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AMIGOS PARA SEMPRE

A clonagem de animais de estimação ganha força e faz sucesso nas redes, mas quem espera uma cópia com o mesmo temperamento do original pode se decepcionar

Quem tem animais de estimação sofre só de pensar em perder o melhor amigo. Com o passar dos anos, a amizade construída entre o tutor e o pet passa a ser indissociável e não é raro que o animal ocupe o posto de companheiro número 1, sobrepondo-se até mesmo aos relacionamentos entre humanos. A dor da partida, portanto, pode ser dilacerante. A novidade é que, graças aos avanços tecnológicos dos últimos anos, passou a ser possível aliviar um pouco a angústia da morte de cães ou gatos. Conquistas sem precedentes na área da clonagem levaram empresas de genética a se especializar em criar cópias geneticamente idênticas dos bichinhos de estimação, dando origem a uma indústria tão inovadora quanto polêmica.

Uma das maiores expoentes do ramo é a americana ViaGen, que oferece o serviço de clonagem de cães, gatos e cavalos. Em linhas gerais, os cientistas coletam amostras do pet vivo e depois cultivam as células em laboratório por meio de processos artificiais até que se transformem em um embrião. Ele, então, é gestado para algum tempo depois resultar em uma cópia 100% fiel, pelo menos em termos genéticos, do pet original. Para clonar um cachorro, a ViaGen demora oito meses. Gatos – cuja sabedoria popular diz que são possuidores de sete vidas – dão mais trabalho, exigindo ao menos um ano para a conclusão do processo. O custo também é alto: 240.000 reais para caninos e167.000 reais para felinos. Não que os valores assustem. A empresa tem fila de espera de tutores dispostos a contratar o serviço. Embora a companhia não divulgue o número exato de animais clonados, os negócios dobraram nos últimos cinco anos.

O fenômeno não está restrito aos Estados Unidos. Empresas como a Sooam Biotech, da Coreia do Sul, e a Sinogene, da China, também atuam no ramo da clonagem doméstica. Em vídeos ao TikTok, diversos usuários mostram o dia a dia com os pets clonados. No Brasil, a prática ainda não é permitida. Mas em janeiro a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados aprovou um Projeto de Lei que regulamenta a pesquisa, produção e venda de animais domésticos clonados. Por enquanto, apenas bichos de interesse zootécnico – bois, ovelhas, cavalos, porcos, coelhos e aves, entre outros – podem ser copiados, mas já se discute a autorização para pets.

O tema é fascinante, mas é preciso fazer uma ressalva: embora os animais resultantes da clonagem sejam biologicamente idênticos, o clone não terá o mesmo temperamento do pet original. Se o objetivo do tutor for “ressuscitar” o bichinho que morreu, ele provavelmente ficará frustrado com o processo. A ciência sabe que o ambiente em que o animal for criado e experiências diferentes ao longo da vida moldam a sua personalidade. Ou seja, um pet com comportamento brincalhão pode, por exemplo, dar origem a uma cópia agressiva.

A mesma regra, ressalte-se, vale para os chamados gêmeos monozigóticos, os humanos geneticamente idênticos. “O clone é como se fosse um irmão gêmeo”, reforça Marcelo Demarchi Goissis, professor do Departamento de Reprodução Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP.  “Irmãos gêmeos, mesmo expostos a condições de desenvolvimento muito similares, têm comportamentos diferentes, cada um com sua individualidade.” No caso de animais de raças específicas, há um espectro de comportamento esperado, mas não dá para obter uma cópia idêntica.

Devem-se acrescentar questões éticas ao debate. E se as famílias quiserem clonar seus parentes queridos?

Até que ponto isso é moralmente aceitável? Quais são os riscos envolvidos na produção em larga escala de clones? A ciência não tem respostas definitivas para tais dúvidas, e elas certamente ganharão volume nos próximos anos. Existem, contudo, possibilidades mais promissoras. Desde que o britânico John Gurdon descobriu um modo de clonar sapos africanos, na década de 50, e principalmente após o nascimento da ovelha Dolly, o primeiro mamífero da história a ser clonado a partir de uma célula adulta, em 1996, os cientistas não param de se debruçar sobre o assunto. Um caminho que se desenha é a revitalização de espécies quase extintas por meio da clonagem dos escassos espécimes ainda vivos. É uma possibilidade real, embora assustadora, sinônimo da fascinante – e por vezes controversas – aventura da ciência.

GESTÃO E CARREIRA

SETOR DE COWORKING VOLTA A CRESCER COM FORMATO HÍBRIDO DE TRABALHO

Depois de ver a receita cair até 75% no início da quarentena, empresas registram aumento na procura por espaços compartilhados; SP lidera em unidades para locação

Os escritórios de trabalho compartilhados – no inglês, coworkings – voltaram a crescer no Brasil, superando as dúvidas sobre o fôlego do setor depois de dois anos de trabalho remoto em meio aos efeitos da pandemia de covid-19. Com espaços vazios da noite para o dia, algumas empresas tiveram de cortar na carne nos primeiros meses da quarentena. Um estudo da Newmark, consultoria especializada no setor imobiliário, mostra que esse corte chegou, na média, a 16% dos espaços no caso de quem precisou fechar áreas de escritórios. O faturamento no período desabou, na média, em 75%.

A boa notícia é que esses espaços já foram retomados, e a perspectiva é de mais crescimento. Agora, o impulso para a recuperação vem das companhias que passaram a retomar o trabalho presencial, mas buscaram, desta vez, modelos mais flexíveis para seus funcionários.

A mesma Newmark indica que, só no ano passado, os escritórios de coworking já somavam 1,6 mil unidades no País, com grande concentração no Estado de São Paulo (663). A menor disponibilidade de lugares atualmente éno Itaim, bairro onde fica a Avenida Faria Lima, coração do centro financeiro do País. O índice de espaço vago na região está hoje em apenas 2,8%.

Na média na cidade de São Paulo, a vacância (taxa de espaços vagos) é de 23,8%, conforme dados de abril, pouco maior do que os 21,9% observados em março.

Mesmo após forte expansão de negócios, o markerplace Inventa resolveu usar o espaço de um coworking na região da Avenida Paulista, em vez de ter sede própria. Segundo Ana Furtado, responsável pela área de recursos humanos da companhia, a decisão foi ancorada na flexibilidade oferecida por esse tipo de local.

“A localização também foi importante. E, se precisarmos de mais espaço, podemos reservar ainda o andar de baixo ou de cima. Temos essa possibilidade de aumentar o espaço.”

EU ACHO …

DENTRO DE UM ABRAÇO

Onde é que você gostaria de estar agora, neste exato momento? Fico pensando nos lugares paradisíacos onde já estive, e que não me custaria nada reprisar: num determinado restaurante de uma ilha grega, na beira de diversas praias do Brasil e do mundo, na casa de bons amigos,  em algum  vilarejo europeu, numa  estrada bela e vazia, no meio de um show espetacular, numa sala de cinema vendo a estreia de um filme muito aguardado e, principalmente, no meu quarto e na minha cama, que nenhum hotel cinco estrelas consegue superar – a intimidade da gente é irreproduzível.

Posso também listar os lugares onde não gostaria de estar: num leito de hospital, numa fila de banco, numa reunião de condomínio, presa num elevador, em meio a um trânsito congestionado, numa cadeira de dentista.

E então? Somando os prós e os contras, as boas e más opções, onde, afinal, é o melhor lugar do mundo?

Dentro de um abraço.

Que lugar melhor para uma criança, para um idoso, para uma mulher apaixonada, para um adolescente com medo, para um doente, para alguém solitário? Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro. Dentro de um abraço não se ouve o tic- tac dos relógios e, se faltar luz, tanto melhor. Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve.

Que lugar melhor para um recém-nascido, para um recém­ chegado, para um recém-demitido, para um recém-contratado? Dentro de um abraço nenhuma situação é incerta, o futuro não amedronta, estacionamos confortavelmente em meio ao paraíso.

O rosto contra o peito de quem te abraça, as batidas do coração dele e as suas, o silêncio que sempre se faz durante esse envolvimento físico: nada há para se reivindicar ou agradecer, dentro de um abraço voz nenhuma se faz necessária, está tudo dito.

Que lugar no mundo é melhor para se estar? Na frente de uma lareira com um livro estupendo, em meio a um estádio lotado vendo seu time golear, num almoço em família onde todos estão se divertindo, num final de tarde de frente para o mar, deitado num parque olhando para o céu, na cama com a pessoa que você mais ama

Difícil bater essa última alternativa, mas onde começa o amor, senão dentro do primeiro abraço. Alguns o consideram como algo sufocante, querem logo se desvencilhar dele. Até entendo que há momentos em que é preciso estar fora de alcance, livre de qualquer tentáculo. Esse desejo de se manter solto é legítimo, mas hoje me per­ mita não endossar manifestações de alforria. Entrando na semana dos namorados, recomendo fazer reserva num local aconchegante e naturalmente aquecido: dentro de um abraço que te baste.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

DANÇAR DEIXA MENTE AFIADA E MANTÉM VIGOR FÍSICO PARA VIVER MAIS

Estudos apontam benefícios cognitivos e no equilíbrio de adultos mais velhos que praticam coreografias de salão

Em um salão de baile lotado, um homem elegante dança com uma jovem ao som de um clássico de jazz. Ele sorri lentamente e balança os quadris de brincadeira ao final da contagem de oito. É surpreendentemente ágil para um senhor de 94 anos.

A ocasião? Uma festa de aniversário de Frankie Manning, lenda do lindy hop. Dos 80 anos de sua morte em 2009, aos 94, ele comemorou todo ano dançando com uma quantidade de parceiras equivalente à sua idade.

“Ele sabia que as pessoas adoravam que um cara tão velho pudesse dançar com tantas pessoas”, disse Judy Pritchett, que foi namorada de Manning por 21 anos.

Ele dançava e dava aulas de dança, ao redor do mundo 40 fins de semana por ano. “Dançar é o que me mantém jovem”, disse, em uma entrevista de televisão com a afiliada da ABC em Seattle em 2007, pouco antes de seu aniversário de 93 anos. “Se não estivesse dançando, acho que não viveria até essa idade”, completou.

Para conferir outros exemplos das habilidades de dança que desafiaram a idade, busque Dick Van Dyke, de 93 anos, em movimentos vigorosos de sapateado sobre uma mesa em “O retomo de Mary Poppins”. Os ícones da dança moderna Martha Graham e Merce Cunningham também bailaram até mais de 80. Estudos mostram que a dança oferece múltiplos benefícios para a saúde cognitiva e física. Um hábito que poderia ser apelidado de “a couve dos exercícios”.

CÉREBRO BAILANTE

Um relatório alemão de 2017, da Frontiers in Human Neuroscience, analisou imagens do cérebro de indivíduos que tinham em média 68 anos e praticavam treinamento ou dança de salão. O estudo descobriu que embora ambas as atividades aumentassem o tamanho do hipocampo, uma região do cérebro crítica para o aprendizado, memória e equilíbrio, apenas dançar melhorou o equilíbrio.

Esses resultados ecoam os de um estudo de 2008 do Journal of Aging and Physical Activity, realizado por Patrícia McKinley, da Universidade McGill, no qual idosos participaram de um programa de aulas de tango. O relatório mostrou que a dança, a longo prazo, foi associada a um melhor equilíbrio e marcha em adultos mais velhos. Como as quedas são a principal causa de lesões e morte entre os idosos, a dança pode ser uma ferramenta poderosa para prolongar a vida.

Em um estudo de 2003 publicado no New England Journal of Medicine, os pesquisadores ficaram surpresos ao descobrir que a dança pode ajudar a melhorar a função cognitiva, de forma semelhante a outros passatempos como resolver palavras cruzadas. O artigo examinou os benefícios relativos das atividades de lazer tanto intelectuais quanto físicas em adultos mais velhos.

“Dividimos amplamente as atividades entre aquelas cognitivamente estimulantes, como ler, e aquelas físicas, como andar de bicicleta”, disse Joe Verghese, principal autor do estudo e chefe de geriatria da Albert Einstein College of Medicine.

De sua clínica no Centro Montefiore Einstein para o Cérebro Envelhecido, com sede no Bronx, ele disse que, das 11 atividades físicas diferentes que sua equipe estudou, a dança de salão foi a única associada a menos risco de demência. Vetghese especulou que a dança funciona como uma atividade intelectual porque é complexa. Ao contrário de andar em uma esteira, a dança exige um esforço mental sustentado para dominar novos passos e requer coordenação com um parceiro e a música.

O médico advertiu que este era um estudo observacional, não um ensaio clinico.

“Não prova causa e efeito. Não podemos dizer que a dança preveniu a demência.  Só podemos dizer que foi associado a um risco reduzido de desenvolver demência.

A dançarina Deborah Riley é testemunha de como um programa de dança frequentepode ser crucial para os idosos combaterem uma fragilidade e a perda de memória.

“Se você não mover o pé, e as pernas, perderá sua capacidade”, disse Riley.

TRANSFORMAÇÕES

Por 15 anos, Riley ensinou dança para adultos de 50 anos ou mais. Atualmente, leciona em um programa chamado Arts for the Aging e no Hospital da Universidade Georgetown. Ela disse que a música e o movimento ajudam os idosos, desencadeando memorias positivas, as vezes transformando idosos retraídos em indivíduos falantes engajados.

Vale a pena notar que os benefícios mentais e físicos da dança não são apenas para os jovens de coração.

“A dança aumenta a acuidade cognitiva em todas as idades. Ele integra várias funções cerebrais ao mesmo tempo, seja sinestésica, racional, musical e emocional, o que aumenta sua conectividade neural”, disse Richard Powers, instrutor de dança de salão e histórica da Universidade de Stanford.

Powers ensina valsa e fox­trote para 300 alunos de graduação. Por três décadas, ele defendeu os inúmeros benefícios da dança para a saúde, incluindo o aprimoramento das habilidades para lidar com o estresse e a adaptabilidade à mudança. Os alunos costumam dizer a ele que sentem maior concentração nas aulas que frequentam logo após a dança de salão.

Um dos momentos que chamam a atenção do vídeo da festa de aniversário de 85 anos de Manning é quando ele gira uma ruiva em um minivestido preto e vermelho em volta do quadril e por cima do ombro. É sua assinatura na dança, o mesmo movimento que apresentou aos 27 anos, vestindo macacão de operário, no filme “Pandemônio”(1941).

Norman Miller também dançou no filme, desafiando a gravidade, vestida de chef. Ela e Manning saíram em turnê com Count Basie, Duke Ellington e Louis Armstrong e bailaram juntos até a morte dele.

De sua casa na Flórida, ostentando um corte de cabelo curto e ousado aos 99 anos, ela falou sobre o papel da dança em sua longevidade:

“Você conhece alguma mulher no mundo que é contratada para fazer um trabalho aos 99 anos? Estou com trabalhos agendados até o meu centésimo aniversário”.

Durante 20 anos, até morrer em 2019, ela viajou pelo mundo falando em eventos de dança. Miller creditava seu otimismo à prática.

“Por que eu sobrevivi todo esse tempo, eu não sei”, afirmou. “Sempre que havia uma crise, voltar a dançar me fez superá-la. Esse tem sido o elixir da vida.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A DITADURA DA FELICIDADE

Onipresente na autoajuda e nas redes sociais, o fenômeno da positividade tóxica entra na mira de psicólogos e movimentos que combatem o discurso da busca do bem-estar a qualquer preço

Kate é uma jovem acima do peso. Em crise no relacionamento, ela busca justificativas para a falta de interesse no namorado e conclui que o problema está nela. Assim que o pensamento lhe atravessa a mente, contudo, mulheres esbeltas e com pose de gurus e influenciadoras aparecem na tela repreendendo a garota. “Você precisa derrubar os padrões de beleza”, diz uma. “Eu mal consigo sair da cama”, rebate Kat, antes de ser engolida por um coro ensurdecedor daquelas assombrações da cultura fitness e da autoajuda, bradando que ela precisa amar a si mesma. A cena é uma passagem da segunda temporada de Euphoria, série de enorme sucesso da HBO sobre as agruras da juventude atual. Mas o trecho antológico fala de um fenômeno mais amplo e universal: a positividade tóxica, termo depreciativo que se popularizou como sinônimo da mentalidade “good vibes”, aquela que prega o amor próprio, a felicidade e o pensamento positivo acima de qualquer coisa, inclusive dos próprios sentimentos. Kat, vivida pela brasileira Barbie Ferreira, é uma personagem fictícia. A verdade é que há muitas pessoas como ela na vida real. Segundo uma pesquisa recente feita em quarenta países e publicada na revista Nature, a pressão social para ser feliz está associada, quem diria, a uma queda do bem-estar individual, especialmente em países com índices elevados de felicidade coletiva. Via de regra, a positividade tóxica funciona na base do discurso motivacional. Ao expressar sentimentos negativos, a pessoa é confrontada com frases como “veja pelo lado bom”, “nada é completamente ruim” e discursos que negligenciam o sofrimento, colocando-o, ilusoriamente, como uma escolha e não como um dado da realidade a ser encarado. Para denunciar essa epidemia de positividade forçada, o psicólogo dinamarquês Svend Brinkmann debruçou-se sobreo tema no livro Positividade Tóxica Como Resistir à Sociedade do Otimismo Compulsivo, lançado no Brasil neste mês pela editora Best Seller. Svend descreve a obra com um título “antiautoajuda”, e pretende oferecer alívio a quem se sente pressionado a exibir um sorriso no rosto a todo custo. “Nos tornamos estúpidos quando não nos permitimos falar sobre coisas que dão errado”, disse ele.

Em alta nas redes sociais desde o início da pandemia, esse comportamento tem raízes na psicologia positiva, fundada entre o fim dos anos 1990 e início dos anos 2000 por Martin Seligman, então presidente da Associação Americana de Psicologia. No seu manifesto Psicologia Positiva: uma Introdução, Seligman afirmava ter a missão de criar uma ciência da felicidade, que investigaria as chaves para o sucesso do ser humano. No livro Happycracia: Fabricando Cidadãos Felizes, recém-publicado no Brasil pela editora Ubu, a socióloga Eva Illouz e o psicólogo Edgar Cabanas dissecam a quimera inventada por Seligman e suas ramificações sociais. Um exemplo é o filme À Procura da Felicidade (2006), inspirado em Christopher Gardner, afro-americano que saiu da pobreza e se tornou homem de negócios bem-sucedido valendo-se do discurso de que o sucesso depende só de ignorar as mazelas e focar o lado bom da vida. Essa mentalidade alimenta um mercado lucrativo. “A felicidade virou mercadoria. Coaching, mindfulness, livros de autoajuda, psicoterapia positiva e aplicativos para smartphones são apenas alguns exemplos de um mercado de 4,2 trilhões de dólares, e que cresce 6,4% ao ano”, explicou Cabanas.

Antes da virada deste século, a Amazon listava não mais que trezentos livros com a palavra “felicidade” no título. Hoje, a lista inclui mais de 2.000. O mesmo vale para o número de tuítes e posts no Instagram ou Facebook. Exemplo fatídico dessa positividade exacerbada foi uma postagem de 2020 da influenciadora digital Gabriela Pugliesi, uma das primeiras celebridades diagnosticadas com Covid-19 no Brasil. Na época, ela fez uma publicação “agradecendo” ao vírus e outra destacando os “benefícios” da pandemia. ‘Algo invisível chegou e colocou tudo no lugar”, escreveu. Criticada nas redes, ela apagou as postagens e se justificou dizendo que sempre busca tirar algo positivo das situações – tal frase, aliás, é um mantra da positividade tóxica.

O problema, do ponto de vista social, é que a positividade exagerada pode jogar para escanteio a empatia e a noção de realidade. Em 2020, o Brasil registrou o menor índice de felicidade em quinze anos na pesquisa” Bem-Estar Trabalhista, Felicidade e Pandemia”, da FGV Social. A queda foi de 0,8% entre os 40% mais pobres, enquanto houve aumento nos 20% mais ricos, mas de apenas 0,1%. ”A indústria da felicidade não consegue nos vender uma mudança social, mas pode vender dicas, orientações e receitas para realizarmos uma mudança pessoal. É uma ideia egoísta de felicidade,” diz Cabanas.

Esse embate, inclusive, já existia na Grécia Antiga. No livro Ética a Nicômaco. Aristóteles,pupilo de Platão, critica o idealismo romântico do mestre e aponta saúde, liberdade e finanças como pré-requisitos para a felicidade de fato. A cobrança para ser sempre positivo também pode acarretar problemas psicológicos sérios, como ansiedade ou depressão, adverte Brinkmann. Mas, então, existe um caminho menos enganoso para o ser humano encarar a existência? Para o psicólogo, a resposta está na visão pragmática da vida propalada pela escola filosófica grega do estoicismo: ter serenidade, se ater à razão e àquilo que é controlável, não fugindo aos problemas. Brinkmann acena, ainda, com uma tática bem mais prática: “Demita seu coach”. Viver cada sentimento a seu tempo é, no fim das contas, o melhor antídoto contra a positividade tóxica.

M.A

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