GESTÃO E CARREIRA

AS ARMADILHAS DA TRANSFORMAÇÃO DIGITAL

Na pressa de se digitalizar, muitas companhias cometem erros graves, prejudicando os negócios e as pessoas. Saiba como evitá-los

Há quase dois anos, o Brasil estava parando. Em março de 2020, a pandemia de covid-19 chegou por aqui e, em pouco tempo, transformou as grandes metrópoles em cidades-fantasma. Vias movimentadas, como as paulistanas  Faria Lima e Berrini, ficaram desertas sem as centenas de trabalhadores que ocupavam os prédios da região. Os índices de congestionamento e de poluição despencaram no mundo todo, ao mesmo tempo que a demanda pela internet aumentou. As avenidas esvaziadas em centros comerciais eram reflexo da necessidade de isolamento social – o que levou as empresas a correr para colocar todo mundo trabalhando em casa.

Só que a maioria foi pega de surpresa. Segundo levantamento da Citrix, companhia especializada em workspace, 68% das organizações brasileiras não permitiam o trabalho remoto em 2019. Resultado: quando a pandemia chegou, a inépcia era geral e atingia diferentes instâncias, da infraestrutura à liderança. Embora focado em home office, o índice é sintoma de um problema mais profundo das empresas brasileiras: o despreparo para conduzir a transformação digital.

Essas duas palavras, que já ecoavam pelos corredores corporativos há alguns anos, viraram um mantra. Afinal, a realidade se impôs e a digitalização se tornou crucial para a sobrevivência dos negócios. Mas a pressa na condução desse processo faz com que muitas empresas caiam em armadilhas e acabem perdendo tempo, dinheiro, engajamento e talentos. Para que isso não aconteça, é preciso analisar a tecnologia compreendendo não apenas seus pontos positivos, mas os problemas que podem surgir no caminho – que vão muito além das falhas da VPN.

SOLUÇÃO PARA TUDO?

Basicamente, existem dois tipos de inovações: as incrementais, que tornam alguma atividade mais rápida ou eficiente, mas não mudam sua essência; e as paradigmáticas, que transformam a realidade em uma camada mais profunda, modificando as relações e trazendo à tona novas necessidades e desafios.

Essas inovações ocorrem em qualquer época – já existiam bem antes de Steve Jobs inventar o iPhone. A criação da prensa mecânica por Johannes Gutenberg no século 15, por exemplo, foi o estopim para uma revolução no compartilhamento de informações. Sem a necessidade de copiar manualmente os livros, a troca de ideias era mais veloz – e isso foi o cerne de uma mudança profunda na religião. Se não houvesse a prensa, a impressão da Bíblia (primeiro livro a ter essa tecnologia) não seria possível e, consequentemente, a Reforma Protestante, que impactou não apenas a fé, mas os costumes, a ética e o desenvolvimento de sociedades inteiras, não viria à tona. José Borbolla, especialista em ciência de dados e conselheiro na escola digital Tera, conta que a prensa criou até problemas de gestão nos governos da Espanha e de Portugal. Até então, os documentos das coroas eram simplesmente despachados com a assinatura dos reis, mas com a prensa veio a possibilidade de que outras rubricas oficiais fossem incluídas na papelada – o que se tornou regra e demandou a adaptação dos monarcas. Nada mais atual.

Com esse poder de mudar tudo rápida e profundamente, a tecnologia pode acabar trazendo uma ilusão perigosa: a sensação de que ela, por si só, é capaz de resolver tudo. “É uma ideia incongruente pensar que precisamos de mais tecnologia para nos salvar de nossa própria desgraça e que, lá na frente, teremos ferramentas para solucionar o que estamos vivendo hoje”, diz José. Mas esse pensamento mágico, batizado de solucionismo tecnológico – tão presente em vários discursos vazios sobre a transformação digital -, não vem de hoje.

O movimento positivista, por exemplo, já pregava no século 19, durante a Revolução Industrial, só ser possível acessar a verdade por meio da racionalidade – que encontrou sua expressão máxima no maquinário tecnológico, mais do que pela capacidade humana. Daí vem a crença, explica José, de que a solução pela tecnologia é a única narrativa possível para a humanidade. Um perigo, pois deixa de lado o que realmente temos de mais rico a oferecer, como a sensibilidade, a individualidade e a criatividade. Só que esses aspectos parecem estar massacrados por outra armadilha ardilosa da transformação digital: o culto cego aos dados.

DESCONFIE PRIMEIRO

A batida frase de que “os dados são o novo petróleo” descreve bem o momento em que vivemos. Com a internet, os smartphones e os aplicativos ficou fácil rastrear as pegadas digitais que deixamos enquanto usamos nossos dispositivos. Algoritmos e buscadores passaram a memorizar nossos gostos, hábitos, compras, endereços e até indicadores de saúde.

Na onda do mapeamento de dados, a área de gestão de pessoas começou a trabalhar com o people analytics (que engloba e cruza diferentes indicadores gerados pelos funcionários, da avaliação de desempenho ao uso do plano de saúde) e com a inteligência artificial (muito usada para otimizar o recrutamento). Por um lado, os dados podem ser interessantes para ler melhor as necessidades do negócio e compreender quais ações a companhia deve tomar em termos de desenvolvimento e engajamento das equipes, por exemplo. Por outro, devemos ter cautela ao pensar que sistemas algorítmicos são um reflexo completamente fiel do que está acontecendo. “Os dados vão até certo ponto”, explica Vinicius Picollo, consultor especializado em estratégia e cultura digital.

É por isso que o pensamento crítico humano sempre precisa embasar a coleta e a análise de informações, além de acompanhar de perto a criação e o desenvolvimento de sistemas como o machine learning. Se uma inteligência artificial não estiver o tempo todo sendo monitorada de maneira criteriosa, corre o risco de reproduzir padrões condenáveis de comportamento. Ficou famosa uma experiência da Microsoft em 2016, quando a empresa criou um perfil de ‘Twitter para Tay, sua  robô de interação social. A ideia era que, com base nas conversas com os usuários, ela criasse seu próprio conteúdo. Tay seria “ensinada” pela rede, como são muitos chatbots hoje. No começo, suas postagens eram inocentes e bem-educadas, dizendo que os seres humanos eram muito legais. Mas em 24 horas a IA foi corrompida: tornou-se racista, homofóbica e defensora do nazismo. O experimento fez com que a Microsoft deletasse o perfil de Tay e serviu de alerta para o fato de que, sozinhas, as inteligências artificiais podem reproduzir o que há de pior na humanidade.

Outro foco de atenção quando falamos de dados é atentar aos “pontos fora da curva”, os comportamentos ou indicadores que não são mapeados pelos sistemas de análise. “Os algoritmos vão criando bolhas e repetem padrões. Por isso, não podemos deixar tudo nas mãos das máquinas. Elas terão vieses que farão com que elementos que seriam importantes para a mudança sejam deixados de lado, o que é péssimo para empregador e empregado”, diz Vinicius.

Ou seja, para conquistar bons resultados, temos que desconfiar das tecnologias. E, em hipótese nenhuma, devemos delegar a elas o processo decisório um erro muito comum de diversas lideranças que esperam que os robôs digam qual é o melhor caminho a seguir. “A inteligência artificial não toma decisão. Ela apenas lê aquilo que você escolheu para ser imputado no sistema”, diz Michele Martins, vice ­ presidente de RH da Neoway, empresa de big data. Evita-se esse problema garantindo a qualidade e a origem dos dados. Um exemplo: se a companhia quer melhorar os índices de diversidade no recrutamento, não pode criar um algoritmo de seleção baseado em perfis de empregados que não fazem parte dos grupos minoritários. Isso enviesaria o algoritmo e o colocaria longe dos resultados a serem alcançados.

NOVOS PARADIGMAS

Por estarmos vivendo uma transformação paradigmática, encaramos um impasse: há atitudes que ainda são repetidas, mas que simplesmente não fazem mais sentido neste novo cenário. O trabalho remoto e flexível, por exemplo, traz à tona uma série de desafios para todos. O mais profundo deles, talvez, seja o da autogestão. Uma vez que não há mais o “olho físico” da empresa sobre os funcionários, cada um passa a organizar as próprias entregas e agendas. “Estamos forçando as pessoas a ter uma autonomia muito maior e a criar seus processos de trabalho. Cada um está numa casa diferente, não tem mais como a empresa definir o processo”, diz Anderson Sant’Anna, professor na Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Eaesp).

O resultado é que o culto do comando e controle precisa cair por terra. Para que o home office funcione, laços de confiança, avaliação por entregas (e não por tempo de trabalho) e objetivos compartilhados são essenciais. O problema é que nem todos conseguem se adaptar à nova ordem, ainda mais em companhias que valorizavam chefes controladores antes da pandemia. O resultado é uma empresa doente, com líderes que desconfiam de seus times e apelam para o microgerenciamento na ânsia de saber o que, como e quando eles estão produzindo. Os liderados, por sua vez, se sentem esgotados porque, além de trabalhar, precisam “mostrar serviço”.

NA MESMA PÁGINA

Um levantamento da consultoria Bain & Company feito em 2019 mostra que apenas 8% das empresas conquistam suas metas depois da transformação digital. Isso faz pensar e traz uma lição importante: não trocar ferramentas sem que elas estejam conectadas com as necessidades reais do negócio. Mas é o que acontece o tempo todo. Segundo Luís Banhara, diretor-geral ela Citrix, as companhias correram, em março de 2020, para implementar tecnologias e conseguir ficar, nas palavras dele, “com a cabeça fora da água”. O desespero passou, e agora chegou o momento de ver o que está funcionando – e muita coisa não está. “É uma colcha de retalhos que torna a vida dos funcionários miserável”, explica o executivo.

José Borbolla traz uma história elucidativa sobre os “puxadinhos tecnológicos”. Em um evento de lançamento de uma nova tecnologia numa grande empresa, ele foi chamado no café por alguns funcionários. A turma confessou que ninguém sabia usar o novo sistema e que, para driblá-lo, um colega tinha feito uma nova programação no bom e velho Excel. O CEO estava falando para o vazio – e perdendo tempo e dinheiro. “As pessoas usam o que conhecem”, afirma José.

Não é à toa que 94% dos empregados se sentem excluídos da transformação digital de suas empresas, segundo o relatório Four Insights on the Culture of Digital Transformotion Todoy, feito em 2020 pela consultoria Futurum Research em parceria com a Pega, empresa de desenvolvimento de softwares, que ouviu 500 líderes e empregados na América do Norte e na Europa. O levantamento revela ainda que 45% dos profissionais não sabem como ajudar suas empregadoras nesse processo. Por isso um projeto de transformação digital não pode, nunca, estar desvinculado da reformulação da cultura corporativa – o que significa treinar para uma nova mentalidade.

É necessário, por exemplo, desenvolver competências como pensamento crítico e data literacy (“alfabetização em dados”, numa tradução livre). Essas habilidades se tornam fundamentais para que líderes e liderados compreendam que dados não representam a realidade e que as métricas estabelecidas por uma companhia não podem se confundir com as metas que devem ser alcançadas – um erro comum em corporações que estão se transformando digitalmente. Em muitos casos, em vez de olhar para um objetivo de longo prazo, como o aumento da inclusão, as chefias ficam obcecadas pela métrica que pode (ou não) levar à conquista da meta, como o número de integrantes de grupos minoritários no quadro da empresa. “Isso é falho, porque você pode ter a quantidade de pessoas, mas não ter uma cultura diversa”, explica Vinicius, consultor de estratégia digital.

CONSCIÊNCIA SOCIAL

Uma das consequências mais discutidas sobre a transformação digital é a extinção de algumas profissões. Um estudo feito em 2013 pelo economista Carl Frey, diretor do programa Futuro do Trabalho na Oxford Martin School, da Universidade de Oxford, estima que 50% das profissões exercidas em países em desenvolvimento – como o Brasil – desaparecerão em 20 anos. As tarefas que estão com os dias contados, segundo o especialista, são as repetitivas. O perigo já é percebido pelos brasileiros. Por aqui, uma em cada três pessoas teme ser substituída por máquinas ou por programas de computador, segundo um estudo da Universidade de Oxford e da seguradora Zurich. Além disso, um levantamento da consultoria Degreed mostra que 65% dos brasileiros acreditam que suas habilidades profissionais estão em risco.

Nesse contexto, a educação continuada se mostra essencial. E, em um país com tantos problemas de ensino como o Brasil, as empresas têm um papel importante para desenvolver a força de trabalho. Se não fizerem isso, correm o risco de ficar sem profissionais qualificados para tocar os negócios.

Antônio Salvador, líder da área de carreira da consultoria Mercer, coautor do livro Transformação Digital Uma Jornada que Vai muito Além da Tecnologia (Atelier de Conteúdo, 44,90 reais) e experiente executivo de recursos humanos, recebeu inúmeros relatos de trabalhadores que, por falta de oportunidade, não possuíam o mínimo de capacitação. “Alguns não têm o básico para fazer contas de subtrair, mexer numa caixa registradora, usar o tablet, tirar um pedido. Não têm o elementar”, conta. Esse pessoal, que já fica prejudicado em um mercado que ainda emprega para funções operacionais de baixa complexidade, seria deixado totalmente para trás na corrida da transformação digital.

Essa apreensão, que se tornou mais forte durante a pandemia por causa dos altos índices globais de desemprego, já estava no radar do Fórum Econômico Mundial em 2019 em seu relatório O Futuro dos Empregos. No documento, ficava clara a preocupação de que, se a Quarta Revolução Industrial – conceito criado por Klaus Schwab, fundador do fórum, para representar o período de disrupção tecnológica que vivemos – não fosse conduzida com cuidado pelos países e pelas empresas, haveria um grande risco de os índices de desigualdade aumentarem em todo o mundo. “É fundamental que os negócios adotem um papel ativo para apoiar sua atual força de trabalho com base na requalificação, que os indivíduos se concentrem em seu aprendizado a vida inteira e que os governos criem um ambiente que facilite essa transformação da força de trabalho”, disse Klaus Schwab na época, segundo reportagem da RFI Brasil em Londres publicada no UOL.

Quando há desenvolvimento e segurança, os profissionais ganham força para parar de atuar como máquinas e se tornar mais humanos – utilizando competências essenciais para a inovação. “Como gestores, precisamos olhar para as oportunidades que aumentem o potencial humano e que tornem pessoas vistas como operacionais capazes de agregar com criatividade, inovação e tomada de decisão em cenários complexos”, diz Michele, da Neoway. Sem essa percepção, corre-se o risco de cair na maior armadilha para a transformação digital: deixar que as máquinas assumam o comando. Ou pior: robotizar nossa própria humanidade.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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