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PROIBIDO PARA MENORES DE 16 ANOS, CASAMENTO PRECOCE É NATURALIZADO NO BRASIL

Apesar de grande subnotificação, país ocupa 5° lugar no ranking mundial de uniões desse tipo, que roubam fase importante do desenvolvimento das meninas e articulam vulnerabilidades sociais, raciais e de gênero

“Tinha muitas coisas para eu fazer, e eu não quis. Não tinha cabeça, não queria ser nada da vida. Nunca tinha pensado em ser isso ou aquilo.”  Aos 20 anos, sete deles dedicados a um companheiro oito anos mais velho que ela, Milena (nome fictício) avalia que hoje faria outras escolhas que não a de  viver, ainda aos 14 anos de idade, como se fosse casada. Seguindo o roteiro típico de meninas envolvidas em casamentos precoces, Milena largou os estudos, se isolou numa rotina de cuidados e afazeres domésticos, engravidou. Nunca havia tido aulas de educação sexual na escola de um bairro pobre de Belém (PA), onde frequentou metade do ensino fundamental. Por isso, mesmo mantendo relações sexuais desprotegidas havia meses, ela diz ter ficado surpresa ao ser informada de que estava grávida.

Sem formação, sem renda e sem um projeto de vida, Milena se tornou totalmente dependente do companheiro e de suas demandas. . “Eu deixei tudo pra ficar cuidando dele: estar em casa, arrumando as coisas, lavando roupa, fazendo almoço”, conta ela, moradora de uma casa sobre palafitas. “Ele dizia que eu não precisava trabalhar porque já me dava tudo. E por isso achava que podia fazer tudo o que quisesse, admite.

Naturalizado e subnotificado, tão complexo quanto invisível, o casamento infantil é definido como qualquer união, forma1 ou informal, que envolva alguém com menos de 18 anos. Em mais de 94% dos casos, esse alguém é menina.

Sob o manto de algum consentimento, seja dela, seja de sua família, a união precoce articula vulnerabilidades sociais, raciais e de gênero. Ela rouba uma fase importante do desenvolvimento e amplia as desvantagens de meninas e mulheres, limitando ainda mais suas trajetórias de vida educacional e profissional e tornando-as mais suscetíveis à violência doméstica, seja ela física, psicológica, sexual ou financeira. Por isso, eliminar casamentos prematuros é parte dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, dentro da meta número 5: alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. Amigar, juntar, ajuntar, viver junto, morar junto, amasiar. Essas uniões em geral refletem as opções restritas disponíveis para meninas em situação de vulnerabilidade, ancoradas em normas sociais que ditam papéis bem definidos para meninas e mulheres: cuidadoras, submissas, donas de casa, mães. Nesse contexto, o casamento sempre teve lugar de destaque.

“No Brasil, o casamento precoce é um fenômeno adolescente que ocorre em média, aos 14, 15 anos, o que não quer dizer que não haja meninas se casando aos 12 anos”,  explica a pesquisadora Viviana Santiago, ativista pelos direitos das meninas.

“Esse é um fenômeno multicausal e invisibilizado porque seu fio condutor é a violência de gênero já que ele atinge majoritariamente meninas, para quem o casamento já era considerado um destino, O fato de ele acontecer mais cedo, portanto, é visto como algo natural. Com isso, diz Viviana, quase ninguém entende a união precoce como uma violência, fruto da negação de diversos direitos dessas meninas: educação, segurança alimentar e, especialmente, direitos sexuais e reprodutivos. “Precisamos desnaturalizar essas uniões precoces e atuar numa mudança cultural e esse estrutural para que as trajetórias das meninas sejam plurais, com todos os direitos garantidos para o seu desenvolvimento”, diz Gabriela Goulart Mora, oficial de desenvolvimento e participação de adolescentes do Unicef no Brasil. “É preciso enxergar a violência implícita no casamento infantil: as meninas assumem responsabilidades excessivas no âmbito doméstico, perdem sua rede de apoio e a convivência com seus pares, ficando mais vulneráveis a diversos tipos de violência, inclusive a sexual”, aponta. Só em 2019, mais de 80.829 meninas de até 19 anos se casaram oficialmente no Brasil, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – 169 delas tinham menos de 15 anos de idade.

Como as uniões nessa faixa etária dificilmente são registradas, como foi o caso de Milena, são outros raros levantamentos sobre o tema que revelaram a prevalência do casamento infantil no Brasil.

“A gente só tem ideia de parte do fenómeno porque tem uma subnotificação gigantesca”, explica Raila Alves, gerente de gênero e empoderamento econômico da Plan Intemational, organização que atua internacionalmente na prevenção e no combate ao casamento infantil.

Como a gravidez na adolescência muitas vezes é causa ou consequência de uma união precoce, dados de nascidos vivos de mães adolescentes sugerem o tamanho da subnotificação. Em 2020, foram registrados 380.778 nascidos vivos de mães adolescentes, sendo 17.526 de mães com idade entre 10 e 14 anos, segundo o Ministério da Saúde.

Outro estudo do Ministério da Saúde perguntou a mulheres de 20 a 24 anos, em 2006, quando elas tinham se casado, formal ou informalmente: 1 a cada 4 respondeu que antes dos 18 anos. Isso faz do Brasil o quinto país no mundo no ranking absoluto de casamentos precoces. O país fica atrás apenas de Índia, Bangladesh, Nigéria e Etiópia, onde a prática envolve crianças ainda menores  em uniões arranjadas e ritualizadas.

O quadro tende a se agravar com a pandemia. A organização internacional World Vision aponta que os casamentos infantis dobraram em 2020 em relação ao ano anterior em alguns dos países que encabeçam o ranking global, e estimativas de agências da ONU (Organização das Nações Unidas) também apontam para um aumento dessa prática.

A principal hipótese para esse crescimento é o aumento da pobreza. Meninas de famílias pobres têm duas vezes e meia mais chance de se casarem antes dos 18 anos do que aquelas de famílias com mais recursos, segundo o projeto Girls Not Brides (meninas e não noivas, em tradução literal).

“Aqui na região, quando uma menina engravida, a família empurra ela para o casamento porque, do contrário, é uma boca a mais para alimentar em casa”, explica a ativista paraense Rebeca Souza, cuja origem numa comunidade cigana a doutrinou para o casamento precoce.

“No meu povo isso é muito comum. Existe todo um contexto que faz as meninas acreditarem que esse casamento é uma boa”, diz. “Não sou contra o casamento, mas acho ruim quando a gente cresce acreditando que ele é o nosso único destino. Fica muito difícil de se ver fora dele”, explica ela, que já teve um projeto de empoderamento de meninas em populações ribeirinhas da capital paraense, interrompido por falta de financiamento.

Por outro lado, diz ela, em certos grupos, particularmente em comunidades muito religiosas, a sexualidade só pode ser experimentada no casamento, o que impulsiona meninas a se casar cedo simplesmente para poder transar. “Observamos que muitas meninas, por questões estruturais, são incentivadas a morar com o parceiro e a estabelecer uma união desde muito cedo “, afirma Raila, da Plan International. “Estamos falando de normas culturais que são nocivas, sexistas, e racistas que colocam o casamento como algo preventivo:’ pelo menos ela não está à toa, ‘pelo menos não está roubando.”

A força desse tipo de ideia fica evidente na reprodução feita por algumas mulheres para justificar sua união precoce. “O casar cedo, que muita gente acha que é muita responsabilidade pra mim, foi bom porque eu poderia estar na rua, fazendo coisa errada, usando droga”, afirma Maria (nome fictício), 18, que se casou aos 16 anos na região da Grande São Paulo para escapar da violência física imposta por sua mãe.

“Eu era obrigada a cuidar dos meus irmãos, dois bebês gêmeos. E minha mãe chegava em casa bêbada e me agredia. Pra mim, foi um alívio me casar. Foi um jeito de fugir daquela situação”, admite ela, que tem uma filha de 1 ano e, por isso, vai deixar a faculdade para algum lugar do futuro. Muitas meninas, no entanto, encontram no casamento precoce não um porto seguro, mas uma nova experiência de violência. Globalmente, aquelas que se casam antes dos 15 têm 50% mais chance de sofrer violência por parte do parceiro do que aquelas que se casaram depois dos 18 anos. No Brasil, essas uniões foram proibidas para menores de 16 anos apenas em  2019, com lei que alterou o Código Civil. Antes disso, era permitido casar em casos de gravidez adolescente, ou de acordo com autorização dos pais ou autoridade  judicial.

Ainda assim, ter relações sexuais com menores de 14 anos sempre foi considerado crime sexual contra vulneráveis, E até 2.005, vigorava no país uma exceção ao artigo 107 do Código Penal que autorizava a união formal com crianças e adolescentes para que alguém maior de18 anos pudesse escapar de uma punição por crime sexual. Ou seja, era possível que meninas abusadas sexualmente fossem obrigadas a se casar com seus agressores, algo mais comum entre adolescentes em situação de vulnerabilidade social.  “Apesar de avanços nos tribunais, ainda ocorrem decisões que reforçam opressões, como o machismo”, explica a advogada Caroline Leal, que foi assessora jurídica em vara especializada em crimes sexuais contra crianças e adolescentes no Rio Grande do Sul. “Em alguns casos, um estupro de vulnerável era declarado como consentido pela menina e, com isso, tudo se resolvia.”

Segundo ela, a questão do casamento infantil perpassa também o racismo. “Porque mulheres negras ainda não temos acesso a melhores condições econômicas e pelo fato de a mulher negra ser hiperssexualizada e objetiticada desde cedo”,  avalia. ”Uma mulher que cresce em vulnerabilidade econômica já cresce sem perspectiva e tem dificuldade de sonhar, o que faz com que enxergue o casamento como uma boa saída.”

Para algumas meninas, de fato, o casamento precoce se mostra como a garantia de destino supostamente seguro diante de um futuro incerto e sem perspectivas. Para outras, ele se mostra mesmo como uma saída: da pobreza extrema, do abuso sexual dentro de casa, do castigo físico ou de restrições muito severas impostas por famílias religiosas. Foi o caso de Débora Maria da Silva, 62, excomungada pelo pai por usar calças jeans e passar a tesoura nos cabelos longos, típicos de algumas denominações pentecostais. “Eu queria ir para o baile também, e não só para a igreja”, lembra ela, que aos 14 anos foi morar com o pai de seus três filhos.

“Não era a liberdade que eu procurava, porque eu ficava dentro de casa e ele ia pra rua, pro baile, pra tudo que é lugar, sempre sozinho”, lembra.

“Não são direitos iguais”, indigna-se ela, que teve filho assassinado durante os crimes de maio de 2006, em São Paulo. Fundadora do movimento Mães de Maio, Débora conta uma história que, mesmo tendo ocorrido 40 anos antes, se parece com a de Milena, 20. Seus companheiros não queriam que elas trabalhassem.

“O meu primeiro marido não queria. E, quando a gente não trabalha, fica sujeita a tudo o que o homem acha que tem direito porque é ele que sustenta”, diz Débora. É um amor de propriedade que, quando você fala ‘cansei: vêm várias intimidações”, avalia Débora. Por trás dessa dinâmica estão ciclos que reproduzem sistemas de dominação e que perpetuam a desigualdade de gênero que Débora assistiu acontecer com suas duas filhas ainda meninas, assim como Milena soube ter acontecido com sua mãe. A saída para estes ciclos, avaliam Débora e Milena, passa necessariamente pela educação. “Minha filha parou de estudar, como eu, e virou faxineira, como eu fui durante tanto tempo”, conta Débora. Segundo Gabriela, do Unicef, como no casamento precoce a educação deixa de ser a prioridade na vida da menina, aumentam as chances de reprodução do ciclo de pobreza, gravidez na adolescência e insegurança financeira e alimentar. “É a maior ilusão do mundo para uma mulher casar cedo. Uma cilada “, resume Débora. “A ilusão é a de arrumar um homem que ame ela, vai dar tudo pra ela”. É  fugir da miséria ou buscar liberdade. Mas são poucas que encontram isso de verdade.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ALEGRIA PARA A ALMA

DIA 15 DE JANEIRO

CELEIROS ABERTOS

Havendo, pois, fome sobre toda a terra, abriu José todos os celeiros… (Genesis 41.56).

O Egito, a terra dos faraós e das pirâmides, vivia um tempo de fome. José, o jovem hebreu, filho de Jacó, neto de Isaque e bisneto de Abraão, está no Egito por providência divina. Deixou a prisão para ocupar  o cargo de governador  do Egito. Depois de sete anos de fartura,  quando as safras abundantes foram armazenadas cuidadosamente, a fome prevalece por todos os lados. O Egito torna-se, então, o celeiro do mundo. Abastece a terra. Supre as necessidades de caravanas que vêm de todas as partes em busca de pão. Até mesmo os irmãos de José, que o haviam vendido como escravo ao Egito, precisam curvar-se diante deste príncipe provedor. Esse fato lança luz sobre uma gloriosa verdade espiritual. José, tipo de Cristo, é chamado de salvador do mundo. Jesus é o Salvador do mundo! Ele veio ao mundo como o Pão vivo que desceu do céu. É o único que pode migar a fome da nossa alma. Há uma fome que assola toda a terra. Fome não do pão que perece, mas de Deus. Fome não das coisas do mundo, mas das coisas celestiais. Fome não do que é efêmero, mas do que é eterno. As iguarias terrenas não podem alimentar o ser humano. As provisões humanas não nutrem a alma. Somente o Pão vivo de Deus pode satisfazer-nos. Os celeiros de Deus estão abertos. Há pão com fartura na casa do Pai. Os famintos são convidados: … vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite (Isaias 55.1).

GESTÃO E CARREIRA

CRIMES VIRTUAIS, PREJUÍZOS REAIS

As tentativas de ataques hacker cresceram 75% durante a pandemia. Quando bem-sucedidos, os delitos geram perdas financeiras e de reputação para as companhias

Na manhã de domingo de 30 de maio de 2020, a JBS enfrentou um sério problema: uma invasão hacker desativou as operações de fábricas nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália. Os criminosos fizeram um ataque do tipo ransomware, no qual hackers conseguem controlar o equipamento da vítima e só liberam o uso após o pagamento de um resgate – como em um sequestro. Por orientação de uma consultoria de cibersegurança, a JBS decidiu pagar 11 milhões de dólares em bitcoins aos bandidos – de acordo com a exigência do grupo -, depois de negociar que o depósito seria feito após o restabelecimento dos sistemas. Isso aconteceu em 3 de junho. Foram dois dias inteiros de paralisação nas fábricas da companhia.

Em declaração para o The Wall Street Journal, André Nogueira, CEO da JBS nos Estados Unidos, disse que a decisão foi difícil, mas necessária para evitar qualquer risco potencial aos clientes e paralisação das operações. Em nota, a companhia afirmou que os servidores de backup foram preservados. Assim que o ataque ocorreu, a JBS informou o FBI sobre o problema, e o gabinete concluiu que o responsável havia sido o grupo russo REvil, também conhecido como Sodinokibi, que já esteve por trás de uma invasão contra a Quanta Computer, fornecedora da Apple.

Esse é apenas um exemplo de caso de ataque cibernético, já que o crime está em expansão pelo mundo. Só no Brasil, houve um crescimento de 220% em invasões hacker no primeiro semestre de 2020, segundo dados do grupo MZ, especializado em relações com investidores. Além disso, um levantamento da consultoria espanhola Minsait mostrou que as tentativas de invasão virtual aumentaram 75% durante a pandemia e que 80% das empresas não estão prontas para encarar o problema. “A mudança para o trabalho remoto foi feita de forma muito rápida, então várias companhias não tiveram tempo, nem caixa, para investir na segurança necessária”, afirma Eduardo Bezerra, líder de seguros cibernéticos da Wiz Corporate.

Com o aumento dos ataques, a procura por seguros cibernéticos também cresceu. Segundo dados apurados pela Superintendência de Seguros Privados (Susep), no ano passado os prêmios desse tipo emitidos pelas seguradoras dobraram em relação ao ano anterior. Algumas companhias encontram formas criativas de se proteger. “O Facebook dá recompensas para quem invade seus sistemas e reporta sobre a vulnerabilidade”, diz Poliana Szernek, advogada especializada em cibersegurança do escritório Campos Mello. O fato de os ataques se tornarem um mercado lucrativo também mostra a tendência de que esse tipo de problema aumente no futuro. ”Vamos ver cada vez mais jovens querendo ser hackers nos próximos 16 anos. Primeiro pela curiosidade, e também porque isso está virando um negócio”, afirma Eduardo.

CULTURA DE PROTEÇÃO

Não é por acaso que o aumento dos crimes aconteceu na pandemia, período em que pessoas e empresas passaram a depender mais da tecnologia para exercer suas atividades à distância – sejam profissionais, sejam pessoais. A implantação às pressas do home office também pode piorar o problema. Empresas com equipes de trabalho remoto devem refletir com muito cuidado sobre o acesso a sistemas por meio de equipamentos que não são da própria companhia, o que gera mais vulnerabilidade pela impossibilidade de monitoramento de sites, aplicativos de mensagens e e-mails pessoais, comumente usados como porta de entrada pelos hackers.

Com isso em mente, a multinacional de tecnologia Thales investiu 500.000 reais no processo de adaptação para o trabalho remoto na pandemia. Entraram nesse pacote compra de equipamentos para todos os funcionários que trabalhariam de casa, ferramentas de segurança digital e treinamentos. “A gente parte do princípio de que não existe nada que seja 100% seguro, então investimos em diferentes tecnologias, como antivírus, token com senha de segurança, VPN (virtual private network), firewall e criptografia de dados”, explica Luciano Macaferri Rodrigues, diretor-geral da Thales no Brasil. Mas a segurança de dados vai além das barreiras de proteção: passa pela educação. Inspirados pela experiência em home office durante a pandemia, o escritório de advocacia  Mattos Filho decidiu adotar o trabalho híbrido, com dois dias da semana em casa quando a crise passar. Mas isso só foi possível porque, desde 2013, a empresa está em um processo de transformação digital baseado em três pilares: tecnologia para o desenvolvimento do negócio, experiência online do cliente e dos empregados, e segurança da informação.   Treinamentos sobre temas como proteção de dados fazem parte da formação da nova cultura digital. “Todos os computadores e laptops são do escritório e têm criptografia e sistema antivírus, de forma que nós temos total acesso aos dados e a possíveis tentativas de invasão”, diz Leonardo Brandileone, diretor de tecnologia e conhecimento do Mattos Filho. “Há anos fazemos treinamento sobre esse tema para que os profissionais entendam quais cuidados devem ser tornados. O trabalho híbrido não daria certo sem essa cultura”, diz Renata Maiorino, diretora de desenvolvimento humano.

INFORMAÇÕES SENSÍVEIS

Além de se protegerem de criminosos, as empresas que atuam no Brasil estão com outra questão delicada: as adequações à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que  regulamenta o uso de dados pessoais pelas companhias – sejam eles de clientes, fornecedores ou de funcionários. Caso as organizações descumpram as regras, poderão ser penalizadas pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). E a exposição de  informações sensíveis, uma das consequências comuns de ataques hacker, é uma das violações previstas na lei.

A nova legislação é uma boa oportunidade para as companhias criarem uma mentalidade de segurança digital. Foi isso o que pensou a empresa de tecnologia FS Security que, para se adequar às normas da LGPD, contratou um escritório de advocacia. O primeiro passo foi mapear a situação da companhia para, depois, traçar um plano de ação com as adequações necessárias. Por meio de um comitê formado pelas áreas jurídica e de gestão de pessoas, a FS Security está cascateando as ações. “ALGPD envolve não só a proteção de dados, mas também a maneira de trabalhar. Há impacto sobre o modo como desenvolvemos um software, sobre as ferramentas de apoio nos sistemas e sobre como capturamos e armazenamos dados”, diz Marcus Garcia, VP de tecnologia e produto da companhia. “A gente já possuía protocolos de segurança para processos de contratação e demissão, mas a importância disso aumentou depois da aplicação das diretrizes da LGPD.”

FATOR HUMANO

É consenso entre os especialistas que, independentemente de todas as ferramentas de segurança adotadas, o elo mais fraco continua sendo nós – os usuários da tecnologia. Criminosos se utilizam da engenharia social para descobrir informações sobre pessoas, a empresa em que trabalham, do que gostam e demais informações que são voluntariamente publicadas nas redes sociais. Dessa forma, eles enviam um e-mail de golpe, o famoso phishing, para que o usuário clique em um link suspeito e deixe o hacker entrar na empresa por meio de um vírus que rouba senhas e dados.

Além disso, ainda há o fato de que funcionários mal-intencionados podem ser os próprios hackers. Ricardo Caiado, advogado especializado em compliance e cibersegurança do escritório de advocacia Campos Mello, conta que um de seus clientes sofreu com o vazamento de dados. Após a demissão de alguns empregados, uma pessoa que trabalhava no RH da empresa enviou a um advogado trabalhista os contatos dos ex-funcionários. O objetivo era que o advogado prospectasse clientes para sugerir processos trabalhistas. “Fomos acionados para avaliar se era o caso de informar a Autoridade Nacional de Proteção de Dados”, diz Ricardo. Embora não seja possível garantir que não haverá um comportamento errado de um funcionário, as empresas podem se proteger. Por isso que o investimento em segurança digital não deve ser subestimado – embora 35% das companhias na América Latina e na Europa tenham diminuído o orçamento dessa área em 2020, segundo a Minsait. Adotar mecanismos de proteção, capacitar pessoas e adquirir dispositivos de trabalho próprios geram custos que, embora altos, devem ser vistos como inegociáveis. Afinal, os prejuízos de ataques e vazamentos são financeiros, penais e de reputação. E nem sempre a imagem corporativa sobrevive.

Um caso elucidativo é o da americana SolarWinds, especializada em tecnologia e que possui diversos contratos com o governo norte-americano. Em março de 2020, seu sistema foi invadido por hackers que, uma vez dentro da rede, invadiram diversos clientes, como órgãos do governo dos Estados Unidos e companhias como a Microsoft. Até hoje, apesar de a SolarWinds alegar que já resolveu o problema, muitos especulam que não é exatamente o caso. Há dúvidas sobre a origem do ataque, com suspeitas de espionagem Russa (o que não foi possível detectar) e de que há informações sensíveis que continuam expostas e acessadas. Em audiência pública para comitês federais, o CEO da SolarWinds culpou um ex-estagiário pelo uso de uma senha fraca, que seria “solarwinds123” e teria vazado em um fórum na deep web (usada, entre outros crimes, para divulgação e venda de dados). A empresa, segundo ele, falhou em identificar o problema e alterar a senha. Se a explicação for verdadeira, é chocante que o sistema de uma companhia de tecnologia tenha permitido um erro tão primário quanto uma senha fraca.

PROTEÇÃO EM 10 PASSOS

Eduardo Bezerra, líder de seguros cibernéticos da Wiz Corporate, traz conselhos para melhorar a segurança corporativa

1. Nos ambientes físicos, é preciso haver acesso restrito a locais onde se trabalhe com dados sensíveis, como os departamentos jurídico e de gestão de pessoas

2. Nunca deixe documentos expostos e com fácil acesso – às vezes o hacker está dentro da empresa

3. Triture todos os documentos em papel que tenham sido digitalizados e estejam seguros no sistema

4. Não deixe senhas em post-its colados no computador, nem salvas em blocos de notas ou anotadas em cadernos

5. Crie momentos periódicos para trocar as senhas

6. Adote um sistema de validação de senha em duas etapas. O token, que envia uma mensagem de confirmação da senha, costuma ser eficiente

7. Evite receber currículos e documentos externos em pen drives, que podem conter vírus

8. Faça treinamentos para impedir que os funcionários caiam em golpes virtuais

9. Adote antispam e antivírus com tecnologia endpoint detection and response (EDR)

10. Considere contratar um seguro de cibersegurança

EU ACHO …

O PROBLEMA DO MARKETING

O Homo sapiens sem uma boa cognição e como um pássaro de asa quebrada

Se uma propaganda vende pra você um carro e faz você sentir que, comprando este carro, pode ir a uma cachoeira de difícil acesso – no caso de um carro ter tração nas quatro rodas – , ela não está mentindo. Mas se um comercial de banking diz que se você abrir uma conta no banco X, você será o tipo de jovem que deixará “sua marca no mundo”, ele está mentindo.

Qual a diferença entre um comercial e outro? Por que um deles mente e o outro não? A diferença está no alcance da promessa. Alcançar cachoeiras difíceis é algo de pequeno impacto na percepção que alguém tem de si mesmo, da sua vida, da sua personalidade, das suas expectativas.

Quando dizemos a um jovem que ele, comprando um produto X, deixará uma marca no mundo, estamos mentindo sobre seu futuro: quase zero por cento da humanidade deixa alguma marca no mundo ­ algumas delas péssimas – , ao passo que embutir essa expectativa como estilo de vida tem um custo altíssimo em termos do cotidiano que alguém vive.

Parte da pré-história e da história da nossa espécie foi gasta num esforço descomunal para fazermos a diferença entre realidade e fantasia, por motivos, principalmente, de sobrevivência. Mas essa questão da sobrevivência nos escapa da consciência hoje.

Por exemplo, nossos ancestrais, idênticos a nós, passaram quase o tempo todo de suas vidas com fome e hoje as maiores frescuras do mundo se relacionam a comida. Só a fartura sustenta a frescura com alimentação.

Quando o mundo faz a guinada que está fazendo, e o marketing assume a liderança das narrativas, assumimos que existem em nós super-heróis, micos, deuses e deusas, demônios e efeitos sobrenaturais, o que, evidentemente, não existe. Brincamos com danos psicológicos e sociais empacotados pra presente. O marketing é um retrocesso cognitivo na evolução da espécie. O Homo sapiens sem uma cognição aguçada é como um pássaro com a asa quebrada.

No momento que o marketing se fez disciplina existencial, passando a vender estilos de vida, identidades sexuais e outros valores morais, projetos políticos – aqui a mentira é facilmente detectada para quem tem olhos pra ver – e significados para a vida, ele passou a se constituir numa percepção de realidade de alto risco, estragando a capacidade de fazermos a diferença entre fato e ficção. É como se o mundo fosse um eterno Carnaval em que a quarta-feira de cinzas nunca chega.

O capitalismo avançado apenas quer vender. Tendo saturado as sociedades ricas de produtos materiais, ele passa a vender produtos imateriais, e, com esse passo, ele opera uma ruptura metafísica, digamos, em que optamos por viver num mundo em que nós mesmos somos mera ficção – a melhor ficção possível, duro, mas nem por isso, menos irreal.

Todas as realidades psíquicas passam pelo crivo da fantasia e saem do outro lado como a “melhor versão de mim mesmo”. Mentira. Posso me reinventar. Mentira. Deixarei minha marca no mundo. Mentira. A prosperidade é uma questão de assertividade. Mentira. A esmagadora maioria foi, é e continuará sendo pobre.

A maior chance é que você envelhecerá só e que terá tido uma vida absolutamente irrelevante, se a sociologia estiver certa. O arquétipo da mentira aqui é que você seja uma pessoa diferente, especial, única. Mentira. Você é apenas banal. Esse arquétipo tem a parceria dos pais, que são os primeiros a comprar o marketing de “deixar uma marca no mundo”.

Muitos profissionais da área não têm a mínima ideia de tudo isso porque a formação é muito fraca. Munidos de teorias psicológicas miseravelmente comportamentais, reforçam apenas os mecanismos fantasiosos na relação com a realidade com nós mesmos. Com a entrada do digital, o processo eleva sua agressividade mitológica ao nível da vida privada como mercadoria e do sujeito como commodity.

Por outro lado, o marketing poderia ser de fato “disruptivo” e elevar o nível da reflexão, como alguns profissionais têm tentado, e parar de mentir. Muitos adultos estão ávidos por pessoas que mintam menos para eles. Estão cansados de serem tratados como retardados mentais.

*** LUÍZ FELIPE PONDÉ

ESTAR BEM

OS MISTÉRIOS E BENEFÍCIOS DA MACONHA INTERIOR

Ciência investiga os endocanabinoides, substâncias produzidas no corpo humano semelhantes às encontradas na canabis. Com ação na dor, memória e apetite, esses compostos podem ser ativados por hábitos saudáveis

Ela está no cérebro durante uma noite de sono reparador e inunda o corpo de bem-estar após um exercício. Flui para controlar a dor e se manifesta em toda parte do corpo que habitamos. É a nossa maconha interior, o sistema de moléculas produzidas pelo próprio organismo humano e batizado pela ciência de endocanabinoide. Ou seja, canabinoides, como os compostos da cannabis sativa, que feita pelas células humanas (endo, de interno).

Agora, uma análise de cientistas brasileiros mostra que é possível regular e potencializar os efeitos da maconha de cada dia por meio de dieta, atividade física e meditação – a tríade do bem-estar que a cada dia se mostra mais poderosa.

O sistema endocanabinoide é um dos mais misteriosos e cruciais mecanismos do organismo. Funciona como uma rede de substâncias químicas que conectam o cérebro ao resto do corpo. Ele regula algumas das funções mais essenciais, como aprendizado, memória, controle da dor, da temperatura, do estresse, da inflamação e do apetite.

Essa maconha humana está na base de uma nova medicina e tem sido internamente estudada por labora tórios farmacêuticos em busca de drogas com aplicações em quase todo tipo de doença, como depressão, obesidade e diabetes.

Porém, não é preciso esperar passivamente que novos medicamentos cheguem às prateleiras das farmácias. A ciência revela que essas pequenas moléculas que fluem pelo cérebro e estão em nossa carne, vísceras e ossos podem ser moduladas por nossos hábitos.

FATORES ESTIMULANTES

A maior e mais recente revisão científica sobre o que se sabe dos endocanabinoides mostra que exercícios, meditação e alguns alimentos podem ativar e controlar seus níveis no corpo.

“A força dessa espécie de maconha interior tem o poder de transformar a medicina. Com hábitos saudáveis ajudando nosso corpo a manter níveis adequados de endocanabinoides”, afirma o neurocientista Ricardo Reis, do Laboratório de Neuroquímica do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ele é um dos pioneiros no estudo dos endocanabinoides no Brasil e principal autor do novo artigo, intitulado “Qualidade de vida e uma revisão do sistema endocanabinoide humano” (em tradução livre do inglês) e publicado na revista Frontiers In Neuroscience, uma revisão do que se sabe sobre o tema. Reis destaca que os endocanabinoides têm funções antioxidantes, anti-inflamatórias e na proteção das células, com potencial terapêutico para doenças neurológicas e obesidade.

Esse sistema é difuso e existe na superfície das células. É composto pelos endocanabinoides em si e por seus receptores. Os canabinoides são dois. O primeiro é a anandamida, cujo nome vem do sânscrito e significa graça ou benção. O segundo é desprovido de sedução na denominação. É o 2-anaquidonoilglicerol ou 2-AG.

O outro braço do sistema fica também na superfície das células e é composto pelos receptores dos canabinoides, sejam endo ou fito. Chamam-se apenas CB1 e CB2. O primeiro é o receptor celular mais ativo no cérebro. O segundo está mais ligado ao sistema imune.

A anandamida e o 2-AG são moléculas de lipídios, cuja função é mediar sinais de mensagens químicas trocadas pelas células. Ou seja, são gorduras do bem mensageiras, cuja porta de entrada são CB1 e CB2. Sua função primordial é manter corpo e mente em equilíbrio. Por isso, estão em toda parte.

O organismo humano, porém, necessita de ajuda externa para produzir e manter o nível certo de endocanabinoides. Para fabricar essas gorduras, ele precisa dos ácidos graxos ômega 6 e ômega 3. O primeiro é abundante em alimentos, nas gorduras em geral. Está, por exemplo, em ovos, óleo de soja, carne vermelha.

Já o ômega 3 é naturalmente mais escasso, sobretudo na dieta baseada em alimentos industrializados. Ele está presente em óleos de peixes de carne escura, como salmão, atum, cavala, bonito, nas nozes, na linhaça e na chia, por exemplo.

O corpo humano precisa de uma proporção de 4 a 5 moléculas de ômega 6 para cada molécula de ômega 3.

Mas a alimentação saturada de gorduras ruins típica da dieta ocidental faz com que essa proporção seja de 20 do tipo 6 para apenas um da 3.

“Isso é um problema porque todos esses alimentos, que não eram baratos, estão proibitivos. Muitas vezes, a solução é a suplementação, mas mesmo ela é cara. Infelizmente, há desigualdade no acesso de nutrientes”, frisa a cientista Isis Trevenzoli, do Laboratório de Endocrinologia Molecular, do mesmo instituto da UFRJ e coautora da revisão geral sobre os endocanabinoides.

A dieta tem influência tão poderosa que seus efeitos são passados de mãe para os filhos. Estudos de Alinny Issac, do mesmo grupo de Reis e também coautora da análise, revelaram que filhotes de ratos com uma dieta pobre em ômega3 e excessiva em ômega 6 nascem com receptores do cérebro alterado e propensão a engordar.

Os endocanabinoides não são o único mecanismo por trás da obesidade, que tem múltiplas causas, mas são um componente importante, observa Trevenzoli.

A ação da atividade física era conhecida há mais tempo. Estudos mostraram que exercícios levam à liberação de anandamida. Ela, na verdade, é a responsável pela sensação de êxtase relatada por corredores e ciclistas e conhecida como “runner’s high”, ou “barato do corredor”. Além disso, eles “treinam” o metabolismo para dosar a maconha interior.

MEDITAÇÃO PLENA

A meditação regular também induz as células do cérebro a liberarem endocanabinoides, associados à sensação de plenitude.

“Pessoas com níveis de endocanabinoides equilibrados são menos vulneráveis aos efeitos nocivos do estresse”, observa Reis.

Parte do mistério da maconha interior está em descobrir a concentração ideal. E nisso o corpo humano é terra quase incógnita. Em excesso no hipotálamo, causa fome descontrolada. Não à toa a canabis provoca a larica.

Em outras partes cerebrais, os endocanabinoides produzem vários efeitos, como redução da ansiedade e depressão e controle da dor. Nos rins, melhoram a filtração.

A maconha interior foi descoberta nos anos 1990, quando cientistas investigavam o potencial terapêutico do canabidiol do THC, os dois principais dos mais de 400 canabinoides da planta.

É por isso que o canabidiol e o THC, chamados de fitocanabinoides (de fito, vegetal), têm ação terapêutica tão vasta e poderosa, explica a farmacêutica Luzia Sampaio, também no Laboratório de Neuroquímica.

“Fito e endocanabinoides se complementam. O canabidiol, por exemplo, aumenta a concentração da anandamida. Essa é a grande vantagem dos fitocanabinoides. Já os canabinoides sintéticos não são tão bons porque competem com os endocanabinoides”, diz Sampaio, autora de um estudo sobre essas substâncias e a dor.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

GASTOS DE VINGANÇA

Foram dois anos de vida monástica. Quem conseguiu poupar agora usa o cartão de forma frenética. Cortesia do nosso cérebro, que não consegue controlar os impulsos muito bem. Entenda o que são os “gastos de vingança”.

Virou tendência na china. Depois de meses de lockdown em várias regiões – um dos mais rigorosos já adotados no mundo, com início ainda em janeiro – , os consumidores saíram às compras em abril de 2020 para comemorar a reabertura do país. Nisso, esbanjaram mimos para si mesmos nas redes sociais, às vezes com o termo “consumo de reparação”. Nos seis meses que se seguiram àquela reabertura, a palavra foi citada pelo menos 3,5 milhões de vezes em postagens nas redes sociais, segundo a consultoria Linkfluence.

Nesse frenesi consumista, um café na cidade portuária de Qingdao viralizou ao vender seu tradicional chá de bolhas (uma bebida gelada e com bolinhas crocantes de tapioca) em um copão gigante, a oito vezes o preço adicional. A justificativa é que o exagero era para matar a saudade do chá nos três meses anteriores. Empresas como McDonald’s e Nestlé começaram a usar o mesmo termo em suas redes sociais chinesas para incentivar o consumo de suas marcas.

Foi por causa da China que, ainda em meados de 2020, a ideia de que as pessoas voltariam com tudo às compras no pós-pandemia começou a circular no mundo ocidental. O nome mudou para revenge spending, ou “gasto de vingança”, uma vontade irrefreável de comprar mais do que o normal após um período estressante ou de privação do consumo. O termo não é exatamente novo. O lance é que pessoas praticavam gastos de vingança quando conseguiam um trabalho após meses de desemprego ou depois de uma doença que havia exigido uma mudança temporária de estilo de vida, por exemplo. Os dois últimos anos criaram um cenário em que o mundo todo ficou ao mesmo tempo estressado e privado de gastar – e agora está pronto para tirar o atraso.

A China deu mostras bastante concretas da força do fenômeno nos segmentos de luxo. A marca francesa Hermes, por exemplo, faturou USS 2,7 milhões em vendas somente no dia de reabertura de sua loja principal em Guangzhou, em abril do ano passado. Foi o dia mais lucrativo para qualquer loja de artigos de luxo na China, segundo a mídia local. Em maio do mesmo ano, a marca de joias Tiffany viu uma queda de 40% em suas vendas globais, mas teve um aumento de 90% nos gastos na China Os resultados fizeram com que nomes como Dior, Cartier e Michael Kors direcionassem mais recursos para o país asiático.

Seria questão de tempo até isso se repetir no Ocidente – e, de fato, está acontecendo. O que mudou foi o timing. Agora que a maioria dos países de alta e média renda ostentam altas taxas de vacinação, e as fronteiras e o comércio pelo mundo parecem reabrir para ficar, o revenge spending dá sinais de que engatou.

POUPANÇA INVOLUNTÁRIA

A ideia de que o consumo vai aumentar porque as pessoas querem comprar mais no pós-pandemia não conta a história toda. Na verdade, grande parte do fenômeno esperado do revenge spending depende do fato de que as pessoas podemcomprar mais.

É que a pandemia criou um cenário contraditório no mundo. De um lado, o desemprego no Brasil decorrente da crise fez o ato de poupar quase impossível para uma parcela significativa da população. Mas quem teve a sorte de se manter empregado e migrar para o regime de home office se viu numa situação em que, quem diria, ficou mais fácil economizar.

Com bares, restaurantes e baladas fechados, o lazer foi parar nas telas de computadores e televisão. A Netflix já estava paga. Sem o transporte para o trabalho, economizamos, além de tempo, o dinheiro da gasolina, da passagem e do Uber naquele dia de atraso. E, ainda que o e-commerce tenha crescido, tem menor apelo para o gasto supérfluo que as voltinhas no shopping  “só para dar uma olhadinha” (e que sempre terminavam com uma comprinha ou outra).

Uma pesquisa da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) revelou o seguinte: entre os brasileiros que conseguiram economizar, a opção “deixei de sair (ir a festas, viajar, beber e usar o carro)” foi disparado o motivo principal na criação da poupança, citado por 56% dos pesquisados (em 2019, o número foi 34%). É um patamar acima do clássico “guardei uma parte do salário todo mês”, citado por 11%. O impacto da pandemia foi tão grande que 7% deles – o que se traduz em mais ou menos 2,5 milhões de pessoas na população geral – afirmaram que guardaram dinheiro porque “não tinham onde gastar”.

Segundo dados do Cemec-Fipe, a poupança dos brasileiros cresceu R$ 334 bilhões em 2020, depois de ter encolhido R$ 314 bilhões um ano antes.

Não é exclusividade nossa. Em fevereiro de 2021, os americanos tinham um total de USS 2,4 trilhões em economias – USS1 trilhão inteirinho a mais do que o valor registrado no mesmo período de 2020, segundo o Departamento de Comércio dos EUA. Resultado, em grande parte, do polpudo auxílio emergencial e demais benefícios do governo, diga-se.

E eles estão dispostos a abrir a carteira. Uma pesquisa da consultoria Survey Monkey descobriu que quase 70% dos adultos americanos planejam gastar mais do que o normal nos próximos anos em ao menos uma categoria, como “alimentação” ou “viagem”. Pesquisas na Europa e na Austrália mostram tendências parecidas.

É aí que entra a segunda parte do fenômeno: querer gastar. A chave aqui é o “gastar mais que o normal” – afinal, o fenômeno do revenge spending não é apenas a retomada das compras, mas um frenesi de gastos que não ocorreriam em situações normais, mesmo com essa quantia de dinheiro guardada. Cortesia do nosso cérebro, um bicho bastante irracional quando o assunto é finanças.

SEM AUTOCONTROLE

Comprar traz prazer. Estudos já mostraram que pensar em compras já é o bastante para ativar áreas do cérebro ligadas à dopamina, o neurotransmissor do prazer. Imagine concretizar a aquisição, então. “Nós estamos sempre propícios a consumir porque achamos, em geral equivocadamente, que isso vai trazer realmente uma gratificação muito grande”, explica Vera Rita de Mello Ferreira, professora e especialista em psicologia econômica. É só a dopamina mesmo. E passa rápido.

Mas nem por isso saímos torrando todo nosso dinheiro e nos afundando em dívidas só para nos sentir bem – pelo menos não deveríamos, ainda que aconteça com algumas pessoas. É que somos dotados de uma capacidade especial para evitar situações como essa: o autocontrole.

Só que aí entra o fator pandemia. A nossa capacidade de segurar os próprios impulsos é finita, explica Vera Rita. E, ao longo da pandemia, tivemos que usá-la quase à exaustão: máscaras o tempo todo, álcool em gel, não sair sem necessidade de casa etc. Por dois anos, nos privamos do jantar especial, das idas ao cinema, das compras e de viagens. “Nós passamos a nos policiar o tempo inteiro, e esse monitoramento intensivo por quase dois anos nos deixou esgotados e sem a menor condição de exercer autocontrole.” Resultado? Aquelas comprinhas, que em situações normais você deixaria de lado pensando na fatura do cartão de crédito no fim do mês, passam quase sem culpa. A sensação de “eu mereço” prevalece – mesmo em casos de preços salgados.

Não só. Em contextos de tristeza, temos a tendência a ignorar o que a psicologia econômica chama de efeito-posse – o apego que temos às nossas coisas. Quando estamos para baixo, damos menos importância a elas. Aí, em busca da alegria da dopamina, continuamos a comprar. Tal como um vício, o efeito é cada vez mais efêmero e é preciso repetir a dose a todo instante.

Há outras explicações possíveis para gastos específicos. O mercado de luxo, por exemplo, se beneficia da retomada do convívio social como um todo – afinal, depois de mais deum ano usando pijama no dia a dia, nada como ostentar roupas de grife, bolsas ou uma joia. A XP recomenda a compra das ações da Vivara justamente por apostar no fenômeno.

EMBARQUE AUTORIZADO

O fato é que as justificativas para esbanjar não faltam, para a alegria de quem ainda tenta curar as chagas da pandemia. À Bloomberg, o CEO da Lamborghini creditou os bons números da companhia ao fenômeno do gasto de vingança. Na Califórnia, a Disney aumentou o preço do seu ingresso mais caro à Disneyland em 6.5% – confiantes que os consumidores vão comprá-los mesmoassim.

Nenhum outro setor sofreu tanto e se beneficia igualmente do revenge spending quanto o turismo. O presidente da Azul afirmou recentemente que nunca viu tanta demanda por passagens aéreas no final do ano – os preços já saltaram 50,36% em 12 meses até outubro. O Google diz que, em setembro, as buscas por viagens bateram o nível pré-pandemia, e a Abear (a associação das companhias aéreas) espera que a quantidade de voos alcance essa marca no começo de 2022, tamanho o interesse dos brasileiros de voltar aos ares.

O calendário de entrevistas para obter o visto americano está sem datas disponíveis até dezembro de 2022 – os EUA reabriram suas fronteiras para brasileiros em 8 de novembro, mas os consulados, com capacidade reduzida devido à pandemia, não estão dando conta de tanta gente querendo entrar. Faz sentido que o “turismo de vingança” deslanche agora. Afinal, dá para comprar quase tudo na internet, mas não viagens. Segundo Frederico Levy, vice – presidente da Braztoa (Associação Brasileira das Operadoras de Turismo), o setor já via o revenge spending mesmo antes da melhora dos números da pandemia – viagens demandam preparação, e os consumidores começaram a procurar planos já pensando no calendário da vacina. Com a alta da demanda, também subiram os preços, mas isso não impediu que as compras seguissem, como é típico dos gastos de vingança. “Só não vemos um boom generalizado porque os países estão reabrindo suas fronteiras de forma e em tempos diferentes, mas é um movimento claro”, diz Frederico.

Quem trabalha na área vê de perto o fenômeno. É o caso de Maria Lina Colnaghi, dona da agência de viagens Vida Modo Avião. No auge da pandemia, o negócio praticamente congelou – e ela teve que voltar para a área de comunicação, em que é formada, para sobreviver. Com o avanço da vacinação, e com a reabertura de vários países do mundo a partir de junho, começando pela Suíça, a demanda voltou a crescer – no pique revenge spending.

Não só as viagens voltaram como elas estão de cara nova, aliás. Os um pouco mais endinheirados se aventuram por classe executiva e escolhem a dedo o hotel cinco estrelas em que vão se hospedar. Mesmo quem ainda mantém um orçamento de férias em escala humana tem se dado pequenos luxos, antes impensáveis. “Tem gente que colocava pelo menos duas ou três viagens na pauta anual e acabou com essa grana reservada. Agora os preços dispararam por causa da demanda, mas eles dizem “não importa, eu quero viajar, não aguento mais”, diz Lina. De quebra, ainda desembolsam mais para privilégios pouco procurados em tempos não pandêmicos, como piscina privativa e transfer particular do aeroporto para o hotel – uma combinação entre distanciamento social e conforto.

Embora a vontade de gastar seja perfeitamente normal, a vingança pode acabar exagerada e prejudicar um dos poucos ganhos da pandemia: poupar sem esforço. A culpa não é totalmente nossa. Autocontrole é algo difícil, ainda mais depois de dois anos tão estressantes. Especialistas recomendam o de sempre: evitar se expor a tentações. Seja na voltinha no shopping, seja no Instagram com seus anúncios. “Se você está fazendo dieta, não vai sentar na frente de uma doceira e ficar olhando para todas aquelas delicinhas tentadoras”, diz Vera Rita. “Estabelecer um tempo para uso de redes sociais, que ficam toda hora enviando anúncio, é uma coisa que pode ajudar.” Você vê outras dicas de como não cair em ciladas no box da dupla anterior. Mas, antes de tudo, lembre-se: depois de tanto tempo de sacrifício, um mimo ou outro não vai te fazer mal.

COMO NÃO EXAGERAR

PLANEJE

É normal querer gastar mais depois de tanto tempo de autocontrole. Mas sem planejamento não rola. Se você decidiu tirar o escorpião do bolso, calcule antes quanto vai gastar nas compras extras. Também vale ver se o melhor não é aproveitar para realizar um projeto mais sólido para a sua biografia –  tipo aquela viagem que nunca rolou por falta de organização financeira.

LIMITE AS TENTAÇÕES

Se o objetivo é não exagerar, evite passeios no shopping e faça uma limpa no Instagram. Alguns cartões permitem que você reduza temporariamente o limite de crédito. E adie compras em alguns dias – pode acreditar: o tempo faz você reavaliar o quanto deseja alguma coisa.

INVISTA AUTOMATICAMENTE

Dinheiro na mão é vendaval. Daí que o jeito de não torrar suas economias é tirá-las da conta- corrente e transferir para algum investimento. O objetivo é fazer com que o saldo desapareça da sua tela inicial. Aproveite o momento de pagar boletos para concretizar esse autoengano. E, claro, use a deixa para buscar moradas mais rentáveis para o seu dinheiro.

M.A

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