OUTROS OLHARES

MÃES QUE VALEM POR DOIS

País vê crescer total de bebês sem pai na certidão de nascimento

O mesmo Brasil que discute o direito ao aborto garantido por lei a meninas estupradas, tema que ganhou repercussão com a recente história da gravidez de uma criança de 11 anos no Sul, registra o maior número de bebês sem o nome do pai na certidão desde o primeiro semestre de 2018.

Os dados, levantados pelos Cartórios de Registro Civil do Brasil (Arpen), mostram que, no primeiro semestre deste ano, nasceram 1.313.088 bebês e, destes, 86.610 não tinham o nome do pai no documento. No mesmo período de 2018, foram 1.452.161 recém-nascidos, dós quais 78.798 ficaram sem o nome do pai. O total de registros monoparentais cresceu 1,2% em cinco anos, sobretudo pela negligência dos homens.

A constatação ganha ainda mais relevância quando se observa que 2022 teve, entre janeiro e junho, o menor número de nascimentos dos últimos quatro anos. Mesmo com a queda da natalidade, aumenta a legião de mães solo.

Sem ter apoio para cuidar de seu recém-nascido e com dificuldade de conseguir emprego, C., de 34 anos, que não se identifica porque também foi vítima de violência doméstica, sente o peso da solidão na maternidade. Após ter sido agredida ainda grávida e saído de casa, ela só teve como opção registrar o filho, hoje com 3 anos, apenas em seu nome, e criá-lo sozinha. Acolhida  na casa de amigos em Niterói, C conta que o pai da criança nunca mais procurou por ela ou pelo filho. Até hoje, o ex-companheiro não conhece a criança.

“Eu optei por não colocar o nome pela minha paz! pela paz do meu filho. É muito chato quando perguntam por que meu filho não tem o nome do pai. Sempre me olham como se eu tivesse feito a escolha errada do parceiro, e não que ele tivesse errado ao não assumir o pr6prio filho”, diz C., que não chegou a pedir uma medida protetiva por temer que o processo fosse demorado e dispendioso.

Na série histórica de janeiro a junho, o número de crianças sem o registro paterno só se aproxima das estatísticas de 2019, que eram as piores até o início deste ano. Naquele ano, 84.480 bebês, de um total de 1.464.025 nascimentos foram registrados apenas no nome da mãe. Em 2020, foram 77.863 crianças sem o pai na certidão e, em 2021, 82.203 recém-nascidos nessas condições.

MACHISMO ESTRUTURAL

Depois que o filho nasceu, C. passou a ter sucessivas vagas de emprego negadas. Sobrevivendo hoje de bicos como diarista e da venda de comida, o que lhe rende mensalmente cerca de RS 600, ela conta que só consegue manter a família graças a doações e à ajuda do amigo que a acolheu há três anos. O filho o chama de pai.

“Quando eu fugi, tive que abandonar meu emprego, passei a gravidez desempregada e ainda hoje ninguém me contrata, com medo de eu faltar por causa do meu filho. Parece que está ainda mais fácil para os homens abandonarem as crianças e não partilharem dos cuidados.”

Professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisadora sobre desigualdade de gênero e estrutura familiar, Felícia Picanço observa que o fenômeno da omissão paterna nos registros de nascimento precisa ser estudado com mais profundidade. Ela acredita, entretanto, que as estatísticas preocupantes podem estar relacionadas ao agravamento da crise econômica e ao fortalecimento do conservadorismo social.

“Ao mesmo tempo que o pai considera a família um pilar importante, alguns homens só assumem filhos concebidos dentro de casamentos tradicionais. Outros, nem isso. A hierarquização de gênero, que sobrecarrega a mulher e a coloca como obrigada a cuidar das tarefas domésticas e dos filhos, é a mesma que protege os homens, relativizando o abandono e a falta de responsabilidade na divisão de tarefas”, explica.

Desde 2012, o Conselho Nacional de Justiça permite que o reconhecimento de paternidade seja feito diretamente em Cartório de Registro Civil, sem a necessidade de decisão judicial quando há acordo entre as partes. Quando a iniciativa parte do próprio pai, basta que ele compareça ao cartório com a cópia da certidão de nascimento do filho e a autorização da mãe ou do próprio filho, caso ele seja maior de idade. Segundo dados da Arpen, no primeiro semestre deste ano, 14.620 pessoas receberam o nome do pai em suas certidões de nascimento, que foram retificadas seja por iniciativa voluntária do pai biológico ou por registro de paternidade socioafetiva. Essa última situação acontece quando uma outra pessoa assume o papel de se tornar o responsável pela criança por motivação afetiva, mesmo sem vínculo de sangue.

PRESENÇA TARDIA

A administradora Priscila Batista, de 29 anos, foi procurada no ano passado pelo pai de seu filho, hoje com 8 anos para fazer o reconhecimento parental. Ele disse que se arrependeu  de ter abandonado a criança, quando ela ainda estava na barriga da mãe. Na época em que Priscila engravidou, o ex-companheiro se recusou a assumir o filho e foi morar em outro estado. A administradora foi à Justiça exigir pagamento de pensão, mas após três anos de espera, desistiu do processo. O encontro entre pai e filho só aconteceu quando o registro foi feito.

“Um pouco de dinheiro ajudaria, mas não teria nenhum tipo de afeto, que éo que realmente meu filho precisava. Por isso, desisti. Para a família dele, eu ainda devo ter saído como errada, porque somos julgadas o tempo todo. Hoje meu filho tem contato com ele, mas não o chama de pai. A ideia de que mulher precisa ser forte é muito romântica. Eu me sinto cansada às vezes, apesar de contar com a minha família”, admite Priscila.

Priscila viveu a situação duas vezes. Quando a filha caçula de 2 anos nasceu, a menina recebeu apenas o seu sobrenome, de acordo com ela, porque o então companheiro, de um segundo relacionamento, alegou “não estar pronto” para exercer a paternidade:

“Ele inicialmente não quis. Meses após o nascimento, disse estar arrependido. Hoje é totalmente presente na vida dela. Mas é triste saber que mulheres ainda precisam quase implorar para que o pai seja um pai de verdade”, desabafa Priscila, que faz parte de um grupo com mais de 30 mil mães solo no Facebook, que se juntaram para se ajudar e trocar experiências.

Na visão da pesquisadora do departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo, Marilia Moschkovich, apesar de o Brasil ter avançado em leis que facilitem o registro parental, elas não garantem que os homens passarão a exercer a paternidade e as mulheres ficarão menos sobrecarregadas. Segundo a especialista, o reconhecimento do filho é importante, mas é fundamental amparo social para que as mães solo contem com estrutura para cuidar dos filhos.

“Hoje há um certo fetichismo de que tudo se resolve com legislação. Mas há coisas, como o desejo, que a lei não é capaz de dar conta. A briga para exigir deveres de paternidade a  homens  que engravidam mulheres só faz sentido hoje porque existe pobreza, porque não há alimentação universal popular, porque não há transporte público gratuito para todos, porque faltam vagas em creches, não existe nenhuma política séria de educação sexual, e porque o aborto não é legalizado”, conclui.

GESTÃO E CARREIRA

O QUE O EMPREENDEDOR PRECISA SABER ANTES DE ABRIR SEU NEGÓCIO

O planejamento passa por questões básicas, como separar contas pessoal e profissional, e pelo estudo profundo do setor de atuação

Pode parecer romântico ou até mesmo poético, mas não é. Um aspirante a empreendedor quando começa a pensar na empresa que pretende montar precisa responder às seguintes perguntas, de acordo com os especialistas consultados pelo Estadão: Quem eu sou? Para onde vou? Como chego lá? O que eu gosto de fazer?

Partindo da última pergunta, é essencial saber o que a pessoa gosta de fazer, pois há uma tendência maior de o negócio dar certo se o indivíduo exerce algo que lhe satisfaça. O gerente de relacionamento com o cliente do Sebrae Ênio Pinto explica que existem alguns processos que podem ser segui- dos, antes mesmo de embarcar de vez nos negócios. Primeiro a pessoa pode listar o que gosta de fazer e, dentro dos temas, avaliar onde é competente. “Onde eu sou melhor do que a média?”

A partir daí, deve-se estudar se existe demanda da comunidade para aquele produto ou serviço, ou seja, será que as pessoas pagariam por isso? Além disso, o ideal é sempre testar. “A recomendação é: sonhe grande, comece pequeno e cresça rápido”, diz Ênio. Antes de sair efetivamente para a rua ou de montar um ponto físico, faça um protótipo.

Se a pessoa gosta de cozinhar, ressalta ele, vale montar algo em casa, vender para vizinhos, dentro do próprio quintal. Isso ajuda a praticar habilidades e ver se pode dar certo. “No papel, a pessoa precisa fazer um plano de negócios e depois colocar na rua”, completa o gerente do Sebrae.

Essa etapa do plano de negócios é essencial para que uma estrutura seja montada. A professora do Senac São Paulo Giovana Cunto, que dá aulas em curso especializado em empreendedorismo para pequenos negócios, pondera que o plano é o que vai diminuir a distância entre o sonho do empreendedor e a implementação do negócio. A partir do momento que a pessoa consegue traçar um mapa do percurso que irá percorrer, descrevendo o passo a passo, é possível minimizar as chances de erro. Um bom plano de negócios, diz Giovana, aperfeiçoa a ideia, tornando-a clara. “Facilita a apresentação da empresa a sua equipe, aos fornecedores e potenciais clientes. Além de analisar os pontos fortes e fracos do negócio e avaliar o empreendimento por meio da comparação entre o que foi previsto e o que efetivamente foi realizado.”

PLANEJAR

Segundo Giovana, uma das dificuldades ao se tornar “pessoa jurídica” é o planejamento – ou a falta dele. Quando o empreendimento é iniciado por necessidade, e não por um desejo, como acontece em casos de demissões, por exemplo, o tempo para planejamento é escasso, e a pessoa física quer poder tirar o mais rapidamente possível um sustento daquele negócio.

Foi o que ocorreu com Pryscilla Tavares da Costa Matos, de 31 anos, e com o marido, Thiago Macedo da Costa, de 38 anos. Ele perdeu o emprego na pandemia, em meados de 2020, e ela, em 2021. Na mesma época, Pryscilla engravidou. Com tudo isso, decidiram empreender. Como já havia vendido salgados anteriormente para ter um complemento de renda, resolveu arriscar e começou a vender banoffees. “No primeiro momento, ensinei meu marido a fazer a torta e, quando eu também perdi o emprego, passei a trabalhar junto no negócio. Começou como necessidade, mas agora é a nossa única fonte de renda.”

Pryscilla já tinha feito um curso de confeitaria no Senac São Paulo, o que a ajudou para a confecção das tortas. Mas a produção não era nem de longe a maior dificuldade do início. Para ela, as partes administrativa e de marketing eram muito complicadas. Por isso, ela procurou outro curso na mesma entidade.

CURSOS

A educação continuada é outro ponto destacado por especialistas. O ideal é sempre ter uma capacitação que possa ser aplicada ao negócio que está sendo iniciado. Caso tenha montado um restaurante, por exemplo, não basta saber e gostar de cozinhar. É necessário fazer fluxo de caixa e separar as contas pessoais do empreendimento.

Esse empecilho apareceu na vida de Pryscilla. De início, ela não conseguia investir no negócio. O dinheiro das vendas era usado para despesas da casa. Mas, com os cursos que buscou e a experiência que foi adquirindo, os problemas foram sendo sanados. Hoje eles estão às vésperas de inaugurar um ponto físico em São Paulo.

Essa parte financeira acaba sendo um entrave na vida do empreendedor, tanto do negócio quanto no lado pessoal. Para o empreendimento, há duas possibilidades: pegar crédito ou arrumar um sócio.

Nos primeiros passos do empreendedor, o que acaba pesando muito é a insegurança pessoal. O vice-presidente de Canais e Novos Negócios da Contabilizei, Guilherme Soares, diz que muitas pessoas acabam desistindo do negócio porque a parte pessoal fica atrapalhada. “Nos primeiros três meses, a receita é irregular. Aí a pessoa se desespera e quer arrumar renda de qualquer forma. Uma dica é tentar se preparar para o período.”

DICAS PARA TER SUCESSO

GOSTAR DO TEMA

Uma das dicas é criar negócios com temas que satisfaçam o empreendedor, pois aumentam a chance de o negócio dar certo

PLANO DE NEGÓCIOS

Fazer um planejamento antes de colocar o empreendimento na rua é essencial para garantir o sucesso do negócio

EDUCAÇÃO CONTINUADA

É importante fazer cursos, se manter atualizado com as tendências e aprender sobre finanças

MERCADO

O empreendedor precisa conhecer os fornecedores, os clientes e os concorrentes

CONTAS BANCÁRIAS

Não misturar a conta da empresa com a pessoal

EU ACHO …

RASGANDO AS FOTOS

Depois de uma briga histórica, daquelas de não deixar coisa alguma em pé, você se vê completamente sozinha, o romance acabou. Ele não era nada daquilo que você pensava, é um cafajeste, um galinha, um insensível. Você corre até a cozinha, pega uma tesoura afiada, voa para seu quarto e, bufando de ódio, tira do armário a caixa com todas as fotos que vocês tiraram durante o namoro e (não faça isso, garota, você vai se arrepender, o cara fez parte da sua história, um dia esta raiva vai passar e você nem lembrará do rosto dele, vai querer recordá-lo, larga esta tesoura, não faz bobagem, me escu…) começa a picar bem picadinho todas as fotos em que aparecem juntos, menos aquela em que você está uma deusa – esta você vai cortar pela metade, e a parte em que ele aparece vai para o lixo, naturalmente.

Serviço feito. Nem mesmo um expert em quebra-cabeças de mil peças conseguiria juntar o olho direito com olho esquerdo daquele infeliz, as fotos viraram farinha, agora? Está se sentindo melhor?

Você está se sentindo um trapo. A dor da perda não se aplaca com um gesto extremado, e se o propósito era vingança, grande porcaria: o modelo fotográfico que f esquartejado segue inteirinho da silva tocando a vida dei não sentiu nem um arrepio quando você praticamente moeu seu sorriso lindo. Ele tinha um sorriso lindo, não tinha?

Você vai lembrar do sorriso, dos olhos, da boca ainda por muito tempo. Picotar fotos é só a materialização de um desejo: gostaríamos que certas pessoas saíssem da nossa vida instantaneamente, bastando pra isso uma tesourada. Mas o processo de despedida é bem mais lento e mais difícil. É preciso deixar o tempo agir. E o tempo age com mais parcimônia.

Mas alguém lá quer saber de parcimônia? Mulheres com o orgulho ferido seguirão mutilando seus álbuns de fotografia, arrancando cabeças e amputando casais que pareciam colados com superbonder. Uma pena aleijar assim o passado, mas, por outro lado, talvez seja conveniente deixar bem livre esse ímpeto destrutivo e o pouco apego às lembranças. Nenhum problema em descarregar nosso ódio num pedaço de papel. Sabe-se lá o que aconteceria se o engraçadinho aparecesse na nossa frente e nos encontrasse com uma tesoura na mão.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

DIETA RICA EM FRUTAS PODE AJUDAR A EVITAR DEPRESSÃO

Pesquisa britânica apontou que consumo de ao menos três porções diárias é capaz de aumentar bem-estar

Pessoas que comem frutas regularmente são menos propensas a relatarem sintomas de depressão. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica British Journal of Nutrition, que avaliou os impactos de hábitos alimentares na saúde mental. Os pesquisadores da Universidade de Aston, no Reino Unido, observaram ainda que o excesso de lanches salgados no dia a dia tem o efeito contrário: está associado a um número maior de queixas de ansiedade e mal-estar.

Para chegar às conclusões, os cientistas entrevistaram 428 participantes, de em média 40 anos, sobre os hábitos de consumo diários de frutas, vegetais e lanches salgados. Além disso, coletaram informações sobre a saúde psicológica dos voluntários, com relatos sobre sintomas de depressão, ansiedade e outros transtornos relacionados à mente.

Os participantes comiam, em média, duas porções de frutas por dia. Aqueles que se alimentavam com mais unidades relataram menos sintomas de depressão e registraram índices maiores de bem-estar, mostraram os resultados do estudo. O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), por exemplo, recomenda um consumo diário de cinco porções.

“Tanto as frutas quanto os vegetais são ricos em antioxidantes, fibras e micronutrientes essenciais que promovem a função cerebral ideal, mas esses nutrientes podem ser perdidos durante o cozimento. Como é mais provável que comamos frutas cruas, isso poderia explicar sua influência mais forte em nossa saúde psicológica”, explica a autora do estudo Nicola-Jayne Tuck, pesquisadora da universidade, em comunicado.

O trabalho não encontrou, no entanto, uma associação muito forte entre comer vegetais e uma melhora nos índices de saúde mental. No entanto, os responsáveis pelo estudo destacam que pesquisas anteriores já haviam mostrado que essa relação demanda um alto consumo dos alimentos, superior a cinco porções por dia, frequência que não foi atingida por um número significativo dos participantes.

NÃO RECOMENDADOS

Por outro lado, aqueles que se alimentavam com lanches salgados, como batatas fritas e salgadinhos, numa frequência de mais de três vezes por semana, registraram níveis mais elevados de ansiedade, depressão e estresse, e tiveram mais queixas de “lapsos mentais diários”, termo associado a falhas cognitivas durante tarefas do cotidiano. Segundo os pesquisadores, a ocorrência desses lapsos foi associada apenas ao consumo dos lanches, o que comprova a relação direta da dieta pobre em nutrientes com a piora da saúde mental. Eles explicam que um exemplo dessas falhas é quando esquecemos onde está determinado objeto ou não lembramos nomes de pessoas conhecidas.

“Muito pouco se sabe sobre como a dieta pode afetar a saúde mental e o bem-estar e, embora não tenhamos examinado diretamente a causalidade aqui, nossas descobertas podem sugerir que lanches frequentes em alimentos salgados pobres em nutrientes podem aumentar os lapsos mentais diários, o que, por sua vez, reduz a saúde psicológica”, diz Nicola-Jayne.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ELE É BI, E DAÍ?

Mulheres heterossexuais desafiam preconceitos ao se relacionarem com homens que também gostam de homens

Os influenciadores Daniela Choma, de 24 anos, e Alisson Candeo, de 28, construíram o que se costuma chamar de família perfeita: juntos há cinco anos, têm duas filhas, Jade, de 2 anos, e Aurora, de 3 meses, e somam mais de oito milhões de seguidores em suas redes. Um público que acompanha de perto os momentos de intimidade e um dia a dia cheio de cumplicidade e amor que marcam a vida do casal. Mas nem mesmo este cenário “tradicional” é capaz de validar o relacionamento deles para boa parte dos moradores de Irati, no interior do Paraná, cidade onde vivem. O problema? Alisson é pansexual, e antes de conhecer Daniela, se relacionava apenas com homens.

“Quando o conheci, ele se identificava como gay. Tínhamos os mesmos amigos, estávamos sempre nos mesmos lugares. Até que, em uma festa, começamos a brincar que éramos namorados, e rolou um flerte. Um dia, fui à casa dele e nos beijamos. A partir daí, nunca mais nos desgrudamos”, conta Dani, que é heterossexual.

As inseguranças quanto à sexualidade de Alisson, no entanto, surgiram no começo do namoro, muito por causa dos comentários de amigos e pessoas próximas. “Tive muitos relacionamentos que deram errado e pensava que ele poderia se apaixonar por um homem estando comigo. Nossos amigos colocavam isso na minha cabeça, dizendo que ele era gay, e que não seria agora que ficaria com uma mulher. Então, isso fez com que eu demorasse para querer ter algo mais sério. Foram muitas conversas até que eu me sentisse mais segura”, relata.

Ao mesmo tempo em que Daniela tentava entender seus sentimentos e a paixão por Alisson, ele viu a sua sexualidade e desejos ganharem novos contornos, algo longe de ser um processo fácil. “Foi uma confusão, porque tinha o sentimento de estar amando uma mulher e, desde criança, sempre tive um jeito mais efeminado. falavam: ‘Olha lá o viadinho!”, relembra o rapaz. “Quando superei essa fase, passei por cima dos preconceitos e consegui falar abertamente sobre ser gay. Ao conhecer a Dani, entendi que meu interesse era por pessoas.”

Com anos de namoro – e agora um casamento – , as expectativas foram alinhadas e ambos estão muito mais confiantes um no outro. Mesmo assim, Dani e Alisson afirmam que ainda escutam comentários preconceituosos. As pessoas invalidam a minha sexualidade como  se soubessem mais do que eu mesmo, como se fosse impossível eu amá-la e respeitá-la”, lamenta o rapaz.

Se falar sobre bissexualidade e pansexualidade parece ser tabu, inclusive dentro da própria comunidade LGBTQIA+, é tarefa ainda mais árdua para um homem declarar publicamente que sente atração por outros homens. De acordo com pesquisa inédita realizada em maio deste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a orientação sexual dos brasileiros, 2,9 milhões de pessoas ou 1,8% da população se identifica como homossexual ou bissexual: número menor do que a parcela de pessoas que não souberam ou quiseram responder à pesquisa, cerca de 3,4%.

Para o psiquiatra, professor e coordenador do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Instituto de Psiquiatra da USP, Alexandre Saadeh, os números são equivocados. “É muito abaixo do que a gente vê, do que a gente sabe, porque uma coisa é pesquisar nas grandes capitais; outra, é pesquisar no interior. Ainda tem o ponto que a sexualidade é vivida entre quatro paredes: para o mundo, é preciso ser cisgênero e heterossexual, e para o homem que se relaciona com outros homens, ainda existe aquela questão: quem é penetrado e quem penetra? Quem é o passivo e quem é o ativo? Essa é uma visão muito limitante, porque há outras maneiras de expressar a sexualidade e ter prazer. Então, para o homem bi, a coisa pesa muito mais”, comenta. “A bissexualidade é pouco validada e para que os outros entendam que não é só uma fase, é muito difícil”.

Apaixonada pelo fotógrafo Eric Solon, de 32 anos, a jornalista Isis Rangel, de 29, afirma sempre ter vivido num círculo de amigos “desconstruídos” e que o fato de o namorado ser bi nunca foi um problema. No entanto, precisou enfrentar, durante muito tempo, piadas e brincadeiras homofóbicas. “Já ouvi coisas do tipo ‘ele é viadinho, queima-rosca e outras coisas bem toscas. Mas, desde o começo, nosso relacionamento foi muito tranquilo. O que importa é a forma como ele me trata e o que sente por mim”, afirma a jovem.

Atualmente, os dois são casados e vivemem Santos, no Litoral paulista. “Muitas vezes, eu nem falo que sou bi porque não adianta”, afirma Eric, que opta por lidar com a questão de um jeito irônico. ” Digo: ‘Ah, sou um ser humano e gosto de pessoas’. Parece que as pessoas pensam que bi não existe. Acho que, para elas, o B (da sigla LGBTQIA.P+) é de biscoito.”

Segundo a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, a mentalidade patriarcal associa, há cinco mil anos, a masculinidade à heterossexualidade, fazendo com que o ideal de homem esteja atrelado a força, poder, ousadia, coragem e jamais se relacionar com outro homem.

“E isso faz com que homens bissexuais se reprimam muito. Se você olhar na história, vai ver que a relação de dois homens já foi crime, pecado, e no século XIX, a homossexualidade foi considerada uma doença. Então, é natural que um homem, mesmo sendo bissexual, tenha muito mais dificuldades do que as mulheres de se assumirem publicamente. Mas essa questão está evoluindo, e acredito que dentro de algum tempo, a bissexualidade será aceita com mais naturalidade.”

A recepcionista Laura Macedo (nome fictício a pedido da entrevistada), de 35 anos, conta que suas experiências sexuais e amorosas se restringiram, praticamente, apenas a homens bissexuais, por sempre circular pelo meio LGBTQIA+.

Ela diz se sentir atraída pelo fato de eles terem a “mente mais aberta” e por entenderem que ela preza bastante por sua liberdade. “Eles sabem conversar e têm uma abordagem melhor na hora de se aproximar. Fui casada durante seis anos e sempre tive a cabeça bem resolvida em relação a isso. O cara sendo bi ou hétero não importa, porque tudo depende do caráter. Já fui traída pela mesma pessoa com homem e mulher”, afirma.

Já o farmacêutico Mikley Souza de Oliveira, de 23 anos, entendeu que, após algumas relações com mulheres hétero, prefere mesmo as meninas que, assim como ele, também sejam bi. “O entendimento sempre foi mais simples, e eu não me sentia coagido. Sempre existe um achismo sobre como o homem bissexual se relaciona. A pessoa confunde, pensa que você vai ser promiscuo por causa da sua sexualidade. Quando conto para a menina que sou bi, parece que existe uma quebra de expectativa. Talvez, ela pense que não vou ser másculo o suficiente ou algo assim. Hoje, eu deixo minha sexualidade clara desde o início, para já saber se as coisas podem fluir ou não.”

OUTROS OLHARES

QUANDO FOI QUE OS PERFUMES DEIXARAM DE SER SOBRE SEXO?

Mensagens mais diretas e comuns há duas décadas são hoje inimagináveis. O que se busca agora é provocar uma forte conexão emocional

Quando um novo perfume Yves Saint Laurent saiu em 2001, Tom Ford, o diretor criativo da casa na época, deu uma festa sensacional na Bolsa de Paris, onde colocou um bando de modelos praticamente nus em um contêiner gigante de acrílico. A fragrância foi chamada Nu. Linda Wells, editora-chefe fundadora da Allure e também uma festeira, comparou a festa de Ford a um “aquário humano”, repleto de modelos “se contorcendo” em roupas íntimas. Era como uma piscina de bolinhas que se pode encontrar em uma festa de aniversário infantil, só que maior, abastecida com álcool e cheia de adultos quase nus.

“Eram todos esses corpos”, disse Wells. “Era toda essa carne. Era como uma orgia.”

Um evento como esse parece inimaginável hoje, e não só por- que o hedonismo descontrolado se tornou um tabu depois do #MeToo. O ideal de marketing mudou: a maioria dos designers e marcas não está usando sexo para vender perfume, e as pessoas não estão comprando perfume para fazer sexo.

Durante décadas, o marketing em torno do perfume fez da sedução uma prioridade. A fragrância era uma maneira engarrafada de ajudar alguém a encontrar um parceiro, uma construção que parece irrelevante já que agora temos aplicativos de namoro, uma maneira mais eficiente e consistente de encontrar um parceiro do que alguém sentir seu cheiro e se apaixonar por você.

“Parece realmente antiquado e meio ofensivo”, contou Wells.

“Agora todos nós pensamos: ‘Esse anunciante vai me dizer como devo me sentir ou que quero fazer sexo por causa de sua fragrância ou que quero me tornar um objeto por causa de sua fragrância?’.”

Hoje, as marcas falam sobre a fragrância em termos de lugares e como ela fará o usuário se sentir. Marcas de perfume menores e de nicho, como a Byredo ou Le Labo, são anunciadas como “gênero neutro”.

Essas marcas não jogam com construções de gênero desatualizadas e mensagens singulares sobre sexo e orientação sexual. Não é uma competição sobre que perfume é o mais sexy, é sobre qual deles pode provocar a conexão emocional mais forte. Segundo Rachel Herz, neurocientista e autora de The Scent of Desire: Discovering Our Enigmatic Sense of Smell, o perfume passou do marketing de “temas diretos” como poder ou sexo para encorajar uma “jornada pessoal”. Essa jornada pode ser sobre empoderamento ou sobre ser sua melhor versão, como o que a Glossier vende com o Glossier You. De acordo com seu site, o perfume “crescerá com você, não importa onde você esteja em sua evolução pessoal” porque “não é um produto acabado. Ele precisa de você”.

Outras fragrâncias levam os clientes a uma jornada diferente. O Harlem Nights, da World of Chris Collins, leva os usuários ao clima dos bares speakeasy com notas de almíscar e rum que evocam charutos, bebidas de alta qualidade e a vida noturna dos anos 1920. Então, quando o perfume deixou de ser sobre sexo?

IDEAIS DE GÊNERO

Tradicionalmente, os perfumes eram projetados para homens ou mulheres – raramente ambos – impulsionados por campanhas multimilionárias que retratavam normas tradicionais de gênero ou imagens hiper- sexualizadas. Você se lembra dos anúncios do Eternity da Calvin Klein dos anos 1980 com Christy Turlington e Ed Burns? E a campanha sensual de 2010 do Guilty da Gucci com Evan Rachel Wood e Chris Evans? Ambos parecem heteronormativos no clima cultural de hoje.

Uma geração mais jovem, com interpretações mais fluidas do que constitui gênero, orientação sexual e relacionamentos românticos, está liderando a conversa. “Gênero neutro” e “sem gênero” tornaram-se conceitos dominantes, integrais à moda.

Seguiu-se um aumento nas fragrâncias unissex e sem gênero. De fato, muitos dos rótulos de nicho e artesanais que ganharam amplo apelo nunca atribuíram gênero a suas fragrâncias. A Byredo comercializa seus perfumes como unissex desde que Ben Gorham fundou a linha em 2006. O mesmo vale para Le Labo, Escentric Molecules, D.S. & Durga, Malin + Goetz e Aesop. “Seu gênero, sua nacionalidade, sua orientação sexual – não importa”, afirmou Chris Collins, fundador e executivo-chefe da World of Chris Collins. Todos os 12 perfumes da marca são sem gênero. “Não deve haver distinção”, concluiu.

Para as potências globais de fragrâncias, gênero e romance ainda são essenciais para atrair o mainstream. Embora as campanhas publicitárias da Dior não sejam abertamente sexuais, a marca apresenta ideais femininos distintos por meio das campanhas da Miss Dior, que apresentam Natalie Portman desde 2011, bem como os anúncios dourados de J’Adore Dior, nos quais Charlize Theron encarnou uma deusa grega por 18 anos.

“O romance não está necessariamente ultrapassado”, avaliou Herz. São as representações do romance que estão mais abstratas, ela explicou, porque “as coisas são menos definidas heterossexualmente” do que há uma década.

POR QUE USAR PERFUME?

 Durante a pandemia, com lojas fechadas e formas limitadas de testar perfumes antes de comprar, Suzanne Sabo, 45, de Levittown, Pensilvânia, comprou perfumes “às cegas” para se agradar. A primeira fragrância que ela encomendou foi Jasmine Rouge do Tom Ford Beauty, que descobriu em um anúncio online. “Não havia nada de sensual ou sexual nisso”, lembrou Sabo, escritora bolsista de uma escola técnica. “Era tão básico. Era uma descrição do cheiro. Eu me senti uma nova mulher apenas usando o perfume, de moletom, em casa. Eu me senti valendo um milhão de dólares.” A coleção de fragrâncias Tom Ford de Sabo cresceu para incluir Lost Cherry, Soleil Blanc, White Suede e Bitter Peach. “Somos mães de classe média que estavam estressadas.”

Rachel ten Brink, sócia-geral da Red Bike Capital e fundadora da linha de perfumes Scent- bird, viu os clientes começarem a adotar essa mentalidade anos atrás. A principal resposta de uma pesquisa de 2015 perguntando aos clientes da Scentbird por que eles usavam fragrâncias foi “como elas me fazem sentir- me”. Atrair o sexo oposto era o número 6 ou 7.

Marcas menores e independentes costumam ser mais criativas em sua forma de fabricar perfumes, destacando ingredientes e notas individuais ou usando uma história para atrair clientes. As fragrâncias costumam ser mais fortes, mais ousa- das e mais caras do que nas lojas de departamento, sinônimo de “presente grátis com compra”. “Aromas artesanais sempre foram mais sobre o perfume, as notas e os ingredientes, e me- nos sobre a imagem”, disse Larissa Jensen, analista da indústria de beleza do NPD Group.

Frascos de fragrâncias com limões, laranjas ou lavanda são a “descrição visual” que atrai as pessoas, ela revelou. “Você não está olhando para um anúncio que tem apenas a bunda nua de um homem.”

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRA NA ÁREA FINANCEIRA – QUAIS SÃO AS NOVAS DEMANDAS?

Não há área mais demandada no mercado do que a de finanças. Responsável pela administração dos recursos financeiros da empresa, gestão de riscos, oportunidades, planejamento e resultados, se torna uma das mais importantes bases de sobrevivência de companhias dos mais diversos portes e segmentos. A contratação destes profissionais é uma necessidade constante no mundo corporativo – mas, ao mesmo tempo, custosa de ser mantida em alto nível de excelência.

Independente do regime político vigente no país ou atratividade do cenário econômico,  um bom executivo de finanças sempre será a peça-chave para o crescimento ou desmoronamento do negócio. Quando capaz de organizar um departamento saudável, será essencial para prover o capital necessário para que a companhia se mantenha competitiva no mercado, buscando obter receitas no curto, médio e longo prazo e, acima de tudo, como utilizar os recursos financeiros a favor da organização.

Em momentos de aquecimento econômico, é dever da área financeira gerir o fluxo de caixa viabilizando estratégias que alavanquem a companhia no mercado – seja pela firmação de parcerias comerciais, investimentos no desenvolvimento de novos projetos, ou outras ações focadas na otimização de processos e análise de produtividade.

Já em períodos econômicos instáveis, por sua vez, é de sua responsabilidade gerenciar as finanças em viés de contenção de ameaças, por meio do fechamento de operações, cortes orçamentais ou redução de custos necessários em quaisquer atividades ou times. Não à toa, a pandemia foi um dos maiores impulsionadores da necessidade de um departamento robusto de finanças nas empresas, de forma que conseguissem contingenciar, ao máximo, os impactos econômicos da crise na perpetuidade do negócio.

Ao longo de 2021, por exemplo, a busca por estes profissionais aumentou 80% em relação ao ano anterior, segundo dados compartilhados pela Wide. Em uma exigência notável, os critérios de avaliação de retenção destes talentos vêm se tornando cada vez mais seletivos – substituindo todos aqueles que não se demonstrarem preparados e capacitados para trazer melhores resultados neste momento crítico de recuperação econômica.

Muito mais do que ter o conhecimento, o profissional de finanças deve ser capaz de compreender profundamente o negócio, analisando as oscilações do mercado e quais ações tomar em meio a tamanha instabilidade para reter custos desnecessários e impedir o fechamento de portas da companhia. Ou, ainda, como utilizar esses fatores a favor da empresa, redirecionando investimentos nas áreas mais estratégias de diferenciação.

Aliado a essas capacidades, uma boa habilidade interpessoal também faz toda a diferença para um bom desempenho desses profissionais – uma vez que seu sucesso ou fracasso estará intensamente relacionado à qualidade comunicacional com seus colegas, outros times da empresa e parceiros de negócio, sejam eles atuais ou futuros. Quanto melhor for sua desenvoltura comportamental, mais fortes serão as relações profissionais construídas.

Gerenciar uma companhia em meio a uma legislação complexa e constantemente passível de mudanças é uma missão desafiadora – especialmente, em cenários de crise como o que estamos vivendo com a pandemia e, mais recentemente, os impactos da Guerra na Ucrânia. Mas, com o apoio de um profissional qualificado e preparado para lidar com tais impactos, os danos destes e de qualquer conflito na empresa serão imensamente reduzidos.

Não importa a época do ano ou cenário do mercado, as empresas sempre precisarão de profissionais de finanças qualificados para gerir e alavancar a companhia frente aos concorrentes. Para aqueles que desejam seguir essa jornada, é preciso se manter constantemente atualizado sobre as mudanças legislativas no país e, acima de tudo, prezar pela comunicação próxima com todas as equipes e parceiros. Assim, certamente estarão preparados para lidar com qualquer empecilho que possa colocar o sucesso da companhia em jogo.

*** RICARDO HAAG  – É sócio da Wide, consultoria boutique de recrutamento e seleção (https://wide.works/).

EU ACHO …

O SENTIDO DA VIDA

Não é nenhuma novidade que dinheiro, viagens, status, beleza e outras coisinhas mundanas são sonhos de consumo, mas não dão sentido à vida de ninguém. A única coisa que justifica nossa existência são as relações que a gente constrói. Só os afetos é que compensam a gente viver uma vida inteira sem saber de onde viemos e para onde vamos. Diante da pergunta enigmática – por que estamos aqui? -, só nos consola uma resposta: para dar e receber abraços, apoio, cumplicidade, para nos reconhecermos um no outro, para repartir nossas angústias, sonhos, delírios. Para amar, resumindo.

Piegas? Depende de como essa história é contada. Se é através de um power print – aqueles textinhos cheios de flores acompanhados de musiquinha romântica -, qualquer mensagem, por mais filosófica e genial que seja, fica piegas de doer. Mas se é através de um filme inteligente, sarcástico, tragicômico como Invasões bárbaras, o piegas passa à condição de arte.

O filme é uma continuação de O declínio do império americano. Naquele, um grupo de amigos se encontrava numa casa à beira de um lago e discutia sobre vida, morte, sexo, política, filosofia. Em Invasões bárbaras, esses mesmos amigos, quase 20 anos depois, se reencontram por causa da doença de um deles, que está com os dias contados. Descobrem que muitos dos seus ideais não vingaram, que muita coisa não saiu como o planejado, só o que sobrou mesmo foi a amizade entre eles. E a gente se pergunta: há algo mais nesta vida pra sobrar? Quando chegar a nossa hora, o que realmente terá valido a pena? Os rostos, nomes, risadas, pernas, beijos, olhares que nos fizeram felizes por variados e eternos instantes.

Pais e filhos, maridos e mulheres, amantes e amigos: são eles que sustentam a nossa aparente normalidade, são eles que estimulam a nossa funcionalidade social. Se não for por eles, se não houver um passado e um presente para com eles compartilhar, com que identidade continuaremos em frente, que história teremos para carregar, quem testemunhará que aqui estivemos? Só quem nos conhece a fundo pode compreender o que nos revira por dentro, qual foi o trajeto percorrido para chegarmos neste exato ponto em que estamos, neste estágio de assombro ou alegria ou desespero ou sei lá, você que sabe em que pé andam as coisas. Se não nos conheceram, se não nos desvendaram, se ninguém aplicou um raio X na gente, então não existimos, o sentido da vida foi nenhum.

Todas as pessoas querem deixar alguns vestígios para a posteridade. Deixar alguma marca. É a velha história do livro, do filho e da árvore, o trio que supostamente nos imortaliza. Filhos somem no mundo, árvores são cortadas, livros mofam em sebos. A única coisa que nos imortaliza – mesmo – é a memória de quem amou a gente.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

VERDADES E MENTIRAS DO ‘GLOW UP’, INVENTADO PARA MELHORAR SUA IMAGEM

O desafio do ‘antes’ e ‘depois’ nas redes, para revelar como sua aparência melhorou, pode ser apenas um jogo que não mostra quem você é

“Glow up.” Talvez você já tenha ouvido essa expressão, especialmente se anda percorrendo os vídeos do TikTok e outros. Tendência entre as blogueiras mundo afora e cada vez mais presente aqui do Brasil, o glow up se traduz em algo como adotar uma série de mudanças na sua rotina que podem “melhorar” sua aparência e estilo de vida.

“O glow up acabou se tornando um desafio nas redes sociais, nas quais diversos usuários consomem e viralizam esse desafio do ‘antes e depois’, para mostrar como você ‘evoluiu’ de aparência”, explica Liliah Angelini, executiva da WGSN, empresa líder em tendências de comportamento e consumo.

Começar a meditar, beber mais água, ficar de olho na alimentação e praticar mais exercícios são algumas das dicas que as influenciadoras dão para quem quer se sentir mais atraente e ter uma vida supostamente mais saudável em pouco tempo.

O problema da corrente é justamente que as “melhorias” prometidas com a rotina não são reais, como explica Luiza Voll, fundadora do Grupo Contente.vc, que analisa as relações na internet e atua por uma rede mais saudável para os usuários. “Os corpos, o estilo de vida e toda construção estética reforçada pelo glow up é, na maioria das vezes, impossível de se alcançar tendo uma rotina de cuidados comuns.”

De acordo com a influenciadora Marieli Mallmann, que conta com mais de 170 mil seguidores no Instagram, o glow up, como disseminado na internet, não passa de uma farsa. “Encontramos nas tendências e estéticas divulgadas na internet uma forma de fazer parte de algo e é por isso que é tão fácil cair no jogo de fingir e nos mostrar de forma diferente para o mundo – como gostaríamos de ser, não como realmente somos”, adverte.

Por esse motivo, Marieli deixou de fazer uso dos filtros para gravar conteúdos. “Chegamos a um ponto em que construímos cuidadosamente essa vida online que, às vezes, não tem nada a ver com nossas vidas reais. Desde 2020 eu não uso mais filtros de redes sociais. Nem mesmo os que alteram só as cores da imagem, que dirá os que alteram o meu rosto. Minha relação com minha imagem mudou muito.”

Para Luiza, é importante que o usuário entenda o limite entre querer se tornar mais saudável e se pressionar para se enquadrar em um padrão de beleza vigente. “A gente adora se cuidar e ver que com o tempo ganhamos aquele glow. Quem não quer aparentar sua melhor versão, ainda mais nas redes sociais? Mas precisamos observar se essas narrativas estão nos fazendo bem e nos divertindo, ou se estão ativando algum gatilho, alguma emoção incômoda demais”, diz.

CONTROVÉRSIAS

Quando postamos algo nas redes sociais, editamos, ajustamos e adaptamos para que a publicação represente a nossa melhor versão. Com o glow up não é diferente: disfarçadas de mudanças básicas na rotina estão o estabelecimento de padrões somente alcançáveis a partir de procedimentos estéticos caros, que vão muito além de beber água e dormir mais de oito horas por noite e esbarram em uma questão financeira.

Para a psicanalista Joana Novaes, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza PUC-Rio, o problema dessas tendências é que elas uniformizam o que é bonito e vendem a solução. “É necessário que todos nós nos mantenhamos insatisfeitos. E basta você consumir, comprar, parcelar práticas e uma série de produtos que te prometem a felicidade, a saúde perfeita, uma estética irretocável”, conta. Quando você não faz uso dessas “soluções”, parece que tem um problema. “Dessa forma, se cria uma massa de excluídos e um mercado que promete, através dessas práticas, inclusão social.”

Segundo Liliah Angelini, em uma sociedade baseada em imagens e repleta de preconceitos, o glow up se torna mais uma moeda social. “A questão é que apenas algumas pessoas podem acessá-lo e isso tem efeitos colaterais para quem fica de fora”, explica. “Em um 2022 em que falamos sobre novas expressões de beleza, autoexpressão em voga, consumidores plurais e autênticos, aumento da aceitação individual, ver desafios como esse é como observar um caminhar na contramão do futuro”, complementa.

IMPACTO DA PANDEMIA

Com a pandemia de covid-19, a imersão pessoal e profissional nas redes sociais se intensificou. Com o uso das telas potencializado, as pessoas ficaram mais tempo a sós consigo mesmas, se vendo por outros ângulos ao ter de ligar a câmera para as reuniões online.

Foram quase dois anos em casa, que geraram mudanças significativas no corpo e na mente. “O que conhecíamos antes como dismorfia do Snapchat, fenômeno que descreve a relação conflituosa entre filtros e a forma como nos enxergamos, se tornou a dismorfia do Zoom. Ou seja, nunca olhamos tanto para a nossa própria imagem à procura do que poderíamos melhorar, do que estava fora de conformidade com os padrões”, explica Luiza.

Não coincidentemente também foi no início da pandemia que os conteúdos de autocuidado, skincare e bodycare começaram a bombar nas redes sociais. Com mais tempo em casa, as pessoas passaram a se preocupar mais com o cuidado com o corpo e com a autoimagem, sendo esse somatório de fatores essencial para a disseminação dos conteúdos de glow up.

UM NOVO OLHAR

Para uma relação mais agradável e menos adoecedora na internet, a psicanalista Joana Novaes explica que é necessário mudar a forma de pensar. “É preciso lembrar que tanto a gordura quanto o envelhecimento e a feiura acenam com aquilo que nos faz humanos, nos iguala. Todo esse mercado que surge de especialistas no sentido do aprimoramento corporal, e sobretudo do aprimoramento no vídeo, surge com o intuito de afastar de nós o contato com a realidade”, afirma. “Para a gente pensar em uma relação mais inclusiva, generosa, de maior prazer com o próprio corpo, a beleza não pode ser o único marcador.”

Além disso, em um oceano de possibilidades, é interessante refletir sobre que perfis seguir. “O que a gente consome, independentemente da vertente, acaba tendo um efeito muito grande sobre a nossa percepção de beleza. É necessário ficar atenta ao que chega às nossas telas, uma vez que esse tipo de conteúdo tem o poder de influenciar na forma como nos vemos”, conclui Marieli.

VIDA DIGITAL SAUDÁVEL

QUEM SEGUIR

O que consumimos influencia na nossa percepção de beleza. Fique atento a quem você segue e qual a sua realidade para não fazer comparações injustas. Siga pessoas que te estimulam e pare de seguir pessoas que te deixem para baixo.

QUESTIONE

Se seu feed fosse um espelho, você se enxergaria nele? As pessoas que você segue devem dialogar com o que você pensa e quer para si.

TEMPO DE TELA

Tente reduzir o tempo que passa online. A internet e a vida no Instagram não representam a realidade.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUAIS ESTRATÉGIAS ADOTAR PARA TER EQUILÍBRIO DIANTE DO NOTICIÁRIO?

Em mundo que não dá trégua, sucessão de notícias ruins pode contribuir para pessimismo, ansiedade e depressão

Crise econômica. Pandemia. Ataques à democracia. Guerra. Aquecimento global. E violência, muita violência. O mundo não dá trégua, e o noticiário também não. Mas às vezes a sequência de notícias duras provoca uma sensação de desânimo que pode afetar a saúde mental de algumas pessoas. Uma vez que não dá para fingir que as coisas não estão acontecendo, e se manter informado é absolutamente essencial nos dias de hoje, é preciso desenvolver ferramentas para lidar com isso.

Uma pesquisa da Associação Americana de Psicologia feita em 2017 mostrou que mais da metade dos americanos dizem se sentir estressados, ansiosos, cansados e com dificuldades para dormir em razão das notícias ruins. De lá para cá, não surgiram motivos para imaginar que o cenário melhorou, pelo contrário.

Segunde o psicólogo Stélios Sdoukos, da The School of Life,  uma organização com sede em Londres dedicada ao estudo da inteligência emocional, o noticiário pode contribuir para deixar a pessoa mais pessimista e ansiosa, aumentando sintomas depressivos. O vinculo não é necessariamente direto, mas o contexto de desesperança interfere.

“As pessoas se sentem cada vez mais afetadas pelas notícias, como crimes hediondos como do médico que estupra pacientes ou de um homem que mata a família toda. Não há como ficar indiferente. Estamos expostos às notícias o tempo todo e precisamos delas para entender o que está acontecendo ao nosso redor. Mas o mal-estar élegitimo porque é coerente com aquilo que estamos lendo. Ser afetado mostra que nossa humanidade está presente”, explica Sdoukos.

Sevocê é uma das pessoas que andam desanimadas com as notícias, veja como lidar com elas de forma positiva:

ACEITE O MAL-ESTAR

Você fica sabendo de um crime chocante pelo jornal ou pela TV. Sente um aperto no peito, revolta ou tristeza. De acordo com o psiquiatra Ricardo Krause, presidente nacional da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil e Profissões Afins (Abenepi), a solução não passa por ignorar esses sentimentos:

“É preciso se permitir sentir as emoções. As pessoas associam emoção ao descontrole, e acham que é algo ladeira abaixo, como se ficar triste em um momento significasse ficar deprimido ou desesperado depois. Então, fazem de conta que não estão sentindo nada. Mas não é assim. Quando você não trata da coisa no início ela progride”, explica o médico, salientando que o uso abusivo de álcool e drogas muitas vezes vem dessa tentativa de mascarar os sentimentos.

TENHA CONSCIÊNCIA

Pare, pense, entenda que algo está acontecendo dentro de você. É preciso dar tempo para assimilar o impacto de uma notícia ruim sem deixar evoluir para o desespero. Anotar os sentimentos num diário de papel, ou fazer um acompanhamento em apps como o Daylio, com um registro diário de emoções, é algo muito saudável.

“Isso faz com que a pessoa não aja no automático. Quando alguém nomeia os sentimentos, presta atenção neles. Quando não tem essa consciência, torna-se meramente reativo. Inteligência emocional não é só saber lidar com os outros e conter emoções: é saber das próprias emoções e agir com consciência”, afirma Krause.

Stélios Sdoukos sugere uma estratégia usada na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT, em inglês):

“É importante observar os pensamentos. Quando você pensa “nada vai dar certo para mim” tente se afastar disso, adicionando uma frase: “Observo que estou tendo o pensamento de que nada vai dar certo para mim”. Isso ajuda a mente a processar que é só um pensamento e não uma verdade absoluta. O manejo não vem da eliminação dos sintomas de ansiedade, mas de uma outra relação com emoções que gostaria de eliminar.

Segundo o psicólogo, para lidar com a ansiedade gerada por essa exposição é importante entender o que pode te deixar mais ou menos ansioso. Algumas situações são mais difíceis  de serem processadas e “pode ser coerente se afastar, trabalhar sua relação com o consumo de um assunto específico”.

BUSQUE A MUDANÇA

O sentimento de indignação diante de alguma notícia pode servir como estopim para uma reflexão – e tal vez até ação – critica e produtiva na sociedade.

“Quando a pessoa lê sobre o crime do anestesista, ela rechaça, mas será que na nossa cultura, na nossa comunidade, não alimentamos isso com piadas machistas? No caso da morte de um homem que fazia uma festa com tema de um partido, vale refletir sobre como as pessoas falam de política hoje. O diálogo não existe, está todo estereotipado, então, se a pessoa sinaliza concordância com um lado, o outro pode transformar um almoço de família numa guerra, quando a interação deveria ser diferente. A gente não dispara o tiro, mas pode disparar tiros simbólicos”, diz Sdoukos.

O psiquiatra Ricardo Krause considera que partir para a ação pode ser positivo tanto na esfera pessoal quanto coletiva.

“O que posso fazer para modificar isso? Agir, trabalhar comunitariamente, distribuir comida, construir casa, contar história para criança, conversar com idosos. Há muito a ser feito. É pensar global e agir local. E se você faz uma coisa para mudar aquela situação, neutraliza a sensação de impotência. É fantástico ver que você não se sente paralisado.

O PODER DA PALAVRA

Evite empregar um discurso pessimista depois de ler alguma coisa que te desanima. Para Krause, é importante saber que a forma de falar, mesmo que para si mesmo, tem impacto.

“É sério, e as pessoas não levam a sério a força das palavras. A comunicação não violenta é um caminho de prestar atenção no que se fala e como se fala. Substitua frases como “está tudo uma droga mesmo”, “é o fundo mundo” ou “pior não pode ficar” por coisas como “vamos achar uma solução” ou “vai passar”. Quando diz algo com esperança, você não permite que o ciclo de desespero se concretize”, diz. Mesmo na hora de conversar sobre o assunto, é preciso cuidado. Falar por falar pode ser apenas uma forma de remoer um assunto. O médico recomenda, em contrapartida, procurar alguém que ajude a pensar sobre aquilo, porque incomoda, o que pode ser feito.

SEU UNIVERSO

Se muitas coisas não vão mesmo bem, muitas outras mostram a beleza da vida e inspiram gratidão. É preciso saber onde encontrar isso, seja no seu microcosmo (sua casa, sua família, seu trabalho), seja dentro de si mesmo. É para isso que devemos voltar os olhos nos momentos de desalento.

“É importante construir uma vida que tenha sentido para a gente, que vale a pena ser vivida. Os pensamentos podem nos arrastar para um piloto automático e nos levar a uma vida não alinhada com nosso propósito. Esses valores, o que faz o coração bater mais forte, são o porto seguro para voltar”, diz Sdoukos.

Krause concorda que é importante separar as coisas negativas do noticiário da nossa vida cotidiana:

“Quando estou com medo vou lembrar de coisas boas, ver uma cena que me emocione, fazer um carinho num cachorro, tomar um sorvete, brincar com meu filho… É preciso uma caixa de ferramentas contra as coisas que nos deixam desconfortáveis.”

O pr6pdo noticiário pode ajudar a trazer esse alívio, com informações sobre coisas prazerosas, como cultura, viagens e gastronomia, além de dicas e orientações para uma vida melhor.

OUTROS OLHARES

FRIO CRIADO PELO AR CONDICIONADO PODE SER RESPONSÁVEL POR GANHO DE PESO

A climatização que nos traz conforto térmico também aumenta apetite e eleva a ingestão de calorias nas refeições, afirma especialista

O pesquisador do Instituto de la Grasa (Instituto da Gordura, traduzido do espanhol) Javier Sánchez Perona vai direto ao ponto: “Ar condicionado engorda porque o clima fresco desperta nosso apetite”, escreve ele, em um artigo de seu blog malnutridos, com o qual começa se questionando exatamente como o uso desses aparelhos afeta o peso.

Em seu blog, Sánchez Perona explica que quando chegou a Sevilha para trabalhar no Instituto de la Grasa, há mais de 20 anos, vindo de sua cidade natal, Mondragón na província de Guipúscoa, comunidade autônoma do País Basco, foi surpreendido pelo calor da capital andaluza e como isso fez diminuir seu apetite. Ele diz que naquela época, assim como a maioria dos sevilhanos, não tinha ar condicionado. O pesquisador do Departamento de Alimentação e Saúde explica que achava que essa poderia ser uma das razões para haver poucas pessoas com sobrepeso em Sevilha.

Os anos se passaram, o ar condicionado se popularizou e Sevilha se tornou a região espanhola com maior índice de obesidade. É uma coincidência ou esses dois eventos estão relacionados?

Não encontrei nenhum estudo que demonstre especificamente uma relação de causa e efeito entre o aumento do uso de ar condicionado e o aumento da obesidade, provavelmente porque não foi feito. O que está cientificamente comprovado é a relação entre temperatura e apetite. Quanto mais alta a temperatura, menos apetite. Portanto, parece óbvio que, se vivermos e comermos com ar condicionado, comeremos mais e engordaremos — esclarece Sánchez Perona.

Há evidências de que quando você come com uma temperatura mais baixa o apetite aumenta.

“O corpo em repouso tem um certo gasto energético, o que chamamos de taxa energética basal. E os seres humanos são homeotérmicos: isso significa que temos a capacidade de regular nosso metabolismo para manter uma temperatura corporal constante, independentemente da temperatura do ambiente. E o que o corpo usa para produzir essa energia que o mantém em temperatura constante é a comida”, explica Maria José Castro, médica especialista em nutrição da Universidade de Valladolid, na Espanha.

Essa relação entre temperatura e apetite foi comprovada com várias investigações. Já em 1963, um estudo realizado com ratos mostrou que, expostos a uma temperatura de 35°C, os animais comiam apenas 10% do que haviam consumido a 24°C. E a 40°C paravam de comer completamente. Mas não só os ratos comem menos com o calor. Outra investigação de 2015, realizada na Universidade de Birmingham, dos Estados Unidos, mostrou que para cada grau de aumento da temperatura ambiente, os participantes do estudo, desta vez humanos, ingeriram 85,9 kcal a menos do alimento que receberam no estudo. Mas se, como pontua Sánchez Perona, não há pesquisas especificamente focadas em mostrar que o ar condicionado engorda, o que há são trabalhos que comprovam que viver em ambientes com temperaturas pouco variáveis faz você ganhar peso. E essas temperaturas ligeiramente variáveis, em que cada vez mais pessoas vivem, são alcançadas com ar condicionado no verão e aquecimento no inverno. Estas duas magníficas invenções dão-nos o que tem sido chamado de “estilo de vida sedentário termal”.

Um estudo publicado em 2014 por pesquisadores também da Universidade de Birmingham conclui que “com a ampla adoção do controle climático, os seres humanos são protegidos de temperaturas extremas e passam cada vez mais tempo em um estado termicamente confortável em que são minimizadas as demandas de energia”. Ou seja, como temos menos calor e menos frio, precisamos de menos energia para manter a temperatura constante de nossos corpos. E por esta razão, conclui esse estudo, “o tempo passado naquela zona termoneutra poderá contribuir para uma maior eficiência energética com diminuição da taxa metabólica e consequente ganho de peso”.

A questão é de pura lógica: se comemos igual, mas nosso corpo gasta menos, esse excesso de comida vira quilos extras. Todos esses estudos estão relacionados ao interesse dos cientistas em desvendar as causas da chamada epidemia de obesidade que está se espalhando pelo mundo. Porque é evidente que, desde que essa epidemia começou a crescer, a genética humana não foi alterada, portanto a causa deve estar no meio ambiente.

Por muito tempo, dois motivos principais foram responsabilizados: o crescente consumo de alimentos, incluindo produtos processados e ultraprocessados, e o sedentarismo. Mas muitas pessoas no mundo científico acreditavam que deveria haver mais razões. E pouco a pouco algumas são reveladas. O abandono massivo do tabaco, tão benéfico no combate ao câncer, tem, no entanto, esse lado negativo de favorecer o aumento dos índices de obesidade.

O consumo crescente de alguns medicamentos, incluindo antidepressivos, anticoncepcionais e anti-histamínicos, também parece influenciá-los. Todos juntos, somados à má alimentação, ao sedentarismo e ao confortável ar condicionado em que cada dia mais pessoas vivem, facilitam a nossa vida e, aparentemente, nos engordam.

GESTÃO E CARREIRA

STARTUPS: VALE A PENA BUSCAR UM EMPREGO NESSAS EMPRESAS?

A era de ouro das startups chegou ao fim? Há poucos anos, conquistar um emprego nessas empresas brilhava os olhos de inúmeros profissionais – atraídos pela rápida escalabilidade do negócio no mercado, possibilidade de crescimento interno em um curto espaço de tempo e, um chamariz de oportunidades de negócios.

Mas, em meio a tamanhas ondas de demissões divulgadas nos últimos meses, a construção de uma carreira nessas companhias virou alvo de questionamento para muitos. A resposta para essa dúvida, contudo, irá variar conforme inúmeros fatores subjetivos. Em uma breve análise cronológica, é de se impressionar as tamanhas mudanças que as startups sofreram em um curto espaço de tempo.

Há apenas dois ou três anos, o cenário econômico e mercadológico internacional era o palco perfeito para o desenvolvimento dessas empresas – marcado por uma mudança de mercado que começou a valorizar jornadas mais flexíveis, uma hierarquia menos robusta, ambiente de trabalho menos formal e o início da transição para o modelo remoto.

Atraindo cada vez mais olhares, os fundos de investimentos nessas empresas chegaram a registrar recordes consecutivos. Em 2021, por exemplo, mais de R$ 46 milhões em captações foram registra- dos, segundo dados da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (AB- VCAP) – quantia três vezes maior à de 2020. Em um cenário altamente otimista, contudo, tal crescimento veloz foi, ao mesmo tempo, o principal desacelerador dessas companhias.

Todas as intensas trans- formações do mercado macroeconômico tornaram o aporte de investi- mentos uma missão cada vez mais difícil, obrigando que muitas startups iniciassem uma série de demissões recorrentes na tentativa de contingenciar suas despesas e tornar o negócio novamente viável. Em todos os segmentos, a medida se tornou essencial como ajuste financeiro de operação, exigindo dos executivos um olhar mais cauteloso ao avaliar qualquer nova oportunidade de negócio. Menos dispostos a injetar recursos em empresas, agora temerosas pela inconstância, buscar uma oportunidade profissional em qualquer startup deixou de ser um sonho de consumo para, em muitos casos, se tornar uma opção duvidosa.

Não há como afirmar que qualquer vaga nessas empresas trará sucesso ou fracasso – muito me- nos, ter certeza de que essas demissões continuarão ocorrendo.

Por isso, aqueles que cogitam se candidatar a uma carreira nas startups precisam levar alguns critérios em consideração. Em sua natureza, as trilhas profissionais nessas companhias podem  ser completamente efêmeras, passíveis de iniciar e terminar a qualquer momento e de forma muito rápida. Diante disso, é essencial que, ao aplicar seu currículo para uma posição, avalie cuidadosamente todo o ciclo do negócio.

Busque compreender, em termos de governança, aqueles que estão por trás de sua criação e, especialmente a viabilidade do segmento apresentado. É muito comum encontrar startups que se vendem no mercado por histórias encantadoras e promessas mirabolantes que, apesar de conquistar muitas atenções, dificilmente possuem real perspectiva de sucesso.

Mas, para evitar frustrações, é necessário analisar se a companhia possui real fôlego financeiro para fomentar suas atividades e, acima de tudo, sua rentabilidade para prosperar. Por mais devastador que tamanhas demissões sejam, essa readaptação do modelo de negócios pode ser, justamente, a ação necessária para que as startups recuperem seu fôlego e voltem a se tornar tão atrativas quanto costumavam ser.

Para aqueles que ainda se questionam sobre a viabilidade de trabalhar nessas empresas, é preciso acompanhar o movimento dessas companhias e analisar seu desempenho. Mas, acima de tudo, unir essas  informações  com suas próprias ambições e desejos, em prol de uma construção de carreira alinhada aos seus sonhos profissionais.

EU ACHO …

INTIMIDADE

Se alguém perguntar o que pode haver de mais íntimo entre duas pessoas, naturalmente que a resposta não será sexo, a não ser que não se entenda nada de intimidade, ou de sexo.

Pré-adolescentes, ainda cheirando a danoninho, beijam três, sete, nove numa única festa e voltam pra casa tão solitários quanto saíram. Dois estranhos transam depois de uma noitada num bar – não raro no próprio bar – e despedem-se mal lembrando o nome um do outro. Quanto mais rápidos no ataque, quanto mais vorazes em ocupar mãos, bocas, corpos, menos espaço haverá pra intimidade, que é coisa bem diferente.

O filme Encontros e desencontros me fez lembrar de uma expressão antiga que a gente usava quando queria dizer que duas pessoas haviam feito sexo: “dormiram juntos”. Era isso que determinava que a relação era íntima. O que o casal havia feito antes de pegar no sono ou ao acordar não era da nossa conta, ainda que a gente desconfiasse que ninguém havia pregado o olho. Se Fulano havia dormido com Sicrana, bom, era sinal de que havia algo entre eles. Hoje a gente diz que Fulano comeu Sicrana e isso não quer dizer absolutamente nada.

Encontros e desencontros mostra a perplexidade de dois americanos no Japão – e a vivência profunda de sentir-se um estrangeiro, inclusive para si mesmo. Chega a ser previsível que a cena mais caliente do filme não seja a de um beijo e suas derivações, e sim a cena em que o casal de protagonistas está deitado na mesma cama, ambos vestidos, falando da vida, quando o cansaço e o sono os capturam. Ninguém apaga a luz, ninguém tira a roupa, ninguém seduz ninguém, eles apenas sentem-se à vontade para entrar juntos num estado de inconsciência, que é o momento em que ficamos mais vulneráveis e desprotegidos. Pra não dizer que faltou um toque, Bill Murray pousa a mão no pé de Scarlett Johansson antes de dormir profundamente. Poucas vezes o cinema mostrou cena tão íntima.

Enquanto isso, casais unem-se e desunem-se numa ansiedade tal que parece que vão todos morrer amanhã. Não há paciência para uma troca de olhares, para a descoberta de afinidades, e muito menos para deixar a confiança ganhar terreno. O que há é pressa. Uma necessidade urgente de quebrar recordes sexuais, de aproveitar a vida através de paixões quase obrigatórias, forjadas, que não são exatamente encontros, mas desencontros brutais. Meio mundo está perdido em Tóquio.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

MULHERES COM DOENÇA DE ANITTA RELATAM DOR NO SEXO E CÓLICAS

Sinais da endometriose se juntam ao sofrimento emocional, pois o problema nem sempre é reconhecido pelos médicos e parceiros

Cólicas fortes, dores durante a relação sexual e problemas para engravidar: esses são alguns sintomas da endometriose, doença ginecológica que atinge uma em cada dez mulheres. Além da dor  física, elas relatam outro tipo de sofrimento, emocional, por não terem seus sintomas reconhecidos pelos médicos ou pelos parceiros.

O tema repercutiu porque a cantora Anitta revelou ter sido diagnosticada após nove anos de dores. Outras mulheres enfrentam espera ainda maior.

A enfermeira Ana Paula Araújo, de 38 anos, conta que desde que começou a menstruar sentia cólicas “avassaladoras”. “Não conseguia nem trocar de roupa. Todo mês, ia para o pronto-socorro tomar medicação na veia.” Nesses atendimentos de urgência, ouvia o que muitas já ouviram: “Tem mulher que sente mais cólica. Isso é normal”. Não é.

As dores diminuíram quando ela começou a tomar anticoncepcional, mas não passaram. Vieram ainda as cistites de repetição (inflamações na bexiga) – mesmo sintoma relatado por Anitta. “E com o tempo adquiri fadiga crônica. Eu dormia e acordava mais cansada.”  Após oito anos tentando engravidar, teve finalmente o diagnóstico de endometriose.

“Senti alívio por saber que tinha alguma coisa que justificava (o quadro de saúde),que eu não estava louca. Mas o outro sentimento foi revolta por ter demorado tanto tempo a descobrir”. Ela chegou a largar o emprego por causa das dores e recusava passeios. Após cirurgia para retirar os focos da endometriose, sente menos cólicas e melhorou a fadiga.

Outro sintoma comum é a dor durante o sexo, mas os relatos nem sempre são reconhecidos pelos médicos como problema de saúde.

“Sempre tive dor durante a relação sexual. Comentei com uma médica, que fez a pergunta: ‘Você gosta mesmo do seu namorado” É esse tipo de coisa que a gente passa por falta de preparo”, diz a servidora pública Michele Oliveira, de 37 anos.

O diagnóstico só veio aos 29 anos, apesar dos sintomas desde a adolescência. E o estágio era avançado: foi preciso uma cirurgia na pelve, com remoção de parte do intestino. A endometriose pode causar focos de endométrio na pelve e na parede do intestino. Após a cirurgia, Michele engravidou.

CAUSA

A endometriose ocorre quando células do endométrio – tecido que reveste o útero -, que deveriam ser expelidas na menstruação, se movimentam no sentido oposto e caem nos  óvulos ou na cavidade abdominal. Não há clareza sobre por que isso ocorre com algumas mulheres e outras não. A cirurgia é um dos tratamentos possíveis.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

‘TRANSTORNO DE PERSONALIDADE TORNA A VIDA DISFUNCIONAL’

Como entender o problema, que tem longa duração e afeta quase 10% da população mundial

Associação Americana de Psiquiatria estima que 9,1% das pessoas no planeta tenham algum tipo de transtorno de personalidade (ou TP). A Organização Mundial da Saúde alterou a forma como essas patologias são relacionadas na 11.ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-11). A CID é a base para identificar tendências e estatísticas de saúde em todo o mundo. Na nova versão do manual psiquiátrico, o capítulo voltado para transtornos de personalidade sofreu alterações significativas no conceito e na classificação das doenças.

“As mudanças têm impacto direto e os profissionais precisarão se adaptar. Os transtornos de personalidade são um assunto diário na psiquiatria forense, por exemplo. A identificação de sua presença, bem como o seu nível de severidade afetarão as conclusões periciais”, analisa o pós-doutor pela University of London Elias Abdalla-Filho, que lança o livro Personality Disorders in the 10th and 11th Editions of the International Classification of Diseases.

O psiquiatra e psicanalista falou ao Estadão sobre os sinais, sintomas e tipos de tratamento para as patologias.

O QUE SÃO TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE?

São traços de personalidade que afetam negativamente a relação de uma pessoa com ela mesma (sentimentos de menos valia, sentimentos crônicos de vazio, dúvidas excessivas) e com outras pessoas (comporta- mento sedutor, indiferença pelos sentimentos alheios, tendência a guardar rancores) a ponto de provocar uma disfuncionalidade em sua vida.

O QUE CARACTERIZA UM TP?

O transtorno de personalidade é caracterizado pela longa duração dos traços disfuncionais. Não se pode diagnosticar um TP baseado em um comportamento isolado.

QUAIS SÃO OS SINTOMAS?

Os sintomas estão na dependência direta do tipo de TP. Dessa forma, é possível perceber, por exemplo: tendência a guardar rancores e a interpretar como hostis as manifestações amistosas de outras pessoas, presentes no transtorno de personalidade paranoide; frieza emocional, afetividade embotada, indiferença a elogios ou críticas no transtorno de personalidade esquizoide; insensibilidade aos sentimentos alheios, baixa tolerância à frustração e incapacidade de experimentar arrependimento no transtorno de personalidade antissocial.

EXISTE DIFERENÇA ENTRE TRANSTORNO MENTAL E TRANSTORNO DE PERSONALIDADE?

O transtorno de personalidade é um dos tipos de transtorno mental (TM), assim como a doença mental é outro tipo de TM diferente do TP.

QUAIS SÃO OS TRATAMENTOS PARA TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE? HÁ CURA OU SOMENTE UMA MANUTENÇÃO DOS SINTOMAS?

“Cura” é um termo que não se usa em psiquiatria por dar uma ideia de uma “garantia” contra uma possível recaída do transtorno. O tratamento dos TPs é essencialmente psicoterápico, sendo a terapia cognitivo-comportamental uma das mais valorizadas. No entanto, em alguns momentos mais agudos, os medicamentos podem ser úteis. Exemplos podem ser dados pelo uso de estabilizadores de humor ou antidepressivos em pacientes borderline. Considerando que estes últimos podem chegar a apresentar flashes psicóticos, não se descarta a possibilidade de uso de medicamentos antipsicóticos em baixas doses, o que também pode ser usado em TPs com sintomas fortemente paranoides. Uma consideração a ser feita quando se aborda esse tema se refere à psicopatia. O psicopata não está preso a nenhum tipo de TP, e durante muito tempo vários psiquiatras o associassem ao TP antissocial. Porém, esse é e um capítulo à parte.

OUTROS OLHARES

TERAPIA DE UMA SÓ APLICAÇÃO AJUDA A TRATAR HEMOFILIA

Em estudo, vírus modificado levou gene para dentro do corpo, corrigindo defeito na produção de proteína de coagulação

Uma nova classe de terapia gênica contra hemofilia teve bons resultados em ensaios clínicos iniciais que avaliam a segurança do procedimento e demonstraram sua capacidade de tratar a doença. Em estudo publicado ontem, cientistas relatam que o método funcionou em nove dos primeiros dez voluntários recrutados.

O tratamento foi desenvolvido por um grupo do University College de Londres (UCL) e da empresa de biotecnologia Freeline para tratar as complicações da hemofilia de tipo B. Nesta variante da doença, os pacientes possuem um defeito hereditário no gene que codifica proteína de coagulação fator IX (FIX), localizado no cromossomo X. Essa proteína é necessária para o processo de coagulação, que em hemofílicos não ocorre adequadamente, deixando-os vulneráveis a hemorragias.

O novo método, identificado no estudo com o acrônimo FLT180a, consiste em uma única aplicação de um vírus adeno-associado inofensivo contendo o DNA da forma correta do fator IX. Uma vez dentro do organismo, o micróbio se espalha pelo fígado, e a presença do gene ali garante a produção de um suprimento constante da proteína correta.

A terapia experimental conseguiu manter bons níveis do fator IX nos pacientes que receberam o tratamento ao longo de 26 semanas, a exceção de um que não reagiu bem.

O artigo que descreve o resultado do ensaio clínico saiu ontem na revista médica New England Journal of Medicine e foi liderado pela hematologista Pratima Chowdary, do hospital Royal Free, de Londres. O método requer aplicação com cautela, porque exige também o uso de drogas imunossupressoras para evitar que o sistema imune dos pacientes ataque o vírus terapêutico. O único voluntário para o qual a terapia não funcionou teve o tratamento descontinuado justamente porque não respondeu bem a esses medicamentos de apoio.

Essa nova forma de terapia gênica pode ajudar no tratamento da doença, que acomete um a cada 30 mil homens e representa de 15% a 30% das hemofilias. (a hemofilia A, relacionada a outra proteína, é mais prevalente). Hoje os pacientes de hemofilia B dependem de uma terapia profilática de reposição, com injeções frequentes de fator IX para controlar hemorragias.

“Nós constatamos que os níveis normais de fator IX podem ser atingidos em pacientes com hemofilia severa ou moderadamente severa após o uso de doses relativamente baixas do FLT180a”, relataram Chowdary e seus colegas no estudo. “Em todos os pacientes, com exceção de um, a terapia gênica levou a uma expressão duradoura do fator IX, eliminando a necessidade de profilaxia”.

EFEITOS ADVERSOS

Alguns efeitos colaterais foram relatados, a maioria deles problemas já conhecidos relacionados aos imunossupressores de apoio da terapia. Apenas um dos pacientes teve um problema aparentemente relacionado com a terapia gênica. O indivíduo, que recebeu a maior dosagem, desenvolveu um coágulo, no entanto foi tratado com sucesso.

Um dos objetivos das fases 1 e 2 do teste clínico, relatadas no estudo, é justamente ajustar a dosagem do tratamento. Caso haja sucesso, os cientistas dizem que o ensaio clínico segue então para a fase 3, com número maior de voluntários, para determinar de forma mais acertada a eficácia da nova terapia.

 GESTÃO E CARREIRA

  A DIFÍCIL ARTE DA SUCESSÃO DO CEO – CHIEF EXECUTIVE OFFICER

Toda sucessão de CEO começa com cinco perguntas básicas: Qual é o contexto? Qual é o mandato? Quem está envolvido no processo e quando? Como o propósito da organização está evoluindo? E qual o tipo de líder que precisamos? Na prática, o processo de sucessão para o primeiro posto de uma empresa costuma ser um tanto diferente da eleição de um governante público.

Em tese, não deveria, uma vez que ambos buscam uma liderança capaz de alcançar os melhores resultados possíveis para uma comunidade – seja ela uma corporação, uma cidade ou um país. Claro que existem particularidades que tornam bem distintas as duas conduções. Em suma, porém, ambas devem, ou deveriam, se pautar primeiramente pelas competências dos candidatos, analisando aspectos como confiança e integridade entre os envolvidos e evitando distorções como polarizações excessivas.

É fato que a maior parte das organizações tem dificuldade para desenvolver alternativas de sucessão internas para a posição de CEO. Quando muito, algumas conseguem gerar ao menos uma alternativa viável, mas há os casos de se estar à frente de duas excelentes opções. Muitos clientes nos perguntam como conduzir movimentos sucessórios de CEOs da melhor forma.

As dúvidas permeiam diferentes aspectos do processo, desde quando ele deve ser iniciado, em que momento os eventuais candidatos devem saber que estão no páreo e principalmente o que fazer para escolher certo, bem como de que maneira gerenciar as consequências da decisão para o não escolhido. Apresento a seguir, então, um programa de diretrizes para sucessões bem realizadas, acrescentando alguns paralelos com a seara governamental.

SABEMOS QUE COMEÇAR CEDO E NÃO PARAR, FAZ A DIFERENÇA

De três a cinco anos antes da transição parecem produzir os melhores resultados para uma avaliação completa e o desenvolvimento do pipeline de talentos para atender às especificações da função e às metas de negócios. O processo deve realmente começar logo após o novo CEO assumir o cargo, e o planejamento sucessório não deve ser episódico, mas contínuo e integrado à gestão organizacional.

Transpondo o raciocínio para um cenário político macro, considere o quão positiva para uma nação é a construção de estratégias de desenvolvimento que perdurem independentemente de qual partido esteja no poder, com o foco sempre em objetivos de curto, médio e longo prazos. Essa, porém, não é a regra. O alinhamento é o resultado do debate e do discurso.

Os melhores resultados são aqueles que são inclusivos, portanto, o alinhamento não deve ser forçado, mas ser alcançado ao longo do tempo, após as várias opiniões do Conselho sobre a função e os requisitos para o próximo CEO. Debate e dissensão devem ser encorajados, não evita- dos, pois eles geralmente levam aos resultados mais representativos. É o oposto da polarização.

Confie no processo, pois ele serve como uma base segura e testada pelo tempo para manter os planos de sucessão avançando no fluxo para os melhores resultados. Concorde com esse princípio antecipadamente e permaneça fiel a ele, ainda que haja momentos difíceis – sempre há. Eles precisarão ser tratados, mas o processo se adapta a eles e continua sendo a espinha dorsal de todo o esforço, independente dos obstáculos. Na política, essa base corresponde aos princípios democráticos da disputa pelo poder.

CONFIANÇA E INTEGRIDADE SÃO A COLA

Pode não haver prática mais vital do que essa. As relações envolvidas na solução são o elemento mais importante do processo, sem exceção. Elas devem ser estabelecidas

e mantidas com confiança e respeito. Muitas vezes é preciso coragem para manter esses princípios, mas sempre vale a pena. Fazendo uma reflexão para as esferas governamentais, alianças constituídas em prol de um bem coletivo são diferentes de conchavos que visam em primeiro lugar vantagens políticas para os aliados.

Foque no desenvolvimento, uma vez que os líderes de hoje quase nunca estão prontos. A experiência por si só nunca irá prepará-los para a liderança exigida do CEO neste ambiente incerto e disruptivo. Eles devem ser continuamente “cultivados” e nutridos. As metas de desenvolvimento estão evoluindo de forma constante e bem-sucedida para atender às demandas da liderança hoje – tanto na preparação para os escritórios quanto no trabalho contínuo de adaptabilidade e capacidade de resposta uma vez na função.

Se utilizado corretamente, o desenvolvimento imersivo é a chave para preparar melhor os líderes para o sucesso. Essa máxima vale também para os comandantes políticos, dada a complexidade crescente das questões sociais. É preciso um time. Hoje existem inúmeras necessidades díspares pressionando os líderes. Ficou claro que um único líder não pode mais atender a todas elas. Na verdade, a melhor abordagem é construir uma rede de serviços de desenvolvimento e suporte.

Para cada CEO, as perguntas a serem feitas são: o que essa pessoa precisa para atingir as metas e quem são os especialistas mais qualifi- cados para ajudá-la? Trata-se de uma premissa básica também para a condução de um governo verdadeiramente democrático. Avalie além da experiência. Ainda que a experiência anterior de um candidato sempre seja uma medida vital na avaliação de cargos futuros, a realidade hoje é que o desempenho passado não prevê o sucesso nem pode preparar completamente alguém para ser CEO.

PRECISAMOS IR MAIS LONGE

Mergulhar no caráter de uma pessoa e abrir seu potencial para selecionar e continuar desenvolvendo os líderes determinados, autoconscientes e transformados que os cargos exigem, tanto nas empresas quanto na política. Aceite que a “Especificação da Posição” é um alvo dinâmico e móvel. Nada permanece exatamente igual por muito tempo, nem mesmo as especificações cuidadosamente acordadas para o cargo de CEO.

Estas também devem seguir o curso durante o processo de sucessão. As prioridades podem mudar devido a fatores imprevistos. Embora o processo permaneça bloqueado, amaneira de abordá-lo deve sempre ser dinâmica, com a vontade de revisitá-lo e adaptá-lo às circunstâncias em mudança, conforme necessário. Quem ocupa um cargo político de liderança precisa igualmente estar conectado com as variações das demandas socioeconômicas.

FOQUE NA CONSTELAÇÃO DE LÍDERES

Os líderes não atuam mais frouxamente desvinculados de suas organizações, pois a colaboração é o meio para o sucesso. Assim, ao selecionar um CEO, envolva a equipe executiva e se esforce para garantir que os indivíduos estejam na mesma página do líder e contribuam com forças complementares às dele. O ponto nevrálgico, aqui, é que ninguém governa sozinho.

TENHA UM PLANO DE CONTINGÊNCIAS

Sempre, sempre tenha um plano de emergência, pois a falta de um pode causar estragos. Reserve um tempo para que o Conselho concorde com isso e revise-o com regularidade. Certifique-se de que o plano de emergência não seja apenas para o CEO, mas também considere as perdas das outras posições de liderança N-2. Nos meios governamentais, cabe observar com cuidado a trajetória do candidato a vice. A nomeação é apenas a metade do processo.

Tornar-se CEO não é necessariamente o fim de uma carreira, mas o começo de uma oportunidade sem precedentes para a qual, novamente, nenhuma quantidade de experiência passada pode preparar o executivo completamente. Forneça aos novos CEOs programas de integração superlativos e amplo suporte ao desenvolvimento. Incentive-os a pedir ajuda e a disponibilize prontamente. O sucesso da empresa dependerá disso. O êxito de uma cidade, Estado ou país também não se restringe à figura daquele que ocupa o cargo mais importante do executivo.

Faça um benchmark contra o talento de CEO Best-In Class no mercado. Não conduza a sucessão sem olhar à sua volta. Certifique-se de medir o seu próprio talento em comparação com o melhor externamente e leve em conta quaisquer diferenças ou distinções importantes que possam vir à tona. No âmbito governamental, esse tópico me remete à importância da alternância de poder para a constituição de uma democracia sólida.

Na situação inusitada de se deparar com a difícil escolha entre duas ótimas alternativas para o posto de CEO, peça a cada um dos candidatos para elaborar seu plano para os primeiros 100 dias e apresentá-lo ao Presidente do Conselho ou ao Comitê de Nomeação. Sair dos conceitos de competências, potencial ou testes e ir para a vida real de como tudo isso será colocado em prática pode fazer a diferença.

Se nem assim ficar claro quem é a melhor opção, considere trazer uma terceira alternativa de mercado para a mesa. A comparação de uma terceira via com os dois candidatos internos já em disputa poderá ajudar no processo, avaliando melhor o quanto o conhecimento prévio da organização e eventual alinhamento à cultura podem ser melhores que alguma competência específica mais diferenciada, uma maior representatividade externa ou um potencial de crescimento mais elevado.

O que está em jogo na sucessão, acima de vaidades ou convicções preestabelecidas, é o bem-estar e a prosperidade de um grupo, lógica que se aplica às empresas, mas serve também para pátrias.

EU ACHO …

CARDÁPIO DA ALMA

Arroz, feijão, bife, ovo. Isso nós temos no prato, é a fonte de energia que nos faz levantar de manhã e sair para trabalhar. Nossa meta primeira é a sobrevivência do corpo. Mas como anda a dieta da alma?

Outro dia, no meio da tarde, senti uma fome me revirando por dentro. Uma fome que me deixou melancólica. Me dei conta de que estava indo pouco ao cinema, conversando pouco com as pessoas, e senti uma abstinência de viajar que me deixou até meio tonta.

Minha geladeira, afortunadamente, está cheia, e ando até um pouco acima do meu peso ideal, mas me senti desnutrida. Você já se sentiu assim também, precisando se alimentar?

Revista, jornal, internet, isso tudo nos informa, nos situa no mundo, mas não sacia. A informação entra dentro da casa da gente em doses cavalares e nos encontra passivos, a gente apenas seleciona o que nos interessa e despreza o resto, e nem levantamos da cadeira nesse processo. Para alimentar a alma, é obrigatório sair de casa. Sair à caça. Perseguir.

Se não há silêncio à sua volta, cace o silêncio onde ele se esconde, pegue uma estradinha de terra batida, visite um sítio, uma cachoeira, ou vá para a beira da praia, o litoral é bonito nesta época, tem uma luz diferente, o mar parece maior, há menos gente.

Cace o afeto, procure quem você gosta de verdade, tire férias de rancores e mágoas, abrace forte, sorria, permita que lhe cacem também.

Cace a liberdade que anda tão rara, liberdade de pensamento, de atitudes, vá ao encontro de tudo que não tem regras, patrulha, horários. Cace o amanhã, o novo, o que ainda não foi contaminado por críticas, modismos, conceitos, vá atrás do que é surpreendente, o que se expande na sua frente, o que lhe provoca prazer de olhar, sentir, sorver. Entre numa galeria de arte. Vá assistir a um filme de um diretor que não conhece. Olhe para sua cidade com olhos de estrangeiro, como se você fosse um turista. Abra portas. E páginas.

Arroz, feijão, bife, ovo. Isso me mantém de pé, mas não acaba com meu cansaço diante de uma vida que, se eu me descuido, torna-se repetitiva, monótona, entediante. Mas não vou me descuidar. Vou me entupir de calorias na alma. Há fartas sugestões no cardápio. Quero engordar no lugar certo. O ritmo dos dias é tão intenso que às vezes a gente esquece de se alimentar direito.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

SAÚDE NO PRATO

Conheça hábitos de alimentação saudáveis que podem ajudar a transformar o corpo e o bem-estar

Médicos e especialistas em saúde concordam que o que as pessoas colocam no prato diariamente tem forte impacto no bem-estar.

Fazer escolhas conscientes e mais saudáveis pode transformar o corpo, ajudar a impulsionar a mente e melhorar a saúde. Não é necessário cortes radicais ou abdicar totalmente de prazeres como doces e churrascos. Mas a escolha de hábitos saudáveis e moderação podem gerar um impacto enorme no bem-estar e ajudar na produtividade, na redução de problemas como insônia, taquicardia e ansiedade, entre outros.

DIETA BALANCEADA

Manter uma alimentação balanceada é a chave para o bem-estar. Ao ingerir alimentos naturais e frescos e em quantidade equilibrada, o corpo amplia a produção de hormônios relativos ao bem-estar, como dopamina, serotonina e endorfina, ajudando a promover mais disposição e produtividade.

O excesso de açúcar, gordura e aditivos químicos, por sua vez, atrapalha o bom funcionamento do corpo.

Uma alimentação balanceada deve incluir por dia duas frutas; três tipos de verduras e legumes; leites e laticínios; óleos bons para saúde (como azeite extravirgem); oleaginosas (como castanhas e amendoins); cereais (como pães e arroz) e proteína (carne magra para quem não é vegetariano ou vegano).

Mas manter essa rotina no dia a dia não significa que é proibido comer doces, carnes gordas ou beber refrigerantes. Se controladas, essas “transgressões” ajudam a quebrar o estresse que a busca por uma alimentação saudável pode acabar gerando. Moderação é a chave.

HOME OFFICE SAUDÁVEL

Trabalhar em casa e se alimentar bem tem sido um desafio de muitos profissionais durante a pandemia.

Levantar a todo momento para abrir a geladeira e abusar do delivery são dois hábitos que geram impacto negativo no peso e na saúde. Uma das estratégias para evitar isso é planejar as refeições.

Uma boa lista de supermercado com itens pensados para a semana toda, incluindo vegetais, folhas e frutas ajuda a evitar muitas saídas para compras e deixa a geladeira cheia de opções saudáveis.

Preparar de uma vez grandes quantidades de arroz, feijão e carne e congelar em pequenas porções ou até em marmitas completas também facilita na hora das refeições. O alimento dura até três meses no congelador.

ÁGUA

A água é uma das principais aliadas do bem-estar e do bom funcionamento do corpo. Ela auxilia na absorção dos nutrientes, no funcionamento do intestino, no metabolismo, protege e hidrata articulações e células.

O consumo de pelo menos dois litros diários também ajuda a regular a pressão sanguínea.

Substituir a água por sucos, refrigerantes ou mesmo água com gás não é uma boa escolha. Essas bebidas carregam açúcares e outras substâncias que acrescentam calorias ao dia a dia e podem ter efeitos nocivos no organismo.

O gás também tem efeito erosivo nos dentes e pode promover a produção de gases.

ALIADOS

Alguns alimentos têm o poder de elevar o astral, melhorar o humor e aumentar a disposição. Se consumidos com equilíbrio, eles podem ser ótimos aliados para o bem-estar. O chocolate (pelo menos 70% cacau) ajuda a melhorar o humor e prolongar a sensação de bem-estar.

As folhas escuras, como espinafre, são fonte de vitaminas do complexo B e ajudam em quadros depressivos. O abacate é rico em vitamina B3, que atua no sistema nervoso ajudando a manter os hormônios que regulam as substâncias químicas do cérebro. Oleaginosas têm atuação no cérebro. A concentração de vitamina B1 ajuda a melhorar a concentração, já o selênio m atua para evitar depressão, irritação e ansiedade.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MEMÓRIA DEVE SER TREINADA TODOS OS DIAS, SOBRETUDO NA ERA TECNOLÓGICA

Especialista aponta que exercícios mentais, hábitos e dieta podem contornar problemas como distorção e distração tecnológica

À medida que envelhecemos, nossa memória diminui. Esta é uma suposição arraigada e, no entanto, de acordo com Richard Restak, neurologista e professor clínico da Faculdade de Medicina e Saúde da Universidade George Washington (EUA), o declínio não é necessariamente inevitável. Autor de mais de 20 livros sobre a mente, ele tem décadas de experiência na orientação de pacientes com problemas de memória. The Complete Guide to Memory: The Science of Streng-thening Your Mind (O Guia Completo para a Mente: A Ciência de Endireitar Sua Mente, em tradução livre), último livro de Restak, inclui ferramentas como exercícios mentais, hábitos de sono e dieta que podem ajudar a melhorar a memória. Ainda assim, Restak se aventura além desse território familiar, considerando todas as facetas da memória – como ela está conectada ao pensamento criativo, o impacto da tecnologia, e como a memória pode moldar nossa identidade. “O objetivo do livro é superar os problemas cotidianos de memória”, diz o autor. Especialmente destaca a memória de trabalho, que fica entre a memória imediata e a de longo prazo, e está diretamente ligada à inteligência, à concentração e às conquistas.

Segundo Restak, esse é o tipo mais crítico de memória, e exercícios para fortalecê-la devem ser praticados diariamente. Mas a chave para evitar problemas posteriores, acrescenta, é reforçar todas as habilidades ligadas à mente.

O declínio da memória não é inevitável com o envelhecimento, argumenta. Em vez disso, ele aponta para dez “pecados” ou “tropeços que podem levar a memórias perdidas ou distorcidas”. Sete desses empecilhos foram descritos pela primeira vez pelo psicólogo e especialista em memória Daniel Lawrence Schacter – são os “pecados de omissão”, como a distração; e os “pecados de comissão”, como memórias distorcidas. A esses, Restak acrescentou outros três de sua autoria: distorção tecnológica, distração tecnológica e depressão.

A depressão, por exemplo, pode diminuir muito a memória. Entre “as pessoas que são encaminhadas a neurologistas por problemas de memória, uma das maiores causas é a depressão”, disse Restak. Seu estado emocional afeta o tipo de memórias que você lembra. O hipocampo (ou “centro de entrada de memória”, de acordo com o autor) e a amígdala (a parte do cérebro que gerencia emoções e comportamento) estão ligados. Por isso, ressalta o valor de tratamentos químicos e psicoterápicos.

TECNOLOGIA

Entre os três novos pecados da memória de Restak, dois estão associados à tecnologia. O primeiro é o que ele chama de “distorção tecnológica”. Armazenar tudo em seu telefone significa que “você não sabe”, o que pode corroer nossas próprias habilidades mentais. “Por que se preocupar em focar, concentrar e aplicar esforço para visualizar algo quando uma câmera de celular pode fazer todo o trabalho para você?”

A segunda maneira pela qual nosso relacionamento com a tecnologia é prejudicial para a memória é porque muitas vezes tira nosso foco das tarefas manuais. “Em nossos dias, o maior impedimento da memória é a distração”, escreveu Restak. Muitas dessas ferramentas foram projetadas com o objetivo de viciar a pessoa que as usa e, como resultado, nos distraímos com elas. Hoje, as pessoas podem verificar seus e- mails enquanto assistem à Netflix, conversam com um amigo ou caminham pela rua. Tudo isso impede nossa capacidade de focar no momento presente, o que é fundamental para a codificação de memórias. “Em última instância, “nós somos o que podemos lembrar”, diz.

DICAS

PRESTE MAIS ATENÇÃO

Alguns lapsos de memória são de atenção. Por exemplo: se esqueceu o nome de alguém que conheceu em evento, pode ser porque estava conversando com várias pessoas e não prestou atenção.

ENCONTRE DESAFIOS DE MEMÓRIA DIÁRIOS E REGULARES

Restak sugeriu compor uma lista de compras e memorizá-la. Quando você chegar à loja, não retire automaticamente sua lista (ou seu telefone) – em vez disso, pegue tudo de acordo com sua memória. Se você não for à loja, tente memorizar uma receita. Ele acrescentou que cozinhar com frequência é realmente uma ótima dica.

JOGUE MAIS

Jogos como dama e xadrez são ótimos para a memória.

LEIA MAIS HISTÓRIAS

Um indicador precoce de problemas de memória, de acordo com Restak, é desistir da ficção. “As pessoas, quando começam a ter dificuldades de memória, tendem a mudar para a leitura de não ficção.”

DETERMINE SE HÁ MOTIVO PARA PREOCUPAÇÃO

Muito depende do contexto. Por exemplo, é normal esquecer o número do quarto do hotel, mas não o endereço do seu apartamento. Em dúvida, consulte um médico.

OUTROS OLHARES

BRASIL VIVE ‘SEGUNDA PANDEMIA’, COM MULTIDÃO DE DEPRIMIDOS E ANSIOSOS

Suicídios no país sobem sem parar, segundo o Datasus, e matam mais que acidente de moto

“É tristeza o nome da doença, a pior que tem”, diz Gerson Hein, 48, secando a testa com o antebraço numa manhã ensolarada de inverno. Enquanto segura uma muda verde de fumo, as botas sujas de terra, ele aponta para os cinco bois do outro lado da cerca.

“Eles tão tudo assim felizes pastando, mas tem que estar sempre prestando atenção. Se um se isolar do bando, arriar as orelhas e murchar o rabo, tem alguma coisa de errado. “O agricultor fala dos bichos, mas o assunto é gente: “Dá igual no ser humano, dá e mata”.

Gerson felizmente nunca viu de perto, mas sua propriedade fica numa região onde casos de enforcamento já não chocam mais. A cidade é Venâncio Aires (RS), a uma hora de Porto Alegre, que historicamente tem uma das mais altas taxas de suicídios do Brasil.

Foram nove óbitos e 38 tentativas só nos seis primeiros meses deste ano, sendo agricultores como ele as vítimas mais comuns. A cidade gaúcha de 72 mil habitantes reflete um país que adoece mentalmente e tem uma multidão de deprimidos e ansiosos e, consequentemente, de mortos.

O total de óbitos no país por lesões autoprovocadas dobrou de cerca de 7.000 para 14 mil nos últimos 20 anos, segundo o Datasus, sem considerar a subnotificação. Isso equivale amais de um óbito por hora, superando as mortes em acidentes de moto ou por HIV.

A curva vai na contramão do resto do mundo, mas segue a tendência da América Latina,  de acordo com a OMS {Organização Mundial de Saúde), que atribui a piora à pobreza, à desigualdade, à exposição a situações de violência e ausência ou à ineficiência de planos de prevenção.

“Tudo é em forma de tentar sair da vida que a gente leva”, afirma Ana Paula da Silva, 39. Ela conta que tem episódios de automutilação e tentou tirar a própria vida cinco vezes, relembrando uma infância de ausências: “Às vezes a gente só tinha o almoço ou a janta”. Começou a trabalhar aos 14 e se prostitui nas ruas de Venâncio após perder o pai, alcoólatra. Também se rendeu à cocaína e à bebida. Hoje, sente-se melhor e tenta recomeçar com as rodas de conversas no Caps (Centro de Atenção Psicossocial). O Rio Grande do Sul ocupa sempre o topo do ranking brasileiro, por motivos que o comitê estadual de prevenção do suicídio tem dificuldade de entender. As hipóteses passam pela cultura herdada da colonização alemã. “No Sul, saúde mental é vista como besteira, como se a pessoa não quisesse trabalhar” diz a coordenadora do comitê, Andréia Volkmer.

No Vale do Rio Pardo, onde fica Venâncio Aires, soma-se ainda o fator econômico de uma região que depende essencialmente do tabaco e portanto, do clima e da qualidade da safra. Muitas vítimas ali são homens acima dos 50 anos, fumicultores que não se sentem mais produtivos.

Pesquisadores também citam os agrotóxicos organofosforados como desencadeadores da depressão. A cidade, porém, diz que os casos variam muito e põe o fator em segundo plano: “Identificamos muitas pessoas que tinham sofrido violência ou eram violentos, por exemplo”, diz a enfermeira Patrícia Antoni, coordenadora do comitê municipal.

Os motivos são complexos e múltiplos, mas “a palavra mais perigosa que tem é quando a pessoa diz ‘cansei’, aí tem que correr”, afirma o psiquiatra Ricardo Nogueira, docente da Ulbra (Universidade Luterana do Brasil) e autor de dois livros e de um manual sobre prevenção ao suicídio no estado.

Ele descreve o ato como o ponto final “dos seis Ds”: desesperança, depressão, desemprego, desamor, desamparo e desespero. Prevenir o suicídio é, então, prevenir o sofrimento mental em suas diversas formas. E não são poucas.

O leque de transtornos chega a mais de 300 tipos, segundo a classificação DSM-5, referência internacional criada pela Associação Americana de Psiquiatria. “Mas os mais comuns são ansiedade e depressão, problemas que o Brasil conhece bem, como mostram diferentes pesquisas.

Um levantamento da OMS em 2017 apontou o Brasil como o país com o maior índice de ansiosos do mundo (9.3% ou 18 milhões de pessoas) e o terceiro maior em depressivos (5.8%) ou 11 milhões, muito próximo dos EUA e da Austrália (5.9%)  – o órgão pondera que não se pode falar em ranking porque são estimativas.

Hoje, porém, esses números já estão longe da realidade. Os efeitos do luto, do medo e do isolamento pela Covid-19 foram explosivos no últimos dois anos (apesar do período não ter influenciado de forma significativa no suicídios, especificamente).

A última pesquisa mais abrangente, da Vital Strategies e da Universidade Federal de Pelotas, mostrou que o que dizem ter sido diagnosticados com depressão subiram de 9.6% antes da pandemia para 13.5% em 2022, A Associação Brasileira de Psiquiatria cita que um quarto da população tem, teve ou terá depressão ao longo da vida.

“Estamos saindo da pandemia de coronavírus e entrando numa pandemia de saúde mental”, diz Nogueira. “No auge da Covid, nós íamos atender os pacientes em casa e eles diziam: “doutor, pelo amor de Deus, abram os bares, porque aí pelo menos paramos de beber quando eles fecham”.

Enquanto os bares fechavam, o mesmo ocorria com serviços de saúde mental, o que reprimiu a demanda e fez os pacientes em crise aumentarem. No Caps da Restinga, extremo sul de Porto Alegre, por exemplo, os 3.000 atendimentos anuais de dependentes químicos viraram 14 mil, incluindo mais mulheres e pessoas da classe média.

Nos últimos meses a equipe da unidade da Restinga teve que dar atenção especial à aldeia indígena Van-Ká, da etnia kaimpang, a alguns quilômetros dali. Um de seus líderes, Eli Fidelis, 51, suicidou-se após anos em depressão.

“Aqui a gente faz nossas festas. Menos velório, que não é para acontecer mais, diz Nerlei, 38, o caçula dos oito irmãos, indicando um espaço coberto e circular. “Um tempo atrás a gente nem sabia o que era depressão”, afirma outro irmão, o cacique Odirlei, 40.

Eli é um exemplo de uma parcela da população que carrega o triplo da taxa de suicídios brasileira, diretamente relacionada, entre outros fatores, ao alcoolismo. O fenômeno não   é generalizado, mas localizado em comunidades e etnias específicas e concentrado nos adolescentes, segundo o Ministério da Saúde.

Outros estratos que acendem alertas são policiais e pessoas LGBTQJA+. As chances de um jovem desse segundo grupo ter um transtorno mental é três vezes maior para ansiedade; duas vezes para depressão e cinco vezes para estresse pós-traumático, mostrou um estudo feito em escolas de São Paulo e Porto Alegre em 2019.

Os adolescentes e jovens-adultos em geral são, agora, a maior preocupação no país e no mundo, com índices de mortes autoprovocadas disparando acima da média.

A OMS bate na tecla de que o suicídio é prevenível, recomendando quatro diretrizes principais aos países: dificultar o acesso aos principais métodos utilizados, qualificar o trabalho da mídia para que neutralize relatos e enfatize histórias de superação; expandir e fortalecer os serviços de saúde mental, capacitando profissionais para identificar casos precoces; trabalhar habilidades socioemocionais nos espaços de ensino.

Na Escola Municipal Dom Pedro 2°, em Venâncio, por exemplo, usa-se a figura dos girassóis, que “olham um para o outro em dias nublados”: é comum que alunos chamem os professores quando observam algo de errado com os colegas.

“Contra o suicídio não tem vacina. O que tem que ter é gente sensibilizada, treinada e capacitada”, lembra o psiquiatra Ricardo Nogueira.

GESTÃO E CARREIRA

CHEFES TÓXICOS SÃO PROBLEMA PARA 8 EM CADA 10 EXECUTIVOS

Vítimas de assédio moral relatam estresse e angústia, aponta pesquisa

“Preciso de ‘mais gás’ em você”, A cobrança sutil, em um e-mail enviado pelo chefe poucas semanas depois de iniciar o novo trabalho, deixou Renato (nome fictício), 36, incomodado. Analista sênior de TI, de uma grande empresa de telecomunicações, ele tentava fazer o seu melhor depois de herdar tarefas de um colega recém-demitido, delegadas pelo chefe que tirou férias logo após a sua contratação, no regime remoto.

O incómodo inicial deu lugar a um mal-estar profundo quando, nas reuniões online, ele, um analista sênior, passou a ser comparado depreciativamente com um analista Júnior. Críticas enviadas pelo chefe por e-mail não raro tinham outros analistas copiados, alguns com dez anos ou mais de casa, que deixaram de ser promovidos com a chegada de Renato.

Contratado em meio à pandemia e morando em Belo Horizonte, distante da sede da empresa, em São Paulo, ele não encontrou receptividade na equipe. Não sabia com quem conversar para resolver dúvidas simples, enquanto questões urgentes, que envolviam terceiros, demoravam horas para serem respondidas. Passou a trabalhar de madrugada para conseguir solucionar pendências sozinho.

As cobranças por resultados aumentavam. Renato diz que o chefe repetiu que ele era um analista sénior em uma das maiores empresas do setor do mundo e que por isso ele saberia como agir; uma vez que a empresa não tolerava erros.

Mas Renato já não sentia mais confiança em si mesmo e começou a sofrer de ansiedade, enfrentando episódios de pânico quando avistava o nome do chefe nas chamadas do celular. Achava que seria demitido a qualquer momento.

Ele afirma que se sentia “um lixo” diante dessa situação.

O problema de Renato e de 78% dos altos executivos do país se chama “chefe tóxico”. Foi o que identificou uma pesquisa feita pela consultoria em gestão e educação executiva BTA Associados, entre março e abril deste ano, com 321 profissionais dos níveis de gerência, diretoria, presidência e conselhos de empresas.

“Perguntamos aos executivos se eles já trabalharam ou trabalham com um chefe tóxico, e 78% disseram que ‘sim’, afirma a psicóloga Betânia Tanure de Barros, sócia da BTA e especialista em comportamento organizacional.

Como principais características de um chefe tóxico, que pratica assédio moral, os executivos apontaram desonestidade, agressividade, narcisismo e incompetência.

“É um perfil completamente oposto ao de um líder de referência, apontado pelos entrevistados como alguém integro, com visão estratégica, competência técnica, que tem escuta aberta, boa comunicação e empatia”, afirmou Betânia. A pesquisa identificou que 82% já trabalharam ou trabalham com um líder assim.

A maior parte dos executivos ouvidos na pesquisa da BTA diz sofrer algum nível de assédio moral no trabalho. Os casos mais graves indicaram altos níveis de angústia para 42% dos entrevistados, de ansiedade para 60%, e de estresse para 62%. Mais de um quarto dos executivos (26%) afirmaram que podem adoecer com o trabalho.

“Durante a pandemia, as empresas acabaram negligenciando, de alguma maneira o treinamento dos líderes. Houve muito investimento em tecnologia, mas liderança ficou em segundo plano”, afirma Betânia. No final de 2020, outra pesquisa da BTA apontou que 84% das companhias tinham intenção de reduzir ou, no máximo, manter os investimentos em desenvolvimento dos seus executivos.

“Agora há uma predominância de líderes com competências medianas em um ambiente altamente demandante”, afirma.

Ao mesmo tempo, o trabalho remoto permitiu um nível de assédio maior em termos de cobrança, porque não existem espectadores, diz Tatiana Iwai, professora de comportamento e liderança do Insper.

“O executivo não está diante de uma equipe, a não ser em reuniões online, e os diálogos são privados”, afirma Tatiana. “Neste tipo de ambiente, a pressão pode ser muito mais intensa.”

“As empresas reconhecem e mantêm esse tipo de liderança tóxica porque, na maioria das vezes, ela entrega resultados”, diz a sócia da BTA, Vânia Café.

“Justamente pela assertividade e certa agressividade destes líderes na condução da equipe, eles conseguem cumprir metas. Isso leva a empresa a relevar o comportamento tóxico”, afirma a especialista. Tatiana Iwai destaca, no entanto, que grandes escândalos corporativos – como o que ocorreu com a Caixa Econômica Federal recentemente – não acontecem da noite para o dia.

“São comportamentos tóxicos que vão se tornando regulares e acabam moldando a cultura daquela empresa”, diz ela. “No entanto, em algum momento, tudo isso vem à tona e compromete a imagem da companhia com todos os seus públicos de interesse: funcionários, fornecedores, consumidores, comunidade e investidores.”

A contrapartida do comportamento de assédio moral é a dificuldade de atração e a perda de talentos”, diz Vânia Café. “As empresas criam reputação no mercado, com base na sua cultura de liderança. Uma empresa – ou equipe – de alta rotatividade pode ser um indicativo de assédio moral”, afirma.

Flávio (nome fictício), 45 está há décadas na área de vendas e se orgulha de saber trabalhar sob pressão. É executivo de contas de uma multinacional de tecnologia e atende clientes do governo federal, em Brasília.

Ele afirma que as empresas costumam estipular metas superestimadas porque, caso algum setor falhe, outro pode compensar. Flávio também diz que os chefes fazem pressão para que os vendedores se tornem amigos dos clientes, sem entender que a construção desse tipo de relação é demorada.

O problema é que, quando chega o fim do ano o executivo precisa atingir sua meta, começa a assumir riscos.

Ele conta que, em seu trabalho anterior, fez uma encomenda de equipamentos para alguns clientes que, posteriormente, desistiram da compra. Quando isso ocorreu, ele relata tersido alvo de muita pressão – segundo Flávio, seu chefe gritava: “Tem milhões de reais em equipamentos parados. Você prometeu que sairia dia 15 de agosto e agora é 30 de setembro e está tudo parado. A divisão América Latina e a divisão Américas contavam com isso. Como você falha assim? É o segundo mês que você falha”.

Como resultado da pressão, diz ter desenvolvido um quadro de ansiedade. Ele relata que passou a ter dificuldade para se concentrar, que não podia mais beber, porque o álcool o desequilibrava emocionalmente, desencadeando choros, e que teve problemas de libido.

A saída que encontrou foi terapia e a religião espírita, afirma. Um tempo depois, ele deixou o trabalho.

Hoje, Flávio reclama da carga de trabalho, que aumentou muito com a pandemia. Segundo ele, são inúmeras reuniões todos os dias, e cada uma define uma nova tarefa a ser realizada por ele.

O vendedor diz ainda que não consegue mais impor limites ao seu horário de trabalho, usando o tempo antes e depois do expediente para ter um momento privado para pensar e definir estratégias.

Agora, ele diz que já estuda um plano B: dar adeus à vida executiva e se concentrar na vida no campo.

Já Renato, em Belo Horizonte, deixou depois de seis meses a empresa de telecom. e passou a trabalhar em uma companhia de tecnologia. Ainda hoje faz terapia, mas já superou as crises de pânico.

A gota d’agua para ele no antigo emprego foi a falta de empatia do chefe com a sua doença. Renato pegou Covid no início de 2021 e ficou 20 dias internado, 10 deles na UTI. Ele diz que sua imunidade estava baixa porque vinha dormindo mal e comendo muito em razão da ansiedade e que pertencia a um grupo de risco, por ser obeso. Renato diz ter ficado com 70% do pulmão comprometido.

Levou o laptop para o hospital e continuou trabalhando. Alguns dias depois, porém, avisou o chefe que seria encaminhado a UTI, em razão do agravamento do quadro, e levaria apenas o seu celular pessoal, para se comunicar com a mulher.

Cinco dias depois, em um dos momentos mais críticos da terapia, quando estava sendo submetido ao ventilador mecânico para suprir a carência de oxigênio, sem conseguir falar, recebeu uma mensagem por WhatsApp: “OI, quando puder, me liga”. Era o chefe, querendo que Renato providenciasse um atestado médico.

EU ACHO …

A EX

Nunca mais daria diamantes. Convidaria suas eleitas para um… sorvete, doce efêmero como o amor

Ele era romântico em qualquer sentido do termo. Um homem dado a declarações de amor, oferta de flores e banhos de hidro, ao entardecer, com vinho. Heitor era um cavalheiro,  um bom amante e muito atencioso aos detalhes. Estela, a namorada, parecia descobrir novo encanto a cada dia.

O namoro estava perto de completar dois anos e não poderia estar melhor. Ele tinha anunciado que ela estivesse pronta para um lugar especial naquele sábado frio de julho, Ela intuiu que seria pedida em casamento.

Sim: o plano do bravo Heitor era esse. Um anel foi comprado. Naquela noite, no lugar que ele amava, com vista para toda a cidade, ele tentaria o upgrade de namoro para noivado.

A Lua foi cúmplice dos enamorados e apresentou-se cheia em céu límpido de inverno. O anel exalava uma onda de emoção do seu silencioso estojo, quase gritando para ir ao dedo da eleita. O homem planejava o momento certo de fazer o pedido. A mulher intuía, arfante, que seria uma noite perfeita.

Um pouco antes do pedido do vinho, Heitor percebeu o vulto de Isabela em um canto do restaurante. Eles estiveram casados por seis anos. Amaram-se e, por decisão tranquila e consensual do casal, separaram-se. Isabela se casara de novo e tinha uma filha com o atual  esposo, o qual a acompanhava na noite em questão. Perseguição? Não, Isabela era um modelo de equilíbrio e jamais faria algo assim. Pura e absoluta coincidência.

Havia um problema que chegava à consciência de Heitor aos poucos e tomava sua paz. Ele pedira Isabela no mesmo restaurante. Sim, podemos acusar nosso romântico de, talvez, pouco criativo.

Ele começou a ficar inquieto. Dissera à ex que a amaria para sempre e que seriam felizes até ambos ficarem velhinhos. Tinha prometido que iriam juntos ao geriatra, de mãos dadas. As promessas duraram seis belos verões. Ele sentira o amor absoluto no momento do pedido e, poucos anos depois, tinham formado um casal indiferente, sem que nenhum tivesse um deslize grave a acusar no outro. Separam-se não por colisão, simplesmente por falta de combustível, parte seca na estrada da vida, talvez.

Heitor passou a duvidar do seu futuro com Estela. E se Estela fosse, de novo, a história de Isabela? A quase rima pobre dos dois nomes o incomodava mais. Estela/Isabela agora dançavam na sua cabeça. Repetira o restaurante, escolhera nomes (e tipos físicos) parecidos e agora, quase oito anos depois, estava prestes a fazer a mesma cena no mesmo lugar. Uma angústia nova o incomodou ainda mais agora: o modelo do anel de noivado, a lapidação do diamante e as curvas da platina eram… quase idênticos nos dois pedidos. Ele se percebia uma cópia de si, uma farsa repetida, um apaixonado tomado pelo momento que encenaria a mesma pantomima – com risco idêntico de fracasso.

Deboa memória, Heitor tinha exata lembrança de que sentia um amor intenso e que suspirava por eternidade quando pediu a primeira esposa. Enganou-se. O que garantia que não estava equivocado novamente? Nada, matematicamente nada. Era um salto no escuro, excessivamente claro, em meio a todas as incertezas que o futuro sempre apresenta em alguma borda de abismo.

Heitor foi ficando lívido. Sua certeza do que fazer naquela noite de Lua cheia tinha sido abalada. Mais: tinha dúvida de qualquer compromisso permanente, agora que sabia que seu coração não era sólido, todavia, um pântano inseguro de promessas feitas e, depois, esquecidas. Ele não se considerava confiável e supunha que o amor não era mais um fato seguro. A presença da ex era uma fissura funda no bloco granítico do outrora decidido Heitor. Ela, Isabela, era a prova viva de que tudo passa e que Cupido, como bem advertia o Padre Vieira, era uma criança, porque os rumores humanos não se tornavam adultos. Seu casamento morrera antes de chegar a alguma boda adolescente. Tinha terminado na primeira infância, com apenas seis anos de contato.

A namorada percebeu o incômodo do nosso dividido homem e perguntou se ele estava bem. O anel que fulgurava de forma invisível no bolso do blazer, agora, era uma pedra fria e incômoda. Quantos outros anéis ele daria a quantas outras mulheres, até que o fim tornasse o último casamento eterno, não por decisão de um coração romântico, porém por falha cardíaca mesmo? Só a morte seria o cumprimento de toda promessa matrimonial? Por isso, o padre dissera: ”Até que a morte os separe!”. Heitor duvidava de tudo. Perdera a fé no amor, em si e em diamantes. Alegou um mal-estar por causa da comida e do vinho, pediu a conta e despediu-se apressadamente da atônita Estela. Ela, Estela, e ela, Isabela, tinham sido involuntárias placas tectônicas que rompiam a calma superfície do homem outrora romântico e talhado para o casamento.

Não preciso dizer, apaixonada leitora e enlevado leitor, que o sol da primavera não brilhou sobre o casal. Constrangido, ele rompeu três dias depois. Guardou o anel, para refletir – diante do óbvio – como pessoas volúveis apostavam em materiais permanentes como amuleto. “Fadiga de material humano”, comentou o desolado Heitor. Nunca mais daria diamantes.

Doravante, convidaria suas eleitas para um… sorvete. Sim, o doce gelado era efêmero. Funcionava feliz por alguns minutos e passava, como o amor. Lambiam a casquinha, beijavam-se e se separavam. “Assim deve ser, sorvete e namoro, nunca mais diamantes e casamento…”, filosofava Heitor.

No mundo, deveria existir a esperança de diamantes, convivendo com sorvetes.

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

ESTES ALIMENTOS PODEM AJUDAR NA SUA HIDRATAÇÃO

Esqueça a teoria dos ‘oito copos de água’. Frutas, vegetais e outros tipos de líquido também contam para manter o corpo hidratado

Se você não está ingerindo líquidos suficientes para produzir suor adequado em um dia quente, pode estar mais vulnerável à insolação. A desidratação pode ser causada pelo calor extremo, mas também pode exacerbar outras condições relacionadas ao calor, como cãibras de calor.

Portanto, ingerir líquidos é crucial, mas a hidratação pode ir além de beber água. A crença popular de que todos nós precisamos beber oito copos por dia para estarmos realmente hidratados persiste, embora tenha sido desmascarada várias vezes. “Realmente, não há dados por trás dos oito copos de água por dia”, disse o dr. Dan Negoianu, nefrologista da Universidade da Pensilvânia. “Só porque sua urina está escura, isso não prova que você está desidratado.”

Estar hidratado significa simplesmente consumir líquidos suficientes a ponto de não sentir sede, contou Negoianu, e essa quantidade varia para todos. Há muitas coisas além de água para mantê-lo hidratado, dizem os especialistas, incluindo alimentos e bebidas. Aqui, algumas sugestões.

OLHE PARA SUAS FRUTAS, SEUS VEGETAIS E BEBIDAS FAVORITOS

“Achamos que precisamos beber muita água o tempo todo porque ouvimos isso o tempo todo”, analisou Tamara Hew-Butler, cientista de medicina esportiva da Wayne State University especializada em equilíbrio de fluidos.

Mas qualquer alimento ou bebida que tenha conteúdo líquido será hidratante, ela explicou: “Seu corpo não se importa de onde vem a hidratação, ele só precisa de líquido”.

Frutas e vegetais frescos são fontes ideais porque não só tendem a conter alto teor de água, mas também têm fibras, o que proporciona outros benefícios para sua dieta. Melancia e melão são especial mente suculentos. Morangos, laranjas, uvas, pepinos e aipo também contêm muita água.

Bebidas de todos os tipos podem ser hidratantes. Suco, leite, chá e café contêm fluidos que seu corpo pode usar. Bebidas com alto teor de açúcar podem não ser a melhor escolha nutricional, mas pesquisas mostram que bebidas adoçadas com açúcar são tão boas quanto a água para fornecer fluidos ao seu sistema.

Nos dias quentes, sobremesas congeladas, como picolés e sorvetes são recipientes úteis para o consumo de líquidos.

“Você pode atingir e exceder suas necessidades diárias de líquidos através da ingestão de bebidas e alimentos com alto teor de umidade sem beber um único copo de água”, ensinou Hew-Butler por e-mail.

BEBIDAS COM CAFEÍNA TAMBÉM PODEM HIDRATAR

Bebidas com cafeína também podem ser hidratantes. Embora a cafeína seja frequentemente considerada um diurético ou substância desidratante, pesquisas mostram que consumir café ou outras bebidas com cafeína produz os mesmos efeitos de beber água.

Se você está ingerindo uma quantidade significativa de cafeína após um longo período sem ela, pode experimentar um pequeno pico de desidratação, lembrou Kelly Hyndman, pesquisadora da Universidade do Alabama em Birmingham que estuda a função renal e a retenção de líquidos. Mas, caso contrário, a cafeína não causará desidratação, acrescentou ela – pelo menos não nos níveis que as pessoas normalmente consomem.

NÃO TENHA MEDO DE ALIMENTOS SALGADOS

Você provavelmente já ouviu falar que alimentos salgados desidratam, mas isso não é totalmente verdade, avaliou Hyndman. Nossos corpos estão constantemente procurando manter um equilíbrio sal-água, o que eles fazem com a ajuda de vários hormônios. Um dos mais proeminentes é o hormônio antidiurético, ou ADH.

Quando consumimos muitos alimentos salgados de uma só vez, nossos cérebros secretam ADH, que por sua vez diz aos nossos rins para reter água, impedindo-nos de urinar em excesso. Ao mesmo tempo, o cérebro secreta outro hormônio, a vasopressina, que está ligada à sensação de sede. Juntos, todos esses hormônios sinalizam que você precisa de mais líquidos. Consumir muitos alimentos salgados só é um problema se você também estiver ignorando seus sinais de sede, observou Hew-Butler.

Se você estiver procurando por alimentos salgados que sejam hidratantes, azeitonas e picles são escolhas aceitáveis, embora seja raro que as pessoas os consumam em grandes quantidades. A sopa, especialmente com caldos à base de água, também pode ajudar a encher-se de água.

Mas o que é realmente desidratante é o álcool. “O álcool suprime o ADH”, informou Hyndman. Então, quando você o consome, “você não tem esse hormônio dizendo ao seu rim para reabsorver água” e qualquer fluido que você consumir passará direto por você.

CRIANÇAS E IDOSOS REQUEREM ATENÇÃO

“A maioria de nós que diz que está desidratada provavelmente não está”, adverte Hyndman. Se você reclama de ter uma bexiga pequena ou está apenas fazendo xixi com mais frequência do que gostaria, talvez não precise consumir tanto líquido. Aqueles que precisam ser mais diligentes na hidratação ativa são as crianças, os idosos e pessoas com condições médicas subjacentes, aconselhou Hyndman. O restante de nós simplesmente precisa tomar uma bebida ou comer alimentos cheios de líquidos quando estiver com sede, concluiu Hew-Butler, e confiar em nossos instintos. “Não precisamos pensar demais nisso.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

BEBER ÁGUA PROVOCA REAÇÃO DE PRAZER NO CÉREBRO

Hidratação faz corpo liberar dopamina, neurotransmissor da satisfação

Sabe aquela sensação de bem-estar ao beber um copo de água depois de muito tempo com sede? Esse é o resultado do seu cérebro liberando dopamina, um neurotransmissor associado ao sistema de recompensa do corpo e um dos responsáveis pela sensação de prazer durante o sexo.

Um estudo recente publicado na revista Nature descobriu que o cérebro libera dopamina em resposta à hidratação. Pesquisadores da Universidade da Califórnia e do Howard Hughes Medical Institute, ambos em São Francisco, nos Estados Unidos, fizeram experimentos com camundongos sedentos e descreveram os resultados no artigo científico.

Cientistas já sabiam que o cérebro libera dopamina quando uma pessoa come algo de que gosta, principalmente alimentos doces ou gordurosos. No novo trabalho, os pesquisadores descobriram que outra região cerebral mobiliza o neurotransmissor — desta vez quando “sente” chegar a hidratação.

Para analisar a produção de dopamina após a ingestão de água, os pesquisadores deixaram os camundongos com sede e usaram uma tecnologia para monitorar as ondas que vinham da área tegmental ventral (VTA) no cérebro, uma maneira de medir quanta dopamina está sendo produzida.

No experimento, os cientistas observaram que os níveis de produção de dopamina aumentaram assim que os camundongos começaram a beber água. Mas o que surpreendeu os cientistas foi descobrir que, 10 minutos depois da ingestão do líquido, os níveis de dopamina aumentaram novamente – coincidindo com a quantidade de tempo que levou para a água que eles bebiam chegar ao cérebro.

Os pesquisadores então repetiram o experimento, mas adicionaram sal à água. Desta vez, o segundo aumento na dopamina foi muito menor devido ao impacto desidratante do sal.

Os pesquisadores então analisaram se o segundo aumento na produção de dopamina teve impacto duradouro nos camundongos. Eles deram aos animais uma escolha de garrafas de água de cores diferentes – ambas eram água pura, mas quando os animais beberam da segunda garrafa, os cientistas injetaram uma pequena quantidade de sal em seu intestino.

Após várias sessões de treinamento, os pesquisadores perceberam que os camundongos começaram a preferir a água que não estava associada a uma injeção de sal. Eles sugerem que isso indica que a produção de dopamina no VTA ajuda os animais a aprender qual líquido beber ou qual comida comer, para garantir que recebam quantidade de água suficiente.

OUTROS OLHARES

ESTUDO APONTA ORIGEM DA HISTÓRIA DE AMOR ENTRE CÃES E SERES HUMANOS

Análise de DNA indica que os cachorros atuais estão mais próximos dos lobos da era do Gelo

Um levantamento sem precedentes da diversidade genética que existia entre os lobos do fim da era do Gelo acaba de trazer mais pistas sobre as origens da longa história de um amor entre cães e seres humanos.

Os dados indicam que a maioria dos cachorros vivos hoje tem parentesco mais próximo com os lobos antigos que viviam no leste da Eurásia, em locais como a Sibéria, embora outras populações da espécie aparentemente também tenham contribuído para os ancestrais dos bichos domésticos de hoje.

Os resultados, publicados recentemente na revista científica britânica Nature, não  chegam a resolver totalmente o enigma da domesticação dos cães, mas trazem uma grande massa de informações  novas sobre o tema.

“O conjunto de dados do artigo é bastante impressionante. Temos cerca de 70 genomas sequenciados (ou seja, ‘soletrados’ na íntegra, como o genoma humano atual) ao longo de uma série temporal de 100 mil anos. Isso permitiu que analisássemos uma quantidade enorme de detalhes a respeito de como os lobos evoluíram ao longo desse período. E, claro, um dos aspectos disso é a relação deles com os cães domesticados”, explica David Stanton, pesquisador do Centro de Paleogenética da Queen Mary University de Londres, em comunicado oficial.

Ele é um dos coautores do estudo, realizado por uma equipe internacional com dezenas de cientistas, a maioria europeus.

Os lobos com milhares ou dezenas de milhares de anos que “doaram” seu DNA para estudo têm distribuição geográfica ampla. Seus esqueletos vêm de boa parte da Europa Ocidental, da Rússia; do Oriente Médio, da Ásia Central e da América do Norte.

Defato, os lobos eram uma das espécies de grandes mamíferos mais bem distribuídas pelo planeta no Pleistoceno (a era do Gelo), ponto no qual se assemelhavam aos seres humanos que acabariam domesticando alguns deles.

Essa distribuição geográfica, sinal de grande versatilidade, pode ajudar a explicar o fato de que os bichos não desapareceram no fim desse período, ao contrário do que aconteceu com muitos outros predadores do Pleistoceno, como ursos-das cavernas e dentes de-sabre.

“É impressionante como eles conseguiam se movimentar de forma relativamente rápida e fácil por muitas regiões”, observou Stanton em comunicado oficial.

Outro possível fator chave foi revelado pela análise genômica: a conexão frequente entre as populações de lobos ao longo do tempo. Ao que tudo indica, a reprodução envolvendo diferentes grupos da espécie funcionava como um eficiente “telefone sem fio levando mutações novas no DNA de um canto a outro do hemisfério Norte, principalmente se elas aconteciam na Sibéria.

O território siberiano parece ter sido o lugar que mais “exportava” genes de lobos para as populações lupinas em outros lugares do planeta. Com essa facilidade para se misturar e incorporar novidades genéticas, os bichos podem ter aumentado sua capacidade de se adaptar a novos desafios do ambiente ao longo do tempo.

A situação parece ter mudado de figura para os lobos a partir de 10 mil anos antes do presente, época na qual a agricultura e a criação de animais estava começando em diversos lugares do mundo, com aumento da densidade populacional humana. Isso pode significar que, a partir desse momento, os membros da nossa espécie causaram mudanças ambientais que reduziram o território disponível para os bandos lupinos e impediram que eles continuassem com o contato entre si.

Os dados genômicos também indicam que os ancestrais dos cães vivos hoje ainda faziam parte de uma única “grande família” com os lobos, ao menos no que diz respeito ao DNA, há 28 mil anos.

Essa poderia ser a data para o início do processo de domesticação, o que significaria que os cães passaram a viver com os seres humanos cerca de 20 mil anos antes do que qualquer outro animal. Mesmo assim, os autores do novo estudo observam que o processa pode até  ter começado antes disso.

A comparação mais detalhada dos lobos antigos com os membros modernos da sua espécie e os cães revelou ainda que nenhuma população atual de lobos bate com a dos possíveis ancestrais dos cães domésticos.

Os cachorros estão mais próximos dos lobos que existiram no leste da Eurásia no fim da era do Gelo, de maneira geral. Mas os cães do Oriente Médio e da África derivariam até metade de seu DNA de outros lobos antigos, mais próximos dos que vivem atualmente na parte mais ocidental da Eurásia.

Isso pode indicar que os cães foram domesticados duas vezes, no Oriente e no Ocidente, ou que ocorreu apenas a domesticação oriental, à qual se somaram, mais tarde, cruzamentos rom lobos ocidentais (já que a miscigenação entre lobos e cães é relativamente comum). Ainda não é possível dizer qual dos dois cenários é o mais provável.

GESTÃO E CARREIRA

REMUNERAÇÃO DE CEOS É ALVO DE DISCUSSÃO

País ainda não possui estudo que mostre diferença salarial entre o alto escalão e a base; nos EUA, CEO ganha 351 vezes mais

Apesar dos avanços em termos de governança corporativa no Brasil, ainda não existe por aqui um levantamento estruturado que mostre a diferença entre os salários do alto escalão e o ganho médio dos trabalhadores das companhias. Nos Estados Unidos, o Economic Policy lnstitute já fez esse mapeamento, que deixou evidente o abismo salarial dentro de uma mesma empresa.

O resultado mostrou que, em 2020, os presidentes das 350 maiores empresas americanas ganharam, na média, 351 vezes mais que seu funcionário “médio”. O salário dos presidentes, conforme o levantamento, cresceu 18,9% naquele ano, enquanto o ganho do trabalhador comum avançou só 3,9%. O estudo mostra ainda que, em 1965, essa diferença de salário entre o CEO e o restante da empresa era de 21 vezes. “A pandemia trouxe uma dinâmica importante  para o tema, chamando atenção para o distanciamento de salários entre a base e o topo da pirâmide corporativa, em meio a demissões e reduções de salários”, afirma Fabio Coelho, presidente da Alnec, associação que representa  investidores nacionais e estrangeiros.

Já o gerente de Pesquisa e Conteúdo do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Luiz Martins, reforça que uma métrica que vem sendo analisada por investidores é exatamente se o crescimento do salário médio dos empregados de uma empresa segue o mesmo ritmo do que o do CEO, mesmo que os valores em si não sejam comparáveis. Ele  frisa, contudo, que a análise de um salário de um executivo de uma grande empresa precisa computar uma série de variáveis.

DOIS CASOS

O levantamento também mostra o conjunto dos salários das diretorias. No Bradesco, por exemplo, o alto escalão do banco somou uma remuneração de R$ 818 milhões. Esse montante está ligado ao número de membros da diretoria da instituição: um total de 88 executivos. O maior valor de 2021 foi recebido pelo presidente do banco, Octavio de Lazari: R$ 23,7 milhões.

Outra empresa cuja remuneração da diretoria salta aos olhos, mas que está de fora da lista dos dez maiores, é a da agência de turismo CVC, que ainda tenta se recuperar da crise com a pandemia. A remuneração total da diretoria soma R$28 milhões, sendo que 64% desse valor foram pagos apenas para seu presidente, Leonel Andrade. Procurada, a CVC não comentou.

“Falta transparência sobre os critérios da distribuição da verba global aprovada pelos acionistas em assembleia. Quando analisamos a distribuição pelos dados dos formulários de referência, são constatadas algumas discrepâncias, quase sempre beneficiando administradores ligados aos acionistas controladores”, afirma Renato Chaves, que organizou o estudo. Essa diferença, diz ele, se refere ao salário do presidente de algumas empresas em relação ao restante da equipe de diretores.

EU ACHO …

SOBRE COISAS QUE ACONTECEM

Quando abri os olhos pela manhã, não podia imaginar que seria o dia que mudaria a minha vida.

Que seria o dia que conheceria o homem que me faria cometer um crime. O dia que eu me enxergaria no espelho pela última vez. O dia que descobriria que estava grávida. O dia que encontraria um envelope lacrado, com uma carta remetida a mim 20 anos antes.

(Que dia foi esse? Quem está falando?)

É apenas um exercício de criação. Iniciei a crônica com uma frase fictícia e demonstrei os desdobramentos que ela poderia ter. Uma vez escolhido o caminho a seguir, uma história começa a ser contada, que pode ser longa ou curta, verdadeira ou fantasiosa. Bem-vindo ao mundo encantado da escrita.

Convém que a primeira frase seja cintilante. A partir dela, o leitor será fisgado ou não. Exemplo clássico: “Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, início do romance Anna Karenina, de Tolstói. Arrebatador. Uma vez aberta a janela do pensamento, a mágica acontece: o leitor é puxado para um local em que nunca esteve, é deslocado para um universo que poderá até ser hostil, mas certamente fascinante, pois novo. Talvez não se identifique com nada, mas será desafiado a enfrentar sua repulsa ou entusiasmo. Não estará mais em estado neutro. A neutralidade é um desperdício de vida, uma sonolência continua.

A crônica tem o mesmo dever: o de jogar uma isca para o leitor e atraí-lo para o texto. Gênero híbrido (literário/ jornalístico), encontrou no Brasil a sua pátria. Somos a terra de Rubem Braga e Antonio Maria, para citar apenas dois gênios entre tantos que fizeram da leitura de jornal um hábito não só informativo, mas prazeroso e provocador. Se eu fosse citar todos os colegas que admiro, teria que me estender por meia dúzia de páginas, mas só tenho essa.

A crônica é um gênero livre por excelência. Pode ser nostálgica, confessional, lunática, poética. Pode dar clicas, polemizar, elogiar, criticar. Pode ser partidária ou sentimental divertida ou perturbadora, à toa ou filosofal – é caleidoscópica, tal qual nosso cotidiano. Ao abrirmos os olhos pela manhã, nem imaginamos que uma miudeza qualquer poderá nos salvar da mesmice, nos oferecer um outro olhar, mas assim é. Todos nós vivemos, por escrito ou não, uma crônica diária. Hoje, antes de adormecer, você já estará um pouco transformado.

*** MARTHA MEDEIROS                            

ESTAR BEM

BURNOUT MATERNO

O burnout materno, segundo especialistas, é um reflexo social, no qual as mães se sentem solitárias e sobrecarregadas dentro e fora de casa. Exigir menos de si mesma pode ajudar – mas receber apoio é essencial

Quando o seu filho Antônio nasceu, em 2012, Bel Junqueira, na época com 27 anos, sentia-se potente. “Eu era uma mãe leoa, achava que daria conta de tudo sozinha.” Mas, com o passar do tempo, se percebeu sobrecarregada e solitária nas tarefas e alvo de julgamentos da família. Na sua rotina, não havia espaço para o lazer e eram grandes as dificuldades para conciliar o trabalho de mãe com o de fotógrafa autônoma. “Eu não sabia que seria tão difícil e percebi que havia algo errado comigo. Eu estava infeliz e exausta.”

Em 2017, procurou uma psiquiatra, que avaliou que ela estava com burnout materno, síndrome caracterizada pelo esgotamento físico e/ou mental da mãe. “Ela recomendou que eu pedisse ajuda para cuidar do meu filho, encarasse a maternidade de forma mais leve e prescreveu um medicamento antidepressivo”, conta. Seis anos depois, Bel não se sente mais exausta. “Consigo me acolher. Digo para mim mesma: hoje eu dei o meu melhor.”

Apesar de ser reconhecido por psicólogos e psiquiatras – embora não por todos –, o burnout materno não é considerado uma doença mental, mas um agrupamento de sintomas. O termo, que ganhou popularidade nos últimos anos, foi criado por uma associação ao burnout, síndrome provocada pelo estresse crônico no trabalho, uma doença ocupacional.

“A sobrecarga de tarefas de cuidado exercidas pela mãe, que são invisibilizadas e sem pausa, podem custar a sua saúde, que entra em colapso. Geralmente acontece com mulheres que se exigem ou são pressionadas a dar conta de tudo e não têm com quem dividir essas tarefas”, diz a psicóloga perinatal Juliana Tfauni. Segundo ela, a irritabilidade e a perda de prazer no cuidado dos filhos são sintomas do burnout materno. A esse quadro se podem somar transtornos como a depressão e a ansiedade generalizada. Uma pesquisa feita pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP- USP), em parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, apontou que 63% das mães entrevistadas demonstravam sintomas depressivos durante a pandemia por causa da sobrecarga de tarefas.

EXAUSTÃO

Sem ajuda nos cuidados do filho, Fernanda Urbano, de 29 anos, chegou a ponto de não conseguir levantar da cama por exaustão, no ano passado. “Dava 200% do meu tempo para o meu filho e me esquecia de mim. Parecia que o esforço nunca era suficiente”, conta. Em vez de receber ajuda, foi alvo de críticas de familiares.

Do pai da criança, o apoio era quase nulo, o que levou à separação do casal. “Ele só ajudava se eu pedisse muito.” Por recomendação da pediatra do filho, Fernanda buscou uma psiquiatra, que identificou o burnout materno. A síndrome desencadeou uma depressão, que levou a uma fibromialgia. “Ela me deu um medicamento, indicou um psicólogo e pediu que eu encontrasse formas de descansar.”

Desde então, Fernanda priorizou a sua saúde: faz caminhadas todos os dias com o filho de 2 anos e vai à academia duas vezes por semana. Não se sente mais sobrecarregada. “Hoje sei que preciso de um tempo para mim e isso não é egoísmo.” Faz psicoterapia, não se culpa quando as coisas saem do controle, dispensou os perfis de “mães perfeitas” no Instagram.

A mulher que está sofrendo de burnout materno ouve com frequência, da própria mãe, de mulheres mais velhas, que elas davam conta de tudo, segundo a psiquiatra Patrícia Pipper. “As pessoas de outras gerações precisam entender que o cenário mudou. Antes havia uma rede familiar de apoio mais estruturada e as mulheres não entravam no mercado de trabalho como hoje. Além disso, a maternidade não é vista como o único lugar de realização da mulher”, pondera.

Para se ter uma ideia da carga horária das mães, um estudo com mulheres americanas calculou que elas trabalham em média 98 horas por semana – mais que o dobro de um emprego formal. A psiquiatra Patrícia observa que se atribui à mulher o papel de quem desempenha o cuidado em nome do amor. “Espera-se que ela cuide de toda gestão que envolve o filho, o que é extenuante. Obviamente, as mães falham nessa tarefa, quando lhes recai a culpa, pois associam a falha à falta de amor ou a ser uma mãe ‘ruim’.”

Segundo a psiquiatra, o burnout materno é um reflexo social. “As mães estão adoecendo por conta da solidão, do desamparo e da fragilização dos vínculos humanos, além da rigidez dos papéis de gênero”, diz Patrícia. Por isso, o tratamento não inclui necessariamente medicamentos, mas mudanças na dinâmica da família como um todo e de laços de apoio, como creche e outros ambientes.

CULTURA

Para fomentar discussões na sociedade sobre a saúde mental materna, Patrícia criou o movimento Maio Furta-cor. “O problema não se resolve dentro dos consultórios, mas mudando a cultura acerca da maternidade e dos papéis de gênero”, adverte. Neste sentido, políticas públicas são essenciais. “Precisamos de creches de qualidade, segurança alimentar, seguridade social e licenças paternidade e maternidade condizentes com a parentalidade.” Para avaliar se uma paciente tem Burnout materno, a psiquiatra leva em conta o histórico de saúde mental e os arranjos familiares, assim como o contexto social e o suporte que essa mãe tem ou lhe falta. Ela pede exames de laboratório apenas quando há queixas de sintomas físicos, para descartar anemia, doenças de tireoide e falta de vitaminas. “Na saúde física é possível notar queda dos cabelos, emagrecimento ou ganho de peso, alterações no sono. Emocionalmente, essas mulheres sentem irritabilidade, por vezes agressividade, permeadas por tristeza, e isso vai minando a maternidade e a relação com o bebê.”

O burnout materno vitimiza também as crianças dessas mães que sofrem da síndrome, observa a psicóloga Josie Zecchinelli, do Instituto Maternidade Consciente, que capacita profissionais de saúde para dar assistência a mães e famílias. “Numa situação de exaustão, o corpo entra no modo sobrevivência. Isso acarreta um prejuízo no desenvolvimento da criança e na relação entre mãe e filho, pois há um distanciamento emocional não consciente.” Segundo a psicóloga, estudos mostram que o burnout materno aumenta os níveis de negligência e violência contra a criança. “Na realidade de cada mãe, é preciso pensar em caminhos múltiplos para lhe trazer alívio. A sobrecarga não é um problema individual, mas social, cultural e familiar.”

A dificuldade de conciliar a maternidade com a vida profissional levou a escritora Nana Queiroz, de 36 anos, ao burnout materno em 2019. “Sentia que estava em dívida com o meu filho, sempre falhando, então não me permitia dormir ou descansar. Quando ele dormia, minha mente entrava em turbilhão. Dava uma sensação de falta de ar”, descreve. Ela voltou a trabalhar quando o filho tinha cinco meses e se alimentava exclusivamente da amamentação. “Ele era apegado a mim, mas eu queria aumentar minha produtividade no trabalho para mostrar que não devia nada como profissional.”

Até que Nana teve uma pane: no trabalho, não conseguia mais nem ler seus e-mails e não parava de chorar. Foi ao psiquiatra, que identificou o burnout e prescreveu 20 dias de licença, além de um medicamento. “Tive uma sensação de fracasso.”

Mas como acolhimento da família, dos amigos e da empresa, Nana pôde conciliar os dois papéis. Um colega ofereceu uma mentoria, para ajudá-la a fazer uma lista de tarefas e descartar as menos importantes. “Eles sugeriram que eu fizesse pausas para dormir depois do almoço. Percebi que trabalhar uma hora descansada era melhor do que duas horas morrendo de sono.” As mudanças fizeram diferença: depois de alguns meses, Nana foi promovida e criou coragem para ter o segundo filho. “Essa cura coletiva foi boa para todos os envolvidos.”

Mas, de forma geral, o mercado de trabalho é cruel com as mães brasileiras: após 24 meses, quase metade das mulheres que tiram licença-maternidade está fora do mercado de trabalho, um padrão que se perpetua inclusive 47 meses após a licença, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de 2016. A maior parte das saídas do mercado de trabalho das mães se dá sem justa causae por iniciativa do empregador.

PAPEL DO PAI

Uma maior participação do marido no cuidado dos filhos e da casa também contribuiu para a qualidade de vida de Nana. “A divisão de tarefas era um problema. Eu achava delicado chamar a pessoa que amo para essa conversa difícil. Então fizemos algumas sessões de psicoterapia de casal. Não precisei mais ser a gerentona da casa, que tinha de pedir para ele as coisas.” Em seu livro Os Meninos São a Cura do Machismo, Nana sugere às mães que mostrem para a família que a felicidade delas importa. “De maneira amorosa, explico para eles que não são o centro de tudo. Uma mãe feliz é uma lição de feminismo para as crianças.”

Quando o pai da criança não é tão participativo, um bom caminho é dizer a ele abertamente o que sente, em vez de delegar as tarefas, segundo Cássia Cardoso Pires, psicóloga clínica que atende individualmente ou em casal. “Dessa forma, a conversa tem mais chance de dar certo, pois a outra pessoa se compromete a fazer algo, sem imposição”, explica. Uma das autoras do livro Pais!!! Onde Foi Que Acertei? Uma Conversa Entre Psicólogas e Pais, Cássia sugere que a família faça as tarefas da casa de forma lúdica, pois com a exaustão tudo vira obrigação e deixa de ser prazeroso.

Ter uma expectativa realista do comportamento de um bebê ajuda os casais a evitar a hiper vigilância e a frustração, que podem levar ao burnout parental, explica o pediatra especializado em neonatologia Carlos Eduardo Correia, o Cacá. “Os pais ficam excessivamente vigilantes e perdem a confiança em sua capacidade de cuidado com o bebê quando não percebem que o choro dele é uma comunicação, não um problema físico ou consequência de algum erro dos pais. O choro não deve ser considerado um indicador de qualidade do cuidado.”

Uma licença paternal mais longa também contribuiria para formar mais pais potentes e desconstruídos. “Falta um ambiente social que permita que eles se relacionem entre si a respeito desse assunto, algo que ainda traz dificuldade aqui no Brasil. É uma política pública que promove uma transformação social, observada nos países que adotaram a licença paternal estendida”, diz o pediatra.

REDE DE APOIO

As tarefas relacionadas ao cuidado, exercidas principalmente por mães, são um trabalho não remunerado, uma realidade que conflita com a fantasia criada na gravidez, observa a psicóloga Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto Mater Online. “O burnout materno pode surgir quando a maternidade real não condiz com a idealizada”, diz.

Ter uma rede de apoio é um fator de proteção para os pais, mas atualmente há um afastamento da “aldeia” que ajudava no cuidado das crianças, explica a psicóloga. “Antes a tia, a avó, a vizinha ajudavam. Hoje as famílias estão isoladas nos apartamentos e os familiares estão distantes. O resultado é que a mulher assume essas tarefas e não tem tempo para dormir, pentear o cabelo, viver.”

Por conta da romantização da maternidade, as mães têm vergonha de admitir que estão exaustas. Por isso, os grupos de apoio voltados a elas são importantes, na visão de Christelle Maillet, de 41 anos, criadora do Mães com Humores, canal voltado à saúde mental materna. Ela é mediadora dos grupos de apoio gratuitos, voltados a mães e futuras mães com depressão ou transtorno bipolar – fatores de risco para desenvolver burnout materno.

“Acolhemos as mães que relatam suas dificuldades e que podem estar à beira do burnout materno por meio da escuta empática, de palavras acolhedoras e da troca de experiência e de dicas que mostram que ela não está sozinha”, conclui.

NÃO ENTRE EM PANE

PARCERIA

Após o nascimento do filho, pais e mães precisam mudar a dinâmica da relação, reforçar a comunicação e selar “combinados”. Os pais devem estar inseridos na dinâmica de cuidados dos filhos e da casa.

BAIXE AS EXPECTATIVAS

Não existe uma receita de maternidade ideal. As mídias sociais de mães e pais “perfeitos” podem colaborar para uma autocobrança insalubre.

DELEGUE

Peça e aceite ajuda. Assumir dificuldades não é sinal de fracasso ou de que não é boa mãe.

AJUDE

Familiares e amigos podem se colocar à disposição. Quando um bebê nasce, as atenções se voltam para ele e a mãe pode ser esquecida. Perceba as necessidades dessa mãe.

BUSQUE SUA TRIBO

A solidão é uma queixa comum, e grupos de apoio são uma opção. O PSI Brasil Apoio ao Pós-Parto é voltado a gestantes e pais com filhos de até um ano. O Mães com Humores mantém grupos com foco em mães com depressão e transtorno bipolar

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DEPRESSÃO E SEROTONINA NÃO TÊM RELAÇÃO DIRETA

Pesquisa levanta debate sobre medicamentos usados para tratar a doença

Um novo artigo aponta que não há evidências suficientes para confirmar a associação direta entre baixos níveis de serotonina e o desenvolvimento da depressão. A conclusão do estudo repercute em questões sobre o tratamento do transtorno psiquiátrico, já que antidepressivos atuam com base nessa compreensão.

A serotonina, popularmente chamada de “hormônio da felicidade”, é um neurotransmissor que atua em diversas áreas do corpo humano, como humor e sexualidade. Para pessoas com quadro depressivo, foi descoberto que medicamentos – chamados de inibidores de recaptação da serotonina – que atuam no aumento dessa substância tiveram efeitos positivos no tratamento da doença.

Esses resultados benéficos resultaram em uma percepção de que baixos níveis de serotonina seriam uma importante causa da depressão. O que a nova pesquisa sugere é que não há evidências suficientes para definir isso.

O artigo foi publicado na revista Molecular Psychiatry. Ele é uma revisão sistemática –  análise de outros estudos prévios – e é composta por 17 dessas pesquisas que já haviam sido realizadas.

Os autores observaram, com base no resultado das outras investigações, que nem todos os pacientes com depressão apresentavam baixo nível de serotonina. Ou seja, o quadro depressivo estaria associado a outros fatores.

Também foi visto que a utilização de métodos para reduzir a serotonina em indivíduos sem a condição não resultou em um quadro depressivo. As conclusões reiteram que os baixos níveis de serotonina não são necessariamente uma causa da depressão. Rogério Panizzutti, médico psiquiatra e professor do Instituto de Psiquiatria (Ipub) da UFRJ, afirma que é importante identificar outras razões que podem ter relação com o desenvolvimento da doença. “É uma explicação meio simplista de que o problema da depressão é a queda da serotonina”, diz Panizzutti.

Panizzutti, que não é um dos autores da pesquisa, afirma que existem antidepressivos que atuam em outros neurotransmissores, como na dopamina, indicando que existem outras substâncias envolvidas na doença. “Todos [esses remédios] têm um desfecho similar que é o tratamento da depressão.”

Além disso, Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP, aponta que é necessário entender o desenvolvimento da depressão por outras frentes que não somente na busca de um biomarcador que explicaria o quadro depressivo. “Se impôs a ideia de que a depressão não tinha nenhuma relação mais profunda com a forma de vida”, afirma Dunker, que é autor do livro “Uma biografia da depressão” e não assinou a nova pesquisa. Essa visão, no entanto, passou a ser questionada. O psicanalista explica que algumas pesquisas da neurociência apontaram que existe uma interação entre cérebro e a ambiente que a pessoa vive. Dessa forma, a depressão não seria um fenômeno estritamente biológico, mas envolveria outras questões do indivíduo e do meio que o cerca.  Ele considera que a pesquisa é importante por abrir um leque de possibilidades no estudo da depressão e também de outras psicopatologias. 

Além de concluir que faltam  a evidências para confirmar a relação causal entre serotonina e depressão, a pesquisa reitera que é necessário entender melhor os mecanismos dos inibidores de recaptação dessa substância.

Um dos pontos é que, como o desenvolvimento da depressão não necessariamente são os baixos níveis do neurotransmissor, os inibidores não estariam agindo diretamente na causa da doença.

Os autores também pontuam que um estudo analisado na revisão sistemática observou uma diminuição de serotonina com a utilização a longo prazo dos antidepressivos. Por isso, seria necessário o desenvolvimento de novas pesquisas para entender de forma mais nítida os efeitos desses medicamentos no tratamento da doença e como eles agem no organismo humano.

Os pontos ainda são objeto de debates. Para Dunker, as dúvidas sobre os mecanismos dos antidepressivos podem gerar dúvidas do resultado dos medicamentos. “Como não sabemos como eles funcionam, pode ser que estejam funcionando sobre causas ou efeitos secundários”, diz.

Panizzutti reitera que remédios atuantes em outros neurotransmissores também ocasionam efeitos positivos no tratamento da doença. Para ele, isso seria um indicativo de que “provavelmente não é que todos estes sistemas de neurotransmissores estão com defeito na depressão, mas sim que, alterando a ação deles, se consegue um efeito antidepressivo”.

Ou seja, mesmo não atuando diretamente na causa da doença, esses medicamentos ocasionam uma melhora do quadro clínico do paciente, diz Panizzutti. “Isso é o que importa para a pessoa que está sofrendo.”

Marcelo Feijó, que não assina o estudo e é professor do departamento de psiquiatria da EMA (Escola Paulista de Medicina) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), explica que as ações do remédio realmente ainda são passíveis de pesquisa. “Não temos todo o conhecimento do que [o inibidor] produz dentro do cérebro.”

Uma explicação inicial da ação desse tipo de medicamento era de que ele resultaria no aumento da serotonina no organismo por inibir a recaptação da substância. Feijó, no entanto, explica que novas pesquisas apontam outros mecanismos para entender os benefícios dos inibidores.

“Algumas pesquisas falam que [o aumento da serotonina] é apenas o começo da mudança”, resume.

No entanto, essa falta de conhecimento sobre o mecanismo não seria um indicativo de que eles não funcionariam, afirma o professor. “O risco de um estudo como esse é falar que as medicações que mexem no sistema da serotonina não seriam eficazes.”

Feijó explica que pesquisas já indicaram a eficácia do antidepressivo, embora possa variar para cada paciente em razão da depressão ser uma doença multifatorial.

OUTROS OLHARES

VACINA CONTRA COVID PODE ALTERAR A MENSTRUAÇÃO

Pesquisa conduzida com 40 mil pessoas mostra que 42% das entrevistadas relataram sangramento mais abundante após a injeção, mas cientistas garantem que mudanças são temporárias e inofensivas

Mais de 5 bilhões de pessoas no mundo receberam uma vacina contra a Covid-19. Picada a picada, o sucesso previsto em ensaios clínicos rapidamente foi visto nas ruas: de acordo com um estudo publicado na revista Lancet, graças a elas, cerca de 20 milhões de vidas foram salvas. O preço a pagar, na grande maioria dos casos, foram efeitos colaterais leves, como dores de cabeça ou mal-estar, embora seus efeitos além dos previstos em estudos anteriores ainda estejam sendo investigados. Entre as mulheres, por exemplo, persiste a polêmica sobre o impacto (ou não) no ciclo menstrual, com dados e experiências às vezes contraditórias.

Uma pesquisa com quase 40 mil pessoas publicada na revista Science Advances lança um pouco mais de luz sobre o impacto na menstruação: 42% das entrevistadas com ciclos menstruais regulares relataram sangramento mais intenso após a imunização. Isso não significa que seja a causa, mas desenha “uma tendência”, dizem os pesquisadores, que servirá para informar melhor as mulheres, embora esse fenômeno seja temporário e não preocupante, apontam. As vacinas são seguras e recomendadas.

Foi sua própria experiência pessoal que abriu as portas para Katharine Lee, professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Tulanem, estudar o eventual impacto da vacinação na menstruação. Ela e Kathryn Clancy, antropóloga da Universidade de Illinois, ambas coautoras do estudo, notaram a menstruação “instável” após receberem a vacina, mas quando foram procurar o porquê, encontraram poucas informações.

Assim, lançaram uma pesquisa nas mídias sociais, blogs científicos e artigos de jornais para recrutar participantes. No total, 39.129 pessoas participaram da pesquisa. E as respostas mostraram que 42% das mulheres com menstruação regular relataram aumento do sangramento após a vacinação, enquanto outros 44% não encontraram alteração no padrão de sangramento.

Pesquisas sugerem, no entanto, que há grupos mais propensos a apresentar sangramento mais intenso após a vacinação, como brancas, latinas, mais velhas, que estiveram grávidas no passado ou têm distúrbios menstruais subjacentes, como endometriose ou síndrome dos ovários policísticos.

A pesquisa também revela que, entre as que não menstruam, 71% das que tomam anticoncepcionais que suprimem a ovulação, dois terços das mulheres na menopausa e mais de um terço das que tomam hormônios de afirmação de gênero também tiveram sangramento.

SEM RISCOS

Porém, os pesquisadores garantem: as mudanças no fluxo menstrual não são incomuns ou perigosas.

Na verdade, essas alterações já foram relatadas em estudos antigos associados à vacina contra febre tifoide, hepatite B ou papilomavírus humano. Além disso, os desequilíbrios descritos em sua pesquisa geralmente são temporários e duram alguns ciclos.

“O que estamos falando aqui é de uma mudança temporária na menstruação, não um distúrbio menstrual. Um distúrbio menstrual geralmente é uma patologia, como endometriose ou miomas, e a vacina não causa isso”, diz Lee.

É mais provável ter efeitos prolongados no seu ciclo caso você contraia Covid, e parece que muitas pessoas com Covid longa também têm alterações menstruais prolongadas.

Cristina González Cea, ginecologista do Hospital de Santiago de Compostela, vê “uma relação causal muito clara entre vacinas e infecção por Covid com esses distúrbios menstruais”:

“Em janeiro, após a aplicação das terceiras doses, vimos uma enxurrada de pacientes em consultas com esses fenômenos de sangramento abundante ou ausência de menstruação.

Santiago Palacios, porta-voz da Sociedade Espanhola de Ginecologia e Obstetrícia explica que a mulher nota a diferença:

“Do ponto de vista médico não é alarmante e não damos relevância, mas gera preocupação na paciente e sua qualidade de vida é afetada.”

Os pesquisadores enfatizam que, por enquanto, não foram observados efeitos sobre a fertilidade e descartam as vozes maliciosas que associam os desequilíbrios menstruais ao risco de infertilidade. Os desequilíbrios são mais como o efeito “da pílula do dia seguinte, que também gera desregulação e tem impacto, mas temporário”.

MOTIVOS

Existem várias hipóteses para a causa dessa alteração. González Cea começou a investigar precisamente por que isso está acontecendo e aponta para uma ação viral que altera a função hormonal.

“Coletamos amostras de 150 pacientes com episódios de sangramento pós-vacina ou pós-Covid e, nas ultrassonografias, encontramos ovulação sustentada fora do ciclo e aumento do estrogênio. Nossa teoria vai para a hiper ovulação. Acreditamos que pode ser o vírus que causa a estimulação dos receptores hormonais”, explica a médica.

Silvia Agramunt, ginecologista do Hospital del Mar de Barcelona, também levanta a hipótese de inflamação e coagulação.

“Supostamente, a vacina ativa o sistema imunológico e pode induzir alterações na coagulação e que o útero repara mal a parede quando expele o endométrio”, sugere. Na mesma linha, Katharine Lee aponta:

“O ciclo menstrual deve responder aos fatores de estresse. Sabemos que as regras variam com base em coisas como estresse imunológico, como ter gripe. A vacina é um estressor imunológico porque ativa o sistema imunológico para protegê-lo, e o útero é um órgão imunológico.

GESTÃO E CARREIRA

JOGOS SÃO A NOVA TENDÊNCIA DOS PROCESSOS DE SELEÇÃO DE TRAINEES

Testes tradicionais usados no passado dão lugar a etapas com games e dinâmicas em grupo online com os candidatos

Você já teve a sensação de que estava fazendo uma prova de vestibular durante um processo seletivo? A era dos testes entediantes e intermináveis parece estar chegando ao fim, ao menos para os candidatos de programas de trainee. Experiências imersivas e interativas são a nova aposta de grandes empresas como Americanas e Unilever.

De acordo com a pesquisa Millennials – Unravelling the Habits of Generation Y in Brazil, a geração Z já representa 24% do mercado de trabalho brasileiro. Para atrair e reter jovens talentos da nova geração, as empresas apostam cada vez mais em jornadas gamificadas para otimizar o recrutamento, engajar os candidatos e tornar a seleção mais descontraída.

O jogo de tabuleiro criado pela Pushstart para a seleção de trainees da Americanas deste ano é um dos exemplos das novas ferramentas usadas durante os processos seletivos. Por meio do jogo, o candidato conhece toda a mecânica da empresa e, conforme resolve os desafios, avança as próximas casas, podendo também pedir ajuda para um gestor.

“Todas as etapas do nosso processo seletivo para trainee são gamificadas”, conta a gerente de gente da Americanas, Flávia Picanço. O objetivo é fazer com que o candidato fique imerso e tenha a real experiência de como é trabalhar na organização. “Queremos passar um pouquinho do nosso DNA, de como funcionamos e quais são os desafios que temos aqui”, diz. Segundo ela, o lado lúdico permite ao processo uma colaboração e uma interação muito profunda entre os candidatos. Além de ajudar a tirar o nervosismo e a ansiedade, comuns durante a jornada. Presente nos processos seletivos para estágio e trainee de grandes empresas como a Ambev, Itaú, Pepsico e Americanas S.A., a PushStart foi fundada em 2014, e começou como um estúdio de games e animações, no entanto, há quatro anos trabalha também com soluções em recrutamento e seleção. “Nascemos em um momento em que os processos seletivos estavam cada vez mais desconectados com a realidade da empresa e do candidato”, conta Felipe Marlon, sócio fundador da startup.

INTERAÇÃO

A empresa desenvolve jogos ao lado dos times das empresas e de consultorias. A companhia atua em duas frentes de trabalho. Na primeira, os candidatos conhecem a empresa a partir de uma experiência imersiva, seja por meio do KolabVerse – plataforma de interação onde os candidatos podem customizar e controlar seus avatares para explorar o universo da empresa –, seja pelo formato Stories, inspirado nas redes sociais.

Nesse ambiente, os candidatos assistem a vídeos de apresentação da empresa e participam de trilhas gamificadas, com o objetivo de analisar o fit cultural (alinhamento entre os valores da empresa e do candidato) e o lado lógico dos participantes.

A segunda frente é a Kolab Dynamics, uma plataforma destinada à realização de dinâmicas em grupo online. Com conteúdos personalizados, é possível simular um desafio específico da própria empresa e colocar os candidatos para debater e apresentar soluções. “Por meio da tecnologia, conseguimos levar desafios diferentes para cada candidato. Não é mais sobre certo ou errado”, destaca Marlon.

Com a mesma base tecnológica, a startup usa jogos de escape room (que partem do raciocínio lógico) e formato tabuleiro. “Não é sobre ganhar o máximo de pontos e vencer o concorrente. A gente se conecta à mecânica, interatividade e storytelling dos games. Transformar cada uma das empresas com quem trabalhamos em algo único e divertido”, diz Marlon.

O fundador da PushStart salienta que toda a análise dos indicadores de desempenho é feita pela empresa recrutadora. As plataformas da startup funcionam como uma ferramenta e criam o ambiente imersivo para que as atividades sejam feitas de forma dinâmica, além de tornar a busca pelo perfil desejado mais assertiva.

Nesse contexto, a startup pode trabalhar ao lado de consultorias de recrutamento como a Cia de Talentos. No caso do processo seletivo para trainee da Unilever, por exemplo, foi criado um Stories Game. Através de vídeos em formato inspirado nas redes sociais com colaboradores e gestores, os candidatos conheciam mais sobre a empresa e passavam por desafios de tomadas de decisão, baseados no dia a dia da multinacional.

ADERÊNCIA

Foi-se o tempo em que as habilidades técnicas eram as únicas responsáveis pela seleção de jovens talentos. Com as novas práticas de trabalho, a aderência entre empresa e candidato é um dos pré-requisitos mais importantes durante um processo seletivo.

No caso da Cia de Talentos, os mapeamentos iniciais avaliam valores, cultura e estilo de trabalho. Nesse contexto, as empresas podem trabalhar com poucos requisitos e abrir espaço para selecionar jovens de diferentes perfis e realidades. Segundo Paula Esteves, sócia da consultoria, ao abrir mão de determinados requisitos e escolher novos critérios de avaliação, é possível garantir mais humanização e acessibilidade. Isso também se reflete no aumento da procura pelos programas. O número de candidatos que participaram de processos seletivos pela empresa em 2021 cresceu 93% em relação a 2018. “Essa é a nova era dos trainees. As pessoas conseguem olhar para o programa e pensar que também pode ser para elas”, afirma.

As jornadas de desenvolvimento gamificadas também funcionam como ferramenta para melhorar a experiência do usuário durante o processo. A tecnologia torna as atividades mais dinâmicas e os candidatos podem aprender sobre a empresa e desenvolver competências de forma interativa.

“Não quero que o candidato se sinta em uma etapa de avaliação, mas em uma atividade em que ele toma decisões e resolve problemas, sem certo ou errado”, destaca Paula.

EU ACHO …

OUTRO POR DENTRO

“Aquele ali tem outro por dentro.” Ela disse isso com tanta amargura na voz que o ambiente tornou-se gélido. Não era um comentário, era uma sentença. O cara tinha outro por dentro. Quem estaria escondido em seu corpo? Um alien? O demo? Sem dúvida, algum cafajeste.

Certas expressões nascem carregadas de preconceito, e só levamos em conta seu lado pejorativo. Se alguém diz que você tem outro por dentro, está dizendo que você é mascarado, desonesto, que representa um papel que não é totalmente verdadeiro. Porém, pra variar, acho que a questão merece ser encarada com mais flexibilidade. Você, eu e a população mundial – bilhões no planeta – também temos outros por dentro, e não somos mascarados nem desonestos: somos humanos.

Onde foi parar a nossa autenticidade? Segue exatamente onde está. Somos autênticos batalhadores, autênticos cidadãos do bem, porém essa é a versão oficial, é a propaganda que divulgamos para o mercado externo, o nosso melhor. Somos verdadeiramente pessoas maravilhosas -ou, ao menos, pessoas muito bem intencionadas. Pagamos os impostos em dia, somos cordiais, damos passagem no trânsito, não compactuamos com a brutalidade dos dias e telefonamos para nossas avós para lhes aliviar a solidão. Mas há outros em nós. Há vários. Há todos aqueles que foram abafados, que não servem aos nossos objetivos, todos aqueles com quem, muitas vezes, nem simpatizamos, mas que existem. Seguem sendo nós, ainda que não batizados e sem firma reconhecida em cartório.

Na cama de um hospital, há em nós alguém saudável. Ao vencermos um campeonato, há em nós um fracassado. Apaixonados, há em nós um cético. Ao saltar de paraquedas, há em nós alguém que teme. No êxtase, há em nós um melancólico. Ao nos responsabilizarmos sobre nosso destino, outro lá dentro de nós assume a direção. Não estamos sós.

Há numa Maria uma Sheila, há num Celso um João, há numa Beatriz uma Sônia, e numa Verônica uma Verinha. Há em todas nós uma Leila Diniz, como já cantou Rita Lee. E sou capaz de apostar que há uma Rita Lee em várias beatas.

Por que isso seria falsificação? Há em mim um Woody Allen, uma Marília Gabriela, uma Lya Luft, um Nelson Motta, uma Madre Tereza e uma Rita Cadilac, e sou eu mesma, íntegra e inteira. Quantos rapazes cordiais não se transformam em homens das cavernas quando calçam uma chuteira e entram em campo? Quantas mulheres singelas não viram competitivas e agressivas numa mesa de canastra? Hitler tinha um músico sensível dentro dele. Pinochet traz um pai de família guardado no peito. Nenhum prejuízo Para a nossa avaliação: seguimos sabendo quem eles são. E quem somos.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

HÁ PESSOAS MAIS SENSÍVEIS A EFEITOS COLATERAIS?

Diferença na maneira como o organismo de cada um metaboliza os remédios pode torná-los mais tóxicos ao corpo

Sempre que tomamos um remédio, nosso objetivo é tratar – e, às vezes, curar – algum problema de saúde que está nos afligindo e prejudicando nossa qualidade de vida. No entanto, algumas pessoas podem sentir alguns sintomas (como dores de cabeça, náuseas, sonolência e tontura, por exemplo) que estão associados à ingestão do medicamento. Eles são conhecidos como efeitos colaterais e estão descritos na bula. Mas, há pessoas que sempre sofrem com esta situação. Seriam algumas delas mais sensíveis aos medicamentos em geral?

Sim : algumas pessoas são mais sensíveis aos medicamentos.

Em 1978, um farmacologista que fazia parte de uma equipe de pesquisa em Londres tomou uma dose de teste do medicamento para pressão arterial chamado de brisoquina e imediatamente caiu no chão. Posteriormente, descobriu-se que a metabolização do remédio nele era fraca, o que o levou a sofrer uma queda vertiginosa na pressão arterial.

Algumas pessoas têm alergia a medicamentos especificas enquanto outras podem apresentar reações incomuns. Mas as diferenças na maneira como os corpos metabolizam  os remédios podem torná-los propensos a efeitos colaterais. Algumas pessoas fazem o metabolismo muito lentamente ou muito rapidamente, o que pode causar altos níveis de medicamentos ou metabólitos (produto do metabolismo) acumulados no sangue.

Os médicos começaram a reconhecer as diferenças individuais no metabolismo dos remédios na década de 1950. Já na década de 1970, pesquisadores de Londres descobriram que o metabolismo lento das drogas pode ser uma característica genética herdada.

Em 1980, eles mostraram que aproximadamente 9% da população britânica eram metabolizadores lentos. Desde então, extensas variações no metabolismo de remédios foram documentadas em muitas populações e etnias.

Essas variações nem sempre são perceptíveis. Este é frequentemente o caso de medicamentos que têm uma alta margem de segurança – ou uma grande diferença entre a dose efetiva usual e a dose que causa efeitos colaterais graves.

Variações no metabolismo, no entanto, podem ser particularmente importantes com medicamentos que têm uma margem de segurança estreita. Os exemplos incluem sangramento excessivo com a ingestão de varfarina, um anticoagulante; aumento da sensibilidade ao medicamento betabloqueador propranolol, que reduz a pressão arterial; e o medicamento antiplaquetário clopidogrel, que é comumente administrado para prevenir coágulos sanguíneos antes e após a angioplastia. Com o analgésico codeína, uma rara variação genética levou uma pessoa à depressão respiratória e à morte.

Uma grande variedade de medicamentos é suscetível a variações no metabolismo que podem tornar as pessoas propensas a efeitos colaterais. A lista inclui antidepressivos, anticoagulantes, antibióticos e muito mais. Para muitos medicamentos, um teste terapêutico começando com uma dose baixa pode ajudar a determinar se você é mais sensível aos efeitos ou não.

TESTES GENÉTICOS

Os avanços na genética molecular estão expandindo rapidamente a capacidade dos médicos de preverem a sensibilidade aos medicamentos. Ainda assim, os especialistas consideram testes iniciais de variações no metabolismo apenas para um pequeno número de medicamentos.

Além de atestar a sensibilidade a medicamentos, os testes genéticos conseguem também analisar os remédios que têm um melhor desempenho para tratar determinada doença considerado os genes que o paciente possui. Isso torna o tratamento mais eficaz e com menos efeitos colaterais.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ANGÚSTIA DA BALANÇA AFETA CADA VEZ MAIS CRIANÇAS

Pesquisa aponta que em 20 anos triplicou busca por emagrecimento na população infantil dentro dos parâmetros de IMC considerados ideais. Entre indivíduos com sobrepeso, procura por dietas quadruplicou

O número de crianças com massa corporal considerada saudável que opta por fazer dieta triplicou nas últimas duas décadas. A conclusão é de um estudo realizado pela Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Os especialistas chegaram a essa conclusão após analisarem dados de cerca de 34 mil crianças, de 8 a 17 anos, que participaram da Pesquisa de Saúde da Inglaterra. A equipe revisou questionários a respeito de hábitos de saúde respondidos entre 1997 e 2016.

Nas entrevistas, as crianças responderam se estavam “tentando emagrecer, tentando ganhar peso, ou não tentando mudar de peso?”. Os resultados, publicados na revista Archives of Disease in Childhood, mostram que mais de um quarto das crianças (26,5%) estavam tentando perder peso em 2016. Em 1998, eram 21,5%.

Entre aquelas com um IMC considerado saudável, a proporção das que queriam emagrecer saltou de 5%, quando o estudo começou em 1997, para 14%, em 2016. Entre as crianças com excesso de peso, a porção das que desejavam perder peso quadruplicou no período de duas décadas, de 9% para 39%. As obesas apresentaram o menor aumento, com o número dobrando de 33% para 63%.

Para os pesquisadores, o aumento no número de crianças com sobrepeso e obesidade tentando emagrecer é considerado um “sucesso”. Por outro lado, as tentativas entre jovens com índice de massa corporal saudável “levantam preocupações”.

COMUNICAÇÃO

Segundo os pesquisadores, houve um aumento acentuado nas tentativas de perda de peso entre as crianças a partir de 2011-2012. Isso coincidiu com o feedback dos pais sobre o peso de seus filhos como parte do Programa Nacional de Medição de Crianças (NCMP), que pesa e mede os alunos na escola.

“O aumento dos esforços para perder peso entre crianças com sobrepeso ou obesidade pode implicar algum sucesso em comunicar a importância do controle de peso a esse grupo”, escreveram os pesquisadores.

Por outro lado, eles afirmam que o aumento do número de crianças saudáveis que faz dieta é preocupante e alertam que “é necessária maior atenção para direcionar as mensagens de controle de peso adequadamente”.

No geral, a proporção de crianças tentando perder peso foi maior entre as mais velhas —uma em cada três crianças de 13 a 17 anos, em comparação com uma em cada cinco crianças de 8 a 12 anos. A proporção de crianças em busca de emagrecimento foi maior entre as meninas (60%) do que entre os meninos (40%). Mas o aumento ao longo do tempo foi significativo apenas para os meninos, disseram os pesquisadores.

A obesidade infantil é um problema mundial. No Reino Unido, uma em cada três crianças está com sobrepeso ou obesidade, e isso só cresceu durante a pandemia. No Brasil, um estudo encomendado pelo Ministério da Saúde mostrou que uma em cada dez crianças brasileiras de até 5 anos está com o peso acima do ideal. Destas, 7% estão com sobrepeso e 3% com obesidade. Acima de 5 anos de idade, a taxa de obesidade sobe para 15%.

O excesso de peso na infância é uma questão de saúde pública. A obesidade infantil aumenta o risco de doenças crônicas e graves, como se tornar um adulto obeso, aumento da probabilidade de diabetes tipo 2 na infância e na idade adulta, apneia do sono, asma, esteatose hepática, doença cardiovascular, colesterol alto, cálculos biliares, intolerância à glicose e resistência à insulina e até mesmo demência.

Um estudo publicado na revista Journal of Science and Medicine in Sport revelou que a obesidade infantil afeta negativamente a capacidade cognitiva na meia-idade, o que aumenta o risco da doença. Diversos trabalhos recentes relacionaram distúrbios de autoimagem e alimentação ao uso excessivo de redes sociais.

OUTROS OLHARES

‘EFEITO ZOOM’ FAZ AUMENTAR AS OPERAÇÕES PLÁSTICAS NO ROSTO NO PAÍS

Procedimentos no nariz, no pescoço e na sobrancelha crescem na pandemia. Especialistas veem efeitos de rotina da auto-observação em videochamadas

Cansaço mental, tristeza pela pandemia e o “efeito Zoom” explicam o aumento de cirurgias plásticas faciais. As operações no rosto – nariz, sobrancelha e pescoço são as que mais cresceram – serviram como doses de prazer para um período sombrio. Também ajudaram a “corrigir” o que muitos brasileiros percebiam como defeitos ao se olhar nas telas nas videochamadas.

As plásticas faciais foram os únicos procedimentos cirúrgicos estéticos que aumentaram no Brasil em 2020, na comparação com o ano anterior, segundo dados mais recentes da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (I­saps). Em 2019, haviam sido realizadas 451.546 plásticas na face. No ano seguinte, já em meio à pandemia, o  número saltou para 483.800.

A cabeleireira Karina Amorim, de 44 anos, nunca havia feito uma plástica. Desde o ano passado, já fez quatro e tem outra cirurgia agendada para este mês – todas no rosto. Quando a pandemia começou, ela demorou a aceitar que ficaria em casa e  não poderia abrir seu salão de beleza. As cirurgias foram uma “válvula de escape”.

“O emocional estava abalado, então eu tentava mostrar que era forte.” Ela nunca apreciou as chamadas de vídeo, mas teve de aderir a essa forma de comunicação. Não gostava do que via. “Comecei a aceitar as videochamadas, a me posicionar diante da imagem e a ver o tanto que estava destruída”, conta Karina, que fez plásticas nos lábios, sobrancelhas e bochechas. Ela também pensava em como retomaria os contatos sociais após o isolamento. As cirurgias na face, diz, ajudaram a levantar o astral.

As telas podem não ser o único gatilho para as plásticas, mas ajudam a entender onde melhorar. “Você vai se vendo, na tela e no espelho, e tem a percepção do que quer”, diz Gabriela Montgomery, de 47 anos, que trabalha com programação neurolinguística.

A quantidade de plásticas no corpo, como lipoaspiração e abdominoplastia, caiu, mas o número de cirurgias para nariz, sobrancelha e pescoço aumentou. A blefaroplastia, que retira o excesso de pele das pálpebras, é a mais comum, mas não foi a que mais cresceu. Os maiores aumentos foram em procedimentos para rejuvenescer o pescoço (17,6%), levantar a sobrancelha (24.4%) e mudar o formato do nariz (21,3%).

A aposentada Maria Guiomar Garcia, de 53 anos, já marcou a blefaroplastia. Ela afirma que o uso de máscaras reforçou a importância da expressão pelo olhar. E o dela está entristecido.

“Por causa das coisas que passamos, mortes de parentes, amigos, o olho cai mais”, afirma Maria Guiomar. “Passamos por muitas coisas e isso deixou as pessoas tristes. Tem de procurar melhorar.”

DEPRESSÃO

Cirurgiões ouvidos dizem que questões emocionais podem até levar pacientes aos consultórios de cirurgia plástica, mas não deveriam ser motivo para realizar um procedimento. Pacientes em depressão, por exemplo, devem ser encaminhados a tratamentos com profissionais de saúde mental e não operados.

Dados da Academia Americana de Plástica Facial também atribuem ao “efeito Zoom” parte do crescimento das cirurgias no rosto. Nos Estados Unidos, a entidade calcula aumento de 40% nos procedimentos cirúrgicos e não cirúrgicos na face, de 2020 a 2021. Oito em cada dez cirurgiões plásticos americanos disseram que seus pacientes querem melhorar a aparência em videoconferências.

Uma autocobrança para estar – e parecer – bem na tela de trabalho é o pano de fundo para as plásticas, na avaliação do cirurgião plástico Victor Cutait. “As pessoas chegam aqui se queixando: ‘Estou cansada de fazer reunião e parecer que não dormi”, relata.

Pessoas em posição de liderança nas empresas querem mostrar um ar “fresh” e os liderados, disposição.  “O foco é sempre parecer melhor, mais descansada, animada, e a face é reflexo disso”, diz o cirurgião.

SEM FILTROS

Se antes era comum que pacientes chegassem aos consultórios com revistas de celebridades para orientar o trabalho dos cirurgiões, hoje desembarcam com as próprias fotos manipuladas, diz Alexandre Piassi, do departamento de mídias digitais da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). O desejo é não precisar mais manipular as imagens  -o que é visto no universo online como falta de autenticidade.

”Veio uma influencer aqui dizendo que precisava parar de usar filtro porque as pessoas cobravam”, conta Cutait. Nos consultórios, o resultado disso é uma demanda constante ao longo de todos os meses do ano – o que não ocorria antes. Segundo o cirurgião Paolo Rubez, o boom de procura pré-pandemia era nas férias de janeiro e julho. Agora, as cirurgias estão diluídas  ao longo do ano.

GESTÃO E CARREIRA

NOVA TEMPORADA DE TRAINEES DEVE ELEVAR NÚMERO DE VAGAS

Expectativa é de que mais de 200 empresas lancem programas neste semestre; guia do trainee traz as mudanças no processo

Seja pelo salário acima da média ou pela oportunidade de começar a carreira em uma grande empresa, ser trainee é o desejo de jovens que cada vez mais enxergam no programa a oportunidade para acelerar a carreira e entrar no mercado de trabalho. Para esses profissionais, a nova temporada, que começa neste mês, deve trazer um número maior de vagas Brasil afora comparado a 2021.

No ano passado, mais de 150 empresas abriram processos seletivos com vagas em diversas áreas e para profissionais de todo o País. Neste ano, a expectativa é de que esse número ultrapasse 200 companhias, segundo o presidente da plataforma Seja Trainee, Luís Abdalla.

Do lado das empresas, o programa tem papel essencial ao desenvolvimento de novas lideranças e na criação de equipes plurais, atraindo o desejo de inovação e transformação das novas gerações. Para os candidatos, é a porta de entrada para o mercado de trabalho.

Apesar da escassez de mão de obra qualificada, as empresas exigem cada vez mais experiência para jovens que acabam de sair das universidades. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um em cada quatro jovens entre 18 e 24 anos está desempregado no País.

Nesse cenário, os programas se tornaram ainda mais concorridos. Para se adequar à nova realidade, com as grandes transformações digitais e novas pautas na agenda das corporações, as empresas têm investido pesado em processos seletivos gamificados e cada vez menos tradicionais.

Para se preparar para a alta temporada de processos seletivos para trainee, preparamos um especial sobre as mudanças nos programas, com dicas de ex-trainees e oportunidades abertas. As reportagens serão publicadas uma vez por semana.

“Eu gosto de enxergar o programa trainee como a residência na medicina”, explica a professora de Liderança e Comportamento Organizacional da Fundação Dom Cabral, Luciana Ferreira. “A sala de aula traz aplicabilidade, mas essa experiência real não acontece. Falta a mão na massa.”             1

Contratada em 2008, Flávia Picanço começou como trainee na área comercial da Americanas. Hoje, é gerente executiva de Gente da companhia e está à frente de todos os programas de entrada da companhia. O Programa Trainee de 2022 foi o primeiro após a fusão com a B2W. A iniciativa forma jovens líderes há 20 anos e, segundo ela, continua tendo como foco levar aos jovens um processo de imersão sobre como é trabalhar na companhia.

EU ACHO …

FALHAR NA CAMA

Pobres entrevistadores, profissão difícil a deles. Na falta de assunto, são obrigados a perguntar para o entrevistado coisas estapafúrdias como “você já falhou na cama?”. E os convidados respondem, que gente educada. Um conhecido cantor, semana passada, disse num programa de tevê que também já havia falhado. É natural. Aliás, esse tipo de falha nem deveria mais entrar em pauta, já que seres humanos se cansam, se estressam, ficam ansiosos, e isso tudo também acaba embolado nos lençóis. Brochar não é falha, é no máximo uma frustração momentânea, e passa. Falhar na cama é outra coisa.

Quando um casal tira a roupa e se deita juntos, as regras passam a ser determinadas por eles e ninguém mais. Não há certo nem errado, tudo é permitido, desde que com o consentimento de ambas as partes. Consentiu? Então vale sadomasoquismo, fantasias eróticas, lambuzamentos, ménages a trois, a quatre, a cinq… vale o que der prazer, vale o combinado.

O que não vale é forçar a barra. O que não pode é haver imposição de uma prática com a qual um dos dois não concorda. O que não se admite é violência e brutalidade, a não ser que elas façam parte do cardápio sexual do casal. Se não fizer, é estupro. Isso é falhar na cama.

Não vou dizer que falta de amor também é falha, porque não é. Muitas vezes o amor não é convidado para a festinha. Não é preciso amar. Não é preciso nem fingir que ama, todo mundo é adulto e deve saber mais ou menos o que esperar do encontro. Mas, mesmo não amando, não custa ser carinhoso. Não custa, depois do embate terminado, ter um pouco de paciência, não sair correndo como se fosse perder o último ônibus da madrugada. Não custa lembrar do nome da pessoa com quem você esteve há cinco minutos gemendo agarradinho. Não custa dizer que foi bom pra você. Se não foi, considere essa mentirinha a boa ação do dia. Pra que dizer que vai denunciar a criatura pro Procon por propaganda enganosa? Não seja grosseiro. Isso é falhar na cama.

O resto está liberado pra rolar. Inclusive, não rolar.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

IOGURTE PROTEICO, VEGETAL, KEFIR? VERSÃO NATURAL AINDA É A MAIS SAUDÁVEL

Conheça as diferente propriedades dos vários produtos disponíveis que chegaram ao mercado, seus atrativos e suas desvantagens

A indústria do iogurte nunca deixa de nos surpreender. Até recentemente, tínhamos duas opções: simples ou adoçado. Em geral, todos os iogurtes com sabor se enquadram na categoria açucarada. E a escolha era simples: natural, quer se trate de iogurtes de soja ou iogurtes clássicos. A comunicação já desmantelou vários lotes de iogurtes supostamente mais saudáveis que os naturais: os que fazem o intestino feliz, os que ajudam as defesas, os 0%, os ricos em fibras. Já sabemos que não, esses acréscimos não melhoram o iogurte natural.

Mas agora temos uma nova geração de criatividade em copos de 125g, e pode não estar tão claro se finalmente melhoraram o iogurte natural. Vamos fazer um tour pelas últimas novidades e tirar conclusões.

IOGURTES PROTEICOS

Eles parecem ser as estrelas dos iogurtes saudáveis há meses. Há muitos sabores disponíveis, mas todos têm a palavra “proteínas” bem grande e geralmente também trazem o peso em gramas do referido nutriente.

Um iogurte natural tem 3,3-3,7g de proteína por 100g,ou cerca de 4g por copo de 125g, que é a apresentação mais comum. Os iogurtes proteicos têm o dobro ou mais dessa quantidade (8-10g por 100g), ou seja, eles realmente cumprem o que prometem. É um iogurte que não tem ingredientes adicionados para atingir esse aumento, mas é drenado, tornando-se mais espesso, com menos água e, portanto, mais concentrado em nutrientes.

É certo que esses produtos podem ser úteis em dietas, em doentes que necessitem reforçar a ingestão ou para pessoas com determinadas necessidades, uma vez que oferecem maior saciedade e mais nutrientes em menor volume. Mas também é verdade que não precisamos de mais proteínas, por isso não é necessário pagar um custo extra por elas. Elas não são um nutriente deficiente na dieta.

Sabe como você pode adicionar esses 5 ou 6g extras de proteína a um iogurte natural normal? Jogue um bom punhado de nozes e sementes, e você também receberá muitos outros micronutrientes e fibras como presente.

IOGURTES VEGETAIS SEM SOJA

O iogurte natural de soja, tão saudável quanto o de vaca e mais sustentável, não é mais novidade nas prateleiras. Acho que todas as grandes empresas já têm sua linha de iogurtes de soja. É um produto consolidado.

Então agora temos iogurtes vegetais de outra coisa. Os de coco e amêndoa são especialmente bem sucedidos. Há também aqueles que misturam soja com coco, com aveia, mas não é a esses que me refiro. Grandes marcas já entraram na onda. Seus ingredientes são basicamente coco, água, amido e bactérias.

Sob o olhar nutricional, esse tipo é de pouco interesse; é pobre em proteínas e cálcio e mais rico em gordura do que um iogurte de soja. O seu interesse é sobretudo organo- léptico: é bom. E por causa de seus ingredientes, é saudável. Embora, como dissemos, a única razão para pagar o custo extra que representa em comparação com a soja seja o sabor ou a textura.

A versão de amêndoa é semelhante à anterior, mas trocando o coco pela oleaginosa.

IOGURTES NATURAIS ‘PREMIUM’

Dentro da gama de iogurtes naturais clássicos há também uma tendência notável: fazer versões mais gourmet. Iogurte natural em copo de vidro feito com a receita de 1919 – cuja diferença para normal (de copo plástico), além do preço e da embalagem, é que tem creme e isso aumenta sua quantidade de gordura e imagino que o torna mais untuoso e palatável. Mas certamente não mais saudável.

Outras marcas oferecem iogurtes naturais orgânicos, artesanal com leite de vaca de pasto e outras lendas semelhantes. Novamente, a diferença nutricional para o iogurte natural oferecido no supermercado é mínima. No máximo, novamente, eles têm mais teor de gordura. É aqui que o consumidor valoriza o tipo de produção, por exemplo, embora se estivermos preocupados com o tratamento das vacas, o iogurte que temos que comprar é o de soja. Não existem vacas felizes produzindo coisas vendidas em supermercados, não se engane.

KEFIR

Kefir merece uma menção porque se tornou muito popular em pouco tempo. De algo que os hippies faziam em casa passou a ter variedades de grandes marcas.

A diferença entre o kefir e o iogurte é o tipo de microrganismo utilizado para fermentar o leite, que no caso do primeiro é um fungo e no caso do iogurte são bactérias. O kefir também é mais líquido e geralmente é um pouco mais ácido que o iogurte. Nutricionalmente, não há grandes diferenças entre iogurte e kefir. É verdade que o kefir fornece uma maior variedade de microrganismos na forma de probióticos, mas também não é uma questão particularmente relevante.

Portanto, a escolha de um ou outro dependerá mais do nosso gosto pessoal do que de critérios nutricionais.

IOGURTES DE CABRA

Embora os produtos lácteos de cabra não sejam novos, até recentemente a única coisa que se podia encontrar em um supermercado feito com leite desse animal era o queijo. Isso mudou.

O bom é que, neste caso, geralmente são iogurtes naturais, ou seja, saudáveis. Mas o preço é consideravelmente superior. No quesito nutricional, as diferenças são irrelevantes. O que é certo é que pode haver maior tolerância para pessoas com problemas digestivos, já que seu teor de uma proteína específica (alfa-caseína) é menor. O menor teor de lactose também ajuda na digestibilidade, embora a lactose em qualquer iogurte já seja reduzida pela fermentação bacteriana.

A conclusão? Bem, se valorizamos o aspecto nutricional e o preço, a melhor opção ainda são os iogurtes naturais. Mas se consideramos ética e sustentabilidade, o natural de soja é boa opção. Você pode escolher alguma das outras opções apenas por gosto pessoal, não por critérios nutricionais.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

4 EM CADA 10 SUICÍDIOS ENVOLVEM USO DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS

Quatro em cada dez pessoas que se suicidam usam substâncias psicoativas, especialmente o álcool, antes de tirar a própria vida, mostra um estudo inédito da UnB (Universidade de Brasília) que investigou dados comportamentais e sociodemográficos das vítimas com objetivo de ajudar na formulação de políticas públicas de prevenção.

O trabalho analisou 1.088 suicídios ocorridos no Distrito Federal, em um período de nove anos. Desses casos, 780 passaram por exames toxicológicos e 44% tiveram resultados positivos para substâncias psicoativas, sendo desses 72% para o uso exclusivo de álcool e 22% para outras drogas associadas, em especial a cocaína, além do álcool.

O estudo mostra que entre 2005 e 2014 o aumento da taxa de suicídio relacionada ao uso de substâncias psicoativas foi dez vezes maior que o crescimento populacional do Distrito Federal. Na pesquisa, só esses casos passaram por uma análise mais minuciosa sobre o perfil das vítimas. Os resultados, publicados em artigo científico na revista BMC Psychiatric, refletem a situação preocupante da saúde mental dos brasileiros. O total de óbitos no país pelas chamadas lesões autoprovocadas dobrou de cerca de 7.000 para 14 mil nos últimos 20 anos, segundo o Datasus. A maioria dos suicídios analisados no estudo foi cometida por homens (84%), o que também ocorre no resto do país. Dados do Ministério da Saúde mostram uma taxa média anual de 6,13 casos de suicídios por 100 mil pessoas (9,8 para homens e 2,5 para mulheres).

Pretos e pardos responderam por 82% dos casos analisados. Essa população constitui o grupo mais socialmente vulnerável no país e, segundo os pesquisadores, isso pode ser fator de risco para o suicídio.

A proporção, porém, não é a mesma observada no cenário nacional. Dos 14.084 suicídios registrados no país em 2021, 50% são de pretos e pardos e 47%, de brancos. Indígenas respondem por 1% e aqueles de cor ignorada, por 2%.

A maior parte dos casos investigados ocorreu em casa (74%) e nas faixas etárias entre 30 e 59 anos (55%), seguida pelos jovens entre 18 e 29 anos (35%).

Para a professora Andrea Gallassi, autora do estudo e coordenadora do Centro de Referência sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas da UnB, estudos como esse são essenciais para identificar padrões associados aos suicídios e, a partir deles, investir em políticas de prevenção voltadas aos indivíduos com maior risco. “Temos um problema cultural em relação aos homens. Essa sociedade patriarcal, machista, faz com que o homem tenha muita dificuldade em lidar com seus sentimentos e fraquezas e de procurar ajuda”, afirma Gallassi.

Segundo a professora, as campanhas de comunicação em saúde precisam levar esses dados em conta para ajudar os homens a reconhecerem o adoecimento. “Todos os anos tem o Novembro Azul focado no câncer de próstata. Precisamos avançar, falar em saúde mental dos homens. Tem que falar que homem sofre, tem depressão e dificuldade de lidar com sentimentos.”

Para ela, a situação está relacionada, inclusive, a muitos casos de feminicídio seguidos de suicídio do homem. “Ele foi educado numa cultura machista de que a mulher pertence ao homem e tem uma enorme dificuldade de lidar com a perda de alguém que, na cabeça dele, lhe pertence.”

Segundo relatos da família coletados no estudo, depois do uso de álcool e drogas, o crime ligado a relacionamentos é citado como a segunda maior motivação do suicídio. Em terceiro lugar estão as doenças mentais prévias, como depressão e ansiedade.

De acordo com o estudo, a concentração de álcool no sangue das pessoas que morreram por suicídio estava entre 1,5 e 2,99 gramas por litros, quantidade que pode causar desorientação e confusão mental, por exemplo.

O efeito agudo do álcool sobre os neurotransmissores e as funções cognitivas também pode aumentar a agressividade, a impulsividade e a desinibição. “A pessoa faz uso para se encorajar a tirar a própria vida. Mas não sabemos se era dependente de álcool ou outras drogas ou se usou para ter coragem”, diz Gallassi.

Nas entrevistas com familiares sobre o comportamento de quem se suicidou, foi relatado que 88% apresentaram mudança de comportamento antes de praticar o ato: 52% se tornaram mais depressivos e 32%, mais agressivos.

Um outro dado que chama atenção é que a maioria das pessoas que tinham histórico anterior de tentativas de suicídio não usou álcool e outras drogas antes de tirar a própria vida. “A hipótese é que elas já tinham um planejamento mais consolidado e não precisaram de um elemento encorajador.”

De acordo com Gallassi, é grande a chance de uma pessoa que tentou se matar anteriormente repetir a tentativa. “Por isso, é fundamental monitorá-la de perto para ver se vai permanecer com a ideação suicida.”

Em relação a políticas de prevenção, a pesquisadora afirma que uma das principais estratégias seria a capacitação das equipes de saúde da família na atenção primária do SUS para as questões de saúde mental, especialmente os fatores de risco relacionados aos suicídios. “Tem que questionar as famílias sobre casos de transtornos mentais, depressão, tentativas anteriores de suicídios, dependência de álcool e outras drogas e, uma vez identificados, encaminhar a pessoa aos Caps [centros de apoio psicossocial]. Muitas vezes, isso nem é questionado.”

A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda quatro diretrizes para a prevenção: dificultar o acesso aos principais métodos utilizados, qualificar o trabalho da mídia para que neutralize relatos e enfatize histórias de superação, expandir e fortalecer serviços de saúde mental, capacitando profissionais para identificar casos precoces e trabalhar habilidades socioemocionais nos espaços de ensino.

OUTROS OLHARES

ECO SEXO

Iniciativas sustentáveis, como dildos de madeira e camisinhas veganas, que chegam ao mercado de produtos eróticos e sugerem formas de tornar a vida sexual ecologicamente mais correta

Vale tudo entre quatro paredes? Não para aqueles cuja consciência ambiental fala mais alto do que os gemidos de prazer. O crescimento do número de consumidores ecologicamente corretos consegue impactar o mercado erótico, que tem se reinventado com a criação de produtos menos nocivos à natureza. Mas para quem veste a camisa (ou seria camisinha?) da sustentabilidade, adotar práticas de um sexo eco-friendly vai muito além do consumo.

De acordo com a consultora de comunicação para sustentabilidade Karin Rodrigues, pensar na forma de descarte de produtos eróticos é parte fundamental de uma vida sexual mais ecologicamente correta. Ela frisa que a responsabilidade precisa ser dividida entre as empresas e o consumidor final. A indústria erótica produz lixo porque nosso sistema produz lixo. Precisamos nos responsabilizar pelo descarte e recolhimento das peças, para que elas possam ir para a reciclagem depois”, pontua a especialista.

A respeito dos preservativos ofertados no Brasil, cuja matéria-prima não é biodegradável, Karin avalia que é um lixo “que vale a pena ser gerado”, mas sugere como alternativa o descarte separado de resíduos recicláveis para não contaminá-los. Enquanto isso, na Alemanha, a marca Einhom (unicórnio, em tradução livre) ganha espaço no mercado (e nas camas) com suas camisinhas veganas e sustentáveis. Além de trocar a caseína por um lubrificante natural feito à base de plantas, a empresa prioriza o látex extraído por pequenos produtores da Tailândia, que se distanciam das monoculturas da borracha em larga escala, causadoras de desmatamento.

Outra opção para quem quer seguir à risca uma vida sexual mais sustentável é usar lubrificantes à base d’água e com componentes naturais, evitando os fluidos de silicone, que é substância derivada da exploração de petróleo. A Feel, marca de sexual wellness, foca integralmente no desenvolvimento desses produtos. “Sabíamos que havia oportunidade em criar cosméticos eróticos mais saudáveis tanto para a saúde da mulher, quanto para o meio ambiente. E é muito importante ter essa consciência ambiental. “Embalamos nossos produtos com o mínimo de plástico possível”, diz Marina Ratton, CEO da empresa.

Plástico, aliás, é outro material muito incorporado nos brinquedos eróticos – além do silicone – e que dispensa apresentações como um dos principais vilões da preservação da natureza, com tempo de decomposição que pode durar até 450 anos. Atenta ao problema, a Climaxxx passou a ofertar dildos e outros sex toys de cristal, esculpidos à mão por uma artesã que seleciona criteriosamente os fornecedores das pedras, levando em consideração a ética na extração. “A pauta da sustentabilidade está muito conectada com o feminino. A Terra é essa grande mãe que nos acolhe. Então, fomos afinando nossa curadoria de produtos para não ter tanta reserva e, portanto, lixo. Os brinquedinhos de cristais são lindos e duram muito mais tempo”, comenta Larissa Ely, fundadora da marca de sex shop.

A sexóloga Cátia Damasceno recomenda alguns cuidados para quem optar por sex toys feitos de cristal ou madeira. “Usar com o preservativo, porque se o material apresentar qualquer tipo de fissura, pode comprometer a higiene; além de limpar antese após o uso. Uma outra dica é utilizar o óleo de coco nos dildos de madeira, pois é natural e auxilia também na hidratação do material.”

Há também quem tome atitudes menos óbvias para ser ecologicamente mais correto no sexo, que vai de priorizar o uso de lençóis e lingeries com fabricação ética e sustentável, como as da marca Cisó, até evitar transar no chuveiro ou com as luzes acesas. Não há consenso entre ativistas no segundo caso. Mas na dúvida se vale a pena ou não, é melhor deixar que o tesão responda.

GESTÃO E CARREIRA

SAÚDE MENTAL TEM ‘BOOM’ DE PROCURA POR EMPRESAS E IMPULSIONA STARTUPS

Plataformas digitais reduzem barreiras ao atendimento terapêutico durante a pandemia, mas segmento não está totalmente imune à crise que abala mundo ‘tech’

A saúde mental deixou de ser tabu nas empresas, especialmente desde que o burnout, o esgotamento ligado ao excesso de tarefas, tornou-se uma doença do trabalho reconhecida mundialmente. Com isso, a demanda por programas de bem-estar psicológico teve um salto entre as empresas, impulsionando tanto startups especializadas quanto empresas de saúde que veem uma possibilidade de ganhos extras no setor.

Um dos símbolos dessa tendência é a Vittude, que conecta pessoas a psicólogos e tem programas voltados à melhora da saúde mental. Desde o começo da pandemia, a receita da companhia cresceu 540%. Hoje, cerca de 170 empresas são clientes, como O Boticário, Renner e SAP. “Nós mostramos para as empresas que não se preocupam com as pessoas que elas precisam se preocupar com o lucro”, diz Tatiana Pimenta, CEO da Vittude.

Outra companhia que surgiu nesse mercado foi a Zenklub. Rui Brandão diz ter criado o negócio após sua mãe ter sofrido um burnout. Para o executivo, o atendimento digital reduziu os preconceitos sobre os tratamentos. O número de clientes corporativos, em dois anos, saltou de 12 para 400. “Se antes o digital era algo visto como de má qualidade, ficou provado que há muitos benefícios de acesso e comodidade”, diz Brandão. A startup já viabilizou 1, 3 milhão de consultas.

A preocupação com a saúde mental virou uma oportunidade para empresas de outros ramos da saúde, como Gympass e Alice. O Gympass criou a plataforma Wellz. Rogerio Hirose, líder de novos negócios do Gympass, conta que a iniciativa busca atender uma demanda vinda das empresas que já eram parceiras do negócio de academias. “A conscientização sobre saúde mental nas empresas aumentou”, diz. O plano agora é levar o Wellz aos mais de dez países onde o Gympass atua.

A Alice, de planos de saúde, também teve os negócios impulsionados pelo aumento da preocupação com a saúde mental. “Houve um aumento na preocupação do brasileiro com a saúde de maneira geral – incluindo a saúde mental, o que foi impulsionado também pela pandemia de covid-19”, diz Guilherme Azevedo, líder de saúde na Alice.

DESAFIOS

Apesar da alta do mercado, especialistas afirmam que as startups precisam melhorar sua eficiência operacional. A Zenklub e a Alice precisaram rever estratégias e demitir um total de mais de 100 pessoas. A Vittude também teve dificuldades financeiras, e só se encontrou quando conquistou clientes corporativos.

Há quem já projete uma onda de aquisições entre negócios que atuam no setor de saúde mental. “Aumentou muito o mercado interessado no setor, e isso chama a atenção de investidores para surfar nesse crescimento de migração para o mercado corporativo”, afirma Fabio Sanchez, sócio da firma de M&A JK Capital. ”Vemos uma tendência de consolidação do setor junto a grandes clínicas para alimentar toda a cadeia do setor.  Devido aos contratos com empresas, a plataforma de saúde mental tem uma gama de vidas para atender, gerando uma série de clientes em potencial para um comprador.”

EU ACHO …

TRAIÇÃO E SEMÂNTICA

Quando alguém diz, por exemplo, “João traiu Renata”, a primeira coisa que me vem à cabeça é que João espalhou um segredo cabeludo que Renata havia lhe confiado, ou então que João entregou Renata para a polícia, ou ainda que João fugiu com todo o dinheiro que Renata havia economizado, que crápula. Nunca penso que João transou com outra mulher.

Trair pressupõe que algo foi feito contra alguém. E sexo não é algo que seja feito contra uma terceira pessoa. Sexo é sempre a favor, sempre pró, e sempre egoísta – não diz respeito a quem ficou do lado de fora do quarto. Faz-se sexo para dar e receber prazer, e não para prejudicar quem quer que seja. Traição é uma palavra dura demais para ser usada como sinônimo de infidelidade e adultério.

A palavra adultério é até romântica, remete a encontros clandestinos, beijos roubados, vidas secretas, roteiros de cinema, letras de samba. O adúltero – apesar de ter que carregar esse palavrão nas costas – é na verdade um alegre.

Infidelidade já é uma palavra mais burocrática, boa para ser usada em tribunais, alegar quebra de contrato. É palavra comprida e possui um certo status, parece coisa de estelionatário graúdo, gente com conta em paraíso fiscal pensando bem, “conta em paraíso fiscal” é uma metáfora que se aplica perfeitamente a romances paralelos. Mas estelionato é crime, e infidelidade não é. O infiel é um inofensivo, vende fácil seus carros usados.

Os infiéis não metem medo, os adúlteros possuem um charme boêmio, então, na falta de uma palavra mais intimidante, apela-se para “traidores”, a fim de arrancarmos deles alguma culpa, remorso, vergonha. Mas que ninguém se engane: a palavra traição está combinando cada vez menos com a realidade sexual vigente. Ninguém está batendo palmas aqui para a poligamia. Estou apenas refletindo sobre a adequação e inadequação de certos vocábulos. Traição? Convém enfrentar os revezes amorosos sem mexicanizar demais a cena.

No início de todo romance, homens e mulheres se satisfazem plenamente um com o outro, mas com o passar do tempo a relação passa a satisfazer apenas parcialmente -e parcialmente pode ser mais que suficiente quando inclui amizade, cumplicidade, diversão, leveza. Porém, a parte que começa a faltar – a sedução – deixa o campo aberto para novas experiências, que podem acontecer ou não. Nada disso tem a ver com desamor. Pode-se amar alguém e sucumbir a uma aventura. Não estou dizendo nenhuma novidade, estou? Há algum inocente no recinto?

Traições pegam você desprevenido. A infidelidade, ao contrário, é sempre uma possibilidade a ser considerada, mesmo quando parece improvável. E não, não há nenhum inocente no recinto.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

RELÓGIO DA FOME

Horário das refeições influencia metabolismo e saúde, diz ciência

Na busca por urna vida mais saudável, a alimentação ocupa um papel central. Mas, enquanto muitas pesquisas se dedicam ao que comer, outras tem se debruçado sobre o “quando”. O interesse é a chave da chamada crononutriçâo, um campo em alta que parte da premissa de que a hora escolhida para cada refeição impacta o corpo de formas diferentes. Essas decisões podem não apenas melhorar a qualidade de vida como prevenir problemas de saúde e ajudar no tratamento de doenças, explicam os especialistas.

A premissa básica é que nosso organismo funciona da mesma maneira ao longo das 24 horas do dia. Seu comportamento responde aos estímulos do mundo exterior e, com isso, há demandas diferentes dependendo do horário. A alimentação está entre essas variáveis.

“Nosso corpo recebe o alimento de forma diferente. A capacidade digestória, a quantidade   de enzimas que a gente secreta, tudo isso muda. Então, (a crononutrição) se baseia muito na ideia de que nós temos melhores e piores horários para comer”, explica a nutricionista Cibelle Crispim, professora e coordenadora do Grupo de Estudos em Cronobiologia Nutricional da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

É uma área nova, afirmam os especialistas, mas que ganha cada vez mais relevância na comunidade científica. Ela é derivada de um campo ainda maior, chamado de cronobiologia, que investiga os ritmos biológicos e os impactos no corpo de modo mais amplo. A crononutrição observa essas variações do ritmo pelo ângulo da refeição e da metabolização dos alimentos.

Segundo o endocrinologista e nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), o tema ganhou mais destaque a partir de 2014. Mais recentemente, veio o nome.

“O desenvolvimento do campo começou com estudos de trabalhadores em turnos diferentes, que mostraram que eles tinham variações nos padrões de consumo alimentar e tinham uma propensão maior a desenvolver algumas alterações metabólicas e obesidade por conta disso”, afirma.

CICLO HORMONAL

A nutricionista Priscilla Primi, mestre pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) explica que esse ciclo, e as suas variações, é comandado pela secreção de hormônios. Por isso, entender quais deles estão mais ativos em quais horários, e como eles impactam na alimentação, é parte crucial da crononutrição.

“Nós temos uma secreção de hormônios diferente na parte da manhã e da noite, o que impacta diretamente no funcionamento da metabolismo, na resposta glicêmica, na absorção dos nutrientes. As pesquisas dizem que temos uma melhor resposta na absorção dos nutrientes durante o dia, até meados da tarde. Isso porque o cortisol, que é o nosso harmônio de vigília, de alerta, e a insulina, que regula a glicose, têm o pico pela manhã. Enquanto isso, a melatonina, hormônio do sono, que reduz essa atividade, tem o pico na madrugada”, afirma Priscilla.

Em resumo, isso quer dizer que o corpo tem um comportamento natural que nos prepara para receber e metabolizar alimentos pela manhã e à tarde, enquanto não tem a mesma eficiência para absorver as refeições à noite.

“Quando você inverte o ciclo, fazendo jejum de manhã, que é quando o corpo metaboliza melhor os carboidratos, ou fazendo refeições maiores à noite, isso é prejudicial. A noite esses hormônios não são bem secretados, e aí na hora que você deveria fazer a digestão e gastar essas calorias, você está dormindo”, completa.

Especialistas destacam o papel importante do sono na regulação desse ciclo, uma vez que éele um dos responsáveis por estabelecer um padrão. Isso porque é por influência da exposição à luz e da hora de dormir que o corpo determina a liberação dos hormônios.

“É difícil desatrelar a crononutrição do sono. Nosso corpo tem um relógio, que informa se é dia ou noite. São células no cérebro que recebem um sinal que é escuro, por exemplo, e o transmitem para outros órgãos. Aí o próprio cérebro começa a secretar os hormônios ligados à noite. Da mesma forma, o claro da manhã é um sinal para estimular essas células e secretar os hormônios da manhã”, explica Crispim.

A falta de sono adequado influencia comportamentos que levam ao excesso de alimentos durante a noite, momento em que o corpo não está preparado para absorvê-los. Um estudo da Universidade Northumbria, na Inglaterra, publicado na revista científica Advances in Nutrition, constatou que pessoas que dormem mais tarde tem mais tendência  a dietas não saudáveis, ricas em gordura, consumir mais álcool, açúcar e bebidas cafeinadas.

META8OLISMO

Esse desalinhamento ao comer não está relacionado apenas ao ganho de peso. Especialistas esclarecem que os principais objetivos da crononutrição são na verdade melhorar a qualidade de vida e, principalmente, ajudar na prevenção de doenças ligadas a uma má metabolização dos alimentos.

Uma análise de estudos da área, conduzida por pesquisadores da King’s College de Londres e publicada na revista Proceedings of the Nutrition Society, encontrou uma ligação entre comer em desacordo com o relógio interno e um risco elevado para sofrer de hipertensão arterial, diabetes tipo 2 e obesidade.

O hábito de tomar café da manhã, por exemplo, é considerado como um marcador de saúde em alguns estudos, explica Cibelle Crispim. Entre outros fatores, consumir alimentos com baixo índice glicêmico ao acordar melhora a resposta à glicose com um efeito maior do que quando consumidos à noite, afirmam os cientistas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

LIGAR E DIZER UM ‘OLÁ’, GESTO ESSENCIAL EM TEMPOS DE SOLIDÃO

Pesquisa com quase 6 mil pessoas nos EUA aponta a importância e o poder de pequenas iniciativas para a autoestima dos amigos

Ligar, enviar mensagens de texto ou um e-mail para um amigo apenas para dizer ”olá” pode parecer um gesto insignificante – uma obrigação, até mesmo, que não vale o esforço. Ou talvez você se preocupe porque um contato inesperado não foi bem-vindo, já que costumamos estar sempre ocupados.

Mas uma nova pesquisa sugere que falar casualmente com as pessoas de nossos círculos significa mais do que imaginamos. ”Mesmo enviar uma breve mensagem a alguém apenas para dizer ‘olá’ e perguntar como está pode ser mais valorizado do que as pessoas pensam”, avisa Peggy Liu, professora associada na Faculdade de Administração Katz da Universidade de Pittsburgh.

A Dra. Liu é a principal autora de um novo estudo – publicado no Journal of Personality and Social Psychology – que descobriu que as pessoas tendem a subestimar o quanto os amigos gostam de ser lembrados.

Ela e sua equipe realizaram 13 experimentos envolvendo mais de 5.900 participantes, para ter uma ideia de como as pessoas imaginam o quanto os amigos valorizam os contatos e quais tipos de interações são os mais poderosos.

Em alguns dos experimentos, os participantes procuraram alguém que consideravam um amigo; em outros, entraram em contato com alguém de quem, eram amigos, mas com quem consideravam ter um vínculo fraco.

Aqueles que entraram em contato foram solicitados a avaliar o quão agradecidos, felizes e satisfeitos eles imaginariam que o contato ficaria ao receber notícias deles – indo de nada a muito.

Os pesquisadores então pediram aos destinatários do contato que avaliassem o quanto gostaram do contato.

Em todos os 13 experimentos, aqueles que iniciaram o contato subestimaram significativamente o quanto isso seria apreciado.

Os contatos mais surpreendentes (entre aqueles que não estavam em contato recentemente) tendiam a ser especialmente poderosos.

A Dra. Liu e seus colegas pesquisadores mantiveram o grau para o que contava como contato intencionalmente baixo: uma breve ligação, mensagem de texto ou e-mail, ou um pequeno presente, como biscoitos ou uma planta.

Os pesquisadores não se concentraram nas interações de mídia social no estudo, mas a Dra. Liu disse que não há razão para supor que entrar em contato com alguém pelo Facebook ou Instagram seria menos significativo.

MAIS  CONTATOS

E o fato de que esses contatos rápidos e simples foram significativos deve encorajar as  pessoas a buscar seus contatos sociais com mais frequência “só  por isso”, disseram os pesquisadores. A pesquisa deles não é o único estudo recente a enfatizar o poder dos pequenos momentos de conexão. Outro estudo, publicado no The American Journal of Geriatric Psychiatry, descobriu que ter interações sociais positivas está ligado a um senso de propósito em adultos mais velhos. Isso se soma ao crescente corpo de pesquisa que sugere que as pessoas com quem passamos tempo diariamente têm um “impacto muito grande” em nosso bem-estar, disse Gabrielle Pfund, pesquisadora de pós­doutorado da Faculdade de Medicina Feinberg da Universidade Northwestern e uma das pesquisadoras desse estudo. (Na época do estudo, a Dra. Pfund estava trabalhando com uma equipe da Universidade de Washington em St. Louis).

No entanto, os novos estudos chegam em um momento desafiador para a amizade e a conexão nos Estados Unidos, que está no meio de uma crise de solidão que se tornou mais complicada – e mais aguda – durante a pandemia.

As pessoas também tendem a assumir que nossos amigos e conhecidos não serão tão abertos a nós quanto gostaríamos, disse Marisa Franco, psicóloga e professora clínica assistente da Universidade de Maryland e autora do livro Platonic: How the Science of Attachment Can Help You Make and Keep Friends. Ela observou que muitas pessoas se sentem desconfortáveis em entrar em contato devido a um fenômeno conhecido como “lacuna de afeição”, ou a tendência de subestimar o quanto realmente somos queridos.

‘EFEITO BAGUNÇA’

As pessoas também podem se conter por causa de um fenômeno semelhante conhecido como “efeito bela bagunça”, que sugere que, quando somos vulneráveis com os outros, nos preocupamos em ser julgados com severidade. Esse viés de negatividade tende a percorrer todos os aspectos da amizade, disse a Dra. Franco, e pode ter um impacto tangível em como nos comportamos e interagimos.

Mas especialistas em amizade como a Dra. Franco dizem esperar que as descobertas enfatizem a necessidade de se conectar diariamente e encorajem as pessoas a ver a amizade como componente importante da saúde pessoal, mesmo que entrar em contato às vezes pareça estranho ou trabalhoso. “Para estar funcionando da melhor maneira possível, precisamos estar em um estado conectado”, ela disse. “Assim como você precisa comer, precisa beber, você precisa estar conectado para funcionar bem.”

OUTROS OLHARES

CHOCOLATE AMARGO FAZ REALMENTE BEM PARA A SAÚDE?

Estudos sugerem que o cacau pode trazer benefícios, mas não está claro como isso

O chocolate tem uma longa e ilustre reputação. Feito a partir do cacau, que é derivado dos grãos do cacaueiro (cujo nome científico se traduz em “comida dos deuses”), ele foi utilizado por algumas das primeiras culturas mesoamericanas como alimento, remédio, oferenda ritual e talvez até com função de moeda.

O sabor certamente protagoniza a popularidade do chocolate, mas você também deve ter ouvido falar que esse deleite delicioso é bom para sua saúde. Como esse senso comum é explicado pela ciência?

“O cacau é claramente bom para você. Se o chocolate é bom para você ou não depende de quanto cacau está presente e o que mais está nele”, esclarece Dariush Mozaffarian, cardiologista e professor de nutrição da Tufts Friedman Escola de Ciência da Nutrição e Política.

Acredita-se que o cacau contenha cerca de 380 compostos químicos diferentes, dentre eles uma grande classe de flavanóis, que atraem um interesse significativo de pesquisa por seus potenciais benefícios à saúde. Mas está menos claro sobre quantos flavonoides e outros fitonutrientes você precisa para melhorar a saúde, ou se sua barra de chocolate contém o suficiente para fazê-lo. E os especialistas têm opiniões divergentes sobre isso.

“Os grãos de cacau são repletos de fibras e “cargas de fitonutrientes”,” afirma Mozaffarian.

O chocolate ao leite normalmente contém cerca de 20% de cacau, explica o especialista, embora o teor de cacau possa variar. A FDA (agência reguladora americana) exige que esse tipo de produto contenha pelo menos 10% de cacau, mas algumas barras chegam a ter 50% ou mais. O cardiologista também sugere a verificação dos rótulos com cuidado. Para possíveis benefícios à saúde, ele recomendou a escolha de chocolate com pelo menos 70% de cacau.

PESQUISAS

Muitos pequenos estudos descobriram que o chocolate amargo, suplementos ou bebidas de cacau podem reduzir modestamente a pressão arterial, melhorar o colesterol e a saúde dos vasos sanguíneos em adultos.

“E alguns estudos de longo prazo descobriram que aqueles que comem mais cacau podem ter um risco menor de certas doenças cardiovasculares”, destaca.

Em uma revisão publicada em fevereiro na revista científica JAMA Network Open, Mozaffarian e seus colegas examinaram como certos alimentos e nutrientes estavam associados a problemas de saúde do coração. Eles encontraram “evidências prováveis ou convincentes” de que comer chocolate estava associado a um risco reduzido de doenças cardiovasculares, estimando que uma ingestão média diária de apenas 10 gramas (dois quadradinhos de uma barra) estava associada a uma redução de 6% no risco.

“Mas esses tipos de estimativas são baseados em estudos observacionais, que têm limitações importantes”, destaca Joann Manson, chefe de medicina preventiva do Hospital de Mulheres Brigham, em Boston.

Segundo a médica, esses estudos só podem identificar correlações entre comer chocolate e saúde; eles não podem provar que o chocolate traz benefícios — os chocólatras podem ser diferentes em outros aspectos que afetam sua saúde.

Resultados de estudos também foram inconsistentes. Alguns não encontraram nenhum benefício, e outros descobriram que aqueles que comem chocolate habitualmente ou com mais frequência são mais propensos a ganhar peso, apontou ela. Esses estudos também não costumam levar em conta os diferentes tipos de chocolate, que podem variar em seu teor de cacau. E a contagem de açúcar, gordura e calorias pode anular quaisquer benefícios.

CÁPSULAS DE CACAU

Para resolver algumas dessas deficiências, Manson e seus colegas conduziram um grande estudo randomizado com mais de 21 mil idosos nos Estados Unidos. Metade dos participantes recebeu um suplemento de extrato de cacau contendo 500 miligramas de flavonoides, e a outra metade recebeu um placebo. Os resultados do estudo, chamado de ensaio COSMOS, foram publicados no Jornal Americano de Nutrição Clínica. Depois de acompanhar os participantes por 3,6 anos, os pesquisadores descobriram que, enquanto o grupo do suplemento de cacau não era estatisticamente menos propenso a eventos, incluindo ataques cardíacos e derrames, eles tiveram, sim, uma redução de 27% nas mortes cardiovasculares. Manson considera os resultados “sinais promissores para proteção do coração”, no entanto afirma que outros estudos ainda são necessários.

O estudo não deu chocolate aos participantes, mas cápsulas concentradas de extrato de cacau – para obter a mesma quantidade uma pessoa teria que comer cerca de 4 mil calorias de chocolate ao leite ou 600 calorias de chocolate amargo por dia.

“Chocolate é um deleite maravilhoso, mas para tratá-lo como um alimento saudável, acho que há limitações”, concluiu a pesquisadora. Mozaffarian completa:

“Comer uma pequena quantidade de chocolate amargo todos os dias provavelmente é muito bom para nós, e vai fazer você feliz, porque tem um gosto bom.

GESTÃO E CARREIRA

MENTORIA LEVA CAPITAL INTELECTUAL A STARTUPS

Programas de aceleração apostam na orientação de empresas que desejam aliar propósito com o financeiro

Alta da inflação, demissões em massa nas startups e crise global formam um cenário desafiador para empresas que buscam capital financeiro. Quando se fala dos negócios de impacto socioambiental, a complexidade pode aumentar ainda mais, principalmente se não houver uma boa preparação para aliar propósito e sustentabilidade financeira. Nesse sentido, programas de aceleração oferecem outro tipo de investimento tão valioso quanto: o capital intelectual.

As iniciativas oferecem mentoria, promovem conexões, testam soluções de forma segura e possibilitam a captação de investimento. Na mentoria, profissionais mais experientes avaliam e orientam de acordo com a necessidade de cada empreendimento. Olham desde a parte financeira, marketing e comunicação até questões inerentes ao empreendedorismo de impacto, como tese de mudança -, métricas para medir o impacto e como apresentar o potencial do negócio para o mercado e potenciais investidores.

Pesquisas atestam o valor desses projetos. O relatório A aceleração funciona?, lançado no Brasil pela Global Accelerator Learning lnitiative e Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE), aponta que empresas aceleradas aumentaram as receitas, o  número de funcionários e receberam investimento externo com valores maiores.

“Muitas vezes, o que vai destravar a empresa para outro patamar é o conhecimento e não o  capital”, avalia o presidente e sócio fundador da 7Stars Ventures, Daniel Abbud. “Se não tem capital intelectual para operar a companhia, quanto mais dinheiro receber, mais vai gastar, e é um pecado pôr dinheiro em companhia que não tem maturidade para lidar com esse recurso.”

Ao perceber que precisava de uma base sólida para avançar com o negócio, o presidente da Toti, Caio Rodrigues, buscou esse suporte. A empresa que capacita refugiados e migrantes em tecnologia e os conecta com o mercado de trabalho nasceu de um projeto na faculdade, com prazo para encerrar. “Depois que começou a rodar a primeira turma, vimos que tinha potencial”, diz ele.

Veterano dos programas de aceleração, o empreendedor recebeu apoio em fases distintas da companhia. “Quando a Toti começou a ganhar corpo e sair dos muros da faculdade, sentimos necessidade de mais conhecimento, ampliar rede, ouvir a opinião de mais pessoas para apoiar no desenvolvimento da ideia.”

Em 2020, a Toti foi selecionada para o lnovAtiva de Impacto Socioambiental, uma política pública gratuita voltada à aceleração de startups com propostas de impacto. Naquele momento, já estruturada, a empresa ia ao mercado para vender os serviços. “A gente estava se conectando com parceiros para entender e definir qual seria o melhor serviço. Contamos com o apoio de diferentes pessoas, que falaram o que seria interessante adicionar de benefício aqui ou o que não tinha tanta aderência.”

Rodrigues afirma que, lá na faculdade, a proposta não era ser um negócio de impacto, mas toda a mentoria e conexões possibilitadas pelas acelerações ajudaram a transformar o projeto em empresa.

ACELERAÇÃO DE NICHO

Ter programas de aceleração focados nos negócios de impacto também é uma demanda dos empreendedores desse nicho. “Eles têm uma dor grande de como combinar o propósito do negócio, a transformação social e ambiental, com a parte financeira”, diz Ana Hoffman, coordenadora do lnovAtiva de Impacto Socioambiental. •

EU ACHO …

DAR-SE ALTA

Nada como não ter grandes esperanças para também não ter grandes frustrações. Todos diziam que o novo filme do Woody Allen era fraco e repetitivo, mas sempre acreditei que um fraco Woody Allen ainda é melhor do que muita coisa considerada boa por aí. Então lá fui eu para o cinema conferir Igual a tudo na vida e, não sei se devido à baixa expectativa ou ao meu entusiasmo incondicional pelo cineasta, saí mais do que satisfeita: não considerei o filme fraco coisa nenhuma.

Fraco achei o ator protagonista. Inexpressivo. Quase comprometedor. Fora isso, foi uma delícia ver Woody Allen jogar a toalha, reconhecer que a busca pelo sentido da vida é uma tarefa cansativa e infrutífera e que todo mundo vive as mesmas angústias, do intelectual ao motorista de táxi. Extra, extra! Woody Allen se deu alta!

É verdade que Igual a tudo na vida remete a situações já mostradas em seus outros filmes, mas era esse mesmo o propósito. Woody Allen faz o papel de um escritor veterano que dá dicas para um escritor amador, que não passa dele mesmo, anos antes. Não foi preciso escalar para o papel alguém com semelhanças físicas e os mesmos trejeitos: a angústia existencial do jovem Falk basta para identificá-lo como um Woody Allen Júnior em busca de libertação. E o que é libertação? Fala o veterano: “Quando alguém lhe der um conselho, você diga que é uma excelente ideia, mas depois faça apenas o que quiser”. Tem lógica. Quem é que pode adivinhar o que se passa dentro de nós? Não compensa preservar relações por causa de culpa, ficar imobilizado, temer consequências. Vá lá e faça o que tem que ser feito. Sozinho. Porque é sozinho que estamos todos, afinal.

Ou seja, nada que Woody Allen já não venha há anos discutindo em sua obra, mas agora tudo me pareceu mais leve e menos intelectualizado, até o restaurante que Allen costuma usar como locação mudou, sai o abafado Elaine’s, entra o arejado Isabella’s.

É claro que os filmes da fase neura eram mais ricos, é claro que uma vida de questionamentos tem mais consistência do que uma vida resignada, e é claro que o Elaine’s tem alma, e o Isabella’s não. Mas a passagem dos anos e a proximidade da morte reduzem bastante esse orgulho que temos em ser profundos e diferenciados.

Todos as criaturas do mundo estão no mesmo barco procurando amor, sexo, reconhecimento, segurança, justiça e liberdade. Algumas coisas iremos conquistar, e outras não, e pouco adianta deitar falação, porque seremos para sempre assim: sonhadores, atrapalhados e contraditórios. Jamais teremos controle sobre os acontecimentos. A sutil diferença é que, se em seus filmes anteriores Woody Allen parecia dizer “não há cura”, agora ele parece dizer “não há doença”.

Eis a compreensão da natureza humana, acrescentada por uma visão bem-humorada e madura do que nos foi tocado viver. Leva-se tempo para aprender a não dramatizar demais as situações. Dar-se alta é reconhecer, com alívio, que o que parecia doença era apenas uma ansiedade natural diante do desconhecido. Só quando aceitamos que o desconhecido permanecerá para sempre desconhecido é que a gente relaxa.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

NOVOS HÁBITOS PODEM AJUDAR A LARGAR O CIGARRO

Profissionais explicam que o tratamento varia para cada pessoa, mas algumas práticas são universais e envolvem alimentação, atividades físicas, mudanças de padrões e até um pequeno ‘castigo’ para quem fumar

Parar de fumar não é uma tarefa fácil, principalmente por se tratar de uma dependência química. Qualquer derivado do tabaco possui nicotina – uma droga psicoativa – que ao ser inalada produz alteração no sistema nervoso central, induzindo ao vício. A falta dela é o motivo pelo qual as pessoas costumam fumar. Se a droga permanecer no corpo do indivíduo por mais tempo, a tendência é que a dependência seja menor. Portanto, a velocidade da metabolização da nicotina é um dos fatores para as pessoas se viciarem.

Mesmo sendo uma tarefa árdua, existem diversos estudos e técnicas para parar de fumar. Dois principais modelos são: o abrupto, onde se prepara o paciente e combina uma data para ele parar de fumar, de uma vez só; e o gradual, que consiste na diminuição do número de cigarros gradativamente. Segundo Paulo Corrêa, coordenador da comissão de tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia, o tratamento para o fumante, precisa ser personalizado. É necessário ter uma conversa com o paciente e verificar o funcionamento psicológico e comportamental. Contudo, existem alguns hábitos que são fundamentais para quem busca parar:

PRATIQUE ATIVIDADES FÍSICAS

É recomendado que as pessoas que desejam parar de fumar pratiquem atividades físicas  que gostem. O cigarro é conhecido por diminuir o colesterol bom, o HDL, enquanto os exercícios físicos aumentam.

“A atividade aeróbica ajuda porque ela previne um pouco a nicotina, tira o apetite, aumenta o metabolismo. A pessoa que para de fumar, tende a ganhar algum peso, então a gente estimula a atividade física a aeróbica, que vai tanto liberar os neurotransmissores quanto dar a sensação de prazer. Você  está tirando o prazer artificial e colocando o natural”, explica Corrêa.

FAÇA DIETAS LEVES

Atente-se aos alimentos consumidos. Uma das preocupações de quem deseja parar de fumar é o ganho de peso. É importante entender que é normal o aumento do apetite durante O período pós-cessação, mas não passa de uma sensação temporária. Portanto, é recomendado seguir uma dieta mais leve, evitando carboidratos e gorduras.

“Você vai ter mais apetite. Procuramos estimular hábitos saudáveis. A pessoa está acostumada com hábitos muito ruins (fumar), então a gente tenta povoar os hábitos com coisas mais positivas (atividades físicas, dieta mais leve).

ELIMINE GATILHOS

Os gatilhos são adversários diretos para os indivíduos que querem parar de fumar. Alguns estão ligados à alimentação (o exemplo mais comum é o café); outros ao ambiente, tanto de casa quanto do trabalho. Sendo assim, modifique elementos de casa, principalmente os que dão estímulos para começar a fumar.

“Se você tem um canto da casa em que costumava fumar, chame uma empresa que vai tirar o cheiro ( ruim), jogue a cadeira que você sentava fora. Mude os móveis de lugar para ter outra dinâmica”, diz Corrêa.

BÔNUS: ‘CANTO DO CASTIGO’

Por mais que funcionem, as técnicas citadas não são garantias de eficácia. Por isso, especialistas vivem testando métodos diferentes. É o que relata a professora da Faculdade de Medicina da USP e diretora do programa de tratamento do tabagismo do Incor, Jaqueline Scholz:

“Eu tenho a minha própria técnica, chamada de “fume de castigo”. O indivíduo precisa se isolar e se deslocar, obrigando-o a se esforçar para fumar. Então se ele quiser beber um café, que beba, sentado e na hora de fumar, que ele tenha que se levantar e ir para o “cantinho do castigo”. Onde ele vai para uma área externa da casa ou área de serviço, fica de pé, parado e olhando a parede. Em um estudo feito, das 75 pessoas que aderiram ao protocolo, houve uma redução de 30 a 50% no consumo”, diz.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SE ORGANIZAR DIREITINHO, TODO MUNDO AMA

Poliamor quebra monopólio da monogamia nas séries de TV, refletindo mudança de comportamento já em curso fora das telas, sobretudo entre os jovens

Triângulos amorosos são fundamentais na geometria das séries de TV. Na primeira versão do hit teen “Gossip Girl”‘, de 2007, o motor da trama era a disputa entre as ricas nova-iorquinas Blair e Serena pelo bonitão Nate. Na nova versão, do ano passado, parecia que a dinâmica se repetiria com os personagens Audrey, Max e Aki. Só que não: quebrando expectativas e paradigmas, o triângulo virou trisal, lance que gerou elogios da crítica e identificação do público.

Romper com paradigmas da monogamia é um recurso cada vez mais comum nas séries, especialmente naquelas voltadas para jovens – além de “Gossip Girl” (HBO Max), variações desta história surgem em produções como “Por que as mulheres matam” (Globo play), “Elite”, ”Wanderhust” (ambas da Netflix) e a nacional “Love3” (Prime Vídeo), lançada este ano. Para especialistas, é reflexo do que já ocorre fora das telas.

“A TV não faz revolução. Normalmente, mostra-se alguma coisa que já tem algum grau de aceitação na sociedade”, pontua Lúcia Loner Coutinho, doutora em Comunicação pela PUC-RS. “Há também uma função didática: apresentar a situação para quem tem menos acesso à informação e, a longo prazo, ajudar no processo de compreensão do outro. Sem contar que a representação é importante.

Para Felipe Braga, criador e diretor da série brasileira “Lov3”, discutir esse tema em produções audiovisuais é importante como “exercício de tolerância, empatia e autoconhecimento”.

“Os jovens de hoje se pautam por uma premissa simples: a de que um indivíduo tem o direito de ser absolutamente o que quiser. Questionar padrões significa pôr em prática essa premissa, exercitando-a cotidianamente, o que não é necessariamente simples ou indolor. A juventude contemporânea parece sobretudo disposta a discutir esses temas sem medo. A experiência dos personagens na tela servepara nos indicar caminhos, para entendermos que não estamos sozinhos em nossas angustias.

Se antes a cultura pop, principalmente a made in Hollywood, moldava e refletia o modelo de amor romântico, agora ela abraça a realidade de que 43% dos millenials descartam a relação monogâmica como a ideal, segundo levantamento de 2020, feita pelo Instituto de pesquisa YouGov.

“O amor é uma construção social. Todo mundo pode ter relações não monogâmicas e, no momento, está se abrindo espaço para que cada um escolha sua forma de viver”, diz Regina Navarro Lins, psicanalista e escritora de 14 livros sobre relacionamento amoroso, entre eles “Novas formas de amar”. “Se uma pessoa quiser ficar casada 40 anos e fazer sexo só com o seu parceiro está tudo certo, desde que essa monogamia seja espontânea, o que é raro. Se daqui a 30 anos as relações não monogâmicas forem predominantes todo muda de figura.

VOO SOLO

O conceito consagrado de poliamor é a possibilidade prática de amar e ser amado por  várias pessoas, com todos os participantes confortáveis nessa situação.

Mas, naturalmente, a coisa não precisa ser tão fixa. Há ainda o poliamor solo ou solopoli, ou seja, alguém que está sempre livre para namorar quantas pessoas sentir vontade e, ao mesmo tempo, não se prender a elas, sem necessariamente viver sob o mesmo teto ou construir uma família.

Mas nada éuma regra e tudo pode mudar de acordo com as relações que se formam pelo caminho, como explica Isane Farias, Iris Ribeiro e Igor Almeida.

Moradores de Salvador, os três se consideram “poliamoristas com relação livre”, formam  um trisal desde 2019 e moram juntos. Inicialmente, Isane e Igor eram um casal heterossexual que resolveu abrir o relacionamento para novas possibilidades. Assim Isane conheceu Íris e as duas começaram a se encontrar (sem Igor). Só mais tarde Iris também se conectou com Igor e, hoje, os três tem um relacionamento livre, ou seja, os três podem ter relacionamentos com outras pessoas. A base de tudo para eles, éa conversa.

“É muito sobre liberdade e autonomia”, conta Íris. “A aceitação da família foi um pouco difícil, e a gente sofre ainda mais porque além de trisal, somos livres”.

A soteropolitana Isane acrescenta que é importante fazer o exercício de não hierarquizar as relações. Segundo ela, todas as possibilidades de relacionamento têm mais a ver com estar emocionalmente disponível para viver um amor do que com o sexo propriamente dito.

Enquanto isso, Danilo vive a não monogamia de maneira diferente do trio de Salvador. O morador de São Paulo também está em um trisal, mas os três só se relacionam entre si. Assim como Isane e Igor, que já mantinham um relacionamento, Danilo e o marido, César, acabaram se interessando por uma terceira pessoa, Heriberto, e então, decidiram embarcar neste novo arranjo. Nas datas comemorativas, feriados, viagens e festas em família, os três estão sempre juntos.

Este éo segundo relacionamento a três que Danilo e César vivem. O primeiro durou dois anos; esteacaba de completar 12 meses.

“Nunca achamos que a terceira pessoa é a solução de um problema. Funciona justamente porque nossa base funciona”, conta Danilo. “No início, amigos próximos perguntavam se estava tudo bem… Era difícil aceitar. Mas é uma relação leve, de equilíbrio, cuidado e respeito uns pelos outros.”

São histórias como essas que servem de inspiração para a ficção. Em “Gossip Girl”, Audrey e o colega Aki namoram desde a pré-adolescência e, no meio do caminho, se veem apaixonados e interessados pelo melhor amigo, Max. Já em “Elite”, tudo começa como um jogo de sedução:

Polo sentia prazer em saber que Carla estava sendo amada e desejada por outro, no caso Christian. A interação à distância foi tamanha que os três passaram a se relacionar. Em “Porque as mulheres matam”, disponível no Globo play, Taylor é uma advogada bissexual que mantém um casamento aberto com o escritor Eli. Até que ela se apaixona por Jada e a leva para morar com os dois, formando um trisal.

APP ESPECÍFICO

Mesmo que as novas formas de amar estejam sendo representadas em seriados populares, o preconceito e o medo da exposição ainda assustam. A reportagem, por  exemplo, encontrou dificuldade em achar quem aceitasse compartilhar suas histórias.

Uma saída para quem quer manter a discrição tem sido os aplicativos específicos para quem busca uma relação poliamorosa. Ysos, Feeld, 3Fun e Pitanga são algumas opções. Apesar dessas plataformas serem especificamente para adeptos e/ ou interessados em relações não monogâmicas, é comum que ainda assim os usuários se escondam.

Ao se cadastrar no Pitanga, por exemplo, é normal ver fotos sem rostos ou de paisagens, além de identificações de usuários que não refletem os verdadeiros nomes das pessoas. O app lançado em 2016 conta hoje com 250 mil usuários, diz o idealizador da plataforma, Venícios Belo. Segundo ele, entre os perfis, 45% são de casais, 35% de homens e 20% de mulheres. A faixa etária predominante vai de 24 aos 40 anos.

“Compreendo que o amor é muito maior do que a gente pode imaginar”, opina Venícios. “O que temos percebido é que cada vez mais casais têm se registrado em busca de outros amores. As pessoas estão se entregando a viver as relações. Para Regina Navarro Lins, questionar a monogamia passa pela busca por individualidade. E esclarece que, sim, dá para amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

“Tanto romanticamente quanto eroticamente. Muitos se sentem na obrigação de fazer uma escolha e isso gera conflitos e sofrimento”, diz a pesquisadora. “Acredito que, daqui a um tempo, vamos ver formas de viver totalmente diferentes das que fomos ensinados.”

Criador da série “Lov3”, Felipe Braga também mira o futuro:

“Falar de relacionamentos não monogâmicos na série é uma oportunidade de discutir uma sociedade pós-patriarcal, em que a política dos afetos e corpos legitima outros modelos de relação, de desejo e de família. Mas sem jamais perder de vista que deve persistir o respeito pelo outro.

ILEGAL, MAS EXISTE

Um ponto que dificulta o reconhecimento das relações poliafetivas é a falta de legislação que as protejam enquanto instituição familiar. Exemplo: no último domingo, um trisal de Londrina, no Paraná, formado por Maria Carolina Rizola, Douglas Queiroz e Klayse Marques teve um filho. Agora, Maria e Douglas lutam na Justiça para ter o nome de Klayse registrado na certidão de nascimento da criança como mãe afetiva.

O advogado César Fonseca fez seu trabalho de conclusão de curso na UFRJ sobre a possibilidade jurídica de uniões poliafetivas. Ele ressalta que “a poliafetividade não é legal, mas é fática, está no dia a dia”. Isane, Íris e Igor, por exemplo, já vivem juntos como família. E pensam em ter filhos daqui a uns anos.

“O direito nasce da necessidade das pessoas. Essas pessoas vivem algo que não é abordado na legislação, mas que, no fim das contas, não traz prejuízo a ninguém. E mesmo assim o Estado se recusa a prestar qualquer tipo de proteção a elas”, desabafa César, explicando que conviveu com amigos que vivem na condição de família poliafetiva. “Outro posto-chave é a questão da autonomia da vontade. Elas vivem naquela situação e se consideram uma família. Não é o Estado que tem que bater na porta delas e dizer que não é.

5 PASSOS RUMO AO POLIAMOR

Muitas dúvidas surgem quando se deseja adotar a não monogamia. Não há “script” a ser seguido, mas especialistas e poliamoristas destacam alguns pontos que acreditam ser importantes para quem pensa em optar por este formato de relacionamento

PESQUISE

É importante buscar informação sobre a não monogamia. Ler livros, ouvir podcasts, seguir páginas que falam do tema e, se possível, conhecer exemplos próximos.

PALAVRA

Processo de autoconhecimento, o olhar para si, para entender quais são seus desafios, o que está disposto a viver e quais os seus limites.

FALAR MESMO

É preciso manter uma comunicação constante com os integrantes da relação. Expressar os medos, vulnerabilidades, inseguranças. Assim se constrói uma parceria por meio do diálogo.

REDE DE APOIO

Uma rede de apoio é fundamental. Busque pessoas que acreditem na forma do poliamor, para ter trocas sobre as experiências.

PACIÊNCIA

Será um relacionamento construído passo a passo. Afinal, vivemos em uma sociedade monogâmica, e a desconstrução do padrão leva um tempo. Não se cobre, e procure não cobrar os outros.

OUTROS OLHARES

O SONO É BOM REMÉDIO

A Associação Americana do Coração acaba de incluir o descanso noturno de qualidade na lista dos itens essenciais para a saúde. É a prova de quanto o repouso prolonga a vida

“Tanto o sono quanto a insônia, quando imoderados, são ruins”, ensina um dos aforismos hipocráticos apresentados no Corpus Hipocraticum, o fabuloso compêndio de tratados sobre a saúde cuja autoria foi atribuída a Hipócrates, o estudioso grego que, cerca de 400 anos antes de Cristo, criou as bases da medicina ocidental. A coleção foi a cartilha das faculdades médicas até o fim do século XVIII, quando informações obtidas por meio dos métodos científicos que começavam a surgir deram início à substituição de ensinamentos baseados somente em evidências empíricas. Contudo, muito do conhecimento registrado na obra resistiu ao escrutínio, permanecendo entre os pilares do que se sabe atualmente a res- peito do corpo humano. A importância do sono é um deles – e a ciência nossas sabe cada vez mais a respeito dessa relevância.

No entanto, até agora a recomendação de dormir bem não integrava a lista oficial de hábitos a serem adotados para uma vida saudável, juntando-se à boa alimentação e à prática de exercícios físicos. Embora tenha se tornado mais conhecida, a orientação figurava entre os itens complementares, não essenciais. Isso mudou completamente na semana passada, quando a Associação Americana do Coração divulgou a atualização das sete métricas que determinam os parâmetros para preservar ou melhorar a saúde do coração e do cérebro, o Life’s Essential 7. Pela primeira vez, a principal entidade do mundo da cardiologia incluiu o sono nessa lista. Ter um descanso noturno de qualidade ganhou a mesma importância que a alimentação saudável, a realização de exercícios físicos e do controle do peso, da pressão arterial, da concentração de gorduras e açúcar no sangue e de manter-se longe do cigarro. E o Life’s Essential 7 virou Life’s Essential 8. O sono de boa qualidade, definiu a entidade, deve ocorrer sem interrupções e durar, em média, de sete a nove horas por noite. “A inclusão do sono reflete os achados das pesquisas mais recentes, que confirmam seu impacto para a saúde em geral”, diz Donald M. Lloyd-Jones, presidente da associação.

Dormir é um processo fisiológico essencial para a sobrevivência porque está envolvido nas funções biológicas vitais. A título de exemplo: déficits de sono perturbam terrivelmente delicados mecanismos que permitem o funcionamento correto do metabolismo, processo pelo qual são atendidas todas as necessidades energéticas e estruturais de um ser vivo. Por isso, o impacto negativo no desempenho de funções como o uso e armazenamento de gordura e a concentração de açúcar e colesterol no sangue é brutal. Além disso, o sono contribui para preservar a integridade cerebral, mantendo seguras a capacidade de aprendizado, de memória, de cognição, de regulação emocional e a habilidade de o cérebro se adaptar a circunstâncias diferentes. Daí sua importância no tratamento de sequelas deixadas por acidente vascular cerebral ou lesões de outra origem e na prevenção da doença de Alzheimer. Uma das características da enfermidade é o depósito de uma pro- teína sobre os neurônios, levando-os à morte. Quando o repouso é de qualidade, esse risco diminui porque o cérebro passa por uma limpeza. “Mas, se dormimos pouco, esse sistema não funciona”, explica a neurologista Márcia Assis, vice-presidente  da Associação Brasileira do Sono.

Talvez por um capricho de Hipnos, o deus do sono na mitologia grega, todo esse espetacular avanço no entendimento do papel do descanso na saúde acontece no momento em que a humanidade nunca esteve tão insone. Insônia não é um problema novo, claro, mas a eclosão da Covid-19 agravou de- mais a situação. No Brasil, uma pesquisa feita pela Associação Brasileira do Sono entre novembro de 2020 e abril de 2021 apontou que nada menos do que 70% dos entrevistados relataram sintomas do problema.

Na verdade, o que se viu nos últimos dois anos foi uma combinação de elementos associada à perda do sono. Estres- se, ansiedade e depressão, em primeiro lugar, uniram-se ao que a ciência batizou de procrastinação por vingança na hora de dormir. Pessoas que se viam sobrecarregadas pelas tarefas, sem momentos de lazer e isoladas socialmente, começaram a adiar o momento de ir para a cama, tentando achar um tempo de lazer. Assim, noites e madrugadas foram ocupadas na frente da televisão, em jogos de videogame e redes sociais. As poucas pesquisas disponíveis apontam o perfil dos que mais usam a estratégia: estudantes, mulheres e os que têm o hábito de adiar tudo, segundo a entidade americana Sleep Foundation.

Fazer frente a esse roubo do sono pela vida moderna é desafiador. Há métodos consagrados, como a terapia cognitivo- comportamental, cujo objetivo é ajudar o indivíduo a detectar o que está errado no seu entendimento e treiná-lo para mudar o comportamento derivado do equívoco. Um exemplo simples é corrigir o pensamento de que a cama pode ser também um lugar para trabalhar, associando-a ao ato de dormir.

Contudo, é preciso abrir novos caminhos. Um deles está surgindo da adequação da dieta à noite, evitando o que sabidamente faz mal, como o consumo de alimentos industrializados, e buscando opções que fazem bem. Nesse quesito, a ciência vem garimpando ótimos achados, como a constatação dos benefícios do kiwi e do arroz. Investe-se, ainda, na investigação do potencial dos aplicativos que prometem noites tranquilas. Eles ainda não contam com a chancela científica, mas análises iniciais indicam conclusões promissoras. Uma delas, feita na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, testou a eficácia do Insomnia Coach, mostrando que 28% dos participantes dormiram melhor em seis semanas de uso. No grupo de controle, o índice foi de 4%.

A saída pela tecnologia é uma avenida a ser pavimentada. O Instituto Federal de Tecnologia de Zurique explora o recurso com competência. Recentemente, a instituição apresentou um dispositivo capaz de prolongar, por meio de estimulação sonora, a etapa do sono profundo, a mais restauradora. O Sleep Loop, uma espécie de capacete que a pessoa usa para dormir, mostrou-se eficaz em testes. Aos poucos, o conhecimento impulsiona invenções dessa ordem, talhadas para promover o reencontro do ser humano com o sono de Hipnos. Hipócrates dormiria tranquilo.

GESTÃO E CARREIRA

ASSÉDIO SEXUAL

Impunidade, canais ineficazes e cultura machista desestimulam denúncias de mulheres no trabalho

Diretorias majoritariamente masculinas em estruturas de poder moldadas por uma cultura machista. Essa é a arquitetura de ambientes corporativos em que a impunidade e a falta de canais apropriados desestimulam denúncias e perpetuam o assédio sexual nas empresas. É o que descrevem especialistas, ativistas, procuradoras do trabalho e, principalmente, mulheres que se viram vítimas de abusos e constrangimentos parecidos com os relatados por funcionárias da Caixa Econômica Federal há três semanas. As denúncias levaram à queda do então presidente do banco estatal, Pedro Guimarães.

“Eram olhares incômodos e comentários como: “Ah, não é bom vir com esse vestido porque perco totalmente o foco”, ou me chamava na sala dele e dizia: “Está muito cheirosa, muito bonita. Pena que não dá mole para homem casado”. Um dia, eu disse que ele poderia ser processado, e ele respondeu: “É tudo brincadeira”, lembra a vendedora Melina Martin, de 36 anos que foi assediada pelo diretor de uma empresa de seguro e  tecnologia onde era coordenadora.

Arrimo de família e mãe solo, Melina temia perder o emprego. Até que a situação ficou insustentável, e ela denunciou ao setor de Recursos Humanos.

“Achei que, mesmo com a cúpula da empresa sendo formada por homens, seria protegida no RH, ainda mais porque a gerente era uma mulher. Duas semanas depois, fui demitida.’

SÓ 10% DENUNCIAOOS

No Brasil, casos de assédio sexual são tão subnotificados quanto os de estupro, apontam pesquisas, mas os registros vêm aumentando. Na empresa ICTS Protiviti, que administra um canal de denúncias para 600 vítimas de médio e grande porte, foram 8.261 relatos só em 2021.

Assédio em geral (moral, sexual e discriminação) representou 52.6% de todas as queixas, diz Heloisa Macari, diretora executiva da ICTS:

“A vítima de abuso ou assédio sexual demora para compreender que é uma vítima. Entende que está provocando a situação. Mas o movimento Me Too (que começou a estimular denúncias nos EUA em 2017) trouxe um olhar sobre o tema e popularizou a questão.

A coordenadora nacional de Promoção da Igualdade de Oportunidades e Eliminação da Discriminação no Trabalho do Ministério Público do Trabalho (MPT), Adriane Reis de Araújo, vê o assédio como mais um instrumento de poder sobre as mulheres:

“A cúpula das empresas é basicamente composta por homens. Essa violência é naturalizada. Tem ainda a desqualificação da queixa”. “Isso é brincadeira”. Não é. Deixa marcas. Um quinto das mulheres pede demissão por isso, o que gera prejuízo na carreira, nas promoções, na aposentadoria.”

Números oficiais não dão a dimensão dessa realidade. Pesquisas internacionais estimam que, a cada caso de assédio sexual denunciado, oito ou nove não são registrados, afirma Marina Ganzarolli, advogada especializada em Direito da Mulher e fundadora do movimento Me Too Brasil:

“É um índice alarmante, em qualquer estudo estatístico, inclusive no Brasil. Por trás dele existe a culpabilização e a “auto culpa” da vítima, o medo do estigma, o sentimento de impotência. A grande maioria reconhece que o problema existe, mas não há canais de denúncia ou ações concretas para o enfrentamento.”

Numa  pesquisa feita pela consultoria ThinkEva com o LinkedIn em 2020, quase metade das entrevistadas (47%) disse ter sido vítima de assédio sexual no trabalho. A incidência é maior entre as que ocupam cargos executivos. Das que se declararam gerentes, 60% afirmaram que já passaram por isso. No caso de diretoras, o índice chegou a 55%.

DEMISSÃO COMO SAÍDA

Entre as vítimas, 52% são mulheres negras, e 49% ganham entre dois e seis salários mínimos. Uma em cada seis acabou pedindo demissão para escapar. E uma em cada três diz viver sob constante medo. Para 78,4% das entrevistadas, a impunidade é a maior barreira para a denúncia.

“Na maioria das vezes, quando o caso chega até nós, a situação já está insustentável, extremamente crítica. Os relatos vão de toques e convites inadequados a chantagens sexuais em troca de alguma facilitação na carreira ou manutenção do emprego. É usado inclusive por subordinados com mulheres em posição de chefia, para que ela deixe o cargo, ou entre colegas, para tirar a mulher do páreo de alguma competição profissional”, afirma Adriane, do MPT.

A advogada Raquel Preto, ativista em movimentos feministas há mais de 25 anos, alerta que o assédio antecede o abuso sexual e tem a mesma subnotificação do estupro, cujos registros em unidades de saúde superam os da polícia:

“Muitos estupros são antecedidos por assédio sexual, que abrange ameaças veladas ou não, promessas de benefícios, insinuações,  frasesde conteúdo sexual, explícitas ou veladas, contato físico não autorizado, convites, sujeições impertinentes. Isso pode chegar a uma chantagem, ameaçar com perda de cargo ou função. O caso da Caixa, que não foi ágil na apuração de denúncias, reforçou o pedido do Sindicato dos Bancários de São Paulo à Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) para incluir um artigo específico de combate ao assédio sexual na convenção coletiva da categoria. A ideia é que representantes dos trabalhadores sejam informados das queixas no setor para cobrar providências.

O sindicato acompanha um caso de assédio seguido de estupro, segundo Ivone Silva, presidente da entidade e uma das coordenadoras do Comando Nacional dos Bancários. Ela diz que a denúncia não avançou na Justiça, que não viu provas suficientes. O acusado já voltou ao trabalho, mas quem denunciou, não. Abalada, a vítima segue afastada.

“Os canais de denúncia não têm funcionado, a política pública de ajuda às mulheres foi desmontada. E os casos só têm aumentado a cada ano. No caso da Caixa, as atrocidades ficaram apenas no canal do banco, que não deu vazão. Precisávamos ter feito barulho há muito tempo”, diz Ivone.

Segundo o Instituto Ethos, 4,68% das empresas no país informaram terem sido condenadas judicialmente, nos últimos cinco anos, por assédio sexual, numa amostra de 169 grandes companhias. Nelas, 97% têm canais de denúncia, e 74,3% proíbem claramente linguagem sexista, assédio e atitudes que possam intimidar ou constranger as mulheres no ambiente de trabalho.

“Hoje, o ambiente é mais propicio a denúncia do que há dez, 20 anos. Nosso desafio está muito ligado a componentes culturais. Ambientes pouco diversos são mais propensos a naturalizar certos comportamentos. Pôr panos quentes ainda está muito presente”, afirma Ana Lucia Melo, diretora-adjunta do Ethos.

Para a advogada trabalhista Juliana Bracks, companhias mais formais, onde a direção  desconsidera os resultados de chefes na hora de apurar condutas que possam configurar assédio sexual, tendem a ser menos favoráveis a abusos.

“Nos ambientes onde o politicamente correto é rígido, onde não são toleradas brincadeiras, e em que os canais de denúncia funcionam efetivamente, o assédio é menor.”

NA JUSTIÇA, ACORDOS

O número de casos que chegam à Justiça do Trabalho é baixo e vinha caindo desde 2015, o que se acentuou em 2020, com a pandemia. Voltou a subir em 2021, com a redução do trabalho remoto. De janeiro a maio de 2022, foram 251 novas ações, alta de 71% em relação aos 146 do mesmo período do ano passado. Segundo Juliana, os processos podem custar muito caro para as empresas porque há a possibilidade de ações por dano coletivo de iniciativa de sindicatos ou do MPT em busca de indenizações milionárias. Nas individuais, a maioria termina com acordos.

“A maioria das mulheres faz acordo. É importante manter a ação, mas entendemos que a própria instituição faz a revitimização e não acolhe a mulher. Ela tem que passar pelo constrangimento de fazer o depoimento de novo, ser questionada. Às vezes, até em frente ao agressor”, reclama a advogada Bianca Alves, do escritório Alves Faria, que tem um canal informativo na internet voltado para violência doméstica e assédio sexual.

A falta de mulheres nos tribunais também é um inibidor. Segundo Raquel, no Tribunal de Justiça de São Paulo, entre 360 desembargadores, só 32 são mulheres. No de Pernambuco, só há uma mulher entre os 60 desembargadores.

EU ACHO …

CHORAR FAZ BEM

Uma vez eu estava no velório de uma amiga da minha mãe, que havia falecido cedo, aos 60 e poucos anos. Eu gostava muito dela, era uma mulher bonita, divertida, vibrante. Foi uma morte anunciada, ela vinha doente há meses, portanto, estava tudo dentro da previsibilidade. Ainda assim, quando entrei na capela onde estava o corpo, senti um aperto no peito, minha garganta fechou, parecia que eu iria sufocar, e então, sem que eu conseguisse me controlar, caí em prantos. Chorei como se fosse da família, chorei o choro reservado apenas àqueles muito próximos, chorei de dar vexame, deixando a todos comovidos com a minha dor. Mal sabiam eles que minha tristeza por aquela amiga de minha mãe era bem menor do que a tristeza por mim mesma. Eu chorava por algo que havia morrido em mim, chorava um pedaço da minha vida que havia deixado de existir, chorava uma perda que nada tinha a ver com aquela situação. O velório foi apenas um álibi providencial.

Desde então, comecei a ficar mais atenta às verdadeiras razões dos meus choros, que, aliás, costumam ser raros. Já aconteceu de eu quase chorar por ter tropeçado na rua, por uma coisa à-toa. É que, dependendo da dor que você traz dentro, dá mesmo vontade de aproveitar a ocasião para sentar no fio da calçada e chorar como se tivéssemos sofrido uma fratura exposta.

Qualquer coisa pode servir de motivo. Chorar porque fomos multados, porque a empregada não veio, porque o zíper arrebentou bem na hora de sairmos pra festa. Que festa, cara-pálida? Por dentro, estamos em pleno velório de nós mesmos, chorando nossa miséria existencial, isso sim.

Não pretendo soar melodramática, mas é que tem dias em que a gente inventa de se investigar, de lembrar dos sonhos da adolescência, de questionar nossas escolhas, e descobre que muita coisa deu certo, e outras não. Resolve pesar na balança o que foi privilegiado e o que foi descartado, e sente saudades do que descartou. Normal, normalíssimo. São aqueles momentos em que estamos nublados, um pouco mais sensíveis do que gostaríamos, constatando a passagem do tempo. Então a gente se pergunta: o que é que estou fazendo da minha vida? Vá que tudo isso passe pela sua cabeça enquanto você está trabalhando no computador. De repente, a conexão cai, e, em vez de desabafar com um simples palavrão, você faz o quê? Cai no berreiro. Evidente.

Eu sorrio muito mais do que choro, razões não me faltam para ser alegre, mas chorar faz bem, dizem. Eu não gosto. Meu rosto fica inchado e o alívio prometido não vem. Em público, então, sinto a maior vergonha, é como se estivesse sendo pega em flagrante delito. O delito de estar emocionada. Mas se emocionar não é uma felicidade? Neste admirável mundo de contradições em que a gente vive, podemos até não gostar de chorar, mas se trata apenas da nossa humanidade se manifestando: a conexão do computador, às vezes, cai; por outro lado, a conexão conosco mesmo, às vezes, se dá.

Sendo assim, sou obrigada a reconhecer: chorar faz bem, não importa o álibi. É sempre a dor do crescimento.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

SEXO NA GRAVIDEZ É EM GERAL SEGURO, AFIRMA ESPECIALISTA

Só 15% das mulheres têm problemas na gestação que justificam interrupção

Quem nunca riu ao ouvir a história de que fazer sexo durante a gestação pode machucar o bebê em formação? Pois há casos em que isso é, de fato, verdade. A ginecologista Marianne Pinotti, do grupo de cirurgia oncológica e mamária da Beneficência Portuguesa, em São Paulo, afirma que 15% das grávidas têm complicações e são proibidas de fazer atividades sexuais durante o período.

“Uma parcela sofre com algum problema durante a gestação e é preciso suspender as atividades sexuais. Apesar de ser uma fatia reduzida, há, sim, fatores que motivam a suspensão, sobretudo no início”, diz.

No primeiro trimestre, ou seja, até a décima segunda e décima terceira semana, existe o que os médicos chamam de ameaças de abortamento com possíveis sangramentos. É sempre importante procurar o profissional especializado para fornecer o diagnóstico correto diante de ocorrências do gênero.

“Existe, por exemplo, o chamado sangramento da nidação, quando o embrião se une ao útero. Ocorre um sangramento pequeno, mas que não faz mal para a saúde do bebê. Neste caso, específico, a vida da mulher continua a mesma. Porém, pode ser um sangramento derivado do deslocamento da placenta, que é um escorrimento maior e gera um aumento de risco. É necessário a suspensão da atividade sexual neste caso”, explica Pinotti.

Isso não quer dizer que o impedimento perdure pelos outros meses, mas é necessária uma vigilância maior pelo médico para saber o tempo certo que as atividades sexuais do casal possam retornar sem fazer mal ao feto.

No segundo trimestre, que corresponde da décima quarta até a vigésima sétima, o risco é com o encurtamento do colo uterino. O tamanho normal dele seria em torno de 2,5 centímetros. Valores menores ou iguais são preocupantes, pois quanto mais curto for o comprimento do colo uterino, maior é o risco de parto prematuro.

“Houve recentemente mudanças no protocolo de diagnóstico e tratamento desse problema. O colo do útero, que deve funcionar como uma “rolha” durante o período de gestação, com mais colágeno, enrijecido e fibroso, e cuja função é segurar o peso da gravidez, pode encurtar, amolecer e dilatar. Isso configura uma patologia chamada incompetência istmocervical, que resulta no parto ou perda do bebê no segundo trimestre de gestação”, explica a obstetra.

Mulheres que têm a patologia do colo uterino curto têm grandes chances de ter um parto prematuro já no terceiro trimestre, por isso o cuidado com elas é redobrado. Apesar de ocorrer em uma pequena parcela das gestantes, os riscos são encontrados nos três trimestres da gestação e devem ser acompanhados por um médico especialista para que a solução não cause ameaças à vida da mãe e do bebê.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CONTATO FÍSICO SINALIZA INTENÇÃO E FORTALECE LAÇOS

Forma de comunicação poderosa, toque pode trazer alívio para estresse, aproximar amantes e até melhorar desempenho nos esportes

Os psicólogos estudam há muito tempo os grunhidos e as piscadelas da comunicação não verbal, os tons vocais e as expressões faciais que transmitem emoção. Uma entonação calorosa, um olhar hostil: ambos têm o mesmo significado numa cidade do interior dos Estados Unidos ou em Timbuktu, e estão entre dezenas de sinais que formam um vocabulário humano universal.

Mas, nos últimos anos, alguns pesquisadores começaram a se concentrar em um tipo diferente, muitas vezes mais sutil, de comunicação sem palavras: o contato físico. Toques momentâneos, dizem eles – seria um exuberante cumprimento, uma mão quente no ombro ou uma pegada assustadora no braço – podem comunicar uma gama ainda maior de emoções do que gestos ou expressões, e às vezes o fazem com mais rapidez e precisão do que palavras.

“É a primeira língua que aprendemos e, nosso meio mais rico de expressão emocional”, disse Dacher Keltner, professor de psicologia da Universidade da Califórnia, Berkeley, e autor de “Born toBe Good: The Science of a Meaningful Life” (Nascido para ser feliz: A ciência de uma vida significativa, na tradução do inglês). As evidências de que essas mensagens podem levar a mudanças claras e quase imediatas na forma como as pessoas pensam e se comportam se acumulam rapidamente. Os alunos que receberam um toque de apoio nas costas ou no braço de um professor foram quase duas vezes mais propensos a se voluntariar em sala de aula do que aqueles que não receberam, segundo estudos. Um toque simpático de um médico deixa as pessoas com a impressão de que a visita durou o dobro do tempo, em comparação com as estimativas de pessoas que não foram tocadas.

Uma pesquisa de Tiffany Field, do Instituto de Pesquisa de Toque, em Miami, descobriu que uma massagem de um ente querido pode não apenas aliviar a dor, mas também amenizar a depressão e fortalecer um relacionamento.

Em uma série de experimentos liderados por Matthew Hertenstein, psicólogo da Universidade DePaul, em Indiana, voluntários tentaram comunicar uma lista de emoções tocando um estranho com os olhos vendados. Os participantes foram capazes de comunicar oito emoções distintas, de gratidão a desgosto e amor, algumas com cerca de 70% de precisão.

“Costumávamos pensar que o toque servia apenas para intensificar as emoções comunicadas”, explica. “Agora acaba sendo um sistema de sinalização muito mais diferenciado do que imaginávamos.”

‘TOCA AQUI’

Para atestar se um rico vocabulário de toque de apoio está de fato relacionado ao desempenho, cientistas de Berkeley analisaram recentemente as interações com toque em um dos campos mais expressivos do mundo: o basquete profissional. Michael W. Kraus liderou uma equipe de pesquisa da Associação Nacional de Basquete dos EUA, que codificou cada colisão, abraço e “toca aqui” trocados pelos jogadores em uma única partida, no início da temporada passada do esporte.

Em um artigo da revista Emotion, Kraus e seus coautores, Cassy Huang e Dacher Keltner, relatam que, com poucas exceções, equipes boas tendem a se tocar mais do que as ruins. Os times mais ligados ao toque foram o Boston Celtics e o Los Angeles Lakers, atualmente duas das principais equipes da liga; nos últimos lugares, estavam os Sacramento Kings e Charlotte Bobcats.

O mesmo vale, em certa medida, para os jogadores. O atleta mais sensível foi Kevin Garnett, a estrela do Celtics, seguido por Chris Bosh, do Toronto Raptors, e Carlos Boozer, do Utah Jazz.

“Dentro de 600 milissegundos de um lance livre, Garnett estendeu a mão e tocou quatro caras”, ressalta Dacher Keltner.

Para corrigir a possibilidade de que as melhores equipes tocam com mais frequência simplesmente porque estão vencendo, os pesquisadores classificaram o desempenho com base não em pontos ou vitórias, mas em uma medida sofisticada, o quão eficientemente os jogadores e equipes administram a bola – sua proporção de assistências para brindes, por exemplo. E mesmo depois que as altas expectativas em torno das equipes mais talentosas foram levadas em consideração, a correlação persistiu.

Osjogadores que fizeram contato com os companheiros de equipe de forma mais consistente e por mais tempo tendiam a pontuar mais alto nas medidas de desempenho, e as equipes com esses jogadores pareciam tirar o máximo proveito de seu talento.

O estudo ficou aquém de mostrar que o toque causou o melhor desempenho, reconheceu um dos autores.

“Ainda temos que testar esse comportamento em um ambiente do laboratório controlado”,  admite Kraus.

REFLEXOS DO CORPO

Se um “toca aqui” ou um equivalente pode de fato melhorar o desempenho, no campo ou no escritório, pode ser porque reduz o estresse. Um toque caloroso parece desencadear a liberação de oxitocina, um hormônio que ajuda a criar uma sensação de confiança e a reduzir os níveis do hormônio do estresse, cortisol. No cérebro, as áreas pré-frontais, que ajudam a regular as emoções, podem relaxar, liberando-as para outro de seus objetivos principais: a resolução de problemas. Com isso, o corpo interpreta um toque de apoio como ”vou dividir esse fardo”.

“Achamos que os humanos constroem relacionamentos precisamente por esse motivo, para distribuir a solução de problemas entre os cérebros”, explica James A. Coan, psicólogo da Universidade da Virgínia.

“Estamos conectados para compartilhar literalmente a carga de processamento, e esse é o sinal que recebemos quando recebemos apoio por meio do toque.”

O mesmo certamente vale para as parcerias, e especialmente as do tipo romântico, dizem os psicólogos. Em um experimento recente, pesquisadores liderados por Christopher Oveis, de Harvard, realizaram entrevista de cinco minutos com 69 casais, levando cada par a discutir períodos difíceis em seu relacionamento.

Os investigadores pontuaram a frequência e a duração dos toques que cada casal, sentado lado a lado, compartilhava. Em entrevista, Oveis ressaltou que os resultados do estudo ainda eram preliminares.

“Mas até agora parece que os casais que se tocam mais estão relatando mais satisfação no relacionamento”, conclui.

Mais uma vez, não está claro o que veio primeiro, o toque ou a satisfação. No entanto, nos relacionamentos românticos sabe-se que um leva ao outro. Ou pelo menos, assim sugerem as evidências anedóticas.

OUTROS OLHARES

BANHOS QUENTES E SAUNAS AFETAM A SAÚDE DO ESPERMA

Aumento de calor leva a menor contagem e alterações nos espermatozoides

Nesses meses de inverno, quem não gosta de relaxar em uma banheira com água pelando ou na sauna? Entretanto, estudos comprovam que para os homens isso pode ser nocivo, especialmente para a saúde dos espermatozoides saudáveis.

Os testículos precisam ser mantidos a pelo menos dois graus abaixo de 37ºc para manter sua função. O corpo os mantém resfriados naturalmente. Um estudo recente feito pelo Centro Hospitalar Universitário de Toulouse, na França, mostrou que se a temperatura escrotal aumentar alguns graus, pode ocorrer infertilidade.

Esse trabalho foi realizado em voluntários férteis que usavam roupas intimas especiais que deixavam os testículos com uma temperatura um pouco acima do normal do nosso corpo por cerca de 15 horas por dia durante 4 meses. O resultado foi que esse aumento de calor levou a uma menor contagem de espermatozoides, além de crescer o número daqueles que carregavam um número anormal de cromossomos.

Acredita-se que temperaturas mais altas estejam associadas ao estresse oxidativo e, por sua vez, isso pode causar danos ao DNA dentro do  espermatozoide. O estudo também   mostrou que o estresse térmico pode causar menor contagem, movimento e concentração deles no esperma e até morfologia alterada. Os cinco voluntários, depois de seis meses do referente estudo, levando suas vidas normalmente, voltaram a apresentar uma contagem normal.

BANHEIRA E SAUNA

Três estudos foram além, analisando o impacto no uso de banheiras de hidromassagem e banhos quentes em relação à fertilidade. Em um deles, realizado pelo departamento de Urologia da Universidade da Califórnia, um pequeno grupo de homens inférteis tomaram banhos quentes e relaxantes nas três opções de estudo por pelo menos 30 minutos por semana, depois foram instruídos a parar de se expor a essas fontes de calor. Quase 50% dos participantes apresentaram um aumento de 491% na contagem de espermatozoides.

O segundo, feito pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong, em Wuhan, na China, fez os voluntários mergulharem em uma banheira aquecida a 43ºC em 10 sessões por 30 minutos. Esses banhos levaram a um dano no DNA e até mesmo causou a morte de muitos espermatozoides.

Por último, um estudo feito pelo Laboratório de Andrologia do Hospital Estadual de Eskisehir, na Turquia, examinou 1.311 participantes e descobriu que ir à sauna (assim como usar roupas intimas apertadas) estava relacionado à menor concentração de sêmen.

Ou seja, tomar banhos quentes e prolongados, bem como usar banheiras ou saunas com frequência podem não ser boas escolhas para a fertilidade. Precisa haver intervalos de dias, e dependendo da regularidade, de meses.

GESTÃO E CARREIRA

IDOSOS SÃO MAIORIA DOS QUE DESISTIRAM DO MERCADO DE TRABALHO NA PANDEMIA

Covid e desânimo com vagas disponíveis explicam saída de 2,6 mi de pessoas acima dos 60 anos

Emanuel de Jesus Sousa Oliveira, 70, perdeu o emprego de faturista em novembro de 2021. O morador da capital paulista relata que até gostaria de voltar a prestar algum serviço para complementar a renda da aposentadoria, mas uma combinação de fatores travou a busca por vagas neste momento.

Desânimo com as oportunidades disponíveis e incertezas sanitárias ainda relacionadas à pandemia fazem parte dessa lista.

“O mercado de trabalho para quem tem 60 anos ou mais é muito restrito. Achei melhor nem procurar nada no momento”, diz o aposentado, que trabalhava de casa no último emprego e teria interesse em ocupar outra vaga remota.

O caso de Oliveira não é isolado. Idosos formam a maioria dos brasileiros que saíram do mercado de trabalho durante a pandemia e não retornaram, indicam dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) compilados pela LCA Consultores.

O levantamento tem foco na população fora da força de trabalho. Esse grupo reúne pessoas de 14 anos ou mais que não estão ocupadas nem procurando emprego – formal ou informal.

No quarto trimestre de 2019, período pré-pandemia, a população fora da força somava quase 61,6 milhões de pessoas no país. No primeiro trimestre de 2022, com a Covid-19 em curso, o grupo cresceu 6%, para 65,5 milhões.

Ou seja, houve acréscimo de quase 3,9 milhões de pessoas ao longo da crise sanitária. O número é mais elevado do que a população projetada pelo IBGE para um estado como Mato Grosso (3,6 milhões).

Os dados do instituto mostram que os trabalhadores com 60 anos ou mais puxaram esse crescimento.

Nessa faixa etária, a parcela que não estava trabalhando nem buscando emprego pulou de quase 22,4 milhões para 24,9 milhões entre o quarto trimestre de 2019 e os três meses iniciais de 2022. O acréscimo foi de cerca de 2,6 milhões de pessoas, uma alta de 11,6%.

Também houve avanço nas faixas de 40 a 59 anos (aumento de 9,4%, ou 1,3 milhão a mais) e de 25 a 39 anos (alta de 7,3%, ou 628 mil pessoas).

Segundo analistas, a renda obtida com aposentadorias é um dos fatores que explicam o fato de a população fora da força ter uma grande participação de idosos. Os riscos associados à pandemia, por sua vez, dificultaram a volta ao mercado daqueles que desejam complementar a renda.

É possível que uma parte não retorne à força de trabalho em definitivo, aponta o economista da LCA Consultores Bruno Imaizumi, responsável pelo levantamento.

“Esse movimento não é exclusivo do Brasil. A pandemia fez com que muitas pessoas repensassem a vida. O medo de pegar Covid pode ter feito com que parte dos idosos não voltasse para o mercado de trabalho”, diz.

“Além disso, ainda há um preconceito em relação a trabalhadores mais velhos preenchendo vagas”, acrescenta.

Descontente com o mercado de trabalho, Dionísio José da Silva, 72, conta que pediu para deixar a vaga de motorista em uma empresa em São Paulo em fevereiro deste ano.

Aposentado, ele afirma que precisaria fazer “algum biquinho” para complementar a renda. Porém, a busca foi afetada por motivos de saúde nos últimos meses: Silva diz que foi infectado pelo coronavírus e também pegou pneumonia. “Isso atrasou o meu lado”, relata.         

O economista Fábio Pesavento, professor da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) em Porto Alegre, argumenta que parte das atividades econômicas que vêm gerando empregos no Brasil busca prioritariamente profissionais mais jovens. Ele cita o caso da construção civil.

Além disso, o envelhecimento da população contribui para o aumento de idosos na parcela fora da força de trabalho.

“Aí surge um ponto importante: com a reforma da Previdência, as pessoas têm de trabalhar por mais tempo. Se ela não consegue uma ocupação, o que vai fazer?”, questiona.

Embora os idosos sejam o grupo que mais tenha crescido entre quem saiu da força, o grupo ainda é formado majoritariamente por mulheres.

Às vésperas da pandemia, no quarto trimestre de 2019, a parcela feminina nessa situação era de quase 39,9 milhões. No primeiro trimestre de 2022, o número ficou em 42,3 milhões, uma alta de 6,1%.

Já o total de homens fora da força estava em 21,7 milhões no final de 2019. O contingente ficou em 23,1 milhões no início deste ano (alta de 6,6%).

Os dados do IBGE analisados por Imaizumi também mostram diferenças entre os trabalhadores mais velhos e os jovens. No segundo caso, a população fora da força já é menor do que o observado no pré-pandemia.

O número de brasileiros de 14 a 17 anos sem trabalhar e sem procurar emprego teve redução de 325 mil pessoas entre o quarto trimestre de 2019 e o primeiro de 2022. A baixa foi de 3,2% (de 10,1 milhões para 9,8 milhões).

Na faixa de 18 a 24 anos, a queda foi de 3,7%. Houve saída de 267 mil pessoas da população fora da força, que recuou de 7,1 milhões para 6,9 milhões.

“A necessidade de recomposição da renda das famílias pode ter impactado. Mais jovens podem ter ido para o mercado por conta disso”, diz Imaizumi.

O economista Vitor Hugo Miro, professor da UFC (Universidade Federal do Ceará), vai na mesma linha.

“Mais jovens podem ter sentido a necessidade de complementar a renda. A gente vê aumento na taxa de participação deles”, afirma o professor. A taxa de participação corresponde ao percentual de trabalhadores inseridos na força de trabalho (ocupados ou desempregados) em relação ao total de pessoas na mesma faixa etária.

Do quarto trimestre de 2019 para o primeiro de 2022, esse percentual aumentou de 18,7% para 19,4% na camada de 14 a 17 anos.

Enquanto isso, a taxa de participação caiu de 24% para 22% entre os mais velhos, com 60 anos ou mais. Os números também são da Pnad Contínua e foram compilados por Miro.

“Ter outra fonte de renda, como uma aposentadoria, ajuda a pessoa a não ter de procurar um emprego”, aponta. Dados mais recentes divulgados pela Pnad com trimestres móveis (versão da pesquisa com menor nível de detalhamento) mostram que a população de brasileiros fora da força de trabalho somava 64,8 milhões de pessoas até maio.

O resultado representa cerca de 2,8 milhões a mais do que no intervalo até fevereiro de 2020 (62 milhões), às vésperas da pandemia.

EU ACHO …

NÃO É (SÓ) SOBRE VOCÊ

Existe um reflexo quase que automático para muitas pessoas quando questionadas sobre situações relativas a racismo ou machismo. Elas dizem: “Nunca passei por isso” ou “Isso é um exagero”.

Se você é uma pessoa negra no Brasil, vale refletir que viver uma experiência racista vai muito além de ser chamado de “macaco”. Passa pela História e por fatos. como, por exemplo, a maioria das pessoas em situação de rua, sendo presas ou sendo mortas a cada 23 minutos serem da mesma raça. E, ainda que não seja uma experiência pessoal, isso é também sobre você.

Esta experiência vivida coletivamente diz respeito ao lugar que foi construído ao longo da história para que seja o seu lugar, ainda que você, como indivíduo, felizmente não esteja nele. Ou seja, você passa pelo racismo estrutural mesmo se não dá nome a isso.

Nós, especialmente pessoas negras ou de grupos vulnerabilizados, que, ao longo do tempo, ascenderam socialmente, fomos ensinados a nos naturalizarmos como histórias únicas ou de superação. E, ao sermos únicos em determinados lugares, isso reforça uma mensagem do quanto somos incríveis. Bom à beça para o ego se sentir alguém especial, diferenciado de uma maioria que “não venceu”.

Por outro lado, com um pouco mais de reflexão crítica e de conexão entre os pontos, a ficha cai quando entendemos que, quando estamos sozinhos, estamos também enfraquecidos e isolados. E, no primeiro tremor, tudo o que foi construído individualmente com tanto esforço pode ir por água abaixo facilmente. Já que a força também se constrói por meio do coletivo e numa rede de pessoas que se reconhecem e que se apoiam. Estar sozinho não é bom. Ser uma exceção não é bom.

Estar feliz com uma história pessoal de sucesso é super válido. Celebrar a vitória de um esforço aplicado é necessário e dá forças para seguir adiante. Mas validar isso como esforço e superioridade individual versus a de um coletivo, que seria preguiçoso e sem talento, é descabido.                        

É sem fundamento e sem um olhar histórico sobre a segregação sistêmica que aconteceu com a população negra e indígena neste país, por exemplo.

No podcast “Mano a mano” com Sueli Carneiro, a quem dediquei uma coluna semanas atrás, ela reforça que “o sistema neoliberal sempre permitiu que experimentássemos uma mobilidade individual. Os casos excepcionais de ascensão socioeconômica são consentidos e usados contra os pretos. Precisamos entender que só há ascensão quando ela é coletiva”. Até por que muitas das vitórias individuais são frutos de esforços coletivos não reconhecidos.

Há também aqueles que invalidam a dor de outros dizendo que é “mimimi”. Mulheres reproduzem o machismo, assim como negros e indígenas podem reproduzir o racismo. Nossa base educacional nos condiciona a não nomear e a reproduzir opressões ao invés de questioná-las, mesmo quando fazemos parte do grupo dos oprimidos, como nos lembra Paulo Freire em “A pedagogia do oprimido”: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. Por isso a importância de uma educação antirracista que reveja comportamentos e referências que usamos dentro e fora de sala de aula.

Muitas pessoas, incluindo as que “venceram sozinhas”, gostam de usar frases de Barack Obama, Oprah, Nelson Mandela, Martin Luther King como inspirações. Isso sem levar em conta que justamente estes ícones apoiam ações afirmativas, reconhecem o racismo e levantam suas vozes para que suas narrativas sejam mais do que uma exceção.

Que possamos todos repensar nossa atitudes e nos entender como parte de uma estrutura maior que o “eu” validado por experiências pessoais, intenções e vontades que não anulam experiências coletivas. E que, só ao olhar para o contexto da História, é possível nos sentirmos como parte dela e fazermos a diferença para além do próprio umbigo.

*** LUANA GÉNOT 

lgenot@simaiguadaderacialcom.br

ESTAR BEM

OS BENEFÍCIOS DA RESPIRAÇÃO CONTROLADA

Técnica conhecida pelos praticantes de ioga há séculos alivia estresse, aumenta estado de alerta, estimula sistema imunológico e ajuda a tratar depressão. Especialistas indicam três práticas para o dia a dia

Respire fundo, expanda a barriga. Pause. Expire lentamente, contando até cinco. Repita quatro vezes. Parabéns. Você acabou de acalmar seu sistema nervoso. A respiração controlada, como a que você acabou de praticar, demonstrou reduzir o estresse, aumentar o estado de alerta e estimular o sistema imunológico. Durante séculos, os praticantes de ioga usaram o controle da respiração para promover a concentração e melhorar a vitalidade. Buda defendia a meditação da respiração como uma forma de alcançar a iluminação.

A ciência está apenas começando a fornecer evidências de que os benefícios dessa prática são reais. Estudos descobriram, por exemplo, que essa técnica de respiração pode ajudar a reduzir os sintomas associados à ansiedade, insônia, transtorno de estresse pós- traumático, depressão e transtorno de déficit de atenção.

“Respirar é extremamente prático”, diz Belisa Vranich, psicóloga e autora do livro “Breathe” (Respire). “É meditação para pessoas que não podem meditar.”

A forma como a respiração controlada pode promover a cura de sintomas de doenças continua sendo uma fonte de estudo científico. Uma teoria é que a respiração controlada pode alterara resposta do sistema nervoso autônomo do corpo, que controla processos inconscientes, como frequência cardíaca e digestão, bem como a resposta ao estresse, explica Richard Brown, professor associado de psiquiatria da Universidade de Columbia e co-autor do livro “The Healing Power of the Breath” (O Poder de Cura da Respiração, em tradução livre).

Mudar conscientemente a maneira como você respira parece enviar um sinal ao cérebro para ajustar o ramo parassimpático do sistema nervoso, que pode diminuir a frequência cardíaca e a digestão e promover sentimentos de calma, bem como o sistema simpático, que controla a liberação de hormônios do estresse, como o cortisol. Muitas doenças, como ansiedade e depressão, são agravadas ou desencadeadas pelo estresse.

Quando você respira devagar e com firmeza, seu cérebro recebe a mensagem de que tudo está bem e ativa a resposta parassimpática, afirma Richard Brown. Quando sua respiração é curta e rápida ou você prende a respiração, a resposta simpática é ativada.

REDUÇÃO DA DEPRESSÃO

Chris Streeter, professora associada de psiquiatria e neurologia da Universidade de Boston, concluiu recentemente um pequeno estudo no qual mediu o efeito da ioga diária e da respiração em pessoas com diagnóstico de transtorno depressivo.

Após 12 semanas de ioga diária e respiração coerente – um dos tipos de respiração controlada -, os sintomas depressivos dos participantes diminuíram significativamente e seus níveis de ácido gama-aminobutírico, que no cérebro tem efeitos calmantes e antiansiedade, aumentaram. A pesquisa foi apresentada em 2016 no Congresso Internacional de Medicina Integrativa e Saúde em Las Vegas. Embora o estudo tenha sido pequeno e não tenha um grupo de controle, Streeter e seus colegas estão planejando um teste controlado e aleatório para investigar mais a intervenção.

“As descobertas foram emocionantes. Eles mostram que uma intervenção comportamental pode ter efeitos de magnitude semelhante a um antidepressivo”, afirma.

A respiração controlada também pode afetar o sistema imunológico. Pesquisadores da Universidade Médica da Carolina do Sul dividiram 20 adultos saudáveis em dois grupos. O primeiro foi instruído a fazer duas séries de exercícios respiratórios de dez minutos, enquanto o segundo foi instruído a ler um texto de sua escolha por 20 minutos. A saliva dos sujeitos foi testada em vários intervalos. Os pesquisadores descobriram que a amostra do grupo de exercícios respiratórios tinha níveis significativamente mais baixos de três citocinas associadas à inflamação e ao estresse. Os resultados foram publicados na revista BMC Complementary and Alternative Medicine.

PARA APRENDER E COLOCAR EM PRÁTICA

RESPIRAÇÃO COERENTE

Se você tiver tempo para aprender apenas uma técnica, esta é a melhor a tentar. Na respiração coerente, o objetivo é fazer cinco respirações por minuto, o que geralmente se traduz em inspirar e expirar contando de um até seis. Se você nunca praticou exercícios de respiração antes, pode ter que trabalhar essa prática lentamente, começando com inalar e exalar contando até três e indo até seis.

1. Sentado ereto ou deitado, coloque as mãos na barriga.

2. Inspire lentamente, expandindo a barriga, contando até cinco.

3. Pause.

4. Expire lentamente contando até seis.

5. Repita diariamente até conseguir fazer por 10 a 20 minutos.

ALÍVIO DE ESTRESSE

Quando sua mente está acelerada ou você se sente tenso, experimente a respiração “rock and roll”, que tem o benefício adicional de fortalecer a musculatura do seu core (abdômen e lombar).

1. Sente-se ereto no chão ou na beirada de uma cadeira.

2. Coloque as mãos na barriga.

3. Ao inspirar, incline-se para a frente e expanda a barriga.

4. Ao expirar, encolha-se e jogue a barriga para trás; expire até ficar completamente sem ar.

5. Repita 20 vezes.

RESPIRAÇÃO ENERGIZANTE ‘RÁ’

Quando o cansaço que costuma aparecer depois do almoço chegar, levante-se e faça um rápido trabalho de respiração para acordar sua mente e corpo.

1. Fique de pé, com cotovelos dobrados e palmas das mãos voltadas para cima.

2. Ao inspirar, puxe os cotovelos para trás, com as palmas das mãos voltadas para cima.

3. Em seguida, expire rapidamente, empurrando as palmas das mãos para a frente e virando-as para baixo, enquanto diz “rá” em voz alta.

4. Repita rapidamente, entre 10 e 15 vezes.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MULHERES TÊM GENES QUE INDUZEM DEPRESSÃO

Ciência descobriu alterações genéticas relacionadas à incidência maior do transtorno no sexo feminino

Os números mostram que a depressão afeta as mulheres com mais frequência e de forma mais refratária a tratamentos. Porém, as causas para essa diferença nunca foram bem explicadas pela ciência. Agora, um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia, do Hospital Mount Sinai e da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, e da Universidade de Laval, no Canadá, desvendou parte desse mistério.

Publicado na revista científica Biological Psychiatry, o trabalho analisou os impactos da depressão numa região do cérebro chamada de núcleo accumbens (NAc), ligada à motivação, ao centro de recompensa e às interações sociais.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), mulheres são de maneira geral mais afetadas pela depressão. A tendência pode ser comprovada ao se observar os dados brasileiros. Segundo a última edição da Pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, 11,3% sofrem de depressão, percentual que sobe para 14% ao se analisar apenas as pessoas do sexo feminino e cai para 7% entre os homens.

Análises anteriores já haviam mostrado que, apenas em mulheres, diferentes genes do núcleo accumbens eram ativados e desativados em associação a um diagnóstico de depressão. Os pesquisadores consideravam que essas mudanças poderiam ser tanto consequências da doença como as causas dos sintomas.

Para entender essa relação, eles conduziram pesquisas com camundongos fêmeas, que foram colocados em situações de interação social negativa. Isso induziu comportamentos relacionados à depressão de forma mais forte nos indivíduos do sexo feminino, desencadeando as mudanças nos genes do NAc.

Em seguida, os pesquisadores testaram se reforçar genes que foram desativados no cérebro de mulheres poderia ajudar na melhora da depressão. Eles selecionaram um gene específico, que controla a expressão de uma proteína chamada de Rgs2, que atua nos receptores de neurotransmissores alvos de medicamentos para a doença, como Prozac e Zoloft. Quando aumentaram a expressão dessa proteína, os sintomas foram atenuados.

OUTROS OLHARES

O LANCHE DE BORDO ESTÁ DE VOLTA, MAS EM VERSÃO MODESTA

Nem nos ares a inflação de alimentos dá trégua. Alguns snacks ficaram mais simples. Há casos em que dá para tomar cerveja

Quem voou em rotas domésticas recentemente já percebeu: o serviço de bordo voltou. Em meio à alta de preços de passagens e margens menores de lucro das empresas, as três maiores companhias do país (Latam Brasil, Gol e Azul) redesenharam as próprias ofertas de lanchinhos. Barrinhas e amendoins estão mais modestos, mas em alguns voos é possível até tomar cerveja.

As refeições ficaram ainda mais simples. Ao mesmo tempo, as aéreas criam diferenciais para atrair os clientes com maior poder aquisitivo.

De modo geral, o glamour nostálgico de refeições quentes e bebidas inclusas em todo voo virou coisa do passado, sem perspectiva de voltar. Tentando sair de uma das maiores crises do setor em décadas, as empresas buscam todas as formas de diluir custos.

“O serviço varia, mas é simples em comparação ao que tínhamos na década de 1990, com oferta de pratos quentes em todo voo. Em contrapartida, era outra realidade de mercado e as tarifas médias eram mais altas”, diz o diretor de aeroportos da Latam Brasil, Derick Barbosa.

O retorno dos lanches envolveu planejamento das empresas, que não sabiam quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) editaria a resolução que permitiu a volta do serviço.

‘HAPPY HOUR’ NAS NUVENS

Na Azul, a preparação levou sete meses, de acordo com o diretor de Marketing da aérea, Daniel Bicudo:

“Envolvemos 450 pessoas na preparação de kits e retreinamos comissários porque, na Azul, eles carregam bandejas com as opções de snacks.

No país, a Azul é a única que serve os alimentos em embalagens com a própria marca da companhia aérea. Os fornecedores, segundo Bicudo, não são os mesmos dos alimentos doces e salgados.

A empresa foi a primeira a voltar a oferecer o serviço. São, de acordo com Bicudo, 31 bases que já estavam abastecidas com produtos à espera da liberação da Anvisa.

Hoje, os 800 voos da Azul têm oferta de lanches e bebidas variadas. A partir de hoje, a ponte aérea Rio-São Paulo passará a ter cerveja disponível às quartas, quintas e sextas-feiras em voos entre 16h e 22h, em ambos os sentidos da rota.

Nos demais voos, são oferecidos lanches salgados e doces, e o passageiro pode repetir.

“Para nós, era importante servir as balinhas com formato de avião, que são um dos emblemas da Azul. Elas são oferecidas em todos os voos. O restante depende do horário do voo. Temos cookies, bolinhos e goiabinhas como opções doces. Nas salgadas, pacote de batata chips ou salgadinho sabor torresmo ou bacon”, explica Bicudo.

BISCOITO DE 10G

Na Latam Brasil, o retorno do serviço de bordo foi em 1º de junho, em todos os voos. A escolha do que servir foi repensada e varia de acordo com o tempo do voo, segundo Derick Barbosa, diretor de Aeroportos da companhia.

Segundo ele, o nível de satisfação dos clientes já aumentou em razão dos lanchinhos em pesquisas feitas depois de cada voo, ainda que se resumam a biscoitinho e água nas curtas distâncias.

“Fizemos contratações de fornecedores no começo do ano com contrato de 12 meses. Empurramos isso para frente por restrições sanitárias e, depois do aval da Anvisa, tivemos oito dias para preparara logística”, diz Barbosa, que diz que a empresa sente o impacto da inflação dos alimentos.

Na Latam, são oferecidos a passageiros da classe econômica em rotas curtas, de menos de uma hora e meia de voo, água e um cookie de 10g. Nas rotas médias (de uma hora e meia a duas horas de voo), além dos snacks, entram o café e, eventualmente, outras bebidas. Nas longas, há bebidas como sucos e refrigerantes.

A partir de sexta-feira, em rotas de durações médias e longas, haverá entrega de sanduíches quentes a passageiros da categoria Premium Economy, em que se paga tarifa mais elevada para ter, entre outras vantagens, mais espaço entre os assentos. O objetivo é fidelizar quem valoriza mais conforto.

“Olhamos constantemente o que os concorrentes oferecem e, eventualmente, fazemos ajustes em uma rota específica para manter competitividade”, diz o executivo.

Uma rota com mais passageiros corporativos, menos sensíveis à alta de preços, pode ter uma oferta maior de snacks, portanto.

Na Gol, o serviço de bordo voltou em maio para voos com partida em São Paulo e, em 1º de junho, de modo geral. Segundo Haroldo Lima, coordenador de Produtos e Parcerias da Gol, os voos com mais de 45 minutos têm oferta de lanches e bebidas, como sucos e café. Em rotas mais curtas, o passageiro recebe um copo d’água.

Entre as opções de alimentos, estão doces como biscoitos recheados e cookies. Na salgada, biscoito de polvilho sem lactose e sem glúten.

“A grande dificuldade que tivemos foi a falta de previsão da volta do serviço de bordo”, conta Lima, acrescentando que a companhia sentiu o impacto da inflação. “Apesar disso, não quisemos prejudicar a qualidade do serviço e mantivemos a mesma oferta de snacks anterior à pandemia. Segundo ele, a empresa estuda adiante a retomada de oferta de lanches sob demanda. A Gol chegou a oferecer a opção de o passageiro comprar comida antes da pandemia.

GESTÃO E CARREIRA

APRENDIZ MAIS NOVO E COM MENOS INSTRUÇÃO PERDE ESPAÇO NAS EMPRESAS

Lei deixa de cumprir sua função social e produtiva, diz especialista; MP de Bolsonaro agrava cenário

As contratações de aprendizes pelas empresas na última década passaram a privilegiar jovens com escolaridade mais alta, excluindo cada vez mais os adolescentes mais novos e menos instruídos.

Segundo levantamento exclusivo da Kairós Desenvolvimento Social, a partir da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), a participação de adolescentes menores de 18 anos era de 65% do total de contratados na modalidade aprendiz em dezembro de 2010. Esse percentual caiu para 33,5% em dezembro de 2020.

Ao mesmo tempo, os aprendizes com ensino médio completo ocupavam 19,5% das vagas em 2010, passando para 43% em 2020. Outros 43,8% são de aprendizes com ensino médio incompleto, e apenas 13,2% estavam no ensino fundamental. As estimativas apontam que há, atualmente, cerca de 500 mil aprendizes contratados no País.

Com esse cenário, a Lei da Aprendizagem, criada há mais de duas décadas para ser porta de entrada de milhares de jovens no mercado de trabalho e um mecanismo de inclusão tem deixado de cumprir sua função social e produtiva, aproximando-se de uma modalidade de estágio, diz Elvis Cesar Bonassa, diretor da Kairós.

A legislação estabelece uma relação de prioridades para a contratação de aprendizes vulneráveis, como adolescentes e jovens de baixa renda, egressos de medidas socioeducativas e do trabalho infantil, que estejam em acolhimento institucional e pessoas com deficiência.

“A ideia é fazer do programa uma inclusão social e produtiva. Para outros casos, há opções de estágio e oportunidades de primeiro emprego. A lei é focada na inclusão social, que foi progressivamente abandonada pelas empresas”.

Bonassa acrescenta que, quando se olha o perfil social de adolescentes que moram em áreas de vulnerabilidade, o perfil de escolaridade já costuma ser mais baixo. Quanto mais jovem e com menor formação, maiores são as chances de um aprendiz ser vulnerável.

“Muitas empresas têm investido em práticas de ESG (de governança ambiental, social e corporativa), mas, quando se trata da questão de jovens vulneráveis, elas preferem financiar um projeto social qualquer em áreas pobres, que não gera renda para os adolescentes, a trazer esses jovens para a estrutura delas”, afirma.

A aprendizagem profissional permite unir políticas de trabalho e emprego, educação e assistência social, por meio do atendimento dos adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social, inserção dos que estavam fora da escola e da qualificação profissional, diz Tatiana Gomes Furtado, gerente socioeducativa do Centro Salesiano do Adolescente (Cesam-DF).

Quem teve a vida transformada pelo programa foi Klismann Alves, 23, ex-aprendiz em um atacadista de São Paulo e que hoje trabalha em um hospital de grande porte na capital paulista. “Fiquei sabendo do programa pelo Instagram e comecei trabalhando como operador de caixa, aos 19 anos, Foi a primeira experiência como funcionário fixo, e assim pude me desenvolver para alcançar meu objetivo, de trabalhar na área de saúde”.

Com a remuneração, conseguiu pagar por cursos complementares e hoje cursa graduação em ciências contábeis. “Algumas empresas de grande porte deveriam estar com esse pensamento de colocar jovens aprendizes para dar oportunidade para quem está começando”, diz o auxiliar de atendimento.

Parte das empresas também tem adotado processos seletivos que acabam dificultando a entrada dos aprendizes mais vulneráveis, dizem entidades que fazem a intermediação entre jovens e empresas.

A mediação entre as duas pontas se dá via organizações qualificadoras. Segundo a Febraeda (Federação Brasileira de Associações Socioeducacionais de Adolescentes), as entidades do Sistema, como Senai e Senac, contribuem com cerca de metade dos aprendizes em atividade; a outra metade vem de outras associações sem fins lucrativos.

“Existem programas de aprendizagem na área da indústria que são específicas para quem tem mais de 18 anos e que não atendem ao público vulnerável, mas as entidades sem fins lucrativos atendem”, diz o presidente da federação, Antônio Pasin.

O perfil social dos alunos do Senai é de renda mais baixa do que o da média da escola pública. Defendemos que as regras de aprendizagem tenham justiça social, mas isso se dá em bases sustentáveis”, afirma o diretor-geral do Senai, Rafael Lucchesi.

“É um absurdo pegar um jovem e ensinar para ele uma atividade de ‘faz de conta’. Mas que tipo de empoderamento tem quem aprende a ser contínuo ou a empacotar compras no supermercado? Ele vai ter um efeito na renda benéfico, mas, ao fim do programa, estará no mesmo nível de capital humano em que entrou.” Segundo o IBGE, os brasileiros de 18 a 24 anos recebem, em média, R$ 1.452 mensais, quase a metade da renda média dos demais trabalhadores.

“Existem organizações com abrangência nacional e também organizações capilares da sociedade civil, que realizam o mesmo tipo de trabalho, mas com um diferencial: estão inseridas no território tanto da empresa quanto do jovem”, diz Terezinha Ongaro Monteiro de Barros, presidente da organização SHD (Sociedade Humana Despertar), que atua na inclusão produtiva.

Ela enfatiza que a Lei do Aprendiz é o único dispositivo legal que versa sobre a empregabilidade do jovem. “No mundo ideal, a sociedade civil deixaria de consumir produtos de empresas que não cumprissem com as cotas estabelecidas por lei ou atuando com responsabilidade social e ambiental.”

De acordo com especialistas, mesmo que resultados da Rais que já captam o período após  o início da pandemia ainda não estarem disponíveis, é possível afirmar que a crise sanitária agravou a redução de aprendizes mais vulneráveis nas empresas.

“Estamos nesse negócio desde 2002 e ele vinha crescendo, até a pandemia. Depois da crise sanitária, o nosso número de aprendizes caiu de 85 mil para 65 mil”, diz Humberto Casagrande, superintendente-geral do Ciee (Centro de Integração Empresa-Escola). “Os contratos iam vencendo e as empresas não renovavam, ficaram inadimplentes com a lei em razão da pandemia.”

Segundo Casagrande, os jovens são selecionados pelas empresas, e a associação faz a inscrição, organiza o banco de dados que as empresas usam para buscar um aprendiz. “Uma parcela das empresas tem uma visão errada do que é um aprendiz, querem pegar o jovem já pronto,”

A Lei do Aprendiz obriga que empresas de médio e grande porte reservem vagas para adolescentes e jovens de 14 a 24 anos e pessoas com deficiência (sem limite de idade). A cota de aprendizes vai de 5% a 15% do quadro de funcionários.

Em maio, o governo Jair Bolsonaro (PL) publicou a MP 1.116, do Programa Emprega + Mulheres e Jovens, que flexibilizou as regras das cotas de aprendizes.

A mudança dificulta a inserção de jovens vulneráveis no mercado de trabalho, segundo entidades ligadas ao tema. Uma das alterações determina, por exemplo, que cada jovem aprendiz vulnerável passa a contar em dobro.

Além disso, um aprendiz que seja contratado posteriormente pela empresa, em caráter definitivo, continua contanto no cálculo das cotas por 12 meses.

o Jovem Aprendiz já vinha sendo debatido em uma comissão especial da Câmara desde dezembro, e a previsão era que o parecer seria apresentado em junho. Com a MP, o trabalho precisará ser refeito. O  prazo para que a MP seja convertida em lei é setembro. Quando ela foi publicada, o deputado Marco Bertaiolli (PSD-SP), relator da Comissão  Especial do Estatuto do Aprendiz, se comprometeu a retirar esses e outros pontos no  relatório do Estatuto do Aprendiz. “As alterações propostas nessa MP são muito ruins, elas desvirtuam o papel da aprendizagem no Brasil de uma forma muito séria”, criticou Bertaiolli  à época.

“A gente tem uma legislação que acaba criando imposições às empresas e não gera ganhos objetivos do ponto de vista assistencial”, rebate Lucchesi, do Senai. Ele avalia que a MP está alinhada com o que a OIT (Organização Internacional do Trabalho) recomenda e deve aumentar o interesse das empresas pelos aprendizes.

Procurado para comentar os efeitos da MP na contratação de aprendizes vulneráveis, o Ministério do Trabalho não respondeu.

EU ACHO …

O QUE VIRÁ

Ativismo e tecnologia: dupla explosiva. Nada mais é morno, agora tudo é escaldante. As lutas pelas causas indígenas e pelo meio-ambiente, os movimentos pró-negros e mulheres. É a vida aos gritos, acessível a bilhões de habitantes do mundo, como não se envolver? Para a turma do “me dou o direito de não opinar”, uma súplica: fale, traga novas ideias, exponha suas convicções. Estamos surfando uma onda gigantesca e planetária em busca de mudanças, de igualdade de direitos e de conscientização, a fim de que a Terra resista por mais alguns séculos antes de se desintegrar.

Planetária, sim, não é exagero semântico. Até podemos nos iludir, achando que essa onda é exclusivamente brasileira, em função do nosso preocupante embate político, mas somos apenas parte da História. O mundo inteiro agoniza e exige uma nova mentalidade: temos que tomar conta de todos nós ao mesmo tempo, basta de segregações e preconceitos. Zero tolerância para guerras, ganâncias, hegemonias – tudo isso é tão antigo. Uma nova ordem social se faz necessária.

Embalada por tantas transformações, especulo: contra o quê mais deveremos nos rebelar? Sei que não é pouca coisa se mobilizar pela aceitação plena de nossas diferenças, mas ando curiosa a respeito do que provavelmente jamais testemunharei: quais serão nossas próximas lutas? Ou a luta pró-diversidade durará um tempo indeterminado?

Não é pouca briga, essa de apaziguar conflitos históricos, e pode mesmo levar dezenas de anos sem que nunca se chegue lá (esse lugar inatingível: lá). A inclusão é a grande causa atual, mas não abdico de outros flertes com o futuro. O que temos feito para não se render à mesmice dos hábitos? O que ainda nos surpreenderá? Quais artistas estão revolucionando os costumes? Que movimento cultural irá nos fazer questionar o estado das coisas? O que o poder transformador da arte produzirá nos anos 30, nos anos 40, nos anos 50 deste século em curso?

Quem dera surgisse uma nova banda como os Beatles, a esquisitice provocadora de um Andy Warhol, uma revolução silenciosa como a feita pela bossa nova, um escândalo provocador como os Secos & Molhados, uma hipnotizante Janis Joplin sem medo de sofrer em público, um novo Domingos Oliveira falando de amor, a arte chegando antes do faturamento, e não planejada para tal? A autenticidade da criação, sem o constrangimento de ser pré-avaliada pela quantidade de selfies, postagens e engajamentos virtuais. Tarde demais? Talvez não. Quem sabe consigamos abrir uma brecha em meio a tantos gigabytes. Ando faminta de um movimento puramente libertário, sem o marketing digital incluído, que tantas vezes obscurece a beleza e a verdade da causa. Meu Deus, como envelheci. Caramba, como ainda sou jovem.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

 MAQUIAGEM E FILTRO SOLAR COMBINAM, MAS HÁ REGRAS  PARA APLICAÇÃO

É preciso seguir algumas dicas para garantir que o protetor funcione contra a incidência de raios nocivos, como a ordem e a quantidade indicadas

A chave para reduzir o risco de câncer de pele, manchas solares e rugas causadas pelo sol é incorporar protetor solar em sua rotina diária e aplicá-lo – e reaplicá-lo – corretamente.

Felizmente, quando se trata de usar maquiagem e protetor solar juntos, há boas notícias, explica Nikhil Dhingra, dermatologista da Spring Street Dermatology em Nova York:

“Não importa quanta base, corretivo, blush ou iluminador você aplique durante a sua rotina de maquiagem, você ainda estará protegido do sol, desde que siga alguns passos simples.”

Uma maneira importante de garantir que você esteja realmente protegido dos raios UV prejudiciais é aplicar o protetor solar como o último passo de sua rotina matinal de cuidados com a pele, mas antes de começar a aplicar qualquer item de maquiagem.

Os protetores solares químicos contêm filtros que penetram na pele e absorvem a luz UV, enquanto os filtros solares físicos (ou minerais) ficam em cima da pele e dispersam a luz UV. Devido a esses processos, o protetor solar é mais eficaz quando aplicado diretamente na pele limpa.

Depois de lavar o rosto pela manhã e aplicar quaisquer produtos de cuidados com a pele, como tônicos, soros, hidratantes ou óleos, aplique o protetor solar. Os dermatologistas recomendam o uso de um fator de proteção solar (FPS) mínimo de 30.

QUANTIDADE IDEAL

Estudos descobriram que as pessoas geralmente não usam protetor solar suficiente para proteção adequada. A maioria aplica apenas um quarto da quantidade necessária para todo o corpo, revela Amanda Doyle, dermatologista da Clínica de Dermatologia Russak, em Nova York.

“Você precisa de cerca de dois miligramas de protetor solar por centímetro quadrado de pele para atingir o FPS anunciado, de acordo com a Skin Cancer Foundation”, explica.

Como todo mundo é diferente, isso pode significar mais ou menos protetor solar, dependendo do tamanho do seu rosto. Para tornar a aplicação um pouco mais fácil, Tiara Willis, uma esteticista de Nova York, recomenda a regra dos dois dedos (revestindo o comprimento do dedo médio e indicador com protetor solar) para medir a quantidade de protetor solar para a área do rosto e pescoço.

DEIXE SECAR

Antes de aplicar qualquer maquiagem em cima do protetor solar, espere pelo menos dois minutos para o produto penetrar na pele. Evite tocar seu rosto durante esse período. Kiran Mian, dermatologista da Hudson Dermatology & Laser Surgery em Nova York, esclarece que adicionar maquiagem cedo demais pode diluir o protetor solar ou provocar uma interação entre ingredientes, tornando-os ineficazes.

Pense em passar protetor solar como se fosse pintar um quarto, aplicando em uma parede uniforme e depois dando tempo suficiente para secar antes de tocar nela ou decorar o cômodo. Se a sua camada de produto estiver devidamente seca, os ingredientes da sua maquiagem não devem afetar negativamente seu FPS.

Muitas bases, bálsamos de beleza e cremes de correção de cor contêm protetor solar, o que pode parecer uma maneira conveniente de proteger sua pele sem comprometer sua rotina de maquiagem. No entanto, a maquiagem com FPS não é suficiente como sua única opção de protetor solar, porque você precisaria usar muito – mais do que a maioria das pessoas normalmente usa – para proteger efetivamente sua pele.

Claro que não faz mal adicionar FPS à sua maquiagem, porque quando se trata de protetor solar, quanto mais, melhor. Um estudo publicado em 2021 chegou a concluir que a maquiagem em camadas sobre o protetor solar aumentava a proteção solar total. Isso ocorre porque toda maquiagem, mesmo produtos que não possuem FPS embutido, contém filtros semelhantes aos encontrados em protetores solares físicos, que podem fornecer proteção adicional se a camada do filtro solar não for suficiente.

REAPLIQUE

O protetor solar deve ser reaplicado a cada duas horas, ou após nadar ou suar. Mesmo se você ficar sentado perto de uma janela enquanto você trabalha deve reaplicar, porque o vidro não bloqueia significativamente os raios UVA ou UVB. Normalmente, a reaplicação é tão simples quanto passar outra camada de protetor solar, mas pode ser mais complicado quando você está usando maquiagem.

A notícia é um tanto decepcionante: não há estudos suficientes para provar o quão eficaz é a reaplicação do filtro solar em cima da maquiagem. E há razões para pensar que não é o ideal, porque sabemos que o protetor é mais eficaz quando aplicado o mais próximo possível da pele e porque é desafiador aplicar produto suficiente para proteger a pele em cima da maquiagem.

Os protetores solares em pó são uma opção atraente para reaplicação devido à sua portabilidade e utilidade como uma ferramenta de retoque rápido, mas, na realidade, explica Cula Svidzinski, diretora médica do Centro Pele de Negra do Centro Médico Monte Sinai, é preciso aplicar cerca de uma colher de chá de protetor solar em pó no rosto para atingir o FPS anunciado no rótulo.

Os sprays de fixação de FPS e os protetores solares em spray em geral são atraentes pela facilidade de aplicação, mas a verdade é que ainda precisam ser esfregados na pele para fornecer uma cobertura adequada do sol, o que reduz sua suposta conveniência.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

LIGADOS NA TOMADA

Jovens buscam droga de TDAH para ter mais foco; uso traz riscos

Um novo fenômeno de comportamento em São Paulo e no Rio vem assustando os médicos: o consumo de um remédio tarja preta por pessoas absolutamente saudáveis, com o objetivo de aumentar o foco nas tarefas do dia a dia. Trata-se do Venvanse, nome comercial do dimesilato de lisdexanfetamina, fabricado pelo laboratório Takeda, sem genérico. Seu uso foi liberado pela Anvisa para apenas duas situações: tratar pessoas com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), e pacientes diagnosticados com o transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP), distúrbio psiquiátrico que leva o paciente a comer de forma descontrolada, mesmo sem ter fome.

O perfil dos usuários, no entanto, tem sido outro: vestibulandos, estudantes de concursos públicos, jovens empresários e profissionais da área da tecnologia que querem aumentara capacidade de concentração. Em São Paulo, já é praticamente impossível encontrar a medicação. No Rio a onda está crescendo e a droga já começa a rarear no mercado, mesmo como custo elevado – em média, entre R$ 450 e R$ 600.

O risco do mau uso do Venvanse é brutal. Ele faz com que o sistema nervoso entre em um estado que os médicos chamam de “situação luta e fuga”, ou seja, faz com que o corpo fique permanentemente preparado para escapar de uma ameaça, um estado que deveria ser transitório. O mecanismo por trás disso é um pico de produção de noradrenalina e cortisol, com aumento da frequência cardíaca, crescimento da circulação do sangue para os músculos e contração das pupilas.

O resultado, na prática, é que a pessoa fica mais atenta e focada no que acontece a sua volta, o raciocínio se aguça, e há um pico enérgico que os usuários chamam de “ficar ligado”, ou “performar”.

“Eu me sinto a Mulher Maravilha. Depois de uns trinta minutos, me dá uma euforia, alegria, vontade de fazer tudo. Minha autoconfiança melhora, consigo me concentrar nas atividades, tenho disposição e energia para os estudos. Meu rendimento e produtividade aumentam. Posso fazer várias coisas ao mesmo tempo e tenho foco e concentração como se estivesse fazendo apenas uma. Sou uma pessoa mais legal quando tomo”, explica a estudante Thaina Alves, de 25 anos.

EFEITOS COLATERAIS

Thaina passou dois anos tomando o remédio diariamente, sem pausas. Começou com a dosagem de 30 miligramas e evoluiu para doses maiores, de 50 e 70 miligramas. Recentemente, notou efeitos colaterais do uso incorreto – insônia, forte dor de cabeça e o vício.

Para os pacientes com TDAH, o uso faz sentido. Eles sofrem de uma disfunção em uma área do cérebro chamada de córtex pré-frontal, responsável pelo foco e pragmatismo. A noradrenalina é fundamental para o funcionamento adequado dessa região.

Entre os médicos é unanimidade: o uso sem indicação traz graves riscos.

“Este é um fármaco estimulador de noradrenalina, como a cocaína. As pessoas estão tomando o medicamento para ter energia, ficar acordadas à noite estudando, melhorar atenção. Em alguns casos, como recreação, misturando com o álcool para potencializar o efeito, e sem acompanhamento médico. Isso é sério e gravíssimo. Se a pessoa quer passar a noite em claro para estudar, seria muito melhor tomar um café ou algo do tipo, por- que não traria tanto risco”, afirma Cristiana Góes, neurologista do Hospital Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A médica garante que a lista de malefícios de quem compra e usa o Venvanse sem indicação médica é muito maior do que o ganho que o remédio proporciona por algumas horas.

“Ele pode causar hipertensão, arritmia e até mesmo ataque cardíaco. Um paciente com tendência de esquizofrenia ou transtorno bipolar, por exemplo, pode ter um surto maníaco e psicótico. O Venvanse não é um medicamento com que se pode “brincar”. O uso prolongado pode levar ainda à depressão, pois você está estimulando um neurotransmissor a te dar energia, e quando há interrupção abrupta vem um reboot —explica Góes.

COMÉRCIO ILEGAL

O remédio só é vendido com prescrição médica. Mas cresce o número de grupos ilegais de venda do produto nas redes sociais. A psiquiatra Camila Magalhães, fundadora do centro Caliandra Saúde Mental, em São Paulo, diz que já percebe o aumento de casos entre jovens e empresários há um tempo.

“É preocupante a forma como essas pessoas estão adquirindo o remédio pela internet, sem receita. Há famílias que me procuram dizendo que o filho está “imprestável”, porque não quer sair da cama, não tem energia, motivação para nada”, reitera a psiquiatra.

A venda ilegal causou escassez generalizada do medicamento nas prateleiras das principais redes de farmácia de São Paulo. Não há previsão de reabastecimento. A carência começa a ser sentida em outros estados, como o Rio, onde alguns estabelecimentos têm estoque zerado.

O Venvanse também começou a ser usado erroneamente para o emagrecimento. Isso porque, ao estimular a noradrenalina, o cérebro também emite uma resposta para a inibição do apetite. Ao tomar o comprimido pela manhã, por exemplo, a fome só irá surgir no final do dia, perto do horário do jantar. Há depoimentos de pessoas na internet que chegaram a perder mais de dez quilos em alguns meses usando o medicamento.

É o caso da gerente comercial Bruna Rodrigues, de 40 anos. Ela começou a usar o medicamento para emagrecer. Foram três meses de uso, com cinco quilos a menos na balança. Segundo ela, foi o único auxilio para conseguir chegar à forma desejada.

“Eu não conseguia fazer dieta intermitente porque eu sentia muita fome pela manhã. Depois que passei a usá-lo, percebi realmente a redução do apetite. Eu me forçava a comer para não ficar fraca, porque eu não tinha fome nenhuma”, diz.

Existem estudos que comprovam o uso do Venvanse para controlar a compulsão alimentar, sendo seguro e com pouca rejeição no organismo dos usuários. Porém, não há pesquisas cientificas e nem indicações médicas para embasar o uso do fármaco para o emagrecimento. A gerente comercial afirma que sabia dos riscos, mas que ao ver os primeiros sinais dos resultados, o receio foi deixado de lado.

“Ao tomar o comprimido eu me sentia bastante produtiva também. Fazia várias coisas ao mesmo tempo, como curso de inglês, academia. Trabalhava mais de oito horas por dia e não me sentia cansada. Eu voltaria a tomar ele com certeza”, afirma Rodrigues.

OUTROS OLHARES

ABUSO DE VITAMINA D PODE TRAZER RISCOS À SAÚDE

Estudo britânico relata caso de homem que precisou ser hospitalizado depois de sofrer uma hipervitaminose. Sintomas incluem vômitos, náuseas e várias manifestações neurológicas, como sonolência, confusão e apatia

Médicos do Reino Unido relataram um caso de overdose de vitamina D e alertaram para os riscos da ingestão excessiva da substância em publicação na revista científica BMJ Case Reports. O paciente precisou ser hospitalizado por vômitos recorrentes, náuseas, dores abdominais, diarreia e outros sintomas decorrentes do quadro chamado de hipervitaminose D.

Segundo os responsáveis pelo caso, o problema está em alta e representa uma série de riscos à saúde. O homem britânico começou a manifestar os sinais cerca de um mês após iniciar um regime de suplementação de diversas vitaminas. Os problemas, que envolveram ainda cãibras nas pernas, zumbido no ouvido, boca seca, aumento da sede e perda de peso, duraram por aproximadamente três meses antes de levar o paciente ao hospital.

Entre os compostos ingeridos por ele nessa suplementação, foi relatada uma dose diária de 150.000 UI (unidade internacional utilizada para vitaminas), embora o recomendado seja de no máximo 400 UI por dia.

Quando os sintomas tiveram início, ele deixou de tomar os suplementos, porém seu quadro não melhorou. No hospital, os exames de sangue mostraram que ele tinha níveis além do normal de cálcio e que a taxa de vitamina D estava sete vezes acima do considerado suficiente para o corpo.

O paciente permaneceu internado por oito dias recebendo fluidos intravenosos para limpar o organismo e sendo tratado com bisfosfonatos, remédios normalmente utilizados para reduzir os níveis excessivos de cálcio no sangue. As taxas da substância no sangue, que crescem com o aumento da vitamina D, apenas retornaram ao normal dois meses após a alta. Porém, a concentração da vitamina continuou além do ideal.

“Globalmente, há uma tendência crescente de hipervitaminose D, uma condição clínica caracterizada por níveis elevados de vitamina D no sangue”, escreveram os pesquisadores, que alertam: “Esse relato de caso destaca ainda mais a toxicidade potencial de suplementos que são amplamente considerados seguros até serem tomados em quantidades ou em combinações inseguras”.

Eles explicam que, devido ao tempo longo que a substância leva para ser absorvida, de aproximadamente dois meses, os sintomas de quadros de intoxicação podem durar muitas semanas.

PISTAS DO EXCESSO

Os sinais de abuso são muitos e variados, apontam os cientistas, geralmente ligados a esse consequente excesso de cálcio no sangue. Eles podem ser neurológicos, como sonolência, confusão, apatia, psicose, depressão, ou desconfortos no corpo como dor abdominal, vômitos, constipação, úlceras, pressão alta, insuficiência renal, entre outros.

Embora esteja em alta, a hipervitaminose D continua sendo um quadro relativamente raro, destacam os autores do trabalho. No entanto, como os suplementos vitamínicos estão mais populares, eles defendem ser importante alertar para os riscos. O consumo desses produtos cresceu na pandemia, e muitos não acreditam ser possível ingerir doses prejudiciais de vitaminas.

GESTÃO E CARREIRA

MEDO DE DEMISSÃO FAZ PROFISSIONAL TRABALHAR DOENTE

Fenômeno é conhecido como presenteísmo, caracterizado pela presença física na empresa, mas ausência de foco

Você começa a trabalhar, está na empresa ou no home office, mas seus pensamentos estão distantes, o foco quase inexiste e o fim do expediente é aguardado com impaciência. Assim pode ser caracterizado o presenteísmo, fenômeno causado por questões como falta de perspectiva na carreira, desvalorização do trabalho e problemas pessoais. Nos últimos anos, a saúde mental debilitada também se destacou como motivo. “Pacientes com depressão vivem anos com a doença, que tende a ser crônica e recorrente, levando a um custo econômico e social enorme. É a principal doença relacionada ao presenteísmo, em que, mesmo doente, a pessoa continua trabalhando pelo estigma associado à saúde mental”, disse o professor titular de psiquiatria da Faculdade de Medicina da UFMG, Humberto Corrêa, durante evento da Janssen.

O médico afirmou que os custos relacionados ao presenteísmo superam os do absenteísmo, que é quando o funcionário se ausenta do trabalho. A afirmação vem de um estudo publicado na revista médica Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, que avaliou a produtividade no trabalho de pessoas com depressão, considerando a extensão e os custos do absenteísmo e do presenteísmo em oito países, incluindo o Brasil.

Por aqui, o resultado mostrou que o custo anual de produtividade associado ao presenteísmo foi três vezes maior que o do absenteísmo, US$ 5.788 ante US$ 1.361. Ao considerar a força de trabalho total e a prevalência anual estimada da doença entre as pessoas ocupadas, o custo brasileiro passa dos US$ 63 bilhões, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, com US$ 84 bilhões.

MUDANÇA DE FOCO

Algumas empresas já perceberam que o caminho é reorganizar suas estruturas para amenizar o problema, afirma o médico psicanalista André Fusco, que trabalha há mais de dez anos com saúde mental nas corporações. Para ele, em vez de focar na doença e no doente, a abordagem tem de estar na organização e nos processos de funcionamento da empresa. “Brinco que não sou médico do trabalhador. Sou médico do trabalho e o desafio é entender como o trabalho está gerando incoerência, constrangimentos e contradições, o que faz com que as pessoas tenham mecanismos de compensação.”

Fusco explica que quando o foco está na doença e não no contexto, o resultado é o constrangimento, tanto por parte do funcionário – que se vê incapaz de hábitos melhores – quanto por parte do gestor direto, que se sente culpado. Dessa forma, o primeiro tabu em torno do tema é admitir a necessidade de ajuda.

Pesquisa conduzida por Fusco a pedido de uma empresa (que não quer ser identificada) mostra que 90% das pessoas que estavam tomando medicação tarja preta, fazendo terapia ou consultando psiquiatra não apresentaram atestado de transtorno mental ao empregador. Ou seja, para cada funcionário que entrega atestado, há nove em presenteísmo. Corroborando o medo do estigma, os pesquisadores de Londres mostraram que 65,4% dos brasileiros entrevistados, com diagnóstico prévio, não saíram de licença durante o episódio de depressão; 17,7% ficaram 21 dias ou mais afastados; e 6,6% passaram entre 11 e 15 dias distantes do trabalho. Na amostra total, os funcionários na faixa dos 18 aos 64 anos não contaram sobre a doença porque achavam que o atestado colocaria o emprego em risco, principalmente num cenário econômico ruim.

“Se tem algo positivo que a pandemia nos trouxe é poder falar mais sobre saúde mental. O ambiente de trabalho tem de tratar doença mental da mesma forma que trata diabete ou qualquer outra doença”, diz Humberto Corrêa.

NOVOS CONCEITOS

No banco digital Will Bank, uma pesquisa de clima, engajamento e satisfação dos colaboradores identificou práticas que podiam ser gatilhos de ansiedade no time de atendimento ao cliente. Indisponibilidade do sistema para iniciar o trabalho, métricas que estimulavam uma competitividade não saudável e ausência de um plano de carreira explícito foram alvos de atenção.

Com a pandemia, a saúde mental ficou mais evidente e, conversando com supervisores, a empresa viu relatos de absenteísmo. A junção desses fatores moveu a fintech a buscar a consultoria de Fusco. Após novas análises, um plano de ação foi implementado com resultados positivos.

“Agora, não falamos de produtividade, mas de performance coletiva”, diz a gerente de experiência do cliente do Will Bank, Karina Bucceli. “Continuamos fazendo a avaliação de qualidade pessoa a pessoa, mas o retorno é individual, de como ela pode melhorar como profissional. Quando falamos de indicadores de performance coletiva, é um grupo de agentes que tem um objetivo de entrega, não mais metas.”

Essa experiência fez a equipe se aproximar mais da cultura jovem e colaborativa da empresa, permitiu que as pessoas se apoiassem e diminuiu a ansiedade por resultados. Já a questão da carreira foi trabalhada com um mapa visual. “Agora, eles sabem em que posição estão, como e para onde podem ir.” De 2019 para cá, a executiva conta que o resultado do diagnóstico de clima evoluiu 55% e a taxa de absenteísmo foi reduzida em 7,5%.

APOIO

Outro cenário em que o presenteísmo pode ocorrer é no retorno do profissional que ficou afastado do trabalho. “Se a pessoa já adoeceu ali, vai ter indisposição maior e uma busca por culpados. E quanto maior o tempo de afastamento, mais difícil é a volta”, avalia Fusco. Segundo ele, o fenômeno pode ser mais comum nesses casos, pois há receio da demissão após o afastamento. “A empresa não considera a dificuldade e delicadeza desse retorno. A volta tem de ser gradativa e respeitosa.”

“O problema da saúde mental no trabalho é a forma como o trabalho está organizado”, diz Fusco, citando modelos de produção baseados nas linhas de montagem de Henry Ford e Frederick Taylor, com alta produtividade e pouca atenção ao ser humano. Por isso, o olhar dele está voltado para métodos de avaliação, metas, plano de carreira, modos de seleção e relação com clientes.

EU ACHO …

ESCONDERIJO CONJUGAL

No livro Monogamia, do psicanalista Adam Philips, há um trecho em que ele diz que o esconderijo mais aconchegante é aquele em que conseguimos esquecer do que estamos nos escondendo. Mais: é aquele em que até esquecemos que estamos escondidos. E conclui: “Formamos casais porque é impossível se esconder sozinho”.

O casamento como esconderijo. Eu nunca havia pensado nisso.

Uma pessoa avulsa é uma pessoa com sua solidão escancarada, é uma pessoa que necessita fazer contatos e explicar quem é, o que faz, do que gosta. Uma pessoa sozinha é visada, está exposta, julgam que ela tem mais tempo, está mais disponível, uma pessoa sozinha não tem onde se esconder. Já duas pessoas juntas escondem-se das fantasias e do julgamento alheio, se escondem de sua própria vulnerabilidade e dos seus próprios segredos, duas pessoas juntas protegem-se oficialmente, mesmo sem ter a consciência de que sua união também é isso, um esconderijo.

A sociedade costuma cobrar relações amorosas daqueles que escolheram viver sozinhos, ou que estão sozinhos por contingência do destino. Os solitários, os ermitãos, °s donos da própria vida são tratados como se estivessem à margem, mas são os casados os verdadeiros excluídos, porque uma vez cumpridores de uma expectativa social, perdem seu potencial para surpreender, não chamam mais a atenção, passam a ser apenas fazedores de filhos e de dívidas, consumidores de imóveis de três dormitórios e carros utilitários, viram alvo apenas das corretoras de seguro e dos agentes de viagem. Dentro de um casamento, julga-se que há duas pessoas realizadas, completamente a salvo da angústia existencial, da carência afetiva, dos traumas de infância, da insanidade, do vício e dos ímpetos – imagine, ímpetos: casais jamais ousariam fazer algo sem pensar, sem conversar muitas vezes antes, durante e depois do jantar.

A solidão, que sempre pareceu nos proteger, na verdade nos coloca no centro das atenções, permite que coloquem o dedo nas nossas feridas. Já o casamento nos tira da prateleira, nos resguarda, nos esconde tão bem e tão sem alarde que a gente nem percebe que está escondido. Que ironia: o casamento é que é underground.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

TOMAR MUITOS BANHOS PODE SER PREJUDICIAL À SAÚDE DA PELE

Água e sabão frequentes ameaçam o óleo natural e as bactérias boas que ajudam a manter epiderme equilibrada e funcional

Um contingente cada vez maior de rebeldes tem renunciado ao banho diário e a outros padrões-ouro de higiene pessoal, como lavar o cabelo com xampu e usar desodorante, desafiando uma cultura de limpeza. Para os contidos a essa opção de estilo de vida, há muitas razões para se banhar menos e ficar com o cheiro mais natural.

“Não precisamos nos banhar como fazíamos quando éramos agricultores. Desde o advento dos carros e das máquinas que economizam trabalho, nunca precisamos de tão pouco banho e ao invés disso, estamos tomando mais”, afirma Katherine Ashenburg, de 65 anos, autora de “The Dirt on Clean: Na Unsanítized History” (A sujeira no limpo: Uma história não higienizada, em tradução livre).

A retenção dos óleos naturais da pele e a conservação da água são duas razões usadas como explicação para não tomar banho diariamente. Alguns concluíram que o desodorante é desnecessário depois de esquecê-lo uma vez sem repercussões sociais, ou estão preocupados com antitranspirantes contendo alumínio, embora tanto o Instituto Nacional do Câncer quanto a Associação de Alzheimer não compartilhem dessas preocupações.

Lavar o mínimo possível com xampu pode ajudar a reter a umidade em mechas secas e melhorar a forma dos cachos, argumentam os adeptos da pratica.

ANTIBIÓTICO NATURAL

Resista ao desejo de recuar diante desse grupo: eles podem estar no caminho certo. Ultimamente, os pesquisadores descobriram que, assim como o intestino contém boas bactérias que o ajudam a funcionar com mais eficiência, nossa pele está repleta de germes benéficos, que talvez não queiramos mandar pelo ralo abaixo.

“Boas bactérias estão educando as células da pele para fazer seus próprios antibióticos. Elas produzem seus antibióticos que matam as bactérias ruins”, explica Richard Gallo, chefe da divisão de dermatologia da Universidade da Califórnia, em San Diego.

Algumas pessoas há muito reclamam que tomar banho demais deixa a pele mais seca ou mais propensa a surtos de eczema, e Gallo diz que os cientistas estão apenas começando a entender o porquê.

“Não é apenas a remoção dos lipídios e óleos da pele que a resseca. Você pode estar removendo algumas das boas bactérias que ajudam a manter seu equilíbrio saudável também”, afirmou.

Elaine Larson, professora da Escola de Enfermagem da Universidade de Columbia com Ph.D. em epidemiologia, alertou que os passageiros de transporte coletivo, frequentadores de academias e outros que entram em contato com muitos estranhos devem considerar se ensaboar.

“Se é temporada de gripes e resfriados, você vai querer se livrar das coisas que não fazem parte de seus próprios germes normais”, afirma.

Seja qual for a motivação, a limpeza pessoal tem sido um grande negócio. A publicidade sempre aborda (e possivelmente gera) a ansiedade sobre o odor corporal.

Adultos com menos de 24 anos usam desodorante e antitranspirante mais de nove vezes por semana, mas mesmo para grupos etários mais velhos, o uso nunca cai abaixo da média de uma vez por dia, de acordo com a Mintel, uma empresa de pesquisa de mercado. Noventa e três por cento dos adultos dos Estados Unidos usam xampu quase diariamente, relata a empresa. Estatísticas confiáveis sobre a frequência com que os americanos tomam banho são difíceis de encontrar, como explica Regina Corso, vice-presidente sênior da Harris Poli, outra empresa de pesquisa:

“As pessoas costumam hesitar em dizer que não tomam banho todos os dias.”

SEM DESODORANTE

Todd Felix, um ator de aparência limpa e produtor online da Sony que mora em Los Angeles, ficou feliz em relatar que considera desodorante desnecessário e antitranspirantes absurdos. Para ele, o último ésemelhante a cobrir os poros com uma embalagem plástica.

Para manter seu odor corporal sob controle, ele toma um banho diário com sabonete líquido sem perfume, geralmente depois da academia. Mas Felix, que está na casa dos 30 e não quer ser tachado de hippie, é cauteloso ao revelar que não usa proteção nas axilas para pessoas com quem sai.

“Quando você diz a uma pessoa que não usa desodorante, você se depara com “Oh, que europeu, que natural, que descolado”.

As poucas vezes que Felix mencionou em um encontro que ele fica sem desodorante, ele disse, as coisas rapidamente azedaram. “É estranho, mas eu não fico fedido”, ele costuma dizer. A resposta ésempre: “Você é que pensa que não cheira mal”.  

Mas Mart Merkel, um engenheiro de Birdsboro, Pensilvânia, tem certeza de que cheira bem. Como? Recentemente, Merkel, 29 anos, disse à mãe e à irmã que desistiu do desodorante quando adolescente, e elas ficaram chocadas.

“Eu estava tipo, “Me cheire eu não me importo!”, ele disse a elas, acrescentando; “Elas provavelmente pensavam que eu ainda tinha 13 ou 14 anos e fazia isso porque alguém me disse para fazer isso.

O costume americano de limpeza rigorosa estava em pleno andamento na Segunda Guerra Mundial quando a maioria das casas adquiriu um banheiro completo, diz Ashenburg, e intensificou-se com os esforços de marketing do pós-guerra.

Mas alguns jovens aspirantes não se preocuparam com suor ou mal odor.

“Não me sinto mais fedido do que qualquer outro cara, e conheço muitas pessoas que dizem a mesma coisa. Nunca me falaram que estou fedendo. Quando digo às pessoas que não uso desodorante, elas ficam surpresas ao ouvir isso”, conta Blake Johnson, de 25 anos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POR QUE FALAR SOZINHO FAZ BEM PARA A SAÚDE MENTAL

Hábito é encarado com preconceito, mas pode ser ótimo para aprender a lidar com os próprios problemas

Tremendo na cama à noite, com os cobertores sobre a cabeça, salvo por uma abertura que deixei no meu rosto, eu sussurrava meus problemas para meu confidente mais próximo: Parede. Parede era o que existia de mais próximo da minha cama na infância e, além do ocasional estrondo ou deslizar abafado, um comunicador não verbal. Isso não me impediu de ouvir e seguir seus conselhos. Nem sua fachada barata – painéis de madeira falsa acastanhada cheios de adesivos – moderou minha crença em suas profundezas ternas. Parede era um garoto como eu, porém mais calmo, mais frio, mais reflexivo. Ele me ouvia, debatia comigo, completava as frases que eu não terminava. Com ele eu podia lançar ideias como bolas, até que o sono finalmente vencesse o medo.

Não falo mais com o Parede ou com nenhum parente dele: Rendas, Teto, Piso Rabugento. Parece que nos esquecemos de como nos comunicarmos uns com os outros. Além disso, quase não nos vemos mais. Em vez disso, falo em voz alta para mim mesmo. No museu onde trabalho, enumero as tarefas do dia e as ferramentas necessárias: furadeira, broca, ponta magnética e um medidor de nível. No supermercado, interrogo minha lista de compras mental e me desprezo por sua ilegibilidade: Precisamos de, hum… macarrão? Ovos? Nós? Tornei-me o que sempre fui: meu próprio Parede. Os psicólogos chamam o que eu faço de “conversa interna externa” para diferenciá-la da conversa interna regular, também conhecida como monólogo ou diálogo interno. Muitas pessoas fazem isso – apenas assista a uma partida de tênis se você não acredita em mim. É visto como normal dentro de certos limites, até benéfico, embora a discrição do falante seja recomendada. Como muitos comportamentos normais, também é estranho se a pessoa errada o observar, especialmente quando você é jovem.

Quando criança, eu sabia que, se falasse comigo mesmo no terreno da escola, corria o risco de me tornar “aquele maluco” que fala sozinho, e que as associações populares do ato – psicose aguda, desajuste – tendem para o negativo. O estigma me manteve quieto, mas sua potência diminuiu à medida que envelhecia.

LIBERADO

Faça outra coisa: olhe ao redor. As pessoas andam pelas ruas conversando e gesticulando, pequenos botões brancos nos ouvidos. Eles apontam para câmeras de telefone. Determinar a qual público invisível um pedestre está se dirigindo tornou-se um cálculo muito difícil para se preocupar em resolver; a autoconsciência desvanecida e os estranhos efeitos do consumo dos eletrônicos me libertaram.

Ainda assim, costumo ficar sozinho em meu apartamento ou escritório para minhas conversas mais animadas. Elas geralmente se iniciam quando chego a um impasse enquanto escrevo e sigo um loop regular. A pressão se acumula até que a liberação se torna inevitável.

Meu monólogo interno não será mais suficiente. A realidade mais dura da linguagem falada começa a sair da minha boca. Eu me amaldiçoo. Eu me flagro. Meus murmúrios se transformam em uma positividade plástica: você não é a pior pessoa; você não precisa desaparecer no vazio. Em vez disso, você é bom e capaz.

Referir-me a mim mesmo como “você” acontece inconscientemente, à medida que a voz falada e o que se ouve se separam. A lacuna se alarga. A primeira pessoa salta para a segunda.

Quando minhas garantias não me asseguram, tento uma imitação de [Samuel] Beckett e um conselho geral: você deve continuar, você vai continuar. Preso como sempre, gradualmente transformo minha conversa estimulante em uma espécie de sessão psicodinâmica com o eu, por meio da qual discerno a forma do meu bloqueio. É uma questão pragmática: divida seu problema em partes, descreva o que está faltando, incorpore o que te atrapalha. A distância de “você” finalmente oferece perspectiva e autoridade. Eu faço uma mudança. Eu chamo isso de progresso. Surgem bolhas de autoconfiança genuína: você pode fazer isso; então eu posso fazer isso; então, vamos fazer isso. Como eu poderia ter duvidado de mim mesmo? Mais tarde vislumbrarei outro impasse, e o processo se repetirá.

Outros podem preferir chamar um amigo para ajudar. Por que não procurar alguém de “fora”? Não é um pouco antissocial falar consigo mesmo? Embora eu ainda tenha que renunciar inteiramente à amizade e seu socorro.

Descobri que a autoanálise vocalizada e a disposição de se arrastar por dilemas intelectuais e morais em solidão barulhenta é um complemento valioso para saídas de conversação mais tradicionais, especialmente quando se trata de pensamento criativo.

Quando perguntei a amigos se eles falavam sozinhos, um deles descreveu associação livre e encenação para se preparar para reuniões de alto risco. Outro amigo, um fotógrafo, refina sua estética pretendida para um trabalho falando sobre isso, em voz alta, e antecipa como ele lidará com dificuldades hipotéticas no dia da filmagem.

Claramente, os fenômenos gêmeos de bem-estar e auto otimização pulsam sob o capô aqui. Pode-se imaginar as manchetes inspiradas em SEO: “Como falar consigo mesmo pode ajudá-lo a trabalhar de maneira mais inteligente e rápida”. É justo, mas a conversa interna externa também é um meio de negociar quem é e quem se pode ser.

O medo que associamos a uma pessoa que fala longamente consigo mesma publicamente, e sem aparente preocupação ou consciência do impacto que seu comportamento tem sobre os que a cercam, é o medo de um eu em erosão, sua suposta constância e singularidade se desfazendo, fios soltos conversando uns com os outros caoticamente.

Mas o ato de falar comigo mesmo é um lembrete de que a constância e a singularidade são ilusórias por princípio. Que minha multiplicidade é, por sua vez, uma espécie de promessa: não preciso ser como sou. Você também não precisa. Podemos ser diferentes do esperado de uma maneira menor. Ou podemos ser capazes de formular uma frase difícil, que pode levar a um parágrafo, depois a uma nova peça, depois a uma nova pessoa.

Provavelmente, muito provavelmente falar consigo mesmo não mudará o mundo. Pode até não mudar radicalmente você. Mas o diálogo entre os eus atuais e potenciais é uma pequena prova de que tal mudança é possível. Ou talvez seja apenas algo que eu gosto de dizer a mim mesmo.

OUTROS OLHARES

SAIBA QUAIS SÃO OS DIREITOS DAS MULHERES NO PARTO

Caso de estupro durante cesárea levantou debate sobre garantias asseguradas a parturientes dentro de instituições médicas. Boas práticas obstétricas incluem prerrogativa de levar acompanhante e decidir sobre procedimentos

A prisão do médico anestesista Giovanni Quintella Bezerra, no domingo, sob acusação de estuprar uma paciente enquanto ela estava sedada e passava por uma cesárea em São João de Meriti, no Rio de Janeiro, levantou a discussão sobre os direitos das gestantes de aprovar procedimentos médicos relativos à gravidez. O ginecologista e obstetra César Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB) e professor de titular de ginecologia da Faculdade de Medicina do ABC, classifica o ato como uma “monstruosidade praticada por um indivíduo desqualificado, que deixou não só a sociedade, mas a classe médica indignada”.

Infelizmente, violências contra a mulher no que talvez seja seu momento de maior vulnerabilidade não são incomuns. Basta lembrar do fim do ano passado, quando o ginecologista Renato Kalil foi acusado de violência obstétrica, assédio e crimes sexuais por diversas pacientes. Segundo dados da pesquisa Nascer no Brasil, coordenada pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP-Fiocruz), só metade das mulheres dá à luz de acordo com as boas práticas obstétricas.

Em posicionamento sobre a qualidade na assistência ao parto e cuidado seguro e respeitoso da saúde materna e fetal, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) afirmou que abusos, maus-tratos, negligência e desrespeito durante o parto, “equivalem a uma violação dos direitos humanos fundamentais e são repudiados com veemência”.

Confira a seguir quais são os direitos da gestante.

ACOMPANHANTE

A lei federal n° 11.108/2005, conhecida como a Lei do Acompanhante, garante que a gestante tenha direito a um acompanhante, designado por ela, durante todo o período de trabalho de parto, parto e pós-parto. O acompanhante pode ser pode ser qualquer pessoa de confiança, como o pai do bebê, o parceiro atual, a mãe, um(a) amigo(a), ou outra pessoa de sua escolha.

De acordo com a anestesista Mônica Maria Siaulys, diretora médica do Grupo Santa Joana, não há nenhum cenário em que seja recomendado que o acompanhamento saia do local. Apenas se a paciente ou o acompanhante desejarem.

Na pandemia, muitos serviços passaram a restringir esse direito, sob o argumento de que isso proporcionava o aumento do risco de Covid-19. Autoridades de saúde como a Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçaram a importância de manter esse direito das parturientes.

TIPO DE PARTO

Segundo o ginecologista e obstetra Cesar Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), a gestante tem o direito de escolher o tipo de parto.

“A grávida deve ser respeitada em todas as suas vontades e desejos, na medida do possível, em benefício de sua saúde e do recém-nascido”, afirma Fernandes.

Isso é definido no chamado “plano de parto” e, em princípio, o médico deve seguir o que foi acertado. A cesária eletiva pode ser realizada a partir de 39 semanas de gestação, se for desejo da mãe.

Segundo Fernandes, caso a paciente opte pelo parto normal, a cesárea só deve ser realizada com justificativa. Isso inclui constatação de sofrimento fetal ou quando o tamanho da pélvis da mãe não permite a passagem do crânio do bebê. Nesse casos, a gestante deve ser informada e consentir com a mudança.

ANESTESIA

Um parto seguro e sem dor é direito da mulher, e o anestesista está lá para garantir isso. As práticas mais utilizadas são a anestesia peridural e a raquianestesia. Durante o parto normal, receber analgesia para que ela não sinta dor fica a critério da mulher. Na cesárea, a aplicação da anestesia é necessária, já que será feita uma cirurgia. Por outro lado, não há necessidade de sedação, apenas em raríssimas exceções, como a pedido da própria paciente ou mediante condições que isso influa no risco para a criança ou a mãe. Ainda assim, a mãe precisa consentir.

“Sedação não é uma prática comum em paciente obstétrica”, afirma Siaulys.

“O primeiro contato do bebê com a mãe é muito importante e precisa ser preservado”, complementa.

INTERVENÇÕES

A Febrasgo defende que toda gestante tenha acesso a condutas médicas corretas e atualizadas e à prática de intervenções comprovadamente benéficas para ela e o feto.

O uso de ocitocina, por exemplo, para acelerar o parto, pode ser necessário, mas apenas em certas situações, como contrações uterinas lentas. A episiotomia (corte entre a vagina e o períneo no parto normal) pode ser feita, mas não é comum. Segundo Fernandes, é necessária em só 10% dos partos.

São totalmente contraindicados a manobra de Kristeller (compressão no fundo da barriga para empurrar o feto em direção ao canal de parto), que pode causar ruptura do fígado e do útero, e o ponto do reparo (ou “do marido”), usado para “apertar” o canal vaginal. O objetivo seria aumentar o prazer masculino durante o sexo, daí o nome.

GESTÃO E CARREIRA

SEMANA DE 4 DIAS: BOM PARA A EQUIPE E PARA A PRODUTIVIDADE

Empresas brasileiras que já aderiram à redução de jornada veem funcionários mais motivados e melhora nos processos

O que você faria se tivesse mais um dia livre do trabalho durante a semana, além do sábado e do domingo? Ou se a quinta-feira virasse o dia oficial do happy hour, sem preocupações com produtividade para a manhã seguinte?

Com a adoção do trabalho híbrido durante a pandemia, trabalhar apenas quatro dias por semana se tornou uma possibilidade em países que começam a testar a ideia para ganhar produtividade, por mais contraditório que isso possa parecer. Entre eles, estão Reino Unido, Japão, Bélgica, Nova Zelândia e Portugal. Empresas brasileiras começam a inserir o Brasil nessa lista.

Desde 2020, as quartas-feiras foram eliminadas do calendário de quase toda a equipe da empresa de produtos pet Zee Dog. Somente as áreas de varejo e logística mantêm a rotina usual.

A ideia é estimular maior concentração no início e no fim da semana, com um dia para arejar a cabeça no meio, favorecendo o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, diz Thadeu Diz, cofundador e diretor criativo da empresa:

“Além de equilibrar trabalho e qualidade de vida, o modelo foi uma oportunidade de tornar produtivos tanto o início quanto o fim da semana. Para os funcionários, é importante ter mais um dia para passar com os filhos ou desenvolver um novo hobby. Segundo ele, as reuniões se tornaram mais objetivas, e os times também passaram a se ajudar mais para que as entregas fossem feitas com a qualidade necessária e em menos tempo. O ganho mais significativo foi na produtividade. Outro caso é o da agência de comunicação Shoot, que é 100% virtual e decidiu adotar o regime de quatro dias em fevereiro. A equipe foi dividida em dois grupos: alguns funcionários folgam às sextas e outros, às segundas. Luciano Braga, sócio da empresa, diz que a decisão veio da percepção do quanto os colaboradores se sentiam cansados do trabalho, mesmo após dias com poucas tarefas. O humor dos empregados, segundo ele, mudou:

“O pessoal está mais engajado e também mais relaxado. A empresa não adotou essa política para ser mais produtiva, mas foi mais uma consequência, assim como a melhora na autogestão dos funcionários. A Crawly, de Belo Horizonte, adotou a estratégia bem antes de virar tendência na pandemia. A empresa de inteligência de dados já tem semana mais curta há quatro anos. Quando começou, o benefício foi dado apenas aos desenvolvedores, como forma de atrair colaboradores diante da escassez de profissionais de tecnologia no mercado.

“Tendo mais um dia de folga, os funcionários se sentem mais motivados a entregar um melhor serviço e a permanecer na empresa”, diz a gerente financeira Luísa Lana.

EU ACHO …

MONEY, MONEY

Eu gosto de dinheiro, você também gosta, todo mundo gosta. Não é pecado nenhum. O dinheiro possibilita que a gente viva com dignidade e prazer, e tanto uma coisa quanto a outra é de primeira necessidade. Mas há um limite entre o que se deve e o que não se deve fazer por dinheiro. Trabalhar por dinheiro? Básico. Apostar na loteria? Se você tem sorte, tente. Uma herança? É justo. Mesada? Sendo pirralho demais pra trabalhar, ok, mesada. E vamos encerrando o primeiro parágrafo por aqui, porque agora vem a parte podre, chamada ganância.

Cerca de 450 pessoas morreram num incêndio dentro de um supermercado paraguaio porque os seguranças trancaram as portas para ninguém sair sem pagar. “Vamos lá, todo mundo se coçando, nada de desculpa, que fogo, o quê.” Ainda que os seguranças não tenham dimensionado o tamanho da encrenca, ainda assim, por breves instantes, foi isso que passou pela cabeça deles: o patrão não pode ter prejuízo senão nosso emprego dança.

Dias depois dessa tragédia, uma peruana viajava num ônibus quando este foi assaltado.

Os ladrões entraram no veiculo e começaram a recolher dinheiro e outros pertences dos passageiros. Ela, lá no fundo, no banco de trás, tinha 800 dólares na bolsa. Antes que eles chegassem perto, ela não teve dúvida: engoliu as notas todinhas, a seco, sem água, gelo e limão. Não avaliou os riscos. Se os ladrões a vissem fazendo isso, poderiam ter se irritado e atirado nela – a gente sabe que um marginal armado não é exatamente um exemplo de candura. Mas não foi o que aconteceu, felizmente. O desfecho foi que a cidadã foi parar no hospital para uma lavagem estomacal. Da grana, nunca mais se teve notícia.

Mulheres sonham engravidar de sujeitos que elas conhecem de ouvir falar – um tal de Romário, um tal de Ronaldinho, um tal de Diego. Homens, da mesma forma, procuram aproximar-se de quem possa lhes abrir portas -de preferência, do cofre. Pessoas ostentam. Pessoas vivem em desacordo com sua realidade. Pessoas fazem trambiques. Pessoas mantêm relações de interesse. Pessoas se humilham, se vendem, se prostituem das mais diversas formas. Por quê? Porque nada mais faz sentido nesta vida senão o dinheiro. E quanto mais vivemos em função dele, mais miseráveis ficamos.

***MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

SAIBA QUAIS SÃO AS COMPLICAÇÕES MAIS COMUNS DE UMA COLONOSCOPIA

Internação do baterista Travis Barker devido a uma pancreatite está sendo associada ao exame, mas não existe relação entre os episódios

Travis Barker, músico e baterista americano da banda de rock Blink-182, foi hospitalizado nesta semana com pancreatite, informou o TMZ. O músico sofreu “dor de estômago extrema”, segundo a revista People, e mais tarde foi levado ao Centro Médico Cedars-Sinai em Los Angeles em uma maca, acompanhado por sua esposa, Kourtney Kardashian.

A crise que levou à internação do músico está sendo associada a uma colonoscopia recente à qual ele teria sido submetido. Não está claro exatamente quando Barker fez o exame. Diante deste caso, surgiu o questionamento: quais são as complicações comuns de uma colonoscopia?

O exame é frequentemente utilizado para rastrear o câncer de cólon e é realizado por gastroenterologistas. Durante o exame, os médicos guiam um tubo longo e flexível chamado endoscópio no reto e no cólon. Uma câmera na extremidade dessa estrutura permite que os médicos enxerguem o interior do cólon e removam pólipos que podem futuramente se tornar cancerosos.

“A colonoscopia é muito, muito segura”, afirmou Avinash Ketwaroo, gastroenterologista especializado em procedimentos endoscópicos no Colégio de Medicina Baylor, em Houston. “Tem sido extraordinariamente bem-sucedida na redução do risco de câncer de cólon.”

RISCOS RAROS

O especialista observou que milhões de colonoscopias são conduzidas a cada ano, e que são necessários anos de treinamento em centenas de casos antes que um médico possa realizá-las de forma independente. Riscos graves do procedimento são raros. Eles incluem perfuração (uma pequena ruptura no intestino, que geralmente ocorre em menos de um em cada mil pacientes), sangramento (que pode ocorrer em dois ou três em cada cem pacientes, especialmente se um pólipo for removido ou se o indivíduo estiver usando um anticoagulante) e infecção. A anestesia utilizada para o procedimento também traz riscos.

Embora menos grave, o desconforto abdominal não é incomum após a colonoscopia, explicou Kavel Visrodia, gastroenterologista do Centro Médico Irving da Universidade de Columbia, que estuda a melhoria da segurança da endoscopia. Cólicas ou inchaço após o procedimento geralmente são causados pelo dióxido de carbono usado para inflar o cólon e visualizar melhor possíveis pólipos.

“Normalmente, esse desconforto diminui dentro de algumas horas após o procedimento, à medida que o gás é reabsorvido ou eliminado”, esclarece.

Já a pancreatite é a inflamação do pâncreas, órgão importante para a digestão por produzir enzimas que ajudam a quebrar os alimentos, bem como hormônios como a insulina, que regulam o açúcar no sangue. A pancreatite pode produzir uma variedade de sintomas como dor abdominal, náuseas, vômitos e diarreia, esclarece Visrodia.

A dor abdominal às vezes irradia para as costas e pode ser debilitante, impedindo que os pacientes possam comer ou beber.

“Quando vemos pancreatite aguda, normalmente é tratada com hidratação intravenosa, analgésicos para controle da dor e antieméticos para náusea”, completa o gastroenterologista.

Os médicos podem realizar vários testes para tentar descobrir o que causou a pancreatite, como cálculos biliares, álcool, certos medicamentos ou doença autoimune. Em casos extremos, a pancreatite pode levar a grandes problemas no corpo, incluindo lesão renal ou dificuldade respiratória.

SEM RELAÇÃO

Em um estudo recente que analisou as experiências de cerca de 80 mil pacientes que fizeram o procedimento, a pancreatite nem sequer foi descrita como um risco associado à colonoscopia.

“Seria uma complicação extremamente rara”, diz Ketwaroo. “Tão raro que está no nível do que chamamos de relatórios de casos, o que significa que ocorre talvez uma em cada milhão de colonoscopias. Existe, no entanto, um procedimento endoscópico altamente especializado chamado colangiopancreatografia retrógrada endoscópica, ou CPRE, que “tende a irritar o pâncreas”, disse Visrodia. Mas isso é muito diferente de uma colonoscopia ou mesmo de uma endoscopia superior padrão, explicou. A CPRE envolve a passagem de um endoscópio pela boca e no intestino delgado para manipular os ductos biliares e pancreáticos. Como essa área é imediatamente adjacente ao pâncreas, a pancreatite não é uma complicação totalmente surpreendente.

SINAIS DE ALERTA

Embora o desconforto abdominal seja possível imediatamente após uma colonoscopia, não deve ser grave ou persistir, segundo Ketwaroo. Dor abdominal que dura até a noite, sangue nas fezes (que às vezes pode parecer preto ou marrom) ou febre devem levar os pacientes a entrar em contato com um médico ou ir ao pronto-socorro.

No ano passado, a Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos EUA reduziu a idade recomendada para o rastreamento do câncer colorretal de 50 para 45 anos.

“Há uma incidência crescente de câncer de cólon, especialmente entre os mais jovens”, alerta Ketwaroo.

O risco médio ao longo da vida de desenvolver câncer colorretal para homens é de um em 23, e, para mulheres, um em 25. Barker, que tem 46 anos, está dentro da janela de elegibilidade para o rastreamento, mas o motivo pelo qual ele fez uma colonoscopia não foi divulgado.

“Se você está preocupado com os riscos associados à colonoscopia, eu recomendaria discuti-los com seu médico antes de permitir que eles o impeçam de detectar um câncer de cólon precoce”, ressalta Visrodia.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PESQUISA REVELA PREFERÊNCIAS FEMININAS NO SEXO ANAL

Dados de 3 mil mulheres embasaram primeiro trabalho amplo sobreo tema. Para 30% das entrevistadas, toque intensifica orgasmo

O sexo anal ainda é considerado um tabu para a maioria das pessoas. Em geral, quando o assunto é abordado, o foco está em fantasias e no prazer do homem. Pesquisadores da Universidade de Indiana e do For Goodness Sake, uma empresa americana de pesquisa sexual, conduziram o primeiro estudo em larga escala sobre a prática sexual na perspectiva das mulheres.

Para descobrir se as técnicas usadas no sexo anal para criar sentimentos de prazer eram importantes, os pesquisadores reuniram dados de estudos sobre sexo em todo o mundo, incluindo o Relatório de Prazer do projeto OMGYES. Por fim, coletaram informações de uma amostra nacionalmente representativa com 3.017 mulheres entre 18 e 93 anos e entrevistaram mil delas.

Os resultados, publicados recentemente na revista científica PLOS ONE, mostraram que três técnicas principais de sexo anal foram mais citadas pelas entrevistadas. São elas: toque ao redor do ânus (40% das respostas); toque, não mais profundo do que a ponta de um dedo, dentro da abertura anal (35%); e toque no ânus ou dentro do ânus ao mesmo tempo em que há penetração vaginal ou estimulação do clitóris (40%).

As perguntas esmiuçaram especificidades de cada ato, perguntando às mulheres que gostaram de penetração sobre profundidade e o que elas mais gostam em cada tipo de estimulação. Quase 30% disseram que a estimulação anal torna os orgasmos mais intensos e 18% disseram que a estimulação anal “parece profundamente íntima e emocional”.

De acordo com os pesquisadores, essa é a primeira vez que uma pesquisa científica pergunta às mulheres sobreo que elas, especificamente, acham prazeroso quando se trata de sexo anal – e nomeia explicitamente essas técnicas. Pode parecer irrelevante, mas a clareza sobre os tipos específicos de toque que fazem as mulheres sentirem prazer permite que elas identifiquem melhor suas próprias preferências e exercitem a comunicação com os parceiros.

“Há um repertório sexual anal mais amplo que as mulheres desfrutam na vida cotidiana do que tem sido nomeado na literatura científica ou que é frequentemente discutido abertamente na sociedade”, dizem os autores.

OUTROS OLHARES

REFÉNS DO MEDO

Justiça concedeu 15 mil medidas protetivas, só este ano, para vítimas de violência doméstica

Maria (nome fictício), de 33 anos, perdeu a conta de quantas vezes terminou o dia na emergência de hospitais. Mas não por problemas de saúde. Ela era constantemente agredida pelo ex-marido. Entre a primeira e a segunda vez que engravidou, um chute na pelve evoluiu para trombose, depois, um tumor nas trompas. Precisou fazer uma histerectomia (cirurgia de remoção do útero). A filha mais velha, hoje com 5 anos, presenciou muitos dos espancamentos. Em 2019, Maria rompeu o ciclo de violência e se separou. Conseguiu também, na Justiça, uma medida protetiva para tentar manter o ex- marido longe dela e das duas filhas. Maria não está sozinha: apenas entre janeiro e maio deste ano, o Judiciário estadual concedeu 15.087 ordens judiciais para proteger mulheres vítimas da violência doméstica.

São, em média, cem mulheres por dia que conseguem ajuda na Justiça para sair de situações de violência. No ano passado, foram mais de 33.830 medidas protetivas deferidas para mulheres vítimas de violência no Rio. É unanimidade entre as instituições e grupos que lutam pela proteção dessas vítimas a força dessas medidas, principalmente quando elas são concedidas de forma rápida. Mas também é consenso que a decisão judicial precisa vir acompanhada de outras formas de proteção.

“Cada processo de medida protetiva é uma mulher em situação de perigo, em situação de violência. Esses números assustadores são de mulheres que procuraram a Justiça. Muitas não procuraram ainda. Então, a quantidade de mulheres que estão em risco é muito maior”, lamenta Katerine Jatahy, juíza do Juizado de Violência Doméstica da Leopoldina, uma das comarcas com mais pedidos de medida protetiva no estado.

De acordo com o Instituto de Segurança Pública (ISP), 52 mulheres foram vítimas de feminicídio no estado entre janeiro e maio deste ano, e 128 sofreram tentativa de feminicídio.

SINTOMAS PERMANECEM

Depressão, ansiedade, síndrome do pânico, transtornos do sono e alimentares, autodepreciação, falta de concentração, abortos espontâneos, desmaios repentinos, doenças e dores crônicas e comportamentos autodestrutivos são alguns dos sintomas que podem acompanhar as vítimas por até cinco anos após conseguirem romper o ciclo de violência, segundo psicólogos e profissionais que acompanham essas mulheres.

No caso de Maria, sua filha demorou para desenvolver a fala. Até hoje, ela tem medo de tudo, ouve qualquer barulho mais forte e corre para se esconder. A coragem para se separar e denunciar o agressor veio após uma tentativa de estrangulamento e quando ela conseguiu achar apoio no grupo Ser Elas, que reúne mulheres vítimas de violência.

“Na agressão mais grave, ele tentou me estrangular e, se não fosse um anjo que apareceu para interferir, eu não estaria aqui hoje”, conta ela, que passou a ser perseguida on-line pelo agressor por causa da visitação das filhas. “Tive que ficar cara a cara com ele nas audiências para decidir sobrea visitação das meninas e sobrea guarda. O mediador disse que eu precisava desbloquear ele no WhatsApp. A partir daí, ele fala comigo 24 horas por dia, no meu horário de trabalho e, se eu não responder em dez minutos, ameaça tirar minhas filhas de mim. Hoje, quando o telefone toca, já começo a tremer, passar mal. Estou emocionalmente cada vez pior.”

Uma mulher em situação de violência crônica vive em eterno estado de alerta, explica Gabriela Barros, psicóloga e gestora do Mapa do Acolhimento, grupo de voluntárias que dá suporte psicológico e jurídico às vítimas de violência:

“A maioria delas, quatro anos depois, ainda não consegue falar sobreo que viveram ou sobreo  agressor sem tremer. O corpo cria memórias: cheiros, barulhos, movimentos. Tudo vira um gatilho. É como se você estivesse em um prédio pegando fogo, mas a porta de emergência contra incêndio não pudesse ser aberta.”

Muitas medidas protetivas são descumpridas e acabam não sendo denunciadas pelas mulheres, porque o agressor entra com pedidos de guarda compartilhada. Algumas mulheres que se recusam a entregar a criança, por medo do agressor, acabam respondendo a processos de alienação parental e outros crimes nas Varas de Família. Para a juíza Luciana Fiala, do 5º Juizado de Violência Doméstica da capital, é essencial que se estabeleça um diálogo maior entre as duas áreas do Judiciário, para que o agressor não seja beneficiado.

“A gente nota que é cada vez mais constante essa estratégia por parte do agressor: uma espécie de vingança contra a mulher através dos filhos. Há uma necessidade enorme de uma maior interseção entre a Vara de Violência Doméstica e as Varas de Família para que se identifique quando há interesses conflitantes, principalmente em casos envolvendo um denunciado.

Um fator crucial para evitar o descumprimento das medidas é a inclusão dessas mulheres em programas de proteção como a Patrulha Maria da Penha. Quando uma medida protetiva é deferida, o batalhão da área recebe a notificação, agentes da patrulha fazem o primeiro contato coma vítima e a convidam para participar do programa.

PROGRAMA DE PROTEÇÃO

Desde 2020, quando foi implementada, até o fim de junho deste ano, a Patrulha Maria da Penha já atendeu 43.500 mulheres. Dessas, 36 mil aceitaram participar do programa de proteção e, de acordo com os dados levantados pela Patrulha, apenas uma dessas mulheres sofreu feminicídio.

“A gente faz um acompanhamento muito próximo da vítima. Quando é reportado o descumprimento da medida, tentamos uma prisão em flagrante. Se o agressor não estiver mais no local, orientamos essa mulher a registrar a ocorrência na delegacia e, ao mesmo tempo, encaminhamos um relatório notificando diretamente o juiz que emitiu a medida do descumprimento”, explica a tenente-coronel Cláudia Orlinda, responsável pela Patrulha.

O simples fato de descumprir medidas protetivas se tornou um crime a partir de 2018. No primeiro semestre de 2022, o percentual de descumprimento de medidas protetivas nos casos em que as mulheres estão sendo acompanhadas pela Patrulha Maria da Penha no estado do Rio foi de 1,5%. Esse número representa uma redução de 49,8% no total de descumprimentos de medidas protetivas, quando comparado com o mesmo período de 2020. Só este ano, policiais da Patrulha efetuaram 39 prisões de agressores, a maioria por não respeitar as medidas determinadas pela Justiça.

AJUDA PELO APLICATIVO

Desde novembro de 2020, começou a ser disponibiliza- do na cidade do Rio o aplicativo Maria da Penha Virtual, desenvolvido por alunos da Faculdade de Direito da UFRJ, que possibilita que as próprias mulheres, sem sair de casa, possam enviar um pedido de medida protetiva para o Tribunal de Justiça.

A vítima preenche um formulário simples, podendo anexar foto, vídeo, laudo médico, gravar áudio e, depois, escolher o tipo de medida protetiva que quer solicitar. O pedido é encaminhado diretamente ao Juizado de Violência Doméstica e Familiar. O objetivo é dar mais agilidade na concessão de medidas protetivas, já que nesses casos o tempo é determinante para a sobrevivência da vítima.

“Com o aplicativo, que é acessado através de um link on-line e não deixa vestígios no celular dessa mulher, conseguimos diminuir o prazo máximo de concessão das medidas protetivas de quatro para dois dias. Pela Lei Maria da Penha, o delegado tem 48 horas para fazer o pedido, e o juiz mais 48 horas para deferir. O app reduz esse tempo na metade”, detalha um dos fundadores do Maria da Penha Virtual, Rafael Wanderley.

O aplicativo passou a valer para todo o estado do Rio em março deste ano, e desde que começou a funcionar já foi usado para quase 1.500 pedidos de proteção, inclusive por mulheres em situação de cárcere privado.

GESTÃO E CARREIRA

‘GAMIFICAÇÃO’ GANHA ESPAÇO NAS EMPRESAS PARA FIDELIZAR CLIENTES

Ações interativas atraem consumidores, que dão acesso, em contrapartida, aos seus dados e hábitos

A professora aposentada Maria Luiza Apóstolo, 54 anos, é uma usuária assídua de aplicativos que usam a “gamificação” para oferecer descontos, cashback e doações de produtos. Desde que começou a usar esses serviços, ela já resgatou mais de R$ 3 mil em brindes e ganhou R$ 400 de recompensa. Para isso, conta que desenvolveu uma rotina diária, respondendo questionários, publicando fotos dos itens e desvendando charadas nos aplicativos. “É igual nas redes sociais, entro todos os dias para ver os prêmios que posso conseguir de graça”, conta.

Para entender o comportamento dos consumidores, algo essencial nas estratégias de negócios e para impulsionar marcas no varejo, cada vez mais empresas utilizam o marketing de experiência, em que fazem do lado lúdico dos jogos uma ferramenta para atrair clientes e oferecer recompensas em forma de brindes – de itens de maquiagem a investimentos em renda fixa. Empresas como Nívea, Grupo Boticário, Ifood, Localiza e MRV são algumas que têm utilizado a ferramenta no dia a dia.

Mas se engana quem acredita que essas recompensas são realmente gratuitas. Sem dinheiro envolvido nas transações, o pagamento pelas benesses se dá por meio de informações dos usuários, como explica a pesquisadora em segurança de dados do Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da FGV, Erica Bakonyi. “Precisamos entender que não existe nada de gratuito nisso. Nós sempre estamos oferecendo algo, neste caso, os nossos dados”, diz Erica. Na opinião da especialista, consumidores precisam estar atentos a golpes, já que a entrega de dados pessoais na internet pode gerar dores de cabeça em caso de vazamento de informações. A gamificação já está no radar das grandes varejistas. Um exemplo é o Magalu, que tem um projeto desse tipo, que está em desenvolvimento pelo núcleo de jogos da companhia.

ECONOMIA DOMÉSTICA

Um dos aplicativos usados pela professora Maria Luiza é o Gelt, startup de marketing que concede cashback por meio da gamificação. Para ter acesso às recompensas, os usuários participam de gincanas virtuais transmitidas nas redes sociais e realizam tarefas no próprio app.

Para o presidente da empresa, Henrique de Melo Franco, essa troca de informações por brindes auxilia empresas da indústria de bens de consumo a entender o comportamento dos clientes. “Atendemos às necessidades das empresas e ainda beneficiamos os clientes.”

As recompensas nesse segmento são as mais variadas. Na plataforma Mimoo, por exemplo, os usuários podem escolher itens de alimentação, higiene e perfumaria. Embora ligada ao virtual, algumas atividades do mundo físico também começam a ser ‘gamificadas’. É o que faz a healthtech VIK, que oferece pagamentos em Pix de até R$ 100 para clientes que atinjam metas de exercícios semanais. “Incentivamos as pessoas a mudarem os hábitos”, diz Pedro Reis, presidente da empresa.

EDUCAÇÃO FINANCEIRA

Além de compilar dados, as plataformas com aspectos lúdicos ajudam a reforçar a marca e atrair novos usuários. No caso da corretora de investimentos Guide, o processo de gamificação é utilizado para incentivar os seus assinantes a usar um guia financeiro. No serviço, quem assiste às videoaulas e acompanha os relatórios acumula moedas virtuais, que podem ser trocadas por mentorias e papéis de renda fixa. Desde que foi inaugurado o modelo, a corretora teve uma conversão de 30% no número de usuários que se tornaram assinantes da corretora. “Nós queremos ser a Netflix dos investimentos, trazendo uma linguagem de entretenimento”, afirma a diretora Loni Batist.

Para Rejane Tomoto, da Associação Brasileira de Planejamento Financeiro (Planejar), os programas de fidelidade com entregas de brindes já são um clássico entre as companhias. A novidade é o uso da tecnologia para promover o modelo de negócio. Mas a especialista alerta para o fato de que a estratégia de marketing dessas empresas pode criar falsas necessidades e atrapalhar avida financeira dos consumidores. “No fim, esses programas de recompensa são uma forma de as empresas venderem mais.”

PROTEÇÃO DE DADOS

USO CONSCIENTE

Ao usar programas de benefícios gamificados é preciso sempre buscar informações sobre sites e aplicativos que receberão seus dados pessoais

ATUALIZAÇÃO

É muito importante manter sistemas operacionais sempre atualizados, seja no celular seja no computador

PESQUISA

Se for necessário fazer o download de um programa para realizar as tarefas, faça isso apenas se o software estiver disponível em uma plataforma confiável, seja um site ou uma loja de aplicativos

ATENÇÃO

Antes de iniciar o jogo, é recomendado que o usuário leia a política de privacidade e os termos de uso do serviço, com especial atenção à palavras-chave como “dados pessoais coletados” e “dados compartilhados”

PREVENÇÃO

Evite formulações simples se for preciso criar uma senha para usar o game. Opte por usar mais de 8 caracteres, de preferência com símbolos e letras variadas

EU ACHO …

ATÉ QUE CHEGA A NOSSA VEZ

Eu pensava assim: “Se eu vir um acidente de carro na estrada, telefonarei para ambulâncias, pra polícia rodoviária, pro Lula, mas não terei coragem de parar e remover eu mesma os feridos”. Sei, nem um pouco nobre. Mas eu apostava mesmo que não teria estômago pra tanto. Até que um dia, na BR-101, aconteceu um acidente de carro bem na minha frente. Um choque entre um caminhão e um chevette caindo aos pedaços, com umas sete pessoas dentro, entre elas duas crianças. Nada que precisasse de remoção com equipe especializada, mas era preciso socorrê-los. O que fiz? Saltei do carro em que estava, interrompi o trânsito e ajudei a distribuir os feridos entre os outros carros que se ofereceram para ajudar – as duas crianças e a mãe delas vieram comigo. Levei-as ao hospital (estávamos pertinho de Torres) e, apesar da sangueira, soube no dia seguinte que salvaram-se todos. Eu havia garantido meu lugarzinho no céu.

O que me ficou desse episódio, além do alívio de saber que não sou tão covarde, é que a gente nunca sabe nada, até que chega a nossa vez. Eu não sabia como iria reagir diante de um acidente, até que me vi testemunha de um. Assim como não sei como reagirei diante de um assalto, como reagirei diante de uma perda profunda, como reagirei diante de um bilhete premiado da megasena ou de um convite para um drinque com o Jude Law. Palpites, tenho alguns. Mas certeza mesmo, nenhuma.

“Eu sofreria um ataque cardíaco se tivesse que saltar de um avião.” “Eu jamais teria um caso extraconjugal.”

“Eu distribuiria metade do dinheiro se ficasse rico com a loteria.” “Eu nunca aceitaria suborno.”

“Eu não suportaria ter um filho homossexual.”

Quem garante? São apenas defesas pré-programadas. A gente não sabe do que o nosso amor é capaz, o que a nossa natureza nos reserva, o poder da nossa desobediência ou subordinação. A gente não pode prever nossa reação diante do susto, da paixão, da fome, do medo. Podemos vir a ser uma grata surpresa para nós mesmos.

Para fechar este assunto, recomendo o excelente Queda livre, livro de ensaios do Otávio Frias Filho, que relata oito situações vivenciadas por ele. São experiências que ele jamais havia pensado em realizar, como saltar de paraquedas, ir a um clube de troca de casais, ser voluntário do CW, percorrer a pé o caminho de Santiago de Compostela, ir à Amazônia para conhecer de perto a seita do Santo Daime e outras aventuras. São reflexões inteligentes, elegantes, bem-humoradas e que nos dão uma vontade imensa de, como ele, ir além da teoria. Porque falar a gente fala sobre tudo e sobre todos, o que mais temos é opinião. Mas autoconhecimento, mesmo, a gente ganha é através do enfrentamento, e não com especulações.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

COMO ASSUMIR OS CABELOS BRANCOS

A cada dia mais mulheres decidem manter os fios grisalhos, ainda vistos por muitos como um sinal de desleixo, decadência do corpo ou doença. Veja também como elas cuidam dos fios platinados

Que mulher linda!” Não faltam elogios às fotos da maquiadora Gislaine Pimentel, de 45 anos, no seu perfil do Instagram, Grisalha Natural (@grisalheieagora), com 11 mil seguidores. Dona de longos cabelos brancos, ela conta que muitas pessoas mandam mensagem – ou até a param na rua – para perguntar sobre os cuidados que ela tem com os seus fios platinados.

Percebendo a demanda do mercado publicitário por pessoas grisalhas, ela começou a trabalhar como modelo. “Gosto de estar em evidência como modelo e intensificar essa influência de que é possível ser quem você é, com o cabelo natural, sem a química”, diz.

Na sociedade brasileira, em geral, ainda há preconceito contra a mulher que assume seus cabelos brancos, na percepção de Gislaine. ”Infelizmente, associam o cabelo branco ao desleixo e à falta de cuidado da mulher. Hoje me aceitam, mas quando resolvi parar de pintar os meus cabelos, em 2014, ouvi pessoas dizerem que eu não podia fazer isso”, lembra. Para Gislaine, o cabelo branco representa a liberdade. “É ótimo poder ser como eu sou, natural. Mas essa é uma atitude minha, que não quero impor a outras pessoas”, pondera.

Atrizes, modelos no Brasil e no mundo há alguns anos apontaram a tendência, que se intensificou na pandemia por conta do isolamento social. O cabeleireiro Gil  Scawia, que trabalha na rede Jacques Janine, em São Paulo, percebe esse aumento de interesse das suas clientes em assumir os cabelos brancos nos últimos anos, mas ao mesmo tempo um medo de parecerem “velhas”.

“Mesmo com a inspiração das mulheres famosas, o cabelo grisalho ainda está restrito mais às mulheres que trabalham com moda, arte, e que sejam muito seguras de si”, observa. “Aqui no Brasil, o homem grisalho é considerado charmoso, mas a mulher de cabelos brancos é vista como descuidada”, avalia.

Quando uma cliente quer fazer a transição para o visual grisalho e fica incomodada com o visual do cabelo só com a raiz branca, Scawia sugere o uso de chapéus, lenços e outros acessórios, enquanto espera que ele cresça para cortar e deixar a sua cor uniforme. Mas a mulher brasileira costuma ser imediatista e geralmente pede para fazer mechas platinadas. Nesse caso, para causar menos danos eu recomendo que sejam feitas em etapas, intercaladas por reconstrução capilar.” A fase de transição para o cabelo grisalho da dona de casa Elizabete Castro Antunes, de 43 anos, foi mais demorada do que ela esperava. Ela parou de pintar o cabelo em setembro de 2018 e foi fazendo os cortes nos seus cachos para diminuir a diferença da cor da raiz para as pontas dos fios, mas, no fim de 2019, a tintura ainda não tinha sido completamente eliminada.

“Como sou desencanada, deu certo. Mas o mundo inteiro me criticou. Escutei que aquilo   me envelheceu 10 anos, que eu estava louca. Teve até um senhor que eu não conhecia, numa fila do supermercado, que disse que eu não tinha idade para ter esse cabelo”, conta. Com apoio do marido e da mãe, ela seguiu em frente. “Comecei a publicar fotos no Instagram, para mostrar que estava ficando bom”, recorda a dona de casa.

A partir daí, Elizabete, mais conhecida como Bete, passou a cuidar mais de sua aparência, a caprichar na maquiagem e nas roupas. “Comecei a usar mais salto, roupa justa, ganhei autoestima. Comecei a receber dúvidas de mulheres interessadas em fazer a transição para o grisalho”, explica ela, que hoje tem 17 mil seguidores no seu perfil no Instagram.

Nas suas publicações, ela fala dos cuidados que tem com os cachos platinados, que considera “rebeldes”. “Toda semana faço um tratamento de umectação. Cuido para não usar secador em excesso, uso protetores térmicos e um chapéu quando saio ao sol”, ressalta.

Antes de assumir os fios brancos, além de tingir os cabelos, Bete alisava com a escova progressiva. “Comecei a me incomodar com o cheiro dos produtos químicos e resolvi parar de alisar. Na sequência, achei que deveria parar de pintar os cabelos também!’ Bete começou a tingir seus cabelos brancos com 20 anos. “Puxei à minha mãe, que tem cabelo branco desde nova.”

GENÉTICA

A genética é um dos fatores que influenciam a idade de surgimento dos cabelos brancos, afirma a dermatologista e tricologista (especialista em cabelo) Juliana Annunciato. “Para ter uma ideia da idade em que você terá cabelos brancos, veja se você puxou a textura e o tipo de fio do seu pai ou da sua mãe e pergunte com quantos anos eles ficaram grisalhos, pois provavelmente será igual para você”, ensina.

Outro fator que influencia o surgimento dos brancos é a qualidade de vida. Padrão de sono ruim, má alimentação, tabagismo e estresse aceleram o branqueamento dos cabelos. “Teve gente que percebeu o aumento de cabelos brancos durante a pandemia e isso se deve ao estresse”, esclarece.

A dermatologista explica que doenças agudas como a covid-19 também podem dar um “susto” no melanócito, célula que produz a melanina, pigmento usado no cabelo. “O melanócito suspende temporariamente a produção de melanina. Por isso, alguns pacientes com covid-19 ficaram com uma faixa de cabelo branco que depois voltou a escurecer”, observa.

Mas, com o avanço da idade e o envelhecimento celular, o que ocorre é que esses melanócitos diminuem a produção de melanina e morrem, sendo substituídos por queratinócitos, que produzem a queratina, proteína que dá resistência a unhas, pele e cabelo. “Por isso o cabelo branco costuma ser mais rígido e grosso”, analisa Juliana. Mas ela esclarece que, nesse caso, não há como reverter o processo de branqueamento dos cabelos.

Quando chegam os cabelos brancos, outros problemas decorrentes da idade também podem ter impacto nos fios, como alterações hormonais e uso de remédios. Com isso, os fios podem ficar ainda mais fragilizados – embora isso não prejudique o bulbo, que é a fábrica do cabelo. “Como a química agride os fios, é uma boa escolha deixar os brancos naturais”, garante a dermatologista.

A bancária Gabriela Medeiros, de 38 anos, ficou cansada de visitar o cabeleireiro para retocar a tintura nas raízes dos fios a cada 20 dias. “Criei até repulsa de ir ao salão e  comecei a pintar em casa, mas fazia a maior sujeira”, destaca. Seus primeiros fios brancos chegaram quando ela tinha 15 anos e eram arrancados um a um. Há três anos, resolveu que não ia pintar mais, mas não tinha referências de como fazer essa transição para o  visual grisalho. “Ninguém me apoiava nem me ajudava.”

CRÍTICAS

Decidiu, então, ir pelo caminho mais rápido e radical: “Fui ao barbeiro e raspei tudo. Senti um alívio imenso ao pensar que não teria mais de pintar o cabelo”. Enquanto deixava o  cabelo branco crescer, choviam críticas. “As pessoas diziam que eu havia envelhecido, que tinha ficado ridículo. Comecei então a caprichar na maquiagem e a usar brincos grandões.” Os comentários maldosos e olhares persistem, mas ela afirma que hoje não liga mais. “Com isso, aprendi a me valorizar e me amar pelo que sou”, conclui Gabriela.

Para deixar o cabelo bonito, ela tem o cuidado de protege-lo do sole e evita o uso de chapinha e secador. “O calor deixa o cabelo amarelado”, adverte. Para corrigir a cor, ela usa um xampu matizador. “Fica um branco bonito, cor da neve”, analisa. O xampu ou máscara matizadora contém um pigmento azul, que não fica permanente no cabelo, adianta o cabeleireiro e tricologista Tharik Bonomo. “Esse pigmento deixa o cabelo em um tom moderno, mas ele sai na próxima lavada”, avisa.

No seu salão e no seu consultório, o tricologista vê casos de mulheres que passam a ter lesões no couro cabeludo por causa de alergias desencadeadas pelo uso frequente de tintura. “Elas optam pelo visual grisalho pensando na saúde do couro cabeludo e na beleza dos fios.” Para suas clientes, ele explica a importância da qualidade de vida para que o cabelo cresça bonito. “Comer bem importa. Alimentos antioxidantes, ricos em vitamina B12, por exemplo, ajudam.”

Os fios brancos exigem cuidados especiais, reforça Bonomo. Calor, vento, sol e mar podem fragilizar os cabelos brancos, que são mais porosos e perdem mais facilmente a hidratação. Por isso é preciso lançar mão de produtos que contenham óleos para proteger os fios, recomenda o tricologista. Produtos com proteção térmica são indicados caso seja necessário usar secador ou chapinha, para evitar o ressecamento e amarelamento dos fios. “Se a mulher optar pelo alisamento, é preciso cuidado na escolha dos produtos usados, que podem alterar a cor do cabelo”, aconselha.

NEGRA

Mônica Jorge, de 62 anos, dona de casa, não quer alisar os seus cabelos crespos nem pintar os brancos. Semanalmente, ela se dedica a fazer sessões de hidratação e umectação para tratar os fios e diz que o trabalho compensa.

No seu perfil do Instagram, ela procura ajudar mulheres que desejam fazer a transição para o grisalho, especialmente as mulheres negras. “A mulher negra que decidir assumir os brancos tem de estar bem decidida, pois a pressão é maior. Todo mundo diz que não vai ficar bom . É verdade que é mais difícil, por conta da textura do cabelo, mais poroso, mas se cuidar com carinho fica bonito”, assegura.

Mônica escuta histórias de mulheres que enfrentam pressão para pintar o cabelo, como no ambiente de trabalho, mas percebe que há um movimento das grisalhas que se vem fortalecendo, embora lentamente. “Essas mulheres estão dando as mãos para mostrar que a sociedade não pode impor isso a elas”, declara.

Com fios brancos desde os seus 35 anos, Mônica resolveu assumi-los em 2011. “Percebi que meu cabelo não aceitava mais a pintura. E eu tinha de retocar a tintura em poucos dias.” Apenas a mãe e os filhos de Mônica apoiaram a decisão. “A sociedade não vê com bons olhos essa aceitação e faz críticas e cobranças. Havia momentos em que isso me deixava irritada ou desanimada, pois queria ver meu cabelo grisalho.”

Ultrapassadas as barreiras, Mônica só vê vantagens. “É ótimo ter a liberdade de ir a uma festa sem ter de se empenhar em manter o cabelo. Além disso, há o benefício financeiro, pois manter ó cabelo pintado sai caro.” Acima de tudo, ela se vê como urna mulher dona de si, que não precisa “se camuflar” para agradar a ninguém. Diante do espelho, ela aprova o visual. “Acho que o cabelo branco iluminou o meu rosto. Me gosto mais assim.”

O QUE É INDICADO PARA MANTER OS FIOS GRISALHOS

•  Capriche na hidratação ou na umectação para dar mais maleabilidade ao cabelo, já que os fios brancos tendem a ser mais rígidos.

•  Dê preferência a xampus que ajudam a tirar o tom amarelado dos fios. O matizador costuma ter um pigmento azulado, que deixa um tom mais acinzentado, mas quando usado em excesso pode deixar o cabelo roxo.

•  Prefira os xampus e cremes transparentes ou brancos, pois os pigmentos dos produtos podem deixar os fios brancos amarelados.

•  Abuse de chapéus e lenços, caso se sinta desconfortável durante a transição para o  visual grisalho.

•  Procure perfis nas redes sociais para se sentir unida a outras pessoas que passam pela mesma situação, de forma a se blindar de comentários negativos.

•  Faça mechas claras (reflexos) e descoloração, se a ideia for pular a etapa da transição para o visual grisalho. Mas é preciso saber que isso enfraquece os fios. Caso sua escolha seja ir por esse caminho, os especialistas indicam que seja feito em etapas, com cuidados na reconstrução dos fios nos intervalos.

•  Evite expor o cabelo ao sol. Use acessórios ou produtos para o cabelo que contenham protetor solar.

•  Evite o uso de chapinha e de secador, pois o calor pode danificar os fios brancos, que são mais frágeis. Se quiser usá-los, não se esqueça de aplicar antes um protetor térmico.

•  Invista na sua qualidade de vida: ter um bom sono, praticar exercícios físicos, evitar estresse e ter uma alimentação de qualidade se refletem na beleza da pele e do cabelo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PESO DAS DÍVIDAS

Crise econômica e bolso vazio prejudicam mente e corpo, agravando risco de doenças

O cenário econômico atual, com alta inflação, taxa elevada de desemprego e crise econômica, agravou o endividamento dos brasileiros. Um quadro que afeta o bolso, mas também a saúde, apontam estudos. E os impactos vão muito além dos já conhecidos, como o aumento da ansiedade e da depressão. Pressões financeiras também estão associadas à incidência maior de doenças cardiovasculares e a um sistema imunológico enfraquecido para combater infecções, alertam especialistas.

De acordo com uma pesquisa realizada pela International Stress Management Association no Brasil (ISMA-BR), para 78% dos brasileiros a incerteza financeira é a principal causa de preocupação. Especialistas ouvidos explicam que esse estado de alerta permanente promove um quadro de estresse crônico que resulta em uma liberação constante de hormônios.

“São hormônios que respondem ao estresse físico, como durante os exercícios, mas que também respondem ao estresse psíquico em situações como o endividamento. É o caso da adrenalina, do cortisol e seus derivados, que aumentam a frequência cardíaca e a pressão arterial”, explica a endocrinologista Ana Carolina Nader, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia do Rio de Janeiro (SBEM-RJ). Um estudo de pesquisadores suecos publicado na revista científica BMC Public Health mostrou que adultos sem dinheiro guardado têm quase o dobro do risco de desenvolverem doenças cardiovasculares devido a esse desequilíbrio de hormônios.

“Hoje há diversos trabalhos mostrando esse verdadeiro eixo entre cérebro e coração. Esses mecanismos desencadeados pelo estresse levam a espasmos de vasos do coração, aumentando o risco de infarto e de acidente vascular cerebral (AVC). No caso de pessoas que já têm predisposição a doenças cardiovasculares, o quadro é piorado na fase de estresse”, afirma a cardiologista Salete Nacif, diretora da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp).

GRUPO VULNERÁVEL

Os maiores impactos estão entre os mais velhos. Um estudo do Centro de Pesquisa de Finanças Pessoais (PFRC) da Universidade de Bristol e do Instituto Internacional de Longevidade do Reino Unido (ILC-UK) mostrou que aqueles que estão lutando para gerenciar suas finanças com mais de 50 anos são oito vezes mais propensos a ter níveis reduzidos de bem-estar mental do que as pessoas na mesma faixa etária com melhores condições econômicas.

O prejuízo, entretanto, não é restrito a essa faixa etária. Pesquisadores da Universidade de Colorado Denver, da Dartmouth College e da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, descobriram que os impactos podem chegar cedo na vida.

Usando dados coletados entre 1994 e 2018, de mais de 4 mil pessoas que ao fim tinham até 44 anos, o estudo apontou que a chance de problemas cardiovasculares é consideravelmente maior entre pessoas que fizeram um empréstimo ou estavam sempre endividados em relação aos que pegaram dinheiro emprestado e pagaram ou que nunca tiveram dívidas.

Além dos riscos para o coração, Nader acrescenta que há hormônios ligados à liberação da glicose que atuam para gerar mais energia quando o estresse é físico, mas no caso da preocupação crônica com dinheiro eles podem estar por trás de quadros de hiperglicemia em pessoas diabéticas ou com genética suscetível à doença. O estresse crônico também fragiliza o sistema imune. Segundo um novo estudo, publicado na revista científica Nature, esse impacto acontece porque ele ativa neurônios de uma região chamada de hipotálamo paraventricular. Essa área impulsiona uma migração de células imunes em larga escala dos linfonodos — estruturas que funcionam como filtros para agentes infecciosos — para o sangue e a medula óssea.

Esse mecanismo diminui a ação dos agentes de defesa no combate a infecções. Para chegar a essa conclusão, especialistas realizaram um experimento com camundongos em que os animais foram expostos aos vírus da influenza e da Covid-19. Os grupos sob estresse tiveram menor ação do sistema imune, quadros mais graves da doença e índices maiores de óbito.

Além disso, uma equipe liderada por pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, descobriu que o estresse contínuo pode acelerar o envelhecimento do sistema de defesa. Publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), o estudo observou que a situação desencadeia uma queda acelerada no número das células T chamadas de imaturas, que conseguem responder melhor a novos vírus e bactérias. Essa diminuição leva, por exemplo, os idosos a serem mais vulneráveis a infecções.

Nader explica que um dos motivos para isso acontecer é porque o cortisol, um dos chamados “hormônios do estresse”, além de aumentar os riscos cardiovasculares, tem um efeito imunossupressor no organismo, reduzindo as barreiras de defesa.

“Ele funciona mediando uma série de funções no corpo. Quando se eleva promove alterações nos sistemas imunológicos, diminuição das defesas e sintomas relacionados a essa queda, como cansaço e fadiga”, afirma a endocrinologista.

EQUILÍBRIO MENTAL

Há ainda as consequências mais conhecidas, porém não irrelevantes, das dificuldades financeiras: os impactos na saúde mental. E esses quadros acentuados de ansiedade e depressão tornam mais difícil sair de uma situação de endividamento, constatou um estudo publicado na revista científica International Journal of Social Psychiatry.

“Torna-se um ciclo vicioso, porque os impactos do estresse financeiro na saúde mental deixam a pessoa cada vez mais debilitada para lidar com a sua situação econômica”, explica a doutora em psicologia clínica, Ana Maria Rossi, presidente da ISMA-BR e diretora da clínica de Stress e Biofeedback.

Para amenizar esses impactos nocivos, as especialistas destacam que é preciso atuar em duas frentes, a financeira e a de saúde.

“É importante o diálogo com a família, porque envolve gestão do orçamento e, em muitos casos, contenção de gastos. Pode ser necessária também uma orientação especializada para não gerar novos gastos”, diz Rossi.

Para ter condições de pensar sobreo problema de forma prática e racional, a psicóloga reforça que é importante priorizar um sono reparador, sem que os problemas sejam levados para a cama. Isso porque noites mal dormidas também agravam os riscos de doenças cardiovasculares, aumentam a gordura abdominal e visceral e levam a uma rotina de fadiga que dificulta atividades como trabalho e gestão das finanças durante o dia.

“Como medidas preventivas para os desfechos cardiovasculares, temos que pensar em dietas saudáveis, pobres em gordura e em sal e ricas em frutas e verduras, além de atividade física regular, com pelo menos 150 minutos de atividade aeróbica por semana”, orienta a cardiologista Salete Nacif.

Para aqueles que podem ter dificuldades de encaixar o exercício físico na rotina, Ana Maria Rossi sugere que uma boa saída é aproveitar os momentos do dia em que é possível utilizar escadas no lugar de elevadores ou descer alguns pontos antes do ônibus para fazer uma caminhada. Embora não seja muito, o movimento já traz benefícios, diz a diretora da clínica de Stress e Biofeedback.

No entanto, as especialistas lembram que em casos mais acentuados de problemas de saúde mental e de efeitos na circulação, como dores no peito, taquicardia constante e pensamentos autodepreciativos, é indispensável a busca por ajuda médica especializada.

OUTROS OLHARES

COMO ESCOLHER UM CARTÃO DE CRÉDITO PELAS VANTAGENS QUE ELE OFERECE?

Cartões de alta renda oferecem benefícios como cashback, investback e milhagem; especialistas dão dicas para aproveitar vantagens e não se atrapalhar com os gastos

Os cartões de crédito de alta renda estão no centro de uma disputa cada vez mais acirrada entre as instituições financeiras. O objetivo é atrair os clientes com benefícios como programas de milhagem, acesso a salas VIP em aeroportos, cashback e investback. Se antes os cartões eram oferecidos apenas pelos grandes bancos aos clientes de melhor condição financeira, a entrada de novos players no mercado tem ampliado esse acesso.

Além das fintechs, como o Banco Inter e o C6 Bank, as corretoras entraram na disputa. A partir do dia 18, a Ágora Investimentos se junta ao grupo de casas de investimento, como a XP e o BTG Pactual, que oferecem uma opção de cartão de crédito aos correntistas. O cartão da Ágora será voltado às pessoas físicas com cadastro na corretora, sem exigir um volume mínimo de investimento.

Com a bandeira Visa Infinite, os clientes terão desconto na taxa de corretagem, isenção de anuidade no primeiro ano, e redução proporcional à carteira de investimentos a partir do segundo ano. Recebem também 1% de cashback ou investback, que devolvem uma porcentagem do valor da fatura para a conta corrente ou para a carteira de investimentos do cliente. A regalia mais famosa dos cartões, no entanto, são os programas de fidelidade. Eles oferecem ao consumidor pontos por cada dólar gasto, que podem virar passagens aéreas, eletrodomésticos e combustível.

COMO ESCOLHER?

O primeiro passo para optar por um tipo de benefício, segundo o educador financeiro Rodrigo Góes, é entender qual o objetivo: “Viajar, acumular milhas ou receber um pingadinho todo mês.”

Para Lai Santiago, educadora financeira e cientista comportamental da Open Co, o cartão de crédito pode funcionar como uma ferramenta de controle de gastos. “No início do mês é só pagar as contas essenciais e a fatura do cartão, e já sabe quanto sobra para gastar ou investir. Além de concentrar as contas, facilitando o controle”, afirma a educadora, que usa como parâmetro uma fatura de R$ 2 mil. “Uma fatura menor do que esse valor compensa mais buscar uma opção que ofereça cashback e que não tenha anuidade”, diz.

O Brasil possui hoje cinco principais bandeiras (Visa, Mastercard, Elo, American Express e Hipercard), e cada uma oferece diferentes regalias, a depender do nível do cartão e da instituição financeira emissora.

Para Lorenzo Firmino, editor executivo do Passageiro de Primeira, site de viagens que dá dicas no Instagram para quase 200 mil pessoas sobre como utilizar os benefícios do cartão de crédito, “o cartão deve se encaixar no seu perfil”. “Muita gente acumula pontos e depois troca numa airfryer, por exemplo. Mas o valor dos pontos é muito mais alto do que o da airfryer. Então, a melhor forma de aproveitar acaba sendo a emissão de passagens aéreas”, explica.

Foi justamente pensando em aproveitar melhor benefícios desse tipo que Gabriel Vidal

Gaspar começou a pesquisar sobre o assunto. Hoje, o engenheiro ambiental faz mensalmente uma planilha, em que organiza quais contas vai pagar com cada um dos quatro cartões que utiliza. “Para mim, funciona mais dividir os gastos de acordo com os benefícios de cada um.”

Planejamento e estratégia são parte fundamental da rotina de uso de um cartão de crédito, visto que os juros cobrados são um dos principais responsáveis pelo endividamento no País. Essa atenção se faz ainda mais necessária para quem opta por ter mais de um na carteira, como mostra a Pesquisa sobre o Uso de Cartões de Crédito realizada pelo Serasa eCred em maio. Segundo o levantamento, 29% dos brasileiros possuem cinco ou mais cartões, e apenas 9% dos entrevistados disseram utilizar somente um. Outros 23% dizem ter três cartões, e 21%, dois.

DICAS

Para facilitar essa organização, além das planilhas, como faz Gabriel, é interessante programar as datas de vencimento dos cartões para o mesmo dia. Assim, o risco de esquecer ou atrasar alguma das fatura diminui, orienta Myrian Lund, planejadora financeira CFP pela Associação Brasileira de Planejamento Financeiro (Planejar).

Para evitar que o pacote de benefícios do cartão acabe se transformando em vilão, também é importante se conter no número de parcelas na hora de passar uma compra no crédito. Isso evita que se forme uma bola de neve de gastos que cresce a cada mês.

“Mesmo que seja sem juros, é impossível administrar as finanças com tantos parcelamentos. Você guarda o dinheiro que não vai usar neste mês porque parcelou o valor? Resgata no mês seguinte quando for pagar?”, questiona Myrian. “Parcele apenas o que for extremamente necessário e destinado a algo que vai durar muito tempo para você, como, por exemplo, uma geladeira. Não parcele os gastos de farmácia, mercado ou roupas.”

GESTÃO E CARREIRA

COMO ASCENDER NA CARREIRA MESMO EM HOME OFFICE

Trabalho híbrido ou remoto preocupa principalmente os trabalhadores recém formados, que sentem falta da interação

Durante seu estágio em um banco importante no ano passado, Costa Kosmidis passou a maior parte do tempo trabalhando de forma remota. O banco fez o possível para ajudar os estagiários a diminuir a distância, disse ele, inclusive colocando em prática uma política de “porta virtual aberta” que fazia com que os funcionários mais experientes estivessem prontamente disponíveis por telefone ou e-mail para consultas relacionadas ao trabalho e para conselhos de carreira.

Entretanto, quando Kosmidis, 22 anos, começou a trabalhar no mesmo banco depois de se formar, ele esperava passar mais tempo no escritório. “Você consegue sentir melhor a energia das pessoas quando está perto delas”, disse.

O trabalho remoto com frequência é preferido pelos funcionários com carreiras estabelecidas que conhecem seu gestor, sentem-se confortáveis em seu cargo e desejam equilibrar o trabalho com as responsabilidades familiares ou outras obrigações pessoais. Para aqueles que estão apenas começando suas carreiras, trabalhar isolado pode tornar mais difícil se encaixar em uma organização – e, em algum momento, avançar no nível hierárquico.

As empresas se tornaram mais abertas ao trabalho remoto durante a pandemia. Agora, à   medida que elas planejam como será o trabalho daqui para frente, estão prestando mais atenção ao que significa construir uma carreira sem as oportunidades tradicionais de networking, mentoria e visibilidade que vêm com um escritório físico em tempo integral.

“Estamos começando a ouvir dos funcionários, sobretudo dos funcionários jovens, que eles estão – acredite ou não – preocupados”, disse Johnny C. Taylor Jr., CEO da Sociedade de Gestão de Recursos Humanos (SHRM, na sigla em inglês).

Prithwiraj Choudhury, professor da Escola de Negócios de Harvard, disse ter visto três práticas comuns em empresas que gerenciavam o trabalho remoto com sucesso. Essas empresas reservaram um tempo para compilar informações e práticas em guias que os funcionários podem consultar de qualquer lugar; fizeram a ponte entre trabalhadores remotos com mentores fora de seu departamento para que pudessem conversar de maneira franca sem colocar em risco os relacionamentos da equipe; e criaram o que ele chamou de “a hora do cafezinho virtual”.

Se gerenciado de forma eficaz, o trabalho remoto pode levar a conversas mais profundas, disse Choudhury.

Algumas empresas também começaram a treinar gestores para ajudar os trabalhadores remotos a trilhar suas carreiras. A Nationwide Insurance, que tem 2.5 mil trabalhadores trabalhando em esquemas híbridos ou de casa em tempo integral, treinou gestores para planejar a evolução de carreira de trabalhadores menos experientes, criando modelos para conversas a respeito de habilidades e interesses e formando duplas com mentores ou recursos da empresa para ajudá-los a alcançar seus objetivos.

“Foi intencional criar experiências  para que estar fora da vistanão signifique deixar de ser lembrado”, disse Erin Pheister, vice-presidente sênior de talento e eficácia organizacional  da Nationwide.

Embora as empresas estejam tomando medidas para criar oportunidades para os funcionários remotos crescerem na carreira, talvez também seja útil que os trabalhadores reflitam se vão se encaixar no trabalho remoto antes de optarem por deixar o escritório, disse Kyle Elliott, coach de carreira para executivos.

“Se muitas decisões são tomadas por meio de conversas paralelas, reconheça que, apesar de ser bom enviar e-mails se comunicar pelo Slack, você ficará de fora das conversas que acontecem de forma orgânica”, disse Elliott.

EU ACHO …

PERCEPÇÃO DE SOLIDÃO

Uma mulher entra no cinema, sozinha. Acomoda-se na última fila. Desliga o celular e espera o início do filme. Enquanto isso, outra mulher entra na mesma sala e se acomoda na quinta fila, sozinha também. O filme começa.

Charada: qual das duas está mais sozinha?

Só uma delas está realmente sozinha: a que não tem um amor, a que não está com a vida preenchida de afetos. Já a outra foi ao cinema sozinha, mas não está só, mesmo numa situação idêntica a da outra mulher. Ela tem uma família, ela tem alguém, ela tem um álibi.

Muitas mulheres já viveram isso – e homens também. Você viaja sozinha, almoça sozinha em restaurantes, mas não se sente só porque é apenas uma contingência do momento – há alguém à sua espera em casa. Essa retaguarda alivia a sensação de solidão. Você está sozinha, não ésozinha.

Então de repente você perde seu amor, e sua sensação de solidão muda completamente. Você pode continuar fazendo tudo o que fazia antes – sozinha -, mas agora a solidão pesará como nunca pesou. Agora ela não é mais uma opção, é um fardo.

Isso não é nenhuma raridade, acontece às pencas. Nossa percepção de solidão infelizmente ainda depende do nosso status social. Se você tem alguém, você encara a vida sem preconceitos, você se expõe sem se preocupar com o que pensam os outros, você absorve a solidão com maturidade e bom humor. No entanto, se você carrega o estigma de solitária, sua solidão triplicará de tamanho, ela não será algo fácil de levar, como uma bolsa. Ela será uma cruz de chumbo. É como se todos pudessem enxergar as ausências que você carrega, como se todos apontassem em sua direção: ela está sozinha no cinema por falta de companhia! Por que ninguém aponta para a outra, que está igualmente sozinha?

Porque ninguém está, de fato, apontando para nenhuma das duas. Quem aponta somos nós mesmos, para nosso próprio umbigo. Somos nós que nos cobramos, somos nós que nos julgamos. Ninguém está sozinho quando curte a própria companhia, porém somos reféns das convenções, e quando estamos sós nossa solidão parece piscar uma luz vermelha chamando a atenção de todos. Relaxe. A solidão é invisível. Só é percebida por dentro.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

MUSCULAÇÃO PODE SER UM ALIADO NO TRATAMENTO DE DIVERSOS TRAUMAS

Pessoas diagnosticadas com transtorno do estresse pós-traumático relatam os benefícios do treinamento de força na melhora do quadro

Quando Cheng Xu estava servindo nas Forças Armadas do Canadá como paraquedista e oficial de infantaria, ele experimentou uma série de eventos traumáticos em rápida sucessão  – seu melhor amigo e colega oficial tirou a própria vida, um soldado sob seu comando foi ferido durante um tiroteio em exercício e o pai de um amigo próximo foi sequestrado. Ele sentiu como se o mundo estivesse desmoronando ao seu redor em todos os lugares, exceto na academia, onde treinava levantamento de peso olímpico.

“A única coisa que eu tinha que me ancorava era o levantamento de peso, porque era o único lugar onde me sentia seguro”, relata Xu.

Cercado pelos halteres, ele descobriu o que descreveu como “as propriedades curativas do treinamento de força”.

Os psicólogos há muito estabeleceram que o exercício é benéfico para a saúde mental e, na última década, a pesquisa também mostrou que pode ser uma ferramenta valiosa para lidar com o transtorno de estresse pós-traumático. Agora, além das associações da musculação com o aumento de músculos, um número crescente de pessoas que sofreram traumas estão descobrindo que levantar pesos é um bálsamo. Para muitos, os poderes de cura do esporte se resumem ao fato de que, onde o trauma os deixou desamparados, impotentes e fracos, a musculação os ajuda a se sentirem fortes ­ não apenas fisicamente, mas também psicologicamente.

“Fazer musculação me deu um senso de escolha. Me deu uma sensação de controle”, afirma Xu.

E com o tempo, disse ele, esses sentimentos o levaram à sua recuperação.

FORÇA DA MENTE

Há muito tempo pessoas que já sofreram traumas procuram a sala de musculação, atraídas, em parte, pela promessa de maior força física. Mas esses levantadores de peso costumam receber pouca orientação sobre como treinar de uma maneira que sua saúde mental e recuperação sejam apoiadas. Os “puxadores de ferro” também tiveram que navegar em uma cultura de condicionamento físico que muitas vezes glorifica a abordagem “sem dor, sem ganho”, com foco no desempenho e na aparência, em vez do bem-estar.

“Há muita masculinidade tóxica no treinamento de força”, explica James Whitworth, fisiologista do exercício e especialista em ciências da saúde do Centro Nacional de Transtorno do Estresse Pós-traumático e professor assistente da faculdade de medicina da Universidade de Boston, além de veterano de combate deficiente.

Mas à medida que mais pessoas de todos os gêneros e habilidades descobrem os benefícios da musculação, a comunidade vai se tornando mais inclusiva e expansiva. Grupos de saúde mental também começaram a formalizar o levantamento de peso como uma ferramenta terapêutica e a educar os treinadores sobre como orientar pessoas que vivem com traumas. Ao mesmo tempo, a comunidade científica está começando a estudar porque, exatamente, algumas pessoas traumatizadas consideram que levantar coisas pesadas as ajuda a se recuperar.

“Há algo na musculação e no trabalho com resistência que aumenta a resistência. Não só o cérebro, mas também no corpo”, esclarece Chelsea Haverly, assistente social e fundadora da Hope Ignited, uma organização sediada no estado de Maryland, nos Estados Unidos, dedicada a educar organizações e médicos sobre trauma.

No ano passado, Haverly e Emily Young, assistente social e personal trainer, criaram um programa de certificação de levantamento de peso baseado em trauma para treinadores, em um esforço para levar seus benefícios de saúde mental a mais pessoas.

“Com o levantamento não é apenas “eu posso fazer coisas difíceis”.  É “meu corpo pode fazer coisas difíceis”. É “não me senti forte e agora me sinto uma fera”, afirma Haverly.

Rachel Sloane, fisioterapeuta respiratória de 36 anos e mãe de dois Filhos, diagnosticada com transtorno do estresse pós-traumático complexo em 2021 após sofrer abuso físico e sexual, experimentou a transformação pela musculação .Ela inicialmente se voltou para o levantamento de peso como desejo de cuidar do corpo, porém quanto mais treinava, mais se sentia segura e calma fora da academia.

“Eu nem estava tentando usar a musculação como meio de cuidar da saúde mental. Mas isso me deu um meio de resistir fisicamente contra todo o medo e impotência que eu estava sentindo o tempo todo”, diz Rachel. “Depois de anos me sentindo impotente, tive experiências nas quais me senti poderosa, forte e capaz.”

EXERCÍCIO IDEAL

À medida que mais pessoas com trauma afirmam os benefícios da musculação, Whitworth e outros pesquisadores trabalham para entender melhor os mecanismos psicológicos e neurológicos por trás de seu potencial como ferramenta terapêutica

Embora quase todo tipo de exercício seja benéfico para pessoas com trauma psicológico, eles colhem os maiores benefícios quando se envolvem em treinamento de intensidade moderada alta, que inclui levantamento de peso. O treinamento de resistência e intensidade, especificamente, demonstrou ajudar a melhorar a qualidade do sono e a ansiedade, o que pode melhorar a saúde e o bem-estar geral.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

APENAS ‘NAMORAR’ ALIMENTO PODE ELEVAR RISCO DE DIABETES

Cérebro altera secreção de insulina diante da aparência e cheiro da comida

Parte da digestão tem início antes mesmo de o alimento chegar à boca, quando ocorrem os estímulos sensoriais, como olhar ou cheirar a comida. Já nesse momento, reações do corpo podem criar um quadro de predisposição para o desenvolvimento do diabetes tipo 2, revelou um novo estudo.

No trabalho, pesquisadores da Universidade da Basileia, na Suíça, e do hospital da instituição mostram como o primeiro contato com os alimentos ativa no corpo áreas do cérebro que induzem processos fisiológicos ligados à alimentação, como a produção da saliva e a secreção do hormônio insulina, responsável pela regulação da glicose no sangue.

Durante essa etapa, que é chamada de fase cefálica da digestão, o mecanismo de liberação da insulina é desencadeado por uma resposta inflamatória de curto prazo, que, em excesso, pode prejudicar a produção do hormônio. E aí reside o risco aumentado de diabetes tipo 2.

Segundo os autores do estudo, publicado na revista científica Cell Metabolism, até hoje não estava claro como essa percepção sensorial do alimento induzia o pâncreas a liberar a insulina. No trabalho, os cientistas identificaram que uma molécula inflamatória chamada de interleucina 1 beta (IL1B), também envolvida na resposta imune do corpo a agentes infecciosos e a danos nos tecidos, é estimulada por células cerebrais durante a fase cefálica e está por trás do mecanismo de secreção do hormônio.

“O fato de esse fator inflamatório ser responsável por uma proporção considerável da secreção normal de insulina em indivíduos saudáveis é surpreendente, porque ele também está envolvido no desenvolvimento da diabetes tipo 2”, explica o autor principal do estudo, Marc Donath, professor do Departamento de Biomedicina e de Endocrinologia da universidade, em comunicado.

O diabetes tipo 2 tem como uma de suas causas a inflamação crônica que eventualmente danifica as células do pâncreas responsáveis por produzir insulina. Segundo os responsáveis pelo novo estudo, as descobertas apontam que a fase cefálica leva a uma liberação excessiva e em grandes quantidades da IL1B, que tem o potencial inflamatório. Por isso, avaliam se medicamentos para inibir a molécula poderiam ser utilizados com um potencial terapêutico para diabéticos.

Eles acrescentam ainda que, no caso da obesidade mórbida, a secreção da insulina envolvida na fase cefálica pode ser completamente interrompida. Para a autora do estudo Kelly Trimigliozzi, isso acontece devido a esse excesso da resposta inflamatória, que acaba comprometendo a capacidade das células de produzir o hormônio.

OUTROS OLHARES

VITAMINAS PERSONALIZADAS: RISCO À SAÚDE E À PRIVACIDADE

Especialistas criticam modelo que inclui prescrição por ‘quiz’ na internet e algoritmo para definir produto indicado

A oferta personalizada de vitaminas pela internet ganhou espaço no mercado brasileiro de suplementos. Em moldes similares ao que já existia no exterior – principalmente nos Estados Unidos – , empresas oferecem recomendação de suplementação a partir de um quizque busca avaliar objetivos e características físicas e comportamentais, como idade, rotina alimentar e condições de saúde.

Esse tipo de empreendimento, porém, levanta questionamentos entre especialistas. O principal é que a mesma empresa responsáveis por diagnosticar a necessidade de suplementação é a que faz a comercialização do produto, como destaca o Conselho Regional de Nutrição da 4ª Região.

‘’A construção de uma narrativa de que todos têm necessidade de suplementação de vitaminas não é adequada, apesar de explorada nas estratégias publicitárias. Alguns estudos já demonstram preocupação com o crescimento da suplementação”, diz o conselheiro Fernando Lamarca.

Uma das plataformas brasileiras para venda de produtos personalizados, a SetYou, afirma já ter vendido cem mil fórmulas, além de levantar RS3.5 milhões com investidores. A Habits também atraiu capital de investidores. O segmento de vitaminas como um todo cresceu 21% em 2021, comparado ao ano anterior, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais (Abiad).

No site de uma das empresas, por exemplo, é possível obter o diagnóstico com base em objetivos gerais, como emagrecimento, memória, energia, libido, exercício físico, sono, entre outros. É possível indicar mais de um objetivo.

O passo seguinte é apontar outros problemas para os quais as vitaminas poderiam surtir efeito. A lista sugerida vai desde pressão alta a dores nas articulações. O interessado indica os elementos que fazem parte de sua rotina, como café, exposição ao sol, exercícios físicos  ou compulsão por comida. Com base nos problemas e necessidades apontados, o site envia a prescrição e dá ao consumidor a opção de escolher receber as vitaminas em cápsulas ou pós solúvel.

PROTEÇÃO DE DADOS

Ao concluir o quis e receber a indicação de vitaminas, o consumidor pode optar por prosseguir com a compra ou não. O Vitamine-se indica vitaminas separadas, com o custo a partir de R$ 50 para uma delas. Mas o valor pode ser bem maior se optar por uma gama de sugestões. SetYou e Habits indicam fórmula com diversas vitaminas a um custo médio entre RS 120 e R$180. A manipulação é feita por farmácia.

Em alguns sites, além da venda da vitamina, há a possibilidade de assinatura de pacotes que incluem aconselhamento com nutricionista.

De acordo com as empresas, os algoritmos aplicados nas perguntas e recomendações são baseados em artigos científicos e consultorias de profissionais da saúde.

“Muito nos preocupa uma prescrição realizada por meio de quis, uma vez que o respondente pode “manipular” as respostas visando a prescrição em si”, diz Elton Bicalho, conselheiro do Conselho Regional de Nutrição da 4ª Região.

O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio (Cremerj) afirma que a prescrição de medicamento, inclusive complexos vitamínicos – é ato médico, que, em alguns casos, exigirá exames. A automedicação, destaca, éum risco à saúde.

Especialistas em direito digital identificam também risco à privacidade. O quis que, na maioria dos casos parece inocente, pode expor dados sensíveis, principalmente de saúde.

“Não encontrei em nenhuma plataforma a transparência necessária sobre a finalidade do uso dos dados, a política de proteção e tratamento das informações. Não há pedido claro, especifico de consentimento do consumidor quando são requisitados dados sensíveis relacionados à saúde”, alerta a advogada Maria Luciana Pereira de Souza, especialista em Direito Digital.

Juliana Oms, pesquisadora do programa de Direitos Digitais do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (ldec), diz que os sites devem informar parâmetros para a formação do algoritmo responsável técnico pelas informações.

Docente do Curso Nacional de Nutrologia da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), Sandra Lucia Fernandes explica que a suplementação de vitaminas é mandatória só na gestação, lactação e para paciente bariátrico:

“Pessoas saudáveis podem e devem atingir necessidades diárias com boa alimentação.

A nutróloga aponta ainda riscos da hipervitaminose. Por exemplo, excesso de vitamina A pode causar quadro neurológico grave.

O QUE DIZEM AS EMPRESAS

Em nota, a SetYou afirmou que profissionais de saúde utilizam o site com pacientes, devido ao rigor do algoritmo. A Habits diz que as preocupações das entidades são válidas, mas destacou que não se restringe a vender vitamina, e oferece plano com a acompanhamento nutricional.

A Vitamine-se ressaltou que seus suplementos são regularizados pela Anvisa e que tem nutricionistas a serviço para tirar dúvidas, direcionando quando é preciso acompanhamento pro6ssíooal.

Procurada para esclarecer a regulação da atividade, a Anvisa afirmou que por se tratar “de modelo de negócio inovador, não é possível concluir, no momento, o enquadramento dos produtos (suplemento ou medicamento) e a forma de regularização da empresa somente pela avaliação do site”.  A agência disse que busca informações com as empresas.

ENTENDA COMO FUNCIONA E O QUE OBSERVAR

TODO MUNDO DEVE TOMAR VITAMINA?

Segundo a nutróloga Sandra Lúcia Fernandes, da Abran, não há respaldo na literatura médica para uso de vitaminas indiscriminadamente em pessoa saudável. Apenas durante a gestação, na fase de lactação e pessoas que passaram por cirurgia bariátrica. Nos demais casos é preciso análise e até exames.

QUAL O RISCO DE USO INDISCRIMINADO DE VITAMINAS?

Fernando Lamarca, conselheiro do Conselho Nacional de Nutrição da 4ª Região, diz que os riscos estão relacionados a dose consumida diariamente, o período de consumo e o tipo de vitamina. O consumo excessivo de betacaroteno foi associado a aumento do risco de câncer de pulmão. Altas dosagens de vitamina D podem contribuir para o desenvolvimento de pedra nos rins.

O QUE SE DEVE SABER ANTES DE RESPONDER O ‘QUIZ’?

O site deve informar claramente a finalidade para a qual serão usados os dados, como serão armazenados, por quanto tempo e ainda se as informações serão compartilhadas.

QUAL O PAPEL DO ALGORITMO?

Informe-se a respeito dos parâmetros de análise usados pela inteligência artificial para prescrever o produto. Procure saber se há profissionais de saúde responsáveis.

E SE TIVER PROBLEMAS?

As empresas dizem oferecer acompanhamento de profissionais, como farmacêuticos e nutricionistas durante o tratamento e para aconselhamento do consumidor, algumas dizem ser possível refazer o produto e garantem dar assistência em caso de efeitos colaterais. Em caso de dúvida de prática irregular ou de problema pode-se procurar o Procon e a  Agência Nacional de Proteção de Dados, se identificar risco às informações pessoais.

GESTÃO E CARREIRA

EMPRESAS TESTAM SEMANA DE 4 DIAS

Novo modelo de jornada, inspirado em experiências de países como Reino Unido, Estados Unidos e Nova Zelândia, começa a ser implantado por companhias no Brasil

Mais de um século desde a adoção da semana de cinco dias de trabalho pelo americano Henry Ford, que virou regra no mundo todo, um novo modelo com apenas quatro dias de atividades começa a ser testado, com resultados positivos. No Brasil, companhias que instituíram a nova jornada veem melhorias de eficiência, bem-estar dos trabalhadores, retenção de talentos e até aumento de receitas. Por ora, a mudança tem sido adotada mais pelas companhias de tecnologia, como Crawly, NovaHaus, Winnin, AAA Inovação, Gerencianet e Eva.

Mas o modelo, que reduz a carga horária de 40 horas para 32 horas semanais sem alteração de salário, exige um planejamento prévio com atenção à legislação trabalhista e à cultura organizacional. Além disso, para ter êxito em termos de gestão de pessoas e negócios, é necessário revisar metas e tarefas diárias e mensurar com frequência os resultados.

O conceito vem de experiências de empresas em países como Islândia, Reino Unido, Bélgica, Nova Zelândia, Escócia e EUA. Muitas decidiram adotar regimes mais flexíveis diante do fenômeno da ”grande debandada” (profissionais pedindo demissão) e do esgotamento profissional provocado pelo trabalho, condição oficializada na lista da Organização Mundial da Saúde (OMS).

No País, 61% dos trabalhadores brasileiros consideram mudar de emprego em caso de problemas de saúde mental e 74% acreditam que seriam mais produtivos em uma semana de quatro dias. Dados da plataforma de recrutamento Indeed, obtidos com exclusividade, indicam ainda que 79%concordam em aumentar as horas diárias de trabalho para ter uma semana mais curta, e a maioria está disposta a apoiar a empresa na implementação do novo modelo (84%).

De acordo com a pesquisa, a redução da carga também melhoraria a saúde mental (85%) e o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal (86%). É o que vem ocorrendo com Gabriele Lima Silva, analista de experiência do cliente da Gerencianet, desde que ganhou a sexta-feira livre. “Aproveito o momento para estar mais próxima da minha família, filho e cachorro, além de cuidar mais de mim.”

O diretor de vendas da Indeed Brasil, Felipe Calbucci, afirma, porém, que a semana de quatro dias pode não fazer sentido para todo tipo de negócio, o que requer avaliar bem a mudança. Isso implica atenção especial à cultura organizacional, diz Evanil Paula, presidente da Gerencianet.

A empresa de meios de pagamentos adotou a sexta-feira livre no início de julho e manteve o controle do ponto para as oito horas de serviço diárias de segunda a quinta. Para implementar o modelo, a Gerencianet fechou acordo com os sindicatos para um novo contrato com os profissionais, atualizando a jornada por seis meses de teste. “Isso é importante, porque a empresa consegue reverter a decisão, caso necessário, sem traumas.”

De forma semelhante, a startup Eva organizou uma assembleia e fechou acordos individuais com os funcionários para reduzir a carga horária a partir de julho. “Antes de definir o dia do descanso, é fundamental um estudo para avaliar os impactos e alinhar às expectativas de todos”, diz o presidente da empresa, Marcelo Lopes.

NOVO MODELO VIRA ESTRATÉGIA PARA RETENÇÃO DE FUNCIONÁRIOS

A semana de quatro dias de trabalho tem se mostrado uma boa estratégia para retenção de talentos. Num cenário de mercado aquecido em que sobram vagas e faltam profissionais em vários setores, ao oferecer um dia a mais de descanso como benefício, as empresas conseguem disputar mão de obra com companhias estrangeiras que têm salários maiores.

Na empresa de produtos digitais NovaHaus, essa redução da rotatividade já teve impacto nos custos. O presidente da empresa, Leandro Pires, diz que houve perda na entrega, mas não na produtividade. Ou seja, as pessoas diminuíram a jornada de trabalho em 20%, mas deixaram de produzir somente 7%. “Todavia, essa porcentagem foi compensada com a queda da rotatividade e com um aumento de receita.”

A redução da jornada foi definida por acordos individuais e, inicialmente, tem duração de oito meses contados a partir de março. Entre os benefícios aos funcionários, ainda consta um “vale-cultura”, no valor de RS 400, e duas assinaturas de streaming, os quais tem sido muito bem aproveitados pela gerente de contas Alyne Passarelli. ”Faço várias coisas na quarta off, desde passeios, que no final de semana são mais concorridos, a maratona de séries. A ideia é ter uma pausa no meio da rotina turbulenta, e não um final de semana prolongado.”

Para medir o sucesso da estratégia, a NovaHaus adotou como indicadores de avaliação o comparativo de entregas, pesquisas internas para medir o nível de felicidade, valores dos projetos e a quantidade de faltas. “Os funcionários estão mais felizes, faltam menos e a receita aumentou.”

Resultados semelhantes foram observados na Crawly, empresa de coleta de dados online e análises, que instaurou a semana mais curta em março. “Tivemos um aumento de demanda por causa do comercial e do marketing, e conseguimos entregar tudo sem atrasos”, afirma a gerente financeira da empresa, Luísa Lana Stenner.

PROCESSOS INTERNOS

Tanto para a Crawly quanto para a consultoria AAA Inovação, o sucesso da estratégia é atribuído a uma reorganização dos processos internos. “Acabamos com o e-mail, grupos de WhatsApp, e adotamos metodologias e ferramentas ágeis de gestão de projetos e comunicação interna, como Slack, Runrun.it e Discord”, diz o presidente da AAA, Juan Pablo Boeira.

A empresa adotou a jornada mais curta em janeiro. Em cinco meses, foi verificado crescimento de 120% do faturamento. “Quando a gente percebeu que estava mais eficiente, criamos o ‘ResetDay’ (dia de redefinir)às sextas-feiras.”

Além de monitorar semanalmente aspectos como entregas (performance), custos fixos, eficiência e saúde mental, a AAA Inovação mantém contato com os clientes para saber o nível de satisfação.

“A decisão de adotar a semana de quatro dias diz muito mais sobre como evoluir a sua produtividade e eficiência do que reduzir um dia de trabalho”, diz o presidente da plataforma Winnin, Gian Martinez. A empresa adotou a sexta-feira livre em agosto de 2021 e já vê melhora de bem-estar dos trabalhadores e redução da rotatividade.

EU ACHO …

LEMBRANÇAS MAL LEMBRADAS

A maioria dos nossos tormentos não vêm de fora, estão alojados na nossa mente, cravados na nossa memória. Nossa sanidade (ou insanidade) se deve basicamente à maneira como nossas lembranças são assimiladas. “As pessoas procuram tratamento psicanalítico porque o modo como estão lembrando não as libera para esquecer.” Frase do psicanalista Adam Phillips, publicada no livro O flerte.

Como é que não pensamos nisso antes? O que nos impede de ir em frente é uma lembrança mal lembrada que nos acorrenta ao passado, estanca o tempo, não permite avanço. A gente implora a Deus para que nos ajude a esquecer um amor, uma experiência ruim, uma frase que nos feriu, quando na verdade não é esquecer que precisamos: é lembrar corretamente. Aí, sim: lembrando como se deve, a ânsia por esquecimento poderá até ser dispensada, não precisaremos esquecer de mais nada. E, não precisando, vai ver até esqueceremos.

Ah, se tudo fosse assim tão simples. De qualquer maneira, já é um alento entender as razões que nos deixam tão obcecados, tristes, inquietos. São as tais lembranças mal lembradas.

Você fez cinco anos, sonhava em ganhar a primeira bicicleta, seu pai foi viajar e esqueceu. Uma amiga íntima, que conhecia todos os seus segredos, roubou seu namorado. Sua mãe é fria, distante, e percebe- se que ela prefere disparado sua irmã mais nova. E aquele amor? Quanta mágoa, quanta decepção, quanto tempo investido à toa, e você não esquece – passaram-se anos e você, droga, não esquece.

Essas situações viram lembranças, e essas lembranças vão se infiltrando e ganhando forma, força e tamanho, e daqui a pouco nem sabemos mais se elas seguem condizentes com o fato ocorrido ou se evoluíram para algo completamente alheio à realidade. Nossa percepção nunca é 100% confiável.

O menino de cinco anos superdimensionou uma ausência que foi emergencial, não proposital.

Você nem gostava tanto assim daquele namorado que sua amiga surrupiou (aliás, eles estão casados até hoje, não foi um capricho dela).

Sua mãe tratava as filhas de modo diferenciado porque cada filho é de um modo, cada um exige uma demanda de carinho e atenção diferente, o dia que você tiver filhos vai entender que isso não é desamor.

E aquele cara perturba seu sono até hoje porque você segue idealizando o sujeito, se recusa a acreditar que o amor vem e passa. Tudo parecia tão perfeito, ele era o tal príncipe do cavalo branco sem tirar nem pôr. Ajuste o foco: o coitado foi apenas o ser humano que cruzou a sua vida quando você estava num momento de carência extrema. Libere-o dessa fatura.

São exemplos simplistas e inventados, não sou do ramo. Mas Adam Philips é, e me parece que ele tem razão. Nossas lembranças do passado precisam de eixo, correção de rota, dimensão exata, avaliação fria – pena que nada disso seja fácil. Costumamos lembrar com fúria, saudade, vergonha, lembramos com gosto pelo épico e pelo exagero. Sorte de quem lembra direito.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

‘PREJUVENESCIMENTO’

Jovens buscam tratamentos para evitar perda de colágeno da pele

Aos 21 anos, a estudante de engenharia Lara Theotônio Pereira Mascherpa tem o viço típico da idade. Ainda assim, ela já começou a fazer sessões de laser para estimular a produção de colágeno e retardar o envelhecimento de sua pele.

“Quero chegar aos 60 anos sem parecer mais velha. Vejo muitas senhoras aparentarem ter mais idade por falta de cuidado com a pele e sei que isso tem de ser feito antes”, justifica.

Ela não é exceção. A estudante ilustra uma tendência que ganhou força recentemente entre as brasileiras: a de prevenir o aparecimento dos sinais na pele multo precocemente, antes mesmo de serem notados a olho nu. O movimento, batizado em inglês de “prejuvenation” (algo como “prejuvenescimento”), atrai jovens que, como Lara, não querem impedir o envelhecimento com métodos artificiais, mas adiá-lo da forma mais natural possível.

“A mudança de comportamento está associada a informação. Hoje há técnicas pouco agressivas que se forem usadas precocemente apresentam ótimos resultados”, afirma a médica Claudia Merlo, especialista emdermatologia e cosmiatria pelo Instituto BWS.

Não existem dados oficiais, mas nos consultórios médicos a estimativa é de que nos últimos dois anos houve aumento de 300% no número de pessoas com menos de 30 anos em busca de procedimentos para prevenir o envelhecimento. Não seria cedo demais? Os especialistas afirmam que não.

COLÁGENO

A perda de colágeno, composto que dá sustentação à pele, começa a partir dos 20 anos de idade a uma taxa de 1% ao ano. Com o resultado, a pele vai ficando mais fina e frágil. A partir dos 30, a perda supera a produção dessa proteína. Se nada for feito, é nessa idade que se formam as primeiras rugas, que são cicatrizes deixadas por fraturas na derme, a camada intermediária da pele. Os vincos variam de 0,1 milímetro a 0,5 milímetro de profundidade.

Não é apenas o colágeno que se perde. O ácido hialurônico, composto da pele responsável pela elasticidade, sofre uma redução de 20% a 30% ao longo da vida. Dos 40 anos aos 60 anos os vincos já estão marcados e as substâncias que sustentam a pele perdem força com maior velocidade. Por isso, são necessários estímulos cada vez mais vigorosos e agressivos para que elas continuem a ser produzidas. Começar cedo retarda o processo e confere uma jovialidade natural por mais tempo.

É claro que tudo tem que ser adequado à idade. Por isso, as ferramentas usadas em peles de 20 e poucos anos são bem diferentes daquelas aplicadas em pessoas mais maduras. O principal objetivo da intervenção precoce é justamente estimular a produção de colágeno.

Os lasers, que podem ter diferentes alcances, são a escolha número um. Mas há também o ultrassom micro­ focado, que estimula a formação de colágeno a partir de altas temperaturas, e a radiofrequência, campo eletromagnético que esquenta a pele e forma a proteína. Eles são indicados quando já há alguma flacidez.

“Começar a estimular a produção de colágeno antes dos 30 anos ajuda a postergar o envelhecimento da pele, além de melhorar seu aspecto e elasticidade”, explica a dermatologista Monica Aribi, da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Academia Americana de Dermatologia.

Lara, por exemplo, utilizou um laser que age na derme, a camada intermediária da pele. Isso estimula a produção de colágeno e a produção de novas células. O resultado é um rosto mais viçoso, liso e com poros menos dilatados. O tratamento também ajuda a controlar a rosácea a tratar acne e cicatrizes, fatores importantes para essa faixa etária.

Aos 26 anos, a empresária Bruna Passos, também á adepta do autocuidado e dos lasers. No seu caso, a tecnologia  utilizada vai além e atinge todas as camadas da pele. A aplicação promove estímulo celular intenso e renovação, atua na flacidez e no contorno facial, além de ajudar na textura e na cor.

“Prefiro as técnicas menos invasivas, como lasers para estimular colágeno, porque acho que a pele nessa idade ainda é muito boa. Pretendo continuar fazendo anualmente até eu sentir que a minha pele está pedindo um pouco mais”, conta.

BOTOX

Para essa faixa etária, há ainda a opção de aplicar toxina botulínica. Ela é utilizada para prevenir as chamadas rugas dinâmicas, aquelas formadas pelas expressões faciais. A indicação é para pacientes quem têm tendência a fazer as contrações e marcar a pele. Como o objetivo é prevenir, a quantidade utilizada é quatro vezes menor que a usada a partir dos 45 anos, quando as rugas já estão marcadas.

“Costumamos fazer na chamada ”ruga da braveza”, que fica no meio da testa, para prevenir o vinco. Se deixar a pele frisar, a marca sempre estará lá”, diz Aribi.

Além dos fatores internos, os externos também influenciam bastante o envelhecimento. São eles: alimentação, tabagismo, consumo de álcool, exposição solar e à poluição. Os dermatologistas são unânimes em dizer que os cuidados diários mais importantes são limpeza e uso de filtro com fator de proteção (FPS) de 30 ou mais.

Produtos de uso tópico, como cremes, séruns, géis não têm grande atuação, pois não conseguem agir nas camadas mais profundas. Mas isso não significa que eles não podem ser aliados. Na faixa etária dos 20 aos 30 anos, os ativos mais recomendados são vitamina C e ácido hialurônico.

Além disso, manter uma dieta equilibrada, com ingestão de alimentos ricos em colágeno, como carne branca e gelatina, e vitamina C, como laranja, kiwi e abacaxi, que melhoram a absorção da proteína, ajuda a manter a pele sempre em dia.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POR QUE SEMPRE HÁ ESPAÇO PARA UMA SOBREMESA GOSTOSA DEPOIS DO ALMOÇO

Especialistas explicam os mecanismos que levam nosso corpo aceitar mais comida mesmo quando já estamos satisfeitos após uma refeição

Uma simples pergunta depois do almoço muitas vezes parece ser inevitável. ”Tem alguma sobremesa?” E mesmo que seja preciso afrouxar o cinto depois, o encanto de um bolo ou de um doce é irresistível. O porquê de muitas pessoas, mesmo satisfeitas, ainda terem fome de bolos, doces ou sorvetes é uma questão que motiva o interesse de endocrinologistas e nutricionistas.

Embora algumas pessoas gostem mais de doces do que outras, há uma série de razões pelas quais muitos de nós querem sobremesa depois de uma refeição pesada. Como explica Pablo Suárez Llanos, endocrinologista da Unidade de Nutrição Clínica e Dietética do Hospital Universitário Nossa Senhora de Candelária, em Tenerife, a interação entre nosso sistema endócrino e o sistema nervoso central para regular nossa fome é obscura.

Para começar, destacam-se duas substancias com funções opostas: a leptina, considerada o hormônio da saciedade, e a grelina, considerada o hormônio da fome. A leptina regula o equilíbrio energético a longo prazo e promove a manutenção do peso habitual. É secretada por nossas células de gordura quando detectam que temos depósitos suficientes, informando ao cérebro para suprimir nosso apetite e parar de comer. Mas seus níveis não variam com uma ingestão isolada, nem têm ação imediata.

“Ela precisa de estímulos contínuos ao longo do tempo para se modificar. Tem mais a ver com os comportamentos alimentares e com a quantidade de gordura que cada um tem”, afirma Lopez. Llanos, que integra o comitê de gestão da área de nutrição da Sociedade Espanhola de Endocrinologia e Nutrição (SEEN).

Por outro lado, “o hormônio mais relacionado à fome é a grelina indica o especialista. Produzida pela mucosa que reveste o estômago, ela exerce, ao contrário da leptina, uma ação rápida que induz o apetite nos centros neuronais de saciedade e a fome do hipotálamo, e intervém no início das refeições. O fator fundamental para sua liberação no sangue é o esvaziamento gástrico.

“Quando o estômago está mais vazio, a sensação de um buraco nele faz com que a grelina seja sintetizada e a pessoa sinta fome. Parece que pode haver picos às 8h, 12h e 20h e é por isso que também queremos comer nesses horários do dia”, afirma Suárez Llanos.

Uma revisão biomédica recente publicada na Pharmacological Research avaliou as complexas interações da grelina com nossos sistemas Biológicos para a regulação do prazer e do estresse. Esta última relação é o que leva ao pensamento de “eu mereço este bolo”, após situações de estresse ou episódios de ansiedade.

“A grelina promove a ingestão, o armazenamento de gordura, a diminuição do metabolismo basal, a economia de energia e a fome por alimentos com alto teor calórico ou açucarado”, acrescenta Guadalupe Sabio, professora e pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa Cardiovascular (CNIC) apontando para mais uma das chaves do nosso espaço insaciável para produtos de confeitaria.

RECOMPENSA

Existem outros receptores que são estimulados por alimentos ricos em açucares e gorduras, acrescenta a pesquisadora.

“O sistema é muito mais complexo do que um simples hormônio que faz “liga-desliga” na vontade. Obviamente, cada um de nós gosta de um tipo de comida e isso vai estimular os receptores de recompensa no nosso cérebro”, afirma a especialista.

De fato, os alimentos ricos em açúcares e gorduras ativam nossos centros de prazer no cérebro, especialmente se combinados em alimentos processados – como muitas sobremesas – , a ponto de alguns cientistas considerá-los capazes de gerar um verdadeiro “vício em comida” como apontaram três pesquisadores em 2015 na revista PLOS One.

Esse desejo por alimentos densos em energia também tem uma justificativa evolutiva como mecanismo de sobrevivência: somos projetados para sobreviver no contexto de escassez, não na abundância.

“Evolutivamente fomos feitos para amar os doces, mais até do que a gordura”, considera Sabio. “No começo, gostávamos de frutas porque elas têm açúcar, mas à medida que evoluímos, fomos dando mais intensidade a esse sabor. Agora, se você perguntar a uma criança se uma maçã é doce ela vai responder que não.

VARIEDADE

Barbara J. Rolls, professora de ciências nutricionais da Escola de Saúde e Desenvolvimento Humano da Universidade Estadual da Pensilvânia (HHD) e diretora de seu Laboratório para o Estudo do Comportamento da Ingestão Humana vem desenvolvendo desde a década de 1980 uma pesquisa sobre o que é conhecido como sociedade sensorial específica. O termo cunhado pelo fisiologista francês Jacques LeMagoen – que o descreveu pela primeira vez em ratos em 1956, e que a pesquisadora Rolls detalhou em humanos em 1981 – para definir a diminuição do prazer que qualquer alimento nos dá à medida que comemos, mas isso não impede que outra comida diferente que chegue mais tarde à mesa seja apetitosa.

“Você não gosta mais da comida que já comeu do que da que não comeu”, resume.

Em 1984, Rolls publicou um estudo no jornal Appetite intitulado “Mudanças de prazer e ingestão de alimentos em uma refeição mista de quatro pratos no qual mostrou que a saciedade pode ser específica para cada alimento ingerido: aqueles que receberam quatro pratos diferentes comeram mais e tiveram um consumo de calorias cerca de 60% maior que o grupo que recebeu quatro pratos idênticos.

“Se você tiver opções, à medida que um alimento começa a ter um sabor considerado menos palatável, você muda para outros”, diz Rolls.

É por isso que comemos mais batatas fritas se forem oferecidas primeiro com ketchup e depois com maionese, como outros pesquisadores descreveram na revista acadêmica Physiology & Behavior, ou as crianças comem mais vegetais quando vários tipos são servidos juntos, como Rolls mostrou no The American Journal of Clinical Nutrition. Asprimeiras mordidas de um prato delicioso nos satisfazem mais do que as últimas.

E não apenas abrimos espaço para a sobremesa, mas também para o segundo prato quando estamos entediados com o primeiro. A sobremesa, além de um novo estimulo, é doce, o que a torna ainda mais apetitosa. Além disso, comeríamos mais sorvete se nos dessem dois sabores em vez de apenas um, ressalta Rolls.

Tudo isso porque uma alimentação saudável deve ser variada. E nossos cérebros evoluíram ao longo de milênios para compensar essa disparidade, dando-nos prazer de mudanças no sabor, apresentação, cheiro, textura e outras qualidades alimentares.

“Somos onívoros”, lembra Rolls: procuramos comer uma variedade de alimentos para garantir a diversidade de nutrientes necessários. A contrapartida é que não tivemos tempo de nos adaptar aos estímulos de milhares de produtos insalubres que enchem as prateleiras dos supermercados.

COMO FUGIR DA TENTAÇÃO

Primeiro, é preciso compreender que os ambientes de socialização ou a ampla disponibilidade de alimentos, como nos bufês livres, também nos impulsionam a comer mais.

Como a sensação de saciedade pode demorar cerca de 20 minutos a partir do momento em que começamos a refeição, também faz sentido comer mais devagar e demorar um pouco antes de decidir se realmente precisamos do bolo, se optamos por algo mais saudável ou se não queremos nada. Em última análise, podemos sempre compartilhar sobremesas ou pedir porções reduzidas.

OUTROS OLHARES

O 5G ESTREOU NO BRASIL, MAS AINDA DEIXA USUÁRIOS COM MUITAS DÚVIDAS

Nova tecnologia promete revolucionar as conexões, mas clientes ainda se perguntam sobre preço, disponibilidade e formas de acesso

Na quinta-feira, o 5G estreou oficialmente no Brasil, com a ativação da tecnologia em Brasília por Vivo, TIM e Claro. A cidade virou uma espécie de projeto-piloto para a implantação das novas redes, com equipes da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) trabalhando para que as frequências 3.625 a 3.700 MHz não sofressem interferência de antenas parabólicas.

Como toda troca de geração a tecnologia ainda deixa muitas dúvidas sobre seu impacto e importância. Especialistas, porém, garantem que a mudança ésignificativa. “5G” é o nome dado à tecnologia de quinta geração de conexão móvel. Ele vai suceder o 4G, usado hoje por smartphones e máquinas conectadas, mas também podemser utilizados por dispositivos de casa, como computadores, e por aparelhos presentes em espaços públicos, com semáforos urbanos e até mesmo carros autônomos.

Estima-se que, em seu potencial máximo, o 5Gseja capaz de atingir velocidade de download de 10 gigabits por segundo (Gbps) – dez vezes mais do que o máximo possível de ser alcançado por uma rede 4G. Isso significa que uma tarefa que demora 20 segundos no 4G – como baixar uma playlist de uma hora no Spotify – pode levar apenas 2 segundos no 5G.

Além da maior velocidade de transmissão de dados, o 5G traz outra característica muito importante: a queda na latência – o tempo de resposta entre um dispositivo enviar um pedido à rede de internet e ele ser respondido. É por conta dessa característica que muitos avanços serão permitidos.

As novas redes prometem conectar residências, cidade e indústrias por meio de uma grande rede de sensores e dispositivos. Antes do cenário futurista, porém, algumas perguntas mais fincadas no presente rondam a mente dos brasileiros. Entre elas, estão o custo, as formas de acesso e a disponibilidade da nova tecnologia. Veja abaixo.

QUANDO O 5G ESTARÁ DISPONÍVEL NO RESTANTE DO BRASIL?

 Segundo cronograma da Anatel, o prazo para as capitais é até o fim de setembro. As cidades com mais de 500 mil habitantes terão de ser atendidas até 31 de julho de 2025. Em seguida, será a vez dos municípios com mais de 200 mil e de 100 mil habitantes (31 de julho de 2026 e até 31 de julho de 2027, respectivamente). Cidades com mais de 30 mil habitantes terão de ser completamente atendidas até 31 de julho de 2029.

VOU PRECISAR DE UM SMARTPHONE NOVO PARA USAR AS NOVAS REDES?

Sim. Cada celular tem um componente específico para acessar a internet, chamado modem. Modems 5G estão começando a chegar aos celulares, e já há vários modelos à venda. Atualmente, existem 67 modelos capazes de rodar o 5G. Os preços variam bastante, indo de R$1,5 mil, em modelos básicos, até RS15 mil na versão mais cara do iPhone 13.

MEU SMARTPHONE ANTIGO, SEM TECNOLOGIA 5G, CONTINUARÁ FUNCIONANDO?

Sim. Fabio Lima, professor de engenharia de produção da PEI, explica que as redes 2G, 3G e 4G não deixarão de funcionar. “A rede 4G não vai ser desativada, assim como as redes anteriores não foram. Vai continuar funcionando”, diz. “Quando acessamos o 4G, em alguns momentos, a conexão migra para a rede 3G. O processo vai ser o mesmo”,  completa.

QUAIS OS CELULARES MAIS BARATOS COM SUPORTE À TECNOLOGIA?

Listamos a seguir os modelos mais baratos das principais marcas do mercado nacional. Os valores utilizados são os preços sugeridos pelas empresas, mas quase todos podem ser encontrados por preços mais baixos no varejo: iPhone SE (3ª geração), Galaxy M23 5G, Moto G50 5G, Redmi Note 11 Pro 5G, Nokia G50 e Realme GT Master Edition.

VOU PRECISAR TROCAR MEU PLANO DE INTERNET PARA ACESSAR O 5G?

Por enquanto, não. As três principais operadoras de telefonia do País afirmaram que não há mudanças de custos dos planos ou necessidade de troca de chips para receber o novo sinal. A Vivo diz em nota que “os clientes com chip 4G já têm acesso ao 5G” caso tenham dispositivos compatíveis. O mesmo foi confirmado por TIM e Claro.

PAGAREI MAIS CARO PARA ACESSAR AS REDES DE 5ª GERAÇÃO?

 As operadoras dizem que não. No momento, as operadoras estão migrando os planos sem custo extra para a tecnologia 5G DSS”. Porém, aumentos são esperados para os planos de “5G puro”. As operadoras também devem impor limite ao consumo de dados. Em Brasília, a TIM oferecerá mais 50 GB nos planos TIM Black e TIM Black Família a um custo adicional de R$20.

O QUE SIGNIFICA 5G DSS, 5G PURO E 5G+? QUAIS SÃO AS DIFERENÇAS?

Fora de Brasília, usuários já vêm notando o símbolo de “5G” em seus telefones. Esse é o 5G DSS, que utiliza faixas de sinal do 4G e oferecem menor velocidade e estabilidade. O 5G “puro”(ou 5GSA) usa equipamento e frequências exclusivas. A Claro rebatizou o 5GSA de “5G+” e o 5G DSS de “5G”. Nas cidades onde o 5G puro for ativado, ele vai operar junto com o 5G DSS.

A INTERNET FIXA SERÁ SUBSTITUÍDA COM A CHEGADA DO 5G?

Não. A internet fixa, com cabos e rede Wi-Fi vai continuar sendo a principal conexão para uma série de aplicações domésticas. Lima, da FEI, diz também haverá tendência de melhora da conexão doméstica. “(Como a infraestrutura de fibra óptica está sendo modificada, isso também deve trazer benefício para o Wi-Fi que temos em casa”

GESTÃO E CARREIRA

PROFISSIONAIS MOSTRAM COMO VIAJAM PELO MUNDO ENQUANTO TRABALHAM ONLINE

A história  de quatro nômades digitais que adotaram o estilo de vida de trabalhar e conhecer outros países e cidades

Uma família de três pessoas – esperando um bebê -, uma mulher de mais de 60 anos, um jovem e seu animal de estimação e uma jovem publicitária. Em comum, esses profissionais decidiram adotar um estilo de vida diferente, em que podem trabalhar de qualquer lugar do mundo. São os chamados nômades digitais.

Este modelo de trabalho, com maior flexibilização, conhecido como nomadismo digital, permite que as pessoas possam trabalhar de forma remota, com a utilização da tecnologia e da internet, enquanto viajam. No mundo, cerca de 35 milhões de pessoas adotam esse modelo, de acordo com Relatório Global de Tendências Migratórias 2022 da Fragomen. Até 2035, a estimativa é de que 1 bilhão de pessoas vão adotar este estilo de vida.

O fenômeno foi potencializado pela modalidade do trabalho remoto e “veio para ficar”, afirma Edna Rodrigues Bedani, professora de Liderança, Planejamento Pessoal e Autodesenvolvimento na ESPM. “O profissional realiza suas atividades independentemente da localização e tem responsabilidade pelos resultados e gestão de seus horários”, destaca.

A jovem publicitária Sophia Costa, de 27 anos. pratica o nomadismo desde 2016, quando terminou a graduação e recebeu convite para expor seu Trabalho de Conclusão de Curso em Berlim, na Alemanha. Por meio de uma vaquinha online, feita por colegas e familiares, Sophia conseguiu o dinheiro para fazer o passaporte e comprar as passagens para a sua primeira viagem internacional. “Descobri minha melhor versão nessa viagem.”

Em 2018, traçou um novo destino: um mês de voluntariado em Moçambique. Na viagem, conseguiu um trabalho remoto na área de Business lntelligence e continuou viajando pela África por dois meses. Logo depois foi fazer um mestrado na Argentina.

Em 2020, passou o primeiro ano da pandemia na Tailândia, mostrando o contexto da crise sanitária na região e também o cotidiano como nômade digital. Quando chegou ao país asiático, tinha 4 mil seguidores. Hoje são cerca de 56 mil. Atualmente ela trabalha com a produção de conteúdos e cursos em suas redes sociais. “É uma rotina normal, todo dia eu vou ter de trabalhar.”

É o que conta também Clara Magalhães, de 25 anos, que dá aula a 340 alunos por celular todos os dias. Natural de Goiânia, ela começou a viajar com o marido, Bruno Alves, de 42 anos, e o filho, Bernardo Magalhães, de 7 anos, em 2019.

Com uma barraca automotiva em uma caminhonete, eles venderam o apartamento e partiram do litoral do Nordeste brasileiro para o Ushuaia, na Argentina. Com uma criança, porém, era preciso planejamento financeiro e educacional. O casal calculou uma média mensal de gastos (camping, combustível e mercado) e uma reserva de emergência.

Sobre a escola, Clara assumiu a educação de Bernardo no primeiro ano. Além das matérias tradicionais, levou o filho para museus de ciências, artes e projetos ambientais. Durante os dois primeiros anos da pandemia, o casal resolveu se isolar e esperar para voltar às viagens. Agora.com o filho matriculado em uma escola americana que permite o homeschooling, estão viajando em um motorhome – uma casa sobre rodas – para o Uruguai, Argentina e Paraguai, para voltarem ao Brasil em outubro, quando Cauê for nascer.

COMPANHIA CANINA

O planejamento detalhista também faz parte das viagens de Giordano Migliorini Estevão, de 25 anos. O jovem desenvolvedor, que nasceu. em Brasília, não viaja sozinho: ele vai acompanhado de Celina, uma cachorra da raça Samoieda. Portanto, além das despesas pessoais, as planilhas de Estêvão incluem os gastos de Celina.

Estevão trabalha das 8 às 17 horas ou das 9 às 18 horas durante a semana. As viagens são feitas aos sábados, com paradas de 3 em 3 horas. O roteiro atual inclui passagem por Buenos Aires e tem como destino final o Maranhão, no Nordeste do Brasil. “Planejo a cidade, mas gosto de ir vivendo, conhecer as pessoas na hora, ver o que elas gostam”, destaca o jovem, que busca autoconhecimento nas viagens.

“Se conhecer é importante nesse processo. É preciso sair da zona de conforto e saber lidar com situações imprevisíveis. Isso exige uma energia mental grande para dar a resposta adequada. É uma rápida adaptação e flexibilidade”, destaca Vanessa Cepellos, professora de Gestão de Pessoas da FGV-EAESP.

NUNCA É TARDE

Para a professora de Educação Física, Marisa Porto, a busca pela liberdade motivou o nomadismo digital. Foi aos 60 anos que ela viu a oportunidade de conhecer novos lugares dando aula online de feng shui terapêutico. Durante um tempo fez isso morando no Rio de Janeiro, mas começou a ter convites de alunas para visitar as cidades.

Em 2017, desenvolveu um roteiro em cidades onde tinha alunas e clientes, agendou aulas e cursos e durante sete meses viajou pelo Brasil. “Minha temporada foi barata, me hospedei só duas noites em hotéis, trocando o pagamento da estadia por palestras. Nas outras noites, dormi na casa de clientes e familiares”, afirma Marisa, que diz gastar menos nas viagens do que em casa.

Durante os primeiros dois anos de pandemia, Marisa ficou em casa e resolveu esperar. Hoje tem feito apenas viagens em regiões próximas a sua casa. “Eu me apaixonei por viajar sozinha, faço tudo o que eu quero e do jeito que eu quero”.

EU ACHO …

EXISTEM MULATOS?

O termo é uma maneira de dividir os negros em categorias mutuamente excludentes e rivais

Muita gente leu, no Ensino Médio, O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Menos pessoas leram um texto anterior do maranhense: O Mulato.

A estética da obra é o Naturalismo. As coisas são apresentadas de modo mais cru do que o público estava acostumado. O ambiente é o Maranhão no fim do Império. Raimundo é o mulato, filho de uma mulher negra escravizada e de um português. O menino vai estudar no exterior e volta à província, para a casa do tio. Seu pai fora assassinado. Lá se apaixona pela prima, Ana Rosa. As críticas ao preconceito são duras, e a análise das hipocrisias tem  tom ácido. Ao pedir a mão da amada, encontra uma dura recusa. O motivo? “Recusei-lhe a mão de minha filha, porque o senhor é filho de uma escrava! – O senhor é um homem de cor! – O senhor foi forro à pia, e aqui ninguém o ignora! – O senhor não imagina o que é por cá a prevenção contra os mulatos!”

Não contarei mais para não dar spoiler de uma obra de 1881.

O capitulo 14 contém a dor da consciência do preconceito, no século que criou o racismo como sistema: “Raimundo, ali, no desconforto do seu quarto, sentia-se mais só do que nunca; sentia-se estrangeiro na sua própria terra, desprezado e perseguido ao mesmo tempo. “E tudo, por que?… pensava ele, porque sucedera sua mãe não ser branca!… Mas do que servira então ter-se instruído e educado com tanto esmero? Do que servira a sua conduta reta e a inteireza do seu caráter?…Para que se conservou imaculado?… para que diabo tivera ele a pretensão de fazer de si um homem útil e sincero?…”E Raimundo revoltava-se”.

A dor de Raimundo, mais culto e ético do que aqueles que o desprezavam, era originada de um não pertencimento à terra que lhe negava plena cidadania. O racismo criava uma exclusão estética, política e social. Sobre o sistema escravista, diz o doutor humilhado em São Luís: “E ainda o governo tinha escrúpulo de acabar por uma vez com a escravatura; ainda dizia descaradamente que o negro era uma propriedade, como se o roubo, por ser comprado e revendido, em primeira mão ou em segunda, ou em milésima, deixasse por isso de ser um roubo para ser uma propriedade!”. Argumento jurídico irrefragável!

Vamos a um ponto fora do espectro analisado pelo autor ludovicense. O termo mulato tem origem em mula. A mula é o cruzamento da égua com o jumento. Estéril por natureza. Ainda na Idade Moderna, o termo foi sendo associado aos filhos de negra com branco. O tom é depreciativo. Os militantes do movimento negro condenam a palavra.

Volto no tempo. Nosso célebre jesuíta colonial, padre Antonil, disse que “o Brasil é inferno dos negros, purgatório dos brancos e paraíso dos mulatos e das mulatas”. Além da origem pejorativa, os mulatos eram vistos como beneficiados do sistema, sedutores, malandros, erotizados. O padre ainda advertiu para que se cuidasse em não alforriar as mulatas, pois, mesmo livres, seriam a perdição de muitos. O mulato teria a inteligência do branco e a esperteza do negro. Era um perigo!

A escola do jesuíta vingou. Os postais das praias do Rio, na minha juventude, ostentavam nádegas de mulatas em biquinis ousados, convidando os turistas ao deleite das belezas disponíveis. O show que Osvaldo Sargentelli promovia pertencia ao mesmo campo. O corpo da mulata era território livre.

O termo (repito) tem origem pejorativa. Além disso, é uma maneira de dividir os negros em categorias mutuamente excludentes e rivais entre si. Os argumentos seriam suficientes para eliminar o uso da palavra?

Caetano Veloso seguiu outro caminho. Seu pai era mulato. Ele, Caetano, acha um purismo excessivo evitar a palavra. O baiano ainda diz que, mesmo se for derivado de mula, ele não tem nada contra o animal.

Vou ao campo pessoal. Tenho uma norma: mesmo que a mim não soe ofensivo o nome ou o grupo em que eu coloco alguém, ouso é determinado pela pessoa. Dúvida de gênero? Consulte a pessoa. A língua é viva e incorpora conceitos culturais. Na minha infância, nenhuma pessoa com Down era chamada assim. Não havia uma aluna plus size ou alguém com identidade não binária. Os termos eram sempre ofensivos e brutais. A língua incorpora cuidados, sabendo que palavras ofendem, deprimem e até matam. A violência começa na fala e abre portas.

“Hoje em dia tudo é ofensa, é muito mimimi. “Quando alguém diz isso, sei que há uma chance grande de ser branco, hétero e homem. Não se trata de politicamente correto, ainda que a palavra correto não possa ser ataca da, pois, afinal, é correta. Para mim, trata-se de humanidade. Eu tenho direito a pensar qualquer coisa. No trato social, eu devo evitar ofensa. Isso se chama humanismo, mas não politicamente correto. Eu já errei no campo das palavras. Quero aprender e mudar sempre. Vivo das palavras e sei do seu poder. Quero ser crítico e nunca ofensivo. Tenho esperança de que todos entendam o poder do que é dito ou escrito.

P.S.: Agradeço a leitura crítica prévia de Djamila Ribeiro.

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

PÍLULA PROMETE EVITAR RESSACA E REVIGORAR CORPO

Remédio disponível apenas no Reino Unido usa bactérias e aminoácido para decompor álcool antes que ele chegue ao fígado. Estudo mostrou que produto reduz em 70% teor da bebida no sangue depois de uma hora

Começou a ser comercializado no Reino Unido um remédio que promete acabar com a ressaca e deixar o amante das bebidas alcoólicas “revigorado” na manhã do dia seguinte. O medicamento, chamado de Myrkl, funciona por até 12 horas. Os pesquisadores alertam, entretanto, que ele precisa ser ingerido ao menos duas horas antes de o usuário começar a beber.

Estudos mostraram que as pessoas que beberam duas taças de vinho e ingeriram dois comprimidos tinham 70% menos álcool no sangue uma hora depois, em comparação com aqueles que não tomaram as pílulas. O remédio começa seu efeito no momento que é ingerido, podendo reduzir a concentração de álcool no sangue em 50% já nos primeiros 30 minutos após o consumo de álcool. Os criadores ainda afirmam que o suplemento auxilia na energia e na imunidade.

Normalmente, o álcool é decomposto pelo fígado em acetaldeído, que então produz o composto ácido acético no corpo. Acredita-se que esse processo esteja por trás dos sintomas da ressaca. O Myrkl, porém, induziria o oposto. Ele promete decompor o álcool no intestino, antes de chegar ao fígado. Essa ação ainda protegeria o fígado de futuros problemas relacionados à bebida.

BACTÉRIAS DO BEM

A pílula contém as bactérias Bacillus Coagulans e Bacillus Subtilis, além do aminoácido L-Cisteína, que decompõe o álcool em água e dióxido de carbono, o que garante que quase nenhum acetaldeído e ácido acético sejam produzidos pelo fígado. Na composição do remédio também há vitamina B12, que segundo os fabricante está relacionada à sensação de vigor físico.

Todos os ingredientes listados são autorizados e reconhecidos como seguros pela Agência Europeia de Segurança Alimentar e pela Food and Drug Administration (FDA), que regula medicamentos nos Estados Unidos. A bula do produto, desenvolvido pela empresa farmacêutica De Faire Medical em parceria com o Instituto de Ciência e Saúde Pfützner, da Alemanha, indica a ingestão de duas pílulas pelo menos duas horas antes do consumo de álcool.

O medicamento foi desenvolvido originalmente na década de 1990, mas tem sido “aperfeiçoado” nas últimas três décadas.

“Beber de forma social e moderada é uma grande parte da cultura britânica. Grande parte dos britânicos sai todas as semanas para desfrutar de bebidas juntos. O propósito de Myrkl é ajudar os amantes de bebidas alcoólicas e os bebedores moderados a acordarem se sentindo bem no dia seguinte, sejam eles profissionais ocupados, pais jovens ou idosos que desejam manter uma vida social ativa”, afirmou Håkan Magnusson, diretor executivo da Myrkl.

Magnusson, entretanto, garante que o remédio, apesar de parecer milagroso, não deixa totalmente livre da ressaca, pois há outros mecanismos envolvidos no processo, como a desidratação, o baixo nível de açúcar no sangue e o metanol.

SEM EXAGERO

“Embora o Myrkl não seja de forma alguma concebido como uma desculpa para beber além das diretrizes do NHS, estamos realmente convencidos de que ele é um produto revolucionário”, afirmou o diretor.

O serviço Nacional de Saúde inglês (NHS) recomenda que os adultos não bebam mais de 14 doses de álcool por semana, distribuídas por três ou mais dias. Isso equivale a cerca de seis copos médios de vinho ou seis canecas de cerveja.

Por enquanto, a pílula está disponível só no site da empresa, sem venda em lojas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PSICODERMATOLOGIA, A LIGAÇÃO ENTRE PELE E SAÚDE MENTAL

O estresse aumenta a liberação de células inflamatórias, reduz imunidade e pode levar a dermatite, queda de cabelos e psoríase

Ansiedade, estresse, tristeza e angustia, entre outras questões emocionais, podem revelar-se em sinais no nosso corpo, como dermatites, queda de cabelos, psoríase e vitiligo. Como a pele e o sistema nervoso têm a mesma origem embrionária, muitas doenças psicossomáticas são visíveis na epiderme, explica a dermatologista Adriana Vilarinho, autora do recém-lançado livro Saúde à Flor da Pele.

“O estresse vivido aumenta a inflamação e a liberação de hormônios como cortisol, adrenalina e derivados, que interferem em receptores e neurotransmissores em diversas áreas do corpo. Se ficamos envergonhados ou emocionados, nossa pele exprime essas emoções com a ruborização e arrepios, por exemplo”, afirma.

O estresse aumenta a liberação de células inflamatórias, reduz a imunidade e aumenta o estado de alerta na pele. “Quando o grau é elevado, doenças mais sérias, como as autoimunes, podem apropriar-se do momento e serem deflagradas em indivíduos predispostos. A dermatite causa vermelhidão, coceiras e até bolhas. Outras condições pioradas podem ser a urticária, reação alérgica que pode aparecer em vergões”, diz.

As emoções podem afetar a saúde da pele, mas o contrário também éverdadeiro. A qualidade e a aparência da pele influenciam diretamente na autoestima e na autoaceitação. “O cérebro, o sistema nervoso central, a pele, o sistema nervoso periférico: a ponte entre eles se dá por meio dos neurotransmissores no tecido que estão conectados aos neurônios”, explica a especialista em dermatocosmética Fernanda Chauvin, CEO da Ellementti Dermocosméticos.

EFEITO

A psicodermatologia é uma vertente da dermatologia que estuda as relações entre pele e saúde mental – ou seja, a alteração psicológica causada pela doença dermatológica e vice-versa. A pele possui neuro receptores, que podem ser estimulados ou inibidos por ativos considerados neuromoduladores.

“Podemos destacar o Neuroguard, um bioativo das flores de Osmanthusfragrans, nativas da Ásia. Ele estimula a liberação de beta-endorfina, que gera bem-estar. Existem outros ativos responsáveis pelo estimulo da liberação de dopamina por meio da neuromodulação cutânea, caso da Mucuna ou do Aphanothense secrum, que estimula a liberação de ocitocina. Isso é possível porque a pele possui receptores neurais”, explica Fernanda.

A dopamina é um neurotransmissor ligado à sensação de prazer e motivação quando está em níveis equilibrados. A endorfina também está atrelada ao bem-estar e, além disso, atua como uma espécie de analgésico, minimizando a dor física e o estresse. E a ocitocina é capaz de aliviar estresse e ansiedade, reduzindo a agressividade e melhorando as habilidades sociais. A especialista em dermatocosmética explica que cremes, óleos e loções são pensados como ativos tecnológicos que trabalham os neurotransmissores da pele, que chegam ao cérebro.

EQUILÍBRIO

Se mente e corpo estão intimamente ligados, ambos precisam de cuidado constante. Conhecer as próprias fragilidades emocionais é ter a possibilidade de atuar preventivamente para que condições crônicas como dermatites, urticárias e acne estejam sempre sob controle. ”Vale tentar manter um equilíbrio entre alimentação, sono, trabalho e atividade física, além de cuidados para cada tipo de pele”, ressalta a dermatologista Adriana. No inverno, por exemplo, convém evitar banhos longos com água muito quente. Para cuidar da mente, além de psicoterapia, é importante fazer meditação e técnicas respiratórias, que podem minimizar os efeitos de estresse e ansiedade.

OUTROS OLHARES

FRAUDE ATRÁS DE FRAUDE

Em meio à explosão de golpes, até salário some da conta das vítimas

Acostumada a receber seu salário – cerca de R$ 25 mil – logo nos primeiros dias do mês, a servidora federal X. estranhou quando, no dia 6 de junho, o dinheiro ainda não tinha entrado na conta. Ao fazer contato com o empregador, recebeu a informação de que o valor já havia sido depositado. Ela resolveu, então, falar com o gerente do seu banco, Itaú, e veio a surpresa: o salário tinha ido para uma conta aberta em seu nome no PagSeguro para a qual fora pedida a portabilidade. O novo golpe já vem fazendo vítimas Rio afora e ajuda a ilustrar a explosão de casos de estelionato, que já superaram os de roubo e caminham a passos largos para ultrapassar também os de furto como tipo de crime mais comum no estado.

Em maio, de acordo com os dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), um a cada seis registros de ocorrência no estado dizia respeito a estelionatos. No acumulado do ano, já são 51.153 golpes denunciados à polícia, muitos deles envolvendo múltiplas vítimas. O número representa um aumento de 115% em relação ao mesmo período do ano passado. É como se uma nova fraude fosse relatada a cada quatro minutos, em média.

PORTABILIDADE CRIMINOSA

Localizamos três casos como o da servidora nas delegacias do estado. Na fraude, que foi batizada como golpe da portabilidade do salário, criminosos utilizam documentos falsos, com dados da vítima, e abrem uma conta em outro banco – em geral, os digitais – para a qual será pedida a portabilidade. Essa solicitação pode ser feita pelo aplicativo dos bancos, sem que seja necessário ir até uma agência.

X. ressalta que não foi consultada pelo Itaú sobreo pedido de portabilidade e tampouco deu anuência para que isso ocorresse. Ela acrescenta que o mais assustador é que, depois que foi feito o procedimento, sequer consta a entrada do salário em sua conta e a saída para a do PagSeguro. O dinheiro foi direto para a nova conta, sem que tenha deixado rastros.

“Fiquei muito chocada coma vulnerabilidade. Questionei como ninguém do banco tinha me informado da portabilidade, se eu não precisava dar anuência. Não sabiam me dizer, falavam apenas que a portabilidade tinha sido feita. Simples assim. Apertam um botão e está feito. É assustador. Recebo várias ligações do banco, o tempo todo, para falar de possibilidades de investimentos, mas, para fazer uma portabilidade de todo o meu salário, ninguém me liga?”, questiona.

A servidora vai entrar na Justiça contra o Itaú e também contra o PagSeguro. X. explica que conseguiu o dinheiro de volta em 72 horas, mas após contatos pessoais que a ajudaram no processo. Agora, seu receio é que os golpistas façam uma nova portabilidade e consigam desviar seu salário novamente. A Polícia Civil solicitou ao PagSeguro os documentos usado na abertura da conta em nome de X., além de ter pedido à Justiça a quebra do sigilo bancário e o bloqueio da conta aberta no nome da servidora.

“É impressionante essa facilidade de abrir uma conta nova apenas com identidade e CPF. E até agora não sei ao certo quais dados meus eles (criminosos) têm, se possuem documentos meus ou se criaram falsos. Mas estou apreensiva, pois não sei como será no próximo mês”, afirma a mulher. Desde 2018, fazer a portabilidade salarial se tornou mais fácil. Até então, só era permitido fazer o pedido à instituição contratada pelo empregador para depósito do salário. Com a nova regra do Banco Central, passou a ser possível pedir ao banco no qual a pessoa possui a conta-salário ou à instituição financeira na qual pretende passar a receber, abrindo uma nova conta. Todo o processo pode ser feito por aplicativo.

Os golpistas encontram facilidade porque conseguem fazer a solicitação abrindo essa nova conta com dados vazados ou furtados. Os servidores acabam sendo alvos mais escolhidos porque muitas vezes seus dados são públicos. Há casos assim também no Pará, no Paraná e em Mato Grosso.

BANCOS DEVEM CHECAR

Gerente Executivo de Soluções de Prevenção à Fraude do Serasa Experian, Rafael Garcia alerta que a regra permitindo que o pedido de portabilidade seja feito na nova conta, que pode ter sido aberta com dados fraudados, tem contribuído para que os golpes ocorram. Ele acrescenta que a obrigação de realizar o procedimento com segurança é dos bancos:

“Nesses casos, aquele que permitiu a abertura da conta de forma fraudulenta e o que permitiu que a portabilidade fosse feita sem consentimento (do verdadeiro titular da conta) devem ser responsabilizados. Os bancos de origem (do empregador) também não têm feito qualquer checagem nesse sentido.

Assim como a servidora X., o idoso Z. também tomou um susto ao não encontrar o seu salário na conta. Em janeiro deste ano, após ter sido vítima do golpe, o servidor público foi até o Banco do Brasil, onde recebia os vencimentos, e foi informado de que havia sido solicitada uma portabilidade para um banco digital, o Nação BRB FLA. A vítima registrou o caso na 5ª DP (Mem de Sá), que segue investigando o caso. À polícia, Z. informou que estava desesperado, pois ficou sem dinheiro para custear suas despesas mensais.

Já uma engenheira, moradora da Zona Sul do Rio, relatou à polícia que foi vítima de uma quadrilha que agiu de forma um pouco diferente. Os criminosos abriram duas contas bancárias em seu nome em diferentes bancos e solicitaram a portabilidade do salário à empresa onde ela trabalha. O golpe não deu certo porque a área de Recursos Humanos da companhia fez contato com a engenheira para confirmar o pedido. O caso também segue em investigação também pela 5ª DP.

A Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) afirmou que seus associados mantêm equipes de combate à fraude documental. Questionado sobreo caso de X., o Itaú não esclareceu por que a portabilidade foi feita sem o consentimento da correntista e alegou que assim que recebe um pedido de portabilidade de outra instituição notifica o cliente para que possa se manifestar. O PagSeguro não respondeu, e o BRB argumentou que utiliza ferramentas de controle na abertura de contas. Já o Banco do Brasil informou que dispõe de procedimentos de segurança para prevenir casos de fraude e que o caso do idoso está sob análise.

COMO AGEM OS ESTELIONATÁRIOS

Documentos falsos com fotos dos golpistas são apresentados ao banco

Com dados da vítima, os criminosos abrem uma conta nova em seu nome, em geral em bancos digitais.

Em alguns casos, os criminosos falsificam documentos com os dados da vítima, mas usam uma foto de algum integrante do esquema. A abertura de contas em bancos digitais pode ser feita de forma virtual.

Os criminosos pedem, no banco no qual abriram a nova conta, portabilidade do salário da vítima cujos dados foram usados. O pedido pode ser feito pelo aplicativo da instituição financeira.

A solicitação da portabilidade é feita pelo banco que recebeu o pedido para aquele no qual a vítima possui conta-salário.

Com a portabilidade concluída, no mês seguinte o salário da vítima sequer cairá em sua conta, indo direto para a nova, criada pelos golpistas.

SOBRE A PORTABILIDADE

É possível pedir a portabilidade ao banco no qual o cliente recebe o salário ou na instituição financeira na qual a nova conta foi aberta. A solicitação pode ser feita por aplicativo.

DICAS PARA EVITAR O GOLPE

Esteja atento às tentativas de criminosos de furtar seus dados pessoais, com links enviados para e-mail ou celular pedindo o preenchimento de dados para participar de pesquisas ou falsas promoções de estabelecimentos, por exemplo.

É preciso ter atenção aos sites de compras, nos quais é comum fornecer muitos dados pessoais. Certifique-se de que o mesmo é confiável.

A medida mais importante, em relação ao golpe da portabilidade, é monitorar seu CPF e as contas abertas relacionadas a ele. É possível fazer essa checagem no Registrato, do Banco Central. Para ter acesso ao sistema, é preciso ter uma conta no sistema do governo federal (gov.br). Também é possível fazer o acesso com o login do próprio Registrato, no entanto, a criação de novas contas está suspensa.

GESTÃO E CARREIRA

PRESENÇA FEMININA NAS EMPRESAS AINDA ESBARRA EM MITOS A SEREM SUPERADOS

Executivas relatam dificuldades em implantar ações que incluam mulheres, mas dizem que o quadro está mudando

O resultado obtido em 2018 pela EDP Brasil, com a formatura da primeira turma da escola de eletricistas criada pela empresa exclusivamente para mulheres, é mais do que simbólico. Pode até parecer óbvio, a iniciativa tomada pela companhia do setor energético, mas ela só virou realidade após a ultrapassagem de alguns obstáculos.

“A primeira dificuldade que tivemos foi convencer, até internamente, que haveria demanda para a escola”, afirmou Fernanda Carsughi, vice-presidente de Pessoas & ESG da EDP Brasil, no Summit ESG, do Estadão. Na verdade, alguns indicadores ajudavam a corroborar o mito de que as mulheres não iriam se interessar em serem capacitadas na área. Mas um exame mais detalhado do assunto rapidamente identificou o real problema.

Na fase de estruturação do programa, explicou Fernanda, entendeu-se que havia algumas regras do edital do concurso que travavam a participação de mais gente. “Havia pré- requisitos técnicos que muitas mulheres, por não terem estudado na área, não tinham. Outra questão foi que retiramos a obrigação de as candidatas terem CNH no início do processo. Depois, durante o curso, demos condições para que elas conseguissem o documento.”

RESULTADO

Por volta de 800 candidatas se inscreveram na primeira turma da escola em 2018. Da classe feita em Mogi das Cruzes, com 16 alunas, 7 foram selecionadas para trabalhar na própria empresa. “Tivemos de dar alguns passos para trás, mas foi importante para solidificar o modelo”, disse Fernanda. As ações afirmativas para aumentar a participação feminina no mundo corporativo já consegue apresentar alguns resultados palpáveis, segundo Carolina Figueiredo, diretora de Estratégia da Philip Morris Brasil. A meta da empresa para este ano é chegar em dezembro com 40% dos cargos de liderança da companhia ocupados por mulheres. “Agora, estamos muito perto, com 39,6%”, explicou a executiva da empresa no Summit ESG. Se a meta não for atingida, o bônus de fim de ano dos executivos será afetado. “Temos ainda vários programas de desenvolvimento para as lide- ranças femininas tanto júnior quanto mais sênior”, disse.

No caso da Neoenergia, que inclusive passou a apoiar o futebol feminino em um país onde, por 38 anos, entre 1941 e 1979 a lei proibia as mulheres de jogar bola, a questão de gênero está em sintonia com o discurso principal da empresa, voltado para a transição energética, em direção a um mundo mais sustentável, e a economia de baixo carbono de forma geral, segundo Laura Porto, diretora de Renováveis do grupo. “É uma mudança de cultura que está em curso. O ESG é tratado como uma pauta real e não um discurso teórico.” O que não significa, segundo Maristella Iannuzzi, fundadora da CMI Business Transformation, que a preocupação, por exemplo, em contratar pessoas com mais de 50 anos esteja consolidada no mundo corporativo. “O etarismo ainda é um assunto muito discreto nas empresas. Apesar da questão de gênero ter avançado, pautas como o 50+ LGBTQIA+ ainda são muito incipientes”, disse a consultora.

EU ACHO …

A VIDA QUE PEDIU A DEUS

Se fosse feita uma enquete nas ruas com a pergunta “você tem a vida que pediu a Deus?”, a maioria responderia com um sonoro quá quá quá. Lógico que alguém desempregado, doente ou que tenha sido vítima de uma tragédia pessoal não estará muito entusiasmado. Mas mesmo os que teriam motivos para estar – aqueles que possuem emprego, saúde e alguma relação afetiva, que é considerada a tríade da felicidade – também não têm achado muita graça na vida.

O mundo é habitado por pessoas frustradas com o próprio trabalho, pessoas que não estão satisfeitas com o relacionamento que construíram, pessoas saudosas de velhos amores, pessoas que gostariam de estar morando em outro lugar, pessoas que se julgam injustiçadas pelo destino, pessoas que não aguentam mais viver com o dinheiro contado, pessoas que gostariam de ter uma vida social mais agitada, pessoas que prefeririam ter um corpo mais em forma, enfim, os exemplos se amontoam. Se formos espiar pelo buraco da fechadura de cada um, descobriremos que estão todos relativamente bem, mas poderiam estar melhor.

Por que não estão? Ora, a culpa é do governo, do papa, da sociedade, do capitalismo, da mídia, do inferno zodiacal, dos carboidratos, dos hormônios e demais bodes expiatórios dos nossos infernizantes dilemas. A culpa é de tudo e de todos, menos nossa.

Um amigo meu, psiquiatra, costuma dizer uma frase atordoante. Ele acredita que todas as pessoas possuem a vida que desejam. Podem até não estar satisfeitas, mas vivem exatamente do jeito que acham que devem. Ninguém os força a nada, nem o governo, nem o papa, nem a mídia. A gente tem a vida que pediu, sim. Se ela não está boa, quem nos impede de buscar outras opções?

Quase subo pelas paredes quando entro neste papo com ele porque respeito muito as fraquezas humanas. Sei como é difícil interromper uma trajetória de anos e se arriscar no desconhecido. Reconheço os diversos fatores – família, amigos, opinião alheia – que nos conduzem ao acomodamento.

Por outro lado, sei que esse meu amigo está certo. Somos os roteiristas da nossa própria história, podemos dar o final que quisermos para nossas cenas. Mas temos que querer de verdade. Querer pra valer. É este o esforço que nos falta.

A mulher que diz que adoraria se separar, mas não o faz por causa dos filhos, no fundo não quer se separar. O homem que diz que adoraria ganhar a vida em outra atividade, mas já não é jovem para experimentar, no fundo não quer tentar mais nada.

É lá no fundo que estão as razões verdadeiras que levam as pessoas a mudar ou a manter as coisas como estão. É lá no fundo que os desejos e as necessidades se confrontam. Em vez de se queixar, ganharíamos mais se nadássemos até lá embaixo para trazer a verdade à tona. E, então, deixar de sofrer.

***MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

COMO DIRECIONAR EXERCÍCIOS PARA COMBATER ANSIEDADE E ESTRESSE

Diretora de centro em Ontário conta, em livro, sobre quais exercícios, e em que medida, ajudam a recuperar saúde mental

Quando Jennifer Heisz estava na pós-graduação, pegou emprestada a bicicleta velha e enferrujada de uma amiga – e acabou redirecionando sua carreira. Na época, ela estudava neurociência cognitiva, mas, insatisfeita com a direção de seu trabalho e com sua vida pessoal, começou a sentir o que agora reconhece como “ansiedade muito grave”, como me disse recentemente. Sua amiga sugeriu, como alívio, andar de bicicleta. Sem ser muito atlética antes, ela começou a pedalar com entusiasmo. “Isso acalmou minha mente”, disse ela depois.

Essa descoberta a convenceu a mudar o foco de sua pesquisa. Agora diretora do NeuroFit Lab da McMaster University em Hamilton, Ontário, ela estuda a interação entre a saúde física e emocional e como o exercício físico ajuda a evitar ou tratar depressão, ansiedade, estresse e outras condições de saúde mental.

“Os efeitos do movimento na mente são muito profundos e fascinantes”, definiu Heisz.

Essa é a ideia que anima seu novo livro, Move the Body, Heal the Mind (“Mexa o Corpo, Cure a Mente”, em tradução livre), que detalha a ciência mais recente sobre exercícios e saúde mental, bem como sua própria jornada da inatividade e de colapsos emocionais em série até o treinamento de triatlo e aumento da serenidade. Recentemente, falei com Jennifer Heisz sobre seu livro e o que ela pode nos dizer sobre saúde mental, os benefícios do exercício leve, as tensões dos anos de pandemia e como escolher o treino certo, agora, para elevar seu ânimo. Segue nossa conversa editada.

PODEMOS FALAR SOBRE EXERCÍCIOS FÍSICOS E ANSIEDADE, QUE MUITOS DE NÓS ESTAMOS SENTINDO HOJE EM DIA?

Fazer exercício é extremamente benéfico para reduzir a ansiedade. Na verdade, no final de cada treino você normalmente obtém um breve alívio da ansiedade, devido ao neuropeptídeo Y, que aumenta com o exercício. É um fator de resiliência. Ajuda a acalmar a amígdala ansiosa – que é a parte do cérebro que reconhece o perigo e nos coloca em alerta máximo. Nos últimos anos, com a pandemia, nossa amígdala esteve hiperalerta, desencadeando uma resposta quase constante ao estresse. Essa cronicidade do estresse começa a deixar nossas mentes realmente com medo e você fica com uma ansiedade constante. O exercício, ao regular o neuropeptídeo Y, ajuda a acalmar a amígdala ansiosa, a diminuir o medo, a hipervigilância e a nos manter mais calmos.

ALGUM TIPO ESPECÍFICO DE EXERCÍCIO?

O legal é que exercícios leves a moderados, como caminhar, são suficientes. Pesquisas do meu laboratório mostram que esse tipo de exercício reduz a ansiedade imediatamente após o treino e, com o tempo, se você continuar se exercitando, reduz a ansiedade ainda mais e por mais tempo. Parece que cerca de 30 minutos desse tipo de exercício, três vezes por semana, já é bom. Caminhar, andar de bicicleta, nadar, dançar são atividades que funcionam no caso.

E QUANTO A TREINOS MAIS INTENSOS?

Você precisa ter cuidado com exercícios muito intensos. Se você está ansioso, já está sob estresse. O exercício de alta intensidade também é um tipo de estresse. Mas nossos corpos só têm, em geral, uma res- posta ao estresse. Então, durante exercícios intensos você adiciona um estresse físico extremo ao estresse que seu corpo já está sentindo – e aí tudo pode se tornar demais. Logo antes da pandemia, eu treinava para um triatlo e fazia muitos treinos de alta intensidade. Mas quando a pandemia começou, eu estava sentindo tanto estresse emocional que não conseguia terminar esses treinos. Então, recuei. O que eu diria às pessoas é que, quando você já está se sentindo estressado, o exercício prolongado e intenso pode não ser a opção certa.

O QUE VOCÊ RECOMENDARIA ÀS PESSOAS?

Que procurem fazer exercícios confortavelmente desafiadores, para que a frequência cardíaca seja elevada, mas não acelerada. Para muitas delas, isso significaria dar um passeio rápido pelo parque ou pelo quarteirão.

O EXERCÍCIO FÍSICO AJUDA DO MESMO MODO CONTRA DEPRESSÃO?

Classicamente, a depressão tem sido atribuída à falta de serotonina no cérebro, coisa que os antidepressivos tratam. Mas, para algumas pessoas com depressão, as drogas não funcionam bem, provavelmente porque a serotonina não é o problema delas. Muitos dos que estudam a depressão agora pensam que o problema pode envolver inflamação, que está ligada ao estresse. A inflamação começa a danificar as células, induzindo uma resposta imune e aumentando a inflamação, que pode entrar no cérebro, afetando o humor. Para essas pessoas, o exercício pode ser o remédio de que precisam, pois ajuda a combater a inflamação. Em estudos, quando os indivíduos que não responderam a antidepressivos começam a se exercitar, geralmente observam reduções significativas em seus sintomas.

DE QUANTO EXERCÍCIO ESTAMOS FALANDO?

Um estudo que analisou quanto exercício você precisa para combater a depressão comparou 150 minutos de exercícios moderados a vigorosos por semana, que é a recomendação- padrão de exercícios para a saúde física, com um quarto disso. E ambos os grupos se beneficiaram da mesma forma. Então, parece que a prescrição de exercícios para a saúde mental é menor do que para a saúde física, o que é muito legal.

VOCÊ FALA EM SEU LIVRO SOBRE SUAS CRISES DE ANSIEDADE, ESTRESSE E TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO, INCLUSIVE APÓS O NASCIMENTO DE SUA FILHA E, MAIS TARDE, SEU DIVÓRCIO. O EXERCÍCIO A AJUDOU A LIDAR COM ISSO?

Ele é a chave. A doença mental pode acontecer a qualquer pessoa, mesmo às que parecem estar lidando bem com as coisas. Para mim e muitas outras pessoas, as transições de vida, como divórcio e nascimento dos filhos, podem ser desafiadoras. Depois do meu divórcio, eu realmente precisava de algo para redirecionar minha vida. E eu sabia o quão potente o exercício, como estímulo, altera o cérebro. Alguém mencionou triatlos. Eu ainda estava andando de bicicleta na época. Então, adicionei a corrida e a natação.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SAÍDA PARA ANSIEDADE TAMBÉM PODE ESTAR NO PRATO

Ovo, frutas cítricas e oleaginosas têm propriedades que atuam no bem-estar e no bom funcionamento do sistema nervoso

Há quem diga que a ansiedade é o mal do século. Após a pandemia, não restou dúvidas. O avanço das medidas restritivas para conter o vírus, o luto por milhões de vidas perdidas, o isolamento social e o trabalho home office ajudaram a aumentar suas manifestações, ao lado do estresse e da depressão. São milhões de pessoas diagnosticadas ao redor do mundo. Mas a solução pode estar nos hábitos, inclusive alimentares.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, 18,6 milhões de brasileiros, quase 10% da população, conviviam com quadros ansiosos em 2019. Trata-se do país com maior número de pessoas afetadas. Um estudo feito pela Universidade de São Paulo (USP) em 2021 confirmou que, em uma lista de 11 países, o Brasil lidera em casos de ansiedade, com quase 65% dos entrevistados, à frente de nações como Estados Unidos e Irlanda.

Outra pesquisa, desenvolvida em conjunto pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), fez a mesma constatação. De acordo com os pesquisadores, 40,4% dos brasileiros se sentiam frequentemente tristes ou deprimidos, e 50,6% relataram estar constantemente ansiosos ou nervosos durante a pandemia.

Segundo estudos feitos pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, uma das principais medidas para conter e driblar o mal do século começa em casa, mais precisamente à mesa, com alguns alimentos. Apesar de eles ajudarem a combater e prevenir a doença, é necessário sempre procurar o auxílio de um médico diante dos sintomas de ansiedade. Confira os alimentos mais indicados.

OVO

Pesquisas apontam o ovo como um dos principais alimentos para o combate da ansiedade. Isso porque ele carrega o triptofano, aminoácido responsável pela produção de serotonina, conhecido como o hormônio do prazer. Para que possamos manter níveis adequados da substância no organismo, é recomendado o consumo de, pelo menos, dois ovos por semana. No ovo encontramos vitaminas do complexo B e D, que têm sua carência associada a transtornos de humor. E ainda contém colina, uma espécie de vitamina V que ajuda a produzir acetilcolina, neurotransmissor responsável pela saúde cerebral.

BANANA

A fruta mais popular do Brasil é rica em triptofano e potássio, o que também ajuda no combate a ansiedade e depressão. Além disso, ela tem bons níveis de vitamina B6, que facilita a síntese de serotonina. Já o magnésio da fruta promove o relaxamento. É indicado que se coma pelo menos uma por dia, entre as refeições ou pela manhã.

PEIXES GORDUROSOS

Outros exemplos são peixes gordurosos como o salmão, a sardinha e a truta, ricos em ômega-3. Esse tipo de gordura ajuda no aumento de produção de resolvinas e auxilia na redução da quantidade de citocinas, o que promove uma melhor comunicação entre neurônios e mantém áreas do cérebro, como o hipocampo, bem preservadas.

FRUTAS CÍTRICAS

Pessoas que sofrem de ansiedade perdem vitaminas e minerais com muita facilidade, por isso existe a necessidade constante de repor esses nutrientes. O consumo de frutas cítricas, como a laranja, limão e a tangerina, ajudam a promover o bom funcionamento do sistema nervoso, visto que a vitamina C auxilia na produção de serotonina, aumentando, assim, a sensação de bem-estar e evitando a fadiga.

NOZES, AMÊNDOAS E CASTANHAS-DO-PARÁ

Elas fazem parte da turma de oleaginosas. São alimentos ricos em magnésio, vitaminas do complexo B e triptofano, que contribuem para minimizar o estresse, combater a depressão e ainda induzem ao sono. Entretanto, por conter gordura, mesmo que seja considerada a “boa”, deve ser consumida com moderação. Uma porção com um mix de cada uma é o suficiente por dia.

ABACATE

Além do magnésio, que promove o relaxamento, a fruta contém beta-sitosterol, substância que atua na regulação do cortisol — conhecido como o hormônio do estresse, que deixa o corpo todo em ritmo acelerado. Também dá uma força ao funcionamento intestinal, facilitando a síntese de neurotransmissores que melhoram o humor.

UVA

Um dos elementos principais da uva são as vitaminas do complexo B, que promovem o bom funcionamento do sistema nervoso central.

ALFACE

Ela tem em sua constituição a lactucina, que tem propriedade calmante e está concentrada, principalmente, no talo. A verdura deve aparecer no cardápio diariamente, em quantidade equivalente a um prato de sobremesa por refeição. Também é possível fazer chá das folhas de alface, priorizando o talo no preparo.

AVEIA

Ela traz boa dose de magnésio. Além disso, contém vitaminas do complexo B, que ajudam a modular a química cerebral e favorecem a síntese de serotonina. Também é rica em fibras, o que auxilia no bom funcionamento intestinal.

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