OUTROS OLHARES

PARECE, MAS NÃO É: TEM CARA, GOSTO, CHEIRO, MAS NÃO TEM O INGREDIENTE

Além dos hambúrgueres, há mais produtos com nomes e embalagens que induzem o consumidor ao erro

Chocolate que nem é chocolate, molho sabor queijo cheddar sem o cheddar, biscoito com recheio sabor de morango sem morango, bebida pronta de Alpino sem o dito cujo … Há muitos outros produtos que parecem, mas não são além dos famosos  McPicanha e Whopper Costela, que viralizaram nas redes sociais e acabaram sendo alvo do Ministério da Justiça e Procons por, apesar do nome, não terem os cortes das carnes na composição dos seus hamburgueres.

A informação pode até estar na embalagem, na maioria das vezes em letras miúdas, e dentro das normas brasileiras. Mas para o consumidor é difícil entender que pode não ter o ingrediente do sabor do produto na sua receita, ainda mais quando aparece em destaque no rótulo, como é o caso do Club do molho sabor cheddar, da Pollenghi, da bebida pronta Alpino, da Nestlé, ou do biscoito Trakinas sabor morango, da Mondélez Brasil.

No caso do popular BIS, também da Mondélez, por exemplo, apesar da informação destacada de que se trata de wafer “sabor” chocolate, é difícil encontrar quem saiba que é um biscoito e não um chocolate. Até porque, é junto dos chocolates que ele pode ser encontrado no mercado.

“Às vezes, diz que tem uma coisa e é só a essência, fala que é suco de uva, mas tem mesmo é corante. A informação deveria ser mais destacada, senão a gente acaba sendo enganado”, diz a estudante Tárcia Pereira Abrantes, de 20 anos.

De acordo com o Ministério da Agricultura, não basta informar, as embalagens não podem induzir a erro ou engano.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) diz que a apresentação da imagem, por exemplo, de uma fruta, em produto que não contenha este ingrediente pode contrariar as regras sanitárias. Mas a caracterização das irregularidades, destaca a agência, requer “avaliação do conjunto de informações contidas no rótulo, já que podem estar presentes alertas que permitam ao consumidor entender que a imagem apresentada não remete diretamente à composição do alimento”.

A nutricionista do programa de Alimentação Saudável do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Laís Amaral, ressalta que embora muitos produtos sigam as regras de rotulagem brasileira, em muitos casos, pela ótica do Código de Defesa do Consumidor seriam enquadrados como propaganda enganosa:

“Entendemos que colocar no rótulo a imagem de um ingrediente que não esteja na composição é uma ilegalidade que está levando o consumidor ao erro”.

Na avaliação do professor de marketing da fundação Getúlio Vargas (FGV), Ulysses Reis, o consumidor está à frente da legislação e já toma os seus posicionamentos:

“Sob o ponto de vista legal, a empresa pode até estar correta, mas no que tange ao valor da marca é perigoso”.

Roberta Ribeiro, coordenadora do Laboratório Municipal de Saúde Pública da Vigilância Sanitária do Rio, orienta o consumidor a ficar atento ao rótulo, especialmente à denominação de venda do produto e à lista de ingredientes, lembrando que o primeiro item é o que tem maior quantidade na composição. A relação segue em ordem decrescente.

Não só o rótulo, mas a forma como o produto está disposto na prateleira do mercado ou classificado no e-commerce ajuda a aumentar a confusão. Por exemplo, lado a lado, é difícil distinguir a lata do leite Ninho da do Ninho que é composto lácteo.

Alice Amigo, coordenadora do Curso de Capacitação Estratégica em Trade Marketing da PUC-Rio, explica que a organização de produtos similares – seja no ponto físico ou nas plataformas on-line – é comum e que não costuma haver má-fé nessa apresentação.

“A proposta é sempre dar opções a quem procura uma categoria de produto reunindo os que estão a ele relacionados. Um produto pode ser encarado como sobremesa, pode estar próximo aos chocolates, mas, se, de fato, é biscoito, não pode deixar de estar na prateleira da categoria originária.

O QUE DIZEM AS EMPRESAS

A Mondélez Brasil ressalta que a classificação do BIS, de wafer sabor chocolate, é clara. Sobre o Trakinas, diz que o rótulo segue as regras da Anvisa, sendo uma delas o produto ter aroma idêntico ao natural.

A Polenghi pontua que é visível a informação de que Clube do molho é feito com queijo e aroma natural de queijo cheddar”.

Já a Nestlé enfatiza seguir as normas brasileiras em relação à bebida pronta Alpino.

O McDonald’s explica que batizou o McPicanha por causa do sabor do molho, mas, após a polêmica, suspendeu a venda do sanduíche e diz analisar os próximos passos.

Na mesma linha, o Burguer King vai substituir o nome do Whopper Costela, por Whopper Paleta Suína, corte de carne usado no hambúrguer que tem aroma de costela.

GESTÃO E CARREIRA

50 TONS DE AZUL

Alimentos coloridos atraem crianças e adultos, ainda mais em tempos de Instagram – mas não a qualquer custo. É crescente a preocupação dos consumidores com a origem saudável e sustentável dos ingredientes – Comidas ebebidas azuis, além de raras, sempre pareceram artificiais demais. ”O azul natural era considerado o cálice sagrado da indústria de bebidas”, nota Itai Cohen, cofundador e CEO da Gavan, uma foodtech israelense. A startup desenvolveu um processo de extração da coloração azul de uma fonte 100% natural, a espirulina. O pigmento se mantém estável mesmo após passar por processos de altas temperaturas e baixo pH, como acontece na pasteurização. O mercado potencial para o produto é considerável: o segmento de corantes alimentícios espera alcançar USS 5,4, bilhões em 2026.

EU ACHO …

NEM TODO MUNDO

A gente acredita que existe um senso comum regendo nossos gostos e opiniões, porém somos 7 bilhões pensando e vivendo de forma muito distinta uns dos outros.

Nem todo mundo é regido pelo dinheiro, por exemplo. Dinheiro é bom, é necessário, e quanto mais, melhor – mas esse “mais” não obceca a todos. Há quem troque o “mais dinheiro” por “mais sossego” e “mais tempo ocioso”. Qual o sentido de trabalhar insanamente se já se tem o suficiente para viver com dignidade?

Nem todo mundo gostaria de morar numa mansão com uma dezena de quartos e espaço de sobra para se perder: tenho uma amiga que desistiu do apartamento cinematográfico onde morava, pois ela não conseguia enxergar os filhos nem conversar com eles – eram longos os corredores e muitas as portas. Parecia que a família vivia num hotel, e não num lar. Trocou por um apartamento menor e aproximaram-se todos.

Nem todo mundo prefere mulheres com cara de boneca e corpo de modelo, ou homens com rosto de galã e corpo de fisiculturista. Imperfeições, exotismo, autenticidade, um look de verdade, natural, sem render-se a uma busca sacrificada pela beleza, ah, o valor que isso ainda tem.

Nem todo mundo gosta de bicho, de doce, de praia, de ler, de criança, de festa, de esportes, e nem por isso merece ser expulso do planeta por inadequação crônica. Seus prazeres estão fora do catálogo da normalidade e ainda  assim são criaturas especiais a seu modo, enquanto outras pessoas podem cumprir todas as obviedades consagradas e isso não adiantar nada na hora da convivência: são ruins no trato, fracas de humor e voltadas para o próprio umbigo, apesar de seu exemplar enquadramento social.

Nem todo mundo veio ao mundo para brigar, para reclamar, para agredir, para difamar, para fofocar, para magoar, para se vingar, para atrapalhar – hábitos de muitos, até arrisco dizer que da maioria, já que é mais fácil chamar a atenção através do nosso pior do que do nosso melhor. O pior faz barulho, o pior ganha as manchetes, o pior gera comentários, o pior recebe os holofotes, o pior causa embaraço. Porém, há os que vieram em missão de paz e não se afligem pela discreta repercussão de seus atos.

Nem todo mundo quer casar, quer filhos, quer fazer faculdade. Nem todo mundo quer ser campeão, presidente, celebridade. Há quem queira apenas viver de um jeito que não seja julgado por ninguém, há quem queira apenas se expressar de um modo menos exuberante e mais íntimo, há quem queira apenas passar pela vida nutrindo a própria identidade, não se preocupando em colecionar seguidores, admiradores e afetos de ocasião.

Sem jogar para a torcida, há quem queira somente estar bem consigo mesmo.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

QUANDO A QUEDA DE CABELO PODE SER CONSIDERADA UMA DOENÇA?

Eventos estressantes, físicos ou psicológicos, podem provocar perda assustadora de tufos: entenda a vida dos fios e o que pode ser feito

Uma mulher do meu grupo de tricô recentemente perguntou se alguma de nós sabia onde poderia comprar uma peruca grisalha. Embora ela parecesse ter uma grande quantidade de cabelo, ela relatou que estava perdendo punhados toda vez que a escovava ou lavava. Obviamente muito chateada com o que estava acontecendo, disse que não queria esperar até ficar careca para encontrar um substituto para seus cabelos.

Ela também se perguntava porque, de repente, isso estava acontecendo e como poderia ser interrompido. O dermatologista que consultou fez algumas perguntas reveladoras e sugeriu a causa provável. Três meses antes, minha amiga havia se submetido a uma cirurgia de câncer de cólon e, como se isso não bastasse, desenvolveu uma infecção grave no pós-operatório.

O resultado tardio, uma forma difusa de perda de cabelo chamada eflúvio telógeno, estava fazendo com que seu cabelo caísse em tufos assustadores. A boa notícia é que, na ausência de outro fator físico ou psicológico, dentro de um ano ela provavelmente terá recuperado sua cabeleira normal e poderá doar a nova peruca.

TRAJETÓRIA DO FIO

Em circunstâncias normais, as pessoas têm entre 100 mil e 150 mil fios de cabelo na cabeça. Cada folículo piloso atravessa um ciclo de crescimento independente.

Cerca de 90% do seu cabelo está no estágio anágeno, ou de crescimento que pode durar anos e resultar em mechas longas, a menos que cortadas. Os 10% restantes estão na fase catágena, com duração de quatro a seis semanas e durante a qual os pelos param de crescer e os folículos começam a se preparar para soltá-los, ou na fase telógena, de dois a três meses, quando os pelos estão prontos para cair, seja na escova, na roupa ou no ralo do chuveiro.

É normal perder cerca de 100 a 150 fios de cabelo por dia na fase telógena. Mas a perda de 100 ou mais fios em uma única lavagem ou escovação não é normal e pode causar alarme. Isso pode acontecer quando os folículos capilares na fase anágena progridem prematuramente para a fase telógena e resultam em perda de cabelo anormal de dois a três meses depois.

De acordo com Lindsey Bordone, professora de dermatologia na Universidade de Columbia, “o intenso estresse associado à cirurgia, perda de peso, parto e qualquer outra experiência emocional pode forçar a maior parte do seu cabelo para a fase telógena. Como esse estágio dura em média três meses, a maioria dos seus cabelos começa a cair depois que você supera o estressor”, levando você a se perguntar porque isso está acontecendo e o que pode ser feito para reverter.

Felizmente, há uma resposta simples para esta última pergunta. Supondo que o evento estressante tenha terminado, considere comprar uma peruca, lenço de cabeça, turbante, boné ou chapéu e espere até que seu cabelo volte a crescer. Fique tranquilo, se a queda de cabelo foi causada por um estresse temporário, ele voltará a crescer, mas é altamente recomendável ter paciência. O crescimento geralmente não é aparente por quatro a seis meses e pode levar de 12 a 18 meses antes de ser cosmeticamente aceitável. Não há realmente nada que possa acelerar o processo, segundo os médicos, então não desperdice seu dinheiro em suplementos e outros remédios.

OUTROS MOTIVOS

Outras possíveis causas de perda de cabelo telógena difusa incluem uma tireoide hiperativa ou hipoativa, com o crescimento normal do cabelo restaurado assim que a anormalidade hormonal for corrigida. Vários distúrbios crônicos ou inflamatórios, doenças autoimunes ou infecções crônicas também podem causar perda de cabelo.

Deficiências nutricionais, especialmente de ferro ou zinco, proteínas, ácidos graxos ou vitamina D, são outras causas possíveis, assim como restrição calórica extrema e dietas radicais. Independentemente do que você possa suspeitar, é altamente recomendável fazer um check-up médico completo para determinar uma causa especifica e muitas vezes corrigível, insistiu Bordone.

A perda de cabelo na fase anágena nunca é normal e mais comumente resulta de uma exposição tóxica como o tratamento com drogas anti­cancerígenas. A perda de cabelo anormal geralmente é notada uma ou duas semanas após o início da quimioterapia e é mais aparente em dois meses. O cabelo é mais provável de ser afetado, mas todos os pelos faciais e corporais também podem ser perdidos. No entanto, as madeixas começarão a crescer novamente dentro de semanas após o término da quimioterapia.

Outras causas de perda de cabelo anágena que podem ser permanentes incluem radiação e envenenamento por metais pesados. Além dos medicamentos quimioterápicos, os medicamentos que às vezes podem causar queda de cabelo incluem varfarina, esteroides, pílulas anticoncepcionais, lítio, anfetaminas e suplementos de vitamina A, embora o cabelo volte a crescer quando o medicamento agressor for interrompido.

A forma mais comum de queda de cabelo está relacionada à idade e não está associada a nenhuma doença subjacente, deficiência ou situação angustiante. É a alopecia androgenética, mais comumente chamada de calvície de padrão masculino ou calvície de padrão feminino quando afeta mulheres. Este tipo de queda de cabelo é mais comum em homens brancos, afetando cerca de metade deles aos 50 anos.

Vários medicamentos podem combater a alopecia androgenética, pelo menos até certo ponto, por isso é importante ver um especialista.

No entanto, algumas mulheres contribuem para a perda de cabelo, adotando penteados apertados como rabo de cavalo ou trancinhas que puxam o cabelo, práticas que levam os médicos de Columbia a recomendarem deixar o cabelo solto.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ENTRE A INFÂNCIA E A ADOLESCÊNCIA

As delícias e percalços de uma fase de indefinição

Quando se trata de desenvolvimento humano, é muito difícil definir exatamente quando começam e quando terminam suas “fases”, “etapas” ou “estágios”. Quando uma pessoa se torna adulta, de fato? O marco legal estabelece que, a partir dos 18 anos, a pessoa responde legalmente pelos seus atos. Mas isso significa que ela seja adulta? O mesmo se dá em outros momentos do desenvolvimento. Não podemos definir com exatidão quando uma pessoa se torna idosa, de fato, nem quando deixa de ser criança e “vira” adolescente. Os marcos legais são necessários para que se desenvolvam políticas públicas voltadas à população de determinada idade (que, espera-se, estejam vivenciando determinado momento do desenvolvimento que é comum à maioria das pessoas daquela idade), porém, no nível individual, muitas diferenças podem existir entre duas pessoas que tenham a mesma idade.

Vamos refletir, neste texto, sobre as questões próprias da adolescência e a pré-adolescência. Como dito antes, não há como se definir exatamente quando se passa de uma etapa do desenvolvimento para outra, quando se deixa de ser criança e se torna adolescente, ou pré-adolescente. Para compreendermos melhor esta questão, penso ser necessária uma diferenciação de dois conceitos que muitas vezes são utilizados como sinônimos, porém representam fenômenos diferentes. Estes conceitos são: a puberdade e a adolescência.

Como são utilizados muitas vezes como sinônimos, o leitor poderá se indagar: “mas puberdade e adolescência não são a mesma coisa?” Apesar de dizerem respeito a um mesmo período etário que compreende diversas mudanças, é necessário diferenciar o que seja a puberdade e o que seja a adolescência, para podermos compreender melhor a assim chamada pré-adolescência.

Por puberdade, compreende-se todas as mudanças corporais que a pessoa começa a vivenciar quando seu corpo começa a deixar de ser um corpo “de criança” e avança cada vez mais para se tornar um corpo “de adulto”. Essas mudanças são as aparições dos denominados caracteres sexuais secundários, ou seja: as meninas começam a menstruar, os seios começam a crescer, os meninos começam a apresentar mudanças na voz, uma penugem no rosto prenuncia o que será um dia a barba e tanto meninos como meninas veem proliferar por seus corpos os pelos, o aumento de estatura, espinhas, assim como seus aparelhos reprodutivos vão se tornando aptos a procriar. Claro que estas mudanças variam muito de pessoa para pessoa, podendo apresentarem-se de maneira mais acentuada para uns e menos para outros, assim como podem se iniciar mais cedo para uma pessoa e mais tarde para outra. Uma garota de 11 anos com corpo “de criança”, que ainda não menstruou nem tem indícios de crescimento dos seios pode conviver na sua sala de aula com outra que já tenha menstruado e cujos seios começam a se desenvolver. E isso é normal. As pessoas possuem ritmo diferentes de desenvolvimento.

A essas mudanças corporais, chama-se puberdade. A menos que haja algum problema sério de desenvolvimento, todos vão passar por ela. O que seria então a adolescência?

O conceito de adolescência como nós conhecemos, ou seja: um período de tempo entre a infância e a vida adulta, com características próprias, é algo próprio de nossa civilização ocidental industrializada. Isso significa que o que conhecemos por adolescência só faz sentido na nossa cultura. Em outras culturas consideradas “primitivas”, não há um período entre infância e a vida adulta. Nessas culturas há rituais geralmente dolorosos, pelos quais o jovem e/ou a jovem passam e, uma vez superadas as provações, assumem o papel de adultos perante a comunidade.

A adolescência enquanto etapa do desenvolvimento, portanto, é o que se costuma chamar de uma construção social. E o que significa exatamente uma construção social? Uma construção social é algo que tem uma história e um desenvolvimento dentro da nossa sociedade, é algo que não é natural por si só mas que possui características que são significadas pela sociedade e dentro dela. Como afirmado no parágrafo anterior, há culturas em que a adolescência como conhecemos “não existe”, por assim dizer, passa-se da infância à idade adulta através de um ritual estabelecido pela tradição daquela sociedade. Nossa sociedade, apesar de também apresentar rituais próprios, desenvolveu ao longo do tempo a noção de um período da vida de preparação para a vida adulta que ficou conhecido como “adolescência” e que possui características próprias. As ciências, como também fazem parte da sociedade, são chamadas a oferecer explicações sobre os fenômenos que ocorrem em sociedade, assim como oferecer soluções a problemas que advém destes fenômenos. Com a adolescência não é diferente.

Conforme apontado por Bock (2007). no que diz respeito especificamente à psicologia, o primeiro autor a realizar estudos sobre a adolescência foi Stanley Hall, no início do século XX. A partir de então, a adolescência tem sido considerada como uma fase difícil da vida: repleta de crises e turbulências. Autores psicanalistas viriam reforçar este aspecto tormentoso dessa etapa da vida, porém, segundo a autora deixaram de lado a concepção fundamental para se entender o desenvolvimento do ser humano: que este desenvolvimento se dá em sociedade. Desenvolver-se em sociedade significa que o indivíduo, ou sujeito, está em contínua interação com os meios e grupos dos quais faz parte e aprende com eles e neles a ser de uma determinada maneira ou outra. Como exemplo, podemos pensar nas diferenças culturais que as pessoas apresentam de um país para outro, ou mesmo de uma região geográfica para outra. As pessoas que apresentam essas características ou diferenças culturais não a apresentam por um motivo natural, biológico ou genético (ainda que esses fatores possam influenciar), mas sim porque aprenderam a ser assim no meio em que se desenvolveram.

Bock (2007) e outros pesquisadores da psicologia que adotam uma abordagem sócio-histórica dos fenômenos humanos chamam de visão naturalizante a tendência de enxergar etapas do desenvolvimento como algo “natural”, ou seja, algo que irá acontecer irremediavelmente, quer queira, quer não. Segundo a visão naturalizante, não há o que se fazer quanto à adolescência: uma hora ela vai chegar, vai ser turbulenta, mas uma hora vai passar. Essa visão nega, portanto, qualquer possibilidade de intervenção para um desenvolvimento menos conflituoso da adolescência.

Apesar de seus problemas, a visão naturalizante ainda predomina nas pesquisas em psicologia. Conforme demonstrado por nós, os assuntos relacionados à pesquisa da adolescência pela psicologia, em sua maioria, dizem respeito à violência, situações de risco, doenças físicas, psíquicas, uso e abuso de drogas e à sexualidade. Será que só podemos olhar o adolescente por estes pontos de vista? Ele será sempre um “aborrecente”, envolvido com violência e situações de risco, uso de drogas e seus interesses resumem-se à sexualidade?

Conforme exposto acima, compreendemos a adolescência como uma construção social. Ora, quem faz a sociedade são todos os sujeitos que fazem parte dela, portanto cabe a nós, pais, educadores e profissionais que convivem com os adolescentes quebrarmos e reconstruirmos essas representações negativas atribuídas à adolescência.

Portanto, esperamos ter esclarecido a diferença básica entre puberdade e adolescência. A puberdade refere-se às mudanças corporais que a pessoa vai vivenciar entre os 10, 11 anos ou um pouco mais, até os seus 17 ou 18 anos, mais ou menos. Enquanto a adolescência refere-se às características psicológicas e sociais que a pessoa assume nesta mesma faixa etária. Ou seja: ambos fenômenos coexistem, pois na nossa cultura a mudança corporal própria da puberdade é compreendida como sinal de que a pessoa “entrou” ou “está” na adolescência. A partir disso, as pessoas que convivem com o sujeito em desenvolvimento passam a enxergá-lo de outra maneira e a exigir deste uma outra postura perante as situações que vivencia. Não se espera de um adolescente que este venha a ter os mesmos comportamentos, pensamentos, afetividade e interesses que uma criança, por exemplo.

E como isso se passa para a pessoa que está se desenvolvendo? Como afirmado anteriormente, o nosso desenvolvimento é em sociedade, portanto, respondemos às demandas que a cultura nos impõe. Uma garota ou um garoto, ao serem apontados como “não sendo mais crianças”, deverão elaborar novos modos de se comportar nos meios e grupos dos quais fazem parte. Por meios e grupos entende-se: família, escola, igreja, clube, cursos, vizinhança, etc.

Esse processo não se dá automaticamente e nem de uma hora para outra. Ao contrário das mudanças corporais que, chegada a hora, se impõem, as mudanças psicológicas acontecem de maneira mais cadenciada e complexa. Acredito que agora chegamos ao ponto específico relacionado à pré-adolescência.

Se já há uma dificuldade (compartilhada inclusive pelos pesquisadores que estudam o assunto) de definir exatamente o que seja a adolescência, ou o que seja próprio dela, o que não dizer sobre a pré-adolescência, ainda mais para quem a está vivenciando. Ou seja, muito rapidamente a pessoa “passa” de criança a pré-adolescente, sendo que o próprio termo “pré-adolescente” já prenuncia que em breve já não se será mais isso, mas outra coisa: o adolescente propriamente dito.

Quando e como acontece a pré-adolescência? Aos dez, 11, 12 anos? Antes disso? É possível um pré-adolescente mais velho, ou a partir de um certo momento o sujeito é adolescente, querendo ou não?

Essas perguntas permanecem sem resposta porque além dos ritmos individuais de desenvolvimento, tanto corporais como psicológicos, serem muito diferentes, há uma indefinição do que seja um pré-adolescente, indefinição ainda maior do que seja um adolescente.

Levando isso em consideração, vamos nos ater ao que seja próprio da infância e ao que seja próprio da adolescência, do ponto de vista psicológico, almejando elucidar os processos desenvolvimentais e auxiliar a compreensão destas etapas da vida. Para isso, adotaremos uma abordagem que considera a adolescência, assim como a infância, como construções sociais.  Esperamos, com nossa exposição. auxiliar aqueles que tenham dúvidas sobre estes processos e que estejam convivendo de alguma forma com as mudanças enfrentadas pela criança que aos poucos vai deixando de sê-Ia e tornando-se um adolescente (ou pré-adolescente).

A criança, desde o início da vida, vai passando por situações que podem ser vistas como desafios desenvolvimentais. Inicialmente tem que reconhecer e aprender a usar o próprio corpo, além de perceber que seu corpo e seu ser é um e o de sua mãe é outro, visto que os bebês não têm essa compreensão , vivenciam a relação com sua mãe como se fossem um só e aos poucos vão aprendendo que são duas pessoas diferentes, com dois corpos diferentes. A partir disso, vêm os desafios de se locomover e explorar o espaço. A criança aprende a engatinhar e depois a andar. Há o desafio de se comunicar com as pessoas ao seu redor e a criança tem de aprender a falar.

Todos estes processos acontecem inseridos numa determinada época e sociedade que vão significar e ditar como os pais deverão auxiliar seus filhos no desenvolvimento. Isso vai depender muito do nível de desenvolvimento científico do meio em que os pais estão inseridos, além das tradições que envolvem o ato de criar filhos.

A criança, por sua vez, conforme vai conquistando os ganhos desenvolvimentais (aprende a andar, falar, etc.), tem à sua disposição novas ferramentas para agir no meio em que vive. A criança mais velha entra na escola e, neste espaço, além de ter de li­ dar com a sociabilidade, ou seja, conviver com outras crianças e adultos que não aqueles com as quais convive em sua casa, começará a entrar em contato com os conhecimentos desenvolvidos pela humanidade: irá se alfabetizar, aprender operações matemáticas, noções de geografia, etc.

Todo este longo processo desenvolvimental que dura anos, vai agregando aos poucos e cada vez mais ferramentas para a criança compreender o mundo em que vive e agir neste mesmo mundo com as ferramentas adquiridas. Por ferramentas, entende-se: os conhecimentos e habilidades que vai adquirindo conforme se desenvolve.

Os ganhos desenvolvimentais vão transformando a criança e esta vai ficando cada vez mais apta a agir nos meios em que vive. Há vários estudiosos que postularam os ganhos que a criança vai conquistando no seu desenvolvimento: Freud se debruçou sobre as características afetivas de cada momento desenvolvimental, Piaget estudou e postulou os ganhos cognitivos, ou seja, como a criança pensa e aprende em cada etapa, assim como o que é capaz de fazer. Vigotski e Wallon estudaram o desenvolvimento integral da criança e como cada conquista desenvolvimental transforma toda a estrutura psíquica da criança e permite a esta interferir no seu meio.

Para os objetivos deste texto, basta que tenhamos em mente que o modo da criança se desenvolver é brincando. É através da brincadeira que a criança pode experimentar seu corpo e os objetos com os quais tem contato. Nas brincadeiras em grupo, está treinando sua sociabilidade com outras crianças, nas brincadeiras de faz de conta está aprendendo a testar papéis sociais (por exemplo: quando brinca de professora, de médico, de motorista, etc.). É através dos jogos com regras (e castigos para quem desobecê-las) que vai aprendendo que na nossa sociedade há leis que devem ser cumpridas, assim como vai percebendo, aos poucos, que há uma lógica que guia nosso mundo.

É nesse ínterim que, de repente, a puberdade se impõe: o corpo começa a mudar. E a mudança ocorre bem no momento em que a criança (ou pré-adolescente) está absorta no mundo do conhecimento: aprendendo cada vez mais sobre o mundo e sociedade em que vive. É o momento em que, psicologicamente, o intelecto está em evidência, se desenvolvendo a todo vapor e assumindo prioridade em relação a outros processos psíquicos. É então que o corpo muda. Com o corpo, mudam-se aos poucos os interesses, vem a curiosidade sobre o que está acontecendo. “Será que com meus /minhas colegas está acontecendo também?”. E é por volta dos 11 aos 13 anos, o começo da puberdade, que o adolescente vai se interessar abertamente por conteúdos relacionados ao sexo e ao sexual, se referindo a estes assuntos muitas vezes de maneira despudorada.

Estes comportamentos são mal vistos, em geral, por pais e professores que lidam cotidianamente com pré-adolescentes (são crianças ou já adolescentes?), que acabam repreendendo-os pelo “mal comportamento”. Yygotski (2006) nos chama a atenção para o fato de que este interesse aberto e despudorado por assuntos relativos ao sexo e ao sexual se deve justamente ao fato de a criança (pré-adolescente?) estar vivenciando essas mudanças em seu corpo e não ter uma base para compreendê-las. Ou seja: trata-se de uma falha pedagógica de nossa sociedade que não prepara o pré-adolescente (ou criança) para as mudanças que em breve irá sofrer e nem as auxilia a compreender o significado dessas mudanças.

Ainda que já estejamos avançando mais de 20 anos no século XXI. propostas de educação que tratem do tema da sexualidade ainda são vistas como afronta a tradições religiosas e barradas por políticos ligados setores mais conservadores. Exemplos do tipo podem ser verificados na história recente de nossa política. O resultado são crianças. adolescentes e pré-adolescentes completamente desorientados quanto às mudanças pelas quais estão passando em seus corpos e em seu psiquismo.

Numa era globalizada com acesso quase irrestrito à internet, o risco de um pré-adolescente sanar sua curiosidade sobre o sexo e sexualidade em sites pornográficos é muito alto. O conteúdo dessas páginas não educa sobre o sexo, pois as situações ali registradas, embora exibam sexo explícito, são simulações que nada ou muito pouco tem a ver com o sexo real. O interesse e o sucesso estrondoso que músicas funk com conteúdo sexual explícito fazem entre os jovens pode ser explicado também como uma falha na educação sexual de nossos pré-adolescentes.

Portanto, é extremamente necessário orientar àqueles que vivenciam as mudanças corporais, psicológicas e de interesses (ou que em breve irão vivenciá-las) sobre os significados do sexo e da sexualidade: que na nossa sociedade não servem apenas a fins reprodutivos (como seria de se esperar do sexo entre animais), mas são maneiras de vivenciar e demonstrar afeto, prazer e carinho. Que é necessário prevenir-se de gravidezes indesejadas e também de doenças sexualmente transmissíveis não menos indesejadas, que é necessário haver respeito e cumplicidade entre as pessoas envolvidas no ato sexual. Que é necessário haver acima de tudo responsabilidade com o próprio corpo e sentimentos, assim como com o corpo e sentimentos do (a) parceiro(a).

Concluindo: também quando o assunto é desenvolvimento, o melhor caminho é sempre a educação.

M.A

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