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COMPARTILHAMENTO DE FOTOS DE CRIANÇAS PELOS PAIS GERA DEBATE SOBRE SEGURANÇA

Prática chamada de ‘sharenting’ ajuda a manter laços, mas gera riscos como roubo de identidade

Coxas com dobrinhas, pés fofinhos, olhos concentrados. Primeiras comidas, primeiros passos, primeiras (segundas, terceiras, milésimas…) palavras. Alguns minutos nas redes sociais bastam para qualquer um perceber quão disseminado virou o hábito de pais postarem o dia a dia de seus filhos em detalhes. O fenômeno ganhou nome, “sharenting”, junção das palavras em inglês “share” (compartilhar) e “parenting” (Parentalidade). O tema é alvo de debates sobre segurança e privacidade na internet e já chegou ao Judiciário, mas ainda de forma tímida.

De um lado, a conduta virou uma forma dos pais de dividir conquistas e desafios de uma fase tão intensa da vida como a de criar uma criança.

De outro, especialistas alertam que muitos familiares não estão a par dos perigos que uma publicação aparentemente inocente pode trazer – uma mera foto de mesversário, por exemplo, pode fornecer dados suficientes para um roubo de identidade.

Daniela Pramio, que trabalha com revisão e marketing digital, toma alguns cuidados, mas é da turma que em geral não vê problemas.

Em seu perfil aberto no Instagram, com 3.400 seguidores, ela posta fotos da filha de seis anos na praia, com pais e amigos, em qualquer momento que ela gostaria que ficasse para posteridade. “E em que ela esteja bonita, claro”, brinca.

Daniela conta que nunca pensou em trancar a conta só para amigos porque gosta de compartilhar as coisas boas da vida e porque, dessa forma, está aberta a ter trocas e conhecer gente legal, algo que já ocorreu quando ela teve um blog sobre casamento.

“Sou católica, não acredito em olho gordo”, diz. “E qualquer um que veja minha conta vai perceber que eu não sou uma milionária”, acrescenta.

Daniela conta que não esperou a garota ter idade para decidir aparecer ou não nas redes, mas diz que hoje a menina adora e sempre pede para a mãe postar as fotos dela.

Fundadora da plataforma Contente, que propõe relação mais saudável com a internet, a jornalista Daniela Arrais avalia que consentimento é uma palavra chave ao se pensar no compartilhamento.

Mãe de um bebé, ela não divulga o rosto dele em seus perfis abertos nas redes sociais. A decisão vem de uma reflexão que ela fez há muitos anos: que o filho é um indivíduo que deve ter o direito de optar por ter sua imagem exposta publicamente ou não.

“Essa é a geração mais observada desde sempre, e não temos tempo de uso suficiente das redes para saber o que isso implica no futuro”, diz.

Por outro lado, Daniela aponta o que diz ser uma aparente contradição: adora ver fotos dos filhos de amigos. Ela também criou um perfil fechado para que os mais próximos pudessem conhecer seu bebê, nascido na pandemia.

Também por isso ela avalia que, mais importante do que julgar quem faz “sharenting”; é a pessoa pensar por que o faz, em que condições e, eventualmente, que cuidados pode tomar.

“Fui criada sendo ensinada a não falar com estranhos e não dizer onde eu morava. De repente a gente abre um perfil e a pessoa, sem pensar, colocou ali a localização da escola da criança”, comenta.

Ela pondera ainda que, a partir de uma certa idade, o ato de fotografar e postar pode abrir margem para uma conversa rica com a criança, que envolve a própria educação para a internet.

Foi o que ocorreu com a psicóloga Ticiana Carnaúba. Ao virar mãe, ela decidiu que não iria expor fotos da filha, por também entender sua bebê como um ser autônomo com direito de escolha sobre sua presença nas redes. Quando a garota fez sete anos, Ticiana ouviu um questionamento. “Ela perguntou ‘mãe, porque você não posta foto minha?’ Perguntei se ela gostaria e ela decidiu que sim.”

Desde então, a menina faz aparições no perfil da mãe, mas é sempre consultada antes de qualquer publicação.

Para Ticiana, postar atende seu desejo de mostrar um lado importante da sua vida, o de mãe, e é também uma forma de compilar imagens para depois poder revisitá-las – como se fazia com álbuns físicos.

Em texto sobre o tema, a psicanalista Isabel Tatit pontua como o fenômeno relaciona-se com a solidão especialmente da mãe nos primeiros meses de vida do bebê. Nesse sentido, postar vira uma espécie de laço social.

Não é à toa que a profusão de fotos muitas vezes diminui à medida que a criança cresce, porque a mãe que estava o dia todo com o bebê em casa passa a ocupar outros espaços, e a rede social deixa de ser espaço privilegiado de socialização.

Com ponderações como essas, passou-se a ver a conduta dos pais de outra forma, e outro termo surgiu mais recentemente, o “oversharing”, que se refere a um exagero na prática, uma superexposição que resulta em riscos e constrangimento à criança.

As fronteiras entre uma coisa e outra ainda não estão claras. Artigo do advogado Filipe Medon em publicação recente do ITS (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro) divulgou uma história que chegou ao Tribunal de Justiça de São Paulo em 2020.

Trata-se do caso deum pai que entrou com uma ação para retirada da postagem da mãe de seu filho, na qual ela falava da condição de transtorno do espectro autista da criança.

Entendeu-se que a conduta da mãe não prejudicava a imagem do filho e se enquadrava na liberdade de expressão.

Pesquisadora do ITS, Priscila Silva aponta que nem sempre está claro qual é o melhor interesse da criança quando são os pais que a expõem, mas alerta que muitas vezes eles não estão cientes da quantidade de dados que divulgam quando postam alguma coisa em um perfil aberto.

Uma simples foto de aniversário com os genitores marcados, por exemplo, já oferece dados como a data de nascimento e filiação, que podem facilitar o roubo de identidade. Menores de idade estão mais vulneráveis a esse delito porque seus documentos não são usados com tanta frequência como os dos adultos. Assim, demora-se mais para perceber a fraude.

Outros riscos são fotos com o uniforme escolar, que aumentam o risco de sequestro, e cenas aparentemente inocentes, como de crianças no banho, que podem ser usadas para pedofilia.

Ela lembra ainda outras possibilidades de constrangimento, como o caso do garoto que teve um vídeo feito para seu Bar Mitzvá viralizado na internet e chegou a andar com seguranças por causa disso.

Conscientizar os pais é fundamental, mas é preciso lembrar que a questão não envolve somente eles, ressalta Maria Mello, coordenadora do programa Criança e Consumo do Instituto Alana.

Ela ressalta que cabe ao Estado regulamentar, especialmente quando a aparição da criança está vinculada a interesses comerciais dos pais, e às redes se comprometer com políticas que evitem os dados da superexposição.

“A partir do momento em que o ‘sharenting’ gera um engajamento grande, ele atrai empresas e beneficia as plataformas. Isso traz a elas uma grande responsabilidade”, diz.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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