OUTROS OLHARES

INSEGURANÇA ALIMENTAR DOBRA NO BRASIL EM SETE ANOS E AFETA MAIS AS CRIANÇAS

Entre os mais pobres, a fome tem nível de países africanos, aponta pesquisa global Gallup

A insegurança alimentar no Brasil atingiu patamar recorde no final de 2021 e superou, pela primeira vez, a média global. Ela afeta mais mulheres, famílias pobres e pessoas entre 30 e 49 anos, grupos que geralmente têm mais filhos – comprometendo a atual geração de crianças brasileiras.

Segundo pesquisa global Gallup realizada desde 2006 em cerca de 160 países, a taxa de insegurança alimentar na população brasileira dobrou a partir de 2014, ano em que a economia entrou em recessão no governo Dilma Rousseff (2011- 2016), e tem registrado crescimento medíocre desde então. Segundo os dados do Gallup, analisados no Brasil pelo Centro de Políticas Sociais do FGV Social, a taxa saltou de 17% em 2014 para 36% no fim de 2021. Pela primeira vez, ela superou a média global 35%), aferida a partir de 125 mil questionários aplicados no mundo.

Dos 20% mais pobres brasileiros, 75% responderam afirmativamente que havia faltado dinheiro para compra de alimentos nos últimos 12 meses. Entre as mulheres, a taxa foi a 47%, e a 45% para pessoas com idades entre 30 e 49 anos – acima da média global.

“A insegurança alimentar mais elevada nesses segmentos tem efeitos de longo prazo preocupantes por causa do maior número de crianças envolvidas e da desnutrição entre elas”, afirma Marcelo Neri, diretor do FGV Social.

“Impressiona também o aumento abissal da desigualdade de insegurança alimentar. Entre os 20% mais pobres no Brasil o nível épróximo dos países com maiores taxas, como Zimbábue (80%). Já os 20$ mais ricos experimentaram queda [para7%], ficando pouco acima da Suécia, país com índices de insegurança alimentar. A pesquisa, do fim de 2021 não chegou a captar a nova disparada dos preços dos alimentos neste ano, sobretudo após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia – grandes produtores de trigo e milho.

Também foi realizada num contexto em que a Caixa pagou, ao longo de seis meses de 2021, o auxilio emergencial a 39,1 milhões de famílias com valores mensais entre R$ 150 e R$375. Atualmente, apenas 17,5 milhões de famílias recebem o novo Auxilio Brasil, de R$400 mensais.

Para Renato Mafuf, coordenador da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssam), todos os fatores que mantinham os níveis elevados de fome entre os brasileiros até 2020 se agravaram no ano passado e seguem em deterioração neste ano.

Pesquisa da Rede Penssam em dezembro de 2020 mostrou que, no total, mais da metade (55%) dos brasileiros sofriam algum tipo de insegurança alimentar (grave, moderada ou leve).

“O desemprego segue elevado e a renda em baixa, sobretudo entre os informais. Temos um benefício social (Auxílio Brasil) menor do que em 2020 (quando chegou a R$600 mensais] e uma guerra entre dois grandes produtores de alimentos”, diz Mafuf

“Para completar não há política de governo estruturada contra a fome, só reações voluntariosas, com medidas pontuais, como a redução de tarifas de importação. Não há nenhuma razão para acharmos que as coisas possam melhorar”.

Segundo projeções da consultoria MB Associados, a inflação de alimentos neste ano deve chegar a 12%, bem acima do IPCA, contribuindo para agravar o quadro de insegurança alimentar.

“Embora haja alguma desaceleração nos preços de commodities metálicas por conta da perspectiva de desaceleração econômica em Europa, China e Estados Unidos, os preços dos alimentos seguem outra dinâmica, com pressões persistentes e descoladas dos índices de atividade”, afirma Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados.

GESTÃO E CARREIRA

AGENDA ESG CRIA NOVOS CARGOS NO ALTO ESCALÃO DAS EMPRESAS

Chefias de propósito, felicidade e futuro são exemplos; pesquisa diz que 30% de empresas têm cargos formais para sustentabilidade

O avanço das preocupações com o tema ESG (princípios ambientais, sociais e de governança) fez surgir uma nova geração de cargos no alto escalão das empresas. São profissionais que passaram a responder diretamente por temas como sustentabilidade, felicidade, propósito e até futuro.

A busca por esses profissionais tem ocorrido, neste primeiro momento, dentro das próprias empresas, segundo a Page Executive, empresa de recrutamento G-level (como são chamados os cargos de diretoria). “Nós começamos a ver o início de um movimento interno nas empresas, em que elas alcançam alguém para cargos C-level de sustentabilidade, diversidade, propósito e felicidade”, afirma Paulo Dias. sócio da Page Executive.

De acordo com ele, ainda não é algo que se pode ver em todas as empresas, de todos os tamanhos e setores. É um movimento que tem acontecido principalmente em empresas de capital aberto, porque elas têm responsabilidade com os acionistas e, de certa forma, elas enxergam valor nisso. Há um interesse financeiro por trás, afirma.

Como é um movimento incipiente, os especialistas apontam, porém, que os resultados mais sólidos dessas iniciativas ainda devem demorar a aparecer. As expectativas miram 2030, ano em que vencem os prazos das metas de sustentabilidade e diversidade e inclusão de grande parte das empresas e também dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

“Constituir uma área ESG faz diferença no ambiente corporativo porque cada área, como o jurídico e o financeiro, tem um diretor ou vice-presidente responsável. São áreas grandes, estratégicas, com metas de curto, médio e longo prazos, orçamentos e pessoas.

Quando esses temas estão diluídos em outras áreas, sem liderança responsável, esses processos andam mais lentamente. Isso a gente vê nos dados de sub-representatividade de mulheres, negros, pessoas com deficiência e LGBTI+”, explica Liliane Rocha, CEO da Gestão Kairós, consultoria especializada em Sustentabilidade e Diversidade.

FUTURO

Entre as novas posições criadas nos últimos anos ao redor do ESG, a do chefe de sustentabilidade tem sido a mais comum. No mercado, ela ganha vários nomes, como Chief Sustainability Officer (CSO), presidente ou vice-presidente de Sustentabilidade e Sustainable Growth Officer (chefe de crescimento sustentável, em inglês).

De acordo com um estudo da consultoria Strategy&, esses cargos têm crescido rapidamente ao redor do mundo, mas a maioria das empresas ainda não têm uma posição formal de CSO. Entre as 1.640 companhias globais analisadas, 30% têm esse cargo formalizado. Na América do Sul, 30% das empresas têm um CSO formal, 52% têm a figura do ‘light CSO’, aquele que combina suas funções com outro papel dentro do C-level, e 19% delas não têm essa função.

Outra ponta do ESG são os cargos que lidam diretamente com felicidade, propósito e diversidade e inclusão. Geralmente, os nomes aparecem em inglês, como em Chief Purpose Partner ou Chief Purpose Officer (para propósito), Chief Happiness Officer (para felicidade) e Chief Diversity and Equity Officer (para diversidade e inclusão).

Há um ano, Tarcila Ursini, economista e advogada de formação, passou a ocupar o até então inédito cargo de Chief Purpose Partner na eB Capital, gestora de investimentos.

Segundo ela, o seu cargo reúne atividades que já existiam na companhia, mas que, ao serem reunidas em uma posição, ganharam mais robustez para ampliar processos, indicadores e compromissos.

“O chefe de propósito é algo muito novo. Em muitas empresas o próprio CEO é o líder de propósito da companhia, porque o propósito é muito mais amplo do que o olhar de ESG. Ele é para toda a empresa. A organização tem uma função social pelos serviços que vende e pelos produtos que produz e, para isso, ela precisa ganhar dinheiro. Então, é preciso conciliar lucro com propósito”, explica.

EU ACHO …

PARA ALÉM DOS MUROS

A icônica imagem do Pastor Martin Luther King e o Rabino Abraham Joshua Heschel marchando juntos em Selma, em 1965, pelos direitos civis me instiga há um tempo. Em diálogo com membros das comunidades judaicas no Brasil, tenho refletido sobre como fortalecer, hoje, uma coalizão proativa e permanente, que abranja a luta antirracista, a luta contra o antissemitismo e outras frentes que estejam em prol da construção e fortalecimento de agendas comuns pela igualdade de direitos, tolerância e respeito.

Nessa jornada de reflexões, recentemente, passei por uma experiência marcante: uma breve imersão em Israel e na Palestina. Fiz um curso sobre inovação na Tel Aviv University, em parceria com a Associação de Amigos da Instituição no Brasil, com visitas a diversas startups de diferentes setores, da estética à agricultura. A Netafim foi uma das que mais me marcou, com sua história de criação de tecnologias de irrigação, dessalinização e reuso da água em um cenário desértico. Ela exporta esta tecnologia para o mundo, inclusive para o Brasil.

Além do que estava previsto na programação oficial, também conheci Huda Abuarquob, diretora da Aliança pela Paz no Oriente Médio. Ela me levou a uma visita do outro lado do muro que divide os dois países. Na Palestina, fui à Parents Circle, que cria diálogos entre israelenses e palestinos que perderam familiares em conflitos.

E ainda vivi uma situação bastante inusitada que entendo ser um presente dos céus. Ao parar para almoçar com Huda, encontrei adolescentes palestina, em Belém. Elas se aproximaram, puxaram papo e se dispuseram a ser minhas guias. Levaram-me até a Igreja da Natividade, conhecida por ser o lugar onde Jesus teria nascido. Tudo isso no mesmo dia do lastimável assassinato da jornalista da Aljazeera, Shireen Abu Akleh, durante conflitos na cidade de Jenin.

Transitar no entorno do muro me dá calafrios. Lá, é possível ver grafites dos mais variados, como Jesus Cristo dando palmadas num soldado armado ou ainda mensagens como “faça amor, não faça muros”.

As jovens palestinas que mencionei alegam ser impedidas de atravessar as fronteiras e terem acesso a Jerusalém ou ir à praia para se divertir em Tel Aviv. Isso me fez lembrar de diálogos que tenho com jovens de favela por aqui, que também têm o direito de ir e vir cerceado, não pelo muro mas por outras formas de violências e desigualdades raciais e sociais. Realidades tristes de se ver e viver, e que não podemos naturalizar.

Também fiz uma visita a Jerusalém com um guia chamado Ariel, que mais parecia uma enciclopédia humana. Quando cheguei ao famoso Muro das Lamentações, reparei que havia uma divisão, com acessos diferentes para homens e mulheres. Também descobri que, além da tradição de fazer um pedido de oração escrito e colocar no muro, é visto como falta de respeito dar as costas para ele. Por isso as pessoas se distanciam andando em marcha ré, sempre de frente para o muro. E assim o fiz por alguns metros.

Ariel falou bastante sobrea recente imigração de judeus etíopes e das dificuldades de integração deste grupo na sociedade israelense. Mas ao mesmo tempo ressaltou que, pouco a pouco, vê progressos, e até políticos desta minoria começando a surgir para representar suas demandas.

Foram realmente muitas emoções e reflexões. E sigo acreditando no diálogo e no contato com os vários interlocutores entre Israel e Palestina. E vejo o quanto todas essas experiências me trouxeram trechos e versões da história – para muito além das que havia aprendido nos livros, dentro e fora dos muros da escola e daqueles que foram criados fora dela.

*** LUANA GENOT

ESTAR BEM

PRÉ-DIABETES É FATOR DE RISCO PARA ATAQUE CARDÍACO MESMO EM JOVENS

Pesquisa feita por americanos aponta que chance de hospitalização pode ser 1,7 vezes maior

Uma pesquisa feita por cientistas americanos encontrou uma possível associação entre ser pré-diabético (quando o nível de açúcar no sangue está entre 100 e 125 miligramas por decilitro) e ter ataques cardíacos, mesmo em indivíduos jovens, com idade entre 18 e 44 anos.

Deacordo com o estudo, ter o diagnóstico de pré-diabetes pode indicar um risco 1,7 vezes maior de hospitalização por problemas cardíacos em comparação com aqueles com nível de açúcar no sangue normal (abaixo de 100 mg/dl).

Apesar desse risco mais elevado, os pesquisadores afirmam que não foi encontrada uma associação entre pré-diabete e a ocorrência de parada cardíaca ou infarto.

Os resultados preliminares da pesquisa foram divulgados no dia 14 de maio no Seminário Qualidade de Atendimento e Desfechos de Pesquisa Científica, organizado pela Associação Americana do Coração, em Reston, Virginia (EUA).

O levantamento analisou dados de 7,8 milhões de americanos com idade entre 18 e 44 anos hospitalizados em 2018 no país, de acordo com dados da Amostra Nacional de Internados, que reúne os dados públicos de internação nos Estados Unidos.

Do total de pacientes analisados, 31.000 (0,4%) possuíam níveis de açúcar no sangue que os classificavam como pré-diabéticos. Entre eles, incidência de ataque cardíaco era de 21,5 para cada mil indivíduos, enquanto nas pessoas com nível de sangue normal era de 3 a cada mil.

Além disso, a prevalência de outros fatores de risco, como hipertensão, colesterol elevado (68.1% contra 47,3%) e obesidade (48,9% contra 25,7%) era maior nos pré-diabéticos. Os cientistas também observaram que os adultos pré-diabéticos internados para ataque cardíaco eram em sua maioria homens negros, hispânicos ou asiáticos, em comparação com outras etnias.

Apesar dessa incidência aumentada de ataque cardíaco os cientistas não encontraram maior ocorrência de infartos ou acidentes vasculares em pessoas com pré-diabetes em comparação com os não pré-diabéticos.

“É possível que a pré-diabetes possa influenciar os resultados a médio ou longo prazo após um infarto do miocárdio, considerando que não é uma condição de saúde tão aguda quanto o diagnóstico de diabetes tipo 2”, disse o pesquisador e autor do estudo Akhil Jain, do Centro Médico Católico de Misericórdia, em Darby (Pensilvânia).

Segundo Jain, se não tratada, a pré-diabetes pode progredir rapidamente para diabetes do tipo 2, que é um fator conhecido de risco cardiovascular. “Estudos futuros devem se concentrar mais em desfechos com pré-diabetes e indivíduos sem essa condição em pacientes hospitalizados que tiveram infarto para avaliar esse risco”, explica.

De acordo com ele, o estudo tem como objetivo indicar quais medidas de saúde pública e campanhas devem ser feitas para reverter o quadro e evitar novos diagnósticos de diabetes no futuro.  “É essencial criar uma conscientização entre adultos e jovens sobre a importância de realizar exames de rotina que podem indicar um diagnóstico de pré-diabetes, controlar a alimentação e realizar atividades físicas para prevenir ou atrasar o desenvolvimento de diabetes tipo 2 e a doença cardíaca que pode estar associada”, disse.

Nos EUA, segundo dados do Instituto Nacional de Saúde (NIH, na sigla em inglês), 88 milhões de adultos possuem diagnóstico de pré-diabetes, o que equivale a mais de um terço da população. O Brasil não possui dados atualizados, mas uma estimativa de 2015, pela Sociedade Brasileira de Diabetes estima que cerca de 20% da população adulta era pré-diabética, ou 40 milhões de pessoas.

Já a porcentagem de adultos vivendo com diabetes cresceu nos dois últimos anos, chegando a 9,144%, ou cerca de 15 milhões de pessoas.

Para Paulo Lotufo, epidemiologista e professor da Faculdade de Medicina da USP, existe às vezes uma interpretação equivocada do que é pré-diabetes, pois, segundo ele, os mecanismos podem atuar para quebrar a chamada homeostase (equilíbrio) glicêmica no organismo, não somente o consumo de açúcar. “‘Basicamente, sabemos que quanto mais afastado do limite de glicemia que é considerado normal, de 60 mg/dl, aumenta-se o risco de ter diabetes, mas o nível de açúcar que pode ser classificado como pré-diabetes é algo questionável. De toda forma, sabemos que há aumento do nível do açúcar acima de 100 mg/dl em pessoas que estão acima do peso, e mesmo em indivíduos jovens, aumentando o risco de doenças cardíacas.

De acordo com Lotufo, porém, e importante que as pessoas que possuem a chamada síndrome metabólica – colesterol alto, sobrepeso, nível glicêmico alto – fiquem atentas e tentem reverter o quanto antes de chegara o diabetes tipo 2, quando o uso de medicamentos é necessário.

“É muito comum ver no atendimento de rotina clínica homens que chegam com sobrepeso, nível glicêmico elevado, colesterol e que ganharam peso muito rápido. A perda de peso nesses pacientes em pouco tempo já é suficiente para baixar a glicemia para um nível inferior a 100 mg/dl”, explica.

A PSIQUE E AS PSICOLGIAS

IGUAIS, MAS DIFERENTES

Quando a saúde vira um problema, grupos de apoio reúnem pessoas que passam por situações similares para trazer conforto emocional

Morena Pires d’Avila Axthehn, que procurou a Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata) para enfrentar o transtorno bipolar e agora, com o quadro estável, é presidente da associação e coordenadora dos grupos de apoio. Para isso, fez uma formação de facilitadora e passa pela supervisão mensal de uma psiquiatra voluntária que tira dúvidas e dá orientações sobre a condução dos grupos, integrado principalmente por pessoas que têm depressão e transtorno bipolar.

Nos grupos online da Abrata, sempre estão presentes uma dupla de facilitadores: um que coordena a reunião e outro que fica na retaguarda, para acolher numa conversa particular aqueles que não querem se expor ao grupo. “Os facilitadores têm uma bagagem da experiência de vida, de conviver com o transtorno afetivo, o que faz a diferença”, analisa Marta. E o resultado costuma ser ótimo: ”O poder dos grupos de apoio é grande e traz bons resultados. Os participantes se escutam de forma empática, num processo de troca muito positivo”.

SOLIDÃO

O tripé de tratamento dos transtornos afetivos inclui os medicamentos receitados pelo médico, a psicoterapia e a mudança da qualidade de vida, explica a psiquiatra Rosilda Antônio, membro do Conselho Científico da Abrata. “O grupo de apoio não é uma terapia, mas esse compartilhamento de experiência os ajuda a construir soluções juntos. Quando um vê que o outro começou a fazer exercícios, se anima a fazer também. É um ambiente favorável à mudança.”

Quando enfrentou o câncer de mama, em 2020, a professora Adriana Muniz, de 51 anos, por exemplo, se voluntariou a dar aulas de ioga às participantes do grupo do Projeto Superação, que promove o autoconhecimento de mulheres em tratamento com fundamentos da psicologia positiva, em um programa de sete meses. “Pude olhar para mim mesma e enxergar as minhas forças de virtude, aquilo que tenho de bom na minha personalidade para enfrentar os meus desafios”, revela.

Adriana afirma que se sentia melhor ao conversar com pessoas no grupo e que nunca perdia os encontros online – mesmo que estivesse dentro do táxi. Reconstrução da mama, perda de cabelo e medo dos resultados dos exames eram alguns dos temas abordados. “Algumas mulheres participavam até durante a sessão de quimioterapia. Formamos um vínculo de amizade muito forte.”

A solidão é um problema comum entre mulheres que tratam um câncer de mama, afirma a mastologista Fabiana Makdissi, chefe do Centro de Referência da Mama do A.C. Camargo Câncer Center e “madrinha” do projeto. “Muitas pacientes comentam que nesse momento de fragilidade sentem que algumas pessoas próximas se afastam, pois não estão na mesma Vibração. Mas ter uma rede de apoio é fundamental”

Para ela, o grupo é um ambiente seguro e acolhedor, que combate a desinformação e o preconceito comum nas redes sociais e no zum-zum das recepções de consultório. “Me incomodo quando vejo uma paciente pálida porque escutou uma besteira por ai. No grupo, sempre há uma pessoa ponderando o que está sendo falado, para evitar agredir ou assustar os participantes, que nem sempre sabem filtrar as informações.”

A idealizadora do Projeto Superação, a coach executiva Gisele Geogó, criou o método a partir da sua aplicação da psicologia positiva durante o seu tratamento de câncer de mama, em 2017. “Perdi o meu chão quando recebi o diagnóstico. Mas resolvi colocar à prova as ferramentas que ensinava aos outros. Queria ver se elas trariam resultado num perrengue grande”, conta. Funcionou para ela e para outras mulheres: “Na primeira turma chegamos a ter aumento de 20% em relação à melhora da satisfação com a vida e 22% no quesito esperança”.

Mesmo após terminar o seu tratamento de câncer de mama, Adriana Gomes Correa, de 48 anos, participa dos encontros presenciais de pacientes do Grupo de Apoio a Pacientes com Câncer, GAPC.  “Conversar com pessoas que passaram pelo tratamento e estão com saúde há anos me ajuda a lidar com aquele fantasminha que diz que a doença vai voltar. ”Segundo a assistente social do GAPC, Carina Motta, todas as fases do tratamento do câncer são delicadas para o paciente. ”Percorrer esse caminho traz uma forte carga emocional, pois é associado à morte e ao sofrimento. O grupo ajuda a amenizar essa preocupação com o relato de vivências, pensamentos e sentimentos”.

ACOLHIMENTO

Incomodado com feridas doloridas de herpes-zoster pelo corpo, Hev (nome fictício) conta que chegou atrasado ao grupo de apoio online do Posithividades. Na época, ele fazia tratamento contra o vírus HIV havia dois meses. “Eu estava chorando muito quando descobri o grupo no Instagram. Fui recebido com muito carinho e pude contar a minha história e dizer o que sentia. Achei maravilhoso”, lembra. Um ano depois, Hev é voluntário do Posithividades e recepciona os novos participantes do grupo, um trabalho que foz com prazer. “Esse grupo trouxe a minha autoestima de volta, pois me mostrou que há vida digna e normal após o diagnóstico do HIV.”

Desde 2017, o consultor de marketing Lucian Ambrós administra um grupo no WhatsApp que já acolheu cerca de 30 mil pessoas com HIV. Há um ano, ele passou a realizar reuniões de até 30 pessoas em uma plataforma de videoconferência, realizadas uma ou duas vezes por mês. Diagnosticado com HIV há 12 anos, ele resolveu criar o Posithividades para acolher bem quem descobre que têm o vírus. “Já participei de grupos de apoio que faziam eu me sentir mais culpado. Não me identificava”, relata. Segundo Lucian, quem descobre que tem HIV geralmente fica inseguro em relação ao seu tempo de vida, tem dificuldade de revelar a sorologia ao parceiro e receio de como serão os seus relacionamentos após o diagnóstico. Mas, com ajuda do grupo, muitos medos vão embora. “Já vi casos de pessoas que achavam que a vida tinha acabado, mas hoje estão felizes.”

Quando procurou a organização não governamental Amor Exigente, há 20 anos, Luiz Fernando Cauduro estava desesperado. Três dos seus quatro filhos estavam consumindo drogas – e nenhuma das estratégias para solucionar o problema estavam funcionando. “Já havíamos nos consultado com psiquiatras e conversado com várias pessoas, mas nada dava certo”, declara. Ele e sua mulher Cleide passaram a frequentar o grupo de apoio da ONG e, um ano depois, seus filhos estavam recuperados. “Vivenciando esse programa, fizemos mudanças no nosso comportamento para que eles mudassem o comportamento deles”, destaca. Por gratidão, Fernando permaneceu na ONG como voluntário e atualmente é o presidente. Criado por um jesuíta norte-americano em 1962, o programa Amor Exigente chegou ao Brasil em 1984. Nos grupos de apoio, que aceitam a participação de dependentes químicos e seus familiares, a sessão se inicia com um momento de “espiritualidade pluralista” e com o estudo de um dos 12 princípios básicos do programa, que dura 15 minutos – entre as diversas regras do grupo, uma delas é manter o caráter leigo e voluntário. Na segunda parte do encontro, os participantes falam por até 5 minutos sobre a sua semana. “Depois, o participante escolhe uma meta para a semana. Isso é importante para que ela deixe de apenas reclamar e comece a fazer uma ação prática.”

CUIDAR DE QUEM CUIDA

Quando trouxe para casa o seu filho João, que nasceu prematuro e passou 40 dias na UTI neonatal, Érika Ruana Silva Ribas, de 30 anos, estava se sentindo sufocada. “Percebi que precisava de ajuda, falar com alguém sobre o que passei. Comecei guardar essa emoção para mim e isso acabou afetando a minha mente”, narra. O alivio veio quando começou a participar do grupo de apoio online da Associação Brasileira de Pais, Familiares, Amigos e Cuidadores de Bebês Prematuros, a ONG Prematuridade.com.

“Precisamos dessa escuta. Ser mãe de prematuro é um desafio desgastante. Eu me achava uma péssima mãe por ter medo de cuidar do meu filho, mas percebi que isso era apenas uma insegurança que logo iria passar. Essa visão renovada é libertadora e nos faz sofrer menos”, observa Érika.

A diminuição do sentimento de culpa das mães de bebês prematuros é um dos benefícios observados pela psicanalista Simone Marinho, voluntária dos grupos de apoio online da Prematuridade.com desde 2021. A ONG oferece dois grupos de apoio, que se revezam a cada semana: um voltado para mães de bebês que estão na UTI neonatal e outro voltado a mães com gravidez de alto risco. Segundo a psicanalista, essas mães se sentem mal por não terem conseguido chegar até 38 semanas de gravidez ou por não estarem fortes o tempo todo. “Com apoio do grupo, elas passam a administrar melhor as frustrações diárias, limitar pessoas abusivas que não respeitam a sua dor e a desenvolver um vínculo com o bebê mesmo que não possa tocá-lo na UTI”, exemplifica.

Além de se preocuparem com a saúde e bem-estar dos filhos, as mães desses bebês se queixam de cônjuges ausentes – mesmo que estejam presentes fisicamente – e têm duvidas quanto aos direitos relacionados à prematuridade, adianta Simone. “Algumas querem questionar a equipe medica sobre um procedimento pelo qual o bebê precisou passar, mas não o fazem”, lembra. Com a participação nos grupos, elas ficam mais confiantes. “Cria-se um sentimento de empatia e é tecida uma rede de solidariedade.”

Para que o ambiente seja seguro e respeitoso, Simone apresenta “regras de ouro” ao grupo: não é permitido criticar, julgar, dar conselhos, constranger ou comentar os assuntos do grupo com outras pessoas.  ”Esse núcleo de pessoas é um espaço de acolhimento sob olhar de profissionais da área de saúde mental, mas não é um atendimento de terapia convencional, em que o paciente expõe ao terapeuta as suas demandas”, avisa.

Outro grupo que vive sob estresse e pressão são os cuidadores de pessoas com doença de Alzheimer. “Sem conhecimento, apoio e experiência, o familiar que cuida da pessoa com Alzheimer vai ter uma sensação de incapacidade e impotência. Ao participar de um grupo de apoio, poderá se planejar melhor e aprender antes de cometer um erro”, ensina Elizabeth Piovezan, diretora-presidente do Instituto Alzheimer Brasil, que mantém grupos de apoio gratuitos há 10 anos. Atualmente, há dois presenciais, um em São Paulo e outro em Curitiba.

Ela percebe que muitas pessoas chegam sem aceitar o diagnóstico do familiar, o que gera impaciência. Mas quando começam a conviver com outras pessoas que lidam com a rotina da doença, percebem que há formas de melhorar a qualidade de vida de toda a família. “Quem tem Alzheimer fica com comportamentos alterados. Se não houver estratégias para lidar com isso, vai virar uma briga que não resolve nada. É preciso ter jogo de cintura”, avalia Elizabeth. Segundo a presidente do IAB, há pessoas que participam do grupo há mais de 5 anos. “Esse comprometimento é importante, pois você vai criar laços de amizade que vão ajudar a encontrar soluções práticas para desafios do dia a dia.”

Mesmo sem nunca ter encontrado as pessoas do grupo de apoio do IAB. Adriana Mavigne, de 53 anos, considera que eles são “da família”. Em 2020, ela começou a participar das reuniões online para aprender a lidar melhor com sua mãe, Luzia, que está com demência mista e grau intermediário, com um quadro que mescla Alzheimer e demência vascular. Nesse estágio, a agressividade e a mania persecutória começaram a se manifestar”. Com a minha mãe, aprendi a ser forte. Por isso, achei que daria conta de cuidar dela, mas me defrontei com a minha própria fragilidade. Eu ne sentia solitária e esgotada, nas precisava continuar lutando por ela, como ela faria por mim”, recorda.

Para Adriana, participar do grupo do IAB foi uma injeção de ânimo. ”Quando fui acolhida por pessoas que estavam na mesma situação, senti que milhas forças poderiam se estender”, comenta. “No grupo, todos falam a mesma linguagem. São trocas de vivências duras, nas que ali se tornam mais leves. Não há preconceito ou medo de se expor. Então você se desnuda e também acolhe.”

CONHEÇA ALGUNS GRUPOS QUE OFERECEM AJUDA

TRANSTORNOS AFETIVOS, DEPRESSÃO E BIPOLARIDADE

A Abrata tem reuniões online às terças, quartas e sextas, das 19h às 20h30. Inscrições previas pelo abrata.org.br; @abrata.spnoInstagram.

DEPENDÊNCIA QUÍMICA

O grupo Amor Exigente tem grupos em diversas cidades e reuniões presenciais e online. Informações: amorexigente.org.br; @amorexigeuteoficialnoInstagram.

CÂNCER

O GAPC realiza encontros presenciais mensais em seis cidades dos Estados de São Paulo, Rio e Espírito Santo. Site:gapc.org.br; @gapcgrupodeapoio no Instagram.

O Projeto Superação realiza programas de encontros semanais online, com duração de sete meses. No Instagram, @institutooncosuperacao.

ALZHEIMER

O IAB conta com grupos presenciais e online, em São Paulo (SP) e em Curitiba (PR). Site: institutoalzheimerbrasil.org.br @institutoalzheimerbrasil no Instagram,

HIV

O Posithividades realiza encontros mensais online. Informações no perfil do Instagram:@posithividades.

GRAVIDEZ DE RISCO E UTI NEONATAL

O Prematuridade é um grupo online com reuniões semanais. Informações no site prematuridade.com e inscrições pelo e-mail: saudemental@prematuridade.com, No Instagram:@ongprematuridade.com.

OUTROS OLHARES

CIENTISTAS DEFENDEM USO DE VIBRADORES PARA SAÚDE FEMININA

Estudo mostra benefícios e indica que médicos deveriam prescrever acessório

Pesquisadores do Cedar-Sinai Medical Center, nos Estados Unidos, defenderam a prescrição por médicos do uso regular de vibradores para suas pacientes mulheres. Em artigo publicado recentemente na revista The Journal of Urology, a equipe concluiu que o hábito comprovadamente traz benefícios clínicos, como melhora na saúde do assoalho pélvico, redução da dor vulvar e no organismo em geral.

Diversas pesquisas já haviam indicado os impactos positivos da masturbação feminina frequente na saúde física e mental. Entretanto, havia poucas informações sobre o uso de vibradores como forma de auxiliar a prática e análises sobre seus impactos na saúde.

Para averiguar essa questão, os cientistas revisaram bancos de dados de pesquisas sobre o assunto. Foram encontrados 558 artigos, mas apenas 21 foram incluídos no estudo por se adequarem em todos os critérios estabelecidos.

Em sua análise, os pesquisadores encontraram evidências de uma série de benefícios do uso regular do vibrador, com melhorias na saúde sexual em geral.

Eles também encontraram casos de uso regular de vibradores levando a melhorias na incontinência urinária, juntamente com aumento da força muscular do assoalho pélvico.

Segundo a equipe, liderada pela pesquisadora Alexandra Dubinskaya, usar vibrador durante a masturbação reduz o tempo que uma mulher leva para atingir o clímax e ajuda a alcançar orgasmos múltiplos, o que contribui para a redução do estresse e melhora na saúde sexual geral, segundo informações de outros estudos.

PRESCRIÇÃO MÉDICA

Diante disso, os pesquisadores concluem que os vibradores podem e devem ser considerados dispositivos terapêuticos, não apenas brinquedos sexuais.

Eles sugerem que e hora de especialistas em medicina pélvica feminina, cirurgia reconstrutiva e até mesmo médicos em geral começarem a prescrever vibradores para suas pacientes.

GESTÃO E CARREIRA

REINO UNIDO LIDERA HOME OFFICE NA EUROPA

Número de pessoas que trabalham em escritórios ainda está um quarto abaixo dos níveis de antes da pandemia

A mudança para o trabalho em casa tornou o Reino Unido uma exceção entre a maioria  das outras economias avançadas, segundo uma análise do Financial Times, já que o tamanho de seu setor de serviços profissionais e um mercado de trabalho mais flexível devem impedir o retorno aos níveis pré-pandêmicos de ocupação de escritórios.

Meses após a suspensão das últimas restrições relacionadas à Covid, os últimos dados disponíveis mostram que a número de pessoas que trabalham em escritórios ainda está quase um quarto abaixo dos níveis de fevereiro de 2020, antes de o coronavírus   se estabelecer no Reino Unido. “Houve uma mudança de mentalidade permanente sobre como o trabalho é organizado entre a força de trabalho anteriormente baseada em escritórios no Reino Unido disse Jane Parry, professora associada de trabalho e emprego na Universidade de Southampton e autora de um estudo sobre práticas de trabalho após o confinamento.

Parry disse que quase todos os entrevistados aprovaram alguma forma do trabalho flexível, com muitos dizendo que trabalhar em casa era mais eficiente, principalmente porque reduzia o deslocamento para o escritório. Os dados de mobilidade mais recentes do Google para uma quinta-feira – o dia da semana de pico para o trabalho em escritórios ­ mostraram que o número de pessoas se deslocando ainda estava 23% abaixo dos níveis pré-pandemia. Isso continua quase inalterado em relação a setembro passado, apontando o que pode ser uma nova norma pós-pandemia.

É mais que o dobro dos níveis na maioria dos outros países europeus usando dados equivalentes, com a Alemanha apenas 7% abaixo dos números de deslocamentos pré-pandemia. Os dados dos Estados Unidos e do Canadá são mais semelhantes aos do Reino Unido, mas ainda sugerem que mais trabalhadores retornaram aos escritórios.

Nick Bloom, professor de economia na Universidade de Stanford, disse que o Reino Unido, junto com os EUA, teve uma mudança acentuada no número de pessoas que usam um modelo de trabalho hibrido, sendo o trabalho em casa muito raro antes do ataque do coronavírus. “Após a pandemia, parece que esses funcionários vão trabalhar, em média, dois a três dias por semana no escritório e dois a três dias por semana em casa”, disse ele.

Uma pesquisa global com 33 mil pessoas feita em fevereiro pela WFH Research, administrada por várias universidades americanas, incluindo Stanford, mostrou que o Reino Unido teve o maior número de dias de trabalho remunerado em casa a cada semana na Europa.

Também revelou que os britânicos acreditavam que o trabalho em casa tinha aumentado sua eficiência, mais do que as pessoas em outros países europeus, e que o Reino Unido tinha a maior parcela de trabalhadores que disseram que desistiriam se fossem forçados a retornar ao local de trabalho em tempo integral.

Jack Leslie, economista do grupo de estudos Resolution Foundation, disse que uma combinação de fatores contribuiu para o aparente sucesso do trabalho híbrido ou em casa no Reino Unido, incluindo uma grande parcela de empregos baseados em computador. O Reino Unido é uma economia baseada em serviços, o que significa que uma parte maior dos empregos pode ser feita remotamente de forma permanente, disse ele.

Cerca de 80% dos trabalhadores do Reino Unido em informação e comunicação, bem como quase dois terços em serviços profissionais e científicos trabalham em casa ou usam um modelo híbrido, segundo o Departamento Nacional de Estatísticas. Isso se compara a uma média de 28% em todos os setores.

O tempo e os custos de deslocamento também são geralmente mais altos no Reino Unido, fator importante num momento em que as famílias enfrentam o aperto mais severo dos padrões de vida em décadas.

Christopher Pissarides, professor de economia na London School of Economics, disse que outro motivo pelo qual o Reino Unido é diferente é o mercado de trabalho mais flexível e menos regulamentado em comparação com outros países europeus.

A discrepância entre o Reino Unido e algumas economias industriais, como Alemanha e Itália, em termo do número de pessoas que retornam aos escritórios, tem se mantido constante nos últimos meses.

Pissarides disse esperar que o tamanho do setor de serviços no Reino Unido signifique que “deve persistir” a diferença de outras economias avançadas que têm uma porcentagem maior de empregos industriais.

Dados do Freespace, que acompanha o uso de escritórios, em grande parte monitorando as maiores empresas de serviços profissionais, descobriram que as taxas de ocupação do Reino Unido eram de cerca de 30% na primeira semana de maio, a metade da taxa antes da pandemia.

A relutância em voltar ao escritório éespecialmente aguda em Londres, que tem maior concentração de serviços profissionais que qualquer outro lugar do Reino Unido. Os dados mais recentes do Google mostram que os deslocamentos aos locais de trabalho caíram mais de 30% no início de maio, em comparação com os níveis pré-pandemia.

As estatísticas do departamento de Transporte para Londres sugerem que o problema é ainda mais grave.

O número de pessoas que passavam pelas estações da cidade na última quinta-feira de abril foi próximo dos níveis mais altos desde o início da pandemia, mas ainda 42% abaixo dos níveis anteriores ao coronavírus.

“O custo do deslocamento em termos de tempo e dinheiro geralmente é mais alto em Londres, e algumas pessoas talvez ainda estejam com medo de usar o transporte público, que é a principal forma de deslocamento em Londres”, disse Yael Selfin, economista da KPMG.

Segundo Pissarides, as mudanças tecnológicas e organizacionais feitas pelos empregadores para permitir que seus funcionários trabalhem em casa ajudaram a promover uma mudança permanente para muitos trabalhadores do Reino Unido. “Acho que o trabalho híbrido, veio para ficar”.

EU ACHO …

NOSSOS VELHOS

Pais heróis e mães rainhas do lar. Passamos boa parte da nossa existência cultivando esses estereótipos. Até que um dia o pai herói começa a passar o tempo todo sentado, resmunga baixinho e puxa uns assuntos sem pé nem cabeça. A rainha do lar começa a ter dificuldade de concluir as frases e dá pra implicar com a empregada. O que papai e mamãe fizeram para caducar de uma hora para outra> Fizeram 80 anos.

Nossos pais envelhecem. Ninguém havia nos preparado pra isso. Um belo dia eles perdem o garbo, ficam mais vulneráveis e adquirem umas manias bobas. Estão cansados de cuidar dos outros e de servir de exemplo: agora chegou a vez de eles serem cuidados e mimados por nós, nem que pra isso recorram a uma chantagenzinha emocional. Têm muita quilometragem rodada e sabem tudo, e o que não sabem eles inventam. Não fazem mais planos a longo prazo, agora dedicam-se a pequenas aventuras, como comer escondido tudo o que o médico proibiu. Estão com manchas na pele. Ficam tristes de repente. Mas não estão caducos: caducos ficam os filhos, que relutam em aceitar o ciclo da vida.

É complicado aceitar que nossos heróis e rainhas já não estão no controle da situação. Estão frágeis e um pouco esquecidos, têm esse direito, mas seguimos exigindo deles a energia de uma usina. Não admitimos suas fraquezas, seu desânimo. Ficamos irritados se eles se atrapalham com o celular e ainda temos a cara de pau de corrigi-los quando usam expressões em desuso: calça de brim? frege> auto de praça> Em vez de aceitarmos com serenidade o fato de que as pessoas adotam um ritmo mais lento com o passar dos anos, simplesmente ficamos irritados por eles terem traído nossa confiança, a confiança de que seriam indestrutíveis como os super-heróis. Provocamos discussões inúteis e os enervamos com nossa insistência para que tudo siga como sempre foi. Essa nossa intolerância só pode ser medo. Medo de perdê-los, e medo de perdermos  a nós mesmos, medo de também deixarmos de ser lúcidos e joviais.

É uma enrascada essa tal de passagem do tempo. Nos ensinam a tirar proveito de cada etapa da vida, mas é difícil aceitar as etapas dos outros, ainda mais quando os outros são papai e mamãe, nossos ali­ cerces, aqueles para quem sempre podíamos voltar, e que agora estão dando sinais de que um dia irão partir sem nós.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

O DESAFIO DE MANTER A SAÚDE MENTAL EM TEMPOS DE GRAVIDEZ ASSISTIDA

Médica dedicada a problemas emocionais na maternidade conta os temores vividos na sua própria luta para ter um filho

Depois de anos de envolvimento com a paternidade e maternidade a distância, é hora de uma psiquiatra especializada em saúde mental feminina seguir seu próprio conselho. Não sou alguém que sonhou com a maternidade quando menina. Pelo contrário: aos 30 e poucos anos tive um pesadelo recorrente em que estava grávida sem saber e o feto parecia um parasita invadindo meu corpo.

Crescer na cultura do sul da Ásia, que valoriza a gestação e as responsabilidades maternais, foi um dos motivos do meu medo. Eu também me divorciei no final dos meus 20 anos. Ser mãe não parecia estar no meu destino e eu me sentia bem com isso.

Apesar disso, tornei-me uma médica especializada em saúde mental materna. Depois da residência em psiquiatria e de me concentrar na psiquiatria perinatal, minha terapeuta sugeriu que minha decisão talvez fosse um mecanismo de “experimentar” a maternidade a uma distância confortável.

Atualmente, estou grávida de 34 semanas, chegando à maternidade aos 38 anos. Meu parceiro e eu tivemos o privilégio de fazer essa escolha de nos tornarmos pais mais tarde, usando a tecnologia de reprodução assistida. E sei que minha carreira e minhas experiências de vida me proporcionaram uma maior compreensão do que me dava medo e da capacidade de me preparar melhor para a maternidade.

A ambivalência sobre a maternidade é normal. Em termos psicanalíticos, pode-se dizer que estive em conflito por muitos anos. Na vida cotidiana, chamamos isso de “ambivalência” – ter duas emoções contraditórias ao mesmo tempo. No trabalho, ajudei minhas pacientes a buscar alivio da depressão e da ansiedade pós-parto com o auxílio de psicoterapia e, às vezes, meditação. Simultaneamente, vi minhas amigas passarem pelo caos da maternidade precoce.

Eu me perguntava por que alguém iria querer passar por tantas dificuldades. Mas eu ainda queria manter minhas opções em aberto. Aos 35 anos, meu parceiro e eu consultamos um especialista em fertilidade para discutir sobre o congelamento de meus óvulos. Ele e eu aprendemos que o sucesso do congelamento de óvulos era mais difícil de prever em uma mulher de 30 e poucos anos. Para maior probabilidade de sucesso, precisaríamos não só congelar embriões, mas testá-los geneticamente – o que é mais caro e demorado.

LADO POSITIVO

Foi durante o ano de pesquisa sobre como congelar meus óvulos e fazer embriões que comecei a perceber os aspectos positivos da maternidade em meu trabalho clínico. Eu havia cuidado de pacientes suficientes para ver que mesmo aquelas que sofriam de transtornos perinatais graves de humor e ansiedade melhoravam com o tratamento. Em uma sessão, uma paciente que havia experimentado um episódio depressivo na gravidez descreveu o prazer que sentiu quando sua filha agarrou seus dedos pela primeira vez e, mais tarde, reconheceu seu rosto e começou a balbuciar. Fiquei menos temerosa.

Logo depois, meu parceiro e eu começamos a tentar ter um bebê. Depois de sete tediosos meses, engravidei e tive um aborto espontâneo no primeiro trimestre. A perda foi emocional e fisicamente dolorosa. Mas olhando para trás, a parte que se destacou para mim foi o quão feliz eu estava por estar grávida naquelas poucas semanas.

Como eu tinha 37 anos, decidimos fazer a fertilização in vitro e, após cerca de um ano de injeções de hormônios, engravidei novamente. O bebê que agora cresce dentro de mim não parece um parasita ou um alienígena e toda vez que sinto um chute, tenho um choque de excitação. Mas isso não significa que minha ambivalência desapareceu. Minha carreira exige que eu me dedique ao meu trabalho. Quando for mãe, não terei esse luxo.

PRESSÃO

Recebi um fluxo de recomendações sobre os “melhores” lençóis de bebê para comprar. Em vez de alívio, me senti enfurecida. A pressão para, ver a maternidade, pesquisar todos esses produtos e mostrar que cada pequeno detalhe importa pode parecer opressiva – sem contar que em casais heterossexuais cisgêneros essa expectativa geralmente é reservada para as mães.

Durante a transição para a maternidade, precisei seguir alguns dos meus próprios conselhos. Em vez de decorar um quarto de bebê ou ler livros para pais, estou usando o tempo para priorizar meu bem-estar, sabendo que todas as escolhas sobre minha saúde mental ajudarão esse bebê. Tendo sofrido anteriormente de depressão e ansiedade, estou com alto risco de um transtorno de humor pós-parto.

Manter a medicação, dormir o suficiente e criar uma rede de apoio social são três intervenções baseadas em evidências para prevenir a ansiedade e a depressão pós-parto. Estou tomando preventivamente um inibidor de recaptação de serotonina durante a gravidez. Também contratei um doula pós-parto e entrei em contato com um fisioterapeuta para auxiliar minha recuperação. Colocar tempo e recursos em minha própria saúde mental não é egoísta – é o que mais importa.

No entanto, sou extremamente afortunada: tenho um parceiro que me apoia e um seguro de saúde que me permite consultar um terapeuta.

MUDANÇA

Isso me leva ao meu segundo ponto: reconhecer a necessidade de mudança sistêmica. Muitas famílias não têm o privilégio de fazer as escolhas que fiz durante esse período vulnerável. Garantir que eu consiga dormir um pouco como uma nova mãe está fora do alcance de muitos em um país onde menos de 5% dos pais tiram mais de duas semanas de licença e uma em cada quatro mães retoma ao trabalho em duas semanas. Mulheres negras e latinas têm ainda mais dificuldade nessas situações.

Como escrevi no passado, precisamos de uma ampla mudança social. Por exemplo, um estudo sueco descobriu que quando os pais recebiam licença-paternidade flexível remunerada houve uma redução de 26% na prescrição de medicamentos contra ansiedade para mães no pôs parto.

O dia de meu parto está se aproximando e ainda passo tempo na terapia falando sobre minha apreensão. Eu sei que serei transformada pela experiência. Às vezes, apenas questiono se vou gostar da nova versão de mim mesma. Talvez eu tenha medo de quanto amor possa sentir por esse bebê, diz minha terapeuta. Talvez ela esteja certa.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO PERDOAR ALGUÉM PODE FAZER BEM PARA O CORPO E A MENTE

O estresse, o rancor e a angústia afetam negativamente a saúde, liberando cortisol, o que causa um aumento em processos inflamatórios

”Perdoar é uma decisão que você toma todos os dias, por muito tempo, até que isso se desprenda a um processo em que você perdoe, de fato”, define a psiquiatra Malu de Falco. Muito mais do que aceitar um pedido de desculpas, perdoar alguém está associado a um movimento de autoconhecimento, onde é preciso refletir sobre o acontecimento, transformar a mágoa em compreensão e, muitas vezes, perdoar a si mesmo para poder seguir em frente.

Não, não é uma tarefa fácil e, para alguns, pode levar anos até que seja realizada. Mas, uma vez alcançado, o perdão pode transformar a sua vida – e sua saúde. Isso quem diz é a ciência. De acordo com o Journal of Health Psychology, o perdão é associado a vários resultados positivos na saúde mental, incluindo uma diminuição da ansiedade e depressão, além de uma melhora da saúde física em geral, com menores taxas de doenças cardiovasculares, redução da pressão sanguínea e avanço do sistema imunológico.

A psiquiatra explica que o estresse, o rancor e a angústia afetam negativamente nosso corpo, fazendo com que a gente libere cortisol – e quando esse hormônio aumenta, o corpo entende que está prestes a sentir raiva. Isso faz com que aconteça um aumento dos hormônios do estresse, como a adrenalina e a noradrenalina, e consequentemente uma inflamação do corpo. “De repente vem a pressão arterial, a pessoa começa a sentir dores, a ter problemas de saúde”, explica Malu.

No caso da arquiteta Baby Abdalla, que aos 17 anos teve de lidar com a separação dos pais e a presença do novo namorado da mãe em casa, as mudanças foram perceptíveis também em seu comportamento. “Muitos amigos meus me chamavam de ‘esquentadinha’ porque o que eu estava sentindo afetava a minha forma de agir. Comecei a ser muito séria, muito seca. Mas não era pessoal, eu não atacava as pessoas porque elas mereciam, mas sim porque eu estava machucada”, conta. Somente aos 21 anos, depois de muita conversa, reflexão e algumas broncas de amigos ela conseguiu perdoar a situação.

“Eu fui entendendo, aos poucos, que aquilo estava fazendo mal pra mim. Era eu que estava me isolando, me trancando no quarto”, conta. Aos poucos, ela foi se dando conta de que o problema estava afetando seu corpo, inclusive com dores na coluna. “Percebi que a minha mãe estava mais feliz. Demora para a gente entender que ninguém nasceu grudado e que é preciso fazer o que for necessário pra ser feliz, mesmo que afete as pessoas ao redor.”

Hoje, Baby se sente mais leve em relação ao relacionamento da mãe, e leva o aprendizado desse tempo. “Não tem como eu contar a história da minha vida sem contar essa parte. Foi algo que realmente mudou muito a forma como eu sou. Comecei a observar mais, a julgar menos, a me autoanalisar”, diz.

AUTOCONHECIMENTO

O perdão envolve reparação, por isso não é sinônimo de esquecer. Ele pode ser comparado a um ato de amor, pois diz muito mais a respeito de você do que do outro e exige uma transformação interna. Na verdade, é exatamente assim que o budismo vê essa questão.

“O budismo não fala em perdoar, porque isso é você se colocar numa posição acima do outro. ‘Eu perdoo você que errou’. Nós trabalhamos com compaixão. Então é falar: ‘eu ser humano, semelhante a você, que conheço dificuldades e problemas que nós possamos ter na vida, me reconheço em você e te compreendo. Eu posso não aceitar aquilo, mas eu não condeno a pessoa, eu condeno o ato”, explica Monja Coen.

Ela explica que para chegar a esse nível de compreensão é preciso conhecer profundamente a si mesmo. “Na hora em que você entra no processo de autoconhecimento, você pode fazer escolhas desse ser que não só você conhece, mas em que você está se transformando. O autoconhecimento não é dizer ‘eu sou assim’.  Mas perceber que tem aspectos em mim que podem ser mudados, e eu vou trabalhar para mudar”, explica.

E se o autoconhecimento pede por uma intensa observação interna de ações – incluindo o arrependimento e a transformação – e dos sentimentos sentidos, somente podemos falar do autoperdão. Algo que, para os especialistas, é o primeiro passo do longo e complexo processo de perdoar. “Quando você decide perdoar o outro, algumas características sobre você vêm à tona. Uma questão de autoconhecimento, sobre até onde eu consigo ir pelo outro e de ter conhecimento dos próprios limites”, diz Malu.

EMPATIA

Isso exige de quem está perdoando um alto grau de empatia, porque é preciso se acolher e entender que se trata de um processo dolorido, que envolve raiva, dor e questionamentos. “É preciso também um entendimento de quais são as suas necessidades físicas e emocionais durante o processo”, explica a psiquiatra.

Quando quem está perdoando entende seus processos internos, fica mais fácil analisar a situação. O passo seguinte é refletir: será que um especialista vai ajudar a lidar com outros ressentimentos? “Parece muito simples sentir, mas na verdade é bem complexo. Saber que você está com raiva, entender porque algo a machucou, é essencial para permitir que esse processo aconteça. E quem consegue atingir esse nível de autoperdão tem mais facilidade de oferecer o perdão ao outro”, diz a psicóloga Camila Puertas.

“É fácil? Não, mas é um processo. Um processo possível. “E é o autoconhecimento que nos liberta”, garante Monja Coen.

DICAS QUE PODEM AJUDAR NO PROCESSO DE PERDOAR

REFLEXÃO

Pode ser pela escuta, pela meditação, ou com conversas profundas. Criar um processo para entender os sentimentos e as consequências dos atos dolorosos para a sua vida e para sua relação com a pessoa que pediu perdão são essenciais.

“A gente acredita que o zazen, a prática da meditação sentada, dessa auto-observação, nos faz perceber quais são os mecanismos da mente humana e como podemos usar isso de forma mais adequada”, diz Monja Coen.

PACIÊNCIA

O tempo é o melhor remédio. A compreensão da situação como um todo exige um olhar mais calmo, mas muitas vezes estamos no meio do furacão. Por isso, paciência e um pouco de distanciamento é ótimo. ”Você sabe que perdoou uma situação quando olha para aquilo e não sente algo negativo. Evidente que não vai sumir de um dia para o outro, mas tende a diminuir”, diz a psicóloga Camila Puertas.

ARREPENDIMENTO

Para quem machucou o outro, é importante levar em consideração que não adianta somente pedir perdão. O primeiro passo é o arrependimento e a percepção do que houve uma falha. Não se trata de dizer palavras bonitas e seguir em frente. Também é importante entender porque aquele ato foi cometido e o que você pode fazer para se redimir.

COMPREENSÃO

Nem sempre éfácil, mas ao decidir perdoar alguém, entender sua cultura, vivência e os motivos que o levaram a fazer algo que merece perdão podem ajudar. “Exigir uma mudança do outro é algo muito sério. Ao se relacionar, é preciso ter a compreensão com o outro”, indica a psiquiatra Malu de Falco.

GESTÃO E CARREIRA

PESSOAS QUE TIVERAM BURNOUT CONTAM COMO O SUPERARAM

Cansaço que não passa e confusão mental são sintomas do esgotamento

“Eu levava muito a sério o trabalho e a faculdade, e tinha aquela vontade de dar cem por cento em tudo”, conta Pedro Medeiros, 33, bioinformata. Em 2017, ele cursava sua segunda graduação, em farmácia, na USP (Universidade de São Paulo), trabalhava em uma indústria na região do ABC Paulista e morava na zona leste de São Paulo.

Pedro conta que percorria cerca de 100 km por dia no transporte publico e sofria uma privação de sono muito grande para dar conta de todos os seus compromissos.

“Eu já fazia terapia e um dos principais assuntos que tinha com a minha psicóloga era sobre uma sensação de esgotamento que me acompanhava o tempo todo, mesmo quando eu não estava trabalhando”, recorda.

O bioinformata já fazia tratamento para transtorno de ansiedade, mas viu a situação se agravar nessa época. “O ambiente de trabalho acabou ganhando para mim uma carga emocional muito grande. Eu comecei a adquirir uma repulsa por ele”, admite.

Outro sintoma que Pedro apresentava é chamado de “brain fog”, ou névoa cerebral em português, que é a dificuldade de concentração e sensação de confusão mental.

Com todas essas ocorrências e os relatos que fazia durante as sessões de terapia, Pedro recebeu de sua psicóloga o diagnostico de burnout.

A síndrome écaracterizada por exaustão emocional, despersonalização – quando o indivíduo começa a agir com frieza no ambiente profissional – e baixa realização no trabalho.

Em 1º de janeiro deste ano, o Burnout ganhou uma descrição mais detalhada na CID -11 (Classificação Internacional de Doenças) pela OMS (Organizaçao Mundial da Saúde). Com a mudança, a sindrome passa a ser estabelecida como um fenômeno ocupacional.

O psiquiatra neurocientista José Fernandes Vilas, autor do livro ‘Quando o Sucesso Vira Burnout’ explica que essa condição é comum em pessoas que são extremamente dedicadas ao trabalho.

“Quando estamos com o coração no trabalho, não conseguimos enxergar as ciladas. A pessoa vai se entregando sem medidas até não suportar mais. E para alguns empregadores, uma pessoa apaixonada pela profissão, cheia de sonhos, é um prato cheio para o abuso”, ressalta Vilas.

Foi também a dedicação extrema ao trabalho que levou a veterinária Loren DAprile a receber o diagnóstico de burnout. Desde quando ainda estava na graduação, conta Loren, ela questionou as praticas de ensino e de pesquisa em relação ao animas.

Tambem nesse período já resgatava bichos em situação de vulnerabilidade.

Depois de se formar, foi fazer residência em medicina veterinária do coletivo na UFPR (Universidade Federal do Paraná), onde atuava com animais vitimas de maus tratos. Além da grande carga emocional que seu trabalho exigia, Loren trabalhava cerca de 12 horas por dia e deixou de lado a vida pessoal.

“Eu me sentia responsável por esses animais. Cortei o cabelo bem curto para não perder tempo com isso, parei de fazer atividade física, comia quando dava, dormia menos e engordei. Sentia muito cansaço o tempo todo, mas não parava”, relata.

Foi então que a veterinária começou a pesquisar sobre seus sintomas, percebeu que estava enfrentando um burnout e marcou uma consulta com uma psiquiatra.

‘O Burnout afeta, principalmente profissionais da área de serviços ou cuidadores, como profissionais da saúde e da educação, mas também há estudos em categorias como policiais, assistentes sociais, agentes penitenciários e motoristas. Ou seja, não escolhe classe social”, revela Bruno Chapadeiro, psicólogo e professor adjunto em psicologia do trabalho e organizacional da UFF (Universidade Federal Fluminense). Ao trabalhar por muitas horas, seja por amor ao oficio ou por necessidade financeira, o profissional pode chegar a um quadro de esgotamento e sentir a necessidade de se afastar. Foi o que aconteceu com Pedro.

“Eu pedi demissão. Fui muito claro com minha gestora na época, que era uma pessoa que eu tinha total abertura. Eu disse que me sentia miserável trabalhando e que não estava satisfeito com meu rendimento, e que em algum momento eu não ia mais conseguir entregar o que estavam me pedindo”, conta o bioinformata.

O psiquiatra José Fernandes Vilas destaca que ter uma conversa sincera com os chefes é muito importante nessa situação. “Num primeiro momento, pode soar como expor sua intimidade. Porém, servirá como sinal de alerta para o empresário, para o RH que a sua empresa pode estar sendo um gatilho para adoecimento”, afirma.

“No burnout, o adoecimento acontece pela má administração do estresse crônico no trabalho, tanto pela dedicação extrema do funcionário quanto pela exposição ao estresse provocado pela empresa. Assim, quando há diálogo, os interesses se igualam”, observa Vilas.

O médico reforça que é preciso ter cautela, antes de pedir demissão para que não haja arrependimento posteriormente.  Em primeiro lugar, deve -se buscar tratamento. Somente após uma melhora clinica é indicado decidir sobre seu futuro nu empresa conclui.

Além de deixar o emprego, Pedro trancou a faculdade e tirou cerca de um ano para poder descansar:

Só depois de um tempo relativamente grande que comecei a sentir a névoa mental se dissipar e que meu raciocínio estava voltando”, confessa.

Ele continuou o tratamento com a psicóloga, terminou a segunda graduação, começou um mestrado cesse reinseriu no mercado de trabalho. Atualmente, trabalha no regime de home office e não precisa mais se deslocar por grandes distancias.

Loren, após iniciar o tratamento com o psiquiatra, terminou a residência medica e voltou para São Paulo para cursar um mestrado. Ela retomou as atividades que gostava, mas que tinha deixado de lado por causa da dedicação aos animais. Voltou a fazer academia, se alimentar melhor, regulou o sono e começou a praticar mindfulness. Hoje ela mora em Bom Jesus, no Piauí, e atua como assessora técnica e coordenadora de voluntariado do Fórum Nacional de Proteçao e Defesa animal. A veterinária continua trabalhando com bichos em situação de maus tratos, mas procura sempre encontrar um equilíbrio entre a vida profissional e pessoal para não cair novamente em um quadro de esgotamento.

“Depois que passa o vendaval do burnout e você aprende onde está o gatilho do adoecimento, você consegue ver as situações com mais clareza”, destaca o psiquiatra Jose Fernandes Vilas.

O médico ressalta a importância de procurar um psicólogo para entender a partir de que ponto o paciente ultrapassou os limites no trabalho, definir estratégias e, caso necessário se consultar com um psiquiatra para verificar se há necessidade do uso de medicação.

“Nesse período de reestruturação, é importante investir tempo com a família, praticar atividades físicas, regular o sono e se desligar totalmente da empresa. Jamais em tempo de afastamento médica, manter muito contato com amigos da empresa, pois sempre haverá um ou outro que tocará no assunto adoecimento ou ira trazer informações sobre o trabalho e acabar acionando gatilhos adverte.

“Entenda que esse período é para ressignificar a forma que você deve realizar a sua função, e não ser usado com o masoquismo para se sentir pior”

OUTROS OLHARES

VAI COMPRAR ALIMENTO CONGELADO? SAIBA COMO VER SE ESTÁ PRÓPRIO PARA CONSUMO

Produtos armazenados em temperatura inadequada perdem propriedade, duram menos e provocam risco à saúde

O peso dos alimentos no orçamento das famílias brasileiras não deixa espaço para erro ou desperdício: a inflação desse segmento já acumula alta de 16,12% em 12 meses fechados em abril. Um cuidado para evitar perdas é conferir os congelados na hora da compra. O acondicionamento inadequado de alimentos congelados e resfriados nos pontos de venda pode fazer o produto perder as propriedades informadas no rótulo, reduzir o tempo de validade e trazer risco à saúde, levando a necessidade do descarte do produto.

Apenas na capital do Rio de Janeiro, a Vigilância Sanitária municipal descartou mais de 6.3 toneladas de alimentos impróprios para consumo por acondicionamento em temperatura inadequada nos mercados de janeiro a abril deste ano. De 44 denúncias encaminhadas ao órgão nesse período, 42 eram procedentes. O problema não é o único a afetar a qualidade de produtos alimentícios nos pontos de venda, mas está entre os frequentemente encontrados pela fiscalização.

“A conservação em temperatura inadequada de alimentos traz risco à vida do consumidor. A oscilação de temperatura torna propícia a multiplicação de bactérias, microrganismos patogênicos que podem causar de alergia à morte”, alerta Aline Borges, presidente do Instituto Municipal de Vigilância Sanitária (Ivlsa-Rio).

MAIS PERIGO EM CARNES

Produtos crus, como came e pescados, são os mais problemáticos. Nos processados, como iogurtes e queijos duros, o risco é menor, explica Aline.

A atenção frequente à aparência e à validade dos alimentos não evitou que a estudante universitária Marcella Chagas, de 25 anos, moradora de Niterói, levasse para casa uma peça de came imprópria para o consumo.

“Não é possível que tenha ficado ruim do caminho do mercado até minha casa. Com certeza já não estava em condições adequadas de armazenamento antes, apesar da coloração parecer normal”, queixa-se Marcella que, voltou ao mercado e conseguiu o ressarcimento do valor pago. A estudante diz ter dificuldade em avaliar produtos congelados. Elisa Freitas, diretora de Fiscalização do Procon-RJ, diz que uma das recomendações na hora de comprar produtos resfriados ou congelados é procurar na rotulagem a temperatura de conservação indicada pelo fabricante e verificar o que marca o termômetro do freezer ou geladeira onde está armazenado.

Se o produto não estiver conservado de acordo com as determinações do fabricante, a orientação é chamar o gerente do estabelecimento, denunciar e não colocá-lo no carrinho de compras.

“Além disso, a presença de cristais de gelo na embalagem, produtos que deveriam estar congelados em consistência mole são indícios de que há problema no freezer. Embalagens suadas, caixas úmidas também são indicativos. Esses produtos não devem ser consumidos”, ressalta Elisa.

A perda de alimentos por conservação inadequada é tão frequente que virou oportunidade de negócio para startups que oferecem o monitoramento online de geladeiras e freezers ao comércio para detectar variação de temperatura.

“Usando sensoressem fio e inteligência artificial é possível garantir a qualidade dos produtos com monitoramento em tempo real que alerta imediatamente diante de qualquer variação de temperatura que gere risco. Não existe alimento de qualidade e saudável sem conservação adequada”, explica Paulo Lerner, CEO da SYOS, startup que monitora mais de 300 pontos de venda e que espera chegar a mil no fim deste ano.

Um cuidado a mais que o consumidor deve ter para manter a temperatura écomeçar as compras no supermercado pelos produtos não perecíveis e secos, como enlatados, ensacados, seguindo para os frescos, deixando para o fim a compra dos alimentos congelados e refrigerados.

“Em dias quentes ou para viagens com mais de 30 minutos de duração, tente levar uma bolsa térmica para manter os alimentos congelados frios durante o transporte. Ao chegar em casa, coloque imediatamente os itens refrigerados e congelados na geladeira ou no freezer”, recomenda Jacqueline Navarro, mestre na Ciência de Alimentos e vice-presidente da ONG Food Safety Brazil.

Ela ainda alerta que de nada adianta todo esse cuidado, se na hora do preparo não se fazer o descongelamento correto. Para carnes, o certo é que seja feito na geladeira.

QUEIXA NO PROCON

Procurada, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) não comentou medidas adotadas, especificamente para solucionar problemas relacionados à refrigeração de alimentos nos supermercados, mas enviou um estudo de eficiência operacional adotada nos estabelecimentos do país.

Quem encontrar problemas nos pontos de venda pode acionar a vigilância sanitária e o Procon. Se só se der conta do problema quando chegar em casa, éimportante ter a nota fiscal, retornar ao local da compra e pedir a troca ou ressarcimento.

ESTAR BEM

IBUPROFENO AUMENTA RISCO DE DOR CRÔNICA NA REGIÃO LOMBAR

Estudo, ainda sem confirmação clínica, sugere que droga pode agravar sintomas em vez trazer alívio. Médicos sugerem exercício como recurso

De acordo com um novo estudo, os próprios tratamentos usados com maior frequência para aliviar a dor na região lombar podem fazer com que o incômodo dure mais. Tentar controlar a dor com medicamentos esteroides e anti-inflamatórios não esteroides, como o Ibuprofeno, pode realmente transformar o caso em uma condição crônica, afirmam os autores.

Alguns especialistas, porém, pediram cautela na generalização dos resultados, já que o estudo não usou o padrão-ouro para pesquisa médica. No ensaio clínico, as pessoas com dor nas costas seriam aleatoriamente designadas para tomar um anti-inflamatório não esteroide ou um placebo e depois acompanhadas para constatação de quem desenvolveu dor crônica. Em vez disso, a pesquisa envolveu observação de paciente, testes em animais e análise de dados.

“É intrigante, mas requer mais estudos”, disse o médico Steven Atlas, diretor de pesquisa de cuidados primários e melhoria de qualidade no Hospital Geral de Massachusetts, nos EUA.

Bruce Vroeman, especialista em dor do Centro Médico Dartmouth Hitchcock, concordou, mas chamou o estudo de “impressionante em seu escopo” e disse que, se os resultados se mantiverem em um ensaio clinico, poderão “nos forçar a reconsiderar a forma como tratamos a dor aguda.”

Já o médico Thomas Buchbelt, diretor do programa de terapias regenerativas da dor na Universidade Duke, tem uma visão diferente.

“Existe essa regra tácita: se doer, tome um anti-inflamatório e, se ainda doer, tome também um esteroide”, disse o médico.  “Mas [o estudo mostra que] temos que pensar na cura e não na supressão da inflamação.

DOR CRÕNICA

Diretrizes de sociedades médicas profissionais dizem que pessoas com dor nas costas devem começar com tratamentos não medicamentosos, como exercícios, fisioterapia, calor ou massagem. Essas medidas acabam sendo tão eficazes quanto os medicamentos analgésicos, mas sem os mesmos efeitos colaterais.

Em caso de persistência da dor, as pessoas podem tentar medicamentos anti-inflamatórios não esteroides como o ibuprofeno – o paracetamol não e um anti-inflamatório porque não bloqueia a inflamação. Mas o estudo, publicado na revista Science Translational Medicine, alertou que essa terapia medicamentosa poderia contribuir para a dor crônica, que diminuiria a qualidade de vida de uma pessoa.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores da Universidade McGill coletaram amostras de sangue de 98 pessoas. Mas o que viram não foi o que esperavam, afirmou Luda Diatchenko, principal autora do estudo. De acordo com ela, aqueles que disseram que sua dor passou tiveram inflamação rápida e intensa quando a dor era aguda – os marcadores de inflamação diminuíram nos três meses seguintes. Mas aqueles cuja dor persistiu não apresentaram tal reação inflamatória.

Os pesquisadores continuaram investigando. Eles estudaram pessoas com ATM (distúrbios da articulação temporomandibular) e replicaram as descobertas em camundongos. Em seguida, questionaram se a dor crônica resultava da supressão da dor ou da supressão da inflamação. Então deram a alguns ratos um anti-inflamatório prescrito, diclofenaco. Outros camundongos receberam um dos três outros medicamentos analgésicos ou para alivio de dor – gabapentina, morfina e lidocaína. Somente com o diclofenaco a dor persistiu, tornando-se crônica.

Esses resultados os levaram a se perguntar se os pacientes que tomaram anti-inflamatórios não esteroides como o Ibuprofeno ou esteroides como a dexametasona para aliviar a dor nas costas também eram mais propensos a desenvolver dor crônica.

DESEMPENHO INEXPRESSIVO

Os pesquisadores recorreram a dados do UK Biobank, um repositório com informações sobre as condições médicas e o uso de drogas medicamentosas em meio milhão de pacientes no Reino Unido. Eles estudaram 2.163 pessoas com dor aguda nas costas, 461 das quais passaram a ter dor crônica. Aqueles que tomaram um anti-inflamatório não esteroide tiveram quase o dobro da chance de desenvolver dor crônica nas costas do que aqueles que tomaram outros medicamentos ou não ingeriram nenhum remédio, descobriram os pesquisadores.

Diatchenko disse não acreditar que suas descobertas tenham relação com a questão do vício em opioides, que são medicamentos com efeitos analgésicos e sedativos potentes. Na verdade, ela disse que, para evitar opioides, os médicos começaram a prescrever mais anti-inflamatórios não esteroides.

“Precisamos pensar mais sobre como tratar nossos pacientes”, afirmou.

A tendência de usar anti-inflamatórios não esteroides persiste apesar de seu desempenho inexpressivo. Uma análise de ensaios clínicos aleatórios descobriu que esses medicamentos quase não tiveram nenhum benefício em relação aos placebos na redução da dor lombar.

Steven Atlas diz que o uso a curto prazo de anti-inflamatórios não esteroides provavelmente não éprejudicial, mas o novo estudo, embora não prove que o uso a longo prazo é prejudicial, pelo menos fornece um mecanismo biológico que diz que o uso a curto prazo não é o mesmo que a longo prazo.

O vice-presidente sénior de saúde da Microsoft, James Weinstein, pede que as pessoas repensem seus hábitos de tomar as pílulas de Ibuprofeno e – por mais contraintuitivo que pareça – tentem se exercitar.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AMAMENTAÇÃO GERA CRIANÇAS MAIS INTELIGENTES

Testes mostraram que bebês alimentados com leite materno viram adolescentes com habilidades vocabulares maiores e pontuação de QI superior. Período de aleitamento acima dos seis meses traz resultados melhores

A duração do período de amamentação está associada a um QI mais alto dos filhos na adolescência. A conclusão é de um estudo feito pela Universidade de Oxford, publicado na resista PLOS ONE. Segundo os pesquisadores, o trabalho mostra a importância do aleitamento prolongado.

Os pesquisadores analisaram a ligação entre a duração da amamentação e as habilidades de raciocínio em 7.855 crianças participantes do Estudo de Coorte do Milênio do Reino Unido, que acompanhou bebês entre 2000 e 2002 e conduziu testes cognitivos neles aos 5, 7, 11 e 14 anos. Também foram considerados dados que estavam disponíveis no monitoramento e podiam afetar a conclusão, como características socioeconômicas e cognição materna.

Cercade um terço das crianças do estudo nunca haviam sido amamentadas, mas 23% recebiam o leite materno por pelo menos seis meses.A ligação mais forte entre aleitamento e habilidades de vocabulário foi observada na faixa dos 14 anos.

Os resultados mostraram que a amamentação está ligada a um aumento “modesto” na inteligência das crianças, mesmo quando o perfil da mãe e suas circunstancias socioeconômicas foram consideradas. O estudo conclui que ser amamentado por mais tempo pode aumentar a inteligência das crianças tanto quanto ter uma mãe inteligente ou vir de uma família abastada e ”não deve ser subestimado”.

Os jovens de 14 anos amamentados por pelo menos 12 meses, por exemplo, tiveram melhor resultado em testes de vocabulário do que aqueles da mesma idade que nunca receberam o leite materno. A diferença foi de quase três pontos de QI.

Mesmo as crianças que foram alimentadas apena com o leite materno por menos tempo se saíram melhor em testes de cognição do que as que nunca foi amamentadas.

Bebês amamentados por um período de quatro a seis meses se saíram melhor nos testes de memória, raciocínio e consciência espacial realizados aos 7 e aos 11 anos.

Essas crianças também se saíram um pouco melhor em um teste espacial que exigia que elas encaixassem quadrados coloridos em uma forma, realizado aos 5 anos. O resultado foi ainda melhor quando o teste foi realizado aos 7 anos.

As avaliações seguiram até os 11 anos de idade, com desempenho superior nos quesitos consciência espacial e as habilidades de resolução de problemas.

Apesar dos resultados, a pesquisadora Renee Pereyra-Elias, que liderou o estudo, ressalta que as, mães que não amamentaram por qualquer motivo não devem se preocupar, pois os ganhos potenciais de QI entre crianças que receberam leite materno por vários meses oscilam entre dois e três pontos. Porém, ela ressalta que as mulheres que consideram o aleitamento devem ser encorajadas.

FÓRMULA POTENTE

O leite materno contém ácidos graxos poli insaturados e nutrientes como ferro, que ajudam o cérebro das crianças a se desenvolver. Especialistas dizem que a amamentação também faz com que elas tenham menos infecções e doenças, o que pode ajudar a inteligência porque faltam menos à escola. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aconselha as mães a amamentar exclusivamente por seis meses ou mais.

“Os resultados do estudo indicaram que quanto mais tempo a mãe amamenta exclusivamente menores são as chances relativas de seu filho ter asma ou desfechos relacionados”, disse a médica Kendrea Wilson, principal autora do trabalho e professora de neonatologia da Universidade do Tennessee, nos EUA.

Quando os bebês não foram exclusivamente amamentados, ou seja, houve também o consumo de fórmula, suco e outros alimentos, o nível de proteção caiu.

EU ACHO …

OU VOCÊ AMADURECE, OU SE FALSIFICA

Você acorda, vai ao banheiro, se olha no espelho, faz a barba ou pinta o olho, e inicia mais um dia da sua vida, mas é sua vida mesmo, ou você interpreta um personagem’ Você amadureceu pra valer ou virou uma cópia falsificada de um adulto’ Tenho visto alguns humanos adulterados por aí, “gente grande” made in Paraguai.

Éramos crianças inocentes e protegidas, até que os anos passaram. A adolescência nada mais é do que você percorrendo, sozinho, um amplo deserto e enxergando, ao longe, aquela poeirinha no horizonte que, nos filmes de aventura, indicam uma cavalaria armada ou uma tribo de peles-vermelhas se aproximando, qualquer coisa que pareça ameaçadora na imaginação e que assustará ainda mais quando chegar perto – e você não tem nem um reles pangaré pra montar e escapar desse ataque iminente. Sabe que terá que ser muito homem – ou muito mulher – pra enfrentar.

Aquela poeirinha vai se agigantar na sua frente. E então você verá que não são malfeitores com rifles em punho, nem os índios estereotipados dos faroestes. São escolhas a fazer, relações amorosas, dúvidas e dívidas, filhos pra educar, a finitude pra lidar e posicionamentos exigidos pela sociedade: a maldita esquadra da maturidade, que não está afim de negociar com seu amadorismo.

E agora)

Quem encara, paga um preço alto. Não tem o recurso de se amparar nas costas de papai e mamãe, não tem a hipótese de transferir as decisões para o dia de São Nunca. Com a coragem que nem sabia que tinha, você assume sua identidade, dá um trato nos seus medos eco­ meça a trajetória: trabalha, ama, sofre, se expõe, se impõe, fala, cala, sofre, destrói, constrói. Mas constrói mesmo. Uma vida legítima. Uma vida sua.

Ou.

Ou se escora. Na mãe velhinha, no pai doente, no parceiro com quem está casado há 42 anos, na namorada rica que virou a salvação da lavoura, se escora na chapação, no álcool, nos medicamentos tarja preta, numa idealização fraudulenta  (“sou ótimo, pena que o mundo não reconheceu meu brilhantismo”), se escora na muleta que estiver mais à mão e distribui sorrisos sedutores e desculpas esfarrapadas: sou uma farsa, mas uma farsa de terno e gravata, uma farsa em vestido de baile.

Falsificam-se a si mesmos os que não têm brio. Os que dependem de mil e quinhentos empurrões, e mesmo empurrados não ganham velocidade, ritmo, rumo. Ficam sempre no meio do trajeto, soluçando, reclamando, retrocedendo à memória das longas tardes no jardim de infância, quando, em segurança, sabiam que seus pais estariam esperando, no final do dia, no portão.

Na maturidade, não tem ninguém esperando no portão pra nos levar pra casa, mas tem uma caminhada excitante rumo a um prazer que só quem se arrisca, conhece. O prazer da independência. O prazer de ter a sua assinatura avalizando cada uma de suas conquistas.

Já quem se falsificou num adulto que parece que é, mas não é, desperdiçou a chance de ter uma vida autêntica porque se assustou com a poeira no horizonte, previu que seria uma luta perdida, que não daria conta. Mas daria. O gigante, em qualquer circunstância, somos nós.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

APRECIAR COISAS SIMPLES VIRA MODA NAS REDES

Vídeos ensinam como romantizar até mesmo as tarefas mais banais e se tornar o personagem principal de sua vida

No YouTube, uma cineasta de Utah se bronzeia ao sol da manhã, desfruta de um croissant fresquinho e borrifa perfume de limão sobre uma colcha decorada com rosas cor de rosa.  Os vídeos dela, uma fuga aconchegante rumo a um mundo singelo, são inspirados por “Anne de Green Gables”, os romances de Jane Austen e o drama de época ‘Bridgetown’ e oferecem dicas sobre “como ser mais feliz e apreciar as coisas pequenas da vida”.

Outras pessoas usam o Tik Tok a fim de divulgar rotinas mais agradáveis para o café da manhã, e incentivar a compra de buquês de flores e a prática da gratidão. Rachel Hess, 21, uma criadora de conteúdo no app, usa um rolo de macarrão para amassar folhas de eucalipto e depois as pendura no chuveiro, em um vídeo que foi assistido por 6,8 milhões de pessoas. “Romantize suuuuua vidaaa” diz a legenda.

“Quero fazer com que mesmo o mais banal dos dias pareça único, porque são dias assim que formam a maior parte de nossas vidas – não as férias, o os acontecimentos especiais que surgem de vez em quando”, disse Hess, universitária da Pensilvânia. 

Nos últimos dois anos, a frase “romantize sua vida” emergiu na mídia social como um apelo à ação, e ganhou popularidade durante alguns dos meses mais sombrios da pandemia de Covid-19.

O lema pede que apreciemos aquilo que temos bem diante de nós, e que vivamos com intenção, por mais banais que sejam os rituais cotidianos – um lembrete de que é preciso estar sempre em busca de momentos de beleza, e abraçar o minimalismo.

Vídeos com a hashtag#romanticizeyourlife (romantize sua vida, em português), a maioria esmagadora dos quais postados por mulheres jovens, foram assistidos mais de 525 milhões de vezes no Tik Tok. Também há mais de 28 mil postagens se referindo a frase no Instagram, acompanhadas por imagens que incluem crepúsculos à beira da água, jantares servidos com louça elegante e xícaras de chá delicadas.

Embora parte do conteúdo seja claramente aspiratório – nem todo mundo pode fazer uma viagenzinha rápida à Itália ou fugir para um campo florido vestindo roupas delicadas de primavera -, a maioria dos vídeos rejeita o tipo de mensagem que leva pessoas a adquirir coisas materiais

E eles também renunciam a estética “aquela garota”, que promove um caminho único para o bem-estar, repleto de sucos verdes, diários e muito exercício físico.

Um comentarista no Reddit disse ter encontrado alegria até mesmo ao lavar bules de café, no escritório. “Depois de colocar um pouco de detergente no bule, comprimo levemente a embalagem para criar bolhas de sabão”, escreveu o usuário em um comentário sobre como romantizar a vida. ” Amo bolhas de sabão”.

Outro comentário no Reddit escreveu que “compro pratos de papel comemorativos na loja de USS1,99 (R$10) e os uso para comer, quando quero me sentir festivo. Todos eles tem desenhos dos diferentes feriados, ou sereias, robôs, casamentos, ou dizeres como ‘é um menino’. Fico comovido”.

Em um canal de YouTube chamado Malama Life, uma blogueira de estilo de vida radicada no Hawaii observa os pássaros do lado de fora de sua janela, rega as plantas e fatia suas frutas prediletas para o café. “Isso me dá motivo para sair da cama de manhã”.

Especialistas dizem que a tendência a romantizar pode ter perdurado em parte porque é uma nova maneira de explorar a “mindfulness” – a prática de prestar atenção ao momento presente e de se conscientizar quanto às sensações físicas, pensamentos e emoções de uma maneira não censória. A prática também oferece uma sensação de poder, de controle, que faz muita falta enquanto persiste a pandemia.

“É a prática de ser positivo quanto ao que a vida tem a oferecer, independentemente de as circunstâncias serem aquilo que você imaginava ou desejava”, disse Ashley Ward, 26, cujo vídeo de 2020 no Tik Tok sobre romantizar a vida foi assistido mais de três milhões de vezes. “Não se pode controlar tudo na vida, mas cada pessoa tem controle de como ela vê a situação em que esta”.

Jake Cohen, 18, autor de livro de culinária cujo vídeo sobre torradas de avocado foi assistido quase 400 mil vezes no Tik Tok, disse que romantizar é encontrar meditações em nossos rituais diários”.

Algumas pessoas podem considerar a prática como “extravagante e inútil”, ele acrescentou, mas se quero romantizar minha torrada de avocado ou meu pão ázimo, isso éassunto meu, é uma forma minha de trazer mais beleza à minha rotina”.

A tendência extrai sabedoria de domínios diferentes, como a “mindfulness”, a psicologia positiva e o costume dinamarquês do “hygge”, mas está sendo apresentada de uma maneira envolvente e fresca”, disse Erik Loucks, professor associado de epidemiologia. Ciência social e ciência comportamental na Universidade Brown, e diretor do Mindfulness Center.

As pesquisas de Loucks e seu mais recente livro, “The Mindful College Student How to Succeed, Boost Well-Being, and Build the Life You Want at University and Beyond” (o universitário atento: como ser bem-sucedido, melhorar obem-estar e construir a vida que você quer na universidade e além, em português; Editora NewHarbinger Publications, 210   págs., RS87,56) ilustram de que maneira a “mindfulness” pode reduzir o estresse e os sintomas de depressão, e melhorar a qualidade do sono e os níveis de atividade física.  

“Romantizar sua vida se entrelaça a ‘mindfulness’, ele acrescentou, em parte ao nos ajudar a encontrar uma sintonia melhor para conosco.

“Se estamos tentando construir uma vida que nos torne felizes e que nos coloque em posição central de uma maneira amável, bem, cada um de nós é diferente. Que métodos ressoam mais? Isso é uma forma de autoconscientização”, afirmou ele.

Entrelaçada a conversação online sobre romantizar a vida está a tendência do personagem principal – vídeos com a hashtag #maincharacter (personagem principal) já receberam 6,9 bilhões de visitas no Tik Tok, e uma tendência derivada, a da energia do personagem principal, também tem muitos aderentes.

O meme sobre o personagem principal gerou numerosas paródias, que zombam dos clichês cinematográficos e do narcisismo. É “uma maneira divertida de minimizar algumas das coisas escrotas que as pessoas romantizam” disse Ward. Mas ser o personagem principal também se tornou um lembrete sincero de que a pessoa precisa deixar que suas ações conduzam a narrativa, mais ou menos como aconteceria a um protagonismo de um filme de ficção.

No vídeo de Ward para o Tik Tok, o câmera fica posicionada no alto, voltada para uma praia onde ela aparece reclinada sobre uma toalha. A tomada feita do alto transmite que ela é personagem principal, e a simplicidade das imagens permite que sua luz franca ocupe posição central.

“Você precisa começar a romantizar sua vida”, a narrativa principia. “Precisa começar a pensar em você como o personagem principal. Porque, se não o fizer, a vida continuará a passar por você. E todas as pequenas coisas que a tornam tão bela passarão despercebidas. Por isso, faça uma breve pausa e olhe ao seu redor, e perceba que é uma bênção para você estar onde está, bem agora”, completa.

O áudio de seu vídeo foi usado por numerosos outros criadores de conteúdo, como Ângela Liguori, influenciadora e fotógrafa de viagens, que combinou o som a uma montagem de imagens dos locais distantes que ela visita

“Um personagem principal tem pleno senso de ação eo que a pandemia tirou de nós foi exatamente esse senso de ação”, disse a psicóloga Sherry Turkle, professora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que pesquisa sobre a relação entre o ser humano e a tecnologia.

Tornar-se o personagem principal também é uma maneira de criar um eu mais autêntico e de abrir espaço para aquilo que você é, acrescentou Turkle. “Creio que exista uma convergência entre querer mais intensamente encontrar uma identidade – em meio ao nosso isolamento – e afirmar nossa individualidade”, ela disse.

Livia Boerger, coach especializada em bem-estar mental escreveu sobre as diversas maneiras pelas quais as pessoas podem romantizar suas vidas, e em seu site oferece um desafio de 28 dias para “ajudar a celebrar a ideia de viver por razões menores, e de se apaixonar de novo pela vida”.

Durante a pandemia do Covid-19, ela disse, muita gente vinha “procurando maneiras de criar alegria e de encontrar aquela alegria dentro de si, e de aproveitar ao máximo o que cada um de nós tem”.

O que também pode conduzir a uma questão mais ampla: o que nos traz felicidade, verdadeiramente? Férias caras ou uma roupa nova? Ou deveríamos parar de esperar por aqueles momentos perfeitos e começar a desfrutar do presente?

“Há muita alegria a encontrar em coisas gratuitas”, disse Boerger. Brincar com as crianças na chuva, por exemplo. Ou fazer uma pausa para curtir uma xicara de chá, em vez de continuar trabalhando enquanto bebe. “O sabor é tão melhor quando seu foco está no chá”, concluiu.

GESTÃO E CARREIRA

COMO ATRAIR E RETER OS TALENTOS MAIS DISPUTADOS DO MERCADO

Tão importante quanto a proposta de valor para o cliente é a proposta de valor para o colaborador

Empresas que querem montar ou acelerar seus negócios digitais precisam estar prontas para enfrentar um dos maiores gargalos do mercado: talento. Este obstáculo tem duas grandes origens: uma demanda celerada e uma oferta que não caminha na mesma velocidade.

Do lado da demanda: o Brasil é um dos países mais conectados do mundo, com mais de 70% da população grudada na internet, navegando em média 10 horas por dia. Soma-se a isto um volume de investimento em inovação sem precedentes – só em 2021, investiu-se em venture capital quase o mesmo volume de todos os anos anteriores somados – e têm-se a fórmula perfeita para provocar a ebulição de novos negócios digitais.

Era de se esperar, portanto, que a quantidade de postos de trabalho relacionados à tecnologia tenha acelerado de forma vertiginosa desde 2017, aumentando dez vezesmais do que a média de outros postos no mesmo período.

Mesmo com um cenário atual mais cauteloso – redução de PIB, aumento da Selic, diminuição do fluxo de capital -, o ritmo de crescimento das vagas em tecnologia não deve diminuir. Digitalização virou uma questão de sobrevivência para novas empresas e incumbentes. No ano passado, o Facebook anunciou um plano de contratação de mais de dez mil talentos digitais para a construção do seu metaverso; a Amazon deve contratar mais 55 mil funcionários globalmente, muitos desces no Brasil. Esta demanda só aumenta.

ACELERAÇÃO

A população também segue se digitalizando em ritmo acelerado. Até 2026, espera-se que 185 milhões de brasileiros estejam conectados nas mídias sociais; o e-commerce deve crescer 55%; e mais de metade da população deve estar usando um banco digital.

Do lado da oferta: para cada novo profissional formado em áreas relacionadas à tecnologia, o País forma mais de 11 alunos de direito ou administração. Este desequilíbrio entre áreas de negócio e tecnologia é comum no mundo todo, mas no Brasil ele é substancialmente maior. Nos EUA e na Alemanha, por exemplo, essa proporção é de 1 para 5. Se continuarmos neste ritmo de crescimento e de formação de talentos, teremos uma lacuna de 1 milhão de vagas de tecnologia não preenchidas até 2030. Globalmente, estima-se que até 3 milhões de vagas de cibersegurança não consigam ser preenchidas pelo simples fato desses talentos ainda não existirem.

Os profissionais mais em falta são: DevOps, infraestrutura de TI, automação e IA, designers de UX, cyber, cientistas e engenheiros de dados e desenvolvedores. Os poucos disponíveis são altamente disputados. Para acirrar mais a batalha por atração e retenção, o mundo de trabalho remoto globalizou a alocação de vagas, com empresas de fora entrando na briga para contratar os escassos talentos locais.

DESAFIO

Líderes de empresas estão sentindo deste desafio. Segundo pesquisa que tivemos com 1,5 mil executivos em cargos de gestão, 87% disseram que sua empresa não está preparada para lidar com a lacuna de talentos digitais. Dos profissionais de RH, 61% consideram que contratar e reter desenvolvedores será o maior desafio do próximo ano.

Para entender os critérios de decisão deste grupo disputado, fizemos uma pesquisa com estudantes e profissionais de mercado, e o que encontramos foi o seguinte:

A remuneração permanece em primeiro lugar na ordem de importância: se antes da pandemia o salário de um desenvolvedor já tinha crescido, agora a opção de trabalho remoto fez esse valor disparar ainda mais. Mas, além de pagar um salário competitivo, é importante acrescentar incentivos de longo prazo – bônus e stock options, ou opções de ações, distribuídas de acordo com critérios de desempenho, uma demonstração clara de que o colaborador faz parte do crescimento do negócio. Hoje as stock aptions se tornaram quase tão generalizadas quanto o bônus de fim de ano e integram o pacote de benefícios de grande parte das equipes.

Em segundo lugar, o que profissionais de tecnologia mais prezam é a possibilidade de trabalharem de onde quiserem. Cargos de tecnologia passaram a ser ocupados de maneira 100 % remota durante a pandemia e, diferente de outros cargos que aos poucos voltaram para o físico ou modelo híbrido, eles seguem em casa. Alguns profissionais começaram, inclusive, a trabalhar turnos dobrados, atendendo a clientes globais em fusos horários distintos. Vale lembrar que, embora a maioria das empresas temesse que o trabalho remoto acarretasse uma perda de controle, a experiência da pandemia mostrou que, para grande parte das funções, a produtividade aumentou.

O terceiro aspecto é a experiência do desenvolvedor: além de poderem trabalhar de casa, profissionais de tecnologia – e principalmente desenvolvedores – exigem também modernidade da ferramenta de trabalho. Empresas tradicionais, com códigos antigos e sistemas de alta complexidade têm dificuldade em reter esses profissionais. Como referência, vale a comparação do tempo médio para gerar o primeiro código: em uma startup nativa digital, desenvolvedores colocam o primeiro código na rua nos primeiros 45 minutos do seu primeiro dia de trabalho. Em empresas tradicionais, esse tempo pode demorar até 45 dias.

Em quarto lugar está a oportunidade de desenvolvimento: a velocidade da transformação tecnológica é inexorável; quem não se mantém atualizado perde o bonde. Para profissionais desta área, é crucial oferecer um plano de desenvolvimento claro e constante.

É importante frisar que o abismo entre oferta e demanda é tão grande, que além de gabaritar os quatro pontos acima, é preciso pensar em planos adicionais. Em uma pesquisa que fizemos com CIOs (chefes de tecnologia) globais, 82% mencionaram que, além de investir em contratação, estão focando na formação dos funcionários.

E a batalha por talentos digitais está só no começo. Tão importante quanto vencer na proposta de valor para o cliente é vencer na proposta de valor para o colaborador.

MARINA MANSUR e PAULA CASTILHO, sócias da McKinsey & Company em São Paulo

EU ACHO …

AMOR E PERSEGUIÇÃO

“As pessoas ficam procurando o amor como solução para todos os seus problemas quando, na realidade, o amor é a recompensa por você ter resolvido os seus problemas.” Norman Mailer. Copiem. Decorem. Aprendam.

Temos a mania de achar que amor é algo que se busca. Buscamos o amor nos bares, buscamos o amor na internet, buscamos o amor na parada de ônibus. Como num jogo de esconde-esconde, procuramos pelo amor que está oculto dentro das boates, nas salas de aula, nas plateias dos teatros. Ele certamente está por ali, você quase pode sentir o seu cheiro, precisa apenas descobri-lo e agarrá-lo o mais rápido possível, pois, conforme se diz por aí, só o amor constrói, só o amor salva, só o amor traz felicidade.

“As pessoas ficam procurando o amor como solução para todos os seus problemas quando, na realidade, o amor é a recompensa por você ter resolvido os seus problemas.” Norman Mailer. Entendam. Aceitem. Pratiquem.

Amor não é medicamento. Se você está deprimido, histérico ou ansioso demais, o amor não se aproximará, e, caso o faça, vai frustrar sua expectativa, porque o amor quer ser recebido com saúde e leveza, ele não suporta a ideia de ser ingerido de quatro em quatro horas, como um antibiótico para combater as bactérias da solidão e da falta de autoestima. Você já ouviu muitas vezes alguém dizer: “Quando eu menos esperava, quando eu havia desistido de procurar, o amor apareceu”. Claro, o amor não é bobo, quer ser bem tratado, por isso escolhe as pessoas que, antes de tudo, tratam bem de si mesmas.

“As pessoas ficam procurando o amor como solução para todos os seus problemas quando, na realidade, o amor é a recompensa por você ter resolvido os seus problemas.” Norman Mailer. Divulguem. Repitam. Convençam-se.

O amor, ao contrário do que se pensa, não tem que vir antes de tudo: antes de estabilizar a carreira profissional, antes de viajar pelo mundo, de curtir a vida. Ele não é uma garantia de que, a partir do seu surgimento, tudo o mais dará certo. Queremos o amor como pré- requisito para o sucesso nos outros setores, quando, na verdade, o amor espera primeiro você ser feliz para só então surgir diante de você sem máscara e sem fantasia. É esta a condição. É pegar ou largar.

Para quem acha que isso é chantagem, arrisco sair em defesa do amor: ser feliz é uma exigência razoável e não é tarefa tão complicada. Felizes são aqueles que aprendem a administrar seus conflitos, que aceitam suas oscilações de humor, que dão o melhor de si e não se autoflagelam por causa dos erros que cometem. Felicidade é serenidade. Não tem nada a ver com piscinas, carros e muito menos com príncipes encantados. O amor é o prêmio para quem relaxa.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

COMO DOMINAR AS FLEXÕES EM CASA OU NA ACADEMIA

Conheça as dicas para quem ainda está começando e os truques para deixar o exercício mais desafiador e eficaz

Simples, extenuantes, possíveis de fazer praticamente em qualquer lugar, as flexões são um exercício conhecido universalmente e um dos pilares dos regimes de treinamento militar, esportivo e de condicionamento físico.

Por exigir a noção da posição do corpo da cabeça aos pés, o exercício ajuda a desenvolver algo chamado de consciência cinestésica – a compreensão de como o corpo se move pelo espaço. O que pode ajudar os praticantes a desenvolver um senso da capacidade de seu corpo prepará-los para “movimentos maiores e mais complexos como agachamentos.

As flexões aprimoram peito, ombros e braços – principalmente os músculos deltoide, tríceps e peitorais – mas são realmente um movimento que beneficia o corpo inteiro.

Pensamos nelas com um exercício para a parte superior do corpo, mas está trabalhando os músculos do core e desenvolvendo a coordenação também”, diz James Whitener III, treinador da Universidade Bethune-Cookman, na Flórida. Manter seu corpo em uma posição de prancha rígida enquanto executa uma flexão ativa o core (constituído por músculos do abdômen, da lombar, da pelve e do quadril) e pode até exigir algum trabalho de suas pernas.

“Elas são muito versáteis, porque visam muitas coisas ao mesmo tempo”, explica Tessia De Mattos, fisioterapeuta e treinadora de reabilitação de força, condicionamento e desempenho do The Strength Athlete.

Mas para tirar o máximo proveito das flexões é preciso ter uma boa técnica.

Para começar, fique em uma posição clássica de prancha com as palmas das mãos no chão, os braços ligeiramente mais largos do que o comprimento dos ombros e as mãos alinhadas com os ombros. A fisioterapeuta diz que dominar as pranchas regulares é importante, porque “se você não conseguir fazer uma prancha de forma adequada, terá dificuldade em realizar uma flexão completa”.

Para garantir que você está fazendo o exercício de forma correta, tente se filmar com um smartphone. Segundo Mattos, dois erros comuns são: deixar a barriga cair ou arquear a região lombar em vez de mantê-la alinhada com o resto do corpo.

Quantas repetições você deve fazer depende de sua capacidade atual e de seus objetivos. Para uma pessoa que está apenas procurando ficar mais saudável, em forma e mais forte, a melhor abordagem é apontar para a falha momentânea – o ponto de fadiga em que você não consegue completar outra repetição facilmente – em vez de um número especifico de repetições, afirmou Patroklos Androulakis-Korakakis, pesquisador da Solent University, na Inglaterra.

“Ao atingir a falha momentânea, ou pelo menos chegar muito perto dela, as pessoas podem garantir que estão recebendo estímulo suficiente para adaptações de força e hipertrofia muscular”, disse o treinador.

PARA COMEÇAR

Se você não puder fazer mais do que algumas poucas repetições antes de chegar a esse ponto, tente opções mais fáceis. Conforme você progride, pode voltar para as flexões padrão e depois passar para variações mais difíceis para aumentar a dificuldade à medida que fica mais forte, aconselha Androulakis-Korakakis.

“Não há motivo para se envergonhar ou desistir se você não consegue fazer uma flexão. O condicionamento físico é uma jornada e todos nós começamos em algum lugar”, diz Hampton III, personal trainer e influenciador de fitness americanos.

Se você está apenas começando, o influenciador sugere tentar flexões de parede. Fique de frente para uma parede com o braço estendido e coloque as mãos na largura dos ombros contra ela. Incline-se até que seu rosto quase toque a parede, depois empurre de volta para a sua posição inicial. Faça o máximo de repetições que puder e, quando sentir que ficou fácil, você poderá progredir para uma flexão de joelhos.

Nesse caso, você inicia o movimento do exercício de uma posição ajoelhada, o que reduz a quantidade de carga colocada sobre os braços, ombros e peito.

AVANÇOS

Androulakis-Korakakis explica que a medida que você se torna mais eficiente nas flexões, precisará fazer mais partes chegar ao ponto de falha momentânea.

Para elevar a dificuldade, você pode fazer a flexão de perna levantada, ou seja, fazendo o exercício com os pés elevados acima do chão. Comece com alguns livros embaixo dos pés até chegar a um banquinho e depois subir até uma cadeira ou até mesmo um corrimão.

Uma variação ainda mais difícil é a estreita (ou diamante). Nela você mantém as mãos juntas com os polegares e os indicadores se tocando de uma maneira que cria um buraco em forma de diamante. Você pode chegar até lá simplesmente aproximando um pouco as mãos até finalmente se tocarem.

Quando consegue fazer séries de dez flexões com facilidade, pode colocar uma pequena placa de peso nas costas para aumentar a carga que está empurrando. Em casa, o truque é colocar livros em uma mochila.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FOBIAS

A fobia é um medo irracional e incontrolável que se tem diante de determinadas situações, atividades, objetos e animais. Embora o indivíduo compreenda e saiba que o objeto da fobia não justifica tanto medo, não consegue evitar o que sente.

O medo e um sentimento comum ao ser humano e a todas as espécies de animais. Ele serve de proteção contra situações de perigo inusitado. Pode se dizer que e perfeitamente normal ter medo de algo que pode nos causar danos, pois possuímos naturalmente um mecanismo de preservação que nos alerta para fugir ou enfrentar situações que nos cocam em risco. Assim, diante de situações ou que consideramos perigosas, desconhecidas ou que nos coloca em risco, temos um “medo preservador! Que aciona o mecanismo de ansiedade que prepara e impulsiona o nosso organismo para uma ação determinada. Entretanto, algumas pessoas sentem um medo intenso e praticamente irracional de determinadas situações, atividades, objetos e animais que, embora não apresentem qualquer tipo de perigo, são evitados a todo custo.

Este tipo de reação é conhecido como fobia, um tipo de transtorno de ansiedade. O termo é de origem grega, phobos, e significa “medo” ou “medo mórbido”. As estatísticas indicam que aproximadamente uma em cada 23 pessoas sofre de algum tipo de fobia. Grande parte surge durante a infância ou adolescência e persiste na fase adulta, se não for tratada de forma adequada.

Segundo G.J. Ballone, em Medos Fobias e outros bichos (www.psiqweb.med.br), nos últimos tempos “aventou-se a possibilidade de os fóbicos, de maneira geral, apresentarem alguns traços de personalidade em comum. Normalmente, são pessoas que tiveram uma educação rígida, estimuladora da ordem, da consequência e do compromisso. Costumam ser pessoas excessivamente preocupadas com o julgamento alheio, com a opinião dos outros a seu respeito, são perfeccionistas e determinadas. Com essas características, os portadores de fobia costumam ter alto senso de responsabilidade, bom desempenho profissional e avidez pelos desafios da vida social. Mas a origem da fobia ainda é misteriosa, concorrendo para tal, desde a herança genética dos traços ansiosos da personalidade, até a aprendizagem das reações diante do perigo, passando pelas alterações dos neurotransmissores”.

TIPOS DE FOBIA

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, quarta edição (DSM- IV) a fobia é um subtipo de transtorno de ansiedade, classificada em três tipos: fobia social, fobia simples ou específica e agorafobia.

FOBIA SOCIAL

A principal característica da fobia social é um medo irracional e persistente da convivência social, pois a pessoa acredita que estará sendo observada pelos outros, de uma forma crítica. Neste sentido, ela se sente ansiosa com o seu próprio desempenho. pois se julga incapaz de realizar tarefas simples como a de comer em público sem sofrer represálias ou gozação dos outros.

Segundo Ballone, “a Fobia Social é o medo patológico de comer, beber, escrever, telefonar, enfim, de agir diante dos outros com risco de parecer ridículo ou inadequado. Em casos extremos, pode resultar em total isolamento. A principal característica dos fóbicos sociais é a ansiedade antecipatória, mal-estar que aparece só de pensar na necessidade de falar numa reunião marcada para daqui a três semanas, de receber uma visita, de ter que ir a um casamento ou coisa assim”.

Embora a pessoa reconheça que seus medos não têm fundamento, passa a evitar situações sociais que possam leva-Ia a se sentir embaraçada ou constrangida. Este tipo de fobia leva o indivíduo ao isolamento. As causas prováveis são insegurança pessoal, baixa autoestima, autocrítica exagerada, históricos de críticas quanto ao seu valor e capacidade.

FOBIA SIMPLES OU ESPECÍFICA

Este tipo de fobia é muito comum na população em geral e consiste em um medo irracional e persistente de um determinado objeto, animal ou situação. Nela há o desejo compulsivo de se evitar o objeto do medo como, por exemplo, animais (cão, aranha, cobra, barata, etc.), água, fogo, dentista, andar de avião, tempestade, sangue, ferimento, etc. A pessoa pode ter medo de ficar em espaços fechados (claustrofobia) ou de altura (acrofobia).

Embora ela reconheça que o seu medo é excessivo, não consegue vencê-lo. Nem sempre é possível detectar a causa deste tipo de medo, mas geralmente está associado a experiências pessoais, como por exemplo, ter sido mordido por um cão, na infância; ter ficado trancado em um armário durante uma brincadeira de esconde-esconde ou preso em um elevador, devido a um problema técnico do mesmo .

AGORAFOBIA

Neste caso, a pessoa tem um medo generalizado de sair de casa ou ultrapassar o limite de um espaço que considera seguro. Basicamente representa o medo de estar em espaços abertos ou no meio de uma multidão. Assim, ela evita lugares públicos, pois tem medo de não encontrar uma saída segura em caso de mal-estar súbito. Este tipo de fobia prejudica suas atividades cotidianas. A pessoa não consegue frequentar locais com muito movimento, como ruas, lojas, transportes públicos, elevadores. Alguns portadores insistem em ter ao seu lado uma pessoa amiga ou familiar sempre que é obrigado a sair de casa. Este tipo de fobia geralmente tem início com ataques de pânico, em que a pessoa acaba tendo “medo de ter medo”. Na verdade, o seu medo não tem como foco as outras pessoas, mas sim sua insegurança em lidar com este mal-estar. Os portadores desta fobia geralmente têm depressão e ansiedade.

TRATAMENTO

O grau e intensidade da fobia variam entre as pessoas, assim como a forma de lidar com o problema. Alguns podem evitar falar sobre o seu medo e convivem com a fobia, sentindo uma ansiedade amena. Outras pessoas podem sofrer ataques intensos que impedem qualquer reação. Entretanto, é importante observar que, independentemente da forma como a pessoa reage à fobia, grande parte tem consciência de que o seu medo é irracional, ilógico e inexplicável. Muitos também reconhecem sua impotência em lidar com este tipo de medo.

A psicóloga Lourdes Possatto, em sua obra Medos, Fobias e Pânico (Lúmen), diferencia “medos como processos mais simples e menos sofridos, e fobias como processos mais dolorosos que na maioria das vezes necessitam de acompanhamento medicamentoso, pois são quadros mais complicados de se lidar, por prejudicarem, e muito, a qualidade de vida de uma pessoa. De modo geral, as fobias são vistas como deslocamento inconsciente de materiais recalcados e sempre incluem grandes níveis de ansiedade”.

Para a estudiosa, a fobia normalmente está presente em pessoas que apresentam um quadro de ansiedade e que são autocríticas, auto exigentes e inseguras. Neste contexto, Possatto considera que ao iniciar -se o tratamento, a prática de técnicas de relaxamento pode ser útil, pois por meio dela a pessoa aprende a se acalmar e a acreditar no autocontrole que vem do seu interior. “À medida que alguém aprende que pode se acalmar, a fobia já diminui. É preciso perceber que, da mesma forma que a fobia apareceu, ela também pode desaparecer. Por isso, sempre é sugerido o acompanhamento psicoterápico, para que a pessoa possa se perceber melhor, entender as raízes de seus medos e ansiedade, para poder exercer domínio sobre seus pensamentos catastróficos, a fim de controlar a ansiedade e finalmente caminhar para a cura de seu quadro fóbico”.

O tratamento das fobias geralmente é realizado por meio de medicamentos e psicoterapia. Os remédios mais comuns são os antidepressivos, mas os ansiolíticos também são indicados. A psicoterapia ajuda a pessoa a compreender as possíveis causas da fobia e os fatores que podem agravar os sintomas. Em alguns casos, também se faz uso da hipnoterapia.

OUTROS OLHARES

NA PANDEMIA, PROCESSOS DE ALIENAÇÃO PARENTAL DISPARAM, E LEI É ALTERADA

Polêmica, lei se refere à interferência na formação psicológica do filho por um dos pais

Ao longo da pandemia da Covid-19, os processos de alienação parental dispararam no Brasil. Foram 10.950 ações em 2020 em todo o país, de acordo com levantamento feito pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) – um crescimento de 171% na comparação com 2019.

No estado de São Paulo, dados fornecidos pelo Tribunal de Justiça (TJSP) mostram uma evolução de casos desde março de 2020, início da crise sanitária. São 154 processos em 2020, contra 471 ações no ano passado.

A lei, que está em vigor desde 2010, caracteriza como alienação parental quando o pai ou a mãe toma atitudes para colocar o filho contra o outo genitor. Entre os exemplos estão impedir o acesso e a convivência do filho, dificultar o acompanhamento das informações escolares e de saúde da criança e registrar uma falsa denúncia contra um dos responsáveis. Especialistas condicionam a multiplicação de processos à pandemia, que intensificou problemas de convivência e financeiros, além de casos de violência doméstica.

A juíza Vanessa Aufiero da Rocha, da 2ª Vara da Família de São Vicente, afirma que “durante a pandemia muitos guardiões inviabilizaram a convivência física dos filhos com o outro genitor sob o forte argumento de desejarem proteger a saúde e a vida deles.”

“Nesses casos, quando havia prova de alguma fragilidade do estado de saúde do filho, determinava-se a substituição temporária da convivência física pela convivência por vídeo chamada a fim de se manter o vínculo”, completa.

Para a advogada Flávia Panella Monteiro Martins, a escalada dos pedidos de divórcios e dos casos de violência doméstica também refletem nos processos de alienação parental.

“A convivência ficou ainda mais restrita ao lar e esses dados não são mera coincidência”, diz Flávia, associada da Escola Brasileira de Direitos das Mulheres.

“Setenta por cento dos pedidos de divórcio são feitos por mulheres, ao passo que alienação parental é mais usado por homens”, completou.

Sílvia Felipe Marzagão, advogada e presidente da comissão de Família e Sucessões da OAB-SP, diz que no início da pandemia muitas decisões judiciais suspenderam a convivência com o outro genitor.

Apesar de uma considerável queda de ações já em 2021, (5.965 casos ante 10.950 em 2020), o levantamento do CNJ aponta que a taxa se mantém em alta desde 2014, quando foram registradas 401 ações.

No mês passado, o Senado aprovou mudanças em um projeto que modifica as regras de alienação parental. Um dos pontos mantidos pela nova lei estabelece que em casos nos quais o pai ou a mãe sejam investigados ou processados por violência doméstica, caberá ao juiz decidir se o suspeito de agressão poderá ter a guarda compartilhada ou não.

Para isso, ele deverá avaliar o que é melhor para a criança ou o adolescente. Uma possível condenação por violência doméstica, por exemplo, pode ser levada em conta pelo magistrado na hora de decidir, mas não há uma obrigação legal para que isso aconteça.

“Com as exclusões, a redação final proposta pelo senado trouxe mudanças pontuais e os problemas permanecem”, diz a promotora Valéria Scarance, do Núcleo de Gênero do Ministério Público de São Paulo.

Para Flávia, essa medida prioriza a palavra do acusado e coloca a vida dos filhos em risco. “Mantiveram o que continuará sendo usado na defesa de homens agressores e abusadores”, afirma a advogada.

“A alienação parental entrou no ordenamento jurídico sem muitos debates públicos, patrocinada por uma associação de pais (homens) separados, cabe apenas a sua revogação mesmo porque a proteção das crianças e dos adolescentes estão no ECA”, conclui Flávia.

A juíza Vanessa, porém, diz que há pontos positivos no texto aprovado pelo Congresso. “A conjugalidade não pode ser confundida com a parentalidade. O fato de uma pessoa ter um relacionamento de casal conturbado não significa necessariamente que não possa ser um bom pai ou uma boa mãe.”

A proposta, que foi sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) em 18 de maio, também assegura à criança e ao genitor a visitação assistida no fórum. Além disso, estabelece caso o magistrado precisa conceder alguma liminar, antes o filho deverá ser entrevistado por uma equipe multidisciplinar, ou por um perito, que poderão ajudar na decisão.

“É importante dar voz às crianças e aos adolescentes [entrevista antes da liminar], isso está alinhado com a comunidade internacional”, afirma a juíza.

Entidades que concordam com a lei afirmam que ela cumpre uma função pedagógica. Já os críticos alegam que ela se baseia em conceitos controversos e que estigmatiza mulheres. Isso porque a regra costuma ser mais usada por homens que respondem a processos de violência sexual, violência doméstica e falta de pagamento de pensão alimentícia.

Um relatório do próprio CNJ já apontou esse uso da lei da alienação parental como estratégia de defesa.

Foi isso que aconteceu com o ex-marido de Daniela (nome fictício para preservar a identidade da filha), condenado em segunda instância a 14 anos de prisão por estuprar a filha do casal, então com 2 anos de idade. O homem mantém uma página em que defende a lei nas redes sociais e reúne mais de 15 mil seguidores.

Enquanto a ação pelo estupro corre na Justiça, ele obteve autorização para manter contato com a filha. Daniela conta que a menina se recusava a sair com o pai, alegando medo.

Agora, mesmo com ele condenado depois de quase quatro anos, o casal ainda deve se enfrentar na Justiça, em um processo de guarda compartilhada – e ele acusa a mulher de alienação parental. A promotora Valéria Scarance relembra que casos como o de Daniela não são raros. “Já vi casos em que vítimas de crimes graves eram tachadas de alienadoras porque recusaram tentar uma aproximação com os agressores pais de seus filhos, como se fossem responsáveis pela rejeição da criança em relação ao pai”.

Já Rodrigo da Cunha Pereira, presidente nacional do lbdfam, argumenta que o mau uso da lei por alguns não deveria ser o motivo para discutir a sua possível revogação. “São casos particulares. Assim como acontece com a lei de alienação parental, a Maria da Penha também pode ter o mau uso e nem por isso deve ser revogada”, afirma Cunha Pereira.

O dirigente considera ainda que se trata de um processo difícil de se comprovar, mas que, independentemente do resultado, é comum que o processo tenha um efeito pedagógico.

Silvia Felipe Marzagão, da OAB, também concorda que, apesar de se tratar de uma lei que acumula milhares de processos, é incomum a determinação judicial.

Há 21 anos atuando no direito, ela diz que só viu dois processos que condenaram, de fato, um dos genitores como alienadores.

Integrante do Conselho Federal de Psicologia, Marina Poniwas diz que o ideal seria o investimento em políticas públicas e estratégias voltadas para resoluções de conflitos.

“A lei não protege crianças e privilegia repressão e a punição como forma de resolução de conflitos e esse não é o caminho”, diz ela.

GESTÃO E CARREIRA

AMBIENTE ‘FELIZ’ NAS EMPRESAS É QUESTIONADO

Perseguir alegria no trabalho pode ser forma de desviar a atenção de demandas mais concretas, como reajustes de salário

Garry Ridge, que lidera a empresa de produtos químicos WD- 40, tem um estilo de liderança inspirado em duas fontes: Aristóteles e Larry Fink, CEO da BlackRock. “O prazer no trabalho aperfeiçoa a obra”, diz Ridge, citando o filósofo grego. Então ele pega um mentor um memorando recente da BlackRock. “As empresas que criaram laços fortes com seus funcionários tiveram níveis mais baixos de rotatividade e retornos mais altos na pandemia”, lê, em voz alta. E adiciona seu comentário: “Dãaa!”.

Ridge gosta de lembrar aos quase 600 funcionários da WD- 40 – produto conhecido por eliminar o ranger das portas – da utilidade do trabalho deles.

Antes da pandemia, muitos desconfiavam das organizações que diziam se preocupar em manter a felicidade de seus trabalhadores. Para algumas pessoas, essa busca no trabalho – e o preço associado a ela, como um programa de US$18 mil para gestores aprenderem com o liderar equipes felizes – pode ser vista como uma alquimia corporativa que tenta transformar sentimentos em produtividade. Mas pode parecer uma pressão para sorrir e deixar de lado as demandas menos convenientes para os chefes, como trabalho remoto ou salários mais altos.

Essas críticas ganharam uma nova urgência conforme os trabalhadores e empregadores entram em conflito quanto aos planos de retorno ao escritório. Alguns profissionais dizem que preferem flexibilidade ou aumentos ajustados à inflação a incentivos corporativos, como um show de Lizzo – para os funcionários do Google.

RETORNO

Nos últimos anos, economistas comportamentais e psicólogos têm mostrado aos empregadores que existe uma justificativa para a fixação deles na positividade. Um estudo do Journal of Labor Economics descobriu que as pessoas que recebiam chocolates e assistiam a comédias – geradores conhecidos de felicidade – eram 12 % mais produtivas. Outro estudo, do Journal of Financial Economics, mostrou que as empresas na lista dos 100 melhores locais de trabalho têm maiores retornos para os acionistas do que suas concorrentes.

A ideia de que as empresas devem se preocupar com a felicidade surgiu com o aumento dos empregos sem trabalho braçal. Mas muitos veem um risco para os trabalhadores que acreditam nisso. “Seu chefe não está ali para lhe proporcionar felicidade”, disse Sarah Jaffe, autora de Work Won’t Love You Back (Seu amor pelo trabalho não éreciproco, em tradução livre). “Não importa o quanto eles digam que estão focando na felicidade, eles estão focando nos lucros.”

Enquanto milhões de trabalhadores fazem exigências ousadas a seus empregadores, principalmente em relação à flexibilidade permanente, alguns dizem que o foco na felicidade é uma distração. Afinal, os prêmios “Madre Teresa” não melhoram as condições de trabalho.

“Não acho que coisas como meditação ou qualquer outra que os empregadores estejam adotando para aumentar o bem-estar sejam iniciativas ruins”, disse Heidi Shierholz, do Instituto de Política Econômica. ”Mas elas não substituem salários decentes, benefícios dignos e cronogramas razoáveis.

EU ACHO …

ACORDO DE UNIÃO INSTÁVEL

Eu me comprometo a estar ao seu lado enquanto for agradável, divertido, estimulante, e também nos momentos em que for chato (mas não insuportável), nos momentos desanimados (mas não sem vida), nos momentos que exigirem paciência (mas não sacrifício). Quando chegarmos ao insuportável e sacrificante, eu vou embora, ou vai você – sai primeiro aquele que estiver mais perto da porta.

Eu me comprometo a estar com você sempre que der vontade, e não estar com você sempre que der vontade de estar com amigos com quem tenho gargalhadas privadas a trocar, ou quando eu precisar ficar sozinha, pois estar consigo mesma também é uma relação a ser preservada, e em troca, é óbvio: você terá todo o tempo do mundo para o seu mundo.

Eu me comprometo a amar você porque você é gentil, surpreendente, diferente, carinhoso, lindo, sem noção, pontual e tem olhos verdes, e espero que você repare que sou livre, intuitiva, durona, generosa, divertida, pontual e tenho olhos castanhos, e que nada disso garante coisa nenhuma, apenas intensifica o frio na barriga. Entrar no universo do outro é sempre uma viagem excitante.

Eu me comprometo a ter água gelada e bananas, você prometa ter vinho branco e morangos. Eu juro que vou desligar a tevê quando você chegar, você promete acender a lareira quando eu aparecer, eu vou esticar os lençóis antes de a gente deitar, você vai amarfanhar meus lençóis antes de ir embora, e isso tudo vai ser simplesmente bom.

Eu me comprometo a dizer a verdade sobre coisas que você não quer saber, mas vai perguntar: a vida amorosa antes de você aparecer, o que fiz e desfiz, a normalidade da minha adolescência (compensada por algumas bizarrices da maturidade), tudo isso entrará no espólio da nossa relação,  e eu, a contragosto, escutarei sobre todas as embrulhadas com sua ex, os sofrimentos causados por aquela que se mandou e acreditarei que sou a salvação da sua lavoura, até que a próxima me desbanque. Você sabe que paixão rima com ilusão, então me iluda e eu te iludo, até que tudo se transforme na verdade mais absoluta.

Não sei se irei gostar tanto assim dos seus primos, que você considera tão hilários, e eu não sei se você gostará tanto assim das minhas amigas, que eu considero tão extraordinárias, mas vamos confiar na nossa capacidade de fingir com toda honestidade.

E agora a razão primordial deste contrato. Se eu sumir, você fica com nossas lembranças, nossas selfies e nossas escovas de dente: proibido compartilhar. Se você desaparecer, eu fico com nossos panos sobre os sofás, nossos cachorros e nossas histórias: que, por dever de ofício, talvez eu compartilhe, mas com discrição.

E que toda essa deliciosa loucura dure para sempre até o sol raiar.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

POR QUE A VIDA SEXUAL DAS MULHERES DIMINUI APÓS A MENOPAUSA?

Estudo mostra que mudanças hormonais são apenas parte do motivo: o papel do parceiro também é muito relevante

Para muitas mulheres, o sexo após a menopausa não é tão satisfatório quanto costumava ser. Mas será que o fim dos ciclos menstruais é o culpado? Novas pesquisas sugerem que as mudanças hormonais que acompanham a menopausa são apenas parte do motivo pelo qual a vida sexual de uma mulher diminui com a idade.

 É verdade que muitas pessoas apresentam secura vaginal, dor em relações sexuais e perda do desejo – sintomas que podem afetar a frequência e o prazer do sexo. Mas o novo estudo mostra que as razões pelas quais muitas mulheres param de querer fazer sexo são muito mais complexas.

Embora a culpa da queda na frequência seja imposta as mulheres, o estudo mostra que, muitas vezes, é a saúde do parceiro que determina se ela permanece sexualmente ativa e satisfeita. Vale ressaltar que as pesquisas são focadas em mulheres heterossexuais e, portanto, não se aplica a casais do mesmo sexo.

“Sabemos que a menopausa parece ter um efeito negativo na libido, gerando secura vaginal e dor sexual”, disse Stephanie Faubion, diretora do Centro de Saúde da Mulher da Clínica Mayo em Minnesota. “Mas o que tem se tornado evidente é que o parceiro tem um papel proeminente e a saúde física dela também gera impactos.

O último estudo, publicado na revista médica Menopause, é baseado em pesquisas com mais de 24 mil mulheres que participaram de um rastreamento de câncer de ovário no Reino Unido. Com idades entre 50 e 74 anos, elas responderam a questionários de saúde sobre suas vidas sexuais. Mas o que faz esses dados serem únicos é o fato de que cerca de 4.500 mulheres também deixaram comentários por escrito, o que deu aos pesquisadores uma série de novos insights sobre a vida sexual feminina.

MOTIVOS VARIADOS

No geral, 78% das mulheres disseram ter um parceiro, mas menos da metade (49,2%) afirmou ter vida sexual ativa. As respostas sobre o porquê de terem parado de fazer sexo revelaram a dor e a tristeza por trás das estatísticas.

Algumas mulheres disseram que a vida era complicada demais para ter tempo para o sexo – o parceiro estava sempre cansado (8%) ou elas mesmas estavam cansadas demais” (9%).

• “Sinto que, no momento, meu papel na vida é criar meu filho de 12 anos. O relacionamento vem em segundo lugar.” (50 anos)

• “Preciso cuidar dos meus pais. A falta de energia e a preocupação com eles causam uma redução na atividade sexual” (53 anos)

• “Meu marido está muito ocupado com o trabalho, e eu estou ocupada com dois filhos. Ambos caem na cama no final do dia.” (50 anos)

• Problemas de saúde do parceiro foram outro tema comum. Cerca de uma em cada quatro mulheres (23%) disse que a falta de sexo era por causa de problemas físicos deles, e 11% das mulheres culpavam seus próprios problemas físicos:

• “Ele não mantém uma ereção forte o suficiente para penetração (após cirurgia de próstata e diabetes). Minha atividade sexual é limitada pela saúde do meu marido. (59 anos)

• “Meu marido teve um derrame que o deixou paralisado. As relações sexuais são muito difíceis. Permaneço com ele como cuidadora e companheira”. (52 anos)

Outras citaram problemas de saúde mental e dependência:

• “Ele bebe mais de uma garrafa de uísque por dia. Sexo é uma ou duas vezes por ano”. (56 anos)

• “Meu marido sofre de ansiedade e depressão e isso afeta nosso relacionamento” (53 anos)

• “Tomo um antidepressivo que diminui o desejo,” (59 anos)

Cerca de 30% das mulheres disseram que suas vidas sexuais foram interrompidas por falta de interesse:

• “Perdi todo o interesse e me sinto culpada.”(53 anos)

• “Vários sintomas da menopausa afetaram meu desejo por sexo, o que acho decepcionante porque gostaria de ter o mesmo desejo que tive nos últimos anos” (58 anos)

E 21% das mulheres disseram que seus parceiros perderam o interesse pelo sexo.

• “Só faço sexo duas vezes por ano. Meu parceiro perdeu a libido e nunca pensa nisso, embora me ame e se preocupe com isso”. (60 anos)

Por um lado um dos modos mais citados foi a perda de um parceiro por morte ou divórcio (37%). Entre os relatos, o de uma senhora de 72 anos:

• “Sou viúva há 17 anos. Meu marido foi meu amor de infância, não terei mais ninguém”.

Enquanto a maioria dos comentários escritos eram sobre problemas, algumas mulheres deixaram mensagens mais esperançosas.

• “Como tenho um novo parceiro há um ano, acho que minha vida sexual nunca foi melhor e certamente muito frequente. É a razão da minha felicidade, contentamento e bem-estar.” (59 anos)

 •” O sexo acontece com menos frequência do que quando mais jovem. Nos dois nos cansamos, mas quando fazemos é bom.” (64 anos)

MELHOR ATENDIMENTO

Os dados e comentários foram analisados por Helena Harder, pesquisadora da Brighton and Sussex Medical School, e colegas. Ela disse que os depoimentos mostram que os médicos precisam ter conversas mais frequentes com as mulheres sobre sexo.

“As mulheres dizem que lamentam que as coisas tenham mudado. Elas gostariam que fosse diferente”, diz Harder. “Mas, em geral, isso não está sendo discutido.

Stephanie Faubion observa que existem tratamentos disponíveis para ajudar mulheres que tem secura vaginal e sentem dores durante o sexo. Além disso, dois medicamentos para aumentar a libido feminina foram aprovados nos EUA.

Uma boa alternativa é educar mulheres e casais. Trabalhar com um terapeuta sexual pode ajudar as mulheres a lidar com problemas de ansiedade e baixo desejo. Um psicólogo ensina as mulheres que, embora o desejo sexual espontâneo possa diminuir, elas podem planejar o sexo, e o desejo geralmente retorna quando a atividade recomeça.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUANTIDADE CERTA DE ANSIEDADE PODE EVITAR SITUAÇÕES DE RISCO

Pode ser debilitante, mas em grau normal, se destina a nos manter seguros

Durante toda minha vida adulta, tentei evitar dirigir. Eu podia alegar todo tipo de motivações nobres: preocupação com o meio ambiente, desejo de economizar, os benefícios à saúde ganhos por caminhar ou andar de bicicleta. Mas minha motivação principal é que sou ansiosa.

E se eu fizesse alguma coisa estúpida e acidentalmente pisasse no acelerador em vez do freio? E se uma criancinha de repente saísse correndo no meio da rua? E se outro motorista estivesse distraído?

Em 2020 eu já conseguira passar oito anos sem pegar na direção, apesar de ter ganho minha carteira de habilitação quando ainda estava no colégio.

Então chegou a pandemia. Depois de um ano onde enclausurados em nosso bairro em Manhattan, minha pequena família de três pessoas ansiava por ver novas paisagens. Reservei um lugar para ficarmos na serra dos Adirondacks, a três horas de carro de Nova York. E, pela primeira vez na vida, me matriculei numa auto escola.

Naquele primeiro dia, cheguei me sentindo enjoada e com medo, tensa e com o cérebro em alerta máximo.

No entanto, o instrutor me garantiu que não iria morrer – não íamos dirigir em velocidade suficiente por isso, ele explicou – e depois me falou algo que ninguém jamais me havia dito: “O medo nunca te abandona”.

Você aprende a controlar o medo, ele explicou. Aprende a ter medo suficiente para ficar alerta e prestar atenção ao que está à sua volta, mas não o suficiente para ficar hesitante demais.

A noção de que eu não precisava eliminar minha ansiedade completamente me deixou mais à vontade. Especialistas dizem que ter alguma ansiedade, especialmente quando você enfrenta uma situação estressante, não é necessariamente ruim. Pode até ajudar você.

A ansiedade é uma emoção incômoda e que frequentemente é alimentada pela incerteza. Pode gerar preocupação e medo intenso, excessivo e persistente, não apenas em relação a eventos estressantes, mas também a situações cotidianas.

Geralmente também há sintomas físicos, como frequência cardíaca elevada, tensão muscular, respiração acelerada, transpiração e fadiga.

A ansiedade excessiva pode ser debilitante. Mas a ansiedade em grau normal se destina a nos conservar em segurança, dizem especialistas.

“A emoção da ansiedade e a resposta subjacente de estresse fisiológico evoluíram para nos proteger”, disse a neurocientista Wendy Suzuki, autora de “Good Anxiety” (Boa ansiedade, em inglês).

Em seu livro, Suzuki explica que controlar o estresse pode ser mais útil que eliminá-lo. Segundo a lei de Yerkes-Dodson, teoria que se originou no início do século 20 a partir de e experimentos com camundongos, níveis crescentes de excitação cognitiva, ou estresse, podem melhorar o desempenho – mas apenas até certo ponto.

Representada por uma curva no formato de montanha, a teoria mostra que depois de a curva chegar ao ápice níveis mais altos de estresse podem fazer o desempenho cair.

Quando a ansiedade é excessiva, disse Suzuki, ela tende a ser menos útil. O primeiro passo para controlar a ansiedade que prejudica você é reconhecer quando você está se sentindo ansioso demais e tentar se acalmar.

“A dica nº 1 que dou às pessoas é ativar o sistema nervoso parassimpático – os neurônios que podem baixar a frequência cardíaca e ajudar a pessoa a se sentir mais calma -, com a ajuda da respiração profunda”, ela disse. “Essa é uma ferramenta muito útil com a qual contar.”

A respiração profunda pode ser praticada a qualquer hora e em qualquer lugar, ela disse, quer você esteja parado numa fila, sentado numa sala de aula ou, como é o meu caso, dirigindo um carro.

Atividade física – mesmo algo tão simples quanto caminhar ao ar livre – pode elevar o nível de serotonina e dopamina do cérebro, disse Suzuki, e isso também ajuda a fazer a ansiedade cair para um nível mais controlável.

Um certo grau de ansiedade pode ajudar as pessoas a prever obstáculos, permanecer prudentes e ser organizadas, disse Ellen Hendriksen, psicóloga clínica em Boston e autora do livro “How to Be Yourself. Quiet Your lnner Critic and Rise Above Social Anxiety (Como ser você mesmo: silencie seu crítico interno e fique acima da ansiedade social, em português).

Mas, ela disse, se a ansiedade está deixando você incomodado com muita frequência, atrapalhando seu dia a dia e impedindo você de viver a vida que deseja, isso indica a necessidade de ajuda adicional, imediatamente de um profissional de saúde mental.

O psicólogo da Filadélfia Seth Gillihan, autor de “The CBT Deck for Anxiety, Rumination and Worry: disse que frequentemente se sentia ansioso antes de começar seu dia de trabalho. Na época, ele se preocupava em controlar sua ansiedade, não em investigar o que a estava causando. Finalmente se deu conta que o problema não estava na ansiedade propriamente dita.

“Eu vinha trabalhando havia muito tempo de uma maneira que não era sustentável”, disse Gillihan, cujos problemas de saúde às vezes se tornam impeditivos para cumprir um dia de trabalho completo.

Ele então reduziu seus horários de atendimento e começou a passar mais tempo escrevendo e gravando podcasts, duas das coisas que mais gostava de fazer.

Agora ele se sente grato por ter ouvido o que seu corpo estava tentando lhe comunicar, em lugar de tentar reprimir aquelas sensações.

“Multo do sofrimento que a ansiedade nos causa vem da resistência que opomos a ela”, ele explicou. “Costumamos dobrar o sofrimento quando ficamos ansiosos e também pensamos ‘preciso parar de ficar ansioso’. Passamos a combater em duas frentes”.

“Eu encaro a ansiedade como um alarme – como um detector de fumaça, por exemplo. Um bom alarme não passa o tempo todo silenciado”.

Se você se descobre superestimando, o risco de alguma coisa terrível acontecer, comece por reconhecer sua ansiedade e encará-la objetivamente. É a recomendação de Joel Minden, psicólogo clínico no Centro Chico de Terapia Comportamental Cognitiva, na Califórnia, e autor de “Show Your Anxiety Who’s (Mostre a sua ansiedade que é o chefe, em português).

Procure lembrar que essa é a reação emocional que ocorre quando você prevê que vão acontecer coisas ruins, ele disse. É uma irritação, um inconveniente – “quase como se meu cérebro nesse momento fosse uma criança tendo um ataque de raiva”:

Seja paciente e gentil consigo mesmo, ele recomendou, como seria com um amigo. Dê passos pequenos e controláveis para enfrentar seus medos. “Esta é uma oportunidade para aprender a aceitar e tolerar a ansiedade”, ele acrescentou.

Todd B. Kashdan, professor de psicologia e diretor do Laboratório de Bem-Estar da Universidade George Mason, em Fairfax, Virgínia, estava criando coragem para finalmente tentar praticar escalada ao ar livre no Arizona. Ele começou de maneira modesta, treinando na parede de escalada em sua academia.

Na primeira tentativa que ele fez ao ar livre, suas mãos transpiravam tanto que o giz ficava saindo. Um dos guias lhe apresentou uma escolha: você pode ficar no chão – sozinho, no meio do deserto ­ ou pode escalar, levando sua ansiedade junto.

“Meu coração estava explodindo” contou Kashdan, coautor de ‘The Upside of Your Dark Side (O lado bom de seu lado ruim, em português), livro que trata da utilidade da raiva, ansiedade e medo.

“Mas eu tinha uma tarefa muito clara a desempenhar e sabia que poderia dar conta dela com a ansiedade, porque aquele guia especializado me contou que ele mesmo já havia feito isso, que as pessoas fazem e que eu ia fazer”.

As pessoas ansiosas tendem a ser cuidadosas e, segundo Alice Boyes, autora de “The Anxiety Toolkit” (A caixa de ferramentas da ansiedade, em português), podem canalizar essas tendências para uma atitude mais consciente.

‘”Eu mesma sempre fui ansiosa”, ela disse. “Era o tipo de criança que se recusava a ir a um acampamento de férias ou a passar a noite na casa de outras pessoas. Vivia sentindo dor de barriga ou algo do tipo, antes de eventos esportivos na escola.”

Já adulta, ela continuou a preocupar-se com a possibilidade de as coisas darem errado, mas também começou a traçar planos para o caso de emergências. Isso ajudou a acalmar seus receios e reduzir a probabilidade de eventualidades muito graves.

Quando vai partir para algum lugar, por exemplo, Boyes olha no mapa antes para ver como chegar a seu destino e estuda as ruas em volta para evitar a possibilidade de se perder. O objetivo é traçar um plano que ajude você a reduzir seus receios e então seguir o plano.

No meu caso, preparar-me com antecedência foi o que acabou me dando a confiança necessária para dirigir até o interior do estado. Para isso foram necessárias oito aulas de direção, uma mensagem de texto de último minuto para meu instrutor e um carro alugado com recursos de segurança avançados.

Finalmente fizemos as malas e partimos. “Mamãe é a motorista!”, disse minha filha de quatro anos no banco de trás. ”Isso mesmo”, respondi começando a sentir um pouco de orgulho de mim mesma. “Sou a motorista.”

OUTROS OLHARES

NOS EUA, DROGAS COM FENTANIL FAZEM MORTES DE JOVENS DISPARAREM

Vendidos pelas redes sociais, remédios falsificados vêm contaminados com o opioide, de produção rápida e barata

Pouco tempo após Kade Webb, de 20 anos, desmaiar e morrer em um banheiro em Roseville, Califórnia, a polícia abriu o telefone dele e foi direto para os aplicativos de redes sociais. Lá, encontraram exatamente aquilo que temiam.

Webb, que era descontraído, andava desanimado com os problemas financeiros que surgiram na pandemia e comprou o opioide de uso controlado Percocet de traficantes pelas redes sociais. Os comprimidos possuíam uma quantidade letal de outro opioide, o fentanil, que é cem vezes mais forte que a morfina e vem sendo usado como droga.

A morte de Webb foi uma das quase 108 mil ocorrências por uso de drogas nos Estados Unidos em 2021, o que, segundo dados divulgados neste mês pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, foi considerado um recorde. As autoridades policiais dizem que uma parte alarmante dos casos fatais ocorreu da mesma mancha: comprimidos falsificados e contaminados com fentanil que adolescentes e jovens adultos compraram nas redes sociais.

Segundo a promotoria da Califórnia cerca de 90% das pílulas compradas de traficantes nas redes sociais agora são de fentanil.

Este fenômeno levou a novas estatísticas perturbadoras. Agora, as overdoses são a principal causa de morte evitável entre pessoas de 18 a 45 anos nos EUA, superando o suicídio, acidentes de trânsito e violência armada. Embora o uso de drogas por adolescentes esteja caindo no país desde 2010, as mortes por fentanil dispararam, saindo de 253 em 2019 para 884 em 2021, de acordo com um estudo recente publicado pela revista acadêmica JAMA.

As taxas de uso ilícito de comprimidos prescritos agora são mais altas entre pessoas de 18 a 25 anos. Os fornecedores de hoje adotaram interações modernas, com as mídias sociais e aplicativos de mensagem. As plataformas tornaram-se um canal rápido e fácil durante a pandemia, quando a demanda por medicamentos prescritos ilícitos aumentou tanto por clientes ansiosos e entediados quanto por aqueles que já lutavam contra o vício e tiveram seu apoio social afastado.

VICIANTE

Pressionados pelos cartéis mexicanos e com produtos químicos da China e da Índia, os suprimentos de comprimidos contaminados aumentaram significativamente. Fentanil, que é mais rápido e barato de produzir do que a heroína e é 50 vezes mais potente, foi feito para ser extremamente viciante. No ano passado, uma organização antidrogas apreendeu 20 milhões de comprimidos falsificados, o que os especialistas estimam representar apenas uma pequena fração do que é produzido.

Segundo os cientistas, cerca de quatro em cada dez comprimidos contêm doses letais da substância. O resultado é que uma grande quantidade de clientes estão rapidamente se tornando viciados, afirmou Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional de Abuso de Drogas.

“Quando você coloca fentanil em comprimidos que são vendidos como remédios para dor, você está alcançando um grupo de clientes que não teria se estivesse vendendo fentanil em pó, diz.

Por volta de 1h30 de 15 de agosto de 2020, Zachariah Plunk, de 17 anos, um jogador de futebol americano do ensino médio de Mesa, Arizona, entrou em contato com um ‘revendedor’ por meio do Snapchat, buscando um Percocet. Como as imagens da câmera de segurança da casa revelariam, o traficante deixou as drogas por volta das 3h. Zach saiu, tomou um comprimido e caiu no meio-fio. Às 5h da manhã, um vizinho o encontrou morto.

Para Wendy Plunk, mãe de Zach, a facilidade com que os traficantes driblam punições é devastadora. O homem que vendeu a pílula a seu filho segue no Snapchat, disse ela.

Enfrentando uma enxurrada de críticas nos EUA, as plataformas de mídia social intensificaram o controle, fechando contas de traficantes e redirecionando usuários de drogas para serviços de dependência.

MOTIVAÇÃO

Durante a pandemia, o uso de drogas aumentou a medida que a saúde mental se deteriorou, mostram estudos. Os jovens tendem a evitar a heroína, não apenas por ser reconhecidamente viciante, mas também por medo das seringas, dizem especialistas em comportamento de adolescentes. As pílulas, com a falsa sensação de algo médico, parecem mais seguras. Além disso, para esta geração, remédios prescritos – para ansiedade, depressão e foco – viraram algo normal.

Pesquisa com 1.449 usuários do Snapchat com idades entre 13 e 24 anos mostra a vulnerabilidade ao uso indevido desses medicamentos prescritos.

Os jovens disseram sentir-se sobrecarregados, ansiosos e deprimidos, mas também com medo do estigma em torno dos desafios da saúde mental. ”Lidar com o estresse foi a principal razão citada. para recorrer a comprimidos ilícitos.

Porém, apenas metade dos entrevistados em geral – é só 27% dos adolescentes – sabiam que o fentanil poderia estar nas pílulas falsificadas. No geral, 23% nem sabiam o suficiente sobre a substância para classificar seu nível de perigo, incluindo 35% dos adolescentes.

GESTÃO E CARREIRA

MAIORES EMPREGADORES MANTÊM HOME OFFICE E TRABALHO HÍBRIDO

Levantamentos apontam preferência por modelo flexível e ganho de produtividade em casa

Impulsionados pelas medidas de isolamento, o home office e o trabalho híbrido permanecem sendo adotados por algumas das maiores empregadoras do país, e a expectativa é que sejam mantidos, mesmo com o avanço da vacinação.

A decisão de seguir com a opção de trabalho remoto, ao menos por algumas vezes por semana, está em linha como que apontam levantamentos recentes em que os trabalhadores dizem querer aproveitar a experiencia de trabalho que tiveram nos últimos anos e preferem não estar no escritório todos os dias.

Segundo a Rais (Relação Anual de Informações Sociais), do Ministério do Trabalho e Previdência, fazem parte dos maiores empregadores formais do pais instituições bancárias (Banco do Brasil, Caixa, Bradesco e Itaú), os Correios, empresas do setor de alimentação (BRF e Seara), de teleatendimento (Atento) e de saúde (Raia-Drogasil).

Pelos critérios da Rais, o topo do ranking antes da pandemia, em 2019, era dos Correios e do Banco do Brasil. De acordo com os dados atuais de número de funcionários fornecidos pelas empresas, o primeiro lugar em 2022 pode ficar com o Itaú Unibanco.

Com quase 100 mil colaboradores hoje, o Itaú Unibanco chegou a migrar metade de seu quadro para o modelo remoto, com o início da pandemia, em 2020.

Em fevereiro deste ano, já com a vacinação em estágio mais avançado, o banco passou a adotar três modelos de trabalho nos escritórios administrativos: presencial, para os colaboradores cujas funções demandam presença no banco todos os dias; híbrido, para times que precisam trabalhar nos escritórios com frequência ou em situações pré-definidas; e flexível, que prevê mais autonomia.

No caso dos Correios, atualmente com 88,5 mil empregados, 2% (cerca de 1.770) estão em trabalho remoto. Segundo a empresa, mesmo antes da pandemia, a partir da reforma trabalhista de 2019, o teletrabalho é uma opção para parte do quadro de funcionários, “observando as condições legais, bem como a conveniência na prestação dos serviços”.

No Bradesco, há a expectativa de manter 30% do quadro de funcionários no sistema hibrido para as áreas administrativas com atividades elegíveis.

“O aprendizado com o trabalho remoto permitiu que, por meio de acordo coletivo com o movimento sindical, fôssemos o primeiro banco de grande porte a assumir o compromisso de adotar essa forma de trabalho após a pandemia”, diz a instituição, que tem 87,5 mil funcionários. Eles também têm a avaliação de que, em algumas áreas, essa modalidade passou a ser relevante para a atratividade e a retenção de talentos.

A Caixa chegou a ter mais de 56 mil empregados (35,6% do total) trabalhando de casa, em razão da pandemia, e teve um retorno positivo por parte dos que atuaram remotamente, sobretudo pela maior autonomia e possibilidade de conciliação entre trabalho e família.

“Com isso, considerando o cenário atual, estudam-se a implantação e percentuais aplicáveis para manutenção do trabalho remoto na empresa”, diz a assessoria do banco.

Depois de usar a modalidade durante a pandemia, o Banco do Brasil implantou o trabalho de formato hibrido, com até dois dias na semana fora do escritório. Atualmente, são cerca de 4% dos 86,3 mil funcionários alternando entre o trabalho remoto e o presencial. A instituição diz acompanhar a tendência das novas modalidades de trabalho desde 2015, quando criou um projeto-piloto para alguns funcionários, e a necessidade de adotar o trabalho remoto durante a pandemia reforçou as vantagens dessas modalidades.

No fim de março, o governo editou uma medida provisória que regulava o trabalho híbrido. Especialistas em direito do trabalho ainda se dividem sobre a possiblidade de que as novas regras incentivem mais empregadores a ofertar essa modalidade de trabalho.

Dos 70 mil colaboradores da Atento, cerca de 15% estão em home office – o restante se divide entre os modelos híbrido e presencial.

“O sistema tem se mostrado benéfico para todos. Esse formato de trabalho ampliou as possibilidades de contratação e movimentação interna de profissionais que, por algum motivo, priorizam o modelo remoto”, diz Ana Marcia Lopes, vice-presidente de Pessoas e Responsabilidade Social da Atento no Brasil.

Moradora de Sorriso (MT), a consultora Vanessa Marquiafavel, 42, é um exemplo disso. Formada em letras e na Atento desde o início do ano, ela ajuda a desenvolver interfaces para assistentes virtuais, que deixam mais humanizado o atendimento feito por robôs em call centers.

“Sou linguista computacional e trabalho em home office desde 2007. Antes, a vida de quem trabalhava de casa era um pouco mais complicada, mas a pandemia acabou deixando as empresas mais preparadas”, diz.

Em casa, ela consegue aproveitar melhor o tempo com o marido, que é agrônomo, e o filho, de cinco anos. “Ainda não encontrei uma desvantagem no home office”.

Já a Raia-Drogasil decidiu manter os 3.000 funcionários da área corporativa no modelo hibrido. Levamos em conta todos os aprendizados extraídos ao longo dos últimos dois anos”, diz Patrícia Vasconcelos Giacomo, diretora da empresa. Quando iniciou o retorno ao presencial, a rede de farmácias, que tem 50 mil colaboradores, optou por fortalecer a independência das equipes. “O estar junto agora tem outro significado, muito mais profundo que o cumprimento de uma tarefa. Os times tem liberdade de definir quando faz sentido estar junto”, diz ela. Uma consulta feita com mil pessoas pela Edelman América Latina em março apontou que os brasileiros estão satisfeitos com seus empregos atuais, percepção que aumentou com o trabalho remoto. Para 61%, o home office fez crescer a satisfação com o emprego, enquanto apenas 16% disseram que diminuiu.

Além disso, o estudo – que foi encomendado pela plataforma de suporte tecnológico para empresas ServiceNow ­ diz que 7 em cada 10 estão trabalhando de casa ao menos em dois dias na semana, ante 52% no pré-pandemia.

Antes da crise sanitária, 21% nunca haviam trabalhado em home office, e agora há apenas 1% nessa situação.

“Foram várias descobertas e ganhos com o trabalho remoto, e a maioria não quer abrir mão disso. O que se observa é uma tendência de o funcionário negociar um modelo híbrido com a empresa, sempre que possível”, diz Katia Ortiz, executiva da ServiceNow no Brasil.

Entre os aspectos positivos do home office apontados pelos entrevistados, estão a economia de tempo de deslocamento (51%), a economia de dinheiro (43%) e o maior tempo com a família (41%). Por outro lado, 28%, se sentem mais desconectados do trabalho, e 27% dizem que é mais fácil se distrair.

Ortiz complementa que a própria empresa percebe que é importante tornar os funcionários mais satisfeitos. “Nos EUA, há um movimento forte de empregados pedindo demissão também por terem sido obrigados a voltar ao escritório. Para reter talentos, a empresa acaba tentando ofertar modelos alternativos e aumentar o investimento em tecnologia”.

Outro estudo recente, da Eaesp-FGV (Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas) em parceria com o Page Group e a PwC Brasil, apontou que 72% dos executivos dizem acreditar que a chefia se adaptou ao trabalho remoto, e 71% dos colaboradores têm expectativas de mudanças no ambiente de trabalho, rumo a uma maior flexibilização.

Em empresas de menor porte, a decisão também tem sido manter dias de trabalho fora do escritório.

“Ao adotarmos o home office como modelo oficial, percebemos vantagem tanto em termos de satisfação dos colaboradores quanto na atração de talentos. Mais de 40% estão fora do eixo Rio-São Paulo”, diz Bruno Pereira, executivo da Cortex, plataforma de big data que vende soluções para vendas e comunicação, onde o trabalho é totalmente remoto para os 300 colaboradores. Entre eles está Amanda Sena, 40, gerente do time de atendimento e marketing. Após trabalhar por três meses no começo de 2020 no sistema presencial, ela migrou, com o restante da empresa, para o home office e não pretende voltar à antiga rotina.

“Quando precisava me deslocar para o escritório, na zona sul de São Paulo, tudo era mais complicado: o trânsito caótico, o transporte público não ajudava. Agora, consigo conviver mais com meu marido, que émúsico, e o nosso cachorro. A empresa também só ganhou ao ter mais pessoas de fora:”

EU ACHO…

UM DEUS QUE SORRI

Eu acredito em Deus. Mas não sei se o Deus em que eu acredito é o mesmo Deus em que acredita o balconista, a professora, o porteiro. O Deus em que acredito não foi globalizado.

O Deus com quem converso não é uma pessoa, não é pai de ninguém. É uma ideia, uma energia, uma eminência. Não tem rosto, portanto não tem barba. Não caminha, portanto não carrega um cajado. Não está cansado, portanto não tem trono.

O Deus que me acompanha não é bíblico. Jamais se deixaria resumir por dez mandamentos, algumas parábolas e um pensamento que não se renova. O meu Deus é tão superior quanto o Deus dos outros, mas sua superioridade está na compreensão das diferenças, na aceitação das fraquezas e no estímulo à felicidade.

O Deus em que acredito me ensina a guerrear conforme as armas que tenho e detecta em mim a honestidade dos atos. Não distribui culpas a granel: as minhas são umas, as do vizinho são outras, e nossa penitência é a reflexão. Ave-maria, Pai-nosso, isso qualquer um decora sem saber o que está dizendo. Para o Deus em que acredito, só vale o que se está sentindo.

O Deus em que acredito não condena o prazer. Se ele não tem controle sobre enchentes, guerrilhas e violência, se não tem controle sobre traficantes, corruptos e vigaristas, se não tem controle sobre a miséria, o câncer e as mágoas, então que Deus seria ele se ainda por cima condenasse o que nos resta: o lúdico, o sensorial, a libido que  nasce com toda criança e se desenvolve livre, se assim o permitirem?

O Deus em que acredito não é tão bonzinho: me castiga e me deixa uns tempos sozinha. Não me abandona, mas me exige mais do que uma visita à igreja, uma flexão de joelhos e uma doação aos pobres: cobra caro pelos meus erros e não aceita promessas performáticas, como carregar uma cruz gigante nos ombros. A cruz pesa onde tem que pesar: dentro. É onde tudo acontece e tudo se resolve.

Este é o Deus que me acompanha. Um Deus simples. Deus que é Deus não precisa ser difícil e distante, sabe-tudo e vê-tudo. Meu Deus é discreto e otimista. Não se esconde, ao contrário, aparece principalmente nas horas boas a fim de me incentivar, de me fazer sentir o quanto vale um pequeno momento grandioso: um abraço numa amiga, uma música na hora certa, um silêncio. É onipresente, mas não onipotente. Meu Deus é humilde. Não posso imaginar um Deus repressor e um Deus que não sorri. Quem não te sorri não é cúmplice.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

MANÍACO POR LIMPEZA? VOCÊ PODE ESTAR FAZENDO TUDO ERRADO

Em razão da pandemia, aumentou a preocupação em manter os lugares limpos; saiba como fazer a higiene correta com os produtos adequados nas diferentes situações

Uma das minhas primeiras lembranças é o cheiro pungente de álcool. Todas as noites, minha mãe borrifava a pia da cozinha e os balcões com álcool isopropílico para desinfetá-los. Não é de se admirar: ela cuidou de mim por meses quando eu peguei uma infecção por salmonela quando criança. As bactérias eram seu inimigo. “Eu me tornei uma louca por isso”; ela admitiu recentemente. “Eu me tornei uma germofóbica.”

Não é surpresa, então, que eu cresci para ser uma germofóbica também. Mantenho uma variedade estonteante de lenços antimicrobianos no porão, tenho pelo menos sete frascos de desinfetante para as mãos em casa e no carro, e mantenho uma bolsa de emergência no armário cheia de lenços umedecidos com água sanitária e outros apetrechos desinfetantes, caso uma infecção estomacal atinja nossa casa. (Há uma diferença entre limpar e arrumar. Sou fanática com a primeira, mas preguiçosa com a segunda).

Hoje, por causa da pandemia, não estou sozinha na minha paranoia de germes. Em uma pesquisa de 2021 com 2 mil adultos dos EUA, 42% dos entrevistados disseram que agora se identificam como germofóbicos. Mas nossos medos nem sempre são bem fundamentados, aprendi isso esta semana quando entrevistei químicos e especialistas em limpeza. Muitas práticas populares de limpeza não são eficazes e algumas são simplesmente desnecessárias. Confira

CONCENTRE-SE NOS GERMES RUINS

Muitas vezes, me sinto culpada de pensar que vírus e bactérias são “ruins”, mas, muitas bactérias fazem coisas boas – como aquelas em nosso intestino. “Os micróbios estão absolutamente em toda parte”, disse Erica Hartmann, engenheira ambiental da Northwestern University.

”E isso não é um coisa ruim.” Pesquisas sugerem que crianças que crescem em fazendas, cercadas por micróbios, têm um risco menor de desenvolver asma e alergias. Antes de entrar no âmago da questão, deixe-me explicar a diferença científica entre limpeza e desinfecção. A limpeza remove coisas-sujeira, migalhas, germes, pelos de cachorro – das superfícies. A desinfecção mata coisas – normalmente vírus e bactérias. A limpeza é algo que podemos fazer regularmente, explicou a dra. Hartmann, mas precisamos nos preocupar em matar (desinfetar) apenas germes perigosos e causadores de doenças.

Você não precisa desinfetar os balcões da cozinha todos os dias, a menos que tenha manuseado carne crua. Não precisa também desinfetar obsessivamente seu banheiro, a menos que alguém em sua casa tenha uma infecção que se espalhe pelas fezes, como salmonela. Para bagunças comuns, você não precisa pegar um lenço desinfetante porque água e sabão removerão o resíduo pegajoso.

Você se pergunta: por que não desinfetar tudo? Existem riscos de longo prazo associados ao uso excessivo de certos desinfetantes, como compostos quaternários de amônio. Esses “quats”, como são chamados, são encontrados em muitos produtos de limpeza doméstica, incluindo sprays e lenços feitos por Lysol e Clorox. Esses produtos podem aumentar o risco de resistência a antibióticos, informou a dra. Hartmann. Além disso – embora os especialistas com quem conversei discordem sobre o quanto devemos nos preocupar -desinfetantes como alvejante, amônia e quats liberam gases que podem ser prejudiciais, orientou Pavel Misztal, químico que estuda desinfetantes na Universidade do Texas. Por- tanto, use desinfetantes quando precisar desinfetar.

USE DESINFETANTES COM SABEDORIA

Quando tiver motivos para se preocupar com germes, mate todos eles com um desinfetante, mas lembre-se de que alguns produtos químicos funcionam melhor que outros. Sabão simples e água podem matar germes quando fazem espuma, mas não serão infalíveis se você estiver tentando eliminar micróbios das superfícies, garantiu Bill Wuest, químico da Emory University. Muito mais eficazes são os desinfetantes como alvejante, álcool isopropílico, etanol, peróxido de hidrogênio e produtos de limpeza à base de quaternários de amônia. Se você estiver usando um desinfetante que libera vapores, como alvejante ou amônia, ventile a área primeiro abrindo portas ou janelas ou use uma máscara facial descartável. Muitas pessoas pulverizam ou passam desinfetantes em uma superfície e, em seguida, limpam o produto com uma toalha de papel ou esponja, exemplificou Wuest, mas isso remove o produto químico antes que ele tenha a possibilidade de desinfetar.

Se estiver usando um produto comprado em loja, o tempo de desinfecção deve estar no rótulo. As recomendações para soluções de alvejante variam entre 1 e 10 minutos. As soluções à base de álcool não precisam ser limpas depois, pois eventualmente evaporam. E alguns desinfetantes botânicos podem precisar de muito tempo, até 15 ou 30 minutos.

PRODUZIDO EM CASA

Você pode fazer desinfetantes. Para uma solução desinfetante de alvejante, misture 1/3 de xícara de alvejante doméstico com um galão de água. (O alvejante se decompõe rapidamente na água, portanto, você precisará fazer uma nova solução todos os dias. E nunca misture alvejante com produtos químicos que não sejam água). Sprays com 70% de etanol ou álcool isopropílico e 30% de água também são eficazes, ensinou a dra. Quave. Ela enfatizou que se deve misturar álcool com água para evitar que ele evapore antes de desinfetar.

Também é possível fazer desinfetantes à base de plantas, alguns dos quais são menos tóxicos e mais ecológicos. Mas desinfetantes botânicos podem não funcionar tão rapidamente quanto os alvejantes, os quats ou o álcool. O vinagre doméstico, por exemplo, é um desinfetante botânico popular, mas não é tão eficaz para matar germes quanto alvejante ou álcool. TRADUÇÃOLIVIA80

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

RESPEITO É BOM

A parentalidade gentil tem como princípio acolher a criança, sem castigos físicos ou punições. Entenda seus benefícios

Respeitar as etapas de desenvolvimento da criança, acolher seu choro e suas necessidades e tratá-la com respeito, sem ameaças, tapas e gritos, deveria ser um padrão na sociedade. Mas está longe de ser, segundo especialistas em parentalidade gentil. “A educação no Brasil não é respeitosa. Na verdade, a infância é tratada com violência na maioria das culturas no mundo”, diz Nanda Perim, psicóloga e educadora parental, autora do livro Educar Sem Pirar. Isso tem consequências na saúde mental e no relacionamento com outras pessoas. ”No longo prazo, essa pessoa vai tentar tapar o buraco por não se sentir amada ou valorizada”

Para os especialistas, há uma crença arraigada de que a palmada educa. “A justificativa para a violência é que bater vai tornar a criança um adulto melhor, quando, na verdade, é o contrário”, explica Nanda. A palmada pode afetar o desenvolvimento do cérebro da criança de forma semelhante a outras violências, concluiu estudo da Universidade Harvard, nos EUA, divulgado em abril de 2021.

De acordo com os autores do estudo, o castigo corporal tem sido associado ao desenvolvimento de problemas de saúde mental, ansiedade, depressão, problemas comportamentais e transtornos por uso de substâncias. Porém, a relação entre a palmada e a atividade cerebral ainda não havia sido estudada e a pesquisa reforça a importância de inibir esse tipo de tratamento dado às crianças.

Atualmente, 63 países proíbem punição física a crianças em qualquer ambiente, segundo a End Corporal Punishment, iniciativa que agrupa globalmente mais de 500 integrantes – empresas, instituições e governos – para o fim da violência contra crianças.  No Brasil, castigar fisicamente ou dar tratamento cruel ou degradante a uma criança ou adolescente é crime, de acordo com a Lei Menino Bernardo, a “lei da palmada”, aprovada em 2014.

Os pais educam de forma violenta, porque é essa referência que eles conhecem, explica a psicanalista e educadora parental Elisama Santos, autora dos livros Educação Não Violenta e Por Que Gritamos. Romper esse ciclo é difícil porque questionar esse padrão leva a refletir sobre as violências já sofridas. “Isso pode doer bastante.”

Quando uma criança ou adolescente tem um comportamento desafiador, Elisama recomenda que os pais ou cuidadores tentem entender o que está sendo comunicado. “Se percebo que a criança não consegue se expressar, devo ajudá-la a entender o que ela sente e a lidar de outra forma com o problema.” Para isso, o adulto deve sair da dinâmica de exercício de poder e assumir sua responsabilidade perante a criança. “É preciso enxergar a criança como um ser humano, não como um robô que precisa me atender de forma imediata.”

Os temidos ataques de “birra”, por exemplo, fazem parte do desenvolvimento da criança, que ainda tem dificuldade de lidar com frustrações, conta Elisama. “Gritar, reclamar, chorar depois de ouvir um ‘não’ faz parte da formação. O que não faz parte é um adulto que, em vez de conversar e ajudar a criança a lidar com suas emoções, se comporte de forma infantil e comece a gritar e bater porque tem mais poder.” Segundo ela, a educação tradicional não ensinou pais e cuidadores a lidar com as próprias emoções. “Por isso, descarregam as dores nas crianças.”

AUTOCONHECIMENTO

A educação respeitosa permite à criança mais conhecimento sobre si mesma, ensina Elisama. ”Na educação tradicional ela não pode dizer não e, por isso, apenas obedece. Não olha para as próprias emoções.” Além de se conhecer, tem melhor relação interpessoal, pois comunica limites e é atenta ao sentimento do outro. A educação respeitosa também abre espaço para que as crianças cresçam conscientes da própria potência. “Elas não são apenas pessoas que obedecem e sabem que são importantes na comunidade”.

Mãe de Miguel, de 8 anos, e Helena, de 6, Elisama afirma já ver os frutos da criação respeitosa dos ‘filhos. “Eles conhecem suas emoções e são assertivos na hora de comunicar o que precisam.” Ela conta um episódio em que Miguel ficou bravo na escola, aos 4 anos. Ele se deitou na grama e ficou olhando para o céu. Disse à professora que isso o ajudaria a se acalmar. “Ele não bateu, não tratou mal ninguém. É a prova do quanto reconhecer e nomear as nossas emoções nos ajuda.”

A visão de Elisama é compartilhada pela farmacêutica Renata Paggioli, de 44 anos, mãe de Heitor, de 5. Ainda na gravidez já sabia que não educaria o filho com castigos e recompensas. “A educação tradicional me deixou marcas emocionais e não queria que isso se repetisse”.

Quando Heitor nasceu, porém, ela não sabia o que fazer diante do choro incessante do bebê. “Ele ficava várias horas chorando e eu chorava junto”, conta. Renata começou a fazer psicoterapia e a devorar conteúdo sobre parentalidade gentil. Abandonar o filho no berço, chorando, ou realizar “treinos de sono” estavam fora de cogitação. “Nada resolvia os meus problemas. Eu estava no limbo.”

O que salvou Renata foi a metodologia Hand in Hand Parenting, que leva em consideração o funcionamento do cérebro infantil para estabelecer conexão entre adulto e criança, e que valoriza o choro e a gargalhada como processos de alívio emocional. “As pessoas têm medo do choro, poiso veem como sofrimento. Mas ele existe para depurar um sentimento difícil.”

Esse exercício de expelir o “cocô emocional”- termo usado pelos praticantes do Hand in Hand – vale tanto para adultos quanto para os pequenos. A metodologia inclui um processo de troca de escuta entre cuidadores, que permite “soltar os cachorros’), enquanto a outra pessoa escuta, sem julgar ou dar opinião. “Essa parceria de escuta foi um divisor de águas, pois nesse momento eu dou os meus chiliques e deixo o meu pacote emocional lá.”

Quando criança, Renata tinha o seu choro reprimido. “Eu escutava a frase ‘engole o choro’ e isso foi ruim para mim, pois carrego até hoje emoções que não foram processadas.”

Quando a criança chora, deve ter seu choro acolhido até que se acalme, orienta a pedagoga Vanessa Galvani, instrutora do Hand in Hand Parenting. “Caso contrário, representa um abandono emocional. A criança entende que ninguém vai ficar com ela quando ela estiver mal. Sem construir essa conexão, quando se tornar adolescente estará distante dos pais.”

Para que o adulto consiga acolher o choro da criança, ele precisa ser acolhido. “Ele tem de olhar para a sua caixinha da infância e liberar as tensões. Senão, só vai conseguir gritar diante do choro da criança.”

Ao contrário do que muitos pensam, ”criança que tem liberdade para chorar não se tornará mais fraca”, declara Vanessa. “Elas vão aprender a se regular emocionalmente e saberão processar seus sentimentos, encarar os problemas do mundo e voltarem mais fortes. Serão adultos resilientes.”

EVOLUÇÃO

Desde 2015, a psicóloga Márcia Tosin está empenhada em conquistar mais adeptos ao Movimento Neurocompatível, que leva em consideração na educação infantil a adaptação do sistema nervoso na história evolutiva da nossa espécie. “A criança apresenta mecanismos biológicos que têm sua razão de existir. São etapas de desenvolvimento universais, presentes em crianças de todo o mundo.”

É comum que uma criança queira dormir com os pais ou que tenha medo de escuro, por exemplo, já que esse comportamento protegia as crianças de predadores e outros perigos. ”A ação dos pais sobre alguns desses comportamentos pode ser irrelevante, já que são dispositivos complexos e antigos que foram constituídos para a nossa sobrevivência. Mas há quem venda cursos, livros e soluções para tentar resolver um problema que evolutivamente não é um problema.”

A psicóloga acredita que a maioria das pessoas hoje não sabe muito sobre desenvolvimento infantil porque as crianças participam pouco da sociedade e os adultos não têm a oportunidade de notá-las. “As pessoas estão em suas carreiras e, de repente, se veem diante da birra de um filho, estressados, por nunca terem passado por essa experiência”, observa.

Consciente de que há um ritmo natural de desenvolvimento e que cada criança tem seu tempo para atingir seus marcos, como desmame, desfralde e aprendizagem da leitura e da escrita, o adulto deve abrir mão do controle. “A principal estratégia evolutiva que os humanos usam para se desenvolver é a imitação. A função dos pais é enriquecer esse ambiente e perceber os desenvolvimentos atípicos e, nesses casos, buscar ajuda. A maioria das crianças se desenvolverá bem se receber um ambiente amoroso e estimulante”, admite Márcia.

Segundo ela, essa é uma quebra de paradigma que choca a sociedade porque ainda vemos a criança como alguém que recebe passivamente o conhecimento do adulto.

Adepta da criação neurocompatível, a policial civil Simone Torres, de 45 anos, mãe de Davi, de 4, costuma receber críticas. “Há quem diga que não coloco limites ou que mimo demais o meu filho. Mas o que importa é que eu seja coerente com os meus princípios.” No dia a dia, Simone não cobra de Davi uma maturidade que não seja compatível com a sua fase. “Se a gente quer dormir junto com ele, a gente dorme. Qual é o problema? Meu marido e eu temos outros momentos para ficarmos juntos, não precisa ser na hora do sono.”

A comunicadora Priscila Inserra também divide a cama com a filha Clarisse, de 6 anos. Com a filha mais velha, Gabriela, hoje com 15 anos, ela tinha de se levantar da cama para atendê-la no berço, mas percebia que a filha dormia melhor com ela. “Só tenho elogios para a cama compartilhada, que não faz mal à criança, pelo contrário. O apego deixa as crianças mais seguras”, defende. Para ela, permitir que a própria criança guie o seu desmame e o seu desfralde faz parte do respeito ao desenvolvimento infantil. “Digo sempre para a Clarisse que o ‘mamá’ é meu. Ela tem de pedir para mamar e respeitar quando eu estiver cansada. Assim, ensino sobre limites.”

Desde 2006, quando engravidou de Gabriela, Priscila busca praticar a criação gentil. No início, teve dificuldades de abrir mão do autoritarismo e reproduzia falas que aprendeu. ”Percebi isso quando minha filha falou que estava com medo de mim.” Dez anos depois, grávida de Clarisse, resolveu se dedicar profissionalmente à causa.

Desde 2016, promove workshops e encontros parentais. Em 2020, organizou um evento online de 10 dias, com 52 palestrantes e mais de 3 mil participantes. “É um tema em voga, com muitos interessados. Se não é pelo respeito à criança, é pelo mercado de trabalho, que busca um profissional com características emocionais que são obtidas pela educação gentil e empática.”

CONEXÃO COM O CORPO

Uma educação respeitosa tem como um dos pilares o respeito aos processos fisiológicos da criança no parto, na amamentação, na alimentação, no sono e no desfralde, diz a nefrologista pediátrica, Luiza Ghizoni. “Quando uma família força uma criança a raspar o prato na refeição, está desconectando a criança do seu corpo, já que ela vai perder a sua noção de saciedade.” Segundo a pediatra, entre as etapas do desenvolvimento, a mais desrespeitada é o desfralde. “A sociedade entende que precisa intervir no desfralde, não confia na sabedoria do corpo da criança. E a consequência é a maior propensão a ter mau funcionamento da bexiga e do intestino. Vejo no meu consultório uma ‘epidemia’ de crianças com dificuldade de controlar excreções.”

Assim como há etapas a cumprir antes de andar, como sentar e engatinhar, o desfralde também inclui estágios anteriores, relacionados ao desenvolvimento motor, cognitivo e emocional. “O processo de desfralde deve ser conduzido pela criança, sem intervenção do adulto, que deve deixá-la de fralda até que ela não queira mais. Não precisa estimular ou premiar”, esclarece Luiza.

 A engenheira e empresária Flávia Ramos Tenreiro, de 35 anos, conta que seus filhos Thomás, de 6, e Melina, de 3, guiaram o próprio desfralde. Da mesma forma, buscou uma solução gentil para o desmame: Melina ainda mama e Thomás deixou de mamar aos 5 anos. “A amamentação não é só alimento. É vínculo, carinho, segurança. Por isso, respeito o tempo deles.”

As dificuldades de seguir a educação respeitosa surgem quando Flávia precisa sair da sua “bolha caseira”. “É muito difícil escolher escola, pediatra ou dentista que sejam respeitosos”, afirma. Flávia conta que uma vez recebeu um papel de um pediatra com a recomendação de não pegar o filho no colo para não ficar mal-acostumado. “Há muitos obstáculos para quem quer praticar a educação respeitosa. Mas assim eles vão saber se respeitar e respeitar o próximo.”

A sobrecarga dos cuidadores (geralmente as mães) é um empecilho à educação respeitosa, na visão de Flávia. “Quando uma mãe não tem com quem dividir a carga, vai falhar mais, pois está no seu limite. Na pandemia, sem rede de apoio, isso ficou nítido na nossa família.”

A psicanalista e educadora parental Thais Basile, autora do Livro Nossa Infância, Nossos Filhos, reforça a observação de Flávia. “Muitas mães trabalham formalmente e ainda têm a responsabilidade pelo trabalho doméstico e pelas crianças. E para dar conta, a criança é silenciada”, avalia. Segundo ela, para piorar. há muitos homens que acham que usar o diálogo na criação é ”mimar” e ”criar crianças fracas” – e demandam que as mães sejam mais rígidas com os filhos. “Essa responsabilidade não pode ser individualizada. O Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, coloca a sociedade e o Estado como responsáveis pela proteção das crianças e seu desenvolvimento saudável. São os adultos, as instituições e as estruturas que precisam mudar”, acrescenta.

COMO PRATICAR A EDUCAÇÃO RESPEITOSA

•  Encare a criança ou o jovem como uma pessoa que merece respeito. Portanto, nada de palmadas, ameaças, castigos, chantagem e violência psicológica, mesmo que sutil.

•  Lembre-se de que o adulto é você, que deve buscar manter a paciência e o autocontrole mesmo em situações desafiadoras. Caso esteja a ponto de “explodir”, avise a criança que vai se distanciar e saia de perto para gerenciar as suas emoções.

•  Acolha o choro: é esperado que as crianças chorem ou façam ”birra”. Ajude a criança a reconhecer os próprios sentimentos e a buscar uma solução para a sua necessidade que não seja violenta.

•  Dialogue: ouça a criança com atenção e comunique-se com clareza, numa linguagem compatível com a idade da criança ou do jovem.

•  Busque a conexão com a criança por meio das brincadeiras ou momentos de diversão.

•  Não minta, para que não haja quebra de confiança. Conheça os marcos de desenvolvimento infantil e entenda que cada criança tem o seu ritmo.

•  Perceba que por trás de um comportamento desafiador de uma criança há uma necessidade mal comunicada.

•  Cuide de si: é preciso estar bem consigo para acolher a criança. Lembre-se de que essa é uma oportunidade para curar as feridas das violências sofridas em sua própria infância.

•  Reconheça as suas falhas e tropeços. Mostrar-se humano para as crianças ajuda a aproximar-se delas.

OUTROS OLHARES

SAIBA O QUE FAZER SE LEVAREM O SEU CELULAR

Veja os três principais passos para bloquear o aparelho e impedir que ladrões tomem seu dinheiro

O roubo ou furto de celular pode deixar prejuízos maiores do que a perda do aparelho. HÁ casos em que os criminosos conseguem desbloquear o celular ou leva-lo já desbloqueado, o que permite transferência de alta quantia em dinheiro, além de compras, empréstimos e pagamentos de contas usando o nome da vítima.

Das cinco principais queixas do ranking do Banco Central, quatro são questões ligadas a falhas na segurança, no sigilo e na legitimidade das transações. Somente no quarto trimestre de 2021, foram 7.019 reclamações do tipo, de um total de 18.681 queixas recebidas pela instituição, conforme os dados mais recentes disponíveis.

Asqueixas envolvem situações como as de compras no cartão de crédito sem autorização do cliente, demora para devolver valores pagos indevidamente, resgata de investimentos sem autorização e transações não reconhecidas no internet banking.

A ação dos criminosos é facilitada quando conseguem levar o aparelho desbloqueado: da vítima que digita uma mensagem ou atende uma ligação na rua, por exemplo, ou que segue um aplicativo ao dirigir.

Mas também há situações em que os criminosos conseguem desbloquear o aparelho. Esse tipo de crime está em queda no estado de São Paulo, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública, mas segue trazendo estragos financeiros às vítimas. Em janeiro e fevereiro deste ano, foram registradas 31.680 ocorrências de roubo de celular em São Paulo. No mesmo período de 2021, foram 33.994 casos. Antes da pandemia, nos dois primeiros meses houve 43.380 registros de roubo de celular.

Especialista em segurança na internet, Cristian Souza, professor do Idesp (Instituto Daryus de Ensino Superior Paulista) e consultor em cibersegurança da Daryus Consultoria, diz que, quanto antes o cidadão que for vítima de roubo ou furto agir, mais rapidamente consegue evitar que um prejuízo maior ocorra.

“É preciso desabilitar todos os usuários conectados. Isso é feito à distância, em um computador ou outro celular. O sistema vai perguntar se você quer desconectar todos os dispositivos, diga que sim”, ensina. Para isso, é bom ter anotados os aplicativos instalados, como Gmail, WhatsApp, Instagram e Facebook.

Outra forma de se proteger é apagar todos os aplicativos ou dados. “Se você conseguir apagar todos os dados a tempo, antes que a pessoa consiga liberar o aparelho ou alterar sua senha, estará protegido”, diz Souza

Avise também amigos e familiares, para que não sejam enganados por alguém que tenta se passar por você.

O QUE FAZER ASSIM QUE SEU CELULAR FOI ROUBADO

• Apague dados e aplicativos de forma remota

• É necessário acessar um computador ou outro celular para ter acesso remoto aos seus aplicativos e apagá-los ou desconectar suas contas.

PARA DESCONECTAR SUAS CONTAS

• Acesse google.com.br e entre em sua conta

• Do lado direito da tela, acima, clique sobre a letra de seu nome

• Vá em “Gerenciar sua conta Google”, e na página seguinte, clique em “Segurança”, à esquerda

• Em “Seus dispositivos” abaixo, acesse “Gerenciar dispositivos”

• Vá em “Mais detalhes” e, em seguida, “Sair'”

• Também é possível limpar seu celular de forma remota.

PARA CELULARES APPLE

• Acesse icloud.com/find

• Informe e-mail e senha

• Na próxima página, clique em “Todos os dispositivos e, depois, vá em “Apagar iPhone”

PARA CELULARES ANDROID

• Acesse android.com/find

• Informe login e senha

• Do lado direito da tela, clique sobre o dispositivo roubado

• Vá em “Ativar bloqueio e limpeza” e, depois, em “Limpar dispositivo”

FAÇA O BLOQUEIO DA LJNHA TELEFÔNICA E AVISE SEU BANCO

• Ligue para sua operadora de celular e informe o número do IMEI (Identificação Inter nacional de Equipamento Móvel em português) para cancelar seu chip e bloquear seu aparelho

• Se não tiver anotado antes seu IMEI, como sugerido, procure na caixa do celular, geralmente em uma etiqueta branca

• Acione seus bancos, informe o roubo ou furto e peça o bloqueio do app

REGISTRE UM BOLETIM DE OCORRÊNCIA

• Depois de mudar as senhas e bloquear o seu celular ou apagar o dispositivo a distância, faça um boletim de ocorrência

• O registro da ocorrência pode ser online; no estado de São Paulo, o site para registrar a queixa é delegaciaeletronica.policiacivil.sp.gov.br

• O ideal é fazer o boletim o mais rápido possível, para estar protegido caso seja vítima de fraudes e roubos online com o celular que foi tirado de você

Fonte: Cristian Souza, professor no Idesp (Instituto Daryus de Ensino Superior Paulista), e consultor em cibersegurança da Daryus Consultoria, e Laboratório dfndr, da PSife

GESTÃO E CARREIRA

ENSINO DE INGLÊS PARA NEGÓCIOS AVANÇA JUNTO COM O TRABALHO REMOTO

Startups inovam e recebem investimentos de olho na eficiência de proficiência no idioma para certas vagas de emprego

Uma pesquisa recente da consultoria de recrutamento Signium mostrou que as contratações de brasileiros em multinacionais aumentaram 50% em 2021 em relação ao ano anterior. Outro levantamento, da startup de recrutamento Geek-Hunter, apontou que o número de vagas no setor de tecnologia saltou 136% no ano passado no Brasil, sendo mais de 90% para trabalho remoto.

Com essa tendência da internacionalização do trabalho, uma das maiores demandas é a de profissionais com domínio do inglês. O Brasil, porém, está longe de se destacar nesse tema, ocupando o 60º lugar no ranking de proficiência de 2021, segundo a EP Education First.

Na busca de qualificar seus talentos, as empresas investem em cursos para os funcionários, o que tem contribuído para a expansão de startups de educação especializadas em inglês voltado aos negócios. Um exemplo é a Slang, que cresceu 22 vezes em receita entre janeiro de 2021 e janeiro de 2022. No fim do ano passado, a companhia recebeu um aporte de US$14 milhões e triplicou sua equipe.

Presente no Brasil, no México, no Chile e na Colômbia, a Slang tem o colombiano Diego Villegas como cofundador. Ele teve a ideia de criar a edtech ao estudar no MIT, nos EUA, onde conheceu seu sócio, o americano Kamran Khan. Juntos, diagnosticaram uma carência de muitas pessoas que participavam das aulas – o próprio Villegas entre eles – em relação ao domínio do inglês corporativo. Hoje, a startup oferece mais de 200 cursos. “Se uma pessoa demonstra dificuldade com determinado termo ou tópico, a plataforma encontra formas de manter o assunto ativo até que possa ser aprendido devidamente”, explica o colombiano.

INTERATIVIDADE

Outra startup que desponta é a Nulinga, que aposta em aulas interativas e oferece cursos em formato individual ou em grupos de até 4 pessoas. Com clientes como Dafiti, Ambev, Kavak e Lalamove, ela recebeu US$ 1 milhão de investimento no ano passado. Para 2022, o objetivo é expandir a presença no mercado brasileiro, ter mais clientes multinacionais e atingir a marca de mais de 150 clientes. Entre 2020 e 2021, a startup cresceu 4,2 vezes.

“Começamos o ano com mais de 2 mil alunos e pretendemos terminar com 4 mil. Nosso objetivo para o final do ano é arrecadar mais de R$ 2,5 milhões”, diz o CEO Martin Perri.

MÊTODO PRÓPRIO

Fundada em 2010 nos Estados Unidos, a Voxy conta com metodologia própria e inteligência artificial. A empresa atua em 150 países e soma mais de 4 milhões de usuários no mundo, entre eles profissionais de empresas como Hershey, Colgate-Palmolive, Heineken e Eneva, entre outras. A edtech, que está no Brasil desde 2013, aplica inteligência artificial para criar currículos personalizados que se adaptam às necessidades, aos interesses pessoais e ao nível de proficiência de cada aluno.

No treinamento, que é 100% online, há também lições em vídeos curtos para serem acompanhadas pelo celular. “O ‘microlearning’ é um formato essencial. Nos dias de hoje, as pessoas verificam seus celulares até nove vezes por hora, e a maioria não assiste a vídeos com mais de quatro minutos”, diz a vice-presidente de marketing e vendas da edtech, Eliane lwasaki.

EU ACHO …

FIDELIDADE

Nossos códigos morais e jurídicos defendem a fidelidade conjugal. A tradição prega a construção de uma muralha ao redor de um casal. A norma proclama e a natureza reclama. Quase todo mundo percebe que corpo e alma não falam a mesma língua. No livro do Deuteronômio (5,18), está dado como mandamento: não cometerás adultério. Gosto também da tradução antiga: não fornicarás. No inglês formal do século 17, a Bíblia do Rei James repete: Neither shalt thou commit adultery. O “neither” relembra que a lista de interditos começou antes, inclusive a proibição de matar no versículo precedente.

A norma funciona como todo princípio, solene ou trivial: filha do ideal. Descendo ao cotidiano, a nutricionista diz tudo que faz bem ao meu corpo e percebo que meu paladar parece me afastar do caminho correto. Aparentemente, fidelidade é água, alface, rúcula e sopa de chuchu; adultério é doce de leite, pastel frito, picanha e uma garrafa de bom vinho. A Bíblia também diz que o salário do pecado é a morte (Romanos 6,23). Da mesma forma, a consequência da mesa livre é a gordura no fígado, o sobrepeso e o desgaste crescente da articulação do joelho…

Seres humanos gostam de criar normas, porém, acima de tudo, possuem um prazer maior em quebrá-las. Regras seduzem para a contravenção. Basta meu exame de sangue exigir um jejum que toda a fome do mundo me assalta naquela noite. Minha experiência com grupos: anuncie que, devido às características daquela estrada no interior da Mongólia, não poderemos parar para banheiro com 20 minutos. Pronto! Todos são atacados de cistite galopante e parece que tomaram diuréticos aos litros. Surge o desespero e necessitamos de boas soluções em pleno deserto de Gobi. Sim, os degredados filhos de Eva continuam focados na única árvore proibida e ignoram o vasto pomar a sua frente.

Quem dá aula sabe que toda norma contém, dialeticamente, seu pedido de exceção em sala de aula. Grupos de três? Pode quatro? Pode! E cinco? Como verifiquei ao vivo, aumentar as regras de uma prova provoca novos problemas. Respondam em ordem? Surge a pergunta: crescente ou decrescente? Mesmo princípio dos casamentos: sejam fiéis, casais! Pode ser grupo de três?

Seria nossa natureza? Machado de Assis coloca na boca de Deus a opinião: “Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana”. Nos seres humanos eu tenho esperança média, porém em Machado deposito toda a minha confiança futura em melhorar minha maneira de escrever.

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

COMO O ESTRESSE PODE PREJUDICAR O SEU CORPO

Além do cérebro e das funções cardíacas, situações estressantes podem causar sérios danos à pele e aos sistemas respiratório e gastrointestinal

Todos nós sabemos o que é o estresse em termos físicos. Algumas pessoas sentem tremores ou palpitação, outras desenvolvem tensão muscular, dores de cabeça ou de estômago. Mas o que nem sempre percebemos é que nossas respostas fisiológicas aos estresses e tensões podem ter repercussões mais profundas e menos óbvias em praticamente todos os órgãos e sistemas do corpo.

“As pessoas realmente subestimam o tamanho dos efeitos”, disse Janice Kiecolt-Glaser, diretora do Instituto de Pesquisa em Medicina Comportamental da Faculdade de Medicinada Universidade Estadual de Ohio, nos EUA. Quando você sofre com estresse, seu cérebro desencadeia a liberação de uma cascata de hormônios – como cortisol, epinefrina (adrenalina) e norepinefrina – que produzem mudanças fisiológicas.

O problema é que essas mudanças podem ocorrer em resposta a estressores que não ameaçam a vida – situações como prazos de trabalho, engarrafamentos, pressões financeiras e conflitos familiares – e, com o tempo, podem afetar o corpo e a mente. A seguir, como o estresse pode afetar órgãos e sistemas do corpo, da cabeça aos pés.

CÉREBRO

Formas agudas de estresse – quando você está enfrentando um prazo de trabalho ou discutindo com um ente querido, por exemplo – podem realmente ser benéficas no curto prazo, banhando o cérebro com hormônios (como o cortisol) que ajudam a melhorar sua motivação e sua capacidade de foco e desempenho, de acordo com Wendy Suzuki, professora de neurociência e psicologia da Universidade Nova York e autora de Good Anxiety: Hamessing the Power of the Most Misunderstand Emotion (algo como Boa Ansiedade: Domando o Poder da Emoção Mal-Ententida). Por outro lado, o prolongamento dos níveis elevados de cortisol que acompanha o estresse crônico e o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) pode interferir e danificar o hipocampo do cérebro, fundamental para a função da memória de longo prazo.

SISTEMA CARDIOVASCULAR

 Com o estresse agudo, sua frequência cardíaca se acelera e sua pressão arterial aumenta para que (evolutivamente falando) você possa se preparar para lutar ou fugir para salvar sua vida. Depois que o incomodo passa, essas funções deveriam retornar aos seus estados normais. Mas isso nem sempre acontece no mundo moderno, no qual muitas vezes encontramos só estressores atrás de estressores.

O estresse crônico, ao longo de meses a anos, pode levar a hipertensão arterial, adiposidade (acúmulo de gordura), resistência à insulina e maior inflamação sistêmica, explica Ahmed Tawakol, diretor de cardiologia nuclear do Hospital Geral de Massachusetts e da Harvard Medical School. “Juntas, elas impulsionam o acúmulo de placas arteriais e aumentam o risco de ataque cardíaco e derrame.”

SISTEMA RESPIRATÓRIO

Durante uma situação estressante, o sistema nervoso simpático se acelera e os hormônios do estresse são liberados, o que leva a uma respiração rápida e pode fazer você sentir dificuldade de recuperar o fôlego. Isso pode afetar o transporte de oxigênio e dióxido de carbono no sangue. “A respiração rápida e superficial não é uma coisa boa – você não está se livrando do dióxido de carbono de maneira ideal o que pode levar a sintomas como tontura e vertigem”, observa Neil Schachter, especialista em pulmão no Mount Sinai Medical Center, em Nova York.

SISTEMA GASTROINTESTINAL

O estresse diminui a motilidade gastrointestinal (lentificação do esvaziamento do intestino), o que pode fazer você sentir enjoo, inchaço ou constipação, explicou a gastroenterologista Cindy Yoshida, professora do Sistema de Saúde da Universidade da Virgínia, em Charlottesville. Mas a principal notícia é:o estresse gera mudanças no microbioma intestinal, prejudicando a diversidade das bactérias, o que afeta a função da barreira intestinal de maneiras que aumentam a permeabilidade intestinal. Isso significa que subprodutos bacterianos dos alimentos podem vazar do trato intestinal para sua circulação, o que desencadeia respostas inflamatórias e hormonais. Entre outros efeitos, essas alterações podem exacerbar a doença inflamatória intestinal (DII).

PELE

Se você já sofreu um surto de acne ou eczema quando estava estressado, conhece bem os efeitos do estresse na pele. “Nós costumávamos pensar na pele como um invólucro, mantendo nossas entranhas lá dentro e o resto cá fora”, compara Rick Fried, dermatologista e diretor clínico da Yardley Dermatology Associates, em Yardley, na Pensilvânia. “Ao longo dos anos, fomos percebendo que a pele é um órgão muito ativo – fica interagindo com o cérebro a cada instante.” Como resultado, quando você passa por estresse agudo ou crônico, o sistema imunológico da pele é ativado, o que promove inflamação, levando a um agravamento das condições da pele, como rosácea, psoríase, urticária e eczema.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FIBROMIALGIA: OS ASPECTOS PSICOLÓGICOS DA DOENÇA

Especialista comenta como a dor constante pode afetar o emocional dos pacientes

Imagine sentir dores intensas pelo corpo durante 24 horas do seu dia. Assim é a rotina de quem tem fibromialgia. “Essa condição pode levar à depressão e a transtornos de ansiedade. Isso decorre da cronicidade das dores e do difícil diagnóstico”, adverte o neuropsicólogo Fábio Roesler. Para ele, além do médico especialista, é preciso buscar o auxílio de um neurologista e psicólogo, pois se trata de um tratamento multidisciplinar.

As causas da fibromialgia são multifatoriais, com influências hereditária, emocional e ambiental. Entre os principais sintomas estão depressão, dor muscular difusa associada a distúrbio do sono, mas há ainda relatos de enxaqueca, síndrome do cólon irritável, parestesias, zumbido e vertigem. Para entender melhor o lado emocional da fibromialgia, falamos com a psicóloga Andrea Portnoi, coordenadora de Psicologia da Liga de Dor da Faculdade de Medicina da USP. Colaboradora do Grupo de Dor do HC, ela é também autora do livro Psicologia daDor.

A FIBROMIALGIA CAUSA DORES CRÔNICAS NAS ARTICULAÇÕES. COMO ESSE ESTADO FÍSICO PODE MEXER COM O LADO EMOCIONAL DAS PESSOAS?

A falta de indicadores físicos e informações sobre a doença leva muita gente a fazer uma via-crúcis pelos consultórios em busca de soluções. À medida que os sintomas permanecem, começam a interferir no trabalho, na convivência familiar e nos momentos de lazer. No início, a situação do paciente provoca preocupação e solidariedade entre os familiares que o cercam. Mas, à medida que a condição se mantém, a demora para obter um diagnóstico e/ou terapia efetivos faz com que horários antes dedicados a outras atividades comecem a ser usados para consultas, exames, sessões terapêuticas. A preocupação com a saúde física passa a ocupar um espaço cada vez maior. Projetos começam a ser paralisados. A fibromialgia passa a fazer parte da vida e a modificar o cotidiano do paciente. Expectativas de cura constantemente frustradas resultam em ressentimentos e vão tornando cada vez mais baixa a tolerância à frustração e à dor. Aparecem fantasias mágicas de cura. Ansiedade e hostilidade, são constantes, depressão e desamparo também.

COMO UM DIAGNÓSTICO DE FIBROMIALGIA ENTRA NA DINÂMICA FAMILIAR? E COMO AS FAMÍLIAS PODEM AJUDAR?

A incapacidade, a mudança de papéis e problemas financeiros poderão afetar adversamente os demais. Quando alguém da família se encontra incapacitado pela dor, as tarefas que antes eram suas precisarão ser redistribuídas, o que poderá resultar em sobrecarga para os outros ou em conflitos que vão alterar a dinâmica familiar. Em algumas famílias a condição dolorosa de um de seus membros pode desempenhar um papel estabilizador na medida em que se torna um recurso útil para escapar ou evitar conflitos familiares. O tempo e a energia dedicados ao problema da dor são como álibis que justificam e legitimam o adiamento e a evitação do enfrentamento de outros aspectos da vida e das relações humanas. Em muitas dessas famílias, cuidar da doença de um de seus membros pode ser a única maneira de continuar funcionando.

O SOFRIMENTO EMOCIONAL PODERIAS SER UM DOS AGENTES CAUSADORES DA DOENÇA?

A etiologia da fibromialgia ainda não está esclarecida. Boa parte dos doentes não consegue identificar com segurança eventos que possam ter iniciado seus sintomas. É mais provável que as alterações psicológicas sejam consequências da dor crônica.

E ONDE PROCURAR AJUDA?

A ajuda pode ser obtida com profissionais de saúde mental especializados em dor e em programas específicos realizados em hospitais-escola e clínicas-escola psicológicas. Alguns grupos de apoio a pessoas com SFM têm surgido espontaneamente, geralmente por iniciativa dos próprios pacientes.

OUTROS OLHARES

VEJA O QUE FAZER PARA AUMENTARA SEGURANÇA DO CELULAR E DE SEUS DADOS

Guarde esta publicação para ter um roteiro completo de como se prevenir, como agir para reduzir danos e como recuperar prejuízos

A ação de quadrilhas que roubam celulares e conseguem invadir contas bancárias digitais deixou usuários em alerta, e com receio de usar seus dispositivos nas ruas da cidade.

Hoje o risco representa menos a perda do aparelho em si e mais ter suas redes sociais, contas bancárias, aplicativos de compras e e-mails vasculhados pelos criminosos, o que pode afetar a vida pessoal e financeira das vítimas.

Na última semana, o agente de talentos Bruno de Paula, 36, viralizou no Twitter ao contar como criminosos conseguiram acessar suas contas bancárias, fazer transferências e pedir empréstimos depois de roubarem seu celular enquanto estava num táxi.

Essa prática de furto, chamada de “bote”, acontece quando os celulares são arrancados da mão da vítima, que geralmente está distraída e com o aparelho desbloqueado, facilitando o acesso aos aplicativos mais visados. A senha de desbloqueio dos celulares (PIN, senha escrita, biometria e Face ID) é a primeira barreira de segurança que os dispositivos oferecem, e uma das mais importantes, mas as medidas de segurança não param por aí.

Especialistas em segurança digital ouvidos dividem as dicas entre antes e depois de um possível roubo ou furto.

O antes consiste em aumentar a proteção geral do aparelho, dificultar o acesso a aplicativos e informações sensíveis e preparar o terreno para o pior cenário; o depois consiste em reduzir os danos e evitar prejuízos maiores.

REÚNA AS INFORMAÇÕES COMPLETAS E GUARDE-AS EM LOCAL ACESSÍVEL

• A primeira e principal dica para agir rapidamente é destinar tempo a aprender a fazer todos os passos sugeridos pelos especialistas, e anotar contatos, instruções e passos necessários em um local de fácil acesso

• Por mais que as dicas e cuidados pareçam lógicos e simples, na hora do incidente será difícil lembrar de todas elas.

AUMENTE A PROTEÇÃO DE SEU CELULAR

• Há diversas ferramentas para aumentar a segurança de seus dados e impedir que eles sejam usados em um eventual roubo, furto ou perda do seu celular.

• O passo a passo varia de acordo com o fabricante do aparelho, o sistema operacional e os aplicativos e sites usados, por isso vale a pena destinar um tempo para descobrir como implantar, no seu caso especifico, as proteções sugeridas

• Na internet é possível encontrar tutoriais específicos para iPhones e dispositivos Android.

• Não use a mesma senha para acessar contas diferentes. Crie uma para cada site e aplicativo, sem relação com informações pessoais (data de nascimento, nome da mãe) e composta de números, letras e símbolos.

• Para facilitar esse passo acima, você pode usar gerenciadores de senha, que funcionam como um “cofre de senhas” protegido por um padrão avançado de criptografia. A vantagem é que só é preciso memorizar uma senha, a do gerenciador; para encontrar todas as outras.

• Existem diversos gerenciadores de senha grátis. O RememBear oferece senhas ilimitadas em apenas um tipo de dispositivo (computadores ou dispositivos móveis, como celulares ou tablets), mas é ótimo para iniciantes. O Dashiane disponibiliza de graça 50 senhas em um dispositivo. O plano gratuito do Last Pass também se limita a um dispositivo, enquanto o Bitwarden oferece senhas ilimitadas em dispositivos ilimitados..

• Não deixe armazenadas no aparelho imagens de cartão de crédito, documentos, comprovantes de endereço e senhas de bancos, e-mails e sites

• Sempre use uma proteção para desbloquear o celular, seja por PIN (sequência numérica), senha escrita, biometria ou reconhecimento facial

• Diminua o tempo de bloqueio automático de tela. Quanto menor, maior sua segurança

• Ative a opção de inserir senha quando um app é acessado. Assim, mesmo se o dispositivo for roubado estando desbloqueado, será possível evitar a exposição de informações sensíveis

• Ative a senha do seu chip. Se a função for ativada, será necessário digitar essa senha toda vez que o usuário ligar o telefone ou colocar o chip em outro aparelho

• Guarde aplicativos com informações sensíveis em pastas seguras ou deixe-os ocultos

• Guarde em um lugar seguro ou memorize o login e senha das contas Google (Android) e iCloud (iOS) para poder acessar os dispositivos remotamente

• Habilite um segundo fator de autenticação em todos os serviços disponíveis, mas não tenha o e-mail de recuperação de senhas cadastrado no app do celular

• Desative o conteúdo de notificações de SMS e e-mail na tela debloqueio, para que não sejam exibidas informações de recuperação de senha, tokens e códigos de validação

• Aprenda como bloquear e apagar remotamente seu aparelho. Em iPhones, isso pode ser feito no iCloud; em dispositivos Android, podem ser usados os serviços do Google

• Escolha alguém de confiança para ter acesso ao sistema de bloqueio remoto do celular para apoiá-lo em caso de roubo ou furto

• Reduza o limite individual e diário das suas transações financeiras (Pix principalmente) e siga recomendações de segurança de sua instituição financeira

• Mantenha backups e aplicativos atualizados

PREPARE-SE PARA REAGIR RAPIDAMENTE

• Contate a operadora de celular para saber quem procurar e o que fazer para bloquear seu chip

• Anote previamente o IMEI do seu celular: esse código está anotado na caixa do aparelho, mas também é possível recebê-lo digitando *#06# no teclado do telefone. O número aparecerá na tela.

• Verifique previamente em seu banco de empresa de cartão de crédito quem procurar e o que fazer se precisar bloquear o acesso a suas contas

GESTÃO E CARREIRA

COMUNICAÇÃO INTERNA É LEGADO DA PANDEMIA E SE TORNA PRIORIDADE PARA O RH EM 2022

Diálogo com funcionário vira ferramenta para engajar; metade das empresas vê área como tema do ano, mostra pesquisa

A pesquisa anual “Tendências em Gestão de Pessoas”, do Great Place to Work (GPTW), apontou a comunicação interna como um dos principais temas a ser desenvolvidos pelas empresas em 2022, segundo 49,2% dentre os mais de 2,6 mil profissionais ouvidos na quarta edição do levantamento. De acordo com os entrevistados, a adoção dos formatos de trabalho híbrido, remoto e flexível continua sendo um desafio para as empresas, que precisam encontrar as tecnologias adequadas para manter o fluxo da comunicação e redesenhar processos para que todos se sintam contemplados na troca de informações.

Para o diretor de governança da startup Dialog.ci, Gabriel Kessler, a principal “dor” da comunicação interna sempre foi o alcance. “Chegar ao colaborador que está no campo, na fábrica, na loja ou na estrada é um desafio. E além de chegar, saber se a mensagem de fato foi entendida”, afirma.

Com a pandemia, ele fala que o desafio ficou mais complexo, pois a dificuldade que antes era “restrita” ao público operacional – entre aspas, segundo ele, porque o público operacional é a maioria dos funcionários – passou também para o time administrativo, que antes tinha uma comunicação muito mais fluida nos escritórios.

CAFEZINHO

“Depender de jornal, mural ou do cascateamento de informações via líderes não permite que a empresa saiba se a mensagem está chegando como e onde deveria”, diz Kessler. “Sabe aquele papo do cafezinho, o almoço de trabalho, a ideia no corredor? No Cubo (hub de startups do Itaú), isso era chamado de serendipidade. Com o home office, diminuiu muito. “São os prós e contras do novo modelo de trabalho”, diz ele. Se de um lado a área de RH e a comunicação fizeram esforços para promover encontros virtuais e estimular a integração, de outro o trabalho remoto dificultou práticas antes habituais.

“As ferramentas de produtividade remota e de teleconferência se desenvolveram muito nesse período, mas houve uma redução nos espaços de troca e geração de ideias.”

Com tantas mudanças no formato de trabalho, a líder de cultura e pessoas da CBYK, Juliana Dimário, fala que a comunicação interna passou a ser estratégica. “Antes, era uma área mais vista como custo, que só soltava comunicado. Com a pandemia, tivemos de buscar ferramentas mais assertivas, criar uma comunicação entre líderes e liderados, fazer a aproximação dos times”, explica. “A gente também passou a treinar os líderes para serem grandes comunicólogos, desenvolvendo soft skills como empatia e escuta ativa.”

No caso da CBYK, que tem hoje 280 empregados em formato híbrido, a executiva conta que o maior desafio foi conversar com aqueles que ficam alocados em clientes. “Em um primeiro momento, fizemos uma pesquisa para entender que assuntos faziam sentido para eles. E descobrimos que eram temas como saúde mental, educação emocional e financeira, saber mais da empresa”, diz. ”Mais do que encher a pessoa de informações, precisa saber do que ela precisa.”

Além de intensificar treinamentos, usar ferramentas como Teams e e-mail e criar um mural digital de elogios entre funcionários, a executiva apostou no que batizou de “rádio pirata do bem” – grupos de WhatsApp em que os próprios funcionários disseminam assuntos da cultura da empresa.

“Por exemplo, na nossa ação de Dia das Mães, perguntamos se seria difícil fazer um dia da pizza.  A ideia era mandar os kits com tudo para que as mães fizessem em casa e depois compartilhar a experiência. Das 20 mães que receberam o kit, 15 compartilharam. O envolvimento é um baita indicador de que a comunicação é efetiva.”

TRANSPARÊNCIA

Com quatro grandes marcas e 2,3 mil funcionários, a Edenred Brasil tem um time de sete profissionais que cuidam só da comunicação. “Quando todos foram para casa, a primeira ação foi criar um comitê multidisciplinar em que a comunicação interna tinha cadeira fixa para debates e estratégias”, relata Guilherme Almeida, gerente de comunicação interna.  “Não é uma caixinha fechada. A gente participa com o board da empresa, e a comunicação interna e externa andam juntas para que o colaborador não fique sabendo depois do mercado.”

Outro aspecto que foi impulsionado pela pandemia foi a maior humanização da comunicação, diz ele, que usou os executivos para se aproximarem dos colaboradores. “Foi, inclusive, no pico da pandemia que tivemos o maior crescimento de satisfação.”

SCORE A área também adotou como termômetro o NPS (Net Promoter Score), que mede o grau de satisfação e lealdade do capital humano. Almeida conta que o índice da Edenred chegou pela primeira vez à Zona de Qualidade em 2021, alcançando 57. O aumento foi de 7,6 pontos em relação a 2020. “É maravilhoso ter uma comunicação bonita e criativa, mas são os números que mostram a transformação”, diz. “As pesquisas de satisfação com a comunicação são importantes, mas a satisfação é subjetiva. Já o NPS mostra o quanto o colaborador assina embaixo e recomenda a empresa, além de permitir que a gente identifique promotores por estrutura e onde estão os problemas. “O gerente acredita ainda que estejamos entrando em uma era em que os funcionários terão cada vez mais poder sobre como querem interagir com a organização e receber seus conteúdos. “Aqui, a pessoa decide se quer seguir no Instagram, fazer parte da rede social interna global, participar das ações de engajamento”, exemplifica. Segundo ele, no ano passado houve mais de 7 mil compartilhamentos externos de conteúdos do grupo, todos feitos espontaneamente pelos empregados em suas redes sociais pessoais

COMO FAZER

TREINE OS LÍDERES

Para que a comunicação na empresa avance, os líderes devem ser treinados como bons comunicólogos; a comunicação é uma das soft skills (habilidades comportamentais) mais demandadas.

FALE COM OS FUNCIONÁRIOS

 Faça pesquisas internas para saber quais assuntos mais interessam aos empregados, como saúde mental e financeira.

USO DE FERRAMENTAS

Empregados também podem ajudar a decidir como preferem receber a comunicação da empresa, seja via Teams, e-mail ou outra ferramenta usada pela empresa. Se eles preferirem, grupos no WhatsApp também são uma opção.

COMUNIQUE PARA DENTRO

Não deixe seus funcionários saberem das novidades da organização primeiro pelo mercado, imprensa ou redes sociais. Eles devem ser a prioridade na gestão.

EU ACHO …

HIPOCRISIA

O mundo é dominado por hipócritas e continuamos nos horrorizando pelas mentiras contadas

O termo remete à falsidade. Pensamos no hipócrita como alguém que diz uma coisa e sente outra. Pode ser a pessoa diferente do que prega. Um fariseu, um dissimulado, uma pessoa de duas caras: eis a primeira aproximação do hipócrita. Outra boa aproximação é acompanhar discursos de alguns políticos.

Trato do termo em outro caminho. Somos obrigados a elaborar e cumprir regras pela vida em sociedade. A tendência da norma é funcionar para o interesse coletivo. Claro, aqui e ali, o dispositivo fica autônomo e cumpri-lo passa a ser o objeto em si, independente do que o gerou e seus objetivos.

Explico-me. Durante a pandemia, as companhias aéreas tiveram de seguir novas diretivas. Eram boas medidas de segurança: quando o avião pousava, todos deveríamos aguardar em grupos para desembarcar. Terminava o lufa-lufa tradicional e forçava-se, com motivos sanitários corretos, um modelo mais lento e mais seguro para sair da aeronave. A regra é muito boa. Problemas: a) estávamos encostados uns nos outros dentro do avião. Ao meu lado, duas pessoas desconhecidas que roçaram no meu braço por uma, duas ou três horas. Passamos a descer de cinco e cinco fileiras e ficamos de pé junto a pessoas de cinco fileiras (cada uma, em média, com 6 lugares, logo, 30 pessoas). Seria mais seguro estar apertado de pé com 30 pessoas. Ainda mais grave: muita vez vamos do avião para um ônibus. Depois de termos descido com ordem e metodicamente, civilizados e obedientes, voltamos a aglomerar um ao lado do outro, apertado, dezenas de pessoas. Qual a utilidade da regra de descida? Alimentar nossa hipocrisia, suprir a cena pública, destacar a teatralidade sanitária social. É importante o isolamento social? Fundamental! Seria bom que não aglomerássemos? Sem dúvida! O que ocorre ao chegar difere de tudo que desejávamos.

Não se pode tirar a máscara durante o voo. Sabemos ser medida adequada, bem concebida e defensável ao extremo. A não ser … que estejamos bebendo água. Minha vizinha de assento hidratou-se por 50 minutos, de Congonhas ao Santos Dumont. Bebericava em quantidades homeopáticas cada precioso gole e, assim, não precisou de máscara durante todo o trajeto. Uma estratégia? Uma sede intensa? Alguém que lutava contra a desidratação ou que tinha angústia com o uso da máscara. Nunca saberei, todavia, coloco na conta da hipocrisia. Se ela estivesse sem o copo na mão, poderia ser alvo de todas as críticas e até forçada a desembarcar se o avião estivesse no solo. O copo vira um habeas corpus, uma suspensão da pena e da moralidade sanitária.

Vivemos da cena pública. A cozinheira toca centenas de vezes nos alimentos ao prepará-los. Quando chegam até a mesa, usam-se luvas, garfos, colheres e outras coisas para simbolizar o caráter asséptico e imaculado ali, na minha frente. Equivale a um atestado de pureza depois de uma vida pouco recomendável. Precisamos ver o cuidado de higiene. Não é necessário que ele tenha existido há 15 minutos. Nossa demanda por hipocrisia existe.

O objetivo da crônica não é a denúncia. Poucas coisas são tão hipócritas como a denúncia. O objetivo é entender a teatralidade da nossa exigência, as regras sem sentido que implantamos e a necessidade que cada um de nós, a começar por mim, estabelece para aceitar que as coisas funcionem.

Há um filme histórico que se passa em 1610, por exemplo. Eis que, sobre a mesa, o observador arguto nota um relógio e identifica um grave erro: um ponteiro de minutos. Faltavam ainda mais de 50 anos para que surgisse o ponteiro dê minutos! Filme anacrônico! Erro! Absurdo! O observador indica o dislate, publica nas redes, denuncia e escreve aos produtores. Todo o fato de que estamos gravando em um estúdio com luzes elétricas e câmeras digitais e que as falas são produzidas em um computador e apresentadas por pessoas do século 21 é irrelevante. Preciso que não exista o ponteiro de minutos para eu acreditar. De alguma forma, é nossa hipocrisia teatral. Importa o que está na regra, na minha frente no restaurante ou diante das câmeras. Hipocrisia exige a cena pública e ignora o resto. Hipócritas são atores no sentido negativo do termo.

Com exceção de você, querida leitora, e também de você, estimado leitor, o mundo é dominado por hipócritas. Continuamos nos horrorizando pelas mentiras contadas e, pista importante, reações incensas revelam muito sobre nossos medos e sombras.

Confesso, para encerrar, antiga inveja. Tive um colega professor que recusava convites inconvenientes com histórias tão comoventes que a pessoa o dispensava com lágrimas nos olhos. Eu, incapaz de inventar algo, lá estava no batizado que durava horas e com muitas pessoas. A cada olhada no relógio quase imóvel, tinha um pouco de desejo de ter o dom do meu colega, um pouco de raiva de mim ou de quem tinha me convidado para aquele sofrimento interminável. Tenho inveja do hipócrita bem resolvido que, geralmente, é conhecido como muito educado. Até a hipocrisia comporta esperança, afinal, ela já foi definida como a homenagem do vício à virtude.

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

CONHEÇA AS CAUSAS DO RONCO E OS TRATAMENTOS QUE PODEM ALIVIAR O TORMENTO NOTURNO

De protetor bucal à cirurgia, passando por novos hábitos, as orientações médicas para eliminar o incômodo variam de acordo com a gravidade

O ronco ocorre quando os músculos da língua, céu da boca e garganta relaxam e comprimem o fluxo de ar. Segundo o cientista Kent Smith, que é especialista em sono, o barulho acontece porque, sem conseguir respirar completamente, o corpo vibra para tentar ajudar a passagem de ar – e, a partir desta vibração, surge o som do ronco.

Os homens são cerca de duas vezes mais propensos a roncar do que as mulheres, e isso pode ser causado por uma série de fatores, incluindo alergias, envelhecimento, resfriado ou até mesmo o formato distinto da garganta. O peso também desempenha um papel importante.

“Há tecidos que, com o tempo, ao ganhar peso ou envelhecer, por exemplo, ficam um pouco menos tonificados. São eles que tendem a obstruir as vias aéreas”, disse Smith, ex presidente da Academia Americana de Sono e Respiração.

O ar excessivamente seco ou úmido pode agravar o ronco, assim como dormir em grandes altitudes. Dormir de costas ou ingerir álcool antes do sono costumam piorar, relaxando ainda mais os músculos e permitindo que a língua feche a garganta e restrinja o ar.

O ronco em si não é uma doença. No entanto, às vezes pode ser um sinal de apneia do sono, uma condição potencialmente grave, que faz com que a respiração pare e recomece repetidas vezes, impedindo um período de descanso decente. Também pode aumentar o risco de pressão alta e até de insuficiência cardíaca.

Muitos roncadores não têm nenhum problema de saúde. De acordo com Julie Chang, otorrinolaringologista da Universidade da Califórnia, esta pode ser apenas uma parte de um espectro de distúrbios de sono.

“A maioria das pessoas com apneia do sono ronca, mas roncar por si só não significa que você tenha apneia”, explica Chang.

Se você não tem certeza se ronca, baixe um aplicativo de gravação e o ative enquanto dorme. Ele começará a gravar quando detectar ruídos e, na manhã seguinte, será possível ouvir os próprios sons.

Uma vez que você sabe que ronca, mesmo que pouco, pode valer a pena fazer um teste de sono, indica Smith. Na maioria das vezes, o primeiro é feito em casa e dirá se o seu ronco é sintoma de um problema maior, como apneia.

RONCO LEVE

Um roncador leve pode fazer barulho à noite, mas ter o sono interrompido apenas ocasionalmente. Ainda assim, existem medidas que podem servir para ajudar a diminuir o ruído.

MUDE A POSIÇÃO: estudo israelense indica que cerca de metade dos roncadores com apneia do sono pararam quando mudaram de posição. Há travesseiros disponíveis para ajudar a dormir de um lado especifico e camisas que tornam mais desconfortável deitar de costas, por exemplo.

FORTALEÇA A LÍNGUA: Uma das causas mais comuns de ronco é quando a língua desliza para trás na garganta. A maneira mais simples de ajustar isso é com um conjunto diário de exercícios. Mas Chang disse que pode levar semanas para fazer efeito e a maioria das pessoas não é diligente em mantê-la.

Há também diversos dispositivos antirronco disponíveis para compra online, a maioria    totalmente inúteis. Tiras de queixo ou nariz, clipes e dilatadores de narinas – tenha cuidado com eles, alerta Chang, pois não funcionam para todos. Um umidificador pode ajudá-lo a dormir melhor hidratando o nariz e a garganta, mas provavelmente não vai parar o ronco.

RONCO MODERADO

Se a análise do seu sono sugerir que seu ronco é moderado, ou seja, que a falta de ar está interrompendo seu sono mais de 15 vezes por hora, você deve consultar um médico do sono, pneumologista ou especialista em ouvido, nariz e garganta.

Eles podem recomendar:

MÁQUINA DE CPAP (pressão positiva contínua nas vias aéreas): Este é um dispositivo que se conecta ao nariz sozinho ou em conjunto com a boca para aumentar a quantidade de ar que passa pela garganta.

PROTETOR BUCAL: Ajuda a posicionar a mandíbula um pouco para a frente para que a língua não possa deslizar pela garganta. É mais conveniente do que um tubo preso ao seu rosto, mas requer um dentista qualificado. Evite protetores baratos e vendidos sem receita, porque não funcionarão a menos que sejam calibrados.

PERDA DE PESO: O índice de massa corporal está conectado ao ronco e à apneia do sono, embora cada garganta seja diferente. Perder peso diminuirá a pressão na traqueia e permitirá que mais ar passe.

RONCO GRAVE

As chances são muito altas de que roncadores extremamente altos sofram de apneia. Se um teste indicar que seu ronco está afetando seu sono mais de 30 vezes por hora, você pode ter problemas mais sérios, como doenças cardíacas, além da falta de sono que ocasiona depressão e ansiedade.

Quando se chega a níveis graves de apneia, o CPAP é mais indicado. Além dele, uma série de procedimentos cirúrgicos – envolvendo implantes ou alterações na língua ou no palato mole – pode ajudar um roncador grave, mas só se os CPAPs falharem. A cirurgia deve ser a última opção.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A PUBERDADE COMEÇA CADA VEZ MAIS CEDO. POR QUE?

Em alguns casos, o surgimento das mamas tem início em meninas de 7 anos de idade. Estudos vêm sendo feitos para entender as causas e apontam obesidade, produtos químicos e estresse como principais hipóteses

Marcia Herman-Giddens notou pela primeira vez que algo estava mudando no desenvolvimento das meninas no final da década de 1980, quando trabalhava como diretora da equipe de abuso infantil no Centro Médico da Universidade Duke, nos EUA. Durante avaliações de meninas que foram abusadas, ela notou que muitas delas começaram a desenvolver seios aos 6 ou 7 anos.

“Isso não parecia certo”, afirma Herman-Giddens, que agora é professora adjunta da Escola de Saúde Pública da Universidade da Carolina do Norte.

Na época, ela se perguntou se as meninas com desenvolvimento precoce dos seios eram mais propensas a serem abusadas sexualmente, mas não encontrou nenhuma informação sobre o início da puberdade em meninas nos EUA.  Foi então que ela decidiu pesquisar o assunto por conta própria.

Uma década depois, publicou um estudo com mais de 17 mil meninas que foram submetidas a exames físicos em consultórios de pediatras de todo o país. Os números revelaram que, em média, as jovens da década de 1990 começaram a desenvolver os seios, que geralmente são o primeiro sinal da puberdade, por volta dos 10 anos. Já no caso das meninas negras, a idade caia para 9 anos.

A comunidade médica ficou chocada com as descobertas e muitos duvidaram de uma descoberta dramática feita por uma médica-assistente desconhecida, lembra Herman Giddens.

Mas o estudo acabou sendo um divisor de águas na compreensão médica sobre a puberdade. Pesquisas das décadas seguintes confirmaram, em dezenas de países, que a idade da puberdade feminina caiu cerca de três meses por década desde os anos 1970. Um padrão semelhante, embora menos extremo, também foi observado em meninos.

A puberdade precoce pode ter impactos prejudiciais, especialmente para as meninas, que passam a ter maior risco de depressão, ansiedade, abuso de substâncias e outros problemas psicológicos. Além disso, elas também podem ter maior predisposição de desenvolver câncer de mama ou uterino na idade adulta.

Entretanto, ninguém sabe qual o fator de risco – ou, mais provavelmente, qual combinação de fatores – está impulsionando o declínio da idade. Além disso, as diferenças gritantes baseadas em raça e sexo também são um mistério. A obesidade parece desempenhar um papel, mas não dá conta de explicar totalmente a questão.

Os pesquisadores têm investigado outras possíveis causas, incluindo produtos químicos encontrados em plásticos, e o estresse. Na pandemia, os estudiosos relataram um aumento no número de casos de puberdade precoce.

“Estamos vendo essas mudanças marcantes em todas as nossas crianças, e não sabemos como evitá-las. Não sabemos qual é a causa”, diz Anders Juul, endocrinologista pediátrico da Universidade de Copenhague, que publicou dois estudos recentes sobreo fenômeno.

OBESIDADE

Quando Herman-Giddens publicou seu estudo de referência, o grupo de pesquisa de Juul examinou o desenvolvimento da mama em cerca de 1.100 meninas da Dinamarca. Ao contrário das crianças americanas, o grupo analisado correspondia ao padrão que há muito já era descrito nos livros de medicina: os seios delas se desenvolviam, em média, a partir dos 11 anos.

Na época, Juul sugeriu que o início precoce da puberdade nos EUA provavelmente estaria ligado ao aumento da obesidade infantil. Muitos estudos desde a década de 1970 estabeleceram que as meninas com sobrepeso ou obesidade tendem a menstruar mais cedo do que as meninas de peso médio. Em 2021, pesquisadores do Reino Unido descobriram que a leptina, um hormônio liberado pelas células de gordura que limita a fome, agia em uma parte do cérebro que também regulava o desenvolvimento sexual.

“Hoje, não acho que ainda exista muita controvérsia sobre a relação entre obesidade e a puberdade precoce”, diz Natalie Shaw, endocrinologista pediátrica do Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental que estudou os efeitos da obesidade na puberdade.

Ainda assim, segundo ela, muitas meninas que se desenvolveram mais cedo não estão acima do peso.

Nos anos 1990, Juul começou a notar um aumento no número de pessoas com puberdade precoce em Copenhague, principalmente de meninas que estavam desenvolvendo os seios aos 7 ou 8 anos. Foi aqui que um sinal vermelho acendeu, ele conta.

PRODUTOS QUÍMICOS

Em 2009, uma pesquisa com quase mil meninas em idade escolar na Dinamarca descobriu que a idade média de desenvolvimento dos seios caiu um ano desde o estudo anterior, com a maioria das meninas variando entre 7 a 11 anos. As jovens também estavam menstruando mais cedo, por volta dos 13 anos, cerca de quatro meses antes do que havia sido relatado antes.

“Essa é uma mudança muito marcante em um período muito curto de tempo”, explica Juul.

Mas, ao contrário dos médicos nos EUA, ele não achava que a obesidade fosse a culpada:  o índice de massa corporal das crianças dinamarquesas não era diferente do que havia sido na década de 1990. Então, Juul tornou-se um dos defensores de uma teoria alternativa: a de que a exposição a produtos químicos é a culpada.

No estudo de 2009, as meninas com desenvolvimento mamário precoce tinham níveis mais altos de ftalatos na urina, substâncias usadas para tornar os plásticos mais duradouros, encontradas em praticamente tudo, desde pisos vinílicos a embalagens de alimentos, por exemplo.

Os ftalatos pertencem a uma classe mais ampla de produtos químicos chamados “desreguladores endócrinos” que podem afetar o comportamento dos hormônios e se tornaram onipresentes no meio ambiente nas últimas décadas. No entanto, a falta de dados levou muitos cientistas a serem céticos em relação a esta teoria.

ESTRESSE E ESTILO DE VIDA

O abuso sexual na primeira infância também tem sido associado ao início precoce da puberdade. Estresse e trauma podem antecipar o desenvolvimento nas meninas, ou, como Herman-Gidden supôs décadas atrás, as jovens que se desenvolveram basicamente mais cedo podem ser mais vulneráveis ao abuso.

As meninas cujas mães têm histórico de transtornos de humor também parecem mais propensas a atingir a puberdade precocemente, assim como as que não moram com seus pais biológicos, fatores de estilo de vida, como a falta de atividade física, também têm sido associados a mudanças no momento da puberdade.

OUTROS OLHARES

A PELE QUE HABITO

Tatuagem redesenha vida de mulheres marcadas pela dor

Os traumas do abuso psicológico e da violência doméstica do antigo casamento deixaram cicatrizes no corpo e na alma da copeira Liliana, de 50 anos. Após levar três facadas e se automutilar na tentativa de fugir das agressões, o simples ato de se olhar no espelho passou a ser uma volta dolorosa ao passado. Em busca de ressignificar suas dores, em fevereiro deste ano, ela tatuou um leão no braço e encobriu uma das cicatrizes. A técnica artística usada para dar novo significado a corpos mutilados pela dor ou pelas cicatrizes, que começou a se popularizar no Brasil nos últimos quatro anos, tem redesenhado histórias de vida de mulheres como Liliana.

A recuperação do amor próprio através do traço de artistas também tem sido cada vez mais por vítimas de acidentes, doenças ou até mesmo de cirurgias mal feitas. Liliana optou pelo simbolismo da força do leão para amenizar marcas de automutilação no braço direito. Com uma borboleta amarela na cabeça, o animal virou uma espécie de alter ego dela.

“Escolhi fazer o leão pois além de achar um animal lindo, representa força e respeito. Depois de 26 anos de um casamento sufocado por humilhações, ele era o que precisava para me sentir forte e respeitada”, relata a copeira, que preferiu não divulgar o sobrenome, e atualmente vive sob medida protetiva após ter sido vítima de tentativa de feminicídio, em 2019, quando só não foi morta porque o filho a salvou do ex-marido que, revoltado, ateou fogo no prédio em que ela morava destruindo seis apartamentos.

CICATRIZ DESDE OS 8 ANOS

Liliana é uma das mulheres atendidas pelo projeto social We Are Diamonds, que já fez mais de 180 tatuagens gratuitas. Criada pela tatuadora Karlla Mendes, a iniciativa surgiu em 2017, após ela receber a proposta de produzir uma arte em cima de uma marca cirúrgica. Karlla estudou por conta própria e, atualmente, tem a ajuda de um cirurgião plástico e de uma dermatologista para avaliar cada tipo de pele dos clientes, que são na maioria mulheres. Ela estará na próxima Tatoo Week, a maior convenção de tatuagem do mundo, que acontece no Rio de Janeiro, para ensinar sobre o procedimento.

“Como muitas cicatrizes têm relevos ou buracos, é preciso analisar o tipo de desenho que se encaixa melhor, aproveitando a estética aprofundada para fazer tons sombreados, e direcionar a luz para outras partes. É realmente uma arte que dá vida para nós que fazemos e para quem é tatuado”, diz a tatuadora.

Também beneficiada pelo projeto, a bibliotecária Valéria Festa, de 52 anos, foi atropelada por um carro em alta velocidade aos 8 anos. O forte impacto quebrou sua perna esquerda em dois lugares (joelho e fémur), e gerou uma fratura exposta. Após oito cirurgias e um ano internada, devido às complicações de uma infecção. Valéria ganhou no Dia Internacional da Mulher deste ano uma tatuagem de flores sobre as cicatrizes que têm desde o Dia das Crianças de 1978. O desconforto que sentia ao olhar o resultado do acidente agora não existe mais.

“Me perguntaram se doeu. De verdade? Não! As dores, eu senti lá no passado. Agora, são transformação e ressignificação. Me perguntaram também se quis me livrar das cicatrizes por causa dos olhares das outras pessoas, mas fiz por mim”, afirma.

Os primeiros registros da tatuagem no Brasil datam da chegada dos portugueses ao país, quando o escrivão Pero Vaz de Caminha observou a pintura corporal presente na cultura indígena.

Por séculos e séculos, o preconceito contra os povos originários fez com que a tinta sobre a pele fosse sinônimo de imoralidade, especialmente entre as mulheres, de acordo com a professora e mestre em sociologia Luana Thaísa Pedrosa.

“A mulher tatuada sempre foi associada à promiscuidade, a partir da ideia de que no século XVI as indígenas que se pintavam ficavam nuas. A nudez na cultura ocidental e católica que colonizou o Brasil sempre foi vista como falta de pudor. Tanto que associaram a prática ao pecado. No homem, essa cultura sempre foi mais normalizada”, pontua a socióloga, acrescentando que a tatuagem só começou a ser culturalmente aceita nos últimos 20 anos, com o fortalecimento do movimento feminista. “A tatuagem cria novos padrões de beleza por ter diferentes estilos. A mulher que sofre violência doméstica não é dona do próprio corpo, os maridos as proíbem de sair, de usar determinadas roupas. Quando ela coloca uma tatuagem por cima da cicatriz, passa a decidir o que vai fazer com o seu corpo, além de cobrir um sofrimento que viveu. É uma carta de alforria.

HOMEM TRANS É ADEPTO

Também especialista em tatuar cicatrizes, Flávia Carvalho explica que o tempo médio de espera para fazer a tatuagem é de cerca de um ano e meio após o acidente, até que o ferimento esteja completamente cicatrizado. Idealizadora do projeto social “A Pele da Flor”, criado em 2015, a profissional, que é autodidata e atua em Curitiba (PR), já atendeu 290 mulheres vítimas de violência doméstica – ela mesma foi vítima -, mastectomia e automutilação:

“Decidi doar o meu trabalho. Já carregamos peso psicológico além do possível. Até o momento, Flávia só atendeu dois homens trans que passaram pela mastectomia masculinizadora.

GESTÃO E CARREIRA

LICENÇA MENSTRUAL PODE MELHORAR A QUALIDADE DE VIDA E A PRODUTIVIDADE

Sintomas como cólica intensa, enjoo e dor de cabeça são os mais comuns; mulheres relatam dificuldades que enfrentam durante o período

Nos próximos dias, a Espanha pode se juntar ao grupo de países que oferecem licença remunerada para mulheres no período menstrual, como já acontece no Japão, Taiwan, Indonésia, Coreia do Sul e Zâmbia. No caso espanhol se aprovada, a lei permitirá três dias de folga para quem tem uma menstruação dolorosa.

Além da cólica, há uma série de sintomas que podem tornar a menstruação desconfortável para algumas pessoas. De acordo com a ginecologista e obstetra Larissa Cassiano, os mais comuns são dor abdominal, cólica, dor de cabeça, enjoo, irritação, mudança no sono e dor na mama.

Há também aquelas que sofrem por doenças crônicas que podem tornar as dores mais intensas no período.

É o caso da secretária-executiva Shirley Martins, 28, que tem endometriose. A condição se desenvolve quando o tecido que reveste o interior do útero se encontra fora da cavidade uterina, normalmente em outros órgãos da pelve como trompa, ovários, intestinos e bexiga. De acordo com ela, a cólica intensa, a dor de cabeça e o enjoo que sente no período geram indisposição.

“Preciso sempre :alterar minha rotina para ficar em função do ciclo. Não consigo fazer muita coisa”, diz.

Assim como ela, a professora de história, Luzia de Souza, 56, também passou anos alterando sua rotina devido às dores menstruais.

Ela tinha 13 anos quando sentiu o desconforto pela primeira vez. “Acordei bem indisposta, passei a noite sentindo enjoo, dor na cabeça e algo como dor, como gases. Minha mãe me obrigou a ir para a escola assim mesmo e foi um dia horrível”.

“Foram anos de perdas. Deixei de sair com as amigas, ir a festas, viajar, faltei ao trabalho inúmeras vezes”, conta Luzia, que só deixou de sentir dor aos 36 anos após um tratamento para endometriose. Além de lidar com sintomas físicos e psicológicos, ainda há o machismo e o desconhecimento das lideranças das empresas que ignoram a intensidade dos sintomas.

“Uma vez, um chefe homem me disse que era castigo divino para nós, mulheres, que eu teria de suportar, porque ele tinha esposa, mãe e irmãs e nunca as viu reclamar disso”, relata Shirley.

A situação ainda pode se agravar quando se trata de pessoas transgênero e não binárias, atingidas pela transfobia que faz com que a situação de seus corpos seja ignorada por chefes e também por profissionais de saúde.

De acordo com pesquisa feita em 2018 pela marca de absorventes Sempre Livre em parceria com os Institutos Kyra e Mosaiclab com mulheres que menstruam regularmente e que tem entre 14 e 45 anos, 51% das brasileiras sentem mal-estar intenso durante a menstruação.

O impacto disso é que 1 em cada 10 deixa de ir para escola, ou para o trabalho e apenas 26% se sentem produtivas no período menstrual.

“Trabalhar com dor reduz a produtividade e foco de maneira significativa. Além disso, nesse momento, muitas pessoas ficam mais sonolentas ou com mudanças na menstruação, fatos que interferem diretamente no trabalho”, aponta a ginecologista.

Foi pensando em assegurar qualidade de vida das sócias e da equipe que a Pachamama, empresa que fabrica produtos e cosméticos naturais em Minas Gerais, oferece a “Folga da Lua”, que consiste em um dia de licença remunerada no período menstrual.

A decisão de estabelecer esse momento veio junto com o nascimento da empresa. “Desde o primeiro dia, a gente alinhou que daríamos folga menstrual e quando tivéssemos funcionárias ofereceríamos para elas também. Entendemos que nós, pessoas que menstruam, somos seres cíclicos”, afirma Carol Neves, CEO da empresa.

Tanto especialistas quanto pessoas que menstruam concordam sobre a importância de uma pausa mensal.

Para Cassiano, permitir um afastamento neste período pode trazer uma melhora global na produtividade”.

EU ACHO …

O CENTRO DAS ATENÇÕES

Os cientistas estudam e pesquisam incansavelmente para obter vacinas contra o câncer, contra a Aids e tantas outras soluções que aplaquem as doenças que nos rondam. Enquanto isso, os psicanalistas tentam aliviar nossas dores da alma, nossos solavancos do coração. Mas como nem todos os que sofrem têm condições de pagar visitas ao divã, tentam sozinhos descobrir a cura para este mal que já afligiu, aflige ou ainda irá afligir 100% da população: a dor de cotovelo.

Como amor é assunto recorrente na minha trajetória, muitos acham que tenho a fórmula mágica para aniquilar os abalos provocados pela paixão. Tenho nada. Tenho são os meus palpites. E uma antena que capta frases, depoimentos, tudo o que possa ajudar. Um dia desses, uma leitora me escreveu um e-mail simpático, dizendo que havia lido ou escutado em algum lugar uma coisa que ela achava que fazia sentido: “O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada, o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções”.

Faz, sim, todo o sentido. Na hora da saudade, da tristeza, do desamparo, é com ele que contamos: o tempo. Queremos dormir e acordar dez anos depois curados daquela ideia fixa que se instalou no peito, aquela obsessão por alguém que já partiu de nossas vidas. No entanto, tudo o que nos invadiu com intensidade, tudo o que foi real­ mente verdadeiro e vivenciado profundamente, não passa. Fica. Acomoda-se dentro da gente e de vez em quando cutuca, se mexe, nos faz lembrar sua existência. O grande segredo é não se estressar com este inquilino incômodo, deixá-lo em paz no quartinho dos fundos e abrir espaço na casa para outros acontecimentos.

Nossas atenções precisam ser redirecionadas. Ficar olhando antigas fotos, relendo antigas cartas ou lembrando antigas cenas é tirar a dor do quarto dos fundos e trazê-la para o meio da sala. Evite. O tempo só será generoso à medida que você usá-lo para fazer coisas mais produtivas: procurar amigos sumidos, praticar um esporte, retomar um projeto adiado, viajar. As atenções têm que estar voltadas para os lados e para a frente. O quartinho dos fundos tem que ficar fechado uns tempos, a dor mantida em cativeiro, sem ser alimentada. Amores passados contentam-se com migalhas e sobrevivem muito: ajude-se, negando-lhe qualquer banquete. A fartura agora tem que ser de vida nova.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

ÁLCOOL ELEVA O RISCO DE ARRITMIA

Consumo está relacionado à probabilidade de pessoas com histórico familiar terem episódio de fibrilação auricular

Um estudo concluiu que o consumo de álcool, mesmo que seja apenas uma latinha de cerveja ou uma taça de vinho, pode em pouco tempo elevar a risco de um tipo comum de arritmia cardíaca, a fibrilação auricular em pessoas que já tenham um histórico desse problema. Médicos já desconfiavam há algum tempo que havia um vínculo entre álcool e fibrilação auricular, mas até agora não tinham evidência definitiva de que a bebida pode provocar arritmia.

O novo estudo é um dos mais rigorosos até o momento: os pesquisadores recrutaram cem pessoas com histórico de fibrilação auricular e as acompanhou intensivamente por quatro semanas, monitorando sua ingestão de álcool e seus ritmos cardíacos em tempo real.

Os cientistas descobriram que o consumo de bebida alcoólica eleva a probabilidade de as pessoas terem um episódio de fibrilação auricular, ou arritmia cardíaca nas horas seguintes. E, quanto mais bebida, maior a probabilidade.

O estudo foi publicado em agosto de 2021 no periódico Analls of Internal Medicine. Somadas a dados de estudos anteriores, as conclusões sugerem que pessoas com um histórico de fibrilação auricular podem reduzir suas chances de apresentarem arritmias se diminuírem ou evitarem a ingestão de álcool.

Os autores especulam que as conclusões podem ter implicações mais amplas também para adultos saudáveis.

Embora o consumo moderado de álcool seja visto amplamente como sendo benéfico para a saúde do coração, a nova pesquisa mostra que, em algumas pessoas, o álcool tem o potencial de perturbar o funcionamento cardíaco.

“Isso demonstra que, sempre que ingerimos álcool isso presumivelmente tem um efeito quase imediato sobre o funcionamento elétrico do coração”, disse Gregory Marcus, um dos autores do estudo e professor de medicina na divisão de cardiologia na Universidade da Califórnia em San Francisco (EUA).

A fibrilação auricular é a anormalidade de ritmo cardíaco mais comum. Estimam que afeta 13 milhões de adultos, nos Estados Unidos. Ela ocorre quando as câmaras superiores do coração, os átrios, começam a bater de modo irregular, o que pode perturbar o fluxo de sangue para as câmaras inferiores, os ventrículos.

Com o tempo, isso pode levar a comparações como falência cardíaca e derrames. A fibrilação auricular pode ser persistente ou pode ocorrer esporadicamente com sintomas como palpitações, falta de ar, fadiga que durem alguns minutos ou algumas horas. Quando os episódios ocorrem ocasionalmente, a condição é conhecida como fibrilação auricular paroxística. As pessoas têm propensão maior a desenvolver fibrilação auricular quando envelhecem e a condição também ocorre com mais frequência em pessoas com hipertensão, doença cardíaca, obesidade ou um histórico familiar de arritmias.

Cerca de quatro décadas atrás, médicos começaram a documentar casos de pessoas que apresentaram arritmias após sessões de consumo intensivo de álcool nos fins de semana ou feriados, um fenômeno que ficou conhecido como síndrome do coração pós-feriados.

Desde então, vários grandes estudos observacionais constataram que pessoas que consomem álcool regularmente, mesmo que seja apenas uma dose por dia, têm propensão maior de desenvolver fibrilação auricular quando comparadas a pessoas que se abstêm.

Muitos desses estudos anteriores tiveram deficiências importantes. Na maioria dos casos, dependiam de os participantes relatarem sua própria ingestão de álcool o que nem sempre é confiável.

Outra limitação é que quando se pede às pessoas que recordem um episódio de fibrilação auricular, elas podem equivocadamente identificar vários comportamentos diferentes como gatilhos. Mas o novo estudo foi projetado para contornar essas limitações. Marcus e seus colegas recrutaram cem pessoas, na maioria homens com histórico de fibrilação auricular paroxística, e as fizeram usar monitores de eletrocardiograma que monitoraram seu ritmo cardíaco 24 horas por dia. Os aparelhos têm um botão que os participantes foram instruídos a pressionar sempre que tomavam uma bebida alcoólica. Os pesquisadores também usaram outros meios objetivos para monitorar a ingestão de álcool. Eles equiparam os pacientes com tornozeleiras que podiam detectar o nível de álcool no sangue. Fizeram também exames de sangue rotineiros para medir os níveis de fosfatidiletamol, um biomarcador que traz algum indicio do consumo alcoólico recente de uma pessoa.

Durante quatro semanas de monitoramento, os pesquisadores descobriram que pelo menos 56 participantes sofreram um episódio de fibrilação auricular. Os dados indicaram que em muitos casos o álcool tinha sido o gatilho das arritmias.

Uma dose de álcool dobrava as chances de uma pessoa ter um episódio de fibrilação auricular nas quatro horas seguintes e duas doses ou mais as triplicavam.

Mariana R. Piano, pesquisadora que já publicou muitos estudos sobre álcool e saúde cardiovascular, e que não esteve envolvida no novo estudo, disse que as descobertas representam um avanço importante em nosso entendimento de como o álcool afeta o coração.

Ela disse que os médicos precisam conversar com seus pacientes, especialmente os que têm fibrilação auricular, sobre quanto álcool consomem e se seria prudente reduzir seu consumo ou cortá-lo.

“A fibrilação auricular é uma arritmia cujos efeitos podem afetar a vida das pessoas profundamente, como por exemplo provocar um derrame. Por isso é muito importante poder transmitir aos nossos pacientes que fatores podem ter gatilhos realmente agudos”, disse Piano, que é professora e diretora associada de pesquisas na Escola de Enfermagem da Universidade Vanderbilt.

 “Beber é algo que podemos monitorar e podemos modificar individualmente. É algo para o qual é fácil prestar atenção”, afirma. Mas ela qualificou o estudo de rigoroso e disse que as descobertas são oportunas porque a incidência de fibrilação auricular vem subindo rapidamente.

Segundo os COC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças), até 2030 a estimativa é que 12,1 milhões de pessoas nos EUA tenham fibrilação auricular. Piano disse que os médicos devem explicar a seus pacientes que tomam álcool como praticar a “ingestão alcoólica de baixo risco”, uma definição feita pelo Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo.

Para mulheres, isso significa tomar não mais que três doses de álcool em qualquer dia e no máximo sete doses por semana. No caso dos homens, a ingestão de baixo risco significa um máximo de 14 doses semanais e não mais que quatro doses em um dia.

O governo americano define uma dose, padrão como 340 ml de cerveja comum, 150 ml de vinho ou 45 ml de bebida destilada (com teor alcoólico de 40%).

Gregory Marcus, da UCSF, disse que as conclusões do estudo são potencialmente empoderadoras para pessoas com fibrilação auricular porque sugerem que existe uma maneira de controlarem um gatilho importante de arritmias. “Isso mostra que esses eventos de fibrilação auricular não se devem ao acaso e que há fatores que podem ser modificados para reduzir a chance de um episódio ocorrer”.

Isso não significa, é claro, que todo o mundo que bebe acabará tendo problemas do coração. Mas, disse Gregory, para as pessoas que já têm histórico de arritmia, as descobertas indicam que devem evitar a ingestão excessiva de álcool.

A PSIQUE E AS PSICOLGIAS

LINGUAGEM CORPORAL DOS PETS PODE INDICAR SINAL DE ESTRESSE

Lamber os lábios, bocejar ou levantar uma pata dianteira são possíveis alertas

A minha é uma das cerca de 23 milhões de famílias americanas que adotaram um animal de estimação durante a pandemia, e Ozzy, nosso novo e amado mestiço de pastor alemão, galgo afegão e chow chow, nos trouxe alegria durante um período muito difícil.

Um estudo de 2021 descobriu que, na pandemia, as pessoas que possuíam cães se sentiam mais apoiadas socialmente e eram menos propensas a ter sintomas de depressão do que as que não tinham cachorros, mas queriam ter.  

O pelo do astro do rock de Ozzy, que parece espetado e enrolado em sua cabeça – o nome dele é por causa do Ozzy Osbourne – e seus ruídos estranhos que parecem de macaco nos fazem rir, e meus filhos adoram brincar de cabo de guerra com ele no quintal.

Mas Ozzy às vezes também é muito irritante, fazendo coisas como saltar sobre a mesa da cozinha para roubar meu sanduiche ou puxar a coleira como um cão de trenó quando caminhamos. Então, alguns meses atrás meu parceiro e eu contratamos uma treinadora, Amber Marino, para nos ajudar a entendê-lo. A primeira coisa que ela nos ensinou foi que provavelmente estávamos interpretando errado grande parte do comportamento de Ozzy, o que a maioria dos donos faz.

“Os cães estão sempre se comunicando conosco, mas na maioria das vezes não estamos ouvindo, o que pode levar a problemas comportamentais”, disse ela.

Fiquei surpresa 1ao saber que quando um cachorro rola no chão ele não quer necessariamente um carinho na barriga – pode ser que ele queira mais espaço.

Eu sempre achei que quando um cão abana o rabo significa que está feliz, mas na verdade pode significar que está empolgado e prestes a correr. Eu queria saber mais sobre o que foz os cães agirem da maneira como agem, então entrei em contato com vários cientistas para me explicarem o que os humanos eram quando se trata de comportamento canino. Aqui estão algumas coisas fascinantes que aprendi.

RECONHEÇA OS SINAIS DE ESTRESSE

Um erro importante que as pessoas cometem é que muitas vezes não percebem os sinais de que os cães estão estressados ou ansiosos – o que geralmente antecede um comportamento agressivo.

De acordo com especialistas, um filhote estressado pode mostrar que está com medo lambendo os lábios, bocejando, levantando uma pata dianteira, soltando pelos, coçando-se, tremendo, ofegando ou andando de um lado para o outro.

Os olhos também podem mudar: quando costumávamos levar nosso outro cachorro, Henry, ao parque de cães, ele às vezes adorava o que meu parceiro e eu chamávamos de “olho de louco” – seus olhos se esbugalhavam e víamos mais da parte branca. Eu só soube recentemente que esse é um fenômeno chamado “olho de baleia”, e muitas vezes é um sinal de estresse canino.

Isso não significa que toda vez que seu cão arfa, boceja ou levanta a pata, ele esteja à beira de um colapso. Os cães também ofegam quando sentem calor. Alguns deles, como os

perdigueiros, levantam uma pata dianteira quando sentem um cheiro. Bocejar também pode significar, é claro, que o cachorro está cansado.

Para entender o que a linguagem corporal do comportamento de um cão está dizendo, “você  precisa olhar para todo o corpo dele e avaliar o contexto em que estão”, disse Sarah Byosiere, psicóloga e diretora do Centro de Pensamento Canino (Thinking Dog Center) no Hunter College, parte da Universidade da Cidade de Nova York, nos Estados Unidos.

Se o cão estiver com problemas, o que você deve fazer? Primeiro, tente descobrir o que pode estar causando o desconforto, disse Angie Johnston, psicóloga e diretora do Centro de Cognição Canina e Laboratório de Aprendizagem Social do Boston College.

Você está num lugar desconhecido? Seu cão está conhecendo novas pessoas ou cães? Uma vez que você tenha uma ideia do que pode estar lhe causando incômodo, afaste-se dessa atividade, disse ela, e veja se esses comportamentos de ansiedade se dissipam.

Os movimentos da cauda são outra coisa que pensamos entender, mas normalmente não. “O equívoco mais comum, de longe é que abanar o rabo, definitivamente significa que o cachorro está feliz”, disse Johnston.

Se o abanar do rabo de um cachorro for fluido e relaxado então sim, ele provavelmente está contente, disse Johnston. Mas se o rabo estiver balançando apenas levemente e parecer rígido, pode ser um sinal de que ele está prestes a ser agressivo. Pesquisas também sugerem que quando o rabo abanando de um cão se inclina mais para a direita, ele está feliz, mas, se inclinar mais para a esquerda, ele se sente hostil.

NÃO TRATE SEU PET COMO GENTE

 Os especialistas me disseram que muitas vezes atribuímos as ações de nossos cães a sentimentos que eles realmente não estão tendo.

Eu sempre acreditei que Ozzy lambe meu rosto porque ele me ama. Mas os cães costumam lamber os rostos porque querem provar o que você comeu recentemente, disse Evan MacLean, antropólogo evolucionista e psicólogo comparativo na Universidade do Arizona.

Isso vem do comportamento de lobos jovens, que lambem o interior da boca de suas mães para que elas regurgitem comida para eles comerem. O que explica por que os cães fazem coisas nojentas, como comer o vômito de pessoas.

Além disso, aquela expressão de culpaque você vê no rosto do seu cachorro depois que ele fez algo “mau”? A pesquisa mostra que não é realmente um sinal de que ele está envergonhado – provavelmente estão apenas reagindo à sua raiva.

“Os cães adotam essa aparência como resposta ao comportamento ou tom de sua pessoa, não por terem feito algo que consideramos errado”, disse Alexander Horowitz, cientista cognitivo que dirige o Laboratório de Cognição Canina do Barnard College.

Em última análise, os cães nos entendem muito melhor do que nós os entendemos, disse Johnston. Ao longo de milhares de anos de domesticação, eles se tornaram “muito bons em ler nossas emoções”, disse ela, mas “não acho que tenha funcionado tanto na outra direção”.

Para agir certo com nossos amados cães, precisamos realmente conhece-los – e suas pequenas dicas estranhas.

“Percebo agora que Ozzy tem nos comunicado suas necessidades com bastante clareza, mas que simplesmente não fomos receptivos – e agora que estamos prestando mais atenção ele se comporta muito melhor. No entanto, ainda estamos trabalhando com sua tendência a roubar sanduíches”.

OUTROS OLHARES

GENITAL INFLUENCERS

Cresce o número de criadoras de conteúdo digital que, com humor e leveza, tratam de sexualidade, prazer e saúde íntima

A vulva virou moda nas redes e, ao que tudo indica, veio para ficar. Nunca se falou tanto nem tão abertamente sobre saúde sexual, prazer feminino e temas afins. Há incontáveis perfis de influenciadoras que se dedicam ao assunto e têm visto aumentar o número de seguidores e, sobretudo, seguidoras nos últimos dois anos. São médicas ginecologistas, sexólogas, especialistas em ginástica pélvica, jornalistas e até mulheres sem formação especifica interessadas em compartilhar suas histórias e conhecimentos sobre sexo. Em comum, todas usam e abusam da leveza, do humor e da linguagem didática para quebrar tabus, com posts que vão desde Cinco mitos sobre a menstruação” até “Posições para gozar melhor com penetração”, passando por “Sexo anal não precisa doer”.

Pioneira no métier Cátia Damasceno, fisioterapeuta de Brasília especializada em saúde pélvica feminina e pompoarismo, entrou nas redes em 2013 e, de lá para cá, viu muita coisa mudar neste universo virtual. Hoje, com mais de 9 milhões de inscritos no YouTube e quase 7 milhões de seguidores no Instagram, ela é, sem dúvida, a “genital influencer” de maior audiência ao país. O interesse e a curiosidade aumentaram muito nos últimos tempos. A tecnologia e a facilidade de acesso a vídeos tornaram a sexualidade um assunto do dia a dia. Há quase dez anos, quando comecei, eu tinha dificuldades até para conseguir entrevistados”, lembra Cátia, que chega a receber, por dia, cerca de três mil mensagens inbox de mulheres só no Instagram – elas são 94% dos seus seguidores, garante – com perguntas e elogios.

“Maneirar na linguagem faz toda a diferença. Sem ser vulgar nem abusar de termos técnicos, consigo falar em todas as plataformas e em qualquer horário”, acredita Cátia. A influencer também roda o país com um espetáculo de stand up e ainda vai estrear no cinema, interpretando a si mesma, ao lado de Giovanna Antoneli, na comédia romântica “Apaixonada, o filme”.

Entre as dúvidas mais comuns e os temas de maior interesse estão o orgasmo e o desejo sexual, conta a ginecologista paulista Marcela McGowan, que desde 2017 mantém um perfil no Instagram, hoje com 6,2 milhões de seguidores, dedicado a estes e outros tópicos. “Além disso, me pedem muito vídeos sobre métodos contraceptivos, menstruação e corrimentos, higiene intima, etc. Aspessoas carecem de informações básicas e alguns temas precisam ser recorrentes nos posts”, observa a médica que, depois de participar do “Big Brother Brasil” em 2020, viu sua audiência explodir e não abandonou a proposta inicial de sua conta na rede. Pelo contrário. Aprofundou-se nos estudos e mudou a forma de se comunicar para atingir um público cada vez maior.

“Antes do BBB eu dava informações de um jeito mais careta. Hoje são vídeos rápidos, leves, com humor e a música do momento”, conta. Marcela vê um interesse crescente por informações “claras e transparentes”: “Antigamente quase não existiam perfis assim, só a Cátia Damasceno”, diz. “As mulheres chutaram a porta. Pela primeira vez, o prazer feminino está em foco. Mas ainda há muito a ser falado”, acredita. Hoje, ela também apresenta o programa ”Prazer, feminino”, ao lado de Karol Conká, no GNT.

Ainda que muitos temas sejam tratados abertamente e sem constrangimento, as influenciadoras são unânimes em dizer que a desinformação é generalizada por parte da audiência.

Gaia Qav, educadora e criadora da conta no Instagram @meuclitorisminhasregras, esteve na Avenida Paulista, num domingo de abril, fantasiada de vulva. A ideia era pedir para os transeuntes apontarem o clitóris. “Para a minha ‘zero’ surpresa, ninguém sabia. Até pessoas da área de saúde erraram”, conta Gaia.

Uma pesquisa de 2018, realizada pela Bayer com 1.500 mulheres de 16 a 25 anos, apontou que apenas 17% tiram dúvidas nos consultórios de ginecologistas. “O medo de perguntar ainda é tão grande que, muitas vezes, as pessoas não conseguem sequer nomear os órgãos genitais”, diz Gaia. “Ainda há muito tabu para ser que brado.”

A mesma pesquisa revelou que 41% das jovens brasileiras não conversam em casa sobre sexo. “Os pais que acham que seus filhos e filhas de 13, 14 anos não tiveram contato com a sexualidade na internet são alienados”, afirma Cátia. “Infelizmente, muitos pensam que quanto mais cedo o adolescente descobre o assunto, mais cedo vai iniciar a vida sexual, mas vários estudos provam o contrário: quanto menor tabu, mais tardiamente eles começam”, explica.

Se, nas redes, meninas e mulheres se sentem à vontade para perguntar, também é fato que as “genital influencers” não aprofundam os temas como um médico deveria fazê-lo ao vivo. “A rede naturaliza e faz com que os assuntos sejam mais discutidos, mas quem chegou ali já deveria saber muita coisa. É um conhecimento tardio, sem dúvida”, diz Marcela, que alerta também para os conteúdos sem embasamento científico – “é importante saber quem está falando”, avisa. Para ela, só a educação sexual nas escolas e em casa pode levar a uma mudança de mentalidade de fato nos consultórios, fazendo com que as mulheres se sintam “tranquilas para perguntar”.

Mas, se o constrangimento é a tônica da relação ginecologista-paciente, ele passa longe da maioria das influenciadoras de sexualidade. A atriz carioca Bya Feliciano começou a narrar com bom humor suas histórias sexuais no Instagram, sem papas na língua – ela não aborda assuntos de saúde por não ter formação específica. “Falar sobre sexo sendo negra e gorda não é fácil, porque, entre outras coisas, a maioria das mulheres negras com formação universitária, como eu, acham que não podem ser sexuais”, justifica. “Eu gosto de dizer que sou uma piranha de canudo”, brinca Bya, para quem muitas mulheres negras tolhem seu prazer por terem, ao longo da vida, seus corpos hiper sexualizados pela sociedade: “Elas têm medo de como serão vistas”, diz.

Assim como Bya, várias influenciadoras começaram ou cresceram na pandemia: uma vez que outras fontes de prazer da vida foram suprimidas, só restou o sexo. “Esse movimento já existia, mas o lockdown o ampliou porque as mulheres foram pressionadas a se descobrirem sexualmente, seja pelo auto prazer ou para melhorar o relacionamento em casa”, analisa a sexóloga Luciane Ângelo. “A partir do momento em que as mulheres começaram a olhar para si mesmas, não tem mais volta”, conclui.

Professor de Mídias Digitais da ESPM, William Rocha observa que o crescimento deste tipo de conta pode ser explicado também pelo chamado “comportamento de nicho”, característico das redes sociais. “Quanto mais se produzem conteúdos específicos sobre determinado tema, mais os algoritmos impulsionam a audiência desse tema”, diz.

E haja audiência.

GESTÃO E CARREIRA

‘LIFTING DE BUMBUM BRASILEIRO’ TEM ALTA NOS EUA

Procura pela cirurgia vem crescendo apesar dos riscos. Complexo, pós-operatório cia demanda por alojamento especial

Quando a americana Randi Wright fez um lifting de bumbum em 2020 – uma cirurgia complexa na qual a gordura é lipoaspirada do abdômen, da parte inferior das costas ou de outras partes carnudas e usada para aumentar e moldar as nádegas – ela sabia que não poderia pagar o pós-operatório mais caro.

Havia passado pelo mesmo procedimento um ano antes viajando de Atlanta, onde morava, para Miami, onde os preços eram mais baixos e as opções eram abundantes. Para Wright, a cirurgia aliviou a insegurança que ela sentia sobre seu corpo após ter dois filhos.

“Mudou minha vida”, diz Wright sobre o procedimento, enxugando uma lágrima. No pós-cirúrgico, ela precisava de um lugar para ficar e ser cuidada durante as duas primeiras semanas, a parte mais dolorosa do período de recuperação.

As clínicas para as quais os médicos nos EUA muitas vezes encaminham as mulheres estavam fora de questão por serem muito caras. Ela poderia ir sozinha para um hotel onde pudesse convalescer e se manter com serviço de quarto. Mas no Instagram encontrou casas de recuperação – multas decoradas com uma estética hiperfeminina – onde poderia se curar ao lado de outras mulheres que tinham passado pelo mesmo procedimento e seria cuidada por uma equipe até que estivesse bem para voltar para casa.

Wright escolheu uma dessas casas de recuperação e teve uma experiência tão positiva que decidiu iniciar um negócio semelhante. Poucos meses depois, se tornou a nova proprietária da Dream Body Recovery, em Miami, que tem três quartos que podem acomodar até seis clientes.

“Fazer parte dessa jornada com outras mulheres, saber como isso mudou minha vida, esse é o meu motivo”, disse. “Adoro ver a transição, o crescimento.

AUMENTO NAS CIRURGIAS

Em 2021 houve 61.387 procedimentos do chamado Brazilian Butt Lift (BRL) ou seja, de aumento de nádegas, que incluem implantes e enxertos de gordura, de acordo com a Aesthetic Society, uma organização profissional de cirurgiões plásticos americanos.

“A tendência BBL nos Estados Unidos começou em Miami, sem dúvida, e depois se espalhou para outras partes do país”, conta Michael Salzhauer, que é mais popularmente conhecido como Dr. Miami.

“Acho que o motivo é a influência da cultura sul­ americana. A cirurgia é chamada de BBL não porque foi necessariamente inventada no Brasil, e sim porque você pensa em mulheres brasileiras com bundas empinadas e maiores.

As mulheres têm optado cada vez mais por cirurgias de aumento de nádegas nos últimos anos, de acordo com os profissionais.

“É provavelmente um dos procedimentos de maior aumento na procura nos últimos dez anos”, afirma Ângelo Cuzalina, cirurgião plástico de Oklahoma.

Para algumas mulheres negras, muitas das quais sempre tiveram uma versão do bumbum BBL naturalmente, é difícil entender essa popularidade – considerando que foram ridicularizadas por esse mesmo motivo por gerações. Quando o padrão de beleza moderno adotou uma forma de ampulheta mais exagerada, as cirurgias de aumento de bumbum que ajudam as mulheres a alcançar esse visual se tornaram mais populares.

Exemplos desse tipo de cirurgia são onipresentes nas mídias sociais, e existem até ramificações cirúrgicas para pessoas que que rem um volume mais natural, mas ainda perceptível. E, de muitas maneiras, o corpo idealizado, que era considerado inatingível para qualquer pessoa além das celebridades agora é, tecnicamente, possível para as mulheres comuns alcançarem.

PÓS-OPERATÓRIO

Cirurgias de baixo custo criaram um mercado para cuidados pós-operatórios com preços semelhantes. Não se trata de paraísos relaxantes semelhantes a spas, como os que atendem a clientela mais rica. Mais frequentemente, esse mercado de casas de recuperação é um lugar onde as dinâmicas raciais e de classe do mundo cosmético da   cirurgia colidem.

A maioria das casos de recuperação oferece serviços de transporte após a cirurgia, geralmente uma mini­ van com os assentos dos passageiros reclinados para dar espaço para um colchão inflável, onde as pacientes, que não devem sentarou deitar de costas por pelo menos duas a quatro semanas, podem deitar de bruços durante o trajeto. Quando chegam as camas que reservaram – geralmente duas por quarto – podem custar de USS 80 a US$ 400 por noite. Algumas casas de recuperação têm enfermeiras no local que podem verificar os sinais vitais e fazer massagens que dizem ajudar na recuperação.

Mas existem queixas de serviços de má qualidade e condições insalubres nas instalações de recuperação, como banheiros que não funcionam e refeições horríveis. Há até contas de mídia social em que as mulheres enviam anonimamente fotos dos locais que anunciam comodidades falsas.

Sessenta e cinco queixas foram apresentadas à Agência de Administração de Saúde da Flórida, que supervisiona as instalações, que entram na categoria de alojamento, com serviços não médicos. Assim, a agência americana não tem o poder de regular ou licenciar especificamente as casas de recuperação pós operatórias.

RISCOS ELEVADOS

Isso é particularmente problemático porque esse tipo de cirurgia possui uma das mais altas taxas de mortalidade. Uma série de coisas pode dar errado, especialmente quando a gordura reaproveitada viaja através das veias nas nádegas para as artérias pulmonares e câmaras do coração, causando embolias gordurosas.

A gordura transferida também pode migrar para baixo do músculo, rasgando as veias glúteas. De acordo com algumas pesquisas recentes, para cada 13 mil operações realizadas nos EUA, uma acaba em morte,

Kalani Wright, uma jovem de 24 anos do Mississippi, queria fazer Lipo 360, um procedimento que remove gordura de todas as áreas da barriga, e um lifting de bumbum no ano passado, mas, ela ficou grávida. Quando finalmente conseguiu fazer os procedimentos, disse que a dor era pior do que a do parto.

Antes de ser operada, Kalani fez o médico prometer que ela voltaria para casa com seu filho de 10 meses.

Quando ela acordou da anestesia, se lembra de dizer “obrigada, Deus” em voz alta, repetidas vezes. A equipe da clínica pediu que ela parasse com os louvores porque estava assustando os pacientes na sala de espera. Apesar dos riscos, a popularidade do procedimento continua a aumentar e, ao que parece, essa demanda pelas casas de recuperação (e a subsequente necessidade de mais regulamentação continuará crescendo na mesma proporção.

EU ACHO …

A MORTE DEVAGAR

Morre lentamente quem não troca de ideias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.

Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim se alienam diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.

Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser de­ pressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.

Morre lentamente quem passa os dias se queixando da má-sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe. Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

SEU FILHO PASSA MUITO TEMPO NAS TELAS? E VOCÊ?

Para reduzir o tempo de uso de dispositivos quando você está com seus filhos e dar bom exemplo para eles, professora tem algumas sugestões

Semanas atrás, na terceira noite sozinha depois que meu marido tinha viajado a trabalho, mandei uma foto de nossa filha de 9 anos absorta no iPad enquanto nosso filho de 2, se empanturrava de desenhos no laptop. Se você acredita em grande parte do “hype” em torno dos pais e mães que prestam mais atenção nos seus dispositivos do que nos seus filhos, o uso de tela mais escandaloso ali era o meu.

Mas será que a parentalidade distraída é realmente tão ruim assim? A resposta é… às vezes. Segundo os especialistas, depende muito de como e porque estamos usando nossas telas. Assim como nos preocupamos com o efeito do tempo de tela na saúde mental de nossos filhos, devemos nos perguntar o que nosso próprio tempo de tela está fazendo com nosso senso como pais e mães.

Veja como os especialistas dizem que podemos usar dispositivos para nos ajudar a sermos melhores, e não piores.

COMO DEFINIR A PARENTALIDADE DISTRAÍDA

Não só ficamos menos propensos a prestar atenção à segurança de nossos filhos quando estamos digitando e rolando a tela, mas também deixamos passar seus sinais emocionais e perdemos aquelas interações de qualidade, importantes para o desenvolvimento das crianças mais novas.

Antes de jogarmos os smartphones pela janela, é importante definir o que significa parentalidade distraída. “O uso do celular na parentalidade tem muitas nuances”, diz o dr. Brandon McDaniel, do Centro de Pesquisa e Inovação Parkview Mirro, que estudou o efeito da tecnologia em pais e filhos. Segundo ele, algumas das formas positivas são pedir apoio moral a um amigo quando você está no limite ou obter informações (“e Siri, por que o cocô do meu bebê está roxo?”).

Há também os momentos inevitáveis, como quando precisamos atender a uma ligação de trabalho. “O uso ocasional do celular dificilmente causará efeitos negativos a longo prazo”, garante.

Um uso mais problemático é para fugir desses momentos desagradáveis, como estresse, tédio e solidão. “Às vezes, pais e mães dizem que jogar ou navegar nas redes os distrai dos sentimentos negativos que estão vivenciando e que, depois, eles conseguem voltar a se envolver com seus filhos, mas isso é raro”, afirma McDaniel. “Mais frequentemente, esses tipos de ‘fuga’ resultam em sentimentos de culpa ou perda de tempo.”

“Aspesquisas mostraram um possível ciclo em que o uso do celular perto de uma criança pode levá-la ao aumento do comportamento negativo, o que gera um maior estresse dos pais, mesmo que eles esperassem aliviar alguma tensão com o uso do celular”, explica McDaniel. Em outras palavras, pegamos o celular porque estamos infelizes, e nós (e nossos filhos) estamos infelizes porque ficamos toda hora no celular.

FEITOS PARA DISTRAIR

Pais e mães não devem se culpar quando não resistem a uma olhadinha no Facebook. Muitos apps e plataformas de mídia social “incentivam pais e mães a postar, reagir e consumir quantidades infinitas de conteúdo”, observa Jenny Radesky, professora-assistente de pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan, que estuda mídia e desenvolvimento infantil.

Paradoxalmente, muito desse envolvimento com as redes piora nosso estado, e não só porque nessa hora estamos ignorando nossos filhos. Pais e mães podem ser tão vulneráveis aos aspectos de “comparar e se desesperar” de plataformas como Instagram e Facebook quanto qualquer pessoa. Radesky conta que os pais e mães que ela entrevistou disseram que “às vezes parece que outros pais estão postando ‘anúncios’ autopromocionais sobre si mesmos”.

ANTES DE ROLAR A TELA

Para reduzir o tempo de tela improdutivo quando você está com seus filhos – o tipo que faz você se sentir pior consigo mesmo -, Radesky sugere criar alguns obstáculos. Por exemplo: ela diz que, se remover os aplicativos parecer um gesto extremo, você pode escondê-los em pastas para que não fiquem imediatamente visíveis quando você pega o telefone.

Ela também recomenda narrar o que você está fazendo quando está usando seu celular, tanto para envolver seus filhos (“vamos mandar uma mensagem para sua babá e dizer para ela nos encontrar no parquinho?)’ quanto para se responsabilizar por suas escolhas. Você não quer dizer aos seus filhos “A mamãe precisa de um segundo para ver aquela influencer que ela odeia, mas segue pela décima vez nesta hora”, quer?

DESCONECTAR PARA RECONECTAR

Além de repensar seu relacionamento com o celular, você também pode repensar seu relacionamento com as pessoas que está ignorando quando pega o celular: seus filhos. “Se você sente tédio quando está com seu filho, pergunte a si mesmo quais atividades pode fazer para que ambos curtam o momento”, conclui Rosean Capanna-Hodge, especialista em saúde mental infantil e pediátrica. Encontre uma estrutura que funcione para você”, diz ela. “Se sabe que certas horas do dia fazem você sentir impaciência, frustração e vontade de pegar o celular, mude sua rotina.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EXERCÍCIO FÍSICO COMO ESTRATÉGIA DE COMBATE À DEPRESSÃO

Uma contribuição da psicologia para a compreensão do papel do exercício físico

A depressão é um dos transtornos psicológicos que causam maior sofrimento e com um tratamento mais extenso. Devido à complexidade de sintomas neuroquímicos, fisiológicos, comportamentais, emocionais e cognitivos, o tratamento psicológico é, em geral, mais demorado. O tratamento psiquiátrico usualmente também é necessário. Os sintomas mais característicos deste transtorno são: fadiga constante, sentimento de inutilidade ou culpa, perda ou aumento significativo de peso, humor deprimido (tristeza, vazio ou desesperança), diminuição de interesse ou prazer e concentração baixa. Assim, contrariando o senso comum, a depressão não é caracterizada apenas por tristeza. Há uma gama de sensações, sintomas comportamentais e psicológicos.

A depressão pode ter seu início em qualquer fase da vida, porém com uma probabilidade maior do início dos sintomas na puberdade, atingindo seu pico de intensidade na faixa dos 20 anos. Mas não se engane, pois também é comum que o primeiro episódio aconteça com idade avançada. É um transtorno em que os sintomas são crônicos e muitas vezes se mantêm estáveis durante muito tempo.

Um dos fatores que mais auxiliam na recuperação é a procura rápida por tratamento. Então, anote: sua saúde mental importa. E procurar o psicólogo em casos graves ou buscando uma melhora é maravilhoso. Mas nada melhor que se prevenir e ainda buscar desenvolvimento pessoal. Portanto, vá ao psicólogo regularmente para cuidar da sua saúde emocional. Você não imagina como pode se beneficiar! Mesmo aqueles que sofrem com a depressão há muitos anos também podem se recuperar dos sintomas.

Fato curioso. Você sabia que existem hoje, aproximadamente, 11 milhões de pessoas no Brasil com depressão? Em que pese este número espantoso fato maior curioso é que muitos destes não estão em nenhum tipo de tratamento. Geralmente, pessoas que estão com depressão há bastante tempo ficam menos agitadas, ficam isoladas, dormem até tarde, muitas vezes ficam em casa grande parte do dia – ou mesmo o dia inteiro – e perdem o interesse em muitas coisas. É como se o prazer que sentiam em pequenas coisas, como se alimentar, ouvir uma música ou assistir a algum filme diminuísse de forma brusca.

Talvez você conheça alguém que já tenha tido um comportamento similar. É importante orientar a busca por tratamento. Porém, em geral, isso não é o suficiente. Isto porque elas estão comportamentalmente pouco ativadas. Ou seja, estão “paradas” e geralmente cansadas – sintomas sérios dos quais não conseguem se livrar com facilidade, ao contrário do que muitos acreditam ser uma “preguiça”. Além disso, usualmente há um forte sentimento de desesperança. Isto faz com que a pessoa acredite que aqueles sintomas não irão embora de nenhuma forma, ou ainda, que a pessoa é assim mesmo e que psicólogos e psiquiatras não poderão ajudá-las. Portanto, muitas vezes é necessário que outra pessoa seja ativa no processo de recuperação da pessoa com depressão: levando-a ao tratamento, motivando-a diariamente a seguir orientações, etc.

Em casos mais graves esta pessoa pode relatar para colegas, amigos, parentes, professores ou pessoas próximas pensamentos ruins em relação a se ferir ou a não querer viver. Isto é um pedido de socorro. Pessoas em risco de suicídio geralmente relatam estes pensamentos três vezes antes de uma tentativa. Não deixe para a semana que vem. Relate o que ocorreu para pessoas que possam ajudar, e, principalmente, leve-o a um psiquiatra em pedido de emergência o mais breve possível para medidas preventivas e início de um tratamento.

Em outras situações a pessoa em depressão tem aparentemente um comportamento normal, conseguindo exercer suas atividades diárias, como, por exemplo, ir trabalhar, sair com amigos, namorar, etc. Diante deste quadro, sua vida permanece na rotina “normal” e há mais sintomas psicológicos que comportamentais. Desta maneira, apesar de seu comportamento continuar normal, existem muitos sintomas pouco aparentes de ansiedade, pensamentos ruins e sensações desagradáveis.

Em concordância com isso existem muitos tipos de pensamentos ruins durante a depressão. Este transtorno pode fazer uma pessoa acreditar que é culpada por se sentir daquela forma, ou mesmo, pensar que mereceu sentir-se assim. Não só os sintomas aparentes importam. Pensamentos podem ser jaulas que impedem de buscar ajuda. A desesperança é outro mal que restringe possibilidades de melhora. Em muitos casos a pessoa em depressão acredita não haver nenhuma esperança para ela. Porque, afinal, aquele sofrimento já está com ela há muito tempo. Este pensamento não está em concordância com a realidade. Ele ignora que existem muitos tratamentos que ainda não procurou.

Um dos sintomas complicados da depressão é a falta de ativação comportamental. Quando a pessoa fala pouco, se movimenta pouco, quase não sai de casa, se torna um grande problema e pode atrapalhar muito o tratamento. Isso varia de caso para caso. Para muitas pessoas em depressão, a primeira coisa a ser trabalhada é ativar o comportamento: conseguir fazer com que ela faça mais coisas no seu dia. Para isso cria-se uma rotina de comportamentos. Já para outros pacientes é preciso em primeiro lugar um tratamento medicamentoso e, somente após isso fazer efeito, é recomendável ativar o comportamento. Lembre-se: cada pessoa é única. E não existe depressão igual a outra. Cada um sente da sua maneira. Cada um tem seus próprios pensamentos e sensações. E, dessa forma, cada pessoa terá orientações específicas de acordo com seus sintomas e realidade de vida!

Você já pode imaginar como a depressão é ruim para quem sofre dela e para as pessoas próximas que veem uma pessoa querida passar por tudo isso. Devemos nos lembrar de que a depressão pode ocorrer com qualquer um e em qualquer idade. Precisamos cuidar da nossa saúde emocional. Para isso é preciso prevenir-se. A principal estratégia recomendada para a prevenção de sintomas de depressão é a atividade física. Exercitar-se pode ser ainda mais que cuidar do corpo: é cuidar da sua saúde emocional. É cuidar de si!

Uma das estratégias que tem se mostrado mais eficaz na prevenção e em muitos casos também no tratamento da depressão maior é a atividade física. Ela produz mudanças neuroquímicas. Isso significa dizer que nosso cérebro fica diferente quando nos exercitamos. Nossos neurônios se conectam e interagem de uma determinada forma. E quando nos exercitamos é como se os neurônios interagissem de outra maneira. Nosso cérebro é o centro de comando do nosso corpo, sensações, emoções e pensamentos. Ou seja, quando seus neurônios interagem de melhor maneira, tudo o que ele comanda também melhora.

Apenas alguns minutos de exercício algumas vezes por semana podem ser uma diferença enorme para a prevenção da depressão. Você não precisa fazer exercícios todos os dias ou mesmo fazer um exercício de que não goste para se beneficiar do exercício físico para a saúde mental. Mesmo uma caminhada de 30 minutos 3 vezes na semana já pode ser muito benéfico. Procure alguma atividade que se encaixe na sua rotina de vida e com a qual você consiga sentir prazer. Para muitas pessoas uma caminhada pela manhã com um amigo pode ser urna chance de colocar a conversa em dia. Para outros fazer uma aula de dança eleva a autoestima. E para famílias criar alguma atividade em grupo pode ser um bom tempo de qualidade entre crianças e adultos. Manter-se ativo é a chave!

Realmente, se exercitar pode ser muito eficaz na prevenção de muitos sintomas. Não somente para a depressão. A atividade física pode auxiliar também com a ansiedade e o estresse. Estes são grandes transtornos da atualidade. O mundo de hoje é o mundo da informação. Somos bombardeados de in­ formações a todo o momento e nos condicionamos a também procurar por elas e não apenas nos manter passivos. Se conseguimos alguns minutos livres procuramos novas informações pelo smartphone ou computador. Isso acaba gerando ansiedade constante e estresse. Nos prevenir deve ser a regra. Pois, afinal, você tem grandes chances de já ter sentido estresse ou ansiedade. Será que é o seu caso?

Além de prevenção, o exercício físico também auxilia a regular o sono. E um sono desregulado pode fazer surgir ou intensificar sintomas característicos da depressão, estresse e ansiedade. E o sono é algo que vem modificando muito no mundo ocidental por alguns novos hábitos, como, por exemplo, dormir com o celular do lado. Isso pode interromper o sono e dificultar o relaxamento.

Possivelmente, se você vive em uma cidade grande, usa o transporte público e trabalha fora de casa, já sentiu grande carga de estresse. Se você ocupa um cargo de responsabilidades grandes você provavelmente também já sentiu forte ansiedade. E a atividade física não serve apenas para prevenir, mas também para diminuir muitos sintomas. Então, se você não tiver sintomas, a atividade física é a estratégia para prevenção, e se você já tiver alguns sintomas é possível que se exercitar faça seus sintomas diminuírem.

Uma das maiores dificuldades para se começar uma atividade física é a organização. Um dos maiores relatos de dificuldades na clínica é em relação a modificar toda a rotina e se organizar para isso. Basicamente, o que você está procurando é criar um novo hábito de vida. E simplesmente mudar sua rotina não é tarefa fácil. Por isso, comece pequeno. Você não precisa começar já com três dias de atividade física por semana. Comece com um dia e em horário favorável. Algo que não exija tanto esforço. Por exemplo: se você mora próximo ao seu local de trabalho, comece a ir caminhando. Ou leve os filhos até a escola andando. Ou, ainda, se você mora em prédio escolha a escada em vez do elevador. Como você pode ver existem inúmeras possibilidades. Para ser grande é preciso começar pequeno.

Outro fator que pode auxiliar na prevenção de muitos transtornos e sofrimentos psicológicos é desenvolver uma rede de apoio. É preciso desenvolver relacionamentos positivos com muitas pessoas e realmente contar com elas nos momentos difíceis. Às vezes temos bons relacionamentos, mas não aprendemos a fazer um pedido de ajuda. Ou mesmo a buscar por eles em diversos momentos. Seja, por exemplo, simplesmente bater um papo ou desabafar.

A vida moderna muitas vezes também dificulta isso. Nossa comunicação acaba sendo por aplicativos, e não mais uma boa conversa. Nossos encontros se tornam mais difíceis. Mesmo a própria timidez e retração também podem ser prejudiciais em alguns momentos. Ir no contrafluxo pode ser muito benéfico. Promover encontros mais constantes e se manter em contato com as pessoas importantes se faz necessário. Fazer atividade física em grupo também pode auxiliar bastante e é uma ótima estratégia de prevenção: desenvolver um grupo de apoio e exercitar-se. Caminhar com amigos ou mesmo fazer aulas em grupo pode ser uma boa pedida para a sua saúde emocional.

Isto se deve a um fator que é pouco conhecido da maioria das pessoas: a resiliência. Mas o que isso quer dizer, afinal? Resiliência é a capacidade de uma pessoa passar por situações difíceis e conseguir voltar ao seu estado normal de saúde mental. Basicamente é uma pessoa resistente aos desafios diários da vida. E sabemos bem que desafios são o recheio da vida. Por isso é necessário desenvolver a sua resiliência. Tornar sua mente forte é o desafio número um não apenas se quiser se prevenir de transtornos mentais, mas também se você quiser alcançar grandes coisas e ter um grande desenvolvimento pessoal. Obviamente que quem quer subir terá que percorrer uma escalada árdua. E a resiliência irá auxiliar também neste aspecto.

Para tornar sua mente forte o segredo é ampliar sua visão, suas fontes de prazer, seus relacionamentos positivos, sua realização pessoal e profissional, sua saúde, etc. A vida não ocorre da forma como planejamos simplesmente porque planejamos. Ela é uma onda constante de incertezas e mudanças. E o mais forte é o que se adapta e consegue manter-se com saúde frente a estas ondas de desafios. Portanto, procure se adaptar e não simplesmente fugir dos seus desafios de vida. Se for este o seu comportamento habitual, é possível que esteja evitando a própria vida e situações desafiadoras que poderiam te trazer grandes frutos.

A psicologia se preocupa com aspectos comportamentais, emocionais, psicológicos, fisiológicos e neuropsicológicos. Com isso estuda a saúde e a doença mental. Por isso, em casos de fragilidade comporta ­ mental, emocional, neuropsicológica ou psicológica, é imprescindível procurar o psicólogo – profissional capacitado para te auxiliar. Mas esta ciência também estuda a saúde. Por isso, em casos de prevenção, na busca por desenvolvimento pessoal e profissional, escolha de carreira, busca por mais alegria e emoções positivas também é o psicólogo que irá te ajudar a alcançar coisas que a princípio poderiam parecer imagináveis. O psicólogo é o profissional da vida!

Cada profissional terá suas recomendações a serem feitas dependendo de cada pessoa. E muitos serão aqueles que recomendarão a atividade física. Ela pode beneficiar de inúmeras maneiras a curto, médio e longo prazo. Talvez você já tenha ouvido que o exercício ajuda na prevenção de doenças cardiovasculares, ou que é eficaz para tratamento de obesidade e sobrepeso, mas as pessoas já estão percebendo que a atividade física ajuda a diminuir o estresse diário e prevenir contra sensações, emoções e pensamentos ruins. Chegando, inclusive, a produzir um efeito positivo em algumas pessoas: cultivar emoções boas e autoestima elevada. Talvez você mesmo já tenha conhecido alguém que relata sobre estes benefícios.

Agora você já tem mais um motivo para fazer atividade física! Lembre-se: a depressão é um complexo de sensações, pensamentos, comportamentos negativos e pode ocorrer com qualquer um em qualquer idade. Precisamos modificar a visão sobre a saúde emocional e buscá-la da mesma forma como buscamos saúde física: com regularidade, com ajuda profissional e pouca passividade. Já se convenceu a se agitar e a fazer algum exercício? Corra pela sua alegria!

OUTROS OLHARES

CHEGA AO FIM O REINADO SOLITÁRIO DO IMC

Ganha força entre médicos método que mede cintura e altura para prever doenças

Um dos índices mais consolidados na prática médica mundial está perdendo a força nos consultórios. Criado no início do século XIX por um estatístico belga, o tradicional cálculo denominado Índice de Massa Corporal (IMC) imperou ao longo desses anos todos. É o cálculo que define se a pessoa está acima do peso. Basicamente, o médico pega o peso (em quilogramas) e divide pela altura ao quadrado (em metros). O resultado é encaixado em quatro categorias: baixo peso (IMC menor que 18,5), peso normal (18,5 a 24,9), sobrepeso (25,0 a 29,9) ou obeso (30 ou mais). Quanto mais alto, maior o risco de doenças cardiovasculares.

Uma decisão inédita tomada recentemente pelo órgão de vigilância da saúde do Reino Unido, o Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados, abalou a antiga confiança no método. A prestigiosa instituição definiu que o IMC tinha sérios defeitos e instituiu um segundo tipo de conta. Batizado de “cintura-estatura”, o novo cálculo é mais simples: a medida do tamanho da cintura tem de ser menor que a metade da altura. Se a circunferência estiver acima disso, há aumento do risco de diabetes tipo 2, hipertensão, infarto, derrame, gordura no fígado, entre outras.

NA BRIGA DE FORA

O novo método cobre uma lacuna importante do IMC, que não diz, por exemplo, que porcentagem do peso de uma pessoa é proveniente da gordura, músculos ou ossos. Isso explica porque atletas podem ter IMC alto, apesar de terem pouca gordura corporal. Mas o principal defeito é no que se refere ao local em que a gordura se acumula. A proporção “cintura-estatura” vai direto ao ponto ao detectar acúmulo da gordura na barriga, a chamada gordura visceral, o tipo mais perigoso para a saúde.

No Brasil, a nova conta não é oficialmente indicada, mas os médicos começam a utilizá-la.

“O IMC é uma medida fácil e bem conhecida, só que tem limitações porque não é capaz de analisar a composição corporal. Uma pessoa com muito músculo vai pesar mais e ter um IMC alto, mas pode estar muito mais saudável e em boa forma que uma pessoa com IMC e peso menor, mas com bastante gordura acumulada. Então é preciso usar as duas medidas. Elas são complementares”, diz a cardiologista Lilia Nigro Maia, diretora da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) e professora da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp).

HISTÓRICO

A recomendação para medir a circunferência da cintura não é exatamente nova. Diversas diretrizes de saúde, incluindo as do Ministério da Saúde e a da Associação Americana do Coração (AHA), alertam para a importância de medir a circunferência da cintura em qualquer avaliação de saúde. A ênfase é na relação cintura-quadril (medida que avalia o tamanho da cintura em comparação com o quadril) e a circunferência da cintura sozinha. Mas há limitações.

“A relação cintura-quadril é muito boa, mas está mais sujeita a erros de medida”, explica a endocrinologista Cintia Cercato, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). Já o tamanho da circunferência pode falhar ao não considerar o tamanho da pessoa e precisa ser adaptado a cada país e grupo étnico, para ser mais precisa.

AMPLIAÇÃO DO RADAR

Para especialistas ouvidos, a grande vantagem da nova medida é a simplicidade.

“Diversos estudos já validaram que ter a medida da cintura maior que a metade da altura aumenta o risco de comorbidades e doenças cardiovasculares. A grande vantagem dessa medida é que ela está menos sujeita a erros. Sua principal importância é para pessoas que já têm excesso de gordura abdominal, mas que apenas pelo IMC não vão ser consideradas de alto risco”, ressalta a médica Cercato.

Em 2014, uma pesquisa da Bayes Business School, no Reino Unido, mostrou que a razão cintura-estatura é melhor preditor de risco de mortalidade do que o IMC. O estudo descobriu que os homens podem perder até 20 anos de vida por não manter sua cintura na medida ideal. O número é de aproximadamente 10 anos para as mulheres.

PARA QUASE TODO MUNDO

Essa medição pode ser usada para ambos os sexos e todos os grupos étnicos, bem como para adultos altamente musculosos. As diretrizes do Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados inglês também recomendam que os médicos devam considerar o uso da relação cintura-estatura em crianças e jovens com mais de cinco anos para avaliar e prever riscos à saúde.

“É muito válido porque a pessoa pode fazer isso sozinha e procurar ajuda quando ele estiver alto”, diz a diretora da Socesp.

Já o médico Antônio Carlos do Nascimento, doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), teme que essa recomendação apavore muitas pessoas que podem não estar em risco.

“Utilizara relação cintura-estatura para toda a população é tão falho quanto o que já vínhamos observando com outros parâmetros. Mas essa pode ser uma boa opção para avaliar o risco de subgrupos étnicos como negros e asiáticos”, afirma o endocrinologista.

Pesquisas mostram que pessoas com antecedentes familiares asiáticos, do Oriente Médio, negros, africanos ou afro-caribenhos são mais propensas a esse tipo de acúmulo de gordura ao redor da cintura, chamado de “adiposidade central”. Aconselha-se que essas pessoas usem limites de IMC mais baixos para obesidade para ajudar a prever seus riscos específicos à saúde.

Em sua diretriz, o Instituto Nacional de Excelência em Saúde eCuidados, do Reino Unido, ressalta que a relação cintura-estatura não é precisa para pessoas com IMC acima de 35, mulheres grávidas ou crianças com menos de dois anos. Maia também alerta que a medida não funciona para pessoas com mais de 60 anos que podem ter perdido altura com o envelhecimento.

A gordura visceral é diferente da subcutânea. Enquanto a subcutânea se acumula abaixo da pele, em locais como quadris, seios, coxas e nádegas, a gordura visceral se concentra entre os órgãos internos.

“A gordura em volta do abdômen é danosa. Quanto mais gordura visceral nós temos, mais elementos inflamatórios, que interferem na ação da insulina e no revestimento vascular”, diz o endocrinologista Antônio Carlos do Nascimento.

Esse tipo de gordura pode afetar qualquer pessoa, nus é mais comum em homens. Em mulheres, pode ocorrer com mais facilidade após a menopausa. Também pode ser mais comum em determinadas famílias, devido a uma predisposição genética.

A BOA NOTÍCIA

A gordura mais problemática é mais fácil de perder do que a subcutânea. A endocrinologista Maria Edna de Melo, presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explica que, na falta de carboidrato, a gordura visceral é a primeira a ser mobilizada como fonte de energia para o corpo.

Para prevenir o acúmulo de gordura visceral, não basta só exercício.

“Como a gente não escolhe onde a gordura vai se acumular, o ideal é não acumular gordura”, afirma Melo.

As medidas recomendadas incluem uma dieta equilibrada, com baixo consumo de alimentos ultra processados, pouca gordura e rica em frutas, verduras, legumes. Restringir o consumo de bebida alcoólica é outro ponto importante.

Para quem já acumulou a gordura, o tratamento é (adivinhe!): perder peso. Segundo a endocrinologista Maria Edna de Melo, a cirurgia metabólica pode ser uma opção para algumas pessoas com IMC acima de 30. Mas, em geral, há bons resultados apenas com alterações no estilo de vida e medicações.

GESTÃO E CARREIRA

DIVERSIDADE GANHA AS PRATELEIRAS DE BRINQUEDOS E DÁ LUCRO PARA EMPRESAS

Domínio da boneca loira arrefece enquanto cozinhas ficam coloridas para incluir meninos

A mulher branca de cabelos loiros e lisos se senta próximo da mulher negra de cabelos escuros e crespos. A diferença entre elas leva a loura a se incomodar com a presença da negra a ponto de lhe dizer que o cabelo dela pode lhe passar doença.

O flagrante de racismo, registrado no recentemente no Metrô de São Paulo, talvez pudesse ter sido evitado se desde cedo a mulher loira tivesse brincado com bonecas negras. E encarasse como natural não só a pele negra e os cabelos crespos mas também outras pessoas diferentes dela – com vitiligo, sem cabelo, sem um membro do corpo, acima do peso ou com síndrome de Down.

“As crianças começam a descobrir a vida em sociedade por meio dos brinquedos. É importante que eles representem a diversidade do nosso dia a dia e, com isso contribuam para uma educação mais inclusiva e para um mundo menos preconceituoso”, diz a pedagoga Maria Ângela Barbato Carneiro, doutora em ciências da comunicação pela USP (Universidade de São Paulo) e professora titular da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), onde coordena o Núcleo Cultura e Pesquisas Brincar.

A indústria de brinquedos, que no Brasil faturou cerca de R$8,4 bilhões no ano passado, tem procurado fazer a lição de casa. Um movimento iniciado há cerca de cinco anos vem trazendo para as prateleiras das lojas mais bonecos negros, com deficiência física (como cadeirantes) e opções mais coloridas, menos estereotipadas no azul e no rosa, como cozinhas em vermelho para meninos e meninas brincarem.

Segundo Paula Ferolla, analista da empresa de pesquisas Euromonitor, cada vez mais pais e educadores, principalmente da geração Y (nascidos entre 1982 e 1994), entendem a importância da escolha da criança e a deixam livre para brincar, sem impor padrões.

“A diversidade ganha uma perspectiva ainda mais ampla sendo capaz de influenciar positivamente na formação das crianças”, afirma.

“Como um homem vai entender que é normal que ele limpe a casa e cuide dos filhos se, quando pequeno, ele aprendeu que isso era coisa de menina?”, questiona a pedagoga Maria Ângela.

“Não quiseram que ele brincasse de casinha e de boneca. O preconceito está na cabeça dos adultos, e são eles que o transmitem para as crianças”.

O movimento de apoio a uma maior diversidade começa a se refletir nas vendas. No Armarinho Fernando, uma das mais tradicionais e populares lojas de brinquedos da capital paulista, com 16 lojas na Grande São Paulo e em Sorocaba (SP), as bonecas negras já representam 15% das vendas da categoria.

No grupo Ri Happy, líder no varejo de brinquedos, com cerca de 300 lojas Ri Happy e PB Kids no país, as bonecas negras somam 20% da categoria, enquanto os brinquedos coloridos (sem ser azul ou rosa) atingiram 60% das vendas no ano passado. Controlada pelo fundo Carlyle, a empresa não revela o faturamento, mas os últimos dados divulgados, de 2019, apontam receita líquida de RS1,4 bilhão.

“Os pais, vêm mudando, estão mais abertos ao diferente”, diz diretora comercial do grupo Ri Happy, Sandra Haddad. Nos últimos três anos ela observou uma demanda maior por brinquedos coloridos, em vermelho, verde ou amarelo, na categoria “faz de conta”, que engloba mercadinhos e cozinhas, por exemplo.

“Muitos meninos passaram a brincar mais de cozinha por causa do sucesso do programa Master Chef”, diz Sandra, referindo-se ao reality de culinária. Segundo ela tanto meninos quanto meninas amam carrinhos, ônibus e até caminhão de lixo. “Mas são os pais que, muitas vezes, colocam limites às escolhas dos filhos na hora de brincar”.

Ainda assim, Sandra vê uma demanda crescente de meninos por bonecos, que vem sendo atendida pela indústria. Em 2019, por exemplo, a Candide lançou o LOL Boys – da mesma linha das famosas bonecas LOL de oito centímetros, embaladas em uma bola de plástico com várias “surpresas” inseridas, como roupas e acessórios, que se tornaram febre entre as meninas.

Em outubro do ano passado, foi a vez de a Candide apresentar uma versão maior do boneco. “Lançamos o LOL OMC Guys skatista e esgotamos em um mês”, Bruno Verea, diretor de marketing da empresa no Brasil, ressaltando que a expectativa era vender em dois meses.

Para ele, a inclusão do skate nos Jogos Olímpicos chamou mais a atenção das crianças para o esporte.

O executivo também observa um interesse maior das meninas pelo Homem-Aranha. “Éum personagem jovem nos cinemas, que agrada os dois públicos”, diz.

A Candide vem incrementando a linha Our Generation, de bonecas que imitam a vida em sociedade. São lançamentos recentes as versões cadeirante, com muletas, com prótese na perna e cega com cão-guia. “Também temos o cuidado de deixar o nosso portfólio diversificado em etnias, com bonecas negras, asiáticas e ruivas, por exemplo”, afirma Verea.

Na brasileira Cotiplás, a novidade apresentada em março durante a principal feira do setor de brinquedos (a Abrin, em São Paulo, foi a linha de bonecas com síndrome de Down, que devem chegar neste mês às lojas, nas versões masculinas, feminina, branca e negra.

Cerca de 15% do preço de venda, sugerido em R$129, será destinado à Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), que auxiliou no desenvolvimento dos produtos.

“Hoje as crianças com síndrome de Down dividem o mesmo espaço escolar com outras crianças sem a síndrome. É importante naturalizar essa convivência com quem é diferente de você a partir dos brinquedos”, afirma o fundador e diretor da Cotiplás, Carlos Bazzo.

Segundo ele, cerca de 30% das bonecas vendidas pela Cotiplás são negras.

“Nós temos o cuidado de não só mudar a cor da boneca branca mas desenvolver todo o fenótipo da boneca negra, que envolve encontrar o tom certo de pele, o cabelo, os lábios e o nariz”, diz Bazzo, que conta com uma designer negra para desenvolver o trabalho. “Hoje temos uma boneca negra mais realista do que a primeira que fizemos, ainda nos anos 1990”.

O empresário agora trabalha em um projeto de bonecas sem cabelos, para representar as crianças com câncer que fazem quimioterapia. De acordo com a Euromonitor, as categorias que mais se destacaram nas vendas no ano passado são “neutras que atendem tanto meninos quanto meninas, como jogos de tabuleiro e quebra-cabeças, construção, mini veículos e jogos científicos e educacionais.

Célia Bastos, diretora comercial da empresa de pesquisas NPD, concorda com a tendência.

“Brinquedos envolvendo a família e atividades ao ar livre foram os mais buscados em 2021”, diz, que aponta um crescimento de 21% nas vendas globais de brinquedos ano passado, em comparação a 2020. No Brasil, a alta foi de 11% ao ano, segundo a NPD.

Na pandemia, a compra online de brinquedos disparou, diz Fabricio Dantas, CEO da Neotrust, que monitora o comércio eletrônico brasileiro. “Em 2020, a compra online de brinquedos alcançou 67%, para 6 milhões de pedidos, gerando um faturamento de RS1,09 bilhão”, diz.

“Em 2021, porém, houve um crescimento tímido, para RS1,14 bilhão, possivelmente motivado pela reabertura das lojas físicas”.

Para este ano, a Abrinq (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos) projeta um crescimento de 6% no faturamento da indústria, para R$8,9 bilhões.

Carlos Bazzo, que fundou com os irmãos Paulo e Luiz a fabricante de brinquedos Cotiplás em 1982, em Laranjal Paulista (SP), sempre se incomodou ao ver crianças negras brincando com bonecas loiras. “Ainda nos anos 1990, lançamos uma versão negra da Xuxa”, diz ele, que hoje tem 30% das vendas de bonecas na versão negra.

A tradição de boneca loira de olhos claros, em um país em que 56% da população se autodeclara negra ou parda, segundo o IBGE, vem da cultura do colonizador europeu.

“Asprimeiras bonecas industrializadas foram feitas na Alemanha e depois na França. E, mais recentemente, com a expansão da indústria americana e a globalização, esse fenótipo se consolidou”, afirma a pedagoga Maria Ângela Barbato Carneiro, do Núcleo Cultura e Pesquisas Brincar, da PUC.

“Já vi crianças negras tentando enrolar o cabelo liso de uma boneca para que o brinquedo se parecesse mais com ela”, afirma a educadora.

Ela destaca iniciativas positivas de inclusão, como a Preta Pretinha, loja da Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo, que produz e vende bonecas artesanais negras, orientais, indígenas, indianas, muçulmanas e cadeirantes, entre outras.

As duas gigantes do setor de brinquedos, as americanas Mattel e Hasbro, têm procurado se redimir. A Mattel – que já foi alvo de feministas, por preconizar uma ditadura da beleza com a loira alta, magra e de olhos claros Barbie – vem fazendo homenagens a figuras históricas, com a linha “Mulheres Inspiradoras”, criada em 2015.

No Brasil, a mais recente homenageada foi a cantora Iza, que recebeu a sua versão Barbie em novembro do ano passado. “A marca presta uma homenagem à cantora por tudo o que ela representa para as futuras gerações, ao quebrar barreiras e empoderar meninas e meninos de todo o mundo”, informou a Mattel, em comunicado.

“Eu precisava ter ouvido isto quando era mais nova, que eu tinha que ser exatamente do jeito que eu sou”, disse a cantora à época.

Iza foi a terceira brasileira homenageada pela Barbie, depoisda biomédica Jaqueline Góes de Jesus (também negra, que ajudou a sequenciar o genoma do novo corona vírus) e da surfista Maya Gabeira. Nesse caso, são bonecas exclusivas, que apenas a homenageada recebe.

Na opinião de Paula Ferreira, analista d empresa de pesquisas Euromonitor Internacional, a diversidade tem sido um tópico importante na indústria de brinquedos, e a Barbie sem tornou um exemplo da tendência.

“A boneca tem agora novos tons de pele, variados tipos de cabelo, além de opções como cadeirante, com vitiligo, com uma prótese dourada e sem cabelo”, diz Paula.

No grupo Ri Happy, o maior do país no varejo de brinquedos, mais de um terço das vendas de Barbie (35%) é da linha fashionistas – onde estão as versões negras, não magras, cadeirantes etc.  “A Barbie se reinventou, e as vendas da boneca crescem dois dígitos, ano a ano”, afirma Sandra Haddad, diretora comercial do grupo.

Já a Hasbro, dona da Baby Alive (um dos bebês preferidos das crianças), vem se dedicando a aumentar o portfólio de bonecas negras, que começaram a chegar ao país em 2015.

“A marca sempre busca incluir todas asraças; promovendo a diversidade na brincadeira, que precisa ser divertida para todos”, diz Kellen Silvério, diretora de marketing da Hasbro no Brasil.

Segundo a executiva, a empresa procura atender meninas e meninos de diferentes faixas etárias, com os mesmos brinquedos. Nessesentido, oferece as massinhas Play­Doh para a primeira infância e lançadores Nerf, para os mais velhos.

A diversidade é o mote na loja Trenzinho Brinquedos Educativos desde a sua fundação, em 1970. A empresa é especializada em brinquedos artesanais, de madeira e tecidos, que atendem tanto a meninos quanto a meninas.

“Já recebemos pais que criticavam nossa linha chamando de ‘brinquedo para retardados’, diz o diretor da Trenzinho, Alexandre Freitas Ito. Felizmente, esse comportamento deixou de existir.”

A redescoberta do brincar tradicional, com bolas, cordas, cabanas e casinhas de boneca, assim como a tentativa de parte dos pais de tirar o eletrônico das mãos dos filhos, levando-os para pedalar, por exemplo, têm ajudado as vendas da empresa. A Trenzinho faturou R$ 2,5 milhões no ano passado, uma alta de 30% sobre 2019, antes da pandemia.

Os pais de Ito – um químico e uma educadora – fundaram a companhia com a proposta de oferecer brinquedos fora do circuito comercial, dos grandes personagens da Disney. “Cerca de 60% do raciocínio lógico é formado até os três anos de idade”, diz ele, destacando a importância de motivar o brincar logo na primeira infância.

EU ACHO …

O MUNDO NÃO É MATERNAL

É bom ter mãe quando se é criança, e também é bom quando se é adulto. Quando se é adolescente a gente pensa que viveria melhor sem ela, mas é erro de cálculo. Mãe é bom em qualquer idade. Sem ela, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco.

O mundo não se importa se estamos desagasalhados e passando fome. Não liga se viramos a noite na rua, não dá a mínima se estamos acompanhados por maus elementos. O mundo quer defender o seu, não o nosso.

O mundo quer que a gente fique horas ao telefone, torrando dinheiro. Quer que a gente case logo e compre um apartamento que vai nos deixar endividados por vinte anos. O mundo quer que a gente ande na moda, que a gente troque de carro, que a gente tenha boa aparência e estoure o cartão de crédito. Mãe também quer que a gente tenha boa aparência, mas está mais preocupada com o nosso banho, com os nossos dentes e nossos ouvidos, com a nossa limpeza interna: não quer que a gente se drogue, que a gente fume, que a gente beba.

O mundo nos olha superficialmente. Não consegue enxergar através. Não detecta nossa tristeza, nosso queixo que treme, nosso abati­ mento. O mundo quer que sejamos lindos, atléticos e vitoriosos para enfeitar ele próprio, como se fossemos objetos de decoração do planeta. O mundo não tira nossa febre, não penteia nosso cabelo, não oferece um pedaço de bolo feito em casa.

O mundo quer nosso voto, mas não quer atender nossas necessidades. O mundo, quando não concorda com a gente, nos pune, nos rotula, nos exclui. O mundo não tem doçura, não tem paciência, não para a fim de nos ouvir. O mundo pergunta quantos eletrodomésticos temos em casa e qual é o nosso grau de instrução, mas não sabe nada dos nossos medos de infância, das nossas notas no colégio, de como foi duro arranjar o primeiro emprego. Para o mundo, quem menos corre, voa. Quem não se comunica se trumbica. Quem com ferro fere, com ferro será ferido. O mundo não quer saber de indivíduos, e sim de slogans e estatísticas.

Mãe é de outro mundo. É emocionalmente incorreta: exclusivista, parcial, metida, brigona, insistente, dramática, chega a ser até corruptível se oferecermos em troca alguma atenção. Sofre no lugar da gente, se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as nossas vontades, enquanto o mundo, propriamente dito, exige eficiência máxima, seleciona os mais bem-dotados e cobra caro pelo seu tempo. Mãe é de graça.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

A MÚSICA AMBIENTE PODE SER UM CONVITE PARA SUSPENDER O TEMPO

Em meio a uma crise, a experiência da escuta profunda de playlists especiais pode levar a abandonar o controle, desacelerar e enfrentar o colapso

Quando soube que minha mãe havia sofrido um derrame, o sentimento que veio à tona não foi o desespero, mas um impulso para resolver os problemas. Meu irmão e eu compilamos senhas para plataformas do seguro-saúde, portais de pacientes e contas bancárias em uma entrada compartilhada do app Notes. Preenchemos a papelada para pagamentos de invalidez. Consultamos advogados, imaginando como lidar com o empregador de minha mãe, que ameaçou demiti-la se ela não voltasse ao trabalho.

O derrame não foi a única crise. Havia o pavor da próxima eleição presidencial; o arrasto incessante da pandemia; a expectativa de concluir o mestrado enquanto cuidava da minha mãe; e a realidade de que, como família imigrante, todo nosso sistema de apoio estava em casa, na República Dominicana. Na maioria das vezes, meu irmão e eu estávamos sozinhos. Então, eu pesquisei no Google. Eu fiz playlists.

Eu chamei uma delas de “se você precisar respirar” e a preenchi com os tons de sintetizador de foco suave e loops obliterantes de música ambiente. Percorri o Spotify e me deparei com dezenas de playlists projetadas para regulação do humor e autocuidado: Peaceful Indie Ambient, Lo-Fi Cool Down, Ambient Chili. No Headspace, app de meditação que custa US$ 69,99(cerca de R$352) por ano, encontrei paisagens sonoras selecionadas pelo sábio produtor Madlib e pelo compositor John Legend destinadas a evocar atmosferas relaxantes e propiciar dias produtivos de trabalho.

Eu não estava sozinha. Nos últimos anos, a música ambiente tornou-se um bálsamo escapista para um planeta que lida com a morte em massa, a instabilidade política, a ansiedade climática, a cultura incessante do excesso de trabalho e a dissociação que essas condições causam. O mundo da tecnologia foi rápido em lucrar: em 2017, a crítica Liz Pelly escreveu sobrea proliferação das playlists “para relaxar” do Spotify, referindo-se a isso como “uma ambição de transformar todas as músicas em papel de parede emocional”. Esta é a música de elevador do capitalismo tardio, uma anestesia leve do cérebro para pacificar a mente.

DESACELERAR

Mas nos meses que se seguiram ao derrame de minha mãe, a música ambiente não era apenas um ato de autocuidado mercantilizado. Ouvi-la exigia que eu abandonasse o controle. Fazia com que eu dispensasse o tempo progressivo. Ela me forçou a desacelerar e enfrentar o colapso.

No topo de “se você precisa respirar” está lniziare, de Alessandro Cortini, músico italiano que começou como guitarrista, tecladista e baterista do Nine Inch Nails, também conhecido por sua música de sintetizador fantasmagórica e narrativa.  Em lniziare’, ele prende o tempo.

Um único tom de sintetizador, inicialmente ligado à terra, flutua a 400 mil pés no ar, espiralando em fragmentos astrais. Ondas de feedback eletrônico se transformam em vales de ecos esticados, decaídos em abismos ocos. O tempo torna-se suave, desobediente. Ao ouvi-la, sou forçada a fechar os olhos, a sentir como o som viaja pelo corpo, mudando de forma para um desvio não linear. Me sinto desapegada de qualquer versão determinista do futuro. Nesse lugar entre a luz e a escuridão, prazer e dor existem na mesma medida. Experimento toda a fragmentação da vida, os lembretes do trauma e da incerteza com os quais acordei nos últimos quatro meses. Aqui, me recuso a deixar o luto se tornar autodefinição: vivo livre da velocidade da emergência.

A música ambiente sempre conteve uma espécie de conhecimento subterrâneo. O músico e crítico britânico David Toop, que escreveu em 1995 Ocean of Sound, texto que define essa música, recentemente argumentou que ela se separou das qualidades filosóficas sugeridas durante sua gênese na década de 1970. Em um ensaio de 2019, Toop se refere a ela como uma forma musical “comprometida (implícita ou explicitamente) com um engajamento com interpretações e articulações de lugar, ambiente, escuta, silêncio e tempo”, que inspira ”um estado de espírito sintonizado com a inclusão”.

E, no entanto, a visão dominante da música ambiente hoje é uma inversão caricatural dessas aspirações. Em uma indústria de bem-estar multibilionária, plataformas de streaming e apps de meditação enquadram a música ambiente como música de fundo. É música de spa e ioga, ou sons para um sono tranquilo. Em vez de abraçar o potencial da música ambiente – sua capacidade de suavizar barreiras e afrouxar ideias de som, política, temporalidade e espaço – ela se tornou instrumentalizada, diminuída.

ESCUTA PROFUNDA

A pioneira da música experimental Pauline Oliveros previa como uma abordagem sensorial da música e da audição poderia cultivar o pensamento politicamente dinâmico. Ela passou a vida desenvolvendo uma teoria da escuta profunda, em que há uma distinção entre ouvir e escutar; a primeira é uma consciência superficial do espaço e da temporalidade, e a segunda é um ato de foco imersivo.

Eu pratiquei a escuta profunda com minha playlist, especialmente com Being Here, do inovador da new age Laraaji. É difícil identificar quando Being Here te atinge: na marca de 10 minutos, 15 ou mesmo em seu beatifico final de 25 minutos. Laraaji produz glossolalia aural – detritos melódicos divinos e luminescentes. Ouvindo sua música, sinto um abraço silencioso de sua visão do presente, notas refratando como a luz do sol acariciando as águas do oceano. Não é um simples bálsamo para uma dor incomensurável.

Being Here não é uma demanda para recarregar para a produtividade. Ela me fez esquecer o looping do tempo, me desvencilhar de qualquer tipo de cronologia preditiva – sobre a recuperação de minha mãe, mas também sobre sobreviver a um estado contínuo de dificuldades. Foi uma ruptura insurgente no tempo – um chamado para mergulhar na realidade de um presente catastrófico e me preparar para fazer algo a respeito.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O PERIGO DO EXCESSO DE ELOGIOS

“Os pais têm que se lembrar de sempre elogiar e abraçar uma criança quando ela praticar algo de bom (…), principalmente quando for pela primeira vez. Ficar elogiando demais acaba mais incomodando a criança do que alimentando seu ego. São os pais “lambe-lambe”, lçami Tiba.

Durante os últimos aos 30 anos, na esteira do processo de globalização, instalou-se um sentimento de ansiedade e culpa generalizada nas relações das famílias. A busca pelo sucesso na vida profissional fez com que por um lado, os pais de descuidem dos filhos e parceiros e fiquem reféns das “fórmulas mágicas” dos especialistas em marketing e psicologia para compensar os entes amados nas raras vezes em que podem se ver. Segundo Riccardo Mazzeo, entrevistando Zygmunt Bauman em “Sobre Educação e Juventude”, gastamos um monte de dinheiro com “provas de amor” e o resultado “é que temos menos tempo ainda para passar com nossa família e precisamos trabalhar mais ainda para ganhar mais dinheiro para comprar presentes ainda mais caros. É um ciclo vicioso que seria facilmente rompido se oferecêssemos nossa presença, atenção e carinho, em vez de objetos”.

Como se não bastasse, além da “compra” do amor, outra forma de mitigar essa “culpa” que permeia as dinâmicas familiares passou a ser a importância exagerada que se dá a construção da autoestima das crianças. “Exagerada” porque, se é intuitivo acharmos que elogiar uma criança por executar bem uma tarefa vai aumentar sua auto­ estima, pesquisas recentes mostram que a qualidade do elogio que o adulto dá pode influenciar crenças infantis muitas vezes equivocadas sobre elas mesmas. Exemplo disso é dado no artigo “Os perigos do louvor extremado” publicado em 10 de abril de 2014 por Art Markman, Ph.D., cientista cognitivo da Universidade do Texas (www.psychologytoday. com). O autor considera que quando o adulto – pai ou educador – afirma que a criança é, por exemplo, “muito inteligente” ou “muito boa em matemática” ela pode acreditar que as habilidades fundamentais estão enraizadas em seus talentos. Assim, quando as crianças acreditam que têm um talento particular (no caso, inteligência ou ser boa em matemática) e se defrontam com dificuldades nessas áreas, reagem muitas vezes como se tivessem atingido o limite de seu talento, e tendem a “colapsar” ante o fracasso.

Com efeito, especialistas afirmam que os elogios devem se concentrar em esforço e conquistas para ensinar as crianças que elas estão desenvolvendo habilidades – seja qual for a área de desafio proposta. E, conforme Markman “crianças que acreditam estar adquirindo habilidades e evoluindo tendem a enfrentar as dificuldades, reagir diante delas, trabalhando duro, em vez de desistir”.

De acordo com o psicanalista e artista plástico Claudio Castelo, “é necessário perceber quais os dons que temos e também os que não temos para não ficar dando murro em ponta de faca”. Em suas palavras, “a verdadeira  autoestima, é o respeito que sentimos por aquilo que somos de fato, pelo que a natureza nos deu e se impõe às nossas existências, tal como a cor da pele, do cabelo, dos olhos, a genética que portamos, bem como nossas personalidades”. Percebendo o que somos, ou o mais próximo disso, “podemos fazer um casamento mais proveitoso conosco para tirarmos proveito dessa condição e desenvolver os recursos que dispomos”, conclui Castelo.

A propósito, há estudos recentes sobre o problema da má elaboração da autoestima que mostram sua estreita relação com o bullying e a violência. Costumava-se presumir que os bullies (agressores) agiam violentamente em relação aos outros porque sofriam de baixa autoestima, mas, curiosamente, pesquisas recentes indicam que eles agem do jeito que agem porque sofrem de uma injustificada autoestima “elevada”.

A psicanalista e pesquisadora do núcleo de Pesquisa de Psicanálise e Educação da USP, Marcia Neder, autora do livro Déspotas Mirins O Poder nas Novas Famílias (Editora Zagodoni), no artigo Pequenos príncipes (www.cartafundamen­ tal.com.br), afuma para Tory Oliveira que, no século XX, a partir da despatriarcalização familiar, a criança passou a ocupar, cada vez mais, o papel de organizador da família. Neder defende que os pequenos tiranos são frutos não só da educação dada pelos pais hoje, mas também de um contexto social que coloca a criança como o centro do universo. “Além disso, se antes os pais exigiam respeito e obediência, hoje preferem ser amados e aprovados pelos filhos – o que também reforça a “pedocracia”, conclui.

A “pedocracia” se sustenta graças ao esforço obstinado dos pais para garantir o sucesso futuro dos filhos e na forma que encontraram para estimulá-los a se manter no caminho do sucesso: alimentando sua autoestima.

Assim, se até a década de 1960, mandar a criança calar a boca era perfeitamente aceitável e estimular a autoestima era sinônimo de criar filhos mimados, hoje, a geração de pais na faixa dos 25 aos 45 anos de idade, está, na sua maioria, com problemas para educar os filhos. O que acontece, segundo afirma o psiquiatra Içami Tiba em seu livro Educação familiar Presente e Futuro (Editora Integrare), é que esses pais pertencem à geração Y, cujos pais, em geral, sustentaram tudo sem meritocracia pois o que interessava era “ser feliz”. Não aguentavam ver os filhos sofrer e com isso criaram verdadeiros príncipes herdeiros. Tais filhos, que foram igualmente ajudados e bajulados pelos avós “babões”, não têm base para educar os próprios filhos, delegando-os a terceiros, inclusive a escolas onde essas crianças são meros transeuntes.

Os pais gostariam muito que os filhos nunca fossem privados de nada e com elogios vazios ou exagerados acabam dando a eles a promessa de uma ilusão de que a vida é o mar de rosas que eles gostariam que fosse. Mas a vida “essa traiçoeira desmancha prazeres”, os desmente com seus inevitáveis altos e baixos. O grande desafio dos pais é, nas palavras de Içami Tiba, “ensinar aos filhos que felicidade não é não ter problemas, mas ter resiliência para compreender, enfrentar, superar problemas. (…) A felicidade está em não abandonar a escola por causa de uma matéria ou professor, não desistir do campeonato pela derrota em um jogo, não renunciar a um cargo por frustração”.

O artigo The Adverse lmpact of lnflated Praise on Children With Low Self-Esteem, defende a influência até nociva do elogio exagerado sobre as crianças. Ele narra um estudo realizado com crianças com idades entre oito e 12 anos em um museu de ciências. Todas as crianças foram previamente avaliadas em sua autoestima e de­ pois apresentadas a um pintor importante através de vídeo. O pintor propôs que eles observassem uma pintura famosa e fizessem uma cópia dela para ele avaliar. Algumas crianças receberam elogios enfáticos como ”Você fez um desenho maravilhoso!”. Outros receberam elogios normais do tipo “Seu desenho estava bom”. E algumas crianças simplesmente não receberam nenhum feedback sobre o seu desenho.

Em seguida, as crianças receberam outras tarefas de desenho em que podiam optar entre copiar uma figura simples ou uma figura complexa. Só que foram informados de que, se escolhessem a figura complexa provavelmente cometeriam um monte de erros, mas iriam aprender muito. Se, por outro lado, selecionassem a figura simples, come­ teriam poucos erros, mas perderiam a oportunidade de aprender muito. O que curiosamente se observou foi que crianças com baixa autoestima, que foram exageradamente elogiadas na primeira etapa do exercício eram muito menos propensas a escolher figuras complexas para desenhar do que as que receberam elogios regulares. Crianças com autoestima elevada foram menos influenciadas pelos elogios. Ao final dos estudos os pesquisadores foram capazes de concluir que crianças com baixa autoestima ou não acreditam em elogios exagerado ou se sentem intimidadas por eles.

OUTROS OLHARES

FACADA É PRINCIPAL CAUSA DE MORTE DE LGBT+

Levantamento mostra que, com retorno da vida presencial em 2021, assassinatos no grupo voltaram a crescer

O ativista LGBTQIA+ Lindolfo Kosmaski recebeu dois tiros e teve o corpo carbonizado dentro do próprio carro, em maio de 2021. Roberto Silva, mulher trans que vivia em situação de rua, teve 40% do corpo queimado por um adolescente em junho; Já Leila Débora Barbosa, uma mulher lésbica, foi levada para o mato, estuprada e assassinada com 16 tiros, seu corpo foi encontrado enterrada com a cabeça exposta em março.

As tragédias descritas acima são algumas das 316 mortes violentas contra a população LGBTQIA+, que aconteceram no ano de 2021 e foram registradas em um levantamento realizado pelo Observatório de Mortes e Violências contra LGBT no Brasil, divulgado nesta primeira quinzena de maio.

Após uma queda em 2020, a taxa de mortes violentas da população LGBTQIA+ voltou a crescer em 2021 – foram 237 há dois anos, contra 316 no ano passado. A principal causa de morte foi esfaqueamento, responsável por 28,8% dos óbitos – em segundo lugar estão armas de fogo (26,27%) e espancamento (6,33%),

Em números absolutos, o estado de São Paulo é o que mais mata, com 42 assassinatos – só na capital foram 13. Quando o relatório analisa o número de mortes por milhão de habitantes, o estado que lidera o ranking é Alagoas (4,75 por milhão) e São Paulo vai para 0,90 mortes por milhão.

Um dos coordenadores do estudo, Alexandre Bogas diz que, em 2020, quando começou a crise sanitária, eventos foram cancelados e assim muitas pessoas não puderam se expor com saídas à noite ou a boates. “Isso deixava elas mais afastadas do perigo, mas, claro, nunca é a vítima a culpada”, afirma.

“O mais intrigante é que os assassinos não simplesmente matam. Tem requintes de maldade, pedrada, eles expressam o sentimento do ódio, de um preconceito enraizado”, analisa ele. Gays lideram o ranking e representam 45,9% das mortes violentas, valor semelhante ao de travestis e mulheres transexuais (44,62%).

O número está de acordo com um relatório da TGEU (Transgender Europe), que monitora dados levantados por instituições trans e LGBTQIA+, e mostrou que, entre outubro de 2020 e setembro de 2021, o Brasil estava na liderança das mortes de pessoas trans, com 125 óbitos.

Já a Antra levantou 175 casos de assassinatos de pessoas trans no Brasil em 2020 – uma alta de 41% em relação ao ano anterior.

O levantamento mostra ainda que 30,38% das vítimas tem entre 20 e 29 anos e que quase a metade das mortes (48,1%) aconteceram no período noturno, o que equivale a 152 casos.

“Isso demanda maior atenção do poder público na garantia da segurança desse grupo em situação de vulnerabilidade”, diz o relatório. Sobre esta questão, Bogas afirma ainda que é necessário que políticas educativas sejam implementadas para evitar esse tipo de ocorrência.

A principal ocupação das pessoas LGBTQA+ que foram vítimas de violência é a prostituição. Esta é a ocupação da qual os travestis e transexuais são em sua grande maioria, aponta Bogas.

Em segundo lugar, aparecem os professores. “Se conseguimos discutir questões de gêneros, direitos reais e reprodutivos, com grandes liberdades nas escolas isso se naturalizaria e as pessoas entenderiam que não devem fazer isso”, argumenta ele.

O estudo também buscou mapear a tipificação dessas mortes violentas e apontou que a maioria delas é classificada como homicídio (82,91%). Na sequência, aparece o suicídio (8,23%), o que o relatório aponta como um reflexo dos danos causados pela discriminação contra a comunidade LGHTQIA+. “[Isso] impacta significativamente a saúde mental das pessoas, podendo levar ao intenso sofrimento ou mesmo à retirada da própria vida por pessoas em situação de vulnerabilidade”, diz o texto.

Bogas alerta ainda que é importante que levantamentos como este continuem sendo realizados, pois existe uma subnotificação das mortes violentas que atingem esse grupo. “Os governos não têm esse olhar”, afirma.

De acordo com o último relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2021, o apagão de dados sobre violência contra LGBTQIA+ atingiu ao menos sete estados.

O ativista afirma ainda que o ano de 2022 tende a ser ainda pior. Isso porque, de acordo com os dados colhidos até abril, já foram registrados cerca de 100 mortes violentas no Brasil. “Normalmente, trabalhamos com 15 a 20 portes por mês e já estamos vendo que está muito maior”, calcula ele.

GESTÃO E CARREIRA

COMO O ACESSO AO ABORTO MOLDOU A FORÇA DE TRABALHO

Julgamento de 1973 estabeleceu o direito legal ao aborto nos EUA; lei que dá acesso ao procedimento está em xeque

Quando Barbara Schwartz lembra de quando era jovem e trabalhava como assistente de palco na Broadway, o alvoroço da experiência vem à mente: dançarinos estressados vestindo figurinos nos bastidores. Segundo Barbara, ela foi capaz de se jogar nessa carreira por causa de uma escolha feita em 1976: fez um aborto em uma clínica que encontrou na lista telefônica. Isso aconteceu três anos após a decisão do caso Roe versus Vade estabelecer o direito constitucional ao aborto nos Estados Unidos.

Para Barbara, o mundo parecia cheio de novas oportunidades profissionais para as mulheres. Ela conseguiu um cartão de crédito com seu próprio nome, tornou-se uma das primeiras mulheres a entrar no sindicato local de contrarregras e se juntou àquele bando de gente de espetáculos.

Barbara, de 69 anos, agora está aposentada e usa seu tempo livre para acompanhar mulheres até as portas de uma clínica de aborto na fronteira entre a Virgínia e o Tennessee. Ela decidiu se tornar voluntária porque, em sua opinião, a promessa de seus 20 anos está perdendo força – consequência de leis que reduziram o acesso ao aborto, com um projeto de lei vazado da Suprema Corte revelando que o veredicto do caso Roe provavelmente será anulado. “Esta é a minha maneira de retribuir”.

É assim que Ginny Jeltis, de 67 anos, pensa também. Ela estava no último ano do ensino médio quando foi decidido o caso Roe, e começou a atuar como acompanhante na clínica após se aposentar como professora de história, em 2016.

Para mulheres como Ginny, que entraram na vida adulta no início dos anos 1970, o mundo do trabalho estava mudando rapidamente. A participação das mulheres na força de trabalho passou de cerca de 43%, em 1970, para 57,4% em 2019. Muitos fatores levaram as mulheres a entrar em maior número no mercado nas últimas décadas: novas tecnologias criaram novas funções administrativas, muitas exercidas por mulheres; o estigma associado às mulheres casadas no trabalho diminuiu. Mas sociólogos defendem que o aborto legal foi decisivo.

“Não há dúvida de que o aborto legal possibilita que mulheres de todas as classes e raças tenham algum controle sobre suas vidas econômicas e a capacidade de trabalhar fora de casa”, disse Rosalind Petchesky, professora aposentada cuja pesquisa foi citada em decisão da Suprema Corte de 1992, que reafirmou o veredicto do caso Roe.

APOSENTADORIA

As mulheres que iniciaram a vida profissional logo após o caso Roe estão atingindo a idade de aposentadoria. Algumas delas, como Carolyn McLarty, veterinária aposentada, estão mais empenhadas do que nunca em sua defesa contra o aborto. Outras, como Barbara, olham para trás e sentem que suas carreiras estão em dívida com a decisão de 1973. Por isso, elas usam o tempo livre para serem acompanhantes em clínicas de aborto. Essa experiência demonstra o que o caso Roe significou para mulheres que lutaram pelo acesso ao aborto, e cuja vida profissional foi influenciada pelas oportunidades que o veredicto lhes proporcionou. “Eu simplesmente não posso acreditar que as mulheres jovens não serão capazes de ter acesso ao que tivemos”, disse Debra Knox Deiermann, de 67 anos, acompanhante em uma clínica na área de Sr. Louis.

Uma pesquisa do Centro de Pesquisas Pew de 2021 descobriu que 59% dos americanos disseram acreditar que o aborto deveria ser legal em todos ou na maioria dos casos, e 39% disseram que deveria ser ilegal em todos ou na maioria.

Hoje, a revogação do veredicto do caso Roe significaria que as mulheres nos Estados Unidos enfrentariam um emaranhado de leis estaduais sobre o acesso ao aborto, com 13 estados prontos para proibir a prática imediatamente.

EU ACHO …

AVALANCHE DE EXISTÊNCIA

Ninguém nasce para uma vidinha besta. Sonhamos em ter pensamentos que nos façam crescer, conversas que nos inspirem a evoluir. Em ser abertos às novidades, em escutar os outros com interesse verdadeiro. Gostaríamos de acessar os sentimentos secretos de desconhecidos, não para fazer julgamento moral, mas para identificar nossas próprias loucuras. Saber de onde viemos e por que as coisas são como são, a fim de mudar o mundo.

Redes sociais nos distraem e, dependendo de quem seguimos, nos informam, mas é pela leitura que começa a revolução de nos transformarmos em alguém que valha a pena.

Aí surge o intrigado: mas ler não seria o contrário de socializar? Um isolamento improdutivo, enquanto a correnteza da vida passa lá fora, por trás da janela? Leio de cinco a sete livros por mês e acho graça de quem se compadece da minha sina: “coitada, não vive”.

Como toda cidadã mundana, vivo regularmente. Trabalho, namoro, viajo, frequento bares, faço exercícios e gasto um bom tempo xeretando no celular, mas ao menos por 30 minutos diários eu grudo em algum livro, e em vez de perder a correnteza que passa por trás da janela, derrubo a parede e inundo a casa toda, meu universo inteiro. Fico encharcada de existência

Aos 11 anos, perdi pai e mãe num acidente de avião. Depois de me aposentar, fundei uma companhia de dança. Sou negra, criada pela minha avó. Tantos anos de batina e nunca havia escutado a confissão de um assassinato. Fui adotado por uma dona de bordel. Passei quatro anos sonhando todas as noites com Leila Diniz, minha ex-mulher. Morei dois anos na Índia e voltei reconciliado com a solidão.

Chego todo dia exausto do trabalho e meu vizinho faz tanto barulho que um dia ainda vou matá-lo. Atravessei sozinha os Estados Unidos de carona. Ninguém foi tão pirada quanto minha mãe, nem tão poética. Estou ficando cega. Até os 19, eu nunca tinha comido um bife. Morei três meses dentro de um aeroporto. Fui estuprada uma manhã, ao sair de casa para correr. Ganhei o Nobel da Paz depois de ficar 27 anos preso. Minha cidade começou a ser bombardeada no instante em que minha família se sentou para jantar. Estávamos em lua de mel quando meu marido revelou que era bissexual. Meu filho mais velho é trans. Fiquei milionário fazendo jingles para um fascista. Me apaixonei por uma mulher casada.

Cada um de nós tem sua própria história, bonita e sofrida, mas insuficiente para que haja uma compreensão vasta do mundo. Para se ter a consciência realmente expandida e empática do que acontece lá fora, para embrenhar-se nos corações e mentes dos estranhos que adoramos condenar à distância, só derrubando paredes. Não há ninguém mais desinteressado pela vida do que o dono de uma estante vazia.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

O QUE VOCÊ PRECISA SABER ANTES DE COLOCAR UM DIU

Dispositivo é muito eficaz para prevenir a gravidez, mas algumas mulheres dizem sentir dor; veja o que pode ser feito

Nos Estados Unidos, 10% das mulheres entre 15 e 49 anos usam atualmente alguma forma de contracepção reversível de longa duração, uma categoria que inclui dispositivos intrauterinos, ou DIUs. No Brasil, apenas 8% usam o modelo de cobre.

Pesquisas indicam que a grande maioria das mulheres com DIU está satisfeita, mas algumas acham o processo de inserção doloroso.

“Foi a coisa mais dolorosa que já vi”, diz Amy Halldin, de 40 ano•, que colocou um DIU na semana passada.

“Comecei a suar e vomitei”. Ela não está sozinha. Muitas pacientes e profissionais de saúde vêm usando redes sociais como o Tik Tok para chamar a atenção sobre a colocação do DIU – e defender formas mais efetivas para o controle da dor.

O DIU é um tipo de contraceptivo de ação prolongada reversível. O pequeno dispositivo em forma de T é colocado no útero e deixado no local para evitar a gravidez entre três e 12 anos, dependendo cio tipo. É uma das formas mais eficazes de controle de natalidade, em parte porque diminui as chances de erro humana – ao contrário, por exemplo, da pílula anticoncepcional, que deve ser tomada diariamente.

“Os DIUs são realmente seguros e altamente eficazes”, garante Sarita Sonalkar, professora de obstetrícia e ginecologia da Universidade da Pensilvânia.

Existem tipos hormonais e não hormonais. Os hormonais (Mirena, Kyleena, Liletta eSkyla são as marcas disponíveis nos EUA) usam o hormônio progesterona para prevenir a gravidez e funcionam espessando o muco no colo do útero para impedir que o esperma chegue ao óvulo. Eles também podem suprimir a ovulação. Já o DIU de cobre, que não depende de hormônios, é envolto em um pequeno pedaço de cobre que é tóxico tanto para o esperma quanto para os óvulos.

O DIU também pode ser uma formae6cazde contracepção de emergência caso o dispositivo seja colocado em até cinco dias após o sexo.

Para inseri-lo, um médico coloca um espéculo na vagina, e, em seguida, usa um tubo de inserção especial para passar o dispositivo através da abertura do colo do útero até o útero. O processo normalmente leva alguns minutos. Alguma dor é mesmo esperada.

“A maioria das mulheres tolera muito bem a inserção, embora possam surgir cólicas moderadas. Portanto, tomar Ibuprofeno ou paracetamol uma hora antes da inserção pode ajudar”, explica Margaret Boozer, professora do departamento de obstetrícia e ginecologia da Universidade do Alabama.

As mulheres que consideram colocar um DIU devem ter uma conversa franca com um profissional de saúde, incluindo possíveis benefícios e efeitos colaterais, assim como seu histórico pessoal e objetivos de planejamento familiar.

Mas também é importante saber sobre o procedimento em si. Por isso conversamos com ginecologistas obstetras sobre como elas podem se preparar.

QUAIS AS MINHAS OPÇÕES DE CONTROLE DA DOR?

“A inserção do DIU pode ser dolorosa para algumas pessoas, mas existem intervenções”, diz Sonalkar. “Acho muito importante saber que os médicos podem oferece anestésicos locais no momento da inserção. E isso mostrou diminuir significativamente a dor.

Pergunte ao seu médico quais opções de gerenciamento de dor ele oferece. Não há como prever com certeza qual será sua experiência pessoal, mas existem fatores que os profissionais de saúde podem usar para fazer um palpite. A professora de obstetrícia e ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Oregon, Maria Rodriguez, por exemplo, diz que geralmente pergunta a suas pacientes como são seus ciclos menstruais e como lidam com fortes cólicas.

Ela também avalia se já passou por parto normal antes. Alguns especialistas acreditam que as inserções do DIU são mais fáceis e menos dolorosas entre as mulheres que o fizeram, porque o colo do útero está dilatado.

Há médicos que prescrevem um medicamento por via oral antes da colocação, para ajudar a dilatar o colo do útero; mas as pesquisas que analisam segurança e eficácia da técnica não foram conclusivas.

E SE EU ESTIVER ANSIOSA?

“Para as mulheres que tiveram um histórico de trauma, gosto de conversar sobre o que precisam para se sentirem confortáveis e seguras enquanto estou fazendo qualquer tipo de exame, e isso inclui a colocação de DIU”, afirma Rodriguez. Ela acrescenta que é importante que as mulheres saibam que sempre podem pedir ao médico que pare.

Jonas Swartz, professor de obstetrícia e ginecologia da Duke University, na Carolina do Norte, disse que às vezes oferece às pacientes que “estão realmente ansiosas” medicamentos orais que possam ajudar no controle da ansiedade, mas apenas se há algum acompanhante.

“Também atendemos pacientes que realmente se sentem desconfortáveis com a ideia, ou com a dor, ou que tem histórico de trauma e não querem um procedimento clínico. Podemos oferecer a elas um procedimento com sedação moderada na sala de cirurgia”, diz.

VOCÊ REALIZA INSERÇÕES DE DIU REGULARMENTE?

Rodriguez defende que as mulheres devem se sentir empoderadas para perguntar ao médico se é algo que fazem regularmente:

“Pela minha experiência, se você vir um profissional que já colocou muitos DIUs, o processo tende a ser mais rápido e suave.

CONSIGO FACILMENTE FAZER A REMOÇÃO?

Pode ser útil avaliar a disponibilidade para a remoção do DIU, seja por não se adaptar ou por querer engravidar. Pesquisas mostram que a maioria das mulheres que usa está satisfeita um ano depois, mas pode ser “frustrante não ter acesso à remoção”, diz Sonalkar.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO A PANDEMIA FEZ MUITOS CASAIS DESISTIREM DA SEGUNDA GESTAÇÃO

Para algumas famílias, as mudanças dos últimos dois anos evidenciaram limitações e reduziram a vontade de ter mais filhos

Dois filhos sempre foram o plano de Anna Carey e, no início de 2020, ela estava se preparando para engravidar. Sua filha tinha acabado de fazer dois anos e ela e o marido viviam felizes, embora longe da família, em Toronto, onde Carey trabalhava meio período em uma empresa de marketing.

Mas, claro, todos sabemos o que aconteceu a seguir. Sem escola ou ajuda durante a pandemia, Carey foi forçada a deixar o emprego em agosto de 2020 para cuidar da filha. O que era um desejo quase certo alguns meses antes começou a parecer impensável.

“Não poderíamos imaginar passar por gravidez, parto e cuidado com um recém-nascido com tão poucas opções de apoio”, disse.

Por algum tempo, ela ainda tinha esperança de que a situação melhorasse antes de completar 35 anos, o que, por questões genéticas, Carey e o marido sempre consideraram um limite.

A gota d’água, porém, foi ver como a pandemia revelou uma gritante falta de apoio estrutural para as famílias. Segundo Carey, ela ficou triste, mas resoluta com a sua decisão.

Passei a perceber o quão pouco a sociedade valoriza as crianças e os pais, especialmente as mães. Isso passou a ser um grande impedimento”, afirmou.

CONTROLE DE NATALIDADE

Certamente, muitas pessoas tiveram bebês durante a pandemia. No entanto, para alguns millenials mais velhos e que já tiveram um ou mais filhos antes da pandemia dos riscos reais de ser pai e mãe em alguns dos piores momentos da história recente provaram ser uma forma potente de controle de natalidade.

Encarar a vida pandêmica, com todos os seus contratempos e consequências imprevisíveis – isso sem falar nas próprias questões existenciais – provocou sensação semelhante à vida pós-parto, mas sem o lado bom de um adorável bebé. Adicionar um recém-nascido real à mistura? Para alguns, isso se tornou impensável – seja por um certo tempo ou para sempre. Além disso, há outro aspecto mais objetivo do controle de natalidade pandêmico: a fertilidade em declínio. Embora muitos aspectos da vida pareçam ter estado em compasso de espera por dois anos, o tempo continuou a passar, uma consideração significativa para pessoas que viram o final dos seus 30 anos escorrendo pelo ralo enquanto ganhavam habilidades questionáveis no Zoom e um conjunto assustador de obstáculos financeiros e fisiológicos a serem superados.

“Para outros pais mais velhos, as mudanças provocadas pela pandemia ajudaram a esclarecer suas limitações de maneiras dolorosas, mesmo que tenham trazido algo semelhante à sabedoria.

Sarah Balcomb, escritora que tem uma filha de 9 anos e mora no estado americano da Virgínia, percebeu que estava encerrando permanentemente a vida reprodutiva da maneira que Hemingway descreveu uma vez; gradualmente e, depois, de uma vez só.

Aos 47 anos, Balcomb havia tentando vários tratamentos de fertilidade há anos. No início de 2020, estava contemplando uma rodada de fertilização in vitro, que seu seguro cobriria. Mas ela e o marido adotaram um cachorrinho no final de março, e o trabalho com o    filhote trouxe flashbacks viscerais dos primeiros meses de vida com um recém-nascido humano. Na segunda noite, ela conta, a privação de sono produziu uma revelação.

“O peso de tudo isso desabou sobre mim”, contou, listando a pandemia, a política polarizada, as mudanças climáticas, a desigualdade econômica e o racismo sistêmico entre os motivos.

“Eu sabia que naquela noite tinha acabado”.

Segundo ela, apesar de se ressentir por sua filha não ter um irmão, não há nada que a faça mudar de ideia sobre engravidar novamente, a não ser uma utopia repentina.

“Mesmo se fôssemos super ricos e pudéssemos contratar ajuda em tempo integral, eu não teria outro filho. Se o planeta fosse milagrosamente consertado e não houvessem mais guerra e fôssemos ricos, então eu poderia pensar a respeito”.

SEPARAÇÕES

E há a questão dos divórcios na pandemia. Astaxas subiram após o primeiro ano e, para os pais de crianças pequenas que não mantiveram os relacionamentos, a perspectiva de ter mais filhos no futuro parece muito menos provável do que antes. É o caso de Tully Mills, de 40 anos, um ilustrador que mora no Colorado, com a filha de 2 anos e meio.

“A realidade de não ter um segundo filho se instalou gradualmente após o primeiro ano de Covid-19”, lembrou ele, que não imagina ter mais filhos, mesmo com uma futura parceira.

“Tudo era tão incerto e o modo de sobrevivência estava entrando em ação”.

Ainda existe uma epidemia sombria de esgotamento entre os pais que viveram em 2020 e 2021 com crianças muito pequenas em casa. A perspectiva de ter mais filhos pode parecer especialmente desagradável para aqueles pais que ainda estão se recuperando de assumir tarefas inesperadas sem reconhecimento ou apoio social.

Durante os primeiros meses, quando tudo começou, em 2020, antes que os dados sobre a relativa segurança das atividades ao ar livre fossem disponibilizadas, a maioria dos parquinhos pelo mundo foi fechado, juntamente com escolas e creches para todos, exceto para os trabalhadores essenciais. Nas áreas urbanas, as crianças podiam brincar em parques públicos e na calçada, mas na maioria das vezes ficavam presas em pequenos espaços com seus pais e irmãos por meses a fio. O impacto desse período sobre os pais de crianças pequenas ainda está se revelando.

QUEDA NA NATALIDADE

No Brasil, as taxas de natalidade vêm caindo há seis anos e a diminuição foi intensificada com a crise sanitária. Também houve queda nos EUA. Os motivos variam do extremamente óbvio, como gastos com estudos, desemprego, pobreza, violência, ao puramente especulativo.

É incontestável, porém, que a pandemia causou uma queda imediata nos nascimentos: em dezembro de 2020, cerca de nove meses após o início da pandemia, os nascimentos diminuíram cercade 8% – o maior declínio de qualquer mês naquele ano tão desafiador – em comparação com o mesmo mês do ano anterior.

Se a instabilidade e a falta catastrófica de cuidados infantis que muitas famílias experimentaram desde então reduziram a fertilidade geral, isso não será quantificável por mais alguns anos.

Ainda assim, entre alguns pais, é fácil encontrar pessoas que ao menos pensariam em ter mais filhos se os últimos anos tivessem sido diferentes. “Eu mesma faço parte deste grupo. Antes de março de 2020. enquanto me preparava para a publicação de um segundo romance, tinha certeza de que teria um avanço na carreira, e também esperava engravidar de um terceiro filho. Na verdade, retirei o DIU”.

Ainda sinto saudades da sensação de esperança e de possibilidades infinitas que sentia quando contemplava meu sonho secreto de ter um terceiro filho, mas cheguei a um acordo com a realidade da situação: é uma perda que merece ser reconhecida e lamentada, em vez de manter uma ambição frustrada que ainda pode se concretizar. Mas, para além disso, eu definitivamente vou pegar outro gato.

OUTROS OLHARES

CRISE LEVA MÃES A DEIXAREM BEBÊS COM 2 MESES NA CRECHE

Matrículas nessa faixa etária são 22 vezes o número anterior à pandemia

Oito semanas depois de ter tido a quinta filha, Mikaelle Araújo, 34, deixou a menina em uma creche municipal de São Paulo para poder trabalhar. Ela é babá em casas na região do Morumbi.

Principal responsável pelo sustento dos cinco filhos, ela não pôde esperar a caçula, Eloá chegar aos quatro meses para voltar ao trabalho. Assim como Mikaelle, milhares de mães da capital paulista têm sido forçadas a se separar cada vez mais cedo de seus bebês devido à crise econômica no país.

O aumento do mercado de trabalho informal afasta essas mães do direito ao período legal de licença-maternidade no país, de 120 dias. Sem renda, e na maioria das vezes, sem o apoio financeiro dos pais das crianças, elas têm a creche como único apoio para continuar sustentando a família.

Na última semana de abril, havia 3.741 bebês com menos de quatro meses matriculados nas creches da rede municipal da cidade. Desses, 63 têm menos de 30 dias de vida e 539 menos de 60 dias, etapa que os especialistas descrevem como “gestação externa”, ainda na transição para o mundo fora do corpo da mãe.

O número de bebês de até dois meses nas creches neste ano é quase o dobro do registrado no mesmo mês do ano passado, quando havia 325 matrículas dessa faixa etária. É ainda 22 vezes o registrado em abril de 2019, antes da pandemia, quando havia 26 bebês dessa idade.

“De todos os meus filhos, ela é a que foi mais novinha para a creche. Fiquei com o coração na mão de deixa-la, parecia que estava deixando um pedacinho de mim ali. Mas não tem jeito, a situação está muito difícil com cinco crianças em casa”, conta a mãe. Ela recebe a pensão apenas do pai dos filhos mais velhos, mas não a do pai de Eloá,

“Está tudo cada vez mais caro, de mercado já cortei quase tudo, carne, frutas, legumes até o leite dos maiores. Meu leite do peito já nem estava dando conta para a Eloá. Na creche, é até bom porque lá eles dão a fórmula”, afirma.

As matrículas de bebês com menos de quatro meses já aumentavam na rede municipal antes da pandemia. Desde então, esse crescimento se intensificou.

Os dados da Secretaria Municipal da Educação mostram que nos anos anteriores, o número de bebês com menos de quatro meses matriculados na rede tinha um pico no início do ano letivo e, depois caía conforme as crianças iam ficando mais velhas.

Em 2020, por exemplo, 3.238 bebês nessa situação estavam matriculados em janeiro. Já em abril, eram apenas 435. O cenário é semelhante em todos os anos de 2018 a 2021.

 Agora em 2022, porém, a situação mudou e o número de bebês com menos de quatro meses matriculados em abril (3.741) é maior do que o registrado em janeiro (3.528). Ou seja, mais crianças nessa faixa etária entraram em creches de fevereiro a abril deste ano do que no mesmo período nos anos anteriores. Isso indica que a demanda por essas vagas está mais contínua do que antes.

Com apenas 19 dias, Helena é uma das mais novas matriculadas na rede. Ela passou a frequentar o CEI Carolina Maria de Jesus, no Parque Novo Mundo, zona norte, no último dia, porque a mãe dela, Pamela Alves de Sousa, 23, precisou voltar a trabalhar como diarista.

“Eu trabalho sem carteira, então sabia que não teria direito à licença-maternidade. Trabalhei até os oito meses da gravidez e depois não consegui mais. Agora preciso voltar porque a situação em casa está apertada”, diz.

Além da bebê, Pamela mora com o marido, que é lavador de carros, e o filho mais velho de 5 anos. “Está difícil só com o que o meu marido ganha, porque metade vai para o aluguel. Foi difícil paga mercado nesses últimos dois meses que fiquei sem trabalhar”.

“É difícil ter que deixar uma bebê tão pequena na creche, mas ela vai se adaptar e vai ser melhor para nós. É para poder dar uma condição melhor para ela também”, disse.

Para o secretário de Educação do município, Fernando Padula, o aumento de bebês pequenos matriculados nas creches é um reflexo da crise financeira do país. “É a realidade que enfrentamos, 53% dos alunos da educação infantil do município estão no CadÚnico, ou seja, vivem em situação de pobreza ou extrema pobreza”, afirmou.

Segundo ele, as vagas para bebês em qualquer momento do ano só são possíveis porque a Prefeitura de São Paulo conseguiu zerar a fila de espera por vaga em creche.

No CEI (Centro de Educação Infantil) Bela Vista, na região central, Brenno, de três meses é o mais novo de uma sala com outros 11 bebês de até um ano. “As professoras chamam ele de pacotinho, porque é o menor da turma”, conta a mãe Tatiana da Conceição, 34.

Enquanto alguns bebês engatinham e outros ensaiam os primeiros passos, Brenno se reveza no colo das três professoras da sala ou fica deitado.

Antes de entrar para a creche, Brenno só recebia leite materno, mas agora está só com uma fórmula láctea. A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda a amamentação exclusiva até os seis meses.

“Eu até tentei continuar amamentando em casa, mas meu peito doía muito durante o dia quando estava longe dele. O leite ia acumulando, vazava e até empedrou. Como eu ia conseguir trabalhar desse jeito?”, questiona Tatiana.

Segundo a Secretaria Municipal de Educação, todas as creches da cidade são orientadas a incentivar o aleitamento materno e devem ter um ambiente preparado para que as mães possam amamentar os bebês.

A arquiteta Mônica Alves, 28, pôs a filha Clarice de três meses no CEI Benedito Bueno, no Jardim Paulistano, na zona norte para poder voltar ao trabalho. Como está em home office, ela consegue ir à unidade no meio da manhã para amamentar a menina.

“Ela não aceitou a mamadeira de jeito nenhum. As professoras me ligam no meio da manhã e eu vou até lá para amamenta-la. Tem sido melhor assim, porque consigo trabalhar e sei que ela está sendo bem cuidada”, diz.

Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, organização que atua por melhores políticas para a primeira infância, diz que é importante a garantia de vaga em creche para crianças tão pequenas diante do contexto em que as famílias vivem. Para ela, parte do trabalho precisa ser dar apoio e condições para que as mães continuem com o aleitamento materno mesmo depois de as crianças estarem na creche

GESTÃO E CARREIRA

A DIVERSIDADE ALÉM DO RH

Como a inclusão começa a se tornar um tema de negócios – que envolve de maneira estratégica as diversas áreas da companhia

O princípio básico da diversidade e inclusão nasce na gestão de pessoas. Por definição, sem profissionais com perfis diferentes não existe diversidade. Ponto. À medida que as empresas avançam nessa jornada, no entanto, torna-se claro que a construção de uma cultura verdadeiramente inclusiva permeia todo o negócio. Assim, itens como a inovação de produtos, vendas e marketing começam a se conectar de maneira mais intima com o tema.

Mesmo para as empresas que sequer iniciaram um esforço interno para ampliar a diversidade da porta para dentro, a pressão para que isso aconteça vem de fora. E direto dos consumidores, em especial os mais jovens. Segundo um estudo realizado globalmente pela consultoria Deloitte, no ano passado, quase metade dos integrantes da geração Z, que possuem entre 18 e 25 anos, afirmou levar em conta a diversidade da propaganda em suas decisões de compra – mais do que o dobro do que se observa em integrantes da geração anterior, os millennials.

A reportagem mergulhou em três frentes que mostram como a diversidade e inclusão avançam além da área de recursos humanos.

A correlação mais direta entre diversidade e inovação está no simples fato de que pessoas diferentes tendem a trazer perspectivas novas para o processo de criação e execução. Poucoslevantamentos evidenciam de maneira mais clara essa causalidade como o publicado em 2019 pela escola de negócios da Universidade Harvard. Coordenado pelo professor Rembrandt Koning, um grupo de pesquisadores levantou todas as patentes sobre tratamentos de saúde nos Estados Unidos nos últimos 30 anos. Asmulheres representam apenas 13% dos detentores de registros nessa área nos Estados Unidos – e a principal razão é a escassez delas nos laboratórios. A descoberta: uma consequência é a defasagem de novos tratamentos para problemas de saúde típicos das mulheres em contraposição aos que se referem ao universo masculino. Deacordo com o estudo, mulheres têm uma chance 35% maior do que os homens de inventar medicamentos para endometriose, câncer cervical e outras condições femininas. A ausência delas nos laboratórios. portanto, limita o potencial dessas inovações. “A demografia dos investidores importa não apenas para sabermos quem cria e sim para entendermos o que é criado, dizem os autores no documento.

A americana Sonsoles Gonzales conta que sentiu na própria pele, literalmente, o efeito da ausência de mulheres maduras no mercado de beleza. E ela só se deu conta disso ao se tornar uma delas. Em 2018, Sonsoles já somava mais de 25 anos de trabalho como diretora executiva em empresas como Procter & Gamble e L’Oréal. quando entrou na Peri menopausa – um período que varia entre poucos meses e até 14 anos antes do fim do período menstrual para as mulheres. Os primeiros efeitos das variações hormonais, segundo ela, foram sentidos no cabelo. Foi aí que ela percebeu algo que nunca tinha chamado sua atenção: não havia produtos específicos para aquele momento particular da vida das mulheres, evitado como um tabu. Sua resposta foi pedir demissão e criar a marca de produtos de beleza para mulheres maduras Better Not Younger, uma das startups com crescimento mais acelerado nesse segmento, e perspectiva de faturar US$ 20 milhões por ano. A empresa possui produtos para cabelos, pele e nutrição, muitos dos quais com o termo menopausa na embalagem.

Mais de 6 mil mulheres entram nessa fase por dia no mundo. Em 2021, mais de 50 milhões de mulheres possuíam 51 anos, idade média da menopausa, somente nos Estados Unidos, de acordo com o New England Journal of Medicine. O mesmo órgão informa que 13 milhões de mulheres estão peri ou pós-menopáusicas no Reino Unido hoje. Trata-se de um crescente grupo de consumidoras que gasta mais de US$ 22 bilhões por ano em produtos de beleza, mesmo diante de tantas evidências do tamanho e da relevância do mercado, segundo ela, há uma série de razões simples pelas quais não existem muitos produtos para mulheres com mais de 40 anos. ”Todos sabemos que a maioria das empresas que comercializam produtos de beleza emprega mulheres e homens na faixa dos 20 e 30 anos e, em geral. eles têm dificuldade em se relacionar com uma faixa etária com o dobro de sua idade e com quem não compartilham muito, afirmou Sonsoles.

Um estudo da agência de mídia e publicidade Universal McCann realizado no Reino Unido mostra que as mulheres estão ansiosas para ver mudança nessa conversa. Nessa pesquisa, 74% das mulheres dizem que os anúncios não as retratam na menopausa com sensibilidade. Outra descoberta: 61% das mulheres na menopausa concordaram que existe uma expectativa social velada de que elas desapareçam da vida pública à medida que envelhecem. Na esteira de empreendedores como Sonsoles, grandes empresas despertaram para esse nicho. A americana Procter & Gamble lançou a Kindra, uma marca voltada para mulheres na menopausa que ganhou mercado em 2019. Os produtos incluem loções sem estrogênio feitas para diferentes partes do corpo e suplementos alimentares à base de plantas destinados a aliviar sintomas como suores noturnos e baixa libido. A marca, que optou por falar sem rodeios com a consumidora sobre menopausa, é a primeira a surgir da parceria formada pelo estúdio de startups P&GVentures e Ml3, uma empresa de desenvolvimento e investimento de marca em Los Angeles. Os produtos são vendidos online pelo OurKindra.com, onde uma comunidade de mulheres 45+ foi criada e estimulada a interagir e conversar com outras na mesma fase.

Victoria Buchanan, pesquisadora estratégica sênior do The Future Laboratory, de Londres, afirma que “esta sub categoria tem longevidade porque não é uma moda passageira”. “É parte de um movimento mais amplo, em que as marcas de cuidados com a pele estão realmente se preocupando em entender as necessidades específicas das mulheres em diferentes estágios, em vez de apenas adotar uma abordagem de tamanho único”, afirmou.

Não é apenas a indústria de bens de consumo que tem se empenhado em olhar para os clientes buscando atender a necessidades de grupos específicos. Na mesma linha, a seguradora MetLife passou a oferecer opções de seguros pessoais desenvolvidos especialmente para as mulheres. Nos últimos anos, a companhia lançou produtos novos, com apólices que permitem indenização em caso de diagnóstico de câncer de mama, ovário e útero, além de serviços adicionais como assistência nutricional. “Esse direcionamento só foi possível porque o tema de diversidade não está subordinado à área de recursos humanos, globalmente”, afirma Daniela Da Ll’acqua, diretora de recursos humanos da Metlife no Brasil. “Existe um cargo de vice-presidência exclusivamente dedicado ao tema com reporte direto ao CEO da companhia.” No Brasil, o presidente também acompanha os esforços de ampliar a diversidade e inclusão entre os funcionários.

No ltaú, para atender online os clientes com deficiência, foi criada unia equipe para, por exemplo, adaptar funções nos aplicativos do banco e também no site, a pessoas com deficiência. Do trabalho desse time com mais de cem pessoas. algumas delas com deficiência visual, um dos resultados é um cartão que, além de impressão em braile, possui um detalhe perceptível pelo tato que indica onde está o lado certo para inserir nas maquininhas que processam as transações. “Elas atuam na criação e também nos testes para essas funções de acessibilidade”, afirma Maria Julia Kurth de Azambuja, superintendente do ltaú Unibanco e responsável pelas áreas de aquisição de talentos e diversidade e inclusão.

EU ACHO …

A DOR QUE DÓI MAIS

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.

Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Doem essas saudades todas.

Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi à consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango assado, se ela tem assistido às aulas de inglês, se ele aprendeu a lidar com tecnologia, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua te amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama e, ainda assim, doer.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

CÓLICA MENSTRUAL EM EXCESSO PODE INDICAR ENDOMETRIOSE

Pouco estudada, doença leva até dez anos para ser diagnosticada nas mulheres

A cólica menstrual que as mulheres tanto naturalizam como algo que faz parte da vida não deveria ser vista assim, sobretudo se for intensa e frequente.

A menstruação é uma função fisiológica da mulher, assim como urinar ou respirar. Quando qualquer uma dessas últimas situações gera algum incômodo sério logo se desconfia de algo, e um tratamento é baseado. O mesmo comportamento teria que ocorrer ao menstruar e sentir muita dor.

Mas a normalização da dor da mulher faz com que doenças como a endometriose fossem negligenciadas pela ciência, pela medicina e por várias pacientes por muitos anos.

“Ter algum tipo de cólica é comum: durante a menstruação há uma diminuição de sangue na parede do útero, e isso em geral causa alguma dor, que tende a melhorar com medidas de conforto ou analgésicos. Mas aquelas dores que pioram progressivamente a cada ciclo e às vezes chegam a ser incapacitantes não podem ser naturalizadas. É justamente essa banalização que faz com que muitas mulheres e pessoas com útero levem até dez anos, conforme estudo científicos internacionais, para diagnosticar a endometriose e iniciar um tratamento adequado.

O endométrio é o nome que damos ao músculo que cobre a parede interna do útero. Ele é expelido na menstruação em forma de sangramento, mas, se parte desse tecido cai nos ovários ou no abdómen, causa uma inflamação, a tal da endometriose.

É uma doença complexa sobre a qual a ciência começa a entender um pouco melhor só agora, com mais pesquisas sendo desenvolvidas. Ou seja, uma doença que afasta as mulheres do trabalho e as meninas da escola não foi, por muito tempo, uma questão de saúde pública importante.

Além das pesquisas, somente na última década também os exames de imagem começaram a ser capazes de detectar os focos da endometriose. Antes, era preciso fazer uma biópsia, através de videolaparoscopia, que é uma cirurgia menos invasiva, mas ainda assim uma cirurgia.

Com a maior visibilidade da doença e mais disponibilidade de exames, o número de diagnósticos naturalmente cresceu. A doença afeta cerca de 10% da população feminina brasileira, segundo a Anvisa (Agência Nocional de Vigilância Sanitária), e é mais frequente entre pessoas de 15 a 35 anos de idade.

Mas também não é assim tão mais fácil hoje. Mesmo se os exames específicos de ultrassom e ressonância estão disponíveis precisam ser realizados por profissionais treinados, porque a maioria das lesões de endometriose se apresenta de forma sutil, de difícil visualização.

Além de haver poucos radiologistas especializados, nem sempre os exames estão disponíveis na rede pública de saúde, o SIJS (Sistema Único de Saúde).

O profissional precisa de uma boa experiência, ser obsessivo e meticuloso na busca de lesões, explica o médico Marcelo Pedrossani, especialista em gineco-obstetrícia e

diagnóstico por imagem. E é fundamental ter um equipamento mais avançado, que forneça uma excelente resolução de imagem.

“Muitas vezes as pacientes apresentam somente lesões entre 0,5 cm e 1 cm”, destacou. Mas esse tamanho não tem relação direta com a gravidade dos sintomas.

A empresária Flávia Tonani, 43, descobriu que tinha endometriose em 2000, pouco antes de completar 21 anos. Ela já menstruava havia dez anos, com muito sangue, cólicas intensas, muita fraqueza. “Algumas vezes precisava até ir ao hospital para ser medicada.” O diagnóstico final se deu com a videolaparoscopia. O cisto que ela tinha no ovário esquerdo estava grande (do tamanho de uma laranja), comprimindo o intestino e causando fortes dores.

O tratamento recomendado no caso dela foi tomar anticoncepcional direto, sem intervalo, para não menstruar e reduzir as dores. E assim Flávia fez por muitos anos.

Depois dos 30 anos de idade, já cansada, procurou uma ginecologista, pois queria engravidar. Retomou o ciclo menstrual sem hormônios e, com isso, voltou o sofrimento.

“Não saía da cama de tanta dor”, conta. Em 2020, fez a segunda videolaparoscopia, e o cisto agora era no ovário esquerdo. Interromper a menstruação não estacionou a doença dela, apenas mascarou um avanço comprometedor. Dessa vez, Flávia precisou retirar o ovário esquerdo. “Ele estava todo comprometido e, se eu não tivesse descoberto esse cisto, ele podia se romper e a cirurgia seria mais complicada”, lembra.

Flávia ficou grata pela descoberta, mas também triste e frustrada por não conseguir realizar o sonho de gerar uma vida, afirma.

No ano passado, os exames de acompanhamento indicaram que a endometriose tinha atingido o intestino. Foi então que ela começou um tratamento diferente com uma nutróloga. “Eu vi a doença por um ângulo nunca visto antes: a alimentação saudável, a atividade física, o autoconhecimento, cuidar de mim e fazer algo que me desse prazer, tudo isso faz parte do tratamento”.

Entender o que tinha e o que se passava no próprio corpo foi uma virada de chave na vida de Flávia, que hoje não tem mais a maternidade nos planos. “É uma dor superada”, nas palavras dela.

Hoje já se sabe que o tratamento deve ser individualizado, pois cada mulher é uma, e isso traz questionamentos à máxima que se vendeu por décadas: de que “viver sem menstruação é o melhor dos mundos, ou de que o sangramento menstrual é algo inútil. Afinal, para isso, a pessoa precisa usar hormônios artificiais durante a vida inteira.

“Se existissem mais mulheres cientista pesquisando ou até se a gente estivesse ouvindo mais o que as pessoas com útero têm a dizer sobre essa situação, não estávamos utilizando a pílula anticoncepcional, mas uma panaceia”, destacou a ginecologista Halana Faria, do perfil Ginecologia Feminista.

Hoje, estudos já apontam que cortar o ciclo menstrual pode gerar outros problemas e doenças além de não resolver a endometriose.

Ainda nos dias atuais, quando uma mulher fala que está tendo muita acne, sentindo dores no período menstrual e até quando recebe o diagnóstico de endometriose, é provável que ela escute da maioria dos ginecologistas que o anticoncepcional ou o bloqueio do ciclo resolverá a situação.

“Esta afirmação nem sequer tem respaldo científico e parte de uma ideia de que a menstruação é um problema que um grande favor que você faz é ajudar a mulher a se livrar daquilo”, afirmou a ginecologista Bel Saide, do perfil Ginecologia Natural, reforçando que os remédios hormonais não tratam a doença em si.

Outro mito que a médica combate é o de que a menstruação alimenta a endometriose e, por isso, teria que ser totalmente suprimida.

De fato, não existe um consenso na literatura médica em relação ao benefício de parar de menstruar. Para a ginecologista Faria, isso pode ser algo justificável se a pessoa sente tanta cólica a ponto de prejudicar sua qualidade de vida, mas nem sempre esse vai ser o tratamento proposto.

“O que as pacientes me dizem é que se sentem bem quando menstruam, pois parece natural, fisiológico, por mais que tenham efeitos”.

Todos os dias mulheres me procuram ou porque não desejam fazer uso de hormônios ou já fizeram e perceberam que não resolveram o problema”, afirma Bel Saide.

Por ser uma doença que envolve muitos fatores, além de estilo de vida, uma visão integral da mulher e multidisciplinar é importante. Alguns especialistas defendem, por exemplo, um olhar especial para a alimentação, restringindo alimentos que geram uma inflamação.

Há pacientes muito sintomáticas que fazem os exames e quase não têm foco de endometriose. Outras tem cavidades abdominais tomadas de focos de endometriose, sem apresentar nenhum sintoma. Algumas mulheres podem ter o diagnóstico e ficar sem medicação, acompanhando a endometriose com terapias complementares possíveis – só um terço delas, segundo Faria, vai ter uma exacerbação dos sintomas.

A preocupação ocorre se a doença progredir e atingir outros órgãos adjacentes ao útero: trompas, ovários, bexiga, ureter e intestino. “Mas em 70% dos casos ela vai estacionar ou regredir espontaneamente”, ressalta.

O mais urgente é ter bons profissionais da saúde, médicos da família, clínicos gerais que investiguem e entendam a doença. Que ginecologistas em geral façam a escuta verdadeira, adequada das mulheres e pessoas com útero, das queixas de pacientes.

Faria alerta que a identificação das dores menstruais pode ter dois extremos ruins: nunca investigar o que há por trás das dores ou chegar a um diagnóstico tardio; ou começar a  fazer muitos exames, suspeitar demais e descobrir focos que, na verdade, vão regredir ou estacionar e não se tomarão problemas.

Também é preciso estar atenta à medicalização fantasiada de naturopatia, pondera a médica, com cursos e conceitos religiosos.

O tratamento muitas vezes dispensado a pessoas com endometriose reflete um aspecto da oferta da saúde – o fato de que, como frisa Halana Faria, os padrões de base são heteronormativos, excluindo a existência de mulheres trans e de relações homossexuais, vendo o corpo feminino como voltado apenas para a reprodução.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PODERES ESPECIAIS

Adultos autistas usam diferenças como aliadas para uma vida plena

A americana Zhara Astra, mãe de dois filhos, é roteirista, produtora e professora na Universidade do Arizona. Já Scott Steindorff é um premiado produtor americano de cinema e televisão responsável por filmes como “O amor nos tempos do cólera” e pela série “Station Eleven”. Ele tem três filhos.

Por trás dos currículos impressionantes, há coisas que ninguém vê. Ela tem uma tenda no quarto, onde busca refúgio para seu meltdown ou seja, as crises explosivas que enfrenta eventualmente. Ela sofreu bullying na escola, chorava todas as noites e tinha dificuldade em fazer contato visual. Quando ela termina uma refeição ou conversa, levanta e vai embora subitamente. Às veze ele fala num tom que parece que está bravo. Ambos, pessoas realizadas profissional e pessoalmente, estão no espectro autista.

O casal veio ao Brasil para dar palestras no evento Rio2 C, que realizou centenas de encontros de criatividade no fim de abril. Astra e Steindorff são exemplos, assim como muitos brasileiros, de que grande parte das pessoas autistas pode te uma vida plena, bem-sucedida em todos os aspectos.

Ambos só foram diagnosticados com autismo já adultos. Antes firam identificados com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e pessoas altamente sensíveis (PAS).

“A parte mais difícil do autismo foi ser uma criança socialmente estranha e sofrer bullying. Aos 10 anos fui levado à diretoria da escola porque achavam que eu tinha usado drogas. Até os anos 1980 não havia o diagnóstico de autismo”, conta Steindorff. “O lado positivo é que tive uma imaginação vivida e criatividade. Acho conforto lendo ou aprendendo, por isso, leio três livros por semana.

PONTOS FORTES

O produtor criou ferramentas para lidar com o autismo. Mantém um diário em que processa e expressa seus sentimentos e conta que a meditação tem sido fundamental em sua vida. A voracidade com que lê e guarda as informações foi, certamente, um talento a mais na sua profissão:

“Tive que aprender a me tornar mais sociável, fazer contato visual, focar e identificar eexpressar os sentimentos. Mas você nunca vai transformar um pato num ganso. Então, entendo minhas forças e aceito minhas fraquezas. Posso lembrar o que diz tal página de tal livro. E é por isso que eu tenho sucesso nesse ramo. Achei meus pontos fortes. Mas por muito tempo fiquei isolado porque não queria interagir. A roteirista e professora Zhara Astra explica que o autismo se manifesta de forma bem diferente nas mulheres.

“Com as garotas é mais interno, está dentro de nós, então sofremos em silêncio. Eu não tinha esses traços visíveis de autismo, não sofri bullying, mas tinha TOC severo e conflitos causados por ver o mundo de forma totalmente diferente das meninas da minha idade. Estava interessada em filosofia, no sentido da vida e as garotas queriam saber de bonecas e bandas. Essas diferenças eram fonte de sofrimento. Passei a vida sentindo que havia algo errado comigo, me sentindo um alienígena neste planeta, e ter o diagnóstico aos 30 anos foi uma grande mudança para mim.

Da mesma forma que ocorreu com Steindorff, Astra acredita que as pessoas no espectro autista podem usar suas diferenças a seu favor:

“No curso, eu ensino os superpoderes que vem junto com o autismo. É ver quais as forças que acompanham as suas discrepâncias.

Eu, por exemplo, tenho filmes passando na minha cabeça o tempo todo. É exaustivo e fiquei chocada quando descobri que isso não acontece com todo mundo. Então, como roteirista eu leio o roteiro e vejo o filme inteiro na minha cabeça, ouço os diálogos, percebo o que funciona. Descobri que esse é meu poder e posso usar isso a meu favor.

O professor de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Faculdade de Medicina da USP Guilherme V. Polanczyk explica que é exatamente essa a estratégia que adota com os pacientes para sua inserção na sociedade: trabalhar os interesses e habilidades que, no autista, costumam ser mais pronunciados e não mudam muito ao longo da vida.

“A ideia não é que os autistas se tornem como os não autistas, não é esse o objetivo, mas que, conhecendo suas capacidades e suas habilidades, possam encontrar o lugar em que contribuem e se tornem pessoas plenas”, afirma Polanczyk.

Assim, o garoto com interesse fixo por dinossauros, cresce e estuda paleontologia. A menina de ouvido absoluto, tão sensível os sons, pode se tornar música.

SOCIEDADE INCLUSIVA

É preciso dizer, porém, que nem todas as pessoas no espectro autista têm as mesmas potencialidades.

“Há, sim, uma parcela significativa que não vai desenvolver linguagem, não vai ter uma vida funcional, independente. Tem a ver com a gravidade do quadro. Algumas crianças recebem tratamento muito cedo, mas ainda assim não vão ser autônomas.

Outra parcela vai depender muito do tratamento. E outras que independentemente do tratamento vão conseguir se desenvolver e ter uma vida funcional e feliz”, afirma o psiquiatra.

A prevalência de autismo em crianças e adolescentes é de 1%; de maneira global ­ não existem dados específicos do Brasil. Também não há estudos consistentes em adultos e idosos, mas o médico imagina que a prevalência seja semelhante.

Assim, um dos primeiros passos para uma sociedade mais inclusiva é a melhora no diagnóstico, que ainda está no começo, em adultos. Nem mesmo os psiquiatras na residência têm esse treinamento especifico.

Zhara Astra faz outro alerta: todos os dados e pesquisas são baseados em homens brancos, com pouca informação sobre mulheres ou outras etnias. Segundo ela, por exemplo, um dos grupos menos diagnosticados no mundo são as mulheres latinas.

“O conhecimento é o primeiro passo, fundamental para que a gente entenda que existem diferenças com que precisamos lidar, e que essas mesmas diferenças podem levar as pessoas a contribuir muito para a sociedade. É uma mudança de cultura, de perspectiva, em que as diferenças agregam e não são ameaças”, reforça Guilherme V. Polanckzyk.

Scott Steindorff se diz muito “grato pelas oportunidades que teve e que muitas pessoas não têm” e, por isso, hoje tenta trazer mais conhecimento para a sociedade e ferramentas para os autistas.

“Eu não mudaria nada na minha percepção da realidade com o autismo, sou muito feliz, que vejo e sinto as coisas do meu jeito, sou muito grato. É só questão de entender como levar a pessoa ao seu mais alto nível”, afirma Steindorff.

EU ACHO …

DO MÊS QUE VEM NÃO PASSA

Juntos chegaram à conclusão de que o casamento estava um tédio, que o amor havia sumido e que a presença um do outro incomodava mais do que estimulava: nem mesmo a amizade e a ternura haviam sobrevivido. Depois de algumas cobranças inevitáveis, muita DR e lágrimas à beça, optaram por seguir cada um para seu lado. Quando? Logo depois das férias de julho: a gente viaja com as crianças e depois você sai de casa. Perfeito.

Voltaram de viagem mais duros do que nunca foram, o saldo completamente no vermelho. Não era uma boa hora para comprometer o orçamento com um novo aluguel. Ela compreendeu e disse para ele ficar em casa até as finanças se estabilizarem de novo, quando ele então poderia procurar um apartamentozinho.

O casamento seguia um tédio, mas o clima estava mais ameno, sabiam que dali a pouco estariam separados para sempre, então calhava uma harmonização, eles até passaram a sorrir com mais frequência e, olhando assim, de longe, qualquer um diria que aqueles dois se entendiam bem.

As dívidas da viagem foram pagas e, depois de mais uma entre tantas discussões bestas, resolveram agendar de vez a separação: logo de­ pois do aniversário do pequeno Bruninho, que dali a um mês faria r9 anos e media rm87.

Bruninho não quis festa e o saldo do casal voltou a ficar positivo, mas não por muito tempo: a tevê já veiculava comerciais com a presença do Papai Noel. Natal era sempre uma despesa, e os sogros viriam do interior pra comemorar com a família reunida, melhor deixar passar o Natal e o Ano-novo. É melhor, também acho.

Em fevereiro a Bia, filha mais velha, inventou de ir para a praia com as amigas e ficou o mês inteiro lá, assim que ela voltasse os dois dariam o xeque-mate na relação. Bia voltou e já era quase Páscoa, e Páscoa sem ir pra fazenda da tia Sorria não era Páscoa. Depois da Páscoa receberam o convite para serem padrinhos de casamento de um afilhado, melhor não criar constrangimento na igreja. Em seguida foi o aniversário dele, que sempre fica meio caído nessa data, melhor deixar passar o inferno astral. E quando passou, aí foi ela que aniversariou.

Estão casados até hoje. Mas do mês que vem não passa.

*** MARTHA MEDEIROS

OUTROS OLHARES

OBESIDADE DEVE ATINGIR 30% DOS ADULTOS DO PAÍS EM 2030

Número de crianças e adolescentes com excesso de peso também deve aumentar, segundo projeção

O Brasil deverá ter, em 2030, quase 30% de sua população adulta com obesidade. A projeção foi feita pela World Obesity Federation, organização internacional voltada para redução, prevenção e tratamento da obesidade.

Atualmente, dados da Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) de 2021 uma pesquisa feita pelo Ministério da Saúde, indicam que 22% da população brasileira adulta apresenta obesidade.

A condição é calculada por meio do IMC (índice de massa corporal), que consiste na divisão do peso pela altura ao quadrado. Quando o resultado fica entre 25 e 30, considera-se que há sobrepeso – condição que atinge 57% da população adulta no país, segundo os dados da Vigitel. Se o IMC for maior que 30, o caso é categorizado como obesidade.

Os números da World Obesity Federation também apontaram que a condição pode ser uma realidade para mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo até 2030. Para efeito de comparação, em 2010 o número era aproximadamente a metade.

“Alguns fatores relativamente conhecidos para obesidade estão impactando países que anteriormente não tinham altas taxas, como um largo acesso a comidas muito industrializadas e de alimentos refinados”, diz Carlos Schiavon, cirurgião bariátrico e coordenador da ONG Obesidade Brasil.

A federação utilizou dados já consolidados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e do Banco Mundial, além de realizar as estimativas por meio do histórico de obesidade dos países.

No Brasil, casos, conforme a projeção para 2030, o país vai se tornar a quarta nação em maior número absoluto de pessoas com excesso de peso no mundo, atrás somente dos Estados Unidos, da China e da Itália.

A possível prevalência de 30% da condição em toda a população adulta brasileira foi categorizada como alta pela federação. Mas outras regiões chegam a percentuais muito maiores, como a Samoa Americana, que, em oito anos, poderá ter quase 72% da sua população com obesidade.

“O índice no Brasil é muito alto. Comparativamente, está um pouco melhor, mas continua sendo muito alto”, diz Schiavon.

As estimativas também conseguiram identificar a diferença em relação a gênero. No total, conforme a projeção, a maior parcela de pessoas com obesidade no país seriam as mulheres, algo já reconhecido pela literatura médica.

“Se formos ver o número de cirurgias bariátricas, são três mulheres operadas para cada homem. Então, realmente há uma incidência e prevalência maior em mulheres, comparada a homens”, afirma Ricardo Cohen, coordenador do Centro de Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo.

Segundo o coordenador, o quadro pode ter relação com aspectos genéticos. Isso ainda está sendo investigado e pode ser de extrema importância para prevenção e tratamento da condição, já que, de acordo com o médico “sabemos que o grande fundamento da obesidade é genético”.

Os problemas de ter um maior número de pessoas obesas impactam diferentes facetas da sociedade, como no desenvolvimento de diabetes, hipertensão e colesterol alto. Esse cenário reflete diretamente na situação econômico dos países, tanto em relação aos gastos no tratamento das diversas doenças como na perda de capacidade produtiva.

A projeção realizada pela organização também se debruçou sobre esse ponto. Para entender esses efeitos, os pesquisadores observaram os custos diretos e os indiretos que o excesso de peso acarreta.

Aqueles chamados diretos dizem respeito às despesas tidas no tratamento da obesidade e das doenças decorrentes dela, como diabetes, mas também às relacionadas ao processo de busca de serviço de saúde, como viagens para atendimento médico.

Os casos indiretos referem-se à perda de capacidade produtiva das pessoas obesas e às mortes prematuras relacionadas à condição de excesso de peso.

Com esses pontos definidos foi mensurado que o Brasil iria mais do que quadruplicar seus custos envolvendo sobrepeso e obesidade. Estima-se que o custo total alcançou US$ 39 bilhões em 2019.  A projeção é que subiria para US$181 bilhões em 2060.

Além dos adultos, a projeção observou a obesidade em crianças e adolescentes, que deve ter um incremento de quase 100 milhões entre 2020 e 2030 em todo o planeta.

Para o Brasil, o estudo encontrou que o aumento de crianças e adolescentes obesas entre 2020 e 2030 deve ser de 3,8% a cada ano. Esse quadro, diz a federação, é categorizado como muito alto e deve ocasionar mais de 7 milhões de jovens obesos em oito anos.

“Um problema é que essas crianças e adolescentes com obesidade têm uma grande chance de também serem adultos obesos. Isso é muito preocupante porque o futuro já estaria comprometido, ou seja, já teríamos números ruins”, afirma Schiavon.

GESTÃO E CARREIRA

MULHERES FUNDADORAS DE STARTUPS AJUDAM A TRAZER EQUIDADE PARA CARGOS EXECUTIVOS

CEOs usam a própria experiencia para criar equipes de liderança mais equilibradas em relação ao gênero e incentivar a inovação

Basta olhar para as startups e constatar: as mulheres são minoria, especialmente em cargos executivos (C-level) e de liderança. Os números comprovam: de acordo com pesquisa da Associação Brasileira de Startups, em 2021, apenas 16,9% dos fundadores de startups eram mulheres. Os índices que analisam as equipes também não são muito animadores em relação à equidade de gênero. Apenas 20,8% das startups têm um número de mulheres mais expressivo no time – de 26% a 49% do total das equipes.

Para enfrentar esses números, CEOs mulheres usam a própria experiência e a empatia -um sentimento mais acolhedor – como combustível para a mudança e para conseguir nomear mais mulheres para cargos com poder de decisão. Tatiana Pimenta, CEO da Virtude, startup de telemedicina, é uma dessas mulheres que usam seu passado profissional como incentivo. Formada em engenharia civil, trabalhou em quatro multinacionais, e só respondia a diretores homens. “Perdi as contas das vezes em que comecei a falar e fui interrompida por um homem. Eu não tinha lugar de fala”, conta. Ao fundar a Virtude em 2016, ao lado do sócio Everton Hopner, Tatiana decidiu que teria uma equipe heterogênea. “Quando você tem mais diversidade na empresa, você tem olhares diversos. E homens e mulheres têm visões diferentes de mundo. Isso é fato. Ao equilibrar o time, você traz riqueza de pensamento”.

A Virtude é uma plataforma que se dedica a sessões de terapia online, tanto para pacientes quanto para empresas. Em 2020, com a pandemia, houve um enorme aumento de pacientes, e a empresa recebeu investimentos. No ano seguinte, tiveram um crescimento de 12 vezes em receita e começaram a contratar mais pessoas. Com isso, vieram mais mulheres ao C-level. Hoje, ao lado de Tatiana e Everton, estão Maíra Gracini, diretora de receita (chief revenue officer), e lzabela Yumi, diretora financeira (chief financial officer), entre as seis vagas de executivas na Virtude. Há outras mulheres em cargos de liderança, em uma empresa que hoje tem em torno de 40 funcionários – fazendo, assim, a pluralidade de visões.

Além da Virtude, outras startups fazem o mesmo movimento, com lideranças femininas. É o caso de Nilo Saúde, Chiligum, Be Beleza Tech, Woof, AuroForce e da Gupy ­ essa última atingiu o nível de 50 % de mulheres no time, em todos os níveis de liderança.

DIVERSIDADE

Mariana Dias, cofundadora e CEO da plataforma de recrutamento e seleção Gupy, defende que a equidade de gênero traz mais inovação. Por meio de seu serviço de seleção, a startup incentiva a diversidade nos times de outras empresas. A própria Gupy foi fundada com um time executivo diverso: ao lado de Mariana, estão Bruna Guimarães, diretora de operações, Guilherme Dias, diretor de marketing e produto, e Robson Ventura, diretor de tecnologia.

Mariana também sentiu na pele a desigualdade de gênero desde o início de sua trajetória profissional. “Comecei a me perguntar se nós, mulheres, conseguimos ter uma carreira corporativa com a mesma competitividade que a dos homens. Foi aí que nasceu a ideia da Gupy.” Além do C-level, composto por duas mulheres entre quatro pessoas, a Gupy tem 50% de mulheres em seu quadro, incluindo cargos de liderança nos setores de vendas, diversidade, jurídico, sucesso de cliente e marketing.

Isaiane Mendonça, cofundadora da startup AutoForce, também sentiu essa desigualdade, talvez com maior intensidade por atuar em duas áreas muito dominadas por homens: tecnologia e setor automotivo. Fundada ao lado de Tiago Fernandes e Clênio Cunha, a empresa oferece tecnologias para impulsionar a venda de veículos. A plataforma foi desenvolvida por Isaiane, formada em ciência da computação. ”No começo do projeto, os meus sócios queriam que eu continuasse sendo só web designer”, conta. “Pela frente, concordei com eles. Por trás, desenvolvi uma plataforma e a entreguei pronta. Acho que as mulheres são sempre subestimadas; é até uma questão cultural”

Isaiane conclui que mulheres na liderança só trazem benefícios para a empresa. Tanto é assim que, hoje, a líder de pessoas da AutoForce (e braço direito dos fundadores) é Thaiani Godoy. Outras duas mulheres compõem a liderança da startup, representando 40% dos cargos de chefia.

Mariana Dias concorda que mulheres na liderança trazem mais inovação. “Muitas empresas chegam até a Gupy com a meta de ter 30 % de mulheres em seu quadro de funcionários. Mas a questão é mais profunda do que isso: é preciso ter mulheres em todos os níveis, em todos os times”, diz.

ESTAR BEM

BEBER ÁGUA AO SENTIR SEDE É O SUFICIENTE PARA FICAR HIDRATADO

Pessoas com condições médicas como pedras nos rins e idosos, porém, devem considerar ingerir maior quantidade

Você passou algum tempo nas redes sociais ou visitou um evento esportivo ultimamente, com certeza foi bombardeado com incentivos para beber mais água. Influenciadores e celebridades arrastam garrafas de água como se fosse o novo acessório da moda.

No Twitter, robôs constantemente nos lembram de ter mais tempo para nos hidratar. Os supostos benefícios do amplo consumo de água são aparentemente infinitos, desde melhora da memória e da saúde mental, aumento da energia e pele mais bonita. “Mantenha-se hidratado” tornou-se uma nova versão da velha saudação “fique bem”.

Mas o que significa exatamente “manter-se hidratado”? “Quando leigos discutem desidratação, eles querem dizer a perda de qualquer líquido”, diz Joel Topf, nefrologista e professor clínico assistente de medicina na Universidade de Oakland, em Michigan (Estados Unidos).

Mas essa interpretação “está sendo completamente exagerada”, diz Kelly Anne Hyndman, pesquisadora da função renal na Universidade do Alabama em Birmingham. Manter-se hidratado é definitivamente importante, disse ela, mas a ideia de que o simples ato de beber mais água tornará as pessoas mais não é verdade. Também não é correto que a maioria das pessoas estejam cronicamente desidratada ou que devamos beber água o dia todo.

Do ponto de vista médico, acrescenta Topf, a medida mais importante de hidratação é o equilíbrio entre eletrólitos como sódio e água no corpo. E você não precisa beber copos e copos de água ao longo do dia para mantê-lo.

QUANTA ÁGUA DEVO BEBER?

Todos nós fomos ensinados que oito copos de água por dia é o número mágico para todos, mas essa ideia é um mito, diz Tamara Hew-Butler, cientista de exercícios e esportes na Universidade Estadual Wayne.

Fatores únicos, como o tamanho do corpo, a temperatura externa e o quanto você respira e sua determinarão quanto liquido você precisa ingerir, disse ela. Uma pessoa de 90 kg que acabou de caminhar 16 quilômetros no calor obviamente precisará beber mais água do que uma gerente de escritório de 55kg que passou o dia em um prédio com temperatura controlada.

A quantidade de água de que você precisa em um dia também dependerá da sua saúde. Alguém com uma condição médica como insuficiência cardíaca ou pedras nos rins pode exigir uma quantidade diferente de alguém que toma medicamentos diuréticos, por exemplo. Ou você pode precisar alterar a ingestão se estiver doente, com vômitos ou diarreia.

Para a maioria das pessoas jovens e saudáveis, a melhor maneira de se manter hidratado é simplesmente beber quando sentir sede, disse Topf. As pessoas idosas, na faixa dos 70 e 80 anos, podem precisar prestar mais atenção na ingestão suficiente de líquidos, porque a sensação de sede pode diminuir com a idade.

Apesar da crença popular, não confie na cor da urina para indicar com precisão o seu estado de hidratação, disse Hew-Butler. Sim, é possível que a urina amarelo-escura ou âmbar possa significar que você está desidratado, mas não há ciência sólida que sugira que a cor, por si só, exige uma bebida.

TENHO QUE BEBER ÁGUA PARA ME MANTER HIDRATADO?

Não necessariamente. Do ponto de vista puramente nutricional, a água é uma escolha melhor do que opções menos saudáveis, como refrigerantes açucarados ou sucos de frutas. Mas quando se trata de hidratação qualquer bebida pode adicionar água ao seu sistema, diz Hew-Butler. Uma noção popular é que tomar bebidas com cafeína ou álcool irá desidratá-lo, mas se isso for verdade o efeito é insignificante, disse Topf (Um ensaio controlado randomizado de 2016 com 72 homens, por exemplo, concluiu que os efeitos hidratantes da água, cerveja, café e chá eram quase idênticos.

Você também pode obter água do que você come. Alimentos e refeições ricos em líquidos, como frutas, legumes, sopas e molhos, contribuem para a ingestão de água. Além disso, o processo químico de metabolização dos alimentos produz água como subproduto, o que também aumenta sua ingestão, afirma Topf.

PRECISO ME PREOCUPAR COM OS ELETRÓLITOS?

Alguns anúncios de bebidas esportivas podem fazê-lo pensar que precisa estar constantemente reabastecendo eletrólitos para manter seus níveis de controle, mas não há razão científica para a maioria das pessoas saudáveis tomarem bebidas com eletrólitos adicionados, afirma Hew-Butler.

Eletrólitos como sódio, potássio, cloreto e magnésio são minerais eletricamente carregados que estão presentes nos fluidos do corpo (como sangue e urina) e são importantes para equilibrar a água em seu corpo. Eles também são essenciais para o bom funcionamento dos nervos, músculos, cérebro e coração.

Quando você fica desidratado, a concentração de eletrólitos no sangue aumenta e o corpo sinaliza a liberação do hormônio vasopressina, que reduz a quantidade de água liberada na urina para que você possa reabsorvê-la de volta no corpo e recuperar o equilíbrio.

A menos que você esteja em uma circunstância incomum – fazendo exercícios muito intensos no calor ou perdendo muito líquido por vômito ou diarreia -, não precisa reabastecer os eletrólitos com bebidas esportivas ou outros produtos carregados deles. A maioria das pessoas obtém eletrólitos suficientes nos alimentos.

BEBER MAIS ÁGUA, MESMO SEM SEDE, MELHORA A SAÚDE?

 Não. É claro que pessoas com certas condições, como cálculos renais ou a doença renal policística autossômica dominante, mais rara, podem se beneficiar fazendo um esforço para beber um pouco mais de água do que a sede lhes diria, diz Topf.

Mas, na realidade, a maioria das pessoas saudáveis que culpam o mal-estar por estarem desidratadas podem estar se sentindo mal porque estão bebendo água demais, especula Hyndman. “Talvez elas fiquem com dor de cabeça ou se sintam mal, e pensem: ‘Ah, estou desidratada, preciso beber mais’, e continuam bebendo mais e mais água, e acabam se sentindo cada vez pior.

Se você beber mais do que seus rins podem excretar, os eletrólitos no sangue podem ficar muito diluídos e, no caso mais leve, podem fazê-lo se sentir “desligado No caso mais extremo, beber uma quantidade excessiva de água em um curto período de tempo pode  levar a uma condição chamada hiponatremia ou “intoxicação por água”.

“É muito assustador e ruim”, diz Hyndman. Se os níveis de sódio ficarem muito baixos, isso pode causar inchaço cerebral e problemas neurológicos, como convulsões, coma ou até morte.

Em 2007, uma mulher de 28 anos morreu de hiponatremia após supostamente beber quase 8 litros de água em três horas enquanto participava de um concurso de uma estação de rádio que desafiava os participantes a beber água e depois, passar o maior tempo possível sem urinar.

COMO SABER SE ESTOU BEM HIDRATADO?

Seu corpo lhe dirá. A ideia de que manter-se hidratado requer cálculos complexos e ajustes instantâneos para evitar consequências terríveis para a saúde é simplesmente bobagem, dizem especialistas. E uma das melhores coisas que você pode fazer é parar de pensar demais.

O melhor conselho para se manter hidratado, segundo Topf, é o mais simples: beba água quando sentir sede.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SAIBA COMO IDENTIFICAR E TRATAR O TRANSTORNO DE IMAGEM

O principal sinal é o ‘divórcio’ entre a autopercepção e a percepção dos outros; diagnóstico deve ser feito por especialista em saúde mental

Você abre a rede social e dá de cara com aquela pessoa que tem uma imagem escultural. Vai ao espelho e, imediatamente, se compara com ela. Algumas situações ocorrem na sua mente: entende que esse é um corpo inatingível, que pode até ser que tenha filtro na fotografia e que cada pessoa é de um jeito. Para pessoas que sofrem com transtorno de imagem, não é tão simples assim.

“Ele também é conhecido tecnicamente como transtorno dismórfico corporal e envolve pessoas que acreditam serem portadoras de algum ‘defeito’ que lhes confere feiura ou as fazem ser o centro negativo das atenções. O caso pode ocorrer por uma crença no que chamam de um nariz torto, um cabelo sem valor, um rosto quadrado, pernas tortas, etc.”, explica o psiquiatra Rodrigo de Almeida Ramos.

Para a coordenadora do curso de Nutrição do Centro Universitário Braz Cubas, Daniela Cotrim, mesmo que indiretamente, as redes sociais podem estimular o enquadramento a um padrão de beleza estigmatizado. “A mídia social pode desencadear comparações sociais negativas que levam os usuários a acreditar que os outros são mais felizes ou têm uma vida melhor, levando a expectativas irrealistas e feedbacks negativos”, avalia.

Na opinião de Ramos, as redes sociais não interferem necessariamente na causa da doença. “O transtorno de imagem é hoje considerado como parte integrante do espectro obsessivo-compulsivo. Mas as redes sociais são uma arma perigosíssima na mão dos pacientes. Podem trazer a ideia de que uma cirurgia plástica ou uma humanização facial resolveria o problema. Mas não resolveria. Porque não se soluciona problema de mundo interno atuando no mundo externo”, considera

TRANSTORNO DE IMAGEM X TRANSTORNO ALIMENTAR

O transtorno de imagem não está necessariamente ligado ao comportamento alimentar, como explica Rodrigo de Almeida Ramos. “Por outro lado, o transtorno alimentar corresponde a um conjunto de doenças que alteram o padrão de consumo de alimentos do indivíduo, fazendo com que a saúde fique globalmente prejudicada”, diz. São exemplos de transtorno alimentar a anorexia, a bulimia e a compulsão alimentar.

“Nem todos esses transtornos têm como efeito o emagrecimento, mas também, podem levar à obesidade, uma vez que fazem com que os indivíduos nunca se sintam satisfeitos. A prática de atividades físicas são de extrema relevância para manter uma boa qualidade de vida”, acrescenta a professora de Nutrição Daniela Cotrim.

Para a nutricionista, nesse culto ao corpo, as pessoas têm uma preocupação exacerbada com a parte física. “Elas buscam aproximar sua forma aos padrões de beleza que são exibidos pela mídia, envolvendo a prática de atividades físicas, dietas e cirurgias plásticas”, observa. Como nem sempre é possível alcançar os padrões exibidos, cria-se uma insatisfação nas pessoas que tentam alcançar esse ideal de beleza.” Esse fator está contribuindo para o aumento dos casos de distúrbios alimentares, associados a motivos psicológicos”, ensina.

QUAIS OS SINAIS?

O transtorno de imagem é um diagnóstico complexo que precisa ser feito por um especialista em saúde mental. “O grande segredo está no “divórcio” entre a autopercepção e a percepção dos outros. Ou seja, o que a pessoa considera um defeito ou um problema pode nem ser observável pelos outros ou ser algo muito discreto”, esclarece Ramos.

Além disso, de acordo com o psiquiatra, a pessoa costuma se ver frequentemente no espelho, se arruma excessivamente, troca de roupas diversas vezes para um evento e nunca se sente satisfeita.

“Com muita frequência, ela se compara com os outros e na sua opinião sai perdendo. Essas preocupações costumam ser tão intensas que trazem prejuízos na vida do indivíduo tanto socialmente como no trabalho e escola”, afirma. “A apreensão com a auto imagem não está relacionada ao peso e às formas de perdê-lo, porque nesse caso estamos falando de um transtorno alimentar.

CONHEÇA OS TRANSTORNOS MAIS COMUNS

As perturbações dos comportamentos alimentares são mais comuns do que se imagina. E elas podem causar um prejuízo emocional e na qualidade de vida dos pacientes. “Esses indivíduos se sentem motivados a comer menos ou mais do que a quantidade habitual, levando a um comportamento fora do controle que pode trazer diversas consequências nocivas à saúde”, destaca Daniela.

Os transtornos alimentares, em geral, são tratados com acompanhamento médico, por intermédio do atendimento de um psiquiatra, e psicológico, com psicoterapia, que vai entender os “gatilhos” emocionais e tentar ressignificá-los em busca de maior qualidade de vida.

Daniela apontou algumas dicas de como identificar transtornos alimentares e auxiliar alguém que esteja sofrendo com eles.

A anorexia nervosa, por exemplo, caracteriza-se pela perda voluntária de peso, motivada pelo desejo de emagrecer e o medo de engordar. Os comportamentos mais comuns da doença são a redução da alimentação, excesso de exercícios físicos, utilização de redutores de apetite, laxantes e os vômitos provocados. Assim, quem tem anorexia apresenta como resultado a desnutrição progressiva e transtornos físicos e mentais. Entre os sinais de alerta estão peso muito abaixo do normal, preocupação em não aumentar o peso, distorção da imagem corporal, inibição do ciclo menstrual, gastrite e anemia.

Na bulimia, há um consumo excessivo de alimentos em uma única refeição, seguidos de episódios que buscam contar ou amenizar os efeitos da compulsão – vômitos autoinduzidos, uso de laxantes, excesso de exercícios. Geralmente, quem tem bulimia oculta suas ações, pois se envergonha de seus atos. Os problemas mais comuns são a perda de potássio, inflamação do esôfago, desequilíbrio eletrolítico e danos no esmalte dos dentes. Fique atento a dor de garganta, problemas nas glândulas salivares, erosão do esmalte dentário, irritação intestinal (uso abusivo de laxantes) e desequilíbrio de eletrólitos.

Caracterizado por episódios sequenciais de compulsão, o transtorno de compulsão alimentar periódica (TCAP) difere da bulimia, pois não é seguido de métodos purgativos e não apresenta preocupação irracional com a forma corporal. Quem tem o transtorno só consegue parar de comer ao sentir desconforto físico. Entre os sinais de alerta estão comer de forma exagerada (mesmo sem fome), dificuldade para parar de comer, consumo de alimentos estranhos (macarrão cru, feijão gelado) e comer muito rapidamente e escondido.

OUTROS OLHARES

EM MEIO A BUROCRACIA, TRISAIS ‘GRÁVIDOS’ TÊM APOIO ONLINE

Divórcio foi a opção de um casal para garantir amparo legal à companheira

Pierre Gabarra Mira nasceu no dia 16 de abril, filho de uma família poli afetiva, em Bragança Paulista, no interior de São Paulo. Os pais, um trisal formado por um homem e duas mulheres, esperam registrar o bebê com o nome das duas mães.

No Brasil, isso só é possível com pedido judicial de multiparentalidade, o que envolve vínculo afetivo com a criança.

“Ela inclui os trisais e até as famílias multiespécies, com os animais. O direito legislado, no entanto, não prevê essas famílias. É uma novidade que a legislação não acompanhou ainda”, diz Frederico Glitz, advogado e doutor em direito pela UFPR (Universidade Federal do Paraná).

Ele observa que é necessário compreender as relações muito mais pela afetividade e pelo laço não genético. “É preciso entender como uma relação familiar legitima, que merece também tutela jurídica.”

Segundo a Arpen (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais), em 2021 houve 558 registros de multiparentalidade (inclusive de trisais). Em 2022, foram 64 registros até o início de abril.  “A única possibilidade de inclusão de um terceiro genitor no registro de nascimento se dá por meio das regras relativas ao registro de nascimento se dá por meio das regras relativas ao registro de filiação socioafetiva “, afirma a diretora da Arpen/SP, Andreia Gagliardi.

“Somos uma família, mas hoje, se eu precisar que ela responda pelas minhas filhas, ela não pode. Elas a reconhecem como mãe, mas perante a lei não é nada”, diz Priscila Mira, ao lado de Regiane Gabarra, com quem mantém relacionamento amoroso há três anos.

O trisal é completado por Marcel Mira, que se casou há 13 anos com Priscila. Ambos se divorciaram para que Marcel pudesse casar legalmente com Regiane e assegurar direitos à filha biológica de Pierre, com o plano de saúde e herança. A história do trisal é contada no perfil @trisalamoraocubo, que com a chegada do bebê ganhou mais 3.000 seguidores, somando quase 42 mil.

“São pessoas que vêm para somar. Eles entram para saber como é, e descobrem que somos uma família”, diz Priscila.

Sobre o registro no nome dos três, ela diz que tentarão um pedido prévio no cartório. Caso haja negativa, vamos entrar com pedido no jurídico.

“A união entre três pessoas não é prevista na legislação brasileira, havendo vedação imposta pelo Conselho Nacional de Justiça para sua declaração extrajudicial em cartório”, diz a advogada Luciana Xavier, presidente da Comissão de Direito da Família da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), do Paraná.

“A existência de vínculo socioafetivo tem sido aceita para fins de reconhecimento de maternidade, paternidade e situações de multiparentalidade”, diz Xavier.

Este será também o caminho escolhido por um trisal de Londrina, no Paraná. “Desde que descobrimos a gravidez, é fato que Kah também é mãe do Henrique, que ele é dos três”, diz Carolina Queiroz, grávida de sete meses do marido, Douglas Queiroz, com quem é casada há dez anos.

Há sete meses eles se uniram à Kah Marquez. “Não penso que não serei mãe do Henrique só pelo fato dele não ser meu filho biológico. Meu pai é adotado, então sei que o sangue não quer dizer nada”, diz Kah.

Tudo é contado no perfil @meutrisal, que hoje tem quase 20 mil seguidores.

Em Palmas, no Tocantins, outro trisal aguarda seu bebê. “Minha família não aceitou”, diz Kadja Oliveira, grávida de quatro meses de Dionatan Lima.

Ele é casado há 11 anos com a gerente automotiva Denise Beiral. Há dois anos e meio, o casal se uniu a Kadja. “Éramos da igreja, então perdemos muitos amigos”, diz Denise.

Na internet, ao contrário, desde que abriram o perfil @trilov3, recebem carinho e apoio. “Eles têm interesse em saber como vivemos. O preconceito vem das pessoas que não entendem nossa forma de amar”, afirma Denise.

“‘Quando contamos, minha família ficou em choque, mas hoje já aceitaram, estão ansiosos pela chegada do bebê e eu me sinto muito feliz”, diz Dionatan.

GESTÃO E CARREIRA

MUITOS PAIS QUE TRABALHAM SOFREM BURNOUT, DIZ ESTUDO

Pesquisa nos EUA abordou período de confinamentos devidos à pandemia

Faz dois anos que os pais que vivem e trabalham nos Estados Unidos estão esgotados, quase no limite de suas forças – castigados pelo estresse do ensino escolar à distância, do fechamento de creches, instabilidade econômica e isolamento social.

Um estudo que acaba de ser lançado diz que 66% dos pais que trabalham satisfazem os critérios de síndrome de Burnout parental, um termo não clínico que significa que eles estão tão exaustos com a pressão de cuidar dos filhos que sentem que não têm mais nada para dar.

Publicado por pesquisadores da Ohio State University, o estudo é baseado numa pesquisa online feita entre janeiro e abril de 2021 com 1.285 pais e mães que trabalham.

A pesquisa seguiu um curto cenário de um tempo diferente, quando os EUA estavam mergulhados em confinamentos devido a pandemia.

Mas seus autores acreditam que o Burnout parental se perpetue, isso porque os pais que trabalham não contam com apoio estrutural prático suficiente para superar o implacável estresse, que não está diminuindo. Qualquer mãe ou pai pode sofrer Burnout, mas o estudo enfoca os pais que trabalham e que, para os pesquisadores, correm risco especial de esgotamento.

“O Burnout parental não vai simplesmente acabar num toque de mágica quando a pandemia terminar, disse Bernadette Melnyk, diretora da Faculdade de Enfermagem da Ohio State University e autora do estudo. “A cronicidade da pandemia cobrou seu preço e esgotou as reservas de força de muitos pais, que vão demandar tempo e paciência para voltar a crescer”.

O Burnout parental não é um diagnóstico clínico que possa figurar na ficha médica de qualquer pessoa, mas muitos psicólogos o reconhecem como um subtipo do Burnout, um fenômeno relacionado ao trabalho hoje reconhecido pela OMS (Organização Mundial de Saúde) como uma síndrome.

“Como é o caso com o Burnout, o Burnout parental é definido como esgotamento físico e emocional e mental devido às demandas contínuas de cuidar dos filhos”, disse Jennifer Yen, psiquiatra da UTHealth Houston.

É claro que criar filhos é algo que demanda muito dos pais de todas essas maneiras e dificulta a diferenciação clara entre períodos normais de estresse e Burnout

Yen disse que os pais devem ficar atentos para sinais como fadiga, irritabilidade, mudanças no sono, apetite e humor, além de dores corporais diversas. O que diferencia o Burnout parental é a gravidade desses sintomas e até que ponto eles estão afetando o dia a dia da pessoa.

“É um estado em que você fica dando, dando, dando, dando, até se esvaziar completamente”, comentou a assistente social clínica Kate Kripke, fundadora do Postpartum Wellness Center, em Houlder, Colorado.

Yen também chamou a atenção para outros indícios reveladores que são específicos do Burnout parental, como sentir raiva ou ressentimento por ter de cuidar dos filhos e começar a distanciar-se física ou emocionalmente deles.

Os pais com Burnout também podem se sentir presos numa armadilha ou tecer fantasias sobre abandonar tudo, ela acrescentou.

 O novo estudo pode ser útil para profissionais de saúde, mas os pesquisadores o escreveram diretamente para os pais que trabalham

O estudo inclui uma nova escala que os autores esperam que pais possam usar para avaliar como estão. Inclui dez afirmações como “acordo exausto ao pensar em passar mais um dia com meus filhos” ou sinto que mal estou sobrevivendo como mãe (pai): Os pais podem concordar ou discordar de cada afirmação numa escala que vai desde “discordo totalmente” até “concordo plenamente”. Eles então recebem uma pontuação final que ajudará a indicar se tem ou não algo que os pesquisadores interpretariam como um Burnout leve, moderado ou grave.

Independentemente de onde eles se situam nesse espectro, pode ser útil aos pais começar por reconhecer que muitos dos desafios que enfrentam estão fora de seu controle. É impossível ser ao mesmo tempo um profissional dedicado e cuidador dedicado, a não ser que você conte com o apoio necessário. A autocompaixão é importante, disse Melnyk.

Mas os pais que enfrentam Burnout talvez possam fazer modificações imediatas que os impeçam de sofrer esgotamento mais grave.

Procure alguma maneira de pedir ajuda, recomendaram os pesquisadores. Peça a uma pessoa da família ou um vizinho para cuidar de seu filho de vez em quando, nem que seja apenas para te dar uma folga breve. Se você é responsável por levar seu filho à escola e outras atividades, procure outras pessoas com quem dividir essa tarefa para não ficar exausto.

O estudo constatou que 68% das mães que trabalham disseram estar com Burnout contra 42% dos pais que trabalham. Logo, talvez seja especialmente importante para as mulheres ter intervalos para descansar e pedir ajuda (mesmo que isso não seja nem simples, nem fácil).

Outra coisa que pode ajudar pais estressados é buscar um senso de calma e tranquilidade, praticando mindfulness. Pesquisas revelam que o mindfulness pode ajudar a reduzir o estresse parental e isso, por sua vez, pode ajudar a melhorar o estado psicológico dos filhos. Para Kripke, pode ser algo tão simples, quanto você intencionalmente sentir a sola dos pés apoiada sobre o chão e respirar fundo.

Mas somente respirar fundo não resolverá o problema. Os diagnosticados com a síndrome mais grave devem buscar imediatamente um clínico geral ou profissional de saúde mental, que poderia identificar as questões como ansiedade e depressão. Também é bom saber que alguns profissionais de saúde mental têm dúvidas em relação à noção de Burnout parental.

“É a primeira vez que ouço esse termo”, disse Catherine Birndorf, CEO e diretora médica do Motherhood Center, em Nova York.

Ela afirma que gosta do conceito e da ideia da escala de Burnout parental se isso pode ajudar pais que de outro modo não reconhecerão que estão tendo dificuldades.

Mas ela também receia que alguns pais possam descartar o que estão sentindo, atribuindo-o ao Burnout, em vez de buscar tratamento para uma condição subjacente como ansiedade ou depressão.

EU ACHO …

PREGOS

Foi de repente. Dois quadros que tenho na parede da sala despencaram juntos. Ninguém os havia tocado, nenhuma ventania naquele dia, nenhuma obra no prédio, nenhuma rachadura. Simplesmente caíram, depois de terem permanecido seis anos inertes. Não consegui admitir essa gratuidade, fiquei procurando uma razão para a queda, haveria de ter uma. Poucos dias depois, numa dessas coincidências que não se explica, estava lendo um livro do italiano Alessandro Baricco, chamado Novecentos, em que ele descrevia exatamente a mesma situação. “No silêncio mais absoluto, com tudo imóvel ao seu redor, nem sequer uma mosca se movendo, eles, zas. Não há uma causa. Por que precisamente neste instante? Não se sabe. Zas. O que ocorre a um prego para que decida que já não pode mais?”.

Não há como desvendar esse mistério, assim é. Um belo dia a gente se olha no espelho e descobre que está velho. A gente acorda de manhã e descobre que não ama mais uma pessoa. Um avião passa no céu e a gente descobre que não pode ficar parado onde está nem mais

um minuto. Zas. Nossos pregos já não nos seguram.

Costumamos chamar essa sensação de “cair a ficha”, mas acho bem mais poético e avassalador a analogia com os quadros na parede. Cair a ficha é se dar conta. Deixar cair os quadros é um pouco mais que isso, é perder a resistência, é reconhecer que há algo que já não podemos suportar. Não precisa ser necessariamente uma carga negativa, pode ser uma carga positiva, mas que nos obriga a solicitar mais força dentro de nós.

Nascemos, ficamos em pé, crescemos e a partir daí começamos a sustentar nossas inquietações, nossos desejos inconfessos, algum sofrimento silencioso e a enormidade da nossa paciência. Nossos pregos são feitos de material maciço, mas nunca se sabe quanto peso eles podem aguentar. O quanto podemos conosco? Uma boa definição para felicidade: ser leve para si mesmo.

Sobre o livro que li: é um monólogo para teatro sobre um homem

que um dia foi abandonado, ainda bebê, num navio, e ali ele cresce sem jamais desembarcar nos cais em que o navio atraca, passa a vida inteira sem colocar os pés em terra firme, tocando piano em alto-mar. Virou filme do Giuseppe Tornatore, chama-se A lenda do pianista do mar.

Sobre os meus quadros: foram recolocados na parede. Estão novamente fixos no mesmo lugar. Até que eles, ou eu, sejamos definitivamente vencidos pelo cansaço.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

AO LIMPAR OS OUVIDOS, COTONETE DEVE DAR LUGAR A OUTROS MÉTODOS

Especialistas indicam soluções para higiene caseira sem risco de lesões

O excesso de cera nos ouvidos pode provocar a sensação de obstrução e atrapalhar a audição. Por isso, para quem produz muita cera, é interessante fazer limpezas regulares na região. Mas, por incrível que pareça, o cotonete não é a ferramenta mais indicada pelos especialistas.

Por seu formato fino e sua capacidade de entrar profundamente na cavidade dos ouvidos, o cotonete pode empurrar ainda mais para dentro a cera que o próprio ouvido está “expulsando” por seu sistema auto-limpante. E isso pode não só provocar a sensação de ouvido tapado, mas causar ferimento de alguma estrutura interna. É por conta do risco de lesão, também, que não se deve introduzir nada nos ouvidos (como tampas de caneta, etc.) seja para tirar cera ou para coçar.

Se o uso do cotonete não é recomendado, como devemos limpar os ouvidos então? Veja abaixo três maneiras fáceis e seguras:

PANO ÚMIDO

Uma das maneiras mais corretas de limpar os ouvidos é passar neles um pano umedecido com água morna. A temperatura ajuda a cera a desgrudar e sair com mais facilidade. O ideal é usar o dedo mesmo para passar. Essa é uma forma de garantir que o pano não atingirá áreas sensíveis e que correm grande chance de serem lesionadas.

GOTINHAS DE AZEITE

Pingar de duas a três gotas de azeite ou outro tipo de óleo vegetal nos ouvidos ajuda a soltar as ceras que possam estar prejudicando a audição. A consistência do azeite ajuda a amolecer a cera, facilitando a sua retirada e diminuindo a sensação de ouvido tapado. A indicação é inclinar a cabeça e pingar o óleo levemente. Pode-se fazer isso por até três dias.

IRRIGAÇÃO

Outra forma de limpar os ouvidos é por meio da técnica de irrigação. Ela consiste em aplicar água morna utilizando uma seringa específica, conhecida como seringa de bulbo.

Nesse procedimento, a pessoa deve virar o ouvido para cima, injetar a água de forma delicada e ficar com o líquido por cerca de um minuto. Completado o tempo, a pessoa deve virar e deixar a água escorrer dos ouvidos. É preciso tomar cuidado com a temperatura da água, evitando o calor excessivo, pois a cavidade interna é muito sensível.

Em caso de dor de ouvido, febre e tontura associados a incômodos na região auricular, um otorrinolaringologista deve ser consultado.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DE QUANTOS AMIGOS VOCÊ REALMENTE PRECISA?

Estudos mostram que um círculo social com duas a três amizades íntimas é um bom começo, mas mesmo uma relação profunda já beneficia a saúde mental

Uma discussão contínua e que se tornou mais controversa durante a pandemia é sobre quantos amigos devemos ter. Eu e meu marido temos um ou dois amigos próximos, além dos irmãos com quem gostamos de passar o tempo ­ e nossos dois filhos, que consomem a maior parte da nossa energia. Como boa introvertida, isso me parece o suficiente, quase excessivo. Mas o meu marido é um extrovertido e, à medida que reconstruímos lentamente a nossa vida social, consigo sentir que ele anseia por mais contatos.

A amizade nos Estados Unidos está em declínio, uma tendência que se acelerou durante a pandemia. Três décadas atrás, 3% dos americanos afirmaram aos pesquisadores da Gallup que não tinham amigos próximos; em 2021, uma pesquisa online mostrou que este número subiu para 12%. Cerca de um ano após o início da pandemia, 13% das mulheres e 8% dos homens de 30 a 49 anos declararam que perderam contato com a maioria de seus amigos.

E tudo isso tem implicações na saúde. A amizade pode ser um fator importante no bem-estar, enquanto a solidão e o isolamento social – condições distintas, mas relacionadas -podem estar associados a um risco aumentado de doenças como depressão e ansiedade ou problemas cardíacos e derrames. Uma metanálise de 2010, liderada por Julianne Holt Lunstad, professor de psicologia e neurociência da Universidade Brigham Young, em Utah, concluiu que a solidão é tão prejudicial à saúde física quanto fumar 15 cigarros por dia.

NÚMERO IDEAL

Embora ela e outros pesquisadores admitam que não há muitos estudos que abordem especificamente a questão de quantos amigos as pessoas devem buscar, aqueles que foram feitos indicam que algo entre três e seis amigos próximos pode ser o ideal.

Se o objetivo é simplesmente mitigar o impacto prejudicial que a solidão pode ter na saúde, o mais importante é ter ao menos uma pessoa importante na vida ­ seja um parceiro, um pai, um amigo ou outra pessoa, diz Jeffrey Hall, professor da Universidade de Kansas.

“Ir de zero a um é onde obtemos mais retorno. Mas se quer ter uma vida mais significativa, em que se sinta conectado aos outros, ter mais amigos é ainda melhor”.

A teoria mais conhecida sobre quantos amigos as pessoas podem ter (embora não necessariamente devam) vem do psicólogo e antropólogo britânico Robin Dunbar. O que veio a ser conhecido como o número de Dunbar afirma que os humanos são cognitivamente capazes de manter apenas cerca de 150 conexões de uma só vez (pesquisas subsequentes aumentaram o número). Isso inclui um círculo interno de cerca de cinco amigos próximos, seguido por círculos concêntricos maiores de amizades mais casuais.

Outras estimativas são semelhantes. Um estudo de 2016 sugeriu que pessoas que têm seis ou mais amigos, melhoraram a saúde ao longo de suas vidas, enquanto outro estudo de 2020, de Suzanne Degges-White, professora da Northern Illinois University, descobriu que mulheres de meia-idade que tinham três ou mais amigos tendiam a ter níveis mais altos de satisfação geral com a vida.

Essas estimativas parecem acompanhar a percepção das pessoas de quantos amigos elas deveriam ter. Degges-White realizou recentemente uma pesquisa com 297 adultos, que ainda não foi publicada ou submetida a revisão por pares, mas descobriu que 55% dos participantes acreditavam que dois ou três amigos íntimos eram o ideal, enquanto 31% achavam que quatro a seis era o objetivo.

Mas tudo isso pode ser realmente desafiador para estudar, porque amizade e intimidade são subjetivas.

FAZENDO AMIZADE

Também não está claro como as mídias sociais influenciam tudo isso, pois pesquisas sugerem que o tamanho da rede online de uma pessoa pode não ter nenhum impacto significativo em seu bem-estar. Por outro lado, embora muitas amizades tenham desaparecido durante a pandemia, muitas pessoas encontraram conexão online.

Apesar das pesquisas oferecerem alguns pontos de referência, pode ser mais útil para a maioria de nós simplesmente fazer um pouco de autoanálise. A psicóloga Marisa Franco recomenda, começar com uma pergunta óbvia, mas poderosa: me sinto solitário?

“A solidão é uma espécie de sinal ou sistema de alarme”, disse Franco. Todo mundo se sente solitário de vez em quando, mas é uma questão mais profunda se você se sente regularmente excluído ou isolado”.

Também ajuda perguntar a si mesmo se há partes de sua identidade que se sentem restritas, disse Franco.

“Pessoas diferentes trazem à tona partes diferentes de nós. Se você sente que sua identidade encolheu, ou não está se sentindo bem, isso pode indicar que você precisa de diferentes tipos de amigos”.

Claro, fazer amizades na vida adulta nem sempre é fácil. Pesquisas mostram que as pessoas lutam com isso porque acham difícil confiar em novas pessoas e porque estão simplesmente sem tempo. Por essas razões, muitas vezes é mais fácil começar por reacender velhos relacionamentos.

Tome a iniciativa e não assuma que as amizades acontecem organicamente, diz Franco. Mas seja criterioso. Passar tempo com amigos sobre os quais você se sente ambivalente – porque eles não são confiáveis, críticos, competitivos ou qualquer uma das muitas razões pelas quais as pessoas nos irritam – pode ser pior para sua saúde.

OUTROS OLHARES

MAIS EM CONTA

Alta de alimentos estimula trocas e estratégias para manter teor de nutrientes

Não há quem tenha passado ileso pela alta de preços dos alimentos dos últimos meses no país. Muitos brasileiros têm sido obrigados a fazer malabarismos para manter o padrão à mesa sem estourar o orçamento. Mas a questão-está além de manter ou não a dieta que mais agrada ao paladar. A comida tem como função fornecer os nutrientes necessários para o bom funcionamento do corpo, e nesse aspecto é possível seguir um cardápio com substituições de ingredientes equivalentes sob o ponto de vista nutricional – e com gastos reduzidos.

Na horada troca, o ideal é manter os produtos na mesma categoria de alimentos, orienta a nutricionista Priscilla Primi. Substituir, por exemplo, uma fonte de proteína por outra, um carboidrato por um equivalente, legume por legume, e assim por diante. Isso garante que nutrientes não sejam deixados de lado, e ainda possibilita uma maior oferta deles.

Um prato considerado equilibrado por especialistas é composto por 25% de proteínas, 25% de carboidratos e 50% por alimentos que ofertem uma variedade de vitaminas e minerais, como legumes, hortaliças e frutas. No entanto, essa não é uma realidade na mesa da maioria dos brasileiros.

A pesquisa “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil”, feita em 2021 pelo grupo de pesquisa Alimento para Justiça: Poder, Política e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia, mostrou que durante a crise sanitária causada pelo Corona vírus, a população reduziu o consumo de alimentos saudáveis, principalmente carne (44%), frutas (41,8%), queijos (40,4%), hortaliças e legumes (36,8%). O ovo foi o alimento que sofreu a menor redução (18%) e o maior aumento no consumo (17,8%) durante a pandemia. Entre os entrevistados em situação de insegurança alimentar, essa redução chegou a ser de mais de 85% dos alimentos saudáveis.

Primi afirma que, diante do aumento de preços de itens básicos da alimentação, a tendência é que a população migre para os alimentos ultra processados, que são mais baratos:

“Em vez de comprar um quilo de carne, as pessoas acabam optando pela salsicha. O suco de laranja natural é substituído pelo refresco em pó. O lanche deixa de ser uma fruta e passa a ser um biscoito recheado. Diante das dificuldades, a população opta por alimentos mais baratos e que dão uma maior sensação de saciedade. Mas eles normalmente são os que têm mais açúcar, gordura, corantes e conservantes. Se levarmos em consideração apenas o curto prazo, ser saudável está cada vez mais caro”, afirma a especialista.

Um trabalho da Universidade Federal de Minas Gerais estima que os alimentos ultra processados se tornariam mais baratos do que os in natura em 2026. No entanto, a inflação e os eventos climáticos frequentes – como geadas, secas e chuvas em excesso – dos últimos dois anos aceleraram o processo. A previsão é que a inversão ocorra já no segundo semestre de 2022.

Para driblar as dificuldades de manter uma alimentação saudável e barata, Primi dá algumas orientações.

Ir à feira próximo à hora da xepa, por exemplo, é uma estratégia bem conhecida dos brasileiros. Nessescasos, o indicado é comprar apenas o que será consumido nos próximos dias, para evitar o desperdício de deixar a comida estragar.

“Se você abriu a geladeira e já olhou um legume ou verdura por mais de dois dias seguidos, é a hora de fazer algo com ele. Faz um refogado, coloca no arroz ou faz o branqueamento e congela. Sempre que você muda o estado do legume, aumenta sua validade”, orienta.

TÉCNICA DE PRESERVAÇÃO

O branqueamento consiste em provocar um choque térmico no alimento: ele deve ser cozido por pouco tempo na água fervente e resfriado logo em seguida na água com gelo. Depois, ele pode ser congelado sem perder nutrientes.

Comprar legumes e verduras já congelados em supermercados pode ser uma alternativa valiosa, indica a nutricionista. Às vezes. esses produtos saem mais barato, pois quando foram preparados estavam com um preço mais em conta e não sofreram os reajustes recentes.

Para quem faz um esforço a mais para manter no cardápio os mesmos alimentos, apesar dos aumentos, a dica é não desperdiçar. Se na gaveta de legume sobrou uma cenoura ou se você não sabe o que fazer com o talo dos brócolis, a saída é picar e colocar tudo no arroz. O hábito ainda aumenta a oferta nutritiva, associando o carboidrato a vitaminas e minerais.

GESTÃO E CARREIRA

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL VAI DA FAXINA À FELICIDADE NAS EMPRESAS

Tecnologia analisa dados para otimizar processos feitos há décadas da mesma forma

Ao abrir a porta do banheiro da academia, a pessoa que vai tomar banho dispara um alerta para a equipe de limpeza – é hora da faxina. Os dados gerados, por sua vez, alimentam um algoritmo, que usa inteligência artificial para organizar a rotina dos trabalhadores e medir a sua satisfação.

Essa racionalização do dia a dia do cotidiano de empresas, que parecia uma realidade distante há pouco tempo, é a aposta de startups brasileiras, aproveitando-se da disseminação do 5G e do barateamento de sensores.

“Há décadas a limpeza é feita do mesmo jeito”, afirma Leandro Simões, presidente-executivo da Evolv, que oferece soluções para o mercado de manutenção predial.

De acordo com ele, a limpeza é “um processo muito importante, mas que é tão negligenciado que ninguém monitora direito”. Por isso, a startup atua com os clientes para definir quais são as métricas certas para acompanhar.

“É um mercado que no Brasil gira mais ou menos R$100 bilhões por ano”, diz. “Tem muito dinheiro na mesa para ganhar e muita água desperdiçada para economizar”.

O executivo viu a oportunidade após mais de uma década no setor de telecomunicações, quando atuou na aquisição da Telefônica pela Vivo e em uma startup de antenas, onde teve contato com investidores como a GP Investiments e o fundo Blackstone.

Na Tractian a oportunidade de negócio foi percebido por uma equipe jovem e recém-saída da faculdade.

“A maioria dos primeiros funcionários se conheceu lá na Escola de Engenharia de São Carlos da USP”, conta João Vítor Granzotti, responsável pela área de dados da startup – ele concluiu o curso no ano passado.

A Tractian criou um hardware e um software capazes de prever, com alto índice de precisão, quando uma máquina industrial está prestes a quebrar, antecipando processos de manutenção e evitando que a linha de produção seja interrompida.

“A ideia da Tractian é dar poder às equipes de manutenção nos processos industriais”, diz Granzotti.

Ao monitorar e registrar em tempo real informações como frequência de vibração, temperatura e parâmetros da rede de energia elétrica, o algoritmo da startup detecta mudanças sensíveis, identifica padrões e alerta os clientes sobre possíveis problemas em uma interface amigável.

Os sensores são capazes de monitorar até 60 tipos de máquinas. Os clientes vão desde indústrias automobilísticas até uma fazenda de camarão, afirma Granzotti.

Fundada durante a pandemia, a startup já atende clientes em países como Argentina, Chile, Estados Unidos e México.

No caso da Fiter, o alvo de otimização não é um processo ou uma máquina, mas os próprios funcionários, por meio de um “índice de felicidade”.

A metodologia foi desenvolvida pelo presidente-executivo Sergio Amado, executivo e professor com mais de dez anos de experiência em recursos humanos e neuropsicologia.

O cálculo é feito a partir das respostas a oito perguntas, que em parte se repetem e em parte se renova, uma vez por mês. Os trabalhadores respondem às questões se quiserem.

As questões são de múltipla escolha, e partem das afirmações como “sinto satisfação com o meu desempenho” e “vejo que o meu perfil é compatível com a função”, com as quais o funcionário pode concordar, discordar ou ser neutro.

Com as respostas de boa parte dos funcionários de uma empresa, o algoritmo é capaz de identificar padrões e perceber quando alguém mudou de humor em relação ao trabalho.

De acordo com Amad, os principais resultados são redução de rotatividade e uma medida objetiva para saber se algum funcionário está próximo de ter Burnout (esgotamento), situação que se tornou mais frequente durante a pandemia.

“Essa medição de felicidade dá a oportunidade de a gente prestar atenção naquelas pessoas para as quais estávamos um pouquinho distraídos”, afirma Toni Gandra, fundador da academia EcoFil, que é cliente da Fiter.

Ele diz já ter revertido duas demissões em potencial graças à análise que o serviço oferece. Weverson Alves, supervisor de capacitação da Live One Trade, afirma que o sistema serve não só para entender a felicidade dos funcionários mas “também o que a empresa pode oferecer para ele”.

A eficiência de empresas SaaS (sigla do inglês “software a as service”, ou software como serviço”) que utilizam inteligência artificial para melhorar processos de outras companhias vem chamando a atenção de investidores.

No mês passado, o Goldman Sachs liderou um aporte de R$ 625 milhões na unico, unicórnio brasileiro de identificação digital que hoje é avaliado em USS 6 bilhões. Com mais dinheiro em caixa, a empresa tem investido na pesquisa e no desenvolvimento de tecnologias proprietárias.

Uma das frentes, em parceria com a Universidade Federal do Paraná, investe em biometria periocular (análise de dados da região dos olhos), com o objetivo de melhorar o reconhecimento e mitigar vieses algorítmicos.

“Muitas das tecnologias de reconhecimento facial hoje no mercado foram desenvolvidas em países do norte, baseadas em faces caucasianas e asiáticas”, diz a empresa.

“Nosso time investe no aprimoramento contínuo dessa tecnologia proprietária, justamente com foco em melhoria da experiência e do acesso de todas as pessoas”.

EU ACHO …

VICIADOS EM COMPANHIA

Não confio no amor de quem não consegue ficar sozinho.

Nunca foi ao cinema sozinho, nunca viajou sozinho, perambula pela rua feito um cão que se perdeu do dono. Sentar na lanchonete de uma livraria para tomar um cafezinho assemelha-se a uma catástrofe. Sua solidão lhe parece vergonhosa e indigesta, é evitada com o mesmo afinco com que evitaria a morte.

Para ele, qualquer parceria é melhor que nenhuma. Uma conversa enfadonha é melhor que o silêncio. Um chato é melhor que ninguém. É praticamente um viciado em companhia. E como todo viciado, critério não é o seu forte.

Não confio no amor de quem não suporta a própria presença.

De quem telefona afim de papo-furado, de quem envia mensagens só para ouvir o sinal da chegada da resposta, de quem precisa se iludir de que não está só. Quem de nós não está só?

Uma manhã de frente para o mar, uma tarde com um livro, uma noite com um filme, três dias inteiros numa cidade estranha, uma rua que nunca foi atravessada, um museu com tempo livre à vontade, uma cama vazia – para ele, simulacros do inferno.

Não confio no amor de quem não se entretém.

De quem se desespera em frente ao espelho, de quem  não consegue se maravilhar num jardim, de quem não se comove ao ouvir uma música, de quem não gosta de andar de ônibus enquanto aprecia a paisagem, de quem não se sente inteiro num trem.

Sozinho é uma coisa, solitário é outra. Sozinho é com, solitário é sem.

Eu sozinha sou muitas. Sozinha, tem mais sabor minha comida, tem mais foco o meu olhar, tem mais profundezas o meu ser. Sozinha tem mais espaço minha liberdade, tem mais imaginação a minha fantasia, tem mais beleza a minha individualidade. Sozinha tem mais força o meu pensamento, mais inteireza a minha vontade.

Não confio no amor de quem negocia sua autenticidade.

Como amar de verdade outro alguém, se não sabe de onde esse amor vem? Onde foi gerado, por que necessário, que atributos ele contém? Amar é doar, não vem do doer. Amar é saber que aquele que a gente ama, se faltar, vai deixar saudade, mas não nos transformará num cadáver vagando ao léu. Não confio em quem ama para ser um par, não confio em quem quer apenas se enquadrar, não confio em quem ama por não se tolerar.

Amar tem que ser extraordinário. Além do que já se tem.

Se sozinho você não se tem, amar vira tubo de oxigênio, ânsia, invenção e enredo barato, perde a dignidade, o amor vira muleta e trucagem. Confio, sim, no amor de quem não precisa amar por sobrevivência, de quem se basta e mesmo assim é impelido a se dar, porque dar-se é excelência, não é mendicância.

Não confio no amor de quem não se ama em primeira instância.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

DORMIR MAL PODE REVERTER GANHOS DE DIETA E EXERCÍCIOS

Es1udo mostra que pessoas com menos de 6 horas de descanso por dia são mais propensas a engordar de novo um ano após emagrecimento

Dormir pouco pode estragar o esforço para perder peso após uma temporada de exercícios e alimentação regrada, mostram pesquisadores da Universidade de Copenhague, na Dinamarca. Os resultados foram apresentados no Congresso Europeu sobre Obesidade, neste ano realizado em Mastricht, na Holanda.

Na pesquisa, ainda não publicada em um periódico científico, foi utilizada uma escala para avaliar o sono dos participantes, medida entre O e 21 – sendo o número mais alto um indicativo de que o descanso é o “pior passivei”. A partir daí, os especialistas dividiram os grupos, tendo em vista um recorte de tempo: osque dormiam mais de seis horas e os que não chegavam a esse tempo de descanso.

Munidos da divisão dos participantes como bons e maus dormidores, os especialistas encontraram indicativos de que as pessoas que dormiam menos de 6 horas por noite aumentaram seu IMC (Índice de Massa Corporal) em 1,3 ponto a mais do que a média dos que descansavam mais que seis horas. Quem alegou ter má qualidade do sono, por sua vez, também teve ganho de 1,2 pontos do IMC, após um ano da perda de peso, quando comparado com os que não relataram problema para dormir.

O índice utilizado para avaliar a qualidade de sono dos participantes é o desenvolvido pela Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos. Nesta metodologia, os pacientes são induzidos a avaliar diversos aspectos de seu período de descanso. Entre eles: a duração do sono, uso de medicação para adormecer, sonolência diurna e uma classificação genética de sua condição. O resultado se dá por meio da pontuação. Quem marca mais de 5 pontos tem a qualidade das “dormidas” consideradas como ruins.

OBESIDADE

Inicialmente, na mesma pesquisa, foram formados dois grupos de pessoas, como obesidade, que passaram por dietas para emagrecimento – de baixíssimo nível calórico, com apenas 800 kcal por dia – ao longo de oito semanas. Após a temporada, em média, os participantes do estudo perderam 12% de seu peso inicial.

A pesquisa contou com 195 adultos, entre 18 e 65 anos, com IMC variando entre 32 e 43 pontos – o que engloba graus de I a III de obesidade, acompanhados por 52 semanas.

No estudo houve o uso de um medicamento (liraglutida) versus grupo placebo, mas não foi observada diferença entre os que tomaram, ou não, o fármaco. Em outra iniciativa, ambos os grupos foram submetidos a baterias de exercícios, com séries de spinning e treino funcional de 45 minutos. Embora o estudo não determine qual o funcionamento corporal específico, que relacione a pouca qualidade do sono e o ganho de peso após uma temporada de emagrecimento, a pesquisadora Signe Torekov, professora da Universidade de Copenhague deu algumas pistas do que pode estar por trás da correlação.

“É possível que as pessoas que têm uma rotina ruim de sono sintam mais fome ao longo do dia. Outra análise possível é que essas pessoas, pela falta de descanso, tenham menos disposição para fazer exercícios”, explicou.

Torekov ainda diz que a perda de peso colabora com a melhora global do sono.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O LADO BOM DA ANSIEDADE

Apesar de ser considerada uma sensação negativa, a ansiedade pode ser muito mais benéfica do que se imagina

A ansiedade, apesar de produzir e provocar sensações geralmente desagradáveis, não possui apenas características negativas. As pessoas nem sempre conseguem perceber que sem ela não conseguiríamos nos sentir satisfeitos com a realização de uma atividade, um trabalho ou com a conquista de um objetivo. Isto porque ela é capaz de produzir resultados benéficos, porque nos “pressiona”, impulsiona e estimula para a ação. Por meio dela, aprimoramos a atenção, a concentração, a criatividade e até mesmo a memória. Ela nos ajuda a criar um foco maior sobre situações que estamos ou estaremos vivendo. Assim, além de nos ajudar a resolver problemas, ela nos auxilia a estarmos alertas e nos estimula a agir.

Neste contexto, a ansiedade em um nível normal e adequado nos motiva a fazer coisas boas por nós mesmos.

“A ansiedade positiva é o olhar sobre diversas possibilidades, afora o que se nomeou no passado como ícone sagrado de um suposto prazer. É a prova máxima da eternidade do recomeço, capacidade e criatividade do indivíduo”, diz Irineu Francisco Barreto Junior, em Ansiedade Aspectos Positivos e Negativos (psicologosaopaulo.tripod.com). “Seja aquele ‘frio na barriga’, ou até um nervosismo, o importante é que tais elementos nos impulsionem para um patamar de esforço pessoal que traga uma evolução global de nossa personalidade. É totalmente um mito a tese do equilíbrio pleno. A evolução do ser humano, seja na caça, agricultura ou outro elemento qualquer se deu por meio de uma boa soma de ansiedade. O núcleo moderno do desejo de estabilidade é extremamente contrário à natureza humana, pois, se fosse pela segurança citada, o homem estaria ainda nas cavernas. A ansiedade é o catalisador mais puro e cristalino para a aferição de como o sujeito irá lidar com sua dificuldade ou momento de pânico”.

Inúmeros estudos revelam que a maneira como regulamos nossas emoções, em tempos bons ou ruins, pode influenciar o quanto se sofre de ansiedade. Pesquisadores da Universidade de Illinois constataram que as pessoas que conseguem estabelecer uma estratégia para o equilíbrio emocional (reavaliação) tendem a ter menos ansiedade do que aqueles que evitam expressar seus sentimentos. Reavaliação envolve olhar para um problema de uma nova maneira. Assim, quando algo acontece à pessoa, ela pensa sobre o assunto de uma forma mais positiva. Quem consegue agir desta forma possui uma ansiedade menos marcante do que aqueles que reprimem suas emoções.

OUTROS OLHARES

TRANSIÇÃO MATERNA

Mães de transexuais contam como compartilharam os desafios das mudanças nos corpos dos filhos e encontraram segurança no elo familiar

Assim que terminou de ler a tese de mestrado da filha, a aposentada Maria do Carmo, de 69 anos, passou a mão no celular e enviou a ela um áudio pelo WhatsApp. “Isso significa que você é uma mulher trans?”, perguntou, com a voz preocupada, após devorar as páginas que falavam sobre teoria de gênero e cena drag no Rio, com passagens autobiográficas. Ao responder que sim, a moça recebeu uma novamensagem de voz: “Estou aqui para entender. Não vou te largar, você é minha filha”.

Era o que faltava para a atriz e escritora, de 33 anos, sentir-se segura para levar adiante a transição de gênero, concluída com uma homenagem a quem lhe deu à luz. Na hora de retificar os documentos, escolheu o mesmo nome da mãe, sem abandonar aquele que recebeu ao nascer. Passou a se chamar Maria Lucas. “Enfrentei um quadro depressivo provocado pela forma como a sociedade trata os nossos corpos. Só não me matei porque escrevi um livro (‘Esse sangue não é de menstruação, mas de transfobia: editora Urutau) e por causa da relação com a minha mãe. É quando você entende que realmente importa para alguém”, conta a jovem, dizendo-se privilegiada. ”Entre as minhas amigas travestis, talvez nenhuma tenha o mesmo apoio.”

Um amparo cujo valor é reconhecido por profissionais da saúde que atendem a essa população. Segundo o endocrinologista Daniel Gilban, à frente de um projeto para tratar da hormonização e da saúde mental de jovens transgênero no Hospital Universitário Pedro Ernesto, atitudes como a de Maria do Carmo incidem sobre a qualidade de vida dos pacientes. “Essas pessoas já sofrem muito, e não ter o apoio da família e dos amigos é grande parte disso”, afirma. “É uma população com altos riscos de depressão e até suicídio. Portanto, o acolhimento familiar salva vidas.”

Maria do Carmo, ou Carminha, como é mais conhecida, nem consegue se imaginar agindo de outra maneira. Para apoiar a filha da melhor forma possível, buscou ajuda no grupo Diversidade Católica, voltado à população LGBTQJAP+, desde que a moça saiu do armário pela primeira vez, inicialmente como um homem gay. ”Quando a Maria tinha uns 17 anos e falou que era viado, quase morri. Mas logo depois aceitei, e ela virou um viado lindo, que agora foi-se embora…Passou a ser uma mulher linda”, diz, aos risos.

Enquanto os debates sobre gênero e identidade avançam, algumas mães tentam decifrar os sinais emitidos ainda na infância. É o caso de Thamirys Nunes, autora do livro “Minha criança trans?” e mãe de Agatha, de 7 anos. Ela conta ter percebido o desconforto da garota com o gênero que lhe fora atribuído ao nascer desde os 2 anos. Aos 4, a compreensão ficou ainda mais clara diante de frases como “se eu morrer, posso nascer menina?” ou “me chama de filha só hoje para eu ficar feliz?”. “Entendemos que era algo profundo e buscamos ajuda”, narra a mãe, que acionou psicólogos e, embora seja moradora de Curitiba, encontrou no ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, o caminho a ser percorrido.

Segundo ela, desde que a filha assumiu a identidade desejada e teve a certidão de nascimento retificada, deixou de ser uma criança com sinais de tristeza profunda para se tornar alegre e extrovertida. “Ela ainda é pequena para fazer qualquer tratamento hormonal. Agora, o que podemos oferecer é o nome social, os brinquedos, as roupas e os acessórios de que gosta. Aprimeira coisa que pediu foi uma camisola, depois, os brincos”, diz a mãe, que criou o perfil @minhacriancatrans, onde tem 78,6 mil seguidores, para mostrar os avanços da menina e ampliar o debate sobre o assunto.

Tornar essa história pública, porém, requer determinação. Thamirys é frequentemente atacada nas redes e move cinco ações na Justiça contra pessoas que considera terem passado dos limites. “Resolvi tomar a nossa história pública justamente por perceber como se falava pouco sobre o assunto e havia mais famílias precisando de ajuda. Em meio aos ataques, doeram mais as agressões feitas por pessoas próximas, que me acusam de ser disfuncional ou de influenciar minha filha. Fora isso, simplesmente apago os comentários e sigo em frente. Não bato boca. Não dá para colher rosas sem tocar nos espinhos.”

Se Agatha é muito pequena para iniciar os tratamentos hormonais, algo que começa a ser discutido somente com a chegada da puberdade, o cineasta Vicente Bem Medeiros, de 34 anos, tem a hormonização religiosamente acompanhada pela mãe, a empreendedora Mônica Vieira, de 61. “Sempre falo com ele sobre a importância de estar em dia com a saúde. Digo: ‘Você precisa pensar no homem que deseja ser quando chegar aos 60 anos”‘, salienta a mãe. que também passou a comprar cuecas para o rapaz, desde que ele saiu do armário pela terceira vez. Primeiro, como mulher bissexual; depois, como ”sapatão”; e, por fim, como trans masculino. “Quando conversamos sobre isso, falei: ‘Vamos para a parte técnica para eu não errar”‘, recorda-se Mónica, sobre o interesse em saber como o filho gostaria de ser tratado. “Pedi pelo menos um ano e disse para não ficar triste se eu errasse o nome, já que estava treinando.

Não posso dizer que é fácil, mas amo tanto o meu filho, que não conseguiria agir de outra maneira que não fosse acolhê-lo.”

Diante do empenho da mãe em se inteirar das mudanças, Vicente a pediu que o ajudasse na escolha de seu novo nome, experiência que os aproximou ainda mais durante o processo. “Foi muito simbólico, já que considero um renascimento”, afirma o cineasta. “Sempre tive o apoio dela, e isso é encorajador. Afinal, por mais difíceis que as coisas fiquem, você tem um lugar para onde voltar.”

Histórias do tipo corroboram um comportamento observado pelo psicólogo João Henrique de Sousa Santos no trabalho como coordenador do Ambulatório de Saúde Mental de Atendimento às Pessoas Trans do Centro Universitário de Belo Horizonte. Segundo ele, as mães transicionam junto com os filhos, de certa forma. Isso porque a maternidade é cercada por idealizações ligadas aos padrões impostos pela sociedade, como a velha história do quarto azul para meninos, e rosa para meninas. “Uma pessoa trans é alguém que cruza essas idealizações e vai produzir outros modelos de existência”, afirma. “Para muitas mães, isso é difícil justamente porque elas se sentem feridas nessas expectativas. Mas aquela que acolhe passa a se posicionar com outra perspectiva diante da própria maternidade, que transcende a dimensão biológica e passa a ser algo “político.”

João diz que isso acontece porque elas também são questionadas sobreas mudanças por pessoas próximas. Não é de se estranhar, portanto, que muita busquem unir forças e criem mecanismos como a ONG Mães pela Diversidade. Fundada há oito anos em São Paulo por apenas uma mãe, a iniciativa reúne atualmente cerca de duas mil participantes em todo o Brasil, dispostas a dialogar com mulheres que tenham filhos LGBTQIAP+ e precisem de ajuda. Estimo que, a cada cinco mães que nos procuram, três têm filhos e filhas trans”, comenta a coordenadora da ONG em São Paulo, Clarice Cruz Pires. “Por isso, criamos um grupo exclusivo para elas.”

Segundo a coordenadora, a transfobia e a violência são as maiores fontes de medo e insegurança para essas mães. Boa parte teme, ainda, a rejeição pelo restante da família. Por isso, Clarice costuma reiterar que precisam de tempo para conseguir lidar com a situação. “Não podemos achar que, ao chegarem até nós, estarão na Parada LGBTQIAP+ no mês seguinte”, ilustra, dizendo que o trabalho já fez com que algumas desistissem de abandonar os filhos. “Entendemos a origem do sofrimento, vamos conversando e indicamos ajuda psicológica, se necessário. Quando elasse mostram aptas a avançar, permitimos que entrem num grupo de WhatsApp com 190 participantes, onde podem tirar dúvidas sobre como ajudar os filhos na transição.”

O medo da violência, de fato, fui citado por todas as mães entrevistadas nesta reportagem, assim como a felicidade dos filhos foi invariavelmente mencionada como combustível para seguirem em frente. VeraLúcia, de 67anos, é mãe da professora Dani Balbi, de 33, e foi ela mesma quem cuidou da moça, após a cirurgia de confirmação de gênero, feita há cinco anos, graças aos anos de atuação como técnica em enfermagem. Uma história que enche ambas de orgulho. “É um procedimento muito delicado, e minha mãe ficou o tempo todo ao meu lado, fazendo os curativos, ajudando na minha recuperação”, recorda-se a professora.

Vera lembra que, na época, não foi avisada sobre a cirurgia na véspera. “A Dani não queria que eu ficasse preocupada, pois sou hipertensa”, narra. A filha só telefonou para relatar a novidade quando já estava no quarto e havia acordado da anestesia. O diálogo travado naquele instante jamais será esquecido. “Quando atendi, ela disseque havia dado tudo certo e completou: ‘Sou a mulher m ais feliz do mundo’. Na mesma hora, pensei: ‘Então, sou a mãe mais feliz do mundo’.”

GESTÃO E CARREIRA

JORNADA DE SUCESSO NÃO IMPEDE DE TER A SÍNDROME DA IMPOSTORA

Jornalista que se recuperou 6 anos de transtornos alimentares e abusos de substâncias compartilha informações e reflexões sobre saúde mental

“E se eu não for capaz?” Começo me fazendo essa pergunta enquanto respiro fundo como se tentasse segurar no lugar o estômago que parece querer subir pela garganta. O convite para escrever em um dos maiores jornais do país me encontrou distraída numa segunda-feira pós-almoço e me catapultou para um estado emocional que, para os mais chegados aos memes internéticos, poderia ser retratado pelo famoso “como eu vim parar aqui, eu só tenho seis anos”.

Na realidade tenho 35, mas a mistura de medo e vulnerabilidade ao topar esse desafio chega mesmo a me remeter à angústia de perceber que havia seguido a pessoa errada e me perdido dos meus pais numa praia cheia ou numa loja em liquidação na antevéspera de natal. Como é que pode a ideia de oportunidade e reconhecimento causar tanto desamparo?

Para além da minha experiência particular, a verdade é que esse não é um sentimento incomum entre mulheres. Principalmente quando o assunto é trabalho, não é difícil encontrar uma amiga ou conhecida que nunca se acha boa o suficiente no que faz mesmo que os fatos indiquem o absoluto contrário.

“Em algum lugar lá no fundo, você não acredita no que eles dizem. Você acha que é uma questão de tempo ali que tropece e ‘eles’ descubram a verdade. Você não deveria estar aqui. Nós sabíamos que não poderia fazer. Nunca deveríamos ter arriscado com você”. Poderia ter sido dito por mim ou por muitas mulheres que conheço, mas são palavras de Joyce Roché, ex vice-presidente de Marketing Global da Avon, apenas uma das inúmeras mulheres cuja competência e sucesso inquestionáveis não foram o suficiente para evitar uma longa batalha interna contra a síndrome da impostora.

Você já deve ter ouvido falar do termo, cujo conceito surgiu em 1978 a partir de uma pesquisa das psicólogas norte-americanas Pauline Rose Clance e Suzanne lmes. Trabalhando na Universidade Estadual da Georgia, elas observaram que muitas alunas que se destacavam academicamente admitiam durante o aconselhamento não se sentirem merecedoras de seu sucesso.

Esse fenômeno poderia ser explicado pela diferença da dinâmica de gênero da época, onde uma vida cercada de preconceitos minava a confiança das mulheres. Apesar de a pesquisa de Clance ter avançado nas décadas seguintes, mostrando que homens também se sentiam impostores, observações atuais seguem apontando diferenças entre os gêneros quando o assunto é autoestima e autoconfiança.

Em 2019, a revista Harvard Business Review publicou o resultado de uma pesquisa que analisou milhares de avaliações sobre líderes executivos e apesar de as mulheres terem sido consideradas mais eficazes em 84% das competências medidas, quando foi pedido que avaliassem a si mesmas os resultados mudavam, com as notas nas classificações de confiança sendo mais baixas do que as dos homens, principalmente quando as participantes eram mais jovens.

De acordo com os dados da pesquisa, o nível de confiança de homens e mulheres em si mesmos só se equipara aos 40 anos de idade.

A maturidade é o peso que equilibra essa balança, mas até lá, falta de oportunidade, dificuldade de encontrar modelos de sucesso que compartilhem nossas experiências de vida, assim como uma trajetória em um contexto de opressão sistêmica são alguns fatores que podem levar um indivíduo a demorar para reconhecer seu próprio valor.

Não sei quantos pontos na tabela da confiança ainda faltam para que eu me sinta merecedora de ocupar espaços que nunca imaginei. Mas se é pra cima que esse gráfico vai e a oportunidade me foi dada ­ por uma mulher competente desenhando sua própria trajetória de sucesso, vale dizer – respiro fundo e me dou a chance de ao menos tentar.

E se você estiver lendo esse texto, quer dizer que fui capaz, independente do que venha depois. Qualquer erro será um aprendizado que só foi possível porque venci a barreira do meu próprio julgamento. Espero que essa ideia possa te ajudar a vencer o seu.

EU ACHO …

O AMOR E TUDO QUE ELE É

O amor já foi uno, concreto e definido. Mas o século mudou e com ele as variantes do amor, que se multiplicaram. Hoje há diversas formatações para vivenciá-lo, são inúmeros os seus significados e ilimitadas as suas maneiras de encantar e transformar. O amor romântico – “eu e você para sempre” – é apenas uma de suas modalidades.

O que é o amor, afinal? Impossível resumir num só conceito. Amor é gratidão por alguém ter nos tornado especial. Amor é a realização de um ideal criado ainda na infância. Amor é a possibilidade de repetir o mais importante feito de nossos pais – aquele sem o qual não teríamos nascido. Amor é projetar no outro aquilo que nos falta. Amor é erotismo. Amor é uma experiência sensorial. Amor é carência. Amor é o gatilho para formar uma família. Amor é aquele troço sem razão que bagunça a nossa vida. Que melhora a nossa vida. Que piora a nossa vida. Que justifica a nossa vida.

Amor é uma forma de escapar da vulgaridade. Amor é uma mentira que amamos contar. Amor é um álibi para crimes e casamentos. Amor é a vingança contra a objetividade. Amor é divisão de fardo. Amor é um antídoto contra a solidão. Amor é uma invenção do cinema e da literatura. Amor é paz. Amor é a busca de um tormento que torne a vida mais emocionante. Amor é a vitória do cansaço, já que paixões sequenciais exaurem. Amor é o nome que se dá para uma emoção que nos domina e do qual não queremos ser libertados.

Amamos pais, irmãos, amigos. Amamos  os namorados que tivemos e os que ainda teremos, amamos nosso marido até o dia em que ele não retorna para casa, amamos nossos ídolos até que eles nos decepcionem, amamos nossos filhos mesmo que  nos decepcionem, amamos nosso cão e nosso gato quase acima de Deus, amamos Deus acima de tudo, pois cremos que Ele não nos faltará, amamos a nós mesmos apesar de saber que nem tudo é amável em nós.

Amor não é uma desculpa esfarrapada. Ela é muito bem costurada. Amor pode brotar de um olhar, de um beijo, de um desejo. Amor é encasquetar. Se alguém lhe faz perguntas a respeito do que está sentindo, você, na falta de argumento melhor, responde que é amor, que sempre foi amor, e ninguém espicha a conversa porque contra o amor não há réplica.

Como pode alguém ter amado uma pessoa ontem e hoje amar outra, como pode ter amado uma mulher e hoje um homem, como pode amar duas mulheres ao mesmo tempo, como pode já ter vivido com vários, como pode sentir amor por um salafrário, como pode sentir-se inteiro repartindo-se em dois, como pode ser poli, multi, bissexual, bígamo, hétero, homo, fiel, infiel, amoral? Como, diante desse sentimento, ter alguma certeza?

O amor paira acima das classificações. Tem mil jeitos, mil formas, mil dobras. É a nossa maior proeza.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

ATAQUE CARDÍACO AINDA É SUBESTIMADO NAS MULHERES; ENTENDA

Elas são mais propensas a ignorar os sintomas, que vão além da dor no peito; atendimento também é falho

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entro homens e mulheres nos Estados Unidos e no Brasil. Ainda assim, estudos mostram que elas são mais propensas a ignorar os sinais de alerta de um ataque cardíaco, às vezes esperando horas ou mais para procurar socorro.

Agora, os pesquisadores estão tentando descobrir o porquê. Eles constataram que as mulheres muitas vezes hesitam em buscar ajuda porque tendem a ter sintomas mais sutis do que os homens. E mesmo quando vão ao hospital, os profissionais de saúde são mais propensos a minimizar essas manifestações físicas ou atrasar o tratamento. Autoridades de saúde dizem que as doenças cardíacas nas mulheres continuam amplamente subdiagnosticadas, e que isso contribui para piores resultados e aumento das taxas de morte.

A maioria dos estudos sugere que uma das principais razões pelas quais as mulheres demoram a procurar atendimento – e muitas vezes são diagnosticadas incorretamente – é que, embora a dor ou desconforto no peito seja o sinal mais comum de infarto em ambos os sexos elas muitas vezes não sentem este alerta. Em vez disso, têm sintomas como falta de ar, suores frios, mal-estar, fadiga e dores na mandíbula e nas costas.

Um grupo de cientistas investigou os fatores que levam as mulheres a postergar a procura por atendimento. Eles descobriram que a ausência de dor ou desconforto no peito foi um dos principais motivos. O estudo, publicado na revista Therapeutics and Clinical Risk Management, analisou 218 homens e mulheres que sofreram infartos e foram tratados em quatro hospitais em Nova York antes da pandemia. Descobriu-se que 62% das mulheres não tinham dor ou desconforto no peito, em comparação com apenas 36% dos homens. Muitas relataram falta de ar, bem como sintomas gastrointestinais, como náusea e indigestão. Cerca de um quarto dos homens também relataram esses mesmos sintomas.

A pesquisa mostra que 72% das mulheres que tiveram um infarto esperaram mais de 90 minutos para ir ao hospital ou ligar para a emergência, em comparação com 54% dos homens. Pouco mais da metade das mulheres ligou para um parente ou amigo antes de ir a hospital, em comparação com 36% dos homens.

PROBLEMA NO ATEDIMENTO

Um relatório da American Heart Association descobriu que os ataques cardíacos são mais mortais em mulheres que não apresentam dor no peito, em parte porque isso significa que pacientes e médicos levam mais tempo para identificar o problema.

Mas mesmo quando elas suspeitam que estão tendo um ataque cardíaco, ainda têm mais dificuldade em serem tratadas. Pesquisas mostram que as mulheres são mais propensas a serem informadas de que seus sintomas não estão relacionados a doenças cardiovasculares. Muitas delas ouvem que esses sinais estão todos em sua cabeça. Um estudo descobriu que mulheres que se queixavam de indícios consistentes de doenças cardíacas – incluindo dor no peito – tinham duas vezes mais chances de serem diagnosticadas com uma doença mental em comparação com homens com a mesma queixa.

Em um estudo publicado no Journal of the American Heart Association, pesquisadores analisaram dados de milhões de atendimentos de emergência antes da pandemia e descobriram que mulheres – especialmente as negras – que se queixaram de dor no peito tiveram que esperar em média 11 minutos a mais por atendimento do que homens. Elas também eram menos propensas a serem internadas, recebiam avaliações menos completas e tinham menos chances de fazer exames como eletrocardiograma, que pode detectar problemas cardíacos.

Alexandra Lansky, cardiologista do Hospital Yale -New Haven, lembrou de uma paciente que havia procurado vários médicos reclamando de dor na mandíbula foi encaminhada a um dentista, que extraiu dois molares. Quando a dor não desapareceu, a mulher foi ver Lansky, que descobriu que o problema estava relacionado ao coração. A paciente precisou de uma ponte de safena.

MAIS JOVENS

Há uma falta de compreensão de que um ataque cardíaco não precisa causar dor no peito ou esses sintomas de filmes – disse Jacqueline Tamis-Holland, autora do estudo e cardiologista do Mount Sinai Morning Side em Nova York.

Tamis-Holland disse que havia outras razões para os atrasos. Uma delas é que as mulheres não se consideram tão vulneráveis a doenças cardíacas e costumam achar que os sintomas são de estresse ou ansiedade. Elas também tendem a desenvolver problemas cardíacos em idades mais avançadas do que os homens. No estudo de Tamis-Holland, as mulheres que tiveram ataques cardíacos tinham, em média, 69 anos, enquanto a idade média dos homens era de 61.

Mas as mulheres mais jovens não são imunes. Estudos recentes descobriram que ataques cardíacos e mortes por doenças cardíacas estão aumentando entre as mulheres entre 35 e 54 anos, em parte devido ao aumento de fatores de risco cardiometabólicos, como pressão alta e obesidade.

“Muitas mulheres jovens não acreditam que têm doenças cardíacas porque estas nunca foram rotuladas como doenças de mulheres jovens”, disse Lansky. “Segundo, os sintomas nelas são ainda menos típicos. Há menos sensação de aperto no peito e mais indigestão, falta de ar, mal-estar, fadiga e náusea.

Especialistas pedem mais divulgação e educação sobre as doenças e seus sintomas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTRESSE

Diversos estudos e pesquisas realizados nos últimos anos consideram o estresse como um fator importante em uma série de sintomas físicos e processos de doenças

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o estresse como a maior epidemia do século 20 e que se estende aos dias atuais. Segundo a organização, a variedade de sintomas e doenças desencadeados pelo estresse é responsável, por praticamente 50 % das mortes no mundo.

O estresse é definido como um conjunto de alterações que ocorrem em um organismo, em resposta a determinados estímulos, agradáveis ou não, capazes de colocá-lo em estado de tensão. Do ponto de vista psíquico, traduz-se na ansiedade, uma atitude fisiológica normal, responsável pela adaptação do organismo às situações de perigo. É fácil compreender esse processo quando, de frente para o perigo (incêndio, assalto ataque de cão, etc.), nossa performance física é capa de realizar coisas extraordinárias que seríamos inca pazes de fazer em situações mais calmas.

Quando o organismo se depara com um estímulo estressar, interno ou externo, desenvolve um processo fisiológico, conhecido como Síndrome da Adaptação Geral (SAG) ou Estresse, que consiste na soma de todas as reações sistêmicas. Hans Selye, em seu estudo sobre o tema, realizado em 1936, descreveu que a síndrome se apresentava em três estágios: 1. reação de alarme; 2. o estágio de resistência e 3. estágio de exaustão.

Segundo José Maria Martins, em Estresse e Síndrome de Adaptação Geral (www.josemariamartins.com.br), “as observações básicas, subjacentes a conceito de Selye sobre a SAG têm sido confirmadas mas pesquisas recentes levaram a um novo entendimento e a uma reinterpretação ampla dos três estágios. Mesmo após décadas de pesquisas, nem sempre era possível predizer se os vários choques psicológicos e experiências estressantes iriam se somar para aumentar a resposta ao estresse, ou se ocorreria algum tipo de adaptação e inibição em uma situação particular. Tornou-se evidente que as relações entre significado psicológico e as modificações fisiológica são complexas e não lineares”.

O estresse pode ser provocado por situações externas ligadas à família, amigos, trabalho ou escola, assim como por fatores internos relacionados com situações em que questionamos nossas capacidades. Qualquer acontecimento que exige uma mudança ou adaptação; positivo, como o início de um novo curso ou negativo, como a perda de um ente querido ou a separação dos pais, podem gerar expectativa, ansiedade e consequentemente o estresse.

Considerado um mecanismo normal, o estresse é necessário e benéfico ao organismo, pois faz com que o ser humano fique mais atento e reaja diante de situações de perigo ou de dificuldade. Mesmo situações consideradas positivas como é o caso, por exemplo, das promoções profissionais, dos casamentos desejados, do nascimento de filhos, etc., podem produzir estresse.

“Os efeitos da Síndrome Geral de Adaptação sobre o indivíduo cronicamente ao longo do tempo compõem o substrato fisiopatológico das doenças psicossomáticas”, explica G. J. Ballone, em Fisiologia do estresse (PsiqWeb). “Cada órgão ou sistema são envolvidos e apenados pelas alterações fisiológicas continuadas do Estresse, de início apenas com alterações funcionais e depois com lesões também anatômicas. Por causa disso, podemos dizer que as Doenças Psicossomáticas são aquelas determinadas ou agravadas por motivos emocionais, já que é sempre a emoção quem detecta a ameaça e o perigo, sejam eles reais, imaginários ou fantasiosos”.

TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS­TRAUMÁTICO

O Transtorno de Estresse Pós-traumático pode ser entendido como a perturbação psíquica decorrente e relacionada a um evento fortemente ameaçador ao próprio paciente ou sendo este apenas testemunha da tragédia. De acordo com o artigo Estresse pós traumático (www.psicosite.comom.br ), “o trans torno consiste num tipo de recordação que é melhor definido como revivescência, pois é muito mais forte que uma simples recordação. Na revivescência, além de recordar as imagens, o paciente sente como se estivesse vivendo novamente a tragédia com todo o sofrimento que ela causou originalmente. O transtorno então é a recorrência do sofrimento original de um trauma, que além do próprio sofrimento é desencadeante também de alterações neurofisiológicas e mentais”.

Segundo o Dr. Drauzio Varella (drauziovarella.com.br), os sintomas podem manifestar-se em qual­ quer faixa de idade e leva r meses ou anos para aparecer. “Eles costumam ser agrupados em três categorias: Reexperiência traumática (pensamentos recorrentes e intrusivos que reme tem à lembrança do trauma, flashbacks, pesadelos); esquiva e isolamento social (a pessoa foge de situações, contatos e atividades que possam reavivar as lembranças dolorosas do trauma); Hiperexcitabilidade psíquica e psicomotora: taquicardia, sudorese, tonturas, dor de cabeça, distúrbios do sono, dificuldade de concentração, irritabilidade, hipervigilância”.

TRANSTORNO DE ESTRESSE AGUDO

O Transtorno de Estresse Agudo é causado pela exposição a uma situação traumática avassaladora, semelhante ao estresse pós-traumático, exceto por ocorrer durante o primeiro mês após o evento traumático. O portador foi exposto a um acontecimento impactante e terrível, e revive mentalmente o evento traumático, evitando coisas que possam lembrá-lo, apresentando também um alto grau de ansiedade. Os sintomas mais comuns são: sensação de embotamento, distanciamento ou ausência de resposta emocional; percepção reduzida do meio ambiente; sensação de que as coisas não são reais; sensação de que ele mesmo não é real; incapacidade de lembrar-se de uma parte importante do evento traumático (www.galenoalvarenga.com.br).

Dessa forma, os sintomas de Transtorno de Estresse Agudo são experimentados durante ou imediatamente após o trauma. Duram por volta de dois dias e se resolvem dentro de 4 semanas, após a conclusão do evento traumático.

De outra forma, o diagnóstico é mudado. Quando os sintomas persistem além de 1 mês, um diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático pode ser mais apropriado.

De acordo com o DSM-IV, a gravidade, duração e proximidade da exposição de um indivíduo ao evento traumático são os fatores mais importantes para a de­ terminação da probabilidade do desenvolvimento de um Transtorno de Estresse Agudo. Existem algumas evidências de que suportes sociais, história familiar, experiências da infância, variáveis de personalidade e transtornos mentais preexistentes podem influenciar o desenvolvimento deste transtorno.

DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO

O diagnóstico de qualquer distúrbio relacionado ao estresse deve ser feito por um profissional da saúde, geralmente um psiquiatra, capaz de avaliar o paciente de forma correta. O tratamento pode ser feito por meio de medicamentos (ansiolíticos) e terapia.

OUTROS OLHARES

PARECE, MAS NÃO É: TEM CARA, GOSTO, CHEIRO, MAS NÃO TEM O INGREDIENTE

Além dos hambúrgueres, há mais produtos com nomes e embalagens que induzem o consumidor ao erro

Chocolate que nem é chocolate, molho sabor queijo cheddar sem o cheddar, biscoito com recheio sabor de morango sem morango, bebida pronta de Alpino sem o dito cujo … Há muitos outros produtos que parecem, mas não são além dos famosos  McPicanha e Whopper Costela, que viralizaram nas redes sociais e acabaram sendo alvo do Ministério da Justiça e Procons por, apesar do nome, não terem os cortes das carnes na composição dos seus hamburgueres.

A informação pode até estar na embalagem, na maioria das vezes em letras miúdas, e dentro das normas brasileiras. Mas para o consumidor é difícil entender que pode não ter o ingrediente do sabor do produto na sua receita, ainda mais quando aparece em destaque no rótulo, como é o caso do Club do molho sabor cheddar, da Pollenghi, da bebida pronta Alpino, da Nestlé, ou do biscoito Trakinas sabor morango, da Mondélez Brasil.

No caso do popular BIS, também da Mondélez, por exemplo, apesar da informação destacada de que se trata de wafer “sabor” chocolate, é difícil encontrar quem saiba que é um biscoito e não um chocolate. Até porque, é junto dos chocolates que ele pode ser encontrado no mercado.

“Às vezes, diz que tem uma coisa e é só a essência, fala que é suco de uva, mas tem mesmo é corante. A informação deveria ser mais destacada, senão a gente acaba sendo enganado”, diz a estudante Tárcia Pereira Abrantes, de 20 anos.

De acordo com o Ministério da Agricultura, não basta informar, as embalagens não podem induzir a erro ou engano.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) diz que a apresentação da imagem, por exemplo, de uma fruta, em produto que não contenha este ingrediente pode contrariar as regras sanitárias. Mas a caracterização das irregularidades, destaca a agência, requer “avaliação do conjunto de informações contidas no rótulo, já que podem estar presentes alertas que permitam ao consumidor entender que a imagem apresentada não remete diretamente à composição do alimento”.

A nutricionista do programa de Alimentação Saudável do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Laís Amaral, ressalta que embora muitos produtos sigam as regras de rotulagem brasileira, em muitos casos, pela ótica do Código de Defesa do Consumidor seriam enquadrados como propaganda enganosa:

“Entendemos que colocar no rótulo a imagem de um ingrediente que não esteja na composição é uma ilegalidade que está levando o consumidor ao erro”.

Na avaliação do professor de marketing da fundação Getúlio Vargas (FGV), Ulysses Reis, o consumidor está à frente da legislação e já toma os seus posicionamentos:

“Sob o ponto de vista legal, a empresa pode até estar correta, mas no que tange ao valor da marca é perigoso”.

Roberta Ribeiro, coordenadora do Laboratório Municipal de Saúde Pública da Vigilância Sanitária do Rio, orienta o consumidor a ficar atento ao rótulo, especialmente à denominação de venda do produto e à lista de ingredientes, lembrando que o primeiro item é o que tem maior quantidade na composição. A relação segue em ordem decrescente.

Não só o rótulo, mas a forma como o produto está disposto na prateleira do mercado ou classificado no e-commerce ajuda a aumentar a confusão. Por exemplo, lado a lado, é difícil distinguir a lata do leite Ninho da do Ninho que é composto lácteo.

Alice Amigo, coordenadora do Curso de Capacitação Estratégica em Trade Marketing da PUC-Rio, explica que a organização de produtos similares – seja no ponto físico ou nas plataformas on-line – é comum e que não costuma haver má-fé nessa apresentação.

“A proposta é sempre dar opções a quem procura uma categoria de produto reunindo os que estão a ele relacionados. Um produto pode ser encarado como sobremesa, pode estar próximo aos chocolates, mas, se, de fato, é biscoito, não pode deixar de estar na prateleira da categoria originária.

O QUE DIZEM AS EMPRESAS

A Mondélez Brasil ressalta que a classificação do BIS, de wafer sabor chocolate, é clara. Sobre o Trakinas, diz que o rótulo segue as regras da Anvisa, sendo uma delas o produto ter aroma idêntico ao natural.

A Polenghi pontua que é visível a informação de que Clube do molho é feito com queijo e aroma natural de queijo cheddar”.

Já a Nestlé enfatiza seguir as normas brasileiras em relação à bebida pronta Alpino.

O McDonald’s explica que batizou o McPicanha por causa do sabor do molho, mas, após a polêmica, suspendeu a venda do sanduíche e diz analisar os próximos passos.

Na mesma linha, o Burguer King vai substituir o nome do Whopper Costela, por Whopper Paleta Suína, corte de carne usado no hambúrguer que tem aroma de costela.

GESTÃO E CARREIRA

50 TONS DE AZUL

Alimentos coloridos atraem crianças e adultos, ainda mais em tempos de Instagram – mas não a qualquer custo. É crescente a preocupação dos consumidores com a origem saudável e sustentável dos ingredientes – Comidas ebebidas azuis, além de raras, sempre pareceram artificiais demais. ”O azul natural era considerado o cálice sagrado da indústria de bebidas”, nota Itai Cohen, cofundador e CEO da Gavan, uma foodtech israelense. A startup desenvolveu um processo de extração da coloração azul de uma fonte 100% natural, a espirulina. O pigmento se mantém estável mesmo após passar por processos de altas temperaturas e baixo pH, como acontece na pasteurização. O mercado potencial para o produto é considerável: o segmento de corantes alimentícios espera alcançar USS 5,4, bilhões em 2026.

EU ACHO …

NEM TODO MUNDO

A gente acredita que existe um senso comum regendo nossos gostos e opiniões, porém somos 7 bilhões pensando e vivendo de forma muito distinta uns dos outros.

Nem todo mundo é regido pelo dinheiro, por exemplo. Dinheiro é bom, é necessário, e quanto mais, melhor – mas esse “mais” não obceca a todos. Há quem troque o “mais dinheiro” por “mais sossego” e “mais tempo ocioso”. Qual o sentido de trabalhar insanamente se já se tem o suficiente para viver com dignidade?

Nem todo mundo gostaria de morar numa mansão com uma dezena de quartos e espaço de sobra para se perder: tenho uma amiga que desistiu do apartamento cinematográfico onde morava, pois ela não conseguia enxergar os filhos nem conversar com eles – eram longos os corredores e muitas as portas. Parecia que a família vivia num hotel, e não num lar. Trocou por um apartamento menor e aproximaram-se todos.

Nem todo mundo prefere mulheres com cara de boneca e corpo de modelo, ou homens com rosto de galã e corpo de fisiculturista. Imperfeições, exotismo, autenticidade, um look de verdade, natural, sem render-se a uma busca sacrificada pela beleza, ah, o valor que isso ainda tem.

Nem todo mundo gosta de bicho, de doce, de praia, de ler, de criança, de festa, de esportes, e nem por isso merece ser expulso do planeta por inadequação crônica. Seus prazeres estão fora do catálogo da normalidade e ainda  assim são criaturas especiais a seu modo, enquanto outras pessoas podem cumprir todas as obviedades consagradas e isso não adiantar nada na hora da convivência: são ruins no trato, fracas de humor e voltadas para o próprio umbigo, apesar de seu exemplar enquadramento social.

Nem todo mundo veio ao mundo para brigar, para reclamar, para agredir, para difamar, para fofocar, para magoar, para se vingar, para atrapalhar – hábitos de muitos, até arrisco dizer que da maioria, já que é mais fácil chamar a atenção através do nosso pior do que do nosso melhor. O pior faz barulho, o pior ganha as manchetes, o pior gera comentários, o pior recebe os holofotes, o pior causa embaraço. Porém, há os que vieram em missão de paz e não se afligem pela discreta repercussão de seus atos.

Nem todo mundo quer casar, quer filhos, quer fazer faculdade. Nem todo mundo quer ser campeão, presidente, celebridade. Há quem queira apenas viver de um jeito que não seja julgado por ninguém, há quem queira apenas se expressar de um modo menos exuberante e mais íntimo, há quem queira apenas passar pela vida nutrindo a própria identidade, não se preocupando em colecionar seguidores, admiradores e afetos de ocasião.

Sem jogar para a torcida, há quem queira somente estar bem consigo mesmo.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

QUANDO A QUEDA DE CABELO PODE SER CONSIDERADA UMA DOENÇA?

Eventos estressantes, físicos ou psicológicos, podem provocar perda assustadora de tufos: entenda a vida dos fios e o que pode ser feito

Uma mulher do meu grupo de tricô recentemente perguntou se alguma de nós sabia onde poderia comprar uma peruca grisalha. Embora ela parecesse ter uma grande quantidade de cabelo, ela relatou que estava perdendo punhados toda vez que a escovava ou lavava. Obviamente muito chateada com o que estava acontecendo, disse que não queria esperar até ficar careca para encontrar um substituto para seus cabelos.

Ela também se perguntava porque, de repente, isso estava acontecendo e como poderia ser interrompido. O dermatologista que consultou fez algumas perguntas reveladoras e sugeriu a causa provável. Três meses antes, minha amiga havia se submetido a uma cirurgia de câncer de cólon e, como se isso não bastasse, desenvolveu uma infecção grave no pós-operatório.

O resultado tardio, uma forma difusa de perda de cabelo chamada eflúvio telógeno, estava fazendo com que seu cabelo caísse em tufos assustadores. A boa notícia é que, na ausência de outro fator físico ou psicológico, dentro de um ano ela provavelmente terá recuperado sua cabeleira normal e poderá doar a nova peruca.

TRAJETÓRIA DO FIO

Em circunstâncias normais, as pessoas têm entre 100 mil e 150 mil fios de cabelo na cabeça. Cada folículo piloso atravessa um ciclo de crescimento independente.

Cerca de 90% do seu cabelo está no estágio anágeno, ou de crescimento que pode durar anos e resultar em mechas longas, a menos que cortadas. Os 10% restantes estão na fase catágena, com duração de quatro a seis semanas e durante a qual os pelos param de crescer e os folículos começam a se preparar para soltá-los, ou na fase telógena, de dois a três meses, quando os pelos estão prontos para cair, seja na escova, na roupa ou no ralo do chuveiro.

É normal perder cerca de 100 a 150 fios de cabelo por dia na fase telógena. Mas a perda de 100 ou mais fios em uma única lavagem ou escovação não é normal e pode causar alarme. Isso pode acontecer quando os folículos capilares na fase anágena progridem prematuramente para a fase telógena e resultam em perda de cabelo anormal de dois a três meses depois.

De acordo com Lindsey Bordone, professora de dermatologia na Universidade de Columbia, “o intenso estresse associado à cirurgia, perda de peso, parto e qualquer outra experiência emocional pode forçar a maior parte do seu cabelo para a fase telógena. Como esse estágio dura em média três meses, a maioria dos seus cabelos começa a cair depois que você supera o estressor”, levando você a se perguntar porque isso está acontecendo e o que pode ser feito para reverter.

Felizmente, há uma resposta simples para esta última pergunta. Supondo que o evento estressante tenha terminado, considere comprar uma peruca, lenço de cabeça, turbante, boné ou chapéu e espere até que seu cabelo volte a crescer. Fique tranquilo, se a queda de cabelo foi causada por um estresse temporário, ele voltará a crescer, mas é altamente recomendável ter paciência. O crescimento geralmente não é aparente por quatro a seis meses e pode levar de 12 a 18 meses antes de ser cosmeticamente aceitável. Não há realmente nada que possa acelerar o processo, segundo os médicos, então não desperdice seu dinheiro em suplementos e outros remédios.

OUTROS MOTIVOS

Outras possíveis causas de perda de cabelo telógena difusa incluem uma tireoide hiperativa ou hipoativa, com o crescimento normal do cabelo restaurado assim que a anormalidade hormonal for corrigida. Vários distúrbios crônicos ou inflamatórios, doenças autoimunes ou infecções crônicas também podem causar perda de cabelo.

Deficiências nutricionais, especialmente de ferro ou zinco, proteínas, ácidos graxos ou vitamina D, são outras causas possíveis, assim como restrição calórica extrema e dietas radicais. Independentemente do que você possa suspeitar, é altamente recomendável fazer um check-up médico completo para determinar uma causa especifica e muitas vezes corrigível, insistiu Bordone.

A perda de cabelo na fase anágena nunca é normal e mais comumente resulta de uma exposição tóxica como o tratamento com drogas anti­cancerígenas. A perda de cabelo anormal geralmente é notada uma ou duas semanas após o início da quimioterapia e é mais aparente em dois meses. O cabelo é mais provável de ser afetado, mas todos os pelos faciais e corporais também podem ser perdidos. No entanto, as madeixas começarão a crescer novamente dentro de semanas após o término da quimioterapia.

Outras causas de perda de cabelo anágena que podem ser permanentes incluem radiação e envenenamento por metais pesados. Além dos medicamentos quimioterápicos, os medicamentos que às vezes podem causar queda de cabelo incluem varfarina, esteroides, pílulas anticoncepcionais, lítio, anfetaminas e suplementos de vitamina A, embora o cabelo volte a crescer quando o medicamento agressor for interrompido.

A forma mais comum de queda de cabelo está relacionada à idade e não está associada a nenhuma doença subjacente, deficiência ou situação angustiante. É a alopecia androgenética, mais comumente chamada de calvície de padrão masculino ou calvície de padrão feminino quando afeta mulheres. Este tipo de queda de cabelo é mais comum em homens brancos, afetando cerca de metade deles aos 50 anos.

Vários medicamentos podem combater a alopecia androgenética, pelo menos até certo ponto, por isso é importante ver um especialista.

No entanto, algumas mulheres contribuem para a perda de cabelo, adotando penteados apertados como rabo de cavalo ou trancinhas que puxam o cabelo, práticas que levam os médicos de Columbia a recomendarem deixar o cabelo solto.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ENTRE A INFÂNCIA E A ADOLESCÊNCIA

As delícias e percalços de uma fase de indefinição

Quando se trata de desenvolvimento humano, é muito difícil definir exatamente quando começam e quando terminam suas “fases”, “etapas” ou “estágios”. Quando uma pessoa se torna adulta, de fato? O marco legal estabelece que, a partir dos 18 anos, a pessoa responde legalmente pelos seus atos. Mas isso significa que ela seja adulta? O mesmo se dá em outros momentos do desenvolvimento. Não podemos definir com exatidão quando uma pessoa se torna idosa, de fato, nem quando deixa de ser criança e “vira” adolescente. Os marcos legais são necessários para que se desenvolvam políticas públicas voltadas à população de determinada idade (que, espera-se, estejam vivenciando determinado momento do desenvolvimento que é comum à maioria das pessoas daquela idade), porém, no nível individual, muitas diferenças podem existir entre duas pessoas que tenham a mesma idade.

Vamos refletir, neste texto, sobre as questões próprias da adolescência e a pré-adolescência. Como dito antes, não há como se definir exatamente quando se passa de uma etapa do desenvolvimento para outra, quando se deixa de ser criança e se torna adolescente, ou pré-adolescente. Para compreendermos melhor esta questão, penso ser necessária uma diferenciação de dois conceitos que muitas vezes são utilizados como sinônimos, porém representam fenômenos diferentes. Estes conceitos são: a puberdade e a adolescência.

Como são utilizados muitas vezes como sinônimos, o leitor poderá se indagar: “mas puberdade e adolescência não são a mesma coisa?” Apesar de dizerem respeito a um mesmo período etário que compreende diversas mudanças, é necessário diferenciar o que seja a puberdade e o que seja a adolescência, para podermos compreender melhor a assim chamada pré-adolescência.

Por puberdade, compreende-se todas as mudanças corporais que a pessoa começa a vivenciar quando seu corpo começa a deixar de ser um corpo “de criança” e avança cada vez mais para se tornar um corpo “de adulto”. Essas mudanças são as aparições dos denominados caracteres sexuais secundários, ou seja: as meninas começam a menstruar, os seios começam a crescer, os meninos começam a apresentar mudanças na voz, uma penugem no rosto prenuncia o que será um dia a barba e tanto meninos como meninas veem proliferar por seus corpos os pelos, o aumento de estatura, espinhas, assim como seus aparelhos reprodutivos vão se tornando aptos a procriar. Claro que estas mudanças variam muito de pessoa para pessoa, podendo apresentarem-se de maneira mais acentuada para uns e menos para outros, assim como podem se iniciar mais cedo para uma pessoa e mais tarde para outra. Uma garota de 11 anos com corpo “de criança”, que ainda não menstruou nem tem indícios de crescimento dos seios pode conviver na sua sala de aula com outra que já tenha menstruado e cujos seios começam a se desenvolver. E isso é normal. As pessoas possuem ritmo diferentes de desenvolvimento.

A essas mudanças corporais, chama-se puberdade. A menos que haja algum problema sério de desenvolvimento, todos vão passar por ela. O que seria então a adolescência?

O conceito de adolescência como nós conhecemos, ou seja: um período de tempo entre a infância e a vida adulta, com características próprias, é algo próprio de nossa civilização ocidental industrializada. Isso significa que o que conhecemos por adolescência só faz sentido na nossa cultura. Em outras culturas consideradas “primitivas”, não há um período entre infância e a vida adulta. Nessas culturas há rituais geralmente dolorosos, pelos quais o jovem e/ou a jovem passam e, uma vez superadas as provações, assumem o papel de adultos perante a comunidade.

A adolescência enquanto etapa do desenvolvimento, portanto, é o que se costuma chamar de uma construção social. E o que significa exatamente uma construção social? Uma construção social é algo que tem uma história e um desenvolvimento dentro da nossa sociedade, é algo que não é natural por si só mas que possui características que são significadas pela sociedade e dentro dela. Como afirmado no parágrafo anterior, há culturas em que a adolescência como conhecemos “não existe”, por assim dizer, passa-se da infância à idade adulta através de um ritual estabelecido pela tradição daquela sociedade. Nossa sociedade, apesar de também apresentar rituais próprios, desenvolveu ao longo do tempo a noção de um período da vida de preparação para a vida adulta que ficou conhecido como “adolescência” e que possui características próprias. As ciências, como também fazem parte da sociedade, são chamadas a oferecer explicações sobre os fenômenos que ocorrem em sociedade, assim como oferecer soluções a problemas que advém destes fenômenos. Com a adolescência não é diferente.

Conforme apontado por Bock (2007). no que diz respeito especificamente à psicologia, o primeiro autor a realizar estudos sobre a adolescência foi Stanley Hall, no início do século XX. A partir de então, a adolescência tem sido considerada como uma fase difícil da vida: repleta de crises e turbulências. Autores psicanalistas viriam reforçar este aspecto tormentoso dessa etapa da vida, porém, segundo a autora deixaram de lado a concepção fundamental para se entender o desenvolvimento do ser humano: que este desenvolvimento se dá em sociedade. Desenvolver-se em sociedade significa que o indivíduo, ou sujeito, está em contínua interação com os meios e grupos dos quais faz parte e aprende com eles e neles a ser de uma determinada maneira ou outra. Como exemplo, podemos pensar nas diferenças culturais que as pessoas apresentam de um país para outro, ou mesmo de uma região geográfica para outra. As pessoas que apresentam essas características ou diferenças culturais não a apresentam por um motivo natural, biológico ou genético (ainda que esses fatores possam influenciar), mas sim porque aprenderam a ser assim no meio em que se desenvolveram.

Bock (2007) e outros pesquisadores da psicologia que adotam uma abordagem sócio-histórica dos fenômenos humanos chamam de visão naturalizante a tendência de enxergar etapas do desenvolvimento como algo “natural”, ou seja, algo que irá acontecer irremediavelmente, quer queira, quer não. Segundo a visão naturalizante, não há o que se fazer quanto à adolescência: uma hora ela vai chegar, vai ser turbulenta, mas uma hora vai passar. Essa visão nega, portanto, qualquer possibilidade de intervenção para um desenvolvimento menos conflituoso da adolescência.

Apesar de seus problemas, a visão naturalizante ainda predomina nas pesquisas em psicologia. Conforme demonstrado por nós, os assuntos relacionados à pesquisa da adolescência pela psicologia, em sua maioria, dizem respeito à violência, situações de risco, doenças físicas, psíquicas, uso e abuso de drogas e à sexualidade. Será que só podemos olhar o adolescente por estes pontos de vista? Ele será sempre um “aborrecente”, envolvido com violência e situações de risco, uso de drogas e seus interesses resumem-se à sexualidade?

Conforme exposto acima, compreendemos a adolescência como uma construção social. Ora, quem faz a sociedade são todos os sujeitos que fazem parte dela, portanto cabe a nós, pais, educadores e profissionais que convivem com os adolescentes quebrarmos e reconstruirmos essas representações negativas atribuídas à adolescência.

Portanto, esperamos ter esclarecido a diferença básica entre puberdade e adolescência. A puberdade refere-se às mudanças corporais que a pessoa vai vivenciar entre os 10, 11 anos ou um pouco mais, até os seus 17 ou 18 anos, mais ou menos. Enquanto a adolescência refere-se às características psicológicas e sociais que a pessoa assume nesta mesma faixa etária. Ou seja: ambos fenômenos coexistem, pois na nossa cultura a mudança corporal própria da puberdade é compreendida como sinal de que a pessoa “entrou” ou “está” na adolescência. A partir disso, as pessoas que convivem com o sujeito em desenvolvimento passam a enxergá-lo de outra maneira e a exigir deste uma outra postura perante as situações que vivencia. Não se espera de um adolescente que este venha a ter os mesmos comportamentos, pensamentos, afetividade e interesses que uma criança, por exemplo.

E como isso se passa para a pessoa que está se desenvolvendo? Como afirmado anteriormente, o nosso desenvolvimento é em sociedade, portanto, respondemos às demandas que a cultura nos impõe. Uma garota ou um garoto, ao serem apontados como “não sendo mais crianças”, deverão elaborar novos modos de se comportar nos meios e grupos dos quais fazem parte. Por meios e grupos entende-se: família, escola, igreja, clube, cursos, vizinhança, etc.

Esse processo não se dá automaticamente e nem de uma hora para outra. Ao contrário das mudanças corporais que, chegada a hora, se impõem, as mudanças psicológicas acontecem de maneira mais cadenciada e complexa. Acredito que agora chegamos ao ponto específico relacionado à pré-adolescência.

Se já há uma dificuldade (compartilhada inclusive pelos pesquisadores que estudam o assunto) de definir exatamente o que seja a adolescência, ou o que seja próprio dela, o que não dizer sobre a pré-adolescência, ainda mais para quem a está vivenciando. Ou seja, muito rapidamente a pessoa “passa” de criança a pré-adolescente, sendo que o próprio termo “pré-adolescente” já prenuncia que em breve já não se será mais isso, mas outra coisa: o adolescente propriamente dito.

Quando e como acontece a pré-adolescência? Aos dez, 11, 12 anos? Antes disso? É possível um pré-adolescente mais velho, ou a partir de um certo momento o sujeito é adolescente, querendo ou não?

Essas perguntas permanecem sem resposta porque além dos ritmos individuais de desenvolvimento, tanto corporais como psicológicos, serem muito diferentes, há uma indefinição do que seja um pré-adolescente, indefinição ainda maior do que seja um adolescente.

Levando isso em consideração, vamos nos ater ao que seja próprio da infância e ao que seja próprio da adolescência, do ponto de vista psicológico, almejando elucidar os processos desenvolvimentais e auxiliar a compreensão destas etapas da vida. Para isso, adotaremos uma abordagem que considera a adolescência, assim como a infância, como construções sociais.  Esperamos, com nossa exposição. auxiliar aqueles que tenham dúvidas sobre estes processos e que estejam convivendo de alguma forma com as mudanças enfrentadas pela criança que aos poucos vai deixando de sê-Ia e tornando-se um adolescente (ou pré-adolescente).

A criança, desde o início da vida, vai passando por situações que podem ser vistas como desafios desenvolvimentais. Inicialmente tem que reconhecer e aprender a usar o próprio corpo, além de perceber que seu corpo e seu ser é um e o de sua mãe é outro, visto que os bebês não têm essa compreensão , vivenciam a relação com sua mãe como se fossem um só e aos poucos vão aprendendo que são duas pessoas diferentes, com dois corpos diferentes. A partir disso, vêm os desafios de se locomover e explorar o espaço. A criança aprende a engatinhar e depois a andar. Há o desafio de se comunicar com as pessoas ao seu redor e a criança tem de aprender a falar.

Todos estes processos acontecem inseridos numa determinada época e sociedade que vão significar e ditar como os pais deverão auxiliar seus filhos no desenvolvimento. Isso vai depender muito do nível de desenvolvimento científico do meio em que os pais estão inseridos, além das tradições que envolvem o ato de criar filhos.

A criança, por sua vez, conforme vai conquistando os ganhos desenvolvimentais (aprende a andar, falar, etc.), tem à sua disposição novas ferramentas para agir no meio em que vive. A criança mais velha entra na escola e, neste espaço, além de ter de li­ dar com a sociabilidade, ou seja, conviver com outras crianças e adultos que não aqueles com as quais convive em sua casa, começará a entrar em contato com os conhecimentos desenvolvidos pela humanidade: irá se alfabetizar, aprender operações matemáticas, noções de geografia, etc.

Todo este longo processo desenvolvimental que dura anos, vai agregando aos poucos e cada vez mais ferramentas para a criança compreender o mundo em que vive e agir neste mesmo mundo com as ferramentas adquiridas. Por ferramentas, entende-se: os conhecimentos e habilidades que vai adquirindo conforme se desenvolve.

Os ganhos desenvolvimentais vão transformando a criança e esta vai ficando cada vez mais apta a agir nos meios em que vive. Há vários estudiosos que postularam os ganhos que a criança vai conquistando no seu desenvolvimento: Freud se debruçou sobre as características afetivas de cada momento desenvolvimental, Piaget estudou e postulou os ganhos cognitivos, ou seja, como a criança pensa e aprende em cada etapa, assim como o que é capaz de fazer. Vigotski e Wallon estudaram o desenvolvimento integral da criança e como cada conquista desenvolvimental transforma toda a estrutura psíquica da criança e permite a esta interferir no seu meio.

Para os objetivos deste texto, basta que tenhamos em mente que o modo da criança se desenvolver é brincando. É através da brincadeira que a criança pode experimentar seu corpo e os objetos com os quais tem contato. Nas brincadeiras em grupo, está treinando sua sociabilidade com outras crianças, nas brincadeiras de faz de conta está aprendendo a testar papéis sociais (por exemplo: quando brinca de professora, de médico, de motorista, etc.). É através dos jogos com regras (e castigos para quem desobecê-las) que vai aprendendo que na nossa sociedade há leis que devem ser cumpridas, assim como vai percebendo, aos poucos, que há uma lógica que guia nosso mundo.

É nesse ínterim que, de repente, a puberdade se impõe: o corpo começa a mudar. E a mudança ocorre bem no momento em que a criança (ou pré-adolescente) está absorta no mundo do conhecimento: aprendendo cada vez mais sobre o mundo e sociedade em que vive. É o momento em que, psicologicamente, o intelecto está em evidência, se desenvolvendo a todo vapor e assumindo prioridade em relação a outros processos psíquicos. É então que o corpo muda. Com o corpo, mudam-se aos poucos os interesses, vem a curiosidade sobre o que está acontecendo. “Será que com meus /minhas colegas está acontecendo também?”. E é por volta dos 11 aos 13 anos, o começo da puberdade, que o adolescente vai se interessar abertamente por conteúdos relacionados ao sexo e ao sexual, se referindo a estes assuntos muitas vezes de maneira despudorada.

Estes comportamentos são mal vistos, em geral, por pais e professores que lidam cotidianamente com pré-adolescentes (são crianças ou já adolescentes?), que acabam repreendendo-os pelo “mal comportamento”. Yygotski (2006) nos chama a atenção para o fato de que este interesse aberto e despudorado por assuntos relativos ao sexo e ao sexual se deve justamente ao fato de a criança (pré-adolescente?) estar vivenciando essas mudanças em seu corpo e não ter uma base para compreendê-las. Ou seja: trata-se de uma falha pedagógica de nossa sociedade que não prepara o pré-adolescente (ou criança) para as mudanças que em breve irá sofrer e nem as auxilia a compreender o significado dessas mudanças.

Ainda que já estejamos avançando mais de 20 anos no século XXI. propostas de educação que tratem do tema da sexualidade ainda são vistas como afronta a tradições religiosas e barradas por políticos ligados setores mais conservadores. Exemplos do tipo podem ser verificados na história recente de nossa política. O resultado são crianças. adolescentes e pré-adolescentes completamente desorientados quanto às mudanças pelas quais estão passando em seus corpos e em seu psiquismo.

Numa era globalizada com acesso quase irrestrito à internet, o risco de um pré-adolescente sanar sua curiosidade sobre o sexo e sexualidade em sites pornográficos é muito alto. O conteúdo dessas páginas não educa sobre o sexo, pois as situações ali registradas, embora exibam sexo explícito, são simulações que nada ou muito pouco tem a ver com o sexo real. O interesse e o sucesso estrondoso que músicas funk com conteúdo sexual explícito fazem entre os jovens pode ser explicado também como uma falha na educação sexual de nossos pré-adolescentes.

Portanto, é extremamente necessário orientar àqueles que vivenciam as mudanças corporais, psicológicas e de interesses (ou que em breve irão vivenciá-las) sobre os significados do sexo e da sexualidade: que na nossa sociedade não servem apenas a fins reprodutivos (como seria de se esperar do sexo entre animais), mas são maneiras de vivenciar e demonstrar afeto, prazer e carinho. Que é necessário prevenir-se de gravidezes indesejadas e também de doenças sexualmente transmissíveis não menos indesejadas, que é necessário haver respeito e cumplicidade entre as pessoas envolvidas no ato sexual. Que é necessário haver acima de tudo responsabilidade com o próprio corpo e sentimentos, assim como com o corpo e sentimentos do (a) parceiro(a).

Concluindo: também quando o assunto é desenvolvimento, o melhor caminho é sempre a educação.

OUTROS OLHARES

GÊNERO PRÓPRIO

Pessoas intersexo defendem direito de escolha sobre cirurgia genital

Quando Rosa (nome fictício) foi procurar documentos pessoais para o mestrado, aos 33 anos, não imaginava que encontraria um relatório, destinado à sua mãe, que mudaria tudo o que ela conhecia sobre si. O texto, de 1996, dizia que ela era portadora de uma condição genética conhecida como “insensibilidade aos andrógenos, e que, aos sete meses, foi submetida a uma cirurgia de reconstrução genital para o feminino.

“Durante 33 anos, eu vivi uma farsa. Eu sempre desconfiei de que havia uma história que não era contada sobre mim. Quando achei o relatório, comecei a investigar e, junto a uma amiga, chegamos à palavra ‘intersexualidade’”, relembra.

Segundo a Anistia Internacional, “intersexo” é o termo usado para descrever pessoas cujos órgãos genitais, características cromossômicas ou hormonais não correspondem ao padrão para categorias masculinas ou femininas de anatomia sexual ou reprodutiva.

O prontuário médico de Rosa indicava que, na verdade, ela era portadora de cromossomo XY e que, ao nascer, tinha testículos palpáveis, saco escrotal e todo o aparelho sexual masculino. São nada menos que 130 milhões de pessoas nessa condição no mundo.

“Eu tinha um pênis que, até os sete meses, media 1 cm. Aquele prontuário contou que fui operado para o feminino. A descoberta, para mim, foi como se fosse um quebra-cabeças que, agora, estava montado”.

GUINADA DE VIDA

A descoberta da intersexualidade foi um marco para a transição de Rosa, que, em 2016, passou a se identificar como uma pessoa transmasculina: Amiel Modesto Vieira. O sociólogo, hoje com 39 anos, diz que, junto do nome, nasceu também o compromisso de falar sobre o assunto. Um dos fundadores da Associação Brasileira de Pessoas Intersexo (ABRAI), ele dedicou os últimos anos a pesquisas e debates sobre o tema.

“Quando descobri a intersexualidade, acabei saindo da igreja e dei vazão a algo que estava   reprimido em mim. Na época, me entendia como uma pessoa lésbica. Conversei sobre isso com meus pais e eles disseram que era uma situação complicada, porque não estava de acordo com a Bíblia”, conta. Segundo Amiel, antes do seu nascimento, sua família esperava por um menino. E, quando veio ao mundo, o registro dele foi feito: Luiz Henrique Modesto Vieira. Os médicos, porém, de acordo com seu relato, foram contra. Então, seus pais fizeram um novo documento. Aos sete meses, renascia como menina – a certidão possui, inclusive, a data da cirurgia: 14 de março de 1983.

“O que [meus pais] sabiam é que deveriam criar uma menina, e tiveram que mudar de bairro, construir uma nova vida para mim, no sentido de que aquela menina acabara de nascer. Tudo era forçado para criar um ambiente onde o feminino que foi criado na operação fosse uma realidade. Só que o problema é que eu nunca me adaptei a esse feminino. Hoje, Amiel se posiciona de forma contrária às cirurgias feitas em bebês intersexuais. Para ele, o procedimento deve ser adiado para quando o próprio individuo tiver autonomia para decidir. A visão é a mesma da ONU, que critica a intervenção médica na primeira infância. Irreversível, a cirurgia pode ocasionar dores crônicas, infertilidade, incontinência urinária, perda da sensibilidade sexual e sofrimento mental.

Em abril, uma publicação do sociólogo sobre o assunto viralizou no Twitter. Meu dia acabou depois de ler um relato intersexo para a tese: médicos diziam que o bebê precisava de uma cirurgia no tímpano e os pais autorizaram. Na realidade, a pessoa nasceu com um clitóris grande, os médicos operaram e nunca contaram”, escreveu. “Só depois a pessoa descobriu que a cicatriz no clitóris era uma cirurgia para encaixar a pessoa na norma.”

A abordagem médica em pessoas intersexo ainda é um tema que divide especialistas. Segundo o endocrinologista Magnus Regios, a intersexualidade é compreendida como a condição de um indivíduo que nasceu com uma genitália atípica. Para ele, há uma corrente “antiga” da medicina que recomenda a cirurgia na primeira infância, e outra abordagem mais contemporânea, com foco na autonomia do sujeito.

“É necessária uma conduta focada na pessoa intersexo, e não em uma normativa que ‘corrige’ os corpos como masculino e feminino compulsoriamente”, diz o endocrinologista, que é professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo.

“Do contrário, nunca vamos reconhecer essa pessoa como um indivíduo.”

EM SOFRIMENTO

Para quem defende a atuação cirúrgica em crianças, o argumento é o de que a medida contribui para que as pessoas intersexo se sintam pertencentes à sociedade. É a opinião da professora Berenice Bilharinho, diretora da unidade de endocrinologia do desenvolvimento do Hospital das Clínicas de São Paulo. De acordo com ela, a vida com uma genitália atípica traz “sofrimento aos pacientes”.

“A recomendação e a correção da genital na primeira infância para adequá-las ao sexo social da criança. Consideramos a plástica dos genitais da mesma forma que corrigimos as diferenças do desenvolvimento da face, por exemplo, como o lábio leporino. Todos os especialistas que tratam esses pacientes têm a mesma opinião” sustenta. No Brasil, as intervenções são respaldadas pelo Conselho Federal de Medicina, que, em uma resolução de 2003, afirma que os médicos devem chegar a uma definição adequada do gênero e tratamento em tempo hábil. Como parte de uma “decisão racional”, o entendimento é o de que profissionais devem definir o gênero da criança, e agir rapidamente.

Para Regios, a intervenção só deve ser feita na primeira infância, em condições em que a variação imponha risco de saúde ou morte do indivíduo. Ele explica, porém, que esses casos são raros e, em geral, não há necessidade de cirurgia precoce, já que “o aparelho reprodutor no macho e na fêmea, não têm função de estreia na infância”.

Segundo ele, o termo “hermafrodita” tem sido ressignificado nos últimos anos. Antes entendido como depreciativo e carregado de estigma, o conceito passou a ser usado por ativistas na Argentina e em países da Europa como um retorno à tradição grega, onde corpos assim eram reconhecidos como divindades. Na mitologia, hermafrodito seria filho dos deuses Hermes eAfrodite.

Para Amiel, a indignação que percebeu depois de seu viral na internet não deve ficar restrita às redes.

“Daqui uns dias, as pessoas vão esquecer e não vão mais falar da intersexualidade. Meu sonho é que, um dia, gritem o meu grito de seis anos, pelas vidas de bebês intersexo que, como eu, todos os dias passam por mutilações genitais.”

GESTÃO E CARREIRA

AO ALCANCE

Com base em escaneamento e impressão em 3D, a startup Unlimited Tomorrow está conseguindo produzir braços mecânicos superleves e de uso intuitivo, nas medidas exatas para perfeita compatibilidade com membros residuais. Melhor ainda: consegue reduzir a até um décimo o preço para os clientes. Easton LaChappelle, de 25 anos, teve a ideia de fundar a empresa quando encontrou uma garota com uma prótese sem nada de especial, que havia custado US$ 80 mi1. Com noções de robótica e engenharia protética adquiridas em vídeos do YouTube, o jovem empreendedor desenvolveu o braço robótico TrueLimb, com 36 sensores de alta precisão alimentados por baterias de longa duração e que podem ser recarregadas por meio de uma simples entrada USB. A prótese inovadora pode ser confeccionada eu 450 tons diferentes de pele e – detalhe mais importante – sai por US$ 8 mil.

EU ACHO …

ADÚLTEROS

Todo adulto é um adúltero. Não precisa ser fiel a mais nada.

Se ele continua apegado a antigas convicções, antigas preferências e antigas manias, é um preguiçoso que se acomodou, escolheu viver de forma repetitiva, no piloto automático, cansado para novos entusiasmos. Está aguardando a morte sem aproveitar a liberdade que a maturidade lhe daria, caso tivesse amadurecido. Se ainda está agarrado ao que lhe definia aos 18 anos, então não saiu mesmo dos 18.

Um adulto de verdade, bem acabado, trai a si próprio sem um pingo de culpa. Festeja a alforria que o acúmulo de vivência lhe trouxe de bônus. Tornou-se um condenado à morte com direito a centenas de últimos desejos.

Um adulto é um adúltero que um dia jurou fidelidade eterna aos Beatles e aos Rolling Stones, mas que um belo dia cansou de conservá-los com naftalina e resolveu confessar que já não consegue escutar “Yesterday” sem enfrentar náuseas e que se sente ridículo dançando “I can’t get no satisfaction”. Trocou o rock pelo neo soul, seja lá o que for isso. Escuta coisas que despertam sua atenção aqui e ali, estilos que gosta num dia e dispensa no outro, e segue em busca de novidades sem querer aterrissar em mais nenhuma “banda preferida” que o enclausure num perfil. Só não rasga a carteira de identidade porque o juízo se mantém.

Um adulto é um adúltero que adorava o verão quando era um frangote, mas que ao abandonar as pranchas e ao se aproximar dos livros acabou criando uma predileção pelo inverno, até que o tempo passou mais um pouco e ele entendeu que a primavera e o outono é que eram cativantes pela ausência de extremismo, e agora, neste instante, voltou a preferir o verão, mas não assina embaixo, não tem mais firma reconhecida em cartório algum.

Um adulto é um adúltero que deixou de ser fiel aos próprios gostos. Deu-se conta disso quando, ao frequentar a casa de amigos, reparava que serviam a ele sempre o mesmo prato: como explicar que virou um cafajeste gastronômico chegado a outros sabores?  As conversas igualmente passaram a se repetir e ele se flagrou aceitando convites de estranhos – hoje é chegado a outros amigos também.

Don Juan de si mesmo, já não tem cor que lhe assente, autor que o represente, estilo de vestir que o catalogue, pensamento que o antecipe, sonho que o enquadre, viagem que o carimbe. Só não muda de time de futebol porque restou algum caráter.

Quanto ao amor, não é tolo. Sabe que quanto mais ele se abre para o mundo, quanto mais areja e celebra a própria vida, mais seguro estará nos braços de uma única pessoa, preservando a intimidade conquistada. Amor não é cor, música, esporte, estação do ano, ponto no mapa. Ele varia a si mesmo justamente para não precisar se procurar em mais ninguém.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

ATENÇÃO AOS SINAIS

Manchas e Melasma são comuns durante a gravidez e processos de reposição hormonal. Saiba como prevenir tais marcas e tratá-las para que sua estadia no rosto seja curta

Nosso rosto tem poderes. Além de ser o melhor cartão de visitas, ele é capaz de refletir o cansaço, as dores emocionais e físicas, a alegria e a alteração hormonal que, literalmente, surge à flor da pele, causada pela gravidez, uso de anticoncepcionais e terapias de reposição. Fica difícil imaginar como lidar com o surgimento de uma situação crônica sem ter a sensação de impotência. Assim acontece com o Melasma, hiper­pigmentação que causa as indesejáveis manchas escuras que aparecem na maior parte das vezes em mulheres e por conta do excesso de exposição ao sol. Passado o susto é hora de agir.

A pergunta mais recorrente é se podemos prevenir o surgimento do Melasma, principalmente durante a gravidez. Segundo a dermatologista Fabíolla Sih Moriya, da clínica Adriana Vilarinho, “mesmo com todos os cuidados que precisamos tomar, como o uso frequente de protetor solar – inclusive em ambientes fechados -, por se tratar de uma alteração hormonal as mulheres grávidas têm maior predisposição ao surgimento do Melasma”. Como prevenção, Fabíolla é a favor da aplicação de clareadores, desde que sejam prescritos por médicos, levando em consideração caso a caso. O uso diário da vitamina C também é um ótimo aliado ao combate do surgimento de manchas, segundo ela. “Assim como as grávidas, as mulheres que fazem reposição hormonal precisam estar atentas ao surgimento de manchas na pele”, completa. Entre os lasers com alto grau de eficácia para tratamento, ela sugere o ”Pico Seguidos”.

Uma rotina que inclui um peeling suave à base de ácido glicólico é essencial para remover  células mortas e preparar a pele para produtos específicos que suavizam as manchas, segundo Tatiane Rocha, farmacêutica e P&D sênior da Simple Organic, marca de clean beauty brasileira, que tem em seu DNA o uso de ativos veganos e sustentáveis. Dentre a linha de séruns lançada pela marca, Tatiane aposta no Oxy Resveratrol para a redução de manchas causadas pela exposição solar ou Melasma. Trata-se de um antioxidante formulado pela Romulus Mari (Amoreira) que tem efeito clareador. “Os resultados dos testes foram visíveis”, afirma.

Para o dr. Otavio Macedo, da clínica que leva seu nome, existe uma predisposição genética para o surgimento do Melasma. “Por baixo das manchas existe vasos vasculares”, explica o dermatologista, que sugere a combinação de lasers no tratamento associado de ambos, como o Fotona Stalwalker. “É importante que sejam colocadas altas doses de antioxidantes depois da aplicação para que o efeito seja potencializado”, completa. Quanto à reposição hormonal, ele frisa a importância de levar em conta o custo-benefício, já que grande parte pode ser tratada dermatologicamente. “A reposição hormonal não é capaz de causar mancha em quem não tem predisposição para tal”, enfatiza. O que podemos concluir, no entanto, é que a poderosa dupla prevenção mais proteção solar é a nossa grande aliada para o cuidado da pele, especialmente para as manchas provenientes do Melasma.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O QUE É O TRANSTORNO DO PÂNICO

Conheça as principais características, os sintomas e o tratamento para esse problema.

O transtorno do pânico (TP) e considerado um transtorno de ansiedade que pode trazer prejuízos para a vida pessoal, social ou familiar do indivíduo. Algumas pessoas conhecem como Síndrome do Pânico, mas a nomenclatura oficial na literatura médica é transtorno do pânico. A palavra “síndrome” significa um conjunto de sintomas e sinais e é usada frequentemente na medicina para descrever características de várias doenças. Os prejuízos na vida pessoal do indivíduo com transtorno do pânico são relativos aos limites que o medo impõe a quem recebe esse diagnóstico. Alguns comportamentos mais frequentes observados nesses casos são: medo de sair para longe de casa e passar mal na rua, deixar de frequentar determinados locais que podem ser fechados, abertos demais ou com grande número de pessoas, temer ônibus lotado, metrô e avião, entre outros. Sendo assim, todos esses comportamentos desproporcionais, muitas vezes infundados e restritivos, acabam comprometendo também os relacionamentos sociais e familiares.

No transtorno do pânico a ansiedade e o medo costumam ser os principais sintomas, quase sempre acompanhados por outras manifestações físicas, como: angústia, desconforto, tremor, suor, palpitação e nervosismo. Todos os seres humanos sentem medo e ansiedade em determinadas situações, mas, quando esses sentimentos adquirem uma proporção muito elevada trazendo sintomas desagradáveis, sofrimento e prejuízos para a qualidade de vida, o indicado é uma avaliação médica e psicológica para a realização de um tratamento.

A ansiedade vem antes do medo e é um estado desconfortável que provoca uma inquietação interna que surge quando estamos perto de viver novamente uma situação que queremos evitar ou quando nos deparamos com um objeto ou animal que nos causa medo (elevador, andar de avião, baratas, etc.). A ansiedade e o medo são necessários para nos proteger e salvar as nossas vidas, caso contrário, atravessaríamos a rua sem olhar para os lados e poderíamos morrer, ou ainda, frequentaríamos sem temer locais perigosos.

Uma coisa é sentirmos ansiedade e medo frente a um perigo real (um assaltante, um penhasco ou uma rua escura à noite), outra é sentirmos um medo inexplicável em locais onde não deveríamos normalmente sentir (num shopping, no cinema, num parque). Nesses casos, podemos dizer que o sujeito desenvolveu o Transtorno do Pânico que precisa ser investigado para receber o tratamento adequado. Nesse caso, o indivíduo faz uma interpretação errada da realidade, por exemplo: quando o coração dispara, ele começa a achar indevidamente que vai ter um ataque cardíaco, ou, quando tem uma alteração da respiração significativa, costuma interpretar como “vou sufocar e morrer”. Esses pensamentos distorcidos carregados de crenças negativas e de resultados catastróficos são característicos do transtorno do pânico. Em outras palavras, o transtorno acontece quando o sujeito passa a pensar de modo equivocado as próprias sensações físicas (coração disparado, suor, tremores, entre outros) relacionando com algo grave ou com a possibilidade de morrer. Todo o paciente com o diagnóstico de transtorno do pânico deve descartar sempre as possibilidades clínicas reais, deve procurar um médico, fazer exames e avaliações periódicas para que possa ficar certo de que as sensações físicas e os sintomas presentes são provenientes de um quadro emocional.

ATAQUES DE PÂNICO E MECANISMO DE “FUGA E LUTA”

Nos casos de transtorno do pânico, é comum que ocorram os ataques de pânico que são crises súbitas e momentâneas com uma ansiedade altíssima onde o sujeito não consegue explicar por que aquilo está acontecendo, nem como começou ou de onde veio. O início do ataque de pânico é de repente e a duração é de cerca de 10 a 30 minutos. As crises podem ser frequentes, inclusive diárias, em qualquer lugar ou situação e sem motivo aparente. Essa imprevisibilidade traz bastante preocupação quanto ao próximo ataque, sendo assim, a pessoa sofre por antecipação (ansiedade antecipatória) na expectativa de passar mal e novamente vivenciar os sintomas indesejáveis. Nesses casos, os que saírem tal problema começam a ter o “medo de sentir medo”, essas reações exageradas e desproporcionais são características frequentes e sempre presentes no transtorno do pânico.

Nos ataques de pânico surgem sintomas físicos como: alterações da respiração falta de ar, nó na garganta, o coração dispara, vem o medo de morrer, de perder o controle e de “enlouquecer”. Algumas pessoas acham que os sintomas e sensações vieram “do nada”, e como não sabem explicar, entram em pânico achando que estão passando mal devido a algo mais grave. Não percebem que os sintomas e sensações emergentes não são resultado de nenhuma doença grave, e sim, do mecanismo biológico conhecido como “luta e fuga”. Esse mecanismo nasce com todos nós e é responsável por nos preparar para enfrentar os perigos. Por exemplo, se um leão surgisse na nossa frente, o mecanismo de luta e fuga nos prepararia para enfrentarmos ou fugirmos da fera com o objetivo de preservar nossa vida. Seria uma reação automática do corpo independentemente da nossa vontade e que viria para nos salvar. Neste momento recebemos uma descarga de adrenalina, as pupilas dilatam, o coração bate mais rápido, os músculos se ativam, entre outros, para favorecer a fuga ou a luta. Quando essas reações físicas naturais surgem de modo inesperado e não são reconhecidas como normais provenientes deste mecanismo, são confundidas com os sintomas que também são parecidos com os de alguma doença e o sujeito entra em pânico.

No transtorno do pânico, é comum o indivíduo começar a evitar locais ou situações onde se sentiu mal por temer sentir novamente aquelas mesmas sensações desagradáveis. Acaba associando e condicionando o medo a um objeto, local ou situação específica mesmo que não representem ameaça alguma.

DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO

O diagnóstico deve ser sempre realizado por um psiquiatra cuja conduta pode consistir na prescrição de medicamentos e encaminhamento para uma avaliação psicológica. De acordo com a literatura científica, o tratamento bem indicado para o Transtorno do Pânico é o uso de medicamentos associados à terapia cognitivo-comportamental (TCC). Trata-se de uma terapia breve que além de esclarecer os conceitos e mecanismos da doença, também trabalha com técnicas especificas que auxiliam na redução dos sintomas e no entendimento e modificação das crenças negativas que levam as interpretações equivocadas. Nesse tipo de psicoterapia, são frequentes os exercícios de respiração, relaxamento, exposições às próprias sensações e exposições a locais ou situações temidas. O tratamento farmacológico tem como objetivo principal a eliminação dos ataques de pânico e o controle da ansiedade e do medo. Diferentes classes de medicamentos podem ser utilizadas no tratamento do transtorno do pânico, entre elas, os benzodiazepínicos e os antidepressivos.

O importante é que o indivíduo procure o tratamento adequado para o transtorno do pânico ao menor sintoma. Lembrem-se: “O medo atribui a pequenas coisas grandes sombras” (provérbio sueco).

OUTROS OLHARES

BRASIL OBESO

Rotulagem de alimentos é próxima arma para deter sobrepeso no país

Tempo demais no transporte público, menor disponibilidade de produtos in natura e ausência de locais públicos e seguros para prática de atividades físicas têm criado no Brasil o “ambiente obesogênico” (que contribui para o aumento de peso) perfeito, afirmam especialistas. E o resultado pode ser constatado em números como os da mais recente pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, que aponta sobrepeso em mais da metade da população brasileira adulta.

Os dados consolidados do levantamento esquadrinham o perfil dos habitantes das 26 capitais e do Distrito Federal em 2021. Nesse grupo, 57,2% das pessoas apresentaram excesso de peso sendo 22,4% com obesidade. Asmaiores taxas de sobrepeso foram registradas em Porto Velho (64,4%), Manaus (63;1%), Porto Alegre (62,1%), Belém (61,2%) e Rio Branco (60,35%).

Mais que um retrato momentâneo, os dados reforçam uma tendência. Desde 2006, em média 360 mil pessoas acima de 18 anos engrossaram as taxas de excesso de peso a cada ano. Dessas, 234 mil tornaram-se obesas – com índice de Massa Corpórea (IMC) acima de 30.

Rafael Claro, especialista em nutrição em saúde pública e consultor do Ministério da Saúde para o projeto Vigitel, ressalta que em 13 dos 16 anos da pesquisa houve aumento das taxas da população adulta com excesso de peso. Em três, estabilidade.

Uma das chaves para a reversão desse quadro, segundo os especialistas, é estimular uma alimentação à base de frutas, verduras e vegetais. Para a pesquisadora Letícia Cardoso, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, são necessárias políticas que facilitem a escolha de itens saudáveis e desestimulem o consumo de produtos inadequados.

“É possível aumentar a taxação dos produtos ultra- processados e dar publicidade aos malefícios que causam, como ocorreu com o cigarro”, diz ela.

RÓTULOS CLAROS

Chega às prateleiras em outubro a iniciativa mais concreta nessa direção. Com a nova rotulagem aprovada no país, as embalagens de alimentos passarão a ter, na parte frontal, alertas claros sobre altos teores de açúcar, sódio ou gordura saturada – ou uma combinação deles. Os três são os principais vilões da dieta saudável.

Para os especialistas, a medida, aprovada em 2020 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ajuda a retirar a obesidade da lista de dilemas individuais.

“Não são razões individuais que explicam o aumento da obesidade. O sistema alimentar é adoecedor”, afirma Inês Rugani, do Grupo Temático Alimentação e Nutrição da Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

Segundo Claro, há ainda um novo complicador no incentivo à dieta saudável. No Brasil, os alimentos ultra­ processados estão cada vez mais baratos, enquanto os in natura encarecem.

Desde os anos 2000, os preços dos alimentos ultra- processados caíram sucessivamente. Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, com a participação de Claro, mostrou que a cesta de alimentos saudáveis custava em 1995, o equivalente a 53,08% do preço do grupo de ultra processados. Em 2017, o percentual subiu para 70%.

A previsão era que os ultra processados se tornassem mais baratos do que os in natura em 2026. Nos últimos dois anos, a inflação e sucessivos eventos climáticos – geada, seca e chuvas em excesso – aceleraram o processo. Enquanto a indústria alimentícia barateia custos, médios e pequenos produtores de verduras, frutas, legumes, arroz e feijão – alimentos saudáveis da dieta brasileira – são impactados pelas mudanças climáticas e pelo aumento de preços, como combustível e frete.

Enquanto a preço de um pacote de macarrão instantâneo varia de R$ 1 a R$ 2,50, em São Paulo, um pé de alface custa hoje entre R$ 3 e R$ 10 em feiras da capital.

Quatro das cinco capitais com maior excesso de peso estão na região Norte, onde o consumo de frutas e hortaliças fica bem abaixo da média brasileira. Segundo o IBGE, enquanto o consumo per capita de hortaliças no país é de 23,7 kg por ano, na Região Norte, é de apenas 1,6 kg. O consumo de frutas é de 13,8 kg, metade da média nacional.

EXEMPLO DO MÉXICO

A Organização Mundial de Saúde (OMS) lista a obesidade entre os cinco maiores riscos para a mortalidade no mundo. A doença, crônica, costuma vir acompanhada de outras, como diabetes tipo 2 e hipertensão, aumentando o risco para doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer e quadros de depressão e ansiedade.

Daniela Canella, pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da Universidade de São Paulo, diz que a mudança nos rótulos é positiva, mas insuficiente. Ela cita como exemplo o México. Segundo dados publicados pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) em 2013, o país passou a taxar alimentos e bebidas com alto teor de açúcar. O preço das bebidas subiu 10%. No primeiro ano, a venda diminuiu 5,5%. No segundo, 9.7%. O consumo de água cresceu 15% no período. Estudos estimam que 18.900 mortes serão evitadas até 2022.

GESTÃO E CARREIRA

PLATAFORMAS CRIAM SITES PARA CASAMENTOS E FATURAM ALTO

Casais em busca de registro digital de matrimônio tornam-se clientes potenciais de empresas que cuidam da lista de presentes à viagem de lua de mel

Plataformas responsáveis pela criação de sites personalizados para casais que curtem registrar os melhores momentos de seus casamentos estão se sofisticando e buscando nova modelagem de negócio. Em vez de só faturar com a postagem, as empresas vêm percebendo oportunidades de lucrar com outros serviços prestados aos noivos. A diversidade é enorme, e o faturamento também costuma acompanhar a gama de atividades envolvidas nos matrimônios.

A viagem de lua de mel sempre foi um dos filões da agência Clube Turismo, uma das maiores do país, e esse produto ganhou uma maior atenção por parte da empresa. A ideia no início era disponibilizar um site personalizado para os casais que compravam os pacotes, mas, com o tempo, o serviço se sofisticou e foi criado o Clube dos Noivos, em que os clientes registram suas histórias, informam sobre a cerimônia e divulgam a lista de presentes.

“No formato original, os noivos apenas inseriam no convite de casamento a informação de que a lista de presentes estava na Clube Turismo. Com a modernização do produto, o convidado pode presentear os noivos sem precisar sair de casa”, explica a CEO Ana Virgínia Falcão.

A empresa cobra uma taxa de R$ 45pela hospedagem do site do casal, e os amigos e parentes podem bancar a viagem de lua de mel, o que acaba alavancando as vendas de pacotes para a agência. O foco são clientes que não priorizam a montagem do novo lar, mas, os momentos que viverão após o matrimônio.

A FestaLab também mirou na tradicional festa de casamento para criar serviços inovadores. A startup é especializada em organização de listas de festas e acabou encontrando grande demanda para casamentos. Hoje, já faz cerca de dez mil convites para uniões matrimoniais por mês. Entre as novidades está a possibilidade de confirmação de presença via WhatsApp, o que é facilita em muito a organização da festa.

A startup é responsável pela plataforma Joliz, que consolida em um só lugar lista de presentes, site de casamento, convite e conteúdo para a organização da festa. Atualmente, disponibiliza para os clientes a possibilidade de receberpresentes em produtos e em dinheiro. Os casais também podem montar sites personalizados, sem taxa mensal de manutenção, e fazer o convite com a mesma identidade visual.

Grande parte do faturamento vem da taxa cobrada, entre 2,49% e 3,69% do que é presenteado aos noivos, mas os responsáveis afirmam que a facilidade para convidados e a transparência de todo o negócio compensam o pagamento. Pedidos especiais também podem ser atendidos mediante a cobrança de uma taxa proporcional, que pode chegar a R$ 2 mil.

“Depois de muito esforço, estamos conseguindo ser uma solução 100% transparente para convidados e noivos, e não uma enganação para os convidados que querem presentear a casa dos noivos com produtos que trarão lembranças quando usados. Trabalhamos fortemente isso no último ano, e o desafio era ter um portfólio de produtos que possibilitasse fazer essa mudança”, afirma Erik Santana, fundador e CEO da FestLab.

ASSISTENTE VIRTUAL

A Zankyou nasceu na Espanha da ideia de um casal que apenas queria organizar a lista de presentes para selar sua união. Hoje, já atua em 23 países, e tem esse serviço como carro­ chefe, mas oferece opções de vários atendimentos que intermedeia. A taxa cobrada é de 3,75% sobre o que é contratado de fornecedores selecionados.

A empresa tem um aplicativo que ajuda os noivos a organizar todas as etapas do casamento, até o controle de gastos. Há também uma assistente virtual para ajudar na organização da festa e da cerimônia, além da montagem do site do casal, com histórias, fotos e tudo mais que for relevante.

Os assinantes de um pacote premium têm direito também a domínio próprio e personalizado, temas e layouts exclusivos, galeria de fotos PRO (organização inteligente), privacidade avançada e música de fundo, entre outros. Apesar da tecnologia empregada, a empresa garante que busca sempre dar atendimento personalizado e atender aos desejos dos clientes.

“Os mais de cem mil noivos cadastrados na plataforma fazem mais de 120 mil orçamentos por mês, usando nosso guia de fornecedores. E temos um sistema próprio que mede acessos, leads efechamentos e apresenta os resultados ao fornecedor que nos contratou e ao time que cuida do atendimento e do comercial da empresa”, conta Ana Luiza Mori, gerente de Marketing da Zankyou Brasil.

EU ACHO …

A VARIÁVEL NATUREZA HUMANA

A sua imperfectibilidade permanece como uma suspeita constante

Natureza humana é um daqueles conceitos de que todo mundo fala mal, mas que sempre acaba sendo operacional quando se quer refletir acerca de temas constantes na humanidade. Mesmo que a natureza humana seja histórica, a história parece se repetir ao seu bel-prazer.

Nó começo da pandemia de Covid, era comum ouvir jornalistas – os menos capazes – e marqueteiros – cegos pelo próprio exercício da profissão – levantarem a questão de se a humanidade não sairia melhor desse período. Agora já podemos ver o quão ridículo era essa hipótese. Dois neurônios são o suficiente para jamais considera-la a sério.

Na história dos movimentos revolucionários do século 19, a natureza humana funcionou como uma barreira para qualquer tentativa de negar sua existência.

Sei bem que a teoria marxista encontra no seu elegante conceito de práxis a hipótese segundo a qual a ação social transforma o homem. Aliás, o novo homem no qual os marxistas e soviéticos diziam crer vem daí. Não me parece que isso tenha ocorrido, pelo menos no espaço de quase 200 anos de prática social.

Claro que tais crentes podem argumentar que a verdadeira práxis jamais existiu de fato. Este argumento seria da mesma ordem da afirmação de certos cristãos de que o reino de Deus nunca veio a se concretizar porque o verdadeiro amor cristão nunca teve lugar no mundo.

Guardo comigo a suspeita de que movimentos como o anarquismo, pelo qual sempre alimentei uma secreta simpatia, fracassaram justamente pelo equívoco em relação à natureza humana. Esta nunca foi capaz de viver sem alguma tutela política que a resguardasse de sua própria vocação para a violência, a inveja, o rancor e o amor à burocracia

Mesmo que renunciemos ao conceito de natureza humana enquanto tal, autores como Tocqueville reconheciam que os diferentes e contraditórios fins que buscam os diferentes homens e grupos implicam um alto grau de persistência de uma inércia comportamental no homem que não parece ter mudado nas democracias até hoje – ou em qualquer outro sistema político.

A barreira à qual fiz referência acima é exatamente esta inércia da variável “natureza humana”. Esta variável, que tende a ser invariante – por incrível que pareça – , se manifesta por baixo e por cima de qualquer tese que pressuponha a eliminação deles.

Autores como Hegel (1870-1831) acreditavam que com o tempo a racionalidade do real acomodaria as imperfeições dessa natureza humana e que ao final, tudo daria certo – Marx (1818-1883) era filho dileto do Hegel.

A tese de Hegel, em que pesa a sofisticação alemã nela presente, acaba por parecer aquelas máximas de sabedoria otimista que afirmam que, se a coisas ainda não está bem, é porque ainda não chegamos ao fim da história.

Incrível como palestrantes motivacionais ainda não cooptaram o elegante filósofo para o seu menu de afirmações falsas, mas simpáticas – além de venderem muito bem, é claro.

Jó no século 21, John Kekes afirma que um grande impeditivo para a eliminação da natureza humana – ele prefere “condição humana” – como obstáculo à sua negação como fato dado é sermos atravessados por elementos contingentes, tais como herança genética, contexto histórico e geográfico, limites econômicos – ou a ausência deles – componentes psicológicos e cognitivos, que impactam nossa racionalidade limitada. Atravessamos a vida lidando com esses elementos que nos constituem e nos ultrapassam.

Enfim, parece haver uma forte dúvida cética com relação à capacidade humana de se aperfeiçoar no que tange ao seu horizonte moral. A imperfectibilidade da natureza humana permanece como uma suspeita que paira sobre todas as propostas de utopias ou de grandes transformações sociais.

O filósofo australiano John Passmore (1924-2004) escreveu uma brilhante obra histórico-filosófica, “A Perfectibilidade do Homem”, publicada no Brasil pela Topbooks, na coleção Liberty Classics, na qual ele persegue as várias teorias acerca da perfectibilidade humana.

Paro o autor, o embate entre as teorias que afirmam a perfectibilidade do homem ou seu contrário representam uma luta pela consciência da alma humana.

*** LUIZ FELIPE PONDÉ

ESTAR BEM

COMO O MAU USO DO CELULAR PODE DANIFICAR O CORPO

Dores são sinais de excessos e postura ruim. Especialistas dão dicas de como lidar com os smartphones de maneira adequada

Alguns anos atrás, minha melhor amiga escreveu para confessar que estava preocupada com o efeito das suas mensagens. Suas mãos e dedos doíam ao longo do dia, e a dor piorava quando ela usava o smartphone. Nossas mensagens de texto incessantes sobre paternidade e política poderiam ser a causa? Ainda não há muitas respostas sobre os efeitos que o uso de celulares pode ter no corpo.

“Não sabemos muito”, disse Jessica B. Schwartz, fisioterapeuta de Nova York e porta-voz da Associação Americana de Fisioterapia. Mas ela e os médicos com quem conversei disseram que estavam atendendo mais pacientes do que o comum com dor, além de doenças nas articulações e tecidos moles, como tendinite nos dedos, polegares, pulsos, cotovelos, pescoço, ombros e parte superior das costas… E os telefones celulares provavelmente estavam desempenhando um papel nisso.

Quando enviamos mensagens de texto para amigos ou navegamos na internet em nossos telefones, geralmente usamos nossos músculos e articulações de uma maneira que os sobrecarrega, disse Schwartz. Olhar para baixo em nossos celulares, assim como segurá-los em nossas mãos com os pulsos flexionados enquanto rolamos a barra ou enviamos mensagens de texto, exige que nossas articulações e músculo façam coisas para as quais não evoluíram: ficar na mesma posição por muito tempo, segurar muito peso e se mover repetidamente em uma pequena amplitude de movimento.

Essas posições e movimentos podem colocar “forças indevidas” nas articulações, músculos, tendões e ligamentos “que simplesmente não estão acostumados a serem mantidos nessa posição por tanto tempo”, explica Renee Enriquez, especialista em medicina física e reabilitação. Com o tempo, essas ações podem causar inflamação, levando à dor e outros problemas.

Nem todos os médicos estão cientes desses riscos. Quando minha amiga consultou seu clínico geral por causa da dor na mão, ela fez radiografia e exames de sangue, e foi informada de que não tinha artrite. Quando ela perguntou se seu smartphone poderia estar causando a dor, seu médico disse que era improvável. Ela então consultou outro médico, que descartou a síndrome do túnel do carpo e, finalmente, um ortopedista especialista em mãos, que riu e disse não quando ela perguntou – novamente – se seu telefone poderia estar incitando sua dor.

DORES SUSPEITAS

No entanto, Schwartz disse que os sintomas eram consistentes com tendinite – inflamação dos cordões grossos chamados tendões que unem o músculo ao osso – ou tenossinovite, inflamação do revestimento da bainha que envolve os tendões. Estudos associaram a tenossinovite do polegar, chamada tenossinovite de De Quervain, ao uso frequente ele smartphones. O uso do telefone também pode piorar os sintomas entre pessoas que já têm artrite.

Além de dores que podem resultar de inflamação em ligamentos, articulações, músculos e tendões, as pessoas podem sofrer lesões agudas usando smartphones. Jennifer Moriatis Wolf, cirurgiã-ortopédica de mãos da Universidade de Medicina de Chicago, disse ter visto pacientes que torceram os polegares porquê seguravam seus telefones com muita força.

O uso frequente do telefone também pode afetar nossos nervos. Quando seguramos nossos telefones a nossa frente com os cotovelos dobrados, comprimimos o nervo ulnar; que vai do pescoço à mão, essa constrição pode causar dormência e fraqueza nos dedos mindinho e anelar.

De maneira mais geral, quando qualquer músculo, tendão ou ligamento fica inflamado pelo uso do smartphone, ele pode inchar comprimindo os nervos que a atravessa e causa dor ou dormência, disse Enriquez. O uso de celulares também pode exacerbar problemas nervosos pré-existentes, como a síndrome do túnel do carpo. Depois, há a tensão que os smartphones podem causar em nossos olhos e a interrupção que a luz azul pode provocar em nossos ciclos de sono.

Além disso, considere o que acontece quando você se curva para olhar para o telefone: em comparação com manter a cabeça ereta, essa posição curvada aumenta a força nos músculos do pescoço e na coluna cervical, disse Jason M. Cuéllar, especialista em coluna ortopédica do Cedars-Sina, MedicaI Center em Los Angeles. Esse excesso de força, disse ele, pode enfraquecer os ligamentos da coluna vertebral ao longo do tempo e causar dor. Um estudo de 2017 encontrou uma ligação entre mensagens de texto e dores no pescoço, ombros e parte superior das costas embora outros estudos não tenham encontrado uma conexão.

As espinhas cervicais de alguns pacientes jovens que Cuéllar atende também estão dobradas de forma anormal. Isso também pode estar relacionado ao uso frequente de smartphones, disse ele, e pode aumentar o risco de problemas nas costas.

“Achamos que isso leva à degeneração acelerada do disco – alertou, referindo-se à deterioração dos discos espinhais, pequenos amortecedores que ficam entre as vértebras para nos ajudar a nos mover confortavelmente. “Estamos vendo mais pessoas mais jovens, na faixa dos 20 anos, geralmente 30 anos, com problemas na coluna cervical.

COMO DIMINUIR A TENSÃO

O que você deve fazer se o seu telefone estiver causando dor- ou se você estiver preocupado que isso possa eventualmente acontecer? Embora os médicos da minha amiga tenham desprezado a ideia de que seu telefone tivesse algo a ver com suas mãos doloridas, ela acabou se livrando de seu smartphone grande e comprou um menor para ver se isso ajudaria. Também começou a usar a opção de mensagem de voz para reduzir a tensão nos dedos. A dor logo se dissipou.

Schwartz concorda que reduzir o tamanho e peso do aparelho pode ser uma boa ideia se você tiver mãos pequenas, e que substituir a mensagem de texto por voz pode aliviar a dor reduzindo a tensão nos dedos. Ela e Enriquez recomendam suportes de telefone, que podem aliviar o esforçode segurar com dedos e polegares. Já Cuéllar disse que pode ser útil usar um suporte que mantenha o telefone na altura dos olhos, para que você não estique o pescoço para vê-lo.

Se você está sentindo muita dor, é uma boa ideia consultar um fisioterapeuta ou um médico, como um ortopedista ou um especialista em medicina física, pois eles podem recomendar tratamentos e alongamentos, disse Schwartz. Mas é claro que, se há dor, a solução mais simples é não usar tanto. Em outras palavras, disse Wolf, “o melhor conselho seria: desligue o telefone”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TRANSTORNO DE ANSIEDADE DE SEPARACÃO

Com o medo de se afastar dos familiares, crianças e adolescentes acabam perdendo oportunidades de contato social, como excursões, viagens e reuniões em casas de amigos. Isso pode prejudicar sua socialização, além de muitas vezes fazer com que se tornem alvos de gozação e até bullying.

Quem não sentiu medo ou aperto o coração quando se despediu da mãe ou do pai no primeiro dia de aula levante a mão! O medo que as crianças sentem ante a separação de figuras a que são muito ligadas afetivamente é extremamente comum no desenvolvimento infantil e geralmente passa quando elas começam a entender que os afastamentos dos pais não são definitivos e quando começam a ter mais autonomia. Alguns exemplos desse medo são “clássicos da paúra infantil”: bebê que chora ao ser retirado do colo da mãe ou crianças pré-escolares que choram no primeiro dia de aula. A professora do Colégio Miguel de Cervantes, no Morumbi, zona sul de São Paulo -SP, Gisele Damasceno, conta que nos seus mais de 20 anos de experiência com educação infantil, os primeiros dias de aula sempre são “marcados por muito ‘chororô’ de mães e filhos que sofrem com a dor da separação”.

A professora diz que apesar de estar acostumada com esse “sofrimento”, sabe que as mães (principalmente as de primeira viagem), precisam mostrar tranquilidade e firmeza para ter coragem de “delegar” as crias a mãos alheias. Quando as mães estão tranquilas transmitem este sentimento para os filhos. Gisele afirma ainda, que nos últimos dez anos sentiu que houve um aumento da ansiedade da separação, tanto nas mães como nos filhos, e acredita que isso se deve ao clima de violência e insegurança que vivemos.

“NÃO ME ABANDONES JAMAIS”

Seja como for, a ansiedade diante de fatos novos da vida de uma criança é inevitável e precisa ser incorporada à rotina familiar e enfrentada para ser superada. Mas, quando esse sentimento atinge níveis exacerbados, que perturbam a rotina da criança – ao ponto de ela apresentar sintomas físicos sem constatação clínica – e altera a dinâmica da família, pode se tratar de um Transtorno de Ansiedade de Separação.

Este transtorno, segundo o artigo Transtornos de ansiedade,de Ana Regina GL Castillo, Rogéria Recondo, Fernando R. Asbahr e Gisele G. Manfro, publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria, “é caracterizado por ansiedade excessiva em relação ao afastamento dos pais ou seus substitutos, não adequada ao nível de desenvolvimento, que persiste por, no mínimo, quatro semanas, causando sofrimento intenso e prejuízos significativos em diferentes áreas da vida da criança ou do adolescente. (…) Estudos retrospectivos sugerem que a presença de ansiedade de separação na infância é um fator de risco para o desenvolvimento de diversos transtornos de ansiedade, entre eles, o transtorno de pânico e de humor na vida adulta”.

Quando estão sozinhos, crianças ou adolescentes temem que algo possa acontecer com eles ou seus cuidadores, “como acidentes, sequestro, assaltos ou doenças, que os afastem definitivamente destes”, explicam os autores. O resultado é um comportamento “de apego excessivo aos seus cuidadores, não permitindo o afastamento deles ou telefonando repetidamente para eles a fim de tranquilizar-se a respeito de suas fantasias”, acrescentam. Para dormir necessitam de companhia e resistem ao sono, que para eles representa separação ou perda de controle. Pesadelos relacionados aos seus temores de separação são frequentes e recusa escolar também é comum nesses pacientes. “A criança deseja frequentar a escola, demonstra boa adaptação prévia, mas apresenta intenso sofrimento quando necessita afastar-se de casa.”

Quando a criança percebe que seus pais vão se ausentar ou o afastamento realmente ocorre, manifestações somáticas de ansiedade, tais como dor abdominal, dor de cabeça, náusea e vômitos são comuns. Crianças maiores e adolescentes podem manifestar sintomas cardiovasculares como palpitações, tontura e sensação de desmaio. A propósito, embora os adolescentes com este transtorno, principalmente os do sexo masculino, muitas vezes neguem que sua ansiedade se deve ao temor da separação, esta pode se refletir por sua limitada atividade independente e relutância em sair de casa. Em indivíduos mais velhos, o transtorno pode limitar-se a capacidade de lidar com alterações nas circunstancias de vida, como mudança de domicilio e casamento.

Especialistas afirmam que a causa dos transtornos ansiosos infantis é muitas vezes desconhecida e provavelmente multifatorial, incluindo fatores hereditários e ambientais diversos. De uma maneira geral, segundo os autores, “os transtornos ansiosos na infância e na adolescência apresentam um curso crônico, embora flutuante ou episódico, se não tratados”. Por isso, orientam que “na avaliação e no planejamento terapêutico desses transtornos, é fundamental obter uma história detalhada sobre o início dos sintomas, possíveis fatores desencadeantes (por exemplo: crise conjugal, perda por morte ou separação, doença na família e nascimento de irmãos) e o desenvolvimento da criança”. É importante também, conforme sugerem, levar em conta o temperamento da criança, o tipo de apego que ela tem com seus pais, o estilo de cuidados paternos, e se há presença de comorbidades.

De modo geral, o tratamento é multimodal, ou seja, constituído por várias abordagens simultâneas como orientação aos pais e à criança, terapia cognitivo-comportamental, psicoterapia dinâmica e uso de medicação específica, se necessário.

ENCONTRANDO SAÍDAS

Segundo a psicóloga Juliana Brito Lima no artigo Mãe fique comigo Ansiedade de separação na infância (www.inpaonline.com.br), “Com o medo de afastar-se dos familiares, crianças e adolescentes muitas vezes perdem oportunidades de contato social, como excursões, viagens e reuniões em casas de amigos. Tal comportamento, pode prejudicar a socialização com o grupo”, além de muitas vezes fazer com que se tornem alvos de gozação e até bullying. Além disso, a ansiedade também pode perturbar a rotina de trabalho dos pais, que costumam receber inúmeros telefonemas dos filhos para saber onde estão e solicitando que estes corram para “salvá-los”.

A professora de Educação Física aposentada e dona de casa Anamaria conta que nunca levou a filha para fazer qualquer avaliação, mas teve vários problemas com a ansiedade de separação dela: “quando entrou na escola, eu era chamada todos os dias para buscá-la; um dia era dor de barriga, outro dia, dor de cabeça… Chegando em casa, ela ficava ótima. Resolvemos mudar a escola, e a colocamos na mesma escola do meu filho, onde acreditamos que se sentiria mais segura com a proximidade do irmão. Aos poucos, entre umas “choradas”, umas “duras” minhas e do pai, ela engrenou. Mas quase nunca participava de passeios da escola e raramente ia à casa de amigas. E se ia, ligava para eu buscar mais cedo. As amigas deviam ficar bem decepcionadas e sem entender nada. Geralmente não repetiam o convite. Em uma viagem da escola tivemos que buscá-la no dia seguinte. Não sei se fomos pais descuidados ou pouco sensíveis por não procurar ajuda profissional – meu marido era médico e super refratário a tratamentos psicológicos -, mas, apesar de ficarmos preocupados, fomos como se diz “levando”.

Anamaria acredita que o esporte foi decisivo para ajudar a filha a conquistar autonomia ao contar que, “apesar de super apegada a mim, ela fazia aulas de vôlei (eu tinha que ficar assistindo à maioria das vezes). Como ela tinha muita aptidão técnica, acabou se saindo bem na modalidade e conseguiu lugar no time do clube que disputa torneios. Isso contribuiu muito para sua autoestima e conquista de autonomia. Acho que o foco em treinar, dar conta da escola, competir, crescer enfim, foi ‘roubando’ espaços que o medo e a insegurança preenchiam antes. Acredito que o esporte foi um grande ‘terapeuta’ para minha filha. Hoje ainda somos ‘super grudadas’, mas a relação agora é de companheirismo e interdependência; ela casou, tem o filho dela… ainda bem!”

Com efeito, segundo Lima, no artigo já citado comportamentos, por mais disfuncionais que pareçam, podem ser alimentados ou fortalecidos pela família. No caso da ansiedade, tendemos a fugir ou evitar o contato com os estímulos que causam temor. É muito comum os pais serem “contagiados” pelos medos dos filhos ansiosos e desejarem ficar com eles para protegê-los e acalentá-los, deixando de fazer suas coisas e permitindo aos filhos se esquivar de responsabilidades como a escola ou de se exporem a situações sociais.

Por isso, Lima dá uma série de recomendações para os pais (e cuidadores) prevenirem esse transtorno, como: dizer para onde irão e quando devem retornar, mas com uma certa “margem de erro para mais”, a fim de evitar os atrasos em virtude dos imprevistos; jamais sair sem avisar; fazer da despedida algo natural valorizando o que vai acontecer de bom nesse meio-tempo e evitar o drástico “não me ligue!”; em momentos (não raros) de irritação, jamais fazer ameaças como “essa sua atitude me dá vontade de sumir!”; eliminar estímulos ambientais que possam remeter aos perigos sociais, como assistir a jornais diante dos filhos, supervisionar o que estes estão vendo na internet e os assuntos das rodas de antigos; cuidar da segurança, mas sem apavorar os filhos. Em vez de “ligue a cerca elétrica, pois bandidos não escolhem a hora de assaltar as casas”, o melhor é dizer um simples “ligue a cerca elétrica”; incentivar o brincar, o contato com os colegas e o lazer. Segundo Lima, quando estão em um contexto com estímulos satisfatórios, essas situações concorrem com as preocupações, fazendo com que o medo fique em segundo plano. A psicóloga também destaca que é importante jamais afirmar, diante do medo da criança ou adolescente, a sua invulnerabilidade (doença, morte ou acidentes), mas mudar o foco, apontando as evidências que não favorecem o perigo. “O risco é inerente à vida. O ser humano é vulnerável e a vida é finita. Mas tais preocupações na infância ou na adolescência acabam reduzindo o brilho da vida que se vê com mais clareza apenas nesta fase da vida.” Para evitar que essa ansiedade prejudique a adaptação da criança no ambiente ou evolua para outro transtorno de ansiedade (como transtorno de pânico ou de ansiedade generalizada), “procure um profissional de sua confiança”, orienta a psicóloga Juliana Brito Lima.