OUTROS OLHARES

PERSEGUIÇÃO PUNIDA

Após stalking se tornar crime, denúncias à polícia mostram como prática é comum

A senadora Leila  Barros (Cidadania-DF) já contou que sua vida virou um inferno quando passou a ser perseguida no tempo em que era jogadora da seleção brasileira de vôlei.

“Começou uma relação saudável, entre ídolo efã. De repente a pessoa começou a ficar mais presente, ia assistir ao treino, me esperava. Eu descia para comprar pão perto da minha casa, ela aparecia. Comecei a me afastar. A pessoa começou a ficar agressiva, ia ao ginásio xingar. Fiquei na de ignorar até que um dia vi meu carro arranhado. Tive medo de estar só muitas vezes”, conta a senadora.

Foi Leila quem apresentou um projeto, que depois virou lei, criminalizando casos como esse, chamados de “stalking”. O crime ocorre quando alguém tem obsessão por outra   pessoa a ponto de ameaçar sua liberdade e sua segurança.

O stalking é mais do que mero incômodo ou irritação. São ligações constantes, muitas mensagens, visitas inesperadas e até mesmo tentativas de invadir dispositivos eletrônicos que caracterizam a prática. Em geral, as vítimas são mulheres. A lei foi sancionada apenas em março de 2021, mas já levou à apresentação de milhares de queixas nas delegacias brasileiras e até mesmo à decretação de prisão preventiva de acusados. São casos que antes seriam apenas contravenções penais, de baixo potencial.

Dados obtidos de secretarias de segurança do Distrito Federal e de quatro dos estados mais populosos do país – São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul – mostram como a prática é disseminada. Foram 242 ocorrências registradas ao Distrito Federal entre 1º de abril e 9 de junho, 45 no Rio em agosto e entre abril e setembro, 2.633 no Rio Grande do Sul e 2.113 no Paraná. Em São Paulo, os números divulgados mostram 686 queixas em abril.

CRIMES RELACIONADOS

Em Brasília, a média de casos foi de mais de três por dia, 85% das vítimas são mulheres e 56% dos casos também foram enquadrados na Lei Maria da Penha. Em 8% das vezes, o crime foi pela internet.

A promotora de Justiça Ana Lara Camargo de Castro confirma que a maioria das vítimas é mulher, e o stalking é muito associado à violência doméstica e à perseguição pelo ex-companheiro, que costuma conhecer detalhes da vida da vítima. Hoje coordenadora do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado no Ministério Público de Mato Grosso do Sul, Ana Lara já atuou por quase dez anos na Promotoria de Violência Doméstica. Segundo a promotora, em muitos casos, a prática pode levar à violência sexual, agressão física e homicídio.

JUIZADOS ESPECIAIS

A promotora destaca que é comum que a perseguição comece pela internet. Ela avalia que a lei é importante para combater o crime porque antes não era possível registrá-lo e não havia estatísticas. Mas critica o tamanho da pena, de até dois anos, quando não há causa de aumento, por outro crime em conexão com a perseguição. Em algumas situações, como quando a vítima é menor de idade ou idosa ou quando o crime é cometido contra uma mulher por misoginia, a detenção pode chegar a trêsanos. Crimes com pena máxima de dois anos são julgados nos juizados especiais criminais.

“É um tipo penal de menor potencial ofensivo, a opção do legislador não assegurou uma proteção maior à vítima. É tratado nos juizados especiais sem o rigor que esse tipo de delito mereceria”, opina.

Muitas vítimas preferem não comentar ou falar de forma reservada por medo. Maria Tereza (nome fictício), de São Paulo, foi estuprada e denunciou o caso na internet. Isso fez com que também fosse vítima de stalking, quando a prática ainda não tinha sido criminalizada. Foi perseguida, xingada e os parentes também sofreram consequências. Hoje, ela usa outro sobrenome e ainda tem dificuldades para falar do assunto porque chegou a uma “situação-limite”.  Há quatro anos, o caso nem chegou a ser denunciado. Ela conta que conseguiu retirar várias postagens do ar, mas não foi uma tarefa fácil.

“O custo foi bem alto. Eles deixaram os casos chegarem ao limite. A vida acaba, eu tive estresse pós-traumático. Minha família, meus filhos sofreram a dor colateral dessa violência”, afirma.

Considerado o primeiro caso tipificado de stalking no Distrito Federal, uma mulher foi presa em maio depois de perseguir e agredir os vizinhos por 14 anos, xingando, ameaçando e até jogando lixo na piscina. O delegado João Ataliba, que atuou no caso, cita o episódio como um que, antes da lei, seria uma contravenção penal, em que a denúncia feita na delegada não seria resolvida no Judiciário. Na avaliação de Ataliba, agora é possível uma ação mais rápida, principalmente para evitar o feminicídio.

Paro o delegado, os casos que mais chamam atenção são os ligados a atos de violência doméstica de quem não se conforma com o fim da relação, podendo até ter homens como vítimas. O policial conta que recentemente, após ameaças, uma mulher ateou fogo em uma clínica do ex-namorado:

“É importante procurar a delegacia mais próxima e também retornar quando há reincidência, avisando quando há descumprimento de medidas restritivas”.

TRATAMENTO PSIQUIÁTRICO

Também em Brasília, em maio deste ano, uma médica procurou a delegacia para denunciar um homem que havia entrado em contato com ela por uma rede social e depois a procurou em seu consultório, quando perguntou se ela achava que ele estava armado. Assustada ela procurou a polícia. As mensagens e as idas ao local de trabalho continuaram e a médica contratou um advogado criminalista, que pediu medidas protetivas.

O homem foi proibido pela Justiça de se aproximar e de se comunicar com ela, mas continuou enviando mensagens. As dúvidas sobre sua sanidade mental levaram à sua internação em um hospital e depois a um tratamento psiquiátrico na penitenciária. Em outubro, após quase três meses, ele foi solto sob a condição de ser submetido a medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica.

Em alguns casos, o desfecho é trágico. Stephanie Souza, de 19 anos, foi morta em maio de 2018, em Simões Filho (BA). O suspeito do crime, que foi preso apenas esta semana, tinha obsessão pela vítima, mesmo com a estudante não tendo interesse por ele.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 07 DE DEZEMBRO

JUSTIÇA, ALEGRIA DE UNS E PAVOR DE OUTROS

Praticar a justiça é alegria para o justo, mas espanto, para os que praticam a iniquidade (Provérbios 21.15).

Quando a justiça prevalece, os maus se perturbam, e os justos se alegram. O que é bálsamo para uns é tormento para outros. A justiça não interessa aos que vivem à margem da lei. A verdade é uma luz que incomoda os olhos doentes dos iníquos. A justiça é como uma ferida na carne daqueles que obram o mal. Quando se faz justiça, os malfeitores se apavoram e se enchem de espanto, enquanto os justos se alegram, pois para eles a prática da justiça é motivo de prazer e deleite. O apóstolo Paulo escreve aos romanos: Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela (Romanos 13.3). O transgressor logo se aflige ao ver um agente da justiça. Um ladrão imediatamente se apavora ao ouvir a sirene de um carro policial. Um motorista flagrado na transgressão de uma lei de trânsito não se sente protegido ao esbarrar com um agente de trânsito. Os que violam a lei e praticam a iniquidade querem viver na escuridão. A luz da verdade atormenta-lhes a alma, e o fulgor da justiça perturba-lhes o coração. Não é assim a vida do justo. A prática da justiça é seu refúgio, e o fruto da justiça, o seu prazer.

GESTÃO E CARREIRA

APÓS MESES DE TRABALHO REMOTO, NOÇÃO DE PRODUTIVIDADE É REAVALIADA

Para muitas pessoas, produzir por um maior número de horas deixou de ser uma grande meta

Seu dia foi produtivo? Essa é uma pergunta complicada, especialmente para algumas das muitas pessoas que passaram os últimos 19 meses trabalhando remotamente.

Parte do problema é a definição do que quer dizer produtividade. Como indicador macroeconômico, o termo significa a produção total por hora trabalhada. Ou seja, o mínimo de, por exemplo, frigideiras que um trabalhador consegue produzir em uma hora.

Esses dados são reportados em base trimestral ao Serviço de Estatísticas do Trabalho dos EUA, e os economistas os empregam para determinar o grau de eficiência de uma sociedade, e se o seu padrão de vida está subindo.

Em um nível mais profundo, medir produtividade é muito mais complicado. Como se mede a produtividade de um segurança, por exemplo, ou a de um neurocientista?

De qualquer forma, esse tipo de produtividade da mão de obra parece ter crescido durante a pandemia.

“Estou mais otimista quanto ao crescimento da produtividade agora, na metade de 2021, do que estava dois anos atrás, antes da pandemia”, disse Chad Syverson, professor de economia na Escola Booth de Administração de Empresas, Universidade de Chicago.

Produtividade tem outro significado, porém, que terminou por chegar às estantes de livros de autoajuda. Produtividade, nesse sentido, se tornou um jargão valorizado, com todo um ecossistema de consultores para ajudar as pessoas a ticar mais itens em suas listas de tarefas a cada tarde.

Ainda que a palavra seja a mesma, a produção da economia em um trimestre não é a mesma coisa que aquilo que um indivíduo qualquer consegue realizar em um dia. Mas a disparidade entre essas duas formas de pensar sobre produtividade pode estar distorcendo nosso senso pessoal daquilo que estamos realizando. E a pandemia não ajudou.

“Um teste de produtividade para a economia da era da pandemia é perguntar a um grupo de pessoas se elas estão em situação melhor hoje do que estavam dois anos atrás, e acho que a maioria das pessoas responderia que está muito pior”,  disse Gregory Clark, professor de economia na Universidade da Califórnia em Davis. “De alguma forma, não estamos capturando certos elementos da situação, quando usamos indicadores convencionais”.

Os trabalhadores em geral declaram, em pesquisas, que são mais produtivos trabalhando em casa. Mas aqueles que trabalham remotamente precisam lidar com mais interrupções e preocupações imediatas, como cuidar de filhos. A perda de distinção entre vida e trabalho torna mais difícil avaliar quanto trabalho uma pessoa faz por hora, ao longo do dia. A falta de motivação, depois de 19 meses de tédio causado pela pandemia também pode estar reduzindo a capacidade de pelo menos uma parte dos trabalhadores para realizar suas tarefas. E mesmo aqueles que afirmam que são produtivos em casa quanto eram no escritório podem se sentir mais solitários e menos engajados.

Os americanos há muito encaram a produtividade como uma virtude comparável à de acordar ao raiar do dia, ou comer saladas nas refeições. Benjamin Franklin, em sua autobiografia, delineou uma agenda diária que começavam  por uma pergunta: “Que bem farei ao mundo hoje?”, e incluía acordar às 5h e ocupar todas as horas até as 11h com trabalho ou outras rotinas.

Franklin com certeza não era a única pessoa que dividia rigorosamente seu tempo. “Na verdade, muita gente no século 18 (homens e mulheres) tendia a dividir as horas do dia de maneira a criar a maior oportunidade possível para concluir tarefas”, afirmou Carla Mulford, professora de inglês na Universidade Estadual da Pensilvânia e pesquisadora especializada em Franklin, por e-mail.

“Se elas não tinham relógio em casa, prestavam atenção aos sinos das igrejas. Ou acompanhavam o percurso do sol lá no alto para saber quando era hora de deixar de fazer uma coisa e começar outra”.

A versão pessoal de Franklin para a produtividade – aquilo que uma pessoa de fato faz durante o dia – vem sendo a definição operacional, e se aplica a numerosas indústrias. À medida que o mundo se tornou mais complicado, e que as pessoas passaram a se ver como muito mais do que a soma das tarefas que tinham de executara cada dia, aplicar esse limitador de produtividade nos indivíduos foi se tornando um desafio cada vez maior.

Chris Balley, consultor de produtividade e autor de “The Productivity Project”, definiu a produtividade como “simplesmente fazer o que você determinou que faria”.

Quando adolescente, ele devorava livros sobre produtividade, uma obsessão que o consumia a tal ponto que ele chegou a recusar ofertas de emprego em período integral ao se formar na universidade, para poder dedicar um ano a escrever sobre produtividade.

Como parte dessa busca, ele se usou como cobaia em experiências – trabalhando 90 horas por semana, ou ‘me tornando um completo vagabundo por uma semana ou ganhando cinco quilos de peso, somente em massa muscular.

Há pessoas que encontraram desafios especialmente complicados para manter a produtividade durante a pandemia. Metade dos pais que ficaram trabalhando em casa e que têm filhos de menos de 18 anos de idade, e quase 40% das pessoas dos 18 aos 49 anos que trabalhavam remotamente, disseram que era difícil para elas realizar seu trabalho sem interrupções, de acordo com o Pew Research Center.

Assim, é possível que as pessoas que trabalham de casa também tenham uma sensação falsa sobre o quanto estão trabalhado. Na verdade, as pessoas que trabalham de casa talvez estejam usando o denominador errado ao calcular a proporção de seu tempo que dedicam ao trabalho, disse Syverson, da Universidade de Chicago.

Isso pode fazer com que elas sintam estar trabalhando menos quando na verdade têm o mesmo volume de trabalho.

“Creio que haja alga a considerar no fato de que muitos trabalhadores que estão em casa não dividem seu dia em horas de trabalho e horas de lazer”, ele disse. ‘Em lugar de dividir o dia de uma forma que os faz passar oito horas trabalhando, eles dividem o trabalho pelas 16 horas do dia que passam acordados”.

Enquanto os empregadores tentam descobrir maneiras de redespertar o engajamento de seu pessoal e levar as pessoas de volta aos escritórios vazios, maneiras de extrair o máximo de uma força de trabalho se tornaram um quebra-cabeças para os gestores, com implicações profundas para a economia.

Alguns desses empregadores já anunciaram planos para dar mais flexibilidade aos empregados. O Twitter anunciou que os trabalhadores que conseguirem podem trabalhar de casa de forma definitiva

Brigid Schulte, diretora do Better Life Lab na organização de pesquisa New América e autora de um livro sobre pessoas sobrecarregadas de tarefas, disseque a cultura americana acredita há muito tempo que trabalhar por mais tempo quer dizer trabalhar com mais afinco e ser mais produtivo, a despeito de falhas nesse raciocínio. Ela ressalta o fato de que há um “precipício de produtividade”: trabalhadores só são produtivos por um determinado número de horas, e depois disso sua produtividade cai e eles podem começar a cometer erros.

“Há muito tempo fazemos uma conexão errônea entre a ideia de trabalhar por muito tempo e de trabalhar com afinco, e acreditamos que isso representa mais produtividade, mas essa ideia nunca foi verdade”, disse Schulte.

A pandemia causou um despertar coletivo com relação a prioridades culturais, nascido de um medo constante de contágio e morte. Para muita gente, especialmente os trabalhadores que mantiveram seus empregos e puderam trabalhar remotamente, a produtividade pessoal – pelo menos no sentido de produzir mais pelo maior número de horas -­ deixou até de ser uma meta.

Algumas pessoas tiveram mais tempo para explorar hobbies e passar mais tempo com  suas famílias, o que pode ter ajudado a mudar sua forma de imaginar como esperam passar seus dias. Muitos perderam entes queridos ou viram parentes adoecer.

Aqueles que têm filhos pequenos em casa e trabalharam remotamente durante a pandemia podem ter redefinido completamente o significado de produtividade de forma a conciliar o papel híbrido de trabalhadores e cuidadores. “O que é que mais importa?”, disse Jeffrey Sanchez Burks, cientista comportamental da Escola Ross de Administração de Empresas, na Universidade de Michigan. “É a carreira? É ter um horário flexível? É passar tempo com a família? Há muita discussão e reflexão em curso sobre o que propicia uma boa vida, e não creio que o resultado dessa discussão penda para o lado do “seja mais produtivo”.

EU ACHO …

TALENTO X ESFORÇO

Entre as características pessoais que mais admiramos como sociedade está o talento. Ter um talento especial parece ser uma bênção preestabelecida como uma mostra do quão especial é o detentor daquela qualidade. Como se nascer com determinada habilidade fosse símbolo de virtude. A injustiça se faz presente na base desse pensamento, já que não depende de nós nascer com determinada capacidade. Ficamos à mercê da sorte, do destino ou de uma benção.

A situação se agrava com o passar do tempo. Mas quando o talento específico se torna reconhecido pela sociedade temos aquilo que é chamado de efeito halo. Tal acontecimento foi estudado e nomeado pelo psicólogo norte americano formado em  Harvard Edward Thorndike. De acordo com ele, esse efeito acontece quando temos a avaliação de um aspecto do indivíduo e essa característica intervém no julgamento da personalidade por inteiro dessa pessoa.

O efeito halo demonstra a interferência na simpatia que temos por pessoas que apresentam cerras características que admiramos. O  talento de alguém, mesmo que específico, nos leva a admirá-lo em outras áreas, como um efeito daquela impressão. Dessa forma podemos considerar e confundir talento com virtude. Criada uma primeira impressão, temos a tendência de só captar características que vão confirmar essa mesma impressão. Dessa forma, pessoas esforçadas e consideradas sem talento saem em desvantagem com relação à simpatia gerada espontaneamente pelos que possuem tal bênção.

Depois de cinco décadas, entendo o abismo entre talento e o que realmente altera o rumo de uma existência: o esforço. Se comparados talento e esforço, o primeiro é mais atraente e desejado, claro. Mas a vida mostra sua complexidade justamente nessa ilusão. Sem esforço, o talento aos poucos desaparece, mas com esforço por vezes nascem talentos. A beleza que, como um talento, é algo recebido de graça e cria o tal efeito halo à primeira vista, sem o esforço relacionado à educação e à simpatia na comunicação, no que se transforma? E o talento de uma linda voz sem determinação de se fazer ouvida e cantada a mensagem que deve ser produzida?

O esforço preenche o talento. Aos poucos talentosos e muito esforçados vai aqui minha experiência. Sou hoje chamada de uma mulher talentosa, quando sou, na verdade, uma pessoa esforçada que lutou para aprimorar pequenas qualidades. As cinco décadas que separaram a menina comum foram preenchidas com dedicação e comprometimento, esforço reconhecido hoje como bênção.

*** ALICE FERRAZ

ESTAR BEM

OBESOS E MALNUTRIDOS

Estudos mostram como a má alimentação afeta crianças com até 5 anos no Brasil

Mais de um terço das crianças com até 5 anos de idade que foram levadas pelos pais para um consulta na atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS) no ano passado estavam com excesso de peso, o que inclui o sobrepeso e a obesidade, fatores de risco para doenças como hipertensão, diabetes, câncer e, mais recentemente, a Covid-19. E quase a metade dessas mesmas crianças, a partir dos seis meses de vida, já consumiam alimentos, utraprocessados, como salgadinhos, biscoitos e refrigerantes – no recorte de 2 até 5 anos, esse índice subiu a 83%.

As informações compõem o “Panorama da obesidade em crianças e adolescentes”, base de dados lançada pelo Instituto Desiderata a partir de registros coletados pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Ministério da Saúde. O levantamento é um importante retrato da saúde infantil e se configura como um dos mais completos já realizados no país.

“O começo (davida alimentar)já é errado. Por uma série de fatores, não conseguimos mais do que 30 e poucos por cento das mães amamentando exclusivamente os filhos até o sexto mês de vida, Ai, depois disso, como a fórmula é cara, muitas crianças vão direto pro leito de vaca, que tem poucas vitaminas, causa sobrecarga renal pelo excesso de proteínas… Do primeiro ao quinto ano, ela já vai pro biscoito, refrigerante, achocolatado, bolo” explica AryLopes Cardoso, presidente do Departamento de Suporte Nutricional da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

A leitura das informações possui algumas limitações: o Sisvan divulga números absolutos de crianças acompanhadas em cada município, e não a porcentagem do total. Além disso, o percentual de registros no sistema sobre estado nutricional (15,39%) e consumo de alimentos por crianças e adolescentes no país (3,16%) ainda é baixo, apesar dos avanços nos últimos anos.

Para Cardoso, no cenário alimentar brasileiro, é alto o risco de uma criança com excesso de  peso se tornar um adolescente obeso e, consequentemente, um adulto com problemas para emagrecer também.

“Essas crianças estão em uma fase da vida de um crescimento muito rápido, incluindo uma hiperplasia (aumento no número) das células gordurosas, onde vai cabendo mais gordura. E chegam à adolescência com muitas células adiposas que, grandes, vão sendo abastecidas com mais gorduras trans, que causam diabetes e problemas cardiovasculares”, explica o nutricionista.

EDUCAÇÃO PELOS PAIS

Para ele, a chave está na educação alimentar dos pais, que conseguem interferir no cardápio dos filhos somente até os 11 anos deles. Quanto mais velho o adolescente, mais difícil fica o controle da ingestão calórica, diz Cardoso.

Além disso, os hábitos das crianças são influenciados diretamente pelos pais. As atitudes dos adultos em relação à alimentação refletem a forma como elas comem e desenvolvem o paladar.

Nos últimos anos, o problema se agravou com dois fatores: a falta de tempo para se dedicar à cozinha (inclusive na pandemia) e a crise financeira que empobreceu as famílias. Alimentos ultraprocessados, como macarrão instantâneo e nuggets, são mais fáceis de serem preparados e tendem a ser mais baratos.

“Por mais que os pais saibam que aquilo não faz bem, eles não têm tanta noção do quanto faz mal. O ultraprocessado é um disruptor endócrino, que pode mexer no balanço hormonal. Imagina numa criança. Tomar achocolatado, comer biscoito recheado todos os dias desde o fim da amamentação causa danos que a gente nem tem condições de mapear”, alerta a nutricionista Elisa Mendonça, analista de saúde do Instituto Desiderata. Atualmente, o instituto se mobiliza para aprovar na Câmara Municipal do Rio um projeto de lei que quer, entre outras coisas, vetar comidas processadas e bebida açucaradas nas escolas da cidade, sejam elas públicas ou privadas.

CARÊNCIAS NUTRICIONAIS

Além da obesidade, a outra face desse mesmo desajuste alimentar é a carência de nutrientes essenciais para o desenvolvimento das crianças. Também foi divulgada uma pesquisa inédita sobre o estado nutricional no começo da vida: encomendado pelo Ministério da Saúde, o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani-2019) analisou a incidência de anemia e de deficiências de vitaminas e minerais de 145 mil crianças em 123 municípios brasileiros.

E descobriu que a deficiência de vitamina B12 acomete 14,2 % das crianças de até 5 anos de idade, problema mais grave ainda na região Norte (28.5%) do país. As desigualdades também aparecem no recorte econômico no quesito raça/cor, visto que a proporção de crianças nessa situação é maior nas famílias mais pobres.

“Do ponto de vista global, 14% é um valor importante. Mais ainda quando se fala em criança pequena. É um nutriente que tem relação direta com a fonte alimentar, com não poder escolher (a comida), com faltar quantidade ou qualidade (de alimentos), visto que é obtido pela carne vermelha, peixes e aves”, explica o coordenador da pesquisa, Gilberto Kal, nutricionista pela UFRJ e mestre em saúde pública pela Fiocruz.

Segundo ele, apesar de os dados serem imediatamente anteriores à pandemia, já havia um cenário de pobreza alimentar nos lares brasileiros: a primeira etapa da mesma Enani-2019 mostrou que 47,1% das casas dos pais com crianças de até 5 anos estavam passando por insegurança alimentar, ou seja, não tinham dinheiro para a alimentação saudável e variada.

“O dado é pré-pandemia, mas é um contexto de piora que estava se desenhando antes, com retrocessos  em alguns dados, como o de mortalidade infantil. E serão anos de políticas públicas para reverter essa situação, não é com dois ou três anos”, explica.

Outros índices, como a prevalência de anemia (que é de 10,1% no geral, mas chega a 30,3% em crianças de 6 meses a 2 anos de idade da região Norte e a falta de vitamina A (6%), também preocupam.

Quando há falta de vitamina B12, antes a criança já tem déficit de ferro e talvez anemia. Isso pode acarretar um déficit de cognição e até um rendimento escolar reduzido a longo prazo. Lembrando que todos esses micronutrientes contribuem para um sistema imunológico atuante, e a falta deles pode causar ainda uma maior propensão a viroses”, complementa o pediatra Ary Lopes Cardoso.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CIENTISTAS CRIAM ‘MARCA-PASSO’ CONTRA A DEPRESSÃO

Pesquisadores americanos apresentam o primeiro estudo de estimulação cerebral profunda individualizada para tratar os casos graves. Terapia experimental é cara, mas pode abrir novos caminhos para o melhor controle da doença

Há cinco anos, voltando para casa do trabalho, uma mulher jovem da Califórnia estava tão sobrecarregada pela depressão que tudo que conseguia pensar era em acabar com sua vida.

“Não conseguia parar de chorar. O pensamento que me consumia durante todo o caminho de casa era apenas dirigir meu carro para o pântano para me afogar”, relembra Sarah, agora com 38 anos. Ela conseguiu chegar em casa, mas pouco depois foi morar com os pais porque os médicos não consideraram seguro ela viver sozinha.

Sem conseguir trabalhar, ela se demitiu do emprego na área de tecnologia em saúde. E tentou quase todos os tipos de tratamentos: cerca de 20 medicamentos diferentes, meses em um programa diurno no hospital, terapia eletroconvulsiva, estimulação magnética transcraniana. Mas, assim como em quase um terço das mais de 250 milhões de pessoas com depressão ao redor do mundo, os sintomas persistiram.

Então, Sarah se tornou a primeira participante de um estudo para uma terapia experimental. No momento, sua depressão está tão controlada que ela cursa aulas de análise de dados, voltou a morar sozinha e ajuda a cuidar da mãe, que sofreu uma queda.

“Em poucas semanas, os pensamentos suicidas simplesmente desapareceram. Depois, foi apenas um processo gradual em que era como se as minhas lentes para o mundo tivessem mudado”, disse Sarah, que é identificada apenas pelo primeiro nome para proteger sua privacidade.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos EUA, implantaram, no cérebro de Sarah, de forma cirúrgica, um aparelho do tamanho de uma caixa de fósforos operado por bateria – um “marca-passo para o cérebro”: alguns chamam – calibrado para detectar a atividade neural que ocorre quando ela está ficando deprimida. Então, ele emite pulsos de estimulação elétrica para evitar os sintomas.

Doze dias depois que o aparelho de Sarah estava completamente operacional, em agosto de 2020, seu nível em uma escala que mede o padrão da depressão caiu de 33 para 14 e, alguns meses depois, foi para menos de 10, essencialmente sinalizando uma remissão da doença, relataram os pesquisadores.

“O dispositivo tem mantido minha depressão sob controle, me permitindo retomar minha melhor versão e reconstruir uma vida que vale a pena ser vivida”, disse.

Sarah é o primeiro caso documentado da personalização de uma técnica chamada estimulação cerebral profunda para tratar com sucesso a depressão. Diversas pesquisas ainda são necessária antes de ficar claro o quão efetiva pode ser a abordagem e para quantos pacientes. Mas muitas equipes de cientistas estão trabalhando agora em maneiras para combinar a estimulação elétrica ao que acontece dentro do cérebro de cada paciente.

A estimulação cerebral profunda é usada para tratar o mal de Parkinson e outros distúrbios, mas não é aprovada pelas agências reguladoras federais para depressão porque os resultados têm sido inconsistentes. Enquanto estudos anteriores indicavam benefícios, dois testes patrocinados por empresas de dispositivos foram interrompidos na última década porque a estimulação não parecia provocar melhores resultados do que o efeito placebo.

Mas esses estudos não miraram locais individualizados ou padrões de atividades elétricas nos cérebros. Eles eram “tamanho único”, diz Darin Dougherty, diretor de neuroterapia do Hospital Geral de Massachusetts, que fez parte de um dos testes interrompidos. Ele chamou a abordagem personalizada de  Sarah,  na qual ele não estava envolvido, de “muito empolgante”.

“A depressão de uma pessoa pode parecer muito diferente da de outra”, explica Katherine Scangos, professora de psiquiatria da Universidade da California e autora de um relatório sobre o caso da Sarah publicado neste mês na revista científica Nature Medicine. Os demais autores foram Andrew Kristal, especialista em transtornos do humor, e Edward Chang, cujo trabalho  inclui implantes cerebrais para pacientes com paralisia que não conseguem falar.

O EXPERIMENTO

Para identificar o padrão de atividade cerebral específico ligado à depressão da Sarah, os pesquisadores fizeram uma exploração intensiva de dez dias em seu cérebro, colocando vários eletrodos e perguntando sobre seus sentimentos enquanto aplicavam estimulações em diferentes locais e em doses variadas.

Sarah se lembra de um momento de epifania, quando ela se sentiu como o “Pillsbury Doughboy”(mascote publicitário famoso nos EUA), emitindo uma “gargalhada gigante” que ela disse ser a primeira vez que riu e sorriu espontaneamente em cinco anos. Outra sensação a lembrou “estar em frente a uma lareira quente lendo um livro reconfortante”, enquanto um sentimento negativo parecia o arranhar de “unhas no quadro-negro”.

Em algum momento, a equipe identificou um padrão específico de atividade elétrica que coincidiu com o momento em que Sarah estava ficando deprimida.

A fase exploratória guiou os pesquisadores a implantar o aparelho estimulador no hemisfério direito do cérebro da Sarah e ligado a eletrodos em duas regiões. Uma, era o estriado ventral, parte envolvida na emoção, motivação e recompensa, onde a estimulação “eliminava consistentemente seus sentimentos de depressão”. A outra região era a amigdala, onde as mudanças podiam “prever quando seus sintomas eram mais graves”, disse a médica Katherine Scangos.

Enquanto a estimulação cerebral profunda é normalmente fornecida de forma continua, o aparelho de Sarah é programado para emitir apenas uma corrente de seis segundos ao reconhecer seu padrão de atividade cerebral associado à depressão.

O objetivo, disse Dougherthy, é que a estimulação interrompa ou mude a atividade neural para produzir um padrão mais saudável que amenize os sintomas da depressão.

Sarah continuou tomando seus medicamentos psiquiátricos, e a estimulação não eliminou  a atividade que causa a depressão em seu cérebro. Mas ela consegue controlar sua doença de forma muito melhor, em vez de ficar incapaz de tomar até mesmo decisões como o que comer.

OUTROS ESTUDOS

Cerca de 30% das pessoas com depressão não respondem a tratamentos padrão ou não conseguem tolerar os efeitos colaterais. A estimulação cerebral profunda não seria apropriada para todos porque custa muito caro e a cirurgia para implantar o aparelho oferecia, diversos riscos, como infecção. Mas, se funcionar, pode ajudar muitas pessoas, garantem os especialistas.

“Nosso trabalho agora é de fato entender o que é que identifica quem precisa desse tipo de intervenção”, disse Helen Mayberg, diretora do Centro de Terapêuticas de Circuitos Avançados da Escola de Medicina lcahn, em NY, instituição pioneira na estimulação cerebral profunda para combater a depressão, há quase 20 anos.

Mayberg utiliza um método diferente de individualização. Com o exame de imagem, ela localiza onde quatro partes de substância branca se cruzam perto de uma região chave relacionada à depressão no cérebro de cada pessoa. Depois de implantar eletrodos e um aparelho para provocar os estímulos, “nós praticamente o configuramos e o esquecemos”, fornecendo estimulação contínua, ao mesmo tempo ajudando os pacientes com terapia convencional.

A atividade neural é monitorada para “aprender a assinatura do cérebro que anuncia uma recaída depressiva iminente ou a necessidade de um ajuste de dose ou apenas indica que a pessoa está tendo uma semana ruum”, explicou Mayberg. Ela liderou um dos testes interrompidos, mas seu trabalho também permitiu que os pacientes experimentassem melhorias.

Em outra abordagem, Sameer Sheth, professor associado de neurocirurgia na Faculdade de Medicina Baylor; e seus colegas estudaram o padrão da atividade cerebral específico de um paciente para identificar quais das bilhões de combinações das características das estimulações, como frequência e amplitude, melhoram a sua depressão. Ele então sintoniza os eletrodos em duas regiões e aplica essa combinação específica de estimulação de forma contínua.

Sheth disse que o primeiro paciente que recebeu o aparelho, em março de 2020, “está notavelmente bem” agora. Para testar o efeito placebo, pesquisadores gradualmente pararam a estimulação para uma região do cérebro sem o paciente saber quando. Sua depressão ficou pior e pior”, disse Sheth, até que ele precisou de um “resgate”. Depois que a estimulação foi reiniciada, ele melhorou, sugerindo que o efeito é “definitivamente relacionado às estimulações”.

Os pesquisadores dizem que ainda levará anos para aprender se as abordagens individualizadas são eficazes o suficiente para serem aprovadas. Métodos diferentes podem funcionar para a depressão de pessoas diferentes, e a estimulação individualizada pode eventualmente ajudar outros transtornos psiquiátricos, concluem os cientistas.

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