OUTROS OLHARES

A DOR DO DESCRÉDITO

Movimento inédito alerta as mulheres sobre o gaslighting médico contra a população feminina, abuso caracterizado por desprezo ou subvalorizarão de sintomas relatados pelas pacientes que pode resultar em sérios riscos

No subtítulo de seu livro Ali That Summer She Was Mad: Virginia Woolf, Female Victim Of Male Medicine, publicado em 1981, o escritor americano Stephen Trombley expôs pela primeira vez um dos motivos que levaram ao trágico fim da brilhante escritora britânica Virgínia Woolf (1882-1941). Dona de sensibilidade e talento excepcionais, Virgínia enfrentou durante a vida uma dura batalha contra a depressão, doença psiquiátrica das mais graves e predominante entre o gênero feminino. Tachada de louca por médicos, todos homens, e sem receber tratamento, a romancista cometeu suicídio na manhã de 28 de março de 1941, afogando-se no Rio Ouse, em North Yorkshire, onde morava, na Inglaterra. Oitenta e um anos separam as histórias de Virgínia e Dana, a empresária da foto acima, que demorou para ser diagnosticada com um distúrbio que afeta a produção de colágeno. Diziam ser coisa de sua cabeça. A uni-las está o abuso do qual as mulheres são vítimas há séculos, caracterizado pelo sistemático descrédito por parte de profissionais da saúde que desconsideram ou subestimam seus sintomas.

Quando Virgínia Woolf morreu, não havia nome para arbitrariedades assim. Faltavam três anos para o lançamento do filme que inspirou a designação do termo que passou a defini-las: gaslighting, ou manipulação, em português. Em Gaslight, de 1944, um marido tenta convencer sua mulher de que ela está louca porque pretende se apossar de joias recebidas pela esposa como herança. A estratégia é operar a iluminação da casa, com permanente acender-apagar de luzes, e insistir que apenas ela enxerga as oscilações. A mulher quase acredita que perdeu a sanidade, mas obtém ajuda e desmascara o patife. Hoje, a denominação determina um tipo de abuso qualificado pelo manejo psicológico da vítima de forma a levá-la a desconfiar de suas percepções, lembranças, e, em casos extremos, da própria higidez mental.

O conceito é mais conhecido por designar situações que acontecem nos ambientes domésticos ou de trabalho, mas começa a ser aplicado para intimidações feitas dentro dos centros de saúde contra as mulheres. Elas são numerosas e cotidianas. É difícil encontrar pacientes que nunca tenham sido questionadas à exaustão sobre suas queixas ou, pior, tê-las ignoradas ou subvalorizadas por médicos e médicas. É com facilidade irritante que demasiadas vezes a paciente descreve ao profissional os desconfortos que sente e ouve em seguida três frases: “você está estressada”, “isso é psicológico” ou “a dor que sente é normal”. Não é. E nenhuma informação de saúde deve ser desconsiderada, muito menos por vir de uma mulher. Exatamente por isso ganha força nos Estados Unidos a primeira mobilização contra o gaslighting médico cometido com a população feminina. Organizado por vítimas do abuso, o movimento acontece nas redes sociais com a disseminação de hashtags sobre o tema.

A divulgação do assunto nas redes sociais repercute de tal maneira que já é possível traçar um padrão de como se dá a violência, calcado principalmente na classificação dos sintomas como resultado de perguntas que dificilmente podem ser rebatidas. O coração dispara? Estresse, condição que atinge praticamente todos. É motivo para sentir taquicardia? Sim. É a razão para todo o batimento cardíaco desordenado? Obvio que não. Pode ser apenas a resposta mais simples.

As raízes da atitude são históricas. Durante milênios, as mulheres foram consideradas seres cuja mente, corpo e fluidos seriam regidos por fenômenos sobre naturais, não tendo conexão alguma com a fisiologia. A medicina demorou a enxergar o organismo feminino pelo mesmo prisma científico adotado no estudo e cuidado com o corpo masculino. Uma falha que só mais recentemente começou a ser discutida na academia. É da semana passada um dos primeiros artigos a descer mais fundo na questão. Ele é de autoria de pesquisadores das universidades de Amsterdã, na Holanda, e de Stanford, dos Estados Unidos, e foi publicado no The New England Journal of Medicine. Emblematicamente, o texto traz uma frase de Virgínia Woolf: “A ciência, ao que parece, não é assexuada. Ela é um home nu”. Na análise, os estudiosos elencam a participação tardia das mulheres na carreira médica entre as causas do tratamento preconceituoso dispensado a elas – nos Estados Unidos, por exemplo, a primeira a se formar em medicina foi Elizabeth Blackwell, em 1949.

Esse conjunto de distorções gerou uma discriminação tão encruada na sociedade que até as próprias mulheres têm dificuldade em identificar a agressão ou, instintivamente, preferem recusar socorro a passar por insinuações constrangedoras. Conhecedora dos bastidores dos serviços de emergência, a pediatra Márcia Gondim, de 66 anos, foi uma das que optaram pelo segundo caminho quando, em 2010, acordou pálida, suando e sentindo os ombros pesados. Mesmo depois de desmaiar, dizia ao marido, cardiologista, que estava bem. “Achei que passaria vergonha. Quando uma mulher chega ao hospital apresentando os mesmos sintomas que eu tinha naquele momento, acham que é DNV’, conta, referindo­ se à sigla de distúrbio neuro psicogênico, condição de pacientes que simulam crises ou manifestam alterações associadas ao estresse. No jargão médico, um piripaque. Márcia não tinha DNV. Estava tendo um infarto.

O caso ilustra claramente a gravidade das consequências do gaslighting médico contra as mulheres. Pesquisas mostram que elas vão de receber menos indicação para analgésicos à exposição da população feminina a maior risco de morrer em uma emergência cardíaca em comparação aos homens. Um dos dados recentes a comprovar isso é fruto de um estudo da pesquisadora Sarah Holle, da Universidade de Copenhague, na Dinamarca. Depois de analisar a sobrevida de infartados que sofreram choque cardiogênico – o coração deixa de bombear o sangue – ela verificou que 50% dos homens estavam vivos após um mês. Entre as mulheres, somente 38%. “É preciso ensinar os profissionais de saúde com urgência a identificar e tratar eventos cardíacos em mulheres”, disse Sarah.

A medida é uma entre as tantas que se fazem necessárias para mudar a mentalidade médica. Adas mulheres está em curso, como mostra a mobilização feita pelas americanas, demonstração de mais um avanço nas transformações que aos poucos garantem voz às mulheres. Ao alertar sobre o abuso, o movimento dá o primeiro passo de uma revolução que, espera­ se, contribua para a igualdade também no alívio da dor feminina.

GESTÃO E CARREIRA

EDUCAÇÃO FINANCEIRA ENTRA NO FOCO DO RH

Empresas como Mobly e Hotel Urbano oferecem a funcionários serviços de previdência e consultoria em finanças

A valorização do bem-estar físico e mental dos empregados tem feito cada vez mais parte da estratégia de atração e retenção de talentos dentro das empresas. Mas do que adianta promover jornadas de trabalho mais flexíveis se os colaboradores passam noites sem dormir pensando nas dívidas? Em dezembro de 2021, o número de famílias que relataram estar endividadas, atingiu 76,3% no Brasil, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. Assim, à medida que as empresas investem em ambientes mais saudáveis e flexíveis, a busca pelo bem-estar financeiro dos colaboradores também passou a ser uma demanda das áreas de recursos humanos, integrando o programa de benefícios de empresas como Mobly e Hotel Urbano. “Internamente, a gente sempre conversou sobre saúde financeira, mas percebíamos que só a informação não era o suficiente”, conta Lívia Callejas, diretora de gente e gestão na Mobly.

Nos primeiros meses de 2020, diz ela, a empresa recebeu uma proposta da Onze, fintech focada em previdência e saúde financeira. Após meses de análise e pesquisas com os colaboradores, o benefício começou a circular na organização e hoje conta com a participação de 40% dos funcionários. Com a Onze, os colaboradores podem contratar a previdência privada, que inclui um valor também depositado pela empresa mensalmente, etêm acesso a um aplicativo no qual conseguem tirar dúvidas sobre previdência e saúde financeira, incluindo consultoria gratuita com planejadores financeiros especializados e acesso a uma plataforma de aprendizado.

“Quando a gente tem um parceiro com credibilidade, o funcionário consegue soluções mais assertivas e tem muito mais liberdade para discutir temas que, muitas vezes, ele não quer que a empresa saiba”, explica Lívia.

Jaqueline Souza, analista de treinamento do Hotel Urbano (Hurb), conta que, ao observar que o estresse financeiro entre os colaboradores só aumentava desde o início da pandemia, a busca por recursos que auxiliassem na organização financeira começou a fazer parte da estratégia de benefícios do Hurb. O objetivo, segundo Jaqueline, não era só oferecer serviços mais práticos (como adiantamento de décimo terceiro), mas também ter algo voltado para a educação e o planejamento dos funcionários.

“A gente viu que o endividamento também acabava impactando na produtividade. A pessoa acabava ocupando parte do tempo dela preocupada sobre como alocar recursos para pagar as dívidas, por exemplo”, explica. Em março deste ano, o Hurb iniciou a parceria com a Pilla, startup que oferece, em conjunto com o RH das empresas, soluções financeiras para os trabalhadores.

A partir de um aplicativo, os colaboradores podem acompanhar sua vida financeira e ter consultorias com especialistas. A Pilla oferece serviços que incluem a avaliação da situação financeira, criação de planejamento e adiantamento de salário em casos de urgência. Do outro lado, a empresa tem acesso a uma série de relatórios com informações gerais sobre a porcentagem de endividados e quantos colaboradores têm uma reserva de emergência, sempre preservando a privacidade dos casos.

“A partir de uma ajuda externa, que não tenha uma relação tão direta com o RH da empresa, as pessoas ficam mais confortáveis para conversar (sobre finanças) e se abrir de verdade”, diz Henrique Soares, CEO e cofundador da Pilla.

Para Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin), falar sobre educação financeira é tratar de mudança de comportamento e por isso demanda tempo e informações confiáveis, para se romper uma série de vícios. ”Não se educa ninguém financeiramente apenas com ações pontuais, é um processo longo e árduo”, afirma.

EU ACHO …

UMA ORAÇÃO PARA OS NOVOS TEMPOS

Que honremos o fato de ter nascido, e que saibamos desde cedo que não basta rezar um Pai-nosso para quitar as falhas que cometemos diariamente. Essa é uma forma preguiçosa de ser bom. O sagrado está em nossa essência e se manifesta em nossos atos de boa-fé e generosidade, frutos de uma percepção profunda do universo, e não de ocasião. Se não estamos focados no bem, nossa aclamada religiosidade perde o sentido.

Que se perceba que, quando estamos dançando, festejando, namorando, brindando, abraçando, sorrindo e fazendo graça, estamos homenageando a vida, e não a maculando. Que sejam muitos esses momentos de comemoração e alegria compartilhados, pois atraem a melhor das energias. Sentir-se alegre não deveria causar desconfiança, o espírito leve só enriquece o ser humano, pois é condição primordial para fazer feliz a quem nos rodeia.

Que estejamos sempre abertos, se não escancaradamente, ao menos de forma a possibilitar uma entrada de luz pelas frestas. Que nunca estejamos lacrados para receber o que a vida traz. Novidade não é sinônimo de invasão, deturpação ou violência. Acreditemos que o novo é elemento de reflexão: merece ser avaliado sem preconceito ou censura prévia.

Que tenhamos com a morte uma relação amistosa, já que ela não é apenas portadora de más notícias. Ela também ensina que não vale a pena se desgastar com pequenas coisas, pois no período de mais alguns anos estaremos todos com o destino sacramentado, invariavelmente. Perder tempo com picuinhas é só isso, perder tempo.

Que valorizemos nossos amigos mais íntimos, as verdadeiras relações pra sempre.

Que sejamos bem-humorados, porque o humor revela consciência da nossa insignificância – os que não sabem brincar se consideram superiores, porém não conquistam o respeito alheio que tanto almejam.

Que o mar esteja sempre azul, que o céu seja farto de estrelas, que o vinho nunca seja racionado, que o amor seja respeitado em todas as suas formas, que nossos sentimentos não sejam em vão, que saibamos apreciar o belo, que percebamos o ridículo das ideias estanques e inflexíveis, que leiamos muitos livros, que escutemos muita música, que amemos de corpo e alma, que sejamos mais práticos do que teóricos, mais fáceis do que difíceis, mais saudáveis do que neurastênicos, e que não tenhamos tanto medo da palavra felicidade, que designa apenas o conforto de estar onde se está, de ser o que se é e de não ter medo, já que o medo infecciona a mente.

Que nosso Deus, seja qual for, não nos condene, não nos exija penitências, seja um amigo para todas as horas, sem subtrair nossa inteligência, nosso prazer e nossa entrega às emoções que nos fazem sentir plenos.

A vida é um presente, e desfrutá-la com leveza, inteligência e tolerância é a melhor forma de agradecer – aliás, a única.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

SIM, VOCÊ MERECE SE DAR UM PEQUENO AGRADO DE VEZ EM QUANDO

 Dois anos após o início da pandemia, as pessoas estão lidando com grandes problemas existenciais, mas também reservando tempo para se dar recompensas

Sempre que Jules Zucker tem de realizar alguma tarefa, ela joga uma barra de chocolate Reese’s Fast Break em sua bolsa. “Estamos vivendo uma era em que a segurança e as ‘grandes alegrias’, se preferir, não estão garantidas”, ela disse. “Então, temos de recorrer aos pequenos confortos. É quase como o hedonismo de um homem pobre.” E acrescenta: “É sobre nos dar pequenas vitórias”.

Zucker, uma coordenadora musical de 26 anos que mora em Nova York, é uma das muitas pessoas que estão reimaginando suas vidas para incluir mais pequenos prazeres após dois anos de planos cancelados e expectativas reduzidas.

Tracy Llanera, de 35 anos, professora de filosofia da Universidade de Connecticut que estuda o niilismo, falou que essa atitude de buscar pequenos agrados é uma das maneiras pelas quais as pessoas estão recuperando parte da liberdade e estabilidade que foram perdidas desde o início de 2020. “Na pandemia de Covid, a falta de controle é o que confirma que você está sofrendo de niilismo existencial”, contou Llanera. Em meio a esses sentimentos de desamparo e sofrimento contínuos, ela lembrou, as pessoas tentam encontrar prazeres consistentes e confiáveis.

“Algo sobre a cultura do agrado é que você sempre vai recebê-los regularmente”, ela acrescentou. “Você pode pelo menos contar com isso. Há uma garantia de que esse pequeno ritual vai saciar algo em você.”

Os agrados não são um conceito novo, eles tiveram seu grande momento em 2011, quando a série Parks and Recreationpopularizou a frase ”Treat yo’ self” (algo como “se dê recompensas”) –  um ditado que acompanhava um dia anual de agrados para dois dos personagens – e apresentou a ideia à consciência coletiva.

Mas o “Dia de Se Dar Recompensas” é centrado no capitalismo. Como diz um personagem, trata-se de comprar roupas, perfumes, massagens, mimosas e artigos de couro fino.

TER OU FAZER

Embora a pandemia tenha alterado os gastos e hábitos de poupança, também encorajou as pessoas a redefinir o significado de um agrado com mais frequência e criatividade. Caminhadas diárias, por exemplo, tornaram-se um mecanismo de sobrevivência para quem não se deslocava mais para o escritório. Em janeiro, quando Zucker postou um tuíte sobre merecer agrados, mais de 250 mil pessoas concordaram com o sentimento.

O tuíte dizia: ”Eu, quando tenho um dia ruim: acho que mereço um pequeno agrado. Eu, quando tenho um dia bom: acho que mereço um pequeno agrado”. Mas, à medida que o tuite viralizou, Zucker teve receio de que as pessoas o interpretassem como um endosso do capitalismo.

“Esse tuíte foi postado por muitas marcas, o que eu achei meio chato”, ela admitiu. “Porque, em primeiro lugar, eles não me pagaram. E, em segundo lugar, eu pensei, ‘Não estou tentando ajudá-lo a vender produtos”. ‘E acrescentou: “Acho que um agrado pode ser algo que você faz por si mesmo, não apenas algo que você compra”.

Greyson Imm, estudante de 16 anos da área metropolitana de Kansas City, foi uma das centenas de pessoas que responderam ao tuíte de Zucker, escrevendo que “o complexo industrial ‘como um agrado…'” está arruinando seu orçamento e validando seu hábito de tomar chá gelado. “Tornou-se uma constante na minha vida, e é por isso que me expressei dizendo “o complexo industrial do agrado”‘, observou Imm. “Parece meio sério, mas é realmente, em essência, alegre e uma boa maneira de me animar ou comemorar algo bom.”

Essa mudança em direção à cultura do agrado significa que, fora das compras caras – e fora da indústria multibilionária de autocuidado – as pessoas estão encontrando pequenas e grandes maneiras de se alegrar a cada dia. Madison Butler, de 30 anos, vice-presidente de uma empresa de vidraria, revelou que a pandemia a encorajou a se satisfazer com agrados maiores. “Um agrado, para mim, nem sempre éum item caro. Às vezes é ‘eu quero rangum de caranguejo’ ou ‘eu vou caminhar uma hora e apenas me sentar à beira da água em paz'”, explicou.  “Mas sou uma grande defensora de que as mulheres negras merecem luxo.” Butler divide seu tempo entre Austin e Rhode Island, o que, segundo ela, faz parte dos agrados a si mesma. “O melhor agrado é estar em um lugar que seja bom para minha saúde mental.”

USE COM MODERAÇÃO

 Gretchen Rubin, de 56 anos, escritora e apresentadora de podcast que estuda felicidade e formação de hábitos, garantiu que os agrados sempre surgiram em seu trabalho, mas a pandemia deu a eles novo senso de urgência. “Muitas pessoas justificam assim: ‘Por conta de tudo o que está acontecendo; por conta do que foi exigido de mim; por conta de tudo o que não pude fazer; eu mereço um agrado.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NÃO CONSEGUE LARGAR O CELULAR? VOCÊ PODE TER NOMOFOBIA

Transtorno é caracterizado pelo medo irracional de ficar longe do aparelho

A relação da jornalista e locutora Ida Nunez, de 66 anos, com o celular é estreita. “É um item básico na minha vida. Trabalho com os dois juntos, além de dois computadores. Eu passo resumo de notícias, clipping, vejo todas as redes, faço os pagamentos e um celular é muito lento para mim. Enquanto coloco senha em um, no outro já vou levantando e-mail, vou deletando, colocando os dois computadores para funcionar, então, trabalho com os quatro juntos para poder ganhar tempo”, conta. Ela percebe que consegue lidar com as tarefas cotidianas de forma mais ágil assim. Porém Ida percebeu que estava dependente do aparelho quando pensou que o havia perdido em uma loja de roupas. A jornalista sempre levanta a bolsa e confere se está mais pesada por causa dos dois celulares que carrega. “Fui fazer isso e não tinha o peso do celular. Entrei em pânico! Tentava me acalmar e não conseguia. Não posso ficar sem celular, a vida toda está lá. Comecei a ficar com taquicardia, não conseguia respirar direito, um nervoso que eu não conseguia controlar. Parecido com abstinência. Comecei a tremer. Depois, encontrei o celular nas sacolas para experimentar roupas no vestiário”, lembra.

A próxima novela das nove da TV Globo, que vai substituir Pantanal,trará a nomofobia, ou seja, o vício em celular, como um dos temas. Travessiaé escrita por Gloria Perez, novelista conhecida por trazer temas sociais de relevância da atualidade em suas obras. “Quero trazer uma história que emocione e faça pensar, refletir sobre uma porção de coisas dentro desse universo moderno que estamos vivendo de revolução tecnológica, de excesso de informação”, afirmou a escritora.

Recentemente, Gloria Perez publicou em seu perfil no Twitter uma pesquisa que revela que o Brasil está em quarto lugar no ranking de países com maior índice de dependência de smartphones. A nomofobia é o medo irracional que uma pessoa tem de ficar sem celular ou de ser incapaz de usá-lo por algum motivo.

“Quando a pessoa não consegue fazer coisas que não estejam vinculadas ao uso imediato do aparelho, é um sinal de dependência. Também fazer outras atividades como estudar, namorar ou comer sem tirar os olhos do celular e ficar verificando mensagens e notificações a todo momento. Podemos afirmar que quando há um condicionamento da vida ao uso do aparelho é preciso de atenção”, explica o psicólogo Davi Alves.

ANSIEDADE

Ida ressalta que não havia percebido que o uso do celular estava desencadeando um outro problema além da dependência: a ansiedade. “Por exemplo, eu assisto aos seriados coreanos, que são mais lentos, no modo acelerado. Um dia uma amiga me perguntou se eu não estava assistindo por prazer. E respondi que queria ver logo o final, se o cara matou, o que aconteceu, essas coisas. Depois fiquei pensando nisso. Tentei assistir ao filme sem acelerar, ficou monótono e eu dormi.”

O aprimoramento da tecnologia e dos algoritmos de redes sociais podem ser os responsáveis por essa mudança comportamental dos seres humanos. “Quanto mais o indivíduo utiliza redes sociais e outros recursos tecnológicos e de interação e percebe nisso ‘ganhos’, ele é reforçado a não somente reutilizar, mas também é incentivado a pesquisar similares sempre na busca de algo melhor. Esse comportamento posto em repetições pode desenvolve e aumentar a nomofobia”, avalia Alves.

Tendo a consciência de que está refém da tecnologia, pelo menos no ambiente de trabalho, Ida Nunez busca recursos para tentar driblar o problema no resto do dia. Além de psicoterapia, ela estabeleceu uma rotina de meditação ao acordar e antes de dormir. ”Tirei todos os barulhinhos do celular porque cada vez que você ouve um apito quer ver o que é. E às 22h o aparelho é desligado”, conta. “Meu nível de ansiedade diminuiu e percebi a mudança.”

OUTROS OLHARES

ATIVISMO E TECNOLOGIA FAZEM CRESCER DENÚNCIAS E REAÇÃO A ATOS DE RACISMO

Celulares ajudam a produzir provas em vídeo e redes sociais ampliam voz das vítimas; maior conscientização aumenta notificação do crime, segundo especialistas

O dentista Igor Palhano conta que foi impedido de sair do shopping Park Jacarepaguá, na zona oeste do Rio, em 3 de março, porque os seguranças desconfiaram que sua moto, uma CBR vermelha, era roubada. Mesmo após mostrar documentos, o negro de 30 anos só foi liberado com a escolta de seguranças. O shopping nega a prática de racismo.

O episódio vivido por Palhano, filho do humorista Mussum, ilustra um novo momento das denúncias de racismo no País, facilitadas pela tecnologia e pelo alcance das redes sociais. Como pano de fundo, há ainda o avanço do ativismo negro.

Dados do Ministério Público de São Paulo mostram que os procedimentos para investigar denúncias de injúria qualificada (com base no Código Penal) saltaram de 97, em 2020, para 708 no ano passado. Por “procedimentos” entende-se inquéritos, notícias de fato, termos circunstanciados, medidas cautelares, flagrantes e procedimentos investigatórios.

A alta também foi significativa nos casos de preconceito de raça ou de cor baseados na Lei Antirracismo (Lei 7.716), que passaram de 265 em 2020 para 427 no ano passado. ”Os dois tipos penais concentram condutas criminosas que se relacionam com aquilo que se denomina como delito de intolerância e de ódio”, explica o promotor de Justiça Arthur Pinto de Lemos Junior, secretário Especial de Políticas Criminais do MP. Já a Secretaria da Justiça e Cidadania paulista reporta 134 denúncias apenas no primeiro trimestre de 2022. Em 2021, foram 155 e em 2020, 49.

Há casos até de agressão física. Em 22 de outubro, a cozinheira Eliane Aparecida de Paula, de 42 anos, chamava um carro de aplicativo na porta de um edifício na Rua Oscar Freire, região nobre, quando foi abordada por uma moradora. “Que negra estranha. O que essa negra está fazendo aqui? Foram as primeiras coisas que ela me disse”, conta Eliane. Após breve discussão, a moradora começou a agredi-la com puxões de cabelo e joelhadas.

No dia 28 de março, Eliane fez representação criminal contando com o vídeo das câmeras de segurança. O caso foi registrado como injúria racial e lesão corporal e os depoimentos serão ouvidos nesta semana.

Crianças também são afetadas. No mês passado, a colunista do Estadão Suzana Barelli percebeu que seu filho de 10 anos estava sendo vítima de racismo. Ele foi confundido com um pedinte por um controlador de acesso na Amor aos Pedaços, em Perdizes. Suzana sabia que precisava de provas – episódios anteriores indicavam que só seu relato não ia adiantar. Ela conseguiu gravar a abordagem e pretende processar a Instant Center, que administra o centro comercial, a empresa de segurança Gradual e a franquia de doces.

VISIBILIDADE

Os casos de racismo estão mais visíveis, mas não necessariamente ocorrem em maior número, diz Leizer Pereira, fundador e diretor executivo da Empodera, voltada para a promoção de diversidade e inclusão nas empresas. E a razão disso é a internet. José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, opina que a combinação do uso do celular para produzir provas com a amplificação de vozes nas redes é chave para entender o cenário.

O movimento negro também entra na equação, segundo o professor Ricardo Sales, CEO e sócio – fundador da Mais Diversidade. Para ele, a população está tomando mais consciência. “Sem dúvida, isso é mérito dos movimentos.”

Secretário da Justiça e Cidadania, Fernando José da Costa diz que o aumento de denúncias reflete uma mudança de comportamento. O dentista Palhano, por exemplo, diz que já tinha sido vítima de racismo, mas foi a primeira vez que decidiu denunciar. “Quando me privaram de sair, eu acordei.”

Outro consenso entre especialistas é a existência do racismo estrutural na cabeça das pessoas e na atuação das instituições. Por outro lado, afirmam, a recorrência dos casos exige medidas urgentes. “Falta acolhimento das denúncias. Muitas vezes, ninguém é preso”, diz Leizer Pereira.

EM PARCERIA

Desde novembro, o Procon Racial vem recebendo denúncias sobre situações de racismo. Resultado de parceria com a Universidade Zumbi dos Palmares, o projeto tem um canal no site do Procon-SP, uma equipe de fiscalização e um posto de atendimento na Universidade. A ideia partiu do professor José Vicente.

Desde o início do ano, foram 26 denúncias. Segundo o diretor executivo do Procon-SP, Guilherme Farid, ainda não houve multa porque os processos são feitos de modo criterioso, para evitar que sejam revertidos no Judiciário. “Além de fiscalizar, vamos educar.”

No caso do dentista Palhano, o shopping diz que “ao tentar sair do estabelecimento sem a apresentação do ticket de estacionamento, foi solicitado ao cliente apresentar documentação”. Ainda segundo a nota, “o cliente utilizou a cancela de carrospara acessar o interior do estacionamento destinado apenas a automóveis, não utilizando assim o estacionamento de motos, que é gratuito”.

Em São Paulo, a lnstant Center, administradora do CCS Perdizes, afirma que “permanece em total apoio e irrestrita solidariedade à família da Sra. Suzana Barelli”. A empresa informa que “já está em tratativas com a empresa terceirizada para treinamento dos colaboradores”.

Em nota, a Gradua Terceirização informou que já “tomou as devidas providências em virtude do fato”. A empresa ainda afirmou que “o colaborador em questão possui índices de qualidade no atendimento” e que, por isso, investirá ainda mais no treinamento dele.

A doçaria Amor aos Pedaços informa que já se posicionou contra casos de racismo. “Nossa equipe é formada em 67% de colaboradores negros, pardos e amarelos, sendo em cargos de gerenciamento, 62,5%. Está em nosso DNA ter uma política acolhedora e antidiscriminatória”. A empresa informa que está “adotando todas as medidas jurídicas cabíveis.”

GESTÃO E CARREIRA

STARTUPS DE PEQUENO PORTE INVESTEM EM RH PARA CONSEGUIR RETER TALENTOS

Para aprimorar gestão de pessoas, empresas apostam em mais benefícios e em melhorar o feedback dos funcionários

Com uma velocidade de crescimento que muitas vezes significa dobrar ou até triplicar de tamanho em períodos recorde, startups costumam enfrentar um grande desafio: reter os talentos que foram recrutados. Uma pesquisa da Founders Circle feita com 25 empresas desses segmentos nos Estados Unidos, por exemplo, mostrou que uma em cada quatro novas pessoas contratadas vai embora com menos de um ano de casa. Ou seja, 25% dos talentos que as startups suam para atrair decidem buscar outras oportunidades. A título de comparação, esse número cai para 13% na indústria.

Cientes de que a retenção impacta nos resultados, algumas startups ainda pequenas já estão estruturando uma área de RH mais sólida e investindo na gestão de pessoas. A ideia é fortalecer a cultura da empresa desde cedo para engajar os colaboradores à medida que o time aumenta. A Alfred Delivery, por exemplo, aposta em programas de desenvolvimento profissional para incentivar o desenvolvimento dos profissionais e criou um modelo de sociedade que reconhece os colaboradores com mais aderência aos valores da startup.

Outro caso é a Quero 2 Pay, fintech de soluções de pagamentos sediada em Franca (SP). Além de ter construído uma estrutura física que integra equipe e empresa, com espaço de descompressão, a startup focou nos benefícios. Com o cartão Caju, o colaborador pode gastar R$ 500 mensais em lanchonetes, restaurantes e supermercados, enquanto uma parceria da empresa com a Droga Farma permite adiantar até 10% do salário caso a pessoa precise de um medicamento.

Na Do lado, plataforma de soluções tecnológicas para o pequeno empreendedor, a diversidade e o diálogo horizontal estão no cerne da gestão de pessoas. Atualmente com 100 colaboradores, a empresa criou o projeto Síndicos da Cultura, com embaixadores que garantem que a cultura da startup seja mantida em todos os níveis, e abriu os canais de comunicação para ouvir o time.

“Nós sempre estimulamos as pessoas a falarem o que elas pensam em todos os fóruns da empresa. Em termos de vida, não fomos ensinados a colocar nossa opinião em pauta sem correr risco”, diz Tet Mendes, diretor de pessoas da startup. “Aqui nós prezamos pela transparência e acreditamos que isso traz um ambiente de inovação, pois esta se perde quando as pessoas trabalham com medo de expor suas ideias. Por aqui não existe comentário ruim”, sublinha.

Além de garantir benefícios de bem-estar – como acesso a uma plataforma de saúde mental e um treinador de triathlon para que o funcionário pratique corrida, pedal ou natação -, a empresa foca em programas de diversidade que olham para indivíduos marginalizados. Um exemplo é a parceria com o Instituto Responsa, para contratação de egressos do sistema prisional, de onde vêm 5% dos colaboradores da startup.

“As pessoas estão buscando trabalhar em um ambiente que converse com seus propósitos. Temos conversado que queremos trabalhar com quem se empolga conosco”, diz o diretor. “Não adianta somente o profissional ter vindo de uma empresa A ou B, ele precisa ter sinergia com a nossa cultura.”

ESCUTA ATENTA

 Após saltar de 50 para 200 colaboradores no último ano, a plataforma Bomlogic tem investido na formação de lideranças dentro do próprio quadro de colaboradores. Segundo Pedro Ribas, diretor financeiro e líder de pessoas da startup, essa capacitação é fundamental em uma empresa de crescimento tão rápido, que promove pessoas ainda com pouca maturidade de gestão.

“A maior parte dos nossos líderes é de pessoas que cresceram aqui dentro”, diz ele. “Sempre tivemos a preocupação com as pessoas no treinamento e no desenvolvimento delas à medida que a empresa cresce”.

A melhoria dos benefícios é outra constante, segundo o diretor. Recentemente, a startup aumentou alguns deles, como vale-refeição e auxílio home office. A colheita de feedback reversa também faz parte do cotidiano. “Além das avaliações semanais de sentimentos das pessoas na plataforma Qulture Rocks, usamos avaliações trimestrais de eNPS (índice de engajamento) que nos mostram promotores e detratores”, diz Ribas, para quem não adianta ser uma “máquina de contratação” se não olhar para o indivíduo.

Para a estrategista de RH da gestora Astella, Ana Rezende, contratada para auxiliar startups do portfólio da empresa a alavancarem seus times, é importante entender as novas regras do jogo. “Os profissionais permanecem menos tempo nas organizações, possuem fácil acesso as oportunidades e ao que acontece nas outras empresas. As startups precisam comunicar a sua autenticidade para atrair pessoas alinhadas.”

Para ela, oferecer possibilidade de crescimento, desenvolvimento acelerado, cultura horizontal e adotar um modelo de trabalho híbrido já é”commodity” no meio das startups. Então, é fundamental os líderes alinharem compromissos de curto prazo com os colaboradores, com benefícios recíprocos e atualizados a cada 6 meses. ” Nossa intenção é que todas as startups tenham muita clareza de sua proposta de valor como marca empregadora, selecionem as melhores pessoas e criem programa de performance, aumentando o ciclo de vida de seu time.”

EU ACHO …

MEDO DE INTIMIDADE

Intimidade não é sexo, não é dar beijo, abraço, amasso. Essas são manifestações de carinho e de desejo que estabelecem um vínculo provisório – a evolução para a intimidade permanente dependerá de fatores bem mais profundos.

Tenho reparado que, quanto mais carente é a pessoa, mais ela evita intimidade, o que é contraditório. Se a pessoa sente falta de receber atenção e mimos, por que ela faz de conta que se basta) Não preciso ir longe ao encontro da resposta: olho para trás e vejo que eu mesma fui uma adolescente insegura e refratária a contatos físicos muito exagerados – preferia que gostassem de mim a certa distância. Estratégia de autoproteção: tinha medo que chegassem muito perto das minhas feridas da alma.

Qual o adolescente que não tem as suas, mesmo que fruto de alguma fantasia?

Até que um dia a gente se liberta dessas paranoias. Crescer, digo crescer de verdade, por dentro e por fora, de forma realmente amadurecida, implica assumir-se como um ser falível, mas que não se acovarda diante da vida. À medida que nos tornamos gentis conosco, passamos a enfrentar nossas carências em vez de mascará-las, e isso faz com que passemos a permitir que os outros se aproximem o sufi­ ciente para nos enxergarem como realmente somos, a fim de nos ajudarem no estimulante processo de autoconhecimento. Como é que vou me conhecer se não dou espaço para minhas fragilidades virem à tona? Como é que vou superar minhas dificuldades se não confrontá-las com as dificuldades dos outros). Como é que vou curar aquelas tais feridas da alma se não faço outra coisa a não ser disfarçá-las?

É através da intimidade que construímos relações sólidas de amor e de amizade, só que isso não se estabelece em encontros ocasionais – é preciso abrir-se e confiar. Não em qualquer estranho, obviamente, mas naqueles que reconhecemos como potenciais parceiros para a vida inteira. Sem temer ser abandonado. Não é fácil, eu sei. Intimidade é para os raçudos.

Temos vários parentes, temos amigos de longa data, temos parceiros conjugais, e mesmo com todo esse arsenal afetivo, é possível passarmos uma vida inteira sem estabelecer com eles laços de verdadeira intimidade, tudo porque nos sentimos mais confortáveis representando o papel de autossuficientes – uma couraça que evita que sejamos machucados. Porém, já não será dolorido o suficiente viver assim tão isolado em seus sentimentos mais íntimos? Que coisa cansativa usar a solidão como um escudo perpétuo. O que parece defesa contra os outros é só uma tentativa de não enxergar que o verdadeiro inimigo está dentro de nós, nos impedindo de experimentar conexões elevadas e arrebatadoras que poderiam tornar nossa vida infinitamente mais plena.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

VAI BEBER O QUÊ?

Estudo revela os efeitos diversos que cerveja, destilados e vinhos têm na gordura corporal

Não éexatamente uma novidade que o álcool engorda. Em geral, um dos primeiros itens que os nutricionistas cortam ou recomendam, a redução do consumo na dieta, são bebidas alcóolicas. A substância também contribui para o aumento do risco de doenças cardiovasculares. Mas um novo estudo revelou que nem toda bebida alcoólica tem o mesmo efeito na silhueta e na saúde.

A cerveja e os destilado estão associados a níveis elevados de gordura visceral – o tipo prejudicial relacionado a um risco aumentado de doenças cardiovasculares, síndrome metabólica e outras complicações desaúde. O Vinho por outro lado, não só não provoca aumento dos níveis dessas gorduras, como pode até proteger contra elas, dependendo do tipo. Essa é a conclusão do estudo publicado recentemente na revista Obesity Science & Practice.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram registros de saúde de 1.869 adultos do Reino Unido, com idade entre 40 e 79 anos, que faziam parle do UK Biobank, um banco de dados de grande escala. Os documentos continham informações como fatores demográficos, consumo de álcool, dieta e estilo de vida. Também foram coletados dados sobre altura e peso, além de amostras de sangue de cada participante. Informações de composição corporal foram obtidas usando uma medida direta chamada absorciometria de raios X de dupla energia.

Os resultados mostraram que o consumo de cerveja e destilados está associado a níveis elevados de gordura visceral, o que foi impulsionado pela dislipidemia e resistência à insulina.

Por outro lado, o vinho tinto foi relacionado à menos massa adiposa visceral, o que foi impulsionado pela redução da inflamação e elevação de lipoproteínas de alta densidade, o colesterol ‘bom’.

O vinho branco não influenciou os níveis de gordura visceral, mas o consumo moderado da bebida ofereceu um benefício único para a saúde de adultos mais velhos: ossos mais densos. Cerveja e vinho tinto não impactaram na densidade óssea.

“A associação direta da densidade mineral óssea do vinho branco pode ser atribuída a maiores quantidades de polifenóis específicos encontrados no vinho branco em   comparação com o vinho tinto, escreveram os autores. Um desses polifenóis é o ácido protocatecuico, que está associado à redução da perda óssea. Outra possibilidade é a possível presença de um polifenol que atua no suporte ósseo, exclusivo do vinho branco.

COMPOSIÇÃO E EFEITO

A explicação para essa diferença, de acordo com os pesquisadores, pode estar nas características de cada bebida. A cerveja, por exemplo, contém o menor valor alcoólico por volume de todos os tipos de bebidas alcoólicas – teor alcoólico entre 4% e 6% em uma cerveja padrão. No entanto, as calorias fornecidas por ela são predominantemente de carboidratos, o que contribui para o aumento da massa adiposa visceral.

A relação entre o consumo de destilados e o aumento da gordura visceral não está tão clara. Uma das hipóteses segundo os pesquisadores, está no comprometimento da função renal, causado por essas bebidas. Isso aumenta os níveis de ácido úrico e cistatina C, que, por sua vez estão ligados a um aumento da massa adiposa.

Já o efeito protetor do vinho tinto pode ser explicado pela influência da bebida nos níveis de colesterol HDL, lipoproteína ApoA e cistatina C. Esse efeito benéfico pode ainda ser parcialmente atribuído ao resveratrol, um polifenol encontrado em grande quantidade em uvas e no vinho tinto, que pode reduzir a inflamação e desencorajar o armazenamento de gordura nos adipócitos humanos.

Os pesquisadores alertam que níveis mais altos de gordura corporal têm sido consistentemente associados a um risco aumentado de muitos problemas diferentes, incluindo doenças cardiovasculares, certos tipos de câncer e um risco maior de morte.

O próximo passo do estudo será examinar como a dieta – incluindo o consumo de cada tipo de álcool – pode influenciar doenças do cérebro e cognição em idosos com comprometimento cognitivo leve.

CONSUMO MODERADO

As principais diretrizes de saúde definem o consumo moderado de álcool como duas doses o dia para homens e uma dose para mulheres. Cada dose corresponde a uma lata de 350 ml de cerveja, uma taça de 150 ml de vinho ou 45 ml de destilado, como vodca ou gim.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem parâmetros ainda mais rígidos e recomenda abster-se de beber pelo menos dois dias por semana.

Além disso, evidências recentes indicam que não há limite seguro para a ingestão de bebidas alcoólicas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SEM ELE EU NÃO FICO

De tanto se manter grudadas no celular, as pessoas estão desenvolvendo um novo transtorno. a nomofobia, um misto de medo e ansiedade quando o aparelho não está por perto

Fruto de uma sucessão de inovações da indústria eletrônica, a invenção do iPhone, em 2007, forjou uma nova e indivisível relação dos seres humanos como ambiente digital. Do nerd mais convicto ao cidadão mais indiferente aos avanços tecnológicos, todos se renderam ao smartphone, o milagroso aparelhinho capaz de caber no bolso e, ao mesmo tempo, desempenhar uma infinidade de funções: conversas entre amigos, namoros, movimentação da conta bancária, cuidados com a saúde, compra de qualquer tipo de produto, músicas, filmes, livros. A dependência universal para com o celular, potencializada pelo isolamento social na pandemia, é especialmente intensa no Brasil, pais que lidera – ao lado da Indonésia – o ranking de tempo gasto diante da telinha: cinco horas e meia de uso diário, frente à média mundial de quatro horas e 48 minutos. O que vem perturbando os especialistas agora é outra camada desse comportamento viciante, quando ele se manifesta de forma exacerbada e doentia, configurando um mal batizado de no mobile fobia – ou simplesmente nomofobia.

Não se trata apenas daquela agonia de querer dedilhar a telinha para responder a uma mensagem no ato ou conectar-se para saber o que se desenrola ao redor do planeta em tempo real, mas de uma ansiedade aguda e crises de medo desencadeadas sempre que o acesso a ele se restringe. O apego que vira vício, uma necessidade incontrolável da qual a pessoa não consegue se livrar, preocupa médicos e psicólogos mundo afora. Uma nova pesquisa da consultoria global Digital Turbine lança um sinal de alerta em relação aos brasileiros. Ela mostra que uma parcela considerável se revela incapaz de ver-se privada de seu telefone: 39% da população diz não conseguir ficar longe dele por mais de uma hora, sendo que 20% não suportam sequer trinta minutos sem sua presença. (veja o teste abaixo para aferir a nomofobia).

Diante do número crescente de casos, profissionais ligados à saúde mental empreendem uma campanha para que a nomofobia seja incluída no rol dos distúrbios relacionados ao uso de tecnologia no DSM-5, o manual dos diagnósticos e estatísticas de transtornos psicológicos. “O uso intensivo do celular provoca liberação de dopamina, substância que traz sensação de bem-estar, e pessoas que buscam cada vez mais essa recompensa acabam sofrendo de dependência emocional”, explica Anny Maciel, psiquiatra do Hospital das Clinicas da USP. Anna Carolina Fogaça, 24 anos, sabe bem o que é isso. Ao despertar, antes mesmo de jogar uma água no rosto, a estudante de farmácia corre para checar as mensagens de WhatsApp e o feed do Instagram. “Um dos motivos do meu divórcio foi eu estar sempre entretida com o telefone. Meu bebê até já se machucou por eu não estar prestando atenção nele”, lamenta ela, que admite ter atravessado uma perigosa fronteira.

Nesse contexto, a dificuldade em mudar de comportamento pode ser comparada à enfrentada por dependentes de drogas químicas. O sistema inibitório, responsável por regular as emoções e impor limites ao próprio corpo, não funciona corretamente e a atenção pregada na telinha acaba por prejudicar outras atividades, como tarefas domésticas e o trabalho. “O celular funciona como um dreno, sugando a energia cerebral, sem que o indivíduo consiga se concentrar naquilo que realmente faz a diferença em sua vida”, pontua Claudia Feitosa-Santana, neurocientista da Universidade de Chicago. Enquanto o vício em celular é constatado em estudos e pesquisas e vem sendo analisado há tempos, pouco se sabe sobre os gatilhos da nomofobia, embora esteja comprovado que a propensão ao distúrbio é maior em quem já sofre de depressão e ansiedade. Os adolescentes e jovens adultos são mais vulneráveis, uma vez que o cérebro ainda está em formação – ele se desenvolve até os 25 anos. Pesquisa da University College London feita com mais de 1.000 pessoas entre 18 e 30 anos mostrou que 40% não aguentavam a sensação de ficar longe de seus smartphones.

As redes sociais são responsáveis por 70% do tempo dispensado aos aparelhos, o que confirma a bem-sucedida estratégia das big techs de agregar produtos e serviços relacionados com a mobilidade, como geolocalização, transmissões ao vivo e postagens instantâneas. “O grande trunfo das redes foi sua associação aos smartphones. Ao se tornarem portáteis, elas reforçam nas pessoas a ideia de que precisam estar constantemente logadas e atualizadas para pertencer ao ambiente”, analisa a socióloga Camila Cruno, especialista em relações digitais. A apresentadora de TV Penélope Dias, 23 anos, faz questão de responder a mensagens imediatamente, se relaciona com amigos mais por aplicativos do que pessoalmente e, quando os encontra IRL (in real li{e),não para de digitar enquanto conversa. Previsivelmente, no dia em que se viu sem celular, seu mundo caiu. “Meu telefone quebrou e foi como se minha vida temporariamente não existisse. Eu me sentia muito triste, deslocada, achando que perderia os amigos e não teria mais assunto para comentar”, lembra.

Limitar o uso do celular e não permitir que ele esteja presente em momentos importantes no trabalho ou em família é um exercício relativamente simples. Diversos modelos trazem, em suas configurações, o chamado “modo de foco “, em que é possível configurar horários para o funcionamento de apps. Para muita gente, porém, percorrer tais caminhos é um desafio daqueles. Ciente deque estava passando do razoável, a estudante de arquitetura Marcela Araújo, 23 anos, considera que está, no momento, “desmamando”: todos os dias remove diversos aplicativos pela manhã e só volta a instalá-los no fim da tarde, quando se permite janelas de lazer virtual. “Estou muito mais concentrada, meu dia começou a render bem mais”, conta. Viver crises de desconforto físico se o celular não está por perto é assunto sério que, nos casos mais severos, passa pela recomendação de terapia. Como a tendência é os celulares se tornarem cada vez mais viciantes, vale manter o olho vivo – não só no aparelho, mas no mundo em volta dele.

OUTROS OLHARES

REDE SOCIAL DEIXA JOVEM TRISTE? IDADE É A RESPOSTA

Pesquisadores identificaram períodos em que o adolescente está mais sensível à tecnologia

Nos últimos anos, enquanto o brilho frio do smartphone seguia mais e mais adolescentes do quarto para a escola e vice-versa, os pais foram se preocupando cada vez mais com a influência da tecnologia. E não é de se admirar, com pesquisadores do Facebook estudando secretamente como seus aplicativos corroem a imagem corporal das meninas, médicos descrevendo distúrbios induzidos pelo TikTok e promotores e parlamentares se comprometendo a responsabilizar as empresas de mídia social por prejudicar crianças.

Mas, longe dos holofotes, uma discussão científica mais silenciosa tem questionado se as redes sociais de fato causam algum dano. Enquanto alguns pesquisadores afirmam que a tecnologia digital é um poderoso fator causal nas crescentes taxas de problemas mentais, outros contestam e dizem que o risco para a maioria dos adolescentes é pequeno – algo equivalente à influência de usar óculos ou comer batatas regularmente, calculou um grupo. Agora, os autores do artigo sobre óculos publicaram um grande estudo de vários anos fornecendo o que especialistas independentes disseram ser uma visão detalhada e rigorosa da relação entre as mídias sociais e os sentimentos dos adolescentes sobre a vida.

PERÍODOS

 Ao analisar as respostas de mais de 84 mil pessoas de todas as idades na Grã-Bretanha, os pesquisadores identificaram dois períodos distintos da adolescência quando o uso intenso das redes sociais estimulou classificações mais baixas de “satisfação com a vida”: primeiro em torno da puberdade – de 11 a 13 anos para meninas e 14 e 15 para meninos – e novamente para ambos os sexos por volta dos 19. Como muitos estudos anteriores, este descobriu que a relação entre as redes sociais e o bem-estar dos jovens era bastante fraca. Ainda assim, sugeriu que há certos períodos no desenvolvimento em que o adolescente pode estar mais sensível à tecnologia. “Na verdade, nos perguntamos se as ligações entre mídia social e bem-estar poderiam ser diferentes em idades diferentes – e descobrimos que é isso mesmo”, disse Amy Orben, psicóloga experimental da Universidade de Cambridge, que liderou o estudo.

Para a maioria dos adolescentes nos Estados Unidos, as telas são uma grande parte da vida. Nove em cada dez têm um smartphone e passam muitas horas por dia olhando para o aparelho – vendo vídeos, jogando e se comunicando pelas redes sociais, mostram pesquisas recentes. “À medida que o uso de mídia social entre adolescentes explodiu nos últimos 20 anos, também aumentaram as taxas de depressão, ansiedade e suicídio, levando cientistas a se perguntarem se essas tendências marcantes podem estar relacionadas. Alguns sugeriram que as mídias sociais podem ter um efeito indireto na felicidade, substituindo outras atividades, como interações pessoais, exercícios ou sono, que são cruciais para a saúde mental e física. O uso pesado de redes sociais parece perturbar padrões de sono dos adolescentes, por exemplo.

Ainda assim, estudos que buscam uma relação direta entre mídias sociais e bem-estar não encontraram muito. “Sem dúvida há centenas desses estudos, quase todos mostrando efeitos muito pequenos”, disse Jeff Hancock, psicólogo comportamental da Universidade de Stanford, que realizou uma meta-análise de 226 desses estudos.

O que chama a atenção no novo trabalho, disse Hancock, que não esteve envolvido na pesquisa, é seu alcance. O estudo abarcou duas pesquisas na Grã-Bretanha, totalizando 84 mil pessoas. Uma dessas pesquisas acompanhou mais de 17 mil adolescentes de 10 a 21 anos ao longo do tempo, mostrando como seu consumo de mídias sociais e índices de satisfação com a vida variaram de um ano para o outro. A rica análise baseada na idade, disse Hancock, é uma grande melhoria em relação aos estudos anteriores, que tendiam a agrupar todos. “Os anos da adolescência não são um período constante de desenvolvimento – trazem mudanças rápidas”, disse ele.

O estudo revelou que, durante o início da adolescência, o uso intenso de mídias sociais prenunciava índices mais baixos de satisfação com a vida um ano depois. Para as meninas, esse período sensível foi entre as idades de 11 e 13 anos, enquanto para os meninos foi de 14 e 15. Segundo Orben, essa diferença de sexo pode ser simplesmente porque as meninas tendem a atingir a puberdade mais cedo do que os meninos. “Sabemos que as meninas passam por boa parte do desenvolvimento mais cedo do que os meninos”, disse Orben. “Há muitas coisas que podem impulsionar esse processo, sejam elas sociais, cognitivas ou biológicas”.

19 ANOS

Tanto os meninos quanto as meninas no estudo atingiram um segundo período de sensibilidade à mídia social por volta dos 19 anos. “Foi um dado muito surpreendente porque foi muito consistente entre os sexos”, disse Orben. Por volta dessa idade, muitas pessoas passam por grandes transformações em termos sociais – como começar a faculdade, trabalhar em um novo emprego ou morar sozinho pela primeira vez – que podem mudar a maneira como interagem com as mídias sociais.

Embora o novo relatório tenha base em conjuntos de dados mais ricos do que os estudos anteriores, faltavam algumas informações que seriam úteis na interpretação dos resultados, disseram especialistas. Esperar um ano inteiro entre as respostas não é o ideal, por exemplo. E embora as pesquisas perguntassem quanto tempo os participantes passavam se comunicando nas mídias sociais, não perguntavam como as usavam: falar com desconhecidos enquanto se joga videogame pode ter efeitos diferentes do que enviar mensagens de texto para amigos da escola.

Em conjunto com trabalhos anteriores, os resultados sugerem que, embora a maioria dos adolescentes não seja muito afetada pelas mídias sociais, um pequeno subconjunto pode ser significativamente prejudicado por seus efeitos. Mas é impossível prever os riscos para cada pessoa.” O que isso significa para seu filho de 12 anos? Dificil saber”, disse Michaeline Jensen, psicóloga da Universidade da Carolina do Norte em Greensboro. Dado o pequeno efeito observado, “poucas dessas crianças passariam do funcionamento normal para níveis clínicos de depressão”, disse ela. Mas “isso não quer dizer que nenhuma criança sofrerá nada”.

Segundo Jensen, o estudo também encontrou uma ligação na direção oposta: para todas as idades, os participantes que se sentiram mal com suas vidas acabaram passando mais tempo nas mídias sociais um ano depois. Isso sugere que, para algumas pessoas, a tecnologia pode ser um mecanismo de enfrentamento e não a causa do problema. Todos esses especialistas disseram que muitas vezes ficaram desapontados com os debates públicos sobre mídias sociais e crianças e adolescentes, que costumam inflacionar os danos das plataformas e ignorar os benefícios. “As redes sociais trazem riscos – influência de colegas, contagio, uso de substâncias”, disse Jensen. “Mas também podem trazer muitas coisas positivas, como suporte, conexão, criatividade e domínio de habilidades. Acho que muitas vezes isso é esquecido porque ficamos muito focados nos riscos”.

GESTÃO E CARREIRA

EQUIDADE DE LICENÇAS AINDA É TABU

Estudos mostram que igualdade de gênero nas empresas melhora o desempenho financeiro, mas poucas concedem os mesmos benefícios para mães e pais. Menos de 1% oferece período estendido para ficar com os recém-nascidos

Até o fim deste ano, 14 funcionários da Zoop, fintech que desenvolve tecnologia para serviços financeiros, terão a chance de participar ativamente dos primeiros seis meses de seus filhos ou acompanhar de perto a chegada de um filho adotivo, também por seis meses. Implementada na Zoop, em junho de 2021, a licença parental de 180 dias é extensiva a todos os funcionários, independentemente de gênero. Entre os 14 que já garantiram o direito, dez são homens.

“Nossa preocupação é ter cada vez mais práticas e não só discursos que contribuam, de fato, para uma sociedade mais igualitária”, diz Monique Menezes, líder de Gente e Cultura da Zoop.

‘PAUTA ANTIMERCADO’

A decisão da Zoop, que tem 346 funcionários e faz parte do Programa Empresa Cidadã desde 2017, está em linha com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nº 5 da ONU, que trata dos esforços para atingirmos igualdade de gênero até 2030. Mas ela ainda é uma exceção entre as organizações brasileiras. Muitas empresas no Brasil simplesmente desconhecem os benefícios, inclusive fiscais, de oferecer licença estendida.

“Quando dialogo no Congresso, essa pauta ainda é considerada antimercado. Isso é uma incoerência, porque o último Fórum Econômico Mundial mostra que equidade de gênero nas empresas aumenta as performances econômicas e financeiras de 15% a 17%. É como se preferíssemos ser machistas a capitalistas”, diz Leandro Ziotto, fundador da 4daddy, plataforma sobre parentalidades, masculinidades e economia do cuidado.

Rodolfo Canônico, diretor executivo da Family Talk, organização que trabalha para impactar a vida das famílias a partir da promoção do apoio público ao cuidado, diz que o Brasil apresenta modelo de licenças maternidade e parentalidade consagrado na Constituição de 1983. E as leis relacionadas às licenças dos pais acirram as diferenças de gênero.

A licença-maternidade remunerada pela Previdência Social com garantia de estabilidade de emprego dá 120 dias às mulheres, enquanto os pais têm cinco dias. A legislação é mais flexível em alguns casos, como no Programa Empresa Cidadã. Nele, é permitido estender em 60 dias a licença-maternidade. No caso da concedida aos pais, a extensão regulamentada é de 15 dias.

No entanto, segundo a Receita Federal, até o fim de 2021, menos de 1% das empresas tinha aderido ao programa, o que representa 24.15O empresas. No caso das empresas tributadas com base no lucro real, é possível deduzir do Imposto de Renda o valor pago pelas licenças estendidas.

Para especialistas, o Empresa Cidadã, sozinho, não é suficiente para gerar mudanças estruturais, pois ele mantém a diferença nos períodos de licença concedidos a homens e mulheres e contempla fatia muito pequena da sociedade.

Para entender porque é tão baixa a adesão das empresas brasileiras à extensão das licenças e à implementação da licença parental, já definida inclusive pela União Europeia como vital para a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, as organizações

Family Talks e 4daddy se debruçaram sobre a “Pesquisa Licenças Maternidade e Paternidade nas empresas”.

O resultado do estudo, apresentado em 7 de abril em seminário, se baseia em respostas de entrevistas feitas entre 2020 e 2021 com 472 funcionários de empresas. Um dos principais achados foram as barreiras para melhoria dos benefícios.

DESCONHECIMENTO

De acordo com a pesquisa, dois terços das companhias participantes não aderiram ao Empresa Cidadã. Chama a atenção a justificativa: desconhecimento do programa (37% dos respondentes). Outro motivo é a descrença na viabilidade financeira do programa (17%). E, com base em percepções individuais, 8% dos respondentes disseram que as licenças maternidade e paternidade estendidas não correspondem a demandas dos funcionários.

“Desconhecimento do programa dá para reverter com certa facilidade. A percepção individual, sem dados ou pesquisa é mais difícil de modificar”, diz Camilla Pires, um dos três coordenadores acadêmicos da pesquisa.

EU ACHO …

ADEUS À DOR

Vou lhe dizer certas coisas porque acho que você está preparado para ouvir, mas se eu for longe demais, me interrompa. Reconheço que é preciso muita delicadeza para tocar na dor do outro, e é o que vou fazer, tocar na sua.

Não importa agora a razão de vocês terem se separado, mas separaram. Foi dilacerante, eu sei. Você não esperava, não queria e não se conforma até hoje. Mas aconteceu. Se acredita que é possível um reatamento, tente. Não dá? Entendo, você me disse que não há mais nenhuma chance de retorno, nenhuma. Então, passados dois anos, está na hora de você enfrentar mais uma despedida. É. Mais uma. Você pensa não ter forças para outro final, mas tem. Precisa ter. Por­ que este será o final definitivo, o final que vai liberar você para a vida que merece ter. Você terá que dizer adeus para sua dor.

As pessoas se perguntam se não haveria uma fórmula mágica para tirar da cabeça aquele ex-amor que ainda atormenta. Não é bem uma fórmula, mas há um recurso: reconhecer que a dor que você carrega ainda é um vínculo. A dor preenche o seu vazio. A dor é o substituto que restou de uma história que não existe mais. A dor é uma aliança com o seu passado. Você tirou a aliança do seu dedo – foi uma cena triste, posso imaginar. Você lembra em que momento foi? Antes de dormir? Durante um acesso de raiva? Jogou-a longe? Deu para um mendigo? Derreteu? Vendeu? Guardou? Não há nada de errado em guardar numa gaveta, num cofre, num porta-joias – desde que você não a esteja usando mais.

Mas você ainda usa a sua dor. Usa para se proteger contra novos amores, para lembrar que foi amado, para reunir os amigos em torno de si, para impedir que todo aquele investimento afetivo evapore.

Faz parte do luto, eu sei. Mas basta. Chega. Tire essa dor de dentro de você como um dia tirou a aliança. Prepare um ritual, se quiser. Faça uma cerimônia de adeus. Anote num papel tudo o que você quer que suma da sua vida: mágoa, rancor, desesperança, tristeza, pensamentos obsessivos, amargura. Coloque todos os papeizinhos no bolso e saia para caminhar. Vá escutando músicas que te emocionem. Durante a caminhada, deixe cada papelzinho numa lixeira diferente. E retorne a casa consciente de que não está voltando para o passado, mas iniciando um futuro. Se puder fazer isso numa cidade diferente da que mora, ou ao menos num bairro afastado, melhor ainda. Deixe lá sua dor e nunca mais volte para buscá-la.

Você se sentirá ridículo, porque é ridículo mesmo (não comente nem com seu analista), mas pode funcionar. Se tiver uma ideia melhor, coloque-a em prática. Seja criativo.

Despedir-se de uma pessoa é difícil. Despedir-se da dor é ainda pior, pois, sem a pessoa a seu lado e sem a dor que a ausência dela provoca, sobrará o quê?

É o que você irá descobrir.

ESTAR BEM

QUEBROU O PULSO? EXERCITE O OUTRO LADO PARA MANTER MÚSCULOS

Estudo aponta que, mesmo imobilizado. membro pode conservar força e volume

Se você torcer um tornozelo ou quebrar um pulso e não puder usar um deles, os músculos enfraquecerão e encolherão – a menos que você exercite estes mesmos músculos em seu outro membro. É o que concluiu um estudo recente: ativar os músculos de um lado do corpo pode manter os do outro lado fortes e em forma mesmo sem movimenta-los.

A descoberta tem implicações para a recuperação de lesões, mas também ressalta o quão resilientes os corpos podem ser. Quando algo impede o movimento de um braço ou perna, por exemplo, e este membro éimobilizado, os músculos atrofiam, e há a perda do tamanho e força no local. Este processo pode começar a ocorrer dias ou mesmo horas depois da lesão.   

Os indícios recentes, porém, demonstram que é possível gerar um pacto no membro lesionado apenas ao exercitar o outro lado. Em estudos anteriores, quando alguém pedalava uma bicicleta com uma perna ou levantava pesos com um dos músculos do outro membro geralmente se contraiam – um processo conhecido pelo nome de espelhamento.

Mas, na maioria desses experimentos, o membro não utilizado não foi completamente   imobilizado, com um gesso, por exemplo, e os cientistas não se concentraram em músculos específicos, fator que tornou mais difícil saber se o exercício de certos músculos afeta todos os outros ou apenas alguns. Assim, pesquisadores da Universidade de Saskatchewan, no Canadá, reuniram 16 estudantes universitários, de ambos os sexos, e examinaram de forma atenta os pulsos deles.

A partir do ultrassom e da tomografia computadorizada, os cientistas determinaram as dimensões precisas de dois conjuntos separados de músculos nessa condição: os extensores, que movem o pulso para trás e para longe do corpo; e os flexores, que o movimentam em direção ao antebraço.

Os pesquisadores também testaram a força do pulso de cada voluntário utilizando uma máquina de peso para as mãos. Em seguida, eles cobriram o antebraço e o pulso esquerdos de cada aluno com um gesso duro para congelar o pulso no mesmo lugar.

Metade dos alunos foi então solicitado a continuar com suas vidas normais, ignorando o gesso, o máximo possível – não exercitando os braços. Os outros oito alunos, no entanto, começaram a praticar um programa de exercícios que visava os músculos flexores de seus pulsos.

Usando uma pequena máquina de pesos, eles completaram várias contrações excêntricas e extenuantes desses músculos em particular, o que envolve o alongamento de um músculo enquanto o contrai – exercício que é conhecido por aumentar sua força e seu tamanho.

Enquanto isso, os pesquisadores anexaram pequenos sensores acima dos músculos flexores nos pulsos imobilizados dos voluntários para medir quaisquer contrações que   pudessem ocorrer. Após um mês, todos os voluntários retornaram ao laboratório, tiveram os gessos removidos e repetiram as medidas originais de seus músculos.

Como esperado, os voluntários que não haviam se exercitado mostraram uma atrofia muscular considerável, com flexores do pulso cerca de 20% mais fracos e 3% menores. Mas o grupo que exercitou os músculos flexores do punho manteve quase todo o tamanho e força original desses músculos do lado oposto do corpo.

Os benefícios eram bastante específicos. Os músculos extensores do punho desses mesmos voluntários, que não haviam sido exercitados no punho direito, estavam atrofiados no esquerdo.

BENEFÍCIOS

A implicação dessas descobertas é que exercitar os músculos de um lado do corpo pode levar a impactos benéficos no outro lado, diz Jonathan Farthing, professor associado de cinesiologia da Universidade de Saskatchewan, que conduziu o estudo com seu aluno de pós-graduação Justin Andrushico e outros colegas.

Mas esses efeitos aparentemente se estendem apenas aos músculos específicos que são exercitados e, segundo Farthing, todo o processo parece envolver mais do que apenas espelhamento muscular. Os sensores colocados acima dos pulsos engessados dos voluntários captaram algumas contrações musculares nos flexores esquerdos quando seus colegas do lado direito se exercitavam.

“Mas essas contrações foram muito leves, diz o professor, que acredita que, por si só, provavelmente são insuficientes para manter os músculos saudáveis e fortes. Ele acredita que pode haver mudanças no sistema nervoso durante o exercício unilateral que de alguma forma atinge e alterna a mesma parte do corpo do outro lado. Várias substâncias bioquímicas também podem ser liberadas pelos músculos em atividade e chegar aos músculos contralaterais correspondentes, onde podem iniciar processos fisiológicos relacionados à saúde muscular.

Mas como as substâncias conseguiriam atingir os músculos específicos em questão ainda “é um mistério”, afirma Farthing. Ele e seus colegas planejam investigar algumas dessas questões ente outros estudos. Por enquanto, os resultados deste experimento sugerem fortemente que, se você ou um ente querido acabar engessado nos próximos meses, poderá conversar com os médicos ou fisioterapeuta sobre como exercitar o membro não lesionado, destaca Farthing.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PENSE RÁPIDO

TikTok cria enxurrada de prazer no cérebro e pode prejudicar foco

Vídeos curtos, de 15 segundos em média, com edições aceleradas e músicas que grudam na cabeça. O formato de conteúdo priorizado no TikTok leva a rede social a crescer de forma rápida, chegando a ser o aplicativo mais baixado em 2021 e ultrapassar a marca de um bilhão de usuários. O público-alvo, majoritariamente formado por jovens, passa horas e horas com os olhos vidrados na tela do celular, e cientistas da Universidade Zhejiang, na China, descobriram o porquê.

Em estudo publicado na revista científica Neuro Image, os pesquisadores perceberam que áreas do cérebro ligadas ao sistema de recompensa são ativadas pelo conteúdo da rede, produzindo instantaneamente uma sensação de prazer e satisfação no organismo. O experimento envolveu exames de ressonância magnética cerebral em 30 participantes enquanto assistiam a dois tipos de vídeos, os personalizados pelo algoritmo do TikTok e os genéricos, como os exibidos a novos usuários que ainda não tiveram suas preferências detectadas pela plataforma.

Entre as partes do cérebro ativadas apenas pelos conteúdos personalizados está a área tegmental ventral (ATV), um dos principais centros dopaminérgicos do órgão e considerado o início do circuito de recompensa. Isso porque ela libera a dopamina, neurotransmissor que, ao chegar na área do córtex pré-frontal, provoca a sensação de prazer.

“Então, quando o jovem está assistindo a um vídeo no TikTok, o cérebro dele recebe uma enxurrada de dopamina que faz com que ele se sinta feliz, alegre, satisfeito. O problema é que, quanto mais dopamina o cérebro recebe, mais ele quer, ai ele acaba entrando em um estágio de saturação em que essas ”doses”‘ vão precisar ser cada vez maiores”, explica a psicóloga especialista em criança e adolescente, Manuela Santo, pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Psicologia Comunitária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Essa onda de dopamina leva o jovem a não conseguir desprender a atenção da experiencia acelerada para outras tarefas que sejam mais complexas e não promovam a sensação de prazer no mesmo ritmo, explica a neurologista Leticia Sampaio, coordenadora do departamento cientifico de Neurologia Infantil da Associação Brasileira de Neurologia (ABN).

“Quando você pega um vídeo e consegue essa sensação de prazer de forma mais rápida, você vai tender a repetir esse comportamento em detrimento de outros que demandem mais atenção, em que a recompensa demore mais para chegar”, afirma a especialista.

VICIO ESCAPISTA

Outro estudo sobre a rede, conduzido pela Universidade Zheling em parceria com a Universidade Texas A&M, nos Estados Unidos, fez ainda um levantamento com 1.051 usuários do TikTok sobre os motivos que os levavam a utilizar a rede. Entre 36 opções, que envolviam alternativas como “para passar o tempo” ou “para ficar mais feliz”, as quatro principais escolhidas foram: “auto apresentação, “socialmente gratificante”, “tendência”, “vício escapista” e “novidade”.

Diferentemente de outras redes sociais, o TikTok possui duas páginas iniciais; uma em que aparecem vídeos publicados por perfis que a pessoa segue e outra chamada “Para você”,que compila conteúdos que o algoritmo da rede acredita serem do interesse do usuário. Essa personalização e o que está por trás do sucesso da rede da chinesa Byte Dance.

O Brasil concentra o segundo maior público da plataforma, atrás apenas da China, segundo a consultoria alemã Statista. Somos um mercado especialmente estratégico, já que os brasileiros lideram o tempo diário passado no celular, com cerca de 5,4 horas, de acordo com relatório da empresa de análise de mercado digital App Annie. Hoje, o TikTok fica atrás apenas do WhatsApp no país.

A rede faz sucesso especialmente entre a chamada geração Z, aqueles que nasceram entre 1995 e 2010, com 66% do público tendo menos de 30 anos. Apesar de a rede não permitir usuários com menos de 13 anos, écomum encontrar crianças que driblam os termos de serviço com contas falsas ou alheias.

EM FORMAÇÃO

Para Ilana Plusky, autora do livro “Saúde emocional: como não pirar em tempos instáveis” (Editora Contato) e consultora da Organização Mundial da Saúde, a forma como o app atua cria no cérebro do jovem uma ideia de que a vida e simples e acelerada como nos vídeos, o que pode atrapalhar o desenvolvimento, sobretudo daqueles que já têm tendência à  introversão.

“Para alguém que já tem dificuldade social, timidez excessiva, baixa autoestima, é muito mais fácil sentar e ficar horas no TikTok substituindo o relacionamento social”, afirma a psicóloga clínica.

Manuela Santo ressalta também que a infância e a adolescência são períodos em que o cérebro ainda está em formação, e por isso estão mais vulneráveis: aos impactos negativos das redes.

“O processo de formação cerebral só termina por volta dos 25 anos, e especificamente as partes do cérebro responsáveis pelo controle de impulsos, pela autorregulação, são umas das últimas a serem amadurecidas”, diz a pesquisadora, acrescentando que, o uso moderado pode ajudar a reduzir o sentimento de solidão típico da fase.

OUTROS OLHARES

EM MODO ECONÔMICO

Variação genética cria sono breve e restaurador

Entre as recomendações mais frequentes dos especialistas para garantir uma vida equilibrada, está a de dormir entre sete e nove horas diárias. Mas pesquisadores da Universidade da Califórnia, em São Francisco, identificaram genes que possibilitam a algumas pessoas descansarem entre quatro a seis horas por noite sem prejuízo para a saúde. E mais: essa particularidade genética pode desempenhar um papel importante na prevenção de demências, como o Alzheimer.

Diversos estudos relacionam o pouco sono a efeitos danosos sobre a saúde física e mental. É durante o repouso noturno que o organismo se regenera e elimina toxinas do cérebro e de outras partes do corpo. Para completar esse processo, o corpo costuma levar de sete a nove horas. Daí a recomendação.

No entanto, o novo estudo, publicado na revista científica Cell Science, mostrou que mutações na genética de certos individuo, retardaram o acumulo de proteínas tóxicas no cérebro – uma marca registrada do Alzheimer. A ligação entre sono e demência foi estabelecida há anos. Pesquisas sugerem que a má qualidade ou o pouco tempo de descanso aumenta o risco para a condição.

Os genes do “sono econômico” são encontrados em até 3% da população mundial, acreditam os cientistas.

Personalidades como o ex-presidente Donald Trump, o empresário Elon Musk e o ator Dwayne ‘The Rock’ Johnson já relataram que dormem pouco (entre três e seis horas por noite) e sentem-se bem. Eles provavelmente trazem a variação genética dissecada no estudo.

PADRÕES INDIVIDUAIS

O estudo sobre a associação do sono e a genética foi realizado ao longo de uma década. Os pesquisadores rastrearam pessoas com Sono Curto Natural Familiar e genes associados ao padrão de sono. Eles observaram as pessoas que dormiam apenas quatro a seis horas e ainda podiam “funcionar plenamente durante o dia”. O mesmo comportamento foi notado em suas famílias.

A equipe de cientistas identificou cinco genes em todo o genoma que afetam os padrões de sono – e preveem que muitos mais ainda serão descobertos. Dentre eles, escolheram duas mutações genéticas para analisar na segunda parte do trabalho. Elas foram encontradas nos genes DEC2 e NPSR1, ligados a um acúmulo mais lento de placas amiloides e a uma redução na “patologia tau”, ambos associados à demência.

Para o experimento final, camundongos foram divididos em dois grupos com predisposição para a doença de Alzheimer, a forma mais comum de demência. Os animais tinham também um dos dois genes em estudo. Analisando os cérebros dos roedores após três e seis meses, os cientistas notaram que aqueles com os genes do sono curto tinham menos proteínas anormais associadas à doença, na comparação com um grupo de controle.

Nesse estudo, os pesquisadores encontraram genes específicos que podem, no futuro, ajudar a prevenir a demência em toda a população. Os autores esperam que suas descobertas possam levar ao desenvolvimento de novos medicamentos e evitar condições desse tipo.

Embora estimem que possa levar uma década para desenvolver novos tratamentos com base em suas pesquisas, os pesquisadores destacam que um dos genes identificados pode ser alvo de remédios já existentes. Isso significa que os medicamentos podem ser reaproveitados para ajudar a evitar a demência em vez de criar uma nova droga do zero.

Recentemente, pesquisadores da Universidade da Califórnia identificaram outra característica positiva dos que dormem pouco: por questões genéticas eles apresentam sinais de impulsividade e motivação por recompensas, ferramentas que contribuem para o sucesso profissional.

RISCOS DOS INSONES

Mas não dormir o suficiente, independente da quantidade horas necessárias a cada um, tem sido associado a uma série de outras condições, como obesidade, doenças cardíacas, pressão alta e diabetes. No entanto, especialistas debatem cada vez mais que qualidade do sono tem extrema importância. Não ser interrompido e acordar disposto são duas medidas de peso.

Um estudo da Northwestern Medicine apontou que dormir em um quarto com iluminação moderada prejudica a função cardiovascular e aumenta a resistência à insulina na manhã seguinte.

Os resultados demonstram que uma única noite de exposição a uma fonte de luz branda, como a da tela da TV, durante o sono pode prejudicar a glicose e a regulação cardiovascular, que são fatores de risco para doenças cardíacas, diabetes e síndrome metabólica.

O mecanismo tem razão de ser. Durante o dia, a exposição à luz aumenta a frequência cardíaca por meio da ativação do sistema nervoso simpático, que acelera o coração e aumenta o estado de alerta para encarar desafios. “Nossos resultados indicam que um efeito semelhante também está presente quando a exposição à luz ocorre durante o sono noturno”, disse Phyllis Zee, chefe de medicina do sono da Northwestern Medicine, em entrevista ao portal da universidade.

” Isso acontece porque nosso corpo trabalha com dois sistemas nervosos: o simpático e o parassimpático. Eles são responsáveis por regular a fisiologia do corpo durante o dia e a noite. O primeiro assume o comando durante o dia, enquanto o segundo lidera nosso funcionamento à noite, quando transmite a restauração para todo o organismo.

Quanto ao aumento de açúcar no sangue os investigadores descobriram que a resistência à insulina ocorreu na manhã seguinte no organismo de pessoas que dormiram em uma sala iluminada. Esse problema ocorre quando as células de seus músculos e gordura não respondem bem ao hormônio e não podem usar a glicose do sangue para obter energia. Para compensar, seu pâncreas produz mais insulina.

GESTÃO E CARREIRA

DIVERSIDADE É CHAVE PARA RETER TALENTOS

Sem ambiente de trabalho inclusivo, perde-se produtividade. Sensibilizar lideranças para a questão éfundamental

Pressões de mercado, tendo em uma ponta, o consumidor, na outra, os investidores, e no meio, funcionários, estão levando cada vez mais a discussão sobre diversidade e inclusão (D&I) para dentro das empresas. Nesse contexto, a diversidade ganha espaço e organizações buscam aumentar a presença em seus quadros de grupos minorizados, como negros, mulheres, LGBTQI+ e pessoas com deficiência.Mas nem sempre, alertam os especialistas, ampla diversidade significa inclusão e retenção   de pessoas. O motivo é que, sem um ambiente, de fato, inclusivo não há melhora no desempenho e nos resultados perseguidos pelas companhias. Nesse contexto, parte da solução está na educação, o que nas empresas é chamado de letramento, que nada mais é do que a sensibilização dos colaboradores, especialmente os de alto escalão, para uma nova postura e consciência em relação à diversidade.“Ganhos com diversidade só ocorrem se trouxermos pessoas com modelos mentais diferentes e que se sintam à vontade no ambiente corporativo. Ou seja, que se sintam incluídas”, diz a consultora Cris Kerr, da CKZ Diversidade.Isso significa, na prática, deixar as pessoas confortáveis para se expressarem, apresentarem suas dúvidas e pontos de vista diferentes.Sem um ambiente amigável, é comum pessoas de grupos minorizados se depararem com clima hostil de trabalho, sofrerem bullying dos colegas, com piadas depreciativas, por exemplo, e até serem alvo de racismo, machismo, homofobia e preconceitos diversos.

VIÉS INCONSCIENTE

Relatório “Entendendo as barreiras organizacionais para um local de trabalho mais inclusivo”, da consultoria McKinsey, publicado em junho de 2020, mostra que os entrevistados que se sentem muito incluídos em suas organizações são quase três vezes mais propensos a também se sentirem entusiasmados e comprometidos com as empresas do que seus pares que não têm a sensação de fazer parte do jogo. Na Mondelez, fabricante mundial de alimentos, a busca pela diversidade é parte de uma política global da empresa, que possui um CEO de Diversidade, Robert Peckins. “Se não tivermos uma estratégia muito clara, em relação a diversidade, equidade e inclusão, vamos perder competitividade no mercado, perder talentos e o contato com nossos consumidores”, afirma Daniela Sagaz, líder de diversidade, equidade e inclusão da Mondelez Brasil. O letramento tem como conteúdo basal o estudo dos vieses inconscientes ou seja, os preconceitos intrínsecos aos seres humanos e que se desenvolvem por crenças e experiencias pessoais, culturais, sociais, entre outras.

Na Celesc (Centrais Elétricas de Santa Catarina), todos os diretores fizeram o treinamento sobre vieses inconscientes, curso que foi estendido, de maneira on-line aos funcionários. Isso é importante porque a estratégia de diversidade da companhia está focada em atrair mais mulheres para o alto nível, objetivo que é uma contrapartida exigida pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), nos termos do financiamento obtido em 2018, de US$ 276 milhões. O foco no alto escalão se deve porque boa parte dos demais cargos são preenchidos por concurso público, uma vez que a empresa é estatal.

Para a consultora de diversidade de gênero Renata Moraes, da Impulso Beta, muitas empresas buscam apenas cumprir metas como um número determinado de treinamentos de diversidade, sem saber exatamente qual é o problema que quer resolver.

“Outras querem realmente ter diversidade e inclusão, mas vão atrás do que outras empresas estão fazendo, e não observam quais os seus problemas para determinar as soluções”, diz.

Na Unilever, além de várias ações e programas voltados a D&I, há grupos de afinidade para ajudar na educação dos funcionários. Um deles, e o Afrolever.

“Trata-se do grupo de afinidade que tem o objetivo de discutir questões raciais e desenvolver iniciativas para pessoas negras na empresa”, diz a gerente de equidade, diversidade e inclusão da Unilever, Luana Suzina.

 

EU ACHO …

A SÉRIO

“Não se leve tão a sério” virou um clichê surrado, vivem repetindo esse conselho nos nossos ouvidos, porém poucos escutam. A maioria continua se levando ridiculamente a sério enquanto faz pouco-caso da vida. Deveria ser o contrário.

A pessoa que se leva muito a sério torna-se patética. Ela é magoada de nascença, se deixa tomar pela vaidade, acredita mesmo que é muito especial, vive como se o mundo estivesse de olho nela o tempo todo. A pessoa que se leva muito a sério não compreende que mais vale um companheiro de bar do que um adulador, que as emoções genuínas são as melhores conquistas e que o resto são meras distrações enquanto a morte não chega. A pessoa que se leva muito a sério se preocupa demais com a opinião dos outros. E o mais incrível é que, enquanto ela gasta uma tremenda energia para manter uma autoimagem impecável. acaba se descuidando do que deveria realmente focar: sua postura em relação à sociedade.

Quanto mais a pessoa cultua o próprio umbigo, menos se dedica a cumprir seus compromissos com pontualidade, a oferecer uma palavra amorosa a alguém que precisa, a demonstrar seu interesse pelos que a cercam, a não deixar os outros esperando por uma resposta. Vive no planeta “eu” e desmerece o entorno – não está nem aí se deixa rastros de sujeira pelo chão, se descumpre regras de trânsito, se não retorna telefonemas e e-mails, se falta a consultas sem desmarcar antes, se é blasé com estranhos. Ela está muito ocupada levando-se a sério.

Inverta, criatura.

Somos um grão de areia, daqui a alguns anos nem seremos mais lembrados, a não ser que tenhamos sido generosos, agradáveis e tivermos repartido nosso conhecimento. Ninguém veio ao mundo para nos servir nem para ser servidos por nós: hierarquia é uma invenção de quem acredita que há distinção entre as pessoas. Temos todos a mesmíssima importância, que é mínima se avaliada individualmente, mas poderá ter alguma relevância se desapegarmos do ego. Baixemos a crista.

Leve a sério o sentimento dos outros. Leve a sério seus compromissos. Leve a sério seu trabalho. Leve a sério quem você ama. Assim, a vida flui, desliza, responde positivamente. Só então, não precisando correr atrás do prejuízo, não precisando consertar estragos, não precisando demorar-se em explicações e reatamentos, sobrará tempo e estímulo para a coisa mais séria que existe: divertir-se.

***MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

SUPLEMENTO DA VEZ

Febre das academias, biotina traz benefícios mas não é fórmula mágica

A nova febre das academias carrega altas promessas num só frasco: auxilia no emagrecimento, da mais resistência a cabelos e unhas, e impulsionar a força no treino. Mas a biotina – uma das vitaminas do complexo B e suplemento da vez nos modismos de saúde, justifica apenas em parte sua fama. Para especialistas, embora traga benefícios, nem todas as alegações têm comprovação científica.

Ainda que seja um nome relativamente desconhecido pelo público em geral, biotina não é nenhuma novidade da ciência. Também chamada de vitamina B (ou H), trata-se de um ingrediente comum em multivitamínicos e em produtos para a pele, cabelo e crescimento de unhas. Tem diversas fontes naturais que podem ser incorporadas à alimentação, como lentilhas, nozes, ervilha e aveia.

Na extensa lista de propriedades apregoadas, por gurus da alimentação e bem estar, a função mais garantida da biotina talvez seja a de ajudar a conservar cabelo, pele e unhas saudáveis.

“Esses benefícios são comprovados, porque ele atua na síntese da queratina, composto importante nessas estruturas do corpo. Ela também age estimulando a produção do colágeno, um dos componentes que dá sustentação da pele”, explica a nutricionista Priscilla Prima, metre em saúde pública pela Universidade de São Paulo.

Para quem busca uma solução mágica para o emagrecimento, por enquanto não há nenhum estudo que possa justificar o frisson.

“A biotina ajuda no metabolismo de gorduras, lipídios, mas não se sabe se ela de fato tem uma relação com o processo de emagrecimento ou de ganho de massa muscular. O que se suspeita é que, como ela ajuda na metabolização desses nutrientes para a geração de energia, a falta dela pode comprometer esses processos”, reforça Priscilla.

O médico nutrólogo Márcio Velasques, especialista em emagrecimento, pontua que a ação da vitamina de fato está ligada à ativação de enzimas que aceleram o metabolismo corporal, mas explica que os estudos para entender o potencial para redução de peso ainda não comprovaram uma relação.

“Algumas pesquisas, incluindo estudos em animais, sugerem que pessoas com diabetes tipo 2 poderiam se beneficiar da ingestão de suplementos de biotina para ajudar a regular os níveis de glicose no sangue. A pesquisa até agora não é conclusiva, porém. Essa regulação em tese, poderia promover o auxílio no processo de emagrecimento, mas também é necessário ampliar as pesquisas nesse sentido”, alerta.

USUÁRIOS FIÉIS

A empresária de Florianópolis (SC), Fernanda Póvoas, de 35 anos incluiu a biotina no seu dia a dia, há cerca de quatro anos, na expectativa de múltiplos efeitos.

“Tomo dois suplementos, um para cabelo, unhas pele, e outro para que o corpo não absorva tanto açúcar e gordura, sentir menos fome. Ele me ajuda bastante na questão da saciedade. É claro que é um c:onjunto de hábitos, como alimentação e atividade física, mas ajudou também a emagrecer”, couta Fernanda.

Entre os malhadores, o suplemento é procurado por um suposto ganho de energia, na hora de treinar. A médica Alessandra Heimbecher, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Microbiologia (SBEM), ressalta que, embora poucos, alguns estudos comprovam realmente esse potencial.

“Existem efeitos da biotina associados à potencialização do metabolismo, à regulação de glicose, à redução na resistência a insulínica, fatores que podem ser usados como benefícios para pessoas que treinam de forma a melhorar a performance”, explica Alessandra.

Os suplementos vitamínicos, em termos gerais, crescem no Brasil, apontam dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (Ablad). Os números mostram um aumento de 10% nos últimos cinco anos. Cerca de 59% das casas brasileiras tinham ao menos uma pessoa fazendo uso de um suplemento em 2020.

Entre essas pessoas, 85% dizem utilizar esses produtos para benefícios na saúde e 69% para a prática de atividades físicas. Pouco mais da metade (51%) dos usuários dizem ter o consumo orientado por um especialista.

Por ser hidrossolúvel (que pode ser diluída em água), a vitamina tende a ser eliminada pela urina caso haja ingestão excessiva. Segundo especialistas, seria preciso uma grande dosagem para fazer mal. O maior potencial de danos são distorções em resultados de exames.

“A dosagem recomendada por dia é de 30 microgramas, sendo que muitos suplementos contêm mais de 10 miligramas de biotina, então é uma quantidade brutal que de fato pode atrapalhar a interpretação dos testes laboratoriais”, diz Alessandra.

Em 2019, a Food and Drug Administration, órgão responsável pela regulação de medicamentos nos Estados Unidos, alertou para a possível interferência da biotina nos exames de troponina, uma proteína cujos níveis costumam servir para investigar problemas cardíacos.

“Por isso sempre informe ao seu médico ou nutricionista se está utilizando esse suplemento”, recomenda Velasques.

DEFICIÊNCIA VITAMÍNICA

O papel da biotina no funcionamento regular do organismo ébrutal, especialmente durante a gravidez, uma vez que se trata de um nutriente importante para o crescimento embrionário. Por isso, médicos chamam a atenção para quadros que podem levar à deficiência do nutriente, como o abuso de álcool e tabagismo.

Outra possível causa de carência da vitamina está relacionada a alterações no funcionamento do intestino, como por exemplo após a cirurgia bariátrica ou terapia prolongada com antibióticos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POR QUE A MASTURBAÇÃO INFANTIL AINDA É UM TABU NA SOCIEDADE?

Pais e filhos têm dúvidas e, surpreendentemente, ainda há pouca orientação disponível na literatura pediátrica

Aos 10 anos, eu estava focado lendo o exemplar do meu pai de “Coming of Ag in Samoa”, de Margaret Mead, o livro que o convenceu a se tornar um antropólogo quando me deparei com uma palavra: masturbação. Perguntei à minha mãe o que é e lembro-me da resposta dela: “Tocar-se por prazer sexual”. Ela falou de forma neutra e imparcial como a professora de inglês que era.

Isso foi útil quando, logo depois, adquiri o álbum original do elenco do musical “Hair”, que apresentava um novo conjunto de desafios do vocabulário. Pelo menos eu entendi a frase, ”A masturbação pode ser divertida”.

Vamos ser sinceros, a masturbação pode ser realmente divertida, mas acaba sendo um assunto que muitos pais se sentem constrangidos em discutir com seus filhos. Pais e filhos às vezes trazem suas dúvidas e preocupações ao pediatra, mas, surpreendentemente há poucas orientações ou informações disponíveis na literatura pediátrica. E em uma pesquisa informal com colegas da área, parece haver muita variação quanto abordar ou não o assunto.

Debby Herbenick, professora da Escola de Saúde Pública da Universidade de Indiana, que realizou pesquisas relacionadas à expressão sexual de crianças e adolescentes, afirma que, com um quebra-gelo para conversar com estudantes de graduação, ela mostra comentários sobre a Nimbus 2000, de Harry Potter, a vassoura vibratória a bateria.

Segundo Herbenick, se você olhar para os relatórios de cuidadores e pais, é muito comum ver observações de crianças tocando seus próprios genitais ou brincando com seus colegas envolvendo algum toque. Esses relatos diminuem acentuadamente em crianças um pouco mais velhas.

“Isso realmente é uma coisa normal, poderíamos estar falando mais sobre isso em vez de deixarmos a tarefa só para os pais”, diz Elizabeth Erickson, professora de pediatria na Universidade Duke, autora de um artigo de revisão sobre como os pediatras podem ajudar as famílias a compreender a masturbação.

Na fase da infância, as crianças pequenas descobrem: “Esta é uma parte do meu corpo que parece diferente quando eu a toco.”

“Crianças pequenas, crianças mais velhas, adolescentes e adultos tocando seus genitais e perfeitamente normal. Na verdade, existem imagens de fetos onde você pode ver que elesestão tocando o pênis ou a vulva. Onde nos confundimos culturalmente é que quando as crianças mais novas estão tocando seus genitais, elas estão fazendo isso porque e bom, assim como outras experiências sensuais são boas, como se despir e comer, mas os  pais interpretam isso como abertamente sexual”, explica Leslie Kantor, professora da Escola  Rutgers de Saúde Pública.

Assim, os pais dessas crianças pequenas costumam se preocupar. Podem achar que este é um comportamento aprendido, talvez sugestivo de abuso, em vez de uma parte orgânica e normal do desenvolvimento.

COMO LIDAR

Deacordo com Erickson, embora os pediatras assegurem aos pais que o comportamento não é patológico, nem sempre oferecem sugestões de como lidar com isso. Se crianças multo pequenas estão se masturbando em um lugar muito público, os pais podem tentar redirecionar a situação.

Para as crianças mais velhas, ele sugeriu explicar: “Tudo bem, mas é algo que fazemos em particular”, ajudando nesse processo pelo qual as crianças optam pela privacidade. Bonnie Rough, autora de “Beyond Birds and Bees: bringing home a new message to our kids about sex, love and equality” (Trazendo para casa uma nova mensagem para nossos filhos sobre sexo, amor e igualdade, em tradução livre), sugere que as crianças desenvolverão esse senso de intimidade por conta própria e que os pais devem ter cuidado para não enviar a mensagem – sutil de que a masturbação é uma prática vergonhosa.

Na puberdade e adolescência, a masturbação está muito mais ligada ao desenvolvimento da sexualidade e ao desejo de satisfação sexual.

“Embora haja muitas evidências de que meninas adolescentes se masturbam, nós deixamos as meninas fora dessa conversa quase totalmente”, conta Erickson.

Rough ressalta que os pais não devem ter medo de dizer às filhas que éótimo se tocar. São coisas positivas, saudáveis e normais que podem realmente ajudar você a se comunicar com um parceiro e aproveitar sua vida sexual.

QUANDO SE PREOCUPAR

Então, há momentos em que os pais realmente precisam se preocupar com a masturbação? Erickson destaca que se envolver outras crianças sem o consentimento delas é claramente um problema.

Em uma criança pequena, a masturbação persistente que não pode ser redirecionada pode sinalizar algum tipo de estresse ou possível abuso (e também vale apena verificar se há algum problema médico, causando coceira ou irritação).

E se as crianças têm problemas reais para entender o que e apropriado em público, à medida que envelhecem, isso também pode ser um sinal de outras dificuldades sociais ou de desenvolvimento neurológico, o que pode ser um grande problema para crianças no espectro do autismo, que lutam com toda a gama de sugestões e propriedades sociais. À medida que envelhecem, o comportamento sexual em ambientes inadequados ou as violações dos limites sociais podem colocar essas crianças em problemas sociais” até mesmo legais.

O “limite superior do normal” para adolescentes é estabelecido se começar a interferir na vida cotidiana ou se envolver objetos que possam causar ferimentos. Se a irritação for um problema, dê um pouco de loção ou lubrificante e não dê muita importância ao uso.

Mais importante, os pais devem lembrar que, exceto nesses casos raros, esta é uma atividade sexual normal, padrão, saudável e completamente livre de riscos.

“Pode ser uma boa maneira de conhecer seu próprio corpo, embora os pais possam querer acrescentar: “Mas, por favor, você não pode ficar no banheiro por uma hora”, explica Kantor.

E, finalmente, devo reconhecer a suprema e até heroicamente sensata Joycelyn Elders, a  quem o presidente Clinton forçou a renunciar como cirurgiã geral em 1994 depois que ela disse na Conferência das Nações Unidas sobre Aids que a masturbação era “parte da sexualidade humana”, e que pode ser possível educar os jovens sobre isso como uma alternativa segura para comportamentos mais arriscados.“A masturbação é um sexo completamente seguro, uma maneira de os jovens experimentarem prazer sexual não com outras pessoas, sem riscos, e isso também é uma coisa boa”, destaca Kantor.

OUTROS OLHARES

EDUCAÇÃO ERÓTICA

Erika Lust, a sueca que revolucionou a indústria pornô feminina, lança projeto educativo para encorajar pais e professores a encararem o ambiente on-line

Em um passado nem tão distante, crianças e adolescentes descobriam a pornografia quando encontravam uma revista ou um VHS mal escondidos em casa. Quem tinha sorte achava algo que contribuía positivamente para a vida adulta. A maioria, certamente, não. E agora? O que acontece com a geração que tem seu primeiro contato com o sexo pelo streaming, entre cenas misóginas, violentas e carregadas de imagens que o cérebro ainda em formação não está pronto para assimilar?

Foi pensando nisso que a maior diretora de filmes eróticos para mulheres, a sueca Erika Lust, acabou de lançar a “Porn conversation”, plataforma de conteúdos educativos criada em parceria com a sexóloga americana Avril Louise Clarke e a educadora sexual porto-riquenha Bianca Laureano.

Disponível on-line, o material está dividido em apostilas e direcionado para três faixas etárias: de 8 a 11; de 12 a 15; e mais de 16 anos. No trabalho, o trio convida pais e professores a encararem um assunto que costuma gerar calafrios: a pornografia na internet.

Temas como aceitação do corpo, questões de gênero, racismo, objetificação da mulher e sexualização de crianças e adolescentes permeiam o material sem fins lucrativos. Assim como os conceitos de consentimento e limites. “A verdade é que as crianças estão tropeçando em conteúdos pornográficos aos 9 anos. Não podemos acreditar que filtros ou apps servirão de escudos capazes de afastá-las disso tudo e nos excluir desta responsabilidade”, explica Erika, mãe de duas adolescentes, Liv e Lara, de 11 e 14 anos.

Desmistificar a pornografia – e entender sua necessidade, sobretudo no universo feminino – é, sem dúvida, uma das maiores especialidades da cineasta radicada em Barcelona desde os anos 2000. Dona de ideias visionárias, foi ela uma das principais responsáveis por detectar no mercado, há quase 20 anos, a escassez de produções eróticas voltadas para mulheres, livres dos estereótipos de gênero e a da fetichização nociva. Foi assim que, em 2004, lançou “The good girl”, curta em que as mulheres deixavam de ser mero objeto masculino e começavam a ter seus reais desejos retratados. Em 2007, com a série de curtas intitulada “Cinco histórias para ela”, estabeleceu-se definitivamente no segmento, até então também dominado pelo sexo masculino. Com o premiado “X-Confessions”, mix de plataforma de cinema adulto on-line e projeto de financiamento coletivo, transformou fantasias anônimas em curtas-metragens, com direito a cenas de sexo explícito e artístico. De lá para cá, dirigiu mais de 130 curtas e produziu outros 150, abrindo espaço para uma legião de diretoras dedicadas ao gênero.

Os filmes que levam a assinatura de Erika (ou de sua produtora homônima, comandada ao lado do sócio e marido, o argentino Pablo Dobner, com quem é casada há 20 anos) são famosos pela fotografia elegante. Chegaram a ser exibidos em salas de cinema convencionais em Berlim, Londres, Paris, Los Angeles e Nova York. “Quando me lancei na carreira, perguntavam muito se minhas filhas sabiam da minha profissão. Com o passar dos anos, me vi na porta do colégio respondendo a outras mães como poderíamos afastar as crianças da internet e seus conteúdos inadequados”, conta.

Pablo, o marido, endossa o pioneirismo de Erika, mas separa bem a pessoas física e jurídica: “Todo mundo pensa que essa mulher, que fala sobre sexo e pornografia com tanta naturalidade, é super extrovertida. Mas não. Ela gosta de ficar em casa, ler, viver com tranquilidade. E é dona de uma força que a faz sempre abandonar a zona de conforto e sair ao mundo para discutir ideias, mostrar o novo”, diz.

A cineasta, também formada em Ciências Políticas pela Universidade de Lund, na Suécia, ressalta a importância da postura dos pais, que devem evitar frases castradoras ou expressões de desapontamento, mesmo diante dos conteúdos mais duvidosos.

Defende que, já nas primeiras mudanças do corpo, assuntos que vão de masturbação até pornografia devem vir à tona e não precisam de conversas com hora marcada. “Podemos falar naturalmente, sem que se dê toda a importância do mundo. Se fizermos do diálogo grandes acontecimentos, as crianças tendem a se assustar ou mesmo se envergonhar. Uso sempre a tática: ‘Ah, agora que você está usando o tablet,sabia que pode aparecer muita coisa diferente por ali, né?’, diz Pablo Dobner.

Em casa, além de mãe, Erika também exerce o papel de sexóloga. Conta que já foi surpreendida, numa das festas do pijama das filhas, com uma pergunta sobre o que significava blowjob (termo em inglês para o sexo oral masculino).

“A verdade é que nossos filhos escutam tudo, pesquisam no Google melhor do que muitos de nós e, a partir daí, deparam-se com as mais variadas interpretações,” afirma.

Mesmo vivendo em uma cidade cosmopolita como Barcelona – e num dos bairros gays mais famosos da Espanha, o Eixample, onde a liberdade de expressão é pulsante -, a cineasta ainda se surpreende com a distância entre pais e filhos na própria vizinhança. “Lara e Liv já tiveram que emprestar absorventes na escola para as colegas, meninas assustadas com ‘aquele sangue que, de repente, escorria pelo meio das pernas’. Nossas crianças têm de conhecer o próprio corpo. Precisam estar preparadas tanto para a menstruação quanto para primeiras relações sexuais, que só devem acontecer quando elas quiserem, não replicando algo que viram pela internet. Precisamos entender que o sexo é algo que acompanha nossa vida desde sempre, assim como a pornografia”. Palavra de expert.

GESTÃO E CARREIRA

POR DENTRO DAS PROFISSÕES – METEOROLOGISTA

Uma usina hidrelétrica não pode ficar só na previsão do tempo do Jornal Nacional para operar. Nem uma mineradora, muito menos o agronegócio. Entenda o mercado de trabalho dos especialistas em prever o tempo.

Quais tecidos comprar para a coleção outono-inverno de uma marca? Em que momento iniciar o plantio, com a melhor chance de que haverá chuva na dose certa para as plantas? Quais são os lugares ideais para instalar uma usina de energia eólica?

A meteorologista Graziella Gonçalves brinca dizendo que é uma especialista em responder à pergunta: “será que vai chover?” Mas, claro, a função de profissionais como ela vai bem além disso.

No varejo, é bom saber se o próximo verão será quente o bastante para ampliar a demanda por aparelhos de ar condicionado. No agronegócio, se o clima vai bombar a próxima safra, ou colocá-la a perder.

Outro usuário dos serviços de meteorologia é o setor de mineração. Monitora-se, por exemplo, o risco de chuvas fora da curva sobre barragens de detritos – um trabalho essencial para a tomada de medidas preventivas. Hoje também é possível saber com uma hora de antecedência se uma área estará sujeita a raios – um inimigo natural do trabalho ao ar livre.

E quem não pode mesmo viver sem um prognóstico apurado de meteorologia é o setor de energia hidrelétrica. O balanço dessas companhias, afinal, depende do regime de chuvas. E uma seca prolongada o bastante pode minar o negócio. É o chamado “risco hidrológico”. Se ele for grande demais, uma operadora de usinas terá de se precaver comprando energia de outros produtores para cumprir seus contratos de fornecimento. O quanto antes ela souber disso, melhor.

E não dá pra fazer esse tipo de previsão olhando a previsão do tempo no Jornal Nacional. É preciso um serviço sob medida – prestado por empresas especializadas ou por áreas internas das empresas.

Entre as possibilidades de trabalho que meteorologia abre, Graziella fez um pouco de tudo. Atuou em consultoria, onde prestou assessoramento principalmente para o agronegócio. Trabalhou no Climatempo, elaborando os relatórios de previsão do tempo que a imprensa usa. E agora é funcionária da CTG Brasil, uma elétrica especializada na produção de energia limpa, onde avalia cenários de risco hidrológico.

Ela não se imaginava na profissão. “Eu achava que seria engenheira”, conta. “Queria alguma coisa na área de Exatas e que tivesse aplicações práticas. E gostava muito de informática. Mas não passei no primeiro vestibular, para engenharia da computação e, no cursinho, ouvi falar pela primeira vez em meteorologia.” De fato, é uma área para os apaixonados por Exatas. “Na chegada ao curso, você já encontra uma carga muito forte de cálculo. Depois, encara dois anos de física pura.” Muita gente desiste: na turma de Graziella, formaram-se apenas seis alunos, dos mais de 30 que iniciaram o curso.

Durante a faculdade a pesquisa é a atividade que revela jovens talentos para qualquer setor de atuação: “Contamos com laboratórios para as mais diversas áreas, como o de Instrumentação Meteorológica, Modelagem de Tempo e Clima, Sensoriamento Remoto da Atmosfera, Física da Atmosfera, Hidrometeorologia, Agrometeorologia, Previsão do Tempo e Meteorologia Ambiental”, diz Paulo Kuhn, diretor da Faculdade de Meteorologia do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará.

POLIGLOTA DIGITAL

Graziella cursou Meteorologia e Ciências Atmosféricas na USP. Atualmente, existem apenas 11 cursos de graduação na área reconhecidos pelo Ministério da Educação, todos realizados por universidades públicas. O foco é sempre na formação de profissionais capazes de obter dados de fontes variadas, como imagens de satélites, radares e estações meteorológicas, analisá-los e codificá-los de acordo com as demandas de cada mercado.

Elaborar laudos técnicos é parte da rotina, especialmente para quem se dedica às áreas de ensino e pesquisa. Mas a capacidade de informar diferentes públicos leigos também conta. “Em geral, quem escreve os textos lidos pelos apresentadores de TV são meteorologistas”, diz Graziella. “É preciso saber comunicar as conclusões técnicas aos públicos mais variados, incluindo gestores de empresas.”

A atividade é complexa. O profissional da área trabalha com modelagem de clima, rodando cenários de curto, médio e longo prazo, a depender da demanda do cliente – com uma dificuldade adicional: no longo, a margem de erro aumenta progressivamente. Na CTG, por exemplo, Graziella coleta dados e os transforma em simulações projetadas sobre mapas indicando a incidência de chuvas sobre as 17 usinas hidrelétricas da empresa.

Aliás, num cenário de mudanças climáticas, a carreira tende a se valorizar na direção do nicho de previsões a respeito do impacto sobre regiões específicas – algo que demanda trabalho contínuo. Também é possível trabalhar com desenvolvimento e construção de equipamentos meteorológicos.

“O meteorologista deve ser um profissional apto a perceber as mudanças ao seu redor, estar atualizado, ser dinâmico e estar integrado à sociedade”, resume Paulo. “Além dos conteúdos assimilados nas aulas teóricas e práticas, você utiliza diferentes linguagens de programação. O meteorologista é um poliglota digital.”

UM DIA NA VIDA

PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS

A profissão e dinâmica: pode atender a mercados variados.

ATIVIDADES-CHAVE

Fornecer previsões do tempo sob demanda, no curto, no médio e no longo prazo, de acordo com as prioridades de cada cliente.

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS     

Talento para matemática, física e programação; facilidade para traduzir conceitos ásperos em linguagem coloquial para comunicar-se de forma adequada com gestores de diversas áreas e setores.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÀREA   

Graduação em uma das 11 universidades credenciadas pelo Ministério da Educação.

QUEM CONTRATA

Consultorias, empresas privadas e universidades.

SALÁRIO MÉDIO

R$ 5,6 Mil

SALÁRIO ALTO*

R$12 Mil

• Fonte: Novo CAGED, e Social e Empregador Web.

EU ACHO …

O LADO SADIO DA DOENÇA

Já comentei que sou a legítima faísca atrasada. fui a última a namorar entre as minhas amigas do colégio e, claro, a última a transar. A última a trocar vinil por CD, a dirigir um carro com câmbio automático, a ter perfil nas redes. Por sorte, fui a última a contrair Covid também – me contaminei semana passada.

Quem mandou descuidar do uso da máscara durante um show? Atenção, plateias: a pandemia não acabou. Graças às três doses da vacina, nada de grave aconteceu, apenas fiquei uns dias isolada no quarto, prostrada na cama. Com o corpo moído e uma tosse seca, fora de combate, me restou pensar na vida.

Foi então que lembrei que o mundo não acaba se a gente tiver que parar. Má notícia para os narcisistas, mas para os simples mortais é uma libertação: você acorda mais tarde que o habitual, volta a dormir depois do almoço, dá outro cochilo à tardinha, tudo em plena terça-feira, e a vida que você construiu com tanta responsabilidade e disciplina não entra em colapso. Sua patroa não vai morrer se tiver que ela mesma cozinhar e lavar a louça Seus alunos contarão com uma professora substituta. Alguma vizinha dará uma espiada em suas crianças. Se você nasceu com privilégios, tem ainda menos motivo para se preocupar.

Os e-mails que você não respondeu continuarão aguardando seu retorno. Nenhum contrato será desfeito pelo atraso da sua assinatura A live cancelada será remarcada sem prejuízo aos rumos da Humanidade. As dívidas continuarão sendo pagas no débito em conta e as pessoas que precisam do seu suporte não darão nem um espirro enquanto você não se recuperar.

Conspiração mágica do universo: quando um pilar deixa de estar disponível, o outro se apruma.

Refleti também sobreo sentimento de culpa, que tanto nos atazana. Tive que atrasar um trabalho “urgente” e não consegui prestigiar um evento “imperdível”, e nenhum desses adjetivos se justificou. Meu humor não estava dos melhores e inco1nodei um amigo médico com alguns WhatsApps – paciência. E admirável nossa dedicação para conquistar o troféu de Melhor Pessoa, mas às vezes a gente passa por uma necessidade imprevista e vira um estorvo, um mala, fazer o quê? Adoecer é uma porcaria, desarruma um esquema que funcionava direitinho, nos enfraquece fisicamente e a cabeça também pifa um pouco, mas faz a gente enxergar que a correria insana dos dias não deixa de ser uma doença também. Queremos tanto ganhar tempo, mas fazemos o quê com o excedente? Acumulamos ansiedade, só isso.

Queria que ninguém mais fosse contaminado por esse maldito vírus, mas se for, que vire para o lado, durma mais um pouco, repouse e desconecte: contar com a solidariedade dos outros e aceitar que somos dispensáveis ajuda na cura.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

RELAXAR É UMA HABILIDADE. VEJA COMO COLOCÁ-LA EM PRÁTICA 

Beneficias foram estudados e podem mitigar uma ampla gama de condições físicas e mentais; método pode ser aplicado várias vezes ao dia, em qualquer lugar, e reduz a fadiga, o estresse e a ansiedade

Em algum momento de 2021, aprendi a fazer algo que suspeito que melhorará muito a maneira como lido com o que já parece ser um 2022 angustiante. Isso que aprendi parece trivial, uma prática tão simples que você pensaria que não haveria necessidade para instrução especial – e é provavelmente por isso que muitos de nós passamos a vida sem saber que existe uma técnica específica para fazê-la direito. O que é essa arte obscura? Aprendi a maneira correta de relaxar.

Não quero dizer que descobri os benefícios de ir com calma ou manter a calma diante da adversidade e deixar os problemas da vida escaparem das minhas costas. Digo mais literalmente: aprendi a relaxar meus músculos, a isolar propositalmente e sistematicamente cada parte do meu corpo e afrouxar a carne dos meus ossos.

E aprendi que fazê-lo regularmente, uma ou várias vezes ao dia, pode mudara vida mais ou menos instantaneamente. Para mim, o relaxamento muscular deliberado reduz imediatamente a fadiga, o estresse e a ansiedade. Ele cria uma espécie de sensação revigorante que pode ser alcançada em praticamente qualquer lugar e a qualquer momento. E fica mais eficaz quanto mais eu faço.

Passei a pensar no relaxamento como uma habilidade, quanto mais relaxo, melhor aprendo quais partes do meu corpo tendem a ficar tensas, como é essa tensão e como desbloqueá-la com a mente.

Isso pode parecer bobagem da Nova Era, mas os benefícios do relaxamento muscular foram estudados por décadas, e pesquisas descobriram que versões da prática podem mitigar uma ampla gama de condições físicas e mentais –  entre elas o transtorno de ansiedade generalizada, hipertensão, síndrome do intestino irritável, insônia, dor crônica, depressão pós-parto, alguns sintomas de esquizofrenia, alguns efeitos colaterais do tratamento do câncer, estresse entre estudantes e raiva e agressividade em adolescentes. Mas já disse o suficiente sobre o que o relaxamento faz. Aqui está como fazê-lo.

NA PRÁTICA

Um dos métodos mais utilizados é conhecido como relaxamento muscular progressivo, desenvolvido no início do século passado por Edmund Jacobson, um médico pioneiro na pesquisa sobre a conexão entre tensão física e bem-estar mental.

O insight de Jacobson foi que um músculo moderadamente tenso é indistinto – isto é, muitas vezes não percebemos na vida comum, que certos músculos estão em estado de tensão. Seu método de relaxamento é, portanto, um processo de duas etapas. Primeiro, aprenda a reconhecer a sensação de um músculo em particular quando ele está flexionado. Então, concentrando-se nesse músculo no estado flexionado, faça o oposto da flexão: relaxe.

Quando você está começando com o relaxamento muscular, pode ser útil reservar tempo e espaço para fazê-lo. Encontre 10 ou 15 minutos no dia em que você raramente seja perturbado. Procure um local tranquilo onde você possa se deitar em uma cama ou sentar em um sofá. Feche seus olhos. Faça algumas respirações profundas.

Agora vamos lá: comece nas extremidades – digamos, nas mãos. Apene-as e concentre sua mente no que sente. Qual é a sensação física de um punho cerrado? Quais músculos são ativados e como é a sensação de sua ativação? Depois de passar alguns segundos focando nesse aperto, você será capaz de fazer o oposto.

Ao respirar (descobri que o relaxamento é alcançado de uma forma melhor com a expiração), abra suavemente as mãos. Deixe de lado a tensão. Sinta sua mão afrouxando, tornando-se pesada, entrando em relaxamento.

Depois de repetir isso algumas vezes, você pode passar para outras partes. Seus braços: flexione seus bíceps, sinta a flexão e depois solte. Seus ombros: levante-os, depois solte-os. Sua boca: Sorria abertamente e sinta a força dos músculos do seu sorriso, então deixe seu sorriso ficar leve.

Continue assim por todo o corpo, tensionando e relaxando e, no final, prometo, você notará algo. No início, pode ser apenas uma sensação de calma, mas quanto mais você fizer isso, mais profundo será o relaxamento, eventualmente atingindo um estado tão feliz de bem-estar que pode ser difícil parar.

Em uma semana de férias na praia, no verão passado, passei uma hora ou mais todos os dias apenas relaxando – deleitando­ me com a euforia de um corpo no máximo de sua folga.

SONO

O relaxamento muscular também se tornou minha maneira de ir para a cama. Eu costumava ter muitos problemas para adormecer, agora eu me deito, inspiro e expiro em um ritmo lento e me concentro em deixar toda a tensão fluir para fora dos meus membros. Adormeço em 20 minutos.

Anos atrás, escrevi sobre como a meditação diária me ajudou a lidar com o caos da vida digital. Ainda medito com bastante frequência, mas reconheço que a meditação não é para todos. Há quem ache quase impossível aquietar a mente. Muitas pessoas me disseram que acharam a prática tão difícil que desistiram depois de uma ou duas sessões.

O relaxamento muscular está relacionado à meditação – aquietar o corpo é uma parte importante de aquietar a mente -, mas é muito mais fácil de entrar e muito mais portátil. Após as primeiras praticas, você começa a dominar sua tensão, a sentir como está inconscientemente contraindo partes do seu corpo ao longo do dia.

Uma vez que você começa a reconhecer essa sensação, o relaxamento muscular pode tornar-se uma atividade completa e permanente. A menos que você esteja operando máquinas pesadas, sendo perseguido por um urso ou enfrentando um perigo iminente, geralmente você pode relaxar quando quiser.

Eu me vejo relaxando em qualquer lugar, a qualquer hora – na fila do caixa do supermercado ou enquanto estou esperando minha companhia de seguros.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O QUE É MELHOR PARA A SAÚDE? ESTAR SOLTEIRO, CASADO OU DIVORCIADO?

Estudos recentes sugerem que a ideia de que casamento faz bem depende do bom relacionamento e não da instituição

Em 1858, um epidemiologista britânico chamado William Farr começou a estudar o que chamou de “condição conjugal” dos franceses. Ele dividiu a população adulta em três categorias distintas: os “casados”; os “celibatários” (pessoas que nunca se casaram); e, finalmente, os “viúvos”.

Usando registros de nascimento, óbito e casamento, Farr analisou as taxas de mortalidade relativa dos três grupos em várias idades. O estudo ajudou a estabelecer o campo das estatísticas medicas e mostrou que os solteiros morreram em “proporções excessivas” em relação aos casados. Já os viúvos, por fim, tiveram o pior resultado de todos.

Farr produziu um dos primeiros trabalhos acadêmicos relacionando o casamento à saúde. Os dados indicaram que pessoas casadas tinham vidas mais longas e saudáveis, de modo que o pesquisador concluiu que “o casamento é benigno” para a saúde.

Embora a pesquisa de Farr não tenha a mesma relevância para a realidade social do mundo de hoje – as três categorias excluem muita gente – a descoberta parece ter resistido ao teste do tempo.

Estudos contemporâneos, por exemplo, mostraram que pessoas casadas são menos propensas a contrair pneumonia, fazer cirurgia, desenvolver câncer ou ter ataques cardíacos. Um grupo de pesquisadores suecos descobriu que ser casado ou coabitar na meia-idade está associado a um menor risco de demência.

Um estudo sobre causas de morte na Holanda descobriu que, em praticamente todas as categorias, – desde mortes violentas, como homicídio e acidentes de carro, até certas formas de câncer – era mais provável que ocorresse com solteiros.

CASAMENTO ESTRESSANTE

Mas, embora o casamento esteja ligado a saúde e ao bem-estar, novas pesquisas têm apresentado uma visão mais sutil desta vantagem. Trabalhos mais recentes mostram, por exemplo, que o benefício do casamento não se estende àqueles em relacionamentos conturbados – nesses casos, a pessoa pode, inclusive, ficar menos saudável do que estaria se nunca tivesse se casado.

Casamentos estressantes podem ser tão ruins para o coração quanto o hábito de fumar regularmente. E, apesar de anos de pesquisas sugerindo que pessoas solteiras tem uma saúde pior, um estudo de 2009 concluiu que pessoas solteiras que nunca se casaram tem melhor saúde do que as que se divorciaram. 

Mesmo a Iniciativa Casamento Saudável, do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, faz a distinção entre relacionamentos “saudáveis” e “não saudáveis” ao discutir os benefícios do casamento.

“Quando separamos os bons casamentos dos maus aprendemos que é o relacionamento, e não a instituição, que é a chave”, disse a historiadora Stephanie Coontz, que também é diretora de pesquisa e educação pública do Conselho de Famílias Contemporâneas.

Algumas das pesquisas mais interessantes de hoje sobre a relação entre casamento e saúde são lideradas por um par de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Ohio: o casal Ronald Glaser e Jan Kiecolt-Glaser. Em uma delas, o casal adotou um pequeno dispositivo de sucção de plástico, usado por dermatologistas para deixar oito pequenas bolhas no braço, permitindo o monitoramento da resposta do sistema imunológico nos locais das feridas. Eles usaram o aparelho para medir a rapidez ou a lentidão com que feridas físicas cicatrizavam entre casais que haviam passado por diferentes níveis de estresse conjugal.

Os resultados foram notáveis. Após sessões em que os casais discutiam, suas feridas demoravam, em média, um dia inteiro a mais para cicatrizar do que após as sessões em que os casais debatiam algo agradável. Entre os casais que exibiram níveis especialmente altos de hostilidade durante brigas, as feridas levaram dois dias a mais para cicatrizar.

Kiecolt-Glaser disse que a lição geral de saúde a ser tirada da nova onda de literatura sobre casamento e saúde é que os casais devem primeiro trabalhar para reparar um relacionamento conturbado e aprender a lutar sem hostilidade e escárnio. Mas, se permanecer casado significa viver em meio a uma constante amargura, do ponto de vista da saúde, “é melhor sair disso”.

Em 2009, o Journal of Health and Social Behavior publicou um estudo que acompanhou a história conjugal e a saúde de quase nove mil homens e mulheres na faixa dos 50 e 60 anos. O estudo, que surgiu do trabalho de pesquisadores da Universidade de Chicago, descobriu que quando as pessoas casadas se tornam solteiras normalmente – seja por divórcio ou por causa da morte de um cônjuge – elas sofrem um declínio na saúde física que nunca retrocede.

Esses homens e mulheres tinham 20% mais problemas crônicos de saúde, como doenças cardíacas e diabetes, do que aqueles que ainda eram casados com o primeiro marido ou esposa na meia-idade. Os divorciados e viúvos também envelheceram menos graciosamente, relatando mais problemas para subir e descer escadas ou caminhar.

Talvez a descoberta mais impressionante tenha sido sobre pessoas solteiras que nunca se casaram. Por mais de 100 anos, os cientistas especularam que elas têm uma saúde pior do que os casados. Mas no estudo de Chicago, as pessoas que se divorciaram ou ficaram viúvas tinham problemas de saúde piores do que homens e mulheres solteiros a vida inteira. Um novo casamento ajudou apenas um pouco. Parecia curar feridas emocionais: os recasados tinham o mesmo risco de depressão que os casados continuamente. Mas um segundo casamento não parecia ser suficiente para reparar os danos físicos associados à perda conjugal. Em comparação com os casados continuamente, as pessoas no segundo casamento ainda tinham 12% mais problemas de saúde crônicos e 19% mais problemas de mobilidade.

“Acho que ninguém encorajaria as pessoas a ficarem em um casamento que as deixa realmente infelizes”, disse Linda J. Waite, socióloga da Universidade de Chicago e autora do estudo. “Mas a se esforçar para torná-lo melhor”.

CORAÇÃO PARTIDO

Outros pesquisadores também estudaram como o ”gotejamento” da negatividade pode corroer não apenas um casamento em si, mas também a saúde física de um casal. Uma série de estudos epidemiológicos sugere que casais infelizes estão em maior risco de ataques cardíacos e doenças cardiovasculares.

Em 2000, o The Journal of the American Medical Association publicou um estudo sueco de três anos com 300 mulheres hospitalizadas com fortes dores no peito ou ataque cardíaco. O estudo descobriu que aquelas que relataram os mais altos níveis de estresse conjugal eram quase três vezes mais propensas a sofrer outro ataque cardíaco ou necessitar de um procedimento.

É claro que todos os casais – felizes ou infelizes – estão fadados a experimentar algum tipo de conflito conjugal. Certamente, isso não significa que todos estão condenados a problemas de saúde, e alguns conflitos são melhores que outros.

OUTROS OLHARES

LAMBIDA DE CÃO PODE CONTAMINAR DONOS

Novo estudo revela que carinhos exagerados expõem a perigo de superbactérias

Deixar seu animal de estimação lamber o seu rosto ou comer do seu prato pode contribuir para a proliferação de superbactérias. É o que aponta um estudo que será apresentado no Congresso Europeu de Microbiologia Clinica e Doenças Infecciosas, no final deste mês. Oscientistas temem que cães e gatos estejam se tornando reservatórios potenciais para cepas de bactérias resistentes a antibióticos.

Os pesquisadores do Royal Veterinary College do Reino Unido e da Universidade de Lisboa, analisaram as fezes de humanos e animais que habitam em 41 lares portugueses e 45 britânicos. Foram incluídos, no total, 114 pessoas, 85 cães e 18 gatos.

As amostras foram testadas geneticamente para superbactérias. Cepas de E. coli resistentes a medicamentos foram achadas em 14 cães, um gato e 15 humanos. Estas bactérias podem ser fatais em alguns casos, porque são resistentes a vários antibióticos, como a penicilina.

Oscientistas acreditam que a transmissão destas superbactérias ocorre por via fecal-oral. Os animais lambem suas regiões intimas e outras partes de seus corpos, espalhando os micro-organismos resistentes pela superfície de seus pelos. Depois, seus donos entram em contato com eles e levam as mãos à boca antes de lavá-las, se infectando. Coletar as fezes do cão ou gato e não lavar as mãos logo depois também pode ser uma via de contaminação.

O estudo foi apenas observacional sem provar que os animais foram diretamente responsáveis pela disseminação de superbactérias.

Em entre vista a jornais, a pesquisadora Juliana Menezes diz que antes da pandemia a resistência aos antibióticos era uma das “maiores ameaças à saúde pública” pois pode tornar intratáveis condições como pneumonia, sepse, infecções e até feridas.

GESTÃO E CARREIRA

PROFISSIONAIS PLANEJAM CARREIRA RUMO A CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO

Por pressão externa, há mais espaços para mulheres e jovens em conselhos; executivos buscam cursos para desempenhar a função

A chegada ao conselho das organizações parecia uma jornada distante e exclusiva no passado, mas a relevância que tem ganhado nos últimos anos faz com que profissionais mais jovens e de áreas variadas olhem para as cadeiras com olhar especial. Com a vontade de ocupar um lugar onde decisões importantes são tomadas e mudanças estruturais podem ser feitas, eles correm atrás de capacitação e networking (rede de contatos).

Um fator que ajuda a explicar o planejamento de carreira para os conselhos é que, nos últimos anos, o mercado passou a vê-los como responsáveis pelos rumos da companhia. Uma vez mais vistos, eles também passaram a ser mais cobrados A bolsa americana Nasdaq, no ano passado, passou a exigir maior diversidade nos conselhos das empresas listadas.

A redução da idade na participação nos conselhos é outro ponto importante para incentivar novos conselheiros. Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Direito e Ética Empresarial (IBDEE) de 2021, conselheiros com menos de 50 ano estão em 74% das empresas.

”Para fazer o seu papel, o conselho não pode ser limitado em seu conhecimento. Não pode ser só ex-diretor financeiro ex-CEO. É preciso diversidade não só de etnia e gênero, mas também de experiência e geracional. Se todos os conselheiros tiverem em torno de 70 anos, pode ser que você tenha uma lógica de pensamento muito parecida”, explica José Lima, sócio da empresa de recrutamento de executivos e conselheiros Odgers Berndtson.

Essa variedade de perfis já aparece em algumas empresas. De um lado, há trajetórias tradicionais de fundadores que chegam ao conselho, caso de Luiza Trajano no Magazine Luiz. Por outro lado, o mundo dos conselhos ficou até mais pop,com a participação de famosos, caso da cantora Anitta, que integra o Nubank.

Todos esses pontos fazem com que Lima acredite que, em um futuro breve, é possível que os conselhos também sejam compostos por pessoas que não necessariamente passaram por funções executivas, mas que carregam conhecimentos importantes em questões sociais ou de tecnologia. Além disso, ele aponta, é preciso desvincular a função executiva da consultiva. “Existem diferenças fundamentais entre ser executivo e ser conselheiro e muita gente tem dificuldade em fazer a transição. Não entendem que o conselheiro não vai executar nada. Vai opinar.”

Essa questão é uma das preocupações de Kwami Alfama, CEO da Tereos. “O maior trabalho é fazer essa transição do executivo mão na massa para o conselheiro que está olhando para o futuro. Parece simples, mas é um processo difícil.”

CURSOS

Aos 46 anos, Alfama apostou na capacitação. Além da vivência executiva, ele participou por um ano do Programa de Desenvolvimento de Conselheiros da Fundação Dom Cabral. O curso ensina temas como governança, tomada de decisão e riscos e responsabilidades na atuação de conselheiro.

Segundo Dalton Sardenberg, professor de governança corporativa e coordenador técnico do programa, a formação éprocurada na maioria por executivos do C-Level. Em relação à idade, a maior parte dos alunos tem mais de 56 anos. O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) também é um dos mais reconhecidos capacitadores de conselheiros, com cursos oferecidos desde 1998. No ano passado, formou duas turmas, cada uma com 35 alunos. A diretora de desenvolvimento do IBGC, Adriane Almeida, explica que, além das responsabilidades legais do cargo, o foco da formação está nas softskills, como habilidade de trabalhar em grupo e poder de convencimento.

Hoje com 32 anos, Lisiane Lemos, especialista em transformação digital com passagem por empresas como Microsoft, pensava ser jovem para traçar uma carreira rumo ao conselho, mas percebeu que isso não era determinante. “No início, pensei que deveria ter trilhado mais caminhos, mas percebi que ser conselheira é sobre o conhecimento que você aporta.”

Para construir a sua trajetória, ela planejou quem deveria conhecer, que cursos teria de fazer e o investimento necessário. Buscou conhecimento em um MBA executivo e em um programa de capacitação de mulheres para conselhos, da escola de negócios Saint Paul.

VISÃODE DENTRO

Do lado de quem já chegou aos conselhos, a executiva Rachel Maia acredita não existir um perfil específico para ser conselheiro, mas é preciso muito estudo. Com uma trajetória que passou por altos cargos de empresas como Pandora, Lacoste e Tiffany ‘& Co, hoje ela é conselheira da Vale, da CVC Corp, do Grupo Soma e do Banco do Brasil.

“Ter pensamento estratégico é fundamental. Uma visão mais apurada do negócio, uma escuta mais ativa, além de prestar atenção nos mínimos detalhes e informações, podem te ajudar a traçar um plano estratégico. Fazer uma autoanálise, entender seus pontos de melhoria e ser mentorado (aconselhado)também é uma boa opção”, explica ela, que já foi mentorada por Luiza Trajano e por Pedro Passos, da Natura.

EU ACHO …

AFETOS E AÇÚCARES

Diariamente, homens e mulheres negociam seu medo de adultério e de abandono

Chico Buarque foi criticado por feministas. Motivo? A letra do clássico Com Açúcar e Com Afeto. A música é de 1967 e foi dirigida à voz de Nara Leão. A polêmica foi forte.

Obras de arte estão inseridas no tempo. Possuem uma dívida com aquele momento. Artistas são seres reais que compartilham as dores e as delícias de cada geração. Se quiser ser muito chique, use a expressão Zeitgeist, o termo alemão para o espírito do tempo.

Quer impressionar em grau platinum? Use o latim: Genius Seculi. Cada época e momento possuem seus próprios espíritos. Chico era uma pessoa aos 23 anos. A proximidade dos 80 pode tê-lo transformado.

Volto à música. É uma narrativa com início, meio e fim. Os jovens não sabem, mas, naquela época, as músicas continham narrativas. Algumas enormes, como Geni e o Zepelim. O filho de Sérgio Buarque de Holanda imagina uma mulher na faina de manter o marido em casa. Faz um doce que sabe ser do gosto dele. Inútil: alegando trabalho e o sustento da companheira, ele parte para a rua.

Após uma noite de vida boêmia e de flertes, ele volta implorando o perdão da resignada esposa. Vence o medo da solidão, o impulso materno-feminino, a vontade de cuidar e de possuir, proteger e restringir e ela sempre aceita: “E ao lhe ver assim cansado/ maltrapilho e maltratado/ Como vou me aborrecer?/ Qual o quê / Logo vou esquentar seu prato/ Dou um beijo em seu retrato/ E abro os meus braços pra você”.

Chico sempre foi o cantor da alma feminina. Que outra alma encarnada em um com testosterona poderia conceber uma das letras mais sensíveis da Língua Portuguesa: “Oh pedaço de mim”? (Oh, metade arrancada de mim/ Leva o vulto teu/ Que a saudade é o revés de um parto/ A saudade é arrumar o quarto/ Do filho que já morreu). Lirismo devastador e pungente.

Muitos homens se aproximaram da “alma feminina”. Quase sempre, foram gênios que projetaram muito do masculino (medo, em particular) sobre elas. Assim nasceram Capitu e Madame Bovary. Assim Rodin esculpiu e Picasso plotou as mulheres que maltratava na vida real. Assim foram feitas leis civis e eclesiásticas sobre corpos de fêmeas. Dessa forma eclodiram termos como “mulher honesta” e “abandono de lar”. Sim, a lei já não fala de dote ou da mulher honesta como categoria jurídica, apenas falou e formou mentes por muitas e muitas décadas.

Há algo que só as mulheres percebem de si. Compare-se Cordulina (personagem do romance O Quinze de Rachel de Queiroz) com Sinhá Vitória, (Vidas Secas, Graciliano Ramos). Dois textos separados por poucos anos (1930-1938), dois autores do Nordeste e o mesmo sertão castigado pela aridez como pano de fundo. A temática social, no caso, parece tornar o gênero tema secundário.

As esculturas da atormentada e talentos a Camille Claudel mostram, várias vezes, mulheres no desespero do abandono. Seu amante, Rodin, dá dimensão material ao beijo envolvente. O sonho masculino seria a entrega da companheira e o medo feminino seria o abandono?

O que Chico representou foi um medo e uma estratégia. Educada em sociedade patriarcal, a anônima esposa da música ama seu homem, tem medo de perde-lo, sabe da sua inconstância e, mesmo assim, o perdoa. De alguma forma, ela responde a um vazio estimulado pelos modelos conservadores: melhor um marido inconstante do que estar sozinha. Hoje pergunto a apenas você, querida leitora: há alguma amiga sua com a mesma conclusão? Prefiro infidelidade à solidão? Conheço algumas. Também sei de amigos que relevam coisas por preguiça, medo ou amor. Seria mais forte o homem que, por gostar da sobremesa, sempre volta à esposa? Sempre dizem que o homem tem duas cabeças. E sangue para preencher apenas uma de cada vez. Acrescentaria: três, na verdade, porque o estomago é um órgão pensante no corpo masculino. Nosso Zeitgeist exige isonomia de gêneros. É um grande avanço. Está nos discursos públicos, ainda não chegou aos lares. Diariamente, homens e mulheres negociam seu medo de adultério e de abandono. Uns fazem doces, outros trazem flores, alguns e algumas evitam comer osdoces com medo de que seu corpo deixe de ser atraente. Somos crianças medrosas, carentes, solitárias. Oshomens chamam o seu medo enorme de… masculinidade. As mulheres o denominam feminilidade. Outros dialogam com as duas vertentes e criam novas formas. Todos, todas e “todes” estamos aqui, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Ficou irritado ou irritada com “todes”. Gosto médio também. Apenas reconheço que nosso medo pode ter gramática, gênero, açúcar, afeto e cancelamentos póstumos. Encaro meu medo com ênfase. Ele sorri e volta, recalcado. Conhecer-me é minha única esperança na maturidade. Pelo menos, no fim, para não jogar sobre Chico minha própria desesperança e solidão.

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

O CIÚME NÃO PRECISA ACABAR COM UMA AMIZADE

Quando tratado corretamente, o sentimento pode levar a uma compreensão mais profunda de si mesmo e as relações ficam mais gratificantes. Veja como

Quando um amigo de Bob Bergeson o convidou para um jogo de basquete com outros novos amigos, ele se animou para ir. A noite lhe custaria quase US$ 400, valor que ele normalmente não gastaria assim. Mas a extravagância não era por devoção ao basquete; ele colocou a mão no bolso porque estava inseguro com sua relação já desgastada com o amigo, por que sabia que ele estava se aproximando de um novo grupo de pessoas.

”Ele começou a sair com os pais das amigas da filha, do time de futebol, e a falar deles com carinho, daí pensei: ‘Ele meio que arranjou novos amigos’. Eu precisava fazer parte para continuar me sentindo importante para ele”, contou Bergeson, de 42 anos, consultor de negócios em Denver.

“Assim como você pode perder um parceiro amoroso para outra pessoa, como amigo, também pode perder seu lugar”, disse Jaimie Krems, pesquisadora de amizade e professora-assistente de psicologia da Universidade Estadual Oklahoma, acrescentando que esse medo de ser substituído muitas vezes nasce do ciúme. E uma maneira de lidar com isso, segundo ela, é fazer algo que os cientistas sociais chamam de “guarda de amigos” – atitudes como elogiar ou derrubar um novo rival, por exemplo – para manter uma relação ameaçada. “Como todas as atitudes, há aspectos bons e ruins na guarda de amigos. “Falar para o seu amigo que você presa pela relação de vocês pode reforçar isso, mas falar mal do novo amigo pode causar uma ruptura.

Miriam Kirmayer, especialista em amizade e psicóloga clínica de Ottawa, em Ontário, informou que sentimentos de ciúme e inveja nas amizades eram bastante comuns entre seus clientes adultos, mas muitos se envergonhavam disso porque confundiam com um sinal de imaturidade. Pelo contrário, garantiu Kirmayer.

Quando tratado corretamente, o ciúme pode levar a uma compreensão mais profunda de si mesmo e, como resultado, as amizades ficam mais gratificantes. Veja como.

PERGUNTAS PODEM FORTALECER UM RELACIONAMENTO

“Sentimentos de medo, raiva e ciúme muitas vezes deixam as pessoas desconfortáveis, mas, como todas as emoções, evoluem para proteger o bem-estar. As emoções negativas nos alertam para o perigo potencial e nos motivam a tomar medidas preventivas”, explicou Mark Leary, professor de psicologia e neurociência da Universidade Duke.

Em cenários perigosos – em uma pandemia, por exemplo -, você pode lidar com sua ansiedade usando máscara e se afastando de multidões. Em situações menos dramáticas, como quando você pensa que está prestes a perder um amigo, pode tornar-se um ouvinte melhor ou ser mais animado.

Quando o ciúme vier à tona, comece questionando se você tem sido um bom amigo. Você pode se perguntar: “Que tipo de amigo eu quero ser?”. E talvez a resposta ajude a guiá-lo para traços que promovam a aceitação por seu círculo social, como ter mais compaixão e generosidade, por exemplo.

PROCURE PISTAS EM VOCÊ

 Identificar as origens dos seus sentimentos pode ajudá-lo a perceber possíveis gatilhos que piorem o ciúme. Se você já está duvidando de si mesmo no trabalho, por exemplo, pode presumir que a recusa a um convite para jantar é um sinal de um amigo se afastando.

Em outros casos, feridas não cicatrizadas da infância – cuidadores inconsistentes, por exemplo – podem torná-lo mais sensível à rejeição quando adulto. Para identificar esses potenciais gatilhos, faça perguntas como “Quais experiências do passado podem estar ligadas a esse sentimento?” e “Meu ciúme é desencadeado por circunstâncias da minha vida?”, avaliou Kirmayer.

Em vez de deixar o ciúme provocar respostas negativas, como acusações, você pode encarar essa emoção como um sinal para falar com seu amigo. Raramente nos perguntamos: “O que devo esperar de uma boa amizade?”, questionou Leary. Mas declarar suas necessidades e desenvolver limites podem solidificar a confiança.

A VERDADE NEM SEMPRE É CLARA

Quando o ciúme cresce, talvez o mais fácil seja supor que há algo errado com você. Mas, na maioria dos casos, isso está longe da verdade. ”Mesmo que nossos sentimentos sejam reais, nosso cérebro nem sempre nos oferece verdades objetivas”, afirmou Joel Minden, psicólogo clínico e professor da Universidade Estadual da Califórnia e autor de Shaw Your Anxiety Who’s Boss (Mostre à Sua Ansiedade Quem É o Chefe, em tradução livre).

Para gerenciar pensamentos autocríticos, Joel sugere que verifique se há outra maneira de entender a situação. Se seu melhor amigo cancelar seu encontro por telefone para ir jantar com um novo amigo, você pode pensar que é porque você é entediante ou um mau amigo. Mas se pergunte se há alguma evidência a favor ou contra essa ideia, ou se há “mais alguma explicação que seja mais realista”, aconselhou Joel, acrescentando que substituir pensamentos negativos por mais úteis pode aliviar o peso emocional trazido por suposições dolorosas. ”Meu amigo precisa de outros amigos” é mais fácil de engolir do que “meu amigo está me substituindo”.

REFORMULE PENSAMENTOS NEGATIVOS

Outra maneira de acabar com sentimentos negativos gerados pelo ciúme é encontrar maneiras de ficar feliz pelo seu amigo, apontou Sara Konrath, pesquisadora de empatia da Universidade Indiana. Segundo ela, em vez de ficar remoendo a ideia de como a nova amizade do seu amigo afeta você, pense: “Estou feliz por ele ter outra pessoa com quem se sente conectado”.

Quando priorizamos a empatia nas amizades, os lembretes de quanto nossos amigos significam para nós e de quanto significamos para eles podem moderar o ciúme.

Quanto a Bergeson, ele se divertiu no jogo e seu ciúme acabou. “Meu amigo fez questão de se divertir comigo, e isso aliviou meu medo de perder a amizade dele.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

‘FOGOS DE ARTIFICIO’ EM UM CÉREBRO APAIXONADO

Neurocientista Stephanie Ortigue, que estuda os efeitos do sentimento amoroso no corpo, conta como a paixão mudou sua vida e suas pesquisas

Podemos sobreviver sem o amor? Por muitos anos, a neurocientista Stephanie Ortigue acreditou que a resposta era “sim”. Mesmo que pesquisas e a ciência por trás das conexões humanas Stephanie – filha única que entre seus 20 e 30 anos estava contente com o status de solteira – não conseguia entender completamente a importância delas na própria vida.

“Eu dizia a mim mesma que ser desapegada me tornou uma pesquisadora mais objetiva: eu poderia investigar o amor sem estar sob o seu feitiço”, escreveu em seu novo livro, “Programada para o amor”. A jornada de uma neurocientista por meio do romance, da perda e da essência da conexão humana” (em tradução livre).

Mas, então, em 2011, aos 37 anos, ela conheceu John Cacioppo em uma conferência de neurociência. Cacioppo, que popularizou o conceito de que a solidão prolongada pode ser tão toxica para a saúde quanto o tabagismo intrigou Stephanie. Os dois cientistas logo se apaixonaram profundamente um pelo outro e se casaram. Ela pegou o sobrenome dele e eles tornaram-se colegas na Escola de Medicina Pritzker, da Universidade de Chicago.

“Programada para o amor” é a história neurobiológica de como o amor reprograma o cérebro. É também uma história de amo pessoal – que tomou um caminho triste quando Cacioppo morreu de câncer, em março de 2018.

Nesta entrevista, Stephanie discute o que exatamente o sentimento provoca no cérebro, como combater a solidão e como o amor é, na verdade, fruto da imaginação.

VOCÊ VIVIA FELIZ COMO SOLTEIRA, DEPOIS SE CASOU E PERDEU SEU MARIDO. COMO CONHECÊ-LO INFLUENCIOU SUA PESQUISA?

Quando nos conhecemos, conversamos por três horas e não senti o tempo passar. Sentia euforia, resultante da onda de dopamina. Eu fiquei corada, um sinal da adrenalina. Nós nos aproximamos, fisicamente, e começamos a imitar um ao outro. Isso foi devido aos neurônios-espelho, uma rede de células cerebrais que são ativadas quando você se mexe ou sente algo, e quando você vê outra pessoa se mexendo. Quando você tem uma forte conexão com alguém, esse sistema ´´e reforçado. Então nós logo nos tomamos “nos”. Quando John estava doente, eu ia às sessões de radioterapia com ele. Nós dividimos uma cama de hospital. Estávamos sempre juntos.

O QUE ACONTECE COM O CÉREBRO QUANDO NOS APAIXONAMOS?

A primeira coisa que percebemos quando estamos nos apaixonando é o quanto aquilo é bom. E porque o cérebro libera neurotransmissores que melhoram nosso humor. É como se houvesse fogos de artifício biológicos. Nossa frequência cardíaca é elevada, as taxas do chamado “hormônio do amor”, a ocitocina, aumentam, o que faz com que a gente se sinta conectado. Nossos níveis do neurotransmissor norepinefrina também aumentam, o que nos faz perder a noção do tempo. E a adrenalina também fica elevada, o que expande os capilares em nossas bochechas e nos foz corar. Enquanto isso, nossas taxas de serotonina, um hormônio chave na regulação do apetite e de pensamentos ansiosos, caem. Então, podemos acabar comendo irregularmente ou nos fixando em pequenos detalhes, como em “dizer as palavras perfeitas” e depois repetir o texto repetidamente em nossa cabeça. Já começamos a sentir uma profunda sensação de calma e contentamento. O amor romântico parece realmente um superpoder que faz o cérebro prosperar.

O AMOR É NECESSÁRIO PARA A SOBREVIVÊNCIA?

O amor é uma necessidade biológica, assim como água, exercícios ou comida. Minha pesquisa me convenceu de que uma vida amorosa saudável – o que pode incluir um parceiro, um círculo de amigos, uma família ou até seu time favorito – é tão essencial para o bem-estar quanto uma boa dieta. O amor, nessa visão holística, é o oposto da solidão. Quando olhamos pua a ausência de relacionamentos positivos, vemos uma cascata de desvantagens físicas e mentais, desde depressão até pressão alta, diabetes e fragmentação de sono. Seu cérebro envia sinais para dizer que você precisa ajudar seu corpo social. Alguns dos alarmes ativados quando as pessoas estão com sede são acionados quando elas se sentem socialmente desconectadas. E vital não suprimir esses sentimentos.

EXISTE AINDA UM ESTIGMA EM ADMITIR NOSSA SOLIDAO?

Ninguém fica culpado quando está com sede, certo? Então, não deveria se sentir culpado quando está solitário. Existe um paradoxo na solidão: nós queremos nos aproximar dos outros, mas a mente solitária está sozinha há tanto tempo que detecta mais ameaças – imprecisas, é claro – e fazcom que você queira se afastar em vez de se aproximar das pessoas.

QUAL CONSELHO VOCÊ DARIA PARA QUEM SOFRE PARA ENCONTRAR UM AMOR OU SE CONECTAR COM OUTRAS PESSOAS?

O amor não precisa ser dirigido a uma pessoa. Se você está realmente apaixonado pela vida, pelo seu proposito ou por um hobby. Isso pode também ser um amortecedor contra a solidão.

COMO PODEMOS AJUDARA S PESSOAS PELAS QUAIS TEMOS CARINHO E QUE ESTÃO ISOLADAS?

Durante anos, as pessoas pensaram que, para ajudar os solitários, é preciso juntá-los. Mas a pior coisa que você pode fazer por alguém solitário e tentar ajudá-lo sem pedir ajuda em troca – um conceito baseado em ajuda e promoção mutuas. Podemos pedir conselhos a elas. Ser tratado com respeito e de uma forma como se o outro dependesse de você, sendo levado a entender a sua própria importância, é algo que podem dar a uma pessoa solitária a sensação de valor e pertencimento, e isso diminui os sentimentos de isolamento.

O AMOR À DISTÂNCIA, O AMOR DEPOIS DE UM TERMINO OU O AMOR POR ALGUÉM QUE MORREU AFETAM O CÉREBRO IGUALMENTE?

Sim, você pode permanecer conectado com outros mesmo quando estiver fisicamente sozinho em seu quarto. Feche os olhos agora e pense na pessoa que você mais ama no mundo. Agora, pense na última vez em que você fez dar uma boa risada. Isso faz você voltar a sorri r? Nós guardamos essas memórias positivas em nossas mentes, e podemos acessá-las a qualquer momento. Nós temos o controle remoto.

OUTROS OLHARES

NUNCA É TARDE

Mulheres que se descobriram lésbicas após os 30 anos narram experiências

Nem cedo, nem tarde, mas no tempo de cada uma. Nunca, desde que o termo passou a ser usado nosanos 1980, o fenômeno das late­blooming lesbians (ou lésbicas tardias) despertou tanto debate sobre a sexualidade feminina. Cada vez mais se fortalece um entendimento de que não importa se a mulher se descobriu gay depois de anos de vida heteronormativa ou se ela continua a gostar de homens mas se entregou a uma história de amor como a atriz Maitê Proença, de 64 anos, que engatou romance com a cantora Adriana Calcanhotto. O fato éque as mulheres nunca foram tão livres.

E o conceito de lésbicas tardias tem ajudado muito nessas descobertas. Coordenadora do Grupo de Estudos e Lesbianidades da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a professora Joana Ziller explica que os relatos de mulheres que optaram por uma relação homoafetiva depois dos 30 se intensificam à medida da quebra dos preconceitos contra      pessoas LGBTQIA+. Ziller pontua que não há uma explicação concreta para o fato de mulheres se sentirem atraídas por outras na idade mais madura. Cada caso éum caso. Mas, com maior aceitação de outras possibilidades de relacionamentos, essas experiências têm se tornado mais comuns.

“O termo late-blooming lesbians chega a ser poético por representar uma mulher que floresce como lésbica após a juventude. Mas, como quase tudo relacionado à sexualidade humana, não há resposta para esse fenômeno. E muito importante se questionar: o desejo floresceu realmente depois dos 30 anos ou a heteronormatividade foi tamanha que impossibilitou de se pensar no assunto?”, questiona Joana.

Na peça autobiográfica “o pior de mim”, em cartaz no Teatro Prudential, no Rio, a atriz Maitê Proença, de 64 anos, revisita episódios marcantes de sua vida. Lançado virtualmente em 2020, o espetáculo traz, entre outros temas, comentários da atriz sobre homens e machismo. Em entrevista à revista Quem, Maitê falou sobre o relacionamento que assumiu publicamente com Calcanhotto, no ano passado. Embora goste de homens, ela disse apenas que se encantou por Adriana, que por sua vez gosta de mulher. E foi tudo.

‘ME ARREPIEI TODA’

Outros relacionamentos florescem no rastro dessa liberdade. A psicóloga Maria Rita Lemos se descobriu lésbica aos 50 anos, após três décadas se relacionando com homens. Maria Rita, hoje com 74, conta que levava uma vida nos “moldes tradicionais”: casou-se cedo, gerou duas filhas e, após ficar viúva, conheceu um outro homem com quem teve mais um filho. A época, nem passava pela sua cabeça a possibilidade de se relacionar amorosamente com uma mulher. Mas isso mudou no dia 16 de outubro de 1998, quando, em um bate-papo virtual, ela conheceu a motorista de aplicativo Fulvia Margotti, de 60 anos.

“Eu me apaixonei pela foto de perfil dela. Ela estava de farda e segurando um cachorrinho. A Fulvia tinha tudo o que eu procurava, mas eu não sabia como seria nossa conexão física presencialmente, porque nunca tinha tido experiência com outra mulher. Quando nos vimos, ela encostou no meu braço no carro, me arrepiei toda”, lembra Maria Rita, que gosta de contar em detalhes seu encontro para ajudar na desconstrução de sentimentos de culpa de outras mulheres.

Apesar de Fulvia ter sido sua primeira e única experiência homoafetiva, Maria Rita diz que em momento algum ficou apreensiva em relação à fluidez de sua orientação sexual:

“Minha esposa me satisfaz em todos os sentidos da vida. O companheirismo é total e a vida sexual melhorou. Não gosto de rótulos. Desde que nos conhecemos, não tive mais interesse por homens e nem por outra mulher”, conta Maria Rita, casada com Fulvia há 24 anos.

O encontro com a própria sexualidade não foi tão tranquilo para a aposentada Willman Delacio, de 74 anos, que descobriu que gostava de mulheres aos 38. Na época, vencida pelo preconceito, a possibilidade de um namoro homoafetivo era nula. Mas, ao dar início a um processo de divórcio, se percebeu interessada por uma colega de trabalho. Naquele momento, realizou que não sentia paixão nas antigas relações porque gostava de mulheres. Este ano, ela completa 28 anos de casada com Ângela Fontes:

“Eu sabia que não sentia prazer com o meu ex-marido, mas não entendia o motivo. Depois dessa experiência, só me relacionei com mulheres e hoje tenho a sorte de dividir a vida com a Ângela”, conta Willman, que não teve problemas em contar sobre sua descoberta para a família. 

AMADURECIMENTO AFETIVO

Por se descobrirem lésbicas após os 30, grande parte das late-bloomers já foi casada com homens e tem filhos. De acordo com a psicóloga Fabiana Esteca, que estuda gênero e sexualidade humana, toda essa descoberta requer muito conhecimento e independência para vencer barreiras sociais e, por isso, acontece em idade avançada. E como se fosse possível viver uma “segunda adolescência”, com a maturidade.

“Depois dos 30 existe um amadurecimento afetivo sexual, uma apropriação do próprio corpo. Elas se permitem experimentar outros tipos de relacionamentos e se encontram. Existe também uma parcela que tem uma sexualidade fluida e vai sentir atrações diferentes ao longo da vida”, explica Fabiana, observando que éimportante que essas mulheres sejam acolhidas pela família e pelos amigos.  “As late-bloomersconstroem uma identidade social pautada na heterossexualidade. Ao se assumirem, muitas são tidas como farsantes, como se estivessem a todo esse tempo dentro do armário, o que não é a verdade. Esse questionamento faz elas duvidarem da própria sexualidade novamente e é o momento onde surgem conflitos internos.

GESTÃO E CARREIRA

JORNADA ALÉM DE 6 HORAS REDUZ PRODUTIVIDADE

Capacidade de concentração tem limite diário, e cérebro exige pausas para descanso para se manter criativo, explica neurocientista; hiperconectividade agrava a situação

Você precisa de quatro horas para terminar as tarefas do dia no trabalho, mas precisa estar online nas quatro horas restantes de seu expediente. Em geral, ou você passa esse tempo se sentindo mal por não estar produzindo, ou procrastinando e tendo de fazer até horas extras. Ao fim, você está esgotado, improdutivo e cansado.

Existe um limite para o nosso cérebro e, sem descanso, nossa capacidade produtiva cai e a frustração domina, diz Thais Carneiro, neurocientista e fundadora da consultoria Nêmesis. “Agente até consegue se forçar a continuar, mas no dia seguinte vai perceber que enviou um e-mail errado, esqueceu alguma data ou não deu atenção a algo importante”, diz Thais.

Sabe quando você está travado em algum problema? Chegou a hora de uma pausa, recomenda Thaís.

Mas existe um número ideal de horas de trabalho? Não há resposta exata, diz ela, mas não costuma passar de seis hora diárias. “Quando estamos focados, ativamos uma rede (neural) chamada TPN. Quando você está se distraindo, ativa uma outra, chamada DMN, responsável por ajudar a gente a ser mais criativo. Sem descanso, a criatividade e a inovação são afetadas”, diz a neurocientista.

CONSEQUÊNCA

O trabalho e um fator importante na formação da nossa identidade, diz Wanderley Cintra, psicólogo especializado em avaliação de desempenho. Quanto menos você conseguir dividir o pessoal do profissional, diz ele, maior os desgastes físico e emocionais. “Por trás do elogio você se dedica muito’ vem a expectativa de crescer. Mas isso nem sempre acontece”, diz Wanderley.

Luci Praun, professora do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Acre (UFAC), diz que a lógica de oito horas de trabalho, oito horas de lazer e oito horas de descanso, comum no século 19, deu lugar a flexibilidade na jornada de trabalho. “Você tem de ler centenas de grupos de WhatsApp das empresas. Eles funcionam no fim de semana, na madrugada, não tem horário. Todo mundo quer resolver tudo rápido”, afirma.

Thaís Gameiro lembra que a hiperconectividade faz com que nossa jornada seja muito maior, e acabamos ficando 24 horas por dia e sete dias por semana preocupados com o trabalho. “Para você conseguir fazer bem o seu trabalho, vocêprecisa ter foco e isso exige muito da nossa fisiologia. Ninguém consegue fazer tudo ao mesmo tempo.” Com isso, há uma relação conflitante e extenuante, conclui a neurocientista, entre o quanto nosso cérebro aguenta trabalhar com qualidade (6 horas), o quanto somos obrigados a trabalhar por contrato (8 horais) e o tanto a que precisamos prestar atenção ao longo do dia pelo celular (o dia inteiro). Por isso, reconhecer os limites do seu corpo é importante para não ir além do saudável, sugere Wanderley: “Também saber dizer não para o que não faz parte do seu escopo de trabalho ou, você simplesmente não sabe fazer pode te ajudar a organizar as demandas, sem exagerar.”

EU ACHO …

ASSINATURA NÃO VALE MAIS NADA

No mundo digital. clicamos “aceitar” sem saber do que se trata

Quando criança, ainda ouvia histórias de pessoas desavisadas que assinavam papéis em branco e depois perdiam tudo. Eram pobres analfabetos da roça, enganados por vigaristas. Mas a vigarice sempre estava à espreita, era preciso tomar cuidado. “Só assine depois de ler”, aconselhava meu pai. Com as orelhas espetadas, ouvi e segui pela vida com atenção. Cheque em branco (na época que se usavam cheques) nunca dei. Perdi amigos que só queriam uma “quebradinha de galho”, cravando meu nome em algum documento. A maior parte das vezes, o tempo mostrou, eu estava certo, e ser antipático me livrou de golpes.

Com o passar do tempo, os contratos se tornaram insondáveis. São tantos detalhes e possibilidades que eu não entendo. É isso ai. Você é capaz de entender um contrato, inteiramente? Certa vez, contratei uma advogada. Combinamos que ela não teria comissão, mas valor fixo. No final, ela me veio com 30% a mais. Nosso acordo era oral, e ela me esfregou no nariz: havia, sim, uma cláusula de comissão. Eu é que não tinha entendido. Respondi: ” Tenho que contratar um advogado para entender o contrato que meu advogado faz?”. Paguei e nunca mais trabalhei com ela.

Tudo isso é fichinha perto de hoje em dia. Eu aceito termos e compromissos pelos aplicativos a maior parte do tempo. Sem ler. Suponho que ninguém lê aqueles contratos imensos, com mil possibilidades, para você ter direito ao aplicativo. É enlouquecedor. Já tentei não assinar. O celular ou computador paralisam. Impossível continuar com a operação.

Isso acontece o tempo inteiro, inclusive em atualizações. Às vezes me pergunto: que decisão foi tomada sobre minha vida? Corro o risco de ser processado por algo que não sei? Fico sempre muito irritado. Assinar, concordar com algo que não li me dá uma terrível sensação de insegurança. Pode estar exigindo que eu entregue meus direitos autorais para uma suspeita empresa no Alasca, e um dia a realidade baterá à minha porta.

Imagino que, se um dia algum desses gigantes da internet vier para cima dos míseros assinantes, sairemos ganhando. Quem comandar o tribunal haverá de entender o vácuo em que caímos ao assinar um desses documentos. Espero! O número de assinaturas que fornecemos no dia a dia é tão grande que não dá pra ter ideia nem mesmo do que elas significam. Eu não sei se os países deveriam acabar com esse descalabro, ou se nós mesmos deveríamos entrar com recursos legais para simplesmente não assinar. Assinatura não vale mais nada, nesse universo digital. A gente dá o.k. porque quer continuar navegando. É só isso. Acho que teríamos o direito de receber documentos simples de aceitação, com três linhas, fáceis de entender. Não me refiro a compras digitais, essas, sim, costumam ser claras. Mas nesse caso eu quero comprar e alguém quer me vender. A lei ainda vai ter de olhar para esses contratos digitais.

Disse acima agorinha que assinatura não vale mais nada. Mas e se valer? Ui, ui.

É que, enquanto isso, eu continuo assinando, assinando…

*** WALCYR CARRASCO

ESTAR BEM

A DIABETE GESTACIONAL ESTÁ AUMENTANDO. QUAIS OS RISCOS?

A mãe pode enfrentar pressão alta e parto por cesariana e a criança pode passar por parto prematuro e ter diabete tipo 2 no futuro

O médico Mark Landon trata gestações de alto risco em suas clínicas na Ohio State University há 40 anos e realiza pesquisas clínicas sobre as complicações da diabete gestacional, o tipo que se desenvolve durante a gravidez. Nos últimos 15 anos, ele diz ter visto algo bastante preocupante: a duplicação de casos. “Isso é preocupante do ponto de vista da saúde pública”, afirma Landon, professor e presidente do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Ohio State University. “É um prenúncio perturbador para um aumento semelhante no futuro da diabete tipo2 na população.”

Evidências crescentes sugerem que o que Landon viu em seu consultório está sendo experimentado pelos Estados Unidos: houve um aumento surpreendente e continuo na diabete gestacional nos últimos anos que incomoda muitos especialistas. “O aumento é impressionante e alarmante” diz Sadiya Khan, professora associada de medicina da Faculdade de Medicina Feinberg da Northwestern University e principal autora de um estudo recente que descobriu que a taxa de diabete gestacional aumentou de 47,6 para 63,6 por 1.000 nascidos vivos entre 2011 e 2019. “Não apenas vimos um aumento, mas ele aconteceu em um curto período de tempo.”

O estudo examinou dados do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde de 12.610.235   mulheres com idades entre 15 e 44 anos que tiveram seus primeiros bebês. “Houve um aumento consistente a cada ano de 3,7%”, explica Khan. “As minorias ainda têm as maiores taxas, mas a mudança ao longo do tempo foi semelhante em todos os grupos.”

Ela e sua equipe começaram a estudar dados mais recentes e dizem que o aumento deve continuar. “As estimativas preliminares são um salto de 6,9% (de todas as gestações) em 2019 para 7,8% em 2020”, conta.

O QUE É

A diabete gestacional ocorre quando o corpo não produz insulina suficiente, o hormônio produzido pelo pâncreas que controla a quantidade de glicose no sangue e ajuda a regular o metabolismo dos alimentos. Durante a gravidez, o corpo produz hormônios adicionais e sofre outras alterações, como ganho de peso, fazendo com que as células usem insulina de forma menos eficaz – condição chamada de resistência à insulina -, resultando em aumento de açúcar no sangue.

O risco de pressão alta na gravidez aumenta e também as possibilidades de ter um bebê grande, que precisa de parto por cesariana. O bebê também corre mais risco de ser prematuro, o que pode resultar em problemas respiratórios, bem como no desenvolvimento da diabete tipo 2 no futuro. Embora os níveis de açúcar no sangue da mãe geralmente voltem ao normal após o nascimento, cerca de metade dessas mulheres desenvolve diabete tipo 2 mais tarde, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). A diabete gestacional também aumenta o risco de uma mulher desenvolver doenças cardiovasculares, de acordo com a Associação Cardíaca Americana.

“A diabete gestacional é um problema muito comum”, observa Camille Powe, professora-assistente de obstetrícia, ginecologia e biologia reprodutiva da Harvard Medical School e codiretora do programa de diabete na gravidez do Hospital Geral de Massachusetts. ”As taxas estão aumentando e precisamos descobrir a melhor forma de preveni-la, tratá-la, tomá-la mais fácil para os pacientes e prevenir suas complicações de saúde a longo prazo.”

As grávidas geralmente passam por triagem para diabete gestacional entre 24 e 28 semanas, às vezes mais cedo se tiverem fatores de risco óbvios. Especialistas descrevem a obesidade como o maior perigo, então o aumento da diabete gestacional não é surpreendente, já que a epidemia de obesidade também está aumentando nos EUA, saltando de 30,5% entre adultos em 1999-2000 para 42,4% em 2017- 2018, de acordo com o CDC.

Outros fatores de risco incluem um histórico familiar de diabete tipo 2, ter mais de 25 anos na gravidez, ter tido diabete gestacional durante uma gravidez anterior, ter dado à luz um bebê anterior com peso superior a 4 quilos ou ter tido gêmeos ou trigêmeos e ter a síndrome do ovário policístico, condição que muitas vezes é acompanhada de resistência à insulina. Fumar também aumenta o risco. Alguns especialistas dizem que a genética também pode estar envolvida.

“O maior fator de risco é claramente a obesidade”, garante Landon. Ainda assim, nem toda mulher que desenvolve diabete gestacional tem fatores de risco óbvios. “Muitas pessoas em meu consultório ficam surpresas por terem diabete gestacional”, admite Powe.

Mesmo quem tem fatores de risco pode achar o diagnóstico inesperado. “Fiquei chocada”, lembra Emily Mann Fengya, de 37, de Vallingford, Connecticut. Ela pesava 104 kg e media 1,70 m antes de sua primeira gravidez e tem um forte histórico familiar de diabete. Mesmo assim, “eu nunca tinha ouvido falar disso antes, e não entendi a gravidade até estar grávida”, relata.

Os especialistas culpam o aumento, pelo menos em parte, da fácil disponibilidade de alimentos processados baratos que tendem a ser ricos em açúcar e gordura, e estilos de vida sedentários, que contribuem para a obesidade. Eles também dizem que mais mulheres estão adiando a gravidez – a idade também é fator de risco para diabete tipo 2.

PANDEMIA

Provavelmente a pandemia também acrescentou fatores adicionais ao aumento mais recente, avalia Khan. “O crescimento se baseia em aumentos que já estavam acontecendo”, ela revela, citando “estresse, atividade física limitada por causa do isolamento e más escolhas alimentares durante os lockdowns”.

Kartik Venkaresh, obstetra de alto risco e epidemiologista perinatal do Wexner Medical Center da Ohio State, aponta que aconselhar as mulheres a comer melhor, fazer exercícios e perder peso nem sempre é fácil.

Alimentos saudáveis podem ser caros e pouco acessíveis em comunidades de baixa renda. “Algumas mulheres estão vivendo em ‘desertos’ alimentares e em lugares onde não podem praticar exercícios”, avisa. “Esta epidemia é complexa, com fundamentos que também são de natureza socioeconômica. A demografia também pode desempenhar um grande papel.”

Katherine Laughon Grantz, investigadora da Divisão de Pesquisa em Saúde da População do Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano Eunice Kennedy Shriver, concorda. “A sociedade poderia fazer mais para apoiar as mulheres grávidas”, diz Grantz, que também é obstetra/ginecologista no MedStar Washington Hospital Center.

“Embora haja muitas coisas que as mulheres podem fazer para reduzir seu risco – alcançar um peso saudável e uma dieta saudável -, muitas vezes há barreiras para atingir esse objetivo. Como podemos ajudá-las a fazer isso? Essa é certamente uma questão em que precisamos nos concentrar no futuro.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POR QUE SURGEM E COMO EVITAR OS PESADELOS DURANTE O SONO

Psicóloga Deirdre Barrett destaca técnicas que ajudam a programar os pensamentos enquanto a pessoa dorme

A curiosidade sobre sonhos “estranhos” é sempre popular na internet. Apenas nos Estados Unidos a pergunta “por que estou tendo sonhos esquisitos ultimamente?” quadruplicou em 2020, no começo da pandemia. E agora existe a percepção de que a humanidade tem sonhado com mais frequência e de maneira mais vivida. Será? A resposta é sim, para muita gente.

Os sonhos ocorrem aproximadamente a cada 90 minutos durante o sono REM (fase do sono na qual ocorrem os sonhos mais vividos), um estágio do descanso caracterizado por movimentos rápidos dos olhos. Os períodos REM se prolongam ao longo da noite e aumentam na chamada “densidade REM”, refletindo níveis mais altos de atividade no cérebro adormecido.

Assim, uma pessoa que dorme mais tem maior probabilidade de ter períodos de sonho mais longos e vibrantes. Em pessoas cuja privação de sono é crônica e que tentam recuperar o sono, estee feito é intensificado: alguém que dorme por dez ou mais horas provavelmente terá sonhos tão vividos quanto aqueles vivenciados por narcolépticos (distúrbio do sono caracterizado pela sonolência excessiva).

Durante a pandemia, a vida das pessoas passou por inúmeras transformações. Para muita gente, durante o isolamento, a cronometragem do sono não estava mais ligada aos movimentos ordenados do sol, mas ao acaso. A realidade surreal também espelhava lembranças exploradas no sono.

Perigos e ameaças difíceis de visualizar, como medos abstratos, ou mesmo os mais reais – como um ataque de gás venenoso, por exemplo – geralmente fazem com que metáforas semelhantes apareçam no sono de pessoas preocupadas, segundo Deirdre Barrett psicóloga da Harvard Medical School. Mais comuns, maremotos e monstros também aparecem com grande frequência.

Pesadelos são amplamente conhecidos por seguirem o rastro do trauma, e para sobreviventes com transtorno de estresse pós-traumático, o efeito éainda mais notável. Sonhos perturbadores frequentes são descritos como uma “marca registrada” de pessoas que vivenciam esta condição.

Mas Barrett enfatiza que embora a pandemia tenha representado “uma mudança significativa na vida”, as circunstancias não atenderam ao limiar de trauma na maioria das pessoas.

“É um exagero dizer que fomos todos traumatizados no sentido que a psicologia define”, disse ela.

Experiências de traumas curtos e intensos, disse Barrett – como uma guerra ou turnos de trabalho de 12 horas em um hospital sobrecarregado por pacientes com Covid-19 – “têm imagens específicas e vívidas que acompanham o trauma”, de modo que é mais provável que se manifestem em sonhos realistas.

ISOLAMENTO

Em 1940, um oficial do exército britânico chamado Kenneth Davies Hopkins começou a registrar os sonhos noturnos de seus companheiros de prisão em um campo de prisioneiros na Alemanha. Ele pretendia usar os dados para uma dissertação de doutorado, mas morreu de enfisema antes de concluir o projeto, deixando para trás registros manuscritos de várias centenas de sonhos.

As condições no campo dos oficiais não eram nada parecidas com as dos campos de concentração e extermínio administrados pelos nazistas. Os prisioneiros eram alimentados e alojados adequadamente, embora sua interação social e liberdade de movimento fossem restringidas. E a maioria dos homens não tinha visto muitos combates, tendo sido capturados na primeira batalha que travaram, disse Barrett sobre os presos, cujos registros de sonhos ela analisou em 2012. Além do que Barrett chamou de “pequena proporção de sonhos pós-traumáticos”: os sonhos dos soldados eram “mais brandos na maioria das dimensões” do que as normas masculinas esperadas, com base em outras pesquisas de sonhos. Os sonhos dos presos tiveram menos sucesso, boa sorte e amizade, mas também menos fracasso, infortúnio e agressão.

“Eles tiveram interações sociais menos intensas”, conta, “E fizeram muito menos sexo em seus sonhos.

Os sonhos também diferiam dos de outros homens em seu conteúdo nostálgico, como família e cidade natal”. Outro tema que ocorreu com mais frequência em algo que faltava aos prisioneiros: “Comida, comida, comida”.

Curiosamente, uma pequena porcentagem dos sonhos dos prisioneiros girava em torno de fugas. Mas dois prisioneiros na amostra de 79 pessoas sonhavam regularmente com fugas bem-sucedidas. Os dados do sonho para ambos os homens terminaram na mesma data: eles escaparam.

COMO MELHORAR

Para quem quer recuperar o controle sobre seus sonhes de um subconsciente descontrolado, Barrett recomenda tentar “programar seus sonhos enquanto adormece. A chamada “incubação dos sonhos”, disse ela, “tem uma taxa de sucesso bastante alta”.

Para isso, escolha uma categoria de sonho que você gostaria de ter – por exemplo: voar, embora o assunto do sonho pretendido não precise ser abstrato. Na hora de dormir, lembre-se disso.

“Se você é um bom visualizador, imagine-se voando alto”, sugere. “Seas imagens não vierem facilmente para você, coloque uma foto ou outros objetos relacionados ao assunto em sua mesa de cabeceira, de modo que esta seja a última coisa que você veja antes de desligar a luz.

Repita para si mesmo o que você quer sonhar enquanto adormece. A técnica, ela adverte, funciona ”muito melhor do que o acaso, mas não é confiável todas as noites para alguém que esteja tentando”.

Quer você acabe ou não com algum domínio sobre seus sonhos, você pode se animar com o fato de que mesmo os mais vividos e estranhos são bons para você.

“Certamente existem algumas coisas biológicas que o sono REM está fazendo, certos neurotransmissores são desligados e restaurados”, destaca. “Existe uma teoria de que simplesmente ativar o cérebro a cada 90 minutos pode ser bom de alguma forma.

OUTROS OLHARES

A CONTA DO AMOR

Demanda por transparência e empatia nas relações faz com que o termo “responsabilidade afetiva” entre no centro do debate das novas gerações

No famoso livro “O pequeno príncipe”, o autor francês Antoine de Saint-Exupéry eternizou, em meados do século passado, uma frase – dita pela raposa para o principezinho – que, por muito tempo, foi passada de geração em geração: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. De lá para cá, os relacionamentos se tornaram cada vez mais elásticos e ganharam configurações e formatos inéditos. Porém, a afirmação cunhada na publicação, cuja primeira edição é de 1943, ressurge sob a perspectiva de uma conduta que entra em pauta em tempos de amores líquidos e digitais: a responsabilidade afetiva. ” É a importância de deixar explícito para o outro o que você deseja e o que está disposto a dar”, explica a doutora em Psicologia Clínica Adriana Nunan. “Ressalta a necessidade de alinhar as expectativas, além de ter transparência e empatia”, emenda a psicóloga Daniela Faertes.

Apesar de não ser uma reinvindicação exclusivamente feminina, a atriz, roteirista e escritora Suzana Pires enxerga este movimento como feminista. “O termo surgiu agora porque, nós, mulheres, identificamos maneiras de agir muito irresponsáveis em determinados homens. E passamos a cobrá-los”, avalia. Nesse momento de quase pós-pandemia não podemos mais conceber relações afetivas irresponsáveis. Precisamos entender como a gente impacta a vida do outro”, observa. Para Suzana, três pilares sustentam essa prática e precisam ser uma via de mão dupla. “Ou tripla, no caso de um trisal. Honestidade, disponibilidade – ‘a pessoa diz que quer ter relação super séria, mas nunca está disponível’ – e gentileza”, enumera.

A blogueira C. L. (que prefere não ser identificada) sentiu na pele os danos emocionais causados pela irresponsabilidade afetiva de um ex-namorado. “Fazíamos planos de nos casarmos e de formarmos uma família. Ele sabia, desde o início, que este era o meu sonho, e o incentivava. Enquanto isso, para os outros, dizia que eu era apenas uma amiga ou ficante”, lembra. Depois de um ano e três meses de namoro, o celular – desbloqueado – do rapaz caiu nas suas mãos e ela se deu conta deque estava sendo enganada descaradamente. “Minha autoestima foi para o pé, me senti um lixo. Quatro anos se passaram e, nesse tempo, fiz muita, terapia. Só agora comecei uma nova história”, conta. ” É preciso jogar limpo. Você quer ter um namoro aberto? Bacana. Mas deixe isso evidente. Assim cada um sabe onde pisa.”

Mas nada é tão simples quando na outra ponta está um – ou uma – narcisista, destaca a psicóloga Adriana Nunan. “Costumam ter um padrão: fazem promessas e, muitas vezes, quem está mais carente acaba embarcando. Há quem largue o emprego, mude de país e monte um apartamento em intenção daquela relação. E, de repente, o tal narcisista, muda de ideia”, descreve.

Em 2019, o arquiteto Lucas Teixeira, de 32 anos, conheceu a ex-namorada e logo foram morar juntos. Por conta disso, trancou o mestrado e acabou se afastando de familiares e amigos. “No decorrer do tempo, as máscaras caíram. Vi que estava sendo manipulado, premeditadamente, em função dos interesses dela. Não seria um problema ela querer pegar menina ou menino. Mas não me faça de bobo, coloque as cartas na mesa”, frisa Lucas, agora solteiro e ainda “catando os caquinhos”.

O psicanalista Abílio Ribeiro Alves acredita que esse questionamento veio à tona para procurar ajustar aquilo que fracassou na experiência amorosa de gerações anteriores. “Há também uma revisão das relações afetivas e do lugar do feminino no social”, pondera. Porém, ele se preocupa com a tentativa de enquadrar o amor em regras e fórmulas. “Muitas vezes, fazermos projeções daquilo que gostaríamos que o outro fosse. Nesse caso, o parceiro ou parceira não pode se responsabilizar. É necessário suportar a diferença do outro”, finaliza.

GESTÃO E CARREIRA

EMPRESAS AJUDAM EM RECOLOCAÇÃO APÓS PERÍODO FORA DO MERCADO

Empresas como IBM, Oracle e Pepsico ajudam profissionais após afastamento por licença-maternidade, sabático ou desemprego

Embora sejam idealizadas como uma caminhada rumo ao topo, carreiras dificilmente são lineares. Questões como cuidar dos filhos, tirar um tempo para equilibrar a saúde mental ou uma demissão podem levar ao afastamento do mercado de trabalho. O que era para ser temporário pode se prolongar e, quanto mais tempo fora, mais difícil pode ser voltar. Do lado do mercado, empresas passaram a olhar para esses profissionais e criaram programas para reinseri-los no mundo corporativo.

Neste mês, a Oracle lançou no Brasil e no México um programa para recolocar no mercado profissionais que pausaram suas carreiras há pelo menos um ano por diversos motivos, como formar família, cuidar de parentes idosos, fazer trabalho voluntário, viajar, estudar, abrir negócio, priorizar a saúde mental ou mudar de carreira. A primeira edição oferece seis vagas nas áreas de recursos humanos, vendas, nuvem e engenharia de soluções.

”Queremos trazer profissionais talentosos que ficaram fora do mercado e, a partir daí, gerar valor para a empresa. Se a pessoa tinha carreira em outra área e quer ir para o RH, ela pode. Nós temos um portal para ensinar habilidades técnicas e fazer upskilling (aprimorar conhecimentos) e reskilling (desenvolver novas habilidades). O que mais gera oportunidade hoje, na atração de talentos, é oferecer treinamento. A pessoa pode trazer o que ela tem de conhecimento e vamos adicionar o que a gente precisa”, diz Daniele Botaro, líder de Diversidade & Inclusão na Oracle América Latina.

Após a seleção, já com vínculo empregatício, os selecionados passam por 12 semanas de treinamento e integração para se adequarem à cultura da empresa e entender os processos. Entre as atividades estão elaborar um plano de carreira, mentorias e um rodízio de funções para entender as áreas correlatas. As inscrições vão até o dia 25 de abril e podem ser feitas pelo site do programa.

Em 2018, a PepsiCo criou o “Ready to Return” para inserir pessoas afastadas do trabalho há dois anos ou mais. Ao longo de três edições, foram preenchidas 11 vagas. Assim como no caso da Oracle, o principal escopo do programa é capacitar os futuros funcionários.

”Na abertura das inscrições, o RH mapeia oportunidades abertas nas diferentes áreas da companhia e parte dessas vagas integram o programa. As pessoas são selecionadas para trabalhar nas áreas das vagas para a qual se inscreveram e contam com mentoria, treinamentos e imersões para capacitação”, explica Fábio Barbagli, vice-presidente de Recursos Humanos da PepsiCo Brasil. Segundo ele, a empresa terá uma nova edição do programa neste ano, ainda sem data.

MULHERES

Entre as pessoas que buscam voltar para o mercado, o perfil mais comum é o de profissionais que se afastaram do trabalho para cuidar da família. Em um mercado como o brasileiro, esse peso recai sobre as mulheres. Segundo uma pesquisa da plataforma Cacho, 30% delas deixam o mercado de trabalho para cuidar dos filhos (7% entre os homens).

De olho nesse público, a IBM criou, em 2018, o Tech Re-Entry para treinar e empregar profissionais afastados do mercado há pelo menos dois anos. Embora não seja exclusiva para mulheres, o líder de recursos humanos da IBM Brasil, Bernardo Marinho, conta que elas são o principal foco.

“Ao longo dos anos, observamos que muitas mulheres talentosas sentiam a necessidade de fazer uma pausa em suas carreiras, muitas vezes por cuidados com crianças. Temos clareza de que issonão é algo que prejudique o desempenho delas no retorno. Pelo contrário, geralmente outras competências são desenvolvidas.”

O programa é destinado a posições técnicas, como desenvolvimento de software, design e ciência de dados. Os selecionados passam por seis meses de capacitação, já com vínculo empregatício. Ao fim, recebem certificação da IBM, comprovando que atualizaram as habilidades técnicas, e podem permanecer nas funções ou ser transferidos para outras posições na empresa.

CURSO GRATUITO

Além da inserção direta pelas empresas, também há capacitação para se ter mais chances de recolocação no mercado. Há 15 anos, a FIA Business School oferece gratuitamente o CAPExecutivo, uma formação nos moldes de um MBA para profissionais desempregados há ao menos quatro meses. Em dois semestres, os 40 selecionados têm aulas de estratégias gerenciais, gestão de pessoas, marketing, finanças e ESG. Na pandemia, o curso se tomou online.

“Nós queremos que o profissional volte a brilhar o olhar. Quando você fica fora do mercado, suas reservas financeiras acabam e você não se atualiza, a autoestima é a primeira vítima”, conta Almir de Sousa, coordenador do programa.

Entre os 40 formandos da última turma, que será concluída neste mês, 31 já foram recolocados – 6 no empreendedorismo, 12 como consultores e 13 com vínculo empregatício. Segundo Sousa, a média é de 75% de recolocação.

Aos 49 anos, André Afonso faz parte desse índice. Graduado em Administração Financeira e com pós-graduação em Engenharia de Software, ele se inscreveu para o CAPExecutivo no ano passado, quando estava havia quase dois anos afastado do mundo corporativo. Em 2018, pediu demissão da empresa em que trabalhava para empreender, mas, com a chegada da pandemia, precisou fechar o negócio.

“O curso foi uma oportunidade de tomar um banho de loja, dar uma atualizada nos meus conhecimentos e fazer networking. Depois de 30 anos de mercado, agente foca só no ramo em que atuamos e ficamos desatualizados, principalmente em soft skills. As aulas me ajudaram a ter uma nova visão, o que me permitiu repensar a carreira e procurar trabalho de uma forma diferente”, conta ele, que antes de finalizar o curso conseguiu vaga como coordenador digital na Lello Imóveis. A próxima turma do CAPExecutivo, que se inicia em junho, está com inscrições abertas até 10 de maio.

EU ACHO …

A ESCOLHIDA

Dizem – ou fui eu mesma que disse, não lembro – que felicidade depende apenas de sorte e escolhas bem-feitas. Será? A gente sabe que nada é assim tão sistemático, ainda mais tratando-se de assuntos com­ plexos, mas tenho simpatia por essa definição, que me parece realista. Sorte é quesito essencial para tudo, o que não significa que a gente deva lavar as mãos e esperar por ela sentado. A sorte pede que a gente faça a nossa parte: desarmar o espírito para merecê-la. E escolhas bem-feitas, bom, isso é resultado de intuição + autoconhecimento + inteligência. Ou seja, tem que ter talento e foco, não basta fazer uni­ duni-tê. Dito isso, gostaria de fazer uma revelação: tive muita sorte na vida e fiz várias escolhas bem-feitas, mas cansei. Trégua. Por algum tempo, adoraria não escolher mais nada, e sim ser escolhida.

Objeto de desejo do destino: eu.

Vestindo qualquer roupa, sem nenhum artifício de sedução, sendo quem sou no que sou de imperfeita, ele se aproxima: o amor. Aponta para mim feito um Tio Sam, convocando: I want you. Não para servi-lo, já que ser escolhida não implica ser gueixa do amor, mas convocada para incrementar a vida a dois, ter momentos alegres, sexo sem tabus, confiança cega, um projeto compartilhado de crescimento, total prazer. Eu, a escolhida para esse projeto-piloto de felicidade. Eu, que estava sossegada no meu canto, com preguiça até de passar um batom.

Objeto do desejo dos amigos também: todos eles espontaneamente batendo à minha porta sem precisarem de convite, atendendo apenas à vontade de se ver. Sem ocasião especial, me escolhem e me acolhem, me percebem, me compreendem, não me exigem confidências, não pedem nada em troca, apenas estão por perto dizendo a palavra certa.

Eu, logo depois do par ou ímpar, ser a primeira escolhida a fazer parte de um time. A escolhida para dançar a música mais bonita. A eleita, entre tantas, para tornar mais doce a vida de quem está se aze­ dando, a que foi convocada para entrar para a família, a que foi dispensada de prestar contas – ser dispensada às vezes é um bom reverso da escolha.

Quero ser escolhida não para prêmios e louvores, não para os caprichos da vaidade: quero ser escolhida para o inusitado e o irreal, para acompanhar alguém numa viagem, para ir ao cinema, para dar um beijo em caráter de urgência – me dá um beijo agora senão eu morro.

Quero olhar para o lado, inadvertidamente, e encontrar alguém sorrindo para mim, quero receber uma mensagem, ser o sonho de um estranho, a musa inspiradora de um poema, mesmo sem ser bela e diáfana. Ser o projeto secreto de um desconhecido.

Escolhida no desamparo, escolhida no meio da tarde, surpreendida. Sem ter tido de antemão nenhum objetivo, sem ter rezado uma prece e coisa alguma ter prometido.

Escolhida porque a vida tem disso, oferece uns presentes sem data festiva, ela chega com flores quando não é aniversário nem nada, a vida escolhe justamente os mais distraídos, aqueles que nem estavam pensando nisso.

Droga, eu estou pensando nisso.

*** MARTHA MEDEIROS

ESTAR BEM

PARALISIA FACIAL: CONHEÇA AS CAUSAS E OS TRATAMENTOS

Pouco conhecida, a de Bell afeta cerca de 40 mil pessoas por ano; maioria consegue se recuperar

Era um sábado como outro qualquer quando a cabeleireira e comunicadora Denise Santos, de 41 anos, percebeu seu reflexo torto no espelho. “Eu senti a língua um pouco estranha, a boca dormente, e quando fui escovar os dentes achei minha boca torta. De repente não conseguia piscar os dois olhos: só um lado obedecia”, relata ela. “Corri para o hospital achando que estava tendo um AVC (Acidente Vascular Cerebral).”

Há três meses Denise foi diagnosticada com paralisia facial periférica, conhecida como paralisia de Bell, e hoje lida com o tratamento para corrigir a assimetria do sorriso e do piscar. Apesar de não ser muito conhecida, a condição afeta cerca de 40 mil pessoas por ano no Brasil, mas é possível haver reversão na maioria dos casos. Ela ocorre por causa de uma inflamação no nervo facial que controla a contração da musculatura do rosto.

“Todo nervo funciona como uma espécie de fio elétrico onde ele tem um axônio, que conduz esse fio elétrico, e uma capa, que é a chamada bainha de mielina”, explica Rodrigo Meirelles Massaud, neurologista e coordenador médico do Programa Integrado de Neurologia do Hospital Israelita Albert Einstein. “Toda agressão a esse nervo leva a uma disfunção que faz com que ele pare de conduzir o impulso elétrico e, consequentemente, sua função de contrair a musculatura da face.”

Enquanto a paralisia periférica atinge o andar superior e inferior da face, a central atinge somente do nariz para baixo. “Geralmente, a central paralisa outras regiões do corpo. Chama-se central porque ela acomete o cérebro, e não o nervo periférico”, esclarece Rodrigo. Dessa forma, apesar de somente afetar visivelmente a boca (a paralisia de Bell afeta testa, olhos e boca), o tipo central é o que pode ser relacionado a um derrame. No entanto, outros sintomas estarão associados com um AVC, como a dormência de membros, dificuldade na visão e confusão mental.

CAUSAS

“As inflamações do nervo facial podem estar relacionadas a diversas causas, principalmente, virais. A mais conhecida tem a vercom o vírus do herpes simples. Ele pode levar a alterações do nervo e causar paralisia facial periférica, muitas vezes sem sinal da infecção na pele”, aponta o médico, acrescentando que outras viroses também podem causa paralisia.

Estudos indicam que outros vírus, como o da herpes-zoster, que causa a catapora, do citomegalovírus (herpes) e o vírus Epstein-Barr, que causa a mononucleose, também podem estar relacionados à doença. Mas o estresse e a fadiga podem influenciar a imunidade e facilitar eventuais infecções virais – como ocorreu com Denise. “No fim do ano passado, eu comecei o meu projeto de podcast, isso além de todo o estresse e medo gerados pela pandemia. A minha imunidade caiu e na primeira semana que tirei folga, apareceram os sintomas”, conta.

De acordo com o neurologista, do ponto de vista cientifico não há como prevenir a condição. “Mas aquele clássico recado dos nossos avós: evitar estresse, dormir bem e comer bem pode ajudar.”

PROCESSO

Comer, sugar, falar e dormir pode ser uma batalha durante a doença. Isso porque, além da dor física – especialmente no pescoço e na região paralisada – o olho afetado não fecha de maneira intuitiva. ”É importante pingar colírios lubrificantes que evitam o ressecamento”, alerta Rodrigo. Ele recomenda ainda fechar a pálpebra com micropore, para evitar que o olho fique aberto durante o sono. Lavar o rosto com algodão e usar óculos escuros são outros cuidados necessários.

O tratamento inclui procedimentos com laser (que ajudam a reinervação e ativam a circulação), acupuntura, fisioterapia e medicamentos com corticoides e antivirais, que ajudam na redução da inflamação e na capacidade de o vírus se replicar. Mas o lado emocional também é importante. Denise percebeu como a condição afetou a sua autoestima, mas, depois de um mês, ela foi aceitando a ideia e até passou a falar sobre em seu podcast Nostalgicast. “Posso ter sequelas ou não, mas tenho de seguir minha vida. E as pessoas vão ter de encarar meu rosto tortinho“, brinca.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

RITMOS UNIVERSAIS

Música revela personalidade e é capaz de unir pessoas, diz estudo

O gosto musical de uma pessoa pode apontar alguns de seus traços de personalidade. Foi o que mostrou um estudo recente feito com 350 mil pessoas de mais de 50 países espalhados pelos seis continentes. Os resultados foram publicados no Journal of Personality and Social Psichology.

Para a pesquisa, os voluntários descreveram seu gosto por 23 gêneros musicais diferentes, enquanto também completavam um questionário de personalidade.

Os pesquisadores dividiram os tipos musicais em cinco grupos: “suave” estáassociado ao soft rock, R&B e música adulta contemporânea, incluindo letras com romântica e batidas lentas; “intenso” é música mais alta e mais agressiva, como punk, rock clássico, heavy metal e power pop (como os Beatles); “contemporâneo” é a classificação de música eletrônica, rap, ritmos latinos e europop. Já “sofisticado” incluí música clássica, ópera, jazz; e “despretensioso” abrange gêneros de música relaxante ou country.

Os resultados da pesquisa mostram que ouvintes extrovertidos gostam mais de música contemporânea. Já pessoas organizadas e amáveis curtem mais os ritmos despretensiosos. Indivíduos com um perfil mais aberto, ou sociável, mostraram conexões com músicas do tipo suave, sofisticada, intensa e contemporânea.

“Ficamos surpresos com o quanto esses padrões entre música e personalidade se replicaram em todo o mundo”, disse o autor do estudo, David Greenberg, pesquisador associado honorário da Universidade de Cambridge e pós-doutorado na Universidade Bar-llan, em um comunicado. “Aspessoas podem estar divididas por geografia, idioma e cultura, mas se um introvertido em alguma parte do mundo gosta da mesma música que os introvertidos em outro lugar, isso sugere que a música pode ser uma parte muito poderosa. A música ajuda as pessoas a se entenderem e encontrar em um terreno comum”.

Pessoas ansiosas ou pessimistas demonstraram gostar mais de músicas classificadas como intensas. Na avaliação de Greenberg, a preferência por esse perfil sonoro pode refletir a angústia e a frustração interior dos portadores deste traço de personalidade.

“Isso foi algo surpreendente, mas as pessoas usam a música de maneiras diferentes – para algumas, podem servir para catarse, para outras, na mudança de humor. Vamos analisar isso com mais detalhes”, afirmou Greenberg.

Uma das conclusões do pesquisador a partir dos dados foi que, em vez de usar a música como catalisador de mudanças, muitas pessoas às voltas com sentimentos negativos preferem canções que expressem seu estado de espírito. “Pensávamos que aqueles afetados pelo neuroticismo poderiam ter duas preferencias, ou as músicas tristes para manifestar sua solidão ou as animadas para alterar o clima. Porém, na maior parte das vezes, eles preferiam estilos intensos, que funcionam para aliviar a angústia e frustração”.   

Os pesquisadores ressaltaram que o gosto musical de cada um, no entanto, não e algo imutável. Em vez de estabelecer perfis fixos para cada ouvinte, o objetivo do trabalho era apontar como a música é capaz de atravessar fronteiras, classes sociais e unir pessoas diversas.

Outro estudo, feito a partir de entrevistas de 4 mil voluntários, conseguiu determinar os principais traços de personalidade de acordo com os ritmos musicais mais ouvidos. Os ouvintes foram analisados a partir de cinco características opostas: extrovertido ou introvertido; sensorial ou intuitivo; racional ou sentimental; julgador ou perceptivo; assertivo (calmo) ou turbulento.

IGUAIS, MAS DIFERENTES

Os pesquisadores observaram que pessoas com gostos musicais diferentes podem ter os mesmos traços de personalidade. Isso pode explicar, por exemplo, como os interesses musicais podem ir mudando com o tempo.

Os que afirmaram gostar de jazz demonstraram ser mais extrovertidos, intuitivos, perceptivos e assertivos.

Já os amantes da música clássica são mais introvertidos, intuitivos, racionais, julgadores e assertivos. Os roqueiros tiveram alguns traços em comum, demonstrando ser introvertidos, intuitivos e racionais. Porém, são mais perceptivos.

Quem gosta de rock alternativo é mais introvertido, intuitivo, sentimental, perceptivo e turbulento. Já quem curte reggae demonstra ser mais extrovertido, sentimental, perceptivo e assertivo. Os amantes do pop afirmaram ser mais extrovertidos, sensoriais, sentimentais e turbulentos.

Aqueles que gostam de hip hop também são mais extrovertidos e sentimentais, mas demonstram ser intuitivos, perceptivos e assertivos.

OUTROS OLHARES

INTOLERANCIA RELIGIOSA

Casos aumentaram 11,7% em 1 ano; religiões de matriz africana são alvos mais frequentes

Representante da quarta geração de uma família candomblecista, a estudante Alice Oliveira optou por não usar vestimentas totalmente brancas às sextas-feiras – na tradição do Candomblé, o dia é consagrado a Oxalá, o orixá da criação, ao qual é associada a cor branca – nem sair de casa vestida com “roupas de santo” para visitar outros terreiros, por medo de sofrer algum tipo de ataque nas ruas. Apesar do orgulho da religião que pratica, a jovem diz que teme a exposição, devido aos relatos de intolerância   e violência que sempre ouviu.

“Dá mais trabalho, mas sempre prefiro chegar de roupa normal etrocar no local do que andar na rua. Normalmente não posto muita foto em rede social também, evito exposições que possam gerar comentários maldosos e ofensivos”, conta.

O temor de Alice não é infundado. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que, em 2021, o Estado do Rio registrou aumento de 11,7% nos casos gerais de intolerância religiosa em relação a 2020. No ano passado, foram 1.564 ocorrências, com 1.400 nos 12 meses anteriores. Nestes números, estão incluídos os episódios de “injúria por preconceito” – ato de discriminação de um indivíduo em razão da raça, cor, etnia, religião ou origem – e “preconceito de raça, cor, religião, etnia e procedência nacional” – quando há inferiorização de todo um grupo étnico-racial e atinge a dignidade humana.

 Os casos de “ultraje a culto religioso quando há ridicularização pública, impedimento ou perturbação de cerimônias religiosas, também aumentaram, passando de 23 em 2020 para 33 em 2021. Embora este crime seja cometido contra praticantes de todas as religiões, dados do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap) mostram que a maior parte é dirigida a religiões de matriz africana, com maior concentração de ocorrências na região Metropolitana do Rio.

LIDERES RELIGIOSOS NA MIRA

Em 2021, 47 casos de intolerância religiosa foram registrados ou informados à Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR). Destes, 43 foram sofridos por adeptos das religiões de matriz africana, sendo 16 na capital. Em aproximadamente 23% dos episódios, o autor da ação foi um vizinho. Nos casos em que foi possível identificar a religião dos autores, 56% eram evangélicos.

“A intolerância religiosa não tem a ver com atitude religiosa. E um crime que causa muita dor nos adeptos da religião de matriz africana e de outras religiões também, no âmbito emocional e na insegurança que passa a se estabelecer”, explica o professor e babalaô Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate a Intolerância Religiosa.

Na última quarta-feira, a Assembleia Legislativa do Rio aprovou o relatório final da CPI instaurada para apurar os crimes de intolerância religiosa praticados no estado. Entre as recomendações, está o pedido para que a Polícia Civil e o Ministério Publico incluam na investigação ou na denúncia o líder religioso quando houver indícios de sua participação como mentor ou coautor do crime.

Além disso, o texto sugere que pessoas que perderam suas moradias por conta desse crime sejam incluídas no programa Aluguel Social e propõe a implementação de projetos educacionais nas escolas da rede estadual, para conscientização e combate ao preconceito religioso.

Há ainda a recomendação para que o ISP divulgue, anualmente, informações relativas à intolerância religiosa e ao racismo religioso, de modo que se produza dados que possam servir de subsídio para a criação de políticas públicas de segurança.

Já no município do Rio, as coordenadorias executivas de Diversidade Religiosa e de Promoção da Igualdade Racial da prefeitura lançaram a “Cartilha Rio de Combate a Intolerância Religiosa” para orientar a população sobre a história da pluralidade de crenças da cidade e sobre atitudes a tomar em casos de preconceito religioso.

O documento ainda orienta as vítimas a denunciar os casos de intolerância pelo número 1746 – inaugurado há um mês, o serviço já recebeu dez denúncias até o início desta semana – ou procurar a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de intolerância (Decradi), que funciona desde 2018 no Centro.

Foi ao Decradi aliás, que o pai de santo Pedro Paulo Chagas, conhecido como Pedro de Sogbo, registrou um caso de intolerância no Cemitério de Inhaúma, onde sofreu tentativa de impedimento da realização de um ritual fúnebre para um filho de santo.

“Toda a movimentação que estou fazendo é para proteger a minaria e dar voz a quem não tem. Eu fui intolerado, mas busquei os mecanismos de defesa e consegui fazer meu ritual. Mas quantas pessoas conseguem fazer?”, indaga. “Eu tive o equilíbrio, mesmo em um momento de dor e surpresa, de ligar para a polícia, tentar uma liminar na Justiça e ligar para a CCIR.

Intolerância também não é uma novidade para o padre Wanderson José Guedes, da Igreja do Santuário do Sagrado Coração de Jesus, na Glória. Desde 2019, quando teve uma missa invadida por católicos tradicionalistas, ele sofre ameaças de grupos de fiéis mais radicais, que ainda tentam interromper as celebrações e ações da Igreja. Há três anos, a celebração do Dia da Consciência Negra só foi realizada com a presença da Polícia, De acordo com o pároco, foram ditas frases como ”isso aí, padre, cuide de suas ovelhas pretas”.

“A que ponto de intolerância chegamos, em que um padre não pode celebrar uma missa? Também já depredaram presépios duas vezes. Uma, quando fiz sobre corrupção, e outra quando montei sobre racismo”, relata. “Não consigo entender como ainda somos intolerantes a certas pautas no século XXI. Perdemos a vergonha e o pudor de sermos racistas, misóginos.”

TRAUMAS PSICOLÓGICOS

Para a jornalista judia Diane Kuperman, há radicalização e incapacidade de diálogo entre pessoas, com maneiras distintas de ver o mundo:

“Perdi a conta do número de vezes que ouvi alguém dizer “isso é coisa de judeu”. O que ´´e coisa de judeu? Eu lamento profundamente que as pessoas não se deem conta, principalmente no Brasil, da diversidade riquíssima de crenças que o nosso país tem. Independentemente da crença de cada um, a intolerância religiosa tem reflexos em toda a comunidade e, como qualquer outro tipo de violência, gera traumas. E isso que diz a psicóloga Tania Jandira Ferreira, que é umbandista e presta atendimento psicológico social a essas vítimas.

“Os núcleos) de apoio) não atendem da maneira que as vítimas precisam. E necessário atendimento clinico em muitos casos, uma escuta qualificada. Registrar a ocorrência é o mínimo. A parte psicológica das vítimas de intolerância religiosa não tem sido priorizada”, alerta.

ESTAR BEM

SENSAÇÃO DE INCHAÇO PODE SER CAUSADA POR DIETA OU DOENÇAS

Alimentos, hormônios e até tumores estão na lista de suspeitos do incômodo

Em minha clínica de gastroenterologia, toda semana recebo reclamações de meus pacientes: as roupas estão muito apertadas e a barriga está inchada. É comum ouvir que eles se sentem como “gravidas de 30 semanas” – queixa que é comum tanto entre homens com mais de 60 anos como em mulheres de 20.

Não é surpresa, então, que esses pacientes sofram de inchaço, aquela sensação desagradável de pressão no estômago que afeta cerca de um em cada cinco adultos. Entender porque esse estufamento acontece – e trata-lo – pode ser um desafio para pacientes e médicos.

“As pessoas pensam “ah, é apenas inchaço” e muitas vezes deixam isso de lado, ou consideram que ´´e uma queixa insignificante”, diz Kimberly Harer, gastroenterologista e especialista em motilidade intestinal da Universidade de Michigan, nos EUA.

Segundo ela, há pacientes que sofrem com os sintomas por décadas antes de finalmente procurarem ajuda.

Mas o sintoma não éapenas desconfortável: ele pode afetar “muitos aspectos da vida de nossas pacientes”, disse Harer, levando a problemas de constrangimento e de imagem corporal. E obter uma avaliação adequada éfundamental.

Inchaço e distensão são comuns e, para a maioria das pessoas, desaparecem após um curtoperíodo de tempo. Mas alguns são mais propensos a enfrentar esse problema do que outros.

Certas condições medicas – como intolerância à lactose, doença celíaca ou distúrbios que afetam a maneira como o intestino se move no corpo – têm o inchaço como resultado, por excesso de gás.

Nesses pacientes, os gases se acumulam no intestino delgado e empurram o diafragma para cima e a parede abdominal para fora para “dar espaço” para essa pressão.

Se você não tem essas condições, mas tem inchaço que persiste por meses, pode ter algo chamado “inchaço funcional” ou inchaço sem causa identificável. Condições como síndrome do intestino irritável ou constipação idiopática crônica se enquadram nessa categoria. Nesses casos, os exames médicos geralmente aparecem normais, mas o estufamento é um sintoma importante e recorrente que afeta a vida diária.

Esses casos de inchaço geralmente ocorrem não por causa da produção vertiginosa de gás, mas por causa da maneira como o abdômen reage a ele.

“Muito disso é fruto da mecânica do corpo”, pontua Linda Nguyeu, gastroenterologista e professora clínica de medicina na Stanford Medicine. “Basta pensar no que envolve a cavidade abdominal. Há o diafragma acima, o assoalho pélvico abaixo, a coluna nas costas e a parede abdominal na frente”.

AÇÃO DO DIAFRAGMA

Um estudo publicado na revista Gastroenterology em 2009 descobriu que quando as pessoas com distúrbios funcionais estavam inchadas, o diafragma se contraia para baixo em vez de para cima, o que projetava os músculos da parede abdominal (em particular, os oblíquos internos) para a frente. Ao mesmo tempo, a quantidade de gásdentro de suas entranhas não aumentou.

Esses movimentos musculares anormais – e o inchaço que os acompanhava – ocorreram porque os nervos do intestino e da parede abdominal eram excessivamente reativos a quantidades normais de pressão de dentro dos intestinos (chamada hipersensibilidade visceral). Assim, mesmo pequenas quantidades de gás produzidas durante a digestão natural podem causar desconforto e distensão.

VILÕES DA DIETA

Os especialistas recomendam que os pacientes primeiro tentem identificar, depois eliminem, qualquer item de sua dieta ou estilo de vida que possa estar provocando o inchaço. Certos alimentos, sobretudo aqueles ricos em fibras insolúveis, como vegetais crucíferos, lentilhas e feijões, são criminosos clássicos.

Outros gatilhos comuns incluem bebidas fermentadas como cerveja e kombucha, o adoçante artificial, bem como cebolas e frutas. Ocasionalmente, comportamentos como beber água com gás, mascar chiclete ou fumar podem elevar o risco do problema, aumentando a quantidade de ar engolida.

Fezes infrequentes, esforço ou sensação de que você nunca “esvaziou” completamente também podem contribuir para o inchaço. Esses sintomas podem resultar de uma coordenação inadequada do assoalho pélvico, que pode ser melhorada com fisioterapia.

Tenha em mente que algumas causas de inchaço não estão diretamente relacionadas ao seu intestino. Alguns pacientes que roncam ou usam máquinas de CPAP para apneia do sono, por exemplo, podem se sentir estufadas ao acordar.

Pacientes com doença hepática também podem ter líquido extra no abdômen, criando distensão. E as flutuações na progesterona da menstruação e certos tipos de contraceptivos podem aumentar o inchaço. Mulheres na pós-menopausa devem discutir essessintomas imediatamente com um médico, pois eles podem ser sinais de câncer de ovário. 

“Cada pessoa é diferente, então o que causa inchaço em seu amigo ou membro da família não é o que pode causar o problema em você”, disse Harer.

GESTÃO E CARREIRA

FALTA DE CONHECIMENTO BARRA AVANÇO DE LICENÇA PARENTAL NAS EMPRESAS

Quase dois terços das companhias não estão no Empresa Cidadã mesmo sendo elegíveis; 37% não o fazem por desconhecer programa

A ampliação das licenças maternidade e paternidade por meio do programa Empresa Cidadã é oferecida por apenas 12% das cerca de 200 mil companhias elegíveis no Brasil, 12 anos após o benefício ser estendido à iniciativa privada. A baixa adesão é explicada, principalmente, por falta de conhecimento, o que barra discussões mais avançadas sobre licença parental. Pesquisa conduzida pela Family Talks e 4Daddy, mostra que dois terços das 472 participantes do levantamento não aderem ao benefício. Dessas, 37% afirmam que o motivo é não conhecer suficientemente o programa.

A maioria dos que responderam ao questionário é formada por profissionais que atuam com gestão de pessoas ou relações sindicais e pertencem a organizações de médio e grande portes. Uma parcela de 17% desconfia da viabilidade financeira do Empresa Cidadã, e 8% dizem não acreditar que essa seja uma demanda interna.

Mas, entre as companhias que possuem a licença ampliada, que vai além das licenças tradicionais de 120 dias para mães e 5 dias para os pais, 69% foram motivadas por pedidos internos e 31%, pela influência da sede internacional.

“A viabilidade financeira é a crítica dos empresários. O governo paga a extensão (da licença), mas não no ato. Para empresas que têm dívidas, é uma barreira”, diz Rodolfo Canônico, fundador da Family Talks e especialista em políticas públicas para a família. Ele destaca que a pesquisa foi respondida por pessoas interessadas no tema e supõe que um levantamento amostral (selecionado), com mais empresas, poderia trazer números mais altos.

MAIS INFORMAÇÃO

Camila Pires, mestre em antropologia e pesquisadora associada da 4Daddy, sugere caminhos para ampliar o conhecimento. “Deveria existir uma divulgação estruturada do governo. A gente entende que, em segundo, as empresas têm papel fundamental nessa construção da sociedade e de outras empresas. Um terceiro caminho é a pressão social: se a população está instruída, sabe que existe possibilidade de benefícios, esses colaboradores podem fazer maior pressão.”

Mesmo organizações engajadas em políticas por equidade de gênero (75% das empresas cidadãs), tema que antecede a discussão da licença, têm dificuldades de progredir. Elas aumentam os benefícios concedidos a mães e pais, como acompanhamento médico, sala de amamentação e cursos de gestante, mas esse empenho não afeta a familiaridade com a licença parental. “Isso está muito relacionado ao conhecimento de possibilidades e de potenciais resultados”, diz Camila.

Ela destaca ainda que outros temas são necessários ao avanço da licença parental, como ter mais mulheres em cargos de liderança e deixar de demiti-las após a licença-maternidade.

Só podem aderir ao Empresa Cidadã as organizações tributadas com base no lucro real, mas 55% dos entrevistados não sabem ou preferiram não responder sobre o regime da companhia. “Quem trabalha em área financeira, que provavelmente teria esse conhecimento, não está envolvido nessa discussão. A baixa adesão é a falta de fluxo de informação nas empresas”, diz Canônico.

COMUNICAÇÃO

Na PepsiCo, o benefício é oferecido desde 2011 e a diretora de Recursos Humanos, Thaisa   Thomaz, afirma que a adesão cresce gradualmente, fruto da comunicação interna sobre a licença estendida. Nos últimos dois anos, afirma ela, houve 95% de adesão à política.

”A gente sempre reforça com os líderes, que são embaixadores do programa, e coloca em todos os canais as oportunidades. Leva tempo, mas (a adesão)aumenta a cada ano.”

No ano passado, foram solicitadas 438 licenças ampliadas na Pepsico, sendo 60% de licença- paternidade. A diretora conta que as iniciativas ficaram mais alinhadas às demais estratégias de diversidade e inclusão e passaram a envolver mais os homens.

A pesquisa sobre parentalidade indica três tendências para o avanço das discussões: expansão do papel da mulher para além do lar e dos filhos, engajamento para promover igualdade de gênero nas empresas e inclusão dos homens no cuidado. As percepções foram observadas também entre os 1.153 brasileiros entrevistados pela Market Analysis.

No primeiro quesito, 84% das empresas concordam que as mulheres têm receio de serem demitidas após a licença-maternidade, e 73% da população afirma que elas têm menos oportunidades do que os homens na carreira. Por outro lado, cerca de metade dos entrevistados nos dois públicos ainda concordam que a maternidade e o espaço doméstico são locais de atuação preferencialmente das mulheres.

Entre os profissionais, 59% dizem que a rejeição da pauta sobre igualdade de gênero não vem da empresa, mas do gestor, e 80 % concordam que líderes bem treinados conseguiriam reverter esse cenário.

EU ACHO …

PUXANDO PAPO

Conversas amenas geram saudável sensação de pertencimento

”Está com cara de que hoje à tarde vem mais chuva, né?” Um comentário assim, despretensioso, dirigido a uma pessoa desconhecida no elevador, pode condensar toda a história da sociabilidade. Exagero? Acredito que não. Quem fala sobre o tempo nessa circunstância em geral quer dizer mais do que isso. No fundo, a mensagem é: “Olha, já que estamos aqui sem fazer nada por um instante, que tal trocarmos umas palavras e ver aonde elas nos levam?” As possibilidades estão sempre abertas. O outro pode agregar uma informação nova – uma previsão específica para aquela área da cidade –   ou agradecer você, porque ia esquecendo o guarda-chuva. Ou a conversa pode evoluir por outras amenidades até que, derepente, os dois descobrem um interesse comum que dará origem – quem sabe? – a uma amizade.

Falar sobre o tempo é a manifestação mais comum de uma arte que os ingleses chamam de small talk. Os dicionários traduzem como “conversa fiada”. Não está errado, claro, mas acho um pouco pejorativo. Prefiro “conversinha”, gosto muito dessa afetividade tão brasileira expressa no uso do diminutivo. Entendo por que um dos nossos grandes poetas gostava de ser chamado de “poetinha”. A conversinha boa requer alguns cuidados. Não é por ser ligeira e superficial que deva ser impensada. A primeira coisa a ser levada em consideração é que existe uma tríade proibida. Não tente puxar conversa falando sobre religião, saúde e, ainda mais neste ano, política.

Esporte é sempre uma boa pedida. Tênis, por exemplo. “Você viu que vão deixar o Djokovic jogar em Roland Garros?” Ou, para quem gosta, pode perguntar o resultado do futebol, aliás, como faz um freguês em Conversa de Botequim, o gostoso samba de Noel Rosa. Gastronomia também é tema que rende um bom papo. Quem não quer conhecer uma receita nova? Ou uma dica de restaurante?

Conversinhas amenas são mais do que parecem ser. Outro dia, li que estudos recentes apontaram que fazem bem à saúde. Não duvido. Desarmar o espírito, se expor ao outro, exercer a civilidade, cativar a atenção alheia, tudo isso gera uma sensação de pertencimento que tende a proteger nosso organismo e mente. Algumas pessoas, no entanto, receiam tomar a iniciativa, temem ser consideradas intrometidas. O ideal é avaliar cada situação. Uma primeira pergunta, tateante, é sempre o.k. Se em resposta o outro grunhir um “pois é” ou algo do gênero, esqueça. Mas se o sinal verde acender, é bom saber como se comportar na sequência.

Uma sugestão é evitar perguntas fechada, aquelas cujas respostas são “sim” ou “não”. No restaurante, por exemplo, em vez de perguntar ao maitre se o talharim ao vôngole é bom, diga: “Que tal o prato?”. Perguntas abertas como essa convidam ao discurso mais elaborado, um bom antídoto contra silêncios constrangedores. Outra sugestão: seja todo ouvidos ao interlocutor. Nada esfria mais uma conversa do que a desatenção. Se o celular tocar, não atenda. Em geral, dá-se importância excessiva ao que se fala. Mas saber ouvir é ainda mais relevante. Só quem ouve de verdade sabe o que perguntar. “Hoje vai chover de novo. Você está lembrando do guarda-chuva”?.

*** LUCILIA DINIZ

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NO ALVO DA DEPENDENCIA

Substâncias em estudo prometem combater abuso de álcool dentro do cérebro

A medicina está sempre em busca de novas abordagens para tratar o alcoolismo, uma doença que mata cerca de 3 milhões de pessoas ao ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas as tentativas de extinguir a dependência muitas vezes esbarram nas limitações dos tratamentos e na tendência a recaídas dos pacientes. As esperanças no horizonte são duas velhas conhecidas das pesquisadoras: a cetamina e a psilocibina.

O poderoso anestésico e a substância alucinógena presente nos cogumelos mágicos foram investigados em estudos recentes com foco na fonte da dependência dentro do cérebro. Hoje, o alcoolismo costuma ser limitado com uma combinação de psicoterapia, uso de medicamentos e grupos de apoio. Entretanto, recaídas são comuns em pessoas que lutam contra o abuso de substâncias químicas.

A cetamina é um anestésico que começou a ter seu potencial terapêutico avaliado com sucesso para o tratamento de depressão resistente. Um estudo publicado em janeiro na revista American Journal of Psychiatry indica que ela também pode ajudar no tratamento do transtorno do uso de álcool. Três infusões semanais de baixa dose da substancia, aliadas a terapia de prevenção de recaídas baseada em mindfulness, ajudaram adultos dependentes a manterem sua abstinência por mais tempo.

 Os participantes que receberam o tratamento permaneceram completamente sóbrios por 162 dos 180 dias em que foram acompanhados. A taxa de 87% de abstinência foi “significativamente maior do que qualquer um dos outros grupos”, disseram os pesquisadores. Ao fim do estudo, aqueles que foram tratados com a substancia tinham 2 vezes mais chances de permanecer completamente abstinentes do que os participantes do grupo placebo.

Osestudos precisam avançar para comparar se a cetamina combinada à psicoterapia é mais eficaz que os tratamentos atuais, mas os pesquisadores acreditam que os resultados preliminares são promissores. Acredita-se que a combinação funcione porque a substância alivia temporariamente os sintomas depressivos durante o período de alto risco para recaída, nas semanas após a desintoxicação. Além disso, o anestésico ajuda a alterar o padrão de pensamento e a bloquear gatilhos para a reincidência, o que torna os pacientes mais abertos à terapia.

COGUMELOS MÁGICOS

Já a psilocibina, que causa o efeito alucinógeno dos cogumelos mágicos mostrou-se capaz de reduzir as recaídas. A substância psicodélica é capaz de restaurar os circuitos moleculares cerebrais responsáveis pelo controle do comportamento, da atenção e das emoções, além do desejo por álcool.

O estudo foi feito em ratos, mas os pesquisadores acreditam que seja uma abordagem com bom potencial para futuros tratamentos contra o alcoolismo em humanos. A psilocibina, assim como outros psicodélicos, mostram um campo terapêutico promissor para diversas doenças mentais. Visando expandir seu uso e torna-la mais segura, empresas já estão trabalhando no desenvolvimento de versões sintéticas da substância.

Para pessoas diagnosticadas com transtorno do uso de álcool, a melhor estratégia para reduzi-lo vai depender do grau do distúrbio. Casos podem ser resolvidos por conta própria e após um tempo, a pessoa pode até ser capaz de beber de forma controlada e ocasionalmente. Já para os quadros moderados e graves, e preciso ajuda médica, além de cortar completamente o consumo.

Atualmente, o tratamento padrão-ouro do alcoolismo é uma combinação de psicoterapia, em especial a cognitivo comportamental, associada ao manejo de contingência, com medicação. Esse tipo de terapia busca identificar os gatilhos associados ao uso do álcool e adotar estratégias de mudanças de rotina que evitem o acesso à bebida ou para serem utilizadas quando o desejo for acionado.

Já o “manejo de contingência” envolve o ganho de recompensas ao atingir metas estabelecidas, como ficar uma semana sem beber, com o objetivo de reforçar o comportamento positivo.

Em relação à medicação, são utilizados dois tipos de remédio. Um age diminuindo o apelo da bebida no cérebro, ou seja, o álcool não se torna tão prazeroso quando consumido. Outro, mais drástico, faz a pessoa passar mal quando bebe. Frequentar grupos de apoio, como os Alcoólatras Anônimos (AA) também é altamente recomendado por especialistas.

“Esse seria o tratamento ideal e mais completo possível”, afirma o psiquiatra André Malbergier, coordenador do Programa Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq). Para pessoas sem vicio estabelecido, algumas mudanças de hábito para reduzir o consumo já ajudam.

O controle voluntário serve, inclusive, para reduzir os riscos adicionais surgidos durante a pandemia de Covid-19. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro do Fígado (lbrafig) revelou que 17,2% das pessoas que consomem bebida alcoólica intensificaram a prática nesses dois últimos anos. A média ficou em três doses por ocasião, o que equivale a 450 mi de vinho ou três latas de cerveja.

As principais diretrizes de saúde definem o consumo moderado de álcool como duas doses ao dia para homens e uma dose para mulheres. Cada dose corresponde a uma lata de 350 ml de cerveja, uma taça de 150 ml de vinho ou 45 ml de destilado, como vodca ou gim.

A OMS tem parâmetros ainda mais rígidos. A organização recomenda abster-se de beber pelo menos dois dias por semana. Evidências recentes indicam que não há limite seguro para a ingestão de bebidas alcoólicas. Até mesmo aquela famosa taça de vinho, benéfica   para o coração, vem acompanhada de malefícios, como o aumento no risco de câncer.

Agora que a vida começa a voltar ao normal pós-isolamento, muitas pessoas parecem querer diminuir a quantidade de álcool.  Mas qual seria a melhor estratégia para isso? Segundo especialistas, tudo vai depender do seu padrão de consumo.

A maioria das pessoas consegue parar ou reduzir o consumo de álcool por conta própria. Porém, aqueles que bebem com mais frequência ou intensidade podem ter mais dificuldade, já que esse pode ser um indício de abuso. Ao primeiro sinal de exagero, é preciso identificar que existem problemas.

“Qualquer estratégia só será efetiva se as pessoas perceberem que estão bebendo muito e aceitarem estabelecer mudanças”, diz o psiquiatra Malbergier.

SINAIS DE ALERTA

Alguns sinais que indicam que o consumo está excessivo: a opinião de familiares; quando há associação do álcool a outras formas de prazer, aumento gradativo da quantidade, alteração do tipo de bebida consumida para aquelas com maior teor alcoólico e presença de sintomas de abstinência, como dificuldade para dormir, irritação, dificuldade de concentração, tremor e ansiedade. Ostrês últimos também são fortes indicadores de que pode haver um transtorno.

“A pessoa que não édependente tem a escolha de chegar em casa e decidir se vai beber água, suco, refrigerante ou cerveja. As pessoas que começam a ter problema com bebida perdem a plena capacidade de escolha”, diz o psiquiatra.

Para começar a se tratar a pessoa cujo consumo de álcool está associado a eventos sociais deve diminuir o acesso a essas situações. Por exemplo, recusar o happy hour após o expediente.

Malbergier também não recomenda reduzir a velocidade de consumo da bebida para uma dose por hora. É claro que ninguém precisa, nem vai cronometrar no relógio.

“Uma alternativa ése espelhar naquele amigo que só bebe pouco e devagar, e acompanhá-lo. Também ajuda pedir uma garrafa ou copo de água junto com a bebida alcoólica. Isso impede que a substância atinja altos níveis no sangue”, orienta.

Pessoas que exageram na bebida tendem a beber antes de comer. Inverter a ordem dos fatores é outro aliado da mudança de hábitos, porque o alimento inibe a absorção do álcool. Outra boa opção, para quem gosta de drinques, são os coquetéis não alcoólicos.

“As pessoasque bebem muito estão em busca da embriaguez. Elas não valorizam mais a bebida, o ritual ou o gosto. Todas essas estratégias buscam justamente evitar que a pessoa entre nesse estado”, explica.

OUTROS OLHARES

AS DORES DO MUNDO

Cefaleia atinge metade da população

Um grupo norueguês de cientistas revisou os números sobre ocorrência de enxaqueca na população global e concluiu que 52% das pessoas no planeta relatam ter dor de cabeça ao menos uma vez por ano. A porcentagem é significativamente maior do que os 35% estimados pela iniciativa Global Burden of Disease (GBD), que mapeia o impacto internacional de diferentes doenças e serve de referência para a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Realizado por cientistas da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, o trabalho buscou fazer uma análise mais detalhada dos números, reunindo 357 estudos epidemiológicos de todo o mundo para analisar o cenário. Depois de aplicar diversas correções estatísticas (sobretudo para compensar a falta de pesquisas sobre o tema em países pobres), a estimativa cresceu em relação aos cálculos da GBD.

Apesar de os números gerais de prevalência terem sido revistos, o trabalho chegou a percentuais similares aos conhecidos para duas diferentes classificações do problema. A enxaqueca afeta 14% da população global, e as dores de cabeça com alta frequência (por mais de 15 dias por mês) prejudicam a vida de 4,6% das pessoas.

Os números foram publicados na revista cientifica The Journal of Headache and Pain, do grupo Nature. No estudo, os pesquisadores liderados pelo neurologista Lars Jacob Stovner confirmam tendência já observada no CBO de que a prevalência de enxaqueca e dor de cabeça frequente em mulheres é aproximadamente o dobro da dos homens.

Geneticamente, homens e mulheres têm a mesma tendência a ter enxaqueca. Porém, a doença é facilitada pelo estrogênio, o hormônio feminino enquanto a testosterona masculina tem ação “protetora”. Por isso, a partir da puberdade, a mulher fica mais suscetível às crises.

Também há variação regional no estudo, com a América Latina e o Caribe tendo mostrado prevalência maior que a média (55%). A única região da OMS com índice maior é a que inclui Oriente Médio e Norte da África (60%).

A margem de erro das estimativas nos países mais pobres, porém, foi mais alta, porque os levantamentos epidemiológicos são mais raros e menos detalhados.

Para compensar as lacunas na disponibilidade de dados, os cientistas fizeram análises de diversos fatores para saber quais poderiam contribuir para distorce os dados. Levaram em conta a época em que o estudo foi feito, a região, os subgrupos incluídos e outros fatores.

Os números revistos apontam que, todos os dias, pelo menos 15% da população sofre de um episódio de cefaleia durante o dia. Incluindo estudos de 1960 até 2020, os pesquisadores ainda ressaltam que a prevalência geral de dor de cabeça parece estar subindo em muitas regiões, mas a precisão dos dados não permite tirar conclusões definitivas.

“O que está claro é que, no geral, os transtornos de dor de cabeça são altamente prevalentes no mundo toda e podem ter um impacto alto. E interessante que no futuro analisar as diferentes causas e como elas variam entre os grupos para direcionar melhor a prevenção e o tratamento”, afirmou Stovner, em comunicado.

Uma das conclusões curiosas do trabalho foi a faixa etária de maior prevalência de cefaleia, entre 10 e 19 anos. Segundo Thais Villa, neurologista e diretora clínica do Headache Center Brasil, é a primeira vez que o grupo abaixo dos 20 anos aparece como o mais acometido pelo problema:

“No contexto da pandemia, os gatilhos para quem tem tendência à dor de cabeça e enxaqueca se agravaram. E como a maturidade neurológica, ou resiliência só e alcançada na vida adulta, pré adolescentes e adolescentes, ainda em desenvolvimento, acabam sendo mais afetados por fatores estressores.

COVID LONGA

Para Alex Machado Baeta, neurologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo, a pandemia foi sentida nos consultórios dos especialistas. Dores de cabeça estão na lista de sintomas relatados da chamada “Covid longa.”

Com o surgimento da Covid-19, o número de pacientes com cefaleia crônica aumentou, e pacientes que já sofriam de enxaqueca pioraram muito”, revela.

Entre os tratamentos para enxaqueca disponíveis hoje estão a neuro estimulação, que ativa nervos da cabeça por meio de aparelhos e torna o paciente mais resistente a crises; e a toxina botulínica, que é aplicada nas passagens nervosas inflamadas para “acalmar” o cérebro.

GESTÃO E CARREIRA

VOLTA AO TRABALHO PRESENCIAL EXIGE TREINAMENTO

Empresas investem em técnicas de engajamento para adequar os funcionários ao cenário pós-pandemia

Depois de dois anos com os funcionários trabalhando em home office, muitas empresas estão retornando ao regime presencial. A proximidade e o contato físico têm vantagens insubstituíveis em relação ao relacionamento remoto em determinadas atividades, e o avanço da vacinação está permitindo a volta com mais segurança. No entanto, a readaptação exige novos treinamentos, e reestruturação de rotinas e processos com os quais o trabalhador vai continuar lidando no modelo híbrido.

Nestes novos tempos, o desafio é obter resultados melhores com o convívio presencial, o que necessita investimento em capacitação, busca de maior engajamento e entrosamento entre lideranças e equipes. Por outro lado, grande parte das empresas está tendo que reformular seus protocolos para conjugar as atividades presenciais nas sedes com outras que conciliam os dois modelos.

Segundo Matheus Cardoso, CEO da fábrica de Criatividade, especializada em educação corporativa, além de novas habilidades, os colaboradores precisam enfrentar desafios psicológicos para essa transição.

“Não dá para fazer agora o mesmo que fazíamos antes da pandemia, porque, além do mercado ter evoluído dos diferentes desafios, as pessoas estão cansadas dos eventos tradicionais. Temos que inovar, oferecer treinamentos que não se limitem a telas e apostilas, mas que envolvam colocar a mão na massa e exercitar o olho no olho”, explica ele.

A consultoria tem oferecido treinamentos de alta performance para empresas que estão retomando o esquema presencial. Segundo Cardoso, esses exercícios podem ajudar a mostrar o valor do trabalho presencial.

“Precisamos incorporar ações, movimentos e atividades que mostrem a importância do contato físico”, avalia.

ENGAJAMENTO

A empresa de comércio eletrônico OLX Brasil deixou de dar prioridade ao trabalho remoto para reabrir escritórios e receber aqueles que desejarem trabalhar presencialmente até duas vezes por semana. Diferentemente do híbrido, em que as pessoas trabalham no escritório algumas vezes na semana, no novo sistema os colaboradores tem mais liberdade de escolha e podem optar por dar seu expediente no espaço corporativo, agendando os dias que preferem ou continuar no trabalho remoto.

A empresa organizou um evento reunindo gerentes e executivos recentemente para estimularem maior entrosamento na volta. O objetivo foi conectar e engajar a liderança sênior de um jeito leve e descontraído, após tantas mudanças no ambiente de trabalho, pontua Christiane Berlinck, chefe de Gestão de Pessoas da OLX Brasil.

“Procuramos promover atividades que estimulem a mudança de mentalidade, o desenvolvimento de competência e compromissos, e abordar os pilares da autonomia responsável, senso de pertencimento e conexão e cuidado com as pessoas. permitindo que o time evolua e entenda o impacto de cada um desses aspectos no alcance dos resultados”, detalha Christiane.

Outra empresa digital que precisou retomar o trabalho presencial foi a Alfred Delivery. Segundo o CEO e fundador, Myrko Micall, esse processo foi cercado de desafios, como o da integração de pessoas contratadas durante a pandemia que sequer tinham colocado o pé no escritório.

A empresa trabalha com diversas ferramentas para gerenciamento de projetos e acompanhamento de tarefas, que se tornam muito mais eficazes com as equipes mais próximas. O engajamento fica ainda melhor com a realização de eventos e até de happy hours internos.

“No nosso cotidiano, temos ritos de comemoração constantes em cada meta batida; diária, semanal ou mensal. Isso ajuda muito no entrosamento dos times e, de quebra, ainda deixa o ambiente saudável, amigável e mais divertido”, conta Micall.

Cristina Fortes, consultora e diretora da LHH, acredita que um dos principais desafios das empresas é garantir um clima positivo no novo ambiente de trabalho, e evitar, por exemplo, casos de burnout, síndrome de esgotamento muito frequente hoje em dia.

“Nossas pesquisas têm mostrado que é fundamental promover um ambiente de bem-estar para os funcionários. As lideranças precisam perceber como promover a transição dos colaboradores para que eles consigam produzir nesse novo cenário sem estresse desnecessário”, destaca.

EU ACHO …

SILÊNCIO EM MOVIMENTO

Esta é uma crônica para ser lida ouvindo Bach. Essa é uma crônica que trocou o massacre das notícias diárias pela Suíte número 1 para Violoncelo. Essa é uma crônica instrumental que está nascendo às sete horas de uma manhã em preto e branco. Chove.

Coloquei o celular no silencioso. Afasto o mundo de mim. Aproximo de mim meu universo. Aceito, finalmente, que ninguém jamais me compreenderá, não me conhecem por dentro.

Estou por um instante a salvo da vulgaridade. Enterneço. Percepções imprecisas se transformam em poesia. Wagner. De repente um coral começa a cantar. Me transporto.

Aconteceu uma vez de eu entrar numa pequena igreja de uma vila italiana e eles estavam lá, dialogando com os deuses bem na minha frente. A beleza secreta de ser uma intrusa. Meu silêncio, minha rendição, e aquelas vozes.

Sem espalhafato, o céu desse início de manhã se torna cinza claro, e encontro no meu escuro algo que não estava procurando. Choro.

Violino. Não sinto nenhuma revolta. Estou em casa como tenho estado poucas vezes, apesar de estar sempre aqui. Estou em casa como se não tivesse saído jamais de dentro de mim. A janela está aberta, o dia está molhado, mas não sinto frio. É meu lugar de pausa.

Estou em segurança nessa tranquila solidão. Piano. Parece um castelo vazio, o palco de um teatro, a trilha sonora de um filme, mas sou eu, apenas, me escutando.

Calma. Sei que o sossego dessa inércia não vai durar, que as horas seguintes violarão a sacralidade que há nos recolhimentos, que alguém irá me chamar e terei que dar respostas, analisar contratos, cumprir o combinado. Por enquanto, fecho os olhos. Este momento ainda é só meu.

Liszt. Chopin. Debussy. Inspiro no profundo de mim, longamente. Expiro. E como se eu me despisse inteira para desconhecidos. O dia inaugura assim, musical, sem emergências. Não há o que possa me doer.

A vida não é real. Vida é fascínio, êxtase, elevação. A realidade tem a respiração curta, anda rente às calçadas. falta pouco para o barulho da obra ao lado começar e me tirar dessa paz sem esforço. Erik Satie. A rotina está chegando perto como eu não queria que chegasse, ainda não. Me dê mais cinco minutos.

Parou de chover, mas segue nublado. Réquiem. Pertenço a esse gênero de música também, a clássica. A essa desaceleração, a essa epifania. Sou uma orquestra de vários instrumentos, nem sempre intensa. Volto amanhã, quando despertarei cedo outra vez, antes da violência dos hábitos. Minha funcionária acaba de chegar. Os operários da obra já manejam seus guindastes e betoneiras. Meu celular não está mais no silencioso. Camille Saint-Saens é interrompido pelo interfone, Brahms é cortado pelo sinal de WhatsApp. Preciso ir.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

ESTAR BEM

HÁ CINCO MANEIRAS PARA DEMONSTRAR AMOR. QUAL É A SUA?

Livro mostra que nem sempre compreendemos a maneira como o outro mostra seu afeto, o que pode acarretar decepção

Não existe nada mais universal do que o amor, mas será que sua forma de demonstrar também pode ser entendida por todos? No final dos anos 1990, o pastor e conselheiro matrimonial Gary Chapman lançou o livro As 5 Linguagens do Amor explicando que nem todo mundo mostra seu afeto da mesma forma. No começo, a obra foi entendida como mais uma da lista de autoajuda. Anos depois, traduzida para mais de 50 idiomas e com mais de 10 milhões de cópias vendidas pelo mundo, seu sucesso é inegável.

Segundo Chapman, cada indivíduo nasce com uma maneira específica de identificar, receber e dar amor. Normalmente, essa linguagem primária está relacionada a nossa infância e como nossos responsáveis demonstravam amor.

Elas são divididas em cinco grandes grupos: palavras de afirmação, atos de serviço, tempo de qualidade, presentes e toque físico. Os entrevistados procurados pela reportagem foram categóricos em afirmar que essas não são as únicas, porém, são grandes generalizações que ajudam o outro a entender que nem sempre a sua maneira de dar afeto é igual à do outro.

“O livro propõe uma conscientização da forma como o outro espera ser atendido na relação”, sintetiza a terapeuta de relacionamentos Cris Monteiro. “O sentimento tem uma ligação com três pilares que o sustentam: interesse, admiração e merecimento. Então nos interessamos uns pelos outros – com expectativas, interesses – e quando isso é atendido, ou seja, nossa linguagem é entendida, imediatamente admiramos o outro. Quando admirados, a gente também se doa e atende o outro.”

“Você é incrível”, “Vai tudo dar certo no trabalho”, “Adoro quando você faz isso”. Elogios, declarações e incentivos são sempre gostosos de escutar. Mas para pessoas que têm palavras de afirmação como sua linguagem do amor, essa escuta é mais valorizada. Assim como os abraços, cafunés e massagens são muito mais do que um carinho espontâneo para aqueles que levam o toque físico como linguagem primária. E o mesmo se dá com os que preferem os presentes. Diferentemente do que pensam, nessa linguagem o que menos importa é o valor financeiro, mas sim o simbolismo do gesto.

‘TANQUE EMOCIONAL’

Quando gostamos de alguém, esses atos surgem naturalmente. No entanto, segundo o autor, cada um de nós tem um “tanque emocional” que, quando vazio, permite que o relacionamento se desgaste, aumentando decepções, brigas e inseguranças. A forma de encher esse tanque seria falando a linguagem certa de maneira genuína.

As outras duas linguagens do amor já são mais específicas – porém, não menos importantes e necessárias em qualquer relacionamento. O tempo de qualidade talvez seja o fator de maior importância nos dias atuais. Essas pessoas sentem necessidade de um tempo dedicado exclusivamente a elas, com conversas, passeios e encontros. Nada de divisão de atenção como celular, por exemplo. Já os atos de serviço pedem por ajudinhas  no dia a dia, como lavar a louça, cozinhar seu prato favorito, arrumar a cama ou trocar a fralda do bebê.

Nem sempre a maneira como você gosta de receber amor é a mesma de seu par. Esse foi um dos maiores aprendizados de André, de 57 anos, e Mônica Martim, de 53, casados há 32 anos. “Intuitivamente a gente pressupõe que a pessoa tem a mesma linguagem de amor que nós temos. Então a gente acaba se esforçando para corresponder o amor da pessoa em uma linguagem que não é a dela. Isso acaba gerando uma frustração em ambas as partes, porque a pessoa não se sente amada na devida proporção e aquele que entrega também se frustra quando não vê resultado”, conta André.

Mônica lembra que a leitura do livro trouxe um novo olhar para o relacionamento dos dois. “Quando você vê realmente que cada um é um, e cada um tem um jeito de reagir às emoções, facilita muito”, diz ela, que demonstra amor com comidinhas caseiras e arrumações da casa. Já André se encanta ao ouvir palavras de afirmação, mas não dispensa um tempo de qualidade com a família. E desde que está com Mônica ele se esforça em fazer tarefas domésticas. “Eu fico imaginando o sorriso dela quando ela vir aquilo. Isso me move”, garante. A linguagem primária pode e deve ser modificada com o tempo. Experiências positivas e negativas podem exercer influência, mas sempre é bom valorizar outras demonstrações de amor ao longo da vida. “O passado pode comprometer a qualidade da nossa vivência hoje”.

DAR TEMPO

O ideal é dar tempo ao tempo e experimentar o que o outro tem a oferecer, consciente dessas diferenças. E ainda adequar o comportamento à realidade amar e não apegada a uma realidade do passado ou a uma cultura original’, ensina Cris.

É importante que essa ”ferramenta de autoconhecimento sirva para facilitar as relações e não para colocá-las em algo imutável.” O autor teve uma sacada muito legal e pode te dar um caminho, uma luz. Agora, se você levar isso como um dogma, pode trazer mais malefícios do que benefícios”, alerta a psicóloga Cláudia Macedo. “A grande sacada dele é falar”, observa. Falar “eu te amo” com um espelho na frente não adianta. Quando eu for me declarar, tenho de estar olhando para o outro, na condição dele e perceber como ele gosta.”

No caso de André e de Mônica, a reflexão sobre os jeitos de demonstrar amor repercutiu ainda nas filhas do casal, Isabella e Manoela, que também leram o livro. “Para elas é muito importante o tempo de qualidade, e a gente sempre fazia questão de deixar os domingos livres para estarmos todos juntos. E nisso o livro também nos ajudou”, relata ainda Mônica.

Apesar de o título ser dedicado a casais, a compreensão das formas de amor é interessante para qualquer relação. O próprio autor percebeu isso quando optou por lançar, nos anos seguintes, versões destinadas a adolescentes, crianças e até um específico para homens.

“A gente não tem educação afetiva. Ninguém tem, na verdade, mas os homens são ensinados a apagar isso. E geralmente a raiva, é o único sentimento permitido, identificado. Há também a questão da fragilidade, porque o perdão é assumir seus erros, é falar sobre isso. E os homens têm essa dificuldade de se mostrar vulneráveis”, revela o estudante e produtor de conteúdo de psicologia das masculinidades João Marques. Para ele, o livro ajuda as pessoas a ter um movimento de olhar e escuta para o outro. “Não costumamos ter esse tipo de conversa e acho que isso é um começo interessante de algo bom.”

LINGUAGENS

Atualmente, o público jovem continua a popularização das cinco linguagens do amor graças aos testes na internet. Aqui você pode fazer o oficial, em inglês: 5lovelanguages.com/quizzesflovelanguage.

“À medida que a intimidade vai aumentando com uma pessoa, seja amigo, família, você pode perguntar: o que é realmente importante para você? E isso facilita muito a forma certa de você manifestar esse carinho. Hoje, esse tipo de pergunta não é tão mais incomum”, diz Mônica.  “Quando você ama a pessoa, você quer faze-la feliz. O resto éconsequência. Você aprende pela outra”, conclui o marido.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FINLÂNDIA: OS MAIS FELIZES DE VERDADE

Honestidade, um patrimônio do país, é sua chave para o bem-estar

No Norte da Finlândia, um homem pesca um salmão. O peixe é grande, mas dois centímetros menor do que manda a regra. Ele solta o animal na água. Ninguém está vendo, não há fiscalização. Apenas devolve o peixe “porque se todos pescarem assim, no futuro vai faltar”’.

A história é citada pela professora e cientista de dados Sara Kfouri Koskinen, que é casada com o finlandês pescador e mora no país há quatro anos. Esse é apenas um exemplo de uma lista que ela conta, quando se pergunta sobre a honestidade naquelas terras frias. Esqueceu o celular no mercado? Devolvido na hora. Perdeu a luva na rua? Está pendurada

na altura dos olhos, no mesmo local. Fez uma compra online? Pega na caixa de correio e deixa o dinheiro ali mesmo. A porta de casa? Sempre destrancada. Ouviu um elogio? E de verdade.

“A questão da honestidade é uma das coisas de que mais gosto aqui. As relações são muito mais francas, eles falam o que pensam, não tem joguinho. Há segurança e todos os aspectos da minha vida, me sinto protegida por essa cultura. A honestidade faz com que eu tenha tranquilidade e paz”, conta Koskinen.

O relato também faz entender de forma mais clara como o conceito entra como um critério no ranking dos países mais felizes do mundo, em que a Finlândia foi vencedora pelo quinto ano consecutivo há poucos dias. Segundo especialistas, apoio social, honestidade e generosidade seriam as chaves para esse bem-estar.

O relatório da felicidade mundial, que está no décimo ano, é baseado na avaliação das próprias pessoas sobre sua felicidade, bem como em dados econômicos e sociais. Ele atribui uma pontuação de felicidade em uma escala de zero a 10, com base em uma média de dados ao longo de três anos.

Os moradores do Norte da Europa dominaram os primeiros lugares, com a Dinamarca em segundo, seguida pela Islândia, Suíça e Holanda. O Afeganistão estava em último lugar (o ranking foi elaborado antes da invasão da Ucrânia pela Rússia).

Não se trata de uma exigência apenas para governantes, mas de uma ideia que perpassa toda a população e cria um forte senso de comunidade. E, de acordo com estudos e especialistas, essa segurança também faz bem para a saúde.

SAUDE FÍSICA E MENTAL

Um estudo feito com 110 pessoas ao longo de dez semanas pela Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, mostrou que pessoas que conseguiram reduzir o número de mentiras que contam no dia a dia relataram uma melhora significativa na saúde física e mental no período.

Por exemplo, quando os participantes contaram três mentiras a menos do que nas outras semanas, experimentaram menos quatro queixas de saúde mental, como sentir-se tenso ou melancólico, e três menos queixas físicas, como reclamar de dores de garganta e de cabeça.

Segundo os pesquisadores, uma das principais vantagens relatadas pelos voluntários foi não precisar lidar depois com o estresse e ansiedade gerados por uma mentira, já que muitas vezes as pessoas precisam lembrar do que disseram ou até contar alguma mentira adicional para manter a original.

Para o psiquiatra Guilherme Spadini, professor da The School of Life, há dois aspectos a   serem compreendidos sobre o conceito de honestidade. O primeiro éo valor social, que traz coisas boas para toda a sociedade, como segurança, menos ansiedade e medo e que, obviamente, impactam na saúde física e mental.

“Essa coisa da pessoa poder se dar bem, do malandro, traz ganhos no curto prazo e individuais. Mas a vantagem de viver num lugar em que você não espera o tempo todo que alguém vai te passar a perna, o ganho disso é infinitamente maior”, analisa.

Porém, o psiquiatra reforça que há, também, um aspecto pessoal, de como ser honesto pode contribuir para o bem-estar individual.

“Quando a honestidade é vista como uma virtude pessoal traz bem-estar, porque passa a ser encarada como algo que você confia em si mesmo, uma força de caráter, e isso tem associação muito próxima comfelicidade. Não com aquela ideia de estar feliz o tempo todo, num estado de prazer, mas a capacidade de enfrentar momentos difíceis e ainda assim ter algo que lhe sustente, uma força interior”, explica Spadini.

MUITAS MENTIRAS

O professor de psicologia e escritor Robert S. Feldman diz que as pessoas mentem muito: entre duas e três vezes em uma conversa de apenas 10 minutos.

Já a principal autora do estudo da Universidade de Notre Dame, Anita Kelly, estima que, ao longo de um dia, uma pessoa minta, em média, 11 vezes. Segundo ela, “ser honesto é um processo, mas vale a pena.

“Pode não ser fácil ‘sempre querer dizer o que você fala’. Você pode precisar voltar atrás e corrigir algumas das coisas que saem da sua boca. Mas não deixe que isso o desanime. Ser sincero e um processo e você chegará lá com a prática. E quando o fizer, verá que está se tornando mais humilde, mais aberto ao aprendizado e menos sensível a rejeição. Ser sincero o aproxima das pessoas decentes, afasta os pessimistas, e permite que você sinta uma certa esperança em relação ao mundo. Quando você experimenta esse sentimento, acredito que também terá profundos benefícios para a saúde”, escreveu Kelly em seu estudo.

OUTROS OLHARES

APÓS O DIVÓRCIO, A TORTURA

Mulheres têm de dividir a guarda com agressores

Em um relacionamento que durou dois anos, Bruna (nome fictício) sofreu incontáveis violências, foi torturada física e psicologicamente pelo companheiro, que tentava impor seus fetiches sexuais a qualquer custo. Foi empurrada contra a parede enquanto tomava banho. Ameaçada de morte. Perseguida e insultada.

Quando decidiu se separar, conseguiu a guarda unilateral provisória da filha, então com 9 meses, concedida em função do risco de vida que ambas corriam. Mas depois, na Justiça, foi coagida pelo próprio advogado a aceitar a guarda compartilhada, mesmo apresentando provas das agressões sofridas. O argumento era que a outra modalidade “desagradaria ao ex-marido”. O mesmo homem que durante o processo de dissolução da união estável ameaçou matar toda a família, acelerando o carro em que estavam na direção de um caminhão.

“A violência aumentava gradativamente. Se eu não fazia do jeito dele, ele se exaltava”, conta, lembrando-se do tempo em que o contato com o ex-marido era necessário pela divisão de guarda.

A violência sofrida pela mãe se estendeu à filha, que foi agredida e abusada sexualmente pelo pai. Hoje, ambas têm medida protetiva, mas a litigância abusiva continua em nível processual.

Nas varas de família, a história se repete, e mulheres denunciam que a imposição da guarda compartilhada com seus agressores tem ajudado a perpetuar a violência que sofreram.

“Você acaba expondo essa mulher, pois ela vai ter que dialogar com o seu agressor. E o diálogo é a porta de entrada dos ataques”, diz Mariana Trípode, advogada especialista em Direito e Gênero e fundadora da Escola Brasileira de Direitos das Mulheres.

O entendimento de juízes é que a violência éum problema entre o casal, sem relação com a paternidade, e uma eventual guarda unilateral seria prejudicial à criança.

“Há, porém, pesquisas de psicólogos mostrando que crianças expostas a relações violentas entre pai e mãe costumam responder às dificuldades com alto grau de estresse”, diz a advogada.

Mariana também cita o relatório Ligue 180 – Balanço 2016, segundo o qual mais de 80% dos filhos presenciaram violência contra as mães ou foram agredidos junto com elas, o que os torna vítimas, diretas ou indiretas.

Hoje, a guarda compartilhada no Brasil é obrigatória. Nela, os pais devem discutir juntos as decisões da vida dos filhos, independentemente da custodia física.

Depois que se separou, Juliana (nome fictício) passou a receber mensagens diárias do ex-marido, que a ofendia chamando-a de “incompetente”, e “irresponsável”. No WhatsApp, eram frequentes os questionamentos sobre a sua vida pessoal e o estabelecimento de normas para ela cuidar do filho.

Juliana conta que, em uma ocasião, o ex-companheiro disse que a deixaria tão louca que ela precisaria destinar a um tratamento psicológico tudo o que teria “tirado” dele.

“Ele passou a usar a guarda para me perturbar. Me mandava mensagens das 7h às 22h, e aquilo estava acabando com o meu psicológico. Eu virei refém dele”, relata Juliana, que diz que o filho do casal, hoje com 10 anos, sofre com crises de ansiedade por conta da situação dos pais.

O ex-companheiro foi condenado a 17 dias de prisão pelo crime de perturbação de tranquilidade. Juliana também ganhou uma medida protetiva. A guarda compartilhada, no entanto, foi mantida. Mesmo com o Ministério Público tendo reconhecido, após a denúncia, que o homem utilizou a guarda compartilhada “para tentar controlar as atividades da ex-esposa” ea relação dela com outras pessoas.

Na audiência de conciliação para reverter o regime, Juliana foi chamada pelo advogado do pai de seu filho de “mimizenta” e ”birrenta”.

A tentativa de controle da visa da ex-esposa é uma constante em processos deste tipo. Às vezesé explicita, como no caso de Daniela (nome fictício). O pai de sua filha pediu à Justiça acesso aos seus horários de entrada e saída em seu prédio, além do nome de todas as pessoas que frequentam sua residência, inclusive durante os horários em que ela não estava com a criança.

CAMERA PARA CONTROLAR

O Ministério Público aceitou a solicitação, mas falta decisão do juiz. A vigia já era praticada na época em que os dois eram casados. Ele colocou uma câmera de segurança dentro de casa para vigiar a ex-mulher. Ela somente descobriu a existência do aparelho nos autos do processo.

“Você pede o divórcio, acha que vai ter a sua vida, conseguir respirar. E aí vem o pai com esse tipo de pedido. Onde está a relevância de saber a hora que entro e saio do meu apartamento?”, diz Daniela.  “E se utilizar do argumento de ser pai e ter direito a informações sobre a filha, para invadir a minha vida. Me pergunto quando realmente vou ter paz. Há uma tortura camuflada nessa guarda”.

Segundo a advogada de família Mariana Regis, há legislações internacionais que reconhecem que a guarda compartilhada não atende ao princípio do melhor interesse da criança quando há prática de violência doméstica. É o caso da lei do estado da Flórida e da porto-riquenha.

“O Brasil segue sem proteção legal efetiva àsmulheres e crianças cujos pais praticaram violência contra suas mãesem processos atinentes à guarda. Cada mulher violentada precisa submeter seu caso à análise de juízes que resistem a considerar a violência como elemento impeditivo do compartilhamento.

No Congresso, há pelo menos quatro projetos de lei visando a proibir o compartilhamento da guarda em casos de violência doméstica. Mas as propostas pedem alteração do Código Civil e do Código de Processo Civil sem reconhecer que as mulheres são as mais vulneráveis. A advogada diz que uma vedação na Lei Maria da Penha seria mais eficiente.

GESTÃO E CARREIRA

EMPRESAS FAZEM ATÉ SHOWS PARA ESTIMULAR A VOLTA AO ESCRITÓRIO

Gigantes da tecnologia oferecem regalias para agradar aos funcionários, mas eles não querem voltar à rotina presencial

Quando os funcionários do Google voltaram aos escritórios vazios da empresa neste mês, escutaram que deviam relaxar. O tempo no local de trabalho precisa ser “não apenas produtivo, mas divertido”. Explore um pouco o espaço. Não agende um compromisso atrás do outro.

Além disso, não se esqueça de comparecer ao show privado da Lizza, uma das maiores estrelas americanas do pop. Se isso não bastasse, a empresa está planejando “eventos temporários” que vão contar com “a dupla favorita de todo os googlers: comida e brindes”.

Mas os funcionários do Google em Boulder, no Colorado, foram lembrados do que estavam abrindo mão quando a empresa os presenteou com mousepads com a imagem de um gato com olhar triste. Abaixo do animal havia um pedido: “Você não vai RTO, vai?”

RTO é a sigla em inglês para “return to office”(voltar para o escritório) e surgiu durante a pandemia. É um reconhecimento de como a covid-19 obrigou as empresas a deixarem as mesas e os prédios de escritórios vazios. A pandemia provou que estar no escritório não significa necessariamente ter maior produtividade, e algumas continuaram a prosperar sem os encontros presenciais.

Agora, depois de dois anos de reuniões virtuais e trocas de mensagens por aplicativo, muitas empresas estão ansiosas para ter os funcionários de volta em suas mesas. Os funcionários, no entanto, não estão tão animados em voltar a fazer deslocamentos matinais, usar banheiros compartilhados e vestir roupas de trabalho que não são tão confortáveis.

Por isso, as empresas de tecnologia com dinheiro para gastar estão recorrendo ao “bonde da diversão”, mesmo deixando claro que retornar ao escritório – pelo menos alguns dias por semana – é obrigatório.

“Essas regalias são um reconhecimento das empresas do quanto estão cientes de que os funcionários não querem voltar, com certeza não com a mesma frequência de antes”, disse Adam Galinsky, professor da escola de negócios da Universidade Columbia. Segundo ele, pelo menos por enquanto, as empresas optam pela recompensa em vez da punição: recompensando os trabalhadores por voltarem ao escritório no lugar de puni-los por ficarem em casa.

DESVANTAGENS

Antes da pandemia, as maiores empresas de tecnologia investiram bilhões de dólares para construir escritórios que são maravilhas da arquitetura. Esses locais, repletos de conveniências e regalias, são uma prova da crença de que a colaboração presencial estimula a criatividade, inspira inovação e transmite um senso comum de propósito.

Mas para muitos que desfrutaram da liberdade de trabalhar remotamente, o retorno ao escritório – por mais extravagante que seja – lembra a sensação de fim de férias e volta às aulas. Poucos estão interessados em trabalhar presencialmente cinco dias por semana de novo.

Nick Bloom, professor de economia da Universidade Stanford que entrevista 5 mil trabalhadores todos os meses, disse que a maioria quer voltar ao escritório duas ou três vezes por semana. Um terço não quer voltar nunca mais.

Só em acabar com o deslocamento para o escritório, disse Bloom, o trabalhador economiza em média uma hora por dia. “Você consegue entender por que os funcionários não vão voltar ao local de trabalho por causa da comida grátis ou da mesa de pingue-pongue”, diz. A principal razão para ir ao escritório, de acordo com as pesquisas, é que os funcionários querem ver os colegas pessoalmente.

Segundo Bloom, o desafio para as empresas é como equilibrar a flexibilidade com uma estratégia mais rígida para obrigá-los a comparecer em dias específicos ao escritório. Ele disse que as empresas devem se concentrar no desenvolvimento da estratégia para o trabalho híbrido, em vez de desperdiçar tempo e esforço com mimos. “Os funcionários não vão voltar ao escritório apenas por causa dos pequenos grandes luxos”, disse Bloom. “O que vão fazer depois? Chamar o Justin Bieber e depois a Katy Perry?”

EU ACHO …

ERA METAVERSO

Imagine um mundo onde, em vez de criar perfis nas redes sociais, você criará avatares complexos que podem ser uma cópia bem semelhante de quem você é, com base no seu corpo físico e personalidade. Ou com identidades completamente diferentes da sua, como se fossem outras versões de você.

Imagine que o peso do status do que seu avatar veste ou come em uma realidade virtual gamificada importe tanto ou até mais do que aquilo que você veste ou come no mundo real. Imagine que a preocupação com a saúde de seu avatar importe tanto quanto a saúde do seu corpo físico. Para adolescentes gamers, isso não é novidade. Quem viveu a febre dos tamagochis, uma espécie de pet virtual, teve um pequeno gostinho do que isso significa. Esse mundo está acontecendo agora O metaverso é também sobre isso. Essa interface gamificada e virtual que, de certa forma, imita e ao mesmo tempo nos permite ir além do mundo real, é parte da web 3.0 e seu grande mercado, segundo estudiosos do tema como Scott Galloway e Anna Flavia Ribeiro.

Ao pensar o conceito de raça, por exemplo, no campo das relações sociais no mundo físico, ele tem a ver com a influência do fenótipo e ancestralidade sobre as experiências sociais compartilhadas no mundo real.

No metaverso, você poderá criar avatares que sejam uma representação do que você deseja ser. Se no seu corpo físico você for uma pessoa branca sem deficiência, mas quiser também ser um avatar indígena, negro, trans, com deficiência, e viver as experiências do que essas identidades e suas complexidades produzem, isso será, em tese, possível.                

E essas identidades paralelas terão tanta importância social para você e para a sociedade quanto a identidade de seu corpo na vida real.

Penso que um avatar no metaverso ainda é uma escolha. Nossas múltiplas identidades associadas ao corpo físico não são completamente escolhidas. Embora, em relação ao corpo físico, isso esteja se tornando cada vez mais possível.

Por outro ângulo, empresas poderiam usar avatares de múltiplas identidades para “resolver” no metaverso a falta de inclusão no inundo real. ‘Imagine que façam, no metaverso, com que seus avatares sejam negros, indígenas e mulheres, mas, na realidade, sigam sendo comandados pelos mesmos homens brancos que já conhecemos?

Seria como as versões dos modelos diversos que empresas hoje colocam nas fotos nas redes sociais para uma “lavagem”, mas que não representam seu público interno com o poder da caneta. Ou ainda aquelas que colocam uma inteligência artificial, com voz feminina completamente programada por homens, acreditando que isso coopera para a igualdade de gênero.

Na era metaverso ainda poderíamos nos perguntar: é antiético se apropriar de identidades diferentes da do seu corpo físico? Quais são as identidades verdadeiras e quais são as falsas? Quem orquestra o que é ético no metaverso?

Diversas organizações e pessoas independentes ou as mesmas grandes corporações, inclusive a que se autodenomina Meta (a antiga Facebook Inc.) e que determina quais são os nossos níveis de acesso às informações?

Haverá hierarquização entre os avatares ou será o fim do racismo e outros “ismos” se chegarmos a esse cenário? E a nossa privacidade, quem controla? São inúmeras as perguntas. O metaverso parece ter potencial e deve continuar dando muito o que falar.

*** LUANA GENOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

ESTAR BEM

APLICAR BOTOX AOS 20 ANOS PODE PREVENIR RUGAS?

Embora alguns dermatologistas digam que as injeções adiam o aparecimento de marcas, há poucos estudos de longo prazo sobre a toxina botulínica e especialistas levantam questões sobre custos e ideais de beleza irreais

Embora a maior parte das pessoas que usam a toxina botulínica, conhecida como Botox, sejam mulheres com mais de 40 anos, recentemente as mídias sociais se tornaram palco para o debate: começar a aplicar substância quando se e jovem pode ajudar a parar os sinais de envelhecimento? A premissa básica é a de que, se você começar a usar o Botox, quando jovem, não formará os sulcos que as pessoas tentam “corrigir” mais tarde na vida.

Em 2020, cerca de 811 mil procedimentos de Botox no Estados Unidos foram realizados em pessoas na faixa de 30 anos, o que representou aproximadamente 18% do total nacional, de acordo com a Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos.

Embora a maioria dos dermatologistas concorde que essa abordagem funciona, alguns temem que os pacientes estejam fazendo intervenções muito cedo ou alertam contra o custo financeiro de longo prazo de injeções repetidas.

Conversamos com mais de uma dezena de especialistas para descobrir se o “Botox preventivo” é um investimento sábio.

MOTIVAÇÃO

O Botox limita o movimento ao bloquear a acetilcolina, que é o principal neurotransmissor. Com o tempo, segundo a teoria, um usuário que recebe a toxina com frequência enfraquece os músculos faciais e retarda o processo no qual as linhas dinâmicas (aquelas que se formam quando se faz uma expressão) se transformam em linhas estáticas (aquelas visíveis quando o rosto está em repouso).

“Basicamente, vocêestá inibindo as contrações musculares e diminuindo o movimento facial”, diz Kristen Broderick, professora assistente de cirurgia plástica e reconstrutiva na Johns Hopkins Medicine.

Portanto, você está prevenindo ou retardando a formação de rugas com o tempo. Mas os médicos enfatizam que as rugas são adiadas, não evitadas.

“A MãeNatureza sempre vence”, afirma Mathew Avram, diretor do Dermatology Laser & Cosmetic Center e diretor de cirurgia dermatológica do Mass General Hospital em Boston.

A boa notícia éque os médicos não estão mais servindo o “botox-face” – pense em sobrancelhas congeladas em perpétua surpresa, testas sem rugas, mas não exatamente jovens. Agora, os dermatologistas tentam suavizar enquanto ainda permitem o movimento.

E mesmo que a neurotoxina desapareça em cerca de três a quatro meses, alguns médicos dizem que ela atrasa o processo natural de envelhecimento.

“Se estou começando aos 25 anos e uso até os 40, economizei todos esses anos sem ter rugas”, garante Patrícia Wexler, fundadora da Wexler Dermatology em Nova York. “Então, se você parar de usar o Botox aos 45 ou 50 anos, terá uma nova linha de base. Vocêvai ter rugas nesse ponto, mas elas não serão o mesmo que teria.

A maioria dos dermatologistas concorda que o Botox é um tratamento seguro e confiável. Mas o uso a longo prazo tem sido pouco estudado, e as evidencias são esmagadoramente anedóticas. Muitos dermatologistas apontam para suas próprias testas lisas como prova de conceito.

Não existem estudos clínicos ou observacionais em larga escala de Botox preventivo. Um estudo de 2006 analisou duas gêmeas idênticas. Uma recebeu injeções regulares de Botox, a outra, não.

Os pesquisadores descobriram que as linhas “não eram evidentes na gêmea regularmente tratada” onde ela havia recebido injeções, mas apareciam em sua irmã. As áreas não tratadas de ambos os rostos mostraram “envelhecimento comparável”. Em um seguimento, quando as gêmeas tinham 44 anos, a que recebeu os tratamentos não apresentava linhas estáticas em repouso, sua irmã, sim.

Um estudo de 2011 analisou se os efeitos de injeções repetidas reduzem ou eliminam as rugas da testa a longo prazo. A cada quatro meses, um grupo de 45 mulheres, com idades entre 30 e 50 anos, recebeu pequenas quantidades de toxina botulínica na testa. Os médicos os avaliaram dois anos após o início do tratamento, uma vez que o último tratamento teria passado, e descobriram que a neurotoxina reduziu significativamente suas rugas.

Mas vários dermatologistas apontaram os efeitos negativos de interromper o tratamento. Loretta Ciraldo, que atua na dermatologia há mais de 40 anos, falou de pacientes que usaram Botox por décadas e depois deram uma pausa. Quando eles voltaram ao seu escritório, ela disse, “não ajudou em nada. Uma vez que passou, passou”.

ALERTAS

Botox é caro, e procedimentos repetidos se somam ao longo dos anos:

“As injeções de neurotoxina são grande fonte de dinheiro para os consultórios de dermatologia”, alerta Valerie Monroe, ex-diretora, de beleza da The Oprah Magazine.

Alternativas existem. Muitos médicos apontaram para protetor solar ou retinol, que pode aumentar o colágeno na pele e trabalhar para neutralizar os efeitos visíveis do envelhecimento. E poucas mulheres em seus 20 e 30 anos têm linhas profundas e estáticas, o que significa que elas têm pouco uso para as chamadas injeções preventivas. Se você está considerando Botox em seus 30 anos, procure um dermatologista que irá conversar com você sobre porque você quer o tratamento. Às vezes, os dermatologistas sugerem que os pacientes esperem.

David Calbert, cofundador e médico-chefe do Grupo de Dermatologia de Nova York, disse estar preocupado com o fato de alguns pacientes terem internalizado mensagens prejudiciais sobre envelhecimento e beleza.

é uma mensagem muito tóxica e pesada”, reflete. “As pessoas não analisam mais. Elas estão tipo “eu não posso te muitas rugas, senão vou ficar horrível”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FELICIDADE E BEM-ESTAR NÃO GARANTEM MAIS SAÚDE E LONGEVIDADE

Pesquisadores americanos apontam que infelicidade e estresse estão dissociados de maior risco de morte precoce

A visão amplamente difundida de que a felicidade melhora a saúde e a longevidade é infundada. É o que afirma um estudo que, após acompanhar um milhão de mulheres de meia-idade no Reino Unido por cerca de dez anos, descobriu que não há relações diretas entre bem-estar e mortalidade.

“Felicidade e medidas relacionadas ao bem-estar não parecem ter nenhum efeito direto sobre a mortalidade”, concluíram os pesquisadores.

“Boas notícias para os mal-humorados”, disse Richard Peto, autor do estudo e professor de estatística médica e epidemiologia da Universidade de Oxford. “É uma maneira de interpretar as descobertas.

Ele e seus colegas pesquisadores decidiram investigar o assunto porque, segundo ele, há uma crença generalizada de que o estresse e a infelicidade causam doenças. Tais crenças podem alimentar a tendência de culpar os doentes por “trazerem doenças a si mesmos” por serem negativos.

“Acreditar em coisas que não são verdadeiras não é uma boa ideia”, disse o professor Peto em entrevista. “Já existem histórias assustadoras suficientes sobre saúde.

O estudo diz que pesquisas anteriores confundiam causa e efeito, sugerindo que a infelicidade deixava as pessoas doentes, quando na verdade, é o contrário.

Os resultados vêm do chamado Million Women Study, que recrutou mulheres de 50 a 69 anos entre 1996 a 2001 e as monitorou com questionários e registros oficiais de óbitos e internações hospitalares. Os questionários perguntavam com que frequência aquelas mulheres se sentiam felizes, controladas, relaxadas e estressadas, e também as instruíam a avaliar sua saúde e listar doenças como pressão alta, diabetes, asma, artrite e depressão ou ansiedade.

Os pesquisadores incluíram perguntas sobre felicidade porque, de acordo com o professor Peto, “é algo em que muitas pessoas estão interessadas”.

Quando as respostas foram analisadas estatisticamente, a infelicidade e o estresse não foram associados ao aumento do risco de morte. Não está claro se esses resultados também se aplicam aos homens.

O professor Peto declarou que dados particularmente importantes vieram de 500 mil mulheres que relataram em suas pesquisas de base que estavam de boa saúde, sem histórico de doenças cardíacas, câncer, derrame ou enfisema.

Uma “minoria substancial” dessas mulheres saudáveis disse que estava estressada ou infeliz, segundo ele, mas na próxima década, as voluntárias não tinham mais probabilidade de morrer do que as mulheres que eram geralmente felizes.

“Esta descoberta refuta os grandes efeitos da infelicidade e estresse sobre a mortalidade que outros alegaram”, disse Peto.

DANOS INDIRETOS

A infelicidade em si pode não afetar a saúde diretamente, mas pode causar prejuízo de outras maneiras, levando as pessoas ao suicídio, ao alcoolismo ou a outros comportamentos considerados perigosos, alertou o pesquisador.

Esse tipo de estudo, que depende das autoavaliações dos participantes, não é considerado tão confiável pela ciência quanto um experimento rigorosamente desenhado em que os sujeitos são escolhidos aleatoriamente e designados para um grupo de tratamento ou controle. Mas o grande número de pessoas neste estudo lhe dá credibilidade suficiente.

FELIZ OU INFELIZ?

Ainda assim, alguns observadores notaram que medir emoções é mais sutil e complexo do que apenas declarar felicidade ou infelicidade.

“Eu gostaria de ver mais discussões sobre como as pessoas traduzem esses sentimentos complicados em um autorrelato de felicidade”, disse Baruch Fischhoff, psicólogo da Universidade Carnegie Mellon que estuda a tomada de decisões, e que não esteve envolvido na pesquisa. “Pense em tudo o que está acontecendo em sua vida e diga o quão feliz você está. A felicidade é uma medida frágil”.

Os resultados de estudos anteriores foram dúbios. Alguns apontaram que a infelicidade causa doenças e outros não mostraram nenhuma ligação, disse Fischhoff.

“Parece-me que as pessoas coletaram muitos dados sem encontrar um sinal claro”, disse o psicólogo. “Então, sehouver alguma correlação lá fora, não é muito grande”.

M.A

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