OUTROS OLHARES

CHEGA AO FIM O REINADO SOLITÁRIO DO IMC

Ganha força entre médicos método que mede cintura e altura para prever doenças

Um dos índices mais consolidados na prática médica mundial está perdendo a força nos consultórios. Criado no início do século XIX por um estatístico belga, o tradicional cálculo denominado Índice de Massa Corporal (IMC) imperou ao longo desses anos todos. É o cálculo que define se a pessoa está acima do peso. Basicamente, o médico pega o peso (em quilogramas) e divide pela altura ao quadrado (em metros). O resultado é encaixado em quatro categorias: baixo peso (IMC menor que 18,5), peso normal (18,5 a 24,9), sobrepeso (25,0 a 29,9) ou obeso (30 ou mais). Quanto mais alto, maior o risco de doenças cardiovasculares.

Uma decisão inédita tomada recentemente pelo órgão de vigilância da saúde do Reino Unido, o Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados, abalou a antiga confiança no método. A prestigiosa instituição definiu que o IMC tinha sérios defeitos e instituiu um segundo tipo de conta. Batizado de “cintura-estatura”, o novo cálculo é mais simples: a medida do tamanho da cintura tem de ser menor que a metade da altura. Se a circunferência estiver acima disso, há aumento do risco de diabetes tipo 2, hipertensão, infarto, derrame, gordura no fígado, entre outras.

NA BRIGA DE FORA

O novo método cobre uma lacuna importante do IMC, que não diz, por exemplo, que porcentagem do peso de uma pessoa é proveniente da gordura, músculos ou ossos. Isso explica porque atletas podem ter IMC alto, apesar de terem pouca gordura corporal. Mas o principal defeito é no que se refere ao local em que a gordura se acumula. A proporção “cintura-estatura” vai direto ao ponto ao detectar acúmulo da gordura na barriga, a chamada gordura visceral, o tipo mais perigoso para a saúde.

No Brasil, a nova conta não é oficialmente indicada, mas os médicos começam a utilizá-la.

“O IMC é uma medida fácil e bem conhecida, só que tem limitações porque não é capaz de analisar a composição corporal. Uma pessoa com muito músculo vai pesar mais e ter um IMC alto, mas pode estar muito mais saudável e em boa forma que uma pessoa com IMC e peso menor, mas com bastante gordura acumulada. Então é preciso usar as duas medidas. Elas são complementares”, diz a cardiologista Lilia Nigro Maia, diretora da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) e professora da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp).

HISTÓRICO

A recomendação para medir a circunferência da cintura não é exatamente nova. Diversas diretrizes de saúde, incluindo as do Ministério da Saúde e a da Associação Americana do Coração (AHA), alertam para a importância de medir a circunferência da cintura em qualquer avaliação de saúde. A ênfase é na relação cintura-quadril (medida que avalia o tamanho da cintura em comparação com o quadril) e a circunferência da cintura sozinha. Mas há limitações.

“A relação cintura-quadril é muito boa, mas está mais sujeita a erros de medida”, explica a endocrinologista Cintia Cercato, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). Já o tamanho da circunferência pode falhar ao não considerar o tamanho da pessoa e precisa ser adaptado a cada país e grupo étnico, para ser mais precisa.

AMPLIAÇÃO DO RADAR

Para especialistas ouvidos, a grande vantagem da nova medida é a simplicidade.

“Diversos estudos já validaram que ter a medida da cintura maior que a metade da altura aumenta o risco de comorbidades e doenças cardiovasculares. A grande vantagem dessa medida é que ela está menos sujeita a erros. Sua principal importância é para pessoas que já têm excesso de gordura abdominal, mas que apenas pelo IMC não vão ser consideradas de alto risco”, ressalta a médica Cercato.

Em 2014, uma pesquisa da Bayes Business School, no Reino Unido, mostrou que a razão cintura-estatura é melhor preditor de risco de mortalidade do que o IMC. O estudo descobriu que os homens podem perder até 20 anos de vida por não manter sua cintura na medida ideal. O número é de aproximadamente 10 anos para as mulheres.

PARA QUASE TODO MUNDO

Essa medição pode ser usada para ambos os sexos e todos os grupos étnicos, bem como para adultos altamente musculosos. As diretrizes do Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados inglês também recomendam que os médicos devam considerar o uso da relação cintura-estatura em crianças e jovens com mais de cinco anos para avaliar e prever riscos à saúde.

“É muito válido porque a pessoa pode fazer isso sozinha e procurar ajuda quando ele estiver alto”, diz a diretora da Socesp.

Já o médico Antônio Carlos do Nascimento, doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), teme que essa recomendação apavore muitas pessoas que podem não estar em risco.

“Utilizara relação cintura-estatura para toda a população é tão falho quanto o que já vínhamos observando com outros parâmetros. Mas essa pode ser uma boa opção para avaliar o risco de subgrupos étnicos como negros e asiáticos”, afirma o endocrinologista.

Pesquisas mostram que pessoas com antecedentes familiares asiáticos, do Oriente Médio, negros, africanos ou afro-caribenhos são mais propensas a esse tipo de acúmulo de gordura ao redor da cintura, chamado de “adiposidade central”. Aconselha-se que essas pessoas usem limites de IMC mais baixos para obesidade para ajudar a prever seus riscos específicos à saúde.

Em sua diretriz, o Instituto Nacional de Excelência em Saúde eCuidados, do Reino Unido, ressalta que a relação cintura-estatura não é precisa para pessoas com IMC acima de 35, mulheres grávidas ou crianças com menos de dois anos. Maia também alerta que a medida não funciona para pessoas com mais de 60 anos que podem ter perdido altura com o envelhecimento.

A gordura visceral é diferente da subcutânea. Enquanto a subcutânea se acumula abaixo da pele, em locais como quadris, seios, coxas e nádegas, a gordura visceral se concentra entre os órgãos internos.

“A gordura em volta do abdômen é danosa. Quanto mais gordura visceral nós temos, mais elementos inflamatórios, que interferem na ação da insulina e no revestimento vascular”, diz o endocrinologista Antônio Carlos do Nascimento.

Esse tipo de gordura pode afetar qualquer pessoa, nus é mais comum em homens. Em mulheres, pode ocorrer com mais facilidade após a menopausa. Também pode ser mais comum em determinadas famílias, devido a uma predisposição genética.

A BOA NOTÍCIA

A gordura mais problemática é mais fácil de perder do que a subcutânea. A endocrinologista Maria Edna de Melo, presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explica que, na falta de carboidrato, a gordura visceral é a primeira a ser mobilizada como fonte de energia para o corpo.

Para prevenir o acúmulo de gordura visceral, não basta só exercício.

“Como a gente não escolhe onde a gordura vai se acumular, o ideal é não acumular gordura”, afirma Melo.

As medidas recomendadas incluem uma dieta equilibrada, com baixo consumo de alimentos ultra processados, pouca gordura e rica em frutas, verduras, legumes. Restringir o consumo de bebida alcoólica é outro ponto importante.

Para quem já acumulou a gordura, o tratamento é (adivinhe!): perder peso. Segundo a endocrinologista Maria Edna de Melo, a cirurgia metabólica pode ser uma opção para algumas pessoas com IMC acima de 30. Mas, em geral, há bons resultados apenas com alterações no estilo de vida e medicações.

GESTÃO E CARREIRA

DIVERSIDADE GANHA AS PRATELEIRAS DE BRINQUEDOS E DÁ LUCRO PARA EMPRESAS

Domínio da boneca loira arrefece enquanto cozinhas ficam coloridas para incluir meninos

A mulher branca de cabelos loiros e lisos se senta próximo da mulher negra de cabelos escuros e crespos. A diferença entre elas leva a loura a se incomodar com a presença da negra a ponto de lhe dizer que o cabelo dela pode lhe passar doença.

O flagrante de racismo, registrado no recentemente no Metrô de São Paulo, talvez pudesse ter sido evitado se desde cedo a mulher loira tivesse brincado com bonecas negras. E encarasse como natural não só a pele negra e os cabelos crespos mas também outras pessoas diferentes dela – com vitiligo, sem cabelo, sem um membro do corpo, acima do peso ou com síndrome de Down.

“As crianças começam a descobrir a vida em sociedade por meio dos brinquedos. É importante que eles representem a diversidade do nosso dia a dia e, com isso contribuam para uma educação mais inclusiva e para um mundo menos preconceituoso”, diz a pedagoga Maria Ângela Barbato Carneiro, doutora em ciências da comunicação pela USP (Universidade de São Paulo) e professora titular da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), onde coordena o Núcleo Cultura e Pesquisas Brincar.

A indústria de brinquedos, que no Brasil faturou cerca de R$8,4 bilhões no ano passado, tem procurado fazer a lição de casa. Um movimento iniciado há cerca de cinco anos vem trazendo para as prateleiras das lojas mais bonecos negros, com deficiência física (como cadeirantes) e opções mais coloridas, menos estereotipadas no azul e no rosa, como cozinhas em vermelho para meninos e meninas brincarem.

Segundo Paula Ferolla, analista da empresa de pesquisas Euromonitor, cada vez mais pais e educadores, principalmente da geração Y (nascidos entre 1982 e 1994), entendem a importância da escolha da criança e a deixam livre para brincar, sem impor padrões.

“A diversidade ganha uma perspectiva ainda mais ampla sendo capaz de influenciar positivamente na formação das crianças”, afirma.

“Como um homem vai entender que é normal que ele limpe a casa e cuide dos filhos se, quando pequeno, ele aprendeu que isso era coisa de menina?”, questiona a pedagoga Maria Ângela.

“Não quiseram que ele brincasse de casinha e de boneca. O preconceito está na cabeça dos adultos, e são eles que o transmitem para as crianças”.

O movimento de apoio a uma maior diversidade começa a se refletir nas vendas. No Armarinho Fernando, uma das mais tradicionais e populares lojas de brinquedos da capital paulista, com 16 lojas na Grande São Paulo e em Sorocaba (SP), as bonecas negras já representam 15% das vendas da categoria.

No grupo Ri Happy, líder no varejo de brinquedos, com cerca de 300 lojas Ri Happy e PB Kids no país, as bonecas negras somam 20% da categoria, enquanto os brinquedos coloridos (sem ser azul ou rosa) atingiram 60% das vendas no ano passado. Controlada pelo fundo Carlyle, a empresa não revela o faturamento, mas os últimos dados divulgados, de 2019, apontam receita líquida de RS1,4 bilhão.

“Os pais, vêm mudando, estão mais abertos ao diferente”, diz diretora comercial do grupo Ri Happy, Sandra Haddad. Nos últimos três anos ela observou uma demanda maior por brinquedos coloridos, em vermelho, verde ou amarelo, na categoria “faz de conta”, que engloba mercadinhos e cozinhas, por exemplo.

“Muitos meninos passaram a brincar mais de cozinha por causa do sucesso do programa Master Chef”, diz Sandra, referindo-se ao reality de culinária. Segundo ela tanto meninos quanto meninas amam carrinhos, ônibus e até caminhão de lixo. “Mas são os pais que, muitas vezes, colocam limites às escolhas dos filhos na hora de brincar”.

Ainda assim, Sandra vê uma demanda crescente de meninos por bonecos, que vem sendo atendida pela indústria. Em 2019, por exemplo, a Candide lançou o LOL Boys – da mesma linha das famosas bonecas LOL de oito centímetros, embaladas em uma bola de plástico com várias “surpresas” inseridas, como roupas e acessórios, que se tornaram febre entre as meninas.

Em outubro do ano passado, foi a vez de a Candide apresentar uma versão maior do boneco. “Lançamos o LOL OMC Guys skatista e esgotamos em um mês”, Bruno Verea, diretor de marketing da empresa no Brasil, ressaltando que a expectativa era vender em dois meses.

Para ele, a inclusão do skate nos Jogos Olímpicos chamou mais a atenção das crianças para o esporte.

O executivo também observa um interesse maior das meninas pelo Homem-Aranha. “Éum personagem jovem nos cinemas, que agrada os dois públicos”, diz.

A Candide vem incrementando a linha Our Generation, de bonecas que imitam a vida em sociedade. São lançamentos recentes as versões cadeirante, com muletas, com prótese na perna e cega com cão-guia. “Também temos o cuidado de deixar o nosso portfólio diversificado em etnias, com bonecas negras, asiáticas e ruivas, por exemplo”, afirma Verea.

Na brasileira Cotiplás, a novidade apresentada em março durante a principal feira do setor de brinquedos (a Abrin, em São Paulo, foi a linha de bonecas com síndrome de Down, que devem chegar neste mês às lojas, nas versões masculinas, feminina, branca e negra.

Cerca de 15% do preço de venda, sugerido em R$129, será destinado à Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), que auxiliou no desenvolvimento dos produtos.

“Hoje as crianças com síndrome de Down dividem o mesmo espaço escolar com outras crianças sem a síndrome. É importante naturalizar essa convivência com quem é diferente de você a partir dos brinquedos”, afirma o fundador e diretor da Cotiplás, Carlos Bazzo.

Segundo ele, cerca de 30% das bonecas vendidas pela Cotiplás são negras.

“Nós temos o cuidado de não só mudar a cor da boneca branca mas desenvolver todo o fenótipo da boneca negra, que envolve encontrar o tom certo de pele, o cabelo, os lábios e o nariz”, diz Bazzo, que conta com uma designer negra para desenvolver o trabalho. “Hoje temos uma boneca negra mais realista do que a primeira que fizemos, ainda nos anos 1990”.

O empresário agora trabalha em um projeto de bonecas sem cabelos, para representar as crianças com câncer que fazem quimioterapia. De acordo com a Euromonitor, as categorias que mais se destacaram nas vendas no ano passado são “neutras que atendem tanto meninos quanto meninas, como jogos de tabuleiro e quebra-cabeças, construção, mini veículos e jogos científicos e educacionais.

Célia Bastos, diretora comercial da empresa de pesquisas NPD, concorda com a tendência.

“Brinquedos envolvendo a família e atividades ao ar livre foram os mais buscados em 2021”, diz, que aponta um crescimento de 21% nas vendas globais de brinquedos ano passado, em comparação a 2020. No Brasil, a alta foi de 11% ao ano, segundo a NPD.

Na pandemia, a compra online de brinquedos disparou, diz Fabricio Dantas, CEO da Neotrust, que monitora o comércio eletrônico brasileiro. “Em 2020, a compra online de brinquedos alcançou 67%, para 6 milhões de pedidos, gerando um faturamento de RS1,09 bilhão”, diz.

“Em 2021, porém, houve um crescimento tímido, para RS1,14 bilhão, possivelmente motivado pela reabertura das lojas físicas”.

Para este ano, a Abrinq (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos) projeta um crescimento de 6% no faturamento da indústria, para R$8,9 bilhões.

Carlos Bazzo, que fundou com os irmãos Paulo e Luiz a fabricante de brinquedos Cotiplás em 1982, em Laranjal Paulista (SP), sempre se incomodou ao ver crianças negras brincando com bonecas loiras. “Ainda nos anos 1990, lançamos uma versão negra da Xuxa”, diz ele, que hoje tem 30% das vendas de bonecas na versão negra.

A tradição de boneca loira de olhos claros, em um país em que 56% da população se autodeclara negra ou parda, segundo o IBGE, vem da cultura do colonizador europeu.

“Asprimeiras bonecas industrializadas foram feitas na Alemanha e depois na França. E, mais recentemente, com a expansão da indústria americana e a globalização, esse fenótipo se consolidou”, afirma a pedagoga Maria Ângela Barbato Carneiro, do Núcleo Cultura e Pesquisas Brincar, da PUC.

“Já vi crianças negras tentando enrolar o cabelo liso de uma boneca para que o brinquedo se parecesse mais com ela”, afirma a educadora.

Ela destaca iniciativas positivas de inclusão, como a Preta Pretinha, loja da Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo, que produz e vende bonecas artesanais negras, orientais, indígenas, indianas, muçulmanas e cadeirantes, entre outras.

As duas gigantes do setor de brinquedos, as americanas Mattel e Hasbro, têm procurado se redimir. A Mattel – que já foi alvo de feministas, por preconizar uma ditadura da beleza com a loira alta, magra e de olhos claros Barbie – vem fazendo homenagens a figuras históricas, com a linha “Mulheres Inspiradoras”, criada em 2015.

No Brasil, a mais recente homenageada foi a cantora Iza, que recebeu a sua versão Barbie em novembro do ano passado. “A marca presta uma homenagem à cantora por tudo o que ela representa para as futuras gerações, ao quebrar barreiras e empoderar meninas e meninos de todo o mundo”, informou a Mattel, em comunicado.

“Eu precisava ter ouvido isto quando era mais nova, que eu tinha que ser exatamente do jeito que eu sou”, disse a cantora à época.

Iza foi a terceira brasileira homenageada pela Barbie, depoisda biomédica Jaqueline Góes de Jesus (também negra, que ajudou a sequenciar o genoma do novo corona vírus) e da surfista Maya Gabeira. Nesse caso, são bonecas exclusivas, que apenas a homenageada recebe.

Na opinião de Paula Ferreira, analista d empresa de pesquisas Euromonitor Internacional, a diversidade tem sido um tópico importante na indústria de brinquedos, e a Barbie sem tornou um exemplo da tendência.

“A boneca tem agora novos tons de pele, variados tipos de cabelo, além de opções como cadeirante, com vitiligo, com uma prótese dourada e sem cabelo”, diz Paula.

No grupo Ri Happy, o maior do país no varejo de brinquedos, mais de um terço das vendas de Barbie (35%) é da linha fashionistas – onde estão as versões negras, não magras, cadeirantes etc.  “A Barbie se reinventou, e as vendas da boneca crescem dois dígitos, ano a ano”, afirma Sandra Haddad, diretora comercial do grupo.

Já a Hasbro, dona da Baby Alive (um dos bebês preferidos das crianças), vem se dedicando a aumentar o portfólio de bonecas negras, que começaram a chegar ao país em 2015.

“A marca sempre busca incluir todas asraças; promovendo a diversidade na brincadeira, que precisa ser divertida para todos”, diz Kellen Silvério, diretora de marketing da Hasbro no Brasil.

Segundo a executiva, a empresa procura atender meninas e meninos de diferentes faixas etárias, com os mesmos brinquedos. Nessesentido, oferece as massinhas Play­Doh para a primeira infância e lançadores Nerf, para os mais velhos.

A diversidade é o mote na loja Trenzinho Brinquedos Educativos desde a sua fundação, em 1970. A empresa é especializada em brinquedos artesanais, de madeira e tecidos, que atendem tanto a meninos quanto a meninas.

“Já recebemos pais que criticavam nossa linha chamando de ‘brinquedo para retardados’, diz o diretor da Trenzinho, Alexandre Freitas Ito. Felizmente, esse comportamento deixou de existir.”

A redescoberta do brincar tradicional, com bolas, cordas, cabanas e casinhas de boneca, assim como a tentativa de parte dos pais de tirar o eletrônico das mãos dos filhos, levando-os para pedalar, por exemplo, têm ajudado as vendas da empresa. A Trenzinho faturou R$ 2,5 milhões no ano passado, uma alta de 30% sobre 2019, antes da pandemia.

Os pais de Ito – um químico e uma educadora – fundaram a companhia com a proposta de oferecer brinquedos fora do circuito comercial, dos grandes personagens da Disney. “Cerca de 60% do raciocínio lógico é formado até os três anos de idade”, diz ele, destacando a importância de motivar o brincar logo na primeira infância.

EU ACHO …

O MUNDO NÃO É MATERNAL

É bom ter mãe quando se é criança, e também é bom quando se é adulto. Quando se é adolescente a gente pensa que viveria melhor sem ela, mas é erro de cálculo. Mãe é bom em qualquer idade. Sem ela, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco.

O mundo não se importa se estamos desagasalhados e passando fome. Não liga se viramos a noite na rua, não dá a mínima se estamos acompanhados por maus elementos. O mundo quer defender o seu, não o nosso.

O mundo quer que a gente fique horas ao telefone, torrando dinheiro. Quer que a gente case logo e compre um apartamento que vai nos deixar endividados por vinte anos. O mundo quer que a gente ande na moda, que a gente troque de carro, que a gente tenha boa aparência e estoure o cartão de crédito. Mãe também quer que a gente tenha boa aparência, mas está mais preocupada com o nosso banho, com os nossos dentes e nossos ouvidos, com a nossa limpeza interna: não quer que a gente se drogue, que a gente fume, que a gente beba.

O mundo nos olha superficialmente. Não consegue enxergar através. Não detecta nossa tristeza, nosso queixo que treme, nosso abati­ mento. O mundo quer que sejamos lindos, atléticos e vitoriosos para enfeitar ele próprio, como se fossemos objetos de decoração do planeta. O mundo não tira nossa febre, não penteia nosso cabelo, não oferece um pedaço de bolo feito em casa.

O mundo quer nosso voto, mas não quer atender nossas necessidades. O mundo, quando não concorda com a gente, nos pune, nos rotula, nos exclui. O mundo não tem doçura, não tem paciência, não para a fim de nos ouvir. O mundo pergunta quantos eletrodomésticos temos em casa e qual é o nosso grau de instrução, mas não sabe nada dos nossos medos de infância, das nossas notas no colégio, de como foi duro arranjar o primeiro emprego. Para o mundo, quem menos corre, voa. Quem não se comunica se trumbica. Quem com ferro fere, com ferro será ferido. O mundo não quer saber de indivíduos, e sim de slogans e estatísticas.

Mãe é de outro mundo. É emocionalmente incorreta: exclusivista, parcial, metida, brigona, insistente, dramática, chega a ser até corruptível se oferecermos em troca alguma atenção. Sofre no lugar da gente, se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as nossas vontades, enquanto o mundo, propriamente dito, exige eficiência máxima, seleciona os mais bem-dotados e cobra caro pelo seu tempo. Mãe é de graça.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

A MÚSICA AMBIENTE PODE SER UM CONVITE PARA SUSPENDER O TEMPO

Em meio a uma crise, a experiência da escuta profunda de playlists especiais pode levar a abandonar o controle, desacelerar e enfrentar o colapso

Quando soube que minha mãe havia sofrido um derrame, o sentimento que veio à tona não foi o desespero, mas um impulso para resolver os problemas. Meu irmão e eu compilamos senhas para plataformas do seguro-saúde, portais de pacientes e contas bancárias em uma entrada compartilhada do app Notes. Preenchemos a papelada para pagamentos de invalidez. Consultamos advogados, imaginando como lidar com o empregador de minha mãe, que ameaçou demiti-la se ela não voltasse ao trabalho.

O derrame não foi a única crise. Havia o pavor da próxima eleição presidencial; o arrasto incessante da pandemia; a expectativa de concluir o mestrado enquanto cuidava da minha mãe; e a realidade de que, como família imigrante, todo nosso sistema de apoio estava em casa, na República Dominicana. Na maioria das vezes, meu irmão e eu estávamos sozinhos. Então, eu pesquisei no Google. Eu fiz playlists.

Eu chamei uma delas de “se você precisar respirar” e a preenchi com os tons de sintetizador de foco suave e loops obliterantes de música ambiente. Percorri o Spotify e me deparei com dezenas de playlists projetadas para regulação do humor e autocuidado: Peaceful Indie Ambient, Lo-Fi Cool Down, Ambient Chili. No Headspace, app de meditação que custa US$ 69,99(cerca de R$352) por ano, encontrei paisagens sonoras selecionadas pelo sábio produtor Madlib e pelo compositor John Legend destinadas a evocar atmosferas relaxantes e propiciar dias produtivos de trabalho.

Eu não estava sozinha. Nos últimos anos, a música ambiente tornou-se um bálsamo escapista para um planeta que lida com a morte em massa, a instabilidade política, a ansiedade climática, a cultura incessante do excesso de trabalho e a dissociação que essas condições causam. O mundo da tecnologia foi rápido em lucrar: em 2017, a crítica Liz Pelly escreveu sobrea proliferação das playlists “para relaxar” do Spotify, referindo-se a isso como “uma ambição de transformar todas as músicas em papel de parede emocional”. Esta é a música de elevador do capitalismo tardio, uma anestesia leve do cérebro para pacificar a mente.

DESACELERAR

Mas nos meses que se seguiram ao derrame de minha mãe, a música ambiente não era apenas um ato de autocuidado mercantilizado. Ouvi-la exigia que eu abandonasse o controle. Fazia com que eu dispensasse o tempo progressivo. Ela me forçou a desacelerar e enfrentar o colapso.

No topo de “se você precisa respirar” está lniziare, de Alessandro Cortini, músico italiano que começou como guitarrista, tecladista e baterista do Nine Inch Nails, também conhecido por sua música de sintetizador fantasmagórica e narrativa.  Em lniziare’, ele prende o tempo.

Um único tom de sintetizador, inicialmente ligado à terra, flutua a 400 mil pés no ar, espiralando em fragmentos astrais. Ondas de feedback eletrônico se transformam em vales de ecos esticados, decaídos em abismos ocos. O tempo torna-se suave, desobediente. Ao ouvi-la, sou forçada a fechar os olhos, a sentir como o som viaja pelo corpo, mudando de forma para um desvio não linear. Me sinto desapegada de qualquer versão determinista do futuro. Nesse lugar entre a luz e a escuridão, prazer e dor existem na mesma medida. Experimento toda a fragmentação da vida, os lembretes do trauma e da incerteza com os quais acordei nos últimos quatro meses. Aqui, me recuso a deixar o luto se tornar autodefinição: vivo livre da velocidade da emergência.

A música ambiente sempre conteve uma espécie de conhecimento subterrâneo. O músico e crítico britânico David Toop, que escreveu em 1995 Ocean of Sound, texto que define essa música, recentemente argumentou que ela se separou das qualidades filosóficas sugeridas durante sua gênese na década de 1970. Em um ensaio de 2019, Toop se refere a ela como uma forma musical “comprometida (implícita ou explicitamente) com um engajamento com interpretações e articulações de lugar, ambiente, escuta, silêncio e tempo”, que inspira ”um estado de espírito sintonizado com a inclusão”.

E, no entanto, a visão dominante da música ambiente hoje é uma inversão caricatural dessas aspirações. Em uma indústria de bem-estar multibilionária, plataformas de streaming e apps de meditação enquadram a música ambiente como música de fundo. É música de spa e ioga, ou sons para um sono tranquilo. Em vez de abraçar o potencial da música ambiente – sua capacidade de suavizar barreiras e afrouxar ideias de som, política, temporalidade e espaço – ela se tornou instrumentalizada, diminuída.

ESCUTA PROFUNDA

A pioneira da música experimental Pauline Oliveros previa como uma abordagem sensorial da música e da audição poderia cultivar o pensamento politicamente dinâmico. Ela passou a vida desenvolvendo uma teoria da escuta profunda, em que há uma distinção entre ouvir e escutar; a primeira é uma consciência superficial do espaço e da temporalidade, e a segunda é um ato de foco imersivo.

Eu pratiquei a escuta profunda com minha playlist, especialmente com Being Here, do inovador da new age Laraaji. É difícil identificar quando Being Here te atinge: na marca de 10 minutos, 15 ou mesmo em seu beatifico final de 25 minutos. Laraaji produz glossolalia aural – detritos melódicos divinos e luminescentes. Ouvindo sua música, sinto um abraço silencioso de sua visão do presente, notas refratando como a luz do sol acariciando as águas do oceano. Não é um simples bálsamo para uma dor incomensurável.

Being Here não é uma demanda para recarregar para a produtividade. Ela me fez esquecer o looping do tempo, me desvencilhar de qualquer tipo de cronologia preditiva – sobre a recuperação de minha mãe, mas também sobre sobreviver a um estado contínuo de dificuldades. Foi uma ruptura insurgente no tempo – um chamado para mergulhar na realidade de um presente catastrófico e me preparar para fazer algo a respeito.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O PERIGO DO EXCESSO DE ELOGIOS

“Os pais têm que se lembrar de sempre elogiar e abraçar uma criança quando ela praticar algo de bom (…), principalmente quando for pela primeira vez. Ficar elogiando demais acaba mais incomodando a criança do que alimentando seu ego. São os pais “lambe-lambe”, lçami Tiba.

Durante os últimos aos 30 anos, na esteira do processo de globalização, instalou-se um sentimento de ansiedade e culpa generalizada nas relações das famílias. A busca pelo sucesso na vida profissional fez com que por um lado, os pais de descuidem dos filhos e parceiros e fiquem reféns das “fórmulas mágicas” dos especialistas em marketing e psicologia para compensar os entes amados nas raras vezes em que podem se ver. Segundo Riccardo Mazzeo, entrevistando Zygmunt Bauman em “Sobre Educação e Juventude”, gastamos um monte de dinheiro com “provas de amor” e o resultado “é que temos menos tempo ainda para passar com nossa família e precisamos trabalhar mais ainda para ganhar mais dinheiro para comprar presentes ainda mais caros. É um ciclo vicioso que seria facilmente rompido se oferecêssemos nossa presença, atenção e carinho, em vez de objetos”.

Como se não bastasse, além da “compra” do amor, outra forma de mitigar essa “culpa” que permeia as dinâmicas familiares passou a ser a importância exagerada que se dá a construção da autoestima das crianças. “Exagerada” porque, se é intuitivo acharmos que elogiar uma criança por executar bem uma tarefa vai aumentar sua auto­ estima, pesquisas recentes mostram que a qualidade do elogio que o adulto dá pode influenciar crenças infantis muitas vezes equivocadas sobre elas mesmas. Exemplo disso é dado no artigo “Os perigos do louvor extremado” publicado em 10 de abril de 2014 por Art Markman, Ph.D., cientista cognitivo da Universidade do Texas (www.psychologytoday. com). O autor considera que quando o adulto – pai ou educador – afirma que a criança é, por exemplo, “muito inteligente” ou “muito boa em matemática” ela pode acreditar que as habilidades fundamentais estão enraizadas em seus talentos. Assim, quando as crianças acreditam que têm um talento particular (no caso, inteligência ou ser boa em matemática) e se defrontam com dificuldades nessas áreas, reagem muitas vezes como se tivessem atingido o limite de seu talento, e tendem a “colapsar” ante o fracasso.

Com efeito, especialistas afirmam que os elogios devem se concentrar em esforço e conquistas para ensinar as crianças que elas estão desenvolvendo habilidades – seja qual for a área de desafio proposta. E, conforme Markman “crianças que acreditam estar adquirindo habilidades e evoluindo tendem a enfrentar as dificuldades, reagir diante delas, trabalhando duro, em vez de desistir”.

De acordo com o psicanalista e artista plástico Claudio Castelo, “é necessário perceber quais os dons que temos e também os que não temos para não ficar dando murro em ponta de faca”. Em suas palavras, “a verdadeira  autoestima, é o respeito que sentimos por aquilo que somos de fato, pelo que a natureza nos deu e se impõe às nossas existências, tal como a cor da pele, do cabelo, dos olhos, a genética que portamos, bem como nossas personalidades”. Percebendo o que somos, ou o mais próximo disso, “podemos fazer um casamento mais proveitoso conosco para tirarmos proveito dessa condição e desenvolver os recursos que dispomos”, conclui Castelo.

A propósito, há estudos recentes sobre o problema da má elaboração da autoestima que mostram sua estreita relação com o bullying e a violência. Costumava-se presumir que os bullies (agressores) agiam violentamente em relação aos outros porque sofriam de baixa autoestima, mas, curiosamente, pesquisas recentes indicam que eles agem do jeito que agem porque sofrem de uma injustificada autoestima “elevada”.

A psicanalista e pesquisadora do núcleo de Pesquisa de Psicanálise e Educação da USP, Marcia Neder, autora do livro Déspotas Mirins O Poder nas Novas Famílias (Editora Zagodoni), no artigo Pequenos príncipes (www.cartafundamen­ tal.com.br), afuma para Tory Oliveira que, no século XX, a partir da despatriarcalização familiar, a criança passou a ocupar, cada vez mais, o papel de organizador da família. Neder defende que os pequenos tiranos são frutos não só da educação dada pelos pais hoje, mas também de um contexto social que coloca a criança como o centro do universo. “Além disso, se antes os pais exigiam respeito e obediência, hoje preferem ser amados e aprovados pelos filhos – o que também reforça a “pedocracia”, conclui.

A “pedocracia” se sustenta graças ao esforço obstinado dos pais para garantir o sucesso futuro dos filhos e na forma que encontraram para estimulá-los a se manter no caminho do sucesso: alimentando sua autoestima.

Assim, se até a década de 1960, mandar a criança calar a boca era perfeitamente aceitável e estimular a autoestima era sinônimo de criar filhos mimados, hoje, a geração de pais na faixa dos 25 aos 45 anos de idade, está, na sua maioria, com problemas para educar os filhos. O que acontece, segundo afirma o psiquiatra Içami Tiba em seu livro Educação familiar Presente e Futuro (Editora Integrare), é que esses pais pertencem à geração Y, cujos pais, em geral, sustentaram tudo sem meritocracia pois o que interessava era “ser feliz”. Não aguentavam ver os filhos sofrer e com isso criaram verdadeiros príncipes herdeiros. Tais filhos, que foram igualmente ajudados e bajulados pelos avós “babões”, não têm base para educar os próprios filhos, delegando-os a terceiros, inclusive a escolas onde essas crianças são meros transeuntes.

Os pais gostariam muito que os filhos nunca fossem privados de nada e com elogios vazios ou exagerados acabam dando a eles a promessa de uma ilusão de que a vida é o mar de rosas que eles gostariam que fosse. Mas a vida “essa traiçoeira desmancha prazeres”, os desmente com seus inevitáveis altos e baixos. O grande desafio dos pais é, nas palavras de Içami Tiba, “ensinar aos filhos que felicidade não é não ter problemas, mas ter resiliência para compreender, enfrentar, superar problemas. (…) A felicidade está em não abandonar a escola por causa de uma matéria ou professor, não desistir do campeonato pela derrota em um jogo, não renunciar a um cargo por frustração”.

O artigo The Adverse lmpact of lnflated Praise on Children With Low Self-Esteem, defende a influência até nociva do elogio exagerado sobre as crianças. Ele narra um estudo realizado com crianças com idades entre oito e 12 anos em um museu de ciências. Todas as crianças foram previamente avaliadas em sua autoestima e de­ pois apresentadas a um pintor importante através de vídeo. O pintor propôs que eles observassem uma pintura famosa e fizessem uma cópia dela para ele avaliar. Algumas crianças receberam elogios enfáticos como ”Você fez um desenho maravilhoso!”. Outros receberam elogios normais do tipo “Seu desenho estava bom”. E algumas crianças simplesmente não receberam nenhum feedback sobre o seu desenho.

Em seguida, as crianças receberam outras tarefas de desenho em que podiam optar entre copiar uma figura simples ou uma figura complexa. Só que foram informados de que, se escolhessem a figura complexa provavelmente cometeriam um monte de erros, mas iriam aprender muito. Se, por outro lado, selecionassem a figura simples, come­ teriam poucos erros, mas perderiam a oportunidade de aprender muito. O que curiosamente se observou foi que crianças com baixa autoestima, que foram exageradamente elogiadas na primeira etapa do exercício eram muito menos propensas a escolher figuras complexas para desenhar do que as que receberam elogios regulares. Crianças com autoestima elevada foram menos influenciadas pelos elogios. Ao final dos estudos os pesquisadores foram capazes de concluir que crianças com baixa autoestima ou não acreditam em elogios exagerado ou se sentem intimidadas por eles.

M.A

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