GESTÃO E CARREIRA

O SENTIDO DO TRABALHO

Com a pandemia, a rotina de dedicação exaustiva à empresa deu lugar à busca por mais flexibilidade, desenvolvimento e propósito. Saiba como atender a esses anseios

Por muitos anos, o trabalho foi visto como parte central e mais importante da vida. Horas ininterruptas de dedicação eram glamourizadas; e mantras corporativos do tipo “trabalhe enquanto eles dormem”, vistos como a fórmula para ter sucesso. Com a chegada das novas gerações e o advento da tecnologia, esse cenário começou a ganhar novos contornos e a alterar práticas de gestão de pessoas até das empresas mais tradicionais. Com a pandemia de covid-19, essa mudança se intensificou. Apesar de a emergência sanitária ter provocado uma grande crise econômica e insegurança sobre o futuro, deu aos profissionais a oportunidade de refletir mais sobre seus objetivos de vida e o lugar que o trabalho ocupa em sua jornada. Existe um movimento de pessoas – e companhias – que estão desacelerando, procurando um estilo de vida mais simples, com mais qualidade e equilíbrio.

Na prática, há uma mudança de valores em curso, na qual a maioria das pessoas não quer mais viver apenas para trabalhar e crescer na hierarquia tradicional com o único objetivo de ganhar cada vez mais. A busca, atualmente; está focada em flexibilidade, desenvolvimento e propósito. “Antes, a identidade de alguém era o sobrenome da empresa. Hoje, o trabalho perdeu essa centralidade e as pessoas querem mais do que isso; querem viver outras experiências”, diz Anderson Sant’Anna, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Não à toa, uma pesquisa da Gartner mostra que 91% dos líderes de recursos humanos estão preocupados com o turnover de funcionários num futuro bem próximo. Outro estudo da consultoria aponta que apenas 23% dos gestores de recursos humanos acreditam que a maioria dos funcionários continuará trabalhando em sua organização no curto prazo, e só 31% acham que seus atuais funcionários estão satisfeitos com a proposta de valor oferecida pela empresa, o Employee Value Proposition (EVP).

Segundo o levantamento, 65% dos candidatos já interromperam um processo de contratação por causa de um EVP pouco atraente, e 85% deles ressaltam que é importante a companhia observar a pessoa por trás do empregado. Essa mudança na forma de ver o  trabalho está muito ligada aos reflexos que a pandemia vem deixando. “Fases de grande impacto na vida das pessoas costumam provocar reflexões profundas sobre propósito e prioridades. São momentos históricos, em que movimentos em escala determinam novas tendências”, explica Rafael Souto, presidente da Produtive, consultoria de planejamento e transição de carreira. Por isso, com a retomada gradual das atividades presenciais, ouvimos tanto falar sobre “a grande renúncia”, fenômeno descrito em 2020 pelo pesquisador americano Anthony Klotz. Em abril de 2021, o Bureau of Labor Statistics (“Escritório de Estatísticas de Trabalho”) contabilizou 4 milhões de americanos que haviam deixado o emprego voluntariamente, por exemplo. No acumulado até outubro, esse número subiu para 20 milhões. Os índices de turnover no Brasil também estão mais altos e, em alguns setores, já se observa um apagão de talentos. “Além da reavaliação e da rejeição de retorno aos modelos tradicionais, muitas pessoas estão pedindo demissão porque não aceitam mais trabalhos que levam ao esgotamento mental”, diz Rafael.

NOVAS DEMANDAS EXIGEM NOVOS MODELOS

Segundo Vitorio Bretas, diretor de pesquisa e assessoria da Gartner, isso se deve à mudança da lógica do trabalho. Antes, o objetivo tradicional do EVP era apenas o profissional e o que oferecer para uma boa experiência. “Agora o foco deve ser outro. A grande mudança é que os funcionários não são apenas trabalhadores, e sim pessoas com interesses além do trabalho e que fazem parte de famílias e comunidades. Precisamos falar em harmonia e integração do trabalho com a vida pessoal e em como a proposta da empresa apoia isso”, afirma. Isso quer dizer focar não apenas os benefícios, como salário atrativo ou um escritório multicolorido, e sim os sentimentos que a empresa quer proporcionar às pessoas. “Trata-se de um EVP mais humano e com o indivíduo no centro da estratégia”, diz Vitorio. Segundo a neurocientista Ana Carolina Souza, sócia da Nêmesis, empresa de educação corporativa na área de neurociência organizacional, as companhias –    e parte das pessoas – tinham um desenho muito racional do trabalho, com um ambiente mais pragmático e de entrega. As questões emocionais não eram bem vistas. “As necessidades mudaram e já não é possível separar os dois mundos: trabalho e sentimentos. As companhias e os líderes de RH precisam colocar o comportamento humano na mesa e conectá-lo às ações”, diz. Ela explica que, atualmente, a retenção passa por três pilares: propósito claro e genuíno, possibilidade de desenvolvimento e de gerir a própria carreira, e autonomia e flexibilidade de onde e como trabalhar.

OUVIR PARA HUMANIZAR

O primeiro passo é a empresa entender, de fato, sua identidade e seu propósito. Nesse sentido, é importante que o RH se atenha a garantir que todas as ações e práticas estejam alinhadas a esses valores, para que os funcionários se sintam pertencentes a uma comunidade. Para isso, é importante ouvir genuinamente as pessoas, como explica o consultor canadense Roger L. Martin em seu livro A New Way To Think (“Uma nova maneira de pensar”, ainda sem tradução em português). “A área deve parar de dividir os empregados em classes: o operacional e os diretores, por exemplo. Deve ver cada funcionário como um indivíduo único que quer ser tratado dessa forma”, afirma Roger. Em outras palavras, não importa se estão perto da base da organização ou no topo.

Na ClearSale, empresa de tecnologia especializada em soluções antifraudes que, em 2021, recebeu 200 mil candidaturas e contratou 2.210 pessoas, isso é parte da estratégia. Por lá, é comum que a primeira pergunta de um gestor na entrevista de contratação seja quais são os hobbies do candidato, e não quais são suas competências. A ideia é, desde o começo, promover conversas mais livres e autênticas, alinhadas a uma cultura de humanização. Segundo Leonardo Ferraz, diretor de RH da ClearSale, cada um é incentivado a expor suas vulnerabilidades para gerar conexão.

Um dos programas da empresa para motivar essa abertura é o Roda, desenvolvido com a ajuda de uma psicopedagoga. São encontros da liderança com suas equipes para falar de trabalho e de questões  pessoais e que acontecem pelo menos uma vez a cada bimestre. Leonardo se lembra de uma Roda, em meio à pandemia, com o CEO. Todo o board foi convidado para a conversa. O presidente queria entender o que estava indo bem para cada um, em termos profissionais e pessoais, e quais eram as aflições nesses dois aspectos, “Todos colocaram seus dramas e fomos descobrindo formas de nos ajudarmos como time”, afirma Leonardo. Há também as “Ts”, encontros realizados semanalmente e organizados de forma voluntária, sem o líder, que trazem temas apresentados por funcionários. Desde a música eletrônica e como ela ajuda a se conectar com as pessoas, como é o caso de Leonardo, até um tema específico de trabalho. “Todo mundo tem pelo menos uma hora por semana para focar seu desenvolvimento pessoal ou profissional, e isso é um critério, inclusive, para avançar na carreira”, diz o executivo.

LIVRE MOVIMENTAÇÃO DE CARREIRA

Por falar em desenvolvimento, a falta de incentivo ao crescimento profissional é um dos principais motivos de demissão voluntária. Mas o RH deve fugir de modelos engessados e ir além na progressão tradicional, como explica Rafael. “No modelo antigo era a empresa que determinava o desenvolvimento do profissional, seu plano de carreira. Hoje, isso precisa ser construído em colaboração com o funcionário, que deve ser protagonista de sua jornada”, diz. Segundo ele, ter uma marca empregadora forte depende também do estabelecimento de uma cultura de protagonismo, diálogo e livre movimentação de carreira. “Não é um processo fácil. Por muitos anos, as companhias acreditaram que, ao contratar alguém, a pessoa se tornava um recurso da empresa; portanto, podiam determinar seus passos. Esse sistema está colapsando”, diz. Para ele, cabe à organização fornecer ferramentas, oportunidades e treinamentos para que o funcionário estabeleça seu crescimento, de acordo com suas demandas e vontades. É a chamada carreira em nuvem. Isso significa menos hierarquia e mais fluidez nas atividades, além de oportunidades para que as pessoas contribuam em atividades que não estão no seu escopo de trabalho.

A Nestlé vem trabalhando nesse sentido. “Muita coisa mudou nos últimos dois anos. Tendências foram aceleradas, como a digitalização e a flexibilidade, o que fez as pessoas repensarem a vida e o trabalho”, afirma Enrique Rueda, vice-presidente de recursos humanos e compliance da Nestlé Brasil. Segundo ele, é crucial o RH saber conectar essas mudanças às expectativas dos profissionais para atrair e reter os melhores talentos. Por lá, a aposta é contribuir para que os funcionários cresçam profissionalmente e no lado pessoal, reconhecendo-os como indivíduos com diferentes perfis e necessidades. “Não sou o RH; sou o Enrique, que gosta de gastronomia, de ler e de estudar. E é assim que vemos todo o time”, diz. Para ele, a grande mudança é trabalhar para individualizar e personalizar as práticas.

Duas ações da companhia colaboram para isso. A primeira é o Talent Hub, que teve início em março deste ano. Trata-se de uma plataforma online que permite que os funcionários personalizem seu desenvolvimento, considerando o momento em que estão na carreira e o que desejam aprender. Os 670 selecionados na primeira etapa têm acesso a treinamentos, mentorias e livros com desconto até 31 de dezembro de 2022 – depois desse tempo, uma nova turma é selecionada. Para participar, o funcionário precisa ter sido identificado com alta performance na avaliação de desempenho. São mais de 1,5 mil cursos com certificado, inclusive MBAs, de diversas instituições, como USP, FGV e Saint Paul. O projeto tem o intuito de permitir que o profissional explore seu potencial da forma que quiser, considerando seu momento na carreira e o que deseja aprender. E as aulas vão além dos temas básicos de carreira e negócios, como negociação e liderança. Há a possibilidade de aprender sobre culinária e universo pet, por exemplo. “O negócio se beneficia muito com essa diversidade de assuntos, pois assim são nossos clientes: gostam de cachorro, de games, de culinária. Dessa forma, conseguimos nos aproximar do consumidor e deixar os colaboradores mais satisfeitos e engajados”, afirma Enrique.

Outra iniciativa é o People Match, plataforma que conecta pessoas a projetos de acordo com habilidades e interesses pessoais. Para participar, os funcionários criam um perfil no aplicativo e contam quais são suas competências e os assuntos de que gostam – como games, voluntariado, psicologia -, além dos idiomas que dominam, porque o programa é global. Já os gestores cadastram os projetos em andamento e detalham as atividades realizadas e as habilidades requeridas. E então a ferramenta faz o cruzamento das informações. Desde agosto de 2021, quando foi lançada, a plataforma já recebeu mais de 800 cadastros de perfis e ultrapassou a marca de 40 projetos.

GESTÃO INDIVIDUALIZADA

O desafio hoje é ir além da motivação, aquela que fornece estímulos, muitas vezes materiais e iguais para todos, afirma Anderson Sant’Anna, da FGV. É preciso trabalhar o engajamento, que está intrinsecamente ligado a ter um propósito claro: o senso de pertencimento e percepção de que a companhia vê cada profissional de forma integral. “Em um mundo no qual tudo muda muito rápido, é importante apostar no que não muda, que são os valores”, diz Anderson. Isso inclui manter o diálogo aberto e interessar-se pelas demandas e pelos sonhos do funcionário.

A Diageo, fabricante de bebidas alcoólicas, vem trabalhando para atender a individualidade dos talentos. Uma das frentes é olhar para a parentalidade. Em 2019, a companhia lançou sua política de licença familiar, com a oferta de seis meses de afastamento para pais e mães. Com dois anos de programa, mais de 90% dos pais usufruíram do benefício, encontrando mais significado e promovendo igualdade de gênero no trabalho e em casa. Como extensão dessa política, a empresa anunciou em maio de 2021 uma assistência financeira para adoção, que apoiará os funcionários com 13.500 reais para cobrir taxas legais e pagamentos suplementares relacionados ao processo. “A adoção sempre foi um tema complexo, com burocracias e cercado de medos e receios. Nossa ideia é t irar essas barreiras da frente de pais e mães, facilitando o acesso a esse momento tão potente e que gera muito propósito”, diz Maria Gabriela Herrera, diretora de recursos humanos para Paraguai, Uruguai e Brasil da Diageo. ”Nosso recado é: existe uma vida maravilhosa, cheia de surpresas e afeto com sua família fora do trabalho.”

FLEXIBILIDADE NÃO ESTIPULA REGRAS

Trabalhar de onde e como quiser também passou a ser um pilar importante de retenção. Saem de cena a exigência da presença física e os modelos rígidos de horário – com a empresa determinando os momentos de entrada, saída e almoço -, e ganha força a flexibilidade. “As pessoas querem trabalhar com autonomia para organizar seu desenho de vida”, afirma Rafael Souto, da Produtive. Mas ele faz um alerta: muitas empresas estão criando modelos aparentemente flexíveis, mas determinando os dias e períodos em que o funcionário precisa estar no escritório.

“Trata-se de uma flexibilização com cara de inflexibilidade. Às vezes, aquele é um dia em que o profissional tem um problema na logística com o filho, por exemplo. Oferecer flexibilidade é dar escolha, permitindo que o indivíduo defina os melhores dias para ir à empresa e combine com seu gestor o modelo ideal”, diz Rafael. Para se adequar às diferentes demandas dos funcionários, a Meta, que até há pouco tempo era conhecida como Facebook, criou um programa de flexibilidade que dá liberdade de definição de dias e horários para a presença no escritório e inclui iniciativas que ajudam o funcionário a harmonizar as demandas de casa e do trabalho. Como o Family Leave, que contempla até  seis semanas de licença remunerada para permitir o cuidado de familiares que estejam doentes; e o FB Choice Days, com dois dias remunerados de folga por ano, para um descanso adicional em datas escolhidas pelo funcionário. Além disso, há mais “feriados” na empresa, acompanhando dias próximos às datas estabelecidas globalmente, para criar pontes.

Um exemplo é o Memorial Day, comemorado em 30 de maio, uma segunda-feira, nos Estados Unidos. Na sexta, dia 27 de maio, funcionários de todas as localidades puderam descansar. Em 2020 e 2021, foram mais três dias de folga e, em 2022, a prática foi aumentada para cinco dias. “As necessidades mudam ao longo do tempo. Hoje, uma pessoa pode precisar de mais horas para se dedicar aos filhos; a manhã, para fazer uma pós-graduação”, diz Thais Mingardo, gerente sênior de remuneração e benefícios da Meta para a América Latina. A empresa também oferece dez dias para tirar no primeiro ano de contratação, para que o funcionário não precise esperar 12 meses por um período de folga, e ainda dá, a cada cinco anos, mais 30 dias de férias além do período regular. “Nosso objetivo é que o time sinta que pode falar o que quiser, como ‘hoje não estou bem e preciso me desconectar’, ou ‘estou com um problema de saúde na família e preciso de alguns dias”, afirma Thais. A ideia é quebrar o estigma de que é preciso ficar doente para tirar urna licença. “Acreditamos que os momentos de pausa são fundamentais. As pessoas precisam dedicar tempo a si mesmas, à família e às prioridades para que possam trabalhar de forma mais equilibrada, produtiva e saudável”, diz.

Diante de cada vez mais profissionais repensando o sentido do trabalho em sua vida, práticas a favor da flexibilidade viraram estratégicas. “Ainda há muita mudança por vir, mas o futuro certamente será escrito a partir de grupos capazes de conciliar, de maneira harmônica, razão e emoção, vida pessoal e trabalho, olhando para as pessoas de forma integrada e criando ambientes adequados, prósperos e sustentáveis em todos os sentidos”, afirma a neurocientista Ana Carolina.

Fica claro que o mundo atual pede que as empresas prestem mais atenção ao que as pessoas querem e sentem, estimulando que sejam elas mesmas, sem dividi-las entre um  ser que trabalha e outro que vive em casa. E, sobretudo, que ouçam atentamente os anseios, sonhos e preocupações desses indivíduos para melhor atendê-los.

ERROS EVITÁVEIS

Profissionais estão cada vez menos dispostos a ficar em empresas com líderes que não sabem – ou não se interessam por – desenvolver pessoas

DESCARTAR IDEIAS

Pessoas talentosas investem muita energia no desenvolvimento de habilidades e em novas ideias para ter sucesso e se destacar. Geralmente, elas acreditam que estão trazendo perspectivas diferentes e querem, pelo menos, sentir que estão sendo ouvidas por seus gestores. Não é preciso aproveitar todas as sugestões, mas considerá-las é algo importante para o engajamento e a retenção.

BLOQUEAR O DESENVOLVIMENTO

É essencial que os líderes estimulem o aperfeiçoamento de toda a equipe, respeitando a vontade e as diferenças de cada um. Se um profissional perceber que seu gestor não leva isso a sério, certamente vai pensar em trabalhar para alguém que dê importância ao desenvolvimento. Isso exige, em muitas empresas, que o RH deixe de tratar as pessoas de forma homogênea e não limite as oportunidades de carreira.

NÃO  ELOGIAR

Ainda é comum os líderes esquecerem de elogiar os funcionários por trabalhos e projetos bem-sucedidos, como se os acertos fossem apenas uma obrigação de cada um. Elogiar e celebrar vitórias ajuda no senso de pertencimento e união.

Fonte: ROGER L. MARTIN, consultor canadense e autor do Livro A New Way To Think

GUIA DO ENGAJAMENTO

Quatro práticas que geram conexão e ajudam a reter talentos

ANÁLISE A CULTURA

Antes de começar qualquer alteração na política para atrair e reter talentos, é importante que o RH reavalie a cultura e o propósito da empresa. Que organização queremos ser? A empresa permite que o funcionário estabeleça seu Life design da maneira que quiser? Qual é o impacto dos negócios na sociedade e no meio ambiente? Como os líderes olham e tratam seu time? “As pessoas não querem mais estar numa empresa apenas para ganhar dinheiro; elas desejam ver significado no que fazem. A agenda ESG entrou na vida de todos”, diz Rafael Souto, presidente da consultoria Produtive. E o RH deveser o embaixador dessas reflexões, levando às lideranças conscientização sobre a importância do tema e informações que direcionem as ações, como dados sobre os motivos que têm levado à rotatividade. Os colaboradores com maior probabilidade de permanecer em uma companhia são aqueles que encontram significado e prazer no trabalho.

REVISE AS POLÍTICAS

Com o mapeamento da cultura em mãos, é hora de rever as ações e os programas para checar se estão aderentes aos valores da empresa e aos principais pilares de engajamento hoje, como flexibilidade, propósito e desenvolvimento. “O RH deve analisar se ainda conta com políticas antiquadas. Há empresas, por exemplo, em que o indivíduo ainda precisa pedir autorização ao líder para se candidatar a uma Vaga. Isso acaba com a Livre movimentação e o protagonismo”, diz Rafael. Outra prática a ser evitada é o líder determinar, no Plano de Desenvolvimento Individual (PDI) do liderado, quais pontos devem ser melhorados. É verdade que muitas empresas pedem ao funcionário que ele se autoavalie. Mas, na prática, o gestor desconsidera as observações do avaliado e chega a um veredito sozinho. Mas é fundamental que o profissional faça essa reflexão de forma aprofundada, assertiva e conectada com seu propósito, e que seja ouvido e respeitado na conversa.

CONSCIENTIZE A LIDERANÇA

Nenhuma prática vai fazer sentido sem o preparo e a conscientização dos líderes, pois são eles que estão no dia a dia da equipe. ”Já não é mais possível contar com gestores que queiram um subordinado para chamar de seu e determinar tarefas e passos profissionais”, diz Anderson Sant’Anna, professor da FGV. Segundo ele, é preciso apostar numa gestão colaborativa, inclusiva e sem punição, com gestores e equipes que atuem em parceria, e não no modelo de comando e controle. Para Rafael, o líder deveser um conselheiro, não alguém interessado apenas em resolver suas questões usando a equipe como um recurso para isso. “Ajuda muito nesse sentido um líder que sabe fazer um bom storytelling, ou seja, alguém que compartilha experiência, mostra os caminhos que seguiu e como tomou decisões importantes na carreira”, afirma.

CRIE UM AMBIENTE SEGURO E AGRADÁVEL

“Muitas vezes, observamos que o RH dá muita atenção a temas que não necessariamente motivam a permanência dos colaboradores,” diz Fernanda Mayot, sócia da consultoria McKinsey. Checar se a remuneração e os benefícios estão em linha com o mercado é importante, mas não são os principais fatores de retenção. “De acordo com uma pesquisa da consultoria, 70% dos colaboradores que não estavam inclinados a deixar o emprego responderam que têm um ambiente de trabalho seguro e confortável; 69% afirmaram não pensar em trocar de emprego porque conseguem equilibrar vida profissional pessoal; 62% disseram que têm uma carga gerenciável de trabalho todos os dias; e 58% se sentem valorizados por seus gestores.

OUTROS OLHARES

VIGOROSOS

A sexualidade na maturidade vira campanha de grife, tema de livro e levanta a bandeira contra o etarismo

Os números são vitoriosos: 55 anos de casamento, duas filhas, quatro netos, milhares de amigos. A pedagoga e modelo Solange Nakad, de 77 anos, e o economista Lélio Nakad, de 79, compartilham a vida desde bem jovens. São complementares. Ela carrega dentro de si a chama da rebeldia, tem gestos largos e a palavra na ponta da língua. Ele preserva a discrição, sem deixar de abordar lodos os assuntos.

O casal é o protagonista de uma campanha de Dia dos Namorados na qual veste uma linha de underwear especial para a data. As fotos, em que os dois transbordam sensualidade e intimidade são uma bandeira contra o etarismo e um manifesto em prol do amor – e do tesão- na maturidade.

Me casei virgem, tinha medo e reservas. Na minha geração, as mulheres tinham que levar o homem ao prazer e não o contrário, carregávamos esse peso, lembra Solange. “Separamos cinco vezes. Em uma delas, tive outro relacionamento. Fomos nos desconstruindo com o passar dos anos. Hoje não fazemos mais sexo com os hormônios, porque temos falta deles, fazemos como resultado de um dia bacana que termina numa cama gostosa. Ele preparou o cenário? Trouxe flores? Eu o seduzi com um cabelo novo? Com um perfume novo? Sempre fui uma baixinha sensual.” O amadurecimento para Lélio também é uma constante evolução. “Nós fazemos questão de manter o romance. Com a idade, estamos mais seletivos. A frequência diminui, mas sem tesão não há solução.”

Os dois estão felizes em representar a geração prateada com uma mensagem vigorosa. O etarismo, para eles, deve ser combatido de frente. “Não podemos dar brecha a nenhum tipo de preconceito”, diz Solange. “Por que pessoas com mais idade não podem se tocar? O sexo é o final de uma energia do corpo”, acredita. “As pessoas acham que o idoso tem de ficar em casa sentado na poltrona e esperar a morte. Não é isso, tem de ir para cima, para o mundo. Achei que a gente seria pichado por causa da campanha. Sabe o que eu falaria? Está me pichando, f:az um pix”, emenda Lélio, soltando uma gargalhada. Solange, que é modelo desde 2015, foi quem convenceu o marido a posar profissionalmente pela primeira vez. “Cai de para quedas. No primeiro momento, neguei. Mas depois de 24 horas, ela me convenceu.”

Para Rony Meisler, cofundador da Reserva e CEO da Ar&Co, que idealizou a campanha, ela é uma ode à vida. “Queria comprovar a tese de que para o amor e o sexo não tem ou não pode ter idade”, diz. “E fiéis à tese de que uma boa imagem vale mais do que mil palavras, convidamos o casal que nos deu a honra de uma imagem tão simples quanto poderosa.” A antropóloga Mirian Goldenberg, pesquisadora da maturidade há três décadas, comemora que o tema, finalmente, tenha saído do armário.

“Campanhas assim têm total importância. Me alegro em ver que o assunto que foi por tanto tempo invisibilizado e estigmatizado tenha virado moda”, diz. “Caíram as fichas das empresas, das marcas, da indústria da beleza. É uma preocupação de todos e, mais uma vez, são as mulheres as protagonistas”, afirma. Mirian lembra que na década de 1970 Leila Diniz simbolizou a mudança de comportamento sexual. “A revolução do tesão na maturidade é comandada pela geração de mulheres da qual Leila fez parte.”

A consultora de moda Lu Catoira, de 72 anos, e o jornalista Edgard Catoira, de 78, também comemoram a mudança de mindset. “Me sinto prestigiada ao me reconhecer nas campanhas. A gente tem um respeito hoje. No passado, na época da minha mãe, havia uma verdadeira rejeição”, compara Lu.

Casados há 52 anos, dois filhos e quatro netos, eles desfrutam uma nova fase da vida, com mais tempo para viverem a dois. “Edgard me diz sempre: “Lu, o que acontece é que o toque da pele não muda e ele me enlouquece”, conta a consultora. “O toque é realmente maravilhoso”, admite Lu. Para Edgard, pequenos gestos deixam o clima de romance no ar. “É fundamental cativar o parceiro para manter o lado feminino e masculino. Eu, por exemplo, sempre sirvo o café da manhã da Lu na cama”, entrega.

Normalizar a sexualidade de pessoas mais velhas foi o mote da campanha da ONG britânica Relate, no ano passado. As fotos em preto e branco, assinadas pelo badalado fotógrafo de moda Rankin, mostram casais reais em momentos íntimos. Ao lado, frases como “você nunca será velha demais para usar brinquedos” ou ”as coisas podem durar mais quando você é mais velho”. Geriatra, psiquiatra e membro da Comissão de Direito da Pessoa Idosa (OAB/RJ), Roberta França destaca os benefícios da vida sexual nessa fase. “Aumenta a autoestima, alivia o estresse ao liberar endorfina e fortalece a região pélvica, no caso das mulheres”, explica. A médica frisa que o sexo não se resume à penetração. “É o carinho, o olhar de desejo, o beijo. Atendo um casal de mais de 90 anos. Sugeri a eles que passassem hidratante um no outro depois do banho. Esse ato virou um ritual sexual”, conta. Roberta chama ainda a atenção para atitudes que, apesar do movimento contra o etarismo, perduram. “O pensar estereotipado, o sentir preconceituoso e o agir discriminatório. Muitas vezes, quando pergunto sobre a vida sexual dos meus pacientes, os próprios filhos ou até os netos dizem que ‘fulano não tem mais idade para isso’.

Diante de tantas questões, a antropóloga Mirian Goldenberg lembra que o novo modelo de liberdade não deve representar mais uma prisão.  Estamos vivendo um momento paradoxal. Há os caretas que acham que depois de certa idade não existe mais desejo e aqueles que acreditam que têm de ter para continuar vivo”, pondera. “Não deve haver patrulha. O tesão se refina com a idade, vai para uma coisa saborosa que pode ou não se traduzir em sexo. Para algumas mulheres, está associado a outros prazeres, não exclusivamente ao sexo”, afirma a pesquisadora, que abordará esse assunto no seu próximo livro, “Amor, sexo & tesão – A revolução da maturidade”. A antropóloga cita ainda os sex toys como uma novidade nesse contexto. “Assim como o mundo virtual, que se tornou um universo a ser desbravado por homens e mulheres com mais de 60 anos”, conclui.

Do alto de sua experiência e bom humor, Solange Nakad defende que o sexo precisa ser uma coisa natural”. “Eu e Lélio, muitas vezes, ficamos na cama só de conchinha. Temos cumplicidade, carinho e amizade um pelo outro. A pele nos une. “E o amor também.

EU ACHO …

RELAÇÕES CURTAS

Ao anunciar para uma amiga o fim de um namoro, a primeira pergunta que ela me fez (a única, aliás) foi: “Quanto tempo vocês ficaram juntos?”. Percebi que, dependendo da minha resposta, ela decidiria se eu merecia um abraço apertado ou um simples “ah, amanhã você nem lembra mais” e pularia para outro assunto.

“Seis meses”, respondi.

Adivinhe. Ela disse “ah” e nem perdeu tempo com a sequência da frase, começou logo a falar de si mesma, seu tema favorito. Não mereci nem um “que pena, miga”.

Meu histórico romântico é modesto em quantidade. Vivi um longo amor na adolescência, depois um casamento que durou vinte e um anos e então um turbulento affair que durou oito. Não se pode dizer que é o perfil de uma aventureira. Ao término dessa tripla jornada, eu

já havia chegado aos 50, não era mais uma garotinha. Mas foi justamente depois disso que alguns romances começaram a ser realmente passageiros se comparados à minha média anterior. Seis meses pode, de fato, parecer um rolo sem consequências que, quando chega ao fim, não estimula sua turma a alcançar um lenço.

Mas, como diz meu amigo Fabrício Carpinejar, relações curtas nem por isso são pequenas. São curtas porque a maturidade nos dá outra dimensão do tempo: já não fazemos investimento a fundo perdido. Conhecemos nossas capacidades e limitações, sabemos o que podemos suportar e o que não, e até desenvolvemos a proeza de prever o futuro: isso funcionará, isso nem com a benção do santo. Mas tentamos. E de tentativa em tentativa a gente vai escrevendo capítulos curtos tão significativos quanto relações longevas consideradas “sérias”.

Sério, sério mesmo, nada é, já que morreremos amanhã ou logo ali. Mas vale dar alguma gravidade aos amores, não grave no sentido de sisudo, mas no sentido de importante. Sendo assim, relações que duraram cem dias, ou que duraram 72 horas, ou que nem chegaram às vias de fato, habitando apenas o universo da fantasia, podem ser tão impactantes quanto uma história arrastada com alguém que, como diz a piada, você chama de “meu amor” porque esqueceu o nome da pessoa.

Relacionamentos iniciados na juventude e que se estenderam por décadas nem sempre são tão dignos: às vezes, é só a preguiça e o comodismo unidos contra a vontade de cair fora. Já os amores da fase madura não dão ibope à farsa. Quem ainda tem 20 anos está desculpado por se iludir, mas quem já tem alguma quilometragem não estica a discussão.

Isso não é desamor, não é frieza. Ao contrário, é a crença entusiasmada de que é possível encontrar alguém que equalize e que torne a vida mais completa e prazerosa – oxalá, para sempre. Mas sem condescendências insanas. Quem chegou aos 50 aceita a solidão que lhe cabe e só abre mão dela se valer muito a pena. Se valer, amará com entrega e verdade, mesmo sem a chancela da eternidade.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

COMO ENVELHECER E MANTER SUA MENTE ATIVA

Livro ‘Mente Afiada’, do neurocirurgião Sanjay Gupta, explica o funcionamento do cérebro e dá dicas para mantê-lo afiado ao longo dos anos

Um prédio histórico pode entrar em decadência pela ação do tempo. Ou então passar constantemente por um processo de manutenção e revitalização que lhe permitirá lidar melhor com o envelhecimento inevitável. É com essa imagem que o neurocirurgião Sanjay Gupta abre seu novo livro, Mente Afiada, que está sendo lançado no Brasil (Editora Sextante). O médico já ganhou prêmios como o  Peabody e o Emmy por sua atuação na TV: ele é correspondente médico do canal de notícias norte-americano CNN.

O objetivo do livro é mostrar que é possível manter, em qualquer idade, um cérebro ativo: basta apenas reforçar constantemente seus alicerces. Como? Ele sugere, ao longo da obra, alguns caminhos possíveis, desfazendo mitos sobre o envelhecimento.

NUNCA É TARDE

A certa altura, o cérebro já não dá conta de aprender coisas novas? Bobagem, diz Gupta. ”A combinação da memória com a possibilidade de gerar novos neurônios significa que continuamos a mudar as informações, a capacidade e a potência de aprendizagem do cérebro.”

MOVIMENTE-SE!

Gupta afirma que “o exercício é a única atividade comportamental cientificamente comprovada que provoca efeitos biológicos benéficos para o cérebro”. Isso quer dizer na prática que realizar exercícios ajuda a preservar as funções do cérebro. E, além disso, pode ajudar a evitar pressão alta ou diabete, que aumentam a probabilidade de problemas como a demência.

CONTRA O ESTRESSE

A prática de exercícios físicos também ajuda, diz o autor, a lidar com o estresse. E isso éimportante por uma questão química. Quando identifica situações de estresse, o corpo libera o hormônio cortisol – e pesquisas têm mostrado que o nível elevado de cortisol afeta negativamente a memória e a aprendizagem.

PALAVRAIS CRUZADAS

A ideia de que fazer palavras cruzadas ou atividades semelhantes mantém o cérebro jovem é, infelizmente, um dos mitos sobre o envelhecimento. “Elas só exercitam uma parte do cérebro, em geral a capacidade de encontrar palavras”, diz Gupta. Tudo bem, por manter a mente trabalhando, palavras cruzadas podem reduzir o declínio da capacidade de pensar. Mas não é uma receita que sirva para todas as pessoas.

Manter a mente ativa é fundamental. Isso não significa jamais se aposentar ou seguir trabalhando para ocupar a cabeça. Mas é preciso “mexer o cérebro e exercitá-lo de forma a mantê-lo saudável”. Para Gupta, é preciso encontrar um propósito. Qual? Ele sugere um exercício: tente se lembrar da última vez que se sentiu tomado por uma sensação de energia intensa, bastante estimulado. A resposta pode lhe oferecer pistas.

A IMPORTÂNCIA DO SONO

 Muita coisa acontece – e precisa acontecer – durante o sono. O corpo se reabastece de várias maneiras que afetam todo o funcionamento do cérebro, do coração, do sistema imunológico e todo o metabolismo. O sono muda com a idade, mas isso não significa que ele deva ter pior qualidade.

COMO IMPEDIR QUE ISSO ACONTEÇA?

Gupta traz algumas sugestões. Tente dormir e despertar sempre no mesmo horário; acorde de preferência nos primeiros sinais de luz do sol; tome cuidado com o que bebe e come (café depois de certo horário, nem pensar); tome cuidado ao tomar remédios para dormir; elimine aparelhos eletrônicos do quarto; crie uma rotina que faça com que seu corpo se lembre diariamente de que é hora de dormir e vá se preparando para isso.

SABER RELAXAR

Sempre que possível, todos queremos relaxar. Mas é preciso aprender como fazer isso. E a principal lição é encontrar tempo e espaço para que isso aconteça. Mesmo durante um dia cheio de trabalho, passar alguns poucos minutos que sejam fora do computador, sem checar e-mails ou mensagens. já pode ajudar. E, se a mente começar a viajar, não apenas deixe: embarque com ela.

MANTENHA-SE CONECTADO, EM ESPECIAL FORA DAS REDES

Uma pesquisa de 2016 mostrou que o isolamento aumenta em 29% o risco de doença cardíaca e em 32%o de AVC. A solidão acelera o declínio cognitivo em adultos mais velhos. Aqui, a sugestão é dupla: procure fazer parte de grupos, conecte-se a outras pessoas, e proponha-se, com elas, a realizar atividades desafiadoras.

O PODER DO TOQUE

Estar com outras pessoas e compartilhar com elas um sorriso pode ser libertador, lembra Gupta. Assim como o toque: mãos dadas, abraços, um simples tapinha nas costas. Parece pouco. Mas o autor garante que não é. Tocar o outro, ele explica, éum modo de se conectar que evoca o desejo ancestral do ser humano de se proteger. E de se sentir parte de um grupo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POR QUE NOS APAIXONAMOS?

Embora haja um fator cultural na maneira como vivenciamos nossas emoções – aprendemos a amar sendo amados – , existem raízes químicas na paixão, ligadas ao cérebro e à produção de hormônios

O tema  principal das canções, em diferentes línguas, sempre foi o amor: aquela ardente paixão, o idealizado, o platônico, o pleno. Todo casal tem sua lista – ou playlist – de músicas para tocar em ocasiões especiais ou lembrar do parceiro. Porém, nenhuma das canções românticas é tão contundente e explicita de maneira tão direta o que a ciência tem mostrado quanto The Love Is The Drug, lançada pela banda britânica Roxy Music, um grande sucesso em 1975.

Como indica o título, seus autores, Bryan Ferry e Andy Mackay, equiparam o amor a uma substância capaz de alterar o estado de consciência – e que eles têm uma imensa vontade de obtê-la. É exatamente isso que acontece quando alguém está apaixonado. Isso também explica a necessidade de o ser humano se ligar a alguém.

É claro: a ligação romântica é cultural – o jeito como nos apaixonamos está associado à maneira social de vivenciar emoções, mas existem raízes químicas, explica Gregor Osipoff, psicanalista e especialista em neurociência. “Há uma questão física e cultural, uma coisa envolve a outra. Cada um traz a sua forma de amar. Aprendemos a amar sendo amados.”

A parte orgânica do sentimento está ligada ao cérebro e à produção de hormônios. Acontece que o amor é a segunda fase desse caminho de cortejo. Antes de experimentar esse “amor químico”, o corpo se apaixona. Intensa e temporária, a paixão surge já na troca de olhares. “Tudo começa com a beta-feniletilamina, neurotransmissor responsável pelo amor à primeira vista”, indica o endocrinologista José Marcelo Natividade. Neurotransmissores são substâncias que facilitam a troca de informações entre as células, inclusive neurônios. A partir daí, o que se sucede é uma tempestade de substâncias e sensações.

Para Cláudio Patrocínio, de 26 anos, e Sofia Martins, de 24, o primeiro encontro foi decisivo. Os dois se conheceram por meio de amigos, mas só se aproximaram após um “match”, em um aplicativo de relacionamento – a combinação virtual veio um dia antes da pandemia. O encontro físico do casal em uma praia, cercado por instrumentos musicais, trouxe o alinhamento. ”Quando a vi cantando pela primeira vez, eu sabia. Me ‘quebrou’ todinho”, conta Cláudio.

Durante o isolamento, os dois trocaram mensagem e compartilharam preferências, como a paixão pela música e guitarra. “A gente tinha a sensação de que o tempo junto passava rápido. Quando via, já tinha passado o dia e no dia seguinte a gente queria ficar mais tempo junto”, diz Cláudio.

É nesta fase do apaixonar-se que entram em campo a adrenalina, noradrenalina, dopamina e a serotonina. Os termos técnicos podem parecer distantes, mas a influência é conhecida à flor da pele. Esse é o time, de acordo com o endocrinologista Natividade, responsável pela pupila dilatada, perda de sono e sensação de estômago enjoado. Cada um tem uma função nessa sintomatologia da paixão: dopamina traz prazer e mexe nos níveis do humor; adrenalina acelera a corrente sanguínea e traz a vermelhidão na pele, característica no enrubescimento; e noradrenalina nos deixa mais eufóricos.

O turbilhão de sensações é passageiro. Essa fase da paixão dura em média 18 meses – é depois desse período que se encaixa o amor íntimo. Aos poucos, os níveis hormonais vão baixando e o corpo volta ao estado anterior à agitação. A diferença está em uma substância, a ocitocina, que aumenta. “Chamo a ocitocina de ‘hormônio do carinho’. Ela está envolvida não só no amor romântico”, diz Natividade. Há ainda a vasopressina, que alguns autores acreditam ser responsáveis pela união do casal e da atração sexual, e as endorfinas, que geram tranquilidade e intimidade. “É a fase da estabilidade, do amor pleno.”

PAIXÃO, AMOR

Há, no senso comum, a ideia de que paixão é diferente do amor. O primeiro sentimento seria aquele do impulso, que carrega o desejo de se aproximar de alguém, quase sempre associado a algo mais inquietante. O segundo seria um passo além, quando essa sensação se torna uma espécie de vínculo e o anseio de estar junto já navega por águas mais calmas.

A explicação não é tão simples e os estudiosos têm visões diferentes. A psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, autora de inúmeros livros sobre o tema, entre eles Novas Formas de Amar (2017), divide esse caminho em três formas de amar: a paixão, o amor romântico e o amor puro e simples. “A paixão atormenta a mente e o corpo. Leva às pessoas ao escândalo e, muitas vezes, a uma tragédia. As decisões são radicais. A pessoa não raciocina direito.”

O amor romântico, por sua vez, é o mais comum na sociedade. ”Ele é calcado na idealização. Você conhece uma pessoa, atribui a ela aspectos de personalidade que ela não possui, prega a ideia dos dois se transformarem em um só. “Regina afirma ser crítica dessa forma de amar, que, explica, surgiu a partir do século 12, com histórias como Tristão e Isolda, Abelardo e Heloisa e Romeu e Julieta. Depois, ganhou fôlego com a Revolução Industrial, quando as pessoas deixaram o campo em direção às cidades e, a partir de 1940, redobrou a força com os filmes de Hollywood, momento em que os indivíduos passaram a se casar por amor.

“O mais grave com o amor romântico – que nada tem a ver com mandar flores ou jantar à luz de velas – é que ele anula totalmente as individualidades. E mais: ele prega que quem ama não se interessaria ou transaria com mais ninguém. Isso gera sofrimento e, quando se descobre a traição, se tem a sensação de que não se é amado”, conta.

Regina diz que esse tipo de amor está saindo de cena, pois atualmente os anseios da humanidade são pela individualidade. Isso, segundo a especialista, abre caminho para novas formas de amar, como o amor livre ou o poliamor. Essa mudança se aproxima do que se define como amor em si, que é quando o outro enxerga o ser amado sem divinizá-lo. “Nele, aceitam-se as características de cada um sem recorrer ao fingimento. Ele gera prazer na convivência, mas, fundamentalmente, respeita a individualidade do outro”, observa Regina.

Para o astrólogo Ricardo Hida, de 46 anos, casado com o relações públicas Cássio Vilela, de 40, o tempo para si é fundamental para o bem-estar da vida compartilhada. Juntos desde 2009, eles eram amigos antes de se envolverem. “Temos atividades espirituais juntos, temos empresa juntos, mas respeitamos o momento de cada um”, revela Ricardo. A convivência diária é entrecortada por rotinas privadas. “São momentos em que podemos sair, ir ao cinema. Até em casa temos dois escritórios.”

A professora do departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina e autora do livro Amor (2004), Maria de Lourdes Alves Borges, diz que a filosofia trabalha, a partir da Idade Moderna, com o termo “a paixão do amor” – que leva o indivíduo a desejar sempre estar perto do ser amado. Ela explica que esse sentimento pode ou não dar origem a uma relação, comumente chamada de amor.

“Essa paixão já é o amor. Nós podemos ter outras paixões, como a da ambição, da tristeza, do ódio. É importante dizer que as paixões não são necessariamente duradouras. Elas são emoções. Podem surgir, até se demoram por um tempo, mas, depois, se dissipam.”

PLATÔNICOS

O conceito – ou mito – da alma gêmea está na filosofia, no livro O Banquete, de Platão. Em seu discurso Aristófanes diz que no início dos tempos os seres eram completos, com duas cabeças, quatro pernas e braços. Hermafroditas, como explica a professora. Como castigo por desejarem o Olimpo, o deus Zeus os cortou ao meio. Cada um então, para sobreviver, saiu em busca de sua outra metade.

A história de Elisa, de 36 anos, e Daniel Moreno, de 41, envolve uma procura por companheirismo, mas com roupagem atual. Após terem passado, individualmente, por experiências negativas de relacionamento, os dois recorreram aos apps de paquera. “Estava cansada de procurar nesses aplicativos. O Daniel foi a segunda ou terceira pessoa com quem conversei e já estava exausta”, admite Elisa. Juntos há oito anos e casados há um mês, os dois defendem que a vontade de ficar juntos foi o que os uniu.

”Sabe quando você encontra uma pessoa que tem a ver com você? É tudo muito visual nesses aplicativos, na conversa virou outra coisa, mais interessante”, conta Daniel. Eles moram juntos há quatro anos e encontraram afinidade nas decisões diárias. “Os sonhos se tornaram coletivos”, completa Elisa.

E a paixão platônica? “É a não realizada fisicamente. É um sentimento do período romântico, do romantismo alemão. O curioso é que para Platão e gregos ela não existia ainda, pois em O Banquete a paixão está ligada a Eros, que é o desejo físico”, explica Maria de Lourdes.

O psicólogo Ailton Amélio da Silva, professor aposentado da USP que trabalha com terapia de casais, tem a teoria de que a paixão surgiu a partir das civilizações nômades. Nelas, havia muitos casamentos dentro dos grupos, algo arriscado geneticamente. “O que fazia um indivíduo pular de um grupo para o outro era a paixão. Era algo forte e fulminante que o fazia abandonar a família e os amigos. Isso existe até hoje. É maravilhoso.”

CONEXÕES VIRTUAIS

Não há como falar de paixão ou de relações nos dias atuais sem considerar as redes sociais e os aplicativos de namoro. Em poucos cliques, o indivíduo pode eleger um novo ser amado, sem ao menos conhecê-lo pessoalmente. Para a professora Maria de Lourdes, um dos pontos de discussão desse novo método de estabelecer relações é a rapidez com que tudo pode acontecer. Ela cita um termo cada vez mais em pauta: o “ghosting”, que é desaparecer, sem justificar o término para o outro. “Acho isso absolutamente selvagem. Nada civilizado. Claro, isso é uma expressão de que o outro não está mais a fim e, talvez, deveria ser entendido assim. Há esse dever de dizer adeus? Existe uma ética das relações amorosas e sexuais?” Para Silva, essa paixão, chamada de à primeira vista, pode ser baseada em fantasias – e sempre existiu. “Écomo em uma balada se encantar com alguém sem conversar. A paixão pode ser um graveto, mas o indivíduo a enxerga como uma joia cravejada de brilhantes. O amor é míope e a convivência é um bom par de óculos.”

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