OUTROS OLHARES

UMA CORTINA DE PÓ

Alunos simulam uso de droga com corretivo e preocupam pais e especialistas em drogas

A vida, às vezes, imita a arte de forma desastrosa. Vídeos apelidados de “Desafio Euphoria”, em alusão à série sobre comportamento adolescente na HBO, circulam nas redes sociais e têm levado alunos de escolas públicas e privadas a se drogarem com substâncias até então inofensivas, como corretivo, giz e cola. A preocupação cresce entre pais e especialistas que já veem no fenômeno mais uma porta de entrada para o consumo de drogas ilícitas. Casos de estudantes flagrados se drogando soaram o alerta de escolas, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste de secretarias de Educação pelo país.

Manipulado pelos estudantes, o corretivo foi usado como pó em pelo menos oito escolas estaduais do Paraná. Em Cascavel, o Colégio Estadual Padre Carmello Perrone chegou a proibir o uso do produto, conhecido como “branquinho”, para evitar que fosse cheira do pelos alunos. O fato foi informado ao Núcleo Regional de Educação. A direção de uma escola estadual de Camaquã, no Rio Grande do Sul, chamou atenção para a disseminação de “cocaína de errores”, outra forma de identificar a substancia, após flagrar alunos consumindo o pó.

ALARME EM CASA

Localizada, a estudante K., de 18 anos, que está no terceiro ano do Ensino Médio, preparou pó de corretivo dentro de sala de aula e publicou o vídeo em suas redes sociais. No rastro da popularização do consumo dentro do ambiente escolar, ela teria feito, em suas palavras, uma “brincadeira”.

“Foi zoação, porque muita gente estava fazendo no Tik Tok”, disse a aluna, que estuda em um colégio da rede estadual da Bahia e pincelou o produto na mesa e, após secar, o esfarelou com uma régua. “Sei que é errado cheirar e nunca faria isso.

Um aluno de 12 anos, que faz o 7º ano do Ensino Fundamental, contou ter realizado o que está sendo chamado na internet de “mundo corretivo”. Sem querer informar o estado em que mora, o menino, que não será identificado em cumprimento ao que determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), confirmou que preparou o “pó” com dois colegas de turma, mas que só um deles teve coragem de inalar:

“A gente sabe que faz mal. Meu amigo disse que o nariz ardeu e ficou espirrando, mas não contamos para os nossos pais”.

O “Desafio Euphoria” é facilmente encontrado em vídeos gravados nos intervalos das aulas, nos banheiros ou nas salas das escolas. A exibição das cenas de consumo de drogas, ainda que não ilícitas, deve ser levada a sério. A doutora em saúde mental Janaína Soares, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Enfermagem em Adições, afirma que há uma tendência de crescimento do uso de ingredientes, cujos efeitos narcóticos são pouco conhecidos em razão de problemas psicossociais, inclusive agravados pela pandemia.

“Quando inaladas, as substâncias são rapidamente absorvidas pelo pulmão e vão para o sistema nervoso central, gerando alucinações, lentidão no pensamento e alterações da memória. Esses prejuízos podem levar a déficits escolares, além de intensificar sintomas de ansiedade e depressão”, explica Janaina.

Segundo Renato Roithman, presidente da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial, os solventes utilizados em certas substâncias podem não só irritar as mucosas nasais como, se ingeridos em maior quantidade, afetar o funcionamento de rins, fígado, medula óssea e sistema nervoso central por toda a vida. Além do corretivo, há relatos de consumo de esmalte, acetona, thinner, giz e cola.

“Esses produtos podem gerar reações locais como crise de espirros, congestão nasal e, nos casos mais extremos, sangramento nasal e alteração do olfato. Pode haver piora da rinite e de infecções, como sinusite. A chegada aos brônquios e pulmão pode resultar em crise de asma e pneumonia. O uso continuado pode gerar danos irreversíveis, como perda motora”, diz o especialista.

Um outro alerta é para a possibilidade de o usuário eventual evoluir para o consumo de drogas ilícitas. Após o longo período de isolamento devido ao avanço da Covid-19, a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (Pense), do IBGE, prevê agravamento dos dados sobre consumo de drogas. O último levantamento de 2019 apontava que 13% dos alunos entre 13 e 17 anos já tinham usado maconha, cocaína, crack e ecstasy.

E por isso um colégio de São Paulo convocou os pais depois do caso de uma criança de 11 anos cheirando “pó de corretivo” dentro da instituição.

Uma das mães convocadas foi a blogueira Ana Paula Porfirio, de 41 anos, que ficou assustada porque o aluno era colega de sala de um de seus filhos – um menino de 11 e uma adolescente de 14 anos, que sofre de transtorno de ansiedade. Ela relata que a mãe do aluno pego com corretivo em pó ficou muito abalada:

“Fomos avisados de que o menino fingia usar cocaína. A diretora alertou que era uma situação delicada e que tínhamos que prestar atenção ao comportamento dos nossos filhos nas redes sociais. A droga acaba sendo inserida na vida deles de uma forma ou de outra. Precisamos estar atentos para orientar e esclarecer sobre o assunto.

“TONTURA E BRISA”

Nas Diretrizes da Comunidade do Tik Tok – onde a maior parte dos vídeos é postada -, é observado que conteúdos com menção explícita, apologia ou imitação ao uso de drogas não são permitidos. Contudo, imagens da trend do corretivo” seguem disponíveis no aplicativo, compartilhados por perfis de estudantes e menores de idade. Procurado, o Tik Tok disse apenas que está comprometido com a segurança da comunidade e que trabalha para identificar e remover conteúdos e contas que violem as regras.

Enquanto isso, a jovem S., de 14 anos, busca satisfazer sua curiosidade e amenizar as dores de problemas familiares no torpor provocado pelo pó de corretivo. Ela disse que já inalou a substância três vezes na escola, após ter visto o vídeo de uma amiga. Em uma das experiências, ela lembra de ter sentido tontura, além de ardência no nariz. A estudante conta que experimentou a substancia junto de um colega.

“Achei boa a tontura, só achei ruim o nariz arder. Na primeira vez, eu fiquei com o nariz coçando muito, mas passou em dez minutos”, relata a estudante, definindo a sensação toda como “brisa”.

No campo jurídico, a advogada Taís Pagy de Amorim, do Núcleo de Praticas Jurídicas do Curso de Direito da Unigranrio, aponta que tanto as escolas quanto os próprios pais podem ser responsabilizados por danos morais e patrimoniais, inclusive arcando com despesas de eventual tratamento de saúde.

GESTÃO E CARREIRA

COM FOCO EM OUTRAS PRIORIDADES, FUNCIONÁRIO EVITA CARGO DE LÍDER Estudo aponta que rejeição por liderança vem do medo de perda do equilíbrio entre as exigências do trabalho e a vida pessoal

Aos 56 anos, Anderson de Castro é servidor público do Judiciário em Minas Gerais. Concursado e com oito anos na função, ele não deseja ocupar um cargo de chefia. O pensamento da psicóloga Thiara Lima, de 35 anos, não é diferente. Há oito anos ela trabalha em uma empresa privada, hoje como analista de recursos humanos. Também não se vê construindo carreira rumo à liderança.

Para Anderson, os principais empecilhos são acreditar não ter perfil de liderança e achar que um cargo como líder prejudicaria o seu tempo para ficar com a família e se dedicar aos estudos de cinema. No caso de Thiara, a preocupação é não sobrar tempo livre para lidar com questões pessoais.

Não almejar uma posição de liderança não é exclusividade desses profissionais, embora a questão ainda possa ser um tabu. Por isso, esse foi o tema de um estudo realizado entre o Insper e a consultoria Robert Half, para entender as preocupações das pessoas em relação à ascensão profissional.

A pesquisa partiu de um dado obtido em 2014 pela plataforma de empregos norte­ americana Career Builder, que mostrou que, entre 3.625 profissionais, apenas 34% buscavam posições de liderança e só 7% queriam chegar a um cargo no C-level (executivo sênior). “A discussão é geralmente sobre o que é preciso fazer para ascender, mas pouco se fala do que está impedindo as pessoas de quererem essa ascensão”, diz Tatiana Iwai, professora e pesquisadora do Núcleo de Estudos de Comportamento Organizacional e Gestão de Pessoas do Insper.

Os pesquisadores fizeram perguntas a 587 empregados de empresas privadas, com idades a partir de 20 anos e que ocupam cargos de funcionária líder de negócio. Eles constataram que, ao longo da carreira, os profissionais enfrentam duas grandes preocupações em relação aos cargos de liderança: uma sobre competência (relacionada à dúvida sobre estar pronto e o medo de falhar) e outra sobre o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. “Essas duas dimensões afetam a motivação para ascender e variam de acordo com o ponto em que o profissional se encontra na hierarquia. Em níveis mais baixos, ambas as preocupações são altas. Mas quando vai subindo na hierarquia, a preocupação com a competência diminui, provavelmente motivada pela alta eficácia, mas o receio de desequilibrar a vida pessoal segue alto”, explica Gustavo Tavares, pesquisador do Insper.

A vontade de equilibrar os dois lados da vida não é algo novo, mas, de acordo com dados levantados pelo LinkedIn na última semana, a pandemia a intensificou. Entre 1.160 entrevistados, o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal apareceu como a principal razão pela qual 49% dos profissionais buscam vagas flexíveis.

COMPETÊNCIAS

O estudo do Insper mostrou também que a intensidade dessas preocupações varia de acordo com os recursos psicológicos que o profissional possui, entre eles: habilidades humanas (comunicação, empatia); cognitivas (inteligência geral, capacidade de resolver problemas); e resistência psicológica (resiliência e estabilidade emocional).

“As competências humanas e a resistência psicológica ajudam a reduzir as preocupações que as pessoas têm sobre competência e também ajudam a reduzir os receios de equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. É como se a resistência psicológica fosse a ‘casca dura’ da pessoa para conseguir lidar com desafios”, conta Tatiana. Essa carência é uma preocupação que atinge tanto profissionais que não querem ser líderes como quem já ocupa postos de liderança. Ao longo de anos como mentora de líderes, Marcia Gonçalves percebeu que a carência dessas habilidades, geralmente, leva à angústia e à vontade de desistir do cargo. “Para liderar e entregar resultado, você tem que ter expertise para lidar com relações humanas. Há muitos que ascendem de forma ingênua e sem experiência de gestão de pessoas então falham e vem a angústia.

A especialista acredita que qualquer profissional pode desenvolver o tão falado perfil de liderança, mas isso não significa que todo mundo que é promovido a líder já possui essas habilidades. “Quando a pessoa é promovida sem ter um preparo, ela acaba não desenvolvendo essas habilidades, o que faz com que ela se questione e pode até desistir de ser líder”.

VISÃO DISTORCIDA

 Falar sobre não querer alcançar um posto de liderança ainda é um tabu porque, no geral, o mercado entende a ascensão à liderança como a constatação de que uma carreira é bem-sucedida. “Existe o profissional que pode até ter o desejo de ser líder, mas ele tem a ideia de que, se não for líder, não está crescendo na carreira, está estagnado. A consequência é uma visão distorcida do posto de liderança”, explica Mário Custódio, diretor da área de recrutamento da Robert Half.

Para o profissional que não quer esse cargo, o primeiro passo, segundo os especialistas, é buscar o autoconhecimento por meio de mentorias, capacitação e pelo processo terapêutico. Para quem passou por esse processo e tem certeza de que não quer liderar uma equipe, os especialistas aconselham a ser honesto com a empresa.

Do ponto de vista das empresas, há um leque de possibilidades, que começa por oferecer a oportunidade de carreira em Y – modelo de plano de carreira em que o funcionário, além de ter a opção de crescer para cargos de gestão, também pode ascender para cargos técnicos.

Com isso em mente, a MAG Seguros, empresa em que Thiara (do início desta reportagem) trabalha, criou dois programas de desenvolvimento. O primeiro é focado nas pessoas que têm vontade de liderar, mas ainda não tiveram essa experiência. O outro é focado na carreira em Y, para quem quer crescer como especialista. “O especialista precisa saber que ele também é vital para a empresa. Imagina se todo mundo nas empresas fosse liderança?”, diz Vanessa Joannou, gerente de atração de talentos e carreira da MAG.

EU ACHO …

A DESAGRADÁVEL TAREFA DE FAZER-SE ODIAR

Pais de família estão cada vez mais participativos, atuantes, necessários, afetivos, fundamentais na criação dos filhos, ao contrário do que acontecia nas gerações anteriores, quando o pai era uma figura cerimoniosa, o provedor que detinha a última palavra nas questões graves e terceirizava o resto. Hoje não. Hoje os pais deitam, rolam, se embolam, se envolvem nas pequenezas cotidianas, são quase mães.

Quase. Porque tem uma coisa que a maioria deles ainda não consegue assumir: a desagradável tarefa de fazer-se odiar.

Li essa frase num livro (em outro contexto) e achei que fechava perfeitamente com a maternidade. O que é ser mãe, senão tomar para si o papel de chata da família)

As cobranças do dia a dia são especialidade nossa: o que comeu, o que vestiu, se tomou banho, a toalha no chão, os garranchos, o blusão amarfanhado, a luz que ficou acesa, liga pra tua vó, o estado deplorável do tênis, a hora em que foi dormir, segura direito esse talher, deixa de preguiça, cuidado ao atravessar, não durma de cabelo molhado, largue esse computador, menos palavrão, hora de acordar, a consulta no dentista, quem é o amigo mal-encarado, convida os teus primos, não tranca a porta à chave, fecha a janela, abre a janela, não corre pela casa, me avisa assim que chegar, tu anda bebendo?

Não que o pai seja relapso, mas se ele ainda vive com a mãe das crianças, a patrulha cotidiana possivelmente ficará a cargo do sargento de saias. Nós, tão femininas, tão doces, tão sensíveis, tão amorosas, não pensamos duas vezes em abrir mão desses suaves atributos caricaturais a fim de manter a casa de pé, a roda girando, a vida funcionando, todo mundo no eixo. Se tivermos que ser antipáticas, seremos. Se tivermos que ser repetitivas, que jeito. Controladoras? Pois é. Alguém tem que se encarregar do trabalho sujo.

É uma generalização, eu sei, mas amparada no senso comum. Os pais mandam, ralham, brigam, mas raramente perdem a cabeça, quase nunca gritam e se estressam. Eles têm essa irritante capacidade de manter a boa reputação com os filhos. Se forem obrigados a escolher um lado durante o barraco, dirão que estão do lado da mãe, que estão de acordo com tudo o que ela disse, mas irão piscar para o filho quando ela não estiver olhando.

Ao fim e ao cabo, mães dão conta de todas as crianças da casa.

Todas.

É o nosso papel: reger a orquestra familiar ofertando nosso melhor, mesmo que ele seja confundido com nosso pior. É o risco que corremos, mas não há outra maneira de educar. O excesso de zelo pode ser estafante, mas é preciso segurar o tranco de ser odiada um pouquinho a cada dia a fim de garantir um amor pra sempre.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

ESTILO DE VIDA SAUDÁVEL ATRASA O SURGIMENTO DE DEMÊNCIA EM IDOSOS

Estudo indica que mulheres ganham seis anos de expectativa de vida, e os homens, três anos, muitos deles livres do Alzheimer

Um estilo de vida saudável pode permitir que pessoas mais velhas vivam mais, sugere pesquisa publicada na revista médica BMJ. As mulheres ganham seis anos de expectativa de vida, e os homens, três anos. Um estudo indica que muitos desses anos extras podem ser livres de demência. Cerca de 6 milhões de americanos com 65 anos ou mais tem a doença de Alzheimer, uma demência que não tem cura.

A pesquisa descobriu que, aos 65 anos, as mulheres com o estilo de vida mais saudável tinham expectativa média de vida de mais 24 anos, em comparação com 21 anos para aquelas que eram consideradas menos saudáveis. Aos homens saudáveis, a expectativa de vida era de 23 anos. Para os menos saudáveis, de 17 anos. O estudo envolveu 2.449 pessoas com 65 anos ou mais.

Os pesquisadores desenvolveram um sistema de pontuação para estilo de vida saudável que abrange dieta, atividade cognitiva, atividade física, tabagismo e consumo de álcool. As pessoas recebiam um ponto para cada área se atendessem aos padrões saudáveis, resultando em uma pontuação final de zero até cinco – sendo cinco para o estilo de vida mais saudável.

Quanto a viver com demência, aqueles com pontuação de 4 ou 5, aos 65 anos, viveram com Alzheimer por uma proporção menor de anos restantes do que aqueles com pontuação de 0 ou 1. Para as mulheres, a diferença para as mais saudáveis era ter Alzheimer em 11% de seus últimos anos, ante 19% das menos saudáveis. Para os homens, essas taxas eram de 6% a 12%, respectivamente.

O estudo concluiu que “a expectativa de vida prolongada por um estilo de vida saudável não é acompanhada por um aumento do número de anos vivendo com demência do Alzheimer”, mas sim por “uma proporção maior de anos restantes vividos sem demência do Alzheimer”.

SAIBA MAIS

Há evidências crescentes de que a microbiota intestinal pode influenciar no desenvolvimento e na progressão de distúrbios neurodegenerativos. Dois estudos recentemente publicados por pesquisadores brasileiros não só reforçam essa hipótese como descrevem o mecanismo pelo qual a disbiose – como é chamado o desequilíbrio entre espécies bacterianas patogênicas e benéficas no intestino ­ pode favorecer o surgimento da doença de Parkinson.

A investigação foi conduzida por pesquisadores ligados ao Laboratório Nacional de Biociência. (LNBio), que integra o complexo do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, apoiados pela Fapesp. Parte dos resultados foi publicada em fevereiro, no periódico iScience. O segundo artigo foi divulgado na revista Scientific Reports.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CRISES DE ANSIEDADE EM ADOLESCENTES E CRIANÇAS DESAFIAM FAMÍLIAS E ESCOLAS

Diminuição do convívio social e prolongado uso de telas são pano de fundo das dificuldades

Esses primeiros meses de aulas presenciais têm sido difíceis para o menino Rafael, de 7 anos, no 2° ano do ensino fundamental de uma escola estadual do Itaim, zona leste de São Paulo. Ele reclama de falta de ar e coração disparado. Pergunta sempre à professora quando a aula vai terminar. Às vezes, morde o dedo indicador; não sangra, mas ficam marcas dos dentinhos na pele.

Surgiram problemas gastrointestinais, com traços de sangue no cocô. Quando a mãe, Paula, chega para buscá-lo, percebe o filho segurando as lágrimas. Ele só chora com a mãe. Em casa, fica quieto no sofá. Já foram três atestados médicos, de uma semana cada, por crise de ansiedade identificada no pronto-socorro. Rafael começou a visitar um psicólogo.

O sofrimento de Rafael e Paula (os nomes de pais e alunos usados na reportagem são fictícios) ilustra as dificuldades emocionais que pais e educadores estão percebendo nos estudantes das redes pública e privada, após praticamente dois anos de aulas remotas ou híbridas por causa da pandemia. O mesmo fenômeno também é observado fora do Brasil – nos Estados Unidos, o novo cenário tem chamado a atenção de autoridades.

O Brasil foi um dos países que passaram mais tempo com as escolas fechadas e muitos gestores foram criticados por priorizar bares e shows na reabertura do comércio edos serviços em fases de redução de contágio do coronavírus. Especialistas afirmam que a diminuição do convívio social, a não ser de forma virtual, e o prolongado uso de telas são o pano de fundo dessas dificuldades. Parte das crianças desenvolveu fobia ou insegurança sobre a imprevisibilidade de interações face a face. Para os mais novos, o contato direto tem sido quase uma novidade.

As circunstâncias vividas em casa – como adoecimento de parentes, desemprego, dificuldades financeiras e até a violência doméstica – também estão entre as hipóteses para explicar os prejuízos à saúde mental. Além disso, estudantes e professores voltam aos colégios com a missão de recuperar o tempo perdido e superar os prejuízos de aprendizagem no período de classes remotas. Por outro lado, a maioria dos especialistas aponta que esse é um período de transição.

SOFRIMENTO COLETIVO

Em Pernambuco, a angústia virou um drama coletivo no início de abril. Com falta de ar, tremor e crise de choro, 26 alunos da Escola de Referência em Ensino Médio Ageu Magalhães, zona norte do Recife, foram atendidos pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Uma estudante teria passado mal e desmaiado e os outros começaram a chorar. Conforme os médicos, os jovens foram atendidos no local após crise de ansiedade generalizada com “sudorese, saturação baixa e taquicardia”. Não houve hospitalização.

Neuza Pontes, gestora da Gerência Regional de Educação Recife Norte, conta que nunca havia presenciado um episódio assim em seus 29 anos de experiência. “Especialistas disseram que é possível uma histeria e uma crise de ansiedade coletiva. Foi um efeito dominó, como um contágio”, compara. As aulas foram retomadas no dia 11, mas nem todos os estudantes voltaram.

Os problemas dos alunos já aparecem nas estatísticas. A Secretaria da Educação de São Paulo e o Instituto Ayrton Senna divulgaram neste ano uma pesquisa em que sete de dez estudantes da rede pública relataram sintomas de ansiedade e depressão em níveis altos durante a crise da covid-19. O dado não aponta um diagnóstico médico fechado, mas sinais que exigem maior atenção.

De 642 mil alunos do 5º e 9º ano do fundamental e da 3º do médio que participaram do estudo, mais de 440 mil relataram problemas de saúde mental. “Há inúmeras variáveis envolvidas, pois se trata de um contexto multifatorial. Mas, a partir desse diagnóstico, a gente compreende que os estudantes estão precisando de ajuda”, disse Catarina Sette, especialista em educação integral do Instituto Ayrton Senna.

O problema também se revela em amostras menores. No Centro Educacional Pioneiro, na Vila Clementino, zona sul paulistana, os educadores já realizaram este ano 210 atendimentos socioemocionais para os alunos do fundamental II (10 a 14 anos). A quantidade já se aproxima dos 250 apoios – total do ano passado. “São questões que já existiam, mas percebemos que elas estão aparecendo em número maior”, afirma o coordenador pedagógico, Mario Fioranelli Neto, que atribui o aumento a “uma desconexão do aluno com a escola no retorno das atividades presenciais”.

O psiquiatra Rodrigo Bressan, professor de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), vai além. ”Não voltamos para os mesmos lugares após a pandemia. Para os estudantes, é uma outra escola”, afirma. “O desafio é parecido com o do início da pandemia, de sair da zona de conforto. Da mesma forma que foi ansiogênico (capaz de produzir ansiedade)entrar na pandemia, sair também é”, diz o autor do livro Saúde Mental na Escola – o que os educadores precisam saber.

Mariana, aluna de 12 anos de um colégio particular de São Paulo, já havia demonstrado algumas crises de ansiedade em casa na pandemia. No primeiro dia das provas trimestrais, no mês passado, ela começou a chorar e a professora percebeu que ela não parava de tremer. A menina saiu da sala. A mãe foi chamada às pressas e a aluna do 7º ano do fundamental foi para casa. Durante toda a semana de provas, ela não foi mais à escola.

Os educadores entraram em contato com a família. Depois de muita conversa, em que tentaram tirar o peso emocional da avaliação, a jovem fez as provas na segunda chamada. O desempenho da garota foi ruim, mas fez as provas, o que foi um avanço na visão dos professores.

Depois dessa crise, ela ficou ansiosa mais duas vezes e pediu para ir embora mais cedo. Foi atendida. Hoje, a menina continua o acompanhamento psicológico que fazia durante a pandemia.

Já Tiago ficou mais triste e isolado. O aluno de 11 anos de uma escola privada na zona leste tinha muitos amigos, com a casa cheia no fim de semana. No isolamento, tudo ficou vazio. A mãe, uma professora de 38 anos, tentou amenizar o problema comprando um videogame. Até funcionou por um tempo, mas hoje ele só quer jogar e concentrou todo o vínculo com amigos nas disputas online. Quando volta do fim de semana ou feriado, ele fica com coração acelerado e sente dor de cabeça. “Ele diz que a pandemia roubou a infância dele”, conta a mãe.

A educadora e colunista Rosely Sayao avalia que as dificuldades socioemocionais envolvem a sociedade toda, com a retomada das atividades presenciais, mas crianças e adolescentes têm menos filtros do que os adultos e, por isso, expressam mais suas dificuldades. Tem opinião semelhante a educadora Luciene Tognetta, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que já esperava uma “pandemia emocional”. Ela comparou a pressão sobre as escolas e professores pela rápida adaptação pós-quarentena ao drama dos hospitais e médicos que sofreram no início da crise sanitária.

NOVAS ROTINAS

Diante do cenário de desafios, que os educadores classificam como “fase de acomodação” ou “readaptação”, alguns colégios criam novas rotinas e aprimoram os programas já existentes nessas áreas. O Colégio Dante Alighieri, nos Jardins, região central de São Paulo, fez uma semana de integração para acolher os alunos que só se conheciam pelas telas e também os novatos. Contratou ainda um educador físico e um recreador para mobilizar alunos na hora do intervalo em torno das brincadeiras em grupo e em espaços livres. “É uma maneira para que eles se desvinculem das telas dos celulares. A ideia é que as crianças recuperem as habilidades de brincar em grupos maiores”, explica a educadora Miriam Guimarães, coordenadora de Orientação Educacional do colégio.

Algumas escolas adotam mudanças para o período de provas, momento de maior tensão para os alunos – afinal, foram quase dois anos com testes virtuais. O colégio Carandá, de Mirandópolis, interior paulista, passou a intercalar com as provas atividades que estão fora do currículo tradicional, como oficinas de dança e jogos de capoeira. “São momentos de respiro, com assuntos que eles próprios sugerem e que os professores oferecem. Não são assuntos curriculares clássicos”, diz a diretora Ana Cristina Dunker.

Nas escolasestaduais, os educadores pretendem aproximar alunos e professores dos profissionais de saúde mental. Ana Zuanazzi, especialista em educação integral do Ayrton Senna, destaca a necessidade de um trabalho intersetorial, entre os campos de saúde, educação e assistência social.

Secretária da Educação paulista, Renilda Peres afirma que cerca de 100 psicólogos vão atuar presencialmente nas Diretorias Regionais de Ensino a partir de junho. O Programa de Melhoria da Convivência e Proteção Escolar (Conviva) prevê o atendimento nas escolas dos alunos e, em alguns casos, dos professores.

Em Pernambuco, a Secretaria da Educação promoverá encontros regulares dos alunos e suas famílias com psicólogos. A medida deve ser adotada em toda a rede estadual, não só na unidade onde houve o surto coletivo. Além disso, estuda-se incorporar a disciplina Educação Socioemocional ao currículo do ensino médio. “Sentimos a necessidade de uma ação forte com os professores para trabalhar as habilidades socioemocionais dos alunos”, justifica Neuza, a gestora regional de educação. Os alunos que já têm histórico de ansiedade foram encaminhados para acompanhamento médico.

OLHO NO OLHO

Para as famílias, saber como agir também é tarefa difícil. “Mesmo com a ligação afetiva, os pais devem tentar se distanciar para entender o desafio”, orienta Bressan, coordenador do programa Cuca Legal, com foco na saúde mental nas escolas. “Não ajuda muito reclamar da escola, por exemplo, e olhar só as dificuldades”, continua.

A psicóloga Adriana Severine afirma que é importante conversar com os filhos – sem interrompê-los ou ficar olhando mensagens no celular durante o papo. “Uma conversa olho no olho vai mostrar como os pais podem interferir, seja no medo do vírus ou na dificuldade de se relacionar”, diz.

M.A

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