ESTAR BEM

AERÓBICO ANTES DA MUSCULAÇÃO TRAZ GANHO DE MASSA MAIOR

Estudo desvendou antiga polêmica sob a ordem dos exercícios cardiovasculares e de resistência com análise molecular

Andar ou correr antes de malhar pode ampliar os efeitos da série anaeróbica, de acordo com um novo estudo sobre os impactos moleculares da combinação de exercícios cardiovasculares e de resistência em um único trino. A pesquisa, que analisou oito homens fisicamente ativos, descobriu que praticar 20 minutos de pedalada intensa pouco antes da malhação de membros superiores altera o funcionamento interno dos músculos, preparando-os para crescer mais do que apenas com levantamento de peso.

O novo artigo, publicado na revista Scientific Reports, oferece orientação prática sobre como estruturar um treino de academia para obter o máximo benefício. É também um lembrete estimulante de quão potentes e abrangentes podem ser os efeitos do exercício.

Por décadas, treinadores e cientistas debateram se e como misturar exercícios cardiovasculares e de resistência. Alguns pequenos estudos sugerem que a combinação dos dois pode aumentar os ganhos prováveis de cada um, especialmente do treinamento de resistência – quase todos esses experimentos foram realizados em homens. Mas, outras pesquisas  indicam que exercícios aeróbicos podem reduzir as melhorias de força decorrentes do levantamento de peso.

Os autores de alguns desses estudos especulam que as mudanças moleculares dentro dos músculos, causadas pela caminhada ou corrida, acabam dificultando alguns dos outros resultados desejáveis do levantamento de peso, um efeito chamado interferência do exercício. A fadiga muscular também pode ter um papel importante, já que, na maioria dos estudos que combinam cardio e resistência, os voluntários exercitam apenas a parte inferior do corpo, usando as pernas tanto para caminhar ou correr, por exemplo, como para o exercício de força. Cansados com o trabalho anterior, imagina-se, os músculos das pernas podem ficar incapazes de responder idealmente ao treinamento anaeróbico.

Mas, e se os dois tipos de exercício visassem grupos de músculos completamente diferentes, como pernas durante a pedalada e braços durante a série de musculação? Esse foi o cenário apresentado por Marcus Moberg, professor da Escola Sueca de Esportes e Ciências da Saúde em Estocolmo, que estuda saúde muscular e metabolismo. Nesse caso,o exercício cardiovascular para a parte inferior do corpo aumentaria os benefícios do treinamento com pesos para a porção superior do corpo? Ou teria impacto nulo ou negativo?

Para saber mais, ele e seus colaboradores recrutaram oito homens adultos ativos em Estocolmo e os convidaram ao laboratório para medir sua aptidão aeróbica e força atuais. Então, depois que os homens se familiarizaram com o equipamento de treino do  laboratório, os pesquisadores pediram a eles, em uma visita separada, que completassem um treino de duas partes.

Os homens começaram com uma pedalada intensa intervalada. Depois de alguns minutos de descanso, eles passaram a usar aparelhos de musculação para a parte superior do corpo. Em outra visita ao laboratório, o grupo completou a mesma série de levantamento  de peso, mas sem pedalar antes.

Os pesquisadores coletaram sangue e colheram amostras de tecido muscular do bíceps dos homens antes, imediatamente depois, 90 minutos depois e três horas após cada treino – o principal motivo pelo qual as mulheres não foram incluídas, disse Moberg, foi que os tríceps menos desenvolvidos delas tornam essas biópsias repetidas difíceis e possivelmente prejudiciais.

NO MICROSCÓPIO

Finalmente, os cientistas examinaram microscopicamente as amostras, procurando substâncias que indicassem como seus músculos respondiam aos exercícios, com ênfase especial nas proteínas e marcadores de atividade genética que se acredita influenciarem a resistência cardiovascular e a produção de massa muscular.

Eles os encontraram. Depois da sessão em que apenas realizaram o treinamento de peso, os músculos dos homens fervilhavam de proteínas e marcadores genéticos conhecidos por ajudar a iniciar o crescimento muscular. Essassubstâncias também abundaram após o treino que incluiu a pedalada, mas foram acompanhadas por outras proteínas e atividades genéticas associadas a uma resistência melhorada.

Com efeito, após o treino duplo, os músculos dos homens pareciam preparados para aumentar tanto em tamanho quanto em resistência, sem nenhuma evidência de que a pedalada havia interferido, em nível molecular, no levantamento de peso. Em vez disso, o exercício aeróbico parecia ter ampliado e intensificado os benefícios.

“A descoberta mais fascinante é que alguns fatores bioquímicos evocados pelo exercício cardiovascular das pernas entraram na corrente sanguínea e foram capazes de Influenciar processos em um grupo de músculos completamente diferente, e de uma forma que parece ser benéfica para a adaptação do treinamento de braços”, disse Moberg. “É quase como se o exercício de resistência realizado pelas pernas estivesse sendo transferido até certo ponto para os braços”.

Questionado sobre o experimento ser limitado a homens, Moberg disse que “não há nenhuma razão para acreditar que os efeitos seriam diferentes nas mulheres”, acrescentando que ele e seus colegas esperam incluí-las nos próximos experimentos com menos biópsias.

O estudo conduzido por Moberg também foi de curto prazo e analisou exercícios de cardio seguidos de treinamento com peso, e não o contrário. Alguns experimentos anteriores sugerem que levantar peso antes tem pouco impacto, para melhor ou pior, no exercício aeróbico posterior. Mas esses estudos se concentraram nas pernas, então ainda não se sabe se trabalhar os braços antes do cardio pode valer a pena ou vice-versa.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O CÉREBRO SOCIAL

Cientistas descobrem circuito neural que gerencia as interações humanas em grupo

Os humanos são seres sociais, que precisam do contato com outros indivíduos para a manutenção do próprio bem-estar. Isso ficou ainda mais claro durante o difícil período de isolamento imposto pela pandemia. Mas, apesar dessa característica marcante não só da raça humana, mas também de muitas espécies animais, só agora a ciência começa a desvendar o processo neuronal que gerencia a complexidade das interações sociais entre grupos de indivíduos.

Seja conversando com amigos em um jantar ou em uma reunião no trabalho, a comunicação com outras pessoas requer um conjunto complexo de tarefas mentais. Nossos cérebros devem rastrear quem está falando e o que está sendo dito, bem como qual pode ser nossa relação com o interlocutor, assim como nossa reação ao seu comportamento.

As primeiras evidências de como isso funciona foram publicadas recentemente em dois estudos na revista Science. No primeiro deles, pesquisadores do Massachusetts General Hospital, ligado à Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Mostraram que neurônios no córtex pré-frontal dorso medial (dmPFC), uma área do cérebro conhecida por seu papel na cognição social, desempenham um papel fundamental na nossa interação com outros   membros durante uma conversa em grupo.

Para isso, eles realizaram um experimento com macacos Rhesus. Esses animais são conhecidos por formar interações e alianças duradouras com não-parentes e por se envolverem em um comportamento mutuamente benéfico com base na reciprocidade entre os membros do grupo. No estudo, três desses primatas foram colocados em volta de uma mesa giratória e podiam oferecer, em sequência, uma fatia de maçã a um dos outros membros do grupo. Durante essas interações os pesquisadores registraram a atividade de neurônios do córtex pré­ frontal dorso medial.

Os resultados mostraram que os animais retribuíram ofertas anteriores e retaliaram quando não foram contemplados com a maçã. Isso indica que os macacos não só mantiveram o controle de suas interações com indivíduos específicos, como foram capazes de responder de forma adaptativa ao comportamento desses indivíduos.

Durante essa ação, foram registrados diferentes padrões de atividade cerebral, que variaram de acordo com o ato de cada um dos membros do grupo e da reação individual de cada um.

“Neste estudo, identificamos neurônios na parte frontal média do cérebro dos primatas que abrigam informações sobre a identidade de outros indivíduos e seu comportamento específico (ou seja, quem fez o que a quem e como). Esses cálculos são essenciais para o comportamento social eficaz porque podem permitir que se rastreie o comportamento complexo de outros indivíduos, como eles podem interagir com os outros e como essas interações podem, em última análise, afetar os próprios resultados”, explica o coordenador do estudo Raymundo Báez-Mendonza, do departamento de neurocirurgia do Massachusetts General Hospital.

CONDIÇÕES PSIQUIÁTRICAS

Além disso, quando a atividade normal desses neurônios foi interrompida propositalmente pelos pesquisadores, os animais mostram-se menos propensos a retribuir o pedaço recebido, sugerindo que esses neurônios são importantes na condução de interações benéficas. A equipe acredita que a descoberta dessa rede de neurônios pode ajudar a desenvolver tratamentos para condições neuropsiquiátricas, como depressão, ansiedade e psicoses.

“Em condições em que a capacidade de criar um mapa cognitivo do que os outros estão fazendo está comprometida, os tratamentos que visam aprimorar o funcionamento dessa área do cérebro, direta ou indiretamente, podem melhorar a vida das pessoas”, diz o pesquisador americano.

Outro estudo, publicado na mesma edição da Science, analisou o comportamento de morcegos frugívoros egípcios. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Berkeley, concluíram que neurônios do córtex frontal desses animais são responsáveis por ajudar a distinguir as vocalizações entre os diferentes indivíduos de um grupo. Isso fornece o primeiro vislumbre de como os cérebros dos mamíferos processam interações complexas em grupo.

Pode parecer pouco, mas, de acordo com os pesquisadores, esse estudo pode ter implicações importantes para a melhoria da saúde mental humana ao ajudar a entender porque alguns indivíduos podem navegar em quase qualquer situação social com facilidade, enquanto outros são constantemente condenados ao ostracismo ou incompreendidos.

OUTROS OLHARES

ONDA DE CIRURGIAS ESTÉTICAS NOS OLHOS GERA SEQUELAS

Procura por intervenções do gênero aumentou 40% no país, e as complicações decorrentes dos procedimentos, 20%

A pandemia de Covid-19 levou milhares de pessoas a trabalhar de casa e a fazer reuniões online. Ao se depararem com a autoimagem estampada no computador – com luzes e sombras que demonstravam rugas, olheiras e outras ‘imperfeições’ no entorno dos olhos – muitas pessoas decidiram realizar procedimentos estéticos nesta área, o que ficou conhecido como “efeito Zoom”, em referência ao popular software de teleconferência. De acordo com André Borba, médico cirurgião oculoplástico (oftalmologista capacitado para tratamento reconstrutivo e estético das pálpebras, vias lacrimais e órbitas) e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Ocular (SBCP), a procura por intervenções no entorno dos olhos aumentou 40% e, consequentemente, houve também um incremento de 20% nas complicações decorrentes destes procedimentos.

Segundo ele, só em seu consultório em São Paulo houve um aumento mensal de 10% no número de pacientes apresentando complicações nos procedimentos estéticos realizados na região dos olhos. O especialista lista os principais deles: hipo ou hipercorreção da pálpebra (retirada de menos ou de mais da pele da pálpebra); lagoftalmo(dificuldade de fechar os olhos para dormir); olho seco; cicatrizes aparentes; ptose de supercílios; visão dupla e até cegueira.

“As complicações devem ser tratadas, na maioria dos casos, de maneira cirúrgica, abordando de maneira personalizada a necessidade de cada paciente. Não existe uma solução rápida. Em geral, uma nova cirurgia só pode ser feita seis meses após a primeira, devido ao processo de cicatrização”, afirma.

BAIXA REVERSÃO

A reversão dos casos de cegueira provocados por algum procedimento estético é bem baixa: cerca de 5%. Esta sequela normalmente acontece quando o preenchimento com ácido hialurônico da região do entorno dos olhos ocorre de maneira errada e atinge algum vaso sanguíneo que irrigue o globo ocular.

Os procedimentos mais feitos neste período pandêmico foram a blefaroplastia (cirurgia nas pálpebras), preenchimentos com ácido hialurônico, aplicação de toxina botulínica, peeling elaser na região periocular.

Os profissionais capacitados para realizar procedimentos cirúrgicos na região dos olhos são cirurgiões plásticos especializados na face, cirurgiões oftalmologistas e cirurgiões dermatologistas. A dica de Borba é sempre analisar o currículo do médico antes de realizar qualquer procedimento para saber se ele tem ou não a capacitação necessária para fazer a cirurgia, preenchimento ou usar lasers.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 14 DE DEZEMBRO

A SABEDORIA CONQUISTADORA

O sábio escala a cidade dos valentes e derriba a fortaleza em que ela confia (Provérbios 21.22).

Os homens fortes pensam que podem viver seguros e inexpugnáveis atrás de suas fortalezas. Criam sistemas de segurança sofisticados, encastelam-se em suas torres altas, vestem-se com couraças de ferro e blindam-se atrás de muralhas grossas e cadeados potentes. No entanto, por confiarem nesses expedientes, tornam-se vulneráveis. A Bíblia fala que a cidade de Edom colocou o seu ninho entre as estrelas e pensou que ninguém poderia saqueá-la, uma vez que havia sido construída no alto dos penhascos. Mas o Senhor disse que, ainda que ela colocasse seu ninho entre as estrelas, de lá seria derrubada. O profeta Jeremias, falando em nome de Deus, alerta: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte, na sua força, nem o rico, nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor (Jeremias 9.23,24). O sábio conquista a cidade dos valentes e derruba a fortaleza em que ela confia. O sábio é mais forte do que o valente. A força da inteligência é mais robusta do que a força dos músculos. A sabedoria é mais poderosa do que um exército com armas em punho e mais segura do que uma cidade amuralhada no topo de uma montanha. A sabedoria do sábio é preferível à força dos poderosos deste mundo.

GESTÃO E CARREIRA

BUSCA POR ESCRITÓRIOS COMPARTILHADOS VOLTA A CRESCER COM TRABALHO HÍBRIDO

Redução de custos e flexibilidade na contratação atraem pequenas empresas para coworkings

Em busca de flexibilidade e economia, muitas pequenas e médias empresas têm optado por espaços compartilhados em vez de escritórios próprios, depois de quase dois anos de home office.

Com isso, coworkings de algumas regiões de São Paulo, como o entorno da Avenida Paulista e os Jardins, já têm fila de espera. Na rede GoWork, 1.200 novas estações de trabalho foram contratadas entre setembro e outubro, com previsão de entrega para os próximos seis meses.

“O pessoal voltou com pressa porque as empresas querem recuperar o senso de organização e o contato humano”, diz Fernando Bottura, 41, diretor-executivo da GoWork.

Segundo ele, a diferença é que, antes da pandemia, as empresas procuravam postos para 100% dos seus funcionários. Agora, como as companhias aderiram ao modelo híbrido, elas estão buscando metade das posições de trabalho.

De acordo com pesquisas do Talenses Group com a Fundação Dom Cabral, 72,7% dos profissionais preferem o regime misto. O levantamento foi realizado em setembro e ouviu 686 trabalhadores.

“As empresas estão entendendo que o maior ativo são as pessoas, não os espaços. E aí o escritório flexível vem com tudo, porque você tem um risco menor de contratação”, afirma Otávio Cavalcanti, 37  vice-presidente do IWG no Brasil, rede com 62 unidades de coworking e 38 mil clientes no país.

A flexibilidade dos contratos foi a principal razão para que a Gof Flux voltasse a dividir um espaço físico com outros negócios, de acordo com Pedro Azevedo, 46, sócio- fundador da startup, que atua na área de logística.

A empresa havia passado por um coworking em 2019, mas, pouco meses depois, optou por ter um escritório privado em busca de mais eficiência. Com o início da quarentena, toda a equipe migrou para o home office.

Mas o ritmo acelerado de crescimento durante a pandemia demandou mais flexibilidade da empresa, que, em 2021, resolveu dar uma segunda chance ao coworking.

“Eu comecei o ano com 19 pessoas. Hoje estou com 60, projetando 130 funcionários para abril do ano que vem. Em um escritório próprio, eu teria que fazer um contrato de locação em um espaço muito maior ou mudar depois”, conta o empresário.

Entre as facilidades de quem escolhe um coworking está a possibilidade de ampliar ou diminuir o número de estações de trabalho, e salas de reunião num mesmo contrato.

A locação inclui internet, rede telefônica, energia elétrica, limpeza e cafezinho. Com isso, a economia pode variar entre 20% e 40% dos custos mensais, segundo redes de coworkings.

Antes de voltar para um espaço compartilhado em outubro deste ano; os sócios da consultoria em inovação Instituto Ahlma chegaram a buscar um escritório próprio. Com isso, eles queriam evitar problemas que enfrentaram numa experiência anterior em coworking: barulho e falta de privacidade.

Pesquisando, conseguiram encontrar um meio-termo. Alugaram uma sala privativa em outro coworking. “A rotina do trabalho remoto estava muito desgastante. Queríamos um espaço também com outras pessoas”, diz Leandro Perim, 33, cofundador .

O compartilhamento de ambientes entre empresas é uma tendência já observada também fora dos coworkings. Desde abril, a startup Elas Que Lucrem passou a dividir um endereço com a Thinkseg, no Jardim Paulista, em São Paulo. A dona da primeira empresa é a economista Francine Mendes, 36, e o proprietário da segunda, André Gregori, 49, seu marido.

Com as duas companhias operando em regime híbrido, o compartilhamento da estrutura física permitiu o retorno gradual das equipes ao escritório em um momento de incertezas quanto aos rumos da pandemia e da economia.

O rodízio dos cerca de 60 funcionários trouxe redução de riscos e custos. Mas também surgiram desafios.

“A nossa maior missão é socializar essas pessoas, principalmente aquelas que estão voltando apenas agora para o escritório e encontram uma nova estrutura, com pessoas que nunca tinham visto antes”, afirma a empresária.

Quem cogita migrar para um espalho compartilhado deve levar em conta alguns aspectos, como a localização e a proximidade para cliente  e funcionários. Clareza quanto ao orçamento disponível e transparência na negociação são fatores que facilitam a escolha do lugar ideal, recomendam os especialistas.

Mas a adaptação pode incluir ainda a superação de alguns hábitos culturais, como a necessidade de abrir mão de uma mesa especifica ou sala de reunião, afirma Pedro Azevedo, da Go Flux. Nós temos

EU ACHO …

VACINAÇÃO DAS CRIANÇAS

Imunize seus filhos contra o coronavírus, é irracional ficar com medo

Como esse vírus vai permanecer entre nós por muitos anos, quase todas as crianças que não receberem a vacina um dia estarão infectadas. A maioria tem sintomas leves ou ficará assintomático, mas uma minoria apresentaria a forma grave da doença. E se for sua filha ou filho?

Não é essa a mesma razão que nos faz vaciná-los contra sarampo, difteria, coqueluche e outras doenças de curso benigno no maioria das crianças, mas que  podem causar complicações graves?

O caso da Covid é comparável: crianças infectadas costumam evoluir com poucos ou nenhum sintoma. mas uma minoria desenvolve quadro de insuficiência respiratória que coloca a vida em risco.

A revista Science traz os últimos dados tabulados pelos Centros de Controle, e Prevenção de Doenças, os CDC, dos Estados Unidos., os mais completos já publicados. No início de 2020, as crianças representavam apenas 3% dos casos de Covid no país. Hoje, ultrapassam 25% -, um contingente de mais de 6 milhões. Cerca de 2 milhões pertenciam à faixa dos 5 aos 11 anos.

No fim de outubro deste ano, eram infectados aproximadamente 100 mil crianças americanas por semana. Entre as dezenas de milhares hospitalizadas, um terço não apresentava problemas de saúde. Apesar de saudáveis, muitas necessitavam de internação em UTI.

Nos Estados Unidos, já morreram 700 crianças. Covid está hoje entre as dez principais causas de óbito no infância.

Não há um caso sequer de morte causada pela vacina.  Apesar da contundência desses dados, as pesquisas revelam que 42% a 60% dos pais americanos admitem ser relutantes ou estar decididos a não vacinar seus filhos.

Um dos argumentos é o de que a vacinação não foi testada em número suficiente de crianças. O estudo que levou à aprovação das preparações da Pfizer e da Moderna (ambas com a tecnologia do RNA mensageiro) para adultos, envolveu 40 mil participantes, enquanto aquele realizado na faixa etária de 5 a 11 anos reuniu 2.400.

Embora com números menores, entretanto, a pesquisa com as crianças foi estatisticamente muito significante: eficácia de 90,7%  na prevenção de sintomas da doença, isto é, apenas uma em cada dez imunizados apresentou algum sintoma. Não houve mortes.

Outro argumento contra a vacinação seria o risco de miocardite, processo inflamatório que atinge as células musculares do coração.

Nos estudos de acompanhamento, depois da autorização das vacinas, Pfizer e Moderna, juntando crianças e adultos, o risco de miocardite foi de cinco casos em cada 1 milhão de pessoas vacinadas. Esse risco é insignificante comparado aos problemas cardíacos provocadas pelo Covid e, no caso das crianças  aos da síndrome inflamatória multissistêmica, complicação grave que se instala em diversos órgãos (entre os quais o coração), e pode levar às unidades de terapia intensiva e ao óbito.

Além disso, como a dose aplicada em crianças equivale a um terço daquela administrada aos adultos, a possibilidade de miocardite se torna mais improvável. Estudos conduzidos em Israel e nos Estados Unidos mostraram que a incidência de miocardite pós-vacinal na faixa etária de 12 a 15 anos é mais baixa do que na população de 16 a 25 anos de idade. Por analogia, nas crianças com 11 anos ou menos devemos esperar riscos mais baixos ainda.

Todos os que tivemos ou têm filhos pequenos vivemos a experiência de vê-los com resfriados de repetição, contraídos a partir do momento em que são mandados para a escola. Crianças brincam juntas, correm e se aglomeram na hora do recreio, impossível mantê-las distantes umas das outras. Depois, trazem para casa os vírus, que circulam no ambiente escolar, agem como vetores de transmissão para os mais velhos que, no caso da Covid, podem adquirir uma forma grave.

Esses dados mostram que o Brasil precisa vacinar todas as crianças com mais de dois anos (futuros estudos talvez demonstrem que pode ser antes). As perdas cognitivas por mantê-las em casa por quase dois anos são incalculáveis, especialmente  no caso das mais pobres. Cada vez que uma delas adoece as aulas são suspensas, prejudicando todas.

Por essas razões, leve seus filhos para vacinar. Ao contrário dos perigos da doença, as vacinas são muito seguras. Não vá ficar morta de remorsos ao vê-los doentes, seja racional.

*** – DRÁUZIO VARELLA

ESTAR BEM

POR QUE O OVO QUE TE FAZ BEM HOJE É O MESMO QUE TE MATA AMANHÃ?

Muitos estudos no campo da nutrição são indigeríveis; faltam pesquisas robustas e financiamento

Desculpe-me pelo trocadilho, caro leitor, mas muitos estudos no campo da nutrição são indigeríveis. Há os que sugerem que consumir um ovo por dia encurtaria nossa expectativa de vida em seis anos, e, por outro lado, os que apontam que ingerir 12 avelãs diariamente nos faria 11 anos mais longevos (um ano para cada frutinha). Seriam esses resultados minimamente plausíveis?

Tendo essa pergunta retórica como pano de fundo, John Ioannidis, proeminente cientista da Universidade Stanford, tem duramente criticado não somente os achados inverossímeis de famosos estudos nutricionais populacionais, mas especialmente suas falhas metodológicas.

Segundo Ioannidis, as conclusões exorbitantes geradas por esses estudos devem se, antes de tudo, a uma falta de análise e interpretação. Em geral, estudos populacionais são de natureza associativa. E a associação entre duas variáveis não necessariamente implica causalidade entre elas. Vejamos este exemplo: no passado, o consumo de café foi correlacionado com risco aumentado do câncer. À época, muitos concluíram que a bebida causava a doença. As suspeitas somente seriam encerradas com a constatação de que o hábito de tomar um cafezinho frequentemente acompanha o do tabagismo –  voilá! este sim o fator causal por trás da espúria associação.

Os fatores de confusão (o tabagismo no exemplo anterior) – cujo nome faz jus ao efeito que exercem na interpretação de resultados  – são abundantes na ciência da nutrição. Alguns estudos clássicos californianos das décadas de 1960 a 1980 atribuíram ao consumo de tomates, legumes, grãos, alimentos integrais, etc. a maior longevidade dos fieis adventistas comparados a não religiosos.

Porém, as pesquisas também revelaram que os cristãos, em média, bebem e fumam menos, praticam mais atividade física e apresentam menores taxas de obesidade. De certo, o conjunto desses fatores que compõem o estilo de vida – e não o consumo de um alimento pontual – explica muito melhor porque os adventistas tendem a viver por mais tempo.

Em estudos nutricionais de observação, os tais fatores de confusão são difíceis, se não impossíveis de serem controlados, quase sempre gerando resultados exagerados ou ambíguos, o que só faz confundir a população. A tal história do ovo que te faz bem hoje, mas te mata amanhã…

Como nos lembra Ioannidis, há mais de 250 mil alimentos que podem ser diariamente consumidos em milhões de combinações diferentes, a partir de preparações culinárias diversas, resultando em respostas biológicas praticamente imprevisíveis. Mas esse “detalhe” é frequentemente ignorado por pesquisadores que, a partir da avaliação da diversificada e complexa dieta das populações, elegem um único alimento (ex. ovo) ou, ainda pior, um de seus nutrientes (ex.: colesterol) como capaz de modular o risco de doenças ou morte.

Ioannidis é cirúrgico em revelar as chagas das quais padecem os estudos nutricionais, pondo em xeque diretrizes dietéticas mundiais, que se baseiam na literatura existente. Mas o que viria da implosão da área? Na visão do cientista, a “radical reforma da ciência da nutrição” compreenderia duas frentes: a ampla e transparente reanálise dos estudos observacionais publicados, ponderando-se a real influência dos fatores de confusão nos resultados; e a concentração de esforços e financiamentos em estudos de larga escala, com desenhos randomizados e enfoque em padrões nutricionais, em vez de num único alimento ou nutriente.

Não há dúvidas de que a proposta de reforma tem o potencial de gerar evidência mais qualificada para subsidiar a construção de melhores políticas públicas nutricionais. Contudo, é sempre bom lembrar que achados científicos não são prontamente intercambiáveis entre populações, haja vista as profundas particularidades da alimentação em cada pedaço de mundo.

O eficiente enfrentamento dos nossos atuais problemas nutricionais de saúde pública, que envolvem, entre outros, a obesidade e a insegurança alimentar, depende mormente de conhecimento produzido por estudos robustos locais. É para dar conta deste tipo de desafio social que a comunidade científica brasileira tem incansavelmente cobrado por financiamento adequado.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FRIO AMENIZA OS SINTOMAS DA ESCLEROSE MÚLTIPLA

Estudo suíço mostrou que o efeito das baixas temperaturas sobre o sistema imunológico pode reduzir inflamação

Um conhecido mecanismo ocorrido no corpo humano serviu de base para uma descoberta importante no tratamento da esclerose múltipla. Já se sabia que, quando exposto a baixas temperaturas, o organismo sofre uma redução natural de suas defesas. Agora, pesquisadores da Universidade de Genebra, na Suíça, deram uma aplicação inovadora para esse princípio: o combate aos sintomas de doenças autoimunes.

Esse efeito do frio pode ser explicado por sua ação no sistema imunológico, que é mobilizado para manter a temperatura corporal estável. Direcionado pelos pesquisadores para aliviar os sintomas da esclerose múltipla, o tratamento gelado teve um resultado surpreendente.

A pesquisa acompanhou durante duas semanas camundongos infectados por encefalomielite autoimune experimental (EAE), um modelo animal da esclerose múltipla, divididos em dois grupos. O primeiro foi colocado num ambiente com temperatura de cerca de 10 ºC, enquanto o segundo foi mantido em condições ambiente. Já nos primeiros dias de experimento, os cientistas observaram uma melhora significativa no quadro da doença nos espécimes do primeiro grupo.

“Isso mostra que nas baixas temperaturas existiu uma atividade inflamatória auto imune menor que na temperatura habitual. Agora, a partir desses dados, é possível extrapolar para estudos em humanos”, explica o coordenador do Centro de Esclerose Múltipla do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, e membro da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), Tarso Adoni.

No experimento, os sintomas ligados à locomoção diminuíram drasticamente no primeiro grupo de cobaias, com casos em que o animal nem conseguia andar e evoluiu para apenas uma paralisia sutil na cauda. Os resultados da pesquisa foram publicados no último dia 22, na revista científica Cell Metabolism.

“Seguramente é uma fronteira que abre para se estudar novos modelos e se desenharem novos trabalhos para reduzir a agressão da doença”, acrescenta Adoni.

ATAQUE AOS NEURÔNIOS

A esclerose múltipla é uma doença autoimune caracterizada pelo ataque do próprio organismo à mielina, uma camada protetora que envolve os neurônios. Esse dano afeta o envio dos comandos do cérebro para o resto do corpo e provoca sintomas como dormência ou formigamento, dificuldade de andar e de coordenação motora e problemas de visão.

O coordenador médico do Centro de Excelência em Esclerose Múltipla do Programa Integrado de Neurologia no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, Rodrigo Thomaz, detalha a relação entre baixas temperaturas e esclerose múltipla.

“Só de você esfriar um pouco o corpo do paciente, com compressas de água tendemos que nesse caso ocorre uma melhora na transmissão dos impulsos nervosos”, explica.

Segundo o especialista, os médicos sempre observaram que o frio ajuda o paciente com a doença, enquanto o calor tende a piorar. O estudo dos pesquisadores suíços pode abrir mais uma perspectiva sobre como a temperatura interfere na doença.

“Hoje a importância é entender o seu mecanismo, saber se ela tem de fato uma interferência na produção da doença autoimune e como a gente pode usar esse conhecimento para melhorar a neuro inflamação e a qualidade de vida do paciente na prática”, diz Thomaz.

EFEITO CELULAR

Os pesquisadores responsáveis pelo trabalho investigaram como funciona em nível celular a diminuição da atividade do sistema imunológico causada pelo frio, que consequentemente reduz o ataque à mielina.

Eles constataram que o esforço desviado para estabilizar a temperatura corporal provocou uma redução das moléculas do sangue responsáveis por defender o organismo de corpos estranhos, como vírus e bactérias, mas que, no caso de uma doença autoimune, ataca o próprio organismo.

Essa redução as tornou menos ativas e menos capazes de instruir a resposta imune das chamadas células T, que também desempenham um papel fundamental na defesa do corpo.Com isso, a atividade do sistema diminuiu como um todo, o que melhorou a neuro inflamação.

Os especialistas ressaltam, no entanto, que apesar de o enfraquecimento do sistema imunológico reduzir a resposta que ataca o organismo, ele também deixa o corpo humano mais suscetível à infecções por agentes que devem de fato ser combatidos. Além disso, embora o princípio tenha se mostrado eficaz para conter a esclerose múltipla, ele, destacam que as doenças autoimunes não funcionam de uma só maneira e, por isso, não é garantido que o método se aplicaria às demais.

Hoje, não há uma cura para a esclerose múltipla. Por isso, o tratamento é focado nos sintomas e realizado majoritariamente com o uso de anti-inflamatórios, em especial corticoides, além de medicamentos para regular e modular o sistema imunológico.

Há ainda uma opção mais recente e que tem se mostrado promissora: o transplante de células-tronco. Foi o caso da atriz americana Selma Blair, que foi diagnosticada em 2018. Depois do procedimento, a doença entrou em remissão. No entanto, devido à complexidade e aos altos riscos de cirurgia, ainda é uma opção pouco oferecida.

MILHÕES DE CASOS

Cerca de 2,8 milhões de pessoas no mundo vivem com esclerose múltipla. De acordo com o Ministério da Saúde, a prevalência média da doença no Brasil é de 8,69 casos para cada 100 mil habitantes.

A doença afeta principalmente o sexo feminino, na proporção de três mulheres para cada homem, e adultos entre os 20 e 40 anos. Entre os sintomas, estão a fadiga e o comprometimento da coordenação motora.

OUTROS OLHARES

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL AJUDA A ANALISAR EXAME E ACELERAR DIAGNÓSTICO DE DERRAME

Algoritmos identificam local exato de lesão cerebral e podem tornar tomografia mais precisa

Ferramentas de inteligência artificial têm ajudado a acelerar o diagnóstico de AVC (acidente vascular cerebral) e otimizar o tratamento de pacientes que ficaram com sequelas.

Esse é o caso de um software, desenvolvido pela empresa israelense Aidoc, que é capaz de identificar com mais precisão derrames do tipo hemorrágico – quando uma artéria se rompe, causando sangramento no cérebro.

O programa usa um algoritmo para analisar o resultado de tomografias e destaca áreas com sangramento que podem passar despercebidas pelo olho humano.

A solução já é oferecida em sete hospitais públicos de São Paulo e um de Goiás, por meio de uma parceria da Aidoc com a Fidi (Fundação Instituto de Pesquisa e Estudo de Diagnóstico por Imagem), organização social que presta serviços para o SUS.

Igor Santos, médico e superintendente de inovação da Fidi explica que o resultado de uma tomografia pode demorar até duas horas para chegar ao médico que a solicitou. Isso se deve ao tempo que os radiologistas levam para analisar a imagem. Por meio da nova solução, a espera pode ser reduzida para até 30 minutos.

Os arquivos do exame são armazenados na nuvem, onde as imagens são analisadas. Ao identificar o derrame, o resultado é disparado para o médico do paciente, junto com informações como data, horário, nome e idade.

Tudo é feito seguindo as regras da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), que regula o uso de informações pessoais nos meios digitais.

Desde que o programa começou a ser testado, em 2018, já foram analisados exames de mais de 100 mil pacientes.

A tecnologia também permite detectar outros tipos de doenças, como tumores cerebrais. “É um algoritmo especialista em sangramentos no crânio”, explica Santos.

Com dores de cabeça e dificuldade para sentir as pernas, Antônio Valentim da Silva, 71, deu entrada no Hospital Mandaqui, na zona norte de São Paulo, no dia 7 de setembro. Era um AVC. O paciente conseguiu ser diagnosticado rapidamente e foi conduzido a UTI graças à tecnologia. Hoje, sem sequelas, diz que se sente bem.

“O diagnóstico rápido é super importante. Tempo significa viabilidade de células do sistema nervoso. Se você demorar (a intervenção) não vai adiantar”, diz José Krieger, professor do Departamento de Cardiopneumologia da Faculdade de Medicina da USP ((Universidade de São Paulo).

Ele faz parte do c4IA (Centro de Inteligência Artificial, que está desenvolvendo um algoritmo para melhorar o desempenho da tomografia na identificação do AVC. O projeto, que teve início em 2020, é resultado de uma parceria entre USP, Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e IBM.

A tecnologia quer tornar a tomografia tão precisa quanto a ressonância magnética – mais cara e demorada. Segundo Krieger, enquanto o primeiro leva cerca de 5 minutos para ser feita, a segunda demora de 30 a 40 minutos.

Com o novo algoritmo, seria possível usar o exame mais simples para localizar a lesão com precisão e caracterizar o tipo de AVC: hemorrágico ou isquêmico, quando há obstrução de uma artéria.

Marco Antônio Gutierrez, engenheiro e um dos pesquisadores do C4IA, explica que a ressonância consegue identificar a lesão mais precocemente do que a tomografia. A proposta do projeto é tornar o segundo método tão eficaz quanto o primeiro.

“Com o algoritmo, poderíamos, com um exame mais simples, detectar um AVC isquêmico ou hemorrágico logo no início”, diz Gutierrez.

Para construir a ferramenta, os pesquisadores vão usar técnicas de inteligência artificial e comparar resultados de milhares de exames. Cada paciente participante do estudo deve fazer uma tomografia e uma ressonância magnética. O objetivo é que o algoritmo reconheça padrões entre os dois métodos de diagnóstico. O projeto está em fase inicial e não há previsão de término.

Outra iniciativa, também encabeçada por pesquisadores da USP – mas do campus de São Carlos (interior do estado) – , criou um robô para ajudar na recuperação de pacientes que ficaram com restrições de movimento nos membros inferiores.

Feito de ligas de alumínio, o protótipo, que é acoplado junto à cintura e às pernas, mede a força que a pessoa está fazendo para se mexer. Se ela for suficiente para completar o movimento, o robô permanece parado; caso o paciente não consiga terminar de se locomover, a máquina ajuda a impulsioná-lo.

“O robô tem sensores nas articulações, com os quais conseguimos medir se a pessoa começou a fazer o movimento e em que intensidade ela fez”, diz Adriano Siqueira, professor de engenharia mecânica e pesquisador da USP.

Conforme o usuário realiza a fisioterapia, o robô coleta, também, as medidas dos ângulos do movimento. A partir disso, a equipe de Siqueira pretende utilizar inteligência artificial para analisar os dados e tentar identificar se o paciente teve alguma evolução.

Embora o protótipo tenha sido finalizado em 2020, ainda não foram feitos testes com um número significativo de pessoas. Segundo Siqueira, a pandemia foi um dos fatores que atrapalhou o andamento do projeto.

CONHEÇA OS TIPOS, SINTOMAS E FATORES DE RISCO DE AVC

Brasil tem cerca de 200 mil internações e mais de 30 mil mortes pela doença por ano

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 13 DE DEZEMBRO

SEMEANDO BONDADE, COLHENDO HONRA

O que segue a justiça e a bondade achará a vida, a justiça e a honra (Provérbios 21.21).

A vida é feita de escolhas. Enquanto uns colocam os pés na estrada da justiça, outros descem pelos abismos da iniquidade; enquanto uns semeiam a bondade, outros plantam as sementes malditas do ódio. O que ninguém pode escolher são os resultados de suas escolhas. Quem planta ventos colhe tempestades; aqueles que semeiam na carne, da carne colhem corrupção. Quem semeia violência recebe violência. Quem planta discórdia colhe desprezo. Mas aqueles que semeiam amor colhem reconhecimento. Quem semeia paz colhe amizade. O que segue a justiça e a bondade achará a vida, a justiça e a honra (Provérbios 21.21). A justiça e a bondade precisam andar de mãos dadas. A justiça sem a bondade esmaga as pessoas; a bondade sem justiça as deixa acomodadas. A bondade vai além da justiça; caminha a segunda milha com quem já não tem mais direito. Aqueles que seguem a justiça e ainda praticam a bondade acharão a vida, a justiça e a honra. Quem anda na verdade e pratica o amor, semeando na vida do próximo justiça e bondade, colherá os frutos benditos de uma vida abundante, se cobrirá com as vestes alvas da justiça de Cristo e receberá honra tanto na terra como no céu, diante dos homens e de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

SEM VOLTA: EMPRESAS ETERNIZAM O HOME OFFICE

Na contramão da retomada do trabalho presencial e da tendência do modelo híbrido, companhias decidem manter funcionários em casa de forma permanente e apostam em autonomia e bem-estar para alavancar produtividade

A administradora Emanuela Santana de Melo, de 32 anos, começa a semana em um barco na Baia do Guajará, em Belém. Pratica remo ao nascer do sol e depois corre para o escritório – que fica em casa. O home office temporário iniciado na urgência do isolamento na pandemia virou permanente para ela e para todos os colegas de trabalho. O movimento é seguido por algumas empresas que, na contramão da retomada do trabalho presencial ou da aposta no modelo híbrido com o avanço da vacinação, decidiram manter os funcionários em casa.

Emanuela se mudou de São Paulo para Belém em setembro, acompanhando o namorado, que foi transferido do trabalho. A mudança, ela diz, não impactou a vida profissional. Ela pode trabalhar 100% remotamente na Movile, investidora e desenvolvedora de negócios de tecnologia para empresas como ifood, PlayKids e Sympla, que aderiu ao teletrabalho definitivo.

“Como eu tinha possibilidade de trabalhar de onde quisesse, não fazia sentido continuar em São Paulo”, conta Emanuela. “Ganhei qualidade de vida. Consigo acordar cedo, faço remo, jogo futebol, tomo café com calma. Fujo do trânsito de São Paulo e ainda consigo resolver coisas em casa na hora do almoço e entre uma tarefa e outra do trabalho.

Acostumada à vida no escritório, ela teve de aprender a estabelecer uma nova rotina profissional em casa de maneira permanente.

“Houve uma transição. Hoje, sinto que aprendemos a interagir virtualmente, trabalhar bem e a resolver os problemas. Se há necessidade, vou a reuniões presenciais em São Paulo e volto. Gosto da facilidade. Ter de ficar no escritório seria um complicador para mim”, afirma.

CERVEJARIA SEM ESCRITÓRIO

Cerca de 80 trabalhadores da Movile estão em home officedefinitivo. A opção pelo modelo veio depois de uma pesquisa interna com os funcionários.

“Desenvolvemos um modelo 100% remoto, sem obrigação de ir ao escritório. Planejamos um novo espaço em São Paulo, mas para promover trocas, engajamento, atividades e iniciativas dentro de um propósito de olhar para os colaboradores e oferecer cultura”, explica Claudia de Souza, diretora de People da Movile.

Na Heineken, cerca de 1.300 funcionários dos escritórios de São Paulo e Itu também passaram ao home office permanente. Uma consulta com os funcionários comprovou a aceitação da ideia, e os contratos de trabalho foram alterados.

“Remodelamos os escritórios para ambientes mais colaborativos e hub de apoio aos colaboradores para necessidades pontuais, como reuniões de equipe e conexões do grupo”, explica Juliana Wei, diretora de Recursos Humanos da Heineken.

Para manter a conexão a distância, a empresa promove programas de reconhecimento dos funcionários, organiza lives com o presidente da companhia e incentiva encontros virtuais entre lideranças e liderados – menos às terceiras sextas do mês, em que os funcionários são encorajados a ficarem longe do excesso de videochamadas.

Para a gerente de sustentabilidade da Heineken, Beatriz Dias de Sá, de 38 anos, o modelo remoto trouxe mais produtividade.

“Tive minhas melhores avaliações de desempenho estando em casa. Inclusive fui promovida recentemente”, conta ela, mãe de um menino de 3 anos e moradora de Jundiaí, a cerca de 60 quilômetros de São Paulo. “Gastava mais de três horas por dia no trânsito, e tive um ganho de tempo incrível. Consigo fazer exercício, cuidar do meu bem-estar mental, estar mais próxima do meu filho e ver o desenvolvimento dele.

‘PRESENÇA É IMPORTANTE’

A modalidade 100% remota, porém, ainda desperta dúvidas em especialistas em RH sobre como manter a cultura corporativa e o engajamento em alta no longo prazo.

“É tudo muito novo. Talvez aprendamos rituais e práticas que podem fomentar e fortalecer a cultura de forma 100% remota. Mas, a realidade hoje que, para compartilhar valores, a presença física ainda é importante”, diz Tatiana lwai, professora de Comportamento Organizacional e Liderança do Insper, em São Paulo. Os funcionários, acrescenta Tatiana, também devem estar atentos a possíveis efeitos da falta de interação direta no desenvolvimento de qualidades como inovação e criatividade e na evolução da própria carreira:

“O escritório não é apenas um local em que o trabalho acontece. Existe um papel de interação social. E há uma parte de aprendizado e troca que acontece melhor observando as pessoas.

EU ACHO …

A QUEM ENCONTROU A CARTEIRA QUE PERDI

Prezado, prezada(o),

nem por um segundo cogitarei que você enfiou a mão na minha bolsa num momento em que eu estava distraída. Minha intuição diz que você não cometeria essa indelicadeza. É mais provável que eu tenha esquecido a carteira sobre a bancada de uma loja, na hora que estava pagando algo, ou a deixei cair no chão do shopping durante uma manobra desastrada, talvez ao colocar a alça da mochila por cima do ombro – tenho a mania tola de deixar zíperes semiabertos. Você chegou logo depois e deparou com aquele objeto ali, abandonado, dando sopa.

Já soube que você não foi até o setor de achados e perdidos, ninguém me chamou pelos alto-falantes, ótimo, um mico a menos. Tampouco me mandou uma mensagem pelas redes sociais, deve ser um dos poucos tímidos que ainda restam. Por via das dúvidas, fiz um boletim de ocorrência, por favor não se ofenda. Agora você tem em mãos um cartão de crédito inútil, já que bloqueado, e 1.100 reais em dinheiro vivo. Já não uso dinheiro pra nada, mas havia dois pagamentos em cash a fazer naquela tarde. Me conta, criatura de sorte, por onde vai começar?

Torço para que você se matricule em algum curso, que sonhe em fazer aulas de dança ou teatro, e que a quantia seja suficiente pra arrancada. Ou que você entre numa livraria e saia com três sacolas repletas de poesia e ainda compre ingressos para ir a um show com os amigos. O troco você destina a uma rodada de cerveja e bolinhos de bacalhau, avise a turma que é por sua conta. Não me decepcione sendo sovina com dinheiro que caiu do céu.

Puxa, você não tinha me dito. Seu filho sonha com a camiseta oficial do time dele, pediu de Natal. Agora ficou sem desculpa, atenda o garoto, mas seja um Papai Noel para sua mãezinha também, ela está devendo uma fortuna na farmácia. Se você ainda não está por dentro do preço dos medicamentos, vai cair duro quando souber o quanto a coitada desembolsa para se aliviar das dores da artrite.

Olha, não é porque estou ligeiramente envolvida no assunto que vou me sentir no direito de me meter, mas já me metendo: dá para lotar o carrinho do supermercado, dá para encher o tanque e dá para pagar as dívidas mais urgentes, se você tiver juízo. Ou entrar no primeiro ônibus para o litoral com seu amor e trocar um longo beijo em frente ao mar.

Claro, dá para poupar, depositando cada centavo no banco, mas não vejo graça nenhuma. Se a carteira perdida fosse de um desempregado, seria calamitoso, mas vá que o desempregado seja você: gaste. Bombons, camisa nova, um corte de cabelo, outra tatoo, assinatura de um canal, luzinhas na sacada. Recompense minha perda fazendo bom uso do seu desejo. Lamentarei menos se você atenuar a falência geral e ser estupidamente feliz por um dia.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

ESTAR BEM

CORPO FECHADO

Os alimentos para o sistema imunológico

Com a pandemia da Covid-19, um mecanismo do corpo humano em especial ganhou protagonismo nos estudos científicos: o sistema imunológico. Pesquisas não só detalharam seu papel no combate à infecção, como ampliaram os conhecimentos sobre a sua forma de agir contra a invasão de variados microrganismos. Mas essa não é sua única função, explica a diretora da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), Ekaterini Simões Goudouris:

“Se você tem um sistema imunológico funcionando mal, pode não apenas ter o risco aumentado de quadros infecciosos repetidos, como desenvolver doenças autoimunes e câncer”.

Pesquisadores da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, descobriram que uma das células T (que atuam no combate a agentes desconhecidos) tem um tipo de receptor específico capaz de identificar e atacar células cancerígenas.

O sistema depende de uma série de nutrientes para funcionar da maneira ideal. Uma forma de garanti-los é consumindo “superalimentos” – comidas ricas em substâncias boas para o sistema imunológico. Conheça sete deles:

MEL

Um dos alimentos mais consagrados na história da humanidade, o mel é consumido há milênios – os primeiros registros datam de 8 mil anos. Ele desde sempre foi associado à saúde. A relação com a imunidade é mais recente, e os conhecimentos nessa área vêm crescendo. Recentemente, pesquisadores da Universidade do Estado de Michigan, nos Estados Unidos, chegaram a afirmar que o mel atua como um “construtor do sistema imunológico”.

Tal capacidade é provocada especialmente pela atuação antioxidante de dois compostos, os flavonoides e os polifenóis. Ambos agem neutralizando os radicais livres, as moléculas que aceleram o processo de envelhecimento das células, aumentando o risco e o surgimento de doenças crônicas. O mel também tem grandes quantidades de uma substância chamada peróxido de hidrogênio, com ação antisséptica capaz de matar comunidades de bactérias e fungos.

IOGURTE

O iogurte é um leite fermentado por bactérias. Essas bactérias se alimentam do açúcar natural do leite (a lactose) e liberam ácido láctico. É esse processo que confere a consistência, o gosto azedinho característico e a grande propriedade terapêutica do alimento. O alimento possui pelo menos dois tipos de bactérias, a lactobacillus bulgaricus e a streptococcus thermophilus – são os chamados probióticos.

“Essas bactérias consideradas protetoras vão atuar diretamente na ação do sistema imunológico”, explica a endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Juliana Garcia Dias.

Trabalho da Universidade de Yale publicado na revista Clinical Immunology mostrou que entre 70% e 80% de todas as células imunes do corpo estão no trato gastrointestinal.

QUINOA

Típica da América do Sul a quinoa é uma semente tão nutritiva que é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) um superalimento para o combate à fome no mundo pelo potencial energético.

Ela tem os chamados “compostos fenólicos”, como quercetina e canferol, e flavonoides, que são antioxidantes e produzem o efeito semelhante ao do mel no fortalecimento do sistema imunológico. Ela também carrega uma grande quantidade de zinco, nutriente que exerce um papel na maturação das células T, responsáveis pela imunidade a nível celular. Além disso, tem vitamina B6 em abundância. Pesquisadores da Universidade de Tufts, em Boston, observaram pacientes com imunodeficiência e relacionaram a baixa concentração dessa vitamina no organismo a uma redução na produção de anticorpos.

BATATA DOCE

Os principais nutrientes da batata doce que impactam a imunidade são as vitamina A e C. Ambas têm um papel antioxidante, ou seja, protegem as células dos radicais livres. A vitamina A é absorvida pelo corpo como resultado da conversão do betacaroteno presente no legume em vitamina. Essa substância é o pigmento que dá a coloração alaranjada. Assim, quanto mais alaranjada, maior a quantidade de betacaroteno e de vitamina A no legume.

Estudo brasileiro publicado na Revista Pan Americana de Saúde Pública relacionou ainda a deficiência de vitamina A à redução da atividade das células chamadas “natural killer” (NK), que fazem parte da resposta inicial do sistema imunológico. Já a vitamina C, além de ser um antioxidante, atua na manutenção da “barreira epitelial”, que é uma fina camada de células cuja função é proteger o corpo contra toxinas e bactérias.

SPIRULINA

Trata-se de uma alga que pode ser usada como suplemento alimentar por ser rica em proteínas, aminoácidos, ferro, zinco e vitaminas A, B, D e E. Portanto, possui diversos nutrientes relacionados ao funcionamento do sistema imunológico.

O principal deles é a ficocianina, um pigmento que dá à spirulina a coloração azul esverdeada. Ela tem uma alta atuação antioxidante e consegue inibir determinadas enzimas pró-inflamatórias. Pesquisadores da Universidade de Jinan, na China, conduziram uma pesquisa em que atestaram a sua função imunomoduladora. Ou seja, ela melhora significativamente a ação das células formadoras de anticorpos e aumenta a atividade dos linfócitos. Ela é vendida em comprimidos, cápsulas ou em pó.

CÚRCUMA

Também conhecida como açafrão -da-terra, é um pó extraído de uma planta da família Zingiberaceae, a mesma do gengibre. Sua principal substância, a curcumina, é já há bastantetempo conhecida pelo efeito antiinflamatório.

Mais recentemente, mostrou-se também ser um potente agente que atua na ativação das chamadas células T, células B, macrófagos, neutrófilos, células N K e dendríticas, todas com papel essencial no sistema imunológico.

A cúrcuma também pode reduzir a expressão de citocinas (substâncias segregadas por células do sistema imune que, em excesso, fazem mal ao corpo) e aumentar as respostas de anticorpos, aponta um estudo de pesquisadores da Universidade do Texas publicado no Journal of Clinical Immunology. Trabalho da Universidade do Oregon sugere ainda que a curcumina aumenta os níveis da proteína que regula a resposta imune inata, a primeira barreira de defesa do corpo.

GENGIBRE

A planta atua nas defesas do corpo pela alta capacidade de ação antioxidante e antiinflamatória, que combatem os radicais livres, explica a endocrinologista Juliana Garcia Dias, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Isso acontece graças à substância chamada de gingerol. Um estudo da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e da Universidade de São Paulo (USP) afirma que o gingerol é capaz de modular as células T, que têm um papel primordial no funcionamento das defesas do corpo.

Além disso, trabalhos afirmam ainda que o gingerol possui também uma atuação anticâncer por meio da indução da apoptose, uma forma de morte celular programada, e da autofagia, processo de regeneração natural em nível celular, que seriam capazes de inibir metástases.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O QUE EXPLICA O FENÔMENO ‘ROUND 6’?

 Do fascínio das crianças à crítica ao capitalismo, vários fatores decifram o sucesso da série

A pergunta que muitos pais têm escutado de seus filhos pequenos, ultimamente, é uma variação entre ‘Posso assistir?’ e ‘Todo mundo já viu, só eu não. Por quê?’. As perguntas não são novas. São feitas desde sempre por crianças que não entendem a restrição – ou a entendem e querem algo assim mesmo. O que há de novo é o que esses meninos e meninas querem assistir: a série sul-coreana Round 6. Entender os motivos de tanto sucesso- a produção já teve 111 milhões de acessos na Netflix em todo mundo e seu valor estimado é de R$ 5bilhões – vai além de compreender o desejo das crianças, mas começa precisamente por elas e suas escolas.

A classificação etária da série é 16 anos e o conteúdo chama atenção pela extrema violência. Brincadeiras marcantes da infância de muita gente, como “batatinha 1, 2, 3”,        ‘cabo de guerra’ e ‘bola de gude’, são usadas, por exemplo, para perpetrar assassinatos. Os participantes são submetidos à provas de sobrevivência na série, e a estética de cores vibrantes nos cenários de Round 6 e o ar inicialmente inofensivo das gincanas são uma combinação que mexe com a memória afetiva infantil de muitos adultos, mas desperta a curiosidade dos pequeninos. “A sonoridade das brincadeiras, o aspecto lúdico, as imagens infantis, tudo isso tem um apelo grande com o público infantil. E, sendo brincadeiras menos frequentes entre as gerações atuais, desperta a curiosidade de como funcionam, atraindo ainda mais a atenção das crianças. Assuntos como ‘bolinhas de gude’ voltaram a ser tema entre as crianças com quem convivo”, afirma a psicóloga infantil Tauane Gehm, doutora em Psicologia. Diante do sucesso – e acessos – cada vez maiores, as escolas se movimentaram. No Rio de Janeiro, a Escola Aladdin emitiu comunicado aos pais sobre a ‘obsessão’ dos jovens pela série, com a advertência de que alguns estavam fazendo brincadeiras com alusão ao assassinato de personagens. Em São Paulo, o tradicional colégio Dante Alighieri também se manifestou. “Quando esse assunto começa a vir para cá, a gente precisa repactuar o olhar que família e escola têm juntas. Na época da Baleia Azul, a gente também fez um alerta”, disse a diretora-geral educacional do Dante, Valdenice Cerqueira. A menção à Baleia Azul não aparece por acaso. Também era um jogo aparentemente inocente, que também envolvia uma série de tarefas que seus participantes precisavam cumprir… e que poderia levar à morte real ou virtual.

Em Poços de Caldas, Minas Gerais, a professora de Artes Andréa Ribeiro Campos, do Colégio Dr. José Vargas de Souza, percebeu o alvoroço dos alunos em relação a Round 6 e decidiu abordar o assunto em aula. ”Eles falavam da série como se fosse legal e natural que as pessoas se matassem por dinheiro. A sensação que tive foi que eles acharam bacana a crueldade dos episódios. Fiquei mais espantada depois que eu mesma vi a série. Senti a necessidade de falar com eles sobre o lado negativo, e da importância de assistir a programas com classificação indicativa para a idade”, diz a professora. Andréa gostou da série. “Achei uma crítica interessante ao capitalismo, mas, para crianças de 11 anos, ela é totalmente inviável devido ao grau de crueldade física e psicológica”, ressalta.

ANTICAPITALISMO

O fenômeno Round 6, para além do fascínio das crianças, deriva do que muitos consideram uma crítica ao capitalismo. E, apesar de as críticas serem à realidade da sociedade coreana, as desigualdades são mais ou menos parecidas por todo o planeta – e foram aumentadas por conta da pandemia. No Brasil, o Índice de Gini, usado para medir a desigualdade de  renda, estava em 0,642 no primeiro trimestre de 2020. No fim do ano, estava em 0,669 e no trimestre inicial de 20 21 atingiu 0,674 (o ponto mais alto da série histórica do índice, que oscila entre 0 e 1, no Brasil). “A tendência crescente de priorizar os benefícios sobre o bem-estar do indivíduo é um fenômeno que vemos nas sociedades capitalistas de todo mundo”, disse à AFP Sharon Yoon, professor de Estudos Coreanos na Universidade Notre-Dame.

“Eu quis escrever uma estória que fosse uma alegoria ou fábula sobre a sociedade capitalista moderna, algo que retratasse uma competição extrema, como a extrema competitividade da vida”,  disse o diretor da série, Hwang Dong-hyuk, à revista americana Variety.

Discussões sobre o capitalismo à parte, Luciana de Moraes Cunha Correa toma todo cuidado para proteger a filha de 11 anos que, claro, está louca para ver a série. Ao receber a negativa, a menina retrucou: “Ah, mãe, minhas amigas assistiram. Na minha sala, só eu que ainda não viu.

O interesse da menina Manoela, aparentemente, não tem a ver com a série em si, mas com a influência que os serviços de streaming e as redes sociais tem sobre todos. Adultos ou crianças. “Eu fiquei interessada porque estava todo mundo falando nisso, estava no ‘top1 das séries mais vistas no Brasil. E também porque vi diversos memes no Instagram da ‘batatinha frita 1, 2, 3’, daí fiquei curiosa.”

O sucesso de Round 6 é o mais recente capitulo da escalada do audiovisual sul-coreano no mundo. Se a série da Netflix é o seu capítulo mais popular, o mais importante foi Parasita, que venceu o Oscar de melhor filme, diretor, filme estrangeiro, roteiro original, direção de arte e montagem. Todos no ano passado. O principal ponto de intersecção entre as duas produções é a desigualdade social. Se os jogos mortais de Round 6 são vividos por desempregados em busca de um prêmio milionário, em Parasita uma família mostra as amplas desigualdades da sociedade sul-coreana.

“Todos esses prêmios contemplam uma obra que, desde a vitória com a Palma de Ouro em  Cannes, no ano passado, tem sido tema de admiração e polêmica. Realizado com precisão absoluta – a ponto de a Academia ter ignorado o portentoso plano-sequência, mesmo que não seja um só, de 1917 -, o filme também segue uma tendência expressa no brasileiro Bacurau, no francês Les Misérables e no norte-americano Coringa – a revolta dos excluídos face às desigualdades do mundo”, escreveu, no ano passado, o crítico de cinema  Luiz Carlos Merten.

Com tanta polêmica envolvida, Round 6 já é o maior lançamento de série original da Netflix. Até meados de outubro, foram 11 milhões de acessos em todo o mundo, segundo a plataforma. O valor da série é estimado em USS 900 milhões, o equivalente a quase R$ bilhões, na cotação anual, de acordo com a Bloomberg News, que cita números de um documento interno da companhia.

De qualquer forma, os lucros do mundo real são incongruentes com as misérias vividas pelos personagens da série, que passam por provas de sobrevivência em busca de dinheiro para pagar suas dívidas. São 456 pessoas desempregadas, em desespero financeiro, para ganhar um prêmio de $ 38 milhões.

Será que a polêmica voltará para uma nova temporada?

OUTROS OLHARES

RASTREIO GENÉTICO

Nova técnica em embriões levanta debate ético

Um novo tipo de rastreamento genético de embriões que serão usados no processo de fertilização in vitro tem provocado debates técnicos e éticos na comunidade médica. A novidade, chamada de “pesquisa poligênica de embrião” promete que os pais descubram, por exemplo, se aquele futuro bebê terá risco agravado para doenças como diabetes, câncer de mama ou próstata, esquizofrenia e hipertensão.

Para chegar a esse painel de probabilidades – não se trata de um diagnóstico –  os médicos analisam o material genético do embrião e utilizam bancos de dados que reúnem informações de DNA, aspectos de saúde de pessoas já nascidas e um algoritmo que ajuda a determinar quais especificidades genéticas, em conjunto, estariam relacionadas às doenças em potencial.

O novo exame difere de métodos de rastreio usados atualmente e que avaliam, por exemplo, alterações nos cromossomos – causa da Síndrome de Down – ou a presença de doenças como a fibrose cística, que são fruto de variações em um único gene. Por outro lado, esses exames já existentes oferecem diagnósticos, pois é possível apontar a presença da alteração específica no gene ou cromossomo que causa certa doença. No caso dos estudos poligênicos, avalia-se o risco geral, observando uma série de áreas do DNA de maneira combinada.

Ainda não há bebês brasileiros que tenham nascido após um rastreio “poligênico”. O teste é oferecido no Brasil pelo laboratório Gene One, mas também em parte dos Estados Unidos e da Europa.

“Não adianta rastrear e achar que o embrião não terá chances de desenvolver doenças, pois essas complicações também são impactadas por fatores ambientais e de hábitos de vida. Por isso falamos que há identificação de risco aumentado ou risco dentro da normalidade”, afirma Bruno Copreski, gerente de genética reprodutiva da Gene One.

O custo do serviço que inclui a coleta de amostras do pai e da mãe, tem uma taxa inicial de cerca de RS7 mil, somada à análise de cada embrião, em torno de RS2,5mil. A indicação de utilização é para os pais que tenham histórico de alguma das doenças “rastreáveis” na família.

Embora pareça um avanço, o procedimento levanta uma discussão ética. Qual seria o limite de análise para um embrião? E, além disso, somente a probabilidade de que o embrião, no futuro, se transformaria em uma pessoa com complicações de saúde seria o suficiente para não utilizar aquele óvulo fecundado – que poderia ter perfeitas condições de desenvolvimento?

‘SELEÇÃO COMPLICADA’

“O problema é que estamos falando do risco de desenvolvimento de problemas, não da doença real. É uma seleção multo complicada. Todos temos uma série de propensões genéticas e talvez, se tivéssemos sido analisados como embriões, nem estaríamos aqui”, opina Carlos Alberto Petta, do Laboratório de Reprodução Humana do Hospital Sírio e Libanês.

Pedro Monteleone, diretor do Centro de Reprodução Humana Monteleone e coordenador técnico do Centro de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas diz que há “dilemas significativos” envolvidos na prática.

“Se fosse assim, a Angelina Jolie não teria nascido, nem o Steve Jobs. Isso, claro, um exemplo grosseiro de uma coisa que será refinada. Mas temos indivíduos com patologias graves que prestam grandes serviços à sociedade. As perdas e ganhos ainda estão em debate.”

Em junho, pesquisadores dos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália publicaram um artigo no “New England Journal of Medicine” em que destrincham a técnica e enumeram seus riscos: acesso desigual para população mais vulnerável e até a real aplicabilidade do teste, que pode apresentar variações muito pequenas quando compara-se um embrião em relação a outro.

Além disso, os pesquisadores alertam para a necessidade de uma robusta regulação sobre o estudo. No Brasil ainda não há determinação especifica sobre o tema. A presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), Hitomi Nakagawa, explica que, no mundo inteiro, os especialistas estão “tateando” a validade dos aspectos técnicos – por serem envolvidos muitos genes na análise – e éticos da prática.

Joris Vermeersch, da Universidade KU Leuven, na Bélgica, pioneiro no diagnóstico pré-implantacional que identifica alterações cromossômicas durante a fertilização, faz coro aos que não indicam a análise; e diz que neste momento não é “multo fã” do rastreio das doenças poligênicas.

“Pensando em doenças psiquiátricas, por exemplo, você pode rastrear o embrião e ainda assim a criança ter a doença. Neste momento, não temos bons exemplos de como essa técnica poderia trazer benefícios”, afirmou Vermeersch.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 12 DE DEZEMBRO

NÃO ESBANJE, E VOCÊ TERÁ FARTURA

Tesouro desejável e azeite há na casa do sábio, mas o homem insensato os desperdiça (Provérbios 21.20).

Aquele que desperdiça tudo o que vem às suas mãos é um tolo. A falta de previdência leva à pobreza. O esbanjador terá falta de pão em sua casa. Viverá na miséria e não conhecerá a fartura. O sábio, porém, não gasta tudo o que ganha. É prevenido. Faz reservas e, por isso, há riqueza em sua casa e comida farta em sua mesa. Assim como os grandes rios são formados pela somatória de muitos afluentes, também a riqueza é a junção dos poucos recursos que chegam dia após dia. Quem gasta perdulariamente tudo o que entra no orçamento e não faz uma poupança para o futuro, esse encontrará nas dobras do mesmo futuro a pobreza e a escassez. Não podemos comer todas as nossas sementes. Precisamos aprender com a formiga, que trabalha infatigavelmente no verão para ter seus celeiros cheios no inverno. Precisamos trabalhar com empenho, economizar com inteligência, aplicar os recursos com sabedoria e contribuir com generosidade. Riqueza e conforto há na casa do sábio, e alimento delicioso há na mesa do prudente, mas o insensato desperdiça tanto os tesouros desejáveis como os alimentos mais deliciosos. O esbanjador terá os bolsos vazios e o estômago roncando de fome, mas o homem sensato tem o suficiente para viver na riqueza e na fartura.

GESTÃO E CARREIRA

REVOLUÇÃO CORPORATIVA

Na volta aos escritórios, empresas adotam regime híbrido e demandam novos serviço

Ir ao escritório quantas vezes por semana? Como se comportar numa reunião? Abraça os que estão presentes e se relaciona como com os que permanecem na tela? A volta aos escritórios com o avanço da vacinação no país é cercada de dúvidas e experimentação nas empresas, que testam o modelo híbrido, com parte das equipes em casa. Diante de uma mudança sem precedentes, pesquisas mostram que a maioria das companhias ainda não sabe qual regime de trabalho vai adotar no pós-pandemia, mas as que já definiram reforçam a tendência de manutenção da flexibilidade.

O quebra-cabeça de uns vira oportunidade de negócios para outros. As adaptações no mundo corporativo abrem mercado para fornecedores de serviços e de tecnologia para reorganizar espaços e benefícios de aplicativos para reservar mesas a crédito para delivery de comida, no lugar do vale-refeição ou plano de estacionamento para quem não tira mais o carro da garagem todos os dias da semana.

ALTA INDEFINIÇÃO

Uma pesquisa do Great Place to Work (GPTW) com 2 mil empresas de diferentes portes e setores no país revela que 40% ainda não definiram como será o novo regime de trabalho nos escritórios. Apenas 30% já estabeleceram uma política pós-pandemia, e, destas, 77,7% adotaram o híbrido. Levantamento da consultoria KPMG evidencia as incertezas: mais da metade das empresas ouvidas volta aos escritórios, que estavam vazios há mais de um ano, neste segundo semestre. Mas 40% deixaram isso para a primeira metade de 2022.

“Essa resolução no mercado de trabalho vinha sendo delineada e se acelerou na pandemia. Estamos vivendo o que aconteceria em 2030”, diz Fernanda Mayo, sócia da consultoria McKinsey no Rio.

Com a sede brasileira em São Paulo, a Microsoft é uma das companhias que ainda não definiu a data de volta ao escritório, que será híbrido, mas atua na outra ponta, suprindo empresas com as novas ferramentas que desenvolveu para ajuda-los no desafio de integrar equipes presenciais e on-line sem perder produtividade. Além do aperfeiçoamento da plataforma de videoconferências Teams, que saltou de 45 milhões para 250 milhões de usuários na pandemia, o diretor de Trabalho Moderno e Segurança da companhia, Ricardo Wagner, destaca o Viva, um sistema integrado com funções como intranet, cursos e insights que mostram, por exemplo, quando a jornada do trabalho remoto está muito alta.

Outra empresa de ramo bem diferente que percebeu as novas demandas foi a rede de estacionamento Estapar, que criou planos flexíveis.

“O cliente estava utilizando o nosso sistema apenas dois ou três dias por semana. Não fazia sentido ter o plano mensal. Criamos planos de 15, 12 e 5 dias (por mês) e a aceitação foi bem interessante”, diz o CEO da Estapar, André lasi, que prevê que 80% dos mais de 600 estacionamentos pelo país passem a contar com a modalidade até o fim do ano.

BENEFÍCIOS SOB MEDIDA

Já a startup Escala criou um aplicativo que permite aos empregados reservar posições de trabalho antes de vir ao escritório e faz o acompanhamento da taxa de ocupação das salas. Isso porque muitas empresas grandes aboliram as mesas fixas e criaram estações rotativas, já que a cada dia um grupo diferente de funcionários está no presencial. A startup já tem cerca de 30 clientes – de grandes empresas do setor de saúde a escritórios de advocacia e financeiras – e espera chegar a 300 no ano que vem, diz o CEO Vinícius Lima.

Além das ferramentas que facilitam a integração entre os profissionais em casa e no escritório, o modelo híbrido tem demandado uma repaginação dos benefícios oferecidos aos funcionários pelas empresas. A pesquisa do GPTW mostra que 26% já alteraram itens como vale-transporte e vale-refeição, e 14% estão revisando.

“Vemos uma tendência da flexibilização de benefícios acompanhar a do trabalho”, diz Daniela Diniz, diretora de Conteúdo e Relações Institucionais do GPTW.

A HRtech (como são chamadas as startups de recursos humanos) Flash viu o reflexo das mudanças em seu caixa no terceiro trimestre deste ano, vendeu mais cartões de benefícios flexíveis do que em todo 2020. O diretor executivo Rafael Maia diz que recentemente foram incluídos pedágio e estacionamento na cesta do cartão, que reúne créditos que o trabalhador pode escolher como gastar.

O uso com aplicativos de entrega de comida e de transporte cresceu, com muitos evitando restaurantes e transporte público no dia de ir ao escritório. Cliente da Flash, o banco digital Neon incluiu essas duas opções para seus funcionários. Em transição, o banco permite ainda, o uso com combustível, estacionamento, patinete, academia e até massagem. Em breve, aluguel de carro.

“Voltando ao escritório foram aparecendo demandas diferentes”, diz Adriana Ueno, à frente do RH do Neon.

GUIA E PULSEIRA

Especialistas em RH frisam que cada empresa tem sua necessidade. Algumas já decidiram pelo modelo híbrido, mas outras fazem testes e abrem as porta neste momento para os voluntários. Na Microsoft, a gerente de produto Nayana Amorim, de 33 anos, foi uma das que decidiram se revezar entre a casa e o escritório. Ela reserva a mesa antes de sair, mostra comprovante de vacina na entrada e preenche um questionário sobre saúde. Apesar de certa estranheza, está gostando da nova rotina:

“Até o trânsito estou curtindo muito tempo sem”.

Nos reencontros surgem dúvidas sobre convivência. Para ajudar os funcionários, a alemã de produtos químicos Basf criou um guia para auxiliar reuniões híbridas. Entre as dicas, não dar as costas para a câmera e evitar escrever na lousa para não impedir que os trabalhadores remotos vejam tudo. Outra mudança foi ajustar benefícios de alimentação e refeição de forma proporcional aos dias em casa e na empresa. Já na farmacêutica MSD Brasil, cuja volta híbrida será definitiva em 2022, uma reforma estabeleceu distanciamento entre as mesas e muita sinalização. Até mesmo nos braços dos empregados. Eles usam pulseiras para facilitar a ressocialização. Quem está com a vermelha não quer nenhum tipo de toque. A amarela indica que a pessoa se sente à vontade com um aperto de mão. Nos três escritórios da multinacional Mondelez, dona de marcas como Lacta e Trident, em São Paulo, Curitiba e Recife, 70% do espaço são áreas de colaboração e 30% de mesões com estação de trabalho, invertendo a lógica anterior.

“Vimos que 80% dos funcionários se veem voltando ao escritório não para responder e-mail, mas para se conectar com os outros e ampliar o networking (relacionamento)”, diz Betina Cobellini, diretora de RH da Mondelez.

EU ACHO …

A SARNA DA DISCÓRDIA

Foi amor à primeira vista. Chegaram à noite e, no meio da escuridão, só se enxergava uma pequenina casa azul do tipo pescador e uma minúscula sala cercada por dois quartos ainda menores. Era perfeita, acolhedora e cheia de personalidade. A casa não poderia ser sua, mas era como se fosse.

O proprietário parecia ter encontrado a parceira ideal para cuidar da diminuta morada azul, já que ele mesmo vivia em outro Estado. Seria ali seu pequeno refúgio, longe da megalópole por alguns dias a cada semana. Das salas com pés-direitos altíssimos à sala do tamanho de um humano, das lareiras enormes que agora tinham acabamento em mármore a pequenina lareira de tijolos ao fundo, das salas de banho com duas ou mais pias e espaços para se esconder do parceiro ao banheiro compartilhado sob medida.

Ela sentia uma sensação de “justa medida”, um equilíbrio entre os extremos que vivia. Parecia incrível alguém ter mantido a essência da palavra casa, revelando a verdade mais íntima sobre o ambiente.

E assim se passaram seis anos, entre viagens pelo mundo cercada de maiores e melhores para o ambiente reduzido que trazia a noção verdadeira do espaço necessário. Mas a vida não são só flores e poesia e de tempos em tempos o equilíbrio entre a inquilina e o proprietário era rompido. A imagem do Cristo de madeira na frente da casa e que a recebeu de braços abertos no primeiro dia tinha sido arrancada durante uma das tempestades de verão. O teto do quarto parecia mais baixo a cada mês e antes de dormir ela olhava para ele pensando se cederia em algum momento.

A grama do jardim precisava de cuidados e suas reclamações aumentavam na mesma medida da reação do proprietário a qualquer ajuste. Até que “ela” apareceu. Durante alguns dias, uma prima próxima se hospedou como convidada. Saiu feliz, mas, ao chegar à cidade grande, foi acometida por uma coceira desesperadora e um terrível diagnóstico: sarna. Ligou para a prima para relatar o ocorrido e essa, mais desesperada ainda, ligou para o proprietário de seu Céu Azul já sem paciência. Pediu para trocar os colchões e ouviu que eles seriam trocados em meses. E foi assim que a pequena casa caiu. A virtude da simplicidade se transformou na sua frente no vício da avareza. O caminho do meio pedindo espaço para o equilíbrio dinâmico entre o mais e o menos foi negado. Talvez seja preciso encontrar outro céu e novas perspectivas, sem a sarna para se coçar.

*** ALICE FERRAZ

ESTAR BEM

INCÔMODA PARA OS JOVENS, ACNE COBRA SEU PREÇO TAMBÉM ENTRE ADULTOS

Pesquisa com 1.013 americanos apontou que 35% das mulheres e 20% dos homens têm problemas com espinhas depois dos 30 – e mesmo depois dos 50 há quem ainda lute contra elas

Não importa o quanto afirmemos valorizar o interior das pessoas em vez de sua aparência externa, o que vemos ao encontrar alguém pela primeira vez pode influenciar nossa avaliação de seu valor. Pelo menos, é isso que temem muitos adultos com espinhas – o que os leva a evitarem centros sociais ou profissionais, para que elas não provoquem má impressão ou mesmo rejeição.

A acne é geralmente considerada um problema de adolescência. No entanto, segundo uma pesquisa feita em 2008 com 1.013 adultos com 20 anos ou mais, 35% das mulheres e 20%   dos homens disseram ter problemas com a acne facial na casa dos 30 anos. Mesmo entre aqueles com 50 anos ou mais, 15% das mulheres e 7% dos homens disseram que ainda lutam contra ela. E especialistas dizem que a acne virou um problema cada vez maior entre mulheres adultas nos últimos anos.

Em alguns casos, os problemas que começaram na adolescência continuaram um bom tempo depois, mas em outros a acne apareceu na idade adulta. ”Como é mais incomum,  a acne adulta isola mais socialmente do que a adolescente e pode ter um grande impacto na vida da pessoa”, disse o dr. John S. Barbieri, especialista em acne do Hospital Brigham and Women’s, em Boston.

Natalie Kretzing, estudante de medicina de 27 anos na Filadélfia, teve acne moderada quando jovem, que se tornou cística severa por volta dos 22. ”Eu queria ser respeitada como profissional, mas minha acne fazia com que não me sentisse uma adulta. Gastava tanto tempo com maquiagem que era exaustivo, e muitas vezes eu acabava cancelando planos.”

DIETAS

Embora possa parecer um problema superficial, a acne é um distúrbio complexo que resulta de uma interação entre vários componentes da pele e os hormônios. As lesões ocorrem quando os folículos capilares da pele ficam obstruídos com óleo e células mortas que, juntos, fornecem forragem para as bactérias. Um desequilíbrio de hormônios e estresse emocional podem piorar o problema.

A alimentação sempre foi culpada, e agora há evidências crescentes de que as dietas modernas podem de fato influenciar a incidência e gravidade da acne, relatou Barbieri. Embora algumas pessoas reajam negativamente a um determinado alimento, geralmente há uma associação com o consumo de leite e alimentos ricos em açúcares e amidos refinados. Esses alimentos aumentam a insulina e o fator de crescimento semelhante à insulina, hormônios que podem estimular o desenvolvimento da acne.

Em um estudo com 50  mulheres adultas com acne de moderada a severa, publicado recentemente no JAMA Dermatology, Barbieri e seus colegas revelaram o preço que ela pode ter sobre o bem-estar mental e emocional. As mulheres relataram depressão, ansiedade e isolamento social. Como  Kretzing, elas se sentiam menos confiantes no trabalho e na vida afetiva.

As lesões não precisam ser extensas ou graves para que a acne seja incômoda. “Alguém com apenas duas ou três espinhas pode ficar muito perturbado”, disse a dra. Emmy Graber, presidente do Instituto de Dermatologia de Boston.

A magnifier on hand magnifying the woman facial to finding acne on her face area. She have feeling stress because acne.

COMO TRATAR

DIETA

Limitar o consumo de doces, amidos refinados e fast­ food, e basear-se principalmente em uma dieta rica em nutrientes, com mitos legumes e frutas. Se você suspeitar que teve um surto de espinhas após comer um determinado alimento, elimine-o por várias semanas para ver se isso ajuda.

MINIMIZAR O ESTRESSE

Ele não causa acne, mas pode piorá-la. Reduzir seu estresse com atividades calmantes como ioga, tai chi chuan, meditação e hobbies relaxantes pode ajudar.

CORRETIVOS

Os surtos geralmente podem se tornar menos aparentes com o uso de maquiagem à base de água, hidratantes e protetores solares com cor. Escolha produtos classificados como não comedogênicos, o que significa que eles não obstruem os poros. Homens com acne geralmente podem esconder manchas sob a barba.

LEVANTAR O ASTRAL

Saiba que você não está sozinho. Muitos adultos têm acne. Seja resiliente e tenha em mente que você é muito mais do que uma casca exterior. Tente apresentar uma visão positiva para o mundo.

OBTER AJUDA PROFISSIONAL

Se após vários meses em tratamento recomendado pelo médico não tiver ajudado significativamente, considere consultar um outro profissional.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OBESIDADE INFANTO JUVENIL CRESCE E PREOCUPA MÉDICOS

Problemas graves podem afetar saúde física e mental de crianças e adolescentes acima do peso

Adultos acima do peso sabem bem os riscos de doenças crônicas e graves, como hipertensão arterial e diabetes, que afetam a qualidade de vida e podem ser um fator de alto risco para o agravamento de outras enfermidades. Pouca gente sabe, porém, que esses mesmos problemas podem afetar crianças e adolescentes em função da obesidade, e estão se tornando cada vez mais frequentes.

Além de diabetes e hipertensão, a obesidade entre crianças e adolescentes pode causar esteatose hepática, a gordura no fígado; gerar problemas ortopédicos em membros inferiores; despertar a puberdade precocemente, com o aparecimento de pelos, crescimento de mama e do órgão genital em meninas menores de oito e meninos abaixo dos nove anos; e elevar o risco de trombose.

“A obesidade vem aumentando, mas, entre cinco e oito anos, a prevalência é ainda maior. São crianças com risco de desenvolver comorbidades que antes só aconteciam em adultos”, afirma a endocrinologista Louise Cominato, coordenadora do Ambulatório de Obesidade Infantil da Criança , do Hospital das Clínicas de São Paulo.

À essa preocupante lista de problemas de saúde , cujas consequências a crianças e ou o adolescente vai carregar para o resto da vida, há ainda os fatores psicológicos.

Muitas vezes, jovens com obesidade são alvo de bullying. “São várias questões associadas , entre os problemas psicológicos estão a ansiedade e a depressão”, destaca. Os transtornos alimentares também fazem parte desse conjunto.

“O transtorno mais comum é a compulsão alimentar periódica (ingestão de quantidades grandes de comida), mas vemos agora também, anorexia e bulimia. O paciente vai de um polo a outro.”

A obesidade pode ter várias causas (veja quadro abaixo) e, quanto mais cedo os pais identificarem o problema, menores serão os impactos na vida adulta. A endocrinologista ressalta a importância de os pais manterem a rotina das consultas médicas. “Entre outras coisas, o pediatra pesa e mede as crianças e pode analisar se há obesidade”, diz Louise.

Em casa, a endocrinologista destaca dois fatores  que podem servir de alerta. “Se a criança perde as roupas muito rápido ou usam um número muito maior do que deveria. Por exemplo, se tem cinco anos e usa o tamanho oito é bom se perguntar: será que ela é só grande?”. Há também a acantose: um escurecimento em parte do corpo em que há dobras, como no pescoço, que pode ser um sinal de resistência insulínica.”

A resistência insulínica é um problema que costuma anteceder o diabetes, quando a quantidade de glicose no corpo está muito alta e o pâncreas fica sobrecarregado.

O tempo gasto diante de telas também merece atenção: não deve ultrapassar duas horas diárias. Adotado durante a pandemia, o ensino à distância fez com que essa permanência subisse consideravelmente. “Já há artigos sobre o aumento da obesidade por conta disso. Um estudo realizado na Filadélfia com crianças e adolescentes comparou dados de junho a dezembro de 2010 e de 2020. A prevalência de obesidade subiu de 13,7% para 15,4% em todas as faixas etárias.”

A médica afirma que existem várias formas de prevenir a obesidade entre crianças e adolescentes. “Nos maiores, evitar o sedentarismo e não oferecer bebidas açucaradas, especialmente as artificiais”, diz. Ela alerta ainda que até os sucos naturais devem ser consumidos com moderação pelos pequenos.

Para  enfrentar a obesidade durante a adolescência, foi aprovado no ano passado tratamento medicamentoso seguro, que deve ser acompanhado por mudança de hábitos, como alimentação e exercícios físicos. De qualquer forma, a conversa com um médico é fundamental, sendo o primeiro passo nessa jornada.

OUTROS OLHARES

TATUAGEM SUBCUTÂNEA QUE APAGA SOZINHA FAZ SUCESSO E GERA POLÊMICA

Empresa dos EUA concebeu tinta especial que desbota em até 15 meses, mas profissionais criticam efemeridade da ‘obra’

Uma empresa americana chamada Ephemeral lançou uma tinta corporal que desaparece naturalmente de nove a 15 meses após ser aplicada, e isso está desencadeando um debate existencial sobre compromisso e efemeridade, do qual algumas pessoas alegam que a nova tecnologia – que usa o mesmo método, de tatuagens tradicionais, aplicadas com agulhas e tinta sob a pele – anula completamente o propósito desse tipo de arte corporal. Afinal, por que as pessoas se tatuam?

Joanna Acevedo, de 24 anos, que trabalha em uma sorveteria no Brooklyn, em Nova York, tem mais de 100 tatuagens por todo o corpo – a única parte não tatuada são os seios, diz ela. Muitas das tatuagens são aleatórias, afirma, listando “um crocodilo, uma caveira de gato, um arame farpado, as palavras steak fry (batata frita), uma águia, um cacto e uma casquinha de sorvete”.

“Gosto do fato de serem permanentes, porque fazem parte de mim. Representam um momento na minha vida, e gosto de viver com toda a minha história”, disse Acevedo, que compara as tatuagens que não gosta a cicatrizes, outro resquício de más escolhas de sua juventude.

Apesar do desafio que é se comprometer com uma tatuagem permanente, os arrependimentos são tão antigos quanto as próprias tatuagens. E às vezes, a correção          envolve muito esforço, como na remoção de tatuagens a laser.

”Uma luz de laser quebra as partículas da tatuagem e as fragmenta, mas pode levar de duas a mais de 10 sessões dependendo do tamanho da tatuagem”, explica Roy Geronemus, diretor do Centro de Cirurgia a Laser e Pele de Nova York. Vejo vários pacientes que tomam decisões precipitadas, sem pensar muito na natureza duradoura do que fizeram.

Tatuagens temporárias já são bastante comuns no mundo cosmético a exemplo da micropigmentação de sobrancelhas.

“A ferramenta utilizada faz arranhões do tamanho de cortes do papel que parecem traços de cabelo”, afirma Piret Aava, dono da Eyebrow Doctor, empresa especializada em micropigmentação de sobrancelhas e tatuagens delineadoras. “Ela insere um pigmento que passa por baixo da pele e tem que ser mantido seco por uma semana até que a pele cresça em cima e prenda o pigmento por baixa.

Dependendo da rapidez com que sua pele metaboliza o pigmento (além do seu estilo de vida e de que tipo de produtos você usa), a micropigmentação da sobrancelha pode durar de um a três anos, enquanto as tatuagens delineadoras tendem a permanecer por três a cinco anos, já que a pele das pálpebras é diferente da pele da testa.

SUCESSO IMEDIATO

A tinta que desbota da Ephemeral foi inventada por dois engenheiros químicos especializados em proteínas, Brennal Pierre, de 41 anos, e Vandan Shab, de 33. Eles se conheceram na Universidade de Nova York, onde Pierre era professor adjunto e Shab era candidato a Ph.D.

O trabalho deles começou em 2014, quando um dos alunos de Pierre, que também era assistente de pesquisa de Shab, estava passando por um processo de remoção de tatuagem a laser muito caro e doloroso, e queria saber se seria possível removê-la com uma enzima. A dúvida captou a atenção de Pierre e Shab imediatamente.

“Foi tão intrigante para nós”, disse Pierre, que passou os próximos sete anos desenvolvendo com Shab uma tinta que seria decomposta pelo mecanismo natural do corpo.

O sucesso foi quase imediato. Desde 2015, a Ephemeral arrecadou mais de USS 26 milhões, afirmam. Seu primeiro estúdio abriu no Brooklyn em março, com uma fila de espera de oito meses, a partir de junho. Uma segunda unidade foi Inaugurada em Los Angeles no final do mês passado.

“Temos gente vindo da Cidade do México”, disse Jeff Liu, de 33 anos, executivo-chefe da empresa, que já trabalhou para Tesla e Casper.

Geronemus explica que tatuagens permanentes são feitas com “uma técnica de agulha que penetra na derme, parte inferior da pele e que “assim que a tinta é depositada, ocorre uma resposta inflamatória que envolve as partículas de tinta e cria uma matriz que permite que a tinta não saia do lugar ou desapareça por conta própria”, ou seja são células inflamatórias que circundam a tinta e permitem que ela permaneça no lugar”. Em contraste, a tinta da Ephemeral é feita de um material que o corpo decompõe naturalmente com o tempo. A tinta funciona de maneira semelhante a dispositivos médicos biodegradáveis, como stents usado em implantes ou sutura utilizada em pontos. Esse produtos, como a tinta, são decompostos naturalmente pelo oxigênio e pela água disponíveis no corpo.

“Era mais do que criar tinta”, disse Shab. “Precisávamos entender como funciona o corpo, camo ele lida com a tinta, o que a tinta faz quando entra no corpo.

Durante anos, eles tentaram usar várias tintas diferentes, tatuando linhas e círculos simples em si mesmos. Quando se aproximaram de um produto que funcionou, convidaram quatro amigos e um tatuador para participarem de um ensaio informal. Em seguida, fizeram um estudo clínico que foi supervisionado e aprovado por um conselho  consultivo formado por engenheiros químicos e dermatologistas.

CONTROVÉRSIAS

Nos EUA, fabricantes de tintas para tatuagem não são obrigados a divulgar seus ingredientes e não precisam de aprovação da Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora de medicamentos americana. Apesar disso, Pierre e Shab, que não divulgam a composição da tinta da Ephemeral, afirmam utilizar apenas componentes autorizados pela FDA para uso em produtos como cosméticos ou dispositivos médicos. Para a dermatologista Marie Lager isto não é suficiente.

“É difícil falar sobre segurança sem saber o que tem na tinta”, disse ela. “Eu também seria cética em relação a tranquilizar meus pacientes sobre sua segurança, porque não tenho dados suficientes. As tatuagens regulares já existem há muito tempo então aprendemos sobre elas. Mas isso é novo.

Pierre e Shab estão constantemente tentando melhorar sua tinta. Atualmente, a empresa não permite que os clientes façam tatuagens nas mãos, pés ou rostos porque esses locais não foram totalmente testados.

A Ephemeral estima que mais da metade de seus clientes são pessoas fazendo sua primeira tatuagem, como Barbara Edmonds, de 27 anos, que trabalha para uma empresa de vendas de mídia e mora em Nova York.

“Tenho fobia a compromissos. Nunca seria capaz de encontrar algo que quisesse manter na minha pele para sempre. Isso me deixa nervosa”, disse ela, antes de explicar porque se interessou pela Ephemeral – “O slogan deles é “Não me arrependo de nada e é  basicamente por isso que decidi tentar.”

Keith McCurdy, tatuador conhecido como Bang Bang, que trabalha em Nova York há mais de 16 anos, discorda da Ephemeral. “Esse produto parece mover a agulha para trás, por falta de um termo melhor”, disse ele por e-mail. “Uma tatuagem projetada para não durar  diminui potencialmente o valor dessa forma de arte, que historicamente lutou para alcançar o valor monetário de outras como pintura ou escultura”.

Pra Sue Jeiven, uma famosa tatuadora do Brooklyn que atende por Sweet Sue, os tatuadores, assim como escultores e pintores, se esforçam para fazer belas artes que durem.

“Passamos nossas carreiras inteiras tentando descobrir o mistério de como obter linhas bonitas, limpas e sólidas para assentar na pele perfeitamente e permanecer para sempre”, disse ela. “Tenho vontade de chorar ao ver todo esse trabalho duro simplesmente desaparecer.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 11 DE DEZEMBRO

É MELHOR VIVER SÓ DO QUE MAL ACOMPANHADO

Melhor é morar numa terra deserta do que com a mulher rixosa e iracunda (Provérbios 21.19).

O casamento foi instituído por Deus para ser uma fonte de felicidade, mas pode converter-se num cenário cinzento de muitas angústias. O casamento pode ser um jardim engrinaldado ou um deserto causticante; um campo de liberdade ou uma masmorra de opressão; uma antessala do céu ou o porão do inferno. Viver sozinho é melhor do que mal acompanhado. Melhor é viver sozinho como um beduíno do deserto do que com uma mulher briguenta e amargurada. A solidão é melhor do que viver na companhia de uma mulher que passa o tempo todo resmungando e se queixando. Uma mulher impaciente e destemperada emocionalmente transtorna a vida do marido. Essa mulher derruba sua casa com as próprias mãos. Faz mal a seu marido todos os dias da sua vida e transforma o casamento num pesadelo. Os jovens precisam estar com os olhos bem abertos antes do casamento, pois casar com uma mulher descontrolada é viver encurralado numa arena de perturbação e estresse. É melhor ficar solteiro do que fazer um casamento errado. A solidão é preferível a um casamento turbulento.

GESTÃO E CARREIRA

TRABALHADORES RECLAMAM DE REGIME HÍBRIDO

Retorno parcial exige o uso de videochamadas em reuniões, que geram diversos empecilhos e falhas na comunicação

Durante meses a pista de minigolfe ficou abandonada. As poltronas  “sacos” estavam vazias. O quadro branco da cozinha, acima de onde costumava ficar o barril, exibia em tinta desbotada “chopes” de uma happy hour feita em março de 2020.

‘Mas num dia de semana recente havia um sinal de vida na área comum: bagels frescos. Conforme os funcionários da startup de tecnologia financeira Common Bond eram vacinados contra Covid e enlouqueciam seus apartamentos, eles começaram a voltar para o escritório. “Chamamos isso de Quarta-feira do Trabalho no Trabalho”, disse Keryn Koch, diretora de recursos humanos da empresa, que tem 1.400 metros quadrados de espaço iluminado pelo sol no bairro do Soho, em Nova York.

A certa altura, o outono foi anunciado em toda a América corporativa como a Grande Reabertura dos Escritórios. Mas surgiu a variante delta e os planos de retorno obrigatório ao escritório tornaram-se opcionais.

Ainda assim, muitas pessoas optaram por se reportar a suas mesas: a porcentagem de pessoas empregadas que trabalharam remotamente em algum momento durante o mês por causa da Covid, que atingiu o pico em maio de 2020, com 35% -, caiu em outubro para 11% – o ponto mais baixo desde o início da pandemia, de acordo com o Departamento de Estatísticas do Trabalho. Um olhar mais atento para a força de trabalho em Nova York, a partir de uma pesquisa de novembro com 188 grandes empregadores, mostrou que 8% dos funcionários de escritórios de Manhattan voltaram aos locais de trabalho em tempo integral, 54% estão totalmente remotos e todos os outros – quase 40% – são híbridos.

Poucos estão achando que é um período de transição suave. Algumas empresas usaram suas datas provisórias de volta ao escritório como uma desculpa involuntária para evitar perguntas sobre como equilibrar as necessidades dos funcionários remotos e presenciais, segundo Edward Sullivan, que é coach de executivos.

Isso resultou em um meio termo piegas: videochamadas em que os trabalhadores remotos têm problemas para escutar, uma sensação de que as pessoas em casa estão perdendo vantagens (colegas de trabalho) e as do escritório também (pijamas).

E o que está em jogo não é apenas quem está sendo falado nas reuniões. É se a flexibilidade é sustentável, mesmo com todos os benefícios que ela oferece. “Muitas empresas vão errar”, disse Chris Herd, empresário e especialista em trabalho híbrido.

Recentemente, Brett Hautop, chefe de local de trabalho do LinkedIn, sentou-se em uma sala de conferências ouvindo um argumento de venda de um fornecedor global. A empresa queria vender seus serviços para o LinkedIn para ajudar a promover o trabalho hibrido eficaz. Mas as pessoas que estavam fazendo a proposta viraram as costas para a câmera de vídeo, de modo que os funcionários do LinkedIn que estavam em videoconferência não podiam vê-los.

“Enquanto eles falam sobre como é difícil para as pessoas a distância acompanharem as conversas, eles cobrem a câmera”, disse Hautop. “As pessoas da minha equipe me diziam ‘Não acredito que eles estão fazendo isso’. E eu me desculpava, dizendo: ‘Pessoal, sinto muito que isso esteja acontecendo; aparentemente, eles não percebem”.

No verão passado, o LinkedIn disse a seus 16 mil funcionários em todo o mundo que seu plano de retorno ao escritório, anunciado em outubro de 2020, havia sido descartado e que cada departamento decidiria onde seu pessoal deveria trabalhar, tornando-se uma das mais de 60 empresas que prometeram alguma forma permanente de flexibilidade.

Hautop e sua equipe avaliaram as dificuldades geradas por essa abordagem. Eles atualizaram o equipamento audiovisual em salas de conferência e consideraram a distribuição de anéis de iluminação para os funcionários em suas mesas, para que seus rostos não ficassem mal iluminados nas ligações. Eles planejaram sessões online para que os funcionários pudessem lembrar do que eles gostavam no escritório.

“Híbrido é, definitivamente mais difícil do que completamente presencial ou completamente remoto”, disse Hautop. “É preciso muito mais planejamento, e nenhum de nós, ou qualquer outra pessoa em qualquer empresa, descobriu exatamente como vai funcionar”.

A Asana, que fabrica software de colaboração recentemente reuniu seus executivos para planejar a reabertura oficial do escritório. Metade dos participantes estava na sede de San Francisco e a outra metade participava por videoconferência.

Os trabalhadores remotos, incluindo o CEO da empresa, começaram a perder a paciência quando as pessoas na sala conversavam entre si e faziam comentários laterais.

“Estávamos brincando que se não gostássemos do que alguém estava dizendo na tela poderíamos simplesmente silenciá-lo”, disse Anna Binder, chefe de pessoal da empresa.

“Passamos por uma experiência tão terrível que decidimos no final daquela reunião que todas as reuniões executivas daqui para frente serão presenciais”, disse ela. “Ou serão totalmente remotas. Não vamos fazer o meio termo”.

Binder se preocupa com quais companheiros de equipe têm maior probabilidade de sofrer as dores de cabeça do sistema híbrido. Muitos executivos disseram que os funcionários com responsabilidades de cuidadores têm maior propensão a trabalhar remotamente quando têm essa opção.

Uma pesquisa da plataforma de empregos FlexJobs descobriu que 68% das mulheres preferem que seus empregos permaneçam remotos por mais tempo, em comparação co57% dos homens.

Outro estudo, da Qualtrics e the BoardList, concluiu que 34% dos homens com filhos tinham recebido promoções enquanto trabalhavam remotamente, em comparação com apenas 9% das mulheres com filhos.

“Se você der às pessoas liberdade para escolher o que fazer e onde trabalhar”, disse Binder, “as mulheres são mais propensas a aproveitar a flexibilidade de trabalhar em casa. O que significa que elas, por sua vez, estarão menos na sala onde isso acontece”.

Não é difícil imaginar todas as maneiras como os trabalhadores remotos podem ser prejudicados: silenciados em uma discussão acalorada, excluídos do convívio social na hora do almoço.

Mas Nicholas Bloom, um professor de Stanford que pesquisou centenas de empresas híbridas disse que em muitos locais de trabalho os funcionários presenciais se sentiam igualmente desprezados. “É a regra do americano na Europa”, disse Bloom. “Quando um americano viaja para o exterior, você olha ao redor da sala e todos estão falando inglês para ajudá-lo. Se houver uma pessoa trabalhando em casa, todos no escritório se conectam à reunião.”

EU ACHO …

PEQUENAS GRANDES ALEGRIAS

Dia ensolarado no Rio de Janeiro, e eu rumo à nublada capital paulista, para ir à São Paulo Fashion Week. Muito bem acompanhada, ouvindo “Mano a Mano”, podcast do rapper Mano Brown – e recomendo fortemente, se você ainda não ouviu. No voo, reproduzi o episódio com a entrevista dos atores Tais Araújo e Lázaro Ramos. Uma questão em especial me tocou. Mano pergunta se é possível que diretores brancos falem e construam, com propriedade e complexidade, personagens negros, para além das narrativas engessadas e limitadas que conhecemos. De um lado, Taís acredita que eles não pesquisam o suficiente por achar que sabem tudo sobre pessoas negras. E, por esta presunção, não conseguem desenvolver a multiplicidade e a densidade das narrativas.

Além disso, ela ressalta a necessidade de ter pessoas negras com poder de decisão, entre diretores e produtores, para contar narrativas a partir de suas próprias visões, com suas estéticas e linguagens. E que estejam em maior número nos sets, não apenas como consultores contratados, isolados ou “tokenizados” nas equipes majoritariamente brancas, com a função apenas corrigir frases racistas.

Logo após esse trecho, pausa no podcast: aterrissamos em São Paulo. Chego ao destino em pleno Dia da Consciência Negra, convidada para ver, ao vivo e a cores, os desfiles potentes de Az Maria, Angela Brito e Apartamento 03, que tocou profundamente a todos com seu conceito de cura. E ainda Isaac Silva falando lindamente da Bahia com um ambiente envolvente, dançante e muitas cores.

No dia seguinte, de volta ao Rio, vi, em Niterói, Lenny nas passarela. Todos estes desfiles representaram, para mim, um momento histórico.

Gente, vivi para ver a SPFW com cotas para, pelo menos, 50% de pessoas negras, indígenas, gordas e com cabelos brancos nas passarelas. Que bom que ações afirmativas estão aí, como direitos conquistados para sustentar as oportunidades para grupos antes desfavorecidos. “Pelas pequenas (ou grandes) alegrias da vida adulta, eu vou”, parafraseando Emicida. Chorei, confesso, por ver um caminho pavimentado por tantas e tantos se tornar, finalmente, parte de uma realidade possível e, tomara, perene. Uma representatividade mais próxima ao que é a população brasileira em suas cores, origens, corpos, idades, e não um copia-cola, tentando imitar a moda europeia e seus padrões. Passou um filme na minha mente, de anos atrás, quando fui modelo de passarela e os agentes não me enviavam aos castings por ser negra. Ou quando só era escolhida para trabalhos com temas “étnicos”, relativos à África, como se pessoas negras não pudessem aparecer em qualquer desfile ou campanha.

Voltando para 2021, sei que avançamos. Notei tanta gente negra que admiro sentada na fileira A, ocupando a maior parte da plateia de alguns dos desfiles. Incrível! Mas muitas daquelas cenas históricas e dignas de registros passaram em branco por muitos fotógrafos, que ainda precisam atualizar seus olhares para referências não brancas. E outros tantos avanços se fazem necessários, especialmente na inclusão de mais pessoas com deficiências nestes espaços, por exemplo.

Concordo com Taís e Lázaro que a inclusão é um processo sedento. Sempre queremos e precisamos de mais. Precisamos dos criadores, das plateias, de mais fotógrafos, mais jornalistas e assessores de imprensa negros e diversos em todos os espaços. Precisamos ampliar o poder e a forma da construção das novas narrativas. E que este amplo conceito de inclusão chegue num ritmo tão rápido quanto o andar nas passarelas.                            

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

ESTAR BEM

GOLPE NA ANSIEDADE

Equilíbrios mental e emocional estão entre os benefícios das artes marciais

Manter o equilíbrio emocional atualmente não é das tarefas mais fáceis, sobretudo no período pelo qual a humanidade passa, com pandemia e todas as consequências trazidas  por ela. Um bom caminho para encontrar a saúde mental – que não está apenas relacionada à ausência de transtornos, mas também envolve o equilíbrio e a forma com que o indivíduo lida com sentimentos – pode ser no tatame, em lutas ou artes marciais.

Bianca Tomie, 32 anos, pratica kung fu há 11. Ela procurou a atividade no período de vestibular. As aulas, à época, a ajudaram a aplacar as crises de ansiedade. “O kung fu trabalha muito com disciplina. É preciso estar presente naquele lugar, fazendo exercício físico. E isso te ajuda a focar no momento, no agora, e a perder a aflição pelo que virá. Na luta não tem como mentir ou disfarçar a pessoa que você é. Isso te faz encarar seus problemas”, diz.

A arte marcial chinesa ajudou Bianca a regular o sono quando o filho nasceu e a ter confiança para dirigir. E mais: a incentivou na transição da carreira. Ela abandonou a engenharia civil e passou a trabalhar com desenvolvimento de software. Há 2 anos, começou a dar aulas de kung fu na academia em que treina. “Eu era muito tímida. Não imaginava que seria capaz de falar na frente de outras pessoas. O kung fu me ajudou a ver uma coisa difícil como um pequeno percurso, etapas simples que precisam ser vencidas.”

O shifu – o mestre ou líder no kung fu – de Bianca é Adriano Ropero, proprietário da academia Shi Zhan, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. Ele, que ensina a luta desde 2001, explica que kung fu, em chinês, significa “pessoa excelente”. O centro é a pessoa, e não a luta em si.  “O aprendizado físico é o mais simples que tem. Agora, o espiritual é se conectar com a humanidade e com sua comunidade. Isso é desenvolvimento pessoal”, diz Ropero, que também é árbitro internacional.

Segundo ele, um dos principais objetivos de qualquer arte marcial é a supressão do ego, ou não dar lugar às emoções, positivas ou negativas, na execução de uma técnica. Quando a emoção toma conta, diz, o resultado é o nocaute, o que pode ser transposto para a vida. Ele explica que a arte marcial é a violência levada ao ápice. Isso não significa que o praticante comum vai lutar como nos combates de MMA ou nos filmes de Jackie Chan. Porém, o combate é essencial para alcançar objetivos.

TRANSTORNOS

O professor de Neurofisiologia da Unifesp, Ricardo Maria Arida diz que na literatura médica e esportiva há estudos que demonstram que a prática de esportes em geral, e também das artes marciais, traz benefícios. Além de contribuir para a melhora da cognição, auxilia na autoestima. Para quem sofre de depressão e ansiedade, por exemplo, a prática regular esportiva é benéfica, pois promove a regularização de neurotransmissores como adrenalina e dopamina.

E:m 2019, Arida publicou na revista científica Brazilian Journal of Medical and Biological Research, ao lado de outros profissionais – entre eles, o ortopedista Breno Schor, médico do Comitê Olímpico Brasileiro -, um estudo que acompanhou por dois anos 56 atletas da seleção brasileira de judô, homens e mulheres, com índices olímpicos ou mundiais. Essa investigação codificou uma proteína no sangue chamada BDNF (um fator neurotrófico),  relacionada à plasticidade cerebral, que são alterações estruturais e funcionais frente a estímulos internos ou externos. Cerca de 70 % dessa proteína presente no sangue advém do sistema nervoso.

No estudo, os judocas foram orientados a correr na esteira, um exercício repetitivo, para que o sangue deles fosse avaliado após a atividade. Em outro dia, os atletas simularam uma luta, um esporte coletivo, e o sangue foi igualmente avaliado. Nas duas situações (e os testes foram feitos na mesma frequência cardíaca), o BDNF aumenta. Porém, esse aumento foi maior após a luta – não houve diferença significativa entre os sexos.

“A sugestão do estudo é que atividades que requerem técnicas, estratégias, atenção e força, como as artes marciais, ativam mais as áreas cerebrais e, por consequência, o aumento desse fator”, explica Arida. Os pesquisadores observaram que, quando um indivíduo pratica uma atividade física, há o aumento da expressão dessa proteína no cérebro – e ela está relacionada com fatores como a sobrevida e a proliferação e manutenção das células do sistema nervoso. Isso traz, segundo ele, um bem-estar para o praticante. “Não só a arte marcial, mas também outros esportes coletivos. Eles desenvolvem esses aspectos de estratégias. Isso é demonstrado em exames de imagem.

Esse estímulo perdura no corpo de 30 a 40 minutos, no mínimo, em função da liberação de endorfina e serotonina (os chamados hormônios do prazer), no caso de atividades que variem de 30 minutos a 2 horas, de acordo com cada indivíduo.

Arida ainda comenta o que, em uma expressão popular, é descrito como uma sensação de ”mente esvaziada” durante uma luta. Segundo ele, isso vem da concentração que a arte marcial exige. Um movimento errado pode fazer com que você leve um golpe do adversário ou perca a disputa. “Você pode correr e pensar na vida? Pode. Você pode lutar e ficar pensando na vida? Talvez não”, diz.

NA BASE

O professor de jiu-jítsu Luciano Nucci, o mestre Casquinha, dá aulas da modalidade desde 1996. Responsável pela unidade Mooca da Alliance, equipe 12 vezes campeã mundial, com filiais em diferentes países, ele conhece a importância que a arte marcial nascida no Japão há mais de 3.600 anos – no Brasil, a família Gracie criou um método que ficou conhecido como jiu-jítsu brasileiro – tem não só para a saúde física, mas também para a mente.

De acordo com Casquinha, o tatame ajuda no autoconhecimento. “Você aprende a conhecer seus monstros e suas limitações e a buscar ferramentas para solucioná-los.  luta traz a evolução do seu eu.”

Na metodologia que ele aplica, os iniciantes fazem 60 aulas apenas para aprender os movimentos. Só então são expostos a confrontos com outros alunos – uma forma de exercitar a paciência e domar a ansiedade.

Ele explica que o aluno repete os movimentos até que ganhe consciência e excelência. Porém, no instante da luta, quando há movimentos casados, ele terá de agir como um jogador de xadrez. E, por isso, a concentração passa a ser uma aliada fundamental para responder ao oponente de forma satisfatória.

”O que você vive no tatame vive fora também. Se o cara chega todo desanimado para o treino, faixa mal arrumada, é porque ele é desorganizado. Se chega arrasado, certamente faz o mesmo no trabalho.”

Durante a pandemia, Casquinha decidiu investir na base e aperfeiçoar o método de ensino do jiu-jítsu para as crianças. O instrutor diz ter notado que elas estavam ficando cada vez mais inseguras, não só com as exigências e o excesso de informações do mundo moderno, mas também com as incertezas e perdas trazidas pela pandemia. Pequenas crises de pânico e ansiedade são queixas frequentemente relatadas pelos pais, segundo o instrutor.

Para montar a metodologia, Casquinha e a educadora física Cláudia Mendonça de Barros utilizaram os princípios da psicomotricidade – ciência que busca conectar aspectos emocionais, cognitivos e motores em diferentes faixas etárias.

“Há os jogos de luta, que ensinam a modalidade, e as brincadeiras. A linguagem das crianças menores é o brincar. Na parte motora, implantamos habilidade do equilíbrio, importante no jiu-jítsu. Elas vivenciam com o corpo uma situação na qual vão antecipar a ação do oponente por meio de um jogo de queimada, por exemplo”, explica Cláudia, proprietária da Movimento Mirim, empresa dedicada a cursos de atualização para professores de educação física e empresas.

Segundo ela, assim como os adultos, as crianças que se movimentam pelo menos três vezes por semana, em uma atividade física estruturada, têm ganho de habilidades como a memória. “Quando você oferece uma atividade física, você favorece a espontaneidade dela. Isso forma crianças mais centradas”, diz. ”A criança que tem um bom equilíbrio motor tem também um bom equilíbrio emocional.”

COMO O ESPORTE PODE AJUDAR NA SAÚDE MENTAL

***** O sedentarismo favorece o aparecimento de transtornos mentais. É importante se mexer.

***** Escolha um esporte que lhe dê prazer. Dessa forma, é mais fácil ele se tornar um hábito de vida.

***** Atletas quando se machucam e precisam ficar parados por longos períodos podem entrar em uma fase depressiva pela falta da atividade física. Isso mostra o quanto ela é importante quando vira rotina.

***** Uma atividade em grupo, como a arte marcial, promove a interação social. Para quem passa por um momento difícil, é uma boa opção ao esporte solitário.

***** Quem sofre de ansiedade e depressão pode ter dificuldade em começar a praticar uma arte marcial pela falta de motivação – e também por dificuldades cognitivas. Porém, ao iniciar a prática esportiva, logo os benefícios são sentidos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

BRASILEIROS SÃO A POPULAÇÃO QUE MAIS SE PREOCUPA COM SUA SAÚDE MENTAL

Três a cada quatro dizem pensar sobre o tema com frequência, aponta pesquisa feita em 30 países

O despertador de Helloá Castro tocou, mas daquela vez ela não conseguiu desligá-lo. Seus músculos não respondiam. “Pensei ‘estou morrendo’, mas eu estava tão mal, minha rotina era tão triste, que achei que se acabasse ali não seria tão ruim”, lembra a administradora.

Era uma crise de “burnout”, resultado de cinco meses de prazos impossíveis no novo emprego, somados a várias horas de estudo na faculdade e nenhuma de descanso. “Eu pensava que o sofrimento fazia parte do sucesso. Trabalhe enquanto os outros dormem, estude enquanto os outros se divertem”.

O colapso também veio depois de diversos avisos ignorados: dores de cabeça insistentes, azia constante, dificuldade para dormir e até uma dor aguda no peito que ela, na época com 21 anos, imaginou ser um infarto. Chegou a avisar os chefes, mas ouviu que estava sendo fraca.

Sete anos e muitos tratamentos depois, Helloá Castro, hoje aos 28, criou o perfil “Vencendo a Síndrome de Burnout” nas redes sociais e dedica seu tempo a informar e palestrar sobre o distúrbio emocional. E não são poucos os brasileiros que se preocupam com o assunto.

Uma pesquisa lançada pela empresa lpsos para o Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro, mostra que 75% dos entrevistados no Brasil pensam sobre sua própria saúde mental com muita ou considerável frequência. É a maior marca entre os 30 países que participaram do questionário ­ a média mundial é de 53%.

Logo depois no ranking aparecem a África do Sul (73%) e a Colômbia (71%). No outro extremo estão os chineses (26%), os sul-coreanos (31%) e os russos (33%), onde a maioria diz não refletir nunca ou quase nunca sobre a questão.

A pesquisa ouviu 21.513 pessoas de 16 a74 anos, entre 20 de agosto e 3 de setembro, sendo cerca de 1.000 no Brasil. O questionário foi aplicado de maneira online, portanto abrange a parcela da população com acesso à internet, considerando o perfil demográfico de cada lugar.

Para 40% dos entrevistados por aqui, distúrbios mentais são um dos principais problemas sanitários enfrentados atualmente pelo país. Esse número cresceu 13 pontos percentuais em relação ao ano passado, influenciado pelo luto e pelo isolamento da pandemia de Covid-19.

“Temos visto o Brasil sempre no topo do ranking em pesquisas que fazemos sobre saúde mental, e isso vem aumentando ano após ano. Por um lado, a pandemia agravou o problema, mas por outro deu mais espaço para falar sobre isso”, diz Helena Junqueira, coordenadora da pesquisa.

Em maio de 2020, por exemplo, o país apareceu em primeiro lugar entre os que sofriam de ansiedade (41% diziam se sentir assim) ou de enxaqueca (14%) e entre os que afirmavam estar comendo excessivamente (39%). Era também o mais solitário (53%) em questionário de janeiro.

“Transtornos mentais são muito mais comuns do que as pessoas imaginam. Durante um ano, um quarto da população vai desenvolver algum problema. Na vida, será cerca de metade. Não é muito diferente de usar óculos”, ilustra Jair Mari, chefe da psiquiatria da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Segundo o médico, o aprofundamento da desigualdade e da insegurança econômica ajudam a explicar por que o Brasil sustenta altos índices de ansiedade e depressão. Tem muito impacto ainda o que ele chama de violência epidêmica no país.

“A saúde mental tem um fator social determinante. Os Estados Unidos, por exemplo, têm níveis muito parecidos com os nossos. Tudo indica que isso pode estar relacionado à desigualdade: a pessoa que não tem nada olha para quem tem tudo”, afirma.

Outra hipótese para a preocupação com o tema no país é cultural – segundo essa visão, os brasileiros estariam mais dispostos a demonstrar suas emoções do que moradores de outros lugares. Isso também ajudaria a entender, de acordo com o psiquiatra, porque na China os transtornos mentais são externalizados com menos frequência.

Globalmente, quem tende a se importar mais com sua própria saúde mental são mulheres e jovens, mostra a pesquisa da lpsos. A parcela dos que pensam nisso com frequência é de 58% entre elas e 48% entre eles. Entre pessoas de até 35 anos é de 61%, contra 42% para pessoas acima dos 50 anos.

“A grande maioria dos meus seguidores na internet são mulheres, que se sentem sobrecarregadas e procuram ajuda mais cedo”, diz Helloá Castro. “Os homens não falam, muitas vezes canalizam o tratamento do ‘burnout’ para o álcool ou drogas. Quando chegam em mim é porque já esgotaram as possibilidades”. Apesar de 78% dos entrevistados brasileiros acharem que seu bem-estar mental e físico têm a mesma importância, 55% acreditam que o sistema de saúde do país prioriza o cuidado apenas com o corpo – número superior à média dos outros países.

“Há um vácuo de atendimento enorme”, concorda o psiquiatra Jair Mari. “Transtornos mentais são responsáveis por um quinto das incapacitações, mas só cerca de 2% do orçamento da saúde é aplicado no tema. Na nossa realidade achamos que precisaria ser pelo menos 6%,”afirma.

Para o médico, existe uma ideia de que a população brasileira toma muito remédio, mas isso só é válido para a classe média alta. Aqui, afirma, impera a “lei dos cuidados invertidos”: quem precisa menos tem mais, e quem precisa mais tem menos.

Um paper publicado por ele e outros pesquisadores em 2014 mostrou que só 20% das crianças e adolescentes com distúrbios psiquiátricos – que deveriam ser priorizados pelo alto risco de suicídio – tiveram acesso a profissionais da área nos 12 meses anteriores.

Mari critica um desmantelamento da assistência à saúde mental em todos os níveis do sistema de saúde nos últimos anos, que conta apenas com algumas ilhas de atendimento e não tem leitos suficientes para internação de casos agudos. Ele cobra melhor gestão, prontuários únicos, continuidade nos atendimentos e inovação tecnológica.

Quem trabalha na área vê ao menos um legado positivo da pandemia. A constante exposição do tema pela mídia e por marcas resultou em uma redução do preconceito sobre os transtornos emocionais.

A consultoria de saúde Mercer Marsh apontou um crescimento de 62% no número de empresas que implantaram serviços nesse sentido aos funcionários. Nessa esteira surgiu também o movimento #MenteEmFoco, da Rede Brasil do Pacto Global da ONU, que incentiva o setor privado a adotar uma série de medidas, como um profissional fixo nas companhias. “Quando comecei a estudar sobre saúde mental, há sete anos, não havia quase nenhuma informação na internet. Agora teve um boom de procura, hashtags, páginas novas, universidades falando sobre o assunto”, comemora Helloá.

OUTROS OLHARES

COMPARTILHAMENTO DE FOTOS DE CRIANÇAS PELOS PAIS GERA DEBATE SOBRE SEGURANÇA

Prática chamada de ‘sharenting’ ajuda a manter laços, mas gera riscos como roubo de identidade

Coxas com dobrinhas, pés fofinhos, olhos concentrados. Primeiras comidas, primeiros passos, primeiras (segundas, terceiras, milésimas…) palavras. Alguns minutos nas redes sociais bastam para qualquer um perceber quão disseminado virou o hábito de pais postarem o dia a dia de seus filhos em detalhes. O fenômeno ganhou nome, “sharenting”, junção das palavras em inglês “share” (compartilhar) e “parenting” (Parentalidade). O tema é alvo de debates sobre segurança e privacidade na internet e já chegou ao Judiciário, mas ainda de forma tímida.

De um lado, a conduta virou uma forma dos pais de dividir conquistas e desafios de uma fase tão intensa da vida como a de criar uma criança.

De outro, especialistas alertam que muitos familiares não estão a par dos perigos que uma publicação aparentemente inocente pode trazer – uma mera foto de mesversário, por exemplo, pode fornecer dados suficientes para um roubo de identidade.

Daniela Pramio, que trabalha com revisão e marketing digital, toma alguns cuidados, mas é da turma que em geral não vê problemas.

Em seu perfil aberto no Instagram, com 3.400 seguidores, ela posta fotos da filha de seis anos na praia, com pais e amigos, em qualquer momento que ela gostaria que ficasse para posteridade. “E em que ela esteja bonita, claro”, brinca.

Daniela conta que nunca pensou em trancar a conta só para amigos porque gosta de compartilhar as coisas boas da vida e porque, dessa forma, está aberta a ter trocas e conhecer gente legal, algo que já ocorreu quando ela teve um blog sobre casamento.

“Sou católica, não acredito em olho gordo”, diz. “E qualquer um que veja minha conta vai perceber que eu não sou uma milionária”, acrescenta.

Daniela conta que não esperou a garota ter idade para decidir aparecer ou não nas redes, mas diz que hoje a menina adora e sempre pede para a mãe postar as fotos dela.

Fundadora da plataforma Contente, que propõe relação mais saudável com a internet, a jornalista Daniela Arrais avalia que consentimento é uma palavra chave ao se pensar no compartilhamento.

Mãe de um bebé, ela não divulga o rosto dele em seus perfis abertos nas redes sociais. A decisão vem de uma reflexão que ela fez há muitos anos: que o filho é um indivíduo que deve ter o direito de optar por ter sua imagem exposta publicamente ou não.

“Essa é a geração mais observada desde sempre, e não temos tempo de uso suficiente das redes para saber o que isso implica no futuro”, diz.

Por outro lado, Daniela aponta o que diz ser uma aparente contradição: adora ver fotos dos filhos de amigos. Ela também criou um perfil fechado para que os mais próximos pudessem conhecer seu bebê, nascido na pandemia.

Também por isso ela avalia que, mais importante do que julgar quem faz “sharenting”; é a pessoa pensar por que o faz, em que condições e, eventualmente, que cuidados pode tomar.

“Fui criada sendo ensinada a não falar com estranhos e não dizer onde eu morava. De repente a gente abre um perfil e a pessoa, sem pensar, colocou ali a localização da escola da criança”, comenta.

Ela pondera ainda que, a partir de uma certa idade, o ato de fotografar e postar pode abrir margem para uma conversa rica com a criança, que envolve a própria educação para a internet.

Foi o que ocorreu com a psicóloga Ticiana Carnaúba. Ao virar mãe, ela decidiu que não iria expor fotos da filha, por também entender sua bebê como um ser autônomo com direito de escolha sobre sua presença nas redes. Quando a garota fez sete anos, Ticiana ouviu um questionamento. “Ela perguntou ‘mãe, porque você não posta foto minha?’ Perguntei se ela gostaria e ela decidiu que sim.”

Desde então, a menina faz aparições no perfil da mãe, mas é sempre consultada antes de qualquer publicação.

Para Ticiana, postar atende seu desejo de mostrar um lado importante da sua vida, o de mãe, e é também uma forma de compilar imagens para depois poder revisitá-las – como se fazia com álbuns físicos.

Em texto sobre o tema, a psicanalista Isabel Tatit pontua como o fenômeno relaciona-se com a solidão especialmente da mãe nos primeiros meses de vida do bebê. Nesse sentido, postar vira uma espécie de laço social.

Não é à toa que a profusão de fotos muitas vezes diminui à medida que a criança cresce, porque a mãe que estava o dia todo com o bebê em casa passa a ocupar outros espaços, e a rede social deixa de ser espaço privilegiado de socialização.

Com ponderações como essas, passou-se a ver a conduta dos pais de outra forma, e outro termo surgiu mais recentemente, o “oversharing”, que se refere a um exagero na prática, uma superexposição que resulta em riscos e constrangimento à criança.

As fronteiras entre uma coisa e outra ainda não estão claras. Artigo do advogado Filipe Medon em publicação recente do ITS (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro) divulgou uma história que chegou ao Tribunal de Justiça de São Paulo em 2020.

Trata-se do caso deum pai que entrou com uma ação para retirada da postagem da mãe de seu filho, na qual ela falava da condição de transtorno do espectro autista da criança.

Entendeu-se que a conduta da mãe não prejudicava a imagem do filho e se enquadrava na liberdade de expressão.

Pesquisadora do ITS, Priscila Silva aponta que nem sempre está claro qual é o melhor interesse da criança quando são os pais que a expõem, mas alerta que muitas vezes eles não estão cientes da quantidade de dados que divulgam quando postam alguma coisa em um perfil aberto.

Uma simples foto de aniversário com os genitores marcados, por exemplo, já oferece dados como a data de nascimento e filiação, que podem facilitar o roubo de identidade. Menores de idade estão mais vulneráveis a esse delito porque seus documentos não são usados com tanta frequência como os dos adultos. Assim, demora-se mais para perceber a fraude.

Outros riscos são fotos com o uniforme escolar, que aumentam o risco de sequestro, e cenas aparentemente inocentes, como de crianças no banho, que podem ser usadas para pedofilia.

Ela lembra ainda outras possibilidades de constrangimento, como o caso do garoto que teve um vídeo feito para seu Bar Mitzvá viralizado na internet e chegou a andar com seguranças por causa disso.

Conscientizar os pais é fundamental, mas é preciso lembrar que a questão não envolve somente eles, ressalta Maria Mello, coordenadora do programa Criança e Consumo do Instituto Alana.

Ela ressalta que cabe ao Estado regulamentar, especialmente quando a aparição da criança está vinculada a interesses comerciais dos pais, e às redes se comprometer com políticas que evitem os dados da superexposição.

“A partir do momento em que o ‘sharenting’ gera um engajamento grande, ele atrai empresas e beneficia as plataformas. Isso traz a elas uma grande responsabilidade”, diz.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 10 DE DEZEMBRO

O PERVERSO SOFRE NO LUGAR DO JUSTO

O perverso serve de resgate para o justo; e, para os retos, o pérfido (Provérbios 21.18).

Há sofrimentos que o justo enfrenta como fruto do seu compromisso com Deus. Esses sofrimentos não devem ser vistos como castigo, mas como privilégio. Jesus diz que os perseguidos por causa da justiça são muito felizes, pois também os profetas foram perseguidos. O apóstolo Pedro declara que, se a causa do nosso sofrimento é a prática do bem, então somos bem-aventurados. Esse tipo de sofrimento o perverso não tem. Há, porém, um sofrimento que Deus desvia da cabeça dos retos e despeja sobre a cabeça dos perversos. O perverso aflige o justo, mas esse sofrimento é desviado do justo para cair sobre a cabeça do próprio perverso. O ímpio maquina o mal contra os retos no seu leito e, logo pela manhã, apressa seus pés para consumar esse intento; Deus, porém, protege os retos e os cobre com seu escudo, mas desampara os ímpios, deixando que colham os frutos de sua insensata semeadura. O açoite que deveria vir sobre as costas do justo é desviado para o perverso. A dor que o justo estava destinado a sofrer cai sobre a vida do perverso. Este serve de resgate para o justo. Não precisamos retribuir o mal com o mal nem procurar a vingança. O que precisamos fazer é confiar nossas causas a Deus, pois ele retribuirá a cada um segundo as suas obras.

GESTÃO E CARREIRA

PAUTA RACIAL CONSEGUE ESPAÇO NAS EMPRESAS, MAS DADOS AINDA SÃO RUINS

Embora a agenda ESG impulsione compromissos de inclusão, sair do discurso é o maior desafio

Na Pepsi Co, membros do comitê executivo recebem mentoria de funcionários negros sobre questões raciais. Iniciativa semelhante é adotada pelo L’Oreal, que possui um programa para acelerar a carreira de profissionais negros.

Já a Mondelez, dona de marcas como Lacta, Trident e Oreo, promete atingir 37% de pretos e pardos nos cargos de liderança até 2024.

Esses são apenas alguns exemplos de compromissos assumidos por empresas no Brasil nos últimos meses.

Em meio à onda ESG (sigla em inglês para boas práticas ambientais, sociais e de governança), a agenda de diversidade e inclusão ganhou força. Mas, apesar do alinhamento no discurso, o caminho até a equidade racial é longo.

Pretos e pardos, que são a maioria da população brasileira (56%,) ocupam menos cargos na alta liderança, são desfavorecidos nas oportunidades e recebem salários piores que os profissionais brancos.

Segundo um estudo de 2019 do LBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a renda média mensal do brasileiro branco, seja ele trabalhador formal ou informal, é de R$2.796. Entre os negros, o valor cai para R$1.608.

As desvantagens da população negra só tendem a aumentar à medida que o nível hierárquico nas empresas também cresce. Uma pesquisa do Instituto Ethos com as 500 empresas de maior faturamento do Brasil mostra que negros ocupam apenas 6,3% dos cargos de gerência. No quadro executivo, a proporção é ainda menor: -4,7%.

Para  Raphael Vicente, coordenador da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, o mundo corporativo começou a dar mais importância ao tema recentemente. Contudo, uma boa parte das companhias ainda está só no discurso.

“Felizmente o tema veio à pauta, mas junto com ele veio a superficialidade. A gente se apropriou de alguns temas importantes, como racismo estrutural, lugar de fala, mas quando você pergunta “cadê o projeto?”, aí complica”, diz. Na visão dele, houve grandes avanços no discurso e na compreensão das empresas, mas, em termos numéricos, o Brasil segue praticamente como era 30 anos atrás.

A Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial surgiu em 2015, com o objetivo de promover a equidade no mercado de trabalho, especialmente nas grandes empresas. Cerca de 160 instituições integram o movimento,  e junta, elas representam mais de RS 1,3 trilhão em  faturamento.

Vicente cita os processos seletivos inclusivos como um dos avanços que a pauta teve de 2015 para cá. Segundo ele, há seis anos, as companhias nem sequer cogitavam a ideia de fazer um programa exclusivo para candidatos negros, algo que hoje já está sendo normalizado.

No entanto, o coordenador diz que um dos principais desafios é garantir a ascensão dos  profissionais negros que entram na empresa.

“Nós fomentamos que sejam feitos programas de recrutamento e seleção, mas queremos ver onde que está a política de inclusão, quais as ferramentas de promoção e ascensão desse profissional, o que a empresa entende por diversidade, onde está o recurso alocado, o planejamento”, diz.

Se fosse para apontar onde o mundo corporativo está na pauta racial, ele diria que estamos na fase da compreensão, com algumas companhias avançadas e outras não.

“O mercado começou a se dar conta disso com mais propriedade a partir de 2015, 2016, com um “up” agora na pandemia – com os casos de George Floyd e do Carrefour. Mas a gente ainda está muito distante de onde poderíamos estar”.

Episódios como o do Carrefour, onde João Alberto Silveira Freitas morreu após ser espancado por seguranças em novembro de 2020, costumam colorar em xeque o compromisso das grandes companhias com a pauta racial.

Em 2021, empresas com discursos sustentáveis também foram palco de casos considerados racistas. Um deles ocorreu no Assai Atacadista, onde um homem negro foi obrigado a se despir para provar que não estava furtando.

Outro, mais recente, aconteceu numa unidade da Zara em Fortaleza, que criou um código interno para “alertar” sobre a entrada de negros na loja, segundo a polícia. A loja nega.

No entanto, o assassinato no Carrefour também deu origem a um movimento pela equidade racial, o Mover. Fundada em novembro de 2020, a iniciativa reúne 47 grandes empresas, como Ambev, Coca-Cola, Magalu, Nestlé e  Vale, e tem a meta de gerar 10 mil novas posições par pessoas negras em cargos de liderança até 2030.

Outro compromisso envolve dar oportunidade para 3 milhões de pessoas negras, com iniciativas de emprego e empreendedorismo.

Liel Miranda, diretor-executivo da Mondelez no Brasil e presidente do conselho deliberativo do Mover, vê hoje no mundo corporativo uma consciência e uma vontade de contribuir com a agenda. “Eu diria que a maioria das empresas tem esse entendimento de que precisam endereças a equidade racial, mas, entre o conhecimento e o fazer existe uma grande diferença”, afirma.

Segundo ele, o papel do Mover é criar condições para que as pessoas negras assumam posições de liderança, mas também disseminar a importância do tema e dar capacitação para que mais pretos e pardos entrem no mercado de trabalho.

“Estamos fazendo um censo em todas as empresas [participantes] para saber exatamente quantos líderes negros há em cada uma. Depois desse censo, vamos definir a alocação do target [alvo] para cada uma delas”, afirma.

Na Mondelez, Miranda diz que foram criados programas de estágio focados em diversidade e recrutamentos mais inclusivos, sem a exigência de inglês ou experiência em multinacional, por exemplo.

A companhia tem 37% de colaboradores pretos e pardos, com 14% alocados em cargos administrativos. A meta é chegar a 37% também nos quadros de lideranças até 2024.

“Estamos fazendo tudo que sabemos que funciona, mas o nosso objetivo é de fato ver que a liderança é mais representativa. Para isso, a gente está muito distante”, diz.

A jornada também tem ganhado corpo em outra companhia parceira do Mover, a PepsiCo. Em agosto de 2021, a companhia lançou um programa de mentoria reversa para os executivos. Os mentores são funcionários negros e negras que ajudam no letramento racial da alta gestão.

“Nós já vemos um impacto no dia a dia, com a conscientização dos nossos vieses. É um processo muito importante de conhecimento para a equipe de liderança”, afirma Fábio Barbagli, vice-presidente de recursos humanos da PepsiCo Brasil.

Segundo ele, 48% dos 121 mil funcionários que a empresa tem no Brasil são negros. Um dos principais desafios, contudo, é garantir a ascensão profissional. Atualmente a Pepsi Co tem 19% de líderes negros.

“Nosso objetivo é chegar a 30% de negros e negras até 2025 no quadro de liderança. Entendemos que os 48% do quadro geral estão ok, mas queremos aumentar o número de líderes.”

Se as desvantagens que pretos e pardos enfrentam no mercado de trabalho já não são poucas, para mulheres elas são ainda maiores.

Uma pesquisa feita pela consultoria Indique Uma Preta e pela empresa Box 1824 apontou que a maioria das mulheres negras brasileiras (54%) não exerce trabalho remunerado e apenas 8% das que trabalham no mercado formal ocupam cargos de gerente, diretora ou sócia proprietária de empresa.

Uma dessas exceções é Márcia Silveira, gerente de comunicação e relações públicas da divisão de luxo da L’Oreal.

Segundo ela, o compromisso do mundo corporativo com a pauta racial ainda está longe do ponto ideal.

“Falta muito ainda. Temos muitas oportunidade, uma gama de mulheres que já estão preparadas, mas não estão sendo mapeadas”, afirma.

Hoje a L’Oreal também tem um programa de mentoria onde os funcionários negros treinam as lideranças nas questões raciais. Os líderes também precisam passar por um treinamento obrigatório sobre diversidade e inclusão.

Além disso, a companhia desenvolveu um programa de aceleração para capacitar os profissionais negros em diversas competências. Segundo Silveira, esse é um dos pontos-chave para a inclusão.

“A consistência de um trabalho de diversidade não está só na atração, está também na retenção e na preparação desses profissionais, senão vira um balde furado. Você coloca as pessoas para dentro, mas, e aí?”·

EU ACHO …

O DIABO DAS PEQUENAS COISAS

A palavra é estranha. Misocinesia. A primeira parte indica raiva, ódio, inimizade. As sílabas finais envolvem a ideia de momento, como temos na palavra cinemática. Em resumo: os pequenos gestos irritantes dos outros que disparam nossos gatilhos de ódio.

Santa Teresinha do Menino Jesus, a popular doutora da Igreja, afirmava que sofria de misocinesia. Tinha antipatia por uma religiosa no claustro e o simples fato de a confreira agitar seu rosário a irritava. A pessoa da qual você não gosta fica balançando a perna ou tamborilando os dedos no tampo da mesa? Se você explodir com a repetição de um movimento, está diagnosticado: seu mal é a misocinesia.

Sabemos que o mal atinge matrimônios. O que antes era indiferente ou até charmoso, no declínio do afeto ganha dimensões enormes. Nos relatos de divórcios aparece, com maior frequência do que grandes e terríveis violências, a irritação dos gestose dos movimentos.

Voltemos à cidade de Santa Teresinha, Lisieux. No mesmo texto que ela identifica o horror do simples manejo das contas do rosário, a mística católica indica a solução. Passou a combater a antipatia. Criou reação oposta: todas as vezes que cruzava com a freira que a irritava, Teresinha sorria e manifestava alguma fala simpática e de acolhimento. A religiosa chegou a perguntar a ela sobre o sorriso, desconfiada. Nossa ex- irritada combateu sua disposição de antipatia e a transformou em empatia treinada e eficaz. Uma autossugestão funcional. Experimente. Eu já fiz. Funciona!

Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica (UBC) identifica que uma em cada três pessoas pode sair do sério com gestos repetitivos alheios. Um terço em um grupo grande de 4,1 mil seres humanos. Existe, claro, a variante cultural para a tolerância ou não. Mas reconheçamos: muita gente pode estar com impulso homicida por você tremer a perna com insistência. Existe uma segunda palavra exótica na tônica de hoje: misofonia. Sons como o estalar de dedos e outros podem despertar em algumas pessoas um ataque de fúria. Como você vê, toda mania, neurose ou psicose acaba tendo um estudo e você deixa de ser apenas chato, passa a ser um chato com laudo. Claro, não é culpa das pessoas com misocinesia/misofonia reagirem desta forma. Usei a palavra chato para descrever a opinião do mundo. Para quem sofre de algum mal, os chatos são os que fazem movimentos ou sons repetitivos.

Como surge? Segundo o estudo da UBC, é que nossos neurônios-espelhos seriam ativados com a repetição. São os que impulsionam a seguir o que estamos  presenciando. Sumeet M. Jasval e Todd Handy, pesquisadores do tema, reconhecem que não sabemos exatamente porque a irritação cresce tanto em algumas pessoas. Consolo final para os pesquisadores citados: ao menos, você deve saber que não está sozinho. É uma esperança.

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

SAIBA RECUPERAR O SONO PERDIDO DURANTE A PANDEMIA

Acordar no mesmo horário todos os dias, não enrolar na cama e cortar o álcool três horas antes de se deitar são algumas das ações listadas por especialistas. Dormir mal enfraquece o sistema imunológico e aumenta o risco para doenças crônicas, alertam

Seu sono não é o que costumava ser? Sua mente dispara quando sua cabeça encosta no  travesseiro? Você acorda às 4h e tem dificuldade de voltar a dormir? Você está se sentindo sonolento e privado de sono, não importa quantas horas passe na cama?

Para muitas pessoas, dormir mal já era a norma antes da pandemia da Covid-19. Mas o estresse e as preocupações pioraram ainda mais as nossas noites, dando origem a termos como “coronassônia” para descrever o aumento dos distúrbios do sono no ano passado. Porém, especialistas notaram algo que os surpreendeu: após mais de um ano de pandemia, a qualidade do sono continuou a piorar.

Em uma pesquisa com milhares de adultos em maio do ano passado, a Academia Americana de Medicina do Sono descobriu que 20% dos americanos disseram ter problemas para dormir devido à pandemia. Mas quando repetiram a pesquisa 10 meses depois, esses números aumentaram dramaticamente. Quase 60% das pessoas disseram que lutavam contra uma insônia relacionada à pandemia, e quase metade relatou que a qualidade do sono havia diminuído, embora a pandemia esteja mais controlada.

“Muitas pessoas pensaram que nosso sono deveria estar melhorando porque podemos ver a luz no fim do túnel, mas está pior agora do que no ano passado”, disse Fariha Abbasi- Feinberg, especialista da Academia Americana de  Medicina do Sono. “As pessoas ainda estão realmente tendo problemas (para dormir).”

O sono ruim é mais do que apenas um incômodo. Ele enfraquece o sistema imunológico, reduz a capacidade de memória e atenção e aumenta a probabilidade de doenças crônicas como depressão, diabetes tipo 2 e doenças cardíacas.

E para pescas com mais de 50 anos, dormir menos de seis horas por noite pode até aumentar o risco de demência.

“No ano passado, tivemos a tempestade perfeita de todas as coisas ruins que podem afetar o sono”, disse Sabra Abbot, professora de neurologia em medicina do sono na Escola de Medicina, do Sono da Universidade Northwestern Feinberg, em Chicago, EUA

Estudos mostram que, na pandemia, as pessoas tendem a manter horários de sono irregulares, indo para a cama muito mais tarde e dormindo mais do que o normal, o que pode perturbar os ritmos circadiano. Além disso, reduzimos a atividade física e passamos mais tempo dentro de casa; engordamos e bebemos mais álcool; e apagamos as linhas que separam o trabalho e a escola de nossas casas e quartos – tudo de prejudicial ao sono.

E, paradoxalmente, um tempo extra na cama pode piorar as coisas para quem sofre de insônia, pois quando alguém tem dificuldade para adormecer ou continuar dormindo, seus cérebros associam a cama a experiências estressantes, afirma Abbot.

Um dos tratamentos mais comuns para a insônia é uma estratégia chamada restrição do sono, que melhora a qualidade e eficiência do sono da pessoas. Mas o que mais podemos  fazer para colocar nosso sono interrompido de volta nos trilhos? Abaixo, listamos algumas dicas:

A REGRA DOS 25 MINUTOS

Se você se deitar e não conseguir dormir depois de 25 minutos, ou acordar à noite e não conseguir voltar a dormir depois de 25 minutos, não fique na cama. Levante-se e faça uma atividade que acalme sua mente e o deixe sonolento, como alongamento, leitura com luz baixa, meditação ou exercício de respiração profunda. Só volte para a cama quando se sentir cansado novamente.

SEM PREOCUPAÇÕES

Duas horas antes de dormir, anote seus pensamentos em um papel, especialmente o que o está incomodando – pode ser uma tarefa do trabalho ou as contas que precisa pagar. Depois, amasse-a e jogue-a no lixo. O gesto simbólico acalma sua mente, afirma Ilene Rosen, especialista em medicina do sono e professora de medicina na Escola de Medicina Perelman da Universidade da Pensilvânia.

RESTRINJA USO DE TELAS

Evite celulares e dispositivos eletrônicos na hora de dormir, porque a luz azul que a tela deles emite diz ao seu cérebro que é hora de acordar. Sefor usá-los mesmo assim, use-os apenas em pé.

ACORDE NA MESMA HORA

Nosso corpo segue um ritmo circadiano diário, e acordar em horários diferentes o deixa fora de sincronia. É melhor estabelecer horários padrões para acordar e dormir, mesmo nos fins de semana.

PEGUE SOL TODAS AS MANHÃS

Procure obter pelo menos 15 minutos de luz solar logo no início da manhã para que a liberação de melatonina, hormônio que promove o sono, seja interrompida no corpo.

FAÇA DA CAMA UM REFÚGIO

Reserve sua cama apenas para dormir ou fazer sexo. Trabalhar de casa – às vezes da cana – apagou dos limites entre o trabalho e o sono. Mas transformar seu colchão em escritório pode condicionar seu cérebro a ver a cama como um lugar que o deixa estressado e alerta, levando à insônia

EXERCITE-SE

A atividade física é a maneira mais fácil de melhorar o sono. Pelo menos 29 estudos mostram que o exercício diário, independentemente do tipo ou da intensidade, ajuda as pessoas a adormecer mais rapidamente e a permanecer dormindo por mais tempo, especialmente pessoas mais velhas. Mas uma advertência: termine o exercício pelo menos quatro horas antes de se deitar para não interferir no seu sono ao elevar a temperatura corporal.

CORTE A CAFEÍNA ÀS 14 HORAS

A cafeína tem meia-vida de seis a oito horas e um quarto de vida de cerca de 12 horas. Isso significa que se você beber café às 16 horas, você ainda terá um quarto da cafeína flutuando em seu cérebro às 4h da madrugada. Evitar a cafeína à noite é o mínimo. Mas o ideal é evitar a cafeína após as 14h, para que seu corpo tenha tempo suficiente de metabolizá-la e limpá-la da maior parte do seu sistema.

SIGA A REGRA DAS DUAS TAÇAS DE ÁLCOOL

Se você consome álcool, limite-se a beber o equivalente a duas taças à noite, alternando cada uma com um copo de água, e pare pelo menos três horas antes de dormir. Como o álcool é um sedativo, algumas pessoas costumam ingeri-lo para ajudá-las a adormecer mais rapidamente, mas a bebida suprime o sono REM ( mais profundo) e causa interrupções no repouso, o que piora a qualidade geral do sono.

QUANDO PROCURAR AJUDA

O sono ocasional de insônia não é motivo de preocupação. Mas, se você fizer alterações em sua rotina de sono e nada parecer ajudar, talvez seja hora de consultar um médico. Um especialista em sono pode determinar se você precisa de terapia cognitivo-comportamental, medicação ou outro tratamento. Ou pode ser o caso de você ter um distúrbio do sono subjacente, como síndrome das pernas inquietas ou apneia do sono.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS FORMAS COMO A DEPRESSÃO E A ANSIEDADE AFETAM O CORPO

Mente e corpo formam uma via de mão dupla e se influenciam diretamente seja na saúde ou na doença

Não causa surpresa que a notícia de um diagnóstico de doença cardíaca, câncer ou qualquer outra doença física limitante ou com risco de vida provoque ansiedade ou depressão. Mas o inverso também pode ser verdadeiro: a ansiedade ou a depressão excessivas podem estimular o desenvolvimento de uma doença física séria e até mesmo  impedir a capacidade de resistir ou se recuperar dela.  As consequências potenciais são particularmente oportunas, já que o estresse contínuo e as perturbações da pandemia continuam a afetar a saúde mental.

O organismo humano não reconhece a separação artificial das doenças mentais e físicas feita pelos médicos. Na verdade, a mente e o corpo formam uma via de mão dupla. O que acontece dentro da cabeça de uma pessoa pode ter efeitos prejudiciais em todo o corpo, bem como o contrário. Uma doença mental não tratada pode alimentar significativamente o risco de ficar fisicamente doente, e os distúrbios físicos podem resultar em comportamentos que pioram as condições mentais.

Em estudos que acompanharam pacientes com câncer de mama, por exemplo, o dr. David Spiegel e seus colegas da Escola de Medicina da Universidade de Stanford mostraram, décadas atrás, que as mulheres cuja depressão melhorava viviam mais do que aquelas cuja depressão se agravava. Sua pesquisa e outros estudos mostraram claramente que “o  cérebro está intimamente conectado ao corpo e o corpo ao cérebro”, disse Spiegel em uma entrevista. “O corpo tende a reagir ao estresse mental como se fosse um estresse físico”.

Apesar dessa evidência, ele e outros especialistas dizem, o sofrimento emocional crônico é frequentemente ignorado pelos médicos. Normalmente, um médico prescreve um tratamento para doenças físicas como doenças cardíacas ou diabete, sem se questionar  por que alguns pacientes pioram em vez de melhorar.

Muitas pessoas relutam em procurar tratamentos para doenças emocionais. Algumas pessoas com ansiedade ou depressão podem temer ser estigmatizadas, mesmo reconhecendo que têm um problema psicológico sério. Muitas tentam tratar seu sofrimento emocional adotando comportamentos como beber muito ou usar drogas, o que apenas piora uma doença preexistente.

E, às vezes, pessoas da família e amigos inadvertidamente reforçam a negação de sofrimento mental de alguém dizendo coisas como “ele é assim mesmo” e não fazendo nada para incentivá-lo a buscar ajuda profissional.

QUÃO COMUNS SÃO A ANSIEDADE E A DEPRESSÃO?

Os distúrbios de ansiedade afetam aproximadamente 20% dos adultos norte-americanos.  Isso significa que milhões são acossados por uma superabundância de respostas de “luta ou fuga” que prepara o corpo para a ação. Quando você está estressado, o cérebro responde provocando a liberação de cortisol, o sistema de alarme da natureza. Ele evoluiu para ajudar os animais que enfrentam ameaças físicas, aumentando a respiração, elevando o ritmo cardíaco e redirecionando o fluxo sanguíneo dos órgãos abdominais para os músculos que ajudam a enfrentar ou escapar do perigo. Essas ações protetoras se originam nos neurotransmissores epinefrina e norepinefrina, que estimulam o sistema nervoso simpático e colocam o corpo em alerta máximo. Mas quando eles são solicitados com muita frequência e indiscriminadamente, a super estimulação crônica pode resultar em todos os tipos de doenças físicas, incluindo indigestão, cólicas, diarreia ou prisão de ventre e um risco maior de ataque cardíaco ou derrame.

A depressão, embora menos comum do que a ansiedade crônica, pode ter efeitos ainda mais devastadores sobre a saúde física. Embora seja normal se sentir deprimido de vez em quando, mais de 6% dos adultos têm sentimentos persistentes de depressão que acabam dificultando os relacionamentos pessoais, interferem no trabalho e no lazer e prejudicam sua capacidade de enfrentar os desafios da vida diária. A depressão persistente também pode exacerbar a percepção de dor de uma pessoa e aumentar suas possibilidades de  desenvolver dor crônica.

“A depressão diminui a capacidade de uma pessoa analisar e responder racionalmente ao estresse”, disse Spiegel. “Elas acabam em um círculo vicioso com capacidade limitada para sair de um estado mental negativo.”

Para piorar as coisas, a ansiedade e a depressão excessivas frequentemente coexistem, deixando as pessoas vulneráveis a um conjunto de doenças físicas e à incapacidade de adotar e persistir na terapia necessária.

O TRATAMENTO PODE COMBATER O IMPACTO EMOCIONAL.

Embora a ansiedade e a depressão persistentes sejam altamente tratáveis com medicamentos, terapia cognitivo­ comportamental e psicoterapia, sem tratamento essas condições tendem a piorar. Segundo o dr. John Frownfelter, o tratamento para qualquer condição funciona melhor quando os médicos entendem “as pressões que os pacientes enfrentam que afetam seu comportamento e resultam em danos clínicos”.

Frownfelter é médico internista e diretor de uma startup chamada Jvion. A organização utiliza inteligência artificial para identificar não apenas fatores médicos, mas também psicológicos, sociais e comportamentais que podem impactar a eficácia do tratamento na saúde dos pacientes. Seu objetivo é promover abordagens mais holísticas que tratem o paciente por inteiro, corpo e mente combinados.

As análises utilizadas pela Jvion, uma palavra  hindi que significa “dar vida”, podem alertar um médico quando a depressão de base estiver prejudicando a eficácia dos tratamentos prescritos para outra condição. Por exemplo, os pacientes em tratamento para diabete que estão se sentindo desesperados podem não melhorar porque tomam a medicação prescrita apenas esporadicamente e não seguem uma dieta adequada, disse Frownfelter.

”Sempre falamos sobre a depressão como uma complicação de doenças crônicas”, escreveu Frownfelter no Medpage Today de julho. ”Mas não falamos o suficiente sobre como a depressão pode levar a doenças crônicas. Pacientes com depressão podem não ter motivação para se exercitar regularmente ou cozinhar refeições saudáveis. Muitos também têm problemas para dormir o necessário”.

OUTROS OLHARES

SUAVE VENENO

Aumento do uso de cigarros eletrônicos preocupa médicos

A popularidade dos cigarros eletrônicos aumenta a cada dia. É comum observar um crescente número de usuários destes dispositivos até mesmo no Brasil, onde sua comercialização é proibida desde 2009, mas o uso não. De modo que o consumidor pode trazê-lo do exterior e consumi-lo aqui, por exemplo. Os cigarros eletrônicos surgiram há cerca de duas décadas, como uma alternativa mais saudável e glamourosa do que o cigarro  tradicional, que fez o caminho inverso e veioperdendo usuários ao longo dos anos. Mas essa alegação é alvo de controvérsia. Médicos e a própria Organização Mundial da Saúde alertam para os danos associados à exposição à presença de ingredientes tóxicos, à exposição à nicotina e ao uso por crianças e adolescentes.

Em meados de outubro, no entanto, o debate esquentou. A FDA, agência reguladora dos EUA, autorizou pela primeira vez, a venda de três novos produtos, todos da marca Vuse, ligada à British American Tabacco, maior empresa de tabaco do mundo. A agência sinalizou acreditar que a ajuda oferecida para que fumantes deixem os cigarros tradicionais é mais significativa que os riscos de viciar uma nova geração. “A FDA determinou que o potencial benefício para fumantes que trocaram completamente ou reduziram de forma significativa, o uso do cigarro superaria o risco para a juventude”, escreveu a FDA em comunicado. Na mesma data, a agência negou dez outros pedidos da empresa para autorização de produtos com sabor, que são considerados mais atraentes para adolescentes e jovens.

Alguns dias depois, foi a vez do Ministério da Saúde do Reino Unido dar um passo em direção ao aumento do acesso aos cigarros eletrônicos. Em comunicado, a pasta afirmou que a autoridade reguladora nacional abriu caminho para que esses produtos sejam oficialmente prescritos por médicos para ajudar pessoas que querem para de fumar cigarro tradicional.

VAPOR TÓXICO

As recentes decisões partem do pressuposto de que embora seja ideal que as pessoas não fumem nem vaporizem produtos com nicotina, os cigarros eletrônicos são menos prejudiciais do que os cigarros tradicionais. De acordo com o Serviço Nacional de Saúde britânico, os cigarros eletrônicos são mais seguros porque não produzem alcatrão ou monóxido de carbono, que podem causar doenças pulmonares e câncer. Mas eles não são totalmente isentos de riscos.

“Existem estudos que mostram que essa estratégia do Reino Unido levou ao aumento da mortalidade cardiovascular. Emboca não tenha monóxido de carbono, o cigarro eletrônico tem multas substâncias químicas, como partículas ultrafinas que estão relacionadas à mortalidade cardiovascular”, explica o pneumologista Paulo Corrêa, coordenador da Comissão Científica de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Fisiologia (SBPT).

Trabalhos mostram ainda que existem ao menos 20 substâncias tóxicas no vapor dos cigarros eletrônicos. A maioria é formada pela degradação química dos componentes presentes no líquido durante o processo de vaporização. Destas, pelo menos sete podem provocar problemas graves no organismo. Para fator de comparação, o cigarro convencional contém 4.700 compostos tóxicos.

“Os estudos falam em comparação de quantidade de substâncias tóxicas, presumindo que pelo fato de ter menos substâncias tóxicas, tem menos risco, mas não quer dizer que os compostos que estão lá sejam isentos de risco”, diz  Jaqueline Scholz, diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do Incor.

‘TROCA DO VÍCIO’

Além disso, não há evidências de que o dispositivo ajude os que lutam para abandonar o tabagismo. Para Scholz, o cigarro eletrônico não é uma opção para parar de fumar.

“Para quem faz cessação, parar de fumar é parar de usar nicotina e não parar de usar cigarro. Esse seria um bom tratamento se o usuário conseguisse ficar livre de tudo, mas não é o que acontece. Há apenas a troca do vício”, afirma.

Os cigarros eletrônicos, também chamados de vape, são dispositivos que usam uma bateria para aquecer e vaporizar um líquido com nicotina e outras substâncias. Em geral, os ingredientes principais são propilenoglicol, glicerol e essências aromatizantes. O teor de nicotina varia de acordo com o fabricante – o mais baixo equivale a seis cigarros comuns; o mais alto a 18. As versões aromatizadas, com sabores doces e mentolados, são os preferidos dos adolescentes e jovens e, por isso mesmo, ainda não foram aprovadas pela FDA, por exemplo.

Estudos já associaram o cigarro eletrônico a problemas de saúde como a bronquiolite obliterante, um problema grave dos pulmões, atalho para a inflamação e a obstrução dos bronquíolos, as estruturas responsáveis pelas trocas gasosas com o sangue. Em 2019, 2.500 casos de doenças pulmonares e 55 mortes nos EUA foram associados à vaporização de cigarros eletrônicos contendo THC de cannabis e acetato de vitamina E, substância presente em muitas essências. Também há preocupação com os efeitos de longo prazo dos cigarros eletrônicos, que ainda são desconhecidos e com seu potencial viciante entre adolescentes.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 09 DE DEZEMBRO

A BOEMIA LEVA À POBREZA

Quem ama os prazeres empobrecerá, quem ama o vinho e o azeite jamais enriquecerá (Provérbios 21.17).

Aqueles que são perdulários e gostam da vida boêmia, bebendo todas as taças dos prazeres, curtindo a vida com vinhos caros e banquetes requintados, ficarão pobres. A riqueza é fruto do trabalho, e não da boemia. A riqueza vem como resultado da modéstia, e não da ostentação. Aqueles que se rendem à bebedeira e à comilança jamais enriquecerão. A exortação da Palavra de Deus é categórica: Não estejas entre os bebedores de vinho nem entre os comilões de carne. Porque o beberrão e o comilão caem em pobreza; e a sonolência vestirá de trapos o homem (Provérbios 23.20,21). O profeta Amós deu o seu brado de alerta contra as pessoas que se entregavam aos deleites da vida, dormindo em camas de marfim e espreguiçando-se sobre o leito, cantando ao som da lira e bebendo vinho, ungindo-se com o melhor dos perfumes, mas esquecendo a miséria do povo à sua volta. Mesmo que tenhamos provisão com fartura em nossa casa, não é sensato amar os prazeres, entregando-nos a esses deleites. Precisamos viver uma vida mais simples para ajudar as pessoas em suas necessidades. Precisamos deleitar-nos em Deus mais do que nos dons de Deus. Precisamos amar a Deus, servir às pessoas e usar as coisas, em vez de esquecer de Deus, usar as pessoas e amar as coisas.

GESTÃO E CARREIRA

RANKING DE VAGAS MOSTRA BRASIL PRESO EM ARMADILHA DE BAIXA PRODUTIVIDADE

País oferta ocupações como vendedor, enquanto as de transição tecnológica têm pouco espaço

O mercado de trabalho no Brasil está preso em uma armadilha de baixa produtividade. Atividades que demandam menos estudo e oferecem baixos salários ampliam espaço no total de vagas criadas.

Já profissões que põem o país em uma nova fronteira tecnológica, com mais qualificação e renda, até crescem, mas ainda são pouco representativas.

As tendências foram identificadas em estudo de pesquisadores vinculados a  FGV-Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas) com base no período de 2012 a 2019, para eliminar eventuais impactos de caráter transitório causados pela pandemia. Entre as vagas que mais cresceram, em número de ocupados, estão vendedores de produtos diversos, em pontos comerciais ou nas ruas.

Empregos em áreas relacionadas à transição tecnológica, como analistas de dados, serviços de TI (tecnologia da informação), também avançaram, mas sem alcançar tanto espaço na comparação com o total de profissionais no país.

O estudo é de Janaína Feijó, Laísa Rachter de Sousa Dias, Fernando de Holanda Barbosa Filho e Fernando Veloso, com base em microdados da Pnad Contínua, a pesquisa sobre mercado de trabalho do IBGE.

“Entre as ocupações que registram os maiores aumentos estão aquelas relacionadas com a prestação de serviços relativamente mal remunerados, [tendência] compatível com a baixa produtividade do país nos últimos anos”, destaca o levantamento.

Segundo Veloso, o crescimento da população ocupada com serviços com menos exigências de qualificação e remuneração menor reflete, em parte, a recente dinâmica macroeconômica do país. De 2014 a 2016, o Brasil embarcou em um período de dificuldades e amargou uma recessão, cujos prejuízos não foram totalmente recuperados. Nesse quadro, a busca por vagas em serviços com menos exigências e no setor informal, por exemplo, foi alternativa para entrada ou reingresso no mercado de trabalho.

“A tendência de crescimento do emprego em serviços é um fenômeno global. Não é a novidade em si. A questão do Brasil é que, entre os serviços que mais crescem, estão aqueles predominantemente informais e com menos exigência de escolaridade, diz Veloso.

Ele menciona que, de 2012 a 2019, o país até teve avanços na área de educação – o que costuma ter reflexos na empregabilidade -, mas insuficientes para uma melhora forte nas condições de emprego.

Conforme o levantamento, mais de 44,7 milhões de trabalhadores não possuíam ensino  médio completo no início de 2012. O número caiu para 37 milhões no final de 2019.

Em termos absolutos, a categoria “outros vendedores” teve o maior acréscimo de ocupados, em média, no período: 297.863 ao ano. O grupo engloba profissionais diversos, como vendedores a domicílio e por telefone, frentistas e balconistas de serviços de alimentação.

Em seguida aparecem os comerciantes e vendedores de lojas (118.267/ano).

Vendedores de ruas e postos de mercado (80.163) – incluindo ambulantes que trabalham como comida – , cabeleireiros (78.548), condutores de automóveis, camionetes e motocicletas (77.434) e cozinheiros ( 58.635) estão entre as dez ocupações em ascensão.

“A inserção no mercado de trabalho ficou mais difícil nos últimos anos. Talvez essas ocupações representem uma forma mais fácil de colocação no mercado”, analisa Veloso.

“Trabalhadores com um nível mais baixo de escolaridade não têm tantas opções de atividades. Eles precisam encontrar algum tipo de renda”, sublinha Janaína Feijó.

A escassez de vagas levou Victor lima, 39, a vender sorvetes e picolés no Rio de Janeiro. “Está muito difícil conseguir um trabalho fixo, ainda mais para quem é pobre e não teve oportunidade de estudar”, diz. Sem concluir o ensino fundamental, seu desejo é encontrar um emprego na área de serviços gerais, mas não descartaria migrar para outros setores. “A gente tem de agarrar o que aparece”.

O trabalho na rua também sustenta Linaldo Rocha, 67. Ele vende biscoitos, café água na zona sul do Rio há cerca de sete anos. Antes, foi porteiro, relojoeiro e borracheiro. A idade, diz, virou um desafio na busca por emprego. “Isso dificulta. A gente vai até as firmas, mas sempre acabam perguntando sobre a idade”.

O estudo da FGV- Ibre ainda analisa o comportamento de vagas de  trabalho intensivas em tecnologia, ocupações que vêm ganhando peso, mas ainda não são tão representativas.

 A demanda por instaladores de equipamentos eletrônicos e de telecomunicações, por exemplo, foi a terceira ocupação que mais cresceu entre 2012 e 2019 (13,1% ao ano).

Outras atividades relacionadas à tecnologia da informação e comunicação, como dirigentes de serviços de TI e especialistas em dados, também são ocupações emergentes, com o avanço da população ocupada em torno de 10% ao ano.

“Há um crescimento nessas vagas, mas ainda não são tão representativas no total. TI envolve uma qualificação maior, é vista como uma área de profissões com futuro”, avalia o pesquisador Fernando de Holanda Barbosa Filho.

O estudante de direito Ricardo Freitas de Araújo, 24, decidiu migrar para tecnologia da informação, setor no qual trabalha há sete meses por indicação de um amigo.

Araújo vem fazendo cursos para trabalhar com segurança da informação. Agora, já está em processo de mudança para uma vaga que considera mais técnica, de analista de negócios, na mesma empresa.

A meta, diz, é continuar estudando e dar novos passos no setor. Ele planeja concluir o curso de direito, mas não quer trabalhar na área

“Pretendo me aperfeiçoar em segurança da informação.  Vejo muitas possibilidades  mais do que no direito. Os dados são a moeda do futuro”.

O levantamento da FGV – Ibre também aponta os tipos de ocupação que mais recuaram em média, entre 2012 e 2019.

Os pesquisadores chamam a atenção para a redução de postos de trabalhadores classificados como elementares.

Na lista estão trabalhadores elementares da agropecuária, da pesca e florestais (fechamento de 300.489 vagas), trabalhadores elementares da mineração e da construção (-94.992) e trabalhadores domésticos e de limpeza de interior de edifícios (-70.743).

Na avaliação de Janaína, pelo menos dois fatores ajudam a explicar, em parte, o declínio das atividades. Ela relata que a modernização vem reduzindo funções associadas a tarefas repetitivas e operacionais.

Além disso, avanços incipientes na área de educação, entre 2012 e 2019, podem ter levado uma parte desses profissionais a migrar para outras atividades com rendimentos um pouco mais atraentes, especialmente dentro de serviços.

Segundo economistas, a crise gerada pela pandemia aumenta os desafios para a recuperação do mercado de trabalho no Brasil.

“É preciso um esforço para que o país aumente a qualidade educacional e que ela seja voltada para o mercado de trabalho a longo prazo”, diz Sérgio Firpo, professor de Economia do Insper.

Firpo acrescenta que, para avançar na geração de empregos, o Brasil também precisa colocar em prática uma agenda que estimule a competição entre as empresas.

EU ACHO …

SEU TEMPO DE VIDA DEPOIS DA MORTE

Morremos, acabou. O que pensarem de nós, pouco importará. Humm. Será mesmo que somos tão indiferentes à impressão que deixaremos? Alguma curiosidade há de se ter sobre como nosso nome circulará nas rodas de conversa (numa projeção otimista, dando como certo que alguns ainda falarão a nosso respeito). Quanto tempo devida você imagina que terá depois de expirado seu prazo de validade?

A boa notícia: enquanto alguém lembrar de você, sua morte será pardal. Minha avó lby ainda vive (morreu aos 90), meu colega Rooney ainda vive (morreu aos 34), meus dois primos Flavio ainda vivem (um partiu aos 60, outro aos 56).

E como contribuo para a imortalidade que lhes coube, eles que nunca foram pilotos de Fórmula l, jogadores de futebol, ídolos populares. Quem não é famoso, precisa garantir a própria imortalidade através da autêntica e sincera saudade.

Soube pelo obituário que um querido amigo perdeu o pai. Fazia anos que eu não tinha contato com ele, mas recordava de que os dois eram muito próximos, e imaginei seu abalo emocional. Já nem sabia onde esse amigo morava, ele que vivia trocando de país, mas descobri um e-mail antigo e tentei: mandei uma mensagem de condolências. A resposta veio em poucos dias. Meu amigo contou que, apesar de muito ligado ao pai, desconhecia certas atitudes de seu passado que nunca foram alardeadas. Sua morte fez brotar revelações comoventes. Os relatos chegavam de ex-colegas de profissão do pai, de habitantes da cidade do interior onde o pai morou quando jovem, de funcionários que haviam trabalhado para ele, de gente que nem ao menos o conheceu pessoalmente, mas que havia sido beneficiado por seus gestos. Para além de todo seu histórico de bom pai, bom marido e bom avô, meu amigo descobriu que ele havia sido, dentro da sua universalidade, um homem gentil, portanto, eterno não só para a família.

Como uma coisa puxa a outra, me veio a palestra on-line que a The School of Life promoveu, semana passada, com o psicanalista lrvin Yalom. Já com a idade avançada e vivendo o luto de uma recente viuvez, Yalom, autor de “Quando Nietzche chorou e outros livros sobre relações pessoais, confirmou: “Nossa imortalidade está condicionada à nossa gentileza, à maneira como tratamos conhecidos e desconhecidos”. Prosaico e profundo. É a cordialidade que nos manterá vivos na lembrança de quem conviveu conosco. Nem bens materiais, nem prêmios, nem festas, nem feitos: quando chegarmos ao final, nada contará tanto quanto nossos bons modos, nosso olhar amoroso e nossa disponibilidade para o afeto. É um alento. Morre cedo quem quer.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

ESTAR BEM

DOR NO CORPO E CANSAÇO? PODE SER FALTA DE VITAMINA D

Baixo nível da substância no organismo já é um problema de saúde pública mundial; pouca exposição ao sol está entre as causas

Com dores no peito, nos ombros e braços, o engenheiro Roger Okura, de 37 anos, ficou preocupado e consultou um cardiologista em julho. Fez exames de imagem e de sangue, que revelaram um baixo nível de vitamina D, de 11,oo  ng/ml ­ a referência para o seu perfil é de 20 ng/ml, no  mínimo. Saiu do consultório com a prescrição de comprimidos de vitamina D por alguns meses e a recomendação de tomar sol para possibilitar a síntese da substância, além de praticar exercícios físicos com regularidade. O coração? Estava ótimo.

“Fico o dia todo enclausurado no escritório na semana. Tento tomar sol na hora do almoço, mas é por poucos minutos”, conta Roger. Depois de alguns meses de vitamina D, ele diz que as dores sumiram.

Casos de baixo nível de vitamina D no organismo, como o de Roger, são um problema de saúde pública mundial, inclusive no Brasil. Um estudo realizado pela Universidade de Cruz Alta (Unicruz) em 2018 revelou que 68,9% dos participantes, com 18 a 60 anos, tinham níveis de vitamina D abaixo do recomendado (hipovitaminose).

A chamada “vitamina D” na verdade é um pré- hormônio que, associado ao  paratomônio (PTC), tem um importante papel na saúde óssea. Os baixos níveis podem causar doenças como a osteomalácia, que deixa os ossos frágeis e quebradiços, no caso dos adultos. Nas crianças, a deficiência de vitamina D pode resultar em raquitismo, que compromete o desenvolvimento dos ossos, explica a ortopedista Cecília  Richard, presidente do comitê de doenças osteometabólicas da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT). ”É muito comum receber pacientes com dores musculares, que podem ter causas diversas. A deficiência de vitamina D é uma delas.”

Idosos, pacientes que fizeram cirurgia bariátrica, pessoas em quimioterapia, obesos, por exemplo, devem ter seus níveis de vitamina D monitorados, segundo Cecília. Mas como o problema é comum em toda a população, ela alerta que todos devem se empenhar em tomar sol – ou suplementar com vitaminas. “Para ter uma estrutura óssea forte, é preciso cuidar da vitamina D desde a infância e praticar exercícios físicos de impacto. Isso fará diferença na saúde esquelética quando idoso”, diz.

SOL NA PELE

Para sintetizar a vitamina D naturalmente, é preciso tomar sol diretamente na pele. “A alimentação não supre as necessidades. A exposição frequente ao sol por 15 minutos, sem filtro solar em braços e pernas, por volta das 11 horas, garante bons níveis de vitamina D em pessoas saudáveis”, explica a endocrinologista Maria Lucia Fleiuss de Farias, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).

A solução aparentemente simples é um desafio para a sociedade. “A poluição ambiental, o uso de filtro solar e hábitos de vida contribuem para a menor síntese de vitamina D na pele. As pessoas estão na frente do computador, da televisão”, diz Maria Lúcia.

Por ter trabalhado durante mais de 5 anos na área de TI na madrugada, Camila dos Santos Borda, de 39 anos, ficou com os olhos mais sensíveis à luz solar e passou a fugir do sol. Ao fazer os exames de rotina em 2018 levou um susto: estava com 6 ng/ml, nível muito abaixo do recomendado. “Tinha dores no corpo e um cansaço enorme. O médico disse que a deficiência da vitamina D era a causa desses sintomas”, conta. Desde então, toma o suplemento e se força a tomar sol com frequência, apesar de não gostar. Está com os níveis de vitamina D adequados – e se sente mais disposta.

CONFINADO

Por ficar confinado em casa durante a pandemia, o farmacêutico Felippe de Alencar Silva, de 31 anos, reduziu a sua exposição ao sol. Isso causou uta queda no seu nível de vitamina D, acusado no check­up feito em julho. O exame de sangue indicou que ele tinha 12,49 ng/m.l – o mínimo para o seu perfil é 20 ng/ml. A partir disso, ele começou a  tomar os comprimidos de suplemento de vitamina D diariamente. “Durante a semana, trabalho até as 18 horas dentro de casa. Não tenho espaço para tomar sol nem o costume. Nos fins de semana, tento fazer algo ao ar livre, caminhadas no parque”, diz.

Outras doenças, além das relacionadas aos ossos, estão ligadas à deficiência de vitamina D, afirma o nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).  “A hipertensão arterial, a diabete, doenças autoimunes e câncer já foram associados à deficiência de vitamina D”, alerta. Segundo ele, a insuficiência de vitamina D também enfraquece o sistema imunológico, o que abre portas para vírus e bactérias patogênicas – inclusive para o coronavírus.

“Parece sensato recomendar suplementação para atingir níveis adequados de vitamina D”, diz Maria Lúcia. O consumo de suplementos de vitamina D praticamente dobrou no Brasil  no primeiro ano da pandemia: cresceu 93%no Brasil entre abril de 2020 e abril de 2021, segundo a Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (Alanac). A professora Alicia Kowaltowski, da Bioquímica da USP, adverte para o consumo excessivo. “O suplemento de vitamina D nunca deve ser tomado sem orientação médica e sem dosagem anterior dos seus níveis individuais.”

A MELHOR MANEIRA DE SE OBTER VITAMINA D

MELHOR HORÁRIO

O banho de sol é o principal responsável pela disponibilidade de vitamina D no corpo. Os raios UV B são os que permitem a síntese da substância na pele. Eles incidem mais fortes ente entre 10h e 16h. Porém, os raios UV B também podem provocar vermelhidão e câncer de pele. Por isso, não vá muito além dos 15 minutos de exposição diária nesse horário. Quanto mais longe da Linha do Equador, maior deve ser o tempo de exposição.

POUCA ROUPA É MELHOR

Tome sol diretamente na pele, que só vai sintetizar vitamina D se não estiver coberta por roupas ou chapéu. Por isso, arregace as mangas e exponha a maior área de pele sempre que estiver ao sol. E abra a janela, pois o vidro bloqueia raios UV B.

PROTETOR SOLAR

O uso do protetor solar previne o câncer de pele e evita o seu envelhecimento precoce. Mas, se todo o seu corpo estiver coberto com a loção, não será possível que os raios UV B incidam para promover a síntese de vitamina D.

ALIMENTAÇÃO AJUDA, MAS NÃO RESOLVE

As fontes alimentares podem corresponder a 20% da vitamina D presente no corpo – o resto é promovido pela exposição solar. Atum, salmão, gema de ovo e leite integral são ricos em vitamina D.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ELETRÔNICOS ROUBAM SONO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Noites mal dormidas nas faixas etárias observadas prejudicam o desenvolvimento, a concentração e afetam o rendimento escolar, além de provocarem alterações no comportamento. Quanto mais tempo em frente a telas, pior o desenvolvimento, dizem estudos

As crianças entre seis e 13 anos, na Espanha passam quase cinco horas por dia em frente a alguma tela. Esse dado cresce até alcançar seis horas e meia durante os fins de semana, aponta estudo da Associação para Pesquisa de Meios de Comunicação da Espanha (AIMC). Agora. a Universidade do Sul da Dinamarca fez uma revisão sistemática de 49 pesquisas sobre a relação dos aparelhos eletrônicos com o descanso entre os mais jovens (crianças e adolescentes até 15 anos), e os resultados foram publicados na revista científica BMC Public Health.

A principal conclusão é de que há uma relação direta entre o uso dos meios eletrônicos e menos horas de sono. Porém, além desta conclusão geral, os pesquisadores têm reconhecido resultados para cada faixa etária. Até cinco anos, o uso da televisão e de tablets provoca dificuldades para adormecer, além de uma menor duração do sono. O uso estendido de televisão também é associado a um aumento dos cochilos, o que sugere uma consolidação de um sono mais deficiente e padrões de sono menos maduros.

No grupo seguinte, de seis a 12 anos, o uso de telas, de maneira geral, e especialmente antes de dormir, além da presença destes aparelhos no quarto, está diretamente relacionado com deitar-se mais tarde e uma qualidade do sono inferior. Além disso, se as telas são de televisões ou celulares, há uma associação com distúrbios do sono e o despertar durante a noite.

No último período de ida de observado, formado por adolescentes de até 15 anos, o uso de aparelhos, em especial de celulares e computadores, também implicou uma redução das horas de sono, além de problemas para adormecer. Neste grupo, o uso das redes sociais foi também associado a uma má qualidade do sono.

CONSEQUÊNCIAS

A falta de descanso nesses grupos de idade pode provocar dificuldades na concentração e no rendimento escolar e alterações no comportamento, explica o vice-presidente da Sociedade Espanhola do Sono, Javier Puertas. No entanto, estas não são as únicas consequências que podem ser acarretadas:

“O hormônio do crescimento é secretado especialmente em um momento, durante um tipo de atividade cerebral chamada sonhos de ondas lentas. Se o tempo que passamos nesse período de sono for reduzido porque dormimos menos horas ou porque temos uma alteração na sua qualidade devido a interrupções, menos hormônios de crescimento são produzidos,  e pode haver diminuição do referido crescimento”, diz Puertas.

A revisão incluiu estudos realizados entre 11 de janeiro de 2009 e 31de agosto de 2019 na América do Norte, Europa, Austrália, Nova Zelândia e alguns que são a junção de pesquisas realizadas em diversos países. Os parâmetros que foram analisados são a hora de ir dormir, a qualidade e duração do sono e o cansaço no dia seguinte.

O que  todos eles têm em comum é que cobrem uma variedade de dispositivos eletrônicos: celulares, televisores, tablets, computadores e consoles de  jogos eletrônicos.   Em  relação aos  participantes, foram divididos em três períodos: de O a 3 anos; de 6 a 12 e de 13 a 15. O número de crianças que participaram destas análises foi de 55 no caso dos mais pequenos e 370 mil no caso dos mais velhos, de acordo com a equipe da Universidade do Sul da Dinamarca.

Lisabeth Lund, do Instituto Nacional de Saúde Pública da Dinamarca, e uma das autoras principais da revisão, explica que, no primeiro momento, os dados foram encomendados pelo governo para produzir um guia. No final, eles decidiram torná-lo público porque  acreditam que é um campo importante da saúde pública e pode ser usado por outros países para desenvolver diretrizes.

PREOCUPAÇÃO GLOBAL

Esta não é a primeira revisão sistemática sobre esta questão. A primeira foi publicada em 2015, um total de 20 estudos foram revisados e os resultados são muito semelhantes aos da última pesquisa: há forte evidência de uma ligação entre acesso ou uso de aparelhos eletrônicos e a redução da quantidade e qualidade do sono, bem como aumento da sonolência diurna.

A preocupação com as telas para crianças é tão grande que a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou diretrizes em 2019 para o uso responsável dos aparelhos por crianças pequenas.  As recomendações mais importantes são evitar seu uso por crianças com menos de um ano de idade e, uma vez passada esta etapa, não utilizar estes dispositivos por mais de uma hora até a idade de quatro anos. Em qualquer caso, a OMS recomenda passar o mínimo de tempo possível com essas ferramentas tecnológicas.

As telas e o desenvolvimento das crianças, embora não diretamente relacionadas ao repouso, já foram estudadas em crianças canadenses. A pesquisa mostrou que quanto mais tempo se passava com estes dispositivos entre os dois e os três anos de idade, pior era o desempenho ao fazer testes de desenvolvimento posteriormente.

OUTROS OLHARES

AUDIÇÃO ANSIOSA DITA OS NOVOS HITS

As músicas estão encurtando para atender a geração que não consegue passar mais de 3 minutos ouvindo uma mesma faixa

Existe uma nova ordem no reino dos hits da música pop, e ela está sendo ditada pelos ouvintes de streaming, os consumidores de faixas disponíveis em plataformas como Spotify, Deezer e Amazon Music. Algo que já começa a ser chamado de “audição ansiosa” tem definido parâmetros do que seria um novo sucesso nas duas ou três pontas do processo. O compositor precisa pensar em canções com menor tempo de duração; o produtor tem de fazer com que tudo seja mais direto e funcional para que o ouvinte não vá embora e a própria plataforma deve responder rápido à nova demanda do ouvinte que ajudou a criar.

Uma boa produção feita em 2021 – e por boa entenda algo capaz de atrair milhares de ouvintes que não abandonem a faixa nos primeiros segundos e que, conquista das conquistas, passem a seguir o artista e a buscar por suas produções antigas – precisa, em resumo, ser objetiva e curta. Isso porque esse ouvinte que cresceu com o streaming não ouve, segundo as estimativas das próprias plataformas, músicas com mais do que dois minutos e 30 segundos de duração. Essa é a média. Se chegar a três, temos uma vitória digna de Grammy.

Mas, o que são músicas objetivas? Aqui é preciso ouvir os produtores, figuras que se tornam tão ou mais importantes do que o próprio compositor: mediadores que  transformam canções do novo e do velho mundo em possíveis potências de compartilhamento jogando no novo tabuleiro.

Dani Brasil é um deles. DJ renomado nos Estados Unidos, com residências em Atlanta, Washington, Miami, Chicago e Nova York, é um nome forte da tribal house que, ao lado de Rafael Dutra, recondicionou o hit The Best, de Tina Turner, para milhares de ouvintes. “Antes, podíamos contar uma história, criar uma narrativa. Havia uma introdução, uma melodia crescente, um auge. Mas, hoje, as pessoas não têm mais paciência. As mensagens devem ser diretas, o impacto precisa estar logo no início. “Se isso é ruim”, “O meu interesse é ter plays, quero que o ouvinte não vá embora e vou fazer de tudo para que ele fique.”

Outro nome da produção estelar, o carioca Tiago da Cal Alves, o Papatinho, DJ, beatmaker e produtor autodidata, viu tudo mudar desde que ajudou o grupo de rap Cone Crew Diretoria a acontecer, nos anos de 2010, e agora, quando já colaborou com Marcelo D2, Seu Jorge, Criolo, Black Alien e produziu Anitta nas faixas Tá com o Papato (1.830.652 visualizações no YouTube) e Onda Diferente,incluindo um feat (colaboração) com o rapper Snoop Dogg e Ludmilla (104.788.020 visualizações). Por suas constatações, o mundo musical não é mais da década de 2010.

ALTA VELOCIDADE

“Além das facilidades do streaming, a geração nova é bombardeada por informações rápidas ao mesmo tempo. Stories são de 15 segundos, músicas para o TikTok têm um minuto, o Twitter aceita pouco texto. Se sua música não for direto ao ponto, você perde esse ouvinte.” E ele sente que o encurtamento do discurso musical ainda não terminou. “A tendência é diminuir mais.” E joga o jogo. “Eu prefiro ter uma música de dois minutos ouvida por duas ou três vezes pela mesma pessoa a ter uma de quatro que ninguém ouve. Eu tento bater os dois minutos e meio, estourando.” Papato diz algo mais que pode chocar amantes dos álbuns de vinil, CDs ou de qualquer ideia de álbum. “Só os artistas que têm muitos fãs devem lançar álbuns. É muito difícil fazer uma pessoa ouvir um disco inteiro. Melhor é lançar uma faixa de cada vez.”

As plataformas mais ágeis identificaram as demandas de seus fregueses. “Eu não ouço nada com mais de três minutos de duração”, diz Mileny Ferreira, esteticista de 33 anos. “E só busco playlists por estado de espírito, como ‘música calma’, ‘música para dormir’, essas coisas…” Bruno Vieira, head da Amazon Music no Brasil, conta que músicos e produtores que hospedam faixas na companhia têm um mapeamento que informa o que deu e o que não deu. “Analytics em tempo real permitem que eles tenham mais informações para criar estratégias e se conectar com a audiência. Podem realizar testes, lançar singles, fazer pré-lançamentos em redes sociais, entender a aderência das canções, saber onde as músicas têm sido adicionadas… Tudo isso traz insights.”

Mas há algo importante que precisa vir para a discussão: as plataformas não são represas de produções pragmáticas para ouvintes ansiosos, mas polos distribuidores de artistas e consumidores representantes de três ou quatro gerações. Assim, o comportamento da maioria não é o de todos. Como explicar a Lulu Santos – que suas músicas, agora, não podem ter uma introdução maior? Ou melhor, que introduções e solos de guitarra ou de qualquer instrumento são coisas tão dé modés quanto a palavra dé modé? Como dizer a Caetano Veloso que os ouvintes irão embora se ele fizer algo com mais do que três minutos?

Lulu Santos fala primeiro: “Minha música Inocente (lançada há dois meses) tinha 4 minutos e dez segundos. Disseram que estava grande e editei para ficar com 3 minutos e 21 segundos. Quer saber? A música ficou melhor”. Caetano fala agora: “Amigos norte-americanos me contam que grandes nomes, como Kanye West,estão fazendo coisas muito mais curtas. Mesmo figuras já estabelecidas estão fazendo faixas curtas por causa dessa reação às longas. Eu sou de um tempo em que as canções podiam ter três, cinco, sete ou dez minutos, e continuo sendo desse tempo”.

O NOVO HIT

Produtores sentem o que funciona mais

INTRODUÇÃO

As aberturas são, em geral, dispensáveis. Mesmo sendo a música brasileira um celeiro de introduções históricas, elas não fazem mais sentido se o produtor e o compositor não souberem fazer com que o ponto alto da música chegue o mais rapidamente possível

SOLOS

Eles já estavam em queda no pop, mas o streaming pode sepultá-los. Segundo produtores, solos longos em um mega-hit pop podem ter um efeito dispersivo que faz com que o ouvinte pule de faixa. E o pular de faixa é o novo fantasma desse meio

VOZES

Dani Brasil, um dos produtores ouvidos para a reportagem, trouxe uma informação interessante: ”Vozes de mulheres passaram a ter um valor maior.” Ele sente que o canto feminino tem prendido mais ouvintes do que o masculino. Ótimo papo para neurocientistas

ÁPICE

Em geral, o ideal é que o ápice esteja antes do fim do primeiro minuto de uma produção musical. E isso só se a primeira parte for poderosa. O ideal mesmo para se fisgar os ouvintes é ter pistas desse ápice já no início da canção

DANCINHAS

Pensando em promoções na plataforma TikTok, é indicado que a música traga algo em sua letra que possa ser usado para uma dança em um clipe. Não é obrigatório, mas pode fazer a diferença

SEM SURPRESAS

Nada de viradas de ritmo nem modulações harmônicas. Tudo deve atender aos instintos mais simples do ouvinte

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 08 DE DEZEMBRO

UMA CAMINHADA RUMO À MORTE

O homem que se desvia do caminho do entendimento na congregação dos mortos repousará (Provérbios 21.16).

Há um caminho de entendimento e um caminho de loucura. O caminho do entendimento é estreito e íngreme, e poucos se acertam com ele. Já o caminho da loucura é largo e espaçoso, e uma multidão trafega por ele. O caminho estreito exige renúncia. O caminho largo não faz nenhuma exigência. Este é o caminho das liberdades sem limites. É o caminho dos prazeres e das aventuras. Nesse caminho é proibido proibir. Cada um anda como quer e faz o que quer. Mas esse caminho com tantas luzes e variadas vozes desembocará na morte. Ele leva o homem para longe de Deus, para uma noite eterna, onde há choro e ranger de dentes. Desviar-se do caminho do entendimento é matricular-se na escola da morte. É caminhar celeremente para a morte e fazer sua morada na companhia dos mortos. Esse é o caminho, por exemplo, do adúltero. A casa da mulher adúltera se inclina para a morte, e as suas veredas, para o reino das sombras da morte; todos os que se dirigem a essa mulher não voltarão e não atinarão com as veredas da vida. A Bíblia diz que o perverso morrerá pela falta de disciplina. O homem que corre para os braços de uma prostituta é como um boi que vai para o matadouro, como uma ave que voa para uma rede mortal, sem saber que isto lhe custará a vida.

GESTÃO E CARREIRA

INCLUSÃO RACIAL COMEÇA A GANHAR FORÇA DENTRO DAS EMPRESAS

Criada por Leizer Pereira, plataforma Empodera ajuda empresas como Google a criar ambientes de trabalho mais diversos

As noites de sono de Leizer Pereira, de 47 anos, não eram tão tranquilas em 2014. Mesmo depois de chegar a cargos de liderança, o executivo não se contentava em ser um exemplo fora da curva de profissional negro bem-sucedido. Ele passou, então, a se questionar sobre o que mais poderia fazer. O ponto de chegada da jornada foi a criação da Empodera, plataforma que oferece consultoria para o recrutamento de candidatos negros, LGBTQI+, mulheres e pessoas com deficiência.

Hoje, o empreendedor faz parte da transformação de milhares de jovens, como Fernanda Mariano, de 24 anos, que era estagiária do Google Brasil e, neste ano, assumiu o posto de coordenadora de marketing.

“Entrei no Google com minha família inteira”, conta Fernanda. Ainda que lentamente, o mercado de trabalho vem dando passos rumo à equidade racial, graças a iniciativas que visam o aumento da representatividade de profissionais negros. É o caso do Next Step, programa de estágio do Google com duração de dois anos que é focado na inclusão e no desenvolvimento de estudantes negros.

Mas nem sempre foi assim. E as empresas que hoje têm programas de diversidade precisaram do trabalho de consultorias como a Empodera para implementá-los. “Nós somos construtores de pontes”, define Pereira.

Pereira cresceu em uma família pobre na periferia do Rio. Filho de professor, aprendeu desde cedo a valorizar a educação. “Os livros me salvaram”, conta. Após estudar em escola pública, sua trajetória passou por uma faculdade de Engenharia de Telecomunicações e chegou a empresas como Embratel e Cisco. Homem negro, tornou-se um executivo de TI.

Mas queria mais. Com 20 anos de carreira, sentia um incômodo profissional, enquanto em viagens aos EUA ouvia falar da cultura do give back. “Se sou vitorioso, tenho que dar de volta para a sociedade.”

OPORTUNIDADE

Em 2014, após um coach de carreira, passou a fazer trabalho voluntário na Educafro, rede  de cursinhos pré-vestibular para jovens de baixa renda. “Sentia mais prazer na ONG do que no trabalho.” O passo para virar empreendedor veio quando, em 2015, a Coca-Cola bateu na porta da Educafro pedindo apoio para seu programa de trainee. “Foi aí que pensei: se a Coca­ Cola está pedindo ajuda para a questão racial e recrutar jovens, é sinal de que nenhuma empresa sabe fazer isso”, diz.

Quando topou ajudar a Coca-Cola, divulgando o processo na Educafro, Pereira identificou que também seria necessário preparar esses candidatos. Após um período intensivo, cerca de 50 candidatos participaram do trainee da Coca-Cola e uma das jovens foi contratada. “Desliguei o telefone e comecei a chorar.”

No ano seguinte, nasceu a Empodera, com dois focos: um nas empresas e outro nos candidatos. Atualmente, são 60 mil jovens cadastrados e mais de 1,5 mil contratados em empresas como Ambev, Bayer e Google.

PRÓXIMO PASSO

Em 2019, o Google Brasil estruturou seu primeiro programa para estagiários negros, o  Next Step, com dois anos de duração. Para a entrada dos candidatos, o primeiro passo foi eliminar a barreira do inglês fluente – apenas  5% da população brasileira afirma ter algum conhecimento do idioma, segundo o British Council. A multinacional entendeu que seria melhor proporcionar aulas de inglês posteriormente para os selecionados.

Ex-estagiária da primeira turma do Next Step, Fernanda Mariano conta que tinha aulas de inglês duas vezes por semana, além de almoços no idioma com funcionários do Google. “De toda a experiência no estágio, foi a que mais gostei. O inglês é uma herança que sempre vai estar comigo”, diz a hoje coordenadora de marketing.

Com nove irmãos, fez cursinho com bolsa e entrou em Administração, na USP, em 2016. Agora, sente a responsabilidade de representar, além da família, outros jovens negros. “Consigo ser um exemplo. Meus irmãos passaram a ter outra perspectiva para sonhar.”

PRÓXIMA TURMA

Segundo Lia Romano, gerente de programas de estágio do Google, o sucesso do Next Step está relacionado a um trabalho de desenvolvimento apoiado em três mentorias: funcional, cultural e por demanda. A primeira era dada por um especialista que trabalhava no dia a dia com o estagiário e dizia respeito ao desempenho de sua função. A segunda era oferecida pelos Afro Googlers, colaboradores que se autodeclaram negros e que ajudavam a turma a se aculturar na empresa. Já a terceira era realizada de acordo com as necessidades dos estagiários.

Com 21 estagiários, a primeira edição do Next Step terminou em agosto deste ano. Segundo o Google, a grande maioria foi efetivada. “A longo prazo, o objetivo é transformar a nossa força de trabalho no que é a representação da população brasileira, aumentando a inclusão de pessoas negras.” Em 2022, começa a segunda edição do Next Step.

EU ACHO …

O GATO, O FILHINHO, A CUECA PENDURADA

Nas reuniões do Zoom, a graça está quando o mundo real se apresenta

Meu caso não é dos mais exagerados, mas conheço pessoas que acabam passando o dia inteiro em reuniões do Zoom.  Pode ser muito estressante, claro. Mesmo assim, há pontos positivos no sistema.

Nem falo da possibilidade de fazer outras coisas enquanto a reunião se prolonga. Sempre dá para ter um celularzinho no colo. E também não é impossível desligar a câmera em situações estratégicas, enquanto conferimos um e-mail, encomendamos um tênis no loja online ou comemos uma barra de cereais.

Mesmo sem esses artifícios, por vezes encontro no Zoom algo que me ajuda a vencer a chatice em que me meti.

É um prazer afinal de contas, saber como é o quarto, a sala ou o escritório dos participantes. Os mais tímidos, como eu, se esforçam para falar a partir de um fundo neutro, a mera parede branca ou a porta do armário embutido fechado.

Há  casos intermediários – uma nesga de cama desarrumada, uma poltrona lateral onde se penduram casacos, calças, ou, com sorte, cuecas e sutiãs. Já é alguma coisa para quem gosta de xeretar.

O sujeito fala, fala e lá atrás está o cuecão, como um relógio de Salvador Dalí derretendo  no criado-mudo… Mas aí convém avisar a pessoa.

O clássico, como se vê em toda entrevista de televisão, é que o fundo do zoom seja uma parede de livros.

É frustrante quando não podemos examinar um por um, os itens de cada biblioteca. Reconhecemos os livrões – tipo “Notícias do Planalto; a série de Elio Gaspari sobrea ditadura, um dicionário Houaiss, as cem receitas do chef fulano de tal, a “História da Inteligência Brasileira”, de Wilson Martins. Mas eu queria mais.

E há os entrevistados que, pelas costas nada mais mostram além de lombadinhas de publicações acadêmicas e grossas teses de doutorado em espiral. Nem mesmo livros essa gente pode possuir! A vida universitária é de tal modo intensa que lhes roubou esse luxo.

Não – o bom é quando temos uma visão maior da sala, com tapetes artesanais em cima do chão de lajotinhas, a janela dando para uma vegetação tropical, um abajur com trançado de palha…

A pessoa faz o Zoom refugiada em alguma casa de campo, longe dos riscos da pandemia, e distrai os participantes da reunião com mais do que quatro paredes de um apartamento.

Mas minha maior torcida é pelas intervenções fora de controle. Alguém passa atrás do participante: quem será? Ele se vira, desliga o microfone, fala qualquer coisa. Contenho-me para perguntar o que se passa.

O que se passa? O que passa? Quem passa? A resposta não é difícil: a realidade. O mundo real, as pessoas reais.

Mais reais ainda quando são crianças pequenas. Aí é uma alegria, vale por cinco reuniões chatíssimas. O interlocutor, o  entrevistado, o especialista, alinham retrospectos, diagnóstico, planos e previsões, sem saber que um duendezinho de dois anos já entrou no quarto, derruba a xícara de café, rouba um peso de papel e – olha!­ já subiu pelas pernas do pai ou da mãe e bagunçou a reunião.

Nada melhor do que ver algo realmente importante interferir naquele Zoom tão rotineiro. Há figurinhas mais discretas que entram sem fazer barulho, os gatos pulam pelas costas do falante, caem com as quatro patas em cima de documentos e relatórios, voam do sofá até o tapete, sobem as poltronas e, cuidado! Jogaram a cueca para trás das costas da poltrona, de onde nenhuma empregada doméstica irá recuperá-la no curto prazo.

Adeus, cuecas! Bom dia, gato amarelo! Mas, que pena, já desapareceu. Lá se foi ele pela porta; provavelmente está atrasado, tem de entrar em outra reunião.

Meu interlocutor continua falando, nem percebeu o fantasma de pura vivacidade que acabou de cruzar a minha tela. O gato está submerso no silêncio de sua vida instintual; é  um mergulhador misterioso, que transita num mundo mais denso, menos quebradiço do que o nosso.

No Zoom, cada um de nós, é vibração irregular de fótons e frágeis sinais de telefonia. Já o gato, o bebê, a cueca pendurada, o tapete ,os livros – tudo isso tem outra pulsação, mais quente, feita de matéria real; coisa capaz de susto, imprevisto, encanto e surpresa, como a vida.

*** MARCELO COELHO

ESTAR BEM

O PESO NA BALANÇA

A proibição da venda de anfetamínicos no Brasil volta a tocar na polêmica sobre o uso de remédios para emagrecer. Se bem indicados por um profissional, não há problema algum nisso

Falta de força de vontade, de autocontrole. São muitas as fragilidades atribuídas ao indivíduo obeso. Infelizmente, até hoje prevalece o estigma de que a obesidade seria consequência de um comportamento preguiçoso, quando, na verdade, se trata de uma doença complexa contra a qual não há caminhos únicos. Na esteira da desinformação, quem mais sofre é o paciente, que se vê perdido e incapaz de compreender a própria condição. O fardo é maior para os que necessitam de remédios, com facilidade tachados de dependentes, fracos ou outras bobagens do gênero. Na semana passada, essa parcela de pacientes foi surpreendida com a notícia de que alguns medicamentos não estarão mais disponíveis no mercado. Isso graças a uma resolução do Supremo Tribunal Federal tomada no dia 14 de outubro, derrubando uma lei que autorizava a produção, venda e consumo dos anfetamínicos anfepramona, femproporex e mazindol. Na prática, o tribunal voltou a deixar a decisão a cargo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que em 20ll já havia proibido a utilização das medicações.

Só ficou de fora da proibição a sibutramina, o emagrecedor com registro mais antigo no país – desde março de 1998 – e o único disponível no Sistema Único de Saúde. Criado como antidepressivo, ele aumenta a sensação de saciedade. Embora seja a primeira escolha quando é preciso usar medicamento, é contraindicado para quem tem doença cardiovascular ou faz acompanhamento psiquiátrico. Existem também pessoas que não respondem à droga. “Agora, com a proibição dos outros remédios, há pacientes que podem ficar sem medicamento nenhum”, diz Maria Edna de Melo, presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

A situação ocorreria porque, segundo a especialista, os outros dois fármacos para emagrecer liberados pela Anvisa, a liraglutida (retarda o esvaziamento gástrico, aumentando a saciedade) e o orlistat (impede a absorção de gordura), são caros e dificilmente serão disponibilizados pelo SUS. Uma caixa de liraglutida custa em média 450 reais e a do orlistat, 150 reais. A Anvisa, porém, mantém a posição de que os riscos dos anfetamínicos superariam os benefícios. Entre os perigos, estariam a possibilidade de desenvolvimento de dependência física e psíquica, ansiedade, taquicardia, hipertensão e problemas cardiovasculares. A agência também afirma que não existem evidências de eficácia a longo prazo.

As questões em torno da anfetamina são antigas. Droga sintética que estimula a atividade do sistema nervoso central, com indicações médicas para o transtorno do déficit de atenção e narcolepsia – distúrbio que causa sonolência excessiva -, foi preparada em laboratório pela primeira vez em 1887, pelo químico romeno Lazár Edeleanu, na Universidade de Berlim, na Alemanha. Utilizada durante a II Guerra Mundial, tinha a finalidade de manter os soldados acordados e ativos. Naquela época, observou-se que ela reduzia a fome e a fadiga. Mais tarde, quando se comprovou que realmente inibia o apetite, passou a ser usada por pessoas que queriam perder peso. Até hoje, é o remédio para emagrecer mais popular do planeta. Particularmente no Brasil, porém, ela se tornou um problema. Em 2007, o país apareceu como o maior consumidor de anorexígenos – medicamentos moderadores de apetite à base de anfetamina – do mundo em relatório anual da Organização das Nações Unidas, com ingestão de cerca de 12,5 doses diárias, contra 11,8 na Argentina, 9,8 na Coreia do Sul e 4,9 nos Estados Unidos.

No ano seguinte, surgiu no levantamento do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crimes como o terceiro maior consumidor de anfetaminas do globo. “Representa um padrão preocupante que indica abuso no número de receitas”, dizia o documento. Hoje, sabe-se, o problema envolvendo as anfetaminas por aqui é seu uso indiscriminado e excessivo. “Existe muita venda ilegal e prescrição abusiva com altas doses receitadas por médicos que não são da área”, diz a endocrinologista Maria Edna de Melo, da SBEM. O resultado são pacientes com agitação, irritabilidade acentuada, algo que não aconteceria com a dose correta. “Esses remédios estão há décadas no mercado e não se tem registro de efeitos colaterais graves quando usados adequadamente”, afirma.

A médica toca no ponto fundamental que determina se a utilização de remédios para perder peso será efetiva ou não. Assim como em todo tratamento, é preciso saber a quem, quais e como as medicações devem ser empregadas. Nas diretrizes brasileiras de tratamento, a indicação leva em conta o IMC (índice de massa corpórea) acima de 30 kg/m’ e a presença de doenças associadas à obesidade, como triglicérides aumentado, gordura no fígado e apneia do sono. Entre 30 e 25, faixa de sobrepeso, recomendam-se mudanças de estilo de vida com dietas, atividade física e hábitos saudáveis.

Nos Estados Unidos, onde é permitida a venda de anfetaminas para emagrecimento, o Instituto Nacional de Saúde preconiza que indivíduos com IMC 27 podem ser medicados caso apresentem enfermidades correlatas. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 96 milhões de brasileiros apresentam IMC maior do que 25 kg/m’, o que equivale a cerca de 60,3% da população adulta do país. É muita gente com a saúde sob ameaça, sabendo-se que o excesso de peso é fator de risco para infartos, acidente vascular cerebral e alguns tipos de câncer. Portanto, como qualquer outra doença, a obesidade precisa ser enfrentada adequadamente. Se tiver de ser com remédio, que seja.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUANDO O TRABALHO É UM REMÉDIO PARA A MENTE

Pessoas com diagnóstico de transtorno mental lutam para combater estigma no mercado e afastar associação com incapacidade profissional. Enquanto o tema permanece tabu nas empresas, as oportunidades são escassas

Acompanhamento psicológico e medicamentos são essenciais para a saúde mental de Manoel Nogueira, de 55 anos, que recebeu diagnóstico de depressão e transtorno de ansiedade há sete anos. Mas o trabalho, conta, tem sido o melhor remédio. Repositor de produtos na rede de supermercados Super Prix, no Rio, Nogueira valoriza, além do salário, um lugar no mercado de trabalho, o convívio social e a sensação de ser visto, benefícios muitas vezes negados a pessoas com transtornos mentais no país.

“Foi o trabalho que me recuperou”, diz. “Para uma pessoa que está com transtorno mental, é essencial conviver com as pessoas, ocupar a cabeça e se sentir útil. A depressão mexe com a memória, com a concentração, e o trabalho me devolveu isso”.

Nogueira foi selecionado a partir do Projeto de Inclusão Social pelo Trabalho de Usuários da Rede de Saúde Mental (Pistrab), do Núcleo de Saúde Mental e Trabalho (Nusamt) da Secretaria de Trabalho e Renda do Estado do Rio. O projeto faz a ponte entre pacientes e empresas.

“São pessoas que querem trabalhar, e os tratamentos e medicamentos hoje disponíveis tornam as relações profissionais totalmente possíveis para elas. Mas há um descompasso no social. Falta acesso ao mercado de trabalho”, diz a psicóloga e psicanalista Doris Rangel Diogo, coordenadora do Polo Pistrab no Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro.

CAMPEÃO DE ANSIEDADE

Embora muitas empresas venham se pautando em temas de diversidade, a inclusão de profissionais com algum histórico de transtorno mental caminha lentamente. No fim de 2019, 48% dos pacientes atendidos no Pistrab e elegíveis para o trabalho ainda esperavam uma oportunidade.

Tampouco existem leis de incentivo à contratação dessas pessoas no país, que é o mais ansioso do mundo (com 20 milhões de casos) e o quinto mais deprimido (com 12 milhões de casos). Algumas são incluídas pela Lei de Cotas, que estabelece que empresas com cem ou mais empregados preencham parte das vagas com pessoas com deficiência física ou intelectual. Mas o termo, amplo demais, perpetua exclusões.

“Muitas vezes as empresas buscam pessoas com deficiências leves ou escolhem alguma deficiência específica, mantendo o raciocínio de exclusão”, diz Doris.

Não à toa, pessoas com diagnóstico de transtorno mental têm receio de admiti-lo a potenciais empregadores. A consultora autônoma Fabiana (ela prefere omitir o sobrenome), de 44 anos, deixou a carreira de executiva em São Paulo em meio a uma  depressão. Tempos depois, com um diagnóstico de transtorno bipolar e tratamento estabilizado, ela tentou retomar a atividade profissional, mas não foi fácil.

“Estava há muito tempo afastada e criei coragem. Mas, na entrevista para uma empresa, fiquei com medo de perguntarem (sobre o transtorno). O que eu diria? Mentiria?”, lembra. “Existem empresas que perguntam sobre isso e não contratam. E isso acaba com a pessoa que recebeu um diagnóstico, mas tem plena condição de exercer qualquer função.

RECORDE DE AFASTAMENTOS

No mês passado, Fabiana e uma amiga, a psicóloga Lucy Portela, fundaram um movimento para combater o estigma de pessoas com diagnósticos de transtorno mental no mercado. Da experiência delas, nasceu o Worthy minds (Mentes que valem).

“O projeto tem o apelo da arte como cura. Há uma vitrine para a exibição de trabalhos. É também um espaço de acolhimento, de depoimentos. E oferecemos apoio a pessoas como diagnóstico, além de rodas de conversas em empresas”, explica Fabiana.

Não há dados oficiais no país sobre trabalhadores com diagnóstico de transtorno mental, e é difícil saber se a ausência de informações causa o estigma ou se o estigma alimenta a falta de dados.

Segundo o Ministério do Trabalho e Previdência, os dados disponíveis referem-se aos afastamentos (temporários ou permanentes) relacionados à transtornos mentais. Em 2020, foram concedidos 285.221 benefícios de auxílio-doença relacionados a essa causa – o maior patamar dos últimos 14 anos e a terceira maior causa de concessão desse tipo de benefício do INSS no ano passado.

“A Organização Mundial da Saúde alerta que uma em cada quatro pessoas sofrerá com um transtorno de mente ao longo da vida. Apesar disso, são raras as empresas que mantêm um programa de saúde psicológica e emocional para seus empregados. A maioria dos casos ainda é tratada como tabu”, diz Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria(ABP).

Com tratamento estabilizado, diz Silva, não há nenhum empecilho à atividade profissional de pessoas com diagnóstico de transtorno mental. O estigma acaba relacionado ao desconhecimento na sociedade, que por sua vez leva ao preconceito, discriminação e distanciamento desse grupo, diz o presidente da ABP:

“Quando o trabalhador apresenta uma condição cardiovascular, diabetes ou até mesmo trauma ósseo, como ele é tratado pelo médico do trabalho? Por que esse tratamento muda quando falamos de depressão, esquizofrenia ou transtorno bipolar?”.

APOIO FEZ DIFERENÇA

Há exceções, e elas inspiram otimismo. A executiva Dyene Galautini, de 46 anos, foi diagnosticada com transtorno bipolar há 16 anos. Passou por internação, tratamento, grupos de apoio. Mergulhou fundo no estudo do diagnóstico. Quando melhorou, decidiu contar a amigos e colegas de trabalho, mas com medo.

“Para minha surpresa, meu chefe me apoiou e disse para assumir quem eu era”, lembra ela, que é diretora de Marketing Global da consultoria IHS Markit.

Em 2017, ela publicou o livro “Vencendo a mente”, que deu origem a um projeto homônimo, com palestras em organizações e empresas.

“Minha meta é a conscientização. Para as pessoas buscarem tratamento e, para as empresas e escolas, verem que não somos diferentes”, diz. “Quem tem transtorno mental e está estabilizado vive em segredo, porque tem medo do preconceito. E quem não está estabilizado não tem referências. As pessoas precisam ver que existe um futuro possível.

OUTROS OLHARES

PERSEGUIÇÃO PUNIDA

Após stalking se tornar crime, denúncias à polícia mostram como prática é comum

A senadora Leila  Barros (Cidadania-DF) já contou que sua vida virou um inferno quando passou a ser perseguida no tempo em que era jogadora da seleção brasileira de vôlei.

“Começou uma relação saudável, entre ídolo efã. De repente a pessoa começou a ficar mais presente, ia assistir ao treino, me esperava. Eu descia para comprar pão perto da minha casa, ela aparecia. Comecei a me afastar. A pessoa começou a ficar agressiva, ia ao ginásio xingar. Fiquei na de ignorar até que um dia vi meu carro arranhado. Tive medo de estar só muitas vezes”, conta a senadora.

Foi Leila quem apresentou um projeto, que depois virou lei, criminalizando casos como esse, chamados de “stalking”. O crime ocorre quando alguém tem obsessão por outra   pessoa a ponto de ameaçar sua liberdade e sua segurança.

O stalking é mais do que mero incômodo ou irritação. São ligações constantes, muitas mensagens, visitas inesperadas e até mesmo tentativas de invadir dispositivos eletrônicos que caracterizam a prática. Em geral, as vítimas são mulheres. A lei foi sancionada apenas em março de 2021, mas já levou à apresentação de milhares de queixas nas delegacias brasileiras e até mesmo à decretação de prisão preventiva de acusados. São casos que antes seriam apenas contravenções penais, de baixo potencial.

Dados obtidos de secretarias de segurança do Distrito Federal e de quatro dos estados mais populosos do país – São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul – mostram como a prática é disseminada. Foram 242 ocorrências registradas ao Distrito Federal entre 1º de abril e 9 de junho, 45 no Rio em agosto e entre abril e setembro, 2.633 no Rio Grande do Sul e 2.113 no Paraná. Em São Paulo, os números divulgados mostram 686 queixas em abril.

CRIMES RELACIONADOS

Em Brasília, a média de casos foi de mais de três por dia, 85% das vítimas são mulheres e 56% dos casos também foram enquadrados na Lei Maria da Penha. Em 8% das vezes, o crime foi pela internet.

A promotora de Justiça Ana Lara Camargo de Castro confirma que a maioria das vítimas é mulher, e o stalking é muito associado à violência doméstica e à perseguição pelo ex-companheiro, que costuma conhecer detalhes da vida da vítima. Hoje coordenadora do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado no Ministério Público de Mato Grosso do Sul, Ana Lara já atuou por quase dez anos na Promotoria de Violência Doméstica. Segundo a promotora, em muitos casos, a prática pode levar à violência sexual, agressão física e homicídio.

JUIZADOS ESPECIAIS

A promotora destaca que é comum que a perseguição comece pela internet. Ela avalia que a lei é importante para combater o crime porque antes não era possível registrá-lo e não havia estatísticas. Mas critica o tamanho da pena, de até dois anos, quando não há causa de aumento, por outro crime em conexão com a perseguição. Em algumas situações, como quando a vítima é menor de idade ou idosa ou quando o crime é cometido contra uma mulher por misoginia, a detenção pode chegar a trêsanos. Crimes com pena máxima de dois anos são julgados nos juizados especiais criminais.

“É um tipo penal de menor potencial ofensivo, a opção do legislador não assegurou uma proteção maior à vítima. É tratado nos juizados especiais sem o rigor que esse tipo de delito mereceria”, opina.

Muitas vítimas preferem não comentar ou falar de forma reservada por medo. Maria Tereza (nome fictício), de São Paulo, foi estuprada e denunciou o caso na internet. Isso fez com que também fosse vítima de stalking, quando a prática ainda não tinha sido criminalizada. Foi perseguida, xingada e os parentes também sofreram consequências. Hoje, ela usa outro sobrenome e ainda tem dificuldades para falar do assunto porque chegou a uma “situação-limite”.  Há quatro anos, o caso nem chegou a ser denunciado. Ela conta que conseguiu retirar várias postagens do ar, mas não foi uma tarefa fácil.

“O custo foi bem alto. Eles deixaram os casos chegarem ao limite. A vida acaba, eu tive estresse pós-traumático. Minha família, meus filhos sofreram a dor colateral dessa violência”, afirma.

Considerado o primeiro caso tipificado de stalking no Distrito Federal, uma mulher foi presa em maio depois de perseguir e agredir os vizinhos por 14 anos, xingando, ameaçando e até jogando lixo na piscina. O delegado João Ataliba, que atuou no caso, cita o episódio como um que, antes da lei, seria uma contravenção penal, em que a denúncia feita na delegada não seria resolvida no Judiciário. Na avaliação de Ataliba, agora é possível uma ação mais rápida, principalmente para evitar o feminicídio.

Paro o delegado, os casos que mais chamam atenção são os ligados a atos de violência doméstica de quem não se conforma com o fim da relação, podendo até ter homens como vítimas. O policial conta que recentemente, após ameaças, uma mulher ateou fogo em uma clínica do ex-namorado:

“É importante procurar a delegacia mais próxima e também retornar quando há reincidência, avisando quando há descumprimento de medidas restritivas”.

TRATAMENTO PSIQUIÁTRICO

Também em Brasília, em maio deste ano, uma médica procurou a delegacia para denunciar um homem que havia entrado em contato com ela por uma rede social e depois a procurou em seu consultório, quando perguntou se ela achava que ele estava armado. Assustada ela procurou a polícia. As mensagens e as idas ao local de trabalho continuaram e a médica contratou um advogado criminalista, que pediu medidas protetivas.

O homem foi proibido pela Justiça de se aproximar e de se comunicar com ela, mas continuou enviando mensagens. As dúvidas sobre sua sanidade mental levaram à sua internação em um hospital e depois a um tratamento psiquiátrico na penitenciária. Em outubro, após quase três meses, ele foi solto sob a condição de ser submetido a medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica.

Em alguns casos, o desfecho é trágico. Stephanie Souza, de 19 anos, foi morta em maio de 2018, em Simões Filho (BA). O suspeito do crime, que foi preso apenas esta semana, tinha obsessão pela vítima, mesmo com a estudante não tendo interesse por ele.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 07 DE DEZEMBRO

JUSTIÇA, ALEGRIA DE UNS E PAVOR DE OUTROS

Praticar a justiça é alegria para o justo, mas espanto, para os que praticam a iniquidade (Provérbios 21.15).

Quando a justiça prevalece, os maus se perturbam, e os justos se alegram. O que é bálsamo para uns é tormento para outros. A justiça não interessa aos que vivem à margem da lei. A verdade é uma luz que incomoda os olhos doentes dos iníquos. A justiça é como uma ferida na carne daqueles que obram o mal. Quando se faz justiça, os malfeitores se apavoram e se enchem de espanto, enquanto os justos se alegram, pois para eles a prática da justiça é motivo de prazer e deleite. O apóstolo Paulo escreve aos romanos: Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela (Romanos 13.3). O transgressor logo se aflige ao ver um agente da justiça. Um ladrão imediatamente se apavora ao ouvir a sirene de um carro policial. Um motorista flagrado na transgressão de uma lei de trânsito não se sente protegido ao esbarrar com um agente de trânsito. Os que violam a lei e praticam a iniquidade querem viver na escuridão. A luz da verdade atormenta-lhes a alma, e o fulgor da justiça perturba-lhes o coração. Não é assim a vida do justo. A prática da justiça é seu refúgio, e o fruto da justiça, o seu prazer.

GESTÃO E CARREIRA

APÓS MESES DE TRABALHO REMOTO, NOÇÃO DE PRODUTIVIDADE É REAVALIADA

Para muitas pessoas, produzir por um maior número de horas deixou de ser uma grande meta

Seu dia foi produtivo? Essa é uma pergunta complicada, especialmente para algumas das muitas pessoas que passaram os últimos 19 meses trabalhando remotamente.

Parte do problema é a definição do que quer dizer produtividade. Como indicador macroeconômico, o termo significa a produção total por hora trabalhada. Ou seja, o mínimo de, por exemplo, frigideiras que um trabalhador consegue produzir em uma hora.

Esses dados são reportados em base trimestral ao Serviço de Estatísticas do Trabalho dos EUA, e os economistas os empregam para determinar o grau de eficiência de uma sociedade, e se o seu padrão de vida está subindo.

Em um nível mais profundo, medir produtividade é muito mais complicado. Como se mede a produtividade de um segurança, por exemplo, ou a de um neurocientista?

De qualquer forma, esse tipo de produtividade da mão de obra parece ter crescido durante a pandemia.

“Estou mais otimista quanto ao crescimento da produtividade agora, na metade de 2021, do que estava dois anos atrás, antes da pandemia”, disse Chad Syverson, professor de economia na Escola Booth de Administração de Empresas, Universidade de Chicago.

Produtividade tem outro significado, porém, que terminou por chegar às estantes de livros de autoajuda. Produtividade, nesse sentido, se tornou um jargão valorizado, com todo um ecossistema de consultores para ajudar as pessoas a ticar mais itens em suas listas de tarefas a cada tarde.

Ainda que a palavra seja a mesma, a produção da economia em um trimestre não é a mesma coisa que aquilo que um indivíduo qualquer consegue realizar em um dia. Mas a disparidade entre essas duas formas de pensar sobre produtividade pode estar distorcendo nosso senso pessoal daquilo que estamos realizando. E a pandemia não ajudou.

“Um teste de produtividade para a economia da era da pandemia é perguntar a um grupo de pessoas se elas estão em situação melhor hoje do que estavam dois anos atrás, e acho que a maioria das pessoas responderia que está muito pior”,  disse Gregory Clark, professor de economia na Universidade da Califórnia em Davis. “De alguma forma, não estamos capturando certos elementos da situação, quando usamos indicadores convencionais”.

Os trabalhadores em geral declaram, em pesquisas, que são mais produtivos trabalhando em casa. Mas aqueles que trabalham remotamente precisam lidar com mais interrupções e preocupações imediatas, como cuidar de filhos. A perda de distinção entre vida e trabalho torna mais difícil avaliar quanto trabalho uma pessoa faz por hora, ao longo do dia. A falta de motivação, depois de 19 meses de tédio causado pela pandemia também pode estar reduzindo a capacidade de pelo menos uma parte dos trabalhadores para realizar suas tarefas. E mesmo aqueles que afirmam que são produtivos em casa quanto eram no escritório podem se sentir mais solitários e menos engajados.

Os americanos há muito encaram a produtividade como uma virtude comparável à de acordar ao raiar do dia, ou comer saladas nas refeições. Benjamin Franklin, em sua autobiografia, delineou uma agenda diária que começavam  por uma pergunta: “Que bem farei ao mundo hoje?”, e incluía acordar às 5h e ocupar todas as horas até as 11h com trabalho ou outras rotinas.

Franklin com certeza não era a única pessoa que dividia rigorosamente seu tempo. “Na verdade, muita gente no século 18 (homens e mulheres) tendia a dividir as horas do dia de maneira a criar a maior oportunidade possível para concluir tarefas”, afirmou Carla Mulford, professora de inglês na Universidade Estadual da Pensilvânia e pesquisadora especializada em Franklin, por e-mail.

“Se elas não tinham relógio em casa, prestavam atenção aos sinos das igrejas. Ou acompanhavam o percurso do sol lá no alto para saber quando era hora de deixar de fazer uma coisa e começar outra”.

A versão pessoal de Franklin para a produtividade – aquilo que uma pessoa de fato faz durante o dia – vem sendo a definição operacional, e se aplica a numerosas indústrias. À medida que o mundo se tornou mais complicado, e que as pessoas passaram a se ver como muito mais do que a soma das tarefas que tinham de executara cada dia, aplicar esse limitador de produtividade nos indivíduos foi se tornando um desafio cada vez maior.

Chris Balley, consultor de produtividade e autor de “The Productivity Project”, definiu a produtividade como “simplesmente fazer o que você determinou que faria”.

Quando adolescente, ele devorava livros sobre produtividade, uma obsessão que o consumia a tal ponto que ele chegou a recusar ofertas de emprego em período integral ao se formar na universidade, para poder dedicar um ano a escrever sobre produtividade.

Como parte dessa busca, ele se usou como cobaia em experiências – trabalhando 90 horas por semana, ou ‘me tornando um completo vagabundo por uma semana ou ganhando cinco quilos de peso, somente em massa muscular.

Há pessoas que encontraram desafios especialmente complicados para manter a produtividade durante a pandemia. Metade dos pais que ficaram trabalhando em casa e que têm filhos de menos de 18 anos de idade, e quase 40% das pessoas dos 18 aos 49 anos que trabalhavam remotamente, disseram que era difícil para elas realizar seu trabalho sem interrupções, de acordo com o Pew Research Center.

Assim, é possível que as pessoas que trabalham de casa também tenham uma sensação falsa sobre o quanto estão trabalhado. Na verdade, as pessoas que trabalham de casa talvez estejam usando o denominador errado ao calcular a proporção de seu tempo que dedicam ao trabalho, disse Syverson, da Universidade de Chicago.

Isso pode fazer com que elas sintam estar trabalhando menos quando na verdade têm o mesmo volume de trabalho.

“Creio que haja alga a considerar no fato de que muitos trabalhadores que estão em casa não dividem seu dia em horas de trabalho e horas de lazer”, ele disse. ‘Em lugar de dividir o dia de uma forma que os faz passar oito horas trabalhando, eles dividem o trabalho pelas 16 horas do dia que passam acordados”.

Enquanto os empregadores tentam descobrir maneiras de redespertar o engajamento de seu pessoal e levar as pessoas de volta aos escritórios vazios, maneiras de extrair o máximo de uma força de trabalho se tornaram um quebra-cabeças para os gestores, com implicações profundas para a economia.

Alguns desses empregadores já anunciaram planos para dar mais flexibilidade aos empregados. O Twitter anunciou que os trabalhadores que conseguirem podem trabalhar de casa de forma definitiva

Brigid Schulte, diretora do Better Life Lab na organização de pesquisa New América e autora de um livro sobre pessoas sobrecarregadas de tarefas, disseque a cultura americana acredita há muito tempo que trabalhar por mais tempo quer dizer trabalhar com mais afinco e ser mais produtivo, a despeito de falhas nesse raciocínio. Ela ressalta o fato de que há um “precipício de produtividade”: trabalhadores só são produtivos por um determinado número de horas, e depois disso sua produtividade cai e eles podem começar a cometer erros.

“Há muito tempo fazemos uma conexão errônea entre a ideia de trabalhar por muito tempo e de trabalhar com afinco, e acreditamos que isso representa mais produtividade, mas essa ideia nunca foi verdade”, disse Schulte.

A pandemia causou um despertar coletivo com relação a prioridades culturais, nascido de um medo constante de contágio e morte. Para muita gente, especialmente os trabalhadores que mantiveram seus empregos e puderam trabalhar remotamente, a produtividade pessoal – pelo menos no sentido de produzir mais pelo maior número de horas -­ deixou até de ser uma meta.

Algumas pessoas tiveram mais tempo para explorar hobbies e passar mais tempo com  suas famílias, o que pode ter ajudado a mudar sua forma de imaginar como esperam passar seus dias. Muitos perderam entes queridos ou viram parentes adoecer.

Aqueles que têm filhos pequenos em casa e trabalharam remotamente durante a pandemia podem ter redefinido completamente o significado de produtividade de forma a conciliar o papel híbrido de trabalhadores e cuidadores. “O que é que mais importa?”, disse Jeffrey Sanchez Burks, cientista comportamental da Escola Ross de Administração de Empresas, na Universidade de Michigan. “É a carreira? É ter um horário flexível? É passar tempo com a família? Há muita discussão e reflexão em curso sobre o que propicia uma boa vida, e não creio que o resultado dessa discussão penda para o lado do “seja mais produtivo”.

EU ACHO …

TALENTO X ESFORÇO

Entre as características pessoais que mais admiramos como sociedade está o talento. Ter um talento especial parece ser uma bênção preestabelecida como uma mostra do quão especial é o detentor daquela qualidade. Como se nascer com determinada habilidade fosse símbolo de virtude. A injustiça se faz presente na base desse pensamento, já que não depende de nós nascer com determinada capacidade. Ficamos à mercê da sorte, do destino ou de uma benção.

A situação se agrava com o passar do tempo. Mas quando o talento específico se torna reconhecido pela sociedade temos aquilo que é chamado de efeito halo. Tal acontecimento foi estudado e nomeado pelo psicólogo norte americano formado em  Harvard Edward Thorndike. De acordo com ele, esse efeito acontece quando temos a avaliação de um aspecto do indivíduo e essa característica intervém no julgamento da personalidade por inteiro dessa pessoa.

O efeito halo demonstra a interferência na simpatia que temos por pessoas que apresentam cerras características que admiramos. O  talento de alguém, mesmo que específico, nos leva a admirá-lo em outras áreas, como um efeito daquela impressão. Dessa forma podemos considerar e confundir talento com virtude. Criada uma primeira impressão, temos a tendência de só captar características que vão confirmar essa mesma impressão. Dessa forma, pessoas esforçadas e consideradas sem talento saem em desvantagem com relação à simpatia gerada espontaneamente pelos que possuem tal bênção.

Depois de cinco décadas, entendo o abismo entre talento e o que realmente altera o rumo de uma existência: o esforço. Se comparados talento e esforço, o primeiro é mais atraente e desejado, claro. Mas a vida mostra sua complexidade justamente nessa ilusão. Sem esforço, o talento aos poucos desaparece, mas com esforço por vezes nascem talentos. A beleza que, como um talento, é algo recebido de graça e cria o tal efeito halo à primeira vista, sem o esforço relacionado à educação e à simpatia na comunicação, no que se transforma? E o talento de uma linda voz sem determinação de se fazer ouvida e cantada a mensagem que deve ser produzida?

O esforço preenche o talento. Aos poucos talentosos e muito esforçados vai aqui minha experiência. Sou hoje chamada de uma mulher talentosa, quando sou, na verdade, uma pessoa esforçada que lutou para aprimorar pequenas qualidades. As cinco décadas que separaram a menina comum foram preenchidas com dedicação e comprometimento, esforço reconhecido hoje como bênção.

*** ALICE FERRAZ

ESTAR BEM

OBESOS E MALNUTRIDOS

Estudos mostram como a má alimentação afeta crianças com até 5 anos no Brasil

Mais de um terço das crianças com até 5 anos de idade que foram levadas pelos pais para um consulta na atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS) no ano passado estavam com excesso de peso, o que inclui o sobrepeso e a obesidade, fatores de risco para doenças como hipertensão, diabetes, câncer e, mais recentemente, a Covid-19. E quase a metade dessas mesmas crianças, a partir dos seis meses de vida, já consumiam alimentos, utraprocessados, como salgadinhos, biscoitos e refrigerantes – no recorte de 2 até 5 anos, esse índice subiu a 83%.

As informações compõem o “Panorama da obesidade em crianças e adolescentes”, base de dados lançada pelo Instituto Desiderata a partir de registros coletados pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Ministério da Saúde. O levantamento é um importante retrato da saúde infantil e se configura como um dos mais completos já realizados no país.

“O começo (davida alimentar)já é errado. Por uma série de fatores, não conseguimos mais do que 30 e poucos por cento das mães amamentando exclusivamente os filhos até o sexto mês de vida, Ai, depois disso, como a fórmula é cara, muitas crianças vão direto pro leito de vaca, que tem poucas vitaminas, causa sobrecarga renal pelo excesso de proteínas… Do primeiro ao quinto ano, ela já vai pro biscoito, refrigerante, achocolatado, bolo” explica AryLopes Cardoso, presidente do Departamento de Suporte Nutricional da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

A leitura das informações possui algumas limitações: o Sisvan divulga números absolutos de crianças acompanhadas em cada município, e não a porcentagem do total. Além disso, o percentual de registros no sistema sobre estado nutricional (15,39%) e consumo de alimentos por crianças e adolescentes no país (3,16%) ainda é baixo, apesar dos avanços nos últimos anos.

Para Cardoso, no cenário alimentar brasileiro, é alto o risco de uma criança com excesso de  peso se tornar um adolescente obeso e, consequentemente, um adulto com problemas para emagrecer também.

“Essas crianças estão em uma fase da vida de um crescimento muito rápido, incluindo uma hiperplasia (aumento no número) das células gordurosas, onde vai cabendo mais gordura. E chegam à adolescência com muitas células adiposas que, grandes, vão sendo abastecidas com mais gorduras trans, que causam diabetes e problemas cardiovasculares”, explica o nutricionista.

EDUCAÇÃO PELOS PAIS

Para ele, a chave está na educação alimentar dos pais, que conseguem interferir no cardápio dos filhos somente até os 11 anos deles. Quanto mais velho o adolescente, mais difícil fica o controle da ingestão calórica, diz Cardoso.

Além disso, os hábitos das crianças são influenciados diretamente pelos pais. As atitudes dos adultos em relação à alimentação refletem a forma como elas comem e desenvolvem o paladar.

Nos últimos anos, o problema se agravou com dois fatores: a falta de tempo para se dedicar à cozinha (inclusive na pandemia) e a crise financeira que empobreceu as famílias. Alimentos ultraprocessados, como macarrão instantâneo e nuggets, são mais fáceis de serem preparados e tendem a ser mais baratos.

“Por mais que os pais saibam que aquilo não faz bem, eles não têm tanta noção do quanto faz mal. O ultraprocessado é um disruptor endócrino, que pode mexer no balanço hormonal. Imagina numa criança. Tomar achocolatado, comer biscoito recheado todos os dias desde o fim da amamentação causa danos que a gente nem tem condições de mapear”, alerta a nutricionista Elisa Mendonça, analista de saúde do Instituto Desiderata. Atualmente, o instituto se mobiliza para aprovar na Câmara Municipal do Rio um projeto de lei que quer, entre outras coisas, vetar comidas processadas e bebida açucaradas nas escolas da cidade, sejam elas públicas ou privadas.

CARÊNCIAS NUTRICIONAIS

Além da obesidade, a outra face desse mesmo desajuste alimentar é a carência de nutrientes essenciais para o desenvolvimento das crianças. Também foi divulgada uma pesquisa inédita sobre o estado nutricional no começo da vida: encomendado pelo Ministério da Saúde, o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani-2019) analisou a incidência de anemia e de deficiências de vitaminas e minerais de 145 mil crianças em 123 municípios brasileiros.

E descobriu que a deficiência de vitamina B12 acomete 14,2 % das crianças de até 5 anos de idade, problema mais grave ainda na região Norte (28.5%) do país. As desigualdades também aparecem no recorte econômico no quesito raça/cor, visto que a proporção de crianças nessa situação é maior nas famílias mais pobres.

“Do ponto de vista global, 14% é um valor importante. Mais ainda quando se fala em criança pequena. É um nutriente que tem relação direta com a fonte alimentar, com não poder escolher (a comida), com faltar quantidade ou qualidade (de alimentos), visto que é obtido pela carne vermelha, peixes e aves”, explica o coordenador da pesquisa, Gilberto Kal, nutricionista pela UFRJ e mestre em saúde pública pela Fiocruz.

Segundo ele, apesar de os dados serem imediatamente anteriores à pandemia, já havia um cenário de pobreza alimentar nos lares brasileiros: a primeira etapa da mesma Enani-2019 mostrou que 47,1% das casas dos pais com crianças de até 5 anos estavam passando por insegurança alimentar, ou seja, não tinham dinheiro para a alimentação saudável e variada.

“O dado é pré-pandemia, mas é um contexto de piora que estava se desenhando antes, com retrocessos  em alguns dados, como o de mortalidade infantil. E serão anos de políticas públicas para reverter essa situação, não é com dois ou três anos”, explica.

Outros índices, como a prevalência de anemia (que é de 10,1% no geral, mas chega a 30,3% em crianças de 6 meses a 2 anos de idade da região Norte e a falta de vitamina A (6%), também preocupam.

Quando há falta de vitamina B12, antes a criança já tem déficit de ferro e talvez anemia. Isso pode acarretar um déficit de cognição e até um rendimento escolar reduzido a longo prazo. Lembrando que todos esses micronutrientes contribuem para um sistema imunológico atuante, e a falta deles pode causar ainda uma maior propensão a viroses”, complementa o pediatra Ary Lopes Cardoso.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CIENTISTAS CRIAM ‘MARCA-PASSO’ CONTRA A DEPRESSÃO

Pesquisadores americanos apresentam o primeiro estudo de estimulação cerebral profunda individualizada para tratar os casos graves. Terapia experimental é cara, mas pode abrir novos caminhos para o melhor controle da doença

Há cinco anos, voltando para casa do trabalho, uma mulher jovem da Califórnia estava tão sobrecarregada pela depressão que tudo que conseguia pensar era em acabar com sua vida.

“Não conseguia parar de chorar. O pensamento que me consumia durante todo o caminho de casa era apenas dirigir meu carro para o pântano para me afogar”, relembra Sarah, agora com 38 anos. Ela conseguiu chegar em casa, mas pouco depois foi morar com os pais porque os médicos não consideraram seguro ela viver sozinha.

Sem conseguir trabalhar, ela se demitiu do emprego na área de tecnologia em saúde. E tentou quase todos os tipos de tratamentos: cerca de 20 medicamentos diferentes, meses em um programa diurno no hospital, terapia eletroconvulsiva, estimulação magnética transcraniana. Mas, assim como em quase um terço das mais de 250 milhões de pessoas com depressão ao redor do mundo, os sintomas persistiram.

Então, Sarah se tornou a primeira participante de um estudo para uma terapia experimental. No momento, sua depressão está tão controlada que ela cursa aulas de análise de dados, voltou a morar sozinha e ajuda a cuidar da mãe, que sofreu uma queda.

“Em poucas semanas, os pensamentos suicidas simplesmente desapareceram. Depois, foi apenas um processo gradual em que era como se as minhas lentes para o mundo tivessem mudado”, disse Sarah, que é identificada apenas pelo primeiro nome para proteger sua privacidade.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos EUA, implantaram, no cérebro de Sarah, de forma cirúrgica, um aparelho do tamanho de uma caixa de fósforos operado por bateria – um “marca-passo para o cérebro”: alguns chamam – calibrado para detectar a atividade neural que ocorre quando ela está ficando deprimida. Então, ele emite pulsos de estimulação elétrica para evitar os sintomas.

Doze dias depois que o aparelho de Sarah estava completamente operacional, em agosto de 2020, seu nível em uma escala que mede o padrão da depressão caiu de 33 para 14 e, alguns meses depois, foi para menos de 10, essencialmente sinalizando uma remissão da doença, relataram os pesquisadores.

“O dispositivo tem mantido minha depressão sob controle, me permitindo retomar minha melhor versão e reconstruir uma vida que vale a pena ser vivida”, disse.

Sarah é o primeiro caso documentado da personalização de uma técnica chamada estimulação cerebral profunda para tratar com sucesso a depressão. Diversas pesquisas ainda são necessária antes de ficar claro o quão efetiva pode ser a abordagem e para quantos pacientes. Mas muitas equipes de cientistas estão trabalhando agora em maneiras para combinar a estimulação elétrica ao que acontece dentro do cérebro de cada paciente.

A estimulação cerebral profunda é usada para tratar o mal de Parkinson e outros distúrbios, mas não é aprovada pelas agências reguladoras federais para depressão porque os resultados têm sido inconsistentes. Enquanto estudos anteriores indicavam benefícios, dois testes patrocinados por empresas de dispositivos foram interrompidos na última década porque a estimulação não parecia provocar melhores resultados do que o efeito placebo.

Mas esses estudos não miraram locais individualizados ou padrões de atividades elétricas nos cérebros. Eles eram “tamanho único”, diz Darin Dougherty, diretor de neuroterapia do Hospital Geral de Massachusetts, que fez parte de um dos testes interrompidos. Ele chamou a abordagem personalizada de  Sarah,  na qual ele não estava envolvido, de “muito empolgante”.

“A depressão de uma pessoa pode parecer muito diferente da de outra”, explica Katherine Scangos, professora de psiquiatria da Universidade da California e autora de um relatório sobre o caso da Sarah publicado neste mês na revista científica Nature Medicine. Os demais autores foram Andrew Kristal, especialista em transtornos do humor, e Edward Chang, cujo trabalho  inclui implantes cerebrais para pacientes com paralisia que não conseguem falar.

O EXPERIMENTO

Para identificar o padrão de atividade cerebral específico ligado à depressão da Sarah, os pesquisadores fizeram uma exploração intensiva de dez dias em seu cérebro, colocando vários eletrodos e perguntando sobre seus sentimentos enquanto aplicavam estimulações em diferentes locais e em doses variadas.

Sarah se lembra de um momento de epifania, quando ela se sentiu como o “Pillsbury Doughboy”(mascote publicitário famoso nos EUA), emitindo uma “gargalhada gigante” que ela disse ser a primeira vez que riu e sorriu espontaneamente em cinco anos. Outra sensação a lembrou “estar em frente a uma lareira quente lendo um livro reconfortante”, enquanto um sentimento negativo parecia o arranhar de “unhas no quadro-negro”.

Em algum momento, a equipe identificou um padrão específico de atividade elétrica que coincidiu com o momento em que Sarah estava ficando deprimida.

A fase exploratória guiou os pesquisadores a implantar o aparelho estimulador no hemisfério direito do cérebro da Sarah e ligado a eletrodos em duas regiões. Uma, era o estriado ventral, parte envolvida na emoção, motivação e recompensa, onde a estimulação “eliminava consistentemente seus sentimentos de depressão”. A outra região era a amigdala, onde as mudanças podiam “prever quando seus sintomas eram mais graves”, disse a médica Katherine Scangos.

Enquanto a estimulação cerebral profunda é normalmente fornecida de forma continua, o aparelho de Sarah é programado para emitir apenas uma corrente de seis segundos ao reconhecer seu padrão de atividade cerebral associado à depressão.

O objetivo, disse Dougherthy, é que a estimulação interrompa ou mude a atividade neural para produzir um padrão mais saudável que amenize os sintomas da depressão.

Sarah continuou tomando seus medicamentos psiquiátricos, e a estimulação não eliminou  a atividade que causa a depressão em seu cérebro. Mas ela consegue controlar sua doença de forma muito melhor, em vez de ficar incapaz de tomar até mesmo decisões como o que comer.

OUTROS ESTUDOS

Cerca de 30% das pessoas com depressão não respondem a tratamentos padrão ou não conseguem tolerar os efeitos colaterais. A estimulação cerebral profunda não seria apropriada para todos porque custa muito caro e a cirurgia para implantar o aparelho oferecia, diversos riscos, como infecção. Mas, se funcionar, pode ajudar muitas pessoas, garantem os especialistas.

“Nosso trabalho agora é de fato entender o que é que identifica quem precisa desse tipo de intervenção”, disse Helen Mayberg, diretora do Centro de Terapêuticas de Circuitos Avançados da Escola de Medicina lcahn, em NY, instituição pioneira na estimulação cerebral profunda para combater a depressão, há quase 20 anos.

Mayberg utiliza um método diferente de individualização. Com o exame de imagem, ela localiza onde quatro partes de substância branca se cruzam perto de uma região chave relacionada à depressão no cérebro de cada pessoa. Depois de implantar eletrodos e um aparelho para provocar os estímulos, “nós praticamente o configuramos e o esquecemos”, fornecendo estimulação contínua, ao mesmo tempo ajudando os pacientes com terapia convencional.

A atividade neural é monitorada para “aprender a assinatura do cérebro que anuncia uma recaída depressiva iminente ou a necessidade de um ajuste de dose ou apenas indica que a pessoa está tendo uma semana ruum”, explicou Mayberg. Ela liderou um dos testes interrompidos, mas seu trabalho também permitiu que os pacientes experimentassem melhorias.

Em outra abordagem, Sameer Sheth, professor associado de neurocirurgia na Faculdade de Medicina Baylor; e seus colegas estudaram o padrão da atividade cerebral específico de um paciente para identificar quais das bilhões de combinações das características das estimulações, como frequência e amplitude, melhoram a sua depressão. Ele então sintoniza os eletrodos em duas regiões e aplica essa combinação específica de estimulação de forma contínua.

Sheth disse que o primeiro paciente que recebeu o aparelho, em março de 2020, “está notavelmente bem” agora. Para testar o efeito placebo, pesquisadores gradualmente pararam a estimulação para uma região do cérebro sem o paciente saber quando. Sua depressão ficou pior e pior”, disse Sheth, até que ele precisou de um “resgate”. Depois que a estimulação foi reiniciada, ele melhorou, sugerindo que o efeito é “definitivamente relacionado às estimulações”.

Os pesquisadores dizem que ainda levará anos para aprender se as abordagens individualizadas são eficazes o suficiente para serem aprovadas. Métodos diferentes podem funcionar para a depressão de pessoas diferentes, e a estimulação individualizada pode eventualmente ajudar outros transtornos psiquiátricos, concluem os cientistas.

OUTROS OLHARES

DELÍCIAS DE LABORATÓRIO

Pratos com carne feita em impressora 3d, frango produzido com células cultivadas e laticínio animal free chegam ao mercado e dão uma ideia do que comeremos no futuro

A indústria alimentícia, em especial a de produtos de origem animal, deu outro passo na sua empreitada para aumentar as ofertas de produtos que têm cara de futuro e gosto de presente. Depois das carnes e laticínios com base em plantas, a onda agora são hambúrgueres, filés, nuggets e proteína do leite feitos em laboratório, tornando desnecessários a criação e o abate de animais. Em alguns lugares, pratos com esses ingredientes são realidade. No fim do ano passado. Singapura se tornou o primeiro país a autorizar a venda de carne cultivada e experimentar os nuggets de frango feitos pela empresa americana Eat Just. Em Israel , a SuperMeat abriu um restaurante onde oferece sanduíches de frango criado a partir de um punhado de células em troca de feedbacks sobre o produto. Nos Estados Unidos, estão à venda sorvetes produzidos com proteínas lácteas feitas por fungos geneticamente modificados da Perfect Day.

No Brasil, a carne cultivada pode estar disponível entre 2024 e 2025. No início do ano, a BRF, uma das maiores empresas de alimentos do mundo, anunciou investimentos na startup israelense Aleph Fanns, conhecida por fazer bifes de células animais. A Aleph foi a primeira a desenvolver um ribeye cultivado e bioimpresso em 3D. O então primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu provou a iguaria e gostou. “É deliciosa e livre de culpa”, avaliou Netanyahu na ocasião. A fabricação dos ingredientes é fruto de processos tremendamente sofisticados. A carne é feita a partir de uma pequena quantidade de células-tronco extraídas dos animais por meio de uma biópsia. Células-tronco ainda não são especializadas. Ou seja, não são células musculares ou cerebrais, por exemplo. Por isso, podem ser transformadas em células que dão origem a uma grande variedade de tecidos. No caso das retiradas dos bois, são estimuladas a se especializarem em fibras de tecido muscular bovino. Em até trinta dias, elas estão no ponto. Os laticínios são produzidos por microrganismos geneticamente modificados para secretar proteína de leite idêntica à encontrada no alimento vindo das vacas.

Essa indústria tenta suprir a demanda por proteína animal com menos impacto ambiental. A pecuária é responsável por 14% das emissões mundiais de gases de efeito estufa a cada ano, e a produção de leite contribui com 4%. “Queremos construir uma cadeia da produção de alimentos mais sustentável, saudável e que seja capaz de nutrir um número crescente de pessoas”, diz Gustavo Guadagnini, presidente do The Good Food Institute (GFI) Brasil. Porém, um estudo da Universidade de Oxford alerta que, dependendo do tipo de energia utilizada nos laboratórios de carne, por exemplo, o ganho obtido com a redução de metano (gás associado ao efeito estufa produzido em quantidade expressiva por bois e vacas) pode ser superado a longo prazo pelas emissões de C0 2 que resultam do processo. Objeções a esse tipo de alimento incluem ainda o uso de organismos geneticamente modificados, no caso dos laticínios, e de células-tronco, nas carnes. Hoje, no entanto, os principais entraves à ampliação do acesso aos produtos são a regulamentação, o custo e a capacidade de produção em escala. Mas a indústria trabalha para superá-los. “Há dezoito meses, o quilo da carne cultivada custava 1.000 dólares. Agora está em torno de 150 dólares. Nossa ambição é que em dois a três anos, quando chegarmos ao mercado, esteja entre 35 e 40 dólares o quilo”, diz Marcel Sacco, vice-presidente de Inovação da BRF. A continuar o desgoverno na economia, os brasileiros daqui a pouco pagarão pela carne tradicional o mesmo que custará a cultivada.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 06 DE DEZEMBRO

UM PRESENTE ABRE PORTAS

O presente que se dá em segredo abate a ira, e a dádiva em sigilo, uma forte indignação (Provérbios 21.14).

O presente é um símbolo de generosidade e cortesia. É um gesto simpático que toca o coração das pessoas e as sensibiliza. Demonstra afeto e pavimenta o caminho da amizade. Mesmo quando o relacionamento fica estremecido, o presente abate a ira e aplaca a indignação. O presente prepara o ambiente para o abraço da reconciliação e para o beijo do perdão. Abraão Lincoln, 16º presidente norte-americano, disse que a melhor maneira de vencer um inimigo é fazer dele um amigo. O amor é uma força irresistível. Quebra as maiores barreiras. O amor constrói pontes onde o ódio cavou abismos. O presente não é o amor, mas uma demonstração do amor. Gary Chapman, autor do livro As cinco linguagens do amor, diz que dar presentes é uma das linguagens do amor. Muitas pessoas veem nesse gesto uma demonstração eloquente de afeto. O sábio está ensinando que o presente discreto esvazia o balão da ira, e a dádiva feita em sigilo apazigua a maior fúria. Dê um presente em segredo a quem estiver zangado com você, e a raiva dele acabará. Há uma estreita conexão entre o bolso e o coração, entre a mão aberta e a alma livre de mágoa. Não se resolvem conflitos com mais conflitos. Não se ganha uma briga com mais desaforos. Se quisermos triunfar na batalha, precisaremos entrar nessa peleja com amor no coração e presentes nas mãos.

GESTÃO E CARREIRA

A VIDA PROFISSIONAL DEPOIS DOS 50

Eles são resilientes, sabem os caminhos para sair de uma crise e dão mais equilíbrio às equipes. Mas ainda sofrem rejeição nos processos seletivos e têm até data de validade no emprego. Entenda como o preconceito contra os mais velhos afeta não só as carreiras, mas também a economia.

Diante da câmera do próprio celular, um senhor de 70 anos grava um vídeo para se candidatar a um emprego num e-commerce de moda. Ele explica por que, apesar de ter um padrão de vida confortável com a aposentadoria, quer voltar ao dia a dia do escritório. “Eu adoro fazer conexões, amo a excitação do trabalho. Quero ser desafiado e me sentir necessário. Também quero que saibam que vesti a camisa da empresa minha vida toda. Sou leal, confiável e bom, numa situação de crise.” A fala é de Ben, personagem de Robert De Niro no filme Um Senhor Estagiário (2015). Aproveitando uma ação de inclusão dessa startup – um programa de estágio para terceira idade – , ele assume um cargo para o qual tem excesso de qualificação. Tudo para conseguir voltar à ativa.

Essa cena do filme é uma síntese do que trabalhadores com mais de 50 anos podem trazer a um negócio. Há um consenso entre especialistas de carreira de que a experiência torna mulheres e homens mais resilientes e lhes dá maior inteligência emocional para aguentar o tranco nas crises. De quebra, eles têm o mapa de atalhos para encontrar soluções para os dilemas da empresa – afinal, já passaram por muitas mudanças, tanto da organização quanto da economia, e testemunharam o que deu certo e o que falhou. Além disso, ao contrário dos millennials, que gostam de mudar de ambiente com certa frequência, os 50+ seguem uma tradição do mercado de trabalho do século 20: a de criar raízes. Daí a lealdade e o vestir a camisa de que fala De Niro.

Mas não são tantas as companhias que valorizam essas qualidades. Uma pesquisa da Maturi, organização que atua na recolocação de profissionais maduros, ouviu 1.317 pessoas com mais de 50 anos em São Paulo, e descobriu que mais da metade foi demitida durante a pandemia. Para 67% dos entrevistados, o preconceito de idade piorou ao longo do último ano – muito porque as pessoas mais velhas são mais vulneráveis ao coronavírus.

Aliás, o preconceito contra o “velho” (chamado de etarismo) é talvez o único que resiste abertamente na sociedade. Num episódio recente, um escritório de agentes autônomos da XP publicou uma foto de sua equipe formada quase exclusivamente por jovens homens brancos – e recebeu uma enxurrada de críticas por isso. As queixas eram sobre a falta de diversidade de raça e gênero, mas não se viu problema algum na maioria jovem. De forma geral, não há registros de reação parecida contra empresas que anunciam seus times formados por profissionais nas faixas de 20 e 30 anos, inclusive no C- Level. Se a juventude é valorizada na hora da contratação, como fica a carreira de quem tem cabelo grisalho?

É exatamente o que está sentindo na pele o especialista em reestruturação organizacional Claudio Cardinali, de 60 anos. Seu último emprego foi de diretor administrativo-financeiro em uma grande empresa do ramo de embalagens, de onde foi dispensado no final de 2019. Claudio tem tentado uma recolocação, mas se vê esbarrando num muro invisível nos processos de admissão. “Sempre encontrava portas abertas nas minhas transições de trabalho, então tenho estranhado que, para posições com perfil que se encaixa perfeitamente no meu, não tenho sido mais chamado nem para uma primeira conversa. Nenhum headhunter me diz claramente que o motivo é este: eu estar acima de uma faixa etária desejada”, afirma o executivo.

Uma exclusão que talvez fizesse sentido em meados do século passado. Hoje, não mais. A evolução da medicina e das condições sanitárias nas cidades tornou a população mais longeva – e os mais velhos ficaram, não apenas figurativamente, mais jovens.

Segundo o IBGE, em 1940, um indivíduo de 50 anos tinha uma expectativa de viver mais 19 anos em média. Agora essa mesma pessoa tem pela frente cerca de 30 anos – com boa parte dessas décadas em ótima forma física e intelectual. Uma combinação perfeita para esticar a vida profissional.

Aliás, expulsar essa turma do mercado vai contra a economia em vários aspectos. Primeiro, a reforma da Previdência empurrou a aposentadoria pública de mulheres para os 62 anos, e de homens para os 65. Se a pessoa perde o emprego antes disso, precisa se recolocar no mercado –  ou vai começar a queimar muito antes a reserva financeira feita para a velhice de verdade. É o que acaba acontecendo hoje. A taxa de desemprego dos mais velhos é menor que a média do mercado, que está em 14,1%. Mas só porque, depois de muitos nãos, eles desistem de procurar uma vaga e são considerados “fora da força de trabalhou. No fundo, uma parte está desempregada, mas some da estatística do IBGE.

E um segundo problema é que logo mais não haverá  jovens o bastante para assumir as tarefas de quem foi excluído do mercado por ser considerado velho demais. Segundo dados do Ipea, 57% da população economicamente ativa no Brasil vai ter mais de 45 anos em 2050. Quer dizer, o país vai precisar que essa gente esteja empregada, atualizada e valorizada para continuar crescendo.

A boa notícia é que, na contramão da dispensa dos profissionais maduros, há mais e mais iniciativas de inclusão. E muitas são estratégicas, não servem só para dar um verniz de diversidade etária na equipe.

PARA O BEM DO NEGÓCIO

Especializada em seguro de vida e previdência, a MagSeguros lançou um programa para formação de novos corretores chamado 50+ Ativo. Ao longo de 12 meses, profissionais sem experiência na área ganham ajuda de custo, têm aulas teóricas e aprendem o que está por trás do sucesso desse mercado: saber vender não um produto, mas algo tão intangível quanto sensação de segurança. Eles já começam a trabalhar ao longo do programa e, terminado o ano, continuam como corretores parceiros da seguradora.

O investimento tem um porquê: “Percebemos a complexidade que é um profissional muito jovem falar de seguro de vida, de proteção para aposentadoria…”, diz Patrícia Campos, diretora de Gente e Gestão da companhia. Uma pessoa ainda sem parceiro, filhos e bens, como casa e carro, tem mais dificuldade de transmitir a importância de um seguro. “Ela não sente as necessidades do público que já se preocupa em deixar uma segurança para a família ou para si mesmo ao parar de trabalhar. Com corretores mais maduros, o discurso fica muito mis aderente.”

Na Bayer, por outro lado, a iniciativa foi voltada para melhorar a integração dos 50+ com o resto da equipe. A multinacional farmacêutica tem um programa de mentoria reversa. Profissionais mais maduros, que atuam em patamares de liderança, são mentorados – em diálogos quinzenais ou mensais – por colegas bem mais jovens. Foi o caso de Evandro Winter, de 58 anos, gerente administrativo em Belford Roxo, no Rio de Janeiro. Ele recebeu sessões de mentoria de um profissional 27 anos mais novo. ‘Eu, que tenho jovens na minha equipe, descobri a importância de escutar essa geração, de criar oportunidades para que eles exponham seus pontos de vista. Também entendi que feedback é fundamental para eles, algo que em sempre é bem recebido pelas pessoas da minha idade.”

Fora das empresas, também há iniciativas de qualificação de profissionais maduros. Um exemplo é o Hub40 +, uma comunidade que oferece atualização tecnológica, cursos para empregabilidade e empreendedorismo. Esse hub tende tanto companhias que querem fortalecer a diversidade etária em sua cultura quanto indivíduos maduros em busca de emprego. “Para o profissional, nossos parceiros oferecem mentorias e cursos”, diz o fundador, Mauro Wainstock. “Um exemplo: damos treinamento de como essa pessoa deve usar o LinkedIn para projetar sua marca pessoal, porque um bom networking é imprescindível para manter a empregabilidade nessa faixa de idade.”

E há demanda por esse tipo de formação. A pesquisa da Maturi apontou que 8o% dos profissionais com mais de 50 anos aproveitaram o isolamento da pandemia para fazer cursos online. Dentre os entrevistados, sete em cada dez se dizem, agora, mais preparados para o uso das redes sociais para o trabalho – um golpe na generalização simplista de que a evolução das tecnologias é um obstáculo para se ter 50+ na equipe.

NO ALVO

Tânia Schubert, de 57 anos, é um exemplo que corrige muitos dos erros crassos do etarismo. Especialista em treinamentos na área de Gestão do Conhecimento, ela abraçou a tecnologia há 30 anos em uma empresa que desenvolve softwares de administração empresarial, a VlK Sistemas, em Blumenau (SC). “Gosto da área de tecnologia porque vocênunca para de aprender. É um setor que muda muito, então eu sempre procuro estar atualizada. Hoje, por exemplo, administro a nossa ferramenta de ambiente de conhecimento, que é onde a gente posta os treinamentos gravados.” O preconceito de que maduros querem distância de novas tecnologias não é o único que Tânia Schubert desconstrói. Ela também é a antítese do profissional experiente que acha que já sabe tudo. “Descobri no LinkedIn um monte de cursos gratuitos. Fiz um de 40 horas de marketing. Isso me ajuda a vender a ideia dos treinamentos que a gente desenvolve. Também entrei em cursos de como organizar uma reunião, como conduzir um projeto, entre outros.”

E se você acha que profissionais maduros não têm mais energia para lidar com o ritmo dos escritórios do século 21, precisa bater um papo com a Tânia. Aproximando-se dos 60 anos, ela pratica arco e flecha. Não só pratica: ela compete a sério. Aliás, não só compete: ela é a segunda no ranking brasileiro no arco recurvo feminino master, que é a partir dos 50 anos. “Eu gosto de desafios e sou muito competitiva. Se estiver valendo medalha ou troféu, estou dentro!’

QUESTÃO DE CULTURA

A necessidade de programas de inclusão dos 50+ prova que a contratação desses profissionais não se dá de maneira orgânica. Parece uma cota – e às vezes é mesmo. Para funcionar como uma estratégia sustentável de formação de equipes, é preciso ter uma cultura amigável à diversidade etária.

O Institute for Employment Studies, de Londres, realizou uma pesquisa sobre o que ajuda na retenção de bons profissionais 50+. Descobriu que os mais maduros valorizam ter responsabilidade e autonomia no trabalho, manter relacionamentos sólidos na empresa e ter oportunidades de transmitir seus conhecimentos. Também são mais propensos a permanecer se tiverem sinalizações de seus líderes de que seu trabalho é importante. É nisso que mira a Bayer.

“Sabemos o quanto dependemos de aproveitar o que cada geração tem de melhor”, explica Francila Calica, líder de um grupo interno da multinacional dedicado às questões geracionais. “No caso dos 50+, o conhecimento de todo o processo com que se mantém uma empresa, que vem com a senioridade, e a resiliência que nos ajuda a atravessar períodos mais desafiadores; entre os mais jovens, o questionamento constante, a agilidade e o ímpeto de fazer diferente.”

E essa cultura organizacional receptiva precisa valer tanto para a companhia tradicional quanto para startups. O americano Chip Conley tinha 52 anos quando ingressou no Airbnb, onde se destacou ajudando os fundadores a transformar a então startup numa marca global de hospitalidade. Se deu tão certo, é porque ele também encontrou muito desse acolhimento no escritório. “Foi uma experiência fascinante ter o dobro da idade média dos funcionários do Airbnb”,ele afirmou num depoimento ao site da companhia. Falando em startup, um estudo de 2018 revelou que, apesar de associarmos esses negócios com empreendedores muito jovens, a faixa etária dos fundadores das mais bem-sucedidas está entre 40 e 49 anos. (Vale dizer que o empreendedorismo tem sido o caminho de muitos executivos maduros que não conseguem recolocação.)

SEM OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA

Há grandes companhias que têm um teto de idade para seus CEOs. Quando batem nos 65 anos, por exemplo, recebem uma aposentadoria compulsória, abrindo espaço para executivos mais jovens. Essa regra fez o Itaú, o maior banco privado do país, trocar de presidente duas vezes em um período de apenas quatro anos. Não consta que o lucro bilionário ou o futuro da instituição financeira pudessem sofrer pela idade de seus executivos.

Criadora da startup WeAge, que oferece consultoria para a inclusão dos mais velhos em empresas, Márcia Tavares perguntou, em sua pesquisa de mestrado, a executivos “aposentáveis” – que poderiam estar curtindo o dolce far niente – porque continuavam trabalhando. A resposta mais frequente foi de que eles acreditavam, estar na sua fase de maior proficiência técnica e capacidade de relacionamento profissional. Então não viam sentido em se aposentar.

É como diz o “estagiário sênior” interpretado por Robert De Niro no filme do início deste texto: “Eu li que músicos não se aposentam. Eles param quando sentem que não há mais música dentro deles. Bom, eu tenho certeza de que ainda tenho muita música em mim.” Uma música que, contribuindo com um estilo vintage, é cada vez mais essencial para que empresas e sociedades sejam mais harmônicas e interessantes.

6 VANTAGENS DE TER 50+ NA EQUIPE

RESILIÊNCIA

Eles são duros na queda. Já passaram por diversas crises em empresas e na economia do país, então não entram em desespero e buscam saídas mais ponderadas.

LEALDADE

Diferentemente da ansiedade para mudanças de trabalho e de carreira das novas gerações, os 50+ vestem a camisa. Muitos adiam a aposentadoria por sentir que a empresa depende deles.

EXPERIÊNCIA COM SOLUÇÕES

Eles já testemunharam inúmeras tomadas de decisões, e viram de perto o que dá certo e o que é certeza de fracasso.

OUTRA PERSPECTIVA

Uma empresa com clientes de diversas faixas etárias não pode depender só de jovens para se comunicar com seu público. Os mais maduros entendem melhor as necessidades de quem tem sua idade.

MENTORIA

Profissionais 50+ têm muita experiência para transmitir, inclusive aos jovens que estão sendo preparados para caros de liderança. E melhor: eles gostam de compartilhar conhecimento

EQUILÍBRIO

Nenhuma empresa se torna longeva contando apenas com uma garotada ágil e questionadora. A inteligência emocional dos 50+ faz o contraponto a quem pisa demais no acelerador. Estudos mostram que a diversidade (não só etária) é uma alavanca de sucesso para o time.

EU ACHO …

COISAS PARA FAZER NUM VELÓRIO

Tire uma foto com o morto se ele for alguém que aumenta o engajamento

Imagine  abrir um jornal um dia qualquer e encontrar matérias como estas duas abaixo. A imaginação inicial aqui fica por conta de um amigo muito esquisito que eu tenho. Mas vamos expandir a partir daí.

Pesquisa aponta que 78% dos paulistanos ainda cedem o lugar para mulheres no transporte público. Analistas de relações de gênero apontam permanência de machismo estrutural nesse comportamento. A solução, segundo especialistas, seria alguma forma de punição a fim de chegarmos à perfeita igualdade de gênero.  Fiscais com essa missão – melhor se forem gêneros  – deveriam ser apontados pelas empresas de transporte público na capital.

Um caderno especial dedicado ao bem-estar lista cinco coisas que você pode fazer num velório a fim de se sentir bem e elevar  a energia do lugar. Olhemos de perto essa lista para aumentar seu bem estar.

Leve sempre consigo no celular uma foto que lembre a você de momentos felizes, de modo a não contaminar sua energia com a tristeza circundante.

Vista-se elegantemente para que as outras pessoas se sintam mais feias e mais pobres do que você, de forma a elevar sua autoestima . A inveja dos outros, indicam pesquisas da neurociência, pode fazer bem à nossa autoestima até certo ponto. Este “certo ponto” ninguém sabe ainda onde fica precisamente.

Se houver natureza por perto, fixe um ponto no tronco de uma árvore ou numa folha e permaneça olhando para esse ponto sempre que alguém por acaso chorar mais alto. Se não houver natureza por perto, busque na sua memória uma praia bem legal em que vocêesteve e repita a operação até fixar o olhar na imagem indicada.

Faça uma refeição leve antes de ir ao velório. Sem proteína animal, , acima de tudo. Proteína animal pode leva-lo a ter sonhos em que você está comendo o morto.

Se o morto for alguém que aumenta o engajamento das suas redes, não perca a oportunidade de tirar uma selfie ao lado dele. Se o morto for de alguma identidade oprimida, arrisque uma frase do tipo #amogordos.

Esses dois exemplos, um sobre noções básicas de educação – ceder lugares  para mulheres – tomados como maus hábitos machistas, e outro sobre bem-estar em velórios, indicam obsessões da mídia em geral, mesmo das grandes marcas de mídia.

Se uma nave espacial de outro planeta passasse em São Paulo, em paz e marcasse uma coletiva, a primeira pergunta que a imprensa faria ao ET seria: “o que o senhor tem a declarar sobre a transfobia?”

Mais variações o tema. Caso um serial killer de casais matasse um casal gay em meio a casais hetero poderíamos identificar algum traço de homofobia na inclusão de um casal gay na sua lista de vítimas? A imprensa escreveria sobre isso artigos longos e caudalosos.

São obsessões, sim. Se a direita tivesse nas mãos faculdades e grandes marcas de mídia, seguramente sua infantaria usaria expressões como “comunismo”, ”globalismo”, ”europeus querem roubar a Amazônia”, “vá tomar …” “imbrochável”, “seus bundões”.

Liberais idiotas discutem se está certa ou não a obrigatoriedade das vacinas. Discriminação é proibir alguém de entrar num lugar por causa de raça, religião ou sexo. Não tomar conhecimento de risco epidemiológico – e recusar vacinas – é irresponsabilidade social e merece demissão.

Somos obrigado a reconhecer que as obsessões da esquerda tem muito mais verniz: epistemicídio, feminicídio, gordofobia, machismo estrutural, branquitude e similares.

Especialistas de mercado dirão que essas obsessões, sejam ideológicas, sejam aquelas que buscam vender bem-estar, são explicáveis por causa da necessidade de atrair um público mais jovem.

Como grande parte dos jovens é cada vez mais chata e idiota, ou você fala de alguma forma de fobia social e similares ou dá dicas de como se sentir bem em velórios – demos as nossas acima.

Outra dica de bem estar é transformar plantas em suas filhas de criação – uma expressão claramente preconceituosa , “filhas de criação!” Claramente contra filhos adotivos, peço desculpais. Afinal de contas, a parentalidade – belo termo – nada tem a ver com a biologia, certo? Sim, os idiotas venceram.

*** LUÍZ FELIPE PONDÉ

ESTAR BEM

BEBÊS QUE DORMEM BEM TÊM MENOS RISCO DE ENGORDAR

Estudo mostra que duração e continuidade do sono afetam sobrepeso; cada hora a mais de descanso reduz chances em 26%

Pesquisadores da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, descobriram que recém-nascidos que dormem por mais tempo e com menos interrupções têm risco menor de sobrepeso. Os resultados do novo estudo foram publicados recentemente na revista SLEEP, publicação oficial da Sociedade de Pesquisa do Sono.

Os responsáveis pela pesquisa acompanharam 298 recém-nascidos durante os seis primeiros meses de vida e observaram que, para cada hora acrescentada ao sono noturno, os bebês passaram a ter um risco 26% inferior de engordar. Além disso, cada interrupção a menos durante o descanso diminuiu o risco de sobrepeso em 16%. A análise foi possível graças á uma parceria com mães que realizaram o parto no Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, nos EUA, entre 2016 e 2018. Diferentemente de outros estudos sobre sono infantil, que normalmente se baseiam em informações fornecidas pelos pais, os pesquisadores utilizaram relógios específicos de tornozelo, que monitoram ciclos de atividade e descanso, para rastrear o comportamento dos bebês durante a noite.

Além disso, os pais mantiveram diários sobre o recém-nascido com observações sobre atividades que podem impactar o padrão de sono ou de peso, como a frequência com que amamentavam ou se o bebê havia comido alimentos sólidos antes dos quatro meses.

Ao final da análise, os pesquisadores descobriram que os bebês que progrediram para um sono noturno estável, de em média 8,8 horas por noite e com poucas interrupções, foram menos propensos ao sobrepeso durante os primeiros seis meses de vida. Para os responsáveis, as evidências sugerem que o sono suficiente e consolidado pode ser uma ferramenta poderosa na redução de obesidade no início da vida.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VICIADOS EM JOGOS ELETRÔNICOS

Tratamento para a dependência em videogames chega ao Brasil

Véspera de Natal de 2019, o professor A.B.P., aos 37 anos, era o responsável por uma série de tarefas familiares, que não conseguiu cumprir. Não era a primeira vez que ele se atrapalhava. Não conseguia mais se concentrar nas aulas de sua segunda graduação e já estava arrumando problema  para seu casamento. Mesmo sendo adulto, ele só pensava em videogame. E jogava, muito.

“Comecei com os jogos quando criança, com o Atari. Na adolescência ganhei um computador e comecei a jogar ali. Depois, no celular. Há algum tempo percebi que minha vontade era multo grande e estava saindo do meu controle. Chegava a me ocupar no trabalho”.

A confusão daquele Natal o levou a tomar uma decisão que mudou a vida dele e de todos em volta – decidiu experimentar um tratamento que havia visto em um site americano  onde as pessoas compartilhavam suas experiências com o vício em jogos eletrônicos. O bom resultado o fez trazer para o Brasil a experiência, com interações em português.  Detalhe: o anonimato é obrigatório nesse tipo de terapia.

“Quando descobri o CGAA, comecei a dividir tudo o que estava me incomodando e percebi que outras pessoas tinham uma história de vida muito parecida com a minha”, relata A.B.P., referindo-se à sigla relativa ao grupo Computer Gaming Addicts Anonymous (ou Adictos em Jogos Eletrônicos Anônimos, em português).

Ele passou a participar diariamente das reuniões em inglês e a falar sempre que podia. Nas conversas, os membros trocam dicas de como parar ou reduzir a frequência dos jogos, assim como manejar a ansiedade provocada pela abstinência e a controlar os gatilhos que geram a ânsia pelo jogo.

“Primeiro fiquei sem jogar por quatro meses, mas, por conta da pandemia e da necessidade de ficar dentro de casa, me desmotivei e acabei tendo uma recaída. Fiquei entre idas e vindas. Mas agora faz oito meses de intervalo, estou bem mais tranquilo e conseguindo lidar com as coisas de maneira muito melhor, controlar meu tempo e minhas emoções”, comemora.

DOENÇA RECONHECIDA

Chamada, “gaming disorder”, a dependência de jogos de eletrônicos é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A condição entrou para o CID-11 – a 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças, que padroniza a caracterização e notificação de doenças em todo o mundo – em 2018 e será  formalizada a partir de 1º de janeiro de 2022.

Qualquer semelhança do grupo de apoio recém-formado no Brasil com o estilo da AA, os Alcoólicos Anônimos, não é mera coincidência. A terapia dos viciados em jogos contempla duas reuniões semanais que, por enquanto, ocorrem por Zoom. A expectativa é que até o final do ano ocorra o primeiro encontro presencial começando pelo Rio de Janeiro. O CGAA hoje conta até com um braço no país só para os familiares de pessoas com dependência, que também compartilham seus dramas. Esse formato de tratamento começou a ser desenhado em 2004, quando um grupo de jogadores eletrônicos americanos começou a compartilhar em um fórum online os prejuízos que os jogos estavam causando em suas vidas. Durante dez anos eles foram se organizando e percebendo que a ajuda mútua fazia bem para os participantes.

Em 2014, decidiram que adaptariam os 12 passos dos Alcoólicos Anônimos, que têm como base reconhecer a impotência diante do vício e observar os prejuízos causado por ele. Hoje, o grupo de jogadores conta com centenas de pessoas de várias partes do mundo, com reuniões online em inglês, espanhol, alemão e russo e, agora, em português. Por enquanto, os encontros presenciais estão limitados a algumas cidades americanas.

FRONTEIRA DO VÍCIO

A psicóloga Elizabeth Carneiro, que estuda o Perfil de Jogador Psicológico Brasileiro na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e dirige a Clínica Espaço Clif, considera que os grupos de ajuda mútua são uma boa alternativa para quem se percebe dependente dos jogos, assim como para suas famílias.

“Esses grupos mostram que as pessoas que sofrem de algum tipo de dependência não estão sozinhas, não são as únicas. E as reuniões voltadas para as famílias conseguem ainda orientar os parentes sobre quais tipos de comportamento são normais e quais são patológicos”, explica.

O tempo dispendido em frente ao computador ou celular não é o único sinalizador para se identificar um vício. O problema se estabelece quando o hábito atropela compromissos importantes e a convivência com amigos próximos. Ou então, quando interfere em questões de saúde, como o sono, as refeições e a higiene pessoal.

O problema é definido como um padrão de comportamento, e é caracterizado pela perda de controle sobre o tempo de jogo, sobre a prioridade dada à atividade em detrimento de outras tarefas importantes e a manutenção do vício mesmo quando surgem consequências negativas associadas a ele.

O diagnóstico se aplica quando os prejuízos afetam de forma significativa as áreas pessoal, familiar, social, educacional, ocupacional e outras ao longo de cerca de 12 meses.

O número de pessoas que jogam games eletrônicos estimado pela Entertainment Software Association, associação comercial da indústria de videogames dos Estados Unidos, é gigante: cerca de 2,6 bilhões em todo mundo. Estudo feito pela Associação Americana de Psiquiatria mostra que cerca de 1% da população mundial sofre com vicio em jogos eletrônicos.

O contingente estimado de dependentes, portanto, é enorme: aproximadamente 80 milhões. Não há dados estatísticos oficiais no Brasil. A incidência maior de jogadores compulsivos está nos países asiáticos.

PERFIL MASCULINO

O perfil de quem sofre de dependência em jogos eletrônicos costuma ser de pessoas do sexo masculino e de classe média (por terem acesso a aparelhos eletrônicos). Normalmente, o interesse pelos games começa na adolescência. Pessoas que apresentam quadros de depressão e baixa autoestima, que tenham uma visão distorcida em relação a si mesmos, estão mais vulneráveis à dependência, já que enquanto jogam eles se sentem validados em alguma dimensão de suas vidas.

“ Os jogos são capazes de ativarem em nosso cérebro mecanismos de recompensa muito rápidos. Por exemplo, eles costumam ter fases. À medida que você consegue ter um brilhantismo em uma etapa e você a conclui, é como se o jogo dissesse que você é incrível, que é um campeão”, afirma Carneiro.

OUTROS OLHARES

PRECISÃO AUMENTADA

Ferramenta que mescla virtual e real é aliada na mesa de cirurgia

Conhecida ferramenta dos videogames, a realidade aumentada ganha cada vez mais espaço nos centros avançados de medicina. Usado para o diagnóstico e tratamento de doenças, esse recurso tecnológico de ponta também tem sido aplicado para dar mais precisão a cirurgias complexas. Agora, é a vez do Brasil começar a explorar o potencial desse novo tipo de aliado.

Basicamente, o que a realidade aumentada (RA) faz é aprimorar o ambiente do mundo real por meio de um software. Um exemplo popular é o Pokémon Go, o aplicativo de smartphone que virou febre há alguns anos. Quem não se lembra das pessoas andando em parques, na vizinhança, na escola e até mesmo no escritório “caçando” personagens que aparecem na tela como se estivessem bem na sua frente?

O que a torna especial e útil para a medicina é o fato de a tecnologia ser capaz de mesclar imagens virtuais com o mundo real, incluindo objetos e pessoas. Isso significa que um cirurgião pode ir para a sala de cirurgia e, em vez de olhar para baixo e ver apenas a perna inchada do paciente, ele consegue enxergar a localização exata da fratura antes de fazer uma única incisão.

Uma das mais recentes novidades no país é capitaneada pelo Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. O centro desenvolveu um software que orienta os médicos antes de procedimentos cirúrgicos delicados. A ferramenta consiste em inserir a imagem gerada pela tomografia de um paciente no mundo virtual e transformá-la em um holograma 3D que pode ser navegado e manuseado pelo médico.

PASSEIO VIRTUAL

Para visualizar a imagem gerada virtualmente, o profissional precisa usar óculos especiais, que lembram a aparência daqueles utilizados no cinema 3D. Na prática, é como se ele “entrasse” no exame e visse o problema com o qual irá lidar no centro cirúrgico, como um nódulo ou um vaso, de forma hiper-realista. Essa informação visual impacta nas decisões que serão tomadas na cirurgia, já que permite ao médico ver a área que será operada de forma ampliada.

O recurso pode ser usado em várias áreas da medicina.

“Se o paciente, por exemplo, tem um câncer aderido ao fígado, com a ajuda dessa ferramenta, o cirurgião consegue “manusear” o tumor e observá-la de todos os ângulos ante, de abrir o paciente. Isso ajuda a ver onde o tumor está aderido, assim como as estruturas em volta. Isso ajuda a tornar o procedimento mais seguro, mais preciso e mais rápido”, diz o cirurgião cardiovascular Rafael Otto Schneidewind, um dos idealizadores da ferramenta.

A ideia é que o  procedimento passe em breve a ser usado durante a operação.

“Queremos colocar a realidade aumentada dentro do centro cirúrgico. Por exemplo, quando um paciente com trauma chegar na emergência, o cirurgião ortopédico não precisará perder tempo. Em vez de ir à tomografia ver a imagem no computador, ele já coloca os óculos, liga a imagem, vê onde está fraturado, rasgado e opera”, explica Schneidewind.

Quando estão com o software desligado, os óculos têm a lente transparente, como uma versão normal, o que permite a realização da operação sem distrações. A expectativa é que o recurso de RA já possa estar em uso no dia a dia do hospital no segundo semestre de 2022.

“Os óculos não interferem em nada na cirurgia, mas no jeito em que o cirurgião visualiza a imagem. É possível fazer uma analogia com a aviação. No começo da Lufthansa (empresa aérea alemã), eles voavam de Colônia a Frankfurt olhando o trilho do trem. Hoje o piloto aperta um botão e o avião pousa em Frankfurt. O computador (que mostra a imagem da tomografia) e a realidade aumentada podem fazer a mesma função, só que de maneira totalmente diferente. Com essas ferramentas, a informação chega com melhor qualidade ao cirurgião, deixa a cirurgia mais segura e mais rápida”, explica.

CIRURGIA PIONEIRA

Esse tipo de ferramenta já está disponível nos Estados Unidos. Em junho de 2020, neurocirurgiões da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, anunciaram a primeira cirurgia de realidade aumentada. Um médico usou a tecnologia para ajudar a colocar seis parafusos na coluna vertebral de um paciente com dores severas. Ela foi ainda utilizada em um segundo procedimento, para remover um tumor na coluna de outra pessoa. Tecnologias semelhantes foram testadas em uma parceria da Imperial College London com a Microsoft, na Universidade do Alabama com a Universidade Emory e o Google e na Universidade Stanford.

Há casos em que a realidade virtual se torna importante para o diagnóstico. Schneidewind conta o caso de uma paciente que chegou ao hospital com sangue em volta do coração, o que é chamado de tamponamento cardíaco. Foi feita uma tomografia, mas o exame, não mostrou nada estranho. Durante a cirurgia feita para drenar o líquido, os médicos também não encontraram a fonte do problema.

Quando eles decidiram utilizar a realidade aumentada, descobriram que havia um objeto de cerca de 10 centímetros, que parecia uma faca, no pulmão da paciente. Ao questioná-la, a equipe descobriu que era, na verdade, um pedaço de vidro que estava alojado no local há mais de 20 anos, quando ela sofreu um acidente. Com o tempo, o objeto se movimentou e furou a veia cava.

“Se não tivesse a realidade aumenta e a virtual, não seria possível identificar o objeto sem ter que abrir a paciente. Nesse caso, o recurso também ajudou a sabermos com precisão onde ele estava localizado e qual era o melhor lugar para a incisão. A cirurgia demorou 40 minutos, mas deveria ter levado muito mais tempo e ter sido multo mais complicada. Mais rápido significa menos dor, menos inflamação e por aí vai”, afirma Schneidewind.

A realidade aumentada tem sido usada há vários anos para treinar estudantes de medicina em cirurgias como a remoção de coágulos sanguíneos. Ou então no treinamento de profissionais e estudantes, chegando a substituir, em alguns casos, o método de dissecção de cadáveres nas aulas de anatomia das faculdades. Na cirurgia robótica, ela é fundamental. O cirurgião, que controla o braço de um robô em um console, depende da câmera posicionada dentro do corpo para fornecer uma ideia da área que está sendo operada.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 05 DE DEZEMBRO

OUÇA O POBRE, E DEUS O OUVIRÁ

“O que tapa o ouvido ao clamor do pobre também clamará e não será ouvido” (Provérbios 21.13).

O amor não é um sentimento, mas uma ação. Amar apenas de palavras não passa de palavrório vazio. O amor é conhecido não pelo que diz, mas pelo que faz. Não podemos amar apenas de palavras. Nosso amor deve ser traduzido em gestos de bondade. A necessidade dos pobres é um grito contínuo aos nossos ouvidos. Quem socorre o pobre é feliz. A alma generosa prospera. Quem dá ao pobre a Deus empresta. A Bíblia diz que o que dá ao pobre não terá falta, mas o que dele esconde os olhos será cumulado de maldições (Provérbios 28.27). Jesus falou sobre o homem rico que se vestia de púrpura e todos os dias se regalava em banquetes finos. À sua porta jazia Lázaro, um mendigo cujo corpo estava coberto de feridas. Faminto, ele desejava fartar-se das migalhas que caíam da mesa do rico, mas nem isso recebia. O rico estava tão ocupado com os seus convidados e com o próprio conforto que não tinha tempo nem disposição para ouvir o clamor do pobre. Quando acordou para a realidade, era tarde demais. No inferno, estando em tormentos, clamou por socorro, mas não foi atendido. Fez súplicas, mas elas não foram respondidas. O tempo de fazer o bem é agora. Amanhã pode ser tarde demais. O tempo de ajudar os necessitados é agora. Amanhã a oportunidade poderá ter passado. Aquele, porém, que abre o coração, as mãos e o bolso para ajudar o pobre clamará ao Senhor e será ouvido!

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRAS QUENTES – VI

ENGENHARIA – A HORA E A VEZ DA LOGÍSTICA

O último ano e meio marcou a grande virada do e-commerce. Mesmo quem ainda torcia o nariz para comprar pela internet já busca até sifão de pia nos marketplaces da vida em vez de sair na rua para procurar por um. A logística para fazer um sifão sair do Espírito Santo e chegar a São Paulo no dia seguinte é, obviamente, espetacular. E, enquanto não inventarem o teletransporte, ela vai demandar cada vez mais, e melhores, engenheiros especializados.

Trabalhar com logística no Brasil é algo particularmente desafiador. O país é do tamanho de metade da Lua (um pouco maior, na verdade), e a maior parte do transporte é por caminhão, em estradas sacolejantes.

Por essas, as empresas não querem só profissionais capazes de tocar competentemente o dia a dia da operação. Estão de olho em gente que busque melhorar os processos o tempo todo – tipo: “Vale fretar um avião para fazer tal rota e garantir a entrega para o dia seguinte? Talvez.

EU ACHO …

O PONTO SEM RETORNO

Depois do ocorrido, nada retornará ao lugar de partida; traduzindo: ‘Agora, ou vai ou racha’

É uma expressão forte. Existe em quase todas as línguas. Na narrativa de um romance, é o fato que marca a personagem para sempre. Ela nunca mais será a mesma depois daquele momento. Pode ser o incêndio de Troia para Eneias, o primeiro amante para Emma Bovary ou o assassinato realizado por Raskólnikov. É o ponto sem retorno… Você, querida leitora e estimado leitor, consegue nomear, de cabeça, lendo aqui, seus dois ou três pontos -chave, ou plot-points, da sua biografia?

o conceito virou álbum de Frank Sinatra. Em outro código, o Fantasma da Ópera anuncia que, dali por diante, ele e Christine tinham cruzado a linha do “point of no return”. A porta do Inferno, na Divina Comédia, diz que não há esperança de volta para quem a cruza. Pessoas amigas (e cultas) utilizavam a infração grave da lei por Júlio César para o mesmo significado. Atravessar o Rio Rubicão com tropas era interditado a um comandante latino. César o fez e ainda declarou que a sorte estava lançada. Quem se lembra do brocado em latim, certamente, tem pouco colágeno e muitos pontos de virada. Traduzindo tudo em linguagem coloquial a ideia: “Agora, ou vai ou racha”.

O que é o “ponto sem retorno”? Trata-se de um gesto que contém tanta energia que cria um efeito impossível de ser detido. É, irreversível. Pode ser uma infração, uma violência grave, ceder a um abuso, submeter-se a um risco grande ou experimentar uma felicidade nova e densa. Depois do ocorrido, nada poderá retornar ao lugar de partida. Funciona como certas rolhas de vinho que saem com grande facilidade e, meia hora depois, jamais cabem de novo no mesmo gargalo do qual foram extraídas sem esforço. Como estavam lá? No espaço de uma taça, o universo se dilatou e você teve de improvisar para lacrar a garrafa.

Tudo na sua vida tem um “ponto sem retorno”.  Citei César e Dante, descerei ao trivial. Eu imaginava, por exemplo, que era um número simbólico na balança: minha massa (ou peso com liberdade poética e não física) ultrapassar, em quilogramas, a barreira dos dois dígitos. Eu temia. Por quê? Achava que, se eu ganhasse dois quilos, perderia em duas semanas. Se eu ganhasse dez quilos, precisaria de uma intervenção maior. Porém, se passasse de cem, daí, a rolha nunca mais retornaria. Bem, uma vez, vi este número em uma balança de banheiro após um mês nas Ilhas Britânicas. Frio, comida, pouca atividade física… Era um fato: três dígitos! O grito foi ouvido até no canal da Mancha. Era o nefando valor, a temida cifra e, pior, já na marca de 101 quilogramas. Não bastasse atingir o décimo de tonelada, ambicioso, o ultrapassou! Meu cérebro buscou respostas rápidas: tenho forte estrutura óssea, pratico esportes e massa magra tem densidade maior, etc., etc. Subterfúgios… Consegui reduzir de novo para os aceitáveis e atuais 92 quilos. Era um habeas corpus. O ponto sem retorno, afinal, tinha tido retorno, mas demonstrou uma capacidade de expansão que passou a me rondar. Sim, querida tonelada, você está, fracionária, no meu horizonte… Meu peso assume o vulto fantasmagórico de um vírus de herpes: um dia, quando você menos espera e a resistência baixa…

Saindo do campo do meu diâmetro, acho que qualquer estudo precisa chegar a um ponto sem retrocesso. São patamares atingidos, pequena estabilidade e uma encruzilhada pela frente. Para sair dali, necessitamos de mais esforço. Explico-me: você começa a estudar piano e aprende, em um ou, no máximo, dois meses, uma valsinha simples. Foi uma vitória! Diferentemente dos estudantes de violino, os de piano tocarão coisas simples, mas afinadas, desde o começo. A nota está lá, pronta. Você chegou a um patamar inicial. Para ultrapassar, para aprender mais, necessita de muito mais esforço. De repente, não mais que de repente, você está tocando um minueto de Bach, do livro de Anna Magdalena. Outro salto! Novo patamar. O progresso implica mais horas, maior dedicação, mais paciência e alguma dor nas costas. Todo aprendizado (inglês, piano, ginástica olímpica) vai chegando a sucessivos e crescentes graus de dificuldade. O drama de aprender, processo permanente, é que todos os pontos têm retorno. No campo das habilidades, não pode retroceder.

Há um Rubicão em cada casamento. Uma amiga minha dizia, soberana e empoderada, ao marido (quando ambos eram jovens): ”Só fique comigo se realmente me amar, sou livre e independente”. Depois, repetiu a ideia na casa dos 35 anos, o ponto que Dante dizia ser o meio do caminho biográfico perdido em selva escura. Por fim, divisando a data em que poderia estacionar em vagas especiais em shoppings, anunciou, taxativa: ”Se você me deixar agora, eu lhe mato”.

É possível ser uma mudança de estratégia em função de demandas do mercado. Pode ser o adágio algo vulgar: “Comeu o filé, agora chupe o osso”! Na prática, todo homem e toda mulher podem ser abandonados ou amados em qualquer idade, algo que só aumenta nosso medo por alguma avaliação de oferta-procura. Não há segurança, apenas muitos rios a atravessar e, quiçá, o momento em que, vencidas as dificuldades ou cansados de questionar, passamos a aceitar que quem foi com Colombo de partida ao Novo Mundo retorna na mesma companhia. Prudente, o amor triunfa por razões muito complexas. Importante ter esperança no amor.

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

CÁLCULO PARA DESCOBRIR O IMC SERIA UMA FARSA?

Fórmula que usa altura e peso para concluir se alguém apresenta obesidade está cada vez mais desatualizada, dizem especialistas. Medida pode ser útil para pesquisas, mas não informa composição corporal do indivíduo

A fórmula do IMC é simples, pegue seu peso (em quilogramas) e divida pelo quadrado de sua altura(em metros). O resultado, que aponta quatro categorias principais, destina-se a descrever seu corpo em uma ou duas palavras: baixo peso (IMC menor que 18,5), peso normal (18,5 a 24,9), sobrepeso (25,0 a 29,9) ou obeso (30 ou mais).

Muitos se sentem julgados por essas categorias, visto que apenas cerca de um quarto dos adultos nos Estados Unidos podem se considerar “normais” na escala de IMC. Mas depois de conversar com um epidemiologista, dois médicos especialistas em obesidade, um  psicólogo e um sociólogo, nenhum afirmou que o IMC era uma medida muito útil para a saúde de uma pessoa. Alguns falam até em fraude.

HISTÓRIA LONGA

Introduzido na década de 1830 por um estatístico, belga, o cálculo foi batizado “índice de massa corporal” e popularizado nos anos 1970 pelo fisiologista Ancel Keys. Na época, ele estava irritado com a forma como as seguradoras estavam estimando a gordura corporal das pessoas – e, portanto, seu risco de morte – comparando seus pesos com os pesos médios de outras pessoas da mesma altura, idade e gênero.

Em média, as pessoas com um índice de massa corporal mais alto têm mais gordura corporal, por isso pode ser útil para monitorar as taxas de obesidade, que quase triplicaram globalmente nas últimas décadas. Também guarda uma relação com a mortalidade: IMC muito baixo e IMC muito alto estão associados a maior risco de morrer mais cedo, enquanto as faixas “normal” e “sobrepeso” estão associadas a menor risco de mortalidade.

Como Keys concluiu, o IMC também é fácil e barato de se medir, razão pela qual ainda é usado em pesquisas.

Apesar disso, é “bastante inútil quando se olha para o indivíduo”, disse Yoni Freedhoff, professor de medicina na Universidade de Ottawa.

O IMC não pode dizer, por exemplo, qual porcentagem do peso de uma pessoa é proveniente da gordura, dos músculos ou dos ossos. Isso explica porque atletas podem ter IMC alto, apesar de pouca gordura corporal. E, à medida que envelhecemos, é comum perdermos massa muscular e óssea, mas ganhamos gordura abdominal, uma mudança na composição corporal que seria preocupante para a saúde, mas poderia passar despercebidas e não alterasse o IMC, disse Manson.

A medida também é falha ao prever a saúde metabólica. Em um estudo de 2016 com mais de 40 mil adultos nos EUA, os pesquisadores compararam o IMC das pessoas com medidas mais específicas, como resistência à insulina, inflamação e pressão arterial, triglicerídeos, colesterol e níveis de glicose. Quase metade dos classificados com sobrepeso e um quarto dos classificados como obesos eram metabolicamente saudáveis por essas medidas. Por outro lado, 31% das pessoas com IMC “normal” não eram metabolicamente saudáveis. O IMC pode “rotular uma grande faixa da população como de alguma forma aberrante por causa de seu peso, mesmo se eles forem perfeitamente saudáveis”, disse A. Janet Tomiyama, autora do estudo e professora de psicologia na Universidade da Califórnia.

QUANDO É PREJUDICIAL?

Outro problema com o IMC é que ele foi desenvolvido e validado principalmente em homens brancos, disse Sabrina Strings, professora associada de Sociologia na Universidade da Califórnia, Irvine. Mas a composição corporal e sua relação com a saúde podem variar dependendo do gênero, raça e etnia.

“Mulheres e negros não estão amplamente representados em muitos desses dados. No entanto, eles estão sendo usados para criar um padrão universal”, disse Strings.

O IMC pode ser prejudicial se um médico presumir que uma pessoa com um índice normal é saudável e não questionar sobre hábitos potencialmente prejudiciais à saúde, como uma dieta ruim ou atividade física insuficiente. E se os médicos de pacientes com IMC mais elevados se concentrarem apenas no peso como causa dos problemas que possam ter, eles podem perder diagnósticos importantes, além de estigmatizar os pacientes.

Há muitas evidências de que o estigma de peso é prejudicial, disse Tomiyama. Uma pesquisa mostra que o preconceito contra a gordura é comum entre os médicos, o que pode resultar em cuidados de qualidade inferior e fazer com que os pacientes evitem o atendimento médico.

Essa carga pode recair desproporcionalmente sobre os negros, disse Strings, que, como grupo, tendem a ter IMC mais altos do que os brancos – especialmente as mulheres. No entanto, as evidências obtidas de um IMC mais alto não estão tão relacionadas à morte. Se os médicos se concentram apenas no índice de massa corporal, disse Strings, é mais provável que eles culpem o IMC pelos problemas de saúde de seus pacientes ou aconselhem seus pacientes negros a perder peso.

MEDIDA DA CINTURA

Se você está preocupado com o peso, uma maneira mais direta e relevante de medir a gordura corporal potencialmente prejudicial à saúde é medir a circunferência da cintura, disse Manson. Isso estima a gordura abdominal, que se encontra nas profundezas do abdômen e se acumula ao redor dos órgãos vitais. Em excesso, pode aumentar o risco de certas condições relacionadas à obesidade, como diabetes tipo 2, hipertensão e doença arterial coronariana.

Mas na clínica de controle de peso de Freedhoff, ele e sua equipe não definem metas do paciente em relação a IMC, peso nem circunferência da cintura.

“Discutimos algo que chamamos de “melhor peso”, que é qualquer peso que uma pessoa atinge quando está vivendo a vida mais saudável que pode realmente desfrutar”, disse.

Se o peso de um paciente estiver afetando negativamente a saúde ou qualidade de vida, eles explorarão estratégias de perda de peso, incluindo mudanças no estilo de vida, medicamentos ou até cirurgia.

Em vez de focar no tamanho do corpo como um indicador de saúde, Tomiyama disse que os resultados da glicose no sangue, dos triglicerídeos e da pressão arterial podem ser os melhores índices do bem-estar. Como você se sente em seu corpo também é importante.

Se você está buscando uma saúde melhor, deve priorizar um comportamento que segue mais em direção ao controle da dieta e hábitos de vida do que o índice de massa corporal, finaliza Tomiyama, como dormir melhor, mais exercícios, controlar o estresse e comer mais frutas e vegetais”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ANVISA DÁ STATUS DE SUPLEMENTO A SUBSTÂNCIA PARA TRATAR INSÔNIA

Versão sintética de um hormônio, melatonina terá venda sem receita

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou ontem o uso da melatonina como suplementação alimentar. Com a mudança, a substância usada para auxiliar o sono poderá ser comercializada sem receita para pessoas a partir de 19 anos, com consumo de até 0,21mg por dia. Antes, a venda só era permitida em farmácias de manipulação, com indicação médica. A decisão da Diretoria Colegiada foi unânime.

Hormônio produzido na glândula pineal, no cérebro, a melatonina ajuda na regulação do  relógio biológico do corpo humano. A produção da substância é desencadeada pela escuridão e interrompida pela luz. O problema é que, na vida moderna, marcada pela iluminação artificial e pelo uso de dispositivos como smartphone, tablet, computador e televisão, esse ciclo é constantemente prejudicado.

Estudos sugerem que a ingestão da versão sintética do hormônio, por meio de suplementos, pode ser útil no tratamento de curto prazo de distúrbios do sono, como o alívio da insônia e do jet lag. Com o aumento de problemas nessa área, seu uso se popularizou como uma forma “natural” de conseguir dormir melhor.

Pela decisão da Anvisa, grávidas, mulheres que amamentam crianças e pessoas em atividades que requerem atenção não devem utilizar a substância.

Segundo a agência, quem tem doenças ou toma medicamentos deve consultar o médico. Classificada como suplemento, a melatonina poderá ser comercializada sem receita médica.

A consulta pública em torno da aprovação da substância como suplemento alimentar começou em abril deste ano. Em 2017, a Anvisa aprovou a venda em farmácias de manipulação. A nova classificação, como a agência explicou em nota, é “destinada à complementação da dieta de pessoas saudáveis com substâncias presentes nos alimentos, incluindo nutrientes e substâncias bioativas, onde se enquadra a melatonina”.

Com a decisão, a substância passa a ter um enquadramento semelhante de países como os Estados Unidos, onde sua autorização pela FDA (responsável pela regulação de medicamentos) permite a venda “over the counter”, ou seja, no comércio comum, sem receita.

“Existe um certo problema (em ser aprovado como suplemento), porque medicamentos têm um controle mais rigoroso de qualidade em termos de pureza do produto, em termos de dosagem, padrão nos lotes”, avalia o endocrinologista Felipe Henning Gaia, membro da Associação Paulista de Medicina (APM).

O Centro Nacional para Saúde Complementar e Integrativa dos Estados Unidos (NCQH, na sigla em inglês) ressalta que os efeitos colaterais da melatonina podem incluir dor de cabeça, tontura, náusea e sonolência. Também é importante salientar que os suplementos podem interagir com vários medicamentos, incluindo: anticoagulantes e antiplaquetários, anticonvulsivantes, anticoncepcionais, medicamentos para diabetes e imunossupressores. Por isso, embora não seja necessária, é recomendado que seu uso seja feito com orientação médica.

OUTROS OLHARES

LICENÇA “CÃOTERNIDADE” LEVA LONGE DEMAIS O BOOM DOS PETS DA PANDEMIA

Solicitações de tempo para cuidar de animais de estimação adquiridos no lockdown chocam quando milhões ainda não têm licença parental

Um terço dos trabalhadores do Reino Unido pensaria em trocar de emprego a dividir o espaço de trabalho com um colega não vacinado, segundo uma pesquisa de opinião pública que saiu nesta semana.

Mas e se o colega tivesse garras? E uma tendência a babar, rosnar e roubar almoços que fiquem desprotegidos?

Se você achava que as regras que permitiam levar cachorros ao escritório já eram irritantes antes da Covid-19, prepare-se. A explosão na propriedade de animais de estimação causada pela pandemia deve afetar os locais de trabalho de maneiras que antes pareceriam inimagináveis.

Permita-me afirmar que eu não tenho bichos de estimação, mas sou profundamente pró-animais. Se minha casa em Londres fosse maior, eu seria um dos 3,2 milhões de britânicos que adquiriram um bicho de estimação desde que os lockdowns começaram, de preferência um cachorro ou gato – ou, idealmente, um de cada.

Antes da pandemia, eu encarava de maneira muito positiva as regras para animais adotadas por empresas como a Ben & Jeny’s e a Amazon, em cuja sede, em Seattle, 7.000 trabalhadores vão ao escritório acompanhados por seus bichos de estimação.

Nos últimos 18 meses, assisti com inveja a vídeos de colegas expulsando os gatos de perto dos teclados de seus computadores, em reuniões via Zoom. Agora que os escritórios estão começando a reabrir, é perfeitamente compreensível que as hordas de novos proprietários de animais de estimação estejam sofrendo alguma ansiedade diante da perspectiva de abandonar seus companheiros peludos.

Considerando a escassez de mão de obra que existe em muitos lugares, é igualmente compreensível que multidões de empregadores estejam planejando uma reabertura de escritórios à “au- altura.”

Pelos menos metade dos 500 gestores americanos pesquisados por um grupo de hospitais veterinários planeja permitir a presença de animais de estimação nos escritórios, quando estes reabrirem. A maioria deles disse que a decisão tinha sido tomada para atender a pedidos dos subordinados, e em boa parte para ajudar a convencer os trabalhadores a voltar ao escritório.

Para pessoas como eu, essa é uma notícia excelente. Mas e se você não gosta de bichos, é alérgico a eles ou rejeita o conceito de dividir seu espaço com criaturas que não são brilhantes na conversação, têm mau hálito e não são famosas pela disciplina sanitária?

Não admira que uma empresa britânica de serviços para animais de estimação tenha lançado o Petiquette, um serviço cujo objetivo é ajudar os empregadores a adotar regras que facilitem a presença de cachorros sem irritar demais as pessoas que prefeririam não tê-los por perto.

Francamente, não estou convencida de que uma empresa precise de assessoria sobre “estabelecer horários para alimentação e brincadeiras que não interrompam os outros”. Mas a ideia é sensata, em termos gerais.

No entanto, enquanto lia as bobagens de relações públicas da Petiquette, percebi uma coisa: a Pets at Home, a empresa que desenvolveu o serviço, também oferece aos seus empregados uma “licença cãoternidade”. Os empregados ganham um dia de folga quando adotam um novo animal de estimação, para ajudar a criatura a se acomodar.

Benefícios como esse não são novidade. A BrewDog, uma fabricante escocesa de cerveja artesanal, desde o começo de 2017 permite que seu pessoal tire uma semana de licença toda remunerada se o empregado adotar um animal ou um cão de resgate. Isso não impediu que dezenas de empregados da BrewDog assinassem uma carta aberta este ano na qual acusam a empresa de ter “uma cultura podre” e “atitudes tóxicas”.

Empresas demais, especialmente nos Estados Unidos, não oferecem licença maternidade ou licença paternidade pagas.

Mas a ideia de licença cãoternidade decolou durante a pandemia, à medida que a posse de animais de estimação disparava.

Algumas semanas atrás, Roger Wade, presidente executivo da Boxpark, uma empresa britânica de restaurantes “pop­ up” e venda de alimentos, postou uma pesquisa em mídias sociais perguntando o que seus leitores achavam de um trabalhador que tinha lhe pedido licença cãoternidade para cuidar de um cachorro adotado. Meu dedo hesitou sobre o teclado, quando chegou a hora de votar. Quanto mais homens tiverem licença -paternidade, melhor. O enrosco surgido nos Estados Unidos este mês quando Pete But tigieg, secretário federal do Transporte, tirou uma licença para cuidar de seus gêmeos recém-nascidos foi tão desagradável quanto previsível. Também compreendo por que qualquer pessoa que tenha um cachorro novo queira uma licença, e por que pode fazer sentido que uma empresa ofereça grandes benefícios e, crucialmente, licenças maternidade e paternidade generosas para seus empregados. Mas um número excessivo de companhias não o faz, especialmente nos Estados Unidos, o único país rico que não garante licenças remuneradas para as pessoas que acabam de ter filhos. No final do ano passado, só 21% dos trabalhadores americanos tinham acesso a licenças renumeradas quando se tornam pais.

Foi pensando em estatísticas como essa que fiz como 61% dos respondentes da pesquisa e votei contra a concessão de uma licença cãoternidade ao empregado de Wade. Em um mundo mais justo, concedê-la poderia ser razoável, mas por enquanto é um passo grande demais para qualquer pata.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 04 DE DEZEMBRO

A CASA DO ÍMPIO É DESTINADA À RUÍNA

O Justo considera a casa dos perversos e os arrasta para o mal (Provérbios 21.12).

A casa do perverso será destruída, e o justo verá isso acontecer. Vem a tempestade e acaba com os maus, porém os honestos continuam firmes no exato momento em que os maus são desamparados. Os perversos se comparam à palha que o vento dispersa. Não têm raízes profundas nem sólido fundamento. Não permanecerão na congregação dos justos nem prevalecerão no juízo. Quando a tempestade chegar, serão arrastados para a ruína. Serão levados pela enxurrada das circunstâncias e não permanecerão de pé. O justo, porém, observa a casa dos perversos e vê os ímpios caminhando rumo à ruína. O justo não apenas vê a ruína do perverso, mas é levantado por Deus como agente do juízo sobre ele. A própria justiça do justo condena a iniquidade do perverso. A própria luz do justo cega os olhos doentes do perverso. A própria santidade do justo denuncia a iniquidade do perverso. As virtudes do justo são a expressão do juízo divino sobre a vida do perverso. O justo, na verdade, é levantado por Deus para ser o instrumento da condenação do perverso. É por intermédio do justo que os perversos são arrastados para o mal. A ruína do perverso será grande, pois sua casa desabará sobre sua cabeça e, nesse dia, ele ficará completamente desamparado.

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRAS QUENTES – V

TECNOLOGIA – GUERRA POR TALENTOS

O mercado de trabalho para tecnologia está aquecido desde a invenção da roda, e segue se provando indestrutível. “Mesmo dentro de um cenário de pandemia, a busca por profissionais de TI não cessou. Muito pelo contrário. Todos os setores econômicos estão em processo de transformação digital e demandam por pessoas para trabalhar com tecnologia”, diz Wagner Sanchez, diretor acadêmico do Centro Universitário FIAP.

O interesse pelos melhores profissionais é tanto que, não raro, quem dita as regras do jogo são os candidatos. Muitas vezes, uma mesma pessoa está participando de mais de um processo seletivo ao mesmo tempo, e ela não vai ter medo de recusar uma proposta pouco interessante. Isso causa guerras entre companhias para atrair e reter os melhores da área.

Muitas vezes, a briga é entre empresas de países diferentes. A pandemia quebrou de vez as poucas barreiras geográficas que ainda haviam no mercado de tecnologia. “Agora, as disputas por talentos são com empresas de fora, principalmente por causa da alta do dólar. As companhias do exterior perceberam que elas conseguem contratar mão de obra brasileira de alta qualidade por um custo bem mais baixo”, afirma Mariana Horno, da Robert Half.

HACKER DO BEM

Quando começou a faculdade de Direito, Daniel Zaia Manzano (33 anos) nem imaginava cair na área de TI. “No meio do curso, percebi que gostava de informática e decidi mudar de carreira”, relembra o paulistano. Daniel é um pent ester – também conhecido como “hacker do bem”. O seu trabalho é simular ataques a sistemas de segurança de empresas e bancos para encontrar vulnerabilidades. O desafio, ele diz, é estar atualizado com tudo que envolve ferramentas-antifraude e tentativas de golpes (porque o que não falta aí é novidade). E Daniel lembra que não tem mais essa de o profissional aprender tudo sozinho. “A formação acadêmica é importante para dar uma base teórica e também existem certificações importantes para a área [como o CSSP, destinado para quem trabalha com segurança de rede; e o OSCP, sobre ética de hacking]. Ser autodidata hoje significa ser curioso e buscar novos conhecimentos, mas sem pular a educação tradicional”.

EU ACHO …

TANTO TUDO

Você sabe que os anos estão passando quando não identifica mais quem são as pessoas que a maioria da população admira. Há um sem-número de ídolos populares que, se entrassem num elevador comigo, eu não faria ideia de quem seriam, enquanto, para seus fãs, compartilhar com eles os poucos segundos entre o térreo e o décimo andar ressignificaria a vida. Muitos artistas estão neste exato instante quebrando recordes no Spotify e fazendo lives acompanhadas por milhões de seguidores, e ao ouvir seus nomes pela primeira vez, eu talvez os confundisse com algum ex-colega de faculdade.

Parece absurdo que alguém nunca tenha escutado a respeito de Anitta, por exemplo, mas há pouco tempo, um advogado me perguntou quem era. Fiquei chocada. De que planeta você veio?  Pode-se gostar ou não gostar, mas jamais ter ouvido falar de Anitta? Só então me dei conta de que eu estava caindo na armadilha comum de achar que, se alguém ignora a existência de uma celebridade, não passa de um esnobe.

O showbiz mudou. Antigamente, as capas de revista consagravam carreiras. A televisão era o eletrodoméstico mais importante da casa. Todo mundo conhecia o rei do iê iê iê, o galã da novela, a miss de cetro e coroa. Eram intocáveis, distantes, quase sobrenaturais – pois raros.

Hoje você grava um vídeo caseiro, posta na internet, cai na graça de uns, viraliza e dentro de um ano pode estar morando numa mansão, e quem vai dizer que o valor passou ao largo?

Quase sempre o êxito vem do talento artístico, mas pode vir também do faro para tendências, para criar conteúdo motivacional, para fazer dinheiro nas redes – algum talento toda pessoa tem, é só descobrir qual e como usá-lo, manejando as ferramentas que dispõe. A frase célebre de Andy Warhol não caducou pelo sentido, e sim pela duração: 15 minutos, hoje, é uma eternidade, mas uns poucos segundos de visibilidade estão garantidos a todos.

Nós, os sobreviventes da era analógica, não conseguimos acompanhar tanta novidade circulando pelo palco digital. Eu, ao menos, admito a lentidão que me domina: cultivo paixões antigas e algumas atuais, e já me perdoei por, mesmo trabalhando num veículo de comunicação, não conseguir estar informada sobre tudo e sobre todos. Não conhecia Marília Mendonça. De que planeta eu vim?

De outro século e deste aqui, vim lá de trás e de hoje cedo, administro como posso o meu passado e este presente intenso, me espanto com a oferta atordoante de eventos e existências, tantas que nem todas são por mim assimiladas. Ainda assim, junto-me aos lamentos. Toda morte é trágica, ainda mais de jovens que deixam órfãos uma família, amigos, fãs e um futuro. Não é esnobismo, não, é esse tempo agora, voraz.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br  

ESTAR BEM

ENTENDA COMO OS HORMÔNIOS INFLUENCIAM A ATIVIDADE FÍSICA

Pesquisadores descobriram que o estrogênio é responsável por ativar genes ligados ao ato de se movimentar

O estrogênio tem o poder de alterar a atividade cerebral de maneiras que podem afetar o quão fisicamente ativos nós somos, aponta novo estudo realizado com camundongos que analisou o DNA, os hormônios e as células cerebrais. Por meio de tecnologias avançadas para localizar e reprogramar genes específicos e neurônios em animais vivos, o estudo,  publicado recentemente na revista cientifica Nature, descobriu que doses de estrogênio   desencadearam processos no cérebro dos animais – até mesmo machos ­ que os tornaram mais ativos.

Embora os humanos compartilhem muitos dos mesmos hormônios, genes e neurônios com os camundongos, nós não somos roedores e não podemos ainda dizer se nossos cérebros e sistemas fisiológicos funcionam da mesma maneira. Mas as descobertas abrem  caminhos de pesquisa sobre porque muitas mulheres se tornam menos ativas após a menopausa, quando o estrogênio desaparece.

Os resultados também destacam como o cérebro e processos biológicos internos trabalham juntos para desempenhar um papel inesperado e substancial na ação do corpo em se levantar e se mover, ou em permanecer quase imóvel. Por quase um século, desde um famoso estudo de 1924 envolvendo ratos, cientistas sabem que as fêmeas dos mamíferos tendem a estar fisicamente mais ativas logo antes da ovulação, quando também estão mais sexualmente ativas. Esse comportamento faz sentido do ponto de vista evolutivo, uma vez que as fêmeas estariam à caça de um parceiro. Nas décadas seguintes, pesquisadores começaram a especular que o estrogênio deveria ter um papel motor nesse comportamento, com estudos subsequentes indicando que as oscilações diárias de fêmeas de animais criados em laboratórios normalmente aumentavam e diminuíam junto com seus níveis de estrogênio.

Mas como poderia o estrogênio, cuja função primária é controlar a ovulação e outros aspectos da reprodução, influenciar a atividade física? Esse quebra-cabeça chamou a atenção de Holly Ingraham, professora de fisiologia da Universidade da Califórnia, em São Francisco, nos EUA, que há anos pesquisa fisiologia e metabolismo das mulheres. Ela e seus colaboradores se perguntaram se o estrogênio poderia, de alguma forma, moldar a atividade genética no cérebro, o que não ativaria as células cerebrais de uma maneira que acionaria o próprio ato de se mover.

Para investigar essa possibilidade, os cientistas primeiro reuniram um grupo de ratos fêmeas adultas e saudáveis e então bloquearam quimicamente a absorção de estrogênio em alguns deles, enquanto rastreavam o quanto os animais se moviam. Quase imediatamente, os animais sem estrogênio tornaram-se visivelmente mais sedentários do que os demais, confirmando que o estrogênio de alguma forma afeta a atividade física.

ATRÁS DAS CÉLULAS

Em seguida, os pesquisadores examinaram a atividade de uma série de genes  nos cérebros dos animais e perceberam que um específico bombeava proteínas extras na presença de estrogênio, mas ficavam quase inertes quando ele estava ausente. Esse gene, o melanocortina-4, ou Mc4r, já era associado, em pessoas, à ingestão de alimentos e à regulação do peso corporal. Mas os cientistas agora indicam que ele também pode ser a ponte entre o estrogênio e o impulso para ser fisicamente ativo, uma ideia que eles fundamentaram utilizando técnicas de mapeamento genético de alta tecnologia por uma das autoras do estudo, Jéssica Tollkuhn, professora do Laboratório da Escola de Ciências Biológicas Cold Spring  Harbo em Nova York, nos EUA.

Essas técnicas mostraram, em tempo real, o estrogênio se ligando aos genes Mc4r em  certos neurônios, especialmente aqueles em uma parte do cérebro do camundongo envolvido no gasto de energia. No final, o experimento mostrou o estrogênio disparando um gene especifico, que, por sua vez, ativa certas células cerebrais que, então, são esperadas que estimulam o animal a se mover.

Mas os cientistas ainda não haviam observado esses genes e neurônios em ação. Então utilizaram uma técnica chamada quimiogenética para galvanizar diretamente os neurônios relevantes nas fêmeas de camundongos criados para não produzir estrogênio. Antes fisicamente lentos, esses ratos agora exploravam, levantavam-se, brincavam e corriam muito mais que antes.

De forma semelhante, quando os cientistas utilizaram uma forma da tecnologia de edição de genes para estimular a atividade do gene Mc4r nos cérebros das fêmeas, os ratos tornaram-se quase duas vezes mais ativos do que antes, um surto físico que persistiu por semanas. Até camundongos machos se moveram mais quando sua atividade do gene Mc4r era aumentada, embora não tanto quanto as fêmeas.

O estudo também levantou a intrigante possibilidade de que o “momento do exercício, para ter seu impacto mais benéfico para as mulheres, pode ser ajustado considerando as mudanças no ambiente hormonal” incluindo as alterações da menopausa, disse Tomas Horvath, professor de neurociência, obstetrícia e ginecologia na Escola de Medicina da Universidade de Yale.

“É claro que todas essas observações em camundongos precisam ser confirmadas se operam em nós, humanos. No entanto, o fato de que esse mecanismo é encontrado em uma parte antiga do cérebro sugere que ele deve ser aplicável à maioria dos mamíferos, incluindo os humanos”, disse Horvath, que não estava envolvido na pesquisa.

SIMULAÇÃO DE ESTROGÊNIO

Ingraham concordou. “Nós presumimos que esse circuito funcione em humanos também”, disse, e, se for o caso, o novo estudo pode ajudar a explicar, em parte, porque a inatividade tão comum em mulheres depois da menopausa, e, também oferecer algumas possíveis estratégias para superar esse cansaço. Aumentar os níveis de estrogênio em mulheres mais velhas, por exemplo, pode, em teoria, estimular mais movimento, embora a terapia de reposição de estrogênio continue um assunto complicado por causa dos riscos elevados de câncer e outros problemas.

O estudo sugere, no entanto, que poderia, eventualmente, ser possível contornar o estrogênio e recriar seus efeitos com novas terapias que visariam diretamente o gene Mc4r, ou neurônios relevantes, e simular os efeitos do estrogênio sem o hormônio em si. Qualquer avanço médico, porém, está no futuro, diz Ingrahm

“Sabemos a importância de se exercitar mais tarde na vida para promover e manter a saúde, então o desafio para nós agora e entender as melhores maneiras de permanecer   ativo durante a grande transição hormonal que é a menopausa”, disse Paul Ansdel, professor de fisiologia do exercício na Universidade de Northumbria, na Inglaterra. “Conhecimento é poder”, concluiu lngraham. Ela observou que, como muitos de nós estamos vivendo mais agora, entender melhor porque – e se –  escolhemos nos mover pode ajudar a tornar esses anos mais saudáveis.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DEPRESSÃO E ANSIEDADE AFETAM O CORPO DE MODO GRAVE

Organismo humano não reconhece a separação que os médicos fazem entre as doenças mentais e as físicas

Não causa surpresa quando uma pessoa fica ansiosa ou deprimida ao ser diagnosticada com doença cardíaca, câncer ou outro problema físico que limite ou ameace sua vida. Mas o contrário também pode ser verdade: a ansiedade ou a depressão em excesso podem contribuir para o desenvolvimento de uma doença física séria e até impedir a capacidade de suportá-la ou de se recuperar.

As potenciais consequências são especialmente oportunas, porque o estresse atual e as disrupções da pandemia continuam impondo um peso à saúde mental.

O organismo humano não reconhece a separação feita pelos médicos entre doenças mentais e físicas. Ao contrário, a mente e o corpo formam uma via de mão dupla. O que acontece dentro da cabeça de uma pessoa pode ter efeitos nocivos por todo o corpo, assim como o inverso. Uma doença mental não tratada pode aumentar de maneira significativa o risco de a pessoa adoecer fisicamente. e problemas físicos podem resultar em comportamentos que agravam as condições mentais.

Em estudos que acompanharam pacientes com câncer de seio, por exemplo, o doutor David Spiegel e seus colegas na escola de medicina da Universidade Stanford mostraram, décadas atrás, que as mulheres cuja depressão estava diminuindo viviam mais que aquelas cuja depressão estava se agravando.

Sua pesquisa e outros estudos mostraram claramente que “o cérebro está intimamente conectado ao corpo, e o corpo ao cérebro”, disse Spiegel. “O corpo tende a reagir ao estresse mental como se fosse um estresse físico”.

Apesar dessa evidência, ele e outros especialistas dizem que o transtorno emocional crônico muitas vezes é desprezado pelos médicos. É comum um profissional prescrever  uma terapia para problemas físicos, como doença cardíaca ou diabetes, mas não entender porque alguns pacientes pioram em vez de melhorar.

Muitas pessoas relutam em buscar tratamento para problemas emocionais. Algumas podem ter medo de ser estigmatizadas e tentam tratar o transtorno emocional adotando comportamentos como beber demais ou usar drogas.

E as vezes parentes e amigos inadvertidamente reforçam a negação de transtorno mental de uma pessoa rotulando-o como “é apenas o jeito dela”, e não fazem nada para incentivá-la a buscar ajuda.

Os transtornos de ansiedade afetam quase 20% dos adultos nos EUA. Isso significa que milhões de pessoas são alvo de uma abundância de reações de “lutar ou fugir”, que preparam o corpo para agir.

Quando você está estressado, o cérebro responde provocando a liberação do hormônio cortisol, o sistema de alarme da natureza. Ele evoluiu para ajudar os animais a enfrentarem ameaças, aumentando o ritmo da respiração e dos batimentos cardíacos e redirecionando o fluxo de sangue dos órgãos abdominais para os músculos que ajudam a enfrentar ou escapar do perigo.

Essas ações protetoras derivam dos neurotransmissores epinefrina e norepinefrina, que estimulam o sistema nervoso simpático e colocam o corpo em alerta. Mas, quando eles são invocados com demasiada frequência e de maneira indiscriminada, o superestímulo crônico pode resultar em todos os tipos de males físicos, incluindo indigestão, caibras, diarreia ou constipação, e um risco maior de ataque cardíaco ou derrame.

É normal se sentir deprimido de vez em quando, porém mais de 6% dos adultos têm sentimentos tão persistentes de depressão que eles perturbam os relacionamentos pessoais, interferem no trabalho e na diversão e prejudicam a capacidade de enfrentar os desafios do dia a dia.

Para potencialmente agravar as coisas, o excesso de ansiedade e a depressão muitas vezes coexistem, deixando as pessoas vulneráveis a uma série de problemas físicos e incapazes de adotar e manter a terapia necessária. A ansiedade persistente e a depressão são altamente tratáveis com medicamentos e terapia, mas sem tratamento essas condições tendem a se agravar.

Segundo o doutor John Frownfelter, o tratamento de qualquer condição funciona melhor quando o médico entende “as pressões que o paciente enfrenta que afetam seu comportamento e resultam em danos clínicos”.

Frownfelter é diretor médico de uma startup chamada Jvion, que usa inteligência artificial para identificar não somente fatores médicos, mas psicológicos, sociais e comportamentais que podem impactar a eficácia do tratamento para a saúde do paciente. Seu objetivo é promover abordagens mais holísticas do tratamento, que lidam com o paciente inteiro, corpo e mente combinados.

As análises usadas por Jvion podem alertar um médico quando a depressão subjacente talvez esteja prejudicando a eficácia do tratamento prescrito para outra condição. Por exemplo, pacientes que são tratados de diabetes e se sentem desanimados podem deixar de melhorar porque tomam a medicação prescrita apenas esporadicamente e não seguem a dieta adequada, disse Frownfelter.

“O que não falamos o suficiente é que a depressão pode levar a doenças crônicas. Pacientes com depressão podem não ter motivação para se exercitar regularmente ou cozinhar refeições saudáveis. Muitos têm dificuldade para dormir adequadamente”, escreveu  Frownfelter em julho na revista Medpage Today

Algumas mudanças no atendimento médico durante a pandemia permitiram o acesso a psicoterapeutas que podem estar em outro país. Os pacientes também podem conseguir se tratar sem a ajuda direta de um profissional.

Spiegel  e seus colegas criaram um aplicativo chamado Reveri, que ensina as pessoas técnicas destinadas a melhorar o sono, reduzir a dor e a suprimir ou abandonar o fumo.

OUTROS OLHARES

AUMENTA PROPORÇÃO DE CRIANÇAS COM ATÉ 13 ANOS VÍTIMAS DE ESTUPROS NO BRASIL

Com denúncias em queda na pandemia, faixa etária chegou a 60,6% dos casos

“Eu tinha um ódio tão grande”, lembra Nair, 41, ao relatar os abusos sexuais de seu tio, que começaram quando ela tinha 12 anos. “Virei a filha rebelde e comecei a me prostituir.”

Carolina , 31, e um ano mais nova do que Nair quando seu padrasto começou os abusos, que só pararam quando ela tinha 15 e fugiu de casa. Com um filho de 3 anos, ela voltou a dividir o teto com o abusador, que continua casado com sua mãe. “É complicado”.

Nair e Carolina (que pediram para ter sua identidade protegida) se somam a dezenas de milhares de vítimas de estupro no Brasil – as mulheres são 86,9% de todos os casos registrados no país. Assim como as duas, 85,2% delas conheciam o autor do abuso e 60% foram agredidas dentro de casa, com menos de 19 anos.

Entre as crianças de até quatro anos, vai a 70% o total dos crimes cometidos na própria residência. Os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2021, feito com e nos boletins de ocorrência registrados nos estados em 2020.

De acordo com o Código Penal Brasileiro, o crime de estupro é definido como “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso.”

Se a vítima for menor de 14 anos ou se, “por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato”, fica tipificado o estupro de vulnerável. E esses são 73,7% dos casos, de acordo com os números mais recentes.

Os levantamentos mostram que o crime vem ocorrendo com vítimas cada vez mais jovens: o percentual de crianças de até 13 anos entre os registros passou de 57,9% em 2019 para 60,6% em 2020. Isso apesar de uma queda no total de denúncias durante a pandemia – foram 60.460 casos no ano passado, contra 69.886 no período anterior.

Para os especialistas, no entanto, a diminuição tende a estar relacionada mais à dificuldade de procurar uma delegacia devido ao isolamento social do que à redução no número de crimes.

“Para além dos efeitos mais visíveis e imediatos desta violência”, descreve o anuário, “vítimas da violência sexual com frequência sofrem transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), depressão, ansiedade, transtornos alimentares, distúrbios sexuais edo humor, maior uso ou abuso de álcool e drogas, comprometimento da satisfação com a vida, com o corpo, com a atividade sexual e com relacionamentos interpessoais.”

Na Paraíba, por exemplo, uma adolescente de 15 anos tentou matar o filho de 4 anos, fruto do abuso sexual cometido pelo padrasto. “É uma pessoa com conflitos enormes no seu psiquê”, contou a promotora da Infância Ivete Arruda à mídia local. “Ela enxergava o agressor quando via o menino. Quando olhou para ele, veio à mente tudo o que ela tinha vivido em relação ao padrasto, as agressões, os estupros, o que ela ouvia da mãe.”

De acordo com Arruda, a situação foi um pedido de socorro. “É uma bandeira de SOS que ela levanta, por tudo que passou. Ela ama o filho. Já externou isso diversas vezes, mas o sentimento era de tirar tudo da vida dela para que a dor sumisse.”

O caso reitera a avaliação de que os efeitos dos abusos de crianças deixam “marcas por toda a vida”, como afirma o anuário. “Trata-se de uma geração de crianças e adolescentes marcada de forma definitiva e que tem as suas oportunidades, que nesse período deveriam ser maximizadas, profundamente prejudicadas.”

No caso de Nair, o abuso significou, além da dificuldade de se relacionar com outras pessoas, dez anos na prostituição. Carolina, por sua vez, relata ter ficado desestabilizada por muito tempo, tanto financeira quanto emocionalmente. Hoje, com um filho de 3 anos com deficiência intelectual, ela está desempregada e vive do auxílio pago ao menino pelo governo.

Líder na incidência de estupro de vulnerável no Brasil, Mato Grosso do Sul, onde vivem Carolina e Nair destoou da tendência nacional de queda vista em 202 com uma taxa de 57,5 casos por 100 mil habitantes (alta de 4,5% mesmo em ano de pandemia).

Umas das vítimas desse tipo de crime no estado neste ano foi Raissa da Silva Cabreira, 11, moradora da aldeia Bororó, em Dourados, a 130 km da capital, Campo Grande. Ela sofreu um estupro coletivo e foi morta ao ser jogada de uma pedreira. Um dos autores foi seu tio, Elinho Arévalo, que abusava sexualmente de Raissa desde que ela tinha 5 anos – ele foi morto na cadeia.

O caso na aldeia Bororó expõe a dificuldade de lidar com os abusos de indígenas em Mato Grosso do Sul, que tem grande quantidade de assentamentos e aldeias.

“A gente tem a segunda maior população indígena do Brasil em Mato Grosso do Sul, e os índices de violência e vulnerabilidade de meninas e mulheres  indígenas são muito altos”, explica a subsecretária Estadual de Políticas Públicas para Mulheres, Luciana Azambuja. “É muito delicado ter uma política pública que atenda a todos os grupos, precisa ter especificidades. A gente precisa falar em guarani, em espanhol na fronteira,”

Para tentar enfrentar o problema, o estado trabalha com uma estrutura de acolhimento das vítimas em diferentes órgãos públicos. Entre as iniciativas, está a chamada sala lilás, implantada no Instituto Médico Legal desde 2017.

O modelo foi importado do Rio Grande do Sul e visa dar um atendimento mais humanizado às vítimas de violência sexual, com espaço exclusivo para crianças. Além do IML, a sala tem sido replicada em delegacias de cidades de pequeno e médio porte. Em Sidrolândia, a 70 km da capital, houve aumento de 40% na procura pela delegacia com o atendimento especializado.

“Quando tem um órgão especializado, encoraja as mulheres, e o número de denúncias cresce”, explica a subsecretária. Até agora, foram sete salas instaladas pelo estado e outras 10 estão para serem inauguradas. Além disso, há 12 Delegacias de Atendimento Especializado à Mulher (Deam), que atendem quase metade dos municípios. Dentro dessas delegacias, explica a delegada Joilce Ramos, que atua em Campo Grande, a preocupação é não revitimizar os menores de idade, que são atendidos nos horários em que a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente não está aberta. Por isso, é ouvido apenas o acompanhante para um relatório preliminar e a criança ou o adolescente dá seu depoimento a um psicólogo em outro momento.

Um profissional da área também faz a avaliação de mulheres vítimas de estupro. “Geralmente, não tem testemunha, e a palavra da vítima tem preponderância”, explica Joice sobre o trabalho do psicólogo para descobrir se o crime aconteceu. Integram essa rede de acolhimento iniciativas como a Casa da Mulher Brasileira em Campo Grande, a primeira a ser instalada no país, e o Núcleo da Infância e Juventude dentro do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), que trabalha para auxiliar o trabalho dos promotores ao lidar com casos como o do abuso sexual de menores. Ainda assim, a promotora Fabrícia Lima, que coordena o núcleo, destaca que um dos desafios é a integração dessa rede.

Além de impactar as denúncias, as restrições impostas pela pandemia tiveram reflexos nos trabalhos de prevenção. Algumas ações foram mantidas de forma virtual, como o site Não se Cale, que reúne campanhas de informação e links para denúncias. “Seria ótimo se todas tivessem internet, mas não é a realidade da maio parte das mulheres mais vulneráveis”, diz a subsecretária. O retorno das crianças às aulas presenciais também veio acompanhado pelo aumento no número de relatos – as escolas têm papel decisivo na identificação de casos de violência. “Nesse momento em que as crianças possivelmente estiveram mais expostas a situações mais delicadas e que mais precisavam de ajuda, algumas das possíveis portas de entrada das denúncias, como as escolas, estavam fechadas”, diz o anuário.

Na escola Manoel Bonifácio Nunes da Cunha, de ensino integral em Campo Grande, a diretora Lusimeire Gonçalves já registrou duas situações de violência em casa desde o retorno das crianças às aulas. “O grande desafio é quando descobre quem é, e muitas vezes é alguém tão próximo”, diz.

Essa proximidade dos abusadores com as vítimas foi destacada no Anuário de Segurança Pública. “Quando tratamos de violência contra crianças e adolescentes, os dados são preocupantes, pois indicam que são familiares e outras pessoas do círculo íntimo destas os principais autores de abusos e violações de caráter sexual.”

Soma-se a isso a falta de acolhimento de quem deveria proteger e acreditar na vítima, como no caso de Carolina. “O maior desconforto é em relação aos cuidadores, quem não acreditou (no abuso)”, explica a psicóloga Roseneia Martines, que atua no Projeto Nova, de atendimento a vítimas de violência sexual, onde Carolina e Nair receberam acompanhamento. “Normalmente é a figura materna que não foi o suporte necessário. E a parte mais difícil, mais do que falar do próprio abuso, é a dor do abandono:· “Eu convivo com a pessoa, a minha mãe não se separou dele e está casada até hoje”, conta Carolina. “Então não foi difícil, ainda é.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 03 DE DEZEMBRO

O CAMINHO DO APRENDIZADO

Quando o escarnecedor é castigado, o simples se torna sábio; e, quando o sábio é instruído, recebe o conhecimento (Provérbios 21.11).

O processo de ensino-aprendizado não é assimilado por todos da mesma maneira. O escarnecedor é castigado e nada aprende. O simples só aprende com a experiência amarga dos outros. Já o sábio, por intermédio da instrução, encontra o conhecimento e alcança a sabedoria. É triste quando um indivíduo chega a um ponto tal de embrutecimento que, mesmo sendo castigado, não aprende nada. A vara da disciplina já não molda mais seu caráter. Essas pessoas serão quebradas repentinamente sem chance de cura. Quem age assim torna-se pior do que o cavalo e a mula, que, embora irracionais, obedecem ao freio. As pessoas sem experiência aprendem uma lição quando o zombador é afligido e castigado. Esse é o aprendizado de segunda mão. Palavras não bastam; uma ação radical ou um revés na vida de alguém é necessário para fazê-lo aprender uma lição de sabedoria. Atitude completamente diferente tem o sábio. Ao ser instruído, ele tem a mente aberta para aprender, o coração disposto a obedecer e a vontade ágil para ensinar o que aprendeu. O néscio nada aprende. O simples depende dos outros para aprender. O sábio tem pressa para ouvir a instrução e receber o conhecimento.

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRAS QUENTES – IV

MERCADO FINANCEIRO – MAIS TRABALHO PELA FRENTE

Só neste ano, 40 empresas já engrossaram a lista de companhias com capital aberto no Ibovespa. Bom para elas, que estão captando mais dinheiro, e ainda melhor para os profissionais que trabalham com equity research. Essa é uma área comum dentro dos bancos e corretoras, e desempenha um papel essencial: estudar os fundamentos de uma empresa para determinar se ela é ou não uma boa opção de investimento, e analisar a flutuação do preço das ações, para saber se vale ou não vale comprar tal papel. Hoje, com cada vez mais empresas para acompanhar e cada vez mais pessoas físicas investindo em ações, cresce também o número de casas de análise – que não são bancos nem corretoras, apenas instituições que fornecem relatórios sobre o mercado. Algumas delas contam com dezenas de analistas.

Mesmo porque escarafunchar balanços e formular análises sobre o desempenho de um setor ou de uma empresa para o futuro não é um trabalho simples – nem uma ciência exata. Chovem erros. E isso é bom: torna os melhores analistas um ativo particularmente valioso. Vale destacar que, para atuar no mercado financeiro, é obrigatório que o profissional tenha algumas certificações. Elas variam de acordo com a atividade exercida. Para quem quer ser analista, por exemplo, o CNPI é indispensável. Mas também tem o CPA, que é destinado para funcionários de bancos e corretoras que lidam diretamente com clientes; e até certificados internacionais, que não são obrigatórios, mas dão um gás na carreira, como CIIA (Certificado Internacional de Analista de Investimentos).

“MEU TRABALHO É ESTUDAR”

Eduardo da Rocha Lopes, de 27 anos, se formou em engenharia mecânica em Niterói (RJ). Como a região abriga empresas de óleo e gás, o mineiro começou a carreira nesse setor, mas sempre com vontade de aprender economia. “Eu gostava de mercado financeiro, mas não tinha ideia de como atuar na área. Até que, em 2019, soube que o Santander estava contratando engenheiros e vi uma oportunidade de mudar minha carreira.” Lá no banco, ele atuava como analista de produtos, mas o seu sonho era entrar na área de equity research. Para Isso, começou a estudar sobre o mercado e a tirar os certificados necessários. E, no ano seguinte, foi contratado como analista de equity research na Santa Fé Investimentos. “Meu trabalho é estudar. Eu passo o dia todo pesquisando sobre empresas e os setores em que elas atuam. Para quem quer trabalhar com isso, é essencial que seja curioso e tenha vontade de aprender.”

EU ACHO …

MATAR OU NÃO, EIS A QUESTÃO

Pode acontecer com qualquer um nesse dia a dia urbano de todos os dias. Andando pela rua, presenciamos situações de agressão moral ou física que podem surgir de episódios banais. Um esbarrão involuntário, por exemplo. O esbarrador ofende o esbarrante, empurra, ameaça escalar a agressão. Imagine agora que um esteja armado, e o outro seja um policial. O que eles farão depende do cérebro: inicialmente, uma série de reflexos corporais é ativada. Um assume a postura de defesa, outro de ataque, o coração de ambos dispara e a respiração acelera. O cérebro tenta oferecer ao corpo mais energia e melhores condições para o confronto. Depois é preciso também focar a atenção, avaliar a situação. E decidir o que fazer. Automaticamente. Rapidamente.

Há redes cerebrais que realizam todas essas operações, escolhendo e contendo os comportamentos até que seja o momento de liberar os mais adequados. O tempo é mínimo porque vidas podem estar em jogo. O desfecho depende também do contexto social, educação, treinamento e leis. Supõe-se que o policial terá sido treinado para controlar-se e modular sua reação. E que as normas e leis do país possam ajudá-lo (ou não…) a avaliar as consequências. No final da história, podem resultar mortos e feridos…

Os psicólogos e neurocientista utilizam testes de comportamento e instrumentos de medida cerebral para estudar como esses acontecimentos se desenvolvem. Geralmente os testes empregados são chamados “go/no go”: após tomar uma decisão, a pessoa aperta um botão (go), ou permanece como está (no go). É um teste muito simplificado em relação à complexidade da vida real. Mas recentemente uma dupla de psicólogos americanos aprimorou os estudos. Publicou um trabalho sobre a tomada de decisão de disparar uma arma, usando um jogo digital que adiciona à decisão go/ no go uma série de variáveis sociais. Uma delas: a cor da pele de um “suspeito”.  Outra: o contexto do ambiente em que a situação se dá, facilitando ou não uma retirada estratégica (um parque versus um shopping). A terceira: a legislação que regula essas situações, que pode criminalizá-las ou não. E, finalmente, o registro da atividade cerebral pelo eletroencefalograma.

Os pesquisadores recrutaram centenas de voluntários, homens e mulheres, a quem relatavam “leis” mais ou menos lenientes à violência, e apresentavam um cenário urbano aberto ou fechado, uma pessoa “alvo” que se aproximava em atitude ameaçadora, e um botão representando uma arma, para disparar ou não. Os resultados foram claros. Viés racial, o fator mais forte. A probabilidade de “atirar” foi sempre maior quando o indivíduo-alvo era negro. Se estivesse armado, maior ainda. Os tiros diminuíram se o ambiente fosse aberto e abrisse possibilidade a uma retirada estratégica. E o mais importante: quando os voluntários eram avisados de que a “legislação” era permissiva, atirar tornava-se a decisão predominante. Finalmente, a conectividade cerebral nas regiões atencionais era maior e a de controle inibitório era menor quando o “alvo” era negro, quando estava armado, quando o ambiente não facilitava a retirada e, mais que tudo, quando a legislação era leniente. Significa que nessas circunstâncias as regiões atencionais do cérebro comunicam-se mais, e as regiões de controle inibitória, menos. Identificado o alvo negro, com a legislação a favor, ocorria imediata liberação do disparo.

O trabalho dos pesquisadores é rigoroso e neutro, mas a meu juízo representa um libelo contra o viés racial das agressões cotidianas, e salienta a necessidade de leis que protejam a vida e não facilitem a morte. O cérebro nos oferece os instrumentos para agir pela vida ou pela morte. Mas na maioria dos casos é o ambiente que regula tudo. Leis permissivas para o porte de armas, treinamento de policiais para o ataque, racismo estrutural dominante: esses são os ingredientes e autorizam o cérebro das pessoas a matar.

ROBERTO LENT – é neurocientista e professor emérito da UFRJ e pesquisador do Instituto D’Or.

ESTAR BEM

MÃOS MÁGICAS

Ciência descobre como massagem é capaz de tratar inflamação muscular

Ninguém nega que a massagem ajuda a aliviar dores musculares causadas por exercícios, contusões e torções menores. Mas os benefícios da estimulação mecânica dos músculos proporcionada pela massagem vão bem além de apenas bem-estar, mostra uma pesquisa liderada por cientistas da Universidade de Harvard, nos EUA.

Num estudo publicado na revista cientifica Science Translational Medicine, eles propõem que, na dose certa a massagem pode ajudar a tratar uma série de lesões musculares, tanto decorrentes de acidentes, sobrecarga, torções ou mesmo coágulos sanguíneos. Ela realmente trata a inflamação muscular. A massagem ajuda a acelerar a recuperação muscular, dizem os cientistas americanos, porque contribui para remover células do sistema imunológico que podem atrapalhar processos regenerativos e prolongam a inflamação. São os neutrófilos, os primeiros soldados que o sistema imunológico envia para a batalha quando o corpo é agredido, seja por uma lesão ou pela invasão de um vírus ou bactéria.

Essas células agem depressa e liberam substâncias para atacar o problema. Mas isso gera inflamação e a dor e o desconforto que costumam acompanhá-la. Os neutrófilos são fundamentai, mas nem sempre têm noção de quando devem se retirar. O estímulo mecânico promovido pela massagem lhes envia a mensagem que é hora de tirar o time de campo e permitir que outras células entrem em ação.

DÚVIDAS ANTIGAS

Costuma se pensar que a massagem funciona porque melhora a circulação sanguínea e dispersa o acúmulo de substâncias tóxicas nos músculos. Porém, os mecanismos celulares ativados por essa estimulação eram pouco conhecidos, até hoje.

Foi então que a principal autora do estudo, a cientista sul-coreana Bo Ri Seo, que faz pós-doutorado em Harvard, resolveu investigar como de fato a massagem funciona e seus efeitos terapêuticos. Ela e seus colegas viram que sua ação é mais profunda e prolongada  do que se pensava.

Seoé especialista no uso de mecanoterapia, o que inclui a massagem, na regeneração dos músculos. Ela e seus colegas focaram nas células do sistema imunológico porque é sabido que desempenham papel fundamental na resposta muscular a lesões, ajudando, por exemplo, a evitar infecções. A pesquisa foi realizada com camundongos pelo óbvio motivo de que seria difícil e antiético encontrar voluntários para sofrer lesões cuidadosamente programadas e permitir que se observasse por meio de biópsias o que acontece à medida que a massagem é  aplicada.

No caso, os cientistas desenvolveram uma espécie de robozinho que massageava com precisão os músculos lesionados dos roedores.

“A pesquisa é interessante porque mostrou como funciona o que se sabe empiricamente”,  observa, ao comentar o estudo, o especialista em fisiologia dos músculos José Cesar Rosa Neto, do Laboratório de Imunometabolismo do Departamento de Biologia Celular e do Desenvolvimento do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP).

Os cientistas de Harvard afirmam que a compressão aplicada pelo robô facilitou a remoção de neutrófilos, reduziu citocinas e quimiocinas (ambas produzidas pelo sistema imunológico) e melhorou a composição e a função das fibras musculares”. Eles afirmam que esses resultados mostram a viabilidade de desenvolver métodos de estimulação mecânica para acelerar a regeneração dos músculos.

Roso Neto explica que a maior dificuldade de empregar a massagem como terapia para uma gama maior de lesões musculares é manter um padrão de estimulação adequado a cada caso. A intensidade da estimulação, por exemplo, varia de um terapeuta para outro e não é uniforme, como no caso do robozinho usado pelos cientistas de Harvard para massagear seus camundongos.

O robozinho, na verdade, não é muito diferente dos aparelhos elétricos comuns de massagem. A diferença foi o padrão uniforme de estímulo mecânico. Os roedores foram tratados com mecanoterapia durante duas semanas, com duas sessões por dia. Depois desse período, foram extraídas amostras de tecido muscular. A análise destas indicou que os neutrófilos estavam sendo removidos mais depressa, na dose certa.

Seo explica que, de início, os neutrófilos ajudam as células musculares a crescer, mas se ficam muito tempo, acabam causando danos. Rosa Neto acrescenta que a massagem ajuda o corpo a receber a dose certa de inflamação. Se a fase inflamatória é eliminada, não há boa recuperação muscular. No caso das microlesões causadas pela musculação, o processo também é necessário para que aconteça hipertrofia.

‘DEFESA BURRA’

O ideal é que os neutrófilos fiquem de 24 horas a 48 horas, às vezes até 72horas, depois disso a inflamação tem que passar ou vira um problema. E os neutrófilos muitas vezes não sabem quando é a hora de partir. Eles são células mais primitivas, “não aprendem nada”. Chegam e apenas atacam.

“Nas minhas aulas digo aos alunos que os neutrófilos são uma defesa importante, mas burrinha. São trogloditas do sistema de defesa”, diz o cientista da USP.

Numa inflamação asséptica – que não foi provocada por invasão de patógenos,  como vírus e bactérias – como é o caso de muitas lesões musculares, o papel desses neutrófilos é mover a limpeza inicial.

Eles chegam, detectam o lixo deixado pela lesão, como restos de células, e chamam os macrófagos, células do sistema imunológico que engolem a sujeira. Quando entendem que está tudo limpo, recrutam um tipo especial de macrófago, que produz fatores de crescimento, para a regeneração do músculo.

“Eles precisam conferir a sujeira, convocar outras células e sair. Mas às vezes demoram mais tempo e prolongam a inflamação, pois continuam a enviar sinais químicos. E aí a pessoa passa a sofrer. Além disso, outras células não conseguem entrar em ação. Os estímulos da massagem funcionam como uma mensagem de que chegou a hora de partir”, explica Rosa Neto.

O estudo deixa claro que massagem de fato ajuda e que a porta está aberta para o desenvolvimento de métodos terapêuticos mais aperfeiçoados. Com o robozinho massagista, os cientistas abriram uma janela para compreender melhor os mecanismos complexos pelos quais o corpo se regenera. Para atletas amadores, massagem pode ser melhor do que suplemento e remédio, sugerem os cientistas. Mãos de fada realmente existem.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTUDOS COMPROVAM RELAÇÃO DA DIETA COM A SAÚDE CEREBRAL

Alimentos de origem vegetal como os cogumelos e legumes decores fortes ajudam a reduzir inflamações e substâncias que alteram padrões cognitivos

Não é segredo para ninguém que a base da boa saúde é uma dieta saudável. Mas evidências recentes mostram que determinados alimentos podem impactar diretamente na saúde do cérebro e no bem-estar mental. A mais recente delas, de um estudo que será publicado na edição de novembro da revista científica Journal of Affective Disorders, revelou que a ingestão de cogumelos, por exemplo, como champignon e o shitake, está associada à redução do risco de depressão.

Trabalhos anteriores já haviam associado o consumo do fungo à diminuição do risco de câncer e morte prematura. Agora, pesquisadores da Penn State College of Medicine, nos Estados Unidos, descobriram mais um benefício dos cogumelos, após analisarem dados do regime e da saúde mental de mais de 24 mil adultos americanos, coletados entre 2005 e 2016. Os resultados mostraram que aqueles que comiam esses alimentos tinham menor probabilidade de desenvolver o transtorno, em comparação com as pessoas que não tinham esse hábito.

Os cogumelos contêm vários compostos, incluindo vitamina B12, fator de crescimento nervoso (chamado BDNF), além de antioxidantes e agentes anti-inflamatórios. Entre essas substâncias, a ergotioneína, um poderoso antioxidante que pode proteger contra danos às células e tecidos do corpo, presente em grande quantidade nesses fungos, seria o principal responsável pelo efeito protetivo na saúde mental.

“Esse estudo reforça a importância de o brasileiro incluir o cogumelo na sua alimentação diária, o que ainda não é uma prática muito comum”, diz o nutrólogo e médico do esporte Eduardo Costa Rauen, professor da pós-graduação de nutrologia do Hospital Israelita Albert Einstein.

Os pesquisadores não observaram uma relação entre a quantidade e os benefícios. Eles identificaram que quem consumiu cogumelos teve menos riscos em relação aos que excluíram o alimento da dieta.

Um segundo estudo, publicado na Clinical Nutrition, chegou a conclusões semelhantes, mas desta vez, com frutas e vegetais, e em porções quantificadas. Pessoas que comeram pelo menos 470 gramas diários desses alimentos apresentaram níveis de ansiedade 10% mais baixos do que aqueles que consumiram menos de 230 gramas desses itens.

Acredita-se que os nutrientes presentes nesses alimentos, como vitaminas, minerais, flavonoides e  carotenoides, são um fator de influência positiva. Essas substâncias, em especial os flavonoides, responsáveis pelas cores vibrantes de alimentos de origem vegetal, têm efeito anti-inflamatório e antioxidante.  

Outras evidências mostram o papel ainda maior dos flavonoides. Uma equipe da Universidade Harvard confirmou em setembro o poder na redução do declínio cognitivo associado ao envelhecimento. A análise, uma das maiores realizadas até hoje, descobriu que o consumo de alimentos ricos nesses compostos ajuda a conter o esquecimento e à confusão mental apresentadas por idosos e que, muitas vezes, precedem um diagnóstico de demência.

PROTEÇÃO COGNITIVA

Os cientistas avaliaram dados de saúde e dieta de mais de 77 mil homens e mulheres de meia idade coletados ao longo de 20 anos. As informações incluíam a frequência com que os participantes comeram alimentos ricos em flavonoides ao longo desse período e relatos sobre possíveis alterações de cognição, como dificuldade de lembrar eventos recentes ou uma pequena lista de itens, problema para compreender instruções, acompanhar uma conversa em grupo ou para encontrar o caminho ao se locomover por ruas familiares, quando estavam na faixa etária dos 70 anos de idade.

As substâncias encontradas principalmente nas especiarias, no morango, no espinafre cru, além de frutas e vegetais amarelos e alaranjados, como a abóbora, tiveram o efeito protetor mais forte: elas foram associadas a uma redução de 38% no risco de declínio cognitivo.

Há ainda mais uma explicação para essas ações. Esses antioxidantes poderosos podem combater a inflamação no cérebro e o acúmulo de beta-amiloide, uma das marcas registradas do Alzheimer. Além disso, essas substâncias também desempenham um papel importante na manutenção de vasos sanguíneos saudáveis, o que ajuda a manter o sangue fluindo para o cérebro, fortalecendo conexões, promovendo o crescimento de novas células cerebrais e aumentando o tamanho do hipocampo, uma parte do cérebro envolvida no armazenamento e recuperação de memórias.

Enquanto a ciência não crava a porção ideal para o efeito no cérebro, os especialistas recomendam “colorir o prato o máximo possível”.

“O benefício está no equilíbrio do que comemos e não em um alimento especifico”, diz Rauen.

OUTROS OLHARES

ÁLCOOL DEMAIS ENTRE IDOSOS JÁ DESAFIA A SAÚDE PÚBLICA

São 2 milhões de pessoas entre 60 e 70 anos, no País, bebendo várias doses de uma vez e expostas a sérios perigos, diz estudo da Unifesp

Um em cada dez brasileiros com mais de 60 anos faz uso abusivo de bebidas alcoólicas, indica estudo conduzido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Na conta dos pesquisadores, são cerca de 2 milhões de idosos (6,7%) que consomem várias doses em uma única ocasião – padrão de consumo abusivo, conhecido como binge drinking. Cerca de 1,16 milhão, 3,8%, bebe de 7 a 14 doses por semana, quantidade que pode pôr em risco a saúde. No total, um em cada quatro idosos (23,7%) admite consumir álcool eventualmente.

Para chegar a esses padrões, pesquisadores da Escola Paulista de Medicina (da Unifesp) analisaram os dados de um estudo com 5.432 brasileiros acima de 60 anos. E recorreram também a informações de 503 idosos atendidos em Unidades Básicas de Saúde de São José dos Campos. O trabalho, que virou tese de doutorado da pesquisadora Tassiane Cristine de Paula, é inédito no País e aponta que o consumo de álcool entre idosos já é problema de saúde pública.

A bebida em excesso entre os mais velhos não é exclusividade dos brasileiros. Aos 95 anos e perto de completar 70 de reinado, a rainha Elizabeth II foi aconselhada por médicos do  Reino Unido a parar com seus drinques diários. Fontes próximas à família real britânica falaram do caso à revista Vanity Fair.

O estudo brasileiro indicou que os homens idosos bebem mais que as mulheres, embora essas sejam mais vulneráveis aos efeitos da bebida. Mostrou também que a frequência e a quantidade diminuem com a idade – o consumo de risco é maior entre homens de 60 a 70 anos, sobretudo os que têm maior escolaridade (acima de 9 anos de estudo). A partir dos 70 anos, o consumo cai, principalmente entre as mulheres. O fenômeno é mais comum na Região Sudeste do País.

DIA SIM, OUTRO TAMBÉM

Dono de uma empresa de turismo de pesca em Sorocaba, Carlos Alberto Dias, o Charles, de 68 anos, toma de uma a duas taças de vinho “dia sim, outro também”, como afirma. É uma rotina de 20 anos, iniciada por influência da mulher, de origem espanhola, apreciadora da bebida. “Antes eu tomava cerveja. Agora, uma garrafa de vinho dura três dias depois de aberra, pois cuidamos para que não oxide”, disse. Charles acredita que a idade não deve impedir o cultivo de um hábito “gostoso”, que ele não considera prejudicial. “Se tirarem os drinques da rainha (referência à monarca britânica), ela morre”, comparou.

O empresário diz que só vai ao médico para os exames periódicos. “Não tenho pressão alta nem hipertensão e passo longe das farmácias. Faço atividade física regular. Tenho clientes médicos e eles desaconselham os destilados, não o vinho”, disse. Sua mulher, Maria Josefa, de 65 anos, o acompanha nas taças bem servidas. “Somos um casal que bebe unido”, avisa.

A dupla está no limiar do consumo de alto risco, já que o estudo considera de baixo risco menos que uma dose por dia para a mulher e menos que duas doses para o homem. Acima de uma dose diária para a mulher (ou 7 na semana) e duas para o homem (14 na semana) passa a ser consumo de alto risco. Mais que quatro doses para a mulher e cinco para o homem, em duas horas, caracteriza o consumo abusivo.

COMO REDUZIR

Segundo a pesquisadora Tassiane, é fundamental entender esse problema para propor estratégias visando a redução do consumo entre os idosos, de modo a evitar que se torne um problema de saúde pública mais grave. ”É um fato preocupante, pois, com o aumento da expectativa de vida, a proporção de idosos na população é maior.”

Os estudos indicam, segundo Tassiane, que o consumo prejudicial de álcool em adultos e idosos pode estar relacionado não só a problemas graves de saúde – doenças cardiovasculares, hipertensão, câncer e demência. ”Aumenta também o risco de quedas e acidentes com fraturas”, alerta a cientista, que foi orientada pela professora Cleusa Ferri. Financiada pela Fapesp, a pesquisa foi publicada recentemente em revistas internacionais.

Como parte do estudo, a pesquisadora e seu grupo entrevistaram 503 idosos atendidos pelas UBSs de São José dos Campos. Desses, 242 foram identificados como consumidores de álcool e 80 foram acompanhados até em sua rotina domiciliar. Esse trabalho, iniciado em janeiro de 2020, foi interrompido em março, pela pandemia. ”Após três meses, verificamos que a metade reduziu o consumo e 25% pararam de beber. É claro que pode haver um efeito da pandemia, pois muitos idosos sequer puderam comprar bebidas e pararam as festas familiares. Mas o resultado nos anima a continuar esse trabalho logo que possível.”

PROTOCOLO

A expectativa da pesquisadora é desenvolver para o sistema público de saúde um protocolo de intervenção em relação aos idosos que bebem. Conforme a ONG Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) ,os dados sobre o consumo de álcool por idosos ainda são escassos e subestimados no País, mas já se sabe que de 1% a 3% apresentam morbidade física e psiquiátrica relacionada ao uso de bebidas alcoólicas. Entre as consequências do álcool nessa população estão o déficit no funcionamento cognitivo e intelectual, prejuízos no comportamento social e aumento das comorbidades.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 02 DE DEZEMBRO

UM HOMEM SEM COMPAIXÃO

A alma do perverso deseja o mal; nem o seu vizinho recebe dele compaixão (Provérbios 21.10).

O mal não está apenas fora do homem, mas em seu interior. Não vem de fora, mas de dentro. Não está somente nas estruturas à sua volta, mas dentro dele. É do coração que procedem os maus desígnios. O perverso, porém, dá um passo a mais. Além de estar presente em seu coração, o mal é ali cultivado. O perverso não é apenas potencialmente maldoso; ele desenvolve essa maldade até sua consumação. A alma do perverso deseja o mal, e esse desejo se transforma em ação. O perverso não apenas lança um olhar de cobiça sobre o próximo, mas procura desenfreadamente a consumação dessa cobiça. Seus olhos são lascivos, seu coração é ganancioso, e suas mãos, violentas. Um exemplo clássico dessa dramática realidade foi o que o rei Davi fez quando adulterou com Bate-Seba. Davi a viu, a desejou, a atraiu e se deitou com ela. Depois, tentou evadir-se de sua responsabilidade e acabou matando Urias, o marido. Davi agiu perversamente, pois não teve piedade de Urias, um soldado de confiança. O perverso não tem compaixão nem mesmo de seu vizinho. Para satisfazer seus caprichos e alimentar sua cobiça, passa por cima das pessoas, mentindo, roubando, ferindo e matando. Os maus têm fome do mal; não sentem pena de ninguém. Os maus se abastecem da maldade e não têm dó nem mesmo de seu vizinho.

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRAS QUENTES – III

JURÍDICO – NA ONDA DAS REESTRUTURAÇÕES

Se o governo, o vírus e São Pedro não atrapalharem mais, a tendência é de uma recuperação econômica. O que significa mais trabalho para o pessoal do jurídico. “Num cenário assim, as empresas voltam a alavancar os negócios e investimentos que estavam parados. O mercado do direito societário e de contratos, então, será um dos mais  aquecidos”, diz Mariana Horno, gerente de recrutamento da Robert Half.

A alta histórica nas opeirações de M&A também criou um universo de necessidades na área jurídica. As contratações estão focadas em pessoas com experiência em fusões e aquisições, compliance e reestruturações societárias.

Mas não é só isso. Empresas de tecnologia estão fortalecendo os seus departamentos Jurídicos, porque existe uma carência de legislações e órgãos reguladores. Na saúde tem a ANS para regular os convênios; o Banco Central fica de olho nas instituições financeiras. Mas não tem ninguém para orientar as companhias de tecnologia. Por isso, o advogado que atua com tech precisa estar atualizado em tempo real sobre as discussões que envolvem o setor. Está rolando na Câmara, por exemplo, um Marco Legal para debater o uso ético do aprendizado de máquinas – imagine o monte de regras novas que deve sair desse mato…

EU ACHO …

A ROTINA OBSOLETA

Como lidar com a realidade deliciosamente instável de hoje

Ser do tempo da máquina de escrever não me assusta mais. Já é objeto de museu. De colecionador. Até seu sucessor, o computador de mesa, está com os dias contados. Tão mais prático o laptop! Mas também existe o tablet, e quem sabe o que logo mais. É surpreendente a velocidade com que meu cotidiano se transforma. Objetos essenciais até  um tempinho atrás desapareceram. Eu tinha uma fantástica coleção de DVDs. Fui parando de ver, parando… Acabei pendurando  uma parte da coleção na horta para espantar passarinhos comilões. O sol reflete no metálico, é uma beleza. Tenho filmes incríveis. Mas o aparelho de DVD também não funciona bem por falta de uso. Apelo para o streaming. Pen drives vão para o mesmo caminho. Pra que, se existe a nuvem? Fax, secretária eletrônica… Ai, ai, ai…

Orelhão. A própria linha telefônica fixa vai desaparecer, questão de tempo. Eu não uso mais. Ainda me lembro (idade, idade…) do tempo em que era difícil ligar pra outra cidade. A ligação interurbana não é mais um bicho de sete cabeças. Scanner? Resolvo no meu celular. Cinzeiro para carro? Obsoleto. Mapa em papel, bip… Discos de vinil só sobrevivem entre colecionadores. Fios, não sei, não. Cada vez mais a tecnologia abre mão deles. Agenda eletrônica? Adeus! Por mais que todo mundo goste, os livros em papel terão o mesmo caminho dos LPs. Os textos eletrônicos não ocupam espaço em apartamentos cada vez menores, são simples de carregar. Qualquer um vai dar risada se alguém falar em despertador. Antigo! O celular resolve. Assim como resolve outras centenas de atividades.

Inventa-se um dispositivo, todo mundo tem, e, dali a pouco, ele é trocado por outro, mais avançado. A velocidade da mudança supera as eras anteriores. O próprio papel está perdendo a razão de ser. Documentos on-line são aceitos. Posso assinar um contrato por e-mail. Houve um tempo em que ter xerox de RG com firma reconhecida era um avanço. Hoje… Quem faz xerox? imagine, eu sou do tempo em que na escola se faziam apostilas em xerox! Hoje, a gente recebe on-line.

Já estou preparado para o desaparecimento de tudo o que me cerca. E até de tudo o que vai me cercar daqui a cinco, dez anos. O mundo em que eu nasci era estável. O de hoje se transforma o tempo todo. Inclusive o que parece imutável mudará. Transferências bancárias tradicionais perderam lugar para o Pix. Quem poderia prever que até a transferência estaria ameaçada? Principalmente, está acontecendo o fim do dinheiro em papel. Eu, você, quantas vezes, no passado, saímos de casa com a “carteira recheada!? Até essa expressão, “carteira recheada”, se tornou anacrônica. Usamos cartões de crédito – que em breve desaparecerão também, substituídos por outras formas de pagamento, como a aproximação. Não uso dinheiro físico já faz um bom tempo. É apenas um número, um símbolo que se utiliza em transações comerciais, bancárias…

Parece estável? Vai sumir. A vida se torna obsoleta a cada segundo. Mas o novo vai surgir. Isso torna a vida fascinante. A realidade é deliciosamente instável.

*** WALCYR CARRASCO

ESTAR BEM

A FORÇA DA MEDITAÇÃO

Com apenas cinco minutos diários de prática, a estrutura do cérebro se transforma

No começo da década de 90, o neurocientista americano Richard J. Davidson começou a estudar as diferenças entre cérebros de monges budistas e pessoas que não meditavam. Os resultados o assombraram e foi o início de uma pesquisa que derrubou o mito de que a meditação e seus benefícios são para quem pode se isolar numa caverna no Tibete, ou é o que popularmente se chama de uma pessoa zen.

Nada disso. Meditar, explicou Davidson em entrevista, está ao alcance de todos e produz, com apenas cinco minutos diários de prática, transformações na estrutura do cérebro que ajudam a ter foco, regular emoções e ter compaixão. Se tudo isso já era importante antes da pandemia, frisou o diretor do Laboratório de Neurociência Afetiva da Universidade de Wisconsin, nos EUA, na fase de gradual retorno à normalidade tornou-se uma realidade.

“Durante a pandemia trabalhamos com mais de 600 professores de escolas públicas que estavam dando aula online, submetidos a situações extremas. Com cinco minutos de meditação por dia essas pessoas reduziram em 25% seu nível de estresse em pouco tempo”, conta Davidson, que semana passada foi o convidado estrela do foro sobre “Neurociência e bem-estar. Habilidades da futuro, conhecimento e bem-estar para a comunidade” organizado pelo Instituto de Neurologia Cognitiva (Ineco), de Buenos Aires.

Em seu laboratório, o neurocientista americano tem algumas das tecnologias mais avançadas para obter imagens cerebrais, como tomo grafia por emissão de positrões e ressonância magnética. Com mais de 20 anos de estudos, Davidson não tem dúvidas de que meditar é um hábito que qualquer ser humano pode incorporar à rotina, da mesma forma que todos aprendemos, um dia, a escovar os dentes.

“Além da crise sanitária, a pandemia disseminou ansiedade e depressão. Os índices, em alguns países, duplicaram. Nossa mensagem é de que toda pessoa tem em suas mãos o potencial para melhorar seu bem-estar”, enfatiza Davidson, que também trabalhou recentemente com mulheres colombianas vítimas de abusos. Nesse caso, ampliou, foram necessários mais do que cinco minutos diários, dado o estado de deterioração mental em que estavam as pacientes.

FORA DO PILOTO AUTOMÁTICO

Mas o mais importante para quem decide iniciar esse caminho, concordam outros especialistas, é entender que se trata, simplesmente, de desligar o piloto automático e perceber nossos pensamentos. Muitas vezes, profundamente negativos sobre nós mesmos e que causam mal estar.

Aos 54 anos, a professora de ioga e instrutora de meditação brasileira Maria Araújo dedica sua vida a transmitir às pessoas como ela conseguiu passar do pânico à paz graças a práticas que existem há mais de cinco mil anos. Em seu estúdio no bairro carioca do Catete, ela dá aulas presenciais e virtuais  e todas as noites ofereceaos alunos uma meditação.

“Meditar é muito simples, mas eu mesma demorei a entender isso. A primeira vez que tentei meu corpo coçava inteiro e desisti. Demorei alguns anos para tentar de novo e hoje sei que todos podemos meditar, e que não existe pessoa zen, existem pessoas, como eu, que conseguimos sair mais rápido de momentos de estresse”, explica a instrutora.

Maria lembra até hoje como as pessoas comentavam como ela tinha mudado sua expressão depois que começou a meditar. Antes, vivia com o rosto enrugado e  raramente sorria.

Meditar é tudo o que fazemos no presente. Podemos meditar olhando a chuva, uma planta, uma vela. É uma pausa que fazemos e na qual nos observamos. Tem gente que tem dificuldade, não quer nem fechar os olhos, não quer se ver. Ela convida seus alunos a romper resistências e tirar o pé do acelerador todos os dias, o tempo que for possível.

Os principais benefícios da meditação são a tranquilidade, a superação de pânicos, o desfrute das pequenas coisas, organização da mente e dos pensamentos e criatividade.

“É como se tivéssemos uma gaveta toda bagunçada, com todos os tipos de roupas. Você organiza essas peças em gavetas diferentes. Eu vivia com medo, pânico, e, com a meditação, organizei a gaveta e criei espaço mental.

Em Buenos Aires, a psicóloga clínica e coordenadora do programa de Mindfulness do lneco Mercedes Mendez também prega o hábito de deixar a mente descansar, perceber como estamos, o que estamos pensando, sem qualquer tipo de julgamento. Essa última recomendação é fundamental, aponta Mercedes, porque muitas pessoas têm dificuldade de se sentir e não se criticar.

O Mindfulness é uma prática terapêutica que surgiu em 1979, quando o médico Jon Kabat-Zinn combinou a meditação budista com elementos da ciência médica ocidental e fundou o Mindfulness Based Stress Reduction (MBSR).

A psicóloga comanda um programa que segue à risca o MBSR e usa a expressão “sair do piloto automático” para dizer, em poucas palavras, qual é o objetivo de fazer uma pausa diariamente.

“Na academia as pessoas exercitam os músculos, em nosso programa exercitamos a atenção plena. E isso é uma coisa que podemos fazer a qualquer momento e em qualquer lugar, basta dar uma parada, ver como estamos nos sentindo, o que estamos pensando”, afirma Mercedes.

Ela também acredita que é possível começar com breves minutos diários, mas defende que para obter os melhores benefícios é preciso adquirir o hábito de pausar entre 15 e 20 minutos.

“Se não conseguiram encontrar esse momento, façam a pausa enquanto comem, brincam com seus filhos ou conversam com seus pais. Isso já é muito potente, é perceber o momento presente, voltar a  você e não deixar que os pensamentos te arrastem.”

Os especialistas da mente humana têm uma premissa básica: a dispersão é da natureza da mente, e o desafio, acessível a quem estiver disposto a dedicar alguns minutos do dia, é trazê-la de volta ao presente. Quem medita, insistem todos em coro, conhece um estado de plenitude e felicidade que ajuda a reverter quadros de ansiedade e depressão, entre outros. Não se trata de viver como um monge budista, ou ser uma pessoa zen o tempo inteiro. Isso, destacam, é ilusão.

Segundo Davidson, “todos podemos fazer melhor”. O cérebro humano tem plasticidade e pode ser modificado em pouco tempo, adotando a prática da meditação. O neurocientista americano já trabalhou até mesmo com crianças de cinco anos. O segredo do sucesso, conclui, é o engajamento. Podem ser poucos minutos, mas a frequência é chave para sentir o impacto positivo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SAÚDE MENTAL: ATENDIMENTO FOI O MAIS IMPACTADO

Ao mesmo tempo, desde o início da pandemia, países das Américas relataram um aumento preocupante no número de novos casos de problemas psicológicos, bem como o agravamento de condições preexistentes

Há um ano, Carissa Etienne, diretora da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), emitiu uma mensagem forte: a pandemia da Covid-19 estava causando uma crise de saúde mental nas Américas em uma escala nunca vista antes.

Hoje, quando se comemora a luta global contra esses tipos de doença, as perspectivas continuam preocupantes. Nó entanto, não é tarde para tomar as medidas necessárias e evitar que a pandemia deixe uma marca indelével na saúde mental da população.

IMPACTO SICNIFICATIVO

Estudos nacionais da Argentina, Brasil, Canadá , México, Peru e Estados Unidos documentaram altas taxas de transtornos psicológicos, ansiedade e depressão na população em geral. Da mesma forma, uma pesquisa realizada pela empresa Ipsos nesses países mencionados, assim como na Colômbia e no Chile, revelou que, em média, 12% dos adultos sofreram uma deterioração significativa de sua saúde emocional e mental.

Em relação aos menores de idade, a ansiedade e a depressão representam quase 50% dos transtornos mentais em crianças e jovens entre 10 e 19 anos na América Latina e no Caribe, segundo o levantamento “Situação Mundial da Infância 2021” da Unicef (Fundo  das Nações Unidas para a Infância). Deve-se notar que, antes da pandemia, mais de uma em cada sete crianças e adolescentes no mundo sofria de transtorno mental e 46 mil  cometiam suicídio anualmente. Hoje, a situação se agravou, indica o relatório.

Aumentos no uso de álcool e de substâncias também foram relatados. Da mesma forma, registros de telefonemas para linhas diretas, relatórios policiais e outros prestadores de serviços indicam um aumento dos casos relatados de violência doméstica, particularmente abuso infantil e agressões a mulheres.

“As condições de saúde mental causam grandes deficiências nas Américas. Um terço de todas as deficiências por doença na região se deve a problemas de saúde mental”, afirma Renato Oliveira e Souza, chefe da Unidade de Saúde Mental da região na Opas.

Mas, apesar desses números, o investimento dos governos continua insuficiente. Segundo o especialista, estima-se que os países das Américas destinem a penas 2% de seus orçamentos totais de saúde pública à saúde mental, e quase 61% desse montante é direcionado a hospitais psiquiátricos, que multas vetes são locais de desrespeito aos direitos humanos.

A isso devem ser adicionados dois outros grandes problemas, que ocorrem desde antes da pandemia. O primeiro é a lacuna de tratamento (a porcentagem de pessoas que precisam de cuidados, mas não recebem auxílio): para algumas condições de saúde mental e de uso de substâncias, essa lacuna chega a quase 80%. O segundo é a carência de pessoal especializado: estima-se que haja 10,3 trabalhadores em saúde mental para cada 100 mil habitantes.

“Aconselhamos que o orçamento para saúde mental seja de no mínimo 5% ou 6%, mas depende das necessidades de cada país. O importante não é apenas aumentar o investimento, mas também que os recursos cheguem à comunidade, ou seja, integrar os serviços de saúde mental à atenção básica, que é o primeiro contato da pessoa com os serviços gerais de saúde”, explica Oliveira e Souza.

SERVIÇOS INTERROMPIDOS

Não há dúvida de que a pandemia aumentou o número de pessoas com novas doenças mentais ou agravou condições preexistentes, como esquizofrenia, tendências suicidas ou vicias. No entanto, também fez com que os serviços de saúde mental e apoio psicossocial parassem de funcionar temporariamente ou tivessem seu pessoal reduzido. Segundo levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), esses tipos de serviços sofreram interrupções em 60% dos países das Américas em 2021.

“Quando analisamos o estado dos diferentes serviços de saúde durante a pandemia, os atendimentos de saúde mental são os que receberam o maior impacto. Eles foram encerrados, como parte de medidas de proteção pública, ou muitas vezes os profissionais que ali trabalhavam foram transferidos em resposta rápida à emergência da Covid-19. A realidade é que, quando os serviços de saúde mental são mais necessários, eles têm o pior desempenho. É verdade que existem boas iniciativas para combater esse problema, como grande expansão dos serviços por meio da Internet ou do telefone, mas também sabemos que não atingem a todos”, diz Oliveira e Souza.

É provável que a pandemia da Covid-19 tenha efeitos adversos duradouros sobre a saúde mental e o bem-estar das pessoas e que continue a exercer pressão prolongada sobre os serviços especializados. Para o especialista da Opas, é essencial que os países priorizem a saúde mental agora, não apenas para responder aos problemas atuais, mas também para evitar que continuem ou piorem.

“É necessário que os países mudem seus sistemas de saúde mental, que muitas vezes são baseados em hospitais psiquiátricos. Os serviços precisam ser voltados para a comunidade. A situação melhorou, existem mais serviços comunitários de saúde mental, mas a cobertura ainda é baixa. Há um trabalho muito grande que temos em andamento com os países para garantir uma grande expansão dos serviços de saúde mental à comunidade”, declara Oliveira e Souza.

Alcançar essa meta também Implicaria na adoção de quatro eixos principais: liderança política de alto nível e investimento adequado (cada dólar investido em saúde mental produz um retorno de quatro dólares); uma abordagem intersetorial (incluindo estados, sociedade civil, instituições acadêmicas etc.); avanços na integração da saúde mental em todos os serviços de saúde, promoção e prevenção nas demais áreas da saúde e sociais; e o uso das lições aprendidas na pandemia para servir ao investimento em novas tecnologias.

SUICÍDIOS NAS AMÉRICAS

Quando a Opas avaliou seu Plano de Ação de Saúde Mental 2015-2020, observou um progresso notável em áreas como a redução da função dos hospitais psiquiátricos e o desenvolvimento de programas de prevenção. No entanto, a taxa regional apresentou números muito negativos.

Na região, quase 100 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano. Entre 2000 e 2019, a taxa de suicídio por idade nas Américas aumentou 17%, enquanto a taxa global e as taxas para todas as outras regiões da OMS diminuíram.

“O aumento da taxa regional de suicídio é um fator importante que nos fará dar maior ênfase à colaboração técnica com os Estados – membros, no sentido de aumentar o apoio aos seus planos nacionais de prevenção do suicídio. A redução dos casos de suicídio é realmente uma área em que estamos piorando como região e temos que nos esforçar mais”, afirma Oliveira e Souza.

A Opas destaca que entre as principais medidas de prevenção do suicídio estão a limitação do acesso a meios para cometer o ato (como a armas de fogo), identificação precoce, manejo e monitoramento das pessoas afetadas por pensamentos e comportamentos suicidas, bem como promoção de habilidades socioemocionais.

Embora seja verdade que ainda há muito trabalho a ser feito e pouco a comemorar no Dia Mundial da Saúde Mental, é de extrema importância fazer um apelo à união e à eliminação das desigualdades. Saúde mental de qualidade é um direito humano.

OUTROS OLHARES

PANDEMIA LEVA CANDOMBLÉ E UMBANDA A ENCRUZILHADA DIGITAL

Religiosos adotam videochamada enquanto debatem limites do axé nas rede

Umbandista desde 2018, o professor de ioga Wagner Lanzelotti Filho, 32, procurava um pai de santo do candomblé a fim de receber orientações pessoais e também uma experiência diferente do jogo de búzios. A busca se resolveu por videochamada, a uma distância de 25 km entre sua casa em Duque de Caxias (Baixada Fluminense) e o bairro carioca da Tijuca, onde estava o sacerdote.

“Não achei tão estranha a ideia, muito embora ache que não teve exatamente toda a energia possível”, diz Lanzelotti. “Não teve a entrada no lugar, o olho no olho, mas para mim foi tranquilo. Virou uma forma de matar uma curiosidade que eu tinha”.

Bem menos visíveis nas mídias, as tradições de matriz africana – que abrangem cerca de 5 milhões de brasileiros, segundo o Datafolha – acabaram por abrir caminhos digitais na pandemia, mesmo que ainda timidamente e longe da unanimidade.

Lives de cerimônias de umbanda já eram cogitadas por pai Denisson d’Angiles, 45, antes mesmo da pandemia. Quando o governo Dória fechou os templos na quarentena, o sacerdote decidiu que era hora de ir à prática no CEU Estrela Guia, que recebia 300 a 400 pessoas na Saúde, zona sul de São Paulo. Hoje, suas giras ao vivo têm média de 15 mil visualizações por transmissão.

“Antes eu tinha certo medo porque, de alguma maneira ia estar expondo mina própria vida familiar”, afirma Denisson, que conduz o terreiro ao lado de sua mulher, Kelly. “Mas em março de 2020 a gente instalou câmeras, reforçamos a rede wi-fi e levamos a ideia à frente, via Facebook. Tudo isso para levar um axé às pessoas, e a repercussão foi ótima”.

Logo na primeira transmissão, porém, o religioso conheceu o lado virtual de um velho problema. Surgiram ofensas de pessoas que denunciavam algo “demoníaco”, enquanto invocavam Jesus eDeus. Ao mesmo tempo, a live caiu por três vezes. O pai de santo se queixou na Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e de Intolerância) e no Facebook, sem sucesso. “Tudo isso que estamos fazendo é muito novo, e esse pioneirismo acaba pagando um alto preço. Hoje melhorou, mas ainda tem (intolerância)”.

De qualquer forma, Denisson criou uma defesa: durante as lives, seus filhos de santo “patrulham” a transmissão, respondendo quem chega causando distúrbio digital. Ainda assim, esse tipo de situação faz muitos terreiros hesitarem na vida digital, ou subirem apenas gravações em seus canais.

“Os cultos de matriz africana viveram duas pandemias nesses dois anos: a da Covid e a da perseguição religiosa”, afirma o babalaô e doutor em história comparada pela UFRJ, Ivanir dos Santos, 67, que afirma não crer que lives de rituais sejam possíveis: Trata-se de uma religião do segredo; não faz sentido expor rituais que têm um fundamento no mistério.”

Ivanir reconhece, porém, que muitos babalorixás e ialorixás passaram a oferecer a leitura de oráculos , como os búzios, de forma não presencial. Para ele, trata-se de rara atividade que o candomblé pôde adaptar. “Abrir o oráculo sem a pessoa presente é algo que pode ser feito tranquilamente com base na relação da pessoa com o orixá. Mas há pessoas mais tradicionais que não abriram essa exceção.”

Líder do terreiro Ilê Asé Oyábécy L’Arô, na zona oeste do Rio, mãe Ana Maria OmilL’Arô, 50, não se considera tradicionalista. “A realidade muda. Antigamente, os candomblés eram liderados por mulheres que não tinham outra ocupação a não ser trabalhar em casa. Hoje uma mulher lidera um culto e depois vai dar expediente no Fórum”, diz, com entusiasmo e sotaque carioca.

Sobre a eficácia da videochamada, Ana usa uma lógica irresistível. “Se uma pessoa não precisa estar presente para que lhe façam um feitiço, para o mal, tampouco precisa estar presente para que Ihe façam o bem e lhe abram caminhos, você concorda?”

No entanto, ela afirma não se sentir “nesse patamar” digital. Diz que oraria por pessoas que já frequentassem sua casa e que estivessem sem condições de ir até o terreiro, por exemplo. “Só não me sinto preparada para jogar os búzios, fazer uma oração e entrar numa egrégora(campo energético) com uma pessoa que não conheço, ao mesmo tempo em que ligo o celular.”

Bem mais à vontade está o pai Rodney William, 47, do terreiro Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá, em Mairiporã, na Grande São Paulo. Para ele, muitas coisas na pandemia vieram para ficar e será normal se os paulistanos que lidam com distâncias, riscos e o preço da gasolina preferirem continuar na videochamada. “Eu vou confessar a você: eu também prefiro”, conta o babalorixá, que é doutor em antropologia pela PUC-SP e diz ter cinco redes wi-fi em seu terreiro. Para Rodney, a pandemia apenas massificou práticas que já tinham algum histórico. Recorda que Pérsio de Xangô – influente líder do candomblé paulista, que morreu em 2010 – se consultava nos búzios com a célebre mãe Menininha do Gantois (1894-1986), que morava em Salvador. Tudo se dava por meio de ligação interurbana: a pessoa levava suas questões, desligava e recebia a resposta depois.

“Era assim porque era caro. Mas hoje a tecnologia superou esses limites”, diz Rodney.  “Eu que tenho filhos em outros países e continentes, já utilizava a videochamada para o oráculo. O que acontece é que isso agora explodiu, porque as pessoas tiveram mais preocupações e incertezas. Costumo dizer que ninguém trabalhou mais nesse período que os psicanalistas e os pais e mães de santo.”

Pai Rodney afirma que sofreu críticas de seus pares por começar a jogar búzios e fazer ebós (trabalhos) à distância – recebendo pagamentos e doações por Pix. Dessa forma, Rodney diz ter gerado o sustento para os trabalhadores do terreiro, mas também muito debate com líderes de cultos nos grupos de WhatsApp.

Para preservar o mistério ritual, Rodney opta por mostrar fotos nas transmissões, que explicam o que vai acontecer – faz isso para não dar instrumentos aos inimigos virtuais , que podem, por exemplo, descontextualizar uma cena de sacrifício animal para demonizar a fé. E segue acreditando no trabalho digital, citando a mesma lógica de mãe Ana sobre asa bençãos à distância, enquanto ecoa o sociólogo Reginaldo Prandi sobre a tendência paulistana de trazer vanguarda para a crença.

“Se Ogum é o orixá da tecnologia e Exu, o da comunicação, não vejo limites para esse alcance. A tradição que não se adapta, morre na sua pretensão de que as coisas hoje são exatamente como eram há cem, 200 anos. O candomblé muda porque as circunstâncias mudam.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 01 DE DEZEMBRO

CUIDADO COM A MULHER RIXOSA

Melhor é morar no canto do eirado do que junto com a mulher rixosa na mesma casa (Provérbios 21.9).

A mulher rixosa é aquela que fala sem parar e briga por qualquer motivo. Trata-se daquela mulher que está de mal com a vida e deixa constrangidos todos à sua volta. Essa mulher é para o marido um tormento, em vez de ser uma aliviadora de tensões. Ela lhe faz mal, e não bem, todos os dias da sua vida. Por ser insensata, destrói sua própria casa, em vez de edificá-la. Longe de ser auxiliadora idônea, é uma rival que compete com o marido. É um peso na vida dele, em vez de um auxílio. Longe de ser uma confidente confiável, tem a língua solta e gosta de espalhar contendas. Longe de ser uma amiga compreensiva, é como vinagre na ferida, que gera mais sofrimento do que alívio. A solidão é melhor do que a companhia da mulher rixosa. É melhor morar no fundo do quintal do que dentro de casa com uma mulher briguenta. É melhor viver sozinho, num canto, no sótão da casa, do que dormindo na mesma cama com uma mulher amarga com a vida, cuja língua só profere palavras de animosidade. O casamento, que foi criado por Deus para ser uma fonte de prazer, torna-se um tormento. O casamento, que foi planejado para ser um jardim engrinaldado de flores, converte-se num deserto árido e inóspito.

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRAS QUENTES – II

VENDAS E MARKETING – NA COLA DA TECNOLOGIA

A alta no número de lojas online aumentou também a concorrência dentro do e-commerce e a necessidade de investir pesado nas equipes de marketing. Afinal, as empresas não concorrem mais com a loja do outro lado da rua, ou do outro andar do shopping, mas no terreno digital. “Quem estava olhando para essa área um ano atrás, vê outro setor hoje. A demanda por esses profissionais cresceu em empresas de todos os segmentos e já estamos lidando com funções novas, como analista de marketplace”, diz Carolina Cabral, gerente de recrutamento da Robert Half.

O setor não só se espelha na expansão do TI. Ele também está mais próximo da tecnologia. Alexandre Marquesi, professor da pós-graduação da ESPM, lembra que a principal habilidade exigida hoje dos profissionais de marketing é trabalhar bem com dados. “O mercado quer um profissional que saiba olhar para os dados e encontrar oportunidades ali, que saiba montar uma estratégia a partir disso.” É o famoso business intelligence (BI). Você se baseia nos dados para saber quais produtos podem ser retirados do portfólio ou quais canais de venda precisam de mais investimento para alcançar seu potencial verdadeiro.

Também é fundamental que o novo profissional desse setor entenda de marketing digital – as atividades online, para conquistar mais consumidores, melhorar o relacionamento com os clientes recorrentes e tornar a marca da empresa mais sólida.

“ME COLOCO NO LUGAR DO CLIENTE”

Entender o cliente é tarefa de Uribe Teófilo, 38 anos. Hoje, o paulistano é gerente de produtos da seguradora Youse lnsurance. Mas sua carreira começou em 2007, quando foi trabalhar no Buscapé. Foi lá que ele passou a atuar com comportamento dos consumidores na internet. De seus 14 anos de experiência, ele tira uma lição: é preciso empatia para se dar bem no setor. “Quando estou oferecendo um produto, estou resolvendo um problema do cliente. Mas só consigo fazer isso quando me coloco no lugar da pessoa e escuto o que ela quer.” Nem tudo é na base da habilidade comportamental. De novo: você precisa tratar com carinho as análises de dados – como criar bons testes A/B (metodologia que compara diferentes abordagens de marketing com diferentes consumidores) e saber atuar com a chamada metodologia ágil, ou seja, fracionar as entregas de um projeto, para permitir correções mais precisas ao longo do caminho – uma filosofia que contrapõe o método tradicional, de entregar o pacote completo e só depois ver se funciona.

EU ACHO …

DECLÍNIO E QUEDA DO BANHEIRO MASCULINO

A diversidade sexual e o simples bom gosto impõem o fim do urinol

Apesar dos exageros, o “politicamente correto” melhora muitas coisas na vida cotidiana. Tenho total simpatia pelas inovações no campo dos banheiros públicos, por exemplo.

Coisa mais chata essa divisão entre banheiro masculino e feminino. Minha implicância é profunda e vem de  longe.

Não sei se isso acontece com as crianças de hoje em dia, mas no meu tempo eram comuns os sangramentos de nariz. Interrompe-se a aula: o menino é conduzido à enfermaria.  Não. Nem sempre o caso inspira tais alarmes.

Uma vez, a ajudante da professora achou que o banheiro feminino estava mais perto. Afinal eu precisava só de um algodãozinho. Entramos. Talvez fosse um lugar reservado apenas às mestras e funcionárias: que surpresa!

Sobre uma mesinha, via-se um vaso de flores. Tudo limpo, discreto, organizado, cheiroso.

Era outra situação do banheiro dos meninos — antiquíssimas baias, como banheiros verticais, perfilavam-se com cavidades mortíferas. A memória de muita urina antiga desenhava um mapa amarelo e preto, como uma América do Sul de cabeça para baixo, esvaindo-se num ralo férvido de fungos e miasmas.

Mais tarde, conheci os urinóis brancos, do ripo Marcel Duchamp, lembrando cuecões sem nada dentro.

Nada? Já vi naftalinas, bitucas de cigarro, chicletes, cubos de gelo, piscinas de xixi diluídas pelo entupimento …

Invenção lamentável e bizarra, pornográfica. Ninguém que eu saiba, instala um mictório desses na própria casa. Toda família civilizada  recorre à mesma privada, tranca-se a porta do lado de dentro, e nada mais há a ser dito.

Qual a razão do urinol? Passei boa parte da juventude evitando me aproximar desse receptáculo troglodita. Tinha vergonha. Pior: a vergonha era tanta que o xixi não saía.

Um amigo, tendente à observação intensa e silenciosa da nossa humildade foi certa vez repreendido num banheiro. Esperava a sua vez, atrás de um cidadão que já havia se postado, pernas em 45 graus, diante da louça indiferente. Talvez esse meu amigo tenha se aproximado demais da nuca do urinador desconhecido. Ficou olhando.

Ele se voltou, com cara de poucos amigos. “Se você ficar por perto, meu xixi não sai”. O que responder diante de confissão tão íntima? “Ah: disse apenas o meu amigo.

Meu caso era parecido. Mesmos sem nenhum curioso por perto , meu inconsciente (ou talvez meu superego) recusava-se à atividade tão pura, de micção.

Eu preferia entrar no cubículo da privada. Não é o mais certo? Não é o que fazemos em casa?

Verdade que, muito mais tarde, aprendi um segredinho que, como serviço ao leitor,  compartilho aqui. Para que o xixi saísse nessa situação envergonhante, bastava imaginar que tu eu estava urinando através do dedão do pé. Qualquer um dos dois, não importa.

Mas deixo de lado essa inconfidência para insistir na ideia inversa, a da reserva, da decência. Coisa mais feia, com efeito, essa parede de homens de pé, em colóquio solitário num mictório duro, bruto, fabril!

Claro que é a festa do machão. Ele chacoalha o chocalho como a menina de Angola do Chico. Findo o exercício, celebra o único momento em que lhe é permitido dar uma rebolada.

Nunca foi tão homem: reproduz, com seus iguais, o privilégio ancestral do pipi do papai bípede.

Para ele, o pudor já é sinal de feminilidade. Vestiários, chuveiros, espalhamento de toalhas, encravamento de unha, assoadas de nariz; esta a sua ecologia.

O Brasil é até melhor que outros países. A França é famosa pelos cercadinhos que, com objetividade naturalista, escode só a parte central do corpo urinador. Às vezes, uma portinhola dupla, como nos saloons do faroeste , é a única barreira de privacidade estabelecida pelo poder republicano.

Não; chega desses balangandódromos diluvianos. O banheiro unissex, ou neutro, é o mais racional e correto.

Problemas: alguns homens, com relação à privada, comportam-se como se estivessem no urinol. Há quem, falando ao mesmo tempo no celular, descuide da mira. Justifica-sae a recusa de uma mulher a entrar nesse “sanctum sanitarium” do estabanamento peniano.

E muitas mulheres, depois de tolerar maridos e namorados numa mesa de restaurante, podem desejar um espaço próprio para a conversa e a confidência.

Soluções arquitetônicas e sanitárias já vão surgindo, tenho certeza. Insisto apenas no essencial: o fim do banheiro machão, passo importante, a meu ver, para extinguir o próprio.

*** MARCELO COELHO – é mestre em sociologia pela USP.

ESTAR BEM

TUBERCULOSE PODE SER TRANSMITIDA PELA RESPIRAÇÃO

Nova descoberta muda uma percepção antiga na medicina de que a tosse, seu sintoma mais característico seria a principal forma de contágio da doença, relatam cientistas sul-africanos

Depois de séculos de preceitos médicos estabelecidos sobre a tuberculose, uma equipe de pesquisadores da África do Sul descobriu que a respiração pode contribuir mais para a disseminação da doença do que a tosse, seu sintoma mais característico.

Até 90% das bactérias responsáveis pela tuberculose liberadas por uma pessoa infectada podem ser transportadas em pequenas gotículas chamadas aerossóis, que são expelidas quando a pessoa expira profundamente, estimam os pesquisadores. As descobertas foram apresentadas nesta semana na Conferência Mundial da União sobre Saúde Pulmonar.

O relatório ecoa uma importante descoberta durante a pandemia de Covid-19: o Sars-CoV-2 (novo coronavírus) também se espalha em aerossóis carregados pelo ar, especialmente em lugares fechados – um modo de transmissão que foi amplamente subestimado no início da pandemia.

A tuberculose é causada por uma bactéria chamada Mycobacterium tuberculosis, que normalmente ataca o pulmão. É a doença infecciosa mais letal do mundo depois da Covid-19, provocando mais de 1,5 milhão de óbitos no último ano – o primeiro aumento  em uma década, de acordo com relatório publicado na última semana pela Organização Mundial  de Saúde (OMS).

Enquanto a pandemia de Covid interrompia o acesso aos serviços de saúde e cadeias de abastecimento ao redor do mundo, 5,8 milhões de pessoas foram diagnosticadas com tuberculose em 2020. Mas a OMS estima que, na verdade, cerca de 10 milhões de pessoas tenham sido infectadas. Muitos podem inconscientemente estar transmitindo a doença para outras.

“Nosso modelo sugere que, na verdade, a geração de aerossol e a geração de tuberculose podem acontecer independentemente dos sintomas”, explica Ryan Dinkele, o estudante de pós graduação da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, que apresentou os resultados.

O ESTUDO

A descoberta ajuda a explicar por que lugares fechados e apertados, como presídios, frequentemente funcionam como criadores de tuberculose, assim como de Covid-19. E a pesquisa sugere que alguns métodos usados para restringir a transmissão do coronavírus – como máscaras, janelas e portas abertas, além de permanecer o máximo possível ao ar livre  – também são importantes para reduzir a tuberculose.

“Aqueles de nós que têm tuberculose olhamos para a Covid e dizemos: “Nossa, é apenas como uma versão acelerada da tuberculose”, disse o epidemiologista da Universidade de Boston, que não estava envolvido na pesquisa, Robert Horsburgh.

Os pesquisadores anteriormente acreditavam que a maior parte da transmissão da tuberculose acontecia quando uma pessoa infectada tossia, espalhando gotículas carregando a bactéria pelo ar.  Até acreditava-se que algumas bactérias eram liberadas quando uma pessoa respirava, mas muito menos do que pela tosse.

COMO É A TRANSMISSÃO

A nova descoberta não muda esse entendimento. Uma única tosse pode expelir mais bactérias que uma única respiração. Mas, se uma pessoa infectada respira 22 mil vezes por dia e tosse cerca de 500 vezes, então a tosse significa apenas 7% do total de bactérias emitidas pelo paciente infectado, explica Dinkele.

Em um ônibus lotado, na escola ou no trabalho, onde pessoas ficam sentadas em espaços confinados por horas, “simplesmente respirar contribuirá com mais aerossóis infeciosos do que a tosse”, diz Dinkele.

Na respiração , a inalação abre pequenos sacos de ar nos pulmões e, em seguida, a exalação carrega as bactérias dos pulmões por meio de aerossóis. Devido ao seu tamanho menor, os aerossóis liberados pela respiração podem permanecer flutuando no ar por mais tempo e viajar mais longe do que aas gotículas emitidas pela tosse. Assim como com a Covid-19, alguns pacientes com tuberculose espalham a doença para muitas pessoas – e podem liberar muitas bactérias – enquanto outros infectam poucas pessoas ao seu redor.

Mas, mesmo que 90% das bactérias expelidas por uma  pessoa infectada fossem transportadas em aerossóis, essa via de transmissão não seria necessariamente responsável por 90% dos novos casos, advertiu a médica, que estuda a doença na Universidade Brown, Silvia S. Chiang.

Ainda assim, dizem especialistas, as descobertas de fato sugerem que os médicos não devem esperar que pacientes com tuberculose cheguem às clínicas com tosse forte e perda de peso, os sintomas considerados reveladores.

“Nós precisamos apenas rastrear toda a população, assim como você faria se estivesse procurando por muita Covid-19”, disse Horsburgh.

TECNOLOGIA NOVA

A descoberta aconteceu em grande parte por causa da tecnologia desenvolvida pelo professor emérito de medicina da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, Robin Wood.

O aparelho pode coletar aerossóis de pessoas infectadas e identificar bactérias dentro deles. O diagnóstico e o tratamento da tuberculose mudaram muito pouco nas últimas décadas:

“Era hora de começar a usar tecnologia moderna e de ponta para abordar uma doença antiga”, disse Wood. Com alguns ajustes, o sistema também pode ser usado para estudar outras doenças, incluindo a Covid, acrescentou.

A tuberculose existe há milênios e sua causa é conhecida há quase 150 anos:

“E, ainda assim estamos descobrindo coisas novas sobre uma parte tão fundamental de sua biologia. Nos torna mais humildes perceber que precisamos  ser tão cuidadosos quando se trata de uma abordagem dogmática  em um campo”, disse Dinkele.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ANTES SÓ QUE MAL ACOMPANHADA

Uso de acessórios eróticos deixa de ser tabu entre as mulheres – e a saúde agradece

O corpo todo se contrai e o fluxo de sangue no cérebro aumenta velozmente. Uma enxurrada de hormônios de prazer, afeto e bem­ estar entram em ação em cadeia. Vem a dopamina, depois a ocitocina, a prolactina. O mecanismo todo, com duração de cerca de 15 segundos, se configura como o orgasmo, uma  das sensações mais fortes e prazerosas do ser humano – e que faz bem à saúde.

Na busca por esses sentimentos, a pandemia evidenciou uma corrida maior das mulheres por acessórios eróticos: levantamento do portal Mercado Erótico mostra aumento de 50% na venda de vibradores no período de isolamento social. Mais de um milhão destes apetrechos foram comercializados durante essa fase no Brasil,  para se ter uma ideia.

MASTURBAÇÃO ERA DOENÇA

Não se trata apenas de um fenômeno de vendas provocado pelo distanciamento social. Há uma questão de aceitação maior da sexualidade feminina, da masturbação e do direito da mulher sobre seu corpo. Assim, famosas como a apresentadora Angélica, asatrizes Ana Paula Tabalipa, Bruna Marquezine e Fernanda Paes Leme, a influencer Gabriela Pugliesi ou a Cantora Anitta falaram em público sobre seus vibradores.

Para a antropóloga e professora da UFRJ Mirian Goldenberg, o que ocorre hoje é uma libertação feminina que foi plantada lá na década de 1970, por Leila Diniz.

“Não é um modismo passageiro. É o espírito do nosso tempo. Que bom que essas personalidades podem falar sem vergonha, culpa e constrangimento. Estamos vivendo um momento que a pandemia acelerou, em que as mulheres podem ser elas mesmas, do jeito que querem ser. Quem quer fazer sexo faz, quem quer ter pelo na axila tem, quem quer cabelo branco usa. O maior desejo feminino hoje é a liberdade de ser eu mesma”, afirma.

Não que os brinquedos sexuais sejam uma novidade. Mas as mulheres tinham vergonha de entrar numa loja e comprar. Vieram filmes e séries, como “Sex and the city” e a trilogia “De pernas pro ar”, para tornar o prazer, sozinha em um tabu menor e, por fim, o impulso do comércio online, que traz mais discrição à compra.

Mas não faz tanto tempo assim que as coisas são tratadas com naturalidade. De acordo com a professora da faculdade de Medicina da USP e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da USP, Carmita Abdo, até a década de 1970 a masturbação era uma atividade considerada patológica pela Organização Mundial da Saúde (OMS), listada na classificação das doenças na área da sexualidade.

“Quem se masturbasse tinha um transtorno sexual. A partir da décima edição, em 1975, a OMS retirou como atividade doentia, sendo considerada, portanto, um comportamento que fazia parte do desenvolvimento. De lá para cá as coisas mudaram tanto que, com a pandemia, a organização chegou a recomendar que a masturbação fosse uma atividade sexual que pudesse substituir outras prejudicadas pela pandemia, além do sexo virtual. Em 50 anos, ela deixou de ser patologia para ser uma atividade recomendada”, conta Abdo.

CASADAS E CASAIS

Mas a verdade é que nem a masturbação nem o uso de brinquedos eróticos foram adotados, necessariamente, só por pessoas solteiras. Mulheres casadas e casais também têm usufruído muito dessas práticas.

A ginecologista Carolina Ambrogini, uma das fundadoras do Projeto Afrodite, centro de sexualidade feminina da Unifesp, afirma que a masturbação traz benefícios que, muitas vezes, se assemelham a uma boa prática de atividade física, com liberação de endorfina e substâncias relaxantes.

“A masturbação faz bem para o corpo e traz ainda um benefício importante para a sexualidade que é o autoconhecimento. Mais do que conhecer a genitália, possibilita entender o que move seu desejo, o que te atrai. Esse conhecimento, especialmente para a mulher, que não foi educada para consumir o mundo erótico, é muito importante”, explica.

Os vibradores, segundo Ambrogini, podem ser facilitadores porque produzem sensações mais potentes, ajudam aquelas que não sabem friccionar no ritmo certo e, para as que não se sentem confortáveis em se tocar, faz a ponte do contato, servindo como porta de entrada.

Pode parecer surpreendente para algumas pessoas, mas a pesquisa Mosaico 2.0 do Programa de Estudos em Sexualidade, de 2016; mostra que 40% das mulheres não se masturbavam com frequência e, dessas, 19,5% nunca experimentaram a prática.

Para Ambrogini, os acessórios sexuais podem, ainda, ser instrumento de erotização para o casal:

“Tem casais que começam com um lubrificante diferente, com gosto, um anel peniano que vibra e aos poucos vai introduzindo o vibrador, mas hoje já estão mais abertos para isso. Quando a mulher tem parceiro, ela acha que não precisa sozinha. E não tem nada a ver porque você pode ter um desejo só seu, de intimidade só com o seu corpo”.

DESAFIOS

Se, por um lado, a mulher ganhou mais liberdade para se masturbar ou usar um vibrador, por outro, isso não pode ser uma imposição. Em suas pesquisas, Mirian Goldenberg ouviu muitos relatos de mulheres que não têm tido desejo sexual e, ou não estão praticando, ou ainda se sentem impelidas a ter relações sem vontade e fingindo orgasmo.

“Na pandemia, outras coisas passaram a ser mais fundamentais para o bem-estar e a vida entre os casais do que o sexo. Muita gente não está fazendo sexo porque está preocupada, ocupada, doente. Estava sem tesão nesse momento particular, nessa circunstância. Cadê o tesão para transar com alguém ou sozinha, no meio de um drama. Para algumas foi complicado.”

A pandemia ainda trouxe outros desafios relacionados à sexualidade. Homens e mulheres que aderiram muito ao sexo virtual e à masturbação começam a relatar dificuldades de interagir presencialmente outra vez, obtendo a mesma satisfação ou tendo o mesmo desempenho.

“Ao se masturbar, a relação da mão com o cérebro é tão precisa, numa sintonia muito maior do que conseguiria com alguém, especialmente no primeiro encontro. Não precisa se produzir, ir para a balada, tentar alguém, se arriscar a não dar em nada. Você tem certeza que de uma forma econômica, prática e privativa, faz o que quer e ninguém fica sabendo”, diz Carmita Abdo.

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