OUTROS OLHARES

INSEGURANÇA ALIMENTAR DOBRA NO BRASIL EM SETE ANOS E AFETA MAIS AS CRIANÇAS

Entre os mais pobres, a fome tem nível de países africanos, aponta pesquisa global Gallup

A insegurança alimentar no Brasil atingiu patamar recorde no final de 2021 e superou, pela primeira vez, a média global. Ela afeta mais mulheres, famílias pobres e pessoas entre 30 e 49 anos, grupos que geralmente têm mais filhos – comprometendo a atual geração de crianças brasileiras.

Segundo pesquisa global Gallup realizada desde 2006 em cerca de 160 países, a taxa de insegurança alimentar na população brasileira dobrou a partir de 2014, ano em que a economia entrou em recessão no governo Dilma Rousseff (2011- 2016), e tem registrado crescimento medíocre desde então. Segundo os dados do Gallup, analisados no Brasil pelo Centro de Políticas Sociais do FGV Social, a taxa saltou de 17% em 2014 para 36% no fim de 2021. Pela primeira vez, ela superou a média global 35%), aferida a partir de 125 mil questionários aplicados no mundo.

Dos 20% mais pobres brasileiros, 75% responderam afirmativamente que havia faltado dinheiro para compra de alimentos nos últimos 12 meses. Entre as mulheres, a taxa foi a 47%, e a 45% para pessoas com idades entre 30 e 49 anos – acima da média global.

“A insegurança alimentar mais elevada nesses segmentos tem efeitos de longo prazo preocupantes por causa do maior número de crianças envolvidas e da desnutrição entre elas”, afirma Marcelo Neri, diretor do FGV Social.

“Impressiona também o aumento abissal da desigualdade de insegurança alimentar. Entre os 20% mais pobres no Brasil o nível épróximo dos países com maiores taxas, como Zimbábue (80%). Já os 20$ mais ricos experimentaram queda [para7%], ficando pouco acima da Suécia, país com índices de insegurança alimentar. A pesquisa, do fim de 2021 não chegou a captar a nova disparada dos preços dos alimentos neste ano, sobretudo após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia – grandes produtores de trigo e milho.

Também foi realizada num contexto em que a Caixa pagou, ao longo de seis meses de 2021, o auxilio emergencial a 39,1 milhões de famílias com valores mensais entre R$ 150 e R$375. Atualmente, apenas 17,5 milhões de famílias recebem o novo Auxilio Brasil, de R$400 mensais.

Para Renato Mafuf, coordenador da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssam), todos os fatores que mantinham os níveis elevados de fome entre os brasileiros até 2020 se agravaram no ano passado e seguem em deterioração neste ano.

Pesquisa da Rede Penssam em dezembro de 2020 mostrou que, no total, mais da metade (55%) dos brasileiros sofriam algum tipo de insegurança alimentar (grave, moderada ou leve).

“O desemprego segue elevado e a renda em baixa, sobretudo entre os informais. Temos um benefício social (Auxílio Brasil) menor do que em 2020 (quando chegou a R$600 mensais] e uma guerra entre dois grandes produtores de alimentos”, diz Mafuf

“Para completar não há política de governo estruturada contra a fome, só reações voluntariosas, com medidas pontuais, como a redução de tarifas de importação. Não há nenhuma razão para acharmos que as coisas possam melhorar”.

Segundo projeções da consultoria MB Associados, a inflação de alimentos neste ano deve chegar a 12%, bem acima do IPCA, contribuindo para agravar o quadro de insegurança alimentar.

“Embora haja alguma desaceleração nos preços de commodities metálicas por conta da perspectiva de desaceleração econômica em Europa, China e Estados Unidos, os preços dos alimentos seguem outra dinâmica, com pressões persistentes e descoladas dos índices de atividade”, afirma Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados.

GESTÃO E CARREIRA

AGENDA ESG CRIA NOVOS CARGOS NO ALTO ESCALÃO DAS EMPRESAS

Chefias de propósito, felicidade e futuro são exemplos; pesquisa diz que 30% de empresas têm cargos formais para sustentabilidade

O avanço das preocupações com o tema ESG (princípios ambientais, sociais e de governança) fez surgir uma nova geração de cargos no alto escalão das empresas. São profissionais que passaram a responder diretamente por temas como sustentabilidade, felicidade, propósito e até futuro.

A busca por esses profissionais tem ocorrido, neste primeiro momento, dentro das próprias empresas, segundo a Page Executive, empresa de recrutamento G-level (como são chamados os cargos de diretoria). “Nós começamos a ver o início de um movimento interno nas empresas, em que elas alcançam alguém para cargos C-level de sustentabilidade, diversidade, propósito e felicidade”, afirma Paulo Dias. sócio da Page Executive.

De acordo com ele, ainda não é algo que se pode ver em todas as empresas, de todos os tamanhos e setores. É um movimento que tem acontecido principalmente em empresas de capital aberto, porque elas têm responsabilidade com os acionistas e, de certa forma, elas enxergam valor nisso. Há um interesse financeiro por trás, afirma.

Como é um movimento incipiente, os especialistas apontam, porém, que os resultados mais sólidos dessas iniciativas ainda devem demorar a aparecer. As expectativas miram 2030, ano em que vencem os prazos das metas de sustentabilidade e diversidade e inclusão de grande parte das empresas e também dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

“Constituir uma área ESG faz diferença no ambiente corporativo porque cada área, como o jurídico e o financeiro, tem um diretor ou vice-presidente responsável. São áreas grandes, estratégicas, com metas de curto, médio e longo prazos, orçamentos e pessoas.

Quando esses temas estão diluídos em outras áreas, sem liderança responsável, esses processos andam mais lentamente. Isso a gente vê nos dados de sub-representatividade de mulheres, negros, pessoas com deficiência e LGBTI+”, explica Liliane Rocha, CEO da Gestão Kairós, consultoria especializada em Sustentabilidade e Diversidade.

FUTURO

Entre as novas posições criadas nos últimos anos ao redor do ESG, a do chefe de sustentabilidade tem sido a mais comum. No mercado, ela ganha vários nomes, como Chief Sustainability Officer (CSO), presidente ou vice-presidente de Sustentabilidade e Sustainable Growth Officer (chefe de crescimento sustentável, em inglês).

De acordo com um estudo da consultoria Strategy&, esses cargos têm crescido rapidamente ao redor do mundo, mas a maioria das empresas ainda não têm uma posição formal de CSO. Entre as 1.640 companhias globais analisadas, 30% têm esse cargo formalizado. Na América do Sul, 30% das empresas têm um CSO formal, 52% têm a figura do ‘light CSO’, aquele que combina suas funções com outro papel dentro do C-level, e 19% delas não têm essa função.

Outra ponta do ESG são os cargos que lidam diretamente com felicidade, propósito e diversidade e inclusão. Geralmente, os nomes aparecem em inglês, como em Chief Purpose Partner ou Chief Purpose Officer (para propósito), Chief Happiness Officer (para felicidade) e Chief Diversity and Equity Officer (para diversidade e inclusão).

Há um ano, Tarcila Ursini, economista e advogada de formação, passou a ocupar o até então inédito cargo de Chief Purpose Partner na eB Capital, gestora de investimentos.

Segundo ela, o seu cargo reúne atividades que já existiam na companhia, mas que, ao serem reunidas em uma posição, ganharam mais robustez para ampliar processos, indicadores e compromissos.

“O chefe de propósito é algo muito novo. Em muitas empresas o próprio CEO é o líder de propósito da companhia, porque o propósito é muito mais amplo do que o olhar de ESG. Ele é para toda a empresa. A organização tem uma função social pelos serviços que vende e pelos produtos que produz e, para isso, ela precisa ganhar dinheiro. Então, é preciso conciliar lucro com propósito”, explica.

EU ACHO …

PARA ALÉM DOS MUROS

A icônica imagem do Pastor Martin Luther King e o Rabino Abraham Joshua Heschel marchando juntos em Selma, em 1965, pelos direitos civis me instiga há um tempo. Em diálogo com membros das comunidades judaicas no Brasil, tenho refletido sobre como fortalecer, hoje, uma coalizão proativa e permanente, que abranja a luta antirracista, a luta contra o antissemitismo e outras frentes que estejam em prol da construção e fortalecimento de agendas comuns pela igualdade de direitos, tolerância e respeito.

Nessa jornada de reflexões, recentemente, passei por uma experiência marcante: uma breve imersão em Israel e na Palestina. Fiz um curso sobre inovação na Tel Aviv University, em parceria com a Associação de Amigos da Instituição no Brasil, com visitas a diversas startups de diferentes setores, da estética à agricultura. A Netafim foi uma das que mais me marcou, com sua história de criação de tecnologias de irrigação, dessalinização e reuso da água em um cenário desértico. Ela exporta esta tecnologia para o mundo, inclusive para o Brasil.

Além do que estava previsto na programação oficial, também conheci Huda Abuarquob, diretora da Aliança pela Paz no Oriente Médio. Ela me levou a uma visita do outro lado do muro que divide os dois países. Na Palestina, fui à Parents Circle, que cria diálogos entre israelenses e palestinos que perderam familiares em conflitos.

E ainda vivi uma situação bastante inusitada que entendo ser um presente dos céus. Ao parar para almoçar com Huda, encontrei adolescentes palestina, em Belém. Elas se aproximaram, puxaram papo e se dispuseram a ser minhas guias. Levaram-me até a Igreja da Natividade, conhecida por ser o lugar onde Jesus teria nascido. Tudo isso no mesmo dia do lastimável assassinato da jornalista da Aljazeera, Shireen Abu Akleh, durante conflitos na cidade de Jenin.

Transitar no entorno do muro me dá calafrios. Lá, é possível ver grafites dos mais variados, como Jesus Cristo dando palmadas num soldado armado ou ainda mensagens como “faça amor, não faça muros”.

As jovens palestinas que mencionei alegam ser impedidas de atravessar as fronteiras e terem acesso a Jerusalém ou ir à praia para se divertir em Tel Aviv. Isso me fez lembrar de diálogos que tenho com jovens de favela por aqui, que também têm o direito de ir e vir cerceado, não pelo muro mas por outras formas de violências e desigualdades raciais e sociais. Realidades tristes de se ver e viver, e que não podemos naturalizar.

Também fiz uma visita a Jerusalém com um guia chamado Ariel, que mais parecia uma enciclopédia humana. Quando cheguei ao famoso Muro das Lamentações, reparei que havia uma divisão, com acessos diferentes para homens e mulheres. Também descobri que, além da tradição de fazer um pedido de oração escrito e colocar no muro, é visto como falta de respeito dar as costas para ele. Por isso as pessoas se distanciam andando em marcha ré, sempre de frente para o muro. E assim o fiz por alguns metros.

Ariel falou bastante sobrea recente imigração de judeus etíopes e das dificuldades de integração deste grupo na sociedade israelense. Mas ao mesmo tempo ressaltou que, pouco a pouco, vê progressos, e até políticos desta minoria começando a surgir para representar suas demandas.

Foram realmente muitas emoções e reflexões. E sigo acreditando no diálogo e no contato com os vários interlocutores entre Israel e Palestina. E vejo o quanto todas essas experiências me trouxeram trechos e versões da história – para muito além das que havia aprendido nos livros, dentro e fora dos muros da escola e daqueles que foram criados fora dela.

*** LUANA GENOT

ESTAR BEM

PRÉ-DIABETES É FATOR DE RISCO PARA ATAQUE CARDÍACO MESMO EM JOVENS

Pesquisa feita por americanos aponta que chance de hospitalização pode ser 1,7 vezes maior

Uma pesquisa feita por cientistas americanos encontrou uma possível associação entre ser pré-diabético (quando o nível de açúcar no sangue está entre 100 e 125 miligramas por decilitro) e ter ataques cardíacos, mesmo em indivíduos jovens, com idade entre 18 e 44 anos.

Deacordo com o estudo, ter o diagnóstico de pré-diabetes pode indicar um risco 1,7 vezes maior de hospitalização por problemas cardíacos em comparação com aqueles com nível de açúcar no sangue normal (abaixo de 100 mg/dl).

Apesar desse risco mais elevado, os pesquisadores afirmam que não foi encontrada uma associação entre pré-diabete e a ocorrência de parada cardíaca ou infarto.

Os resultados preliminares da pesquisa foram divulgados no dia 14 de maio no Seminário Qualidade de Atendimento e Desfechos de Pesquisa Científica, organizado pela Associação Americana do Coração, em Reston, Virginia (EUA).

O levantamento analisou dados de 7,8 milhões de americanos com idade entre 18 e 44 anos hospitalizados em 2018 no país, de acordo com dados da Amostra Nacional de Internados, que reúne os dados públicos de internação nos Estados Unidos.

Do total de pacientes analisados, 31.000 (0,4%) possuíam níveis de açúcar no sangue que os classificavam como pré-diabéticos. Entre eles, incidência de ataque cardíaco era de 21,5 para cada mil indivíduos, enquanto nas pessoas com nível de sangue normal era de 3 a cada mil.

Além disso, a prevalência de outros fatores de risco, como hipertensão, colesterol elevado (68.1% contra 47,3%) e obesidade (48,9% contra 25,7%) era maior nos pré-diabéticos. Os cientistas também observaram que os adultos pré-diabéticos internados para ataque cardíaco eram em sua maioria homens negros, hispânicos ou asiáticos, em comparação com outras etnias.

Apesar dessa incidência aumentada de ataque cardíaco os cientistas não encontraram maior ocorrência de infartos ou acidentes vasculares em pessoas com pré-diabetes em comparação com os não pré-diabéticos.

“É possível que a pré-diabetes possa influenciar os resultados a médio ou longo prazo após um infarto do miocárdio, considerando que não é uma condição de saúde tão aguda quanto o diagnóstico de diabetes tipo 2”, disse o pesquisador e autor do estudo Akhil Jain, do Centro Médico Católico de Misericórdia, em Darby (Pensilvânia).

Segundo Jain, se não tratada, a pré-diabetes pode progredir rapidamente para diabetes do tipo 2, que é um fator conhecido de risco cardiovascular. “Estudos futuros devem se concentrar mais em desfechos com pré-diabetes e indivíduos sem essa condição em pacientes hospitalizados que tiveram infarto para avaliar esse risco”, explica.

De acordo com ele, o estudo tem como objetivo indicar quais medidas de saúde pública e campanhas devem ser feitas para reverter o quadro e evitar novos diagnósticos de diabetes no futuro.  “É essencial criar uma conscientização entre adultos e jovens sobre a importância de realizar exames de rotina que podem indicar um diagnóstico de pré-diabetes, controlar a alimentação e realizar atividades físicas para prevenir ou atrasar o desenvolvimento de diabetes tipo 2 e a doença cardíaca que pode estar associada”, disse.

Nos EUA, segundo dados do Instituto Nacional de Saúde (NIH, na sigla em inglês), 88 milhões de adultos possuem diagnóstico de pré-diabetes, o que equivale a mais de um terço da população. O Brasil não possui dados atualizados, mas uma estimativa de 2015, pela Sociedade Brasileira de Diabetes estima que cerca de 20% da população adulta era pré-diabética, ou 40 milhões de pessoas.

Já a porcentagem de adultos vivendo com diabetes cresceu nos dois últimos anos, chegando a 9,144%, ou cerca de 15 milhões de pessoas.

Para Paulo Lotufo, epidemiologista e professor da Faculdade de Medicina da USP, existe às vezes uma interpretação equivocada do que é pré-diabetes, pois, segundo ele, os mecanismos podem atuar para quebrar a chamada homeostase (equilíbrio) glicêmica no organismo, não somente o consumo de açúcar. “‘Basicamente, sabemos que quanto mais afastado do limite de glicemia que é considerado normal, de 60 mg/dl, aumenta-se o risco de ter diabetes, mas o nível de açúcar que pode ser classificado como pré-diabetes é algo questionável. De toda forma, sabemos que há aumento do nível do açúcar acima de 100 mg/dl em pessoas que estão acima do peso, e mesmo em indivíduos jovens, aumentando o risco de doenças cardíacas.

De acordo com Lotufo, porém, e importante que as pessoas que possuem a chamada síndrome metabólica – colesterol alto, sobrepeso, nível glicêmico alto – fiquem atentas e tentem reverter o quanto antes de chegara o diabetes tipo 2, quando o uso de medicamentos é necessário.

“É muito comum ver no atendimento de rotina clínica homens que chegam com sobrepeso, nível glicêmico elevado, colesterol e que ganharam peso muito rápido. A perda de peso nesses pacientes em pouco tempo já é suficiente para baixar a glicemia para um nível inferior a 100 mg/dl”, explica.

A PSIQUE E AS PSICOLGIAS

IGUAIS, MAS DIFERENTES

Quando a saúde vira um problema, grupos de apoio reúnem pessoas que passam por situações similares para trazer conforto emocional

Morena Pires d’Avila Axthehn, que procurou a Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata) para enfrentar o transtorno bipolar e agora, com o quadro estável, é presidente da associação e coordenadora dos grupos de apoio. Para isso, fez uma formação de facilitadora e passa pela supervisão mensal de uma psiquiatra voluntária que tira dúvidas e dá orientações sobre a condução dos grupos, integrado principalmente por pessoas que têm depressão e transtorno bipolar.

Nos grupos online da Abrata, sempre estão presentes uma dupla de facilitadores: um que coordena a reunião e outro que fica na retaguarda, para acolher numa conversa particular aqueles que não querem se expor ao grupo. “Os facilitadores têm uma bagagem da experiência de vida, de conviver com o transtorno afetivo, o que faz a diferença”, analisa Marta. E o resultado costuma ser ótimo: ”O poder dos grupos de apoio é grande e traz bons resultados. Os participantes se escutam de forma empática, num processo de troca muito positivo”.

SOLIDÃO

O tripé de tratamento dos transtornos afetivos inclui os medicamentos receitados pelo médico, a psicoterapia e a mudança da qualidade de vida, explica a psiquiatra Rosilda Antônio, membro do Conselho Científico da Abrata. “O grupo de apoio não é uma terapia, mas esse compartilhamento de experiência os ajuda a construir soluções juntos. Quando um vê que o outro começou a fazer exercícios, se anima a fazer também. É um ambiente favorável à mudança.”

Quando enfrentou o câncer de mama, em 2020, a professora Adriana Muniz, de 51 anos, por exemplo, se voluntariou a dar aulas de ioga às participantes do grupo do Projeto Superação, que promove o autoconhecimento de mulheres em tratamento com fundamentos da psicologia positiva, em um programa de sete meses. “Pude olhar para mim mesma e enxergar as minhas forças de virtude, aquilo que tenho de bom na minha personalidade para enfrentar os meus desafios”, revela.

Adriana afirma que se sentia melhor ao conversar com pessoas no grupo e que nunca perdia os encontros online – mesmo que estivesse dentro do táxi. Reconstrução da mama, perda de cabelo e medo dos resultados dos exames eram alguns dos temas abordados. “Algumas mulheres participavam até durante a sessão de quimioterapia. Formamos um vínculo de amizade muito forte.”

A solidão é um problema comum entre mulheres que tratam um câncer de mama, afirma a mastologista Fabiana Makdissi, chefe do Centro de Referência da Mama do A.C. Camargo Câncer Center e “madrinha” do projeto. “Muitas pacientes comentam que nesse momento de fragilidade sentem que algumas pessoas próximas se afastam, pois não estão na mesma Vibração. Mas ter uma rede de apoio é fundamental”

Para ela, o grupo é um ambiente seguro e acolhedor, que combate a desinformação e o preconceito comum nas redes sociais e no zum-zum das recepções de consultório. “Me incomodo quando vejo uma paciente pálida porque escutou uma besteira por ai. No grupo, sempre há uma pessoa ponderando o que está sendo falado, para evitar agredir ou assustar os participantes, que nem sempre sabem filtrar as informações.”

A idealizadora do Projeto Superação, a coach executiva Gisele Geogó, criou o método a partir da sua aplicação da psicologia positiva durante o seu tratamento de câncer de mama, em 2017. “Perdi o meu chão quando recebi o diagnóstico. Mas resolvi colocar à prova as ferramentas que ensinava aos outros. Queria ver se elas trariam resultado num perrengue grande”, conta. Funcionou para ela e para outras mulheres: “Na primeira turma chegamos a ter aumento de 20% em relação à melhora da satisfação com a vida e 22% no quesito esperança”.

Mesmo após terminar o seu tratamento de câncer de mama, Adriana Gomes Correa, de 48 anos, participa dos encontros presenciais de pacientes do Grupo de Apoio a Pacientes com Câncer, GAPC.  “Conversar com pessoas que passaram pelo tratamento e estão com saúde há anos me ajuda a lidar com aquele fantasminha que diz que a doença vai voltar. ”Segundo a assistente social do GAPC, Carina Motta, todas as fases do tratamento do câncer são delicadas para o paciente. ”Percorrer esse caminho traz uma forte carga emocional, pois é associado à morte e ao sofrimento. O grupo ajuda a amenizar essa preocupação com o relato de vivências, pensamentos e sentimentos”.

ACOLHIMENTO

Incomodado com feridas doloridas de herpes-zoster pelo corpo, Hev (nome fictício) conta que chegou atrasado ao grupo de apoio online do Posithividades. Na época, ele fazia tratamento contra o vírus HIV havia dois meses. “Eu estava chorando muito quando descobri o grupo no Instagram. Fui recebido com muito carinho e pude contar a minha história e dizer o que sentia. Achei maravilhoso”, lembra. Um ano depois, Hev é voluntário do Posithividades e recepciona os novos participantes do grupo, um trabalho que foz com prazer. “Esse grupo trouxe a minha autoestima de volta, pois me mostrou que há vida digna e normal após o diagnóstico do HIV.”

Desde 2017, o consultor de marketing Lucian Ambrós administra um grupo no WhatsApp que já acolheu cerca de 30 mil pessoas com HIV. Há um ano, ele passou a realizar reuniões de até 30 pessoas em uma plataforma de videoconferência, realizadas uma ou duas vezes por mês. Diagnosticado com HIV há 12 anos, ele resolveu criar o Posithividades para acolher bem quem descobre que têm o vírus. “Já participei de grupos de apoio que faziam eu me sentir mais culpado. Não me identificava”, relata. Segundo Lucian, quem descobre que tem HIV geralmente fica inseguro em relação ao seu tempo de vida, tem dificuldade de revelar a sorologia ao parceiro e receio de como serão os seus relacionamentos após o diagnóstico. Mas, com ajuda do grupo, muitos medos vão embora. “Já vi casos de pessoas que achavam que a vida tinha acabado, mas hoje estão felizes.”

Quando procurou a organização não governamental Amor Exigente, há 20 anos, Luiz Fernando Cauduro estava desesperado. Três dos seus quatro filhos estavam consumindo drogas – e nenhuma das estratégias para solucionar o problema estavam funcionando. “Já havíamos nos consultado com psiquiatras e conversado com várias pessoas, mas nada dava certo”, declara. Ele e sua mulher Cleide passaram a frequentar o grupo de apoio da ONG e, um ano depois, seus filhos estavam recuperados. “Vivenciando esse programa, fizemos mudanças no nosso comportamento para que eles mudassem o comportamento deles”, destaca. Por gratidão, Fernando permaneceu na ONG como voluntário e atualmente é o presidente. Criado por um jesuíta norte-americano em 1962, o programa Amor Exigente chegou ao Brasil em 1984. Nos grupos de apoio, que aceitam a participação de dependentes químicos e seus familiares, a sessão se inicia com um momento de “espiritualidade pluralista” e com o estudo de um dos 12 princípios básicos do programa, que dura 15 minutos – entre as diversas regras do grupo, uma delas é manter o caráter leigo e voluntário. Na segunda parte do encontro, os participantes falam por até 5 minutos sobre a sua semana. “Depois, o participante escolhe uma meta para a semana. Isso é importante para que ela deixe de apenas reclamar e comece a fazer uma ação prática.”

CUIDAR DE QUEM CUIDA

Quando trouxe para casa o seu filho João, que nasceu prematuro e passou 40 dias na UTI neonatal, Érika Ruana Silva Ribas, de 30 anos, estava se sentindo sufocada. “Percebi que precisava de ajuda, falar com alguém sobre o que passei. Comecei guardar essa emoção para mim e isso acabou afetando a minha mente”, narra. O alivio veio quando começou a participar do grupo de apoio online da Associação Brasileira de Pais, Familiares, Amigos e Cuidadores de Bebês Prematuros, a ONG Prematuridade.com.

“Precisamos dessa escuta. Ser mãe de prematuro é um desafio desgastante. Eu me achava uma péssima mãe por ter medo de cuidar do meu filho, mas percebi que isso era apenas uma insegurança que logo iria passar. Essa visão renovada é libertadora e nos faz sofrer menos”, observa Érika.

A diminuição do sentimento de culpa das mães de bebês prematuros é um dos benefícios observados pela psicanalista Simone Marinho, voluntária dos grupos de apoio online da Prematuridade.com desde 2021. A ONG oferece dois grupos de apoio, que se revezam a cada semana: um voltado para mães de bebês que estão na UTI neonatal e outro voltado a mães com gravidez de alto risco. Segundo a psicanalista, essas mães se sentem mal por não terem conseguido chegar até 38 semanas de gravidez ou por não estarem fortes o tempo todo. “Com apoio do grupo, elas passam a administrar melhor as frustrações diárias, limitar pessoas abusivas que não respeitam a sua dor e a desenvolver um vínculo com o bebê mesmo que não possa tocá-lo na UTI”, exemplifica.

Além de se preocuparem com a saúde e bem-estar dos filhos, as mães desses bebês se queixam de cônjuges ausentes – mesmo que estejam presentes fisicamente – e têm duvidas quanto aos direitos relacionados à prematuridade, adianta Simone. “Algumas querem questionar a equipe medica sobre um procedimento pelo qual o bebê precisou passar, mas não o fazem”, lembra. Com a participação nos grupos, elas ficam mais confiantes. “Cria-se um sentimento de empatia e é tecida uma rede de solidariedade.”

Para que o ambiente seja seguro e respeitoso, Simone apresenta “regras de ouro” ao grupo: não é permitido criticar, julgar, dar conselhos, constranger ou comentar os assuntos do grupo com outras pessoas.  ”Esse núcleo de pessoas é um espaço de acolhimento sob olhar de profissionais da área de saúde mental, mas não é um atendimento de terapia convencional, em que o paciente expõe ao terapeuta as suas demandas”, avisa.

Outro grupo que vive sob estresse e pressão são os cuidadores de pessoas com doença de Alzheimer. “Sem conhecimento, apoio e experiência, o familiar que cuida da pessoa com Alzheimer vai ter uma sensação de incapacidade e impotência. Ao participar de um grupo de apoio, poderá se planejar melhor e aprender antes de cometer um erro”, ensina Elizabeth Piovezan, diretora-presidente do Instituto Alzheimer Brasil, que mantém grupos de apoio gratuitos há 10 anos. Atualmente, há dois presenciais, um em São Paulo e outro em Curitiba.

Ela percebe que muitas pessoas chegam sem aceitar o diagnóstico do familiar, o que gera impaciência. Mas quando começam a conviver com outras pessoas que lidam com a rotina da doença, percebem que há formas de melhorar a qualidade de vida de toda a família. “Quem tem Alzheimer fica com comportamentos alterados. Se não houver estratégias para lidar com isso, vai virar uma briga que não resolve nada. É preciso ter jogo de cintura”, avalia Elizabeth. Segundo a presidente do IAB, há pessoas que participam do grupo há mais de 5 anos. “Esse comprometimento é importante, pois você vai criar laços de amizade que vão ajudar a encontrar soluções práticas para desafios do dia a dia.”

Mesmo sem nunca ter encontrado as pessoas do grupo de apoio do IAB. Adriana Mavigne, de 53 anos, considera que eles são “da família”. Em 2020, ela começou a participar das reuniões online para aprender a lidar melhor com sua mãe, Luzia, que está com demência mista e grau intermediário, com um quadro que mescla Alzheimer e demência vascular. Nesse estágio, a agressividade e a mania persecutória começaram a se manifestar”. Com a minha mãe, aprendi a ser forte. Por isso, achei que daria conta de cuidar dela, mas me defrontei com a minha própria fragilidade. Eu ne sentia solitária e esgotada, nas precisava continuar lutando por ela, como ela faria por mim”, recorda.

Para Adriana, participar do grupo do IAB foi uma injeção de ânimo. ”Quando fui acolhida por pessoas que estavam na mesma situação, senti que milhas forças poderiam se estender”, comenta. “No grupo, todos falam a mesma linguagem. São trocas de vivências duras, nas que ali se tornam mais leves. Não há preconceito ou medo de se expor. Então você se desnuda e também acolhe.”

CONHEÇA ALGUNS GRUPOS QUE OFERECEM AJUDA

TRANSTORNOS AFETIVOS, DEPRESSÃO E BIPOLARIDADE

A Abrata tem reuniões online às terças, quartas e sextas, das 19h às 20h30. Inscrições previas pelo abrata.org.br; @abrata.spnoInstagram.

DEPENDÊNCIA QUÍMICA

O grupo Amor Exigente tem grupos em diversas cidades e reuniões presenciais e online. Informações: amorexigente.org.br; @amorexigeuteoficialnoInstagram.

CÂNCER

O GAPC realiza encontros presenciais mensais em seis cidades dos Estados de São Paulo, Rio e Espírito Santo. Site:gapc.org.br; @gapcgrupodeapoio no Instagram.

O Projeto Superação realiza programas de encontros semanais online, com duração de sete meses. No Instagram, @institutooncosuperacao.

ALZHEIMER

O IAB conta com grupos presenciais e online, em São Paulo (SP) e em Curitiba (PR). Site: institutoalzheimerbrasil.org.br @institutoalzheimerbrasil no Instagram,

HIV

O Posithividades realiza encontros mensais online. Informações no perfil do Instagram:@posithividades.

GRAVIDEZ DE RISCO E UTI NEONATAL

O Prematuridade é um grupo online com reuniões semanais. Informações no site prematuridade.com e inscrições pelo e-mail: saudemental@prematuridade.com, No Instagram:@ongprematuridade.com.

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