GESTÃO E CARREIRA

MULHERES TÊM MAIOR POTENCIAL DE TRABALHO REMOTO DO QUE HOMENS

Dificuldades de acesso a computadores e internet, no entanto, acentuam desigualdades entre profissionais brancos e negros

Quando a pandemia da Covid-19 estourou com força no Brasil em março de 2021, a personal trainer Claudia Turco Viceconti, 39, temeu pelo futuro de seu trabalho.

Mas acabou se surpreendendo com a aptidão tecnológica de seus alunos, que se adaptaram facilmente às aulas online e com o efeito colateral positivo da crise em sua vida pessoal.

“Ficar em casa foi algo feliz, mas, por um breve momento, houve a tristeza de perceber o quanto os meus filhos sentiam a minha falta”, diz ela, que é mãe de dois meninos, de 9 e 7 anos.

Antes da pandemia, Claudia, que mora em São Paulo, conseguia ficar com eles na hora do almoço e à noite e, apesar da rotina intensa de trabalho, se sentia uma mãe presente.

Mas o período de isolamento – quando demitiu a babá dos meninos – transformou sua opinião sobre o que é conciliar trabalho e maternidade. A nova visão perdura mesmo com o gradual retorno das atividades presenciais.

“Ainda mantenho cerca de 40% das aulas online e as concentro em algumas manhãs da semana. Nesses dias, consigo otimizar muito meu tempo, porque não preciso me deslocar”. Ela diz que, embora a presença física seja muito importante em seu trabalho, é provável que uma parcela das aulas continue ocorrendo remotamente.

Segundo um estudo inédito de pesquisadores do FGV- Ibre, a fatia de mulheres com ocupações compatíveis com o teletrabalho e que – como Claudia – têm infraestrutura para desempenhá-lo chega a 22,3% no Brasil.  Entre os homens, ela cai para 4,2%.

Pesquisa recente do Credit Suisse também destacou que o perfil do emprego feminino, mais focado em serviços, favorecerá uma maior inserção das mulheres no mercado de trabalho futuramente.

O problema é que, se por um lado, o potencial de trabalho remoto do Brasil pode contribuir, eventualmente, para uma queda da desigualdade entre homens e mulheres, por outro, deve acentuar outras desigualdades.

Esse risco é evidenciado pelos recortes que os economistas da FGV fizeram por região, raça e até pela divisão do mercado entre os setores público e privado.

“Há o risco de um aumento geral da desigualdade no país”, diz o economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, um dos autores do estudo.

Os dados mostram que, enquanto o trabalho remoto pode ser realizado por 40% dos funcionários públicos, entre os empregados do setor privado fica em apenas 15%.

O potencial de teletrabalho entre trabalhadores brancos e amarelos é o dobro do registrado entre profissionais pretos e pardos: 24,5% contra 12,2%, respectivamente.

A dificuldade de acesso entre negros foi percebida pelo Goldman Sachs e o Linklaters, organizadores da iniciativa Lift, que oferece bolsas integrais para que universitários pretos e pardos, de qualquer área, aprimorem o inglês.

“Quando a pandemia começou, a Alumni, que ministra o curso, se adaptou rapidamente para o ensino remoto, mas muitos de nossos bolsistas não tinham como continuar acessando as aulas”, diz Talita de Moraes, responsável pela área de serviços ao cliente no Linklaters. Foi o que ocorreu com Gabriela Oliveira, 21. Moradora de Sorocaba (SP) e estudante da graduação de políticas públicas da Universidade Federal do ABC, em Santo André, ela havia acabado de ingressar na terceira turma da Lift quando estourou a crise sanitária.

“Estava feliz com a bolsa porque já queria aprimorar meu inglês, mas não sabia se teria condições. Para jovens negros, de baixa renda, como eu, tudo é mais difícil”, diz ela.

“Mas logo depois do início do curso, começou a pandemia e eu vivia em uma república, com internet muito ruim e um computador que havia quebrado há pouco e que eu não tinha como consertar”, conta a estudante.

Para possibilitar a participação de bolsistas como Gabriela, os organizadores da Lift levantaram uma rodada de recursos extras com as empresas que patrocinam o programa para viabilizar equipamentos e chips de internet aos alunos.

A Fundação Tide Setubal também percebeu, durante a pandemia, como a barreira tecnológica afetava severamente os moradores do Jardim Lapena, bairro da zona leste de São Paulo, onde a instituição tem forte atuação.

“Muitos jovens e adultos procuraram o Galpão ZL, onde realizamos nossas atividades, pedindo acesso à internet e a computadores para poder continuar estudando ou trabalhando”, diz Viviane Soranso, coordenadora do programa de raça e gênero da fundação.

 A instituição desenvolve projetos com foco nas desigualdades socioespaciais relacionadas a gênero e raça. Sua iniciativa mais recente foi a criação da plataforma Alas. Voltado para negros, o programa trabalha com três eixos: formação para inspirar jovens de 16 a 24 anos a buscar trilhas de liderança; bolsas para graduação e mestrado em instituições de ensino superior; e apoio financeiro de até R$ 15 mil para profissionais já estabelecidos que queiram aprimorar competências e habilidades.

”A ideia é que a plataforma possibilite uma ação coletiva para a formação de lideranças negras”, diz Soranso.

Ela afirma que, no entanto, também são necessárias políticas públicas em diversas áreas, incluindo democratização da internet e melhoria da infraestrutura.

“São problemas que a iniciativa privada e o terceiro setor não conseguem resolver sozinhos”, afirma.

Talita de Moraes, da Linklaters, ressalta que, se por um lado, a pandemia escancarou desigualdades, por outro, permitiu a criação de novas oportunidades. Pela primeira vez, as bolsas da Lift – que, além de inglês, englobam mentoria e outras formações complementares – serão oferecidas, por exemplo, em outras três capitais (Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador). As inscrições estão abertas até a próxima terça (19).

“Só será possível expandir a iniciativa, mantendo a qualidade e a metodologia do programa, porque as aulas serão remotas”, diz Moraes.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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