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CRIANÇA ADOTADA PODE DESISTIR E VOLTAR PARA A FAMÍLIA BIOLÓGICA?

Depoimento de Carol Nakamura sobre volta de menino para casa da mãe abre debate nas redes, mas atriz não tinha guarda legal

Uma situação familiar exposta pela atriz e ex- bailarina do Programa do Faustão Carol Nakamura retoma nas redes sociais o debate sobre o tema da adoção. A atriz conta que um menino, de 12 anos, de quem eia cuidava e chamava de filho, decidiu voltar a viver com a família biológica. No relato, Carol diz que a criança estava “safada” e “sem vergonha”, e cresceu sem regras, o que motivou críticas. O caso relatado abre o debate sobre se, afinal, crianças adotadas podem voltar para a família biológica.

O menino foi levado para a casa de Carol Nakamura e o marido, Guilherme Leonel, em 2019. Ela conta que conheceu o garoto durante trabalho social na região do lixão do Jardim Gramacho, região metropolitana do Rio. Apesar de a atriz chamá-lo de filho, não se trata de uma adoção concluída. Carol não tinha a guarda da criança ou outra documentação relativa ao menino, conforme ela mesma afirma nas redes sociais. “Ele (o garoto) começou a entender que eu só tinha uma guarda provisória, que foi vencida, e só tinha a promessa de uma guarda de fato efetiva, a guarda que eu deveria ter desde o inicio. Eu pedi e foi prometido várias vezes e nunca foi concluído de fato.”

Especialistas em adoção afirmam que o caso parece com “apadrinhamento”: quando uma família quer proporcionar oportunidades a uma criança que ela não teria em seu lugar de origem. Tentamos contato com Carol pelas redes sociais e por e-mail, mas não obtivemos resposta.

Os processos legais de adoção, no entanto, são muito mais complexos do que isso, justamente para evitar que as crianças sejam expostas a novas situações de violência e desamparo. “Defendemos que as adoções devem ser legais, seguras e para sempre”, diz Sandra Sobral, presidente do Instituto Geração Amanhã, organização voltada à garantia do direito de convivência familiar de crianças e adolescentes.

Desde a Constituição de 1988, a adoção passou por mudanças no Brasil. Antes disso, era comum que crianças fossem inseridas em famílias adotivas por intermédio de hospitais, a chamada “adoção à brasileira”. Ou que fossem tratadas como “filhos de criação”, geralmente crianças já conhecidas e com as quais as famílias adotivas estabeleciam algum vínculo afetivo, como filhos de empregados domésticos. Hoje, a adoção à brasileira é considerada crime. Já a conclusão da adoção de “filhos de criação”, sem passar pelo procedimento legal mais comum, é complexa e envolve riscos e inseguranças jurídicas, como a desistência da família biológica. Sandra explica que o procedimento legal para a adoção começa com um cadastro dos pretendentes no Sistema Nacional de Adoção (SNA), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Quem quer adotar deve passar por curso de capacitação e avaliações socioemocionais. Isso demora de seis meses a um ano.

A vinculação entre o pretendente e a criança é outra etapa sensível. Nem toda criança que vive em abrigos está apta para ser adotada: é preciso, antes, que ela esteja desvinculada da família de origem. Viver em situação de pobreza, por si só, não indica que uma criança precisa ser adotada. “Para a colocação em família substituta, o Judiciário já exauriu as tentativas de reinserção na família natural e de inserção na família extensa”, explica Silvana do Monte Moreira, presidente da Comissão de Adoção do Instituto Brasileiro de Direito de Família (lbdfam). Casos de devoluções de adoções concluídas pelas vias legais, seguindo todos esses trâmites, são bastante raros, diz ela, justamente porque foram tomados cuidados prévios para verificar se as crianças estavam aptas à adoção e os pretendentes, preparados.

Essas situações de devolução podem levar, inclusive, a sanções para os pais adotivos, já que a adoção é um processo irrevogável. Também ocorrem, com baixa frequência nas adoções legais, as chamadas desistências: quando a criança já está morando com a família que pretende adotar, mas a sentença de adoção ainda não saiu. Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram 521 desistências no ano passado, número 29% superior ao registrado em 2020. Neste ano, o CNJ já relata 113 desistências.

Em qualquer tipo de desistência ou devolução, a criança fica sujeita à instabilidade emocional, mas no caso de adoções informais o problema pode ser mais grave, já que falta acompanhamento profissional. “É uma grande frustração, porque ele experimentou uma vivência totalmente  diferente em uma casa com todos os recursos”, diz Jadete Calixto, psicóloga especializada no tema.

Outro problema é a sensação de culpa. “A criança sofre e se culpa”, aponta Sandra Sobral. O caso de Carol provocou reações de grupos de defesa da adoção legal. “Induz que adoção é crueldade, que não é necessária a inscrição no SNA”, diz a advogada Cecília de Albuquerque Coimbra, vice-presidente do grupo de apoio à adoção Acolher, de Mairiporã.

GESTÃO E CARREIRA

O QUE VOCÊ REALMENTE FAZ NO TRABALHO

Mais da metade da jornada acaba consumida por tarefas pouco nobres

Quantas horas você trabalha por dia? E quantas horas você realmente passa trabalhando por dia, cumprindo as funções do seu cargo?

É provável que as respostas para as duas perguntas sejam diferentes. Estar no trabalho não é sinônimo de produzir o tempo todo, claro. E nem estamos falando de procrastinação, mas sim de tarefas “secundárias” que precisam ser feitas no dia a dia mesmo que não tenham relação direta com os resultados que precisam ser entregues: deixar o e-mail limpo, organizar papelada, participar de reuniões intermináveis e pouco uteis…   

Segundo um novo estudo da empresa Asana, uma plataforma de gestão do trabalho remoto, todo esse “trabalho extra” ocupa 58%do tempo dos funcionários pelo mundo, 33% dessa jornada vai para funções específicas, pelas quais o trabalhador foi contratado. E os 9% que sobram vão para o que a pesquisa chama de “estratégia”: o ato de planejar de forma objetiva as tarefas a serem feitas mais adiante.

O padrão é visto no mundo todo, com algumas poucas diferenças regionais. Os alemães são os que menos perdem tempo com tarefas secundárias- passam 40% da rotina atuando diretamente na sua função. A pesquisa consultou mais de 10.600 trabalhadores mundo afora. Outra conclusão do estudo foi de que a quantidade de tempo gasto na parte de estratégia/planejamento caiu, de 13% em 2019 para os 9% de agora. Pode ser um reflexo dos impactos do home office, que faz focar mais no aqui e agora do que no futuro.      

EU ACHO …

DOIS MINUTOS DE ONTEM À NOITE

Então entramos juntos no bar e viste tua ex-namorada na mesa ao lado da porta, acompanhada de uma amiga, o que me deixou insegura. Então a garçonete anotou nossos pedidos, um cálice de vinho pra mim e água sem gás pra ti, porque estavas dirigindo, e fiquei feliz de não precisares de um trago naquele momento tenso. Então uma jovem artista subiu no mini palco e ali começou a cantar lindamente as canções mais românticas de Chico, Vinicius, Tom, e eu fiquei enciumada de teus pensamentos, imaginando que cada letra trazia uma lembrança do que você e sua ex, ambos dentro daquele bar, teriam vivido juntos. Então eu pedi o segundo cálice e fiquei mais calada do que o habitual e você pousou seu braço sobre meu ombro. Então, com a mão, você delicadamente virou meu rosto a fim de que ele ficasse de frente para o seu. E com essa mesma mão você separou uma mecha de cabelo que caía sobre os meus olhos, e nos encaramos demoradamente como se estivéssemos apenas nós dois naquele ambiente escuro, e foram esses dois minutos de ontem à noite que eu trouxe de volta pra casa e que me ajudaram a dormir em paz com a cabeça sobre o teu peito e com a minha perna entre as suas.

Então levantei antes de você no domingo de manhã, enquanto seu corpo nu permanecia de bruços sobre a minha cama. Então passei pelo seu celular que estava sobre a mesa do quarto e percebi que havia várias mensagens não lidas no seu WhatsApp. Então peguei água na cozinha e, de pés descalços, com o copo na mão, fui até o jardim, pisei sobre a grama úmida e olhei para o céu. Então recuei, sentei num banco da varanda e chorei enquanto lembrava todos os momentos em que não confiei no que estava vivendo e lamentei minha insistência em ser uma mulher premeditada, que antecipa o fim trágico de um amor recém-iniciado como forma de evitar ser surpreendida pela dor. Então esse pensamento foi interrompido pelas suas mãos quentes nas minhas costas e eu voltei para o quarto com você.

Então a semana começou e vieram todos os outros dias do ano. Então eu estive alternadamente com você e sem você em compromissos repetitivos, situações cotidianas, deslocamentos pela cidade, checagens de extratos, preocupações mundanas  de quem tem uma existência bem administrada. Então você era aquele homem que eu via nos intervalos das minhas atribuições, aquele que interrompia o ritmo alucinante da minha trajetória executiva, aquele que me telefonava no meio da tarde para dizer qualquer bobagem a fim de escutar minha voz. A dor nunca veio. O fim nunca chegou. Pela primeira vez eu vivia a continuidade de um desejo tranquilo e eterno, que soube acalmar as palpitações endiabradas do meu cérebro, bastando para isso dois minutos, não mais que dois minutos de um olhar, de uma mão afastando a mecha do cabelo sobre o meu rosto, dois minutos de um beijo prolongado, os dois minutos que residem para sempre naquele ontem à noite.

***MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

FOLHAS E SEMENTES AUXILIAM NA SAÚDE MENTAL

Alimentos que parecem reconfortantes, como carboidratos e açúcar, não são tão efetivos para a melhora do humor

É hora de começar a alimentar seu cérebro. Durante anos, a pesquisa sobre alimentação  saudável se concentrou na saúde física e na ligação entre dieta, peso e doenças crônicas.

Mas o novo campo da psiquiatria nutricional estuda como os alimentos podem nos fazer sentir:

“Muitas pessoas pensam em comida em termos de cintura, mas ela também afeta nossa saúde mental”,  disse Uma Naidoo, psiquiatra de Harvard e diretora de psiquiatria nutricional e de estilo de vida do Hospital Geral de Massachusetts, nos Estados Unidos. “É uma parte que não entra na conversa”.

A conexão entre o estômago e o cérebro é forte, e começa no útero. O intestino e o cérebro se originam das mesmas células do embrião, disse Naidoo. Uma das principais maneiras pelas quais o cérebro e o intestino permanecem conectados é através do nervo vago, um sistema de mensagens químicas de duas vias que explica porque o estresse pode desencadear sentimentos de ansiedade em sua mente e frio em seu estômago.

Muitas vezes as pessoas tentam modificar seu estado de espírito comendo alimentos reconfortantes. O problema, segundo especialistas, é que, embora esses alimentos normalmente oferecem uma combinação tentadora de gordura, açúcar, sal e carboidratos que os tornam hiper palatáveis , eles podem realmente nos fazer sentir pior.

Traci Mann, que dirige o Laboratório de saúde e alimentação da Universidade de Minnesota, realizou uma série de estudos para determinar se uma comida reconfortante melhora o humor. Os participantes responderam a seguinte pergunta: “Quais alimentos fariam você se sentir melhor se estivesse de mau humor?

Antes de cada teste, os participantes assistiram cenas de filmes conhecidos por provocar raiva, hostilidade, medo, ansiedade e tristeza. Após o filme, os espectadores preencheram um questionário de “humor negativo” para indicar como estavam se sentindo.

Em seguida, receberam uma grande porção de sua comida favorita; uma comida que eles gostavam, mas não consideravam uma comida reconfortante; uma comida “neutra” (uma barra de granola de aveia e mel); ou nenhuma comida. Todos tinham três minutos sozinhos para comer ou ficar sentados em silêncio. Após o intervalo, eles preencheram novamente o questionário de humor.

Se um participante tivesse comido um prato reconfortante, qualquer comida, ou nenhuma comida não fez diferença no humor. O fator que parece importar mais era a passagem do tempo.

Um estudo realizado durante quatro anos com mais de 10 mil estudantes universitários na Espanha, concluiu que as pessoas que seguiam estritamente uma dieta mediterrânea tinham menor risco de depressão.

Pesquisadores australianos examinaram diários alimentares de 12.385 adultos escolhidos aleatoriamente de uma pesquisa governamental que ainda está em andamento.

Eles descobriram que uma maior ingestão de frutas e vegetais  levava a maior felicidade, satisfação com a vida e bem-estar.

Ainda temos muito a aprender sobre quais alimentos e em que quantidade podem melhorar a saúde mental.

“Nossos cérebros evoluíram para comermos quase qualquer coisa para sobreviver, mas cada vez mais sabemos que há uma maneira de alimentá-lo que melhora a saúde mental em geral”, disse Drew Ramsey, psiquiatra e professor clinico assistente na faculdade de Médicos e Cirurgiões Vagelos da Universidade Columbia, em Nova York, eautor do livro “Eat to Beat Depression and Anxiety” (Comer para superar a depressão e ansiedade).

A seguir, algumas combinações sugeridas pelos psiquiatras Naidoo e Ramsey para inserir   na alimentação.

VERDURAS FOLHOSAS

Ramsey chama as folhas verdes de “a base de uma dieta saudável do cérebro” porque são baratas e versáteis e têm alta proporção de nutrientes para calorias. A couve é a favorita dele, mas espinafre, rúcula, folhas de beterraba e acelga também são ótimas fontes de fibra, folato e vitaminas C e A.

FRUTAS E LEGUMES COLORIDOS

 Quanto mais colorido for o seu prato, melhor será o alimento para o seu cérebro. Estudos sugerem que os compostos em frutas e vegetais de cores vivas, como pimentão vermelho, mirtilo, brócolis e berinjela, podem afetar a inflamação, a memória, o sono e o humor. Alimentos avermelhados-arroxeados são “jogadores poderosos” nesta categoria. E não se esqueça dos abacates, que são ricos em gorduras saudáveis que melhoram a absorção de fito nutrientes de outros vegetais.

FRUTOS DO MAR

Sardinhas, ostras, mexilhões, salmão selvagem e bacalhau são fontes de ácidos graxos ômega-3 de cadeia longa, que são essenciais para a saúde do cérebro. Os frutos do mar também são uma boa fonte de vitamina B12, selênio, ferro, zinco e proteínas. Se você não  come peixe, pode achar fontes de ômega 3 em sementes de chia e de linhaça e verduras marinhas.

NOZES, FEIJÃO E SEMENTES

Tente comer entre meia xícara e uma xícara cheia de feijão, nozes e sementes por dia, disse Ramsey. Nozes e sementes, incluindo castanha de caju, amêndoas, sementes de abóbora, são um ótimo lanche, mas também podem ser adicionados a pratos refogados e saladas. Feijão preto e vermelho, lentilhas, e legumes também podem ser adicionados a sopas, saladas ou apreciados como acompanhamento.

ESPECIARIAS E ERVAS

Cozinhar com especiarias não apenas melhora o sabor da comida, como certas especiarias podem levar a um melhor equilíbrio dos micróbios intestinais, reduzir a inflamação e até melhorar a memória, sugerem estudos.

Naidoo gosta especialmente de açafrão-da-terra ou cúrcuma.  Segundo estudos, seu ingrediente ativo, a cúrcuma pode beneficiar a atenção e a cognição em geral.

“A cúrcuma pode ser muito poderosa, ao longo do tempo, disse ela. “Tente incorporá-la em seu molho de salada ou legumes assados, ou adicioná-la a marinadas, curry, molhos, ensopados ou shakes”. “Adicionar uma pitada de pimenta preta torna a curcumina 100%  mais biodisponivel para o nosso cérebro e corpo”, disse ela.

ALIMENTOS FERMENTADOS

Os alimentos fermentados são feitos combinando leite, vegetais ou outros ingredientes crus com micro-organismos, como leveduras e bactérias.

Um estudo recente descobriu que seis porções diárias de alimentos fermentados podem diminuir a inflamação e melhorar a diversidade do microbioma intestinal.

Alimentos fermentados incluem iogurte, chucrute, kefir, kombucha e kimchi, um acompanhamento tradicional coreano de repolho fermentado e rabanete.

CHOCOLATE AMARGO

As pessoas que comem regularmente chocolate amargo têm um risco 70% menor de sintomas de depressão, de acordo com uma grande pesquisa do governo americano com quase 14 mil adultos. O mesmo efeito não foi observado em quem comeu muito chocolate ao leite.

O chocolate escuro é cheio de flavonoides, incluindo epicatequina, mas o chocolate ao leite e as barras de chocolate populares, são tão processados que não contem muita epicatequina.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A INFÂNCIA ENTRE A QUÍMICA E A PALAVRA

O medicamento compreendido como remédio nos remete ao duplo do signi1i cante, sendo ele o de· dar remédio’ e o de ‘dar a solução’, ambos sinônimos de remediar. Quando o endereçam à criança, essa é uma tentativa de controlar as amarras infantis

Nesta vida cotidiana ditada pelo mestre capitalista, onde o mais gozar é o alvo, e a ilusão de felicidade, seu derivado, esquece-se daquilo que é humano e tenta-se aniquilar a essência humana que se pauta em infelicidades, inquietudes, faltas e deslizes. Em uma era onde o gozo é o sucesso, o que incomoda deve ser tamponado, porém, essa, além de ser uma higienista posição, é uma regra válida para uma formação civilizatória que desconsidera o laço social, as relações de afetos e as apostas nas palavras.

Desde os primórdios temos relatos de medicalizações ao mal-estar psíquico. Drogam-se de eras em eras, oscilando entre o gozo e o abandono do desejo. Algo, nesta contemporânea civilização tem nos convocado a refletirmos sobre uma posição de aquietações ao mal-estar. Lá onde dopavam-se a si mesmos –  coisa que hoje ainda se faz – o advir é o dopar o Outro. Nesse caso, o Outro infante, a criança e seu ‘criançar-se’.

O medicamento compreendido como remédio nos remete ao duplo do significante, sendo ele o de ‘dar remédio’ e o de ‘dar a solução’, ambos sinônimos de remediar. Quando endereçam a demanda de medicamentos à criança, o adulto, aquietado pelo seu próprio mal-estar, tenta controlar as amarras infantis, oferencendo-lhe a pílula para a inquietude – a solução química – fazendo com que o remédio silencie o sujeito infantil e limite o seu ego, limite seu mundo, limite sua infância.

A lei psíquica deve demarcar a posição do limite do corpo, do real e do ir e vir da criança. A criança vacilará diante dessa lei, pois ela está em processo de desenvolvimento. Há um processo árduo a ser enfrentado, tanto pela criança, quanto pelo adulto. Espera-se que o adulto não desista entregando seu filho ao mundo das ‘tarjas pretas’. O músico e poeta Arnaldo Antunes adverte:

“é tarja preta

pode fazer mal pra você

ela é uma princesa Cinderela bela encantada

dando bola para todo mundo mas ninguém faz nada (…)

é tarja preta

pode fazer mal pra você.”

Por isso, os pais devem ficar atentos às crianças, pois são eles, a priori, os tentáculos que protegem as crianças quanto aos perigos da vida. Os pais devem se responsabilizar por suas crianças, que são sujeitos de direitos, até que a criança tenha desenvolvido em si o discernimento de limites, de perigos sobre elaborações da existência de uma pulsão de mor­ te e que saiba que não só de prazer vive o homem. A criança também é responsável pelas suas eleições , um responsável em construção. Aos medicamentos elas respondem, inventam, porém existem crianças que aceitam a imposição, ou seria melhor uma ‘imposição’?

A criança espera algo do grande Outro. Invoca, convoca e provoca o Nome-do-Pai, que muitas das vezes aparece no real da figura paterna, no imaginário em deslocamentos e no simbólico de uma pílula. Na ausência de uma crítica advinda do Supereu, a pílula torna-se o limite para a criança, o que faz com que ela fique entre a química desbussolada e as palavras ausentes ; não ditas pelo seu grande Outro. Assim, a infância fica perdida, dopada, sem lugar e nomeação, ocupando um não lugar nomeado pelo outro. Aliás, lugar há, ela fica no lugar de objeto receptor e não de sujeito dinâmico. Nessa perspectiva medicamentosa, ela não é banhada de palavra e manca quanto aos elementos constituintes do desejo.

Luiz Mena postula que “o fenômeno da medicalização destitui o sujeito de sua condição de partícipe   e se posiciona. Em sua dinâmica e existência, é extravagantemente in­ quieto, pulsante e infantil. Tendo o inconsciente sua atemporalidade e a pulsão o tempo da tensão, o medicamento tem o tempo do Outro, o tempo de tentar fazer o impossível, o de silenciar e cessar o que não cessa de insistir.

O sujeito infantil com sua estranheza, uma vez acossado, transparecerá em emaranhados inventados psiquicamente para lidar com a nova situação. O tempo do medicamento, além de encaixar-se ao tempo capitalista – o do relógio – é falho, de seu próprio processo de subjetivação, fixando-o em uma posição de objeto” (Mena, 2013). E o que um objeto faz é ficar quieto, calado, inerte em concretude, passivo e pode ser colocado na posição que o Outro ordenar. A criança é corresponsável pelo seu processo de vida, porém, na lógica da medicalização, fica anulada, entregue, à mercê do discurso contemporâneo que de criança pouco sabe. A criança não produz sob a lógica capitalista, então produzem e ofertam algo aos pais para darem a elas. Jogando-as no estatuto de um fantoche que sofrerá à guisa de imaginários perversos, químicos do ‘cloridrato de metilfenidato’.

Dissemos  de objeto, mas lá também há imprescindivelmente a presença de um sujeito. Um sujeito, diferente de um objeto, é ativo, fala, pois busca ir de encontro ao tempo da tensão pulsional. Desta forma, o medicamento visa cessar à tensão ou seria à “atenção”?

Nas crianças , o medicamento que tem sido devastadoramente uti­ lizado é a ‘Ritalina’, conhecida como ‘droga da obediência’, que busca calar, aquietar  e cessar o hiperativo, controlando-o e consertando-o . Mas quem é o hiperativo que recebe uma desmedida quota da ‘química do mal-estar’?

SUJEITO HIPERATIVO

Essa discussão “tem ocupado os holofotes da cidade, e amplificou-se com o lançamento do DSM­V, que aumenta o olhar medicalizante sobre a sociedade, incidindo de maneira especialmente dramática sobre a infância” (Mena, 2013). Diríamos que antes de qualquer coisa o hiperativo é um sujeito, uma criança, um moleque – que seja – mas que é digno de fala, desejante e, por conseguinte, demandante.

A política psicanalítica para a fórmula capitalista é inversa no tocante da demanda. A Psicanálise está ali, para que o sujeito sobre a sua demanda construa uma estratégia de vida. Na Psicanálise, o produto psíquico será construído por ele. Para a Psicanálise, a criança produz, se produz, inventa, cria, e faz um novo mundo acontecer . O produto na Psicanálise trata-se do capital da libido, do trabalho psíquico e do real pulsional. Já no capitalismo, a fórmula é diferente. No capitalismo, a criança não produz, pois não trabalha nem gera capital no real em notas de papéis. Então, eles ofertam o produto para construir a demanda. Assim, o  prejuízo que a criança dá por não produzir é revertido para um lucro de consumismo.

Estando o medicamento ofertado a todo vapor, com promessas de soluções aos pais, muitos aderem, recorrem à Medicina e buscam dopar suas crianças, silenciando seu universo infantil, cristalizando seu desenvolvimento psíquico e apagando construções de  vida, sem nem mesmo orientar-se se há o que ser medicado. O semblante prometido pelos labora­ tórios psicofarmacológicos é o de sanar as travessuras típicas da criança, emergindo o sossego ao adulto. Isto faz com que eles, até mesmo sem saber, iludem-se e retirem as crianças lá onde elas deveriam imperar, ou seja, da própria infância.

“Nesse impasse, os educado­ res não possuem uma concepção de criança ativa, produtora de seus desejos, autônoma e com direitos de expressar seus pensamentos. Assim, muitos dos comportamentos manifestos pelas crianças são vistos como indisciplinados e agitados, fazendo com que elas sejam consideradas “hiperativas”.

O hiperativo – com TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) – possui um quadro clínico que, devido à oferta do produto ‘cloridrato de metilfenidato’, mais conhecido por ‘Ritalina’, tem tido um assombroso aumento de prescrições em receitas. As em­ presas psicofarmacológicas fazem jogos perversos com os significantes de seus produtos, além da Ritalina, temos ofertado por outro laboratório o “Concerta”. Concerta o que? A infância? Manifestações da vida? A pulsão? ‘Com certeza’ há algo não explicado por aqui.

Estamos vivendo uma “violência química”, para usar o termo cunhado por Luci Pfeiffer, pediatra e psicanalista. Estas substâncias estão sendo cada vez mais cedo usadas nos infantos quando seu tratamento cronificado com consequências psíquicas drásticas à constituição de sujeito.

Para uma precisão do diagnóstico de TDAH é necessário ouvir a criança, escutá-la em sua história de vida sobre o saber inconsciente, buscando a causa do desejo fixada na inquietude do corpo e tecer redes de saber com avaliações neurológicas, pois há algo de neurobiológico e psíquico aqui.

É preciso distinguir o hiperativo do TDAH. Muitas vezes, o prejuízo da inquietude e ‘ desatenção’ da criança volta-se às dificuldades dos pais, professores e educadores. Professores são diferentes de educadores, eles ensinam, não apenas educam, e parece-me que na contemporaneidade estão confundindo esses papéis. O lugar de educador está sendo ocupado ora pelos pais, ora pelos professores e ora por medicamentos . São esses os grandes Outros da criança. São esses quem nomeiam o insuportável, apontam que algo não vai bem e jogam na criança os sintomas. Mas, já nos alertava Tom Zé; “se persistirem os médicos, os sintomas deverão ser consultados”. Logo, a criança deverá ser ouvida ela fala!

O TDAH diz tanto da hiperatividade quanto do déficit de atenção . Elementos não mensuráveis, que não sendo escutado o ser que os faz acontecer, não há possibilidade de saber o que se passa. Uma criança desatenta, ‘com certeza’ está desatenta a algo que não lhe dá prazer. O aparelho psíquico é atraído pelo prazeroso, fazendo com que a criança centre sua atenção a outro polo não visto pelos olhos do outro. Por detrás de um olho há um sujeito. Já o hiperativo é inquieto ao desejo dos pais. O prejuízo deve ser dito e só a criança poderá dizê-lo.

Obviamente não devemos negar a existência de diagnósticos cuidadosos sobre a hiperatividade. Muitos são os casos que necessitam de um acompanhamento criterioso, e que podem incluir o uso de medicamentos. Nos interessamos, sobretudo, destacar a preferência por um diagnóstico, ante o trabalho inexorável de criar e educar.

É necessário educar a criança e ouvi-la e não atordoá-la à química com riscos para a vida. Nas palavras escapam essências humanas que medicamento nenhum será capaz de colocá-las em cápsulas. Nas palavras há amor, vínculos, ódios, histórias, remendos, e até mesmo o impronunciável. Sai na sonorização, o duplo momento. Há um encontro psíquico com o Outro ouvinte. A química deve ser válida para fazer valer a palavra, caso contrário, se está a anulá-la, será uma violência. Um crime. Há o direito de falar. E quem tem o direito de emudecer o sujeito? Essa química, além do mal-estar na palavra toca no mal-estar do corpo, que:

“segundo a Anvisa, tem como efeitos adversos dores gastrointestinais, dor de cabeça, supressão do crescimento, aumento da pressão sanguínea, desordens psiquiátricas, redução de apetite, depressão, crise de mania, eventos cardiovasculares graves, excessiva sonolência e morte súbita.

O hiperativo visto pelo social é aquela criança que é ‘muito’ ativa, esperta e questionadora. Esse tipo de criança – que é a maioria – coloca em xeque o saber do adulto, testa sua sexualidade , e demarca o impossível da  pulsão nas tentativas do adulto em regulamentá-la, seja educando-a e ou governando-a. Escapa e sempre escapará um plus pulsional que exige atenção única.

A dificuldade se desloca, caminha com o lugar de quem ocupa o Supereu, o de responsável sobre o infante. Das famílias vão às escolas, das escolas retornam às famílias.

“No âmbito escolar, o TDAH surge como justificativa para a repetência e o fracasso. Crianças cujos comportamentos não correspondem ao esperado ou desejado pelos professores são vistas como portadores de tal transtorno. Os pais, influenciados pelas queixas dos educadores, passam a procurar ajuda médica e psicológica, com o intuito de sanar tais comportamentos considerados anormais, o que acarreta na medicalização, que surge como principal meio de ‘solucionar’ o problema”.

Os números que já nos assustam devido às suas trágicas aplicações ampliam-se nas férias escolares, o que reforça a tendência da utilização da’ droga da obediência’.

“Os números mais recentes do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) da Anvisa indicam que o consumo anual de metilfenidato industrializa­ do no Brasil entre 2009 e 2011 mais que dobrou no período, saltando de 557.588 caixas para 1,2 milhão, sendo os indivíduos entre 6 e 16 anos os principais consumidores. Nesta faixa etária, o aumento do uso foi de 74%, contra 27,4% no grupo entre 6 e 59 anos.”

É necessário ao psicanalista e especialistas da área se questionarem, questionarem o Outro e fazerem políticas em prol da infância e seus dizeres, seja com o corpo, com a fala e suas inquietudes, na perspectiva de evitar uma prescrição generalizada da obediência.

A criança fala e ao ser perguntada o motivo de estar na clínica psicanalítica ela lança seu carretel de saber e diz: “sou imperativo”. Este relato dito em uma conferência , ecoa o saber da criança e suas invenções. As crianças sabem fazer de suas pulsões e sintomas, trilhas de vida, uma forma de “conserta”, porém, sem química, mas com palavras. As crianças elegem as palavras. Até quando os adultos elegerão a mudez química?

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