EU ACHO …

DEIXE-OS FALAR

Não dialoguemos com as vozes do passado

Em 2016, tive a oportunidade de dividir uma mesade debates com a intelectual feminista negra Patrícia Hill Collins em São Paulo. Foi um momento muito importante paramim, pois as obras dela foram e são fundamentais referências, e aprendi muito naquela ocasião.

Já nos encontramos, várias vezes desde então, porém um momento profundamente marcante foi logo após essa mesa de debates em 2016, quando ela me convidou para tomar um vinho. Fomos à Casa das Rosas e tive a oportunidade de ter uma conversa mais íntima. Contei sobre a minha vida, minhas aflições de um divórcio recente, as dificuldades enfrentadas no período da graduação e do mestrado.

Tudo fluía numa energia incrível, realmente estava comovida por ver que Collins se interessava pela minha vida para além da questão acadêmica; parecia um sonho desvelar meus sentimentos a uma mulher por quem nutria admiração e respeito.

Num dado momento, comentei sobre os ataques que sofria nas redes, do quanto a branquitude a crítica brasileira se ressentia após a implementação das políticas de cotas e a expansão das universidades públicas e rebaixava o debate racial por puro ressentimento. Naquele momento cresciam as discussões , e nós, pessoas negras conscientes , precisávamos lidar com um show de desonestidade intelectual e falácias de todo tipo.

Contei a ela o quanto a desonestidade me exasperava, que respondia a muitos desses ataques e perguntei como ela lidava com isso. Pacientemente ela me disse que nos Estados Unidos não era diferente, que precisou enfrentar muita hostilidade quando passou a teorizar sobre feminismo negro e o quanto foi duro em muitos momentos.

Porém, ela continuou, por ser uma mulher na faixa dos 70 anos havia aprendido a olhar para essas situações sem se abalar ao longo da vida. E que eu deveria fazer o mesmo. Collins contou que faz parte do patriarcado racista a manutenção dos privilégios e ataques a tudo o que minimamente desestabilizar esse sistema; que não havia alguma novidade nisso. E completou com uma frase que levo para a vida: “let them talk, Djamila: “deixe-os falar”.

“Tudo o que eles querem é tirar o nosso foco, imagina se eu ficasse perdendo tempo respondendo a desonestidades na minha vida? Não teria produzido, publicado tantos livros, pautado tantos debates. Quando a gente responde a falácias, eles seguem pautando o que a gente diz. Concentre-se nas suas reflexões críticas, no quanto você pode contribuir para o debate sério. Djamila, deixe-os falar.”

Ela seguiu explicando que algumas vezes devemos, sim, responder, sobretudo quando há honestidade no debate e não tentativa de rebaixamento do pensamento crítico como forma de distração. Essa conversa nunca mais saiu da minha cabeça.

No ano seguinte, eu lancei meu primeiro livro e passei a publicar uma série de autoras negras e autores negros pela coleção Feminismos Plurais e pelo selo Sueli Carneiro – atualmente já temos 14 livros contando com nossa primeira tradução, o imprescindível “Black Power – A Política de Libertação nos EUA, de Kuame Ture e Charles Hamilton.

Todos os meus livros foram traduzidos para o francês, há edições de “Lugar de Fala” em espanhol e italiano e trabalhamos pela internacionalização da Feminismos Plurais com vários títulos traduzidos.

Collins tinha razão, e tive a oportunidade de dizer isso a ela quando novamente dividimos uma mesa, em 2018, num evento literário em Cachoeiro, na Bahia – evento esse que reuniu milhares de pessoas.

Por que conto tudo isso? Porque não é novidade alguma o ressentimento da branquitude acrítica, algo que faz com que verdadeiros absurdos sejam escritos sob o manto da “discordância de ideias”, mas que são tão somente falácias, ou seja. querem impor aquilo que se quer provar. Pessoas que não leram sobre um tema se julgando no direito de teorizar sobre, quem sempre pôde falar batendo o pé como criança birrenta e tentando chamar a atenção.

Se fosse um debate honesto, com discordâncias legítimas, valeria a pena o empenho em estabelecer um diálogo. Porém, como se trata de birra, grosseria, desonestidade, para que perder tempo e energia? Para que dar palco para quem dorme nos braços do ostracismo? Mais uma vez, não tem nada de novo nessas estratégias, é o mau e velho patriarcado racista rugindo ou como me disse Grada Kilomba, também num encontro marcante em 2016, são as vozes do passado falando – “não perca tempo dialogando com as vozes do passado”. Tem tanta gente boa sobre quem se falar, tantos livros incríveis esperando para ser lidos ou publicados. “Let them talk”.  A gente tem muito mais o que fazer.

*** DJAMILA RIBEIRO – Mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros “Feminismos Plurais”.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

Blog O Cristão Pentecostal

"Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva. Convertam-se! Convertam-se dos seus maus caminhos!" Ezequiel 33:11b

Agayana

Tek ve Yek

Envision Eden

When We Improve Ourselves, We Improve The World

4000 Wu Otto

Drink the fuel!

Ms. C. Loves

If music be the food of love, play on✨

troca de óleo automotivo do mané

Venda e prestação de serviço automotivo

darkblack78

Siyah neden gökkuşağında olmak istesin ki gece tamamıyla ona aittken 💫

Babysitting all right

Serviço babysitting todos os dias, também serviços com outras componentes educacionais complementares em diversas disciplinas.

M.A aka Hellion's BookNook

Interviews, reviews, marketing for writers and artists across the globe

Gaveta de notas

Guardando idéias, pensamentos e opiniões...

Isabela Lima Escreve.

Reflexões sobre psicoterapia e sobre a vida!

Roopkathaa

high on stories

La otra luna de Picasso

El arte es la esencia de la espiritualidad humana.

%d blogueiros gostam disto: