tédio, degeneração por inatividade e similares são quadros comuns. Não há no horizonte nada que implique alguma mudança significativa. Aumento de população idosa, custos com o envelhecimento, abandono, abuso, perda de papel social e produtivo, indiferença do Estado e do mercado, enfim, das próprias famílias, sobrecarregadas e sem dinheiro.

Apesar dos esforços de muitos profissionais e instituições, a inundação de idosos numa sociedade atomizada e de laços familiares e afetivos reduzidos veio para ficar.

Para além desse olhar sombrio, mas nem por isso menos verdadeiro, há aspectos mais sutis, mas que fazem parte do cenário do envelhecimento num mundo feito cada vez mais para os jovens — que por sua vez são cada vez menos em número nas sociedades afluentes. Filhos são ônus para os adultos, mas, pelo menos, ainda representam um futuro de alguma forma. Mas idosos são o passado, e o passado não serve para nada na gloriosa modernidade. Em se tratando da população mais afluente e que passa dos 50 anos, chama a atenção a combinação de dois comportamentos aparentemente contraditórios, mas que se tornam cada vez mais hegemônicos: a obsessão por procedimentos médicos – que sem dúvida fazem parte da longevidade nas populações mais afluentes – e outra obsessão que é a busca histérica por comportamentos que mimetizem a juventude perdida.

É dessa combinação que nasce a mania hipocondríaca e o retardo mental como modelos de envelhecimento no mundo contemporâneo. A obsessão por procedimentos médicos não se atém ao próprio sujeito, mas se torna um modo de sociabilidade. A competição pelos números de exames médicos realizados e pela frequência de visita ao médico é um traço dessa sociabilidade.

“Quantas colonoscopias você fez nos últimos anos?” “Você mediu seu colesterol este ano?” “Como você continua a comer carne vermelha nessa idade?!” “Essa dieta é daquela médica que atende fulana?” – sempre uma famosa recauchutada todo dia. Enfim, os exemplos ocupam as festas familiares, encontros de amigos, férias. Uma clara atitude de superioridade emana daqueles que parecem em dia com o que a última ciência diz do modo mais saudável de envelhecer. Isso sem levar em conta que, afora os exames claramente válidos, muita coisa é moda naquilo que falam, principalmente no que se refere a dietas alimentares.

Para algumas pessoas, tudo que restou após os 50 anos é se gabar dos procedimentos supostamente científicos que praticam no seu dia a dia. O envelhecimento carrega consigo uma dose significativa de desespero, o que é normal. A cada dia tudo pode começar a dar errado no corpo, e isso não há atitude motivacional que resolva. Alguns filhos se tornam verdadeiros tiranos na relação com seus pais, exigindo deles, muitas vezes, o abandono de qualquer forma de vida que para esses pais, até então, foi significativa.

Ao mesmo tempo, existe o outro fenômeno citado anteriormente: a busca histérica por mimetizar a juventude perdida. Não me refiro aqui a meros hábitos de vestimenta. Com a idade, a disposição para atividades “jovens” diminui. A maturidade carrega consigo um certo ceticismo para com muitas das coisas que os jovens veem como de grande valor. A idade busca um certo silêncio, em detrimento da vocação jovem ao ruído.

A maturidade tende a relativizar o encanto do sexo em favor de experiências estéticas mais contemplativas. O gosto pelo hábito em lugar da busca incessante pela novidade. A recusa por ambientes saturados de pessoas em favor de ocasiões mais seletivas no que tange à ocupação dos espaços à sua volta.

Nada do citado aqui como escolhas da maturidade representa em si a morte ou a desistência da vida. Apenas um modo mais atento ao uso do tempo que resta e uma temporalidade de um corpo e uma alma que podem apresentar um cansaço saudável pelas ilusões do mundo. Nada mais estoico.

*** LUIZ FELIPE PONDÉ

ESTAR BEM

COMO IDENTIFICAR E LIDAR COM A INTOLERÂNCIA À LACTOSE

Fazer o diagnóstico é importante para descartar outras doenças com sintomas similares; tratamento ajuda paciente a ter uma vida normal

Se você já passou mal após ingerir leite ou laticínios, é grande a possibilidade de você ser intolerante à lactose, condição que acomete até 70% da população mundial ao longo da vida.

A intolerância é a dificuldade de absorver o açúcar do leite, a lactose, pela incapacidade de produzir a enzima lactase, responsável por essa digestão. A lactose não absorvida, então, fica no intestino e pode provocar desconforto abdominal, gases, azia, cólica, sensação de estufamento e diarreia. “É uma tentativa de o organismo mandar embora aquela partícula que não foi absorvida”, explica Isadora Elias Pereira, gastroenterologista e professora de medicina da Universidade Privada de Campo Grande, Uniderp.

Na prática, por causa das enzimas artificiais e do aumento de produtos sem lactose no mercado, o dia a dia do paciente é pouco afetado. No entanto, saber o diagnóstico é importante, de acordo com a médica, pois descarta a existência de outras doenças com sintomas parecidos.

COMO É FEITO O DIAGNÓSTICO?

São três as maneiras de diagnosticar a intolerância à lactose. A primeira, mais comum e amplamente disponível, é pela retirada do sangue do paciente em jejum e, na sequência, após ele ingerir uma certa quantidade de lactose.

“O objetivo é detectar a variação de glicose no sangue. Se aumentar, a lactose foi absorvida, se não, pode significar que a pessoa não consegue absorver essa molécula”, esclarece a médica.

A ideia é a mesma para o teste respiratório, que mede a quantidade de hidrogênio expirado, após ingerir lacto- se. “Quando o paciente não absorve essa molécula de açúcar, ele produz um ácido, H+, que é hidrogênio e passa, então, a ser expirado pelos pulmões. A máquina consegue quantificar isso”, diz.

O último diagnóstico, que é o clínico presumido, ocorre quando a pessoa não consegue realizar os testes, mas observa a associação da alimentação com os sintomas. “Nesse caso, fazemos um teste terapêutico de consumir produtos sem lactose e usar a enzima industrializada para ver se há melhora dos sintomas.”

EXISTEM DIFERENTES TIPOS DE INTOLERÂNCIA?

A intolerância mais comum é a primária. Ela surge com o passar dos anos e com a redução da concentração de lacta- se no organismo. Ou seja, quando somos bebês, a quantidade de ingestão de leite é diária, por isso há uma alta produção da enzima. Porém, ao ficarmos mais velhos, essa produção diminui.

Há também a congênita, quando a criança já nasce com a deficiência, algo mais difícil de acontecer. E até a secundária, quando há outra doença intestinal dificultando a absorção de lactose. Neste caso, basta tratar a doença de base, como parasitas intestinais, e a absorção de lactose pode ser restabelecida.

De acordo com a especialista, é importante não confundir intolerância com alergia à proteína do leite. “Essa alergia é uma reação do sistema imunológico que também pode ter sintomas gastrointestinais, mas é mais reconhecida pelo inchaço nos lábios, coceira e manchas vermelhas na pele. Já a intolerância acomete apenas o sistema digestivo.”

COMO É O TRATAMENTO?

Não existe cura ou prevenção para a intolerância primária, mas há maneiras de reduzir os sintomas que causam desconforto, especialmente com a mudança na dieta. Ao contrário do que se imagina, o leite não deve ser abolido, a não ser por recomendação médica, mas sim adaptado: pela redução da quantidade ou pelo uso de produtos veganos. Neste último caso, para garantir a ingestão de cálcio, invista em verduras de folhas verdes, feijão, ovos, ervilhas e tofu.

“Quem é intolerante à lactose já se conhece e sabe o que leva aos sintomas e é justamente essa auto-observação que é eficaz”, conta Isadora. Na maioria dos casos, recorre-se à lactase sintética, formulada pela indústria farmacêutica e ingerida antes das refeições que tenham leite e derivados. “É claro que ela não vai dar conta de grandes quantidade de lactose”, alerta a médica.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTUDOS MOSTRAM O PODER INESPERADO DE GESTOS ESPONTÂNEOS DE GENTILEZA

Pesquisadores descobriram que quem pratica um ato de bondade subestima o efeito em quem o recebe – e o bem a si mesmo

No final de agosto, Erin Alexander, 57, sentou-se no estacionamento de um café na Califórnia, e chorou. Sua cunhada havia morrido recentemente e ela estava tendo um dia difícil.

Dentro do café, uma barista que trabalhava no local também estava. A máquina de expresso quebrou e ela estava claramente estressada. Erin – que havia parado de chorar e entrado na loja – sorriu, pediu um chá verde gelado e disse a ela que aguentasse firme. Depois, ao pegar seu pedido, notou uma mensagem no copo: “Erin, sua alma é de ouro” e um coração.

O calor daquele pequeno e inesperado gesto, de uma estranha que não fazia ideia do que ela estava passando, a comoveu profundamente.

“É claro que eu ainda estava muito triste”, disse Erin. “Mas aquela atitude melhorou o meu dia.

Novas descobertas, publicadas no Journal of Experimental Psychology, em agosto, corroboram o quão poderosas as experiências como a de Erin podem ser. Os pesquisadores descobriram que as pessoas que realizam um ato aleatório de gentileza ou bondade tendem a subestimar o quanto o receptor irá apreciá-lo.

“Temos esse viés de negatividade quando se trata de conexão social. Simplesmente não achamos que o impacto positivo de nossos comportamentos seja tão marcante quanto é”, diz a psicóloga americana Marisa Franco. “Com um estudo como este, espero que mais pessoas se inspirem a realmente ter eventuais atos de bondade.

EXPERIMENTOS

O estudo compreendeu oito pequenos experimentos que variaram em formato e participantes. Em um deles, por exemplo, foi solicitado aos alunos de pós-graduação a realização de atos gentis a sua própria escolha, como dar carona a um colega de classe, assar biscoitos ou comprar uma xícara de café para alguém.

Em outro, os pesquisadores convidaram 84 voluntários, durante dois fins de semana frios, numa pista de patinação no gelo. Eles receberam um chocolate quente, e podiam escolher entre ficar coma bebida ou entregá-la a um estranho, por pura gentileza. Os 75 participantes que doaram o chocolate quente foram convidados a adivinhar o quão “grande” o ato de bondade seria para o destinatário em uma escala de 0 – muito pequeno – a 10 – muito grande – e prever como o receptor classificaria seu humor – variando de muito mais negativo do que o normal a muito mais positivo do que o normal – ao receber a bebida.

Nesse experimento – e em todos os outros – as pessoas que praticaram a gentileza subestimaram o quanto isso foi apreciado, disse um dos autores do estudo, Amit Kumar, professor de psicologia da Universidade do Texas.

“Não conhecer o impacto positivo pode evitar que a pessoa realize esse tipo de gesto de gentileza no dia a dia. As pessoas tendem a pensar que o que estão dando é pouco”, disse Kumar. “Mas os destinatários são menos propensos a pensar desse jeito. Eles consideram o gesto de forma mais significativa, porque pensam que alguém fez algo bom para eles. A noção de que a bondade pode aumentar o bem-estar não é nova. Estudos mostraram que o comportamento pró social – basicamente, ajudar voluntariamente os outros – pode ajudar a diminuir os níveis de estresse diário das pessoas e que simples atos de conexão, como enviar mensagens de texto para um amigo, significam mais do se imagina. Mas pesquisadores que estudam bondade e amizade dizem esperar que as novas descobertas fortaleçam o argumento científico para fazer esses tipos de gestos com mais frequência.

COMO FAZER

O estresse também pode impedir as pessoas de serem gentis com os outros, segundo ela, assim como a “pequena voz julgadora” na cabeça das pessoas que as faz questionar se seu gesto ou presente será mal interpretado ou se fará com que o destinatário se sinta pressionado a retribuir.

“Quando surge o impulso da bondade, nós pensamos demais”, disse Tara Cousineau, psicóloga clínica.

Mas é improvável que um ato de bondade saia pela culatra, segundo ela, e, em alguns casos, pode gerar ainda mais gentileza.

Jennifer Oldham, 36, perdeu a filha de 9 anos, Hallie, em julho depois que uma árvore caiu sobre o carro em que estava e recentemente criou um grupo no Facebook que incentiva os participantes a se envolverem em atos espontâneos de bondade. As pessoas compraram mantimentos e fórmulas infantis para outras em homenagem a Hallie. Também doaram material escolar e deram hortênsias a estranhos.

“Nenhum pequeno ato passa despercebido”, diz Oldham. “Isso ajudará seu próprio coração, talvez até mais do que o de quem recebe.

Se você ainda não tem o hábito de realizar atos gentis de forma espontânea – ou se isso não te ocorre naturalmente – Franco disse para começar pensando no que você gosta de fazer:

“Não é sobre você ficar tipo, ‘Puxa, agora eu tenho que aprender a assar biscoitos para ser legal’. É sobre que habilidades e talentos você já tem? E como você pode transformar isso em uma oferta para outras pessoas?

OUTROS OLHARES

INFLUENCERS DA MENOPAUSA

Quem são as mulheres que dedicam seus perfis à fase feminina considerada tabu até pouco tempo, com muita informação, lives e bom humor

Envergonhada ficava a sua avó. Período iniciado com o fim da menstruação (normalmente entre os 45 e 55 anos), a menopausa vem sendo disseminada nas mídias sociais, com a proposta de mudar o pensamento sobre o assunto. E, com uma alta dose de ajuda de famosas, como Angélica, Andrea Beltrão, Denise Fraga, Claudia Raia, Angelina Jolie e Naomi Watts, falando às claras sobre como lidaram e superaram os sintomas que podem aparecer já no climatério. Mas destaca-se também a turma que vem promovendo conteúdo digital, entre médicas, nutricionistas, psicólogas e atrizes, com perfis recheados de muita informação em forma de esquetes de humor, lives para tirar dúvidas, dicas e estudos sobre terapia de reposição hormonal. Para a ginecologista Joele Leripio, o importante é munir as mulheres para que possam escolher um bom profissional para acompanhá-las. “Vivemos 30% da nossa vida na menopausa, é preciso entender esse processo, há muitas alterações que podem desencadear doenças”, explica.

@menopausa_cancelada

GIOVANA AGOSTINI, nutricionista 317 mil seguidores

Com mensagens acolhedoras de que é possível cuidar, buscar uma vida saudável, e, com isso, entender o envelhecimento, as “influenciadores da menopausa” são taxativas ao afirmar que não é normal passar por esse período sofrendo. Uma delas, a atriz Julieta Zarza, conta como encontrou uma rede de apoio no Instagram: “Transformar a minha história em arte e compartilhar foi extremamente terapêutico. A potência que é abrir um diálogo, um debate… Sinto que somos uma comunidade”.

O poder da alimentação para tratar os sintomas da menopausa. Esse é o mote do perfil criado por Giovanna Agostini, nutricionista funcional e chef especialista em modo de preparo dos alimentos. “É tudo baseado no que eu chamo de DNA: é preciso desinflamar, nutrir o organismo e aumentar os hormônios e neurotransmissores. Desenvolvi uma metodologia com esses pilares.” Com muitas lives regadas a receitas, ela conta que as maiores repercussões estão nos conteúdos que abordam os grandes vilões (como o leite, segundo ela) e ainda ingredientes capazes de devolver libido e diminuir fogachos. Há vídeos mostrando pratos mais tradicionais como estrogonofe de frango e moqueca de peixe, até os mais originais, como pudim de chia, brigadeiro de inhame. E muitos chás: mix de cavalinha, bardana e centella asiática, por exemplo, para melhorar a pele. “Eu travei uma luta pessoal contra a indústria alimentícia e a farmacêutica. Nos faz adoecer. A proposta no meu perfil é voltar para nossos antepassados e resolver tudo de forma natural. A começar reduzindo e substituindo leite, glúten e cafeína no nosso cotidiano”, diz. Um dos vídeos mostra um leite vegetal com cúrcuma, pimenta-do-reino, noz-moscada e cardamomo para o lugar do café com leite: “Tem efeito afrodisíaco”.

@drabeatriztupinamba

BEATRIZ TUPINAMBÁ, ginecologista – 297 mil seguidores

O perfil no Instagram da médica Beatriz Tupinambá mudou completamente quando ela postou a seguinte frase:

“Menopausa é a melhor fase na vida da mulher”. Era o ano de 2020 e, de lá para cá, conquistou quase 300 mil seguidores. Até chegar a tal afirmação, foi um longo período.

Especialista em reprodução humana, a carreira da médica mudou de rumo quando sua mãe entrou na menopausa. “Ela não tinha vontade de fazer nada, ficou depressiva, ganhou peso. Minha mãe estava indo embora e eu, como ginecologista, não sabia tratar. Havia aquele preconceito de que reposição hormonal causava câncer e os médicos que ouvimos disseram que era assim mesmo, tinha que aguentar. Como assim a gente chegou na Lua e não há um tratamento para menopausa?”, lembra, indignada. Beatriz se enfiou nos estudos, cursou uma pós em longevidade, publicou artigos científicos e hoje dá aula na UniRio. Aplicou os ensinamentos na mãe, as amigas logo vieram atrás, viraram pacientes.

Beatriz elaborou um método batizado de Ressignifique, feito por oito mil mulheres. Seu perfil traz pequenos vídeos, posts diários, além de uma programação intensa de lives: “As maiores audiências são em torno da libido e da terapia de reposição hormonal (ela defende a bioidêntica).”

@drajoeleleripio_menopausa

JOELE LERÍPIO, ginecologista 60,4 mil seguidores

O que motivou a médica gaúcha Joele Leripio a abrir seu perfil fechado no Instagram foi a quantidade de informações erradas que via espalhadas pela rede. De forma direta e fácil de entender, a ginecologista, que tem especialização em fisionomia do envelhecimento saudável, em terapia regenerativa íntima e trabalha exclusivamente com mulheres no climatério e na menopausa, promove lives para tirar dúvidas. Recebe centenas delas por seu direct. “Ainda existe uma confusão muito grande sobre os tipos de hormônios para repor, como são administrados, os riscos, quem pode, quem não pode, quando se deve parar…”, diz. A intenção é nutrir sua seguidora de informação para ter a capacidade de escolher o profissional que vai cuidar dela e escolher a melhor forma de tratar. Joele faz questão de ressaltar que não traz fórmulas prontas: “Tento mostrar a vida como ela é, sem mágica, cada uma é responsável pelo próprio envelhecimento. Ela vai ter que se mexer se quiser continuar com saúde”.

@peripeciasmenopausicas

JULIETA ZARZA, atriz e palhaça 11,6 mil seguidores

Logo que deixou de amamentar sua bebê, aos 37 anos, a atriz argentina Julieta Zarza soube, por sua ginecologista, qual era o motivo daquele incômodo todo que vinha sentindo: menopausa precoce. Recebeu informações que hoje classifica como desatualizadas e passou por uma fase de negação e medo: “Fiquei mal, sentindo os fogachos, queda de cabelo, depressão, uma certa confusão mental… Quando cheguei ao fundo do poço, decidi trocar de médica e compreendi que eu podia iniciar a reposição hormonal. Comecei a melhorar e veio uma revolta”, conta Julieta (hoje com 43 anos e há 15 no Brasil), que também é palhaça, ilusionista, palestrante, diretora e produtora cultural. “Estamos em uma situação muito precária, muita falta de informação, casos sem acesso a tratamento… Senti um desejo enorme de compartilhar essa experiência, mas queria de uma forma leve, divertida.”

Veio a pandemia e houve tempo para elaborar um projeto. Nasceu então a websérie e o perfil Peripécias Menopáusicas – 15 esquetes cômicos sobre situações do cotidiano, que abrem janelas para conteúdo de profissionais da área da saúde. Em episódios com títulos como “Furacão emocional”, “Secas e molhadas”, “Amigas da libi” e “Caliente”, Julieta protagoniza uma personagem caricata para explicar questões fisiológicas, personifica hormônios e mostra como a menopausa afeta as relações não apenas pessoais, mas no trabalho. “Palhaçada é um tipo de humor que não aponta e ri da situação do outro. Eu estou me colocando como alvo da risada, essas coisas acontecem comigo e as pessoas se identificam”, define a atriz, que se prepara para lançar um curta metragem sobre o tema, já sendo exibido em festivais.

@diariomenopausa

SÂMARA IRUMÉ, psicóloga 26,4 mil seguidores

Ao rolar o feed da psicóloga Sâmara Irumé, logo aparecem a atriz americana Gwyneth Paltrow relatando seu encantamento com os 50 anos, uma informação sobre unhas quebradiças (sabia que é um sintoma desconhecido da menopausa?), outra sobre como equilibrar os batimentos cardíacos em uma crise de pânico, um estudo mostrando que 59% das mulheres entre 44 e 60 anos saem sentindo-se não entendidas de suas consultas médicas e ainda memes divertidos e lives. Sâmara tem 50 anos, uma formação em Harvard, mora no Canadá, adora andar de bicicleta, correr, fazer ioga e estranhou muito quando engordou e não queria mais largar os cobertores, aos 45 anos. “Passei perrengues, mergulhei nos estudos e saí apaixonada por essa fase. Entendi que sofrer na menopausa não é normal”, garante. Foi em uma das madrugadas acordada por causa dos calorões que surgiu a ideia da mídia social: “Me sentei na cama e pensei que ninguém precisa passar por isso! Dedico ao menos uma hora para conversar com as mulheres que me procuram no direct. Há o luto do envelhecimento, medo de não ser mais ela mesma, de se olhar no espelho”. O perfil vai além de questões sobre hormônios e entra na área da psicologia, mostrando o que os sintomas estão comunicando. “Aos 45, 50 anos, estamos no nosso ápice de maturidade, nossa potência cognitiva. A sociedade precisa cuidar dessas mulheres.”

GESTÃO E CARREIRA

O QUE FAZER QUANDO O TRABALHO PREJUDICA O SEU BEM-ESTAR

Especialistas apontam os sinais de esgotamento relacionados à vida profissional e sugerem estratégias para lidar com isso

Independentemente do tipo de trabalho que você faz, em algum momento da vida ele pode afetar sua saúde mental e vice-versa. Mas você tem escolhas quando se trata de preservar e melhorar seu bem-estar.

Uma pesquisa com mais de cinco mil funcionários realizada pelo grupo de defesa Mental Health América descobriu que 83% dos entrevistados se sentiam emocionalmente esgotados pelo trabalho, e 71% concordavam que o ambiente profissional afetava sua saúde mental. Embora os participantes do estudo não sejam representativos da população em geral – eles provavelmente se depararam com a pesquisa ao procurar ajuda da organização de saúde mental -, suas respostas mostram o quão ansiosos alguns trabalhadores estão.

Mulheres e pessoas negras podem enfrentar uma quantidade desproporcional de estresse tanto no local de trabalho quanto fora dele. De acordo com dados do governo americano, as mulheres são pelo menos duas vezes mais propensas a ter depressão do que os homens. Já os negros têm menos chances de receber tratamento para depressão ou medicamentos prescritos para saúde mental do que os brancos não latinos. Um relatório de 2020 da Lean In e da McKinsey & Company observou que as mulheres negras também recebem menos apoio necessário para avançar no seu campo de trabalho do que as brancas.

Pode ser benéfico para todos nós estarmos atentos a sinais de que podemos precisar fazer mudanças no trabalho ou obter ajuda profissional, dizem os especialistas. Por isso, aqui vão orientações para equacionar saúde mental e vida profissional:

AVALIE SEUS SENTIMENTOS

“Todo mundo tem alguma consciência de seu funcionamento básico no emprego”, afirma Jessi Gold, psiquiatra da Universidade de Washington em St. Louis.

Então, se você começar a perceber que está perdendo o interesse em seu emprego ou sua produtividade despencou, é uma indicação de que algo está errado.

Você pode perceber, por exemplo, que tem medo de começar a trabalhar todos os dias ou que se sente tão ansioso que tem dificuldade em pensar em tudo o que deveria fazer. Talvez seus e-mails estejam se acumulando e você não esteja se comunicando com as pessoas tanto quanto faria normalmente. Se você está se sentindo ineficaz no trabalho, também pode começara se envolver em uma conversa interna mais negativa, como “eu não sou bom no meu trabalho de qualquer maneira. Sou um inútil”, explica a psiquiatra.

Um sinal de alerta ainda maior de que o trabalho está afetando sua saúde mental é se sua vida profissional afunda seu humor a ponto de começar a prejudicar seus relacionamentos pessoais. Por exemplo, você pode descobrir que está brigando mais com seu parceiro, ficando mais irritado com seus filhos ou evitando atividades sociais como normalmente não faria.

Pense no que pode estar causando esses sentimentos. Existe uma parte das suas responsabilidades de trabalho que está causando a maior parte dessa angústia? Você tem um problema de saúde subjacente, como depressão, que não foi tratado? É alguma combinação das duas coisas?

PROCURE APOIO

Quando perceber que precisa de ajuda, procure um amigo de confiança, mentor, colega de trabalho, grupo de colegas ou terapeuta, aconselha Inger Burnett-Zeigler, professora associada de psiquiatria e ciências comportamentais da Northwestern University Feinberg School of Medicine, que pesquisa a saúde mental das mulheres negras.

“(Este precisa ser um lugar) onde você pode se sentir visto, ouvido e validado, um lugar onde você pode ser totalmente autêntico sem medo de julgamento ou repercussões negativas”, acrescenta a especialista.

Muitos empregadores oferecem programas de assistência aos funcionários com uma variedade de serviços, incluindo aconselhamento de curto prazo de terapeutas ou referências a especialistas externos que podem ajudar com o problema específico que você está tendo. Esses serviços devem ser considerados confidenciais. Ainda assim, alguns funcionários podem se sentir desconfortáveis em usá-los.

Sua empresa também pode ter parcerias com outras organizações que oferecem palestras sobre bem-estar ou coaching de carreira gratuito. Vale a pena investigar todas as opções, de acordo com os especialistas.

“Os empregadores tornaram-se muito mais conscientes e francamente progressistas na forma como têm administrado e tratado questões de saúde mental nos últimos anos”, afirma Michael Thompson, presidente e executivo-chefe da National Alliance of Healthcare Purchaser Coalitions – “A pandemia realmente reforçou muito isso.

A organização de Thompson fez recentemente uma pesquisa online com 151 empregadores que oferecem serviços de saúde e descobriu que 72% estavam buscando melhorar o acesso à saúde mental de seus funcionários, e 16% estavam pensando em fazer isso nos próximos um ou dois anos.

DEFINA LIMITES

Depois de encontrar uma pessoa que possa ser fonte de apoio para ouvi-lo, juntos vocês podem começar a elaborar um plano para melhorar sua vida profissional e seu bem-estar emocional.

Pense no que você mais precisa: é algo maior como uma licença médica de curto prazo, ou já ajudaria ter mais flexibilidade em seu horário de trabalho, por exemplo? Ajudaria definir limites de quando e com que frequência você responde a mensagens profissionais?

Antes de abordar isso com seu supervisor, certifique-se de considerar como a solução proposta funcionaria no contexto de sua equipe, porque é isso que seu empregador também deseja saber. Em outras palavras, mostre como sua ideia beneficiará o grupo como um todo.

“Se você está realmente estressado e tem um problema de saúde mental com o qual está lutando, é muito difícil pensar na equipe de forma mais ampla”, avalia John Quelch, reitor da Miami Herbert Business School em Coral Gables, na Flórida, e coautor do livro “Gestão compassiva da saúde mental no local de trabalho moderno” (em tradução livre, inédito no Brasil).

Mesmo assim, Quelch acrescenta: “você tem que tentar entrar na cabeça do seu empregador”.

Durante a pandemia, os problemas de saúde mental se difundiram. Um relatório dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos concluiu que, em junho de 2020, 40% dos adultos do país estavam lutando com problemas de saúde mental ou uso abusivo de substâncias, como álcool.

Não há problema em ser aberto e admitir para si mesmo e para aqueles em quem confia que está enfrentando dificuldades, diz Paul Gionfriddo, presidente e executivo-chefe da Mental Health América. Ele acrescenta:

“A maioria dos bons empregadores vai perguntar: “O que posso fazer para ajudar?” Você também pode decidir manter suas preocupações na esfera privada e abordá-las apenas com seu terapeuta, e tudo bem também. Mas criar limites de trabalho saudáveis é vital, dizem os especialistas.

“Lembre-se de que você é um ser humano digno e valioso, separado de sua função de trabalho, produtividade e até mesmo como você pode ser avaliado por outros. Quando sentimentos de dúvida e não pertencimento aparecerem, não perca de vista os talentos e ideias singulares que você traz para o local de trabalho”, diz Burnett-Zeigler.

BUSCA EXTERNA

Mas digamos que todos seus esforços para lidar com seu bem-estar emocional em seu trabalho fracassaram ou que o ambiente de trabalho se tornou verdadeiramente tóxico.

Nesse caso, disseram os especialistas, é melhor, provavelmente, começar a procurar outro emprego, especialmente se você se tornou alvo de ridicularização, ameaças ou comentários abusivos de um superior.

É ilegal que um empregador o discrimine simplesmente porque você tem problemas de saúde mental. Segundo a Comissão de Oportunidades Iguais de Emprego dos EUA, se você tiver uma condição qualificada como depressão ou transtorno de estresse pós-traumático, você tem o direito legal a uma estrutura razoável que o ajude a fazer seu trabalho — por exemplo, ter a possibilidade de agendar compromissos como ir à terapia ou ao médico, um escritório tranquilo ou permissão para trabalhar em casa.

“O que precisamos fazer é reconhecer que a ansiedade é real, a depressão é real”, afirma Paul Gionfriddo

“A pandemia está sendo um momento muito bom para as pessoas fazerem essa avaliação pessoal, porque sempre há oportunidades de encontrar trabalhos mais significativos por aí.

EU ACHO …

O VERBO AMOR

Encontrar um amor que valha a pena parece cada vez mais difícil. A sensação é de que as relações estão rasas e as pessoas, sem responsabilidade afetiva. Exaustos e frustrados, tendemos a colocar a culpa nos tais tempos líquidos e na volatilidade dos ex-possíveis futuros parceiros.

E se eu te disser que parte dos problemas amorosos vem de uma questão semântica? Talvez o mal-estar dessa nossa civilização se dê porque ainda encaramos o amor como substantivo e não como verbo. A maioria de nós caiu na lavagem cerebral das narrativas de Shakespeare à Hollywood, que nos ensinam que o amor é esse sentimento arrebatador, que simplesmente acontece. Por mais que a gente saiba que o “felizes pra sempre” é um conto de fadas, a maioria de nós ainda romantiza esse feitiço do amor. Justificamos ficar em relações tóxicas ou totalmente projetadas porque esse amor “é mais forte do que a gente” e queremos conexões intensas para que possamos abrir mão da intensidade de nossa vida a um. Mas, paradoxalmente, em tempos em que ser emocionada virou adjetivo pejorativo, esperamos amores intensos, mas não somos capazes de dar passos concretos para a construção das relações. Cada vez menos gente abre a agenda ou o coração para o outro.

Para que possamos ter o amor que tanto queremos, precisamos entender que amor é mais verbo que substantivo. É mais sobre fazer do que sobre sentir. Erich Fromm, psicanalista alemão, diz que “o amor é o que o amor faz. Uma intenção e uma ação. A vontade também implica uma escolha. Nós não temos que amar. Escolhemos amar”. O amor verbo é um amor que age em prol da relação e de si.

Entender o amor ação faz com que tenhamos de nos desarmar. Precisaremos apostar e investir na construção do vínculo, de forma concreta. Faz também com que tenhamos que nos despedir dos lindos amores projetados, em que nos apegamos à possibilidade de que um dia as coisas mudem. Se a pessoa não está fazendo por você, não há amor possível. Sei que dá medo de desromantizar o amor emoção, mas o amor verbo traz consigo uma magia maior: ele nos faz agentes do amor que queremos. Diz se esse amor verbo não é emocionante?

CAROL TILKIAN é comunicadora e pesquisadora de amor e relacionamentos e psicanalista em formação. Fundadora do Amores Possíveis, canal que aborda o fazer do amor em todos os âmbitos de nossas vidas

ESTAR BEM

DIETA CETOGÊNICA

Novos estudos mostram que o regime melhora Alzheimer

Rica em gordura e pobre em carboidratos e proteínas. A dieta cetogênica tem ganhado adeptos especialmente entre celebridades que buscam perder peso. A estratégia pode de fato ser bem-sucedida, porém cada vez mais estudos destacam que o aspecto neuroprotetor da dieta, com impactos positivos para a cognição e o controle de doenças que afetam o cérebro, é o verdadeiro potencial por trás da rotina alimentar. Mas afinal, o que é a dieta cetogênica e para quais objetivos ela funciona?

O endocrinologista e nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), explica que essa forma de alimentação consiste em limitar a ingestão diária de carboidratos a uma quantidade entre 20 e 50 gramas. É uma versão mais restrita da dieta low carb, que permite até cerca de 130 gramas. O resto é preenchido pelas “gorduras boas”. Isso estimula de forma recorrente um processo metabólico no corpo chamado de cetose, que acontece quando o organismo utiliza a gordura como fonte de energia.

“Quando não há quantidade suficiente de glicose, que é a principal fonte de energia do organismo, o corpo passa a utilizar a gordura como fonte. Esse é um processo natural, mas a dieta cetogênica busca estimular esse mecanismo. Então o corpo passa a utilizar mais corpos cetônicos, resultado da destruição das células de gordura, do que glicose para funcionar”, diz o especialista.

Esse mecanismo, de estímulo ao uso da gordura como fonte principal de energia, é o que leva à ideia de que ela acelera o processo de perda de peso, embora ainda não existam muitas evidências sobre a eficácia real para o emagrecimento. Por outro lado, porém, os aspectos positivos para a cognição já são contemplados por um amplo número de estudos.

Em uma revisão publicada no periódico European Journal of Clinical Nutrition, pesquisadores destacaram que “as dietas cetogênicas são comumente consideradas uma ferramenta útil para o controle de peso”, mas chamaram atenção para os “cenários novos e empolgantes” sobre o uso para “doenças cardiovasculares e neurológicas”.

Esse potencial não é à toa, afinal a alimentação foi pensada inicialmente para atuarem quadros de epilepsia em crianças. Um estudo, publicado na revista científica The Lancet Neurology, avaliou a capacidade de controlar, por meio da dieta cetogênica, as convulsões em crianças epilépticas com resistência a medicamentos. Ao final de três meses, aquelas que passaram pela mudança na alimentação tiveram uma redução de, em média, 75% nas convulsões. Para 7% dos que adotaram a dieta, a diminuição chegou a ser de 90%.

“O cérebro é muito metabolicamente ativo, então ele consome muito açúcar. Mas a dieta permite trocar a glicose pelos corpos cetônicos, o que o órgão metaboliza melhor. Os estudos mostram que a dieta oferece uma série de benefícios para a melhora da cognição no geral, além da epilepsia”, conta o médico endocrinologista Fabiano Serfaty.

Uma revisão de 63 estudos publicados entre 2004 e 2019, conduzida por pesquisadores da Universidade de Deusto, na Espanha, buscou descobrir se o mesmo mecanismo que ajudou a controlar as convulsões poderia melhorar as habilidades cognitivas de pacientes com Alzheimer, Parkinson e diabetes tipo 1, além da própria epilepsia refratária, já que as doenças compartilham semelhanças, como o estresse oxidativo e a neuroinflamação. Na revisão, publicada na revista científica Nutrition Reviews, eles escrevem que a dieta foi de fato associada a uma preservação das funções cognitivas.

“Incentivar a pesquisa sobre benefícios cognitivos [da dieta] pode nos fornecer uma ferramenta poderosa para melhorar a qualidade de vida desses indivíduos”, escreveram os pesquisadores.

Em outro estudo, pesquisadores da Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos, analisaram 14 idosos com comprometimento cognitivo leve, em que parte adotou a dieta cetogênica. Os benefícios foram modestos, mas mensuráveis em testes de memória.

“Se pudermos confirmar essas descobertas preliminares, o uso de mudanças na dieta para mitigar a perda cognitiva na demência em estágio inicial seria um divisor de águas. É algo que mais de 400 medicamentos experimentais não foram capazes de fazer”, explicou o professor de psiquiatria e neurologia da universidade e autor do estudo, Jason Brandt.

ACOMPANHAMENTO

Os especialistas destacam que, por envolver uma mudança drástica no funcionamento do organismo, a dieta cetogênica demanda orientação de um profissional médico ou de nutrição.  

“O grande desafio da dieta cetogênica é você começar e manter, porque envolve uma mudança grande no estilo de vida”, destaca Serfaty.

A dieta pode levar a alguns efeitos colaterais no início, como fadiga, dores de cabeça, alterações de humor e mau hálito, que podem durar dias ou semanas. Pode até ser necessária a suplementação para evitar desnutrição.

Mulheres grávidas, pessoas com transtornos alimentares ou com histórico de problemas renais, de fígado e alterações cardiovasculares devem evitar a dieta.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO MANTER A SINTONIA E O DIÁLOGO COM UM FILHO ADOLESCENTE

Especialistas ensinam formas de aproximar a família, como ser curioso em relação aos interesses deles e acatar sugestões de lazer

Quando a pandemia de Covid começou, o filho de Antoinette Taft, Noah, que tinha 12 anos na época, desapareceu em um mundo de telas. Ele chegava a ficar 17 horas por dia jogando videogame, sozinho no quarto. O garoto evitava as tarefas de casa e trabalhos escolares. Quando a mãe tentou argumentar, ele bateu portas e gritou.

Taft e Noah já tiveram um vínculo forte, mas quando a pandemia começou ela “não conseguiu falar com ele”, reconhece. Para muitos pais, manter uma conexão emocional com um adolescente nesse período não foi algo fácil. E as raízes dessa desconexão podem estar nas batalhas emocionais das crianças.

Pesquisa dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) mostrou que mais de um terço dos estudantes do ensino médio dizem ter tido problemas de saúde mental durante a pandemia e 44% afirmaram sentir tristeza persistente ou desesperança, um aumento de quase 37% em relação a 2019. Ao mesmo tempo, estimativas sugerem que a quantidade média de tempo que os jovens passam na frente das telas pode ter dobrado.

Se aproximar de um adolescente nessas circunstâncias pode parecer impossível, mas fortalecer o vínculo emocional com seu filho ajuda a longo prazo. Relações parentais fortes estão ligadas a níveis mais altos de autocontrole em jovens, bem como a uma maior autoestima. A pesquisa também sugere que os adolescentes, geralmente, gostam e admiram os pais – e querem passar tempo com eles, mesmo enquanto estão dedicados a descobrir como ser mais independentes.

Especialistas compartilham estratégias simples para encontrar conexão com os jovens em casa:

DIMINUA AS EXPECTATIVAS

Quando um pré-adolescente ou adolescente é mal-humorado ou retraído, isso pode não ter apenas relação com a mudança dos hormônios. É normal que os jovens se afastem dos pais à medida que se desenvolvem. Pesquisas mostram até, por exemplo, que os cérebros dos adolescentes são programados para sintonizar vozes menos familiares em detrimento daquelas das suas mães.

“Cada adolescente está testando os limites da independência”, afirma Jessi Gold, psiquiatra da Universidade de Washington.

Com isso em mente, Julie Ross, diretora de uma organização de educação, considera que os pais devem moderar as expectativas sobre uma forte conexão durante essa fase. Sim, alguns adolescentes permanecem muito próximos, mas não é necessário ter conversas profundas e significativas para ter um relacionamento saudável e de confiança.

“Adolescentes não estão “em sincronia” com ninguém, nem mesmo com eles próprios na maior parte do tempo”, diz Ross. Ela incentiva os pais a se esforçarem para estar em sintonia com os filhos, o que muitas vezes pode ser feito observando a linguagem corporal ou a maneira como eles se conectam com os colegas.

Mas preste atenção às mudanças de humor ou comportamento, como alterações na escola ou diferenças nos padrões de alimentação e sono que duram semanas ou meses, o que pode ser indicativo de um problema maior, como depressão e ansiedade.

“Se eles estão se isolando completamente ou parecem muito zangados com todos, em geral, isso é um sinal de alerta”, afirma Gold.

DEMONSTRE INTERESSE

Ross acredita que a melhor maneira de construir uma conexão com os adolescentes é se aproximar por meio de seus interesses, numa “atitude de curiosidade”.

Quando um de seus filhos era adolescente e se interessava profundamente por jogos on-line, Ross conseguiu interagir fazendo perguntas sobre as estratégias do jogo. Mas muitos interesses banais podem oferecer oportunidades de conexão. Uma das clientes da especialista se aproximou de sua adolescente ao descobrir qual era a bebida favorita dela no Starbucks e entregá-la depois do treino de futebol.

A psiquiatra Katherine Ort defende que pode ser suficiente só assistir aos vídeos favoritos dos adolescentes no YouTube ou TikTok junto deles. Manter o foco das conversas nos interesses do seu filho pode ser particularmente útil se ele não for do tipo falador.

“Encorajá-los a falar sobre algo que é importante para eles pode fornecer muitas informações e conexões sem anunciar como: “gostaria de falar sobre X, Y e Z agora”, diz Ort.

FAÇA VALER A PENA

As estratégias que podem ser úteis para adultos que ficam muito tempo no celular também podem beneficiar os adolescentes, como reservar um período do dia para ficar longe de seus dispositivos. Dar o exemplo é importante, acrescenta Ort.

Se o objetivo não é só fazer com que o adolescente diminua o tempo na frente da tela, mas seduzi-lo a passar esse período, de boa vontade, com você, será preciso tornar a alternativa tão atraente quanto o dispositivo.

Para descobrir o que isso significa para o seu adolescente, façam um brainstorm com ele. Talvez seu filho queira jogar um jogo, passear com o cachorro ou experimentar um novo restaurante. O que importa é apresentar uma opção sem envolver a tela na qual ele tenha interesse genuíno.

TENTE NÃO JULGAR

A psicóloga Lisa Damour afirma que uma razão pela qual os adolescentes não falam com seus pais é temerem uma “reação errada”, especialmente se eles estão se abrindo sobre coisas como como ir mal na escola ou experimentar substâncias.

Claro, regras são essenciais e todos os pais às vezes julgarão seus filhos. Mas todos os especialistas entrevistados enfatizaram a importância de dar aos adolescentes uma chance de se abrir, sem que a barra fique suja.

“Os adolescentes virão mais até você se não sentirem que toda vez receberão uma palestra. Então, dê o seu melhor quando eles falarem com você, para validar suas emoções e não julgá-los”, sugere Gold.

Para Taft, ter 15 minutos por dia para que ela e Noah possam ter uma conversa aberta sobre o mundo dele – seja sobre algo grande, como um problema com amigos na escola ou sobre algum detalhe do universo dos videogame – ajudou a trazê-los de volta aos poucos.

OUTROS OLHARES

VOLTA DE MODAS DOS ANOS 2000 ESTIMULA DEBATE SOBRE MAGREZA EXTREMA

Especialistas dizem que o reaparecimento das peças pode ser um problema devido ao aumento dos transtornos alimentares

Vestir a calça saint tropez que deixa o umbigo de fora tem tirado o sono das adolescentes cada vez mais cedo. O retorno da cintura baixa e das microssaias dos anos 2000, assim como a tendência de extrema magreza entre as famosas, tem preocupado médicos e ativistas. A estudante Sabrina Menezes Santos, 15, comprou um modelo da calça, mas ainda não teve coragem de usar e até entrou na academia para melhorar o que viu no espelho.

“Não uso nada de cintura baixa, não consegui. Acho que o corpo não está bom, e que as pessoas vão ficar olhando e julgar. Não fiquei confortável”, conta. A adolescente tem IMC (índice de massa corporal) considerado saudável, mas diz que ser magra é assunto recorrente nas conversas com amigas e primas e que muitas delas também não gostam do próprio corpo.

A influenciadora Clara Cocozza, 17, viralizou quando fez um vídeo de humor com críticas que recebia sobre o próprio peso. “As pessoas sempre me criticaram por ser gorda e levei para redes sociais. Recebi muitos comentários de apoio e, naquela época, não era muito feliz comigo”, afirma.

Ela então começou a seguir influenciadoras do body positive, um movimento focado na aceitação de todos os corpos como são, e a se olhar com mais frequência no espelho. “Decidi me amar e deu certo. Menina gorda pode usar o que quiser, qualquer pessoa pode, é o padrão que nos impede de usar”, afirma Cocozza, que adora uma calça de cintura baixa e já fez três vídeos sobre este tipo de peça. A volta dos modelos dos anos 2000, somada à tendência de extrema magreza entre as celebridades aparece em um momento de alta dos transtornos alimentares. Estudos mostraram pioras nos sintomas de pacientes com distúrbios após a pandemia, e ambulatórios brasileiros observam aumento no número de atendimentos.

No interior e na capital de São Paulo, dois dos mais importantes centros de atendimento tiveram alta na procura por tratamentos de jovens. No Grata (Grupo de Assistência em Transtornos Alimentares), a idade média dos atendidos era entre 15 e 18 anos, mas agora há pacientes de 10 a 13 anos. O grupo multidisciplinar é vinculado ao ambulatório de nutrologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP (Universidade de São Paulo).

“Tem chegado mais casos e chamam a atenção por serem pessoas cada vez mais jovens, principalmente com anorexia nervosa, que é uma subnutrição grave e tem risco de morte”, afirma a médica Vivian Marques Miguel Suen, 57, professora de nutrologia e coordenadora do Grata. A fila de espera do ambulatório dobrou no último ano, saltando de 15 para 30. O grupo atende cerca de 15 pacientes por vez, apenas casos diagnosticados e mais extremos. O tratamento, quando bem-sucedido e sem abandono, leva em média de 3 a 5 anos.

O Ambulim (Programa de Transtornos Alimentares) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP da capital está com três turmas lotadas e teve um aumento na procura por tratamento para crianças.

A unidade tem hoje 2.116 questionários preenchidos no site aguardando avaliação médica para confirmação de transtorno alimentar.

Para Fábio Tapia Salzano, 53, médico psiquiatra e vice- coordenador do Ambulim, é preciso conscientizar mídias, agências de modelos e influenciadores. “São excessos na busca de uma magreza que na verdade é desnutrição”, diz. Suen afirma que os transtornos alimentares são multifatoriais e crônicos, mas geralmente começam depois de um episódio de bullying na escola ou de ver o padrão de beleza magro nas redes sociais. “Quando chega ao diagnóstico de anorexia e bulimia, o tratamento é muito difícil, um único profissional não trata sozinho. Muitas vezes é preciso tratar a família, não só o paciente”, explicou Suen. A terapia, nesses casos, envolve psicólogo, psiquiatra, terapeuta ocupacional, nutricionista e nutrólogo.

As redes sociais podem indicar o início do problema, uma vez que jovens com distúrbios alimentares trocam informações sobre como perder peso vomitando ou tomando remédios, e como evitar questionamentos dos pais online. “Comida tem muito a ver com afeto. Se no dia a dia o filho passa a pular alimentação, come em quantidade menor e tem muitas idas ao banheiro após as refeições, esses podem ser os primeiro sinais e é importante entrar com ajuda terapêutica”, afirma Patrícia Capuani, terapeuta familiar e diretora do socioemocional do Colégio Novo em Ribeirão Preto.

A modelo e ativista Lettícia Muniz, 32, foi adolescente nos anos 2000 e chegou a desenvolver bulimia para ficar magra e ter uma carreira na TV. “Não existia ninguém falando sobre corpo. Se ligasse qualquer canal, todo mundo era magra, todas as revistas mostravam para gente que só aquilo era o certo”, conta. Aos 28 anos, já no Instagram, Muniz viu uma mulher acima do peso que achou linda – a modelo norte-americana plus size Ashley Graham. “Essa mulher postou uma foto simplesmente existindo e sendo feliz e me libertou de uma prisão de 18 anos. Minha mente explodiu e vi que não precisava mais lutar contra quem eu era.”

Para a ativista, que lançou uma coleção para pessoas grandes em parceria com a marca Vista Magalu, permitir que mulheres de variadas formas corporais acessem diversos tipos de roupa faz toda a diferença. “A moda é feita por pessoas magras e para pessoas magras. A mulher está ali naquele caminho de se amar, se aceitar e vem esse movimento que diz: “não é para você’”, aponta Muniz.

GESTÃO E CARREIRA

RECRUTAMENTO DE EXECUTIVOS BATE RECORDE

Número de admissões cresceu 62% no primeiro semestre, indica pesquisa, com retorno do trabalho presencial e troca de profissionais que haviam sido contratados na pandemia

O mercado de recrutamento de altos executivos encerrou o primeiro semestre em ebulição e com as consultorias especializadas em garimpar esses profissionais atingindo volume recorde de trabalho. É que a dança de cadeiras nos postos mais elevados das corporações se intensificou com o arrefecimento da pandemia e a volta das atividades presenciais.

A maior parte do aumento das movimentações no alto escalão se deve a trocas nos quadros adiadas pela covid-19 e a projetos interrompidos e, agora, retomados. Mas uma parcela do aumento das contratações ocorre também por causa do fim da “lua de mel” entre empresas e executivos – no caso daqueles que trocaram de emprego no auge da pandemia e, sem conhecer as equipes, não conseguiram liderá-las remotamente.

Pesquisa da consultoria americana Signium, especializada na contratação de alto escalão (o chamado C-Level, no jargão do mercado), mostrou crescimento de 62% no número de admissões no primeiro semestre ante o mesmo período de 2021. As contratações foram feitas por multinacionais e grandes empresas nacionais.

Do total de admissões, 80% foram motivadas por substituições e, destas, 32% dizem respeito a movimentações de profissionais que tinham mudado de emprego na pandemia e não deram certo. “É um número considerável”, diz Eduardo Drummond, sócio da Signium.

Ele ressalta que, para esses cargos, o principal requisito é a capacidade de influenciar e gerenciar pessoas. E, se o executivo não consegue fazer isso a distância, é difícil mantê-lo na empresa.

“Alguns executivos mudaram na pandemia e perceberam que o novo emprego não era o que esperavam. Agora, estão fazendo um novo movimento”, diz Tiago Salomão, sócio sênior da Korn Ferry, outra importante consultoria.

FUSÕES

Além da retomada de projetos – o principal fator –, Salomão diz que as fusões entre empresas têm levado a mudanças na governança e exigido novas contratações.

Entre fevereiro e abril, por exemplo, a Korn Ferry teve crescimento de 22% na receita global com serviços de recrutamento de executivos, presidentes e membros de conselhos ante os mesmos meses de 2021. “Foi o melhor trimestre da história globalmente, regionalmente e localmente.”

Também a Page Executive, especializada em alto escalão, ampliou em 135% a receita no País no primeiro semestre em relação a igual período de 2021. “Parece um número absurdo, mas é histórico, é real”, diz Paulo Dias, sócio da Page. Os cargos mais demandados foram diretor financeiro, presidente, diretor comercial, diretor de negócios, diretor de operações e conselheiros.

EU ACHO …

O NOVO RISCO DE RIR

Tudo foi transformado de forma radical. Em poucos anos, nossas referências sofreram metamorfose profunda. É natural que o humor acompanhasse o ritmo. Não rimos mais das mesmas coisas.

A minha infância transcorreu no interior da classe média gaúcha. As piadas na escola eram, quase sempre, preconceituosas. Achávamos natural rir do que percebíamos diferente. Nem posso dizer que éramos politicamente incorretos, pois, na verdade, nem sabíamos que poderia existir uma correção. Repetíamos o mundo ao nosso redor. Meu pai era um zeloso católico e muito sensível às necessidades das pessoas. Não obstante, quando dizia piadas, dr. Renato era o modelo daquilo que, hoje, seria a base para um cancelamento total. Talvez sofresse processo em 2022. O que houve?

Eu sou a geração de borda. Vivi um mundo e vi o nascimento de outro. Cresci com piadas incorretas e humor que não poupava a diferença e, atualmente, respiro o ar do novo mundo. Claro: dei “foras” em função da minha adaptação. Funciona como a mudança de nomenclatura de estudos: você disse “Primário” por tanto tempo que a “primeira etapa do Ensino Fundamental” fica estranha. A metáfora tem limites: não há ofensa se eu trocar Ensino Médio por Segundo Grau.

Novos tempos implicam desafios para um humor. Imagine uma piada que não inclua portugueses, loiras, negros, indígenas, gays ou judeus. Suponha um humor que não ofenda. Conseguiu? Muito difícil, querida leitora e estimado leitor.

É importante lembrar que as vítimas de piadas sexistas, racistas ou homofóbicas dificilmente lamentam a transformação da nossa sensibilidade. Propagandas “vintage” são assustadoras no preconceito. Há uma imagem das gravatas Van Heusen em que um homem está na cama, e uma mulher ajoelhada lhe traz o café da manhã. A chamada insiste: ele deve mostrar a ela que este é um mundo dos homens. Há material publicitário de automóveis falando do preço baixo dos consertos de lataria porque, afinal, mulheres também dirigem. É um show de horrores que hoje causaria filas de protestos nas concessionárias. Um dia, no entanto, já ajudou a vender.

Reforço o desafio. Encontre (e treine) piadas não ofensivas. O esforço ajudará na sociabilidade; tende a diminuir problemas. Se precisar rir de alguém, ironize a si.

Moacyr Scliar, por exemplo, era brilhante em buscar o melhor do humor judaico. Se o custo de causar graça passageira for arrasar com a autoestima de alguém de um grupo, a decisão racional você sabe qual é. O palhaço deveria causar graça em toda a plateia, não apenas no público branco, hétero e masculino. É uma escolha errada de mercado fazer rir meia dúzia e ofender quase todos. Tenha esperança na graça coletiva.

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

PORQUE É IMPORTANTE CONTROLAR A QUANTIDADE DE SAL NAS REFEIÇÕES

Brasileiro ultrapassa muito a quantidade de sódio indicada pela OMS; tirar o saleiro da mesa é o primeiro passo para mudar hábitos

Mineral essencial para o funcionamento do corpo, o sódio contribui para o equilíbrio dos líquidos no nosso organismo, com participação em centenas de funções fisiológicas, como musculares e neurais – e só é possível obtê-lo por fontes externas, ou seja, pela alimentação, principalmente pelo sal de cozinha (cloreto de sódio). Mas, quando consumido em excesso, prejudica a saúde, muitas vezes de forma sorrateira, levando a problemas que podem culminar em enfarte ou acidente vascular cerebral (AVC).

“Estima-se que mais de 46 mil mortes ao ano por doenças cardiovasculares poderiam ser prevenidas ou adiadas caso a ingestão média de sal dos brasileiros fosse reduzida a 5 gramas por dia em adultos de mais de 30 anos”, diz a cardiologista Salete Nacif, do HCor, hospital referência em cardiologia, em São Paulo (SP). O brasileiro, de forma geral, extrapola esse limite: consome 9,3 gramas por dia, quase o dobro recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2013, realizada pelo Ministério da Saúde.

O levantamento indicou consumo elevado em todas as faixas etárias e níveis de escolaridade, embora o excesso seja maior em homens e mais jovens. Esse comportamento alimentar é um fator importante para a alta prevalência de hipertensão (pressão alta), doença crônica que atinge cerca de 30% dos brasileiros, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

Um estudo publicado este mês no European Heart Journal revelou que aqueles que sempre adicionam sal às refeições correm um risco 2.8% maior de morte prematura do que aqueles que raramente o fazem.

Pelo bem de sua saúde, o engenheiro Guilherme Rabello, de 53 anos, deixou de lado o biscoito, o fast-food e a feijoada, para encher o prato de legumes – com pouco sal -escolhidos no bufê do restaurante na hora do almoço. Resolveu mudar após uma arritmia cardíaca nas férias de 2018. Ele estava a bordo de um navio, no Caribe, e precisou desembarcar em uma ilha para receber atendimento médico, por estar com 180 batimentos por minuto.

“Meu coração quase saiu pela boca”, conta. Os exames não indicaram nenhuma doença, mas a cardiologista recomendou mudanças no estilo de vida, como a prática de exercícios físicos frequentes e alimentação com pouco sódio. “Sou cuidadoso, pois tenho histórico de pressão alta na família e quero reduzir o meu risco de ter problemas de saúde”, diz ele, que nunca mais apresentou arritmia.

Quando consumimos muito sódio, o corpo trabalha para retirar o excesso do corpo e buscar o seu equilíbrio de líquidos corporais. “Se uma pessoa come muito churrasco, sente sede, bebe mais líquido e elimina o excesso de sódio ao urinar mais. Mas, a longo prazo, isso pode sobrecarregar os rins e o coração. Uma pessoa que consome muito sal pode ficar com pressão alta, que lesa os rins, em um círculo vicioso”, explica o nefrologista Osvaldo Merege Vieira Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN).

As principais fontes de sódio na dieta do brasileiro são o sal adicionado diretamente nos pratos e os temperos à base de sal usados para preparar os alimentos (74,4%) e o consumo de alimentos processados e ultraprocessados (20%), segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2008-2009), realizada pelo IBGE. Por isso, a primeira recomendação é tirar o saleiro da mesa de jantar.

“A tendência das pessoas é pôr mais sal se ele estiver ao alcance”, alerta a nutricionista Cintia Pereira da Silva, pesquisadora da Faculdade de Saúde Pública da USP.

DE OLHO NO RÓTULO

Não basta controlar a adição de sal no preparo dos alimentos, mas também restringir o consumo de alimentos processados e ultraprocessados, que recebem na indústria aditivos (como sódio) para serem conservados por mais tempo ou para ficarem mais agradáveis ao paladar. “É preciso educar o olhar na hora de escolher um produto no supermercado e fazer boas escolhas”.

Em outubro, entram em vigor novas regras de rotulagem nutricional de alimentos. Uma das mudanças é a inclusão do selo frontal que indica alto teor de gordura saturada, açúcar adicionado ou sódio. No caso dos alimentos sólidos ou semissólidos, o selo será acrescentado quando uma porção de 100 gramas tiver mais de 600 gramas de sódio. Nos líquidos, a sinalização será obrigatória quando houver mais de 300 gramas de sódio em 100 mililitros do alimento.

“O consumidor está mudando de comportamento e quer entender o que consome”, diz Cintia. Ela estudou a rotulagem nutricional adotada no Chile, que desde 2016 alerta para o excesso de sódio, açúcar e gordura nos produtos alimentícios.

Ela acha que o selo frontal será importante para que as pessoas descubram que alguns produtos alimentícios não são saudáveis como parecem. Mas alerta que não basca evitar os alimentos sinalizados. “Não quer dizer que o alimento que não tem o selo está isento de sódio e pode ser consumido à vontade. Essa visão binária é um risco.”

Embora sejam práticos, alimentos enlatados, embutidos e refeições prontas industrializadas devem ser consumidos com parcimónia, reforça a nutricionista Fernanda Sardella. “Nossa alimentação deve se basear em frutas, legumes e verduras”, orienta. E recomenda caprichar no uso de temperos naturais na hora de cozinhar como forma de reduzir o consumo de sal sem perder o sabor. “Quando adotamos alho, cebola, gengibre, alecrim e outros temperos, sejam eles frescos ou desidratados, reduzimos a quantidade de sal e garantimos o sabor.”

A cozinheira Betricia Daniela Barg, de 46 anos, proprietária da Cuca Fresca Gastronomia, garante que passa longe do tempero artificial. “Um alimento industrializado contém muitos conservantes, aditivos químicos e o sódio é um inimigo da saúde. Não dá para comparar uma lasanha industrializada

com uma feita em casa. “Ela mesma foge dos produtos alimentícios processados e vê a diferença na saúde. “Quando me alimento com ingredientes frescos, meu organismo responde bem. Percebo melhora em tudo, do humor ao intestino.”

MODERE O CONSUMO

HÁBITOS

Tente educar o seu paladar e diminuir, aos poucos, a adição de sal nas refeições. Tire o saleiro da mesa, para dificultar o ato de salgar (muitas vezes automaticamente) a refeição.

CARDÁPIO

Evite o consumo de alimentos ultraprocessados. Refeições industrializadas prontas, embutidos (presunto, mortadela, salame, etc.), enlatados, bolachas doces e salgadas, molhos prontos (maionese, mostarda, ketchup, shoyu), salgadinhos, macarrão instantâneo costumam ter muito sódio.

RÓTULOS

A nova rotulagem, a partir de outubro, vai indicar os alimentos com alto teor de sódio, que devem ser evitados, mas isso não quer dizer que os alimentos que não têm podem ser consumidos à vontade. Portanto, é importante procurar no rótulo a quantidade de sódio presente no produto alimentício para ter uma ideia da quantidade ingerida.

PREPARO

Cozinhar sem sal e salgar na hora de servir pode ser uma boa estratégia, pois o alimento absorve menos sal. Abuse dos temperos naturais para dar sabor aos pratos, em vez de exagerar no sal.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS SOLITÁRIOS

Em meio a epidemia de solidão, homens de meia-idade sofrem mais

O jornalista americano Billy Baker havia acabado de fazer 40 anos, era casado e tinha dois filhos pequenos quando seu editor disse que tinha uma pauta “perfeita para ele”: uma reportagem sobre o fato de homens de meia-idade não terem amigos. Foi um choque. Billy sempre se considerou um cara extrovertido, com vários amigos, uma vida bacana. Não se sentia um solitário. Mas descobriu que sim, ele era.

“Eu nunca me senti sozinho. Eu tinha amigos, mas não tinha tempo para eles. Sentia que algo faltava na minha vida, mas não sabia o que era. Não pensava “poxa, preciso de tempo com meus amigos”, era algo que eu deixava para depois que as coisas importantes fossem resolvidas, como trabalho, família, atividade física… Mas isso nunca é resolvido. E só então entendi que amizade é também uma coisa importante”, afirma.

Billy escreveu a reportagem “Precisamos nos ver mais”, que acabou fazendo tanto sucesso que gerou um livro, publicado no Brasil pela editora Sextante. O motivo por trás de tantas pessoas se identificarem com o jornalista é simples: o mundo vive uma epidemia de solidão.

Uma pesquisa de 2019 apontou que 61% dos americanos são comprovadamente solitários, porcentagem que havia crescido sete pontos de um ano para outro —antes dos impactos da pandemia. Outro grande estudo, conduzido pela AARP (uma ONG focada em pessoas com mais de 50 anos), mostrou que mais de 42 milhões de americanos acima dos 45 anos sofrem de “solidão crônica”. E isso não é um fenômeno exclusivo dos Estados Unidos.

Mas se Billy e tantos outros solitários não têm consciência disso, qual o problema? A questão é que, mesmo quando não sabemos que estamos sós, nosso corpo sabe. Pesquisa da Universidade Brigham Young, que usou dados de 3,5 milhões de pessoas coletados ao longo de 35 anos, descobriu que indivíduos solitários têm um aumento de 32% no risco de morte prematura.

Pesquisadores vinculados à Associação Americana do Coração constataram que o isolamento social e a solidão elevam o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC) em até 30%. Isso sem falar em todas as perdas cognitivas e de saúde mental daqueles que não podem contar com outras pessoas.

MASCULINIDADES

Em suas pesquisas para o livro, o jornalista descobriu que o gênero faz diferença.

“Eu sou um cara e nunca admitimos quando estamos vulneráveis e as coisas não vão bem. Eu não teria admitido se não fosse meu editor. As mulheres são mais bem equipadas como animais sociais, têm compaixão natural, e quando o estresse acontece os mesmos químicos que levam um homem à resposta de luta ou fuga levam as mulheres a procurar outras pessoas, formar uma rede. Homens falam ombro a ombro e mulheres falam olho no olho. Mas há erros culturais também”, afirma. Para o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral, que coordena um grupo terapêutico de homens, o problema maior está, justamente, nesses erros culturais.

“A sensação de conexão com o outro acontece quando o encontro não passa só pelo relato racional, pela troca de dados, as conquistas, os números, os projetos. Para que uma pessoa possa se sentir acompanhada, ela precisa se sentir vista e, para isso, precisa falar de si. É muito comum que os homens tenham poucas relações efetivas em que há, realmente, esse nível de entrega e intimidade. Essa conexão com o outro, em geral, os homens têm pouco”, avalia Amaral.

Isso não vale para todos os homens, segundo o psicólogo. É uma questão muito mais presente nos héteros, que às vezes só se abrem mesmo com a mulher:

“Para o homem gay, essa dinâmica é diferente, porque a entrega da intimidade tem a ver com nosso lado mais feminino. O que barra isso no homem heteronormativo é que ele não pode mostrar o que não servir como vantagem competitiva. Ele só mostra o que o coloca no pódio da sociedade. Essa intimidade, que constrói o contrário da solidão, só se desenvolve numa perspectiva mais colaborativa da vida. É o oposto da competição: não preciso fazer tudo sozinho, posso ajudar e ser ajudado, posso falhar e reconhecer o direito do outro de ter falhas”, analisa o psicólogo.

O impacto dessa forma de relacionamento preocupa Amaral. De acordo com ele, essa armadura impede que os homens se conectem com suas dores e desenvolvam questões de saúde física que, no fundo, têm “gênese emocional”.

RECRIANDO LAÇOS

Billy Baker empreende, então, uma jornada em busca da amizade. Vive um fracasso total quando tenta retomar relações do ensino médio. Atravessa o Atlântico para tentar se reconectar com o melhor amigo que, surpresa, já nem morava mais nos Estados Unidos e ele não sabia. Mas, sobretudo, aprende a fazer novas conexões.

“O primeiro passo foi reconhecer que precisava melhorar nesse aspecto. A cura da solidão é a amizade. E para isso é preciso experimentar estratégias. Eu tentei coisas que deram errado, como reunir a turma da escola. O passado é legal de visitar, mas você não vive nele. É preciso fazer amigos na comunidade em que está agora. Outra coisa é se colocar numa posição mais vulnerável, como fazemos numa relação amorosa”, conta ele.

O jornalista considera que o caminho mais fácil é integrar ou criar uma tribo, que tenha algo em comum, como, digamos, boliche. As pessoas se encontram semanalmente, têm aquele gosto em comum, vão criando conexões até surgir uma amizade. Ele também aconselha que se olhe para o colega de trabalho, que está cotidianamente ao seu lado e pode se tornar um bom amigo. Outra estratégia do jornalista foi segmentar relações que, para ele, foram: a turma da academia, o grupo do pôquer nas noites de quarta, o amigo de surfe, outro de corrida e outro com quem faz um podcast.

Talvez uma das dicas mais importantes dele seja abandonar a passividade: é preciso propor, receber não, propor de novo e ser específico: trocar o “precisamos nos ver mais” por “vamos almoçar no sábado?”. Uma hora acontece.

“Se você botar um pouquinho de esforço nas amizades, vai ter um retorno enorme. Não é como comer vegetais ou treinar por horas. É o caminho mais fácil para ter saúde. As pessoas sociáveis são mais felizes e saudáveis”, conclui.

OUTROS OLHARES

COMO PREVENIR E SE LIVRAR DE INSETOS NA SUA COZINHA

Encontrá-los na despensa ou armário é angustiante, mas especialista dá dicas para eliminá-los e evitar que apareçam de novo

O mundo é dos insetos, a gente só vive nele. “Eu sei que as pessoas se assustam quando os veem”, diz Zachary DeVries, professor-assistente do Departamento de Entomologia da Universidade de Kentucky. “Mas a verdade é que construímos nossas casas bem no meio de onde vivem esses insetos.”

Talvez não haja lugar mais angustiante de encontrar insetos do que na sua despensa ou seu armário. Se isso acontecer, não entre em pânico. Siga essas dicas para se livrar deles e evitar que apareçam de novo.

COMO ELES CHEGAM LÁ?

Embora seja possível que pragas como traças e besouros já estejam nos itens que trazemos do supermercado para casa, DeVries afirma que a maioria aparece depois que a comida entra nos nossos armários. Os insetos que são atraídos pela sua comida podem estar lá dentro ou podem entrar por portas abertas, fendas ou rasgos de telas de janelas.

Embalagens parcialmente abertas, como sacos de farinha ou de biscoitos, são convites aos insetos, assim como caixas de papelão finas com vãos estreitos, como caixas de massas ou bolachas. Qualquer coisa que derrame ou vaze – mel e açúcar, por exemplo – também pode atraí-los.

O QUE ELES COMEM?

Algumas pragas conseguem penetrar no revestimento das sementes das plantas, razão pela qual os grãos integrais são particularmente atraentes para certas espécies, explica DeVries. Outros precisam que o grão esteja aberto, como em muitas farinhas refinadas, massas, biscoitos, cereais, bolachas, etc. Alimentos para cães e gatos e sementes de pássaros também são locais comuns de infestação.

“Dentro das casas, as formigas domésticas se alimentam de açúcar, xarope, mel, suco de frutas, gorduras e carne”, lembra a Divisão de Agricultura e Recursos Naturais da Universidade da Califórnia.

COMO VOCÊ PODE SE LIVRAR DESSES INSETOS?

Normalmente, quando você encontra traças ou besouros na despensa, o que você vê são os insetos adultos, ressalta DeVries. Quando há muitos deles, 10 ou 20, você provavelmente tem uma infestação.

Assim como eliminar o local de reprodução das moscas da fruta é a única maneira segura de eliminar essas pragas comuns, livrar-se da fonte é a chave para dizer adeus às traças e aos besouros. Separe sistematicamente todos os alimentos de sua despensa e abra os pacotes. Peneire grãos ou farinhas para detectar intrusos. Qualquer coisa que pareça estar fortemente infestada deve ser jogada fora. Muitas vezes, o dano é limitado a um ou dois itens, de acordo com DeVries.

Se quiser tentar resgatar itens – ou garantir que o que parece estar livre de pragas esteja limpo de fato –, você pode resfriá-los a 27 graus ou, idealmente, ainda mais frio, por três a sete dias; quanto mais tempo, melhor, informa a extensão de Illinois da Universidade de Illinois-Champaign. Ou você pode aquecer a comida a 140 graus em forno por uma hora, mas lembre-se de que a maioria dos fornos domésticos não consegue manter uma temperatura assim tão baixa.

Muito do mesmo conselho se aplica às formigas. Depois de encontrar o que está atraindo as formigas, ensina a Divisão de Agricultura e Recursos Naturais da Universidade da Califórnia, remova-o. Aspire as trilhas das formigas e limpe com água morna e sabão. Isso elimina os feromônios que os insetos seguem para voltar à fonte de alimento, esclarece DeVries.

Em seguida, tente encontrar e selar os pontos por onde elas estão entrando. Se persistirem, você pode usar isca para formigas em diversas for- mas, como gel, mas tente guardá-la para infestações graves. Se puder, use iscas do lado de fora, perto dos pontos de entrada, para não atrair inadvertidamente mais formigas para dentro.

O QUE VOCÊ NÃO PRECISA USAR?

Inseticidas, avisa DeVries. Inseticidas, especialmente em spray, perto de alimentos e superfícies de preparação de alimentos, representam um perigo maior para você do que as pragas da despensa – que são um incômodo, mas não um problema de saúde. Para as traças e os besouros que você encontrar, use um mata-moscas ou aspirador para eliminá-los ou expulsá-los porta afora.

COMO VOCÊ PODE PREVENIR QUE ELES APAREÇAM?

DeVries sugere uma abordagem de três frentes para a prevenção: rotatividade de alimentos, impedir a entrada de intrusos e recipientes rígidos. Primeiramente, use a comida de sua despensa em tempo hábil. Traças e besouros demoram um pouco para se instalar, então, se você estiver usando suas farinhas, massas e lanches ao longo de algumas semanas ou até meses, provavelmente vai ficar tudo bem. São os itens antigos, enfiados lá atrás da prateleira, intocados por muito tempo, que são particularmente problemáticos.

Separe periodicamente o que você tem para ver o que precisa ser usado ou jogado fora (ou compostado). Evite deixar abertas portas ou janelas sem telas. Remende telas rasgadas e sele frestas em torno de rodapés, portas e janelas.

Manter sua comida em recipientes herméticos é um passo “muito simples, muito fácil” que você pode tomar, alerta DeVries. Isso desencoraja as pragas, é claro, com o benefício colateral de manter sua comida fresca por mais tempo. Com recipientes ou não, se você notar que algo derramou, limpe imediatamente.

GESTÃO E CARREIRA

BUSCA POR RESULTADOS E DIFICULDADE DE ADAPTAÇÃO PUXAM TROCAS NAS EMPRESAS

Consultores dizem ainda que pandemia acelerou entre executivos o desejo de ter ‘identidade cultural’ com empresa

Mais da metade (60%) das trocas de executivos em postos de alto escalão registradas no primeiro semestre deste ano – independentemente dos motivos da mudança – ocorreu por iniciativa das empresas, que viram os resultados não serem atingidos, aponta pesquisa da consultoria americana Signium, especializada no recrutamento desses profissionais.

Do lado dos executivos, entre os principais motivos para querer trocar de emprego, apareceu a dificuldade de adaptação cultural, potencializada pelo fato de as equipes estarem trabalhando remotamente durante a pandemia, aponta Eduardo Drummond, sócio da consultoria.

Outra razão foi a divergência no modelo de trabalho desejado pelo executivo (presencial ou remoto) e o oferecido pela empresa, além da intenção do profissional de buscar companhias que tenham, cada vez mais, valores que ele considere alinhados com seus propósitos de vida – outra tendência que foi acentuada pela pandemia.

Essas razões foram comprovadas em recente levantamento feito pela consultoria com executivos contratados. A enquete mostrou que 43% deles indicaram a dificuldade de adaptação com a cultura da empresa como o motivo da mudança, seguido pelo modelo de trabalho híbrido ou home office (26%), escopo de trabalho (17%) e a remuneração (13%).

“As pessoas não estão saindo de uma empresa para ir para outra por causa de salário”, diz Drummond. O momento de parada forçada provocada pela pandemia fez com que as lideranças começassem a refletir sobre a identidade cultural com a empresa na qual trabalham e se os propósitos são coincidentes, se têm a mesma “pegada”, diz o consultor.

PROPÓSITO

Esse foi o caso de Eduardo Roveri, de 40 anos, formado em administração de empresas, com MBA em gestão de pessoas pela FGV, e que há 20 anos atua em altas posições na área de recursos humanos em grandes companhias.

Depois de 15 anos na área de bebidas, em 2019 ele foi trabalhar numa multinacional americana de empilhadeiras. Por lá, ficou até junho deste ano, quando voltou às origens. Roveri diz que estava feliz na empresa anterior, mas foi atraído para a nova pelo propósito. “Eu me conectei com a proposta da empresa.”

A multinacional europeia está há dez anos no Brasil e agora planeja uma fábrica no País. Será a primeira unidade de produção fora da Europa, e Roveri diz que o propósito da companhia é ser a marca mais amada, não a mais vendida. “Isso me chamou atenção e fez eu querer fazer parte dessa história.” O executivo conta que foi abordado por um headhunter e que aceitou passar por várias etapas de seleção antes mesmo de receber a proposta salarial, um pouco maior do que ele ganhava na antiga empresa. No entanto, essa informação só foi de seu conhecimento no estágio final das negociações. “O que pesou mais foi o propósito de construir uma marca que preza pela qualidade, com uma fábrica que usa muita tecnologia e voltada para a sustentabilidade.”

Há dois meses, o executivo está à frente desse novo desafio de construir do zero a área de recursos humanos da multinacional no Brasil. Ele é o número um da área no País e se reporta ao presidente da empresa no Brasil e na Europa. Roveri é um exemplo das mudanças de comportamento dos profissionais de alto escalão que ocorreram na pandemia. “A pandemia fez a gente refletir mais sobre nós mesmos, e muitas dessas reflexões levaram as pessoas a mudar de vida e de trabalho.”

EU ACHO …

FEMINIZAÇÃO DA POBREZA

O casamento infantil deveria estar no centro da preocupação da sociedade

Em momentos tão decisivos como o atual período eleitoral, é necessário avaliar projetos e escolher aqueles comprometidos com a pauta das mulheres. Ela abrange temas como direito à creche, à saúde, mecanismos de acolhimento à vítima de violência, entre tantos outros.

Partindo de uma perspectiva interseccional, as mulheres devem estar contempladas em sua multiplicidade em todas as políticas públicas do país, como moradia, esportes, comunicação, agricultura e segurança pública.

Quero neste texto me estender na reflexão sobre a segurança pública e a mulher. Pois têm sido cada vez mais frequentes os relatos que tenho ouvido de mulheres vítimas de violência pelo ex ou atual companheiro, mas que não têm meios de se defender. Faremos essa reflexão a partir de uma história, a qual eu diria que está em boa parte dos relatos.

Nossa história começa assim: em um contexto social vulnerabilizado, uma menina adolescente é atraída para um homem anos mais velho. Naquele momento, ela passa pelas suas primeiras experiências com quem já entrou na vida adulta há algum tempo.

Infelizmente, isso é normalizado no país do casamento infantil. Lembro-me de que quando era professora da rede pública de ensino em Guarulhos. Vi muitas meninas engravidadas por homens mais velhos e que saíam da escola por não terem mais condições materiais para frequentá-la.

Em coluna de fevereiro, estendi-me sobre casamento infantil e como essa questão deveria estar no centro da preocupação da sociedade, por ser fonte de ausência de políticas públicas e de diversas formas de violência contra a mulher.

Voltemos à nossa história. Essa menina cresce e começa a perceber que a vida é mais. Ela tem vontade de conhecer outras realidades e sente que sua vida não comporta mais aquilo. O homem, de quem neste momento a jovem está grávida, ou com quem teve um ou mais filhos, torna-se mais desinteressante, ao mesmo tempo em que fica mais violento do que o habitual. Sua grosseria e possessividade são insuportáveis. A menina, então, toma uma atitude e volta para a casa da mãe, com as crianças. Nessa história, ela tem um lugar para onde voltar.

A mãe dessa jovem também foi um dia a menina que teve filhos com um homem mais velho, repetindo o ciclo de feminização da pobreza. Ela recebe a filha em casa, apesar do pouco espaço e do dinheiro que já não dava para pagar as contas. A mãe lamenta por aquele homem com quem teve a filha estar em algum lugar qualquer e não poder contar com seu ex- companheiro.

Os homens vão viver sua vida infernizando outras mulheres. Eis o abandono paterno amplamente legalizado e difundido no país.

O ex- companheiro da jovem faz da ameaça e da intimidação dela seu grande projeto de vida. Ameaça que vai falar com a facção para raspar a cabeça dela e amarrá-la ao pé da cama. Ela é dele, ele diz. Ele sabe onde é a casa da ex-sogra e passa na frente da residência a todo momento, liga e deixa mensagens para a ex- companheira, dizendo que se vê-la com outro irá matá-la.

Na casa da jovem, o clima é de constante apreensão. Todas as pessoas ali – na maioria das residências mulheres e crianças – têm medo de sair na rua para ir à padaria e encontrá-lo. O jeito é ir à polícia, dizer o que está acontecendo, mostrar as mensagens de celular e registrar um boletim de ocorrência.

Pode ser que não haja unidade policial perto e que ela e a mãe não consigam ser atendidas. Ou ainda que elas sejam mal atendidas, depois de horas de espera. Mas, para fins deste texto, elas foram atendidas.

No caso, a jovem obtém até uma medida judicial que diz que o homem deve se manter a centenas de metros de distância, ou será preso.

Mas o projeto de vida dele é infernizar a vida daquela família, e essas medidas não são o bastante, nem de longe. Então, para mostrar que é homem mesmo, esse infeliz vai até a casa da ex-sogra armado…

É desnecessário chegar ao fim dessa tragédia anunciada tão comum neste país. Estamos aqui falando de situações que não são apenas casos constantes de feminicídio, mas da perda de projetos de vida, de dores e de traumas.

Conto essa história para inspirar a criação de programas de proteção e de centros de empoderamento e enfrentamento aos homens violentos, entre tantas medidas possíveis. Eleições estão aí. É preciso ter consciência e avançar nos direitos das mulheres.

***DJAMILA RIBEIRO

ESTAR BEM

ADEUS À DOR NA LOMBAR

Segundo especialistas, é difícil descobrir as causas da lombalgia. Mas alguns hábitos ajudam a preveni-la

A mão apoiada na parte inferior das costas e a testa franzida sinalizam: a dor lombar (lombalgia) está atrapalhando a sua vida. Com esse incômodo, fica difícil se manter sentado e se movimentar. O problema é comum: pode atingir até 84% das pessoas em algum momento da vida, segundo artigo científico publicado no Journal of Spiral Disorders em junho de 2020. Embora seja mais prevalente entre idosos, a lombalgia é queixa de pessoas de diferentes faixas etárias e não faz distinção de condição socio econômica. As causas, a intensidade e a frequência dessa dor variam caso a caso, mas quase sempre trazem prejuízos para a vida social e profissional de quem é acometido por ela.

Desorientadas e apressadas, muitas pessoas recorrem à automedicação indiscriminadamente. “É comum que os pacientes que sofrem com dor lombar usem o remédio do vizinho, pois a tendência é ir pelo caminho mais fácil. Mas o abuso de alguns medicamentos é muito perigoso para a saúde”, alerta o ortopedista Renato Ueta, chefe do Grupo da Coluna do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Os remédios indicados pelo médico são importantes para diminuir a dor para que o paciente possa entrar com as medidas de reabilitação, explica Ueta. Quando a dor lombar aparecer, ou mesmo com um simples sinal de que a lombar vai “travar”, é melhor procurar um médico, de especialidades como ortopedia, reumatologia, fisiatria e neurologia, ou um fisioterapeuta. Cada um no seu papel, tanto o médico como o fisioterapeuta podem atuar – geralmente em dupla ­ quando o assunto é dor lombar. O olhar atencioso de um bom profissional é fundamental, já que a lombalgia pode refletir causas mais graves como fraturas dos ossos, problemas nos rins e câncer – se houver algum indício, será preciso investigar e, neste caso, o fisioterapeuta fará o encaminhamento do paciente para um médico para que ele descarte essas possibilidades antes da intervenção terapêutica.

Na maioria dos casos, no entanto, não é possível para o profissional de saúde determinar a causa exata da dor lombar. “Por mais que desejemos apontar um único culpado pela dor, geralmente ela é multifatorial”, comenta Ueta. Estresse, de pressão, exercício físico mal realizado ou excessivo são algumas das possíveis causas da lombalgia. Mas a má postura e o sedentarismo são os fatores que o ortopedista   considera mais relevantes – e que se intensificaram na pandemia.

“Observamos um aumento brutal de pessoas com queixa de dores lombares, já que muitas delas deixaram de se exercitar, viveram sob estresse e passaram horas sentadas na frente do computador, muitas vezes com ergonomia inadequada”, diz Ueta.

TRATAMENTOS

Em home office, a arquiteta Patrícia França Azeredo, de 43 anos, sofreu com as dores na lombar no fim de 2020. “No meio do dia, eu já sentia dores que comprometiam o meu rendimento. Eu passava até 10 horas sentada e a minha cadeira não era muito boa”, conta. Com ajuda da sua fisioterapeuta, Patrícia comprou uma nova cadeira, praticou exercícios e conseguiu superar a crise. Para que a dor não volte, ela faz acupuntura semanalmente, além de praticar caminhadas com frequência.

A acupuntura traz bons resultados na diminuição das dores lombares, especialmente nos pacientes crônicos (dor que dura mais de 12 semanas), afirma o médico acupunturista e ortopedista André Tsai, presidente do Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA) e vice-presidente do Comitê de Dor da SBOT.

“Na medicina tradicional chinesa, a aplicação de agulhas no corpo restabelece o fluxo de Qi, o que diminui a tensão na região dolorida. Na visão da medicina ocidental, essas agulhas conseguem liberar substâncias como a endorfina e serotonina, que trazem bem-estar”, explica. A terapia permite atenuar as dores, diminuindo assim a necessidade dos medicamentos para dor, o que é especialmente benéfico para quem já usa outros remédios por conta de outras doenças. No tratamento não medicamentoso de reabilitação, os exercícios físicos são a principal recomendação, afirma a fisioterapeuta Amélia Pasqual Marques, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

“Antigamente, a recomendação para esse tipo de dor era o repouso, hoje sabemos que para cuidar da dor é preciso se movimentar”, garante. “Mas é preciso ser orientado por um bom profissional, que faça uma avaliação e indique os movimentos mais adequados para aquele caso, naquele momento.” Ela explica que o fisioterapeuta também lança mão de terapias complementares como ultrassom, laser e tens, que ajudam a relaxar os músculos e diminuir as dores.

A advogada Renata Colaço Fransani Finardi, de 57 anos, sofreu por quase sete anos com dor na lombar. Teve sua primeira crise em 2006, que a impediu de fazer tarefas básicas do dia a dia, como pegar a sua filha bebê no colo. Foi diagnosticada com   hérnia de disco pelo ortopedista, que prescreveu medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios, além de indicar fisioterapia.

“Fiquei 20 dias de repouso, pois não conseguia ficar de pé nem por 2 segundos, já que a dor era fortíssima”, recorda.

Depois de alguns meses de calmaria, porém, as crises se repetiam, com piora no quadro da hérnia de disco. “Isso me abalava física e emocionalmente. Era apavorante.”

Renata se consultou com diversos médicos e fez RPG (Reeducação Postural Global), acupuntura e seitai (técnica manipulativa japonesa para problemas de coluna). O ortopedista levantou a possibilidade de fazer uma cirurgia para a hérnia, mas ela resolveu dar uma chance para o pilates. “Fortaleci a musculatura da região lombar e aprendi a contrair o abdômen e usar os glúteos para proteger a lombar em qualquer movimento que a requisite, com a ajuda de fisioterapeutas competentes. Eles também me ensinaram a me movimentar sem comprometer a lombar, na hora de me abaixar, de levantar um objeto e de fazer trabalhos domésticos”, completa ela, que desde 2013 não tem mais lombalgia.

FITNESS

O pilates é um exercício ”padrão ouro” para dores na lombar, afirma Sandra Amaral, especialista em fisioterapia musculoesquelética. Porém, ela esclarece que quem passou por uma crise deve procurar o pilates clínico, em que o fisioterapeuta vai atender à demanda específica do paciente. “Quando estiver zerado, ele poderá praticar o pilates fitness, que deixa o corpo lindo e delineado”, observa.

Praticar exercícios não garantia de uma lombar saudável, já que quando mal executados ou com carga excessiva podem trazer um impacto negativo, alerta Sandra. “Já atendi pessoas com excelente forma física, que participam de campeonatos de esportes, mas se focam apenas no aeróbico e não fortalecem os músculos da coluna, que são muito solicitados.” Ela recomenda que praticantes de corrida, futebol, ciclismo e vôlei, que proporcionam alto impacto na lombar, recebam atendimento de um fisioterapeuta que os ensine a ter cuidados específicos para se protegerem de lesões.

“Se a pessoa simplesmente toma um analgésico e melhora, ela vai repetir o movimento que machucou a sua lombar. Ela precisa se reeducar para fazer os movimentos de forma segura, antes de retornar as atividades normais”, ensina.

O empreendedor Rodrigo da Silva Bispo de Freitas, de 38 anos, pratica musculação, corrida, ginástica funcional e alongamento. Nem parece a mesma pessoa que sofria com a dor lombar enquanto estava sentado, seja para trabalhar ou dirigir. A lesão na lombar era reflexo de uma pisada torta, decorrente de uma torção no tornozelo há 13 anos.

“Na época, abandonei as lutas marciais, a corrida e a pedalada”, declara. Para se livrar das dores, Freitas mergulhou na fisioterapia: foi submetido a sessões de calor, de liberação miofascial, RPC, além de trabalhar a mobilidade de quadril.

“Comecei a prestar atenção na minha forma de pisar e melhorar a minha postura na hora de sentar”, admite. Dez semanas depois, não sentia mais dores. A fisioterapeuta Roberta dos Santos Cavenaghi, da clínica Physioterapia, em São Paulo, é responsável pelo tratamento de Freitas, e afirma que a dedicação do paciente é essencial para conseguir alcançar um bom resultado. “A maioria das pessoas chega a um serviço de fisioterapia querendo a cura em 10 sessões, número estipulado por planos de saúde. Mas não existe prazo para ensinar novas habilidades. Sendo assim, muitos desistem e ficam em uma procura sem fim por alívios rápidos, quando na verdade a cura está nas mãos dele”, avisa.

Segundo o ortopedista Renato Ueta, pilates e ioga são ideais para a prevenção da lombalgia, mas o mais importante é que a pessoa pratique o esporte preferido com frequência. “Quando não há mais dor, o fundamental é que cada um respeite os seus limites. Se uma pessoa gosta de dança, é isso que ela tem de fazer, pois com isso ela mantém a atividade física e tem prazer, o que a ajudará a lidar com o estresse.” A longo prazo, os cuidados podem ser deixados de lado. A vida corrida, a falta de disciplina e o orçamento restrito levaram a arquiteta Letícia Paula dos Santos, de 40 anos, a pausar a prática de exercícios físicos e pilares. Com isso, voltou a sentir dores lombares todas as manhãs.

Sua primeira crise aconteceu quando tinha 27 anos – ela forçava a coluna para carregar os dois filhos pequenos. “Estava assistindo à aula. Quando fui levantar da cadeira, travei”, comenta. Procurou um ortopedista, que solicitou exames e notou que o espaço entre as vértebras estava pequeno.

“Ele me orientou para melhorar a postura e fortalecer os músculos, além de receitar remédios”, diz Letícia, que fez algumas sessões de fisioterapia que a ajudaram a se livrar das dores. Mesmo assim, teve uma segunda crise dois anos depois, desencadeada pelo levantamento de um colchão. “Fiquei no chão por um bom tempo, sem conseguir me levantar.”

Letícia já levou um puxão de orelhada sua fisioterapeuta Liza Lambert, a quem recorre nos momentos de dor. ”A mudança de hábitos, que inclui a prática de exercícios físicos, é necessária para prevenir novas crises. Para não ter dores recorrentes, é preciso se cuidar sempre”, completa Liza.

HÁBITOS PARA PREVENIR DORES

SENTE-SE DIREITO

Não passe muitas horas sentado na mesma posição. Faça pausas, levante-se da cadeira para uma caminhada, faça um alongamento. Quando sentado em uma cadeira, use o encosto para acomodar as costas e não escorregue o quadril para frente.

ERGONOMIA

É preciso estar atento às suas condições de trabalho, como altura de sua cadeira e de sua mesa, que vai refletir na sua postura.

SONO

Durma em um colchão firme, que não precisa ser duro. Uma almofada entre as pernas quando dormir de lado pode dar mais conforto.

CARGA PESADA

Levantar e puxar objetos pesados coloca a sua coluna em risco. Procure ferramentas que o ajudem nessa tarefa.

AUTOMEDICAÇÃO

Se tiver dores, busque um médico para orientá-lo no tratamento, que, provavelmente, não será apenas medicamentoso.

DIAGNÓSTICO

Faça uma avaliação cuidadosa com um profissional, baseada na conversa (anamnese) e em exames físicos e clínicos.

MEXA-SE

Tanto na prevenção de crises como na reabilitação da lombar, a prática de exercícios é a recomendação de ouro dos especialistas. Procure um fisioterapeuta para orientá-lo sobre os melhores exercícios para a sua condição – e mantenha a prática na sua rotina.

PESO

Procure se manter com o peso adequado para o seu corpo.

CUIDE DA SAÚDE MENTAL

A depressão e o transtorno de ansiedade podem estar associados às dores lombares, por conta da sensibilização do sistema nervoso central.

SAPATO DE SALTO ALTO

O uso constante pode causar encurtamento de alguns músculos, o que poderá refletir na região lombar. Alterne com o uso de sapatos de salto baixo e faça alongamentos da parte posterior das pernas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FALAR SEM BRIGAR

Como técnicas de Comunicação Não Violenta (CNV) podem ajudar a expor opiniões na família e no trabalho de forma clara e sem conflitos

Conversando a gente se entende, diz o ditado. Você concorda com essa frase ou se sente frustrado por não conseguir engajar os outros para atender às suas necessidades e aos seus desejos? Quem deseja desenvolver habilidades de comunicação para melhorar os seus relacionamentos pode recorrer à Comunicação Não Violenta (CNV), que toma como base a empatia e a compaixão para fortalecer as conexões humanas, seja no âmbito pessoal ou profissional – o que não tem nada a ver com técnicas de persuasão.

Metodologia sistematizada pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg na década de 1960 no livro Comunicação Não Violenta (Ed. Ágora), a CNV parte da premissa de que toda a comunicação humana demonstra necessidades universais como respeito, acolhimento e pertencimento, mesmo quando expressadas por gritos, ofensas e outras manifestações violentas. “A CNV é mais que uma técnica, é um convite para olhar para o que está por trás da linguagem. Ela parte do movimento de não violência do qual fizeram parte Gandhi e Martin Luther King”, diz a mediadora de conflitos Diana Bonar, fundadora da empresa PeaceFlow, que atua na área de prevenção da violência e dá treinamentos de CNV.

Pela abordagem da CNV, diante de um conflito ou desafio é preciso ser empático e considerar a necessidade do outro. “Isso não significa ser passivo ou permissivo, mas buscar uma solução pelo caminho do meio, com limites saudáveis”, esclarece Diana. A comunicação deve ser assertiva, isto é, clara, objetiva, firme e respeitosa. “O objetivo não é convencer o outro de nada, mas se conectar com ele para buscar uma solução.”

SINCERIDADE

Expor os sentimentos com sinceridade é uma forma de derrubar muros da comunicação. “Na nossa sociedade, principalmente os homens não costumam falar de seus sentimentos. Mas quando fazemos isso, a percepção e a disposição da outra pessoa com quem estamos conversando muda”, conta Diana. Ela diz ter um bom relacionamento com sua mãe, mas estava incomodada com alguns “pitacos” que ela dava em sua vida pessoal e resolveu chamá-la para um papo. “Comecei dizendo que ela era importante para mim, o que já quebrou resistência ao diálogo. Assim, tivemos uma interação saudável.”

Evitar críticas e rótulos também pode ajudar a comunicação a fluir. “Uma pessoa quer ser vista, considerada e respeitada quando participa de uma conversa. Senão, a tendência é que ela se posicione no ataque ou na defesa”, explica Diana. Em período pré-eleitoral, em que os ânimos estão exaltados e as pessoas se posicionam de forma polarizada, e em outros tipos de conversas difíceis, a recomendação da especialista é escolher bem as “batalhas” das quais participar, com sabedoria.

“Leve em consideração o grau de relevância desse relacionamento para você e a importância do resultado dessa conversa. Posso escolher não discutir porque valorizo o relacionamento. Se eu decido confrontar, melhor usar as habilidades em CNV para não acabar com o vínculo.”

A fisioterapeuta Erika Cabral Leal Ferreira Masullo, de 38 anos, está aberta às discussões políticas. “Tenho familiares e amigos que pensam diferente de mim, que maravilhoso! O que seria de nós se todos pensássemos a mesma coisa? A política é importante e deve ser debatida em qualquer lugar”, avisa. Atualmente, porém, os debates nem sempre são saudáveis no Brasil, na visão dela. “Fico triste quando percebo a agressividade, muitas vezes escondida em piadas e risadas, e quando vejo delicadeza excessiva”, avalia.

Determinada na sua busca por autoconhecimento, Erika fez este ano o curso Conectar-se, que promove habilidades de comunicação assertiva. “Pude entender a magnitude da influência do autoconhecimento na fala e na escuta, que são importantes facilitadores do convívio social”, lembra. O aprendizado refletiu-se na sua atitude: diante de um comentário machista de um líder em um grupo profissional no WhatsApp, ela resolveu escrever uma carta aberta de repúdio. “Em tempos anteriores, eu teria respondido de forma inadequada, tamanha era a minha indignação. Mas aprendi a me escutar antes de reagir. Escrevi uma carta equilibrada, lúcida e coerente.”

‘A VERDADE’

Muitas vezes, as pessoas são empáticas na sua comunicação, mas abandonam “a verdade”, explica Igor Gadioli, mestre em linguística e criador do curso Conectar-se, do qual Erika participou. “A pessoa pensa se vai incomodar o outro com aquilo que ela vai falar e perde de vista a própria necessidade”, ressalta. Para Gadioli, é um equívoco achar que é possível viver sem conflito, mas é possível construir a harmonia, ao expressar as necessidades de ambos os lados. “Dizer que quer evitar um conflito e cair na passividade é um erro. Quando uma pessoa ficou com raiva, já existe um conflito.”

Ser autêntico é importante para melhorar a comunicação, garante Gadioli. “Se eu chego atrasado porque o pneu do meu carro furou e estou transtornado, é melhor que eu diga o que estou sentindo, de forma transparente”, exemplifica. Porém, em vez de justificar a falha de chegar atrasado, é melhor assumir a responsabilidade. “Quem reclama muito e fica se justificando começa a perder o respeito, pois parece uma tentativa de se livrar da culpa. É melhor se voltar para a necessidade não atendida, se mostrando preocupado em trazer uma solução.”

Ao mesmo tempo, é preciso ter um “filtro” para comentar só o que faz sentido naquela conversa. “Antes de fazer uma crítica, reflita se isso é necessário, pois isso pode arranhar a relação. A escolha das palavras deve ser genuína e estratégica, se a intenção é que a pessoa mude.”

VIDA A DOIS

Casados há 12 anos, a advogada Fernanda Trajano de Cristo Soares, de 47 anos, e o executivo Paulo José Marcos Soares, de 53, sentiram que o relacionamento se beneficiou da CNV. “Hoje, a gente briga menos porque a comunicação melhorou. Resolvemos os nossos problemas gastando menos energia”, diz Soares, que se interessou pelo curso após ler livros de Marshall Rosenberg.

Para conseguir o bom resultado, ambos se empenharam. Há três anos fizeram um curso de três dias e se dedicaram a colocar o aprendizado em prática com paciência – treino que se intensificou com o isolamento social da pandemia. “Formar o hábito de usar a CNV dá trabalho. Não estamos acostumados a observar sentimentos e necessidades. Para conseguir uma fluidez e aplicá-la de forma mais rotineira, tem de treinar muito, prestar atenção.”

Os casais que passam a usar a CNV geralmente conseguem sair de uma dinâmica de “luta e fuga”, em que ficam na defensiva ou partem para o ataque, e passam a ter mais curiosidade pelo sentimento do companheiro, revela Debora Gaudêncio, consultora de comunicação consciente, que ministrou o curso de CNV do qual participaram Fernanda e Paulo Soares. Segundo ela, muitas pessoas demonstram interesse em apresentar a CNV para seu par. “Com essa troca fluida, os casais conseguem compreender o que se passa com o outro, o que gera conexão”, conclui.

A educadora parental Luciana Calabrisi, de 38 anos, utiliza os seus conhecimentos em CNV para manter um bom relacionamento com o marido, o professor Vinícius Valdivia, de 40 anos. “Com a CNV aprendemos a ouvir com atenção, evitando tirar conclusões. Expressamos o que estamos sentindo e deixamos claro qual a necessidade individual e o que gostaríamos que acontecesse em outra oportunidade”, acrescenta. Luciana conta que um dia, de manhã, ela e o marido estavam cansados. “Eu acordo algumas vezes de madrugada para amamentar. Disse a ele que estava vendo que ele estava cansado também. Conversamos e decidimos que um descansaria pela manhã e outro pela tarde, o que atendeu à necessidade dos dois.”

Colocar a CNV em prática, porém, não é fácil, por conta da cultura em que vivemos, advertem os especialistas. “É como remar contra a maré, já que vivemos em um mundo competitivo, violento e autoritário”, esclarece a mediadora de conflitos Diana Bonar. Ela observa que, de forma geral, a sociedade se vale da culpa, do medo e da vergonha para persuadir as pessoas. “Gritar e bater não são as únicas formas de violência. Forçar uma pessoa da sua equipe de trabalho ou uma criança a fazer algo com base no medo e na vergonha, só porque eu tenho poder, é um jeito violento de conseguir algo.”

Na visão dela, a CNV ganha importância no contexto atual, em que a saúde mental é um desafio de um mundo mais instável e imprevisível. Nas empresas, oferece um ambiente mais produtivo e criativo, pois traz segurança psicológica aos colaboradores. “O profissional não pode ter medo de expor o que pensa”, alerta Diana.

SILÊNCIO

E o silêncio dos colaboradores nas empresas pode ser destruidor, afirma Luciana Sato, sócia da consultoria Conexões Humanizadas, que trabalha a “musculatura emocional” das equipes nas empresas.

“Existem funcionários que deixaram de alertar sobre os erros das organizações em que trabalhavam por medo de se exporem”, adianta ela, em referência aos casos citados no livro A Organização Sem Medo, de Amy Edmondson, professora da Harvard Business School. Para ampliar essa consciência nas empresas, porém, é preciso fazer um trabalho consistente que promova o autoconhecimento. “Não existem fórmulas milagrosas para realizar mudanças após uma palestra”, orienta Luciana. O maior obstáculo para uma boa comunicação, na visão dela, é não estar aberto a visões diferentes. “Conflitos e perspectivas diferentes gerenciados de forma adequada podem ser um ativo competitivo para a resolução de problemas e inovação da organização”, completa. O aprendizado em CNV ajudou a psicóloga Noemi Lustosa Baptista, de 39 anos, a se relacionar com os chefes. “Consigo falar quando me sinto cansada e negociar férias. E isso não é visto como um problema, mas uma possibilidade de estabelecer acordos, com conexão e responsabilidade”, defende ela, que já participou de quatro cursos que abordavam a CNV ministrados por Diana Bonar. “A CNV é uma ruptura de mundo. Trouxe-me paz, leveza e amor na minha família, amigos e casamento. Acredito que sou uma pessoa melhor por conta desses conhecimentos e práticas.”

MELHOR NA COMUNICAÇÃO E NOS RELACIONAMENTOS

OBSERVE

Observe a si próprio e ao outro, sem julgamentos, com curiosidade de entender as necessidades de cada lado.

EMPATIA

Preste atenção nos seus senti- mentos e seja empático com o outro. Lembre-se de que cada um tem hábitos, culturas e pontos de vista diferentes.

VULNERABILIDADE

Não precisa esconder os seus sentimentos. Revelar suas vulnerabilidades pode ajudar o outro lado a sair da defensiva e a ceder.

FIQUE ABERTO

Não fixe um “rótulo” para a pessoa com quem você vai conversar. As generalizações atrapalham a comunicação.

VOCABULÁRIO

Expresse ao outro a sua necessidade, de forma simples, clara e honesta. Escolha bem suas palavras.

OUÇA

Pergunte ao outro se ele precisa de algo e escute com atenção genuína. Faça perguntas como: “O que podemos fazer para melhorar isso?”.

LINGUAGEM CORPORAL

O corpo fala. A comunicação terá ruído se as suas palavras não condizem com sua expressão facial e corporal.

CRÍTICAS

Antes de fazer uma crítica na conversa, pense: criticar é necessário? Vai trazer algum benefício para o relaciona- mento? Lembre-se: quem recebe uma crítica geralmente se posiciona na defensiva, o que não ajuda na conversa e na negociação.

GENTILEZA

Não tente intimidar a outra pessoa pelo medo ou vergonha. Isso pode até ser um atalho para conseguir o que você quer de forma mais rápida, mas traz um impacto negativo no relacionamento.

NÃO APONTE DEDOS

Procurar definir o “culpado” não ajuda a resolver conflitos. Saia dessa dinâmica acusatória para buscar uma solução para o desafio em comum.

NÃO É UMA COMPETIÇÃO

Deixe de lado a lógica da competição, que nos leva a querer “vencer” uma discussão.

ESCOLHA SUAS BATALHAS

Escolha com sabedoria em quais conversas vai investir energia e se engajar. Considere a importância do resultado da conversa e a pessoa que está envolvida.

OUTROS OLHARES

TABAGISMO CRESCE ENTRE ADOLESCENTES NO BRASIL

Pesquisa do IBGE mostra que jovens entre 13e 17 anos, principalmente do sexo feminino, estão fumando mais no país. Preços baixos, facilidade de acesso, novos dispositivos e menos fiscalização estão entre as justificativas

Dados da última edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) e divulgada neste ano, mostram que a proporção de adolescentes entre 13 a 17 anos que fumam aumentou de 6,6%, em2015, para 6,8%, em 2019. A alta foi relacionada ao crescimento do tabagismo especialmente entre as meninas da faixa etária, que passaram de 6% para 6,5% de fumantes.

Em comunicado, o Ministério da Saúde alerta ainda que pesquisas realizadas pela pasta na última década indicam que o tabaco é a segunda droga mais experimentada no país, e que a primeira tragada geralmente ocorre aos 16 anos.

“Esse é um tema que preocupa bastante, porque o uso de qualquer droga psicoativa, como é o caso da nicotina dos cigarros, é sempre mais alarmante em alguém cujo cérebro ainda está em desenvolvimento, como é o caso dos jovens. Essas drogas quando entram no organismo atingem o sistema nervoso central e produzem diversas modificações que são mais acentuadas nesses casos. Além disso, elevam a probabilidade de ele voltar a usar a substância e eventualmente desenvolver uma dependência química, o que leva a riscos como câncer e problemas cardiovasculares”, diz a pesquisadora Vera Borges, da Divisão de Controle do Tabagismo do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

O pesquisador André Szklo, da Coordenação de Prevenção e Vigilância do Inca, explica que a PeNSE faz parte de um monitoramento ligado ao acompanhamento do tabagismo no Brasil, e por isso representa o padrão-ouro na análise do cenário no país. Para ele, o crescimento é reflexo de uma série de fatores que já vinham sendo percebidos, como os preços baixos, o fácil acesso e o abrandamento da fiscalização.

“A PeNSE mostra que os jovens conseguem comprar esses produtos facilmente, embora sejam proibidos. Além disso, desde 2017 os preços reais do cigarro vêm caindo, o que é um facilitador para o tabagismo. Há ainda outros pontos da legislação que não são cumpridos, como a proibição da adição de sabores e aromas que atraem os adolescentes. Então não há nada no cenário atual que indique que esse crescimento seja interrompido no curto prazo”, diz o especialista.

‘VAPES’ EM ALTA

Um dos pontos mencionados por Szklo em que a legislação não tem sido cumprida é a venda dos cigarros eletrônicos. Segundo o relatório Covitel, da Universidade Federal de Pelotas, realizado neste ano com mais de nove mil jovens, uma cada cinco indivíduos de 18 a 24 anos no Brasil já experimentou os chamados “vapes”. A adesão acontece apesar de a comercialização dos dispositivos eletrônicos para fumar (DEF) ser proibida pela Anvisa desde 2009, decisão que foi ratificada neste ano.

Segundo a PeNSE, essa experimentação acontece entre os adolescentes, e é mais dramática entre os alunos de redes privadas. Considerando todos os formatos de cigarro, 24,4% dos alunos do nono ano do ensino fundamental, de em média 15 anos, relataram já ter fumado alguma vez na vida, contra 12,2% na rede pública. O índice também aumentou nas escolas particulares, onde era de 21,2% em 2015, mas caiu nas públicas – o percentual era de 13% há sete anos.

Além do cigarro eletrônico, o Ministério da Saúde destaca os narguilés, outro formato que cresce entre os jovens e oferecem mais riscos que o cigarro comum.

GESTÃO E CARREIRA

COMO VIVE AGORA QUEM SE DEMITIU NA PANDEMIA

Para americanos que mudaram de emprego na ‘grande renúncia’, decisão valeu a pena

Melody e Ian Karle não estavam felizes. Era fevereiro de2021 e o casal vivia em Houston. A crise energética após o inverno rigoroso no Texas havia começado, situação que os levou a ficar sem água corrente ou aquecimento. Mas isso não era tudo. Ian, que trabalhava como gerente de qualidade em uma empresa do setor de petróleo e gás, não aguentava mais seu trabalho. Ajudava a pagar as contas, sem dúvidas, mas fazia com que ele se sentisse esgotado e insatisfeito.

“A temperatura dentro de casa era congelante, estávamos sentados no sofá, e eu pensei: ‘Espera aí, por que raios estamos aqui?’”, disse Ian, 43 anos. “Ele não gostava do emprego que tinha, a rede elétrica era precária e éramos duas pessoas que trabalhavam e tinham suas próprias carreiras. Começamos a pensar, então, como poderíamos sair daquela situação”, disse Melody, 43 anos, que trabalhava como bibliotecária em uma universidade.

Eles fizeram as contas e decidiram que Ian podia pedir demissão e deixar o setor no qual trabalhava se vendessem a casa onde viviam e se mudassem para algum lugar com um custo de vida menor. Eles se mudaram, então, para Cut Bank, em Montana. Melody conseguiu um emprego como administradora remota de um sistema de biblioteca, e Ian abriu sua própria empresa de chocolate artesanal, um projeto pessoal iniciado nos primeiros dias da pandemia.

No total, os dois juntos tiveram uma redução de renda anual de US$ 100 mil e agora ganham cerca de US$ 70 mil. Eles tiveram de abrir mão das saídas noturnas luxuosas, mas esse tipo de tentação não existe na cidade pequena onde vivem, segundo eles. Em vez disso, estão curtindo atividades mais econômicas, como caminhadas e jardinagem. “Você não faz ideia do quanto de estresse está submetido até se livrar dele. É absurdo o quanto estou mais feliz agora do que costumava ser”, disse Ian.

SAÍDA EM MASSA

No ano passado, mais de 40 milhões de pessoas pediram demissão de seus empregos. A chamada grande renúncia foi motivada por pessoas que estavam cansadas de empregos frustrantes, de se sentirem esgotadas pelas demandas de trabalho e das dificuldades para conseguir se sustentar.

Embora algumas pessoas estejam atualmente em uma situação financeira melhor e ganhando um salário mais alto, outras que deixaram seus empregos têm enfrentado problemas financeiros. Elas deram um jeito de fazer isso dar certo pegando empregos de meio período, renunciando a certos luxos ou, como os Karles, se mudando para algum lugar mais barato. E apesar do estresse adicional, muitos acham que a decisão valeu a pena.

Os Karles sentem que estão vivendo uma vida com mais propósito. Várias vezes por semana, eles vendem as barras de chocolate de Ian nas feiras de produtores locais, além de cuidar de gatos resgatados em casa (esta última atividade é voluntária, não há remuneração por ela). Melody está plantando beterraba, ruibarbo, aspargos e muito mais em sua horta. O casal teve uma redução no orçamento, mas acredita ter encontrado algo melhor.

“Nós não conseguimos nem acreditar no que estávamos fazendo antes”, disse Melody. “Esta foi a melhor decisão que já tomamos.”

Os Karles representam um grupo de indivíduos e famílias que fizeram uma mudança e agora estão lidando com as consequências financeiras, para o bem ou para o mal. “A pandemia fez as pessoas pensarem e avaliarem de verdade como estavam vivendo”, disse Cliff Robb, professor de ciência do consumidor da Universidade de Wisconsin-Madison. “Vimos tantas oportunidades de emprego diferentes se tornarem flexíveis em suas estruturas, então as pessoas começaram a reavaliar tudo.”

Perguntamos aos leitores que fizeram esse balanço pessoal como isso afetou suas vidas financeiras. Aqui estão alguns relatos.

APREENSÃO

Em junho de 2021, Natalie Hanson, 26 anos, deixou seu emprego em um jornal de sua cidade natal, Chico, na Califórnia, onde ela cobria o governo municipal, habitação e falta de moradia. O salário não era dos melhores, segundo Natalie, e ela enfrentava assédio online quase contínuo por causa dos temas sobre os quais escrevia. O preço psicológico tornou-se insuportável.

“Pago minhas contas desde o ensino médio. Trabalhei durante toda a faculdade”, disse Natalie. “Mas eu ainda estava muito apreensiva quanto a pedir demissão.”

Ela conseguiu um novo emprego em um jornal em Oakland, na Califórnia, com um salário melhor. Mas o custo de vida em Oakland era bem maior do que aquele com o qual Natalie estava acostumada em Chico, cerca de três horas ao norte da região da baía de São Francisco. O valor que pagava pelo aluguel mais que dobrou e o preço do seguro de seu carro aumentou.

Em maio, Natalie pediu demissão e passou a trabalhar como repórter no serviço de notícias jurídicas Courthouse News Service. Embora o novo emprego ofereça um salário melhor do que o anterior, Natalie escreve artigos como freelance para organizações sem fins lucrativos locais e consegue uma renda extra de US$ 800 por mês. Mas ela planeja se mudar para um apartamento mais barato na cidade até o fim do ano. Apesar dos transtornos, Natalie não se arrepende de sua decisão inicial de pedir demissão do emprego em Chico. Ela agora vive em uma região que adora. “Não esperava poder viver na região da baía de São Francisco, trabalhando como jornalista, antes dos 30 anos”, disse ela. “Ficou bastante claro que existem possibilidades. No entanto, é preciso ser muito cuidadoso com as finanças”, frisa a jornalista.

FAZENDO AS CONTAS

Susan Woodland, 67 anos, pediu demissão do posto de diretora de coleções em um museu em Nova York em maio de 2020. Seu emprego exigia muito trabalho administrativo – o que ela não gostava – e, quando a pandemia surgiu, ela se viu tendo que decidir entre demitir outros funcionários de seu departamento ou deixar seu emprego. Ela escolheu a segunda alternativa.

Susan agora trabalha meio período como freelancer para museus, e pode lidar diretamente com as coleções deles, algo que ela considera muito gratificante. “Tem sido o melhor dos dois mundos. Posso definir meu próprio horário. Não paga as contas, mas é muito gratificante”, afirmou.

Segundo ela conta, foi um tremendo alívio emocional sair do expediente das 9h às 17h, e ela agora tem “a liberdade de ganhar bem menos dinheiro, mas seguindo as minhas próprias regras”.

Ela também tem alguma renda com investimentos, o que ajuda a cobrir seus custos de vida. Susan sempre foi obstinada em relação a economizar, mesmo quando era mais nova, e isso tem sido uma ajuda extra. “Sempre que recebia um pouco a mais – podia ser US$ 20 por semana –, meus pais diziam: ‘Guarde metade’. E eu sempre fiz isso”, afirmou.

O dinheiro está com certeza um pouco limitado agora, mas pedir demissão ainda valeu a pena, disse Susan. “Eu sabia que estava sendo extremamente mal remunerada.”

OLHANDO ALÉM

Para alguns, deixar o antigo emprego levou a uma recém-descoberta liberdade financeira. No ano passado, Maeve Connor, 35 anos, pediu demissão de seu trabalho como gerente de marketing em uma empresa com orçamento limitado de postos de serviços para caminhões.

“Eu sabia que estava sendo extremamente mal remunerada”, disse Maeve, que mora em Portland, no Oregon. Ela também não conseguia se livrar da sensação de que queria ter uma carreira mais significativa, então começou a se candidatar a vagas de empregos.

Em pouco tempo, Maeve foi chamada para assumir o cargo de especialista em comunicação na Central City Concern, uma organização sem fins lucrativos local que ajuda pessoas em situação de rua, e agora ganha US$ 63 mil por ano.

“Isso teve um impacto enorme na minha qualidade de vida”, disse ela. “Compro alimentos mais sofisticados agora. Tenho uma poupança com saldo considerável. Estou tentando descobrir se será possível algum dia comprar uma casa, o que nem sequer passava pela minha cabeça antes.”

Maeve também tem conseguido pagar por aulas de direção. “Não teria condições de pagá-las com meu salário anterior, e descobri que sou muito ruim dirigindo, então preciso de um monte de aulas.” Além disso, comprou uma aliança para a esposa e uma viagem para Nova Orleans. “Não precisei me preocupar com dinheiro de forma alguma enquanto estávamos lá”, disse.

Ela está satisfeita com a decisão de pedir demissão, sobretudo levando em consideração que a inflação fez os preços subirem e seu aluguel aumentou quase US$ 100 este mês. “Se eu ainda estivesse no meu antigo emprego, não sei como estaria lidando com essas coisas”, afirmou Maeve.

DIGERINDO A MUDANÇA

Rachel Sobel, 53 anos, deixou seu emprego como diretora de comunicações em uma seguradora de saúde em fevereiro.

Ela havia começado a trabalhar ali durante a pandemia, por isso estava se sentindo isolada no emprego. Depois de ser diagnosticada com uma doença autoimune, Rachel percebeu que não podia continuar no cargo. “Não me sinto bem durante muitas horas ao longo do dia, senti que estava abrindo mão de todas as horas que estava bem para trabalhar”, disse.

Rachel, que mora em Chicago, conseguiu passar a ser dependente do plano de saúde do marido, o que tornou possível levar adiante o plano de pedir demissão. Segundo ela, o salário do marido mal dá para cobrir as despesas básicas, e coisas como férias, melhorias na casa ou gastos inesperados não são possíveis neste momento. “Houve um pouco de arrependimento e pânico” no início, disse Rachel. De qualquer modo, ela não está 100% segura de como vão ficar as finanças do casal, “ainda não conseguimos digerir bem tudo isso”. Agora, ela trabalha como freelancer, editando, escrevendo e dando consultoria, o que cobre parte, mas não completamente, de seu antigo salário. Até mesmo as despesas necessárias foram adiadas.

“Vivemos em uma casa construída há cem anos”, disse ela. “Sempre há algo que precisa ser feito, e tínhamos um cronograma de coisas para consertar. Porém, agora precisamos reavaliar isso.” Uma parte do teto do porão está começando a desmoronar, mas ela não tem dinheiro para consertá-lo agora, o que tem sido uma fonte de frustração.

Problemas que talvez no passado fossem apenas pequenos ajustes passaram a ser dores de cabeça hoje. “Meu carro está ficando mais velho e, se precisar de um conserto de US$ 1 mil, pode ser que eu apenas o venda e abra mão de ter um automóvel”, disse ela.

Talvez o mais difícil seja o fato de sua filha ser uma estudante de pós-graduação que vive fora do estado e ela não poder mais visitá-la com a frequência de antes. “Enquanto antes eu podia facilmente viajar durante um fim de semana para visitá-la, fazer isso hoje seria um baque financeiro”, afirmou Rachel.

Ela está tentando lançar um coletivo criativo com alguns colegas e espera aumentar sua renda, no mínimo, em 50% do que ganhava trabalhando em período integral.

Mas, apesar de todos os novos desafios, pedir demissão valeu a pena para Rachel. Ela disse que se sentia uma pessoa mais feliz. “Estou me exercitando de novo, cozinhando mais, cuidando do meu jardim, fazendo passeios mais longos com meu cachorro”, disse. “Eu me sinto melhor, física e mentalmente.”

EU ACHO …

REFORMA, HISTÓRIA E SEXO

A experiência, diz uma psicóloga, ensina que em casa sem sexo as pessoas fazem obras o tempo todo

Vai construir ou reformar? Não comece a obra sem consultar um bom livro de História. Sim, você leu direito, minha querida leitora e meu estimado leitor. Nenhum cimento deve chegar ao seu lar sem que um historiador seja consultado.

Vamos às lições da História para obras. Primeira lição: planos ambiciosos de novos espaços podem causar impopularidade. Cuidado com o equilíbrio orçamentário. O imperador Shah Jahan que construiu o Taj Mahal, em memória da sua amada esposa, foi encarcerado pelo filho. Colaboraram os custos exorbitantes da obra e os planos de uma possível nova construção. Interditado politicamente pela ambição arquitetônica! Dizem que morreu olhando, ao longe, sua obra.

Construção veloz e com pressão costuma ser acompanhada de gambiarras. Transformar o pavilhão de caça do pai em um suntuoso palácio, em tempo curto, fez com que Luís XIV demandasse muito seus arquitetos. Muitas vezes, as paredes e acabamentos foram produzidos de forma menos sólida para atender ao desejo do rei. Pior: o plano de uma casa bem isolada do agito de Paris pode ter provocado, no futuro, o fim da dinastia. O mesmo é dito da Cidade Proibida, em Beijing. Isolamento geográfico tem um custo para o sistema político. Cuidado ao comprar um sítio no meio do nada!

Continuo no governo do Rei Sol. Ainda antes do esplendor de Versalhes, Nicolas Fouquet decidiu fazer um novo palácio e cometeu o erro de dar uma festa mais suntuosa do que seu chefe poderia oferecer. A festa impressionou a corte francesa e acabou despertando tantos rumores de corrupção que o ministro foi preso. Cuidado com aquilo que você simboliza com sua nova moradia!

Voltemos mais. O imperador Nero tinha decidido fazer um palácio novo e suntuoso: a Domus Aurea. Foi um dos muitos motivos da sua impopularidade e de seu fim trágico. O presidente Lincoln quase rompeu o casamento, pois sua esposa resolveu fazer mudanças na Casa Branca, em plena Guerra Civil. Milhares morrendo e ela pensando em cortinas novas… Reformas podem desgastar matrimônios.

Dizem que os custos da nova Basílica de São Pedro, em Roma, foram um dos motivos para a ruptura liderada por Lutero. Seria correto pensar que manter a velha basílica teria conservado a unidade da Igreja? Uma obra causou um cisma? Religiões e famílias podem dividir-se entre canteiros de cal e cimento.

Obras podem durar um pouco mais do que o previsto. A catedral de Colônia serve de consolo para o novo piso da sua cozinha estar tão arrastado: começou no século 12 e terminou em 1880. Foram mais de 630 anos de idas e vindas. Minha amiga empreendedora e meu amigo, com ímpetos de construção: consolados?

O esforço pela nova catedral de Siena foi interrompido pela Peste Negra. No Mosteiro da Batalha, em Portugal, há as chamadas “capelas imperfeitas”, inacabadas, por motivos variados. No mesmo país, o rei d. José fez um novo teatro de ópera moderno e suntuoso. Mal inaugurado, veio abaixo com o terremoto de 1755. Em função do mesmo desastre natural, a igreja do Carmo ainda é uma ruína em Lisboa.

Como vimos em pinceladas históricas, obras podem detonar carreiras, afundar dinastias e consumir tesouros. O tempo da reforma ou da construção é sempre muito superior ao previsto. O orçamento com que principiamos o sonho, quase sempre, fica aquém do inflado custo final. Ao final, com sorte, você tem uma casa reformada (ou construída) e uma família desgastada sobre um patrimônio dilapidado gravemente.

Em resumo, minha amiga reformadora e meu amigo construtor-leitor que me leem: pensem muito antes de construir ou reformar. Os desafios são inúmeros, o mundo é mutável, a terra treme, os outros invejam, a verba termina, os projetos soçobram e a ideia original naufraga. Pior, quase sempre desperta um fascista adormecido em muitas pessoas ao lidarem com mão de obra.

Em geral, ao começar a reforma, exaltamos a evolução das leis trabalhistas e as novas ideias de dignidade do trabalho. Ao final, nossa simpatia está, no mínimo, menor, quando não agressivamente inimiga da espécie humana. O papel de parede descolou? Cole você mesmo. A parede poderia ser derrubada? Imagine que ela possa ser estrutural e está, ali, há tanto tempo feliz.

Contrariando tudo o que eu disse até aqui, estava comprando algumas coisas em uma loja de materiais de construção, em São Paulo. Vi uma novidade: o passeio na loja era um animado programa familiar. As pessoas estavam felizes, discutindo compras em carrinho. Porém, reconheço, a História registra mais Luís XIV e seu ministro do que o cidadão comum que estava pintando com cal a parede da sua casa. Em outros recortes, a reforma pode ser um projeto de unidade familiar e até fazer surgir um passeio feliz em um sábado à tarde na Marginal do Tietê.

Para encerrar a reflexão, lembrei-me da frase de uma amiga psicóloga que talvez seja válida para reis e plebeus ao encararem uma obra. Ela dizia, sem base científica absoluta: “Em casa sem a existência de sexo regular, as pessoas fazem obra o tempo todo”. Será? Fica o desafio para pensar sua obra, a esperança de finalizá-la ou suspendê-la com luxúria.

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

EVITE FICAR MUITO TEMPO SENTADO NO VASO SANITÁRIO

Deixe o celular de lado: especialistas alertam que o hábito pode causar hemorroidas

Atire a primeira pedra quem nunca ficou mais tempo do que deveria sentado no vaso sanitário olhando mensagens no celular, lendo notícias ou se divertindo com vídeos da internet. Pode até ser um momento de relaxamento, mas especialistas alertam que o hábito bastante comum pode ser prejudicial à saúde e causar hemorroidas.

“O hábito de ficar sentado no vaso sanitário por períodos prolongados pode aumentar a pressão nos coxins hemorroidários e, com o tempo, acabar fazendo com que suas veias e artérias aumentem de tamanho, tornando­ os sintomáticos, e é aí que está o problema”, informa o médico coloproctologista Lucas Bancerli Vinhas.

“Hemorroidas são estruturas anatômicas e que todos temos no ânus. São “coxins vasculares” que, em algumas situações, podem aumentar de tamanho e se tornarem sintomáticos. Assim se forma a doença hemorroidária, que afeta homens e mulheres.

“Apesar de não termos dados tão específicos da população brasileira, a doença hemorroidária certamente é um dos problemas mais comuns no consultório do coloproctologista”, continua o especialista. Segundo ele, os principais sintomas são sangramento, prolapso ou inchaço das hemorroidas, dor ou coceira anal.

As principais causas para o problema são a constipação intestinal, idade avançada e situações que gerem aumento da pressão abdominal, explica Vinhas. “E, consequentemente, torne esses vasos ingurgitados (inchados) e aumentem de tamanho, como: gestação, esforço físico e permanecer sentado por muito tempo, que é o caso de quem fica muitas horas no vaso sanitário, por exemplo”, destaca.

QUAL O TEMPO IDEAL?

 De acordo com Vinhas, não existe um dado na literatura científica que determine o tempo máximo de permanência sentado no vaso sanitário. “Recomendo aos pacientes que se sentem no vaso sanitário no momento em que estiverem com vontade mesmo, não ir antes e ficar se distraindo no celular, por exemplo. E logo depois que terminar, já fazer a higienização com ducha higiênica ou tomar banho, não ficar assentado se distraindo sem necessidade”, ressalta.

PREVENÇÃO E TRATAMENTOS

A doença hemorroidária tem diversas opções de tratamentos. ”Cirúrgicos ou não, e em caso de sintomas como sangramento, sensação de inchaço, dor ou coceira anal, o paciente deve procurar um coloproctologista para o diagnóstico preciso e a escolha do melhor tipo de tratamento”, alerta o médico.

Se quisermos evitar o surgimento ou mesmo a progressão da doença hemorroidária, devemos manter o nosso intestino saudável com um consumo adequado de fibras e líquidos, destaca o coloproctologista, associado a uma rotina de exercícios físicos.

“Além disso, é preciso evitar condições que ocasionem trauma local como o uso de papel para realizar a higiene local após evacuar (que idealmente deve ser realizada com ducha, bidê ou banho) e, finalmente, evitar permanecer sentado no vaso sanitário por longos períodos”, completa.

A coloproctologista Cristiane Koizimi Mamos Fernandes alerta que a doença hemorroidária tem tratamento, e começa com mudanças de hábitos de vida. Entre eles estão o aumento da ingestão de fibras dietéticas, como verduras, folhas, legumes crus, cercais e frutas; aumento da hidratação oral; atividades físicas regulares; assim como evitar ficar sentado no vaso sanitário por muito tempo.

Ela diz ainda que, se for preciso, é importante tratar com medicamentos ou mesmo com procedimentos realizados no consultório, como a ligadura elástica, ou até cirurgia (hemorroidectomia).

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NO QUE OS PAIS FALHAM AO LIDAR COM O SEXTING DOS FILHOS

Não adianta adotar um tom simplista e apenas dizer ‘ não’. É importante, advertem os estudiosos, saber ouvir e fazê-los falar

O sexting – compartilhamento digital de textos e imagens de conteúdo sexual explícito – está inextricavelmente entrelaçado à cultura da vida adolescente e vem se tomando cada vez mais comum e complexo nos últimos anos. No entanto, muitos pais e mães ainda adotam a abordagem simplista de dizer aos filhos: “Só digo não”.

Isso é um erro, de acordo com Carrie James e Emily Weinstein, pesquisadores de Harvard e coautoras de Behind Their Screens What Teens Are Facing (and Adults Are Missing), algo como Por Trás das Telinhas: O que os Jovens Estão Fazendo – e os Adultos não Estão Percebendo). “Dizer “não faça sexting” acaba com a conversa”, disse James. E, quando se trata de nudes, há muito para adolescentes, pais e mães conversarem. Em sua pesquisa, ela e Weinstein descobriram que adolescentes fazem sexting por vários motivos, alguns dos quais podem não ter ocorrido aos adultos, e que as garotas estão criando estratégias sofisticadas para desencorajar o vazamento de nudes.

“Uma das coisas que encontramos em nossas conversas com adolescentes é que muitos dos dilemas em torno do sexting são bem complicados”, cotou Weinstein, que, junto com James, é pesquisadora do Projeto Zero de Harvard, que explora temas em educação. “Se não estabelecermos essas conversas com os adolescentes, não os estaremos equipando para lidar com as pressões que estão enfrentando”. A seguir, o que pais e mães precisam saber sobre sexting e como conversar a respeito com os adolescentes.

É COMUM

Uma meta-análise de 2018 sobre pesquisas feitas antes de junho de 2016 mostra que cerca de 15% dos adolescentes haviam mandado mensagem de conteúdo sexual, 27% tinham recebido e 12% encaminhado sem consentimento. Outra de 2021 sobre estudos entre 2016 e o início de 2020 descobriu que 19% dos adolescentes haviam mandado essas mensagens, 35%, recebido e 15%, encaminhado sem consentimento.

Ambas, no entanto, analisaram estudos feitos antes da pandemia – e os lockdowns supostamente provocaram um aumento do sexting. De fato, isso se tornou uma preocupação tão grande que especialistas têm defendido incluí-lo nos currículos de educação sexual, descriminalizar o sexting consensual entre adolescentes e ensinar “sexting seguro”, aconselhando a excluir metadados, nunca fotografar o rosto ou características corporais.

É C0MPLICADO

Algumas das garotas com quem Weinstein e James conversaram em grupos de aconselhamento atuaram para reduzir as possibilidades de vazamento de seus nudes. Por exemplo, sobrepondo marcas d’água nas imagens com o nome do garoto a quem estavam enviando as fotos. Ou, em vez de enviar um nude, mandavam uma imagem do Google, capturando o resultado da pesquisa para mostrar que o corpo na foto não era delas, se a imagem fosse repassada. ”Carrie e eu ficamos pensando, porque nos dar esse trabalho todo? Porque não dizer simplesmente ‘não vou enviar foto para você’?”, questionou Weinstein. “E começamos a ver isso como uma espécie de tática de sobrevivência.”

Outra coisa que talvez não seja óbvia para pais e mães é a definição de sexting hoje. “Tendemos a usar uma palavra como sexting para pensar um tipo de situação na qual um garoto está pedindo nude a uma garota e ela precisa tomar uma decisão”, avaliou James. Mas uma meta análise de 2018 descobriu que a pesquisa sobre diferenças de gênero no envio de mensagens de conteúdo sexual é inconclusiva. E as pesquisas de James e Weinstein mostram que os jovens fazem sexting com uma ampla gama de pessoas por variadas razões. Eles às vezes acham o sexting excitante. Àsvezes, podem usá-lo para mostrar interesse por alguém. Em alguns casos, adolescentes mais velhos tiveram experiências de sexting em relacionamentos consensuais e de confiança. Eles qualificaram as advertências dos adultos sobre o sexting de “sem noção”.

As pesquisadoras também observaram que a comunicação digital íntima pode ser uma opção importante para jovens LGBT+ que estão explorando sua sexualidade e talvez não estejam prontos para fazê-lo em público.

Mas há muitos cenários em que os jovens fazem sexting sob pressão. Entre eles: estar sob ameaça ou coação para enviar a mensagem; ou não querer ferir os sentimentos de alguém.

Alguns dos cenários surpreenderam as pesquisadoras. Por exemplo, os pedidos de nudes de pessoas que eles veem só como amigos. Shelley Rutledge, psicóloga do Oregon, testemunhou o mesmo comportamento. Integrante de uma equipe de apoio a alunos, ela recomenda prepará-los para lidar com solicitações de imagens inadequadas assim que começam a usar a tecnologia. Não é uma situação única, contou ela. Pais e mães precisam monitorar a situação com frequência e trabalhar as “habilidades de recusa”.

Pais e mães também precisam entender que o compartilhamento consensual de imagens íntimas entre adolescentes não é mais visto como inapropriado para o desenvolvimento, afirmou Rutledge. Portanto, não é incomum que jovens de 13 a 18 anos estejam interessados no tema. No entanto, adolescentes são impulsivos e talvez não tenham capacidade de entender as consequências de suas ações ou acreditem na ideia de que suas experiências são únicas e que coisas ruins não vão acontecer com eles.

CONVERSANDO COM ADOLESCENTES

Então, como pais e mães podem descobrir o que está acontecendo no ambiente digital de seus filhos e conversar a respeito? Weinstein, James e Rutledge recomendam fazer perguntas abertas, evitando julgamentos e mantendo uma atitude de curiosidade. Por exemplo, você pode perguntar como é o sexting na escola, ou se os amigos de seus filhos estão falando sobre sexting.

Também é importante entender qual é a função do sexting para os adolescentes, observou Rutledge. Eles são tentados a fazer sexting porque querem fazer parte do grupo, salvar um a amizade? No caso, você pode trazer a conversa para o campo dos valores. Mas não basta ensinar os adolescentes a se defenderem de propostas sexuais inadequadas. Pais e mães também precisam dizer aos adolescentes porque não é seguro ou apropriado solicitar fotos. “Todos os gêneros pedem, todos os gêneros consentem, todos os gêneros podem explorar, todos os gêneros podem ser explorados”, concluiu Rutledge. “O importante é garantir que estamos tendo conversas inclusivas, explicando por que não é seguro oferecer uma imagem, mas também por que é muito, muito injusto pedir uma imagem.”

Finalmente, pais e mães devem assegurar aos filhos que eles podem pedir ajuda se o sexting der errado. Esta é outra razão, aponta Rutledge, pela qual é importante adotar uma abordagem calma, sem julgamento. Porque, no fim das contas, quando nossos filhos fazem uma má escolha ou estão sendo explorados e prejudicados, queremos que eles venham até nós.

OUTROS OLHARES

USUÁRIOS DE APPS DE RELACIONAMENTO RELATAM EXAUSTÃO MENTAL POR BUSCAS

Aniversário de 10 anos do Tinder levanta discussão sobre os impactos emocionais da procura por um par em plataformas

Abby, de 28 anos, está em aplicativos de namoro há oito. Como uma usuária comprometida, ela pode facilmente passar duas ou mais horas por dia acumulando matches, trocando mensagens e planejando encontros com homens que parecem promissores. Mas, na verdade, ela superou tudo: as buscas, as conversas monótonas e a dúvida que surge quando uma das combinações fracassa. Nem um único relacionamento de longo prazo floresceu de seus esforços. No entanto, apesar de tudo – o tempo, o tédio e as preocupações com a segurança – Abby se sente compelida a continuar tentando, impulsionada por uma mistura de otimismo e medo de que, se ela se desconectar, perderá a chance de conhecer alguém incrível. “Eu me sinto esgotada.”

O Tinder completou 10 anos em setembro, provocando um momento de reflexão coletiva sobre como os aplicativos remodelaram não apenas a cultura do namoro, mas também a vida emocional de quem os utiliza. Como Abby, muitos usuários assíduos dizem que anos de varredura e pesquisa os deixaram com um caso grave de esgotamento – uma palavra da moda, não clínica, emprestada da psicologia do local de trabalho que foi estendida a tópicos como paternidade e zoom. Como observou recentemente um artigo do The New York Times, as pessoas que sofrem com o esgotamento tendem a se sentir estressadas e cínicas. Para alguns, a única opção real é sair dos aplicativos de namoro; para outros, trata-se de encontrar pequenas formas de estabelecer limites.

“As pessoas simplesmente cansam. Elas ficam sobrecarregadas com todo o processo”, diz Helen Fisher, antropóloga biológica que é pesquisadora sênior do Instituto Kinsey e consultora científica do site de relacionamento Match.com.

EXPERIÊNCIA POSITIVA

Nem todas, claro. Uma pesquisa do Pew Research Center de 2020 descobriu que 12% dos americanos se casaram ou tiveram um relacionamento sério com alguém que conheceram online, enquanto 57% daqueles que disseram ter tentado um aplicativo de namoro contaram que a experiência foi positiva.

“Acho importante ter em mente que a dinâmica da saúde mental em aplicativos de conexão varia muito de indivíduo para indivíduo”, pontua Jack Turban, professor assistente de psiquiatria infantil e adolescente da Universidade da Califórnia, em São Francisco, que pesquisa gênero e sexualidade.

Segundo ele, os impactos na saúde mental dos aplicativos de namoro foram pouco estudados, mas muitas pessoas os usaram para encontrar comunidade e conexão com sucesso.

No entanto, há evidências de que a exaustão pode ser comum. Uma pesquisa de abril, com 500 pessoas, de 18 a 54 anos, feita pela empresa de análise de dados Singles Reports concluiu que quase 80% disseram que experimentaram desgaste emocional ou fadiga com o namoro online. Em 2016, a Match incluiu uma pergunta sobre fadiga em sua pesquisa anual com 5 mil americanos solteiros, onde cerca da metade dos entrevistados disseram que estavam esgotados com a vida amorosa.

“Depois de uma década de buscas infrutíferas, comecei a me perguntar: o que todo esse tempo, todo esse esforço, todo esse dinheiro, realmente me deu?”, questiona Shani Silver, de 40 anos, podcaster e autora do livro “A Single Revolution” (“Uma Revolução Solteira”, traduzida do inglês), cujo trabalho se concentra em mudar narrativas sociais negativas sobre ser solteiro.

Ela decidiu que esses aplicativos haviam tomado seu tempo, dinheiro e energia, sem lhe dar nada em troca. Então, em 26 de janeiro de 2019, Silver excluiu os apps de relacionamento de seu celular, uma decisão descrita por ela como uma espécie de epifania, que foi a “culminância de uma década de miséria”.

A melhora em seu humor e níveis de energia foi rápida e profunda. Antes de excluir os aplicativos, ela passava os momentos de inatividade deslizando perfis no celular; depois, ela descobriu que tinha tempo durante todo o dia para descansar. Ela percebeu que estava sentindo raiva e ressentimento em relação à felicidade dos outros, além de estar emocionalmente, mentalmente e fisicamente esgotada por existir em um estado de constante antecipação.

“Imagine esperar receber algo bom por anos”, diz Silver. “Viver nesse estado de “qualquer dia” por um período de tempo extremamente longo é incrivelmente insalubre.

Mas Turban acredita que simplesmente excluir os aplicativos não é suficiente.

“É importante entender por que os aplicativos estão causando problemas para você”, afirma ele, acrescentando que terapeutas podem ser úteis para ajudar a responder as seguintes questões. “Você tem medo de não conseguir o amor, então está se contentando com conexões, isso está te deixando infeliz? Além de examinar por que os aplicativos estão gerando sentimentos de insatisfação, também existem estratégias que os usuários podem tentar para se sentir menos esgotados enquanto permanecem online, uma delas pode ser simplesmente desacelerar e conversar com menos pessoas ao mesmo tempo.

Fisher recomenda que os usuários parem de conversar com outros pretendentes assim que encontrarem nove pessoas com as quais sentem algum nível de conexão e dediquem seu tempo realmente tentando conhecer essas primeiro. Ela aponta para pesquisas que sugerem que os sistemas de memória de curto prazo das pessoas não podem lidar com mais de cinco a nove estímulos ao mesmo tempo. Fisher acredita que isso pode ajudar a decidir com quais pessoas vale a pena gastar tempo e energia para se encontrar na vida real.

GESTÃO E CARREIRA

MOVIMENTO DO ‘QUIET QUITTING’ VIRA DESAFIO PARA A ÁREA DE RH DAS EMPRESAS

Tema virou debate nas redes sociais e questiona o comportamento de ‘vestir a camisa’ sem reconhecimento

Nos últimos dias, o brasileiro passou a lidar com mais um termo em inglês decorrente das atualizações das relações no mercado de trabalho: quiet quitting. A tradução literal é “demissão silenciosa”, mas, na prática, visa refletir a postura de profissionais que refutam a “vestir a camisa” sem o devido reconhecimento em prol da qualidade de vida e preservação da saúde mental.

A ideia é fazer apenas o que foi acordado no momento da contratação. Parece simples, mas o tema virou debate nas redes sociais, com questionamentos a respeito das possíveis posturas que as empresas poderiam adotar diante das reclamações de esgotamento e exploração, potencializadas no contexto pós-pandemia da covid-19.

Surgido nos Estados Unidos, o quiet quitting éuma atualização de quitting-in-place (desistir sem sair do lugar). O movimento ganhou força no TikTok, onde a hashtag acumula mais de 75,9milhões de visualizações.

Trata-se basicamente da tentativa de redefinir as relações de trabalho, em confronto com a cultura da alta performance. “É sobre impor limites e priorizar a sua saúde, é pensar a vida para além da profissão. A gente não vive só para gerar rendimento, e ter consciência de classe é fundamental”, resume a gerente de projetos, Bianca Rati, de 26 anos, adepta da ideia.

GRANDE RENÚNCIA

Impulsionada pelas gerações Z e Millenials, a tendência chegou em meio à chamada grande renúncia (Great Resignation) – movimento nos Estados Unidos iniciado por jovens ao compartilhar a saída dos empregos nas redes sociais. Só em março deste ano, 4,5 milhões de trabalhadores pediram demissão, segundo dados do Departamento do Trabalho dos EUA.

No Brasil, a tradução gerou estranhamento e críticas. “A pessoa está fazendo corpo mole para ser demitida e receber o FGTS: não faz nem sentido esse comentário porque é um termo que vem da indústria do trabalho dos EUA, né? E lá eles não têm FGTS”, prossegue a curitibana.

Nota-se nos adeptos que, como home office no período pandêmico, houve um despertar pela busca por mais qualidade de vida profissional e familiar, especialmente no que diz respeito à saúde mental. “Essa valorização do ‘trabalhe enquanto eles dormem’ é adoecedora. A covid nos mostrou o quanto isso não vale a pena. Na hora da crise econômica, muitas pessoas foram demitidas sem a menor consideração”, diz Bianca. Segundo ela, esse é um sistema que te pede para dar 110%, porém, se faz isso, não sobra nada para você, sua família e amigos.

PRESSÃO POR RESULTADOS.

Criador da página Startup da Real – iniciativa que desde 2017 debate os bastidores do empreendedorismo -, Alberto Brandão, de 37 anos, concorda que a pressão das empresas para que os funcionários gerem resultados, muitas vezes, não é proporcional ao reconhecimento.

“É claro que, em certos momentos, todo mundo vai precisar ficar até tarde, resolver alguma pendência. É completamente tranquilo e compreensível. O que não dá é para fazer três horas extras todos os dias”, pondera. Para Brandão, a ideia não é prejudicar as empresas, mas, sim, estabelecer limites claros onde uma coisa “começa e termina”.

Na busca de entender os anseios dos trabalhadores no cenário pós-pandemia, em que questões até então relegadas ganharam destaques, a pesquisa Randstad Workmonitor, divulgada em abril de 2022, pela Randstad – empresa fundada em 1960 para trazer soluções e consultorias em recursos humanos – ouviu 35 mil profissionais.

A coleta de informações ocorreu em 34 países com pessoas entre 15 e 67 anos. Para os brasileiros, um ponto importante é flexibilidade. Enquanto ter mais liberdade em termos de localização é fundamental para 71% dos funcionários em nível global, no Brasil o índice é de 85%.

Nessa linha, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional representou para 97% o aspecto fundamental na hora de decidir pela permanência ou mudança de trabalho – contra 94% do global. Além disso, 41% dos profissionais no País (versus 34% global) afirmaram que sairiam de um emprego que impactasse a rotina diária. Ou seja, o pensamento sobre quiet quitting jáestá presente na postura de muitas pessoas.

“A verdade é que as empresas não estão sendo pegas de surpresa; já estavam observando esse pico de desemprego. É uma reclamação constante da população mais qualificada; daqueles que têm ensino superior”, afirma Diogo Forghieri, diretor de Talent Solutions da Randstad Brasil.

PEDIDO DE DEMISSÃO

Levantamento da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, com dados do Caged, mostrou que entre janeiro e maio deste ano, 2,9 milhões de brasileiros pediram para deixar o serviço, maior número da série histórica iniciada em 2005. “Será cada vez mais difícil atrair talentos da nova geração com esse formato de exaustão mantido pelas companhias”, destaca o executivo.

Para Forghieri, as organizações precisam reescrever as regras do mercado, entendendo que os valores pessoais dos funcionários são pontos importantes, e não “uma onda passageira”. “É necessário sentar e ouvir os incômodos. Não tentar adivinhar, nem reprimir. Criação de grupos de afinidades também é importante”, reforça.

Além disso, jornada reduzida, semana de quatro dias, horários flexíveis e sistema híbrido seriam alguns pontos a serem observados para ter impacto cada vez maior no bem­ estar da família, e não só do indivíduo.

Já a líder de Recursos Humanos da Sólides, empresa de RH para PMEs e gestão de pessoas, Távira Magalhães, defende que a precaução como mecanismo para evitar o quiet quitting. “As companhias devem entender o perfil comportamental dos seus funcionários, observando as atividades que realizam hoje. Isso evitaria o esgotamento.”

Contudo, para tratar a consequência, ela aposta na conversa ”clara e transparente”, em que o cenário de segurança psicológica esteja posto. “É o grande desafio. Cabe ao colaborador entender quais são seus desejos e expectativas, e ao empregador buscar oferecer condições justas para executarem as funções com mais desempenho e sem desgastes, além de um espaço confiável para poderem falar abertamente sobre o assumo.”

EU ACHO …

ANTI-NUTRICÍDIO

Você já passou pela angustiante sensação de ouvir seu estômago roncando de fome em algum momento do dia? Imagine, então, pessoas que vivem esta situação não como algo passageiro, mas como uma condição.

No Brasil de hoje, 6 em cada 10 famílias não têm acesso à comida. Ou seja, vivem algum tipo de insegurança alimentar. São mais de 30 milhões de pessoas nesta situação. A insegurança alimentar passou a ocupar cada vez mais as manchetes dos noticiários, resultado de uma crise econômica que tem levado milhões de pessoas a situações desumanas.

De acordo com o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, lançado em junho deste ano, a fome também tem cor. Cerca de 65% dos lares chefiados por pessoas pretas e pardas convivem com algum tipo de insegurança alimentar.

Além desse grande problema, a dificuldade de acesso a alimentos com alto valor nutricional é outra questão enfrentada por boa parte da população. Esse problema não é só do Brasil. Ele vem afetando pessoas em várias partes do planeta, em diferentes escalas. Inclusive, o Dr. Llaila O Afrika cunhou um termo para se referir a ele: nutricídio. Ou genocídio alimentar.

Aqui não estou falando sobre comer um cachorro-quente, um biscoito recheado ou outros alimentos embalados, processados e pouco saudáveis de vez em quando. Refiro-me em substituir refeições inteiras, que teriam porções de legumes e verduras, por falta de acesso a opções e informações sobre aquelas que são mais saudáveis. O aumento no preço dos alimentos, especialmente, os in natura, como legumes e verduras, o crescimento de ultraprocessados nas prateleiras dos mercado se o aumento da quantidade de agrotóxicos permitida nos alimentos ajudaram no agravamento desse quadro de má nutrição.

Além disso, essa prática da substituição de alimentos por outros mais acessíveis ou do corte de refeições por falta de condições também apaga hábitos alimentícios.

É importante ressaltar que o ato de comer determinados pratos faz parte da nossa cultura. É parte da dignidade humana.

Também vemos nesse contexto um importante aumento da dependência da indústria farmacêutica, já que uma dieta precarizada facilita a manifestação de diversas doenças, como diabetes e hipertensão, por exemplo. É um ciclo que desencadeia outro.

Quando falamos em desertos alimentares, é preciso considerar também que não são todos os lugares que têm feiras, hortifrútis ou mercados bem pertinho.

Algo muito óbvio para alguns e pouco óbvio para tantos. São verdadeiros desertos de opções, obrigando a população desses locais a se deslocarem em busca de alimentos mais saudáveis ou consumir as opções mais próximas e baratas, que na maior parte das vezes é proveniente de fast foods.

Temos que lembrar que o nutricídio e os desertos alimentares não são problemas de ordem individual, mas sim coletiva, de saúde pública e que demandam políticas para que sejam resolvidos.

Você, assim como eu, também já deve estar cansado de precisar continuar batendo na mesma tecla de direitos tão básicos. Mas, infelizmente, precisaremos insistir nela enquanto for esta a realidade.

O acesso à alimentação adequada e à informação deve ser um direito garantido. Não podemos naturalizar a escassez e desigualdade como regras.

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

ESTAR BEM

CAMINHAR SÓ 2 MINUTOS DEPOIS DO ALMOÇO FAZ BEM

Um novo artigo sugere que é preciso muito menos exercido do que se pensava anteriormente para reduzir o açúcar no sangue depois de comer

Caminhar depois de uma refeição, diz a sabedoria popular, ajuda a esvaziar a mente e auxilia na digestão. Os cientistas também descobriram que caminhar 15 minutos após uma refeição pode reduzir os níveis de açúcar no sangue, o que ajudaria a evitar complicações como a diabete tipo 2. Mas, ao que parece, apenas alguns minutos de caminhada já podem ativar esses benefícios.

Em uma meta-análise, publicada recentemente na revista Sports Medicine, os pesquisadores analisaram os resultados de sete estudos que compararam os efeitos de sentar versus ficar em pé ou caminhar com relação à saúde do coração, incluindo níveis de insulina e açúcar no sangue. Eles descobriram que a caminhada leve após uma refeição, de apenas dois a cinco minutos, teve um impacto significativo na moderação dos níveis de açúcar no sangue. ”Cada pequena coisa que você fizer trará benefícios, mesmo que seja um pequeno passo”, disse o dr. Kershaw Patel, cardiologista preventivo do Houston Methodist Hospital, que não participou do estudo.

CAMINHADAS MUITO LEVES REDUZEM OS NÍVEIS DE AÇÚCAR

 Em cinco dos estudos que o artigo avaliou, nenhum dos participantes tinha pré-diabete ou diabete tipo 2. Os dois estudos restantes analisaram pessoas com e sem essas doenças. Os participantes tiveram de ficar em pé ou caminhar por dois a cinco minutos a cada 20 a 30 minutos ao longo de um dia inteiro.

Todos os sete estudos mostraram que apenas alguns minutos de caminhada leve após uma refeição foram suficientes para melhorar significativamente os níveis de açúcar no sangue em comparação com, digamos, sentar diante de uma mesa ou no sofá. Quando os participantes fizeram uma caminhada curta, seus níveis de açúcar no sangue subiram e caíram mais gradualmente.

Para pessoas com diabete, evitar flutuações agudas nos níveis de açúcar é um componente essencial no gerenciamento de sua doença. Também se acredita que picos e quedas nos níveis de açúcar no sangue podem contribuir para o desenvolvimento de diabete tipo 2.

Ficar em pé ajudou a baixar o açúcar no sangue, embora não tanto quanto a caminhada leve. “Ficar de pé trouxe um pequeno benefício”, contou Aidan Buffey, estudante de pós-graduação da Universidade de Limerick, na Irlanda, e autor do artigo. Comparado a sentar ou ficar em pé, “a caminhada leve foi urna intervenção superior”, ele garantiu.

Isso porque a caminhada leve requer um envolvimento mais ativo dos músculos do que ficar em pé e usa o combustível dos alimentos em um momento em que há muito circulando na corrente sanguínea. “Seus músculos vão absorver um pouco desse excesso de glicose”, explicou Jessie Inchauspé, autora do livro Glucose Revoltuion: The Life-Changing Power of Balance Your Blood Sugar.

“Você ainda comeu a mesma refeição, mas o impacto em seu corpo será menor”, ela acrescentou.

ANDAR DE 60 A 90 MINUTOS PODE SER AINDA MELHOR

Embora a caminhada leve a qualquer momento seja boa para a saúde, uma caminhada curta dentro de 60 a 90 minutos após uma refeição pode ser especialmente útil para minimizar os picos de açúcar no sangue, pois é quando esses níveis tendem a atingir o pico.

lnchauspé recomendou ainda levantar para fazer as tarefas domésticas ou achar outras maneiras de movimentar o corpo. Essa pequena quantidade de atividade também melhorará outras alterações na dieta que as pessoas podem estar fazendo para ajudar a controlar seus níveis de açúcar no sangue.

“Movimentar-se um pouco vale a pena e pode levar a mudanças mensuráveis, como esses estudos mostraram, em seus marcadores de saúde”, ensinou o dr. Enan Ashley, cardiologista da Universidade Stanford que não esteve associado ao estudo.

MINI CAMINHADAS SÃO MAIS PRÁTICAS NOS DIAS DE TRABALHO

 Buffey, cuja pesquisa se concentra em intervenções de atividade física em ambientes de trabalho, observou que uma mini caminhada de dois a três minutos é mais prática durante os dias de trabalho. As pessoas “não vão se levantar e correr em uma esteira ou correr pelo escritório”, ele adiantou, mas podem ir tomar um café ou dar um passeio pelo corredor.

Para as pessoas que trabalham em casa, ele sugeriu uma curta caminhada pelo quarteirão entre as reuniões do Zoom ou depois do almoço. Quanto mais normalizarmos as mini caminhadas durante os dias de trabalho, avaliou Buffey, mais viáveis elas serão. “Se você está em um ambiente rígido, é aí que as dificuldades podem surgir.”

Se você não pode tirar esses poucos minutos para dar uma caminhada, ressaltou Ashley, “ficar de pé vai te ajudar um pouco”. Os benefícios da atividade física nunca são tudo ou nada, concluiu Patel, mas existem em um continuum. “É um efeito gradual de mais atividade, saúde melhor”, completou. ”Cada passo adicional, cada levantada adicional ou caminhada rápida parece trazer um benefício”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

‘AS CINCO LINGUAGENS DO AMOR’ ACONSELHA CASAIS APÓS 30 ANOS

Livro escrito por Gary Chapman mostra como as pessoas dão e recebem afeto

Nem sempre foi assim. Houve uma época em que as palavras “amor” e “linguagem” raramente eram usadas juntas, e certamente não como uma locução. Então, três décadas atrás, Gary Chapman, pastor batista de 50 anos com doutorado em educação de adultos, introduziu o conceito ao mundo com seu livro seminal “As Cinco Linguagens do Amor: O Segredo do Amor Duradouro”.

Chapman explicou que as pessoas têm diferentes maneiras de expressar e entender o amor. Para fazer sua cara-metade sentir-se amada, é preciso simplesmente falar a linguagem dela. Como observa a introdução do livro:

Chapman baseou as cinco linguagens do amor nas evidências empíricas que descobriu enquanto trabalhava como conselheiro matrimonial por mais de 20 anos em sua igreja.

As linguagens são as palavras de afirmação (elogios verbais), tempo de qualidade (fazer alguma coisa juntos e ficar atento naquele momento), receber presentes (qualquer coisa, desde um buquê de flores até presentes mais significativos), prestar serviço (ajudar seu companheiro com tarefas ou preparar uma refeição) e toque físico (ficar de mãos dadas, fazer sexo e gestos de carinho).

Nos anos passados desde que o livro foi publicado, o termo “linguagem do amor” passou a ser usado tão livremente que se desligou de seu criador. Converteu-se num fenômeno cultural e foi introduzido como um indicativo de qualquer coisa que dá alegria a uma pessoa.

“Por mais que eu soubesse sobreas linguagens do amor, eu não conhecia a pessoa por trás delas”, comentou a humorista Kasey Borger, que, com seu noivo, James Folta, coescreveu uma lista satírica de novas linguagens do amor para o site de humor McSweeney’s (como “falar de como foi o trajeto até seu trabalho”). A explosão cultural foi inesperada para Chapman, que está com 80 anos hoje. “Estou tão surpreso quanto você”, ele disse em entrevista recente. Mas, apesar do entusiasmo todo, ele não crê que alguém tenha descoberto uma sexta linguagem do amor.

Um ano após se formar no Wheaton College, em 1960, Chapman se casou com Karolyn, que cresceu em China Grove, Carolina do Norte, como ele, e ia à mesma igreja. Quando eles se conheceram, Chapman estava saindo com a melhor amiga dela.

Em 1967 o casal se mudou para Winston-Salem, Carolina do Norte, onde ele tornou-se pastor e começou a dar aulas de educação adulta cobrindo conselhos práticos sobre temas como planejamento financeiro. Nesses cursos, ele falava do casamento e da família, e casais que estavam passando por dificuldades vinham lhe pedir conselhos. “Fui meio que empurrado para dar aconselhamento. Isso nem sequer constava dos meus deveres quando me tornei pastor”, afirma.

Chapman contou que, ao mesmo tempo em que em sua vida profissional ele ajudava outros casais, seu próprio casamento passava por momentos difíceis. Ele e Karolyn discutiam furiosamente sobre coisas sem importância. Karolyn, por exemplo, nunca fechava as gavetas e as portas de armários, e isso o irritava. E ela esperava que ele fizesse sua justa parcela das tarefas domésticas, coisa que Chapman não fazia.

“Eu dizia à Karolyn que ela estava bonita, que eu apreciava tudo que ela fazia. Repetia o tempo todo ‘te amo, te amo, te amo’”, ele contou. “Mas uma noite ela me disse: ‘Você não para de dizer que me ama, mas se me ama mesmo, por que não me ajuda?’”. Aquele foi o momento “eureca”: Chapman percebeu que aquilo que ele apreciava num relacionamento era receber elogios (ou palavras de afirmação), coisa que ele contou que recebera de seus pais quando era criança. Isso não tinha a mesma importância para sua esposa: ela valorizava atos de serviço.

Chapman notou que os casais que buscavam sua ajuda na igreja pareciam ter o mesmo problema: não sabiam como expressar amor de uma maneira que a outra pessoa apreciasse. Em um dos exemplos que ele incluiu no livro, uma mulher chegou à sala de atendimento dele frustrada porque seu marido vivia adiando o momento de pintar as paredes do quarto deles.

Ele, então, sugeriu: “Da próxima vez que seu marido fizer qualquer coisa boa, faça-lhe um elogio verbal. Se ele levar o lixo para fora, por exemplo, diga “Dan, quero que você saiba que eu realmente aprecio você levar o lixo para fora.” Três semanas depois a mulher voltou para dizer a Chapman que o plano funcionara. A linguagem de amor de seu marido era a das palavras gentis e afirmações positivas. O pastor batista foi juntando suas anotações feitas ao longo do tempo e procurando padrões que se repetissem. Descobriu que as coisas que a maioria das pessoas dizia querer de seus parceiros se enquadravam nas cinco categorias amplas sobre as quais ele escreveria em seu livro. E em outubro de 1992 nasceu “As Cinco Linguagens do Amor”. O livro teve pouca repercussão naquele primeiro ano, vendendo apenas cerca de 8.400 exemplares. Mas pouco a pouco, cada vez mais pessoas começaram a comprá-lo. “Meu editor me disse que o livro vende mais cópias a cada ano que passa”, comentou Chapman. De acordo com a editora, Moody Publishers, o livro já vendeu mais de 20 milhões de cópias (incluindo versões impressas, eletrônicas e em áudio).

Hoje existem meia dúzia de versões voltadas a públicos diversos, incluindo “As Cinco Linguagens do Amor para Homens”, “As Cinco Linguagens do Amor das Crianças”. Chapman apresenta um podcast semanal de uma hora de duração e também “Marriage Conferences”, seminários de um dia promovidos em igrejas espalhadas pelos Estados Unidos com a finalidade de ajudar casais a entenderem os elementos básicos das linguagens do amor. Cerca de mil pessoas assistiram à sua conferência mais recente, que aconteceu em Winston-Salem em abril deste ano. Ele criou um quis simples de múltipla escolha para ajudar as pessoas a entenderem sua própria linguagem do amor e a dos seus parceiros. Oprah Winfrey respondeu ao quis ao vivo quando ele compareceu ao “Oprah’s Lifeclass” em 2013. Questionada se ela apreciaria se seu parceiro a ajudasse a faxinar a casa, Oprah Winfrey parou para pensar. E então disse a Chapman, que estava sentado ao seu lado e achou graça da resposta: “Acho que faxinar a casa é o número um, dois e três das preliminares”.

Entre outros terapeutas conjugais destacados, as opiniões sobre o trabalho de Chapman se dividem. Julie Gottman, psicóloga clínica e co-fundadora do Instituto Gottman, de Seattle, disse que o livro de Chapman “pressupõe que as pessoas não sejam capazes de aprender maneiras diferentes de expressar o amor”.

“As categorias são superficiais e rígidas. As pessoas são muito mais flexíveis do que ‘As Cinco Linguagens do Amor’ supõe que sejam”, disse ela.

Gottman usou o toque físico como exemplo. Se uma pessoa se sente incomodada com a intimidade, ela disse que seria importante entender por que isso deixa a pessoa incomodada.

“Talvez ela tenha sido muito pouco tocada fisicamente na primeira infância ou talvez tenha sido tocada demais”, ela disse. “Talvez tenha sofrido abuso físico ou sexual.”

Contudo, ela disse, existem maneiras de introduzir alguém ao contato físico que ela sinta como sendo seguras, afetuosas e calorosas. O toque físico pode não ter sido a linguagem do amor daquela pessoa, mas pode se tornar sua linguagem. As pessoas podem evoluir em termos de como expressam e recebem amor. As cinco linguagens não são imutáveis.

Outra crítica feita ao trabalho de Chapman é que ele é baseado na observação de casais que o procuraram para buscar ajuda. Até agora há poucas evidências científicas que fundamentem seu trabalho. E sua formação acadêmica e seu doutorado são em antropologia e educação de adultos, não psicologia.

Para Orna Guralnik, a psicóloga principal da série “Couples Therapy”, a falta de evidências científicas não é um fator decisivo. “É o que chamamos de validade concreta: se não fosse útil para as pessoas, se não refletisse alguma coisa que tem importância, já teria desaparecido”, ela disse.

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