OUTROS OLHARES

PESSOAS COM NANISMO REFUTAM RÓTULO DE ANÃS E BUSCAM VISIBILIDADE

Grupo quer inclusão no mercado de trabalho e na moda e se sentir parte da sociedade com voz e reconhecimento

As pessoas com nanismo não admitem mais serem tratadas como anãs ou anãzinhas. O termo, dizem, é ridicularizado, estereotipado e não condiz com quem busca mais inclusão, ser ouvido e reconhecido pela sociedade. “A informação é a melhor arma contra o preconceito. Anão é um termo muito antigo e usado em histórias da mitologia, em filmes que mexem de fantasia cheios de estereótipos. Essa palavra carrega aspectos negativos para nossa visibilidade como seres humanos”, diz Fernando Vigui, educador e presidente da Associação Nanismo Brasil.

E é imbuída de valores mais atuais que a família de Enzo da Silva Farias, 7, que nasceu com nanismo, tenta ensinar o menino a se reconhecer e se afirmar diante de sua realidade.

“Jogamos aberto com o Enzo e procuramos que ele tenha o máximo de contato com outras pessoas com nanismo para que saiba que tem suas diferenças, mas não tem limites para nada. Explicamos a realidade e falamos sempre que ele tem direitos a serem respeitados”, diz a mãe, Juliana da Silva Siqueira Farias, 40.

Para ampliar o sentimento de pertencimento social dele, a família promoveu acessibilidade na casa, no mobiliário e procurou uma escola que acolhesse suas necessidades.

“Isso fortalece no sentido de autonomia e dá independência. Ele sabe que tem nanismo, mas também que é capaz de fazer tudo o que quiser se houver condições”, conta Juliana.

Outra frente em que pessoas com nanismo têm atuado para demonstrar suas necessidades e reforçar suas identidades é a busca por roupas e acessórios que atendam adequadamente suas medidas.

Uma iniciativa encabeçada pela Nanismo Brasil fez um estudo com centenas de pessoas pequenas até chegar a padrões de medidas (PP, P. M,G e GG) específicas para o grupo.

Atualmente, segundo Fernando Vigui, o ajuste de uma peça convencional para uma pessoa com nanismo pode ser mais dispendioso que a própria roupa e tem resultado nem sempre satisfatório.

A marca Via Voice For Fashion se atentou a esse mercado e tem investido em coleções. Neste mês, em alusão ao Dia Nacional de Combate ao Preconceito contra as Pessoas com Nanismo (celebrado em 25 de outubro), a marca lançou novas peças.

“Há uma frustração das pessoas com nanismo em não se identificarem com nenhuma peça de roupa. A moda diz muito sobre nossa expressão e personalidade. Quando há dificuldade de encontrar algo que seja ideal para você, isso impacta a autoimagem”, diz Josi Zurdo, da Via Voice For Fashion. Segundo ela, se acumulam relatos de pessoas com nanismo que acabam deixando de lado a vaidade por falta de opções. “A roupa é fator primordial na construção da autoestima. A moda é ferramenta de empoderamento e comunicação e não ter acesso a isso te limita.”

Também em ambientes corporativos as pessoas com nanismo têm atuado em busca de conhecimento e visibilidade. A Lei de Cotas, que amparam trabalhadores com deficiência no mercado de trabalho, abarca a condição.

Patrícia Costa Byrro, 31, é advogada em uma multinacional e procura ampliar a consciência dos colegas e de gestores de que o nanismo não a limita profissionalmente e como parte atuante da empresa.

“Tento trabalhar o pertencimento mostrando que não fui contratada só para cumprir uma cota e sim para contribuir com meu trabalho e agregar valor à equipe”, diz. “Mostro a Patrícia que quer contribuir e crescer na profissão. Pertencimento é se sentir parte do todo. Quando vamos além da capacidade limitada, mostramos que somos maior do que uma imposição física.”

Tornar o local de trabalho acessível incorporando necessidades do trabalhador com nanismo, nas palavras da advogada, também é essencial para o avanço do “fazer parte”, mote levantado pelo grupo.

“O ambiente faz com que o colaborador sinta-se parte ativa daquela construção. Ele não se sente deslocado ou pensa que aquele ambiente não é para ele, pelo contrário, se sente mais motivado”.

Segundo a Nanismo Brasil, os avanços por mais qualidade de vida e fortalecimento social também se dão em áreas como a nutrição, que estuda a melhor forma de alimentação para essa condição, uma vez que o IMC (índice de Massa Corporal) tradicional costuma indicar obesidade mórbida para pessoas com nanismo; a medicina, com pesquisa relativa à estrutura óssea e cuidados corporais; e condicionamento físico, com o desenvolvimento de práticas esportivas mais adequadas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 30 DE NOVEMBRO

O CAMINHO DO HOMEM CULPADO

Tortuoso é o caminho do homem carregado de culpa, mas reto, o proceder do honesto (Provérbios 21.8).

Há dois tipos de culpa: a real e a irreal; a verdadeira e a fictícia. Há pessoas que não têm culpa, mas por ela são assoladas; há outras que têm culpa, mas não a sentem. Algumas pessoas têm a consciência fraca e se sentem culpadas mesmo sendo inocentes; outras têm a consciência cauterizada e, mesmo transgredindo, não sentem nenhuma culpa. Não estamos falando aqui da culpa irreal, mas da verdadeira. Uma pessoa que vive em pecado não tem paz. Seu coração é um mar revolto que lança de si lodo e lama. A solução não é amordaçar a voz da consciência e eliminar a culpa. É arrepender-se, confessar o pecado e mudar a conduta. O culpado segue caminhos errados. Para justificar um erro, comete outros erros. Para se livrar de uma mentira, precisa articular outras tantas. O culpado enrola-se num cipoal e não consegue livrar-se de suas próprias armadilhas. Um abismo chama outro abismo, e a pessoa se perde nesse caminho tortuoso e cheio de bifurcações. Diferente é a vida do homem honesto. Ele anda na luz. Sua conduta é irrepreensível, seu proceder é honrado, e seu caminho é reto. O homem honesto tem consciência limpa, coração puro e mãos incontaminadas. Seu passado é limpo, sua vida é um legado, e seu futuro é um exemplo a ser imitado.

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRAS QUENTES – I

A crise segue, mas alguns setores já aceleram as contratações. O Guia Salaria da consultoria de recrutamento Robert Half, mostra quais são os cargos que estarão em alta em 2022, e como andam as remunerações nessas áreas.

O noticiário bate numa só tecla: o desemprego. De fato. Nunca vimos índices acima dos 14%. Mas há um outro lado nessa moeda: mesmo com recessão, pandemia e desgoverno, o Brasil ainda é a 12ª maior economia entre as 207 nações monitoradas pelo Banco Mundial. Nossa indústria, comércio e serviços garantem um PIB que coloca o Brasil bem à frente de outras nações. O bolo segue pessimamente dividido, claro, mas é grande.

Nisso, os donos do bolo se deparam com um problema: a má formação dos brasileiros. Trata-se do legado mais podre dessa má divisão: um país que não encontrou um jeito de melhorar a educação e capacitação profissional da maioria de seus cidadãos. O resultado é que, mesmo com 14 milhões de pessoas em busca de trabalho, 69% dos empregadores se queixam da falta de profissionais qualificados. É o que mostra o Guia Salarial da empresa de recrutamento Robert Half – que traz as expectativas das carreiras com mais demanda para 2022.

Nessa realidade, quem está mais bem preparado vira ouro. Os mais disputados ainda são os trabalhadores de tecnologia. Todos os segmentos da economia precisaram abraçar a” transformação digital” e a TI, que já era essencial, ganha ainda mais destaque.

Outra área em evidência é o marketing. O celular se tornou o novo shopping. Isso virou de ponta-cabeça as estratégias de divulgação, e precisa-se de gente nova para tocar essa revolução dentro das empresas.

Um fator que está movimentando o mercado é o aumento de fusões e aquisições. Entre as mais célebres, estão a da varejista Grupo Soma, que comprou a Hering por RS 5,1 bilhões; e a junção entre a Hapvida e a Notre Dame Intermédica. Mas dados da consultoria KPMG mostram que, em dez anos, nunca houve tantas operações desse tipo. Só no primeiro semestre, foram 1.804.

Isso joga luz nos profissionais de M&A – mergers and acquisitions, ou fusões & aquisições, no bom e cada vez menos utilizado português. Esses profissionais são responsáveis por acompanhar todo o processo de compra, venda ou fusão das companhias. A crise, porém, bate na parte salarial. “Para o ano de 2020, a gente não deve ver mudanças gritantes.

As empresas ainda estão preocupadas como impacto da Covid-19 na economia e isso afeta a remuneração”, afirma Fernando Mantovani, diretor-geral da Robert Half para a América do Sul.

Veja a seguir, quais são as expectativas para o mercado de acordo com a Robert Half, além dos cargos e salários para as sete áreas de atuação que devem bombar em 2022.

COMO LER AS TABELAS

Os salários listados aqui não incluem bônus, benefícios e outras formas de remuneração. O valor de cada cargo é dividido em três perfis nos quais cada faixa é determinada pelo nível de qualificação, experiência do candidato e complexidade do cargo. Os comparativos salariais entre os anos de 2021 e 2022 foram feitos com base no perfil e, no qual a maior parte dos profissionais se encontra.

FINANÇAS E CONTABILIDADE – O FILÉ MIGNON FINANCEIRO

Se no começo da pandemia  a área de finanças foi essencial para controlar os custos das companhias, agora é ela quem lidera a expansão das empresas para uma eventual retomada.

E surgem cargos mais especializados. ”Antes, a gente sentia uma demanda maior para áreas de contabilidade, controle fiscal e tesouraria. Agora, saímos desse arroz com feijão e estamos no filé mignon da área. A tendência é de aumento dos profissionais de planejamento financeiro, fusões & aquisições, relações com investidores e captação de recursos”, afirma Marcela Esteves, gerente de recrutamento da Robert Half.

O setor cada vez mais exige profissionais que lidem com grandes quantidades de dados. Logo, conhecimento avançado de ferramentas de business intelligence e ERP (sistema integrado de gestão empresarial) e, claro, Excel, são essenciais. A vantagem da transformação digital é a diminuição de atividades operacionais – já que vários processos se tornam automatizados. Isso abre espaço para profissionais com maior capacidade analítica e visão estratégica

NO OLHO 00 FURACÃO

Maria Isabel Antonini, de 35 anos, lida com M&A há dez anos. Passou pelo Itaú, Grupo Pão de Açúcar e Via. Mas ela afirma que um dos seus maiores desafios profissionais foi ano passado, como CFO da startup de beleza Singu. A belo-horizontina liderou as negociações de investimento entre a Singu e a Natura. “Um processo de fusão entre uma startup e uma grande empresa é como se fosse uma operação entre Davi e Golias. É mais difícil de precificar, alinhar a parte burocrática e conseguir se impor nas negociações.” Claro que conhecimento técnico, como o de modelagem financeira (conjunto de técnicas para atribuir o preço justo de uma empresa no mercado), conta (e muito) para exercer o cargo. Mas ela destaca que a habilidade mais importante para o profissional de fusões e aquisições é o jogo de cintura. “Quando você senta em uma mesa de negociação, tem vários interesses no meio e agendas diferentes. Saber ouvir e ser flexível é fundamental.”

EU ACHO …

COMO ‘RECRIAR OS FILHOS’ PÓS-PANDEMIA

Será prioridade ensinar o valor do cuidado de si – que se estende ao cuidado com o outro

Será que teremos de mudar algumas direções em nossas atitudes educativas com os filhos após esse longo período – que ainda não terminou – de pandemia? Tenho refletido a esse respeito, estimulada pela questão que uma mãe me trouxe: “Como recriar os filhos depois de tanto tempo sem escola”·

Temos muito no que pensar sobre esse tema, mas já dá para colocar em prática o que muitos adultos, principalmente, aprenderam durante esse período. Daqui para a frente, será prioridade ensinar aos filhos a importância do autocuidado – que leva ao cuidado com o outro. Uma discussão atual – tomar ou não vacinas – nos lembra que não vivemos sozinhos.

Da família à escola, ao trabalho, à vida social em todos os seus aspectos, estamos sempre em grupos, o que requer cuidados. Como colaborar com a proteção coletiva?

Tomemos dois exemplos: o sarampo e a poliomielite. O sarampo já havia sido declarado erradicado no Brasil; porém, voltou a circular, acompanhando o baixo índice de vacinação. A poliomielite está considerada erradicada, mas o momento é preocupante: em 2019, uma pesquisa mostrou que só metade da população se vacinou contra essa doença.

Percebe que podemos, com o autocuidado, promover o cuidado com o outro? E o cuidado tema ver não só com a saúde e o bem-estar, mas também com a vida boa e respeitosa. Sempre é bom lembrar que, quando o grupo (familiar, social) vive bem, nossa vida pessoal fica melhor.

Os pais, quando cuidam das crianças pequenas, estão, indiretamente, ensinando o cuidado de si. Mas, a partir dos 6, 7 anos, é importante ensinar diretamente. Mostrar ao filho que ele arca com alguma consequência ruim por não ter avaliado os riscos de determinada atitude antes de tomá-la é um bom exemplo. Quanto aos adolescentes, é mais importante que eles já saibam o básico, mas continuem aprendendo como cuidar bem de si. Nessa fase da vida, há muitas tentações, e eles têm de pensar que, antes de ceder a essas iscas, precisam saber dos riscos que elas podem conter.

Outro tema que deverá nortear de agora em diante a educação dos filhos é a construção do processo de autonomia. Após quase dois anos apegados aos pais, será necessário incentivar o caminhar com as próprias pernas, sempre conforme a etapa vivida no momento. Como fazer? De início, tomando uma atitude simples: não fazer nada pelo filho que ele já possa fazer por si  mesmo. Aliás, você se deu conta de quantas coisas faz por ele que deveriam ser da conta dele? Por que fazemos isso? Porquê?

*** ROSELY SAYÃO – psicóloga, consultora educacional e autora do livro “Educação sem blá- blá- blá”

ESTAR BEM

VEGANISMO EM ALTA

As vantagens e os perigos de se aderir à dieta sem carne

“Para mim, o veganismo não é uma linha reta. Hoje em dia me sinto feliz por não ter mais recaídas, mas elas aconteceram no começo”, confessa Luísa Motta, de 22 anos, uma das influenciadoras veganas mais conhecidas do país. Dona do canal de receitas Larica Vegana, ela tem cerca de meio milhão de seguidores no Youtube, onde prepara de bacalhoadas sem peixe a fondue.

O interesse pelo veganismo mais que dobrou online entre 2015 e 2021, segundo o Google. E a tendência se reflete à mesa: pesquisa do lpec (antigo Ibope) divulgada em agosto mostrou que 46% dos brasileiros não comem carne por opção ao menos uma vez na semana e 32% preferem a alternativa vegana, em restaurantes em que é ofertada.

A redução ou eliminação do consumo de produtos animais tem sido apontada como um caminho para garantir a sobrevivência do planeta, reduzir o sofrimento dos animais e melhorar a saúde.

“Eu nunca afirmaria que todas as pessoas se adaptam à dieta vegetariana estrita. Não falaria isso a respeito de nenhuma dieta. Existem pessoas que não se adaptam a uma dieta com carne também”, afirma Luísa.

Mas nem tudo são flores – ou folhas de couve ricas em antioxidantes: influencers que ganharam milhares de seguidores e muito dinheiro com feeds coloridos cheios de frutas, legumes e receitas veganas protagonizaram polêmicas e expuseram os riscos de se aderir ao estilo de vida só pelo hype e pelos likes.

O caso mais emblemático é o da californiana Yovana Ayres, a Rawvana (ou Cruvana, em português), que pregava a dieta vegana crudívora até 2019. Ostentava três milhões de seguidores – até ser flagrada em Bali comendo peixe e alegar motivos de saúde. Estava anémica, não menstruava há meses e enfrentava problemas intestinais. Em um pedido de desculpas em meio ao cancelamento que sofreu, revelou que há pelo menos três anos não seguia a dieta que pregava.

A australiana Bonny Rebecca, outra influencer que abandonou o veganismo em 2019 após alegar problemas digestivos e foi prontamente cancelada, hoje se diz traumatizada com as críticas que recebeu da comunidade. Em seu canal no Youtube, passou a defender que nem todo corpo se adapta ao veganismo.

“A ciência mostra que não há justificativa fisiológica, bioquímica ou nutricional que obrigue um ser humano a comer produtos animais. É escolha, não necessidade”, rebate Alessandra Luglio, nutricionista especializada em veganismo e referência na área.

“Pessoas como elas fazem escolhas alimentares equivocadas, com dietas com poucas calorias e deficiências nutricionais. Tudo pelo padrão de beleza das redes. Depois desistem e culpam o veganismo”.

Presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, o médico Durval Ribas discorda que a dieta seja para todos. Segundo ele, todo fenômeno biológico está inserido na curva gaussiana, que prevê que 16% das pessoas respondem bem a terapias médicas, incluídas as intervenções nutricionais – a porcentagem aproxima-se dos 14% de brasileiros que declararam ser vegetarianos em pesquisado IBOPE de 2018. Outros 16% respondem muito mal a esses tipos de mudanças. São, segundo Ribas, aqueles que não conseguiriam levar o cardápio sem carne adiante. As chances são menores quanto mais restrita a dieta, diz.

Em comum, os especialistas concordam que uma alimentação equilibrada, com verduras e frutas em abundância, melhora a saúde. E quem optar pela transição deve fazê-la com calma e muita informação sobre como fazer boas substituições. A supervisora em um banco digital Ana Quintero, 27, trilhou esse caminho e, em janeiro, fez a transição do vegetarianismo para o veganismo. Diz que a mudança despertou o amor pela culinária e, com auxílio de um psiquiatra nutrólogo, passou a lidar com a compulsão alimentar e intolerância à lactose.

“Talvez não seja a salvação para todo mundo, mas me ajudou muito a ter outra relação com a comida”, diz.

Já a publicitária Andrea Oliveira, 33, não teve a mesma sorte. Foi ovolactovegetariana por 7 anos mas, sem acompanhamento profissional, só substituiu as carnes por uma dieta de massas e carboidratos ricos em glúten. Passou a ter crises alérgicas severas e ouviu dos médicos que o período a fez desenvolver doença celíaca. Então adotou o flexitarianismo (em que se reduz alimentos de origem animal).

“Sem glúten e sem carne, ficou inviável. Quem é mais engajado acha que sempre tem uma solução. E tem mesmo. Mas com filho, trabalho, restrições alimentares e os preços menos acessíveis, nem penso em voltar”.

FOCO NOS GANHOS

Ricardo Laurindo, presidente da Sociedade Brasileira Vegetariana, sugere focar naquilo que se ganha.

“O cérebro não gosta da sensação de perda, então ao invés de pensar que nunca mais vai comer carne, foque nos ganhos de saúde, na diferença na vida dos animais e meio ambiente e nas comidas novas que vai provar”.

Estudos científicos indicam que veganos teriam menor nível de colesterol, 15% menos chances de câncer e risco menor de infarto e diabetes do tipo 2. Os impactos sobre o planeta também são atenuados: juntas, as indústrias de carne e laticínios são responsáveis por 14,5% das emissões de gases estufa.

Mas alguns dos riscos de quem decide fazer a transição pelos modismos, sem acompanhamento médico e informação, são piora na saúde, desequilíbrios nutricionais (como carência de vitamina B.12) e autoconfiança.

Para a nutricionista vegana Alessandra Luglio, calma é a chave. Ela recomenda reduzir aos poucas os produtos animais e atentar para as mudanças na disposição e no apetite. Muito cansaço, fome ou sono podem ser alertas para ajustes nas porções ou seus macronutrientes (como proteínas e carboidratos). O bife que era a estrela do prato pode dar a vez a mais verduras, leguminosas e grãos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ELAS NÃO AGUENTAM MAIS

Sobrecarregadas ao extremo durante a pandemia, as mulheres são as principais vítimas da síndrome de burnout. De acordo com pesquisas, elas chegaram ao colapso

Há algo de paradoxal na situação atual das mulheres. Nunca foi tão intensa a mobilização por equidade com os homens, pelo direito de decidir o que fazer com o próprio corpo e contra a violência de gênero. Ao mesmo tempo, poucas vezes na história elas estiveram tão exaustas pelo acúmulo de funções como mães, parceiras e profissionais e tão pressionadas por uma cultura que exalta a perfeição. Embora as bandeiras estejam aí e um movimento real de mudança ganhe força, ainda permanece uma distância imensa separando o gênero feminino de uma realidade menos pesada e punitiva. A pandemia de Covid-19, claro, contribui para fazer com que a vida delas – ou da maior parte – tenha se transformado em um caos. Ou em um inferno, dependendo do momento. O trabalho em casa, as aulas on-line dos filhos, a louça na pia, o cuidado com os pais e nem um segundo para si próprias levaram as mulheres ao esgotamento.

O retrato da situação está exposto na crueza dos resultados da pesquisa Women in the Workplace 2021, feita pela consultoria McKinsey & Company e pela organização Leanln. Depois de entrevistarem mais de 65.000 pessoas de 423 empresas nos Estados Unidos e Canadá, os pesquisadores concluíram que 42% das mulheres sofrem com sintomas da síndrome de burnout. Entre os homens, a taxa foi de 35%. Em 2020 e 2019, os índices eram de 32% e 28%, respectivamente. A síndrome de burnout é uma doença dos nossos tempos. Primeiramente observada pelo psicanalista alemão Herbert Freudenberger em 1974, foi reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como síndrome em 2019. Caracteriza-se pelo cansaço extremo e esgotamento físico e mental resultantes de situações desgastantes ligadas ao trabalho ou relacionadas a altas cargas de stress. Entre os sintomas estão os sentimentos de fracasso e insegurança, insônia, mudanças no apetite e dores de cabeça frequentes. No levantamento realizado pelas consultorias, nada menos do que 50% das mulheres que ocupavam cargos de gerência manifestaram sintomas de forma persistente. Quanto mais elevada a posição na carreira profissional, maiores as responsabilidades, as cobranças e, em milhares de casos, os problemas domésticos.

Aqui a situação não é diferente. Considerado pela International Stress Management Association o segundo país com maior número de pessoas afetadas pela síndrome em 2019, atrás somente do Japão, o Brasil viu subir suas taxas na pandemia. Segundo o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, houve um acréscimo de 21% nos casos de exaustão ligada ao trabalho em comparação com os meses que antecederam a crise sanitária. Outro estudo, executado pela Locked Down, Burned Out e publicado pela editora De Gruyter, na Alemanha em 2020, mostrou que a interrupção de relações importantes para a saúde mental, como a convivência social, e a desigualdade no mercado de trabalho também influem nesses índices. Mesmo com as diferenças diminuindo, as discrepâncias de salário e de tipo de emprego entre os gêneros continuam graves. O mercado brasileiro é um dos mais aviltantes nesse sentido. No relatório Global Gender Gap de 2020, do Fórum Econômico Mundial, o país ocupa a 931 posição em um ranking que classifica as nações de acordo com a igualdade salarial entre homens e mulheres. A lista tem 153 países.

No seminal livro O Segundo Sexo, lançado em 1949, a filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) já intuía que as atribuições sociais dadas ao corpo feminino estariam na raiz da desigualdade de tratamento entre homens e mulheres. “Cuidar de sua beleza, arranjar-se, é uma espécie de trabalho que lhe permite apropriar-se de sua pessoa como se apropria do lar pelo seu trabalho caseiro; seu eu parece-lhe, então, escolhido e recriado por si mesma. Os costumes incitam-na a alienar-se assim em sua imagem.” As palavras de Simone explicam a discriminação persistente à passagem do tempo, com a mulher até hoje submetida a estereótipos que a aprisionam. Os dados trazidos pelas pesquisas sugerem, no entanto, que elas podem estar chegando a um ponto de inflexão. A exaustão de ser quem a filósofa tão bem descreveu está insuportável. Elas não aguentam mais.

OUTROS OLHARES

OS CANDIDATOS A SER A ‘NOVA NICOTINA’

Um debate que começa a esquentar no Brasil é sobre quais produtos devem virar alvo dos impostos do pecado fazendo companhia a cigarros e bebidas alcoólicas. Por motivos óbvios, um dos preferidos dos especialistas são as bebidas açucaradas

Atire a primeira pedra quem nunca caiu ou cai em tentação. São aquelas situações em que, mesmo sabendo que uma ação no presente poderá provocar problemas no futuro, a gratificação imediata fala mais alto. E lá sevai mais um maço de cigarros, um pote de sorvete numa sentada ou alguns drinques para aliviar o estresse. Há também o peso da preguiça. E, de repente, fazemos aquela saída de carro para rodar apenas dois quarteirões, a falta de paciência para separar o lixo reciclável ou levar sacolas reutilizadas para carregar as compras. A lista pode ser bem longa.

Governos de todas as partes do mundo descobriram há muito tempo que podem dar um empurrão para incentivar comportamentos mais saudáveis e mais voltados para o bem comum aumentando tributos. O caso clássico é o do cigarro, com vários exemplos documentados. No Brasil, entre 2006 e 2013, o preço subiu 116%, e as vendas caíram 32%.

Essas medidas costumam funcionar por dois motivos. Primeiro porque a elevação do valor pesa no bolso, principalmente para os mais pobres e jovens. Segundo porque são “educativas”, ao sinalizar desaprovação da sociedade como um todo.

NA MIRA

A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 110, em tramitação no Senado, tem muita coisa técnica, mas há, pelo menos um ponto de amplo entendimento: propõe uma discussão nacional sobre quais produtos, que podem afetar a saúde e o meio ambiente, devem ter uma tributação mais elevada, na toada dos “impostos do pecado”. As bebidas açucaradas aparecem no topo da lista dos candidatos a alvo da vez.

De acordo com levantamento do The Global Food Research Program, ligado à. Universidade da Carolina do Norte em Chapei Hill, nos Estados Unidos, por volta de 50 nações já adotaram medidas nesse sentido, sendo que 25 delas aplicam essas ações desde 2017.

Tome o exemplo do Chile. Após a implementação de um pacote de políticas públicas em 2014 – que incluíram aumento de tributos sobre bebidas açucaradas (em 5%), a adoção de uma lei sobre rotulagem de alimentos e de restrição à publicidade -, os chilenos passaram a comprar menos refrigerantes e bebidas de fruta industrializadas com grande quantidade de açúcar. Foi o que mostrou um estudo feito em 2016, que reuniu cientistas do Instituto de Nutrição e Tecnologia de Alimentos da Universidade do Chile, ente outras entidades.

No México, três anos após a adoção da taxa, também houve queda na venda de refrigerantes. Uma pesquisa que avaliou a recorrência do consumo mostrou que o grupo que não consumia esse tipo de bebida passou de 7% da população antes do imposto, para 13.6% depois da taxa.

HORA CERTA

Na cidade da Filadélfia, nos EIJA, a régua passou entre os adolescentes. Após a implementação do Imposto das bebidas açucaradas, o consumo de refrigerantes por semana caiu 27,7% entre os mais jovens. A mudança de hábitos nesta faixa etária é especialmente importante, explicam os médicos, porque a obesidade nessa época tende a aumentar as chances de uma condição de saúde bem parecida na vida adulta.

“É comum que esses impostos tenham maior impacto sobre os grupos que mais consomem bebidas açucaradas. Nos Estados Unidos, por exemplo, são os adolescentes. Além disso, os impostos também têm um resultado maior sobre os grupos que são mais sensíveis aos aumentos de preços”, afirma Anna Grummon, pesquisadora da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard.

Apesar dos resultados conhecidos – a maioria deles dedicados a avaliar a redução do consumo desses produtos – , ainda é difícil mensurar o efeito na queda de casos de diabetes e de mortes em decorrência de complicações de saúde. É o que explica a pesquisadora do The Global Food Research Program, Shu Wen Ng.

“Vamos levar um tempo até observar os resultados de saúde dessas políticas. A epidemia de obesidade não aconteceu do dia para a noite, foram décadas acumulando mudanças na cadeia de alimentação e distribuição para chegar até aqui. Como podemos esperar que uma única política seja capaz de resolver isso? – pergunta a pesquisadora, que defende uma “harmonização” de outras medidas para, de fato, impactar a obesidade em massa e outras doenças.

Especialistas brasileiros, por sua vez, apoiam amplamente a medida de taxar as bebidas açucaradas. Em setembro, quase duas dezenas de entidades de saúde do país, incluindo a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), defenderam, em um posicionamento conjunto, a taxação extra desses refrescos açucarados no país.

A taxa do imposto proposta pelos especialistas está de acordo com o que sugere a organização  Mundial  de Saúde (OMS), de ao menos 20%. Cintia Cercato, presidente da Abeso e uma das médicas que assinam o documento, faz coro à ideia de que a medida deve estar unida a outras estratégias de proteção à saúde, como a proibição da publicidade de alimentos ultra processados e bebidas para o público infantil.

RISCOS ENVOLVIDOS

Eduardo Leão, diretor executivo da Unica, associação que representa a agroindústria canavieira no Brasil, diz que medidas como essas elevam o risco de que o consumo migre para produtos alternativos. O perigo existe mesmo, argumentam especialistas, e as autoridades devem ficar atentas à necessidade de também aumentar os impostos que incidem sobre esses produtos.

As escolhas, lembra Paulo Henrique Pêgas, professor de contabilidade tributária do Ibmec, no Rio, devem se apoiar em avaliações técnicas.

“O que o congresso está fazendo não é ruim, tanto do ponto de vista tributário como de saúde. Mas a forma apressada de criar esse imposto não é ideal”, diz.

Outro ponto que merece atenção é a eficácia. Não é porque o aumento dos impostos para o cigarro tiveram efeito que o mesmo vai acontecer com todos os produtos. Há experiências infrutíferas pelo mundo.

A Dinamarca decidiu taxar, em 2011, produtos que continham gordura saturada. Subiu em quase 5% a tributação na manteiga e no sorvete. Um ano depois, a medida foi revogada.

O imposto sobre a gordura não diminuiu de forma significativa o consumo porque a demanda foi considerada inelástica. Ou seja, mesmo com preços mais altos, os dinamarqueses continuaram com grande apetite por esses itens.

Há casos em que a medida funciona e isso causa uma enorme gritaria. O governo britânico introduziu em 2018 impostos sobre sacolas plásticas. Um estudo publicado em 2020 mostrou uma queda ao número dessas sacolas, encontradas nas regiões costeiras. O excesso de impostos, porém, gerou uma saraivada de críticas.

Irlanda e Austrália adotaram iniciativas semelhantes. No Brasil, prefeituras tentaram seguir o mesmo caminho, mas nem sempre com um final feliz para o meio ambiente.  Diante da  gritaria, muitas voltaram atrás.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 29 DE NOVEMBRO

O VIOLENTO DESTRÓI A SI MESMO

A violência dos perversos os arrebata, porque recusam praticar a justiça (Provérbios 21.7).

A violência é uma flecha venenosa que se volta contra a própria pessoa que a lança. Aquele que fere o próximo destrói a si mesmo. O mal praticado contra os outros retorna contra o próprio malfeitor. Os maus são destruídos pela sua própria violência porque se negam a fazer o que é direito. A violência dos ímpios os arrastará, pois eles se recusam a agir corretamente. Quem à espada fere à espada será ferido. Quem planta violência colhe violência. Quem semeia guerra ceifa contendas. O perverso é aquele que maquina o mal em seu leito e se levanta para praticá-lo. Sua vida é uma torrente de maldade, uma espécie de avalanche que desce com fúria, arrastando tudo à sua volta e causando grande destruição. O perverso, porém, não fica impune nem sai ileso desse caudal de violência. Todo o mal concebido pelo perverso e praticado contra o próximo cai sobre sua própria cabeça. O perverso não escuta conselhos nem emenda sua vida. Contumaz no seu erro, é um indivíduo cuja cerviz jamais se dobra. O perverso se recusa a praticar a justiça, pois está acostumado a fazer o mal. Toda a inclinação do seu coração é para desviar-se de Deus e atentar contra a vida do próximo. A violência que mora no seu coração, entretanto, recai sobre sua própria cabeça.

GESTÃO E CARREIRA

POR DENTRO DAS PROFISSÕES – REGENTE DE CORAIS

Sim, é uma profissão de nicho, e sem um mercado de trabalho propriamente dito. Justamente por isso, o regente de corais não é apenas um artista. É um empreendedor, que precisa idealizar projetos e oferecê-los a empresas e programas sociais.

Quando olhou para as fotos nas paredes daquele camarim estrangeiro, Vladimir Silva, presidente da Nova Associação Brasileira de Regentes de Coros (Nova ABRC­ -Abraco), começou a chorar. Eram imagens de alguns dos maiores maestros do século 20 – Arturo Toscanini, Leonard Bernstein… -, presenças que foram frequentes naquela sala de concertos: o Carnegie Hall, em Nova York.

Por lá passaram estrelas da música erudita, mas também da popular, como Frank Sinatra e os Beatles. No mesmo cômodo onde esses astros fizeram seus rituais de concentração e contaram piadas para aliviar a ansiedade, em 2017 estava Vladimir, que levou seu coro paraibano de Campina Grande para cantar a Missa de AIcaçuz – composição original, brasileira. Ao todo, regeu 80 cantores naquele templo da música. Uma experiência para contar aos netos. Ser o protagonista em alguns dos palcos mais tradicionais do planeta é, naturalmente, um Olimpo para poucos. O mais normal na profissão de regente de corais é acumular trabalhos, que tanto pode ser o de comandar diversos grupos de coro quanto o de dar aula de música – geralmente os dois. Por isso, o profissional não pode se esconder de algumas competências que vão além da boa técnica de regência: dominar um vasto conhecimento musical (familiaridade com múltiplos gêneros aumenta seu mercado) e ter desenvoltura em áreas raramente associadas ao dia a dia do músico, como gestão e empreendedorismo. A vastidão desse conhecimento justifica a importância de uma graduação. Para ser regente, você não precisa de diploma. Mas a faculdade vai lhe proporcionar multiplicidade de repertório, técnicas específicas de regência… Muita coisa que você poderia conseguir em cursos livres, mas na graduação esse conhecimento é condensado –  e direcionado para a profissão. E é lá que você fará contatos imprescindíveis para conseguir trabalho no futuro. A Unesp se destaca entre as instituições de Ensino Superior no campo musical e oferece um “bacharelado em música com habilitação em regência coral”.

O mercado de trabalho é exíguo, claro. Para dar uma ideia: em São Paulo, onde há uma galáxia de corais em comparação com cidades médias e pequenas, só três são profissionais (nos quais tanto o regente quanto os cantores ganham um salário fixo): o Coro da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), o Coro Lírico Municipal e o Coral Paulistano Mário de Andrade.

No meio-termo entre esses e o coral de amigos da escola, há semiprofissionais, conjuntos bancados pelo governo e uma profusão de grupos amadores. É aí que o dinheiro está mais à mão. “Quando falo da experiência que tive no Carnegie Hall para meus alunos, deixo claro que a realidade que eles vão encontrar é bem diferente”, alerta Vladimir Silva. “Você vai trabalhar com coro de igreja, de programa social…”

Outro caminho é montar projetos e oferecer para empresas. Votorantim, grandes bancos, seguradoras… muitas têm ou já tiveram grupos corais para promover ações de qualidade de vida aos funcionários, mas também para estimular uma atividade que envolve trabalho em equipe e que aumenta o senso de pertencimento do colaborador.

Ou seja: para potencializar sua carreira, o regente tem de encontrar a harmonia perfeita entre o lado artista e o lado executivo. Precisa ter habilidades de gestão, porque administrar um grupo heterogêneo de pessoas demanda uma capacidade enorme de fazer acontecer. E deve saber prospectar: convencer empresas, órgãos de governo e os próprios cantores a pagar por seu trabalho. O maestro Ricardo Carvalho, de São Paulo, que se especializou em regência de corais, iniciou a carreira nessa área graças a um desses projetos para grandes companhias.

REGENDO PARA O GOVERNO DE SP

Aluno de Naomi Munakata, a maestrina titular do Coral Paulistano – e uma das primeiras artistas renomadas a morrer de Covid no Brasil -, Ricardo começou a ganhar dinheiro como regente assistente num coro do Itaú. Um assistente pode, por exemplo, preparar as vozes só do naipe feminino, para que o regente principal já pegue o grupo todo mais sintonizado.

“A gente tem uma visão do maestro lá na frente balançando o braço, mas a maior parte do trabalho é anterior a isso. É garantir que as pessoas estejam entregando suas partes corretamente, fazer os ajustes necessários nas vozes e criar um filtro de interpretação”, explica Ricardo. Depois da experiência no banco, o maestro passou dois anos como assistente de um coral da farmacêutica Roche.

Apesar do currículo no mundo corporativo, sua primeira vez como regente principal foi para uma casa de shows. O finado The Clock, em São Paulo, era especializado em rock dos anos 1950, e o proprietário contratou o maestro para montar um grupo que cantasse doowop, técnica vocal baseada no rhythm and blues. Nesse mesmo período, Carvalho virou regente de um coral feminino de música sacra e de outro, mais eclético, de terceira idade.

Mas seu salto na carreira veio mesmo quando se candidatou a dar aulas de canto coral no Projeto Guri, do governo de São Paulo (no concurso, ficou em primeiro lugar). Eram os idos de 2010, e isso lhe rendeu um emprego de fato. Lá dentro foi regente de 16 corais de menores carentes e chegou a ter 700 alunos ao mesmo tempo. “Na época, a Lu Alckmin, então primeira-dama do Estado, era a patrona de um dos polos onde o Guri atuava, então sempre ia assistir nossas apresentações, o que chamava imprensa, e meu trabalho acabava tendo repercussão.”

PANDEMIA DESAFINOU O NEGÓCIO

Ricardo sempre conciliou suas atividades de regente com as de professor: além de canto, ensina piano, baixo, teoria musical e prepara alunos para vestibular de música. Mas, até o começo da pandemia, a regência era mesmo seu principal ofício. Mantinha o grupo de terceira idade, regia o coral da Geap Saúde – plano de assistência médica de servidores públicos – e outro da AGU, em sua sede paulistana. Sim, os funcionários da Advocacia Geral da União também cantam em conjunto.

O coronavírus, no entanto, foi um meteoro na terra dos regentes. Primeiro porque a máscara é incompatível com o canto – atrapalha o controle da respiração que é essencial para soltar a voz. E, diferente das aulas individuais de instrumentos ou mesmo de canto, o coro não funciona no Zoom. E não adianta tentar: há um delay entre uma conexão e outra, e aí fica impossível ter a sincronia da qual o coral depende. Segundo Vladimir Silva, da associação de regentes, muitos profissionais tiveram de recorrer ao auxílio emergencial por falta de trabalho – a expectativa é de que as atividades sejam retomadas com o avanço da vacinação.

Para Ricardo, graças a um bom networking, não foi o fim do mundo. O que perdeu nos corais, ele aumentou nas aulas particulares online. Ah, e ainda conseguiu manter um dos coros. Justamente o da terceira idade.

Trata-se do Piacere, um grupo organizado por Elisa Campos, professora livre docente do Departamento de Psicologia Clínica da USP. O conjunto é amador (só os regentes são pagos), mas o esquema é profissional. Eles têm uma organização que faria inveja a muita empresa, planejam o repertório do ano e negociam para conseguir locais atraentes para se apresentar.

Assim, já cantaram no Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia (Mube) e na Catedral da Sé.

Agora, por videoconferência, se dedicam ao que é possível: estudar as peças e cantar individualmente para as orientações do regente. O lado positivo é que estão há um ano e meio montando repertório. A volta promete ser triunfal. Ricardo Carvalho está certo disso. “Tem sido uma das experiências emocionantes que reafirmam minha convicção de ter escolhido a profissão certa.”

UM DIA NA VIDA

ATIVIDADES-CHAVE

Ensaiar grupos de cantores ao longo de períodos que podem se estender por até um ano, geralmente visando a uma apresentação ao vivo. Montar projetos de canto coral para empresas ou governos. Organizar as apresentações. Reger o grupo diante do público.

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS

Ter um vasto conhecimento musical, excelência em técnicas de regência, facilidade de lidar com pessoas, habilidades de gestão, empreendedorismo e liderança. O regente é o CEO do coro.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA

Estudar música, e especializar em regência. Fazer networking (músicos amigos podem indicá-lo para grupos). E de novo: criar projetos para oferecer a empresas, órgãos de governo, igrejas e outros grupo, amadores.

PONTOS POSITIVOS

Uma sessão de ensaio costuma durar entre uma e duas horas, então você pode encaixar diversos grupos na sua agenda, aumentando o faturamento. O horário é flexível.

PONTOS NEGATIVOS

Você tem de ir atrás. Não há um mercado de trabalho com vagas a serem preenchidas. Iniciantes, com pouco networking, penam até conseguir fazer dinheiro com regência.

QIEM CONTRATA

Há pouquíssimos grupos profissionais no Brasil. Mas o trabalho pode ser feito para grandes companhias; governos, faculdades e principalmente grupos amadores.

SALÁRIO MÉDIO**

R$ 100 A R$ 250 POR HORA

**Fonte: Nova ABRC- Abraco

EU ACHO …

FARTO DE NÃO OLHAR PARA A SUA CARA

Parte da comunicação depende dos movimentos que a boca faz

Eu já devia ter desconfiado, porque tenho tido bastante dificuldade em entender as pessoas. Desde que a pandemia começou, passei a ter consciência de que parte da comunicação depende do som das palavras massa outra parte se deve aos movimentos que a boca faz, e a máscara impede que eu os veja.

Às vezes, quando o meu interlocutor se encontra num balcão de atendimento, atrás de um vidro, tenho de fazer suposições, muitos vezes tragicamente erradas, sobre o que está a ser dito.

Do ponto de vista da higiene, está tudo ótimo: o vidro e a máscara, em princípio, impedem ao transmissão de qualquer vírus. Infelizmente, impedem também a transmissão de mensagens. O resultado é uma conversa de bobos. Somos bobos muito saudáveis, mas não há dúvida de que somos bobos. Eu, pelo menos, sou.

Por isso, foi sem surpresa que li os estudos sobre a dificuldade que as crianças do ensino  pré-escolar estão tendo para aprender português. Na verdade, elas não estão aprendendo português, estão adivinhando português.

Como é evidente, tudo tem as suas vantagens. Em princípio – pelo menos, assim o espero -os alunos mais velhos estarão a aproveitar a oportunidade de terem máscaras a cobrir parte da cara para fazer barulhinhos irritantes que exasperam o professor, incapacitado de localizar os idiotas responsáveis pelo ruído. No meu tempo, era muito mais difícil e arriscado perturbar o normal funcionamento de uma aula. Espero que estes jovens tenham ao menos consciência da sorte que têm.

Claro que o professor também é apenas um par de olhos, pelo que é mais difícil perceber o momento em que ele fica verdadeiramente enfurecido, mas é melhor do que nada.

No entanto, este fenômeno, juntamente com a experiência do ensino a distância, que se revelou incomparavelmente pior do que o ensino presencial, indica que nós, enquanto espécie, temos absoluta necessidade de estarmos juntos e de olharmos para a cara uns dos outros. Quem diria. Imagino que se estejam a criar novos desabafos idiomáticos tais como: já estou farto de não olhar para a sua cara. Ainda bem.

*** RICARDO ARAÚJO PEREIRA – Humorista, membro do coletivo português Gato Fedorento. É editor de ‘Boca do Inferno’.

ESTAR BEM

FAZER EXERCÍCIO AERÓBICO E DE FORÇA PODE REDUZIR MORTALIDADE PELO CÂNCER

Estudo indica que atividades como prancha, agachamento e remada diminuem em 14% a mortalidade pela doença

A prática regular de exercícios de força muscular associados a atividades aeróbicas pode reduzir significativamente a mortalidade por câncer, indica estudo publicado no lnternational Journal of Behavioral Nutritionand Physical Activity. Os autores fizeram uma revisão sistemática de estudos epidemiológicos sobre o tema e concluíram que fazer exercícios como prancha, agachamento e remada diminui em14% a mortalidade pela doença. Já quando esses exercícios são combinados com outros do tipo aeróbico, o benefício é ainda maior: 28% menos mortes.

“A atividade física tem sido relacionada à redução do risco de vários tipos de câncer. No entanto, ainda não estava muito claro qual tipo de exercício teria melhor resultado. Neste estudo, encontramos evidências de que atividades de fortalecimento muscular não só podem reduzir a incidência e a mortalidade por câncer como têm um efeito ainda melhor quando associadas a atividades aeróbicas, como corrida. caminhada, natação ou ciclismo”, diz Leandro Rezende, professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM ­ Unifesp).

O trabalho é fruto de uma Bolsa de Iniciação científica concedida a Wilson Nascimento e contou com a colaboração de pesquisadores da Universidade Harvard (Estados Unidos), Universidade Internacional de Valência (Espanha), Universidade Pública de Navarra (Espanha) e Universidade de Santiago (Chile).

Estudos epidemiológicos baseados em dados populacionais têm mostrado que a atividade física em geral reduz o risco de sete tipos de câncer: mama, cólon, endométrio, estômago, esôfago, rim e bexiga. A análise da Unifesp identificou que a prática de exercício de força muscular também pode reduzir em 2.6% o risco de câncer de rim. Já a associação entre exercício de força muscular e os demais tipos de câncer  (cólon, próstata, pulmão, linfoma, pâncreas, mieloma múltiplo, bexiga, esôfago, reto, melanoma, leucemia e do sistema digestivo) foi inconclusiva, por causado número limitado de estudos.

A pesquisa da Unifesp corrobora a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que propõe para adultos a prática de 150 a 300 minutos de atividade física aeróbica moderada por semana, ou de 75 a 150 minutos de atividade física aeróbica vigorosa (ou uma combinação equivalente de intensidades). Também são recomendados exercícios de fortalecimento duas vezes por semana. “A OMS se baseia em benefícios proporcionados pela atividade física. E nós vimos que a redução do risco de câncer é mais um benefício”, diz Rezende à Agência Fapesp. A análise mostrou a existência de um efeito protetor contra o câncer por meio da realização de exercícios de força duas vezes por semana.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

BARBUDOS E GRÁVIDOS

Em um mundo mais aberto à diversidade, homens trans engravidam e dão à luz, cravando na sociedade a marca de um novo e surpreendente arranjo familiar

Fruto de uma gestação muito desejada, Alex veio ao mundo com 3,5 quilos e 49 centímetros em uma maternidade carioca. O parto foi acompanhado por uma doula e a cesariana ocorreu sem intercorrências, ao som da música Anunciação, de Alceu Valença. A chegada da bebê Alex, hoje com 6 meses, não chamaria atenção entre os 2,6 milhões de nascimentos que ocorrem por ano no país, não fosse por um detalhe: o pai, Cleyton Cruz Bitencourt, 26 anos, foi quem a gestou e deu à luz. Não se trata de algum avanço extraordinário da ciência ou milagre da natureza, mas de uma reviravolta nos costumes e na composição da sociedade: com barba, voz grave e feições masculinas, Bitencourt é um homem trans que nasceu biologicamente mulher e optou por fazer a transição sem retirar os órgãos sexuais femininos – capaz, portanto, de ter filhos. “Mesmo me reconhecendo como homem, sempre sonhei gerar uma vida”, diz o auxiliar administrativo, casado com Fabiana Santos, 28 anos – ela, uma mulher trans com órgãos masculinos. “Vivemos a era do ‘eu posso ser o que quiser’, e a discussão já atingiu outro estágio no universo trans. A tendência é que essas gravidezes sejam cada vez mais comuns”, afirma o antropólogo Bernardo Conde, da PUC-RJ.

Embora um barbudo com bebê no ventre ainda seja raridade nas ruas, a internet está apinhada de fotos e vídeos de papais exibindo suas barrigonas.

O Unicode Consortium, ONG do Vale do Silício encarregada de aprovar novos emojis –   figurinha que traduz hábitos e mudanças da sociedade – , anunciou o lançamento, no início de 2022, de um ícone com um homem grávido. Ainda não há registro do número de crianças nascidas nessa nova configuração, que vem chacoalhando tabus ao ampliar limites antes restritos à ala feminina da humanidade, mas alguns indicadores confirmam que se trata de um universo em expansão. O Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (lbrat), presente em vários estados, teve contato com cerca de trinta casos nos últimos dois anos. No mesmo período, a Santa Casa de São Paulo realizou três partos de pessoas transgênero – aquelas que não se identificam com o gênero atribuído ao nascer. “A possibilidade de uma gravidez assim não é nenhuma novidade, mas ela vem ganhando visibilidade à medida que a transexualidade é mais discutida e aceita”, avalia o psicólogo Ricardo Martins, do ambulatório para saúde integral de travestis e transexuais do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids de São Paulo.

Por mais que traga à lembrança o filme Júnior, de 1994, no qual Arnold Schwarzenegger engravida ao servir de cobaia para uma nova droga, na vida real a gestação de um transexual masculino é igual à tradicional. Desde que, claro, no processo de masculinização ele não opte pela cirurgia de redesignação de sexo, que envolve a retirada de ovários e útero, e se disponha a interromper a terapia com testosterona para reativar a ovulação. “Se antes, para muitos trans, a reprodução era assunto encerrado, agora há o entendimento de que a gravidez não os faz menos homens”, ressalta Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulatório de Identidade de Gênero do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Bitencourt, o pai de Alex, sem alterar em nada seu jeito de ser, fez questão de amamentar a filha. Não esconde, porém, o desconforto em público na gestação. “Desisti de ir à praia com medo de retaliação, após olhares e comentários maldosos”, lembra.

Como ele, o pizzaiolo e influenciador Rodrigo Bryan da Silva, 34 anos, batizado Bárbara ao nascer e que aos 27 iniciou a transição e removeu os seios, decidiu tornar pública sua história nas redes sociais como forma de combater a transfobia. Morador de Montes Claros, em Minas Gerais, e casado com Ellen Carine, mulher trans de 26 anos, Silva deu à luz Isabella há seis meses. “O mundo seria melhor se as pessoas, em vez de julgar, nos respeitassem. Temos o direito de ter filhos como qualquer um”, defende. No fim de julho, desta vez sem planejar, descobriu que estava grávido outra vez. “Viramos sensação na cidade”, conta, bem-humorado.

O americano trans Thomas Beatie foi o desbravador desse caminho em 2008, quando soube que a mulher (não trans) era estéril, resolveu engravidar recorrendo a um banco de sêmem e, revoltado com a demora e a dificuldade para ser atendido dignamente, tornou pública a sua saga. “Nove médicos se recusaram a nos ajudar. A sociedade da época foi cruel. Os comentários on-line me tratavam como se não fosse humano e alguns até desejaram a morte do bebê”, contou. Ele teve três filhos com a primeira  mulher e mais um com a atual, este gestado por ela. Passada mais de uma década, o tema segue causando polêmica. Em julho, a professora de biologia Carole Hooven, da Universidade Harvard, manifestou em um programa de TV sua indignação com a orientação para usar o termo “pessoa grávida” no lugar de “mulher grávida”, e recebeu uma enxurrada de críticas. “É vital ensinar uma linguagem inclusiva de gênero, demonstrando respeito por todos que podem engravidar”, contra-atacou Laura Lewis, diretora da força-tarefa de diversidade e inclusão do departamento de biologia.

Goste-se ou não de juntar homem e gravidez na mesma expressão, as pesquisas mostram que, em pouco tempo, a estranheza dará lugar ao fato consumado. Estudo realizado em 2019 pela ONG Family Equality mostrou que 63% das pessoas queer – que não se enquadram no padrão de binarismo homem e mulher – e trans entre 18 e 35 anos nos Estados Unidos pensam em ter uma prole. O sistema de saúde segue sendo problema em    toda parte. “Fui a um posto fazer o pré-natal e ninguém entendia como um homem podia estar grávido, “lembra o músico trans Lourenzo Duvale Lima, 23 anos, conhecido como Aqualien, que está no sétimo mês e é casado com a cantora Isis Broken, travesti de 27. Visando a combater estigmas e a reduzir a burocracia, em junho o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, determinou que o cadastro do Sistema Único de Saúde (SUS) permita que cada paciente declare o gênero que quiser na marcação de consultas e exames. Além disso, na declaração de nascido vivo, o primeiro documento do bebê, em lugar de “mãe” se escreva “parturiente”. Tanto Bitencourt quanto Rodrigo Bryan constam na certidão de nascimento das filhas como “pai” e, como é de praxe nas famílias trans, não ligam a mínima para o gênero lá anotado para seu rebento. “Escolhi o nome Apolo para o meu bebê, que tem pênis, mas só vamos saber sua identidade de gênero quando ele escolher”, afirma o músico Aqualien. Opções não faltarão.

OUTROS OLHARES

DOR DE CABEÇA, FEBRE, TOSSE, MAS NÃO É COVID

Surto de gripe provoca corrida aos postos

Woman sneezing behind a window, using a tissue.

Com sintomas parecidos com os da Covld-19, a gripe tem provocado uma corrida às unidades públicas de saúde e aos consultórios do Rio. A Secretada municipal de Saúde confirmou ontem que há uma semana a capital enfrenta um surto de Influenza A e fez um apelo para que as pessoas – exceto crianças com menos de 6 meses – procurem se vacinar contra a doença nos postos. Agora, o imunizante pode ser aplicado no mesmo dia da vacina contra o coronavírus.

Segundo o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, apenas 57% do público­ alvo participaram da campanha de vacinação da gripe, que terminou em agosto. No entanto, como ainda há doses, a aplicação continua.

“Temos cerca de 400 mil doses, o que é suficiente para vacinarmos por um longo período e, provavelmente suprir toda a demanda reprimida. Por ser um vírus predominante no inverno, agente ainda espera que tenha surto de gripe nessa época do ano, mas também era de se esperar que, quando houvesse uma baixa nos casos de Covid, outra doença respiratória poderia ressurgir: tivemos pouquíssimos casos de Influenza nos últimos dois anos, o que indica que temos muitas pessoas suscetíveis à doença ainda”, explicou.

Soranz disseque não foram encontradas evidências de efeitos colaterais quando as vacinas contra Covid-19 e Influenza A são conjugadas e que, por isso, o protocolo de dar um intervalo de 15 dias entre os dois imunizantes foi abolido.

“Estamos trabalhando com amostragens, por isso ainda não temos dados consolidados sobre quantos testes deram positivo para a Influenza na última semana. Mas menos de 3% dos testes feitos nesse período deram positivo para Covid-19. A principal estratégia para conter a disseminação é vacinar contra a gripe, apesar de ser menos letal do que a Covid, merece toda a atenção, principalmente para grupos que costumam ter sintomas mais graves, como crianças de até seis anos, gestantes e idosos” concluiu o secretário.

CORRIDA POR ASSISTÊNCIA

Moradora de Copacabana, Miriam Cavalcante foi ontem ao posto de saúde da Rua Siqueira Campos para se vacinar após ficar sabendo do aumento de casos de gripe.

“Soube que tem um surta de Influenza na Rocinha e em outros locais, que as UPAs já estão cheias também. Eu estava cumprindo o cronograma da imunização  contra a Covid, então acabei não tomando a vacina contra a gripe. A minha filha e a minha neta tiveram gripe recentemente e ficaram bem mal, com mais de 40 graus de febre, e 15 dias de cama. Se elas, que são mais jovens, ficaram mal, preciso me prevenir”, disse a mulher de 65 anos.

Depois de longas filas na segunda-feira, a UPA da Rocinha teve ontem um dia de menos movimento, mas ainda acima do esperado. Do lado de fora, as queixas se repetiam: dor de cabeça, dor no corpo, calafrios, febre, mal-estar e tosse, sintomas muito parecidos com os da Covid. Pâmela de Melo se sentia mal havia uma semana

“A falta de ar foi o primeiro sintoma, mas segunda-feira tive febre de 39 graus. Na minha família todo mundo pegou essa gripe, fizemos os testes para Covid, mas deram negativos. Agora, vou tentar fazer o teste para gripe”, contou a doméstica.

Enquanto Pâmela aguardava atendimento na UPA, a comerciante Marilene Costa recebia seu resultado negativo para Covid. Ela contou que estava com dores no corpo, de cabeça e de garganta:

“Os sintomas começaram domingo. Minha garganta está muito inflamada, e a médica disse que é gripe.

REMÉDIOS E TESTES

Com sinais de um forte resfriado, Gustavo de Melo, morador da Tijuca, foi ontem até um posto de saúde do bairro para fazer teste da Covid. O resultado deu negativo, e o médico que o atendeu disse que a suspeita era de Influenza. Ele fez o exame, mas a confirmação do diagnóstico só sai em três dias.

“Quando acordei na segunda-feira, perecia que tinha perdido o apetite, o que me deixou preocupado. Achava que estava com Covid. Ao longo do dia, mais sintomas foram aparecendo e fui piorando: sinto até agora dor de cabeça, enjoo, dor de barriga, coriza e calafrios. Passei a madrugada muito mal. Fui ao posto e o médico me receitou um expectorante, um analgésico e um spray nasal. Agora, aguardo o resultado do teste para Influenza”, contou o analista de sistemas de 28 anos.

A prefeitura afirmou que, na última semana, os resultados positivos para Influenza A tem sido mais frequentes.

Diante do aumento da procura, a Rede de Vigilância em Saúde, do município, esteve ontem em unidades de saúde, para avaliar o cenário epidemiológico. Foram colhidos 300 exames que serão enviados aos laboratórios do Lacen e da Fiocruz.

MÁSCARA E TESTE

A Secretaria Municipal de Saúde ressalta que quem estiver com sintomas gripais deve procurar uma unidade de saúde para fazer os testes da Covid e da Influenza, e receber orientações médicas. Presidente da Sociedade de Infectologia do Estado do Rio, Tânia Vergara explica que, nesses casos, apenas a testagem é capaz de definir a doença.

“O correto é adotarmos o que já acontece em países asiáticos, por exemplo. Em casos de sintomas, prefira ficar em casa, e, caso saia, utilize a máscara. Os sintomas são muito parecidos, então procure uma unidade de saúde pública para fazer o teste da Covid-19”, alerta Vergara.

Para o epidemiologista Paulo Perry, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é importante a população estar com a vacinação de gripe em dia para evitar esse tipo de confusão sobre os sintomas.

“A campanha aplicou a vacina que protege contra os três vírus sazonais de Influenza em circulação na temporada, mas em clínicas privadas ainda há a opção da tetravalente, que tem cobertura para uma cepa a mais”, explicou o especialista.

A principal forma de contaminação da gripe ocorre ao ter contato com secreções das vias respiratórias de alguém que está com a doença. Também há transmissão ao tocar em superfícies contaminadas e levar as mãos aos olhos, boca e nariz.

Apesar do surto na capital, nos dados de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), o vírus da Influenza A ainda não apareceu, segundo o pesquisador Marcelo Gomes, coordenador do Info Gripe, da Fiocruz.

“Os casos de Influenza detectados no Rio foram em síndromes gripais, que são casos leves, e fora surtos localizados, nada ainda muito expressivo”, afirma Gomes.

A expectativa do epidemiologista, porém, é que o vírus causador da gripe volte a circular nacionalmente em breve.

“Já temos o reaparecimento de outros vírus respiratórios, alguns desde o começo do ano, outros a partir de agosto, causando SRAG principalmente em crianças. Era uma questão de tempo par o Influenza também voltar a aparecer, em consequência do relaxamento em relação às medidas de proteção contra a transmissão da Covid-19. A volta do Influenza em particular gera maior preocupação por ser mais grave que os demais. É mais uma doença gerando internações, ocupando leitos”, afirmou.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 28 DE NOVEMBRO

O PERIGO DA RIQUEZA ILÍCITA

Trabalhar por adquirir tesouro com língua falsa é vaidade e laço mortal (Provérbios 21.6).

A riqueza é uma bênção quando vem de Deus como resultado do trabalho honesto. Contudo, a riqueza acumulada com desonestidade é pura ilusão e uma armadilha mortal. Aqueles que mentem, corrompem, roubam, oprimem e até matam o próximo para ajuntar tesouros e mais tesouros em sua casa, esses descobrem que tal riqueza maldita não traz paz ao coração, não dá descanso à alma nem promove a verdadeira felicidade. Aqueles que seguem por esse caminho da ganância, da avareza idolátrica e da língua falsa para enriquecer não usufruirão as benesses dessa riqueza. Vestirão, mas não se aquecerão. Beberão, mas não se saciarão. Comerão, mas não se fartarão. Não vale a pena adquirir tesouro com língua falsa. A fortuna obtida com língua mentirosa é ilusão fugidia e laço mortal. De que adianta ser rico e não ter paz? De que adianta viver com o corpo cercado de luxo e a alma mergulhada no lixo? De que adianta ser honrado diante dos homens e ser reprovado por Deus? De que adianta adquirir muitos bens, mas para isso ter de vender a alma ao diabo? De que adianta ter todo conforto na terra e perecer eternamente no inferno? Melhor do que a riqueza ilícita é a pobreza com integridade, é a paz de consciência, é a certeza do sorriso aprovador de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

MAIS DE 30% DOS EMPREENDEDORES BRASILEIROS INICIARAM TRATAMENTO PSICOLÓGICO NA PANDEMIA

Pesquisa mostra que 53,5% dos empreendedores disseram ter sido diagnosticados com ansiedade

Desde o primeiro semestre de 2020, a pandemia da Covid- 19 tem impactado trabalhadores de diferentes setores com demissões, mudanças de local de trabalho e reduções salariais.

Para mapear os efeitos desse cenário entre os empreendedores brasileiros, a Troposlab, empresa especializada em inovação, em parceria coma UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), realizou pelo segundo ano consecutivo um estudo sobre a saúde mental das pessoas que atuam nesse setor.

A pesquisa revela que 30,13% dos entrevistados iniciaram acompanhamento psicológico durante a crise sanitária. Além disso, 53,5% dos participantes disseram ter sido diagnosticados com ansiedade, e 11,22% com depressão – as avaliações foram realizadas por profissionais especializados. O levantamento contou com a participação de 312 empreendedores de vários estado país.

Quando comparado ao estudo realizado no ano passado, foi possível perceber que houve uma maior quantidade de pessoas que começaram a utilizar medicamentos psiquiátricos em 2021- 26% neste ano; enquanto 16% alegaram tornar esse tipo de medicação em 2020. A atual edição da pesquisa mostra também que o início do uso de ansiolíticos entre empreendedores saltou de 6% para 12%, e de antidepressivos de 3%para 8%, em relação ao ano anterior.

De acordo com Marina Mendonça, sócia e diretora de cultura da Troposlab, existe uma conexão significativa entre o sofrimento psicológico e a queda da renda dos empreendedores. “No geral, é possível observar que empreendedores que reportam queda na renda também estão classificados com mais frequência com sintomas moderados e severos de ansiedade ou depressão”, afirma.

O estudo observou ainda que, no ano passado, 51,1% dos empreendedores tiveram a vida afetada pela pandemia, mas que se sentiam bem a maior parte do tempo, enquanto 24,9% dos empreendedores afirmaram que foram muito afetado. Já em 2021, 53,31%  dos respondentes sentem que foram afetados e 21,49% muito afetados. Isso demonstra que não há diferenças significativas entre os períodos.

Quanto à percepção geral dos participantes sobre a pandemia, a maioria diz considerar o ambiente mais incerto (73,72%), mas os índices de 2021 são um pouco menores do que os de 2020. Por outro lado, 77,89% afirmam possuir habilidades para lidar com os desafios impostos pela crise sanitária, afirmação que se mantém semelhante aos dados do ano passado

Os resultados continuam a apontar que as mulheres apresentam maior intensidade de sintomas para ansiedade (12,50%), quando comparadas aos homens (2,84%), estresse (7,35% contra 1,13%) e também maior prevalência de depressão (6,61% contra 2,84% ).

“Percebemos lacunas e conhecimento sobre como ele se desenvolve, sua personalidade, saúde mental e outros elementos que impactam suas escolhas e desempenho nos projetos empreendidos. Em nossa visão, gerar conhecimento sobre esses elementos pode nos ajudar a construir um ambiente de negócios mais sustentável”, diz Mendonça.

Essa pesquisa é um de nossos esforços e entregas para esse ecossistema. Para que ele nos aproxime de parceiros e provoque novas iniciativas que gerem frutos para a ciência no Brasil e para o desenvolvimento saudável de nosso ambiente de negócios e inovação”.

EU ACHO …

MAIS FORTE

Muitas vezes nos ensinam que temos que ser mais fortes. E acabamos entubando isso como se precisássemos ser assim 24 horas por dia. Como se tivesse que ser uma norma. O que pode ser muito cansativo.

Na prática, isso significa um constante desconforto. É o injusto estado de não repouso. É o “você precisa dar sempre mais”, mesmo tendo as mesmas 24 horas que todas as pessoas. É necessário ficar na retaguarda e na defensiva para sobreviver. Deixar que outras pessoas cuidem de você pode parecer um luxo ou até considerado como frescura.

Quando fui descobrindo que essa necessidade de ser mais forte era imposta, confesso que, aos poucos, fui pegando ranço desta expressão.

Na verdade, posso dizer que tenho vivido uma relação de amor e ódio com essa expressão e o significado prático disso. Tanta que escrevi um novo livro sobre esse tema chamado “Mais Forte – Entre lutas e conquistas”.

Tenho entendido que é preciso colocar na balança onde o “ser mais forte”, além de sugar energias, pode nos favorecer, ou melhor, fortalecer-nos.

Sei que essa relação paradoxal encontra ressonância em tantas outras pessoas. Em especial, naquelas que acumulam uma série de identidades não consideradas como “normativas”.

Como, por exemplo. ser mulher numa sociedade patriarcal e machista. “Força mulher! Lute contra o machismo”, dizem-nos equivocadamente. Afinal, isso não deveria ser normalizado. Quando se é uma pessoa negra ou indígena numa sociedade em que o que impera é a branquitude que coloca pessoas brancas no centro das referências, dizem-nos para termos força para lutar contra o racismo.

Quando se é lésbica, gay ou bissexual, numa sociedade heteronormativa e em que há quem defenda o orgulho hétero, dizem para não heteronormativos: “Força”.

Quando se é trans numa sociedade nos dizem: “Força”. Afinal, só por estar viva já é forte, por driblar as estatísticas e sobreviver no país que mais mata pessoas trans.

Quando se é uma pessoa com deficiência numa sociedade capacitista, dizem: “Força” e fazem com que barreiras que não deveriam existir transformem histórias do dia a dia em narrativas de exceção e superação.

Força até quando? Até quando ostentar uma força individual para lutar contra uma estrutura inteira? Até quando bancar o mais forte para garantir aquilo que deveria ser um direito? Às vezes, dá mesmo é preguiça.

A questão é que, ao longo da vida, muitos dos episódios que passamos, além de nos cansar, também nos fortalecem.

Quando penso na minha trajetória, vejo-me de um lado cansada por ter aprendido a ter que ser mais forte para lutar especialmente contra o racismo e o machismo. Com isso tudo, também fiquei mais sensível a todas as demais lutas contra opressões estruturais. Nessa jornada, também fui me tornando mais resiliente diante de forças opressoras.

A partir daí, eu pergunto: o que te faz mais forte? Ou melhor, quais episódios da vida que vêm te fortalecendo? Já parou para pensar?

O segredo da vida, como bem diz a minha avó, mora na forma como a encaramos e no que aprendemos com o que passamos.

Cada episódio nos ensina algo. Cada detalhe pode nos encorajar. Entre lutas e conquistas, aprendi a olhar de outra maneira apesar do cansaço, essa questão de “ser mais forte” e me sinto fortalecida pelas minhas vivências com mais amor.

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

ESTAR BEM

CAMINHO DA VIDA LONGA

Receita para a saúde: 7 mil passos ao dia

Aos 90 anos, o médico americano Kenneth Cooper conquistou rios de dinheiro ao longo da vida ao defender a corrida como principal aliado da longevidade e do condicionamento físico. Criado no fim da década de 1960 para ser usado pelas forças armadas, o chamado “método Cooper” consiste na prática de corridas de 12 minutos diários para avaliar o desempenho. O hábito logo conquistou pessoas comuns que passaram a correr por todos os cantos do planeta em busca da boa forma e saúde.

Só muito recentemente o cenário começou a mudar com estudos revelando a força dos passos mais lentos – a caminhada. Viu-se que os benefícios podem ser tão bons ou melhores que o ritmo ligeiro. Pois agora um trabalho quantifica com exatidão o quanto se deve caminhar para que o corpo sinta os efeitos dela. Pessoas que andam mais de 7 mil passos diários têm de 50% a70% menos risco de mortalidade. Esse é o resultado de um trabalho conduzido por pesquisadores da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, e publicado na prestigiosa revista Jama Network.

Os cientistas americanos acompanharam por cerca de dez anos um grupo de 2.110 adultos, com idades entre 38 e 50 anos, sendo 57,1% de mulheres e 42,1% de negros. Os voluntários foram divididos em três perfis: os que davam menos de 7 mil passos por dia; os que andavam de 7 mil a 9.999 passos; e aqueles davam mais de 10 mil passos. O objetivo do trabalho era observar a associação do ritmo diário com a mortalidade prematura, quando o óbito acontece antes dos 65 anos.

Os pesquisadores descobriram que, independentemente de gênero ou etnia, pessoas que davam pelo menos7 mil passos diariamente tinham de 50% a 70% menos risco de morrer prematuramente do que aqueles que não alcançaram essa marca.

“A atividade física regular é elemento fundamental para manter boa saúde. Ela reduz a incidência das doenças cardiovasculares, diabetes, auxilia no controle da pressão arterial e níveis de colesterol. Previne e contribui para tratamento de vários tipos de câncer, osteoporose, problemas digestivos, redução do estresse e aumento do sono, com isso melhorando a qualidade de vida, e o trabalho confirma isso”, afirma o cardiologista Bruno Bandeira, coordenador da Cardiologia do Hospital Caxias D’Or.

SEM EXAGERO

E não é preciso se esfalfar. Os pesquisadores perceberam que ultrapassar 10 mil passos diariamente não apresentou uma redução adicional de risco de mortalidade em comparação com quem percorreu os7 mil passos.

O trabalho não levou em consideração a intensidade da caminhada feita pelos voluntários. Apesar de outros estudos mostrarem que quanto mais intensa é a atividade – desde que respeite o limite do corpo – melhor a ação na saúde cardiovascular -, a pesquisa mostrou que a regularidade é o essencial.

“Esse trabalho traz uma importante mensagem para as pessoas que não conseguem correr ou andar tão rápido, ou fazer uma outra atividade física mais estruturada (como ir à academia ou fazer um esporte). Mesmo pequenas atividades durante o dia reduzem o risco de mortalidade e de desenvolvimento de doenças cardiovasculares”, comenta o cardiologista Daniel Setta, presidente do Departamento de Doença Coronária da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro (Socerj).

Para aumentar o nível de passos diários, os especialistas recomendam incluir pequenas alterações no dia a dia, por exemplo, passar a fazer mais atividades a pé, como ir à padaria ou ao mercado, e usar a escada no lugar de elevadores. Nos últimos anos uma profusão de aparelhos portáteis têm sido cada vez mais usados com esse objetivo, o de contabilizar os passos, até mesmo nas atividades corriqueiras. Os modelos vão de aplicativos para celular a smartwatches e pulseiras inteligentes. Alguns registram batimentos cardíacos e queima calórica.

Um dos primeiros grandes estudos a valorizar os efeitos das caminhadas é de 2015. Conduzido pelo Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, detalhou o papel dos passos leves na saúde. Grande parte dos benefícios é igual, tanto na corrida quando no caminhar. Ambos diminuem a taxa de colesterol, assim como o risco de diabete, hipertensão e infarto. Andar, porém, parece ser a melhor para a saúde óssea. A atividade estimula a reciclagem adequada dos ossos, com a vantagem de causar menos fraturas por estresse. A caminhada também aperfeiçoa a função das células de defesa.

Mas talvez uma das maiores qualidades do hábito de caminhar seja a facilidade de incluí-lo no cotidiano e o fato de ser adaptável a todas as idades. Para os idosos, em especial, essas são características vitais. Homens e mulheres com mais de 80 anos que incorporam a prática apresentam mais massa cinzenta no cérebro do que as sedentárias. Essa quantidade maior significa o risco de distúrbios de memória, por exemplo. Ou seja, esse tipo de exercício físico ajuda a proteger contra o Alzheimer e outros tipos de demência.

AMBIENTE INFLUENCIA

Um estudo feito por pesquisadores da Universidade de Bristol, no Reino Unido, sugere que caminhar em ambiente confortável oferece os mesmos benefícios que praticar a atividade na natureza. Os cientistas já haviam demonstrado que caminhar por ambientes cercados de verde melhorava a atenção, concentração e bem-estar, o que se traduzia em passos mais rápidos e constantes. No trabalho, eles descobriram que quem anda em um ambiente no qual não se sente confortável apresenta passos mais lentos e variáveis, o que não acontece em cenários considerados agradáveis.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MENTES NÃO TÃO BRILHANTES

Depois de décadas de avanço, a inteligência, tão maltratada nos debates rasos da atualidade, está retrocedendo. E o excesso de tempo na frente das telas tem tudo a ver com isso

Objeto de análise desde os primórdios da civilização, a inteligência humana é um mistério tão intrigante quanto a origem do universo. Na cultura ocidental, sua primeira definição remonta à Ilíada, o poema do século VIII a.c. em que Homero narra a história do herói Aquiles e da Guerra de Troia e faz referência à psuche; origem do termo psique, no clássico grego uma força superior àquela que dá vida ao restante dos seres. As dúvidas sobre o que faz os indivíduos serem mais ou menos inteligentes permanecem, mas, ao longo de milênios, o conceito foi sendo destrinchado em estudos científicos sobre os mecanismos que movem o intelecto até se chegar a uma forma de medição padronizada – o teste de Q.I. (quociente de inteligência) – amplamente reconhecida e aceita.

Entra década, sai década, em boa parte do século XX os países mais avançados, principalmente, puderam bater no peito e anunciar com orgulho que o Q.I médio de seus habitantes subia consistentemente – até a curva começar a cair e a inteligência engatar marcha a ré a partir dos anos 2000. Em sólidos levantamentos, descobriu-se algo constrangedor para a civilização: pela primeira vez, os filhos passaram a ter mentes menos afiadas do que a de seus pais. E como fugir da lembrança de movimentos da atualidade desprovidos de massa cinzenta, como os antivacina, os anti-instituições democráticas e os anticiência que compõem o lado escuro da polarização ideológica que varre o planeta?

O esforço de tentar entender e reverter esse quadro tem sido tema de uma série de estudos e publicações recentes capitaneados por pesos-pesados da área, intrigados com o fenômeno. No livro A Fábrica de Cretinos Digitais, que acaba de ser lançado no Brasil, o renomado neurocientista francês Michel Desmurget, diretor de pesquisas do Instituto Nacional de Saúde da França, aponta as baterias de combate ao estado atual de estagnação intelectual para o que afirma ser sua maior causa: o excesso de tempo passado diante da tela dos mais variados aparelhos digitais. “A tela; em si, não representa um mal, mas o número de horas despendidas na sua frente é assustador”, ressaltou Desmurget. “O uso de computadores e celulares por pré-adolescentes é três vezes maior para se divertir do que para fazer trabalhos escolares. No caso dos adolescentes, o número sobe para oito”.

No trecho em que se debruça sobre o desenvolvimento de crianças pequenas, o especialista adverte que internet e aplicativos de redes sociais em demasia afetam negativamente as interações, a linguagem e a concentração, os três pilares básicos do progresso cognitivo em qualquer idade, mas de excepcional importância nos cinco primeiros anos da existência. É justamente nesse período-chave que se observa o auge da plasticidade – nome dado à frenética formação de sinapses que nunca mais se repetirá e que resulta na evolução ultra acelerada do potencial do cérebro. “Até o humor do meu filho piorou com o tempo excessivo na frente do celular”, reconhece a assistente administrativa Hanna Ueda, 27 anos, de São Paulo. Ela restringiu o uso e, junto com o marido, Giovanni, passou a sentar todo dia com Pedro, 4 anos, para ler um livro e assim motivar sua curiosidade. “No caso das crianças pequenas, celular é um entretenimento passivo, sem reflexão ou desafios. Não passa de uma diversão viciante”, alerta Claudio Serfaty, do Programa de Pós-Graduação em Neurociências na Universidade Federal Fluminense.

Colocada dessa maneira, parece que a tecnologia é um mal. Longe disso. O foguete do progresso tecnológico transportou a humanidade para um novo patamar de conhecimento, criatividade, bem-estar e longevidade, com nítidos e incontáveis benefícios em todas as áreas – inclusive no estudo da inteligência. O ruim é o exagero. Esse ramo da ciência, de afeição cognitiva, ganhou impulso no século XIX, quando o antropólogo inglês Francis Galton (1822-1911) esmiuçou a teoria da evolução formulada por seu primo, Charles Darwin (1809-1882). Galton concluiu que a inteligência é uma característica hereditária e desenvolveu, em 1884, o primeiro método de medida do intelecto humano – um conjunto rudimentar de testes físicos e psicológicos. Três décadas depois, foi a vez de o psicólogo alemão Wilhelm Stern elaborar o quociente de inteligência, só que em uma fórmula muito complexa. Coube a Lewis Terman, especialista em psicologia educacional da Universidade Stanford, simplificar o teste e popularizar a sigla Q.I. Foi Terman quem sedimentou o padrão médio de Q.I. no número 100, criando a escala Stantord-Binet, usada até hoje.

À medida que a ciência evolui, escorada pelos avanços da computação, o componente hereditário da inteligência identificado por Galton vai ganhando a companhia de outros fatores. Em pesquisa publicada em 1984, o educador americano James Flynn (1934-2020), tomando por base o avanço constante do Q.I. médio nos países mais prósperos – que atingiu seu ápice na década de 1970, com altas anuais de três pontos -, demonstrou que as melhorias alcançadas na medicina, na educação e no pensamento crítico haviam contribuído decisivamente para tornar a população mais inteligente, um fenômeno que ganhou o nome de “efeito Flynn”. Problema: passado o apogeu, as conquistas no Q.l. foram sendo cada vez menores até estacionarem e, na entrada do século XXI, começarem a deslizar ladeira abaixo, devagar e sempre, acendendo o sinal amarelo. E a trajetória segue em queda na capacidade cognitiva.

Um dos estudos mais incisivos sobre esse refluxo intelectual, realizado por pesquisadores da Noruega, analisou 730.000 testes de Q.I. aplicados em jovens convocados para o serviço militar obrigatório nos últimos quarenta anos. Sua conclusão: os aumentos anuais do Q.I. dos noruegueses baixaram para 2 pontos nos anos 1980, para 1,3 ponto nos 1990 e se transmutaram em recuo de 0,2 ponto neste século. Processo semelhante foi detectado no Reino Unido e na Dinamarca. Pesquisas como essas reforçam o alerta dos especialistas para mudanças no estilo de vida que, segundo eles, estão por trás do retrocesso – aí incluída, em lugar de destaque, a imersão constante e indiscriminada nos eletrônicos. As plataformas de vídeos, as redes sociais e os aplicativos de mensagens alimentam as discussões embotadoras, nas quais crenças se sobrepõem à razão e a ideologia impede o confronto de ideias enriquecido pelo saber científico – aquele que não se atém às primeiras linhas de um texto, mas se ampara nele inteiro. “As pessoas entram nas chamadas bolhas de filtragem, onde são expostas a olhares condizentes com seu perfil e blindadas de pontos de vista destoantes”, afirma Philip Boucher, pesquisador do Scientific Foresight Unit, instituto ligado ao Parlamento Europeu.

A turma mais nova, como bem aponta o francês Desmurget, é presa fácil dos efeitos deletérios do excesso digital. Estudo da Universidade de Alberta, no Canadá, mostrou que crianças de 5 anos ou menos que passam mais de duas horas por dia on-line têm chance cinco vezes maior de apresentar dificuldade de concentração e sete vezes mais risco de exibir sintomas de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). “Até 2 anos, o tempo de tela recomendado é zero, a não ser em bate-papos virtuais com a família”, decreta a psicóloga Sheri Madigan, da também canadense Universidade de Calgary. Entre 2 e 5 anos, a janela de conexão não deve passar de uma hora diária, com foco em programas educacionais e jogos. “E os pais precisam estar do lado, para ajudar na compreensão do que está acontecendo”, diz.

Fatores comportamentais, sabe-se agora, também são determinantes na evolução da inteligência. O pleno desenvolvimento intelectual na infância exige interação social, engajamento em brincadeiras e, conforme a idade, também o enfrentamento de problemas e discussões que transcorrem fora das telas. “Há evidências crescentes de que investir na prática de disciplina e autocontrole tem efeito positivo tanto no nível acadêmico quanto no Q.I. dos pequenos”, diz Adriana Melibeu, especialista em neurobiologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Uma boa formação escolar é imprescindível, bem como atividades extra­curriculares que puxem o cérebro e sirvam de desafio – o que vale também para os adultos, já que instigar a curiosidade é terreno fértil para o crescimento intelectual de qualquer pessoa.

Conta pontos positivos apaixonar-se por algum assunto, especialmente se ele exige conhecimento profundo, como astronomia ou grego antigo, proporcionando um mergulho no tipo de exercício que afia a atenção, estimula a perseverança e aprimora habilidades como processamento de informações e análise. “Inteligência não é só a bagagem que adquirimos, mas a capacidade de interpretar e de se lançar rumo ao novo, ao desconhecido”, ensina Chris Frith, psicólogo da University College London. A prática de esportes é outra atividade relacionada à expansão do intelecto porque aumenta a oxigenação do cérebro, o que por sua vez incrementa a conectividade neuronal – processo que se repete na alimentação equilibrada. Consumir ovos, peixes, legumes e verduras potencializa a produção de neurotransmissores e ajuda no desempenho cognitivo.

De tanto investigar os segredos da mente, pesquisadores e cientistas não param de identificar novas ramificações para a inteligência: espacial, lógica, linguística e mais uma infinidade de variações. Há uma reflexão, inclusive, quanto à escala de valor das habilidades. “As mais importantes são relacionadas à inteligência adaptativa, como a criatividade, o bom senso, a empatia e a destreza analítica”, afirma o psicólogo Robert Sternberg, da Universidade Cornell. Outra variante, a inteligência emocional, definida como a capacidade de entender e lidar com sentimentos próprios e alheios, fincou pé no glossário do intelecto graças à publicação do best­seller de mesmo nome, do jornalista Daniel Goleman, em 1995. Nessa sopa de designações, até a mente privilegiada dos gênios pode escorregar. Albert Einstein (1879-1955), que nunca fez teste, mas teve seu Q.I. avaliado postumamente em extraordinários 140 a 145 pontos, seria reprovado no exame de inteligência emocional: o primeiro casamento, com Mileva Maric, foi desastroso e o segundo, com Elsa Lõwenthal, ficou marcado pelas infidelidades. Seja qual for a medida utilizada para definir a inteligência, o essencial é que ela seja cultivada, porque só assim a humanidade caminhará para a frente, sem as radicalizações comportamentais que alimentam atualmente a estupidez dos cabeças-ocas.

OUTROS OLHARES

TECNOLOGIA REVOLUCIONA CIRURGIAS DE JOELHO E QUADRIL

Hospital Alvorada, em Moema, é o primeiro de São Paulo a realizar uma cirurgia robótica ortopédica com equipamento inovador, que auxilia médicos nos procedimentos de implantação de próteses com menor tempo de recuperação

O hospital paulista, localizado no bairro de Moema, realizou recentemente e, com êxito, a primeira cirurgia para substituição de prótese total de quadril assistida por Braço Robótico Mako, obtendo um resultado satisfatório para um paciente diagnosticado com osteoartrose de quadril. Trata-se do primeiro hospital do estado de São Paulo a adquirir a tecnologia. “Nestes casos, a cirurgia assistida por braço robótico traz inúmeras vantagens tanto para o paciente como para a ortopedia. As cirurgias são minimamente invasivas, contribuindo para a redução de complicações e tempo de internação, custos para o sistema de saúde, além de proporcionar uma rápida recuperação após o procedimento, com melhor resultado para o paciente “, comemora o Dr. Marcelo Sartori, diretor da instituição.

A partir de agora, o Hospital Alvorada Moema, da Rede Americas, passará a contar com a tecnologia robótica Mako em procedimentos para a substituição de articulações parciais ou totais de quadril e joelho. Sua utilização na cirurgia de substituição total de articulação transforma de maneira significativa o modo como o procedimento convencional sempre foi feito. De acordo com o Dr. Osvaldo Pires, diretor do Sistema de Excelência em Cuidados em Ortopedia e Bucomaxilofacial da Rede Americas, a prótese total de quadril é uma opção de tratamento para o paciente portador de doença articular degenerativa e a utilização do sistema para cirurgia assistida por braço robótico traz um avanço tecnológico que pode ser considerado um marco para a ortopedia, pelos benefícios que proporciona ao paciente, maior precisão e reprodutibilidade para o cirurgião e traz, de forma revolucionária, excelência para as cirurgias de artroplastia do quadril e do joelho.

Entre os recursos do Sistema Mako, o especialista destaca a modelagem 3D da anatomia óssea, que permite a criação de um plano cirúrgico personalizado com base na anatomia de cada paciente e tipo de prótese, contribuindo para a assertividade da cirurgia. “A aplicação de implantes e próteses por meio do sistema robótico nos coloca em um lugar de maior precisão nos procedimentos, redução de cirurgias de revisão e readmissões, e claro, maior conforto e segurança para o paciente”. Alguns benefícios podem ser elencados, como, menos dor e uso de analgésicos opioides no pós-operatório, menor tempo de hospitalização e a redução do tempo de fisioterapia, ou seja, agiliza todo o processo de recuperação do paciente.

Adicionalmente, o sistema robótico Mako desenvolve um modelo da articulação, o qual permite que o cirurgião avalie a estrutura óssea, o alinhamento da articulação e o tecido circundante, fornecendo dados de amplitude de movimento em tempo real. Desta forma, o braço robótico auxilia na remoção da cartilagem e do osso doente para colocação dos implantes com precisão milimétrica.

O Hospital Alvorada Moema já certificou cinco profissionais da equipe, habilitando-os a utilizar o Sistema Mako por meio de uma certificação internacional para a realização destes procedimentos. “A robótica revoluciona de forma decisiva a ortopedia para um melhor desfecho clínico, garantindo maior eficiência, segurança e a reabilitação do paciente mais adequada”, destaca. O investimento constante em inovação e capacitação de seus profissionais, faz parte do compromisso da instituição de manter o Sistema de Excelência em Cuidados para alta complexidade. Atualmente, existem mais de mil sistemas desse tipo sendo utilizados com êxito em 29 países ao redor do mundo, com mais de 500 mil procedimentos realizados.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 27 DE NOVEMBRO

CUIDADO COM A PRESSA

Os planos do diligente tendem à abundância, mas a pressa excessiva, à pobreza (Provérbios 21.5).

Há um ditado popular que diz: “A pressa é inimiga da perfeição”. Quem não planeja com diligência planeja fracassar. Ninguém começa a construir uma casa sem antes ter uma planta. Ninguém vai à guerra sem antes calcular os custos. Ninguém semeia seus campos sem antes preparar a terra. Antes de iniciar um projeto, precisamos ter um planejamento detalhado dos passos a seguir. Quem planeja com diligência realiza com eficácia. Quem investe tempo pensando em como fazer a obra gastará menos tempo na etapa de execução. Estão cobertos de razão aqueles que dizem que o tempo gasto em amolar o machado não é perdido. Por isso, quem planeja com cuidado tem fartura, mas o apressado acaba passando necessidade. Há, porém, uma pressa positiva e necessária. Não podemos ser lerdos em nossas ações. Não podemos cruzar os braços e acomodar-nos numa mórbida letargia. Existe a hora certa de agir. Protelar uma ação pode ser tão danoso quanto não a planejar. O que a Palavra de Deus reprova é a pressa excessiva, o descuido e a falta de reflexão e planejamento. Essa atitude leva à pobreza, mas os planos do diligente tendem à abundância.

GESTÃO E CARREIRA

JOVENS APRENDEM ‘SOFT SKILLS’ FORA DA ESCOLA

 Iniciativas ajudam na escolha da carreira a partir de habilidades comportamentais exigidas pelo mercado; em workshop de autoestima, adolescentes têm acesso a mentora

Se para quem está no mercado já é difícil acompanhar as mudanças, para quem está começando é ainda mais desafiador. Para preparar os futuros profissionais além das ementas escolares, projetos sociais capacitam jovens com habilidades técnicas e comportamentais.

“A gente tem uma mentalidade de escola de que tem de escolher uma carreira, mas o foco tem de ser nas possibilidades do que o jovem pode fazer. Tem gente que gosta de exatas e, por isso, vai fazer Engenharia. Pergunto: ‘Será que gostando de exatas você só pode fazer Engenharia?’. É preciso considerar habilidades, aptidões e estilo de vida”, explica Eduardo Valladares, designer de experiências de aprendizagem.

Segundo o professor, que deu aula por 16 anos, alunos de ensino médio e universitários costumam chegar ao mercado apenas com os conteúdos técnicos mais tradicionais e com uma lacuna em habilidades comportamentais, as softs skills,por ele consideradas as mais necessárias.

”Tem de se mudar a mentalidade de querer ir para a escola apenas para escolher uma carreira, mas ir para aprender a ter mais ousadia, resiliência, senso crítico, capacidade de colaboração. Aí, sim, dá para aprender a escolher um futuro melhor”, diz.

NOVIDADE

Valladares lançou neste ano um novo projeto para ajudar na capacitação e na empregabilidade dos jovens. A iniciativa “Criaway: não é sobre seguir caminhos, é sobre criar futuros” é um playbook (livro com tarefas) para provocar reflexões em quem está começando e até mesmo para os que estão questionando a sua trajetória de carreira.

No Instituto Plano de Menina – com foco em conectar meninas de comunidades com mentoras e, depois, com o mercado -, as alunas têm aulas com coaches de carreira e criam um mapa de planos para ajudá-las a ter uma direção profissional. Trabalhar a autoestima foi o ponto mais importante do curso para Erika Lucy, de 20 anos, que participou do projeto quando estava no último ano do ensino médio, há três anos. Na época, ela lidava com episódios de fobia social, ansiedade e timidez.

“Eu pude conversar com outras pessoas que tinham os mesmos problemas, e isso fez com que eu me sentisse mais confortável. Eu comecei a pensar que eu ia chegar a algum lugar um dia”, conta Érika, que já participou de duas edições do projeto (saiu de ambas empregada) e começou a cursar Artes Visuais na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

EU ACHO …

A PEQUENA-GRANDE LIA

Quando ela chegou, não sabíamos nada sobre as diferenças. Na verdade, não sabíamos  nem o que não sabíamos e essa é a grande loucura da consciência e da falta dela. Até ela dar as caras em determinado assunto, estamos às cegas, ignorantes do que ignoramos.

Mas ela estava determinada a vir e abrir o véu para iluminar parte do caminho de uma família. Lia poderia ter se mostrado por inteiro no primeiro olhar, no primeiro dia ou mês de vida.

Só que ela esperou para se revelar, porque sabia antes mesmo de nós que precisávamos primeiro conhecê-la sem nenhuma comprovação, sem colocá-la em uma caixinha qualquer.

Assim, suas diferenças eram só características pessoais, seus abraços e sorrisos intensos eram só o de uma pessoa profundamente amorosa, seu foco absoluto em canções eram talento nato para música. Lia se apresentava ao mundo livremente e éramos envolvidos pelo amor que crescia sem julgamentos, como deve ser.

Mas Lia queria mais de nós. Queria que entendêssemos a fundo como ela enxergava o mundo através de seus amendoados olhos verdes. Lia fez-se vista por inteiro quando fomos apresentados especificamente ao seu cromossomo 7. Naquele momento, um novo universo se abriu e nos tornamos abruptamente diferentes dela. Diferentes de seu sorriso constante e de sua memória auditiva. Nós fomos colocados em caixinhas distintas. Nós e Lia, separados por uma barreira intransponível estabelecida pela ciência. E isso era só mais uma prova da nossa profunda incompetência para compreender o longo caminho a percorrer para chegar à lucidez.

Por que queremos ser todos iguais? Por que acreditamos que ser igual é bom e positivo? Por que o diferente é visto com desconfiança e medo? De mãos dadas com a pequena­ grande Lia entro em uma jornada de aprendizado pessoal e coletivo.

Lia ainda não percebe os olhares desconfiados de adultos ignorantes e nos conduz suavemente com suas mãos pequeninas e passinhos cheios de curiosidade. Lia, pequenina em corpo e enorme em presença, desafia o igual mostrando a graça do diferente.

*** ALICE FERRAZ

ESTAR BEM

SOB AR POLUÍDO, CRIANÇAS TÊM RISCO MAIOR DE SOBREPESO

Trabalho que analisou 3.000 meninas e meninos na Índia mostra que a poluição pode interferir no mecanismo da saciedade

A exposição prolongada à poluição causa problemas que vão além das doenças respiratórias e pouco imaginadas. Ela contribui para a obesidade. Foi o que mostrou um trabalho conduzido pela Fundação Lung Care e pela Fundação Pulmocare de Pesquisa e Educação (Pure, na sigla em inglês), em Nova Déli, na Índia, que estabeleceu a relação entre a qualidade do ar e o metabolismo humano.

O estudo analisou cerca de 3.000 crianças de 12 escolas indianas localizadas em Nova Déli, uma das cidades mais poluídas do mundo, e também em Kottayam e Mysore.

As duas últimas possuem qualidade de ar melhor. Em Déli, que atinge níveis alarmantes de poluição todos os anos 39,8% das crianças estavam acima do peso; já nas outras cidades mais afastadas, 16,4% eram consideradas obesas. As crianças são mais sensíveis à ação da poluição. A pesquisa também isolou outros fatores de risco para o ganho de peso entre elas.

Segundo o diretor da Pure, Sundeep Salvi, os poluentes do ar contêm os chamados obesogênicos. Criado pela Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, o termo refere-se a substâncias responsáveis por contribuir no ganho de pesos em que a pessoa tenha consciência de que está engordando. Embalagens de alimentos, remédios, tubos de PVC, por exemplo, contêm esses compostos. A ingestão crônica desregula regiões do cérebro que controlam a saciedade e  preferências alimentares.

DOENÇAS RESPIRATÓRIAS

Havia uma suspeita dessa associação, mas agora o trabalho comprova. Estudos anteriores, como da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, apontavam para uma relação entre a poluição nas cidades e problemas de resistência à insulina e hipertensão.

Conforme também observado no estudo, a interferência na insulina, o hormônio que atua no controle do nível de glicose no sangue, pode provocar uma série de distúrbios no metabolismo, levando a diabetes, problemas cardiovasculares e obesidade. O motivo disso são as partículas poluentes que, quando inaladas, são capazes de causar irritações nos tecidos, gerando reações em cadeia que alteram o funcionamento normal do organismo.

As doenças respiratórias também foram analisadas no estudo da Fundação Pulmocare de Pesquisa e Educação. A pesquisa mostrou que as crianças têm um risco 79% maior de ter asma, em decorrência dos poluentes presentes no ar, além de estarem mais propensas a desenvolver outros sintomas de alergia respiratória.

Ao  menos 29,3% da meninas e meninos de Nova Déli apresentaram algum problema nos testes de respiração, contra 22,6% daquelas que moram em Kottayam e Mysore.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O ANO DA COMILANÇA

As preocupações, o isolamento e o trabalho em casa, com comida sempre por perto, fizeram o brasileiro ganhar peso e uma parcela cruzar a perigosa linha da compulsão alimentar

A combinação de rotina alterada, ansiedade, reclusão e finanças incertas, aliada ao trabalho em casa (com lanchinhos ao alcance da mão o tempo todo), resultou em mais um fenômeno a ser cravado na vasta conta dos efeitos pandêmicos: o aumento dos distúrbios de alimentação. Pesquisa do Instituto lpsos mostrou que 52% dos brasileiros engordaram ao longo do último ano e meio, e não foi pouca coisa – a média de aumento de peso é de 6,5 quilos. Amostra inequívoca da subida do ponteiro da balança é o fato de vídeos nas redes sociais com a hashtag # transtornoalimentar estarem na casa dos 60 milhões de visualizações. A título de vago consolo, note-se que quase todo o planeta ficou mais rechonchudo nos meses passados entre quatro paredes. Mais grave ainda, muita gente ultrapassou o limite do eventual ataque à geladeira no meio da noite e ingressou no território minado de distúrbios graves como anorexia, bulimia e, campeão disparado, compulsão alimentar.

Válvula de escape das mais conhecidas quando a vida fica difícil, a comida sempre por perto, seja na própria despensa, seja via aplicativos, contribuiu para desestabilizar pacientes sob controle e aumentar a triste estatística das vítimas dos distúrbios ligados à mesa. Estudo realizado pela Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, constatou que o número de internações de jovens sofrendo desse tipo de mal mais que dobrou nos primeiros doze meses de quarentena. Na Alemanha, levantamento da Clínica Schoen Roseneck, um centro de referência do país, revelou que 41% dos que tiveram alta em 2019 registraram piora dos sintomas no período em que a humanidade se isolou.

Uma nítida manifestação do crescimento dos transtornos alimentares no Brasil está na procura por tratamento nas seis principais clínicas do Rio de Janeiro e de São Paulo, que subiu até 50% (veja no quadro abaixo). Sem poder sair para trabalhar e preocupada com as despesas, a maquiadora Tamiris Sindice, 25 anos, de São Paulo, relata que começou a comprar guloseimas aos montes todos os dias. Saiu da quarentena com 32 quilos a mais, diagnóstico de compulsão e a ponto de desenvolver diabetes e obesidade. “No ápice da doença, deixei de pagar conta para comprar doces”, diz Tamiris, que está com a compulsão sob controle através de antidepressivos e muita terapia. De acordo com o psiquiatra José Carlos Appolinário, da comissão de transtornos alimentares da Associação Brasileira de Psiquiatria, os excessos, se não são tratados a tempo, vão acarretar outros problemas de saúde. “Quase 70% dos diagnosticados com compulsão evoluem para a obesidade”, afirma.

Mesmo antes de a Terra parar, o Brasil já padecia de uma epidemia de excesso de peso – que não decorre, necessariamente, de transtornos como a compulsão alimentar. Segundo o IBGE, entre a população acima de 20 anos, 26,8% são obesos, um índice que mais do que dobrou em comparação com a pesquisa anterior, de 2003. Praga universal, a obesidade, que afeta mais de 40% dos adultos americanos e é por si só um risco para a saúde, também eleva as chances de aparecimento de uma série de doenças de alto risco, como hipertensão, diabetes, hipertrofia cardíaca, câncer de bexiga, acidente vascular cerebral, infarto e apneia de sono.

A linha divisória entre um ou outro episódio de comilança exagerada e o quadro de compulsão é tênue e pode passar despercebida até ser tarde demais e o transtorno estar estabelecido. Considera-se comportamento compulsivo a ingestão exagerada de alimentos em curto espaço de tempo – em geral, menos de duas horas a cada episódio – , mesmo sem nenhum sinal de fome. A pessoa passa a comer de forma acelerada e, em muitos casos, escondida, por vergonha de seu descontrole. No auge da crise, o compulsivo chega a ingerir 20.000 calorias por dia, dez vezes mais do que uma pessoa normal. “Compulsão alimentar não é comer duas fatias de bolo de uma vez. É engolir três bolos inteiros”, compara a nutricionista Marcela Kotait, do Programa de Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas (Ambulim), de São Paulo.

Nos casos mais graves, ingere-se tudo o que se encontra pela frente, inclusive alimentos crus e congelados. “Essa relação de dependência com a comida aprisiona e limita. Não representa prazer de comer, mas, sim, medo e frustração”, diz a psicóloga Fernanda Sader, 23 anos, de Campos dos Goytacazes, no interior do Rio de Janeiro, que engordou 20 quilos no fatídico ano pandêmico. Para a influenciadora Juliana da Motta, 27 anos, de Itaboraí, no estado do Rio, o pior momento foi o dia em que pediu vários pratos de doces e salgados ao mesmo tempo em aplicativos de delivery e acabou passando mal de tanto comer. “Lembro que, enquanto eu me fartava, achava normal e prazeroso. Mas depois me senti muito infeliz, frustrada com o dano que estava causado à minha saúde”, relata.

Os especialistas destacam a necessidade de os familiares estarem sempre de olhos abertos para os sinais de distúrbios alimentares nas pessoas à sua volta, que incluem alterações bruscas de peso, dietas restritivas e estoques de comida escondidos pela casa. “Elas mesmas dificilmente percebem que estão doentes”, alerta a psicóloga Patrícia Xavier, da Associação Brasileira de Transtornos Alimentares (Astral). A influenciadora digital Camila Monteiro, 30 anos, de São Paulo, começou a ganhar peso ainda na adolescência, mas só em 2019 foi diagnosticada com compulsão alimentar. Tratou-se, controlou o distúrbio, mas, no isolamento da pandemia, sofreu um aborto espontâneo e os episódios recomeçaram. “A causa da minha recaída foi um conjunto de fatores. Não podia visitar amigos, nem sair de casa para arejar a cabeça. Até minha psicóloga só me atendia remotamente, e passar por tudo o que passei on-line é muito diferente de estar cara a cara com quem pode te confortar”, explica. Com tratamento e terapia, Camila voltou a se estabilizar e está grávida de gêmeos. Sabe, no entanto, que precisa estar sempre alerta para conseguir vencer uma doença insidiosa que, em épocas de crise, ataca com mais vigor ainda.

OUTROS OLHARES

O INIMIGO OCULTO

Ainda pouco debatida no brasil, a remoção de camisinha sem o consentimento de uma das partes é crime e pode levar à prisão

Medo, angústia, nojo. As palavras usadas por uma estudante de 22 anos ao descrever o que sentiu quando um parceiro tirou a camisinha sem o consentimento dela durante o sexo, revelam as marcas que a violação lhe deixou.

“Só percebi quando ele se levantou para urinar e a camisinha não estava mais lá. No início, fiquei em dúvidas e eu não tinha reparado que ele havia tirado após o ato. Depois, entrei em completo choque, principalmente, sabendo que havia gozado dentro de mim”, recorda-se.

A jovem, que prefere não ter o nome identificado, assim como os demais entrevistados desta reportagem, foi vítima de um crime que só agora começa a ganhar espaço no debate nacional, impulsionado pelas redes sociais e por programas de TV. Além disso, a prática, que em países de língua inglesa é nomeada stealthing (ocultação, dissimulação), já foi tipificada como crime em alguns locais, como aconteceu recentemente na Califórnia, nos Estados Unidos, evidenciando ainda mais a sua gravidade.

Apesar de não ter tradução para o português, esse tipo de violação não passa incólume pela nossa legislação. Segundo a advogada Thais Pinhatá, mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo, a prática é contemplada pelo artigo 215 do Código Penal, que estabelece como crime ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima. Quando isso acontece, ela lembra, a pena prevista é de dois a seis anos de prisão.

Thais reconhece que ainda são poucos os casos levados à Justiça e, quando isso acontece, correm em segredo. Mesmo assim, ela observa que a chamada persecução penal já é uma realidade. “A polícia recebe a denúncia e encaminha para o Judiciário, que tem se posicionado contra essa atitude.”

Outro ponto salientado pela advogada é como o SUS demonstra eficiência em acolher as vítimas. O sistema oferece atendimento psicológico, além de medidas preventivas de saúde, como a disponibilização de medicamentos voltados a doenças sexualmente transmissíveis e da pílula do dia seguinte. O quadro muda, porém, quanto ao direito ao aborto legal, já que alguns hospitais se recusam a compreender a prática como violência sexual.

Isso aconteceu com uma enfermeira, de 31 anos, que, além do anonimato, pediu que o estado onde vive não fosse revelado. “Tive um relacionamento de cinco meses com um homem que demonstrava querer estabelecer um vínculo emocional mais forte comigo. Ele falava em termos um filho, e sempre deixei claro que não queria”, conta. “Na última vez em que fizemos sexo, notei que fez um movimento com a mão, e perguntei se havia tirado a camisinha. Ele me respondeu que saiu ‘sem querer’, mas que gozou dentro do preservativo. Quando fui ao banheiro, vi que não era verdade.”

A enfermeira chegou a tomar a pílula do dia seguinte, mas o medicamento não funcionou, e ela se viu grávida poucas semanas depois.

Buscou ajuda de um hospital, onde recebeu atendimento psicológico, mas, ao reivindicar o direito ao aborto, teve o pedido enviado para análise pelo setor jurídico. “Eu sabia que tinha sofrido um crime sexual, mas eles não”, lamenta. “Só conseguem entender isso em casos de estupro como aqueles em que o criminoso agarra a mulher e a violenta. Foi constrangedor passar por isso.”

O tempo corria, e a enfermeira decidiu encontrar soluções alternativas, com medo de que ficasse tarde demais para que pudesse interromper a gravidez em segurança. Foi quando chegou até o grupo Milhas Pela Vida da Mulheres, por meio do qual recebeu orientação sobre o caso e apoio financeiro para buscar atendimento num estado vizinho. “O que mais me indigna nessa história é a falta de respeito pela minha palavra. Eu dizia a ele que não queria um filho, mas era como se o que eu falasse não tivesse peso algum”, desabafa.

Idealizadora da campanha que auxiliou a jovem, a diretora e roteirista Juliana Reis afirma que, pelo fato de a violência contra a mulher ser tão naturalizada, muitas vítimas ainda têm dificuldade de compreender a gravidade de uma violação como essa. “Ainda chegam até nós dizendo que estão grávidas porque ‘vacilaram’. Mas, quando a conversa avança, entendemos que tem um boa noite Cinderela por trás, por exemplo”, diz. “O que fazemos no Milhas é mostrar a lei para que as próprias mulheres entendam pelo o que passaram.”

Embora a comprovação de crimes sexuais envolva certa complexidade, a advogada Thais Pinhatá afirma que, nos últimos anos, os depoimentos das vítimas ganharam mais peso nos processos. Ainda assim, ela salienta a importância de se cercar de provas nessas situações. ”O ideal é buscar imediatamente a delegacia e o Instituto Médico Legal para a coleta de material biológico”, aconselha.

Thais lembra também que não são apenas as mulheres que estão suscetíveis a esse tipo de violação. Afinal, menciona, além das relações heterossexuais, o preservativo também é usado no sexo entre homens, por exemplo.

Foi através da série ”I may destroy you”, lançada no ano passado pela HBO, em que a protagonista é vítima de stealthing, que um estudante de administração, de 28 anos, entendeu a gravidade do que viveu três anos antes. Fiz sexo com um parceiro e, cinco meses depois, ele me telefonou bêbado, dizendo que havia tirado a camisinha”, conta. “Na época, ainda não era um tema debatido, e fiquei sem reação. Quando vi a série, a ficha caiu sobre como a atitude dele poderia ter me causado um mal muito maior.”

O rapaz descobriu, posteriormente, não ter contraído nenhuma DST, o que lhe trouxe alívio.

Mas o impacto psicológico já havia sido causado. “Nunca mais consegui me deixar penetrar, porque tenho medo de que voltem a fazer isso comigo”, afirma.

Desconforto semelhante é relatado pela estudante de 22 anos citada no início da reportagem. Ela conta ter levado um bom tempo até conseguir se relacionar sexualmente com outra pessoa. Ainda assim, quando acontece, sente dificuldade. “Desde então, fico de olho durante todo o ato para ver se a camisinha ainda está ali, o que atrapalha meu prazer.”

Segundo Paula Rita Bacellar Gonzaga, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais, muitas vítimas sofrem com consequências como essa justamente por ser uma violência relativizada e tratada com descaso pelo poder público. “Isso dificulta que o sujeito possa se sentir seguro novamente”, afirma. Exatamente por isso, o debate se faz tão urgente. “Não há nada que a vítima poderia ter feito para evitar a violência sexual, mas podemos, enquanto sociedade, mudar as lentes pelas quais lemos e analisamos essas histórias.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 26 DE NOVEMBRO

OLHAR ORGULHOSO E CORAÇÃO SOBERBO

Olhar altivo e coração orgulhoso, a lâmpada dos perversos, são pecado (Provérbios 21.4).

O orgulho foi o pecado que levou Deus a expulsar do céu o querubim da guarda. Quando esse anjo de luz, sinete de perfeição, intentou no seu coração ser igual a Deus, desejando colocar seu trono acima dos outros anjos, Deus o arrojou para fora do céu. O orgulho foi o primeiro pecado, que abriu a porta para todos os outros. Deus não tolera a soberba. Ele declara guerra contra os altivos de coração. Humilha aqueles que se exaltam. Tanto o olhar arrogante quanto o coração orgulhoso são pecados abomináveis aos olhos de Deus, embora esses pecados sejam invisíveis à percepção humana. Esses pecados não podem ser apanhados pelas lentes da terra. Não temos conhecimento suficiente para detectá-los. Não conseguimos penetrar nas profundezas da alma para investigar as motivações. Nossos tribunais não são competentes para julgar foro íntimo. Deus, porém, não apenas vê nossas obras e ouve nossas palavras, mas também sonda nossas motivações. Nada escapa de sua peneira fina. Nada pode ser ocultado de seus olhos. Ele tudo vê e tudo sonda. O reto e justo Juiz, diante de quem teremos de comparecer para prestar contas da nossa vida, conhece-nos por dentro e por fora, conhece nossas palavras antes que cheguem à boca e conhece nossos pensamentos antes mesmo que eles povoem nossa cabeça.

GESTÃO E CARREIRA

NEGROS LUTAM PARA OCUPAR POSTOS DE LIDERANÇA

Questão de gênero, com mulheres brancas, avança mais rapidamente em conselhos de administração; 77% das empresas não têm metas para inclusão racial no alto escalão

A inclusão de pessoas negras nos boards das empresas deixa a desejar, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) publicada neste ano. Feita com 86 companhias, mostra que 77%delas não têm metas para ampliar a participação de negros na liderança. E, na interseccionalidade entre raça e gênero, sequer há menção a mulheres negras nesses espaços.

Outro levantamento deste ano, da consultoria Spencer Stuart, mapeou 211 empresas brasileiras listadas na B3, a Bolsa de São Paulo. Na amostra, as mulheres ocupam 14,3% das posições em conselhos, sem especificação de raça. Em 2020, esse porcentual era de 11,5%.

“Estamos tendo um avanço, principalmente em gênero, mas os números não refletem o que se vê no discurso. Na nova onda de IPO (abertura de capital), 40% das empresas não tinham nenhuma mulher no conselho”, observa Jandaraci Araújo, conselheira do CIEE São Paulo e cofundadora do Conselheira 101, programa voltado a ampliar a presença de mulheres negras em conselhos.

Executiva de sustentabilidade e ex- subsecretária de Empreendedorismo, Pequenas e Médias Empresas do Estado de São Paulo, Jandaraci pontua que não olhar para a interseccionalidade é um problema estrutural. “Somos 27% da população, mas nos conselhos de administração, na alta liderança, o número é muito baixo, nem de longe corresponde”, diz ela, que é conselheira emérita do instituto Capitalismo Consciente Brasil.

COMO MUDAR?

Iniciativas como o Conselheira 101, que ainda tem entre as fundadoras a executiva de tecnologia Lisiane Lemos (Google) e a executiva de finanças Elisangela Almeida, têm surtido efeito. O programa leva às lideranças femininas negras conhecimentos sobre o papel de um membro de conselho, responsabilidades, formação, desafios e incentiva o networking. Das 18 participantes da primeira turma, em 2020, sete (38%) já ocupam posições em conselhos de administração, fiscal, consultivo ou comitê.

Apesar de o networking ser importante, a diversidade nos conselhos só será viável quando a indicação deixar de ser o único critério. Processos seletivos nas empresas e busca ativa por profissionais diversos podem ajudar a equilibrar o perfil dos boards. Na Exec, consultoria de RH especializada em alta gestão, a demanda por diversidade tem se intensificado, conta o sócio Sergio Simões, que acredita que a mudança está vindo. “Todas as avaliações que estamos fazendo estão culminando com troca de conselheiros. As empresas que ainda estão nessa história de ser indicado, estão se prejudicando. Aquelas que manejam de verdade o propósito, têm conhecimento, encaram isso bem. As que não querem ter debates mais quentes que vão levar a mudanças não querem que façam diagnóstico”, observa.

EU ACHO …

NÃO  DEIXE PASSAR EM BRANCO

Em busca de um novo terninho para dar uma atualizada no guarda roupa, entro sozinha numa loja. Experimento uns três ou quatro, mas o caimento não me convence. Sou meio chata emrelação a cortes e ao ajuste deles no corpo.

Apesar de cliente assídua, desta vez saio com minha bolsa a tiracolo, mas de mãos vazias do estabelecimento, em busca de outras opções.

Se esta jornada se parece com a sua num dia qualquer de compras, estamos na mesma página. Mas a partir daqui, se você não tem a pele negra, há muito menos chances de ter vivido algo parecido com os próximos capítulos desta história. Mas saiba, desde já, que, vivendo ou não situação semelhante, tem igual responsabilidade em fazer com que eles não se repitam.

Ao sair da loja, o alarme soa. Minhas mãos ficam suadas e trêmulas. Sei que não fiz nada de errado, mas já sentia que poderia ser alvo de uma revista indesejada. Ao meu lado, saindo da loja ao mesmo tempo que eu, duas moças brancas.

O segurança veio atrás somente de mim e pediu para que eu abrisse a bolsa. Fez uma revista e me deixou sair. Perguntei por que não tinha revistado as outras moças. Ele alegou que o alarme tocou na minha hora. Virou as costas e entrou novamente na loja.

O episódio aconteceu anos atrás, mas esta humilhação não sai da memória tão facilmente. É um marco psicológico tamanho que me faz ainda temer alarmes de lojas. Além de sempre ter o cuidado ao abrir a bolsa no ângulo certo para que a câmera de segurança possa visualizar que não estou roubando nada. Mas isso não pode ser normalizado.

Na época deste episódio, eu ainda não conseguia verbalizar minha dor e nomear este tipo de racismo. Ainda não tinha tanta consciência sobre os meus direitos como tenho hoje e sei que ainda há muito a aprender. Mas também sei que, mediante a episódios como este, não há fórmula mágica da nossa reação. E que não é preciso nem ser seguido numa loja para saber que pessoas negras e indígenas no Brasil são vistas como suspeitas.

Difícil estar sempre pronto para enfrentar uma das diversas manifestações do racismo. A mais cruel é a que pode levar à morte de quem é visto com a cara de suspeito. Humilhações são infelizmente muito mais recorrentes do que as que vemos em casos midiáticos, como a da loja que usava um código para identificar “suspeitos”.

Na mesma semana, uma rede de supermercados vendia bandejas vazias de carne em regiões periféricas com predominância negra para evitar que as carnes fossem roubadas.

Sei que muitos de nós desacreditamos na punição, mas ainda assim precisamos não deixar passar em branco casos como estes. É necessário desbanalizar e denunciar todos os casos de racismo e de qualquer tipo de discriminação.

Precisamos aprender a verbalizar e dar nome àquilo que passamos. E entender que, se você já viveu algo parecido, não é coisa da sua cabeça ou caso isolado. É parte do racismo estrutural. Um dos passos para romper com a estrutura é dar nome a ela.

E se você não viveu, não viu ou não sabe se o que você viveu é um caso criminalizável de racismo, ainda assim é importante entender que ele existe e que você também faz parte dessa estrutura E, portanto, é corresponsável para a construção de uma sociedade antirracista e menos discriminatória.

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

ESTAR BEM

MUITO ALÉM DA FORÇA

Novos estudos apontam a ação benéfica de substâncias produzidas pelos músculos

Os benefícios dos exercícios superam em muito a ultrapassada visão de que proporcionam apenas emagrecimento e condicionamento cardiovascular. Eles ajudam, a prevenir e controlar de doenças tão variadas quanto câncer, diabetes, demências, fragilidade óssea e inflamação. E por trás desse poder todo estão pelo menos 650 substâncias produzidas pelos músculos esqueléticos, quando exercitados. Elas são tão potentes que podem até mesmo melhorar a resposta do sistema imunológico à vacinação contra a Covid-19.

Algumas dessas substâncias são recém-descobertas e a função de somente 5% delas é conhecida, revela uma revisão de estudos publicada pela revista científica Frontiers in Physiology. Chamada “The role of the muscles secreto me in bealth and disease” (“O papel do secretoma dos músculos em saúde e doença”, em tradução livre), ela mostra o estado da arte sobre o conhecimento da complexa bioquímica dos músculos. O secretoma muscular é o conjunto das substâncias produzidas pelos músculos.

O pouco que já se descobriu maravilha cientistas e abre caminho para um uso ainda mais  eficiente da atividade física na prevenção e combate das doenças, além de retardar o envelhecimento. Os músculos ativos ajudam até mesmo a tornar a pele mais saudável.

Mais do que força e sustentação, os músculos são fábricas de bálsamos para a boa vida. Estes são hormônios, fatores de crescimento, substâncias do sistema imune, toda uma gama de proteínas poderosas.

Essa fábrica funciona movida pela contração muscular feita toda vez que os músculos são exercitados. Ela produz substâncias chamadas coletivamente de miocinas, que fazem a comunicação dos músculos com outros órgãos, como sistema imunológico, cérebro, fígado, pâncreas, ossos, intestinos, pele, tecido adiposo (gordura) e vasos sanguíneos. Também são fundamentais para a hipertrofia, regeneração e funcionamento dos próprios músculos. Não à toa, cientistas recomendam exercícios para pessoas com câncer,  diabetes e doenças neurodegenerativas.

ÓRGÃO ENDÓCRINO

Combinados, os cerca de 700 músculos esqueléticos (o número varia entre 650 e 840, não há consenso na literatura científica) são maior órgão endócrino do corpo, afirma o especialista em medicina do esporte, Claudio Gil  Araújo, diretor da Clínica de Medicina   do Exercício (Clinimex).

Os músculos são o órgão mais pesado do corpo, correspondem a cerca de 40% do nosso peso. Mas suas funções bioquímicas são ainda mais significativas. Eles produzem miocinas exclusivas, mas também fazem e liberam substâncias comuns a outros órgãos.

Um exemplo dos efeitos benéficos dos músculos exercitados vem de uma recém­ publicada pesquisa de cientistas brasileiros, ainda em preprint (não revisada pelos pares) . Realizada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e de outras instituições, ela mostrou que a atividade física melhora a resposta à vacinação contra a Covid-19, mesmo em pessoas com comprometimento do sistema imunológico.

Os cientistas analisaram a diferença da resposta à CoronaVac em pessoas com doenças reumáticas autoimunes. As que eram fisicamente ativas produziram mais anticorpos do que as sedentárias, explica um dos autores do estudo, Hamilton Roschel, coordenador do Grupo de Pesquisa em Fisiologia Aplicada e Nutrição da Escola de Educação Física e da Faculdade de Medicina da USP.

“Tudo funciona melhor em quem faz exercício regular: o sistema imunológico, o cardiovascular, o metabolismo, o cérebro”, frisa Roschel.

Quando nos exercitamos, uma orquestra começa a tocar. O maestro é a contração muscular e os músicos, as miocinas. Elas tocam em resposta de umas às outras. Compõem uma melodia. Quanto mais atividade física e, portanto, contração muscular, mais os músicos tocam, liberando outras substâncias, notas musicais que dão o ritmo do organismo. Já o sedentarismo é silêncio e desarmonia, isto é, doença.

Algumas miocinas, por exemplo, captam a glicose no sangue e reduzem a glicemia. São um tratamento natural para o diabetes. Outras respondem à vasodilatação, remodelam ao endotélio (o revestimento do interior dos vasos sanguíneos) e, com isso, reduzem a hipertensão.

O exercício atua sobre a morfologia cerebral. A ação é tão profunda que eles atuam sobre os micro RNAs e, com isso, ajudam a regular a síntese de proteínas. E a prática regular de exercícios reduz a inflamação, um dos grandes males da vida moderna, afirma o estudioso da fisiologia dos músculos, José Cesar Rosa Neto, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.

Estimulados por exercícios, os músculos liberam substâncias com ação anti- inflamatória. São as interleucinas 4, 6, 10 e 13. Só há relativamente pouco tempo, a ciência descobriu que os músculos e não apenas as células do sistema imunológico produzem essas substâncias.

A interleucina 6 (lL-6) ganhou destaque na pandemia, por sua associação com o agravamento da Covld-19. Quando elevada, é gatilho para temida tempestade de citocinas (ela própria é uma delas), desequilíbrio inflamatório que pode matar.

Muita IL-6 quase sempre é sinal de problemas para Covid -19 e outras doenças inflamatórias. Mas não quando o exercício entra em campo. Rosa Neto diz que durante o exercício o nível de lL-6 chega a aumentar cem vezes. Mas decai tão depressa quanto aumenta. E nesse meio tempo, combate inflamações. É como se a IL-6 sofresse de bipolaridade. Se persistentemente elevada, caso da Covid-19 e outras doenças, ela gera inflamação grave. Já doses altas e breves têm efeito oposto e benéfico.

A relação com a IL-6 exemplifica toda a complexidade envolvida na ligação entre músculos e o resto do organismo. Nessa orquestra, intensidade e duração do exercício dão o tom, diz Rosa Neto. Às vezes, preciso mais tempo, provável caso da maioria das miocinas de  ação anti-inflamatória. Mas em outros é a intensidade que dá a nota certa.

Um  exemplo é a interleucina 15, que tem ação anti­tumoral. Os músculos a secretam quando submetidos a exercícios intensos. A IL-15 ativa a produção dos linfócitos T killers . Essas células do sistema imunológico patrulham o organismo em busca de células infectadas ou defeituosas (caso das cancerígenas) e as matam.

Para algumas substâncias, é preciso mais do que tempo e intensidade. É o caso do BDNF, envolvido no bom funcionamento dos neurônios. Para que seja liberado, é preciso que os músculos das pernas sejam exercitados. Os dos braços não têm influência, observa Rosa Neto.

Se fazer atividade física faz tão bem, a ausência de movimento faz mal. Se mexer em qualquer nível é fundamental. A atividade física é imprescindível para manter o organismo funcionando em equilíbrio, afirma a ciência.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO IDENTIFICAR UM ‘VICIADO EM AMOR’

A definição inclui aquelas pessoas que se mantêm em relacionamentos tóxicos, e cerca de 10% dos jovens se encaixam nesse perfil, com características semelhantes às dos dependentes em jogos de azar ou álcool. Saiba como sair de situações ruins

Tara Blair Bali, uma coach de relacionamentos americana, conheceu seu ex no site Match. com. Eles se conectaram imediatamente. Na primeira ligação, conversaram durante oito horas – tanto tempo que Tara chegou tarde no trabalho e foi demitida:

“Eu interpretei como um sinal de que eu deveria estar conectada a ele”, disse rindo.

Quando os sinais de alerta começaram a aparecer, Tara não prestou atenção:

“Ele começou a agir com ciúmes e queria saber onde eu estava, o que estava fazendo, com quem eu estava falando…

Ela via isso como afeto:

“Rapidamente estávamos falando sobre casamento. Eu sentia como se não pudesse ficar longe dele por muito tempo, eu ficava em abstinência”.

Se a situação parecia trazer algumas marcas de um vício, é porque ela trazia mesmo. E, como muitos viciados, Tara levou um longo tempo para reconhecer que ela estava vivendo um “vício em amor”.

A definição do “vicio em amor” é difícil de entender. O grupo Sex and Love Addicts Anonymous (“viciados em sexo e amor anônimos”) o descreve como uma dependência extrema em uma pessoa por meio da qual “relacionamentos ou atividades sexuais se tornam cada vez mais destrutivos para a carreira, família e senso de respeito próprio”.

Para Helen Fisher, pesquisadora sênior da Universidade de Indiana e uma das principais especialistas no assunto, a definição inclui qualquer relacionamento que leve a um ”desejo obsessivo e pensamento intrusivo”

Uma análise sobre 83 estudos estimou que cerca de 3% da população já teve um problema sério com “vício em amor”. Esse número é de cerca de 10% entre jovens adultos. Olhando no TikTok, rede social em que Tara começou a compartilhar suas experiências, o número de viciados em amor talvez seja até maior.

A hashtag #ToxicRelationship (‘relacionamento tóxico’) tem mais de 1,7 bilhão de visualizações, e termos como ‘love addiction” (vício em amor),”love addict” (viciado em amor) e “codependency” (codependência), chegam a 320 milhões de menções.

Seja contando suas histórias ou reagindo às dos outros, as pessoas estão encontrando cura e comunidade no aplicativo, postando os sinais do “vício em amor’ ‘com memes e dicas.

Onde quer que você decida compartilhar suas experiências, é importante ser capaz de reconhecer quando um romance dos sonhos se transforma no “vício em amor”.

Mas o vício é mesmo real?

“(Para) qualquer pessoa que diga não ser um vício, tudo que eu posso lhe dizer é que nós olhamos dentro do cérebro”, disse Helen Fisher.

Por meio de uma ressonância magnética funcional, a pesquisadora e seus colegas estudaram amor romântico e encontraram atividade cerebral aumentada em uma região chamada de núcleo accumbens, “que se torna ativa quando qualquer coisa vira um vício – álcool, nicotina, cocaína, heroína, anfetaminas ou qualquer uma dessas coisas”, explicou Fisher.

Mas algumas pessoas na própria comunidade científica não aceitam o “vício em

amor’ como diagnóstico.

“Vício em amor é um conceito contestado”, diz Brian D. Earp, diretor associado do Programa de Ética e Política de Saúde de Yale-Hastings, da Universidade de Yale, que estudou o fenômeno.

Ele observou que algumas das discordâncias se resumem à própria definição de amor.

“Alguns filósofos feministas argumentam que, se um relacionamento é tóxico ou abusivo, ele não deveria nem ser chamado de amor”, diz Earp, que acrescenta que algumas pessoas preferem o rótulo “vício em comportamentos de relacionamentos tóxicos”.

Para deixar ainda mais complicado, especialistas também não concordam na definição de vício. Earp afirma que alguns neurocientistas acreditam que algo chamado de vício precisa ser ruim para você.

Portanto, “se você depende de uma atividade que pode ser classificada como prejudicial para sua saúde, mas é totalmente compatível com uma vida próspera, alguns especialistas diriam que não há razão para chamar isto de vício”, concluiu.

Quer você acredite ou não no “vício de amor”, pensar em um relacionamento tóxico como um vício pode ser útil para alguém que esteja lidando com as consequências de uma parceria doentia.

“Em resumo, um relacionamento doentio tende a envolver a procura por uma onda de dopamina e envolve poder e controle”, diz Steven Stussman, professor de medicina preventiva, psicologia e assistência social na Universidade do Sul da Califórnia.

Aqueles que estão passando por uma experiência de vício em amor “têm o padrão de comportamento de um viciado”, acrescenta Steven, incluindo mudanças de humor, do desespero à euforia, e uma disposição em tolerar o abuso. Além disso, a personalidade pode mudar, levando a alterações no estilo de vida ou a uma tendência em distorcer a realidade.

Especialista em alfabetização, Synthia Smith, disse que sucumbiu a esses sentimentos com seu agora ex-namorado:

“A perspectiva de viver sem ele era insuportável, eu estaria emocionalmente morta”, lembrou Synthia.

Esse medo era tão grande que ela permaneceu no relacionamento por anos apesar dos sinais de alerta, como a vez em que descobriu o perfil dele em um site de namoro. Ao ser confrontado, ele alegou que estava lá para fazer contatos profissionais e a envergonhou por tocar no assunto.

Envolver-se com alguém que compromete sua saúde mental pode ser uma experiência assustadora e solitária. Quer você acredite ser um “viciado em amor” ou apenas alguém que precisa de ajuda para sair de uma situação ruim, existem atitudes saudáveis a serem tomadas.

TENHA UMA COMUNIDADE

Katlynn Rowland, empresária da Flórida, estava envolvida com um homem que abusava emocionalmente dela quando encontrou os TikToks de Synthia Smith sobre gaslighting.

“Pela primeira vez, parecia que estava sendo validada e que não estava louca”, disse.

Os vídeos de Synthia deram a Katlynn a coragem para deixar seu ex-namorado – e para postar sobre isso no TikTok.

“No começo, estava com medo de postar porque sabia que ele iria enlouquecer. Mas desde que Synthia disse que ela não ligava para o que seu ex pensava mais, fui capaz de me livrar daquele medo”.

Brian D. Earp diz que essa é uma experiência comum:

“Pode ser reconfortante para as pessoas dar um sentido público à sua experiência em vez de apenas considera-la um fenômeno privado.

EDUQUE-SE

“É importante educar a si mesmo sobre como o “vício em amor” funciona para você, para entender as camadas e nuances de como ele atua na sua vida”, explica Kerry Cohen, terapeuta e escritora. Isso pode incluir encontrar um grupo de apoio – como o Sex and love Addicts Anonymous – e conversar com um terapeuta ou um psiquiatra especializado em “vicio em amor”. É importante consultar um profissional, e não fazer um autodiagnóstico.

USE AS MENSAGENS DE TEXTO DE FORMA SAUDÁVEL

Conversar por mensagens de texto pode ser um potencial campo minado para os viciados no amor, pois muitas vezes há espaço para falhas de comunicação, levando à ansiedade. Kery Cohen afirma que essas pessoas devem evitar falar sobre sentimentos por mensagem de texto com o parceiro, sobretudo emoções negativas:

“Esta será uma boa prática para você controlar seus sentimentos até poder falar pessoalmente, e pode lhe dar a pausa necessária para saber como responder sem reagir.

PARE DE GUARDAR SEGREDOS

Muitas pessoas viciadas em amor mantêm partes de suas vidas em segredo de seu parceiro para obter o que Cohen chamou de “senso artificial de autonomia”, uma maneira de evitar conflitos. Embora privacidade seja apropriada em um relacionamento, guardar segredos não é.

Viciados em amor muitas vezes, “mentem sobre seu passado e tentam ser alguém que eles acreditam ser quem o parceiro queria que eles fossem” escreveu Cohen em seu livro. Ela aconselha os parceiros a compartilharem honestamente um com o outro, especialmente sobre suas lutas com vício em sexo ou amor.

CORTE OS CONTATOS

Depois de construir uma rede de apoio você pode decidir se, quando e como deve acabar um relacionamento tóxico. Com seu terapeuta, considere evitar qualquer forma de comunicação com o ex­ parceiro que possa desencadear sentimentos renovados de desejo e retardar a cura.

Os programas de 12 passos geralmente aconselham os viciados a remover tudo que pode relembrar o vício, incluindo todos os contatos nas redes sociais, fotos, músicas ou lembranças.

TENTE UM PLANO DE NAMORO

Pode ajudar desenvolver um plano de namoro com seu terapeuta, que pode ser um guia útil para encontrar um relacionamento novo e saudável. Comece identificando uma ação que trouxe consequências negativas em seu passado.

Alguns viciados em amor podem fazer sexo muito rapidamente com um parceiro e, com isso, ficarem muito apegados. Assim, pode ser útil estabelecer uma regra para apenas fazer sexo depois de entrar em um relacionamento sério.

“Ninguém sai do amor com vida. As pessoasvivem por amor, matam por amor e morrerão pela pessoa amada. É um dos sistemas mais poderosos do cérebro que desenvolvemos”, diz Fisher.

Depende de você se essa energia será aproveitada para uma experiência romântica positiva ou negativa.

OUTROS OLHARES

TERRENO INFÉRTIL

Novas regras e projeto em tramitação limitam reprodução assistida no país

A professora de inglês e assistente virtual Vivian Cerqueira Sampaio, de 40 anos, sonhava ser mãe. Aos 36, começou a tentar engravidar, mas o processo se mostrou mais difícil do que imaginava. Depois de um aborto espontâneo e mais de um ano de tentativas, ela e o marido resolveram buscar um especialista. Após muitos exames e a notícia de que a endometriose poderia estar atrapalhando, eles partiram para a fertilização in vitro (FIV). Mas o tão desejado bebê não chegou. Ao menos não imediatamente. Foi só na terceira tentativa que isso aconteceu, e hoje, grávida de cinco meses, ela espera radiante a chegada do pequeno Cadu.

Nesse processo. Vivian pensou em desistir em diversosmomentos. Mas logo a vontade falava mais alto.

“Para mim, ser mãe é um sonho. O problema é que eu tinha medo de muitas coisas e isso aumentou depois da primeira perda. Acredito que precisamos usar os recursos da medicina a nosso favor e estou superfeliz que deu certo”, comemora.

O caso dela está longe de ser isolado. A reprodução assistida vem ajudando a realizar o sonho de um número cada vez maior de pessoas. O último levantamento disponível, feito pela Anvisa, revela que em 2019 foram 44.663 procedimentos. O número é 3,6% maior que no ano anterior e mais que o dobro da quantidade de ciclos realizada e, 2012. Além da  FIV, existem outras opções de tratamento para infertilidade, incluindo indução da ovulação com sexo em dia programado e inseminação intrauterina – a famosa inseminação artificial. Mas, em muitos casos, a fertilização in vitro, quando o embrião é formado em laboratório, é a única indicação possível.

RESOLUÇÃO RESTRITIVA

Nas últimas décadas, o procedimento evoluiu muito, com a incorporação de novas tecnologias que aumentaram a taxa de sucesso, ao mesmo tempo em que o tornaram o  procedimento mais seguro. Entretanto, alguns acontecimentos recentes no Brasil colocam o futuro da prática em risco. Por exemplo, a nova resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM), válida desde 15 de junho, restringe a oito o número de embriões que podem ser gerados em laboratório em tratamentos do gênero.

Em tratamentos de fertilização, ocorre o chamado funil da fertilidade. Da fecundação ao desenvolvimento dos embriões, as perdas são grandes. Para se ter ideia, um estudo feito pelo Brigham Women’s Hospital, ligado à Universidade Harvard, nos EUA, indica no mínimo o dobro – 16 óvulos – para obter bons resultados. Para o ginecologista Maurício Chehin, especialista em reprodução assistida e coordenador científico do Grupo Huntington, é difícil entender os motivos que levaram à decisão.

“Do ponto de vista científico, é um retrocesso técnico, porque à medida que eu limito o número de embriões, limito as chances de gestação e o custo do tratamento. Cada país tem regras próprias, mas a enorme maioria tem regras menos restritivas”, diz.

Outro fato recente que pode impactar o futuro do acesso ao procedimento é a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que desobrigou os planos de saúde a custear a fertilização in vitro, “salvo disposição contratual expressa”. Na prática, a maioria dos planos não cobria os tratamentos, mas o que aconteceu nos últimos anos é que muitos pacientes passaram a judicializar a questão e ganhar.

A decisão foi dada em recurso repetitivo, ou seja, deverá ser seguida por todos os juízes e tribunais do país. Ela também é relevante por tratar de um procedimento caro, com preço médio de R$ 20 mil. Alguns centros do Sistema Único de Saúde (SUS) oferecem o serviço, mas a oferta é baixa pela demanda e a fila de espera pode chegar a três anos.

“A decisão não é uma novidade, mas ela enterra qualquer esperança de que os planos de saúde pudessem vir a cobrir os procedimentos. A infertilidade é uma doença como qualquer outra e quem a enfrenta deveria ter acesso a tratamento. Além disso, o direito ao planejamento familiar está previsto na Constituição” – ressalta o especialista em medicina reprodutiva Matheus Roque, da Clínica Mater Prime, em São Paulo.

Segundo o especialista, a infertilidade é uma das cinco doenças mais comuns em todos o mundo, afetando de 15 a 20% dos casais. Ela vem associada a diversas outras condições, como aumento de depressão, ansiedade e problemas no relacionamento.

PROJETO DE LEI

Outro movimento com potencial prejudicial aos tratamentos é um projeto de lei sobre reprodução assistida proposto em 2003 que tramita na Câmara dos Deputados. Criado pelo então senador Lucio Alcantara (PSDB-CE), o PL.1184/2003 prevê a limitação da fertilização de apenas dois óvulos, a proibição da biópsia embrionária, do congelamento de embriões e da doação de óvulos, e ainda retira a anonimidade dos doadores de sêmen e da ovodoações já realizadas. A PL ainda prevê a proibição da gestação de substituição, popularmente conhecida como barriga solidária, na qual uma mulher cede o útero para gestar o feto de outra pessoa sem participação genética.

“Caso seja aprovado, isso poderia acabar com a reprodução assistida no Brasil. Esse projeto contraria tudo o que está acontecendo no mundo. Em 2003, quando foi criado ele já era retrógrado, imagina 18 anos depois. A técnica evoluiu muito nesse período”, alerta Edson Borges, especialista em reprodução humana e diretor científico do Fertility Medical Group, em São Paulo.

A infertilidade, definida pelo fracasso em engravidar após um ano ou mais de sexo frequente sem proteção, vem crescendo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), ela afeta entre 48 milhões de casais e 186 milhões de indivíduos. No Brasil, são cerca de 8 milhões. As causas do problema são diversas. Estima-se que cerca de 35% dos casos estão relacionados à mulher, outros 35% ao homem, 20% a ambos e  10% são provocados por causas desconhecidas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 25 DE NOVEMBRO

O CULTO QUE AGRADA A DEUS

Exercitar justiça e juízo é mais aceitável ao Senhor do que sacrifício (Provérbios 21.3).

Os homens sempre pensaram que poderiam agradar a Deus com a abundância de seus sacrifícios. Sempre levaram suas ofertas ao altar imaginando que aquilo que impressiona os homens também impressiona Deus. O Senhor, porém, não se deixa enganar. Ele se agrada mais de obediência do que de sacrifícios. Exercitar justiça e juízo é mais aceitável aos seus olhos do que lhe apresentar milhares de oferendas. Fazer o que é direito e justo é mais agradável a Deus do que lhe oferecer sacrifícios. Antes de receber a oferta, Deus precisa aceitar o ofertante. Não pode existir um abismo entre a vida do ofertante e a sua oferta. A Palavra de Deus diz que Deus rejeitou Caim e sua oferta. Uma vez que a vida de Caim não era correta, sua oferta não foi aceita. Quando o ofertante está com a vida errada, seu sacrifício se torna abominável para Deus. Muitas vezes, o povo de Israel tentou comprar Deus com suas ofertas. A vida estava toda errada, mas queriam impressionar Deus com a abundância de seus sacrifícios. Pela boca do profeta Miqueias, Deus disse ao povo: Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus (Miquéias 6.8).

GESTÃO E CARREIRA

AS LIÇÕES DE QUEM PEDIU DEMISSÃO PARA BUSCAR MAIS ALEGRIA NO TRABALHO

De falta de compaixão da chefia a jornadas excessivas, motivos não faltam para repensar a carreira no pós-pandemia

Há uma  tendência nos Estados Unidos de se acreditar que, quando as pessoas estão passando por dificuldades, é porque elas não seguiram “as regras”: estudar com afinco, trabalhar duro, conseguir um diploma, continuar no caminho, aposentar-se na idade prevista e não reclamar. Mas os trabalhadores que estão pedindo demissão voluntariamente estão descobrindo que as regras habituais não se aplicam a todos os casos. E que, em alguns deles, não há nada de errado em tentar algo novo.

MUDANÇAS EM SÉRIE

Anthony Fuscellaro, de Biddleford, Maine, pulou de emprego em emprego na maior parte de sua vida profissional desde que largou a faculdade. Em março de 2020, Fuscelllaro, 30 anos, foi contratado como operador de empilhadeira em um armazém. Durante o primeiro ano, ele disse, em um e-mail, “gostava de trabalhar e acreditava que, se continuasse dando o meu melhor para a empresa, a recíproca seria verdadeira”.

Mas, no último verão, uma onda de calor fez comque as temperaturas do armarem ficassem em 54ºC. Ele foi hospitalizado devido à insolação e suspenso por ter deixado de trabalhar nesse período. “Estávamos trabalhando entre 60 e 72 horas por semana e sendo obrigados a fazer hora extra”, lembra.

Depois de prometer contratar mais gente, a empresa demitiu 25 funcionários, sobrecarregando quem havia ficado. “Foi a gota d’água para mim. Pedi demissão. Foi a melhor decisão para minha saúde física e mental”, disse Fuscellaro. Desde então, ele tem trabalhado em empregos temporários.

“Todo mundo é perdoado por pular de um emprego para o outro entre 2020 e 2021”, disse, por e-mail, a coach de carreira Lauren Milligan, CEO da ResuMAYDAY,  lembrando  que hoje muita gente está em busca de uma transição de carreira.

CURSOS: VALE A PENA?

Vários leitores disseram que estão fazendo cursos de programação e treinamentos intensivos em software. Doug, gerente de contratação de uma startup de São Francisco, cujo nome não pode ser revelado, disse receber uma enxurrada de currículos de gente que acabou de sair desse tipo de treinamento.

Portanto, a menos que você saiba que um curso é o melhor meio para um objetivo especifico, invista em conjuntos de habilidades amplo, que poderão ser usados em várias áreas.

TENHA VOZ

Os trabalhadores estão mais propensos a deixar seus empregos quando não é dada atenção às suas preocupações. Ellen Goldlust queixou-se inúmeras vezes da sobrecarga de trabalho em uma editora na Carolina do Norte. Por isso, quando recebeu uma oferta de uma editora da Virgínia, Ellen deixou de lado a angústia com a mudança. “Estou muito feliz por ter tomado essa decisão”, disse Ellen. ”Meus novos colegas me tratam com respeito e fazem eu me sentir valorizada.”

EXIJA LEALDADE

Uma das principais razões para os trabalhadores deixarem seus empregos são os gestores que colocam a hierarquia acima da gentileza. Para James, veterano da guerra do Iraque e estudante de MBA no Texas, a decisão de pedir demissão de seu emprego de gerenciamento de projetos foi desencadeada pelas demandas excessivas e pela falta de compaixão da chefia.

Embora sua equipe estivesse entregando bons produtos, dentro do prazo, enquanto trabalhava remotamente, James disse que os gestores “surtavam” quando o status do Microsoft Teams indicava que os funcionários estavam longe do teclado. A gota d’água, disse James, foi quando seus filhos contraíram covid-19. O chefe de James insistiu que ele fosse para o escritório. Em vez disso, James pediu demissão.

APRENDIZADOS

DE GALHO EM GALHO

Em períodos como o atual, trocar de emprego de forma constante não é mal visto, segundo gestores de RH. No pós-pandemia, muita gente  está buscando redefinir a própria carreira.

ALÉM DO ESPECÍFICO

Embora alguns tipos de curso – como os de programação – estejam muito ‘na moda’ atualmente, especialistas em RH dizem que eles só são uma boa ideia para vagas específicas.

RESPEITO É TUDO

Avalie se a sua chefia está entregando o que exige: a ordem é fugir de cargas de trabalho abusivas e de ambientes tóxicos.

EU ACHO …

O AVIÃO E O MEDO

Às cinco da manhã, já estava com a mala pronta a caminho do aeroporto. É bem verdade que não tinha dormido nada, nadinha mesmo, e passou a semana tentando esquecer que entraria em um avião naquele dia. O avião, seu aliado e maior tormento. Conhecer o mundo, as pessoas e suas vidas tão particulares em cada região a conectava com seu propósito, mas enfrentar o caminho, pelo ar, sempre foi sua maior fraqueza. A situação toda se tornava mais constrangedora tendo sido o pai um piloto reconhecido na 2ª Guerra Mundial e um apaixonado por aviação. Conviver com a própria covardia tendo como exemplo um pai herói, colocava mais “caldo” nas horas gastas em análise para tentar resolver o assunto.

Nesse dia, o avião partiria às 8 da manhã, excelente horário segundo suas “pesquisas”: pilotos despertos? Menor tráfico aéreo? Aeromoças mais prestativas em caso de pânico? Tinha uma lista de checagem a cada viagem. O maior vilão, no entanto, não era algo controlado: era o mau tempo. A chuva torrencial dos dias anteriores já lhe causava taquicardia. “Está chovendo tanto esses dias, quinta-feira deve parar”, era o assunto que puxava aleatoriamente na semana. Não parou. A chuva noturna de quarta-feira anunciava a imagem da próxima manhã e, na madrugada insone, ela usou todos os métodos para se certificar de que entraria no avião no horário previsto.

Lembrar  nomes que admirava e que como ela tinham o mesmo pânico, mas seguiram suas carreiras e conseguiram administrar o terror a acalmava, então passou as horas pré-embarque em companhia de Oscar Niemeyer, um dos fundadores da arquitetura  moderna, que deixou de assistir a abertura de uma obra em Londres pelo seu conhecido medo de voar. O gênio, escritor e poeta Ariano Suassuna, que não assumia seu medo em público, afinal, ”um sertanejo não tem medo de nada”, dizia, também era constante em suas tentativas de solucionar a questão. Para ele, assim como para ela, assumir o medo era tão grave como senti-lo.

Às 7 da manhã lá estava ela no portão de embarque: mãos suando, pernas tremendo, chuva caindo sobre a potente máquina. Como seria bom e encorajador, para uma leitura de sábado, se ela tivesse entrado e seguido para a solar Paraíba e suas possíveis descobertas. Só que, dessa vez, ela não entrou.

*** ALICE FERRAZ

ESTAR BEM

BEBIDAS AÇUCARADAS ELEVAM RISCO DE TER CÂNCER

Estudo associa alta ingestão de refrigerantes e chás adoçados com tumores de intestino em jovens. Mecanismo pode estar relacionado a fatores como ganho de peso e desníveis de glicose, que também influem na doença

Os cânceres de cólon e retal estão aumentando entre jovens adultos, embora os pesquisadores não saibam exatamente por quê. Um novo estudo que analisou mulheres e suas dietas sugere que as bebidas adoçadas com açúcar podem ter algum papel nesses números.

As taxas de câncer color retal em pessoas com menos de 50 anos aumentaram acentuadamente nos últimos anos. Em comparação com pessoas nascidas por volta de 1950, aquelas nascidas na década de 1990 têm o dobro do risco de desenvolver câncer de cólon e quatro vezes o risco de ter câncer retal.

Embora as vendas de bebidas adoçadas com açúcar tenham diminuído nos últimos anos, a porcentagem de calorias consumidas em bebidas açucaradas aumentou drasticamente entre 1977 e 2001. Nesse intervalo, o número subiu de 5,1% do total de calorias consumidas para 12,3% na faixa entre 19 e 39 anos e de 4,8% a 10,3% entre crianças e jovens menores de 18 anos. Em 2014, esses números haviam caído, mas 7% das calorias consumidas pelos americanos em geral ainda provinham de bebidas açucaradas.

O novo trabalho, publicado na revista médica Gut, examinou a ligação entre câncer colorretal e bebidas doces em 94.464 enfermeiras que se inscreveram em um estudo prospectivo de saúde de longo prazo entre 1991 e 2015, quando tinham de 25 a 42 anos de idade.

Eles também analisaram um subconjunto de 41.272 enfermeiras que relataram o consumo de bebidas açucaradas quanto tinham idades entre 13 e 18 anos.

O estudo incluiu a ingestão de refrigerantes, bebidas esportivas e chás adoçados. Os pesquisadores também registraram o consumo de suco de frutas – maçã, laranja, toranja, ameixa, entre outros.

RISCO DOBRADO

Ao longo de quase 24 anos de acompanhamento no estudo, eles encontraram 109 casos de câncer colorretal entre as enfermeiras, enquanto que o risco total de câncer de cólon em pessoas mais jovens ainda é pequeno. Mas, em comparação com as mulheres que consumiam em média menos de uma porção de 240 ml de bebidas adoçadas com açúcar por semana, aquelas que bebiam dois ou mais porções tinham mais do que o dobro do risco relativo de contrair a doença. Cada porção adicional de bebidas doces aumentou o risco em 16%. Uma porção diária durante a adolescência foi associada a um risco 32% maior, e a substituição de bebidas açucaradas por café ou leite com baixo teor de gordura levou a uma redução de risco relativo de 17 a 36%. (Eles não tinham acesso a dados sobre café adoçado com açúcar).

“Fiquei muito interessada em ver que o estudo era com mulheres” – , disse Caroline H. Johnson, epidemiologista da Escola de Saúde Pública de Yale, autora de inúmeros estudos sobre os riscos ambientais do câncer de cólon, mas que não esteve envolvida neste trabalho.

“O foco tem sido principalmente os homens. Será interessante ver se isso se confirma neles”, concluiu. Não houve associação do consumo de sucos de frutas ou bebidas adoçadas artificialmente com o câncer colorretal de início precoce. A análise controlou vários fatores que podem afetar o risco de câncer de cólon, incluindo raça, índice de massa corporal, uso de hormônio da menopausa, tabagismo, consumo de álcool e atividade física.

O estudo mostrou apenas uma associação, portanto não conseguiu provar causa e efeito. Mas Nour Makarem, professor assistente de epidemiologia da Escola de Saúde Pública Mailamn, em Columbia, que não esteve envolvido na pesquisa, disse:

“Esta é uma evidência robusta, uma nova evidência de que a maior ingestão de refrigerante está envolvida em um risco maior de câncer colorretal. Sabemos que bebidas adoçadas com açúcar têm sido associadas ao ganho de peso, desregulação da glicose e assim por diante, que também são fatores de risco. Portanto, há um mecanismo plausível que fundamenta essas relações.

OUTROS FATORES

O principal autor do estudo, Yin Cao, professor associado de cirurgia da Escola de Medicina da Universidade de Washington, em St. Louis , disse que problemas metabólicos, como resistência à insulina, colesterol alto, bem como a inflamação no intestino, podem desempenhar um papel maior entre as causas de câncer na população mais jovem do que em pessoas mais velhas, mas os potenciais mecanismos ainda não foram identificados com precisão.

“Uma hipótese é que o aumento do ganho de peso está causando o aumento do risco”, disse ela – , antes de concluir: ”Mas controlamos a obesidade. Ainda assim, pode ser uma das coisas que contribuem. Em estudos com camundongos, o xarope de milho com alto teor de frutose contribuiu para o risco de câncer, independentemente da ocorrência de obesidade.

Esta é a primeira vez que bebidas adoçadas com açúcar foram associadas ao câncer colorretal de início precoce” -, ela continuou:

“E este estudo ainda precisa ser replicado. Mas os pesquisadores e médicos devem estar cientes desse fator de risco amplamente ignorado para o câncer em idades mais jovens. Esta é uma oportunidade de rever as políticas sobre como as bebidas adoçadas com açúcar são comercializadas e como podemos ajudar a reduzir o consumo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A DIFÍCIL CAÇADA AOS DOADORES DE MEDULA

Após transplante, pacientes usam páginas nas redes sociais para mobilizar mais voluntários

Trista Parson, natural da Virgínia (EUA), foi a heroína da família do consultor comercial André Tôrres, cearense de Maranguape, na Grande Fortaleza. Eles vivem a aproximadamente 6.100 quilômetros de distância e jamais imaginariam se aproximar por um episódio tão particular que salvou a vida de um deles.

É que em junho de 2018 André foi diagnosticado com leucemia aguda indiferenciada – quando não é possível identificar o tipo da doença. Foi descoberta ainda uma mutação genética, chamada de cromossomo Philadelphia. “Comecei a sentir pequenas dores de cabeça durante o dia, e na piora de uma dessas dores, vi o meu chão se abrir. Era a leucemia”, recorda Tôrres.

O tratamento para leucemia se dá por meio de quimioterapia, imunoterapia, radioterapia e, por fim, o transplante de medula óssea. Tôrres se viu diante de mais uma batalha, a de encontrar uma medula nova e compatível. E foi após viralizar na internet uma foto de seu filho Davi, na época com apenas um ano, que surgiu o projeto Caçadores de Medula.

“Tenho dois irmãos e achava que meu problema seria resolvido dentro de casa. Mas meus irmãos não foram compatíveis o suficiente. Começamos uma verdadeira caçada para encontrar um doador”, conta Tôrres.

Durante uma campanha de doação de sangue que ocorria na cidade, a mulher de André fez a foto de Davi carregando uma plaquinha que dizia “caçador de medula”. Em uma outra placa, pendurada na sua moto de brinquedo, Davi pedia: “Procuro uma medula para o meu papai e conto com você”. A foto sensibilizou muita gente.

“Eu estava internado quando a recebi e me emocionei. Meu filho, sem saber, lutava para salvar a vida do pai. Eu não era mais o herói dele. Naquele momento, ele se tornou o meu herói”, diz o consultor comercial. Ainda no hospital, André também iniciou uma  campanha de incentivo pelo cadastro para doação de medula. “Levamos a campanha para a internet e estamos como ‘Caçadores de Medula’ até hoje. É o meu propósito”, declara Tôrres. O perfil no Instagram tem mais de 17 mil seguidores. Na página, Tôrres compartilha histórias bem sucedidas sobre doações, além de quebrar preconceitos e receios sobre o transplante.

Foi por meio do Redome, o Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea, que ele encontrou a medula certa, cinco meses após descobrir a doença. O Redome, coordenado pelo Instituto Nacional do Câncer, é o terceiro maior banco de cadastros do tipo no País e representa, para pacientes brasileiros, a maior chance de encontrar um doador que não seja da família. A instituição se comunica com órgãos de outros países para encontrar um doador compatível. “Somente um ano e meio após o transplante o paciente pode pedir ao Redome a quebra de sigilo da identidade do doador e vice-versa, mas as duas partes precisam estar de acordo”, explica Tôrres. Foi então que ele e Trista se conheceram por videochamada. “Eu ganhei na loteria de vida”, vibra.

DUAS LOTERIAS

Se encontrar um doador compatível é acertar na loteria, a publicitária Ou da Dornela de 31 anos, vê um prêmio duplo. Ela, de Belo Horizonte, descobriu que tinha leucemia mieloide crónica em janeiro de 2015, quatro meses antes de se casar. “Foi um baque”, relata ela. “Será que vou morrer? Será que vou casar careca? Ou nem vou casar?”

Começou o tratamento e respondeu bem à medicação. Ela se casou como sempre sonhou, de cabelão. Mas, na volta da lua de mel, teve recaída. Os médicos decidiram, então, pelo transplante de medula. O doador foi o Thiago, de São José do Rio Preto (SP), e os dois também se conheceram.

“Ele tem a mesma idade do meu irmão, que não pôde me ajudar, porque não era compatível. Ganhei uma medula nova e mais: um irmão”, comemora. No Instagram, a publicitária também criou o perfil Valorizar a Vida, com mais de 5,1 mil seguidores, em que tira dúvidas e fala sobre a importância da doação.

Já Amanda Oliveira, do Rio, descobriu a doença seis meses após o casamento quando começou a sentir dores entre os seios. O diagnóstico não foi fácil. Um ano e meio depois ela descobriu que todos os problemas de saúde eram causados por uma infecção na medula óssea. Após refazer os exames, descobriu metástase no pulmão. A resposta era de tuberculose óssea

“A batalha foi grande até descobrir o câncer, mas eu estava tão saturada que só queria descobrir o que eu tinha. Os médicos disseram que eu poderia ficar infértil, que ia perder meu cabelo. Passei por mais de um protocolo de quimioterapia. Foram cinco meses internada, sem saber o que iria acontecer,” conta.

Em dezembro de 2018, Amanda fez o transplante, mas em um mês e meio o câncer voltou em outros órgãos e ela precisou de novo transplante.  No Redome, encontraram um  doador 100% compatível, mas o contato não foi em frente. O pai de Amanda era 50% compatível, mas tinha um problema no fígado, o que impossibilitou a cirurgia. O doador de Amanda estava na Inglaterra. “O dia do transplante foi muito emocionante. Fiz uma cartinha para ele. Depois de dois anos, pedi a quebra de sigilo, ele aceitou me conhecer epude ler a cartinha pra ele”, conta, emocionada.

É POSSÍVEL ENTRAR EM CADASTRO NACIONAL

A doação de medula óssea pode ser feita por qualquer pessoa entre 18 e 35 anos. Basta se cadastrar no Registro Nacional de Doadores de Medula (Redome), preencher uma ficha, incluindo o contato de duas pessoas próximas, e fazer a coleta de 5 ml de sangue. É preciso não ter doença Infecciosa ou incapacitante, não ter câncer, doenças do sangue ou do sistema imunológico. É importante que os dados sejam atualizados, caso haja mudança de endereço ou telefone.

OUTROS OLHARES

A VIOLÊNCIA DE TER A INTIMIDADE EXPOSTA EM FOTOS NA INTERNET

Dossiê Mulher do ISP divulga, pela primeira vez, estatísticas de ‘nudes’

Em julho de 2014, Tifani Cristini Suppo da Silva, de 22 anos, teve o celular roubado ao sair de uma festa em Cachoeira de Macacu, cidade com menos de 60 mil habitantes a 110 quilômetros da capital. Quatro meses depois, ela recebeu de um amigo, em seu novo aparelho, cinco fotos sensuais de nudez que havia tirado com o ex-namorado, com quem teve um relacionamento de oito anos. Asimagens armazenadas na época pelo casal foram vazadas, a jovem se desesperou e precisou do apoio da família.

Em 2020, 43 queixas de registros não autorizados de intimidade sexual chegaram às delegacias do Rio.

“Me senti exposta, violada, invadida. Na hora, fiquei desesperada, não entendia por que, depois de tanto tempo, isso foi acontecer. Precisei escutar os conselhos dos meus amigos e parentes para tentar não me importar tanto, para que aquilo não causasse ainda mais transtornos à minha vida. Foi um momento muito difícil”, relata Tifani.

Pela primeira vez, o Dossiê Mulher do Instituto de Segurança Pública (ISP) analisou o chamado registro não autorizado da intimidade sexual. Este é um crime recente, previsto na lei 13. 772, de 19 de dezembro de 2018, que reconheceu a violação da intimidade da mulher como violência doméstica e familiar e criminalizou o registro não autorizado de cenas de nudez ou ato sexual – qualquer produção, verdadeira ou não, com conteúdo sexual de caráter privado e íntimo sem autorização dos participantes.

O relatório mostra que 91% dos registros desse crime em 2020 têm mulheres como vítimas, sendo que dois terços desse percentual são solteiras. Em sua maioria, jovens brancas de 18 a 29 anos. Como grande parte dos crimes cometidos contra as mulheres, mais da metade aconteceu dentro de uma residência, e cerca de 30% dos autores eram companheiros ou ex-companheiros.

MEDO E VERGONHA

Titular da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) de Duque de Caxias, a delegada Fernanda Fernandes explica que as vítimas chegam à unidade com medo e vergonha. Muitas delas perdem os empregos, são repreendidas pelas famílias e até expulsas da igreja que frequentam. Algumas também passam a ser achacadas virtualmente por pessoas que prometem não divulgar o conteúdo das imagens, mediante pagamento de valores.

“Esse tipo de crime sempre acontece, mas, não tendo uma tipificação legal, fazemos uma ginástica jurídica para indiciar quem o cometia por injúria ou difamação. Com a nova lei, vimos uma enxurrada de casos, também pelo aumento significativo da chamada pornografia da vingança, quando a vítima manda a foto para alguém durante um relacionamento, mas não consente que ele divulgue. Com o término, ele acaba por compartilhar a imagem nas redes sociais e por aplicativos de mensagem”, explica a delegada. “Então, é preciso que fique claro que, a partir do momento que se registra um nude, não há mais controle sobre esse arquivo e a pessoa precisa ter consciência dos riscos de exposição que corre. Embora a pena hoje seja maior para o criminoso, para a vítima ela pode ser pequena.”

Por causa das suas características, o registro não autorizado é reconhecido como uma violência psicológica, classificação que abrange qualquer conduta que cause dano emocional ou perturbe o pleno desenvolvimento da mulher. No geral, esse tipo de violência se dá através de ameaça, constrangimento, humilhação, isolamento, manipulação, vigilâncias constantes, perseguição e violação de intimidade. E pode estar associado à diminuição da autoestima e a prejuízos à saúde mental, gerando problemas de ansiedade e depressão que podem perdurar por toda a vida.

“A inclusão no registro não autorizado da intimidade sexual no Dossiê Mulher é muitíssimo importante e mostra que o Rio está acompanhando atentamente a evolução das diversas formas como as mulheres podem ser vitimadas e como esses crimes são praticados”, enfatiza a também delegada Marcela Ortiz, diretora – presidente do ISP.

AGRESSÃO PSICOLÓGICA

De acordo com o dossiê, a proporção de mulheres que sofrem violência psicológica em relação às outras formas de violência no estado foi de 31,6% em 2020, estando atrás apenas da violência física. No ano, a média mensal foi de 2.595 vítimas – cerca de 86 por dia ou três por hora. Os registros apresentaram um declínio acentuado entre março e maio, meses em que as restrições sociais devido à pandemia de Covld-19 aumentaram. Nos meses seguintes, eles tiveram um crescimento, chegando a 2.936 em agosto.

O documento mostra ainda que a progressão entre as formas de violência ocorre de forma gradual. O autor do crime tende a começar com o cerceamento da liberdade individual da vítima, impedindo que saia e isolando-a do contato com familiares e amigos, depois a constrange e a humilha. Com a autoestima abalada, a mulher passa a se sentir diminuída e, mais facilmente, passa a “tolerar” cada vez mais agressões verbais até ser agredida fisicamente.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 24 DE NOVEMBRO

DEUS CONHECE AS MOTIVAÇÕES

Todo caminho do homem é reto aos seus próprios olhos, mas o Senhor sonda os corações (Provérbios 21.2).

A sinceridade não é uma prova infalível para conhecer a verdade. Há muitas pessoas sinceramente enganadas. Há caminhos que aos homens parecem ser certos, mas são absolutamente tortuosos. Há comportamentos adotados pelos homens que recebem aplausos nas praças e incentivos da mídia, mas essas práticas não passam no crivo da ética divina. Há palavras que são bonitas aos ouvidos dos observadores, mas soam como barulho estranho aos ouvidos de Deus. Há ações que arrancam elogios na terra, mas são reprovadas no céu. Todo caminho do homem é reto aos seus próprios olhos, mas o Senhor sonda os corações. Se você pensa que tudo o que faz é certo, lembre-se de que o Senhor julga as suas intenções. O tribunal dos homens só consegue julgar suas palavras e ações, mas o tribunal de Deus julga o foro íntimo. Os homens veem as obras; Deus vê a motivação. Os homens se impressionam com o exterior; Deus vê o interior. O homem se olha no espelho e dá nota máxima a si mesmo pelo seu desempenho, mas Deus sonda seu coração e exige verdade no íntimo. O homem se contenta apenas com a aparência, mas Deus o pesa na balança e o encontra em falta. Não basta ser aplaudido pelos homens nem dar nota máxima a si mesmo. É necessário ser aprovado por Deus.

GESTÃO E CARREIRA

COM MÃO DE OBRA RESTRITA, MERCADO DISPUTA PROFISSIONAIS

Como as faculdades não dão conta da demanda, empresas têm ‘adotado’ funcionários para atuar em novas áreas

Enquanto algumas profissões estão desaparecendo, as carreiras do futuro são disputadas por empresas nacionais e internacionais. A escassez de mão de obra ligada à tecnologia é um problema que aflige não só o Brasil como todo o mundo. Exemplo disso é que tem sido uma tendência as multinacionais buscarem profissionais de tecnologia no Brasil. Tudo isso ajuda a elevar o salário desses trabalhadores.

Nas profissões mais recentes, a oferta de mão de obra é ainda mais restrita e, em alguns casos, o nível de qualificação abaixo dos requisitos das empresas, diz Leonardo Berto, gerente da operação da Robert Half. “A agenda de decisões baseada em dados, no nível de hoje, é relativamente nova no País”, completa ele, explicando a escassez de mão de obra. Além disso, as faculdades não estão preparadas para formar esses profissionais do futuro. Muitas vezes o conhecimento é adquirido em cursos de curto e médio prazos ou quando as empresas praticamente “adotam” o profissional para formá-lo. “Cada vez mais, há uma desconexão com a graduação tradicional. Currículo e formação não vão vir mais em primeiro lugar numa contratação”, afirma Diogo Forghieri, diretor da empresa de recursos humanos Randstad do Brasil.

Essa tendência tem incentivado os profissionais a se reposicionar, como foi o caso de Thabata Dornelas. Ela fez Direito, influenciada pela família, mas durante o curso já entendeu que não era exatamente naquilo que gostaria de trabalhar. Apesar disso, concluiu a faculdade e entregou o diploma para a mãe.

Foi numa startup que descobriu o gosto pela tecnologia. Durante algum tempo, transitou por várias áreas até começar a notar o trabalho de um colega desenvolvedor. “Fiquei muito interessada no trabalho dele e resolvi fazer um curso de um ano, bem  puxado. Com oito meses, consegui um emprego na área”, diz ela, que mora em Belo Horizonte e trabalha em home office.

Para Wagner Delbaje, a mudança representou a recolocação no mercado de trabalho. Piloto comercial e instrutor de voos, ele  ficou praticamente sem emprego durante a pandemia. Mas a notícia de que a agência reguladora havia autorizado testes para delivery por drones o fez se movimentar.

Procurou uma empresa de drones, apresentou-se e conseguiu um emprego. “Trouxe a experiência da aviação tripulada para a aviação não tripulada”, disse ele, que se mudou de Piracicaba para Franca para seguir essa nova profissão.

EU ACHO …

AS DORES DA CONQUISTA

O segredo é saber diferenciá-las do sofrimento

A dor é o denominador comum a todo tipo de sucesso. Sem aquele esforço extra que a provoca, pouco ou nada se conquista. Pode reparar: sem muito trabalho não se obtêm resultados excelentes – uma regra de ouro que vale para atletas profissionais e amadores, concertistas, chefs, executivos, empresários ou qualquer pessoa que se imponha um desafio. Não importam o tamanho e a natureza do obstáculo a ser contornado. Pode ser a complexidade da burocracia para dar início a um novo empreendimento, a disposição de acordar mais cedo, a determinação de emagrecer. Em qualquer caso, a labuta resulta em superação, em excelência, em aperfeiçoamento.

Ah, Lucília, então vai dizer que é bom sentir dor’? Claro que não. Como diz Shakespeare numa comédia, “todo mundo é capaz de dominar uma dor, com exceção de quem a sente”.

Mas a questão não é se é bom ou ruim sentir dor. A questão é: se a dor é inevitável para progredir na vida, então como lidar com ela? Em primeiro lugar, é preciso ter consciência de que toda dor sempre é localizada. Ela emana a partir de um determinado ponto de nosso organismo. O cérebro é que se encarrega de transmitir a sensação da dor generalizada, como se uma torção no tornozelo, por exemplo, tivesse reflexo no corpo inteiro. Aprendi isso por experiência própria. Anos atrás, depois que emagreci –  perdendo metade dos 120 quilos que cheguei a pesar  – , estava feliz da vida, sentindo-me estimulada a me exercitar todos os dias, e é provável que, em momento de maior animação, eu tenha passado do ponto. Resultado: fiz uma tremenda hérnia na coluna cervical. Até hoje meu pescoço dói muito. Esse episódio me deu oportunidade de perceber que a dor, por mais aguda, está restrita a um lugar – e nós não somos apenas esse lugar. A dor é no meu pescoço, mas eu não sou o meu pescoço. Não deixo que o restante do meu corpo se contamine por aquela dor pontual. Não nego que ela exista, mas não lhe dou atenção excessiva e convivo com ela – nós nos entendemos muito bem, obrigada.

O segredo para suportar uma dor qualquer é estabelecer a diferença que ela guarda com o sofrimento. Dor é algo concreto, aquela sensação desagradável produzida pela excitação de terminações nervosas sensíveis ou por lesões de algum tecido do organismo. Já o sofrimento tem a ver com a expectativa da dor futura ou a lembrança da dor passada. Ela existe, sim, mas na nossa imaginação. Assim, se é fruto de um processo mental, pode ser amplificado ou aliviado, dependendo de nossa atitude. Até certo ponto, temos controle sobre isso. O corpo humano parece ter sido projetado para aguentar trancos de diversas intensidades. Basta, para tanto, preparar o espírito para enfrentá-los. Quando as estruturas mentais estão voltadas para a obtenção de determinado resultado, o corpo reage segundo esse comando, impedindo que a dor embace o êxito final. Qualquer dor é chata, claro, e não quis aqui dourar a pílula. Mas ganhamos quando conseguimos coloca-la em seu devido lugar –  o lugar onde ela deveria ficar circunscrita. Não é impossível. Para ajudar, pense nela como aquele ingrediente amargo sem o qual não calibramos a doçura de um coquetel.

*** LUCIÍIA DINIZ

ESTAR BEM

DE FERRO E OSSO

Exoesqueletos ligados ao corpo turbinam a corrida e a caminhada

Dentro de alguns anos, vestir um exoesqueleto poderá se tornar parte da preparação para a corrida ou caminhada matinal, assim como colocamos roupas confortáveis, meias e tênis. Isso porque grandes centros de pesquisa, como a Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e a Universidade Queen’s, em Kingston, no Canadá, estão desenvolvendo dispositivos robóticos capazes de aumentar a velocidade e a facilidade do exercício.

Eles não lembram em nada as armaduras dos heróis de filmes de ação. São formados por estruturas pequenas, que ficam presas nas pernas ou na parte superior do corpo. Alguns incluem motores, outros molas e há também os elaborados com materiais macios e flexíveis que parecem roupas. Em casos específicos, como aqueles com o objetivo de ajudar pessoas paralisadas a ficar de pé e andar, são mais robustos. Mas a finalidade de todos é a mesma: fornecer assistência aos músculos e articulações para o corpo se mover muito mais rápido ou ir até mais longe.

O grande impacto dos exoesqueletos está no potencial em melhorar a mobilidade de pessoas com dificuldades para caminhar.

“Queremos desenvolver exoesqueletos que ajudem as pessoas com deficiência devido ao envelhecimento, acidente vascular cerebral ou amputação”, afirma Steve Collins, chefe do Laboratório de Biomecatrônica da Universidade Stanford.

Mas a ideia é também que eles sejam projetados com pessoas saudáveis em mente.

“Estamos interessados em fazer dispositivos para pessoas sem deficiência, por exemplo, para tornar atividades recreativas, como a corrida, mais divertidas”, revela Collins.

AUXILIO AO ANDAR

Em alguns laboratórios e hospitais de reabilitação, exoesqueletos já estão sendo usados para melhorar a capacidade de locomoção em pacientes que sofreram acidente vascular cerebral, idosos e jovens com paralisia cerebral ou outras deficiências. Em um estudo publicado na revista Nature Medicine, engenheiros da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, descrevem um experimento com um dispositivo motorizado desenvolvido para ajudar amputados a andar melhor.

A amputação acima do joelho reduz gravemente a mobilidade e a qualidade de vida de milhões de indivíduos, porque muitos dos músculos das pernas são removidos durante a cirurgia. O exoesqueleto, que envolve a cintura e a perna do usuário, usa motores elétricos e microprocessadores embutidos para reduzir em 15,6% o esforço feito pelos voluntários ao caminhar.

“O estudo mostrou que, para pessoas com amputação acima do joelho, o exoesqueleto deixa a marcha mais econômica, mais estável e com menos oscilação. Ou seja, ela se movimenta com menos dificuldade e de forma mais eficiente”, explica o educador físico Gustavo Cardozo, diretor técnico e científico do Centro de Medicina do Exercício Decordis, em São Paulo.

PROTÓTIPO NACIONAL

No Brasil, pesquisadores da Escola de Engenharia de São Carlos da USP desenvolveram um protótipo de exoesqueleto robótico capaz de auxiliar o movimento dos membros inferiores de vítimas de doenças como acidente vascular cerebral, Parkinson e lesão da medula espinhal. O aparelho utiliza algoritmos para identificar a dificuldade especifica do paciente em cada articulação da perna, e complementa automaticamente o esforço necessário para a conclusão do movimento.

Em 2020, o Hybrid Assistive Limb (HAL), desenvolvido pela Universidade Tsucuba e a companhia Cyberdyne, ambas no Japão, tornou-se o primeiro exoesqueleto vestível a obter aprovação de um órgão de vigilância sanitária – no caso, o da Tailândia – para uso médico. O produto oferece suporte para a locomoção de idosos e outras pessoas com limitações físicas.

Mas talvez a ciência mais tentadora e perturbadora envolva exoesqueletos feitos para pessoas jovens e saudáveis. Nesta área de pesquisa, os modelos buscam reduzir os custos de energia para correr e caminhar, tornando essas atividades menos fatigantes e mais eficientes fisiologicamente. Os resultados iniciais são promissores.

Estudos do laboratório de Biomecatrônica da Universidade de Stanford mostraram que estudantes universitários conseguiam correr com cerca de 15% mais eficiência do que o normal quando usavam um protótipo de exoesqueleto.

Esses dispositivos contam com uma estrutura leve movida a motor, amarrada em torno das canelas e tornozelos, e uma barra de fibra de carbono inserida nas solas dos sapatos. Juntos, esses elementos reduzem a quantidade de força que os músculos das pernas precisam produzir para impulsionar o corpo. A estimativa é que em ruas ou trilhas, eles aumentem a velocidade da corrida em menos 10%.

Outro aparelho, desenvolvido pela Universidade Queen’s, no Canadá, vai além. Publicado na revista Science, o experimento inclui uma mochila com um gerador. Assim, além de reduzir em mais de 3% o esforço necessário para caminhar, parte da energia mecânica criada na atividade é convertida em energia elétrica. A quantidade ainda é insuficiente para carregar um smartphone, mas os pesquisadores pretendem chegar lá.

Harvard também não ficou de fora da disputa. Pesquisadores da universidade americana criaram um par de shorts com um motor acoplado às costas que ajuda a reduzir a energia gasta pelo corpo para caminhar ou correr, com potencial de beneficiar qualquer um que tenha que cobrir grandes distâncias a pé, como militares e equipes de resgate.

Existe a preocupação de que, ao diminuir o esforço do exercício, também se perca parte dos seus benefícios. Entretanto, os pesquisadores acreditam que o aumento na quantidade de atividade compense a queda no dispêndio energético.

Por enquanto, nenhuma dessas inovações está disponível ao consumidor. Mas é provável que isso mude em breve devido ao grande interesse. A Nike, por exemplo, é uma das financiadoras dos estudos de Stanford. A consultoria Prescient & Strategic lnteligence (P&S) estima que o mercado global de exoesqueletos deve passar de USS 290 milhões em 2019 para US$7 bilhões em 2030.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PAIS PAGAM CARO E VIAJAM POR AVALIAÇÃO MÉDICA DE TRANSTORNO DE APRENDIZAGEM

Estimativa é de 10 milhões de brasileiros com essa condição, mas escassez de conhecimento e profissionais especializados prejudica identificação do quadro. Estudo revela procura por diagnóstico até em outro Estado e jornada com mais de cinco especialistas

Luiz, de 11 anos, sempre perguntou à mãe, Angelica, assuntos complexos para a idade dele. Apesar disso, na escola, a criança desde cedo não desenvolvia a leitura e a escrita. Professores adaptaram as tarefas, médicos foram consultados, mas ninguém conseguia explicar o porquê ou reverter o quadro. Há três anos, o garoto recebeu um diagnóstico. Mãe e filho saíram de Mato Grosso para São Paulo para descobrir que a criança tem dislexia, um dos tipos de Transtorno Específico de Aprendizagem (TEAp).

Pesquisa sobre o perfil do TEAp no Brasil mostra que, 35% das famílias viajam, até para outros Estados, em busca do diagnóstico. Esse mapeamento, ao qual tivemos acesso, foi realizado pelo Instituto ABCD em parceria com o Cisco do Brasil e o Instituto IT Mídia.

O trabalho indica ainda que um terço das crianças consultaram mais de cinco especialistas até obter o laudo. Asfamílias gastam, em média, R$800 mensais em acompanhamento especializado. A análise envolve respostas de 304 questionários aplicados, de 17 Estados.

Após gastos em Cuiabá, os custos de consultas e estadia em São Paulo foram altos para Angelica Simioni, de 46 anos. Luiz passou por novas avaliações médicas e baterias de exames por mais de uma semana na capital paulista até o diagnóstico tardio. E essa peregrinação não é um caso isolado.

O instituto estima 10 milhões de brasileiros com algum transtorno de aprendizagem. No entanto, a falta de conhecimento e de profissionais especializados na rede pública prejudica o diagnóstico, conforme Ana Márcia Guimarães Alves, pediatra especialista em desenvolvimento infantil.

As famílias ouvidas pelo Instituto ABCD ainda sinalizaram impactos emocionais negativos do TEAp nas crianças e nos jovens, tais como tristeza, ansiedade e baixa autoestima. Angelica conseguiu orientação após encontrar um grupo de parentes de disléxicos que discutia o assunto em Mato Grosso.

“Foram essas famílias que me falaram qual caminho seguir para entender o que o meu filho tinha”. A fundadora do grupo é a bióloga Gabrielle Coury, mãe de Maria Lúcia, de 18 anos, que também fez em 2014 o mesmo trajeto de Angelica, para saber o porquê de a filha não se adaptar à escola.

Gabrielle conta que passou seis meses até conseguir revelar para a filha o diagnóstico. “Coloquei uns vídeos de umas crianças falando no YouTube, e ela se reconheceu. Ela olhou para mim e disse: “Então não sou burra, mamãe? Eu sou disléxica”, lembra emocionada a presidente de honra  da Associação Mato-grossense de Dislexia, fundada em 2016 e que hoje tem mais de 200 associados.

O longo período de salas de aula fechadas por causa da pandemia no Brasil também traz prejuízos para esse grupo, diante das dificuldades para a adaptação ao ensino remoto. Além das mudanças na escola, de acordo com a pesquisa, muitas crianças e jovens tiveram mudanças no acompanhamento terapêutico personalizado.

INVESTIMENTO E SOLUÇÕES

A administradora de empresa Fabiola de La Lastra Helou, é mãe de Layla, de 14 anos, eTayo, de 12. A filha cem discalculia, transtorno relacionado aos números, que precisa de intervenções pontuais. Já o filho tem dificuldade na aprendizagem por causa da dislexia. Além deles, o marido de Fabiola também é disléxico – esses transtornos são hereditários.

Atenta à literatura internacional do TEAp, Fabiola matriculou o filho por oito meses em uma escola americana com metodologia especifica, que custou cerca de R$50 mil por mês.

No fim do período, Tayo saiu do nível de leitura de uma criança na pré-escola para o de uma criança no 3º ano do ensino fundamental. O gasto da família inclui os quase R$ 15 mil mensais com a escola brasileira e intervenções da psicologia. Ela lamenta que muitas mães não consigam sequer acesso ao diagnóstico e defende mais atenção do poder público ao assunto. “É mais fácil manter do jeito que está porque é menos oneroso”, diz Fabiola.

Entre as soluções propostas para melhorar o cenário de atenção aos transtornos no País, destaca Juliana Amorina, fonoaudióloga e diretora-presidente do Instituto ARCO, está a aprovação do projeto de lei 3.51/72019, que tramita há quase 12 anos no Congresso.

O texto prevê acompanhamento integral dos alunos das redes pública e privada de ensino em parceria com os profissionais da rede de saúde. Na consulta aos profissionais especializados feita também pela ABCD, apenas 8% trabalham com serviços gratuitos.

O projeto estabelece ainda capacitação continuada de professores para que reconheçam mais precocemente sinais persistentes das crianças com resultados mais lentos na aprendizagem. “(A ideia é) implementar um sistema de triagem e monitoramento para que o encaminhamento seja mais preciso”, reitera Juliana. Isso também evita desperdício de recursos antes da descrição adequada do transtorno. Campanhas com informações sobre o tema também ajudam as famílias.

TIPOS

DISLEXIA

Maior prejuízo relacionado à leitura – em precisão, velocidade, fluência e compreensão leitora.

DISCALCULIA

Maior comprometimento em matemática com prejuízos no senso numérico, na memorização de fatos aritméticos, na precisão em cálculos e no raciocínio lógico.

DISORTOGRAFIA

Prejuízo acentuado na expressão escrita: ortografia, gramática, pontuação e organização textual.

OUTROS OLHARES

BRASIL TEM 7 MIL ASSASSINATOS DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES POR ANO

 Estudo também revela que, anualmente, 45 mil sofrem abuso sexual; mortes violentas atingem majoritariamente meninos negros

Por ano, 7 mil crianças e adolescentes no Brasil são mortos de forma violenta e ao menos 45 mil sofrem violência sexual. Os dados são do Panorama da Violência Letal e Sexual Contra Crianças e Adolescentes no Brasil, lançado pela Unicef, braço das Nações Unidas para a infância, e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública ( FBSP).

O estudo diz que a violência ocorre de formas variadas, conforme a faixa etária da vítima. Crianças morrem na maior parte das vezes em decorrência de violência doméstica, cujo autor é conhecido, como um pai ou um padrasto.

Em 2020, 300 menores de até 9 anos foram mortos de forma violenta no País. Praticamente um caso por dia, grande parte em casa. O mesmo vale para a violência sexual, em geral cometida no lar por pessoas próximas. Já os adolescentes, a maioria das vítimas, são mortos majoritariamente na rua. O estudo ainda revela a alta proporção de mortos em ações policiais.

“A violência doméstica é um crime contra a infância. A violência urbana é um crime contra a adolescência, que atinge principalmente meninos negros”, diferencia Florence Bauer,   representante no Brasil da Unicef. “Embora sejam fenômenos complementares e simultâneos, é crucial entende-los também em suas diferenças para desenhar políticas públicas de prevenção e resposta às violências”, acrescenta ela.

MORTES E ABUSOS

O trabalho é uma análise inédita de boletins de ocorrência feitos nos últimos cinco anos nas 27 unidades da federação. Abrange mortes violentas intencionais (homicídio, feminicídio, latrocínio, lesão corporal seguida de morte, morte decorrente de intervenção policial e violência sexual contra crianças e adolescentes. Entre 2016 e o ano passado, foram identificados 35.626 assassinatos de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos no Brasil. Uma média de 7 mil mortes violentas por ano. São cerca de 20 por dia.

A maioria das vítimas de homicídio no período era de adolescentes, 3 mil deles na faixa de 15 a 19 anos. No mesmo período, foram identificadas pelo menos 1.449 homicídios de crianças de até 9 anos. O número dessas mortes vem subindo desde 2016, chegando a 300 crianças em 2020.

Olhando apenas para a primeira infância (até 4 anos), os dados são ainda mais preocupantes. Nos 18 Estados que dispunham de informações completas para o período, os assassinatos de crianças nessa faixa etária aumentaram 89% de 2016 a 2020, indo de  121 para 229. O crescimento foi puxado pela alta de mortes na primeira infância por arma de fogo, que triplicaram nesse período: de 28 para 85.

MENINOS NEGROS

Em todas as idades, as principais vítimas de morte violenta são os meninos negros. A faixa etária dos 10 aos 14 anos marca a transição da violência doméstica para a urbana. Quando o adolescente chega à faixa de 15 a 19 anos, essa violência letal está consolidada. Mais de  90% das vítimas são meninos e 80% são negros.

Em 2020, nos 24 Estados em que há dados (exceções são Bahia, Distrito Federal e Goiás), um total de 787 óbitos de crianças e adolescentes de 10 a 19 anos foram identificados como mortes decorrentes de intervenção policial, o que representa 15% do total nessa faixa e indica uma média de mais de duas mortes por dia.

Por causa de problemas com os dados de 2016, a análise dos registros de violência sexual refere-se ao período entre 2017 e 2020. Nesses quatro anos, foram registrados 179.277 casos de estupro ou estupro de vulnerável com vítimas de até 19 anos. Uma média de quase 45 mil por ano. Crianças de até 10 anos representam 62 mil vítimas – um terço do total.

Meninas são a maioria dos que sofrem abuso sexual – quase 80%. Entre elas, um número muito alto de casos envolve vítimas entre 10 e 14 anos, sendo 13 anos a idade mais frequente. Para os meninos, o crime se concentra na infância, especialmente na faixa etária entre 3 e 9 anos.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 23 DE NOVEMBRO

O REI ESTÁ NAS MÃOS DE DEUS

Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o seu querer, o inclina (Provérbios 21.1).

Aqueles que estão assentados no trono e dirigem as nações são governados por Deus. Aqueles que estão investidos de autoridade e dominam sobre seus súditos estão nas mãos de Deus. O coração do rei é como um rio controlado pelo Senhor; ele o dirige para onde quer. Para o Senhor Deus, controlar a mente de um rei é tão fácil quanto dirigir a correnteza de um rio. Aquele que está assentado na sala de comando do universo governa o coração dos reis que governam o mundo. Deus inclina o coração dos líderes segundo o seu querer. Eles podem até se sentir inabaláveis, mas Deus os move conforme o seu propósito. Isso significa que, antes de ir aos reis, devemos ir ao Rei dos reis. Quando falamos, por intermédio da oração, com aquele que está assentado no alto e sublime trono e reina sobranceiro sobre todo o universo, vemos mudanças profundas no curso da história. Deus é poderoso para intervir no rumo dos acontecimentos. Ele é quem opera em nós, inclusive no coração dos reis, tanto o querer como o realizar. A vontade de Deus é soberana, e ninguém pode frustrar os seus desígnios. O mesmo Deus que dá um leito a cada rio também inclina o coração do rei segundo o seu querer.

GESTÃO E CARREIRA

COMO O MERCADO DE TRABALHO (NÃO) LIDA COM O HIV

Cartilha auxilia profissionais com o vírus a saber seus direitos constitucionais; especialistas pedem mais atenção ao tema

Pensar em diversidade e inclusão também é pensar em pessoas com HIV e aids que estão no mercado de trabalho, ainda que muitas vezes esse grupo seja “invisível” às pautas. O mais recente boletim de HIV e aids, do Ministério da Saúde, indica que 920 mil pessoas vivem com HIV no Brasil – um contingente que, por conta do preconceito, é alvo da omissão do mundo corporativo.

”É uma doença que precisa dessa atenção e, por isso, vem um pouco para o mundo da diversidade e inclusão – ou deveria vir. É raro ter programas de diversidade e ações nas empresas que lidam com isso”, diz Reinaldo Bulgarelli, secretário executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+.

O Fórum é um dos responsáveis, ao lado de Unaids, AHP Brasil e Tauil & Chequer Advogados, pela cartilha Direito de Profissionais que vivem com HIV/AIDS. Lançada neste ano, orienta pessoas que vivem com HIV sobre direitos garantidos pela Constituição.

Reinaldo diz que nos anos 1990 e 2000 havia maior articulação das empresas com relação a HIV e AIDS, mas isso se perdeu – e por isso é preciso voltar a focar no tema. “Há empresas que estão lidando com isso, mas a grande maioria deixou ou abandonou”.

Para Lua Mansano, mulher travesti que vive com HIV, graduada em comércio exterior e atualmente trabalhando com arte e produção cultural, ser soropositiva desperta menos compaixão do que outras doenças. “Todo mundo tem dó de quem tem câncer. Com o HIV, as pessoas têm nojo.”

Reinaldo explica que, ao trabalhar a temática no meio corporativo por meio do Fórum, sente que é preciso envolver a área da medicina do trabalho, pois, para pessoas com HIV, o exame médico admissional pode ser um momento doloroso. “Eu sempre me senti coagida quando me perguntam (na admissão) se tenho alguma doença. Tenho medo de falar que sou positiva e o recrutador falar que não sou capaz de completar a vaga. Isso  tudo é por causa do estigma”, relata Lua. Segundo o Índice de Estigma 2019 Brasil, 64,1% dos entrevistados disseram já ter sofrido discriminação pelo fato de viver com HIV ou aids. Outras formas de discriminação também foram mapeadas, como assédio verbal (25,3%) e perda de fonte de renda ou emprego (19,6%).

EU ACHO …

A MÁ MEDICINA COMO ELA É

A carreira médica sempre foi o topo da aristocracia profissional burguesa

Qualquer família de classe média alta do Brasil que conseguir pagar de 10 a 15 mil reais por mês para uma faculdade de medicina pode ter seu filho médico à vontade.

Medicina ainda é a profissão de maior valor para as famílias, apesar de que o glamour associado a ela, quando olhado de perto, já é distante do cotidiano dos médicos.

Entrar em medicina, devido à gigantesca competição e ao difícil cotidiano da formação, sempre significou que os jovens na carreira eram acima da média em termos cognitivos e de resiliência.

Entrar no estresse da competição para se formar médico sempre foi um indicativo de um maior conjunto de skills profissionais, mesmo que, com o passar do tempo, o desgaste do cotidiano de trabalho muitas vezes acabasse por aniquilar as promessas de inteligência acima da média que havia na partida. A vida como ela é faz tudo ficar como ela é.

Claro que a medicina continua sendo uma grande carreira, cheia de profissionais grandiosos, responsáveis que salvam vidas, como vimos na pandemia – hoje, no mundo das redes sociais e da estupidez que assola a recepção dos conteúdos do pensamento público, fazem-se necessários sempre reparos óbvios como este.

Feito esse disclaimer, o que essas faculdades que custam de 10 a 15 mil reais mensais têm a ver com os escândalos recentes de operadoras de saúde de baixo custo?

De partida, elas indicam que a única seleção nessas faculdades de medicina de ocasião é quem pode pagar essa grana. Nem a qualidade do curso nem a qualidade de quem entra nele importa muito.

Desde o governo Fernando Henrique Cardoso, a “democratização” das faculdades de  medicina inundou o mercado de formação na carreira.  Esse fato, por sua vez, inundou o mercado com profissionais medíocres e mal formados.

Hoje, há uma faculdade de medicina em toda esquina, quase na mesma quantidade de supermercados e quitandas. A intenção dos governos, supostamente, era aumentar a oferta de médicos – para ampliar o quadro do SUS, já que as boas oportunidades de emprego não assimilariam tamanha “democratização” na oferta de médicos, muitas vezes de qualidade bastante duvidosa. Mas nem tudo aconteceu como as “boas intenções” esperavam.

Pelas vias em que o mercado capta oportunidades, como sempre, investidores perceberam que aí estava uma grande oportunidade para abrir operadoras de baixo custo, empregando médicos jovens que mal conhecem medicina e que dificilmente conseguiriam espaço em instituições mais competitivas , identificadas com faculdades de medicina mais tradicionais e de maior qualidade histórica. A carreira médica sempre foi o topo da aristocracia profissional burguesa.

Resultado, uma massa de maus médicos correu para esse mercado que agora se faz objeto de escândalos.

Portanto, há uma “parceria” entre oportunistas nesse processo que vai além dos furos jornalísticos da CPI. Essa parceria reúne investidores no mercado da saúde, médicos mal formados em busca de carreiras e salários, agências reguladoras, associações de classe de comportamento duvidoso e muito marketing mentiroso – pura redundância. A saúde sempre foi uma área de exploração do grande capital e da grande corrupção, que costumam andar lado a lado.

O mercado de seguradoras sabe que ninguém quer segurados idosos com baixa renda, como é o caso da imensa maioria da população que precisa de segurança de saúde. Idosos custam muito caro para as seguradoras, daí o altíssimo custo da operação.

O nicho dos idosos tende a ser ocupado por operadoras e profissionais dispostos a manobras de baixo caráter ético na lida com o sofrimento e de teor técnico muito abaixo da média. Quanto mais medíocre o profissional mais chance ele terá de crescer na instituição, já que ele  aceitará as práticas mais absurdas.

O caso Covid tornou isso evidente, apesar de que nada mudará uma vez esquecida a pandemia. O fundo da estrutura que gerou os maus-tratos permanecerá em outros quadros que atrairão menos mídia. A vida não vale nada em quase nenhuma parte do mundo, apesar do heroísmo de alguns.

*** LUIZ FELIPE PONDÉ

ESTAR BEM

ANTICONCEPCIONAL PARA HOMENS ‘BANHA’ OS TESTÍCULOS COM ULTRASSOM

Criado por alemã para ser usado em casa, aparelho que tira a mobilidade dos espermatozoides ainda está em estudo

Um aparelho projetado pela designer alemã Rebecca Weiss, em parceria com pesquisadores americanos, pode se tornar um dos poucos anticoncepcionais masculinos. Batizado de Coso, ele foi projetado para dar um ‘banho” de ultrassom nos testículos e, assim, impedir a mobilidade dos espermatozoides. O protótipo ganhou o prêmio nacional de design do James Dyson Awards.

O Coso funciona como uma pequena banheira para uso doméstico onde o homem coloca os testículos a cada dois meses para impedir a movimentação dos gametas masculinos responsáveis pela produção, e consequentemente, evitar que eles cheguem ao óvulo e o fertilizem. A ação é proporcionada por meio de um ultrassom.

“O princípio é muito interessante, ele faz com que a cauda do espermatozoide perca mobilidade. É uma ideia antiga, testada com sucesso em animais, e que, em tese, pode funcionar em humanos”, diz Edson Borges, especialista em reprodução humana e diretor científico do Fertility Medical Group, em São Paulo.

O estudo por trás do coso foi conduzido por pesquisadores dos EUA e publicado na revista cientifica Reproductive Biology and Endocrinology. O experimento feito com ratos foi bem-sucedido, mas os responsáveis destacaram que ainda são necessárias mais pesquisas para lançar a tecnologia para humanos.

Borges ressalta que não se sabe o quanto a redução da mobilidade será suficiente para evitar a fecundação.

A criadora da Coso espera que o prêmio do James Dyson, ajude a financiar testes clínicos para uma eventual confirmação da eficácia e aprovação pelas agências reguladoras.

Desde a invenção da pílula anticoncepcional na década de 1960, utilizada hoje por mais de 214 milhões de mulheres no mundo, cientistas buscam um método contraceptivo que funcione de forma parecida e possa ser direcionado aos homens. Porém existem dois principais motivos que tornam esse procedimento um desafio para a medicina, explica Borges.

O primeiro tem a ver com a produção dos óvulos, e os masculinos, os espermatozoides. A mulher, mesmo antes de nascer, na vigésima semana de gestação, já produziu todos os óvulos que serão liberados durante a sua vida. Assim, o processo de ovulação é responsável apenas pela liberação de um desses gametas por mês. Já os espermatozoides são produzidos pelo homem a cada 75 dias, e em quantidade suficiente para que, a cada ejaculação, sejam liberados até 200 milhões de gametas.

“Essa dinâmica de produção torna bastante difícil que um anticoncepcional atue, porque, a cada 75 dias, tem uma população nova dos gametas”, explica o especialista.

Além disso, uma segunda dificuldade é em relação aos principais hormônios responsáveis pelos ciclos reprodutivos: o estrogênio e a progesterona, no caso da mulher, e a testosterona, no caso do homem. Enquanto que a ingestão dos hormônios femininos não causa efeitos colaterais, o mecanismo de ação da testosterona é bem mais amplo no corpo, e sua inibição oferece uma série de efeitos considerados mais graves, como perda de libido, mudanças de humor e disfunção erétil.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SAIBA POR QUE IR AO PSICÓLOGO PODE SER UMA IDEIA BEM LEGAL

Christian Dunker conta como funciona a terapia e de que maneira ela é útil

Um dia, Leticia ouviu dos pais que talvez fosse a hora de começar a ir a um psicólogo. Ela tinha oito anos naquela época. A família explicou à menina que todo mundo precisa de alguém para conversar e desabafar, e que isso também podia ser bom para ela. Letícia aceitou a proposta e foi.

Ela já tinha uma ideia de como funciona o trabalho de um psicólogo, porque todos na sua casa em algum momento da vida frequentaram um consultório desse tipo. Acontece que nem todo mundo sabe o que um psicólogo faz na prática e, quando escuta que precisa começar a se encontrar com um, pode se sentir inseguro – afinal, será que eu estou ficando maluco para precisar desse tipo de ajuda?

Calma, que a resposta é “não”. Um psicólogo é, antes de tudo, um especialista em escutar pessoas. Quem explica isso é Christian Dunker, um cara bem importante na sua profissão (olha quanta coisa vem escrita no cartão de visitas dele: “psicanalista, professor titular em psicanálise e psicopatologia do Instituto de Psicologia da USP”).

“A gente vai a um psicólogo para falar e descobrir coisas sobre nós e especialmente coisas que não estão indo muito bem com a gente. Ele é um amigo? Mais ou menos. Um médico? Mais ou menos, começa Christian.

“Ele ou ela é especializado em ouvir coisas estranhas da gente, do mundo, da vida. Coisas que às vezes a gente nem sabe dizer o nome delas, coisas que a gente está sentindo sem saber que está sentindo, coisas que a gente quer dizer, mas não encontra as palavras”.

Não importa qual seja a sua idade, você já deve ter percebido que a vida tem momentos alegres e tristes. E que é comum sentir medo de alguma coisa, ou tristeza, até raiva. “Acontece que, às vezes, a gente sente essas coisas muito mais forte do que deveria sentir”, continua Christian.

“Como se aquilo virasse um monstro dentro da gente, como se a gente começasse a brigar com aquilo. Às vezes, a gente perde o gosto por brincar, por dormir, comer, fazer coisas de que a gente gosta. Descobrir porque isso está acontecendo é o que a gente faz no psicólogo”.

Letícia, a menina do começo do texto, hoje tem 12 anos, então faz bastante tempo que ela visitou uma psicóloga pela primeira vez. Mesmo assim, ela se lembra bem de como foi essa consulta inicial.

“Meu pai entrou comigo, começou a conversar com a recepcionista, e ela me pediu para eu seguir no corredor porque, lá no fundo, ia ter a sala da psicóloga. Cheguei lá, ela se apresentou, sentei na cadeira e era tudo muito bem decorado, tinha vários jogos e várias plantas espalhadas, um tapete e um sofá também”, conta. Além de conversar e fazer algumas perguntas, a psicóloga da Letícia propôs uma brincadeira. “Era um jogo que tinha que empilhar algumas taças e tirar uma por uma sem deixar a do topo cair. Era muito legal. Quando sai, ela conversou com meu pai e ele veio me perguntar se eu queria continuar fazendo. Eu disse que sim”.

Christian explica que os consultórios dos psicólogos são muito diferentes uns dos outros, seja para atender adultos ou crianças. “Mas, em geral, eles têm lugares pra gente sentar, têm brinquedos de muitos tipos, uma mesa pra jogar. E eles são feitos pra gente se sentir à vontade, resume. E sabe aquela cama engraçada que às vezes aparece nos filmes e desenhos quando alguém vai ao psicólogo, e a pessoa se deita ali de costas para quem está atendendo? Pode ser que você encontre uma – ela se chama divã -, e, se quiser, vai poder se deitar nela também.

As consultas duram em média uma hora. É provável que vocês conversem e brinquem. Tem psicólogos que caminham com a criança pelo quarteirão, pela praça, andam até algum lugar. E a gente pode discutir filmes, TikToks, Youtchubes…” (sim, o Christian chama o Youtube  de Youtchube e é famoso por isso também).

Letícia faz terapia, que é o jeito que a gente chama esse tratamento com psicólogos, até hoje. Ela já parou por um tempo e depois voltou porque sentiu vontade. “Uma das coisas mais importantes que aprendi com a minha terapeuta é que a gente faz terapia para lidar com pessoas que não fazem terapia”, ensina.

“Por outro lado, é muito difícil falar sobre mim mesma, contar sobre os meus problemas para outra pessoa. Ainda me sinto um pouco desconfortável. Mas, a partir do momento que você começa a ir frequentemente, fica muito legal, você pega e ela vira sua amiga”.

Christian explica uma parte importante, da qual muita gente desconfia: será que o psicólogo conta para alguém o que a gente conta para ele? “Ele não vai contar; a não ser que ele te diga que vai ter que contar. Porque, às vezes, pra parar de doer; para atacar o problema, a gente vai precisar da ajuda da família, de outros médicos, dos irmãos, de professores, e até da escola. Mas você vai autorizar isso”, diz.

E os segredos da gente, será que ele vai descobrir? “você vai descobrir seus segredos!”, entusiasma-se Christian. “Essa é a ideia, se tudo der certo. E é bom que aconteça”, tranquiliza.

Letícia confirma que a terapia a ajuda muito. “Já consegui passar de vários episódios ruins da minha vida com a terapia porque eu sinto que lá ela vai me ajudar a achar os problemas e a solução pra eles”, relata.

“Já consegui parar de fazer muitas coisas ruins que eu fazia comigo mesma. E nem sempre você vai ter uma coisa ruim pra contar; e que bom se só tiver coisa boa. E, quando tiver coisa ruim pra contar; conta, desabafa e fala, porque isso vai te fazer bem”.

OUTROS OLHARES

DUPLAMENTE CRUEL

Um em cada cinco casos de feminicídio aconteceu diante de filhos das vítimas

Um dossiê divulgado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) revela a face ainda mais cruel de um crime bárbaro: quase 20% dos 78 casos de feminicídio registrados ano passado no Rio de Janeiro foram presenciados pelos filhos das vítimas. Apesar de a pandemia da Covid-19 e o isolamento social terem contribuído para a subnotificação, a violência contra mulher manteve níveis alarmantes em 2020, com uma média de 270 registros – que incluem agressões, constrangimentos, ameaças, homicídios, estupros, entre outros – por dia no estado.

A cada cinco dias, uma mulher foi morta no ano passado. Das vítimas, 52 eram mães, e 34 tinham filhos menores de idade. A estatística mostra ainda que o maior risco está dentro de casa, onde ocorreram 75% dos feminicídios. Além disso, companheiros ou ex-companheiros são a maioria dos autores: 78,2%. Para a presidente do ISP, a delegada Marcela Ortiz, essa violência tem base no machismo estrutural da sociedade:

“A mulher parece não ter o direito de se manifestar dentro de casa ou de terminar um relacionamento”, afirmou a delegada, que destacou a importância de se romper com essa estrutura.

“Digo que é como uma escada. A cada degrau que sobe, a violência vai aumentando. São dados sinais, e então é importante interromper o relacionamento abusivo antes de chegarmos ao último degrau”.

SUBNOTIFICAÇÃO

Em 2019, foram registrados 85 feminicídios no estado, ou seja, sete casos a mais que em 2020. Mas essa estatística precisa ser interpretada de acordo com o contexto, frisou Marcela Ortiz.

“O monitoramento mostra que, nos meses com menor circulação de pessoas nas ruas, os  registros de ocorrência nas delegacias diminuíram. Por outro lado, as chamadas para o Disque-Denúncia e o 190 (da Polícia Militar) com informes sobre violência contra mulheres continuaram em número estável. Então, isso sugere subnotificação, além do fato de esse tipo de crime já ser mais sujeito à subnotificação, por todas as dificuldades que a vítima enfrenta”, disse a presidente do ISP.

“Dados mostram que algumas mulheres puderam denunciar, mas que outras sofreram em silêncio”.

Um dos casos que ainda não aparece nessa estatística é o da manicure Joyce Barcellos, de 24 anos, que foi internada com queimaduras graves na véspera do último Natal. Ela morreu no dia 3 de janeiro. Segundo a mãe dela, Jocelma Barcellos, vizinhos testemunharam uma discussão dela com o então companheiro, também testemunhado pelo filho caçula dela, então com 3 anos.

Mas o caso continua sendo investigado pela polícia, e ainda não há a classificação de feminicídio.

“O ex-marido alega que minha filha queria jogar fogo nas coisas dele, e acabou pegando fogo na roupa dela. Mas uma vizinha me contou que ouviu minha filha gritando que ele fez aquilo. Os vizinhos sabiam que havia uma rotina de violência e, naquele dia, ela havia pedido para ele deixar a casa, que era dela”, contou a mãe.

Na delegacia, Jocelma, que agora vive com os dois filhos de Joyce, diz ter descoberto que o então companheiro da filha tinha passagens por agressão, enquadradas na Lei Maria da Penha. Marisa Chaves, fundadora e gestora da ONG Movimento de Mulheres em São Gonçalo, uma associação de defesa de crianças, adolescentes e mulheres vítimas de violência, disse que a polícia encaminhou o filho da vítima, hoje com 4 anos, para a entidade a fim de tentar obter o testemunho do menino.

“O menino precisa de suporte, sofreu muito. Concluímos que ele vivia sob violência psicológica”, afirmou Marisa, que aguarda um aditivo do contrato da ONG com o governo estadual, a fim de dar continuidade aos atendimentos gratuitos que são oferecidos a 54 famílias.

“Crianças são muito impactadas nesses casos. Ficam marcadas para sempre, seja no processo de aprendizagem, na socialização ou até na repetição de comportamento violento, como se fosse natural. As crianças que crescem em lares violentos possuem quatro vezes mais chances de reproduzir um comportamento violento.”

INVESTIMENTOS

No lançamento do Dossiê Mulher 2020, o governador Cláudio Castro anunciou novos investimentos para dar mais apoio às vítimas: RS 14 milhões na reforma das 14 Delegacias de Atendimento à Mulher (Deams) e RS 5 milhões em obras de três das nove unidades do Centro Integrado de Atendimento à Mulher (Ciam), que sofrem com o abandono.

“Sou a favor da liberdade total da mulher, de ter opinião em casa e de poder terminar um relacionamento ou ter uma briga sem que sua vida seja ceifada. Os números impressionam, e talvez a sociedade ainda não esteja sabendo dessa gravidade”, afirmou o governador.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 22 DE NOVEMBRO

AS FERIDAS DOEM, MAS ENSINAM

Os vergões das feridas purificam do mal, e os açoites, o mais íntimo do corpo (Provérbios 20.30).

Quem não aprende com a dor não aprende de forma nenhuma. As feridas não apenas rasgam nossa carne, mas também abrem sulcos em nossa alma. As mesmas feridas que doem também curam. Ao mesmo tempo que sangram em nosso corpo, também fazem uma assepsia em nosso íntimo. Os castigos curam nossa maldade e melhoram nosso caráter. Os açoites limpam as profundezas do nosso ser. A disciplina, no momento em que é aplicada, não é motivo de alegria, mas de pesar; depois, entretanto, produz fruto pacífico e promove a justiça. Ao mesmo tempo que essas feridas arrancam lágrimas de nossos olhos, lavam o nosso interior. Os vergões das feridas purificam do mal, e os açoites purificam o mais íntimo do corpo. Aprendemos mais no sofrimento do que nos dias de festa. É no vale da dor que somos matriculados na escola do quebrantamento. É na bigorna do sofrimento que somos moldados à imagem de Cristo. É na prensa de azeite, no Getsêmani da vida, onde suamos sangue e choramos copiosamente, que experimentamos o consolo que excede todo entendimento e nos levantamos para triunfar nas maiores batalhas da vida. Deus não nos fere sem causa. Deus não desperdiça sofrimento na vida de seus filhos. Nossa leve e momentânea tribulação produzirá para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação!

GESTÃO E CARREIRA

POR DENTRO DAS PROFISSÕES – DESIGNER DE NARRATIVA DE GAMES

Conheça a trajetória de Mariana Brecht, que migrou dos roteiros de TV e cinema para especializar-se numa profissão do futuro – que cresce agora mesmo, no presente.

Há um estereótipo do profissional que atua na indústria de games, que em alguma medida perdura até hoje: jovens nerds mesmerizados por um pagamento no fim do mês pelo que fariam de graça – isso até que a vida adulta imponha um “emprego de verdade”.

Faz tempo que não é o caso. Games se tornaram produtos tão fundamentais para a economia quanto geladeiras ou sacas de cimento – ainda que mais interessantes. No Brasil especificamente, ainda houve outra transformação. O país passou de importador de games estrangeiros para produtor (e exportador) de jogos.

Contribuíram para essa revolução as chamadas engines (ou motores gráficos) – softwares com um pacote de funcionalidades para a criação de um jogo, acabando com a necessidade de programar tudo do zero. A universalização do smartphone também ajudou, colocando um console em cada bolso. Surgiram, então, produtoras de diversos portes, de estúdios gigantes à molecada que cria jogos no quarto de casa e os vende para players internacionais. “No Brasil, os grandes negócios incluem designers, programadores, roteiristas, artistas e até um pessoal que testa os jogos para conferir se tem algum bug”, explica Rodrigo Terra, presidente da Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Eletrônicos (Abragames). “E cada vez mais temos empresas pensando só em B2B, produzindo games para educação corporativa e tendo os RHs das companhias como clientes.” Na América Latina, o Brasil lidera: a indústria de games teve um faturamento de USS 2,18 bilhões em 2020 (metade só com jogos feitos para celular), com um aumento de receita na casa dos 28%.

Tudo isso fez com que o mercado de trabalho se expandisse – e se especializasse também.

Atividades que antes eram centralizadas num mesmo faz-tudo – um programador que criava o jogo praticamente sozinho – foram repassadas a gente que entende de aspectos específicos do game, resultando num produto bem mais sofisticado.

Dessa busca por mão de obra expert, emergiu uma profissão que antes só se via no exterior: o designer de narrativa (fala-se também em inglês: narrative designer). É um tipo de roteirista, mas é bem mais que isso.

O designer de narrativa é multitarefas, tem diversas funções na criação do jogo. Primeiro quanto à história: ele cria o roteiro do game (às vezes em parceria com um roteirista raiz), desenvolve os personagens, os diálogos, os arcos narrativos, as curvas de emoção… Só que, no universo dos games, a narrativa vai muito além da história que o jogo contempla.

Esse profissional deve garantir que todos os elementos estejam contando a mesma história: cenário, interações, interfaces, efeitos sonoros, músicas e personagens. Ele precisa, então, estar no centro de um diálogo transversal com outras áreas do estúdio: dos artistas gráficos aos programadores mais hardcore. Ainda deve assegurar que tudo isso dê liga com a mecânica do produto. Se a direção encomendou um game em forma de quebra-cabeça, a narrativa deve combinar com a parte técnica criada para um puzzle. E aí saber pôr as mãos na tecnologia adianta o processo. Embora a experiência com roteiro baste para conseguir um emprego, será necessário mexer com os softwares de construção de jogo para sair de uma posição mais júnior.

TESTANDO… TESTANDO…

O designer de narrativa ainda tem de se preocupar com custos. Fazer jogo é caro. E é um investimento cercado de riscos. Um diretor de cinema como David Lynch pode fazer um longa-metragem em que ninguém compreende bulhufas – mas ainda assim o espectador vê o filme até o fim, e pode até gostar. Nos games não é assim. Se o jogador não entender o enredo, o que deve fazer, ele não consegue avançar. Desiste do jogo. Para que isso não aconteça, o designer de narrativa faz todo um trabalho de pré e pós-produção.

Por exemplo: antes de ter o game rodando de fato, ele pode construir protótipos de personagens e cenários em papelão ou massinha. Tudo para contar à equipe envolvida qual deve ser a experiência do jogador.

Aliás, como também precisa definir o ritmo do jogo, o designer de narrativa pode produzir live actions: filmagens com bonequinhos (ou com ele próprio) realizando as ações do game, de modo que o programador entenda que o andamento deve ser mais ágil ou mais lento.

Quando o jogo entra em versões preliminares, o designer de narrativa ainda tem o trabalho de acompanhar usuários externos testando o produto, para conferir se houve algo que eles não entenderam, se travaram em alguma fase… E propor mudanças antes que muito dinheiro seja investido na versão final. Nessa fase de testes, o próprio designer de narrativa pode fazer as vozes dos personagens – melhor que gastar os tubos com dubladores e só depois descobrir um problema.

Tantas funções exigem competências diversas – que muitas vezes só são desenvolvidas com a mão na massa mesmo. O que mais acontece é o profissional chegar com experiência de roteiro para TV e cinema. Embora existam faculdades de games, não há curso específico para designer de narrativa, profissão ainda restrita a estúdios maiores, que identificaram a necessidade de um especialista em conjugar roteiro com toda a dinâmica do jogo. Até porque os games não costumam seguir um caminho linear de história. São jornadas ramificadas, labirínticas. Parecidas com a carreira de Mariana Brecht, designer de narrativa do estúdio Arvore, de São Paulo.

DA DIPLOMACIA À REALIDADE VIRTUAL

Mariana passou de fase algumas vezes antes de se firmar na profissão, há cerca de dois anos. Formada em Audiovisual pela USP, com especialização em roteiro e produção, ela fez, em seu TCC, um roteiro de longa-metragem com narrativa ramificada. Tudo dava a entender que seu destino era mesmo o roteiro não convencional. Mas aí veio o plot twist: após trabalhar em algumas produtoras, Brecht foi fazer mestrado em Estratégias Culturais Internacionais na França, com foco em diplomacia cultural.

Assim, viajou o mundo representando o Institut Français (órgão de governo que promove a cultura francesa no exterior). Isso até voltar ao Brasil e se deparar com um anúncio de emprego num grupo de mulheres roteiristas. Era justamente para fazer roteiro não linear – na Arvore, a maior produtora de games do país no campo da realidade virtual.

Era o início de uma jornada heroica de aprendizado. Mariana chegou com sua experiência de roteirista, mas logo se interessou pelos outros conhecimentos para atuar de forma plena na área. “Rapidamente você percebe que precisa entender um pouco de desenvolvimento de jogos, um pouco de programação, para saber se suas decisões na construção da narrativa encaixam com a mecânica.”

Ela aprendeu rápido e ajudou o estúdio a se destacar internacionalmente. Respondeu pela narrativa interativa do game A Linha, que ganhou o Primetime Emmy por “Outstanding Inovation”, no ano passado, assim como a premiação de “Melhor Experiência em Realidade Virtual” no Festival de Veneza.

Com apenas 30 anos, Mariana Brecht já separa um pouco do seu tempo para fazer mentoria com colegas juniores. “Acho importante criar uma cultura de narrativa dos jogos. Pelo fato de a profissão ser quase uma novidade, muitas empresas não têm um designer de narrativa, e a gente precisa toda hora estar se provando. Lembrando executivos e produtoras que narrativa não é só texto. Ela tem de estar em todas as decisões e fases do jogo”, ela explica. “Por isso, em cada projeto novo, tenho a sensação de que estou contribuindo para o desenho do que será essa profissão no futuro.”

UM DIA NA VIDA

ATIVIDADE-CHAVE

Criar o roteiro do game. Fazer alinhamentos com outras áreas da produtora para combinar cenário, interações, efeitos sonoros, música… Fazer protótipos. Acompanhar testes com usuários.

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS

Ser bom de roteiro, ter criatividade, facilidade de comunicação e trabalho em equipe. E vale muito aprender a usar software de construção de jogos. Entender de programação é desejável.

PONTOS POSITIVOS

É uma profissão nova, que vem ganhando cada vez mais destaque nas produtoras. E o mercado de games está crescendo. Como há necessidade de contato intenso com outras áreas, há aprendizado sobre diversas funções da produção de jogos.

PONTOS NEGATIVOS

É uma profissão nova. Isso faz com que as chances de trabalhar em produtoras pequenas sejam menores, limitando seu mercado de trabalho.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA

Não existe graduação específica; então a maioria dos designers de narrativa vem de faculdades de audiovisual. Mas ser roteirista é o básico. Há cursos livres de construção de jogos, programação e prototipagem, que ajudam a formar um profissional mais atraente.

QUEM CONTRATA

Produtoras de games, especialmente as maiores (nas pequenas, um game designer pode acumular essa função.) Mas é um profissional que também pode trabalha para TV e cinema.

SALÁRIO MÉDIO

JUNIOR –  R$ 3.000

SÊNIOR – R$12.000

Fonte: Abragames

EU ACHO …

EM QUE MUNDO TÚ VIVE?

Conheci José Falero através de seu livro “Os supridores”. Até então, nada sabia dele. Devorei o romance. Não era a primeira vez que lia uma história passada na periferia, mas dessa vez me senti levada pela mão até o miolo da vila, o epicentro da pobreza, o cenário real onde uma população de homens e mulheres trabalha em troca de uma miséria, sem perspectiva de futuro. Criminalidade? Temos, mas não apresentada como defeito de caráter, e sim como consequência de um estado de coisas, que ele descreve com originalidade, humor e algumas vísceras.

Logo no início, ali pela página 50, uma conversa entre os personagens Pedro e Marques funciona como uma aula sobre os diferentes sistemas socioeconômicos, narrada de um jeito que uma criança de sete anos consegue entender. Humm, Livro chato, então. Poderia ser, não fosse diabolicamente empolgante, inteligente e bem escrito, levando-se em conta que não existe apenas um modo de escrever e de falar.

Isso foi em março de 2021. De lá pra cá, li outros tantos livros e dei trato à vida. Pois Falero reaparece agora com uma coletânea de crônicas publicadas na revista digital Parêntese. Título: “Mas em que mundo tu vive? Abri com o mesmo ânimo com que fechei “Os supridores”.

E veio a bofetada.

Logo percebi que não seria tão palatável.

Se antes eu havia sido gentilmente conduzida pela mão até as entranhas do inferno, agora eu estava sendo empurrada pelas costas, sem ver direito para onde ia, quase um sequestro. Mas os livros deixam sempre a porta destrancada; se eu quisesse sair, saía. Não saí. Passei dois dias inteiros com Falero, sua família e seus amigos na Lomba do Pinheiro, apanhando sem tentar fugir. Agora não era mais a ficção de Pedro e Marques, e sim a voz do próprio autor, sua história, suas broncas, sua angústia. Revolta que só mesmo a literatura reverbera – e também a música, o cinema, a arte. Não é no Instagram que a vida real ganha forma e cor.

Condescendência – taí uma palavra que não faz parte do vocabulário de Falero. Ele coloca o dedo em todas as feridas e remexe até sangrar, ele expõe sem rodeios a dor de ser pobre e preto numa sociedade indiferente, descreve o que é se sentir um rato e o tamanho da desesperança.

Se Falero pudesse dizer alguma coisa pra mim, agora, seria “valeu, Martha, mas o que você está escrevendo aí não vai servir pra nada”. Eu sei.

Você não quer confete, Falero, e sim quebrar o ciclo das injustiças sociais, que é o que todos deveriam querer também. Mas permita que eu use a minha página, hoje, para atrair os que têm coragem de levar uma bofetada, duas, três, até acordarem do transe da conformidade. E avisá-los que você bate, sim, mas também consegue ser lírico e muito emocionante. Sei lá, vá que sirva para alguma coisa.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

ESTAR BEM

CORRER: COMPETIR OU SE EXERCITAR?

Participar de provas e maratonas auxilia corredores amadores a manter a motivação e a rotina de treinos

Os corredores já estavam ansiosos. Para eles também se aplica, devidamente adaptada, uma velha máxima bem conhecida no meio do futebol: treino é treino, corrida é corrida. Ou seja, para quem curte correr, é muito bom treinar. Porém, participar de uma prova ou de uma maratona é melhor ainda

E, aos poucos, essas corridas ou provas voltam a entrar no calendário aqui no País e em diferentes partes do mundo. A Maratona do Rio de Janeiro, que tem provas de 5, 10, 21 e 42 quilômetros, está confirmada de 12 a 15 de novembro. A 21ª Meia Maratona de São Paulo, marcada para 5 de dezembro de 2021, está com as inscrições abertas. E até a São Silvestre, prova tradicional da capital paulista, também abriu as inscrições.

No exterior, uma das mais procuradas pelos brasileiros é a Maratona de Barcelona, em 7 de novembro. Para participar, é preciso estar vacinado – Coronavac, Pfizer, AstraZeneca e Janssen são aceitas para entrar no país. A Disney também voltou com suas corridas, dirigidas a diversos públicos (incluindo crianças). A Disney Run ocorre em 12 de janeiro de 2022 – a partir de 8 de novembro, brasileiros vacinados podem entrar nos Estados Unidos.

Provas são um estímulo para quem gosta de praticar corrida – é menos pela competição e mais pela meta. Evoluir nos treinos é quase sempre o objetivo dos atletas amadores. E, claro, muitos corredores não almejam participar de uma prova ou evoluir a ponto de participar de uma maratona. Mesmo assim, a rotina de preparação de quem aceita um desafio – que não inclui apenas treinos, mas ainda uma adaptação da dieta e o controle emocional – é um exemplo para quem quer continuar a dar suas passadas sem se preocupar com índices.

Para o treinador Roy Siqueira, a corrida é um excelente exercício para o controle do peso, em função do gasto calórico, além da sensação de bem-estar trazida pela endorfina. Entretanto, segundo ele, apenas correr, sem uma meta, pode, com o tempo, desestimular o corredor e comprometer o resultado. “Quem treina só por treinar ou gosta da atividade, em algum momento, vai se sentir desmotivado. Por que acordar cedo para correr? Um objetivo ajuda a entender o porquê daquela atividade”, explica. Uma prova, dentro da realidade de cada pessoa – de 5 km até uma maratona -, é um bom caminho para isso. ”A corrida é uma ferramenta de autoconhecimento. A cada ciclo que o corredor entra, ele aprende mais sobre seu corpo e sua mente. E a preparação para uma prova pode proporcionar isso”, conta Roy.

O treinador olímpico Claudio Castilho, que chefiou a equipe brasileira de atletismo na Olimpíada de Tóquio, diz que, tanto para atletas amadores quanto profissionais, o treino precisa ser constante e sistemático. O planejamento é um aliado para quem quer ter bons resultados.” Para um atleta amador o prazer na atividade tem um peso grande. Ele faz com que o indivíduo fique motivado a superar barreiras. Ele quer melhorar o tempo, bater uma marca pessoal. Há uma flexibilidade maior. A comparação é com ele mesmo ou com alguém do mesmo gênero ou idade. Já os profissionais estão sempre atrás de um índice ou recorde.”

Segundo Castilho, quem decide começar a correr precisa passar por unia avaliação para saber o ponto de partida. A pessoa pode estar acima do peso, a forma física pode não estar adequada para começar a corrida de imediato e, nesse caso, a caminhada pode ser uma primeira opção, ter alguma dor preexistente que precisa ser tratada ou passar por um processo de fortalecimento muscular.

Castilho cita o exemplo da prova de São Silvestre, daqui a quase 3 meses. Esse prazo seria suficiente para uma preparação? “Depende. Para alguns, sim. Para outros, seria melhor esperar a corrida de 2022. Minha dica é buscar um profissional que ajude nessa avaliação. Obviamente, a decisão é sempre da pessoa”, afirma. Outro fator a ser considerado é o hiato de provas de corrente da pandemia e a indefinição sobre a volta delas, que se arrastou por todo esse período. Segundo Castilho, isso fez com que os corredores ficassem numa espécie de “stand-by”. Em alguns casos, até positivo, como para quem precisava se tratar de alguma dor ou incômodo recorrentes.

Porém, quem se manteve ativo, agora, com o retorno das provas, larga na frente. “Estará  mais apto. Terá um tempo menor de preparação. Será preciso apenas dar uma virada de chave no tremo. Outro aspecto importante: você só desenvolve a sensibilidade competitiva competindo. O treino é indicador, mas o que determina a performance é a prova”, explica Castilho.

O arquiteto e urbanista Fernando Gomes, de 44 anos, treina desde 2008, sempre com a ajuda de uma consultoria. Para ele, acordar e ir correr sem uma planilha de treino é algo que, mesmo para uma pessoa disciplinada, pode ser difícil – além disso, estar dentro de um grupo ajuda na motivação.

Gomes correu sua última prova em 2019. Durante a pandemia, manteve a rotina de treinos em três dias da semana e, nos fins de semana, costuma fazer exercícios de forma mais livre. Agora, ele se prepara para a Meia Maratona de São Paulo.

Para ele, o principal ajuste na rotina. quando há um objetivo a ser alcançado, como o que ele traçou, é prestar atenção no ciclo do sono. “Preciso dormir 1 hora ou 1h30 a mais por dia para aguentar o aumento do volume de treino. Passo de 6 horas a 7 horas, 7h30   de sono. O cansaço aparece ao longo do dia e, sobretudo, à noite”, diz. Vegano há dois anos, Gomes, assim que tomou a decisão de não comer mais proteína animal, procurou o acompanhamento de uma nutricionista. “Me tornei vegano em meio à pandemia para ter uma performance melhor na corrida. Consegui me adaptar.”

NUTRIÇÃO É IMPORTANTE

A nutricionista Luiza Di Bonifácio, autora do livro Direcionamento Nutricional para o Triathlon: Da Ciência à Prática, explica que a alimentação, para a prática de qualquer atividade esportiva, precisa ser adaptada. Para a corrida, dependendo do tempo da prática, é preciso haver a reposição de nutrientes para que a performance seja mantida.

O principal deles é o carboidrato, que é armazenado no corpo na forma de glicogênio muscular. Ele é a fonte energética para o exercício. O corpo oxida 1 grama de carboidrato por minuto de treino. Para quem corre maratonas, a reposição da substância pode chegar até 120 gramas por hora – o que é feito no formato de gel.

Para os amadores, essa proporção, claro, não é recomendada – muita gente não consegue consumir essa quantidade ao longo do dia. Treinos ou provas de 5 km ou 10 km, que não deixam de ser uma atividade intensa, em geral, não precisam desse suporte durante a prática. Entretanto, uma nutrição adequada tem uma função específica – e muito importante. ”O papel da nutrição não é melhorar a performance. Para isso, você precisa treinar certo. A função dela é recuperar o corpo do corredor. Bem recuperado, ele treina melhor”, explica Luiza.

A má alimentação também pode facilitar o aparecimento de lesões. “A deficiência nutricional prejudica as funções vitais, como digestão e respiração, além do treino. Imagina o corpo precisar dar conta de uma carga alta de treinamento e não ter de onde tirar esse combustível. Além das lesões, isso pode ocasionar alterações de sono, queda de cabelo e unhas.”

Na outra ponta, a boa alimentação deve ser constante. Não adianta seguir uma dieta balanceada apenas um dia antes ou depois do treino. “Seu corpo pode demorar dois dias para se recuperar. Tem gente que me pergunta: ‘O que eu tomo no pós­treino?’. Eu respondo: ‘Vai tomar um banho’. Você precisa se preocupar o dia todo. Não adianta sair do treino e comer um monte de açúcar ou tomar álcool”, diz Luiza.

A reposição de carboidrato citada por Luiza pode ser feita com tubérculos, como batata ou mandioca, macarrão, com frutas, como a banana, com mel e açaí. Outra dica é investir nos flavonoides, como suco de uva, frutas vermelhas e cacau.

EMOCIONAL

A advogada Luciana Zanchetra Oliver, de 37 anos, sempre foi praticante de triatlo. Três meses antes do início da pandemia, ela se mudou para o Canadá e pretendia, por lá, iniciar o treinamento para seu primeiro meio Ironman 70.3. Entretanto, com os centros de treinamentos fechados e as provas canceladas, ela mudou de ideia.

Estimulada por seu treinador, Luciana decidiu encarar a primeira maratona. Vai correr os 42 km em Barcelona. De volta ao Brasil desde novembro, ela está na reta final de um ciclo de preparação de um ano. Se no triatlo ela precisava equalizar os treinos e ainda contava com a natação para um descanso ativo (ou soltura dos músculos), para a maratona ela treina de 4 a 5 vezes por semana, com distâncias que podem chegar a 60 km por semana.

Toda essa mudança – além de problemas pessoais enfrentados por Luciana, como a depressão e o divórcio em plena pandemia – fez com que ela visse a corrida de uma outra forma.

“Meu foco mesmo é mais o meu emocional do que trabalhar minha mente para a maratona. Além do esporte me trazer a sensação de bem-estar, ele tem “ao menos para mim” um mecanismo de meditação ativo. É um refúgio. Cada quilômetro que corro eu reflito sobre a minha vida”, observa. Para Roy Siqueira, que treina Luciana, o processo todo é “muito gostoso” e o dia de uma prova é de comemoração.” É para você correr feliz. Se você atingir sua meta, maravilha. Mesmo saindo dela, termine a prova, vá até o fim. Vá andando e correndo, mas vá. Você vai aprender algo.”

O arquiteto Fernando Gomes conta que treinar no dia a dia ou correr uma prova é muito diferente. “Uma semana antes você já está com a cabeça na prova. No dia, você pensa no que vai fazer. Depois, você vê que é uma bobagem. Quando termina, é um dia de cansaço físico, mas de uma euforia mental grande. Uma sensação de trabalho realizado.”

QUER AVANÇAR NA CORRIDA?

Os treinadores Claudio Castilho e Roy Siqueira dão conselhos para amadores e profissionais evoluírem nos treinos:

*** Correr todo dia é para quem tem um histórico esportivo muito bom. Uma boa opção é correr um dia e descansar outro. Ou, então, intercalar com outra atividade, como natação ou musculação.

*** Não coloque expectativa demais em uma prova ou treino. Pode não ser o momento de bater aquele recorde pessoal. Metas e objetivos devem ser acrescentados aos poucos.

*** Não aumente sua rotina de treino de forma repentina. Aumento de volume maior que 10% a 15% por semana é arriscado. É preciso conter a ansiedade antes de uma prova ou desafio. Ela pode ocasionar um gasto energético desnecessário e prejudicar o desempenho.

*** Desenhe a estratégia do seu treino ou prova. Entenda como é o percurso, se ele tem muitas curvas, subidas ou descidas.

*** O treinamento mental é tão importante quanto o físico. Lembre-se: será preciso conviver com a zona de desconforto o tempo todo.

*** Há fatores externos que podem prejudicar seu desempenho, como o vento ou um dia muito quente.

*** Procure um treinador ou uma consultoria para ajudar você a conquistar seus objetivos sem forçar demais o corpo. Respeite seus limites. Por outro lado, treinar com um grupo pode ser fundamental para você ter o estímulo necessário para ir além.

COMER BEM

Dicas da nutricionista Luiza di Bonifácio para os corredores:

*** A boa alimentação inclui alimentos “de verdade”, vindos da natureza, com variedade de frutas, verduras e legumes. Evite industrializados.

*** A hidratação é muito importante, sobretudo em cidades com o clima seco. O cálculo – em média – é de 150 a 200 ml a cada 15 ou 20 minutos.

*** Para provas longas ou treinos, é preciso realizar a reposição de carboidratos – existem opções em gel no mercado.

*** Evite ingerir bebidas alcoólicas próximo a treinos-chave ou no dia da corrida. As bebidas estão associadas ao aparecimento de lesões, além de prejudicar a recuperação do corpo após o exercício físico.

*** Se possível, em casos mais específicos, procure a ajuda de um nutricionista esportivo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POSITIVIDADE TÓXICA

Vida digital cria otimismo obrigatório que pode fazer mal, dizem especialistas

Pensar que o dia de amanhã será melhor que o de hoje é uma estratégia acertada para enfrentar os momentos mais difíceis. Mas ser positivo e otimista ao extremo – ou seja, quando não se dá espaço para perceber e sentir a tristeza após alguma situação ruim – pode ser (muito) prejudicial para a saúde mental. É o que os especialistas chamam de “positividade tóxica”.

O boom das redes sociais veio para reforçar esse cenário. Influencers expõem suas silhuetas e vidas “perfeitas” e atrelam a conquista ao pensamento positivo diário. A “fórmula mágica”, afirmam, é pensar em felicidade para atrair a felicidade, esquecer os sentimentos negativos para nada de ruim acontecer.

Impor, a nós e aos outros, uma felicidade plena todos os dias, uma atitude mais positiva diante das dificuldades é um otimismo irreal – como se tudo fosse ficar bem só porque você quer que fique bem, sem fazer mais nada – não ajuda em nada. Na verdade, só atrapalha, afirmam os especialistas. Mais ainda: faz mal para a saúde.

“Crescemos ouvindo que não podemos ficar com raiva ou nos sentir tristes. Quando a pessoa tenta ser positiva o tempo todo e se depara com a tristeza, ela acaba se culpando por achar que atraiu aquele sentimento”, afirma Thiago Guimarães, psicoterapeuta analítico e especialista em neurociência e comportamento, acrescentando que essa conduta estimula a ansiedade.

Foi o que aconteceu com o professor universitário Maurício Bonatto, de 38 anos. Ele afirma que se sentia culpado por experimentar sentimentos que ele achava que “não deveria sentir”.

“Nós nos programamos para acreditar que atraímos tudo o que pensamos, então nos esforçamos para pensar coisas boas. Só que isso em um determinado momento passou a causar uma tremenda frustração, porque o que eu esperava que acontecesse não acontecia e eu me culpava por me sentir frustrado e triste “, conta.

O psicanalista Murillo Campos, de 31 anos, conta que cresceu com a ideia de que era o otimismo que fazia as pessoas serem sempre melhores naquilo que elas gostariam de ser.

“É muito complicado você transmitir crenças que foram implantadas pela sua família e a sociedade de que o natural é estar bem o tempo todo e que normalizar uma situação   negativa é algo ruim, que não te trará nada de bom. Hoje consigo entender as minhas dores e como eu vou lidar com elas, sem negação e privação, apenas aceitando o que eu precisar sentir naturalmente”, diz.

Em suma, o excesso de positividade e otimismo pode fazer com que a pessoa desenvolva quadros de ansiedade e depressão, já que há uma negação da importância dos sentimentos ruins.

De acordo com Guimarães, a saída para a positividade tóxica é entender que é impossível ser feliz o tempo todo, que haverá dias felizes e outros tristes, e que isso faz parte da vida. A saída é acolher tanto a alegria quanto a tristeza, sabendo sentir cada emoção em seu momento oportuno. Para isto acontecer, é preciso investir em autoconhecimento, perceber como você reage diante de situações ruins e aceitar estes sentimentos, afirmam os especialistas.

Um estudo feito por pesquisadores da University College London e da Berlin of Mind and Brain sugere que o otimismo irreal pode ser resultado da falha da atividade dos lobos frontais, uma das áreas do cérebro responsável por processar informações.

Os pesquisadores pediram que os voluntários estimassem a probabilidade de alguns eventos negativos acontecerem em suas vidas no futuro, como doenças e roubo de seu carro. Enquanto isso, eles tinham sua atividade cerebral monitorada par um scanner de ressonância magnética funcional. Depois de um tempo, eles foram informados da probabilidade média daquelas situações ruins acontecerem em suas vidas e foram convidados a refazer suas estimativas e também preencher uma pesquisa sobre seu nível de otimismo.

Os participantes mudaram suas estimativas apenas quando os dados revelados no segundo momento era mais positivo do que eles imaginavam. E o exame de imagem mostrou que essas pessoas ativaram os lobos frontais cerebrais para reprocessar  a informação recebida e dar uma nova probabilidade de algo ruim no futuro.

Já os mais otimistas – aqueles que mantiveram suas previsões abaixo do que a estimativa mostrava como chance de algo ruim acontecer – tiveram menos atividade cerebral nesta região.

Na avaliação dos autores, os resultados sugerem que escolhemos as informações que queremos ouvir e alertam que uso pode ser perigoso, já que a crença de que tudo vai dar certo faz com que muitas pessoas não tomem medidas de segurança, como cuidar da saúde ou poupar dinheiro.

Desejar que coisas boas aconteçam não é necessariamente algo ruim, no entanto. Na verdade, é preciso que haja um equilíbrio. Por isso, o indicado é ter esperança em vez de otimismo. Mas, qual seria a diferença entre esses dois?

O otimismo é que tudo vai funcionar bem, sem chance de algo der errado. Já a esperança é a expectativa de que a coisa vá dar certo, sabendo que pode não dar.

Pessoas esperançosas desejam algo bom, mas se preparam para o caso de aquilo não sair como o planejado. Já os otimistas pensam que não há chance de erro – o que gera uma grande frustração quando algo de ruim acontece, já que não era esperado.

OUTROS OLHARES

VOCÊ PODE AJUDAR

A despeito do descaso do governo federal, jovens ativistas se engajam em iniciativas de combate a pobreza menstrual no brasil, onde mais de 4 milhões de meninas não têm acesso a cuidados durante o ciclo

No início de outubro, o veto do presidente Jair Bolsonaro ao projeto de lei que previa distribuição gratuita de absorventes para mulheres em vulnerabilidade social acendeu nas redes (e fora delas) a discussão sobre pobreza menstrual. O termo, cunhado na França, se refere aos efeitos da falta de informação e de acesso a produtos básicos de higiene durante o período da menstruação. A decisão de Bolsonaro vai na contramão de outros lugares no mundo, como a Escócia, que no fim do ano passado se tornou o primeiro país a fornecer produtos menstruais gratuitos em todas as escolas e universidades. A Califórnia também acabou de adotar a medida, que entra em vigor no próximo ano letivo em toda a rede de educação (por lá, desde 2017, o material já é fornecido em escolas de baixa renda). Já aqui, 713 mil brasileiras, de 10 a19 anos, vivem sem banheiro ou chuveiro em casa, e mais de 4 milhões não têm acesso a recursos para cuidados durante o ciclo, segundo levantamento da Unicef. Enquanto o governo lava as mãos para o problema, agravado durante a pandemia, jovens mulheres resolveram arregaçar as manga e ajudar por conta própria. Após a polêmica, vários estados e municípios anunciaram programas de doação de absorventes, entre eles a Prefeitura do Rio.

“O acesso a esses itens é uma questão de saúde pública e deveria ser um direito, não um luxo ou privilégio”, argumenta a estudante carioca Constanza Del Posso, de 17 anos, idealizadora do projeto Absorvendo Amor, que já doou mais de 150 mil absorventes a cerca de 8 mil meninas. Aluna do colégio Eleva e moradora da Gávea, Constanza se deparou com a questão no livro “Eleanor & Park”, da escritora norte-americana Rainbow Rowell, que narra um episódio de bullying com uma personagem que fica menstruada na escola “Aquilo me marcou muito e fiquei chocada como ninguém falava sobre isso. Descobri que era um problema gigante”, conta. Em 2018, montou um grupo com 14 colegas e começou uma campanha local para arrecadação e distribuição de absorventes, principalmente em escolas públicas. “Uma em cada quatro meninas brasileiras da rede pública falta aula por não poder comprar absorvente, e pode perder em média 45 dias. É quase um quarto do ano letivo”, justifica.

Estudante do ensino médio e moradora de Granja Viana, na Grande São Paulo, Luana Escamilla, de 17 anos, foi apresentada ao termo pobreza menstrual no ano passado, quando assistiu ao documentário “Absorvendo Tabu”. O curta da americana Rayka Zehtabchi, vencedor do Oscar em 2019, aborda o estigma da menstruação na Índia por meio de um grupo de mulheres sem acesso a produtos de higiene que consegue a doação de uma máquina para fabricar absorventes biodegradáveis de baixo custo. “Fiquei muito tocada e resolvi pesquisar sobre o assunto no Brasil. Foi uma quebra da minha bolha pensar que alguém poderia passar por uma situação tão desumana”, conta a criadora do Fluxo Sem Tabu, que propõe democratizar o acesso ao conhecimento e à higiene íntima. Sozinha, ela aprendeu a fazer um site, criou unia campanha de conscientização e arrecadação e cuida  de toda a estratégia. Para a montagem e distribuição dos kits, conta com a ajuda de cerca de 700 voluntários. Já conseguiu doar 180 mil absorventes e ouviu relatos como o de uma moradora de rua que disse que ficar sangrando debaixo do viaduto com cólica era sua rotina “É importante falar também sobre como a pobreza menstrual tem relação com a evasão escolar. A falta de informação leva a vergonha, isolamento e ao uso de métodos inseguros, como jornal, papel higiênico, folhas, panos velhos e até miolo de pão, o que acaba acarretando em problemas de saúde.”

Com a doação de absorventes, calcinhas, sutiãs e outros itens de higiene no Rio e em Niterói, o projeto Tô de Chico surgiu há três anos a partir de uma conversa num domingo à tarde entre a engenheira de produção Talita Soares, de 24 anos, e a namorada, a geógrafa Carolina Chiarello, de 27. “Uma de nós estava menstruada, comentamos sobre o incômodo e percebemos como éramos privilegiadas”, diz Talita. Elas recolhem os donativos e distribuem cerca de 200 kits mensais a pessoas em situação de rua, ONGs parceiras e ao próprio SUS. “Nossa principal meta é quebrar o tabu em torno do assunto. Somos governados majoritariamente por homens que, por ser um ‘problema feminino’, não dão a devida atenção. A pobreza menstrual vai além da falta de absorvente, que é o mínimo que deveria ser garantido”, acredita Talita.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 21 DE NOVEMBRO

MÚSCULOS FORTES E CABELOS BRANCOS

O ornato dos jovens é a sua força, e a beleza dos velhos, as suas cãs (Provérbios 20.29).

A vida é feita de várias estações. Cada uma delas tem sua beleza peculiar. A infância, a juventude, a maturidade e a velhice são estações da vida e, nessa viagem rumo à eternidade, podemos celebrar em cada parada. Duas dessas estações são destacadas pelo sábio: a juventude e a velhice. A beleza dos jovens está na sua força, e o enfeite dos velhos são os seus cabelos brancos. Os jovens estão cheios de vigor e força; os velhos transbordam sabedoria e experiência. Os jovens prevalecem pela força dos músculos; os velhos, pelo discernimento da vida. Os jovens têm explosão em seus músculos; os velhos, tenacidade em sua experiência. Os jovens precisam adquirir sabedoria com os velhos, e estes precisam da proteção daqueles. Os jovens podem ter visões do futuro, e os velhos podem sonhar com novas oportunidades. Jovens e velhos não devem bater cabeça. Eles não estão competindo no jogo da vida. Não devem entrar numa queda de braço para ver quem prevalece. Devem ser parceiros e caminhar de mãos dadas. Os velhos precisam andar com a força dos jovens, e os jovens precisam olhar para a vida com a sabedoria dos velhos. Músculos fortes e cabelos brancos formam uma dupla forte, vigorosa e imbatível.

GESTÃO E CARREIRA

O FUTURO DO ANYWHERE OFFICE

A ideia de trabalhar de qualquer lugar do país, ou do mundo, é uma realidade que tem tudo para sobreviver à pandemia. Veja os atalhos para tirar esse sonho do papel – e entenda os riscos que essa decisão traz para sua carreira.

A essa altura, você provavelmente já tomou pelo menos a primeira dose da vacina contra a Covid. As empresas também estavam ansiosas por esse momento. Depois de um ano e meio de home office forçado, elas começam a organizar a volta aos escritórios (isso se a variante delta permitir, claro). Só que uma coisa é convidar funcionários confinados em apartamentos pequenos a sair de casa algumas vezes na semana, outra bem diferente é chamar aqueles que viram no modo remoto compulsório a possibilidade de trabalhar de qualquer lugar, de preferência em outra cidade ou outro país.

O anywhere office sempre pareceu uma utopia millennial. Aquele mundo possível apenas para influenciadores digitais ou empreendedores da economia criativa, cujo trabalho consistiria em abrir um Macbook em um café hipster às 10h da manhã, mandar meia dúzia de e-mails, programar algumas postagens em redes sociais e dar o expediente por encerrado antes da hora do almoço. O oposto disso são trabalhadores mortais, com oito horas por dia de planilhas e relatórios garantidos, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Para esses, nunca houve qualquer possibilidade de anywhere office. Até março de 2020.

Nessa fenda que a pandemia abriu no tecido cósmico, os dois mundos se fundiram. Só não saiu exatamente como os mais otimistas imaginavam. Quem idealizava a liberdade dos moderninhos descobriu que a rotina fora do escritório é até mais puxada do que dentro. No modo normal de trabalho, não é comum estar no escritório às 23h, completamente focado. Em casa, o expediente tende a não ter hora para acabar. Como disse Satya Nadella, CEO da Microsoft: “Home office não é exatamente trabalhar em casa. É dormir no escritório”.

Por outro lado, percebeu-se que mesmo carreiras mais tradicionais podem se adaptar a uma rotina 100% remota. Dá para trabalhar de uma praia, de uma cidadezinha histórica no interior, de Amsterdã, da Lua.

Com isso, surgiram diversas teorias. A revista britânica The Economist proclamou no passado “a morte do escritório”. Mas a verdade é que o home ou o anywhere office não será necessariamente a regra. Trabalho, afinal, é muito mais do que cumprir um conjunto de tarefas para as quais o empregador paga o seu salário. A empresa também paga para que você crie inovações com seus colegas. Mais: muita gente tem o prazer de não trabalhar só por dinheiro. Mas também pelo prazer social, pelo privilégio de criar laços com gente interessante, como define Laura Castelhano, pesquisadora de trabalho e carreira da PUC-SP.

A consultoria Robert Half ouviu executivos e descobriu que 95% das empresas planejam um modelo híbrido para o mundo pós-pandêmico. Esse “híbrido” tem mais de um significado. Um é o mais convencional: você trabalha uma parte do tempo em casa e vaiao escritório algumas vezes por semana. O outro libera funcionários de certas áreas para o trabalho completamente remoto, e estipula que o restante deve ir ao escritório todos os dias.

A pesquisa não diz quem pretende adotar cada modelo – boa parte das empresas ainda está longe de decidir, na verdade. Mesmo assim, a intenção atende em parte ao que os próprios funcionários desejam. O mesmo estudo mostra que, se pudessem escolher, 62% dos trabalhadores não voltariam ao esquema anterior. Fariam home office de uma a três vezes por semana. E 22% disseram que prefeririam não voltar ao escritório nunca mais.

E as negociações estão em andamento pelo mundo. O Google, que no começo disse que todos deveriam estar ao menos três vezes por semana no escritório, deve autorizar 20% da equipe a permanecer em modo remoto. Mais uma dezena de empresas americanas, especialmente ligadas à tecnologia, também foram por esse caminho.

No Brasil, a XP anunciou que passaria a um modelo de anywhere office no meio do ano passado. A corretora contratou 2.750 pessoas entre 2020 e 2021; dessas, 2.085 são de fora de São Paulo, onde fica a sede da empresa. Dos 4.816 funcionários da companhia, 44% aceitaram migrar para o regime de teletrabalho com possibilidade de viver em qualquer lugar. É a tendência global.

O The Conference Board, uma organização americana, calculou que só 8% dos postos de trabalho eram prioritariamente remotos nos EUA antes do coronavírus. Para o cenário pós-pandêmico, as estimativas variam de 20% a 50% das vagas. A pesquisa se debruçou sobre anúncios de emprego e detectou que vagas nas áreas de TI, finanças e seguros agora têm a opção de trabalho remoto com mais frequência.

TI era o esperado. Primeiro porque, no setor de tecnologia, é mais fácil trabalhar de forma assíncrona, em que basta entregar a tarefa, não importando como, quando ou onde você tenha executado a atividade.

Mas só isso não explica a maior flexibilidade nesse caso. Há também uma escassez global de mão de obra na área. Esses profissionais são tão disputados que as empresas simplesmente não encontram candidatos se forem convencionais demais. “Nos EUA, as vagas são para quatro dias em casa, um no escritório. Se for diferente disso, eles perdem o candidato”, diz Lucas Nogueira, da Robert Half. Claro que o desemprego em 5,4% nos Estados Unidos aumenta o poder de barganha do funcionário. Por aqui, a taxa está em 14,7%.

MEU ESCRITÓRIO É NA PRAIA

A boa notícia é que, para quem gostou da possibilidade de trabalhar de qualquer lugar, as  chances de manter a nova vida são reais.

“Eu não vou conseguir trazer de volta para São Paulo os advogados que compraram casa na praia e nadam às 5h da manhã. Não se tira isso das pessoas”, diz Isabel Bueno, advogada e sócia do escritório Mattos Filho.

Aline Toretto também foi para a praia. Ela é gerente de RH numa startup financeira, a 180º Seguros. No ano passado, mudou com mala, cuia, namorado e cachorra para Trancoso.

A mudança começou a ser desenhada quando ficou inviável para Aline conciliar trabalho e um ruidoso apartamento de 50 metros quadrados. Em vez de simplesmente buscar uma casa maior, o casal tentou outro estilo de vida. No começo, a ideia era ficar só três meses no litoral baiano, e depois seguir viagem em busca de uma nova casa temporária. Acabaram ficando por lá mesmo. “Trancoso é uma cidade pequena, mas turística. Tem um centro desenvolvido, com restaurantes. A gente acaba estabelecendo uma vida social interessante aqui”, conta. Mas o destino só foi decidido depois que testaram a conexão com a internet. “É da responsabilidade de quem está fazendo esse movimento garantir a internet. Aqui, a fibra é ótima, e a gente testou antes.”

Essa é uma constante. Quem deixa a cidade, mas não o emprego, se sente ainda mais responsável por garantir boas condições de trabalho e a entrega de resultados. Uma espécie de compromisso a mais com a empresa que concedeu o benefício. O casal Camila Schmalz e Edson Feltrin passou a vida inteira em Joinville. Neste ano, venderam a casa e agora terminam a construção de um motorhome. Até janeiro do próximo ano, o escritório será na estrada, em viagens que podem ultrapassar as fronteiras do país. Antes, porém, eles pretendem fazer algumas viagens-teste para entender melhor a viabilidade da empreitada.

Os dois trabalham na Neogrid, uma empresa de tecnologia – ela é gerente de marketing; ele, analista de produtos. “Nossa van terá um pequeno escritório, que atende a nós dois. E vamos manter as nossas rotinas no trabalho e ter uma viagem mais tranquila. Parar durante a semana em um camping ou em uma estrutura um pouco mais estável, para garantir o desempenho profissional”, diz Camila.

“Nosso primeiro foco é o trabalho. Só que na sexta-feira, quando acabar o expediente, a gente vai estar na beira de algum penhasco com vista para o mar”, brinca Edson. Brinca não: fala sério mesmo. Outra vantagem para quem decide ir para algum lugar mais calmo, além dos eventuais penhascos com o mar batendo de tardezinha, é o custo de vida. O salário continua o mesmo. Nisso, há uma larga vantagem no Brasil. O pessoal do Google que sair do Vale do Silício, por exemplo, muito provavelmente terá algum corte de salário, já que a legislação americana permite adequar o pagamento ao custo de vida do lugar onde o funcionário vive.

O que as empresas daqui fazem quando oficializam o home office é converter o contrato do regime tradicional para teletrabalho. Isso garante a dispensa de bater ponto, e dá ao profissional mais autonomia sobre seu tempo. De resto, se ele não tem tarefas presenciais, o DDD do telefone é um detalhe.

Avisar o empregador dos planos de mudança também pode trazer outras vantagens, como adaptação de benefícios. Um exemplo: o plano de saúde pode ter um upgrade para cobertura nacional, por  exemplo. Só não conte com isso se seu plano for mudar de DDL

ALL AROUND THE WORLD

Se você tem o sonho de viver fora do país sem o incômodo de ter de largar o seu emprego, lembre-se do seguinte: a gente aqui do Brasil volta e meia sofre de síndrome de patinho feio, mas o nosso passaporte não é dos piores: abre a fronteira de 79 países sem a necessidade de visto. Outros 38 concedem visto na chegada, o que consiste basicamente em pagar uma taxa de acesso. É uma quantidade generosa de lugares com portas abertas, o que coloca o Brasil na 15ª posição de passaporte mais poderoso do mundo.

Há um porém. Esses lugares dão visto de turismo. Em tese, você não pode embarcar para Paris com o plano de passar três meses trabalhando por lá, mesmo que para um emprego no Brasil. Em tese, claro. Ninguém vai invadir a sua casa perguntando se você está trabalhando, e não turistando. Sem falar que visto de turista te deixa ficar só 90 dias em cada país, o que torna a logística de uma vida nômade internacional um pouco mais complexa.

O mineiro Renato Ribeiro tem feito isso. Ele deixou o Brasil em fevereiro deste ano sem planos de voltar. Head de conteúdo da equipe de marketing da Beer Or Coffee (uma empresa de coworking), Renato é um pioneiro do home office: trabalha nesse regime desde 2019. E agora conseguiu planejar uma vida que concilia trabalho com viagem – e com as restrições da pandemia.

“A princípio, eu estava planejando ir para a Argentina, mas as fronteiras foram fechadas. Por causa disso, eu decidi ir para a África, porque é uma região que está recebendo brasileiros.” Depois de 15 dias fora do Brasil, as fronteiras até reabrem para você, porque aí o mundo deixa de achar que a pessoa  é um vetor de Covid só por ser brasileira.

Desde o começo do ano, Renato passou pela África do Sul e pela Etiópia. Depois subiu para a Europa, buscando países com fronteiras mais abertas: Macedônia do Norte, Sérvia e Bósnia, onde está agora. Ele ficou pelo menos um mês em cada lugar, para dar tempo de virar a chave do “turismo” para “vida local”. “Ainda não tenho certeza do próximo destino, porque depende muito das questões da Covid e da vacinação. Mas estou pensando em ir para a Croácia e para a Hungria.”

A nova vida é bancada com o salário em reais, e ele procura países com custo de vida semelhante ao nosso. Renato recebe na conta de banco que tem no Brasil e transfere para uma conta digital que abriu na Europa – é mais simples abrir contas em fintechs por lá, igual aqui. Com o dinheiro em moeda estrangeira, faz pagamentos com cartão de débito ou saca, quando necessário. A ideia é seguir a vida assim e voltar para o Brasil apenas para visitar a família.

A Receita Federal pode ser uma pedra no sapato a quem pretende virar nômade global para sempre. Quem deixa o Brasil sem planos de voltar deve fazer a declaração definitiva de saída do país, um acerto de contas de Imposto de Renda por aqui. Só que, depois disso, as contas bancárias normais são fechadas e o CPF é suspenso. Você pode até não avisar a Receita, mas, pela regra, o Fisco assume que você deixou o país em definitivo depois de 183 dias fora.

Ou seja: quem pretende passar uma boa temporada no exterior sem largar o batente brasileiro precisa voltar para cá no mínimo duas vezes por ano. E isso é importante por outro motivo também. É que a maioria dos países passa a contar a pessoa como residente fiscal depois de 183 dias (aí você precisaria pagar impostos lá sem deixar de pagar no Brasil).

Antes da pandemia, multinacionais que desejassem ter funcionários fora do país cuidavam de todo o processo de expatriação: conseguir o visto, ajudar na instalação da família, nas questões fiscais e no pagamento na moeda local do país.

Para a empresa, é crucial que você mantenha residência fiscal no Brasil. É que não residentes têm outro regime de Imposto de Renda: pagam 25% direto na fonte. Quem recolhe é a empresa. E tudo que ela não quer é essa dor de cabeça extra.

No modo “mudança voluntária”, de qualquer forma, o contrato de trabalho continua brasileiro e esse é o tipo de imbróglio que precisa ser soluciona do por quem decide sair do país. Sem falar no salário, que continua a ser pago em reais, o que pode pesar na conta de quem quer viver em dólares ou euros.

NOMAD VISA

Alguns países viram no anywhere office uma oportunidade para atrair um turismo de longo prazo, e decidiram limar as barreiras burocráticas de visto e imposto. É o caso da Estônia, primeira nação a criar um visto para nômades digitais.

A ex- república soviética, conhecida por suas medidas arrojadas (como o voto via internet), concede prazo de permanência mais longo, geralmente um ano, e dá isenção tributária completa, como se você fosse turista mesmo. A condição é que você vá com um emprego no seu país de origem, já que esse tipo de visto não permite trabalho para empresas locais.

Depois da Estônia, outros países replicaram a ideia: Barbados, Dubai, Islândia, Ilhas Cayman e Croácia. A ideia é justamente fisgar profissionais esgotados pelo confinamento – e o dinheiro deles (bem-vindo num contexto de crise econômica). Só tem um detalhe. Todos pedem uma renda generosa para conceder o visto, uma espécie de garantia de que você vai levar mesmo dinheiro para lá, e não virar um trabalhador ilegal na primeira oportunidade – o visto de nômade não dá direito de trabalhar para empresas desses países. Sem falar que, em alguns casos, o custo de vida é brutal. Em Reikjavik, capital da Islândia, uma garrafa de cerveja sai por R$ 20 – e isso no supermercado. No bar custa RS 50. Ou seja: você tem de comprovar que consegue arcar com isso trabalhando para o Brasil mesmo.

Nos países da União Europeia, os vistos são escassos. Portugal e Alemanha têm vistos de trabalho para freelancers, só que aí é o contrário dos programas do tipo nomad: você precisa pagar impostos lá e, claro, está livre para atender clientes do país de destino.

Mas nem só de burocracia vive o estilo de vida errante. Portugal criou uma espécie de vila para andarilhos digitais na Ilha da Madeira. O programa, voltado para europeus que queiram sair das cidades grandes para as praias da terra natal de Cristiano Ronaldo, oferece internet, espaço de coworking e uma rede de contatos, para amenizar o isolamento de quem vive viajando. O Rio de Janeiro testa algo semelhante. Criou um site que lista opções de coworking e hospedagem para atrair gente que deseje passar um tempo na cidade mais fotogênica do país, sem ser nas férias.

TRABALHAR PARA A GRINGA, SEM SAIR DO BRASIL

Tem mais um jeito de tirar proveito do anywhere office. Lucila Dei Grande é diretora executiva de RH da Bridgestone para a América Latina desde março do ano passado. A promoção poderia ter acontecido em 2018, mas ela não aceitou. Naquele ano, um pré-requisito para assumir o cargo era a mudança para os Estados Unidos. “Eu recusei porque sou casada, tenho filhos e não tenho essa mobilidade.”

Demorou, mas, no fim, a pandemia garantiu o avanço na carreira. Quando todos os funcionários administrativos foram para o home office, a matriz da empresa descobriu que o cargo não precisava ser presencial. O plano da empresa é seguir com trabalho híbrido. “Então, quando tudo isso passar, a posição vai ficar situada no Brasil. E não sou a única na Bridgestone. Tem um diretor de planta que cuida da equipe da Argentina e também fica aqui no Brasil”, diz Lucila. Esse é só um dos exemplos de como empresas abertas ao anywhere office oferecem mais possibilidades de crescimento profissional. Dan Paranhos, 33, é de Goiânia e trabalha de modo 100% remoto desde 2016. A primeira experiência foi com a americana Cornerstone OnDemand, que até tinha um escritório em São Paulo. Ele, no entanto, nunca teve a obrigação de ir ao local. E aproveitou a flexibilidade para

trabalhar de qualquer lugar. “Tenho um amigo que mora na Polônia. Ele casou e me chamou para o casamento. E não tem como fazer um bate-volta para a Polônia de um final de semana. Aí aproveitei e passei um mês lá, tirei alguns dias de folga, mas fiquei trabalhando de lá mesmo”, conta.

UM FUSO MUITO LOUCO

Quem virou zumbi para acompanhar a Olimpíada teve uma boa amostra do que pode acontecer com quem trabalha em fuso horário maluco. É um desafio real para quem decide mudar seu home office de país ou topa trabalhar para uma empresa estrangeira. Uma reunião marcada para as 15h aqui no Brasil ocorrerá às 20h, se você estiver na Alemanha, e às 3h da manhã, se você se mudar para a Austrália.

De Sarajevo, Renato Ribeiro diz que tem liberdade para fazer o próprio horário. Ainda assim, bate um “sentimento de culpa” por não seguir a jornada dos colegas. “Minha liderança me dá toda a liberdade para fazer as coisas de forma assíncrona. Mas tem dias em que eu me sinto na obrigação de estar no mesmo horário com meus colegas. Então, vira e mexe, são 23h30 aqui e eu tô abrindo o Slack, porque é a hora que a galera está fervendo no Brasil”, conta.

Na OLX, uma empresa que abraçou o anywhere office com carinho, a presença em reuniões não é obrigatória, e as realmente importantes ficam gravadas. Isso ameniza o problema de diferença de horário. “Meu chefe está na Holanda. Ele se organizou, e estamos fazendo as reuniões de manhã [noBrasil], porque à tarde já é de noite para ele”, diz Sergio Povoa, diretor de Recursos Humanos da empresa. Mas dá para tirar partido da diferença de horários também. Ter uma equipe em vários fusos pode esticar o dia e diminuir o número de horas extras. É o que explica Ana Carolina Queiroz, advogada brasileira que vive na Bélgica e comanda uma equipe espalhada por escritórios em Amsterdã, Londres, Miami, Belo Horizonte e São Paulo.

“Se acaba o dia na Europa, eu tenho alguém de Miami que vai poder continuar o trabalho sem perturbar quem já terminou o expediente.”

O QUE OS OLHOS NÃO VEEM

Suas chances de crescer profissionalmente não estão ligadas só à sua competência técnica. Tão fundamental quanto os resultados é a sua capacidade de se relacionar bem com colegas e chefes. É dessa boa conexão que surgem chances como a de entrar em um projeto de maior visibilidade – daqueles com potencial para render uma promoção.

Se você está longe dos olhos do seu gestor, porém, fica mais difícil de ser indicado para trabalhos de mais responsabilidade. Com todo mundo em home office, beleza. Ficam todos em pé de igualdade, fazendo a social pelo Zoom mesmo. Numa realidade em que alguns decidem trabalhar na sede da companhia e outros preferem penhascos mundo afora, o pessoal do penhasco tende a ficar para trás. E isso é uma dor de cabeça para as empresas também. Moralmente falando, as que adotaram o anywhere office não podem discriminar entre quem vai ao escritório e quem é apenas um quadradinho na tela da videoconferência. Mas empresas são feitas de pessoas. E pessoas gostam de contato ao vivo. Ponto. Um estudo da Universidade de Stanford acompanhou funcionários de call center de uma empresa de viagens de Xangai por nove meses. Aqueles que estavam em home office foram mais produtivos, porque fizeram mais ligações e menos intervalos entre as chamadas. Ainda assim, tiveram menos aumentos. Ou seja: se é assim em funções que não exigem uma baita interação interpessoal, imagina nas que exigem. “A gente tem essa sensação de que está perdendo algo quando não participa de uma reunião. Não é a mesma coisa de estar em vídeo”, diz Laura Castelhano, da PUC-SP.

Não só isso. Seres humanos aprendem também por imitação. A gente vê como um colega mais experiente resolve um problema ou interage com o chefe, e acaba incorporando uma parte desse comportamento. Observar é parte do amadurecimento profissional. Sem falar que nem tudo no trampo é trampo. “No espaço físico é onde tem a interação off-trabalho. E boa parte das coisas que a gente assimila profissionalmente é quando não está trabalhando. A questão da cultura da empresa vem do território. O espaço ajuda na conexão das pessoas”, acrescenta Castelhano. A XP, por exemplo, já planeja voltar a fazer a integração de funcionários presencialmente, mesmo que eles sejam de outros lugares do país. “Antes da pandemia, você estava no escritório, você via as cores da XP, as frases, a diretoria andando para lá e para cá. Você sentia o clima. No modelo remoto, isso é difícil de transmitir”, diz Dalal Ghosn, head do programa XP Anywhere.

A realidade do trabalho é uma força que puxa a vida para algo mais próximo da normalidade do que do sonho de viver de galho em galho. O antropólogo Dave Cook acompanhou 16 nômades digitais por quatro anos. E constatou que as pessoas passaram a viajar menos depois de algum tempo. Cada mudança de cidade ou de país pode ser excitante, mas consome um belo tempo de adaptação, o que gera estresse.

Eles também passaram a fugir de áreas mais turísticas das cidades, para evitar o clima de festa enquanto precisam trabalhar. Ou seja, você acaba num ambiente mais parecido com o da sua cidade original: as áreas não turísticas de Berlim, Amsterdã ou Cidade do Cabo são tão cinzentas quanto a de qualquer cidade chata.

O estudo de Dave Cook também mostrou que os nômades são uma espécie que tende a se reunir em coworkings quando se tromba pelo mundo. Nos depoimentos, eles disseram que precisavam de um ambiente mais ligado ao trabalho para que conseguissem se concentrar e ser produtivos. Pois é. No fim, até pode ser anywhere, desde que seja em um office.

EU ACHO …

CADA UM NO SEU LUGAR

Dia desses, liguei para uma grande amiga e fizemos um acordo. Estamos ambas com a vida corrida e pactuamos que aquele seria o momento de romper com nossas agendas ocupadas para passarmos momentos juntas botando o papo em dia. Saímos para almoçar ao ar livre. Ainda parece estranho retomar certas atividades presenciais, antes tão corriqueiras. Mas topamos o desafio.

Em parte do tempo que passamos, ela me contou sobre o quanto estava super apaixonada: “Ele é meu amor, meu amigo, meu terapeuta, meu tudo”, disse. Obviamente, fiquei feliz por vê-la amando e se sentindo amada e valorizada, mas achei que cabia compartilhar um conselho que recebi: temos que ter cuidado com o papel de terapeuta que, muitas vezes, atribuímos a namorados, mães, pais e irmãos. Aprendi que este papel não deve ser dado a quem não exerce esta profissão. E passei a reflexão adiante.

Eu mesma já me vi dando a pessoas próximas a função não pedida por eles de terapeutas, compartilhando questões que carregava. Uma terapeuta, felizmente, me avisou que não precisava atribuir aos outros o papel que cabia a ela.

Lembro-me de um amigo também ter me dito recentemente que sentia que seu pai o usava como terapeuta. Ele ainda não havia procurado apoio ou fazia atividades relacionadas à saúde mental. E meu amigo não aguentava roais ouvir tudo que ele tinha passado no casamento com a madrasta. Dizia não estar preparado para ter relatos tão pesados somados às próprias questões existenciais. E foi aí que começou a fazer terapia e retomou a prática de esportes para extravasar. Foi fundamental para não continuar com o ciclo de dar papel de terapeuta para quem não deve exercer essa função.

Ao olhar para eles, entendi que ao longo da vida, acabei guardando comigo diversas questões devido ao aprendizado de que deveria selecionar com quem dividisse meus anseios e angústias, o que muitas vezes me fez deixar de compartilhar coisas. Isso me dava um nó no peito. E fui entendendo um dos papéis da terapia.

Conversando coro terapeutas e profissionais que lidam com saúde mental, ao longo da minha caminhada, percebi que algumas das maiores confusões que cometemos na vida é justamente misturar os papéis de cada um. Mãe é mãe, namorado é namorado e terapeuta é terapeuta. Ou pelo menos deveria ser. A conversa com minha amiga me trouxe este lembrete.

Filho ou namorada não deveriam ser usados como único canal de escuta de problemas e questões. E não deveriam se sobrecarregar com questões que não lhe cabem, além das que eles mesmo carregam. Precisamos achar um equilíbrio que não é nada óbvio.

Para compartilhar coisas boas, avanços, segredos, expectativas, ter confidentes é importante, mas sobrecarregar uma pessoa (ou algumas) com toda esta carga que precisa dividir pode ser demais. E pode ameaçar a sanidade das relações.

O tempo passou e minha amiga está na terapia e fazendo uma série de atividades dedicadas à saúde mental. E por aqui eu dedico esta coluna a essa importante conversa que tivemos. Passar essa história adiante pode ser útil a alguém.

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

ESTAR BEM

TEMPO NÃO É MAIS DESCULPA

O snack fitness, novo modelo de treino físico, melhora a saúde e o condicionamento a partir de vinte segundos de exercícios intensos. Dois novos estudos mostram sua eficácia

Depois de anos vivendo sob a máxima de que os primeiros benefícios do exercício físico para o organismo só viriam após vinte minutos de atividade, a ciência apresenta um novo conjunto de informações mostrando que não precisa de tanto tempo assim. Na verdade, vinte segundos de movimentação intensa três vezes por dia já é o suficiente para melhorar o condicionamento físico e a saúde cardiovascular. É o que os estudiosos estão chamando de snack fitness, expressão em inglês que, em português, pode ser entendida como treino curto que pode ser repetido. Como um petisco saboreado aos poucos. A modalidade é uma evolução do HIIT (high intensity interval training, em inglês), sistema que intercala exercícios de alta intensidade com períodos de descanso. Ele começou a fazer sucesso nos anos 2010, por combinar redução de tempo – um circuito completo pode ser executado em vinte minutos – com resultados evidentes.

Aos poucos, porém, percebeu-se que o tempo total gasto não era assim tão menor do que o usado em um treino convencional, de sessenta minutos. Entre trocar de roupa, subir na esteira ergométrica ou na bicicleta, completar o aquecimento e, ao final, esperar o corpo voltar ao ritmo normal, lá se vai pelo menos meia hora. Evidentemente, gastar trinta, quarenta minutos no total, com os mesmos benefícios de uma hora, é vantajoso. Mas, para as pessoas resistentes aos exercícios, esse tempo ainda é insuficiente para motivar a sair da inércia.

Embora existam muitos atletas, um pedaço considerável da humanidade prefere gastar seu tempo com qualquer outra coisa que não sejam abdominais, flexões ou corridas. Por isso, dois centros de pesquisa resolveram investigar qual o mínimo de tempo necessário para obter os benefícios dos exercícios e, dessa maneira, tirar mais gente do sedentarismo. A pergunta não tinha resposta desde que a Organização Mundial da Saúde deixou a informação em branco quando atualizou as diretrizes para o assunto, em 2018.

Dois estudos, porém, trouxeram importantes – e muito positivas – novidades. O primeiro foi liderado por Martin Gibala, professor de cinesiologia da Universidade McMaster, no Canadá. Gibala estuda a relação entre tempo, intensidade e o impacto dos exercícios no corpo há cerca de vinte anos. Desta vez, ele resolveu testar em 24 adultos sedentários a eficácia do snack fitness com o seguinte treino: vinte segundos pedalando em intensidade máxima, intercalados com descanso entre uma a quatro horas, três vezes por dia, três vezes por semana. Como comparação, metade dos participantes executou outro modelo, quase igual, à exceção dos intervalos: eles tiveram dez minutos para cumprir os três ciclos de vinte segundos na bicicleta. Os resultados foram parecidos. No primeiro, a melhora no funcionamento do sistema cardiovascular foi de 9%. No segundo, 13%. “O mais importante é termos mostrado que cada movimento conta. Os ganhos para o organismo começam assim que o indivíduo inicia os exercícios”, disse Martin Gibala.

O segundo estudo também reforçou a certeza de que o esforço, por mais breve que seja, ajuda o organismo. Na Universidade do Texas, nos Estados Unidos, os pesquisadores colocaram jovens adultos para pedalar em alta intensidade durante quatro segundos, seguidos por intervalos de quinze a trinta segundos. Cada ciclo foi repetido trinta vezes, somando dez minutos de trabalho físico. No final, todos apresentaram ótimo desempenho da atividade aeróbica. “A performance atlética e as condições cardiovasculares apresentaram boa evolução”, afirma Remzi Satiroglu, autor principal do trabalho.

A expectativa de Remzi e Gidala é que as evidências trazidas pelos seus trabalhos ajudem a tirar muita gente do sofá. Um dado é certo: não há dúvida de que essas pesquisas derrubam os argumentos de quem procura justificativa para não se mexer. Pelo menos daqueles que se dizem ocupados demais, sem tempo para ir a uma academia ou comprar roupa de ginástica. “A beleza do snack fitness é esta. Você pode praticá-lo em qualquer lugar, andando por dois minutos ou subindo três lances de escada de forma vigorosa, por exemplo”, diz Scott Lear, da Universidade British Columbia, parceiro de Gidala. “E nem precisa trocar de roupa porque não vai suar.”  De fato, só precisa mesmo é de vontade e, como afirmam os cientistas, da convicção de que alguns minutos de sacrifício podem fazer uma grande diferença.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AMPLO ESPECTRO

Novos hábitos e ferramentas renovam visões sobre o autismo

Uma memória da infância da coordenadora de projetos sociais Laryssa Smith a fez determinar que a inclusão seria um ponto fundamental na criação do filho Pedro, de 8 anos, diagnosticado com autismo.

“Fui à casa de alguém conhecido e ouvi, de um quarto, uma criança que fazia barulhos diferentes. Os pais falaram que ela tinha uma deficiência”, explica. “Quando descobri o diagnóstico do meu filho, jurei pra mim que ele não seria mais uma criança escondida dentro de casa. Levando como mantra a ideia de que Pedro está inserido numa realidade partilhada por todos, e não em “seu, próprio mundinho”, – como é comum ouvir em relação às crianças que tenham o Transtorno do Espectro Autista (TEA) – , Laryssa compartilha o dia a dia do filho em uma página no Instagram. Por ali, o menino aparece fazendo terapia aquática, brincando com jogos eletrônicos ou simplesmente interagindo com a mãe.

Cenários como esse refletem o crescente conhecimento sobre o tema, graças, sobretudo, aos avanços científicos e sociais sobre o tema. E às tecnologias que vieram ao auxílio de pais e especialistas nos últimos anos.

O comportamento de Pedro, explica a mãe, é fruto de terapias e outras atividades de estímulo. Uma delas, para aprender a cantar, foi iniciada por meio de vídeos disponíveis na internet, que ensinaram à Laryssa como abordar o filho corretamente.

Há na atividade de Laryssa mais do que um simples registro da realidade e das trivialidades do dia a dia. Em sua página, e em outras semelhantes, os seguidores são muitas vezes mães e pais em situação parecida, reunidos para trocar experiência sobre os filhos que apresentam algum dos aspectos desse distúrbio do neurodesenvolvimento.

DIÁLOGO FRANCO

Essa ideia de conversar abertamente sobre o autismo dos filhos dentro e fora das redes é parte de um novo capítulo em relação à forma como se encara o transtorno dentro das famílias. Hoje, mães e pais se reúnem em fóruns on­line para falar sobre a rotina, partilhar dicas ou simplesmente apoiar-se em um dia difícil. A evolução de outra criança, dizem, é combustível para insistir nas terapias dos próprios filhos, buscando ajudá-los a desenvolver novas habilidades ou aprimorar as que eles já têm.

Os grupos e páginas on-line, embora ofereçam apoio emocional, não substituem o acompanhamento médico adequado. Fundamental para a evolução da criança, é importante dizer.

“Agora os avós sabem do que estamos falando, o que é (o autismo), e sabem o que fazer. Os tios também estão ligados. Antes, somente as mães buscavam por mais informações e os outros ficavam em negação”, diz a psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato, fundadora do Instituto Singular, em São Paulo.

A identificação do transtorno em crianças, mesmo quando elas exibem características consideradas clássicas – não verbalizar palavras típicas da  idade, e ignorar o chamado dos pais e evitar contato visual – ainda é um desafio para as famílias. Isso porque não existe nenhum tipo de exame que emita um laudo oficial. É preciso observá-las em diversos aspectos, conhecer seus hábitos, compreender o que as incomoda.

MÃO DA TECNOLOGIA

Em paralelo aos avanços comportamentais e clínicos, há os tecnológicos. Um estudo recente, publicado na revista JAMA por pesquisadores da Austrália e do Reino Unido, mostrou que o início da terapia – mesmo antes do diagnóstico, preferencialmente feito a partir dos 18 meses de idade – levou à redução dos comportamentos do espectro autista na primeira infância.

As crianças avaliadas tinham entre 9 e 14 meses e mostravam indícios de que poderiam integrar o espectro, por conta de comportamentos iniciais. O grupo que não passou por terapia teve três vezes mais (21%) crianças diagnosticadas com autismo, por volta dos 3 anos, em comparação com os que fizeram as atividades (7%).

A tecnologia, aqui, surge para facilitar a conversa entre especialistas e a família do bebê. Após as orientações oferecidas em vídeo, pelo terapeuta, gravava-se a interação dos pais com os pequenos. Depois disso, os profissionais assistiam às sessões e podiam oferecer feedbacks.

“No estudo, são indicadas intervenções simples, como tentar observar como a criança brinca”, diz Polyana Lima, chefe da neuropediatria da Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Outra ferramenta é o eye­tracking, que consegue identificar a atenção visual da criança. Uma das instituições onde o apetrecho está em estudos é o Instituto Pensi, ligado ao Hospital Sabará, em São Paulo.

“É uma câmera bem pequena que acoplamos a um monitor. Para crianças bem pequenas exibimos, por exemplo, uma bola e uma pessoa sorrindo. Geralmente, os autistas vão olhar mais para a bola”, explica Yasmine Martins, coordenadora científica do Instituto Pensi.

Outra inovação auxiliar ao diagnóstico foi aprovada em junho pela Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora dos Estados Unidos. O aplicativo Cognoa utiliza inteligência artificial e especialistas, em uma central remota, para analisar registros em vídeo.

OUTROS OLHARES

DEPOIS DO ISOLAMENTO, O COLORIDO: CONHEÇA O ‘DOPAMINE DRESSING’

Tendência de vestir o que traz felicidade, sem seguir regras, ganha força na pandemia e tem reflexos no humor

A maneira de nos vestirmos afeta o nosso humor. E muito do nosso humor é refletido na maneira como nos vestimos. A influência da roupa nas emoções humanas é tanta que vestir algo que nos deixa feliz gera uma adrenalina no corpo, que está ligada à dopamina, o hormônio do bem-estar. É daí que vem anova tendência da moda: dopamine dressing, ou  “vestir-se de dopamina”, em tradução livre.

Dopamina é um dos três hormônios da felicidade, ao lado da endorfina e da serotonina. “A dopamina é produzida pelo sistema nervoso central e pelas glândulas suprarrenais. Quanto mais embebido o nosso sistema nervoso está com esse neurotransmissor, maior nossa sensação de prazer. Isso melhora nosso estado de humor e nossa disposição. Quanto mais baixo está, menor a nossa disposição e maior nossos estados de humor negativo”, explica a neuropsicóloga Luciana Xavier.

Assim, quando nos sentimos bem com o que vestimos, o sistema nervoso tem a tendência de começar a produzir a dopamina. Com o avanço da vacinação e o clima de otimismo, veio a vontade de vestir liberdade. ”Tivemos um período de restrições e agora as pessoas querem se vestir de maneira que elas se sintam felizes”, conta a gerente de serviços do cliente da WGSN, empresa de previsão de tendências, Mariana Santiloni.

O  estilo não é necessariamente novo – afinal, o conceito existe desde os primeiros estudos sobre a psicologia das cores -, mas o termo, sim. “A gente começa a viver, agora, um arco­ íris depois da tempestade e por isso vemos as cores como parte de um momento muito importante, no qual vamos voltar a celebrar, a se reunir novamente. Dar um nome traz um certo pertencimento”, diz Mariana

A tendência veio forte especialmente durante a semana de moda de Copenhague, em agosto. Na mesma época, o verão norte-americano também apostava em peças neon, tons vibrantes e mistura de estampas como animal print, xadrez e floral. Até nos desfiles deste semestre de marcas como Dolce & Gabbana (para o inverno) e Moschino (para o verão) a tendência estava presente.

“A moda sempre foi ditada pelos adultos. Nos anos 1970, eles começam a olhar a rua, mas ainda as maisons decidiam tudo. Nos anos 2000, a moda estava tão desatualizada, tão quadrada, que ela vira, então, essa grande mistura democrática de hoje. Olhando mais para o jovem, para a rua”, diz a consultora de modal Manu Carvalho. Com isso, é possível ousar mais, se permitir e fazer misturas “loucas” – desde que elas tragam felicidade. “Sabe quando a Marie Kondo fala ‘Fique com aquilo que te traz alegria’? É totalmente  sobre isso”, brinca, usando como referência a organizadora que ganhou uma série na Netflix.

INTERNET

Com as redes sociais há uma multiplicidade de escolhas entre emoções e tendências. “Antes existiam os padrões da TV, das celebridades. Hoje, no Instagram, você tem todos os estilos ao seu alcance. Isso muda tudo. A geração de hoje tem muito mais informações de moda”, conta a influenciadora Amanda Pieroni.

A mesma regra serve para a nova moda. A ideia central não é ditar uma ou outra peça, cor ou acessório, mas sim vestir-se de modo que você se sinta bem. “Não tem peças-chave. É sobre usar as roupas para se sentir bem, porque elas têm um efeito em nosso comportamento, um significado pessoal para cada um. E o dopamine dressing nada mais é do que unir as cores com a sua personalidade”, diz Amanda. Claro que colorido, figuras divertidas, estampas, imagens de otimismo, palavras e frases positivas são mais óbvias ao associar o novo estilo. Porém, é importante situar que a dopamina de cada um está num lugar individual “Pode ser que alegria para alguém seja vestir preto”, exemplifica Manu.

A falta de regras é reflexo de um período em que, mais do que se preocupar se está na moda ou não, você passa a se vestir para si mesmo. Justamente um dos motivos pelos quais Amanda começou a se interessar por moda. “Desde criança, sempre sofri bullying e sempre usei a moda como refúgio e um jeito de me expressar – já que eu não podia me expressar com palavras, porque as pessoas não queriam conversar comigo. E as pessoas falam muito na internet sobre isso: a maneira de se expressar”, diz. “Por ficar preso em casa por causa da pandemia a gente quer ousar, a gente quer usar o que comprou na quarentena.”

E se o futuro nos perante a ousadia, o passado nos ensina que o conforto deve vir acima de tudo. “Quando se fala em conforto, isso vem desde 2010, quando a gente começa a falar de peças esportivas. São nesses momentos que as pessoas tendem a olhar para essas peças mais clean, que são fáceis de combinar”, diz Mariana.

Além de pensar numa explosão de cores, existe a questão de a  peça ser única e do trabalho manual. Por isso, houve um aumento no interesse por técnicas como crochê, tricô e tie dye durante os meses dentro de casa. “Isso tem uma relação direta com a pandemia porque, de certa forma, a gente se apertou de todas as maneiras. Então onde você pode ter conforto, é maravilhoso”, reflete Manu, citando malhas, moletons, modelagens esportivas, básicas, casuais e suéter e outros tecidos bem vistos na moda dopamine dressing.

Muito mais do que uma tendência de moda, o dopamine dressing traz uma mudança na indústria fashion ao trocar a pergunta “Isso está na moda?” por “Isso faz eu me sentir bem?”. E saber responder à questão pode garantir emoções positivas ao longo do dia – o que, convenhamos, é muito melhor do que andar com o pé dolorido por querer seguir os últimos lançamentos.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 20 DE NOVEMBRO

O TRONO SE ESTABELECE COM BENIGNIDADE

Amor e fidelidade preservam o rei, e com benignidade sustém ele o seu trono (Provérbios 20.28).

Deus é quem levanta e abate reinos; coroa e destrona reis. Aqueles que governam com punhos de aço e esmagam seus súditos com truculência não permanecem no poder por muito tempo. Um governo continuará no poder enquanto for humano, justo e honesto. É por sua bondade que um governante dá firmeza ao seu trono. Os grandes impérios do mundo caíram porque agiram com crueldade. Reis e príncipes foram derrubados de seus tronos porque se vestiram de violência. Onde estão os faraós do Egito? Onde estão os sanguinários reis da Assíria? Onde estão os megalomaníacos reis da Babilônia? Onde está a glória de Alexandre, o Grande? Onde estão os césares de Roma? Onde foram parar as glórias de Napoleão Bonaparte e a fúria de Adolf Hitler? Todos aqueles que usaram a força para governar caíram pela força. Os conquistadores foram conquistados. Os dominadores foram dominados. Não se constrói um governo duradouro com violência e derramamento de sangue. Não se conquistam o respeito e a obediência de um povo com despotismo. Não se estabiliza um trono com tirania. Não se governa contra o povo, mas sim a favor do povo. O amor e a fidelidade preservam o rei. É com benignidade que o rei sustém seu trono (Provérbios 20.28).

GESTÃO E CARREIRA

CHEFE DE PRIMEIRA VIAGEM

Assumir o primeiro cargo de gestão é o momento mais desafiador da carreira. Você nunca vai estar 100% preparado, e terá mais dúvidas do que certezas. Veja histórias de líderes que penaram no início, e conheça as regras de ouro para fazer essa transição de forma mais suave

Virar chefe é como ter um filho. Na véspera do parto, você é alguém com O% de prática em cuidados parentais; no dia seguinte, já está no “emprego” de mãe ou pai – e precisa imediatamente fazer o que mães e pais fazem, mesmo sem saber exatamente como.

Não se trata de uma analogia qualquer. A criadora é a americana Linda Hill, professora da Harvard Business School, autoridade em liderança corporativa. De fato: virar chefe é uma transição complexa, que deixa cicatrizes, e trará consequências para o resto da vida. Da sua e da equipe que você comanda.

Há um risco considerável de acontecer o seguinte: você se abalar com a mudança de atividades (e prioridades) e ficar com medo de não conquistar o mesmo sucesso que tinha como colaborador individual; acabar apegado às antigas atribuições em vez de abraçar as novas. E, talvez, até um tanto envergonhado ao interagir com os ex-colegas, que agora viraram subordinados. (Poucas coisas são tão mortificantes na rotina do líder novato que dar um feedback severo para um companheiro de happy hour – ou, pior, ter de demiti-lo). Vocês costumavam falar mal da empresa no cafezinho da copa? Pois agora, aos olhos deles, você é a empresa.

A tão cobiçada cadeira vai parecer desconfortável no início. “Os executivos são formados irrevogavelmente por seus primeiros cargos de gestão”, apontou Linda Hill num artigo para a Harvard Business Review. “Décadas depois, eles se lembram daqueles primeiros meses como experiências transformadoras, que forjaram suas filosofias e estilos de liderança.”

Uma das maiores dificuldades é lidar com as expectativas. Os líderes superiores estarão de olho em você. Vão analisar quão rapidamente, e com quantos tropeços, o gestor novato se adapta à função. Do outro lado, sua nova equipe está aflita para ver que tipo de chefe você será – se vai ajudá-la ou infernizá-la. E mais: geralmente o time espera que o executivo já chegue com respostas para todas as questões – que você não terá, pois o momento de virar líder é marcado muito mais por dúvidas do que por certezas.

Os especialistas costumam falar num período de 90 dias para que a cadeira fique mais ajustada aos contornos do chefe de primeira viagem. “Esses três meses são importantes para o processo de aculturamento”, diz Cíntia Martins, pesquisadora e especialista em liderança e cultura corporativa. “É quando o profissional tem a oportunidade de se ver no novo contexto, entender os desafios da equipe, os pontos críticos, e começar a construir um plano de voo para sua liderança.”

As empresas mais maduras, de qualquer forma, costumam dar um período maior para avaliar se a promoção foi mesmo uma boa escolha. “Seus superiores só vão concluir se você está mesmo internalizando a nova identidade e trazendo resultados depois de seis meses.”

Melhor assim, dada a dimensão da mudança. No que diz respeito às habilidades, um colaborador individual precisa ter domínio técnico do seu trabalho e saber lidar com as ferramentas e processos da empresa. Isso é o que realmente conta. Já se ele for promovido a gestor, o domínio técnico dá lugar a uma lista muito maior de competências: saber delegar atividades, monitorar desempenhos, motivar o pessoal. A principal mudança, afinal, é parar de executar tarefas que você fazia muito bem (de outra forma não teria ganhado a promoção) e passar a gerir pessoas. E existe um paradoxo nessa transição: quanto melhor tiver sido o profissional em sua função técnica, maior a força invisível que o impede de tirar a mão da massa.

Até por isso, grande parte das empresas busca os novos chefes não entre os ases da parte técnica, mas entre aqueles que se comunicam melhor, demonstram empatia. Tenham, enfim, as habilidades comportamentais, as soft skills necessárias para ser o ponto de referência de uma equipe. E isso tem um outro lado: faz com que gente muito excepcional  na parte técnica se sinta frustrada por não conseguir uma chance na liderança.

POR QUE NÃO EU?

Foi o caso de Emerson Feliciano. Hoje ele é um executivo de mão cheia: gerente sênior de pesquisa e desenvolvimento da Solera, uma multinacional de tecnologias digitais para automóveis. Mas não se esquece dos desafios da primeira gestão, nem das dores de cabeça que teve na carreira por ter sido um exímio técnico antes.

Emerson era analista numa empresa do grupo segurador Mapfre, onde elaborava estudos na área de segurança viária. Era considerado um craque das planilhas mais rebuscadas, e responsável pelos melhores relatórios do seu setor. Ele acabou se destacando inclusive fora da empresa, quando desenvolveu um estudo sobre veículos blindados.

A pesquisa fez com que fosse chamado para dar palestras sobre o tema e para representar a Mapfre em congressos. Exatamente nessa época, o RH do grupo o convidou a participar de um programa de desenvolvimento de lideranças, do qual faziam parte outros colaboradores do seu mesmo nível hierárquico, analistas mais seniores e ainda executivos que já eram líderes em patamares diferentes na companhia. “Como eu vinha me destacando por causa do estudo de blindados, vi esse programa de desenvolvimento como uma oportunidade real de subir na carreira. Então, mergulhei de cabeça. Passava meus finais de semana estudando os temas do programa, me esforçava ao máximo, sabia todas as respostas. E os grupos em que eu estava sempre venciam nas dinâmicas do treinamento”, recorda.

Mas o resultado não foi o que ele esperava. Pelo contrário. “Naquele conjunto todo de profissionais, havia sete analistas, técnicos além de mim. Então, no final do treinamento, adivinha o que aconteceu… Desses oito que ainda não tinham posição de liderança, fui o único a não ganhar um cargo de gestão.” Emerson não achou justo. Ficou tão inconformado que, então prestes a completar 25 anos, foi reclamar na seguradora. “Aí tive um grande aprendizado: foi a primeira vez em que escutei a expressão soft skills na minha vida. Ouvi da coordenadora de Recursos Humanos que não é a performance técnica que faz alguém ser promovido, mas sim as habilidades comportamentais.”

E Emerson queria mais do que ser um técnico acima da média. Correu atrás de cursos fora da empresa ligados a soft skills e liderança. E então, dez meses depois, atingiu seu nirvana: foi promovido a coordenador de pesquisa e desenvolvimento na Mapfre. Sua primeira de muitas gestões.

Ele só não sabia que virar líder não é exatamente se tornar um líder de fato da noite para o dia.

“Meu primeiro desafio foi lidar com o ego. Porque você não quer perder aquele reconhecimento que tinha como técnico. E, já que está começando como gestor, não consegue fazer as entregas com a velocidade que costumava ter como analista. Cheguei a ter desentendimentos fortes com um colaborador porque eu rabiscava os trabalhos dele da primeira à última página. Queria tudo do meu jeito, como se fosse eu quem estivesse fazendo.”

Até que, por orientação de um diretor, Emerson Feliciano fez uma tentativa que, à época, ele achou temerosa: dar mais liberdade a seus liderados. E aí veio a (boa) surpresa. “Comecei a perceber que alguns executavam num caminho totalmente diferente do que eu faria e, mesmo assim, o cliente ficava satisfeito. Às vezes mais satisfeito do que com o meu jeito. Foi quando finalmente entendi que cada colaborador precisa ter sua individualidade respeitada. Um desafio enorme da primeira gestão é aprender a delegar. E delegar com convicção.”

POLIGLOTA

Compreendera individualidade de cada liderado foi uma luta também para o publicitário Felipe Masson. Seu primeiro cargo de gestor já veio numa agência grande, a AlmapBBDO, onde passou a chefiar uma estrutura voltada para produtos de inovação. O objetivo era encontrar fontes alternativas de receita, que não dependessem das campanhas de publicidade. Felipe, então, se viu diante de uma equipe pequena, mas de perfil multidisciplinar. Uma complexidade a mais para quem é chefe pela primeira vez.

“Eram só quatro pessoas abaixo de mim, mas, além de dois publicitários, havia um, analista de banco de dados e um estatístico, profissionais que estavam completamente fora do universo que eu conhecia.”  Isso lhe rendeu dificuldades de comunicação com, pelo menos, metade da equipe.

“Os publicitários eram extrovertidos, como eu, mas levei um tempo para perceber que um estatístico e um analista de dados tendem a ser mais introspectivos. Eles precisavam de solidão para trabalhar. Meu primeiro grande desafio como gestor foi aprender a me comunicar com essas pessoas. Isso exigiu uma adaptação do meu estilo de interagir e até um aprendizado técnico, para eu conseguir falar a língua deles e saber como demandar qualquer coisa.”

Esse aprendizado se mostrou primordial para a carreira toda de Felipe. Hoje ele é líder de líderes, chefia 15 profissionais como gestor sênior de experiência  do cliente na Azul Linhas Aéreas, e enfatiza a importância da boa comunicação a seus subordinados. “Quando você vira líder, precisa se empenhar para conhecer sua equipe. Deve entender exatamente como as pessoas gostam de ser tratadas, que tipo de conexão você pode ter com elas.”

A INTRUSA

Juliana Fujii também teve um início intenso. Precisou passar por sessões de coaching para aprender a dar feedback. E havia um agravamento em sua situação como primeira gestora: ela nunca tinha trabalhado antes na área em que estreou como líder.

Sempre atuando com crédito no Itaú, Juliana atendia pessoas jurídicas do setor de atacado antes de ganhar sua cadeira de chefe. De lá, foi promovida, mas para uma área bem diferente: tornou-se gerente de estruturação de crédito do private bank.

“Mudou o público com que eu lidava, os parceiros com quem eu interagia e, claro, as pessoas que eu comecei a liderar. Parecia uma mudança de banco. Eu estava chegando a uma equipe onde todo mundo já se conhecia, então a intrusa era eu. Tinha de conquistar as pessoas, mostrar que estava ali com um interesse genuíno de conhecê-las. E dar bons feedbacks é fundamental para transmitir confiança.”

Para isso, Juliana contou com as orientações de uma coach, que abriu seus olhos para a melhor maneira de ter essa conversa tão à flor da pele. “O feedback formal da empresa acontecia uma vez por ano. Um intervalo longo demais. Entendi, no coaching, que o processo precisava ser mais recorrente. E aprendi técnicas de elencar os pontos fortes, o que a pessoa precisa desenvolver. Entendi que o feedback não se baseia necessariamente no que a pessoa é de verdade, mas na minha impressão em relação a ela. Então é preciso descobrir onde esses dois pontos convergem.”

Contar com o apoio de um coach ou de mentores, de dentro ou fora da empresa, pode ser um caminho. “Ouvir a experiência de profissionais mais seniores, que já passaram por esse começo da estrada em que você está, agiliza a transição”, afirma a consultora de carreira Mariana Passos.

No exterior, é comum que profissionais em primeira gestão sejam acompanhados por um mentor assim que assumem o cargo. No Brasil, infelizmente, vale mais a regra do “se vira nos 30”.

CHEFE NA PANDEMIA

Juliana Fujii foi entrevistada para esta reportagem por videoconferência, de sua própria casa. Ela e sua equipe estão em home office desde março de 2020. Se o período de primeira gestão já não é um passeio de bicicleta com rodinhas, imagine trabalhando a distância…

Segundo Mariana Passos, os chefes de primeira viagem têm penado mais que o normal com a pandemia. “O líder mais experiente já conhece sua equipe, então tudo é menos difícil. Mas, entre os novos, perde-se o caminho natural de criar vínculos e consolidar a cultura da empresa nos liderados.”

Você sabe: não faltam gestores que tiveram de formar seus times entrevistando candidatos pela internet, sem nunca ter tido, até hoje, um encontro presencial. “O onboarding dos funcionários vira um desafio”, explica Mariana. “Porque a cultura organizacional caminha pelos corredores da empresa. Tudo o que o chefe de primeira viagem precisa fazer para se legitimar no início do novo cargo fica mais moroso se tem de ser via Zoom.”

NÃO É SÓ TRABALHO

Claro que dá para aprimorar uma gestão a distância. Talvez o melhor caminho seja fazer o máximo para emular o ambiente presencial. Isso significa manter conversas constantes e não falar só de assuntos da empresa nos encontros – trabalhar junto, afinal, não é apenas trabalhar junto. É atravessar um período da vida no qual sua companhia mais constante são os colegas. Se esse ambiente ficar pesado, a vida fica pesada – tanto para a equipe como para você.

Para construir um clima positivo, explore bem o terreno em que está pisando. Busque conhecer cada um de seus liderados, suas expectativas com a empresa – e suas frustrações também. Esteja sempre perto deles. É natural que sua nova posição o aproxime mais de outros gestores, mas não deixe para se conectar com sua equipe só quando precisar dela para cumprir uma meta.

Também não espere a empresa comunicar que você não tem sido um bom líder (seu primeiro feedback nessa linha pode ser o seu último). Cobre retornos periodicamente da sua diretoria para conhecer a impressão dos outros a respeito do seu desempenho como chefe.

E não menos importante: procure dar liberdade para que sua equipe também lhe dê feedback. (Ninguém disse que vai ser fácil). Afinal, é a vida dessas pessoas que você está melhorando ou tornando mais difícil. Como bem pontua a pesquisadora Cíntia Martins, “você é só um momento dentro da carreira delas, mas vai deixar uma marca profunda, que pode influenciar muito nos caminhos que elas vão seguir. Que tipo de imagem de liderança você quer deixar na memória desses profissionais?”

Em suma, seja o chefe que você gostaria de ter. É o grande passo para que, lá na frente, você se torne de fato o líder que gostaria de ser.

5 ERROS MAIS COMUNS

NÃO LARGAR O OSSO

Agarrar-se às antigas atividades como técnico adia sua evolução como líder. Desapega.

NÃO DELEGAR

Para garantir resultado, muito líder novo quer fazer o trabalho da equipe. Não tem como dar certo.

ACHAR QUE SABE TUDO

Querer que todos os trabalhos sejam feitos do seu jeito é um ótimo caminho para estressar e afastar o time.

FALAR MAL DA EMPRESA

Isso você fazia na happy hour com os colegas. Agora você representa a companhia.

AGIR (SÓ) COM O CORAÇÃO

A camaradagem dos velhos tempos não pode ser o guia da sua gestão de equipe. Reconheça quem merece.

7 DICAS PARA FACILITAR  A TRANSIÇÃO PARA LIDER

CONHEÇA SUA EQUIPE

É a primeira coisa a fazer. Apresente-se. Pergunte muito. Demonstre interesse genuíno nas expectativas e dissabores de seus liderados. Isso cria empatia.

RESPEITE A INDIVIDUALIDADE

As pessoas não são robôs. Depois que você conheceu cada indivíduo da equipe, busque se adaptar ao estilo e ritmo de cada um – desde que esse ritmo não atrapalhe o conjunto.

VIRE A CHAVE

Você pode ter sido o “funcionário do mês” todos os meses. Ótimo, mas isso não vai te ajudar agora. Deixe esse passado e foque na gestão da equipe.

TIRE A CAPA DE SUPERMAN

Sua equipe espera que você tenha todas as respostas e soluções, como se você acumulasse 20 anos de experiência em gestão. Mas você não tem – ainda. Diga a verdade.

SEJA PRESENTE

Mantenha-se próximo da equipe. Deixe as portas abertas. Dê apoio.; E vá almoçar com seus liderados. Se todo mundo tem um pouco de raiva do chefe, eles vão ter menos.

DÊ E PEÇA FEEDBACK

Diálogos francos e objetivos sobre desempenho e expectativas devem ser recorrentes. E peça para que a diretoria diga o que pensa da sua liderança. Será um aprendizado valioso.

BUSQUE UM MENTOR

A liderança não é um dom que você incorpora assim que vira chefe pela primeira vez. Ela é um caminho. E o aconselhamento de líderes mais experientes pode criar atalhos.

EU ACHO …

COMO PAREI DE FUMAR

Cada um tem uma força íntima, e alavancá-la depende de nós

Nas últimas décadas, todas as madrugadas acendia meu charuto. Durante umas duas horas contemplava o vazio, apreciando a fumaça. Se viajava, antes me certificava de que o hotel tinha varanda, terraço. Sempre comentava que fumar me ajudava a refletir sobre a vida. De fato, era viciado. Pirava sem charuto. Cheguei a comprar uns horrendos, em banca de revista, do fumo mais inferior, para não passar sem. Mas… a vida tem reviravoltas. Há meses um médico comentou que eu tinha risco de enfisema pulmonar. Raciocinei: “É só um risco e, afinal de contas, ele é gastro!”. E acendi um charuto. Detalhe: sempre os de bitola larga, para o prazer durar mais. Mas há duas semanas fui a Portugal. Aviões e aeroportos proíbem espirais de fumaça. Preparei-me psicologicamente, viajei a

noite inteira sem sentir falta. Eu realmente não andava bem de saúde, sempre cansado… Aquelas duas horas na madrugada às vezes eram cansativas. Ainda exausto da viagem, não fumei no dia seguinte. No terceiro, pensei: “Se suportei dois dias, mais um será fácil”. De um em um, não fumo há semanas.

Sei que estou apresentando uma versão açucarada. Como se fosse facílimo. Não é. Imagino inclusive que cigarros são mais difíceis de largar que charutos. Passei a infância com meu pai tentando largar os dois maços por dia. Só parou mesmo quando ficou muito doente. Vários amigos e amigas tentam parar, não conseguem. É um dia de sofrimento, depois acendem “só mais um…”.

Para mim, foi uma questão de determinação. É assim que tudo acontece na minha vida. Quando resolvo, voltar atrás seria uma espécie de derrota. Foi o que aconteceu com o charuto. Resolvi que não. Pronto, é não. Nem todo mundo é assim. Nunca tive talento para guru de autoajuda, não me transformarei em um agora. Mas garanto: cada um de nós tem uma força íntima. Alavancá-la é um processo que muda de pessoa para pessoa. A gente tem uma enorme capacidade de decisão, só às vezes não tem consciência disso. E não funciona para tudo. Há anos tento erguer as alavancas para gostar de malhar.

Meu sonho é perder a barriga. Está muito mais difícil que o charuto. Hoje mesmo me levantei cheio de energia. Vontade de cuidar do meu shape. Botei roupa leve e tênis. Quando fui para fora… estava chovendo! Adiei a decisão. (Tenho esteira em casa, mas nem olhei para ela.) A desculpa é que desejava caminhar ao ar livre. Preciso focar. Como agora, com o charuto.

Sinto falta? Obvio. .Mas ganhei duas horas no dia. Voltei a ler, tenho visto filmes. Esses dias assisti a um com o Anthony Hopkins de exorcista. Em certo momento, ele mesmo é possuído pelas feras infernais e passa boa parte do filme fazendo caretas, gritando e lançando olhares de horror. Garanto: o charuto seria mais agradável. Mas é a vida! Continuo em frente. Nem que seja pelo orgulho de dizer em alto e bom som: parei de fumar. Descobri: todo mundo admira quem se livra de um vício. Vale a pena. Não só pela saúde, mas pelos elogios, que fortalecem o ego.

*** WALCYR CARRASCO

ESTAR BEM

REMOÇÃO DE PRÓTESES DE SILICONE CRESCE E EXPÕE NOVO OLHAR FEMININO

Explantes aumentam 33% no País e pacientes relatam reconquista do corpo e alívio de alguns problemas de saúde; sociedade de cirurgia plástica vê risco de ‘alarmismo’

Quando elas colocaram prótese de silicone nas mamas, nada se falava sobre como tirar. Hoje, alimentado pelo compartilhamento de informações nas redes sociais, o explante virou um fenômeno no país campeão de cirurgias plásticas.

Encaixar-se no padrão de seios volumosos – febre há mais de 20 anos – deixou de fazer sentido para muitas delas. Para outras, embora ainda gostem do que veem no espelho, os riscos da prótese à saúde preocupam.

A atriz Gabriella Britto, de 30 anos, descreveu a experiência nas redes sociais com a remoção em janeiro. “Minha decisão (de colocar, há nove anos) partiu de achar que talvez algo externo pudesse fazer com que me sentisse melhor”, diz. “Existia e continua existindo dificuldade de mostrar o corpo real das mulheres. Nós achávamos que tínhamos algum problema”, avalia.

Nos últimos quatro anos, mudanças no estilo de vida, como aderir ao veganismo, a fizeram repensar a necessidade do silicone. “Eu  tinha um corpo estranho, que poderia causar danos, e senti que não precisava mais deles.”

O número de remoções de implantes de mama aumentou 33% no Brasil, segundo dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica. Passou de 14,6 mil, em 2.018, para 19,4 mil, em 2019 – últimos números disponíveis. A cirurgia para aumento da mama continua sendo um dos carros-chefe das plásticas no Brasil, com 211 mil procedimentos no ano, mas a procura tem sofrido queda.

Médicos brasileiros que se especializaram no explante contam que a busca pela remoção teve um boom em 2020, mesmo com a pandemia, e segue em alta. Por semana, o cirurgião plástico Bruno Herkenhoff faz de quatro a cinco cirurgias. Ele conta que até para ele, no início, retirar o silicone exigia um esforço de mudança da mentalidade sobre a beleza. “Temos de fazer um trabalho psicológico para mudar esse paradigma que vem desde a nossa formação”, afirma.

A jornalista Camila Ermida, de 42 anos, relata ”relação de amor e ódio” com o silicone, colocado em 2017, até retirá-lo em agosto. Ela tinha zumbidos no ouvido, queda de cabelo, pés e mãos gelados.

Em uma das mamas também foi detectada uma contratura capsular ainda em grau leve – quando a membrana formada pelo corpo em volta do silicone passa a comprimir a prótese. “Foi uma escolha preventiva. Não esperei apresentar outros sintomas.”

As alterações físicas percebidas por ela fazem parte de uma lista de sintomas relatados por outras mulheres com implantes mamários. A chamada “doença do silicone”, que engloba essas quebras, não é reconhecida como enfermidade pela classe médica. Mas boa parte  das mulheres que fazem o explante dizem ter melhora em pelo menos uma parte dos sintomas. Outra síndrome associada à prótese é a Asia (síndrome autoimune-inflamatória  induzida por adjuvante), descrita em 2011 por um pesquisador israelense. Consiste no desenvolvimento de doenças autoimunes.

O cirurgião plástico Ricardo Eustáchio de Miranda diz que hoje é mais comum que as mulheres cheguem ao seu consultório para retirar do que colocar silicone. Muitas delas, conta, vêm com queixas de Asia. “Acredito nos sintomas. A questão é saber se estão relacionados à prótese ou não. Temos de fazer a investigação. Excluindo tudo, retira-se (o silicone), mas sempre falo que não há garantia de que a retirada da prótese melhore os sintomas.” Miranda atende em Guarulhos e São Paulo e é indicado por outras mulheres que fizeram explantes – faz 350 dessas cirurgias por ano, incluindo pacientes de outras cidades.

ONLINE

Médicos que fazem explantes ressaltam o papel do compartilhamento de informações nas redes sociais para a tomada de decisão. Além de páginas que reúnem relatos de problemas de saúde associados às próteses, influenciadoras na internet questionam padrões de beleza e também dão força ao movimento.

Nas últimas semanas, o compartilhamento de informações por influencers sobre retirar próteses esquentou o debate. A atriz Fiorella Mattheis, que fez a cirurgia de remoção este ano, contou a experiência aos seus 3 milhões de seguidores no Instagram. “Importante a gente se amar”, escreveu. Ela relatava dores na mama.

A escritora Alexandra Gurgel, fundadora do Movimento Corpo Livre e autora do livro Pare de se odiar, também anunciou que pretende fazer o explante. Em seus canais em mídias sociais como Instagram e Facebook, com 1 milhão de seguidores, ela critica os padrões de beleza impostos às mulheres e a gordofobia.

Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), Dênis Calazans afirma que a percepção da entidade é de que a remoção de implantes é mais falada do que ocorre, de fato. Ele vê “alarmismo” nos relatos sobre problemas de saúde ligados à prótese e que há ainda “pouca evidência cientifica” sobre isso.

Segundo Calazans, o número de pacientes que se beneficiam com a prótese, é muito maior do que as que optam pela retirada. A SBCP não tem dados específicos sobre remoção de  implantes, mas o próximo censo da entidade vai mapear o aumento dessas cirurgias.

Para ele, o profissional tem o dever de dar informações às pacientes sobre eventuais riscos. “Elas têm de estar cientes de que estão usando um dispositivo médico sintético, que tem possibilidade de cursar com alterações locais do próprio implante, que aquilo tem de ser monitorado periodicamente e eventualmente, como toda cirurgia, implica riscos”, diz.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ABSTINENTES E FAMINTOS

Estudo explica o apetite de quem larga o cigarro, uma das fontes de recaídas

Sentir vontade de ingerir alimentos altamente calóricos é um sinal já bastante conhecido para aqueles que tentam largar o cigarro. A relação entre a compulsão alimentar e a abstinência de nicotina acaba de ser detalhada em um estudo publicado pela Escola de Medicina da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos.

A pesquisa mostra que os passiveis culpados disso são os receptores de alívio de estresse do cérebro, responsáveis pelo vício e a regulação do apetite. Segundo os pesquisadores, a abstinência aguda de nicotina pode estimular o consumo de alimentos ricos em sal, gorduras e açúcar, levando ao aumento de peso e o risco de recaída.

Largar o cigarro, como já demonstrou a ciência, é uma das tarefas mais árduas. Sete em cada dez pessoas que deixam de fumar sofrem recaídas depois de seis meses – sendo que 2/3desses episódios são nos primeiros 90 dias. A compulsão por comida nessa fase só atrapalha a batalha.

“O medo de ganhar peso é uma grande preocupação entre os fumantes que pensam em parar de fumar. A chave para remover essas barreiras é entender melhor os fatores que aumentam o desejo por alimentos altamente calóricos”, explica o professor do Departamento de Medicina da Família e Saúde Biocomportamental, Mustafa al’Absi, principal autor do estudo.

APETITE CALÓRICO

Para chegar aos resultados, a equipe de al’Absi estudou um grupo de voluntários fumantes e não fumantes, com idades entre 18 e 75 anos. Os participantes foram convidados a interromper o uso da nicotina por 24 horas e, no final de cada uma das duas sessões do estudo, deveriam escolher quais alimentos preferiam ingerir entre algumas opções. Além disso, todos eles receberam 50 mg de naltrexona, substância comumente indicada para o tratamento contra o tabagismo e o alcoolismo, ou um placebo.

Verificou-se, então, que a maior incidência de ingestão de calorias se deu no grupo dos fumantes, em comparação aos demais. Os participantes que receberam o placebo também estavam mais propensos a escolher alimentos ricos em açúcar e gordura. Além disso, os pesquisadores observaram que a naltrexona foi capaz de normalizar essa tendência de compensação, o que sugere que o cérebro pode ter um mecanismo de ingestão de calorias induzido pela abstinência.

Mas por que e como isso acontece? De acordo com o doutor em endocrinologia e metabologia pela USP, Antônio Carlos do Nascimento, esse mecanismo envolve o sistema límbico, composto por algumas regiões do cérebro responsáveis pelo comportamento emotivo, que mantém uma íntima relação com o sistema denominado ”centro da recompensa”.

Essa central da recompensa é ativada pela dopamina, que atua nos centros de prazer do cérebro. A substância é gerada por vários contextos, os quais incluem atitudes (a satisfação induzida por compras é bom exemplo), por substâncias viciantes (álcool, nicotina, cocaína, etc. ) e por ingestas alimentares prazerosas (seres humanos possuem predileção inata por alimentos ricos em carboidratos e gorduras), segundo Nascimento. Em outras palavras, sem a nicotina, o cérebro do dependente recebe menos neurotransmissor, o que leva o organismo a tentar compensar essa falta.

“A abstinência promove desconforto emotivo pela diminuição da sinalização dopaminérgica (gerada regularmente pela nicotina no tabagista crônico). O sistema límbico acusa o incômodo emocional e aciona a via de recompensa”, explica o especialista. “Esse setor então induz a procura do caminho mais rápido para a compensação, e sem a possibilidade do tabaco, promove desejos para generosa quantidade de alimentos ricos em gorduras e açúcares. É uma resposta esperada em um jogo que conhecemos o modus operandi, mas não sabemos ainda modificá-lo em sua essência”.

SUBSTÂNCIA INIBIDORA

E isso explica o efeito da naltrexona no estudo. O remédio atua no sistema nervoso, inibindo a vontade de consumir álcool e fazendo com que a pessoa tenha menos prazer nos efeitos da bebida. Pesquisa em animais já havia sinalizado que o fármaco reduz a quantidade de alimento ingerida.

Os cientistas induziram ratos a desenvolver o transtorno da compulsão alimentar periódica, fornecendo a eles uma dieta com altos níveis de açúcar e sabor de chocolate. Ao mesmo tempo, outro grupo foi alimentado só com alimentas saudáveis. Após duas semanas, os dois grupos foram submetidos ao tratamento com a droga. A naltrexona provocou a redução da quantidade de alimento consumida pelos dois grupos, mas mais fortemente nos animais que apresentavam o transtorno. Com os dados da pesquisa da Universidade de Minnesota, a equipe de al’Absi agora quer entender qual o impacto dessas mudanças de apetite e como elas podem aumentar os riscos de recaídas. Novos estudos devem ser conduzidos para identificar esses mecanismos e buscar soluções terapêuticas.

OUTROS OLHARES

GRAVIDEZ NO CRACK É A FACE MAIS DOLOROSA DO VÍCIO

Médicos da maternidade estadual Leonor Mendes de Barros, em São Paulo, narram as batalhas cotidianas para salvar a vida dos bebês e das mães dependentes, que são consideradas pacientes de alto risco

Quando a filha tinha dois meses, na primeira noite em que estava sozinha cuidando dela, Tatiane tomou uma decisão definitiva: viveria sem o crack. Depois de passar 13 anos nas ruas como dependente química, dos quais cinco na Cracolândia, na capital paulista, foi naquele dia que percebeu “que Deus tinha dado uma nova oportunidade” a ela.

Antes daquele dia, aos cinco meses de gravidez, sem dinheiro para comprar droga, sentia fome, frio, cansaço e, o pior, fissura. No desespero, decidiu buscar um local de acolhimento para dependentes no centro de São Paulo.

“No meu último ano na Cracolândia, engravidei do meu milagre. Ninguém se importava, ninguém olhava, ninguém ajudava. Apareceu uma proposta, mas aborto é uma coisa que, mesmo na loucura, eu nunca tive coragem de fazer. Depois de tanto tempo ali, eu queria morrer, não tinha instinto de mãe, nem nada. Mas naquele dia me bateu um desespero, procurei ajuda e me internaram”, conta.

Tatiane passou o resto da gestação internada no Hospital Psiquiátrico Lacan do estado de São Paulo, sob remédios para combater a abstinência. Na hora do parto, foi levada para a maternidade estadual Leonor Mendes de Barros, onde teve Milena. De lá, o bebê só pôde sair quando a avó veio buscar. Hoje, três anos depois, elas vivem juntas no interior de Minas Gerais. Tatiane trabalha e descobriu que, sim, é possível superar o crack.

SEM PRÉ-NATAL

A gravidez de dependentes é uma das mais dolorosas fases do vício. A maternidade Leonor Mendes de Barros recebe pacientes de alto risco, das quais pelo menos duas ou três por mês são usuárias de drogas.

Essas gestantes chegam ao hospital por dois caminhos. Metade vem de outros serviços de assistência para fazer o pré-natal. A outra metade já vem para o parto.

“As dependentes químicas são um grupo difícil porque têm baixa aderência ao pré-natal e, quando começamos a atendê-las, não sabemos se teremos a chance de reencontrá-las. Assim, quando a paciente chega, a gente procura mostrar interesse, estimulamos para que não use drogas, encaminhamos para a psicologia, acionamos a assistente social”, afirma o ginecologista Tenilson Amaral, responsável por fazer o pré-natal das gestantes no Leonor Mendes. Além da dependência química, há complicações na saúde das gestantes. Asinfecções urinárias são mais comuns, inclusive pelas dificuldades no acesso à higiene. Outro problema que acaba sendo mais frequente são as infecções sexualmente transmissíveis, em especial, a sífilis, que tem transmissão vertical, ou seja, pode passar para o bebê”. Segundo Amaral, cerca de 15% das pacientes usuárias que fazem o pré-natal têm sífilis, contra a média geral de 1%. A doença pode provocar alterações morfológicas no feto.

Quando a mulher chega já em trabalho de parto, é importante entender o contexto e descobrir seu histórico e situação atual com as drogas. A informação serve para definir quando a amamentação está liberada.

No caso do crack, é preciso esperar 24 horas porque, antes disso, a droga pode passar para o recém-nascido, como explica a médica neonatologista Patrícia Maranon Terrível.

“Dependendo da quantidade de drogas que ela usa, a criança pode nascer com abstinência. Nesses casos, dá sinais como irritação, choro constante, febre ou sonolência. Se ela convulsionar, precisa do anticonvulsivante. Por isso é importante observar as primeiras horas. A maioria dessas crianças nasce com baixo peso, há muitos prematuros, mas são poucos os com sequelas”, explica.

A intenção é sempre manter mãe e filho juntos:

“Se o bebê nasceu bem, ela diz que é usuária, mas não usou, tem condições de ficar com o filho, ela fica. A gente não tira a criança da mãe porque ela é usuária”.

Caso a mulher tenha acabado de usar droga ou esteja em surto, o bebê vai para o berçário.  A mãe registra a criança se quiser, mas é incentivada a fazê-lo. A assistente social, a psicóloga e a equipe médica dão início, então, a um novo desafio: avaliar, com a Justiça, se  a mulher tem condições de ficar com a criança. Começa a busca por uma rede de apoio.

Segundo a médica, muitas dependentes não sabem quem é o pai da criança. Tenilson Amaral não se lembra de, algum dia, ter visto um homem acompanhando essas mulheres. Quando elas têm alguém ao lado, geralmente, são as mães. Mas, infelizmente, muitas famílias já estão quebradas e não há respaldo. Sem apoio, a maioria dos bebês vai para adoção.

DESTINO INCERTO

Se a mãe segue para uma clínica de reabilitação, por exemplo, alguém da família precisa ficar com o bebê. Às vezes a mãe tem alta, e o bebê fica à disposição da Vara da Infância e da Juventude. E o juiz determina se ele vai para a família da mãe ou para um acolhimento institucional.

“Quando a gente fala que vai ser encaminhado para a Vara da Infância, elas ficam nervosas e choram. Achar que uma pessoa que faz uso de crack não está nem aí para os filhos é mentira. Realmente é mais difícil para ela cuidar. Mas a questão é mais ampla do que moralizar”, diz a assistente social Selma Kouri, que trabalha há 17 anos na maternidade.

Antes, as crianças eram encaminhadas para a adoção com mais frequência do que hoje. Kouri explica que há um artigo no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que diz que a criança não pode ficar perto de pessoa que faz uso de entorpecente. Agora, o foco está mais na parte que fortalece o direito à convivência comunitária.

Ao longo desses anos, a assistente social já viu mulheres fugirem do hospital após o parto em busca de droga e até um caso em que, após ter alta de outro hospital, uma mulher levou o filho com ela e trocou a criança por crack – a avó conseguiu resgatar o bebê.

Mas há finais felizes, como o de Tatiane, que mobilizam a energia de toda a equipe.

“Quando as coisas caminham bem, recebemos certo alento, porque para a gente também não é fácil. Um caso de sucesso é nosso grande combustível”, afirma Tenilson Amaral, que segue com esperança: “Não tenho dúvida que a gravidez é uma janela de oportunidade para a paciente dependente química para se livrar da droga”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 19 DE NOVEMBRO

VOCÊ NÃO PODE SE ESCONDER DE SI MESMO

O espírito do homem é a lâmpada do Senhor, a qual esquadrinha todo o mais íntimo do corpo (Provérbios 20.27).

Ninguém consegue sondar o que está no íntimo do homem senão o espírito que nele está. O espírito do homem é como a lâmpada do Senhor, que alumia todos os corredores da alma e investiga todos os setores sombrios da vida. Isso significa que o homem pode esconder-se dos outros, mas não de si mesmo. O homem pode enganar os outros, mas não consegue mentir para sua própria consciência. O Senhor deu aos seres humanos inteligência e consciência; ninguém pode se esconder de si mesmo, pois o espírito do homem, que é a lâmpada do Senhor, vasculha cada parte do seu ser. Quando Caim matou Abel, seu irmão, pensou que pudesse escapar das consequências de seu crime, mas Deus o encurralou no beco de sua consciência e mostrou que ele não podia se evadir de si mesmo. O marido pode até trair a esposa, sem que ela jamais saiba de sua infidelidade, mas nenhum marido se livra de si mesmo. A esposa pode até ser infiel a seu marido, mas jamais se livrará das acusações de sua própria consciência. A consciência é como uma lâmpada que revela toda a escuridão do pecado. O homem pode despojar-se de tudo e até afastar-se de todos, mas não pode se apartar de si mesmo nem driblar a própria consciência.

GESTÃO E CARREIRA

MULHERES TÊM MAIOR POTENCIAL DE TRABALHO REMOTO DO QUE HOMENS

Dificuldades de acesso a computadores e internet, no entanto, acentuam desigualdades entre profissionais brancos e negros

Quando a pandemia da Covid-19 estourou com força no Brasil em março de 2021, a personal trainer Claudia Turco Viceconti, 39, temeu pelo futuro de seu trabalho.

Mas acabou se surpreendendo com a aptidão tecnológica de seus alunos, que se adaptaram facilmente às aulas online e com o efeito colateral positivo da crise em sua vida pessoal.

“Ficar em casa foi algo feliz, mas, por um breve momento, houve a tristeza de perceber o quanto os meus filhos sentiam a minha falta”, diz ela, que é mãe de dois meninos, de 9 e 7 anos.

Antes da pandemia, Claudia, que mora em São Paulo, conseguia ficar com eles na hora do almoço e à noite e, apesar da rotina intensa de trabalho, se sentia uma mãe presente.

Mas o período de isolamento – quando demitiu a babá dos meninos – transformou sua opinião sobre o que é conciliar trabalho e maternidade. A nova visão perdura mesmo com o gradual retorno das atividades presenciais.

“Ainda mantenho cerca de 40% das aulas online e as concentro em algumas manhãs da semana. Nesses dias, consigo otimizar muito meu tempo, porque não preciso me deslocar”. Ela diz que, embora a presença física seja muito importante em seu trabalho, é provável que uma parcela das aulas continue ocorrendo remotamente.

Segundo um estudo inédito de pesquisadores do FGV- Ibre, a fatia de mulheres com ocupações compatíveis com o teletrabalho e que – como Claudia – têm infraestrutura para desempenhá-lo chega a 22,3% no Brasil.  Entre os homens, ela cai para 4,2%.

Pesquisa recente do Credit Suisse também destacou que o perfil do emprego feminino, mais focado em serviços, favorecerá uma maior inserção das mulheres no mercado de trabalho futuramente.

O problema é que, se por um lado, o potencial de trabalho remoto do Brasil pode contribuir, eventualmente, para uma queda da desigualdade entre homens e mulheres, por outro, deve acentuar outras desigualdades.

Esse risco é evidenciado pelos recortes que os economistas da FGV fizeram por região, raça e até pela divisão do mercado entre os setores público e privado.

“Há o risco de um aumento geral da desigualdade no país”, diz o economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, um dos autores do estudo.

Os dados mostram que, enquanto o trabalho remoto pode ser realizado por 40% dos funcionários públicos, entre os empregados do setor privado fica em apenas 15%.

O potencial de teletrabalho entre trabalhadores brancos e amarelos é o dobro do registrado entre profissionais pretos e pardos: 24,5% contra 12,2%, respectivamente.

A dificuldade de acesso entre negros foi percebida pelo Goldman Sachs e o Linklaters, organizadores da iniciativa Lift, que oferece bolsas integrais para que universitários pretos e pardos, de qualquer área, aprimorem o inglês.

“Quando a pandemia começou, a Alumni, que ministra o curso, se adaptou rapidamente para o ensino remoto, mas muitos de nossos bolsistas não tinham como continuar acessando as aulas”, diz Talita de Moraes, responsável pela área de serviços ao cliente no Linklaters. Foi o que ocorreu com Gabriela Oliveira, 21. Moradora de Sorocaba (SP) e estudante da graduação de políticas públicas da Universidade Federal do ABC, em Santo André, ela havia acabado de ingressar na terceira turma da Lift quando estourou a crise sanitária.

“Estava feliz com a bolsa porque já queria aprimorar meu inglês, mas não sabia se teria condições. Para jovens negros, de baixa renda, como eu, tudo é mais difícil”, diz ela.

“Mas logo depois do início do curso, começou a pandemia e eu vivia em uma república, com internet muito ruim e um computador que havia quebrado há pouco e que eu não tinha como consertar”, conta a estudante.

Para possibilitar a participação de bolsistas como Gabriela, os organizadores da Lift levantaram uma rodada de recursos extras com as empresas que patrocinam o programa para viabilizar equipamentos e chips de internet aos alunos.

A Fundação Tide Setubal também percebeu, durante a pandemia, como a barreira tecnológica afetava severamente os moradores do Jardim Lapena, bairro da zona leste de São Paulo, onde a instituição tem forte atuação.

“Muitos jovens e adultos procuraram o Galpão ZL, onde realizamos nossas atividades, pedindo acesso à internet e a computadores para poder continuar estudando ou trabalhando”, diz Viviane Soranso, coordenadora do programa de raça e gênero da fundação.

 A instituição desenvolve projetos com foco nas desigualdades socioespaciais relacionadas a gênero e raça. Sua iniciativa mais recente foi a criação da plataforma Alas. Voltado para negros, o programa trabalha com três eixos: formação para inspirar jovens de 16 a 24 anos a buscar trilhas de liderança; bolsas para graduação e mestrado em instituições de ensino superior; e apoio financeiro de até R$ 15 mil para profissionais já estabelecidos que queiram aprimorar competências e habilidades.

”A ideia é que a plataforma possibilite uma ação coletiva para a formação de lideranças negras”, diz Soranso.

Ela afirma que, no entanto, também são necessárias políticas públicas em diversas áreas, incluindo democratização da internet e melhoria da infraestrutura.

“São problemas que a iniciativa privada e o terceiro setor não conseguem resolver sozinhos”, afirma.

Talita de Moraes, da Linklaters, ressalta que, se por um lado, a pandemia escancarou desigualdades, por outro, permitiu a criação de novas oportunidades. Pela primeira vez, as bolsas da Lift – que, além de inglês, englobam mentoria e outras formações complementares – serão oferecidas, por exemplo, em outras três capitais (Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador). As inscrições estão abertas até a próxima terça (19).

“Só será possível expandir a iniciativa, mantendo a qualidade e a metodologia do programa, porque as aulas serão remotas”, diz Moraes.

EU ACHO …

O SILÊNCIO NA PANDEMIA

Ao contrário dos carros que emitem ruídos estranhos, nossas mazelas não fazem ruído

“O pior som de uma pandemia é o que, em música, chamamos de pausa: o silêncio. Há algo ensurdecedor no que vivemos: vozes de mais de 600 mil pessoas que deixaram de falar. A morte é a coisa mais gritante e inaudível em perversa combinação. Ao contrário dos carros que emitem pequenos ruídos estranhos quando estão com algum problema, nossas mazelas físicas raramente provocam ruído. O vírus que avança, o terror que se instala, a artéria que se entope de vez são, usualmente, um gato andando sobre um tapete grosso: nada se ouve.

Além do silêncio enorme causado pela pandemia, há o apagar de vozes importantes na arte. Músicos ficaram sem emprego, orquestras fecharam, deixamos de produzir shows e a pausa malévola dos palcos atingiu camarins, coxias, luzes e figurinos. Conviveremos  muito tempo com os efeitos colaterais da pandemia na área cultural. Decidimos reabrir bares e restaurantes, depois escolas e, por fim, teatros e casas de espetáculo. O risco de contaminação é grande em todos; a ordem mostra algo do nosso mundo e dos valores que praticamos.

Talvez as crises históricas (guerras, revoluções, desastres naturais e epidemias) tenham sempre um efeito duplo. Por um lado, aceleram o que já estava posto. A Peste Negra do século 14 desestruturou o já claudicante feudalismo. A Grande Guerra (1914-18) fez ruir impérios decadentes e multinacionais como o turco-otomano ou o austro-húngaro. Porém, além de acelerar o que já era notado, os processos citados costumam revelar o que se tentava disfarçar ou se convivia sem alarde. As crises revelam muito o caráter dos seus atores e atrizes.

A pandemia desnudou muitas pessoas. Acompanhei gente que descobriu, enfim, o peso do desamparo da pobreza no Brasil. Alguns amigos se tornaram voluntários. O epítome da doação que brilhou ainda mais no caos sanitário e social que vivemos foi o padre Júlio Lancellotti. Sim, há quem o considere equivocado. Existem detratores da sua ação. Acusam a publicidade constante que ele intensificou com fotos em redes sociais. Um “agente do comunismo internacional”, aquele risco extraordinário que habita o fundo do último buraco da consciência de alguns reacionários. O comunismo no Brasil é como a neve no nosso país: sim, pode ocorrer aqui e ali de forma bissexta, acumula pouco sobre o solo, derrete ao sol e produz bonecos muito pífios com turistas encantados. Nosso comunismo é como a neve em Gramado, deleite de Instagram mais do que efervescência revolucionária…

Imagino que, estando com fome na rua, uma pessoa não olha para o padre Júlio e pensa: nossa, este cara está tentando me cooptar para um projeto político esquerdista baseado na sociologia de Marx e Engels. Acho que, quase todos, devem ficar agradecidos. A cena do padre Júlio batendo com marreta pedaços concretados de engenharia de sanitarismo social canhestro é uma das mais marcantes. Discordar? Sem problema: qual a sua prática cotidiana a favor de pessoas em situação de rua? Se você faz algo distinto e eficaz sobre a questão, então, tem condições de se posicionar de forma diferente. Para sair da rua, precisamos de esperança.

*** LEANDRO KARNAL

ESTAR BEM

PAÍS CONTA COM DROGAS EFICAZES CONTRA A OBESIDADE

Inibidores de apetite proibidos esta semana depois de uma decisão do STF já tinham prescrição restrita nos consultórios. Classe mais avançada de remédios para emagrecer atua sobre o cérebro e a absorção de gordura

Em apenas uma década, a taxa de obesidade no Brasil dobrou, acometendo hoje nada menos que 20% da população adulta, de acordo com dados da pesquisa Vigitel, realizada periodicamente pelo Ministério da Saúde. Isso significa que dois em cada dez brasileiros apresenta índice de massa corporal, o famoso IMC, a partir de 30. Para a maior parte destas pessoas, emagrecer (e manter o peso perdido) só com mudanças comportamentais, como dieta e atividade física, é uma tarefa quase impossível.

“Aprobabilidade de um paciente obeso perder 10% do peso apenas com essas alterações é muito pequena. Além disso, em até dois anos, 90% dessas pessoas recuperaram o peso inicial”, explica Antônio Carlos do Nascimento, doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Nesses casos, o uso de medicamentos específicos é fundamental para ajudar na perda de peso de forma significativa e duradoura.

No dia 14 de outubro, o Supremo Tribunal Federal (STJ) proibiu a comercialização de três inibidores de apetite, a anfepramona, femproporex e mazindol. No entanto, na prática, essa decisão não impacta o tratamento de pacientes obesos. Desde que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) suspendeu o uso desses anorixerígenos, em 2011, eles foram praticamente abolidos das prescrições. Isso se manteve após a liberação da venda dessas substâncias pelo Congresso, em 2017.

“Essas medicações praticamente não voltaram para o comércio habitual porque estavam sendo vendidas em pouquíssimas farmácias de manipulação”, afirma a endocrinologista Maria Edna de Melo, presidente do departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

Nesse período, outros medicamentos mais eficazes e com menos efeitos colaterais chegaram ao Brasil e passaram a ser indicados para o tratamento da obesidade. Os principais são a liraglutida e a semaglutida, que imitam no organismo o hormônio GLP-1, ligado à produção de insulina e à sensação de saciedade. Além disso, também estão disponíveis a sibutramina, que é o medicamento emagrecedor com registro válido mais antigo no Brasil, e o orlistate.

AVAL DE ESTUDOS

A liraglutida e a semaglutida são considerados os medicamentos mais modernos e eficazes para o tratamento da obesidade. Originalmente desenvolvidos para o diabetes tipo 2, seu uso como potente emagrecedor logo foi descoberto e incorporado à prática clínica. Em 2021, a liraglutida se tornou a substância mais prescrita nos consultórios particulares de endocrinologia.

Já a semaglutida teve seu papel contra a obesidade comprovado no início deste ano, quando um estudo publicado na revista The New England Journal of Medicine mostrou que o medicamento conseguiu reduzir em 15% o peso de pessoas com obesidade e evitar muitas de suas piores consequências, incluindo o diabetes. Além disso, mais de um terço dos participantes que recebeu a droga perdeu mais de 20% do peso, taxa só vista de um a três anos após a cirurgia bariátrica.

Apesar da polêmica sobre possíveis efeitos colaterais, em especial ao sistema cardiovascular, associados ao seu uso, a sibutramina continua sendo para o tratamento da obesidade. A medicação age diretamente no cérebro, na noradrenalina e serotonina, neurotransmissores que participam de funções como humor e sono, além do apetite. Já o orlistate age diretamente no intestino, inibindo de forma parcial a atividade de enzimas responsáveis pela digestão das gorduras. Essa ação localizada faz com que sua eficácia seja mais baixa.

É importante lembrar que os tratamentos devem ser sempre indicados por um médico,  que irá avaliar a melhor opção para o paciente, considerando riscos e benefícios. A sibutramina, por exemplo, não é indicada para pessoas com problemas cardiovasculares e idosos. A liraglutida e a semaglutida são especialmente vantajosas para pessoas com obesidade e diabetes tipo 2, já que atua nas duas doenças.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ORIGEM DO ALZHEIMER

Cientistas mapeiam região do cérebro onde nasce a doença

O Alzheimer, doença que provoca falhas de memória e perda de cognitiva tem desafiado médicos há anos, não apenas na busca da cura, mas também por ser difícil de diagnosticar em estágios iniciais. Uma descoberta anunciada nesta semana por cientistas da Universidade Harvard, porém, aponta um caminho promissor para antecipar a detecção do problema.

Em um estudo que mapeou a bioquímica e anatomia do cérebro de 174 pacientes do transtorno neurológico, um grupo liderado pela cientista Heidi Jacobs, do Hospital Geral de Massachusetts (ligado à universidade), relacionou uma pequena estrutura cerebral ao mecanismo da doença. Chamada de locus coeruleus (literalmente “local azul”, em latim), essa região localizada no tronco cerebral já estava na lista de subestruturas que cientistas suspeitavam estar envolvida no mecanismo da doença.

Entretanto, por ser uma região muito pequena (uma faixa de 2mm por 12 mm de largura), cientistas não conseguiam observá-la bem usando máquinas convencionais de imageamento cerebral. Agora, num artigo publicado na revista Science Translational Medicine, Jacobs e seus colegas descrevem ter conseguido encontrar a correlação entre a má preservação do locus coeruleus com desencadeamento do Alzheimer, usando aparelhos de ressonância magnética de alta resolução.

A descoberta, porém, precisou de mais do que um avanço técnico de maquinário. Para validar o achado, o grupo de cientistas também analisou em detalhes o cérebro de mais de 2 mil pessoas acometidas pela doença que já tinham morrido. Além disso, avaliaram em detalhes a bioquímica cerebral dos pacientes atrás de sinais conhecidos do Alzheimer.

Já é consenso entre os cientistas que esse transtorno neurológico está relacionado ao acúmulo de duas proteínas em certas regiões do cérebro. Chamadas de beta-amiloide e tau, essas duas moléculas adquirem uma estrutura bioquímica errada nas pessoas portadoras da doença, o que atrapalha o trabalho de limpeza que é feito no sistema nervoso, eliminando as proteínas que não estão sendo mais usadas.

Usando máquinas de última geração de uma outra tecnologia de imagem cerebral, o PETscan, os cientistas conseguiram mapear o acúmulo de proteínas tau no locus coeruleus, os cientistas conseguiram estabelecer a correlação entre sintomas de perda cognitiva e a presença da forma maligna dessa proteína não apenas nesse organoide cerebral, mas em outras áreas do sistema nervoso.

INDICADOR PROMISSOR

“Essas descobertas estão alinhadas com os dados de doenças neurológicas nos quais o acúmulo de tau no locus coeruleus se relaciona na progressão da doença”, escreveram Jacobs e seus colegas no trabalho publicado. “Isso o identifica como um indicador promissor dos processos iniciais relacionados ao mal de Alzheimer e das mudanças de trajetória cognitiva em estágio pré-clínico (anterior ao diagnóstico) da doença.

Os cientistas explicam que faz sentido o locus coeruleus ter um papel tão grande no mecanismo biológico da doença. Apesar de ser pequena, essa região cerebral responsável pela produção de um grande volume de norepinefrina, um dos neurotransmissores que o sistema nervoso usa na comunicação entre seus diversos componentes.

A capacidade do maquinário usado na pesquisa atualmente não está à disposição de hospitais convencionais, explicam os cientistas, mas com a evolução natural dessa tecnologia é possível que as próximas gerações de equipamentos comerciais já contem com essa precisão.

“Poder detectar e medir o local onde a patologia se inicia será crítico para melhorar a detecção precoce e identificar indivíduos elegíveis para testes clínicos de tratamentos tentando frear o processo da doença”, escrevem os cientistas.

OUTROS OLHARES

CORTE DE SUBSÍDIO PODERIA TURBINAR OS GASTOS COM A ÁREA SOCIAL

Brasil destina 20 vezes o valor do programa Bolsa Família para incentivos e funcionalismo

O baixo crescimento da economia, com aumento da miséria e urgência em reforçar programas sociais focalizados, explicita a necessidade de o Brasil rever o destino de bilhões de reais alocados em incentivos empresariais considerados pouco eficientes e concentradores de renda.

Neste ano, o Brasil deixará de arrecadar quase R$310 bilhões com benefícios tributários concedidos a empresas e setores. Somados a outros equivale a quase dez vezes o Bolsa Família, principal programa com foco na pobreza extrema.

o total também se aproxima ao de todos os salários e encargos com servidores civis ativos e inativos (R$ 335,4 bilhões), segunda maior despesa direta do governo federal – atrás da Previdência (cerca de RS700 bilhões).

Especialistas defendem que parte do dinheiro dos benefícios seja direcionada ao reforço de programas sociais, sobretudo os voltados à primeira infância, para interromper o ciclo de pobreza intergeracional  – que leva os filhos de pais pobres a se tornarem, no futuro, pais de crianças pobres.

Também dizem ser imprescindível uma reforma administrativa que diminua o peso do funcionalismo público no gasto federal, abrindo espaço no orçamento para investimentos e programas de renda focalizados.

O próprio orçamento da área social, de 25% do PIB, poderia ser reformado o Bolsa Família, por exemplo, leva apenas 0,05% do PIB.

Os benefícios tributários, financeiros e creditícios a setores e empresas dobraram nos governos Lula e Dilma Rousseff (2003-2016) e hoje chegam a quase4,5% do PIB. Embora o governo Jair Bolsonaro (sem partido) tenha prometido reduzi-los, não houve alteração significativa até agora.

Só em setembro, após quase três anos, Bolsonaro enviou ao Congresso projeto de lei para cortar R$22 bilhões nesses benefícios fiscais.

Análise do Banco Mundial sobre políticas de incentivos em Brasil, Austrália, Canadá, Coreia do Sul, Holanda e México concluiu que só o caso brasileiro resultou na combinação de aumento dos gastos tributários e queda na arrecadação – sugerindo que não aceleraram o crescimento.

Os benefícios tributários no Brasil representam quase um quarto das receitas administradas pela Receita Federal e, do ponto de vista regional, são fontes de desigualdades.

Estudo do Ministério da Economia mostrou que estados mais pobres como Maranhão, Piauí, Acre, Alagoas e Pará receberam menos de um terço da média nacional dos benefícios per capita em 2018. Já Amazonas (por causa da Zona Franca de Manaus), Santa Catarina e São Paulo se beneficiaram mais de renúncias tributárias do que contribuíram, proporcionalmente, para o crescimento do PIB.

Para Vinícius Botelho, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV) e ex-secretário nacional nos ministérios de Desenvolvimento Social e da Cidadania, há margem para reformulação com o objetivo de ampliar programas sociais.

“Essa é uma discussão básica, de realocação de recursos de áreas que não demonstram bons resultados para outras prioritárias”, afirma.

Segundo relatório do TCU (Tribunal de Contas da União), benefícios fiscais, em geral, representam distorções ao livre mercado e resultam, de forma indireta, em sobrecarga fiscal maior para os setores não beneficiados”.

“Em um contexto de restrição [orçamentária], como o enfrentado pela União, os valores associados a esses benefícios devem ser considerados com maior atenção, em virtude do impacto nas contas públicas”, diz o TCU.

Para o economista Alexandre Manoel, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, embora eventual corte dos benefícios possa resultar em aumento da carga tributária, isso seria positivo, pois deixaria de haver tratamento privilegiado a alguns setores.

Ele suspeita que boa parte da diminuição da capacidade do governo nos últimos anos de produzir superávits primários (economia para reduzir a dívida pública) tenha relação com o aumento dos benefícios tributários , que diminuíram a receita federal.

A queda do superavit a partir do início da década passada, que levou à aceleração da dívida bruta e à forte recessão no biênio 2015-2016 (quando o PIB encolheu 7,2.%), coincidiu justamente com a escalada dos benefícios tributários.

Segundo especialistas, o aumento da dívida bruta (equivalente a 82,7% do PIB e maior entre os grandes emergentes) e a insegurança fiscal atual estão na raiz do crescimento medíocre nos últimos anos.

No passado, tentativas de diminuir os incentivos foram seguidas de forte lobby de seus beneficiários. Mas um corte linear hipotético de apenas 10% para todos os favorecidos quase dobraria o Bolsa Família.

“De um lado, há todo um esforço para encontrar dinheiro e reforçar o Bolsa Família. De outro, uma conta bilionária que favorece a concentração de renda”, afirma Paulo Tafner, diretor-presidente do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS).

Para o economista Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper, os subsídios tributários e financeiros acabam protegendo empresas e setores ineficientes, que não contribuem para o crescimento da produtividade, da economia e do emprego.

“O fundamental é acelerar a produtividade e inserir os mais pobres numa economia em crescimento. Não é sustentável só redistribuir uma renda que, no geral, não tem aumentado”, diz Mendes.

Especialistas defendem ainda reformar o Estado para aumentar a produtividade e o espaço no Orçamento para reforço de programas sociais. Considerada imprescindível, a reforma administrativa proposta pelo Ministério da Economia sofria até pouco tempo resistência de Bolsonaro.

No fim de setembro, uma comissão especial no Congresso manteve no texto da reforma a estabilidade aos servidores, fato considerado um retrocesso pelos que defendem mudanças mais ambiciosas.

Além de manter a estabilidade, Bolsonaro pretende ampliar em quase 70 mil o total de servidores (um recorde em projeto de Orçamento de 2022.

Como proporção do PTB, o Brasil gasta o equivalente a 13,1% com o funcionalismo federal, estadual e municipal – mais que Chile e México (abaixo de 9%) e acima da média dos países ricos (10,5%), segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

O gasto anual com servidores federais ativos faz com que ganhem 67% mais que seus pares na iniciativa privada, com cargos e nível educacional similares, segundo análise do Banco Mundial em 53 países.

Dados da FGV Social a partir do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) mostram grande concentração de rendimentos nos funcionários públicos federais em relação ao resto da população. Entre as ocupações mais bem pagas no Brasil, 6 estão no setor estatal.

Por causa dos servidores em Brasília, o Distrito Federal tem o maior rendimento médio entre as 17 unidades da Federação (considerando quem declara ou não o IRPF) e entre declarantes apenas. Ante o resto do país, a renda no DF mais que dobra o nacional.

Os dados do FGV Social, a partir do IRPF de 2018, incluem todos os rendimentos declarados, inclusive de aplicações financeiras e dos chamado PJ (pessoa jurídica), muitas vezes indivíduos que operam por meio de empresas individuais e recolhem menos tributos através do Simples.

O Simples lidera os benefícios tributários, com 24,6% do total. Em seguida vem a agricultura e o agroindústria (setor de grande concentração de renda), rendimentos isentos e não tributáveis, entidades sem fins lucrativos e a Zona Franca de Manaus.

Para Pedro Ferreira de Souza, pesquisador do Ipea, os benefícios tributários e a tributação via IRPF demonstram que existe um “conflito distributivo puro” no Brasil.

“De um lado, os ricos e a classe média formam um grupo de interesse que obtém benefícios tributários, são pouco onerados via IR e não pagam imposto sobre dividendos. De outro, os pobres, que não tem canais de pressão e suportam grande carga via impostos sobre o consumo”, diz Souza.

“O resultado é que temos ganhos concentrados para poucos e perdas difusas para muitos”.

Em sua opinião, o país precisaria aumentar a tributação sobre a renda para além dos atuais 15% da população que declaram IR (menos que a média latino-americana e de muitos países do sul da Europa).

Também seria preciso diminuir os impostos indiretos sobre o consumo – o que leva os pobres a pagarem, proporcionalmente, muito mais impostos do que os ricos.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 18 DE NOVEMBRO

O CULPADO PRECISA SER PUNIDO

O rei sábio joeira os perversos e faz passar sobre eles a roda (Provérbios 20.26).

A impunidade é a maior propaganda do crime. Não punir exemplarmente os culpados é fazer uma apologia do crime e estimular a violência. Onde a lei é frouxa, a violência desfila nas ruas. Por isso, um governante sábio descobre quem está fazendo o mal e o castiga. Inocentar o culpado ou culpar o inocente são atitudes indignas de quem está investido de autoridade. Abomináveis são para o Senhor tanto o que justifica o perverso quanto o que condena o justo. A Bíblia diz que o papel do governante é coibir o mal e promover o bem. Quando a justiça se torna inoperante, os criminosos agem com liberdade porque sabem que escaparão dos rigores da lei. No Brasil, a vasta maioria dos crimes não chega sequer a ser investigada pela justiça. Os bandidos que roubam e matam escapam ilesos e continuam em liberdade, espalhando medo e terror na sociedade. Os criminosos de colarinho branco, esses nem sequer vão para a cadeia. Conseguem as benesses da lei para fugir da merecida punição de seus delitos. Se todos são iguais perante a lei, a lei precisaria ser igual para todos. Dois pesos e duas medidas nos julgamentos só estimulam a prática da injustiça e promovem o crime.

GESTÃO E CARREIRA

 A ASCENSÃO DA CARNE SEM CARNE

Parece carne, tem cheiro de carne e gosto de carne. Mas é planta. Entenda melhor a nova indústria de alimentos vegetais, e as oportunidades que esse mercado pode trazer.

Você se aproxima do açougue no supermercado para comprar as proteínas do mês. Nas vitrines, linguiças, bifes…, mas você não vai escolher entre picanha e filé mignon: pode optar por um naco feito de ervilha colorida com beterrabas ou, quem sabe, um suculento bife de glúten com gordura de óleo de coco.

Parece uma cena distópica de Black Mirrar. Não é o caso. Os chamados açougues veganos já são uma realidade em vários locais do Brasil, mesmo que com produtos menos sofisticados do que os descritos aqui. Mas dá para apostar que cenas como essa se tornarão cada vez mais comuns – e talvez até o padrão. É que o crescimento dos produtos plant-based – alimentos feitos com plantas que visam substituir os de origem animal – vem chamando a atenção dos investidores com um mercado consumidor cada vez mais promissor.

O setor de substitutos de produtos de origem animal em si não é exatamente novo: alternativas vegetais para leites, queijos, manteigas e outros laticínios já existem há algum tempo, criadas para atender principalmente o público vegano. Mas foi só nos últimos anos que análogos vegetais para carne foram criados – prometendo imitar aparência, textura e gosto da versão original.

Para essa missão quase impossível, vale usar de tudo: soja, ervilha, beterraba e glúten são alguns dos ingredientes mais comuns para a produção de hambúrgueres, nuggets, bifes, salsichas e outras “carnes” vegetais, além de óleos e gorduras vegetais e outros condimentos. Em laboratório, pesquisadores testam suas receitas para a produção em série de novos produtos. Esses processados vão parar nas geladeiras de supermercados ou em restaurantes e são cada vez mais comprados – a ponto de chamar a atenção de gigantes do setor alimentício.

EM PLENO CRESCIMENTO

Nós, humanos, consumimos carne de animais de grande porte há no mínimo 2,6 milhões de anos , segundo os registros fósseis. Hoje, pelo menos 330 milhões de toneladas de carne são produzidas por ano; 80 bilhões de animais são criados e mortos para isso. Apesar de uma queda na produção de 2019 (causada por problemas na cadeia produtiva, e não por uma diminuição na demanda), nada indica que esse número vá diminuir – o consumo de proteína animal cresce em todos os países que observam queda nas taxas de pobreza extrema. Mas tudo sugere que vai desacelerar.

Nos Estados Unidos, de longe o mercado mais avançado de produtos do tipo, o setor de produtos plant-based cresceu 27% de 2019 para 2020 – enquanto o varejo de alimentos em geral cresceu somente 15%. As carnes de origem vegetal lideraram o aumento do segmento: 45%, contra 20% da subida nas vendas de leites veganos. Ainda é um setor minúsculo comparado com o de seus análogos animais, mas a tendência de crescimento é clara.

No mundo, um relatório da Meticulous Market Research calculou que o mercado de substitutos vegetais terá um crescimento anual médio de quase 12% até 2027, enquanto o setor das carnes de verdade se expandirá em cerca de 4,5% ao ano. O mercado global de proteínas plant-based pode chegar à cifra de USS 370 bilhões em 2035, projeta a consultoria A.T. Kearney – o que corresponderia a 23% de todo o segmento de carnes no mundo. Bancos como o J.P. Morgan e Credit Suisse já chamaram a atenção dos investidores para o setor.

E eles parecem estar ouvindo. Em 2020, o segmento de substitutos vegetais para alimentos de origem animal recebeu o valor recorde de US$ 3,1 bilhões em investimentos, segundo dados do The Good Food Institute (GFI), uma organização internacional que promove o crescimento de setores de alimentação mais sustentáveis.

Só o valor do ano passado corresponde a mais da metade de todo o montante investido em empresas do ramo nos últimos dez anos.

As chamadas foodtechs ,startups especializadas em inovar e otimizar a produção de alimentos de forma sustentável, foram as principais beneficiadas. Entre elas, liderou a americana lmpossible Foods, que se destaca como uma das duas principais empresas do ramo e planeja abrir seu capital ainda este ano nos EUA. Em 2019, a companhia fechou um acordo com o Burger King para comercializar seu produto principal, o Impossible Burger, na rede de fast-food.

A outra grande player do mercado é a Beyond Meat, que já fez seu IPO em 2019 – suas ações valorizaram 163% logo em seu primeiro dia na bolsa. Assim como a concorrente, ela firmou parceria com uma rede de fast- food, o Mc Donald’s, para vender seus hambúrgueres veganos.

A Beyond Meat surgiu em 2009, e a lmpossible Foods em 2011, ambas na Califórnia. Mas as duas demoraram anos para lançar seus respectivos produtos no mercado  – já que, praticamente pioneiras, tiveram que desbravar as tecnologias por si só.

Desde então, muita coisa mudou. Outras foodtechs surgiram mundo afora – algumas não produtoras de comida plant-based, mas especializadas em pesquisar novas técnicas e ingredientes para vender soluções para empresas do ramo. Afinal, um dos desafios é tentar cada vez mais se aproximar das características da carne original em fatores como gosto, textura, cheiro e até nos líquidos que ela solta. Mas o que mais chama a atenção é que o todo-poderoso mercado de carnes animais já notou o potencial do setor plant-based – e não está se deixando passar para trás.

Em abril deste ano, a gigante brasileira JBS comprou a Vivera, a terceira maior produtora de alimentos plant-based da Europa, atuando em mais de 25 países. O negócio saiu por 341 milhões de euros (RS 2 bilhões). Foi mais um passo da companhia no sentido de esverdear seus produtos. A Seara, marca da JBS, já tinha uma linha assim, chamada Incrível, que consiste em hambúrgueres, almôndegas e até “iscas de peixe” feitas de vegetais.

A Marfrig, outro peso-pesado do mundo frigorífico, se uniu em maio com a americana ADM para inaugurar a joint venture Plant-Plus Foods, que comercializa produtos do ramo nas Américas. Já a BRF ainda começa a explorar o setor com seus produtos plant-based próprios, dentro da marca Sadia.

Tanto investimento entrando, combinado ao surgimento de novos players no mercado, levou a um fenômeno interessante: o preço desses produtos, antes pouco acessíveis, começou a cair. Nos EUA, meio quilo de carne moída vegetal da Beyond Meat custa USS 5,70. A carne de origem animal, por sua vez, sofreu um aumento de 313% do ano passado para cá – e custa hoje entre USS 4 e USS 6.O

OS FLEXITARIANOS

Expandir o público do setor, diga-se, é ao mesmo tempo um desafio e uma oportunidade para as foodtechs. Isso porque, ao contrário do que se possa imaginar, os vegetarianos e os veganos não são nem de longe os maiores consumidores de produtos plant-based. Pelo contrário: nos EUA, só 11% dos compradores dessas alternativas cortaram totalmente a carne de suas dietas.

É uma boa notícia para os negócios: apesar do número de pessoas que se declaram vegetarianas estar crescendo no Brasil (o total saltou de 8% em 2012 para 14% em 2018, segundo o dado mais recente do Ibope), esse público permanece um nicho pequeno.

O grosso do mercado consumidor do setor plant-based é formado pelos chamados “flexitarianos”: pessoas que gostam de carne, mas querem consumir menos proteína animal. Elas procuram soluções rápidas e confortáveis, que mantenham a experiência do produto original.

“A principal motivação do consumidor desse tipo de produto é o cuidado com a saúde. Depois, aparecem outros motivos, como a preocupação com o meio ambiente”, explica Raquel Casselli, gerente de engajamento corporativo do Good Food Institute Brasil.

E NO BRASIL?

Uma pesquisa do GFI em parceria com o Ibope detectou que 39% dos flexitarianos no Brasil buscam substituir os produtos animais pelos vegetais pelo menos três vezes por semana. Entre os motivos que esses consumidores levam em consideração na hora de comprar proteínas vegetais, ter uma quantidade menor de gordura é o principal, citado por 43%.

O setor, de qualquer forma, ainda é incipiente por aqui. Mas é consenso que pode e deve crescer muito. A primeira grande foodtech brasileira do ramo surgiu em 2019, com Marcos Leta, fundador da marca de sucos naturais Do Bem. Em 2016, sua empresa foi comprada pela Ambev, e o empreendedor decidiu apostar no mercado plant-based. Após dois anos de pesquisa tanto lá fora como por aqui, surgiu a Fazenda Futuro, em maio de 2019, com a marca Futuro Burger.

“Toda a ideia começou da seguinte tese: o Brasil é um dos maiores produtores de vegetais do mundo e um dos grandes exportadores de carne animal”, conta Leta. “Então, se a gente pegar os nossos vegetais, adicionar tecnologia de ponta e usar a logística e a estrutura que foram usadas por anos pela indústria da carne para vender esses produtos congelados, a gente pode ter de fato um hub de produção mundial de plant-based no Brasil.”

Parece estar funcionando: hoje, a empresa está presente em 24 países, a maioria na Europa, e se prepara para estrear no mercado americano, o mais competitivo da área.

Quem também aposta no crescimento do setor por aqui é o brasileiro André Menezes, que era gerente da Country Foods, braço da BRF em Singapura, quando percebeu o potencial do setor plant-based. “Eu ficava chocado como cada ano era ruim para a indústria de carne, havia uma crise diferente a cada seis meses. Isso serviu para me mostrar que o mercado era insustentável”, conta.

André decidiu deixar seu cargo de liderança na gigante de carnes para fundar a startup Next Gen em 2020; seu negócio recebeu um aporte de US$ 10 milhões em investimentos. Em março deste ano, lançou seu primeiro produto: o Tindle, um frango à base de plantas vendido para restaurantes em Singapura, Hong Kong e Macau.

A Ásia também desponta como um mercado promissor. Pesa o fator cultural – hambúrgueres, nuggets e outras carnes processadas não são tão protagonistas por lá como no Ocidente. Por conta disso, os consumidores orientais estariam mais dispostos a trocar produtos de origem animal por análogos vegetais. No mundo, a China é o país com maior porcentagem de sua população disposta a fazer essa migração: 73%, contra 42% da média mundial e 47% do Brasil, segundo a Ipsos.

A ideia da Next Gen agora é expandir os negócios para Europa, EUA e, principalmente, Brasil – que, segundo André, “tem tudo para se tornar uma das grandes potências mundiais no setor”.

Por aqui, ao contrário do que acontece nos EUA, o setor ainda enfrenta um desafio: o preço. Além dos poucos players no ramo, o câmbio acaba afetando o valor que os consumidores têm que desembolsar nos supermercados para levar proteínas alternativas. “Alguns desses produtos utilizam a soja, que é nacional e com preço bastante competitivo. Mas outros são à base de ervilha, que é um produto importado, sem falar em muitos dos outros ingredientes como óleos, gorduras, aromas, corantes, que também são importados”, explica Raquel, do GFI.

Foi pensando nisso que o instituto lançou recentemente o Projeto Biornas, que vai financiar pesquisas para explorar o uso de ingredientes genuinamente brasileiros na indústria plant-based. Guaraná, cupuaçu, baru e pequi são alguns dos candidatos para fornecer proteínas e gorduras vegetais às receitas veganas.

POR BEM OU POR MAL

Desafios à parte, há quem aposte que o setor vai crescer não somente porque as pessoas estão mais preocupadas com o meio ambiente e com a saúde, mas simplesmente porque talvez não haja outra alternativa. É consenso que o modelo de produção de alimentos como está hoje é insustentável: ele já é responsável por mais de 20% das emissões dos gases de efeito estufa e 90% do consumo de água; 80% de todas as terras de plantio no mundo são voltadas para manter a pecuária.

Em 2050, com a população mundial beirando os 10 bilhões de pessoas, estima-se que as emissões de gases de efeito estufa ligadas à produção de proteína animal devem aumentar em 46%, e a demanda por terras, em 49%. Tudo indica que isso não é viável.

É por esses motivos que o Credit Suisse projeta um crescimento avassalador para o setor plant-based: o mercado poderá atingir US$1,4 trilhão em 2050 – valor parecido com o mercado de carnes de verdade hoje. É que, de acordo com o banco europeu, vai ser inevitável transicionar a produção para algo mais racional. E a instituição alerta: agora é a hora – quem sair na frente vai ter vantagem.

EU ACHO …

NÃO TER PRESSA

Felizes aqueles com essa virtude, pois deles será o reino dos céus

O cansaço pode ser uma virtude, como já suspeitava Albert Camus (1913-1960). São muitas as razões para estarmos cansados. Na política, então, estamos a ponto de ter de volta a gangue do PT porque a gangue bolsonarista parece pior agora.

O Brasil vive seu ocaso político: a classe política é um lixo, a elite sempre oportunista com pitadas de solidariedade gourmet, o pensamento público orgânico do PT se prepara para retomar sua hegemonia na máquina de produção de conteúdo, a extrema direita boba com sua idiotia social. O Brasil mergulha na debilidade mental como “zeitgeist”, o espírito do tempo.

Mas melhor do que a virtude do cansaço é a possibilidade de não ter pressa na vida. Essa condição não é apenas uma liberdade para com os afazeres cotidianos, mas, também, uma forma de liberdade interior das mais sofisticadas. Difícil não ter pressa no mundo da velocidade da produção.

Felizes aqueles que não têm pressa – por isso não precisam se cansar com nada – , pois deles será o reino dos céus. Chegarão lá descansados. Se o cansaço é uma virtude diante do absurdo (Camus, de novo), a não necessidade de ter pressa é um ativo essencial. Um comportamento de luxo. G. K. Chestelton (1874-1936) falou algumas vezes na sua obra do luxo que era ficar na cama até mais tarde. Cansaço, ausência de pressa, preguiça –  virtudes irmãs de alguma forma. Vícios no mundo da ética motivacional.

Sempre foi  fácil perceber a elegância de alguém que não tem pressa. Deixar uma pessoa passar na frente na fila, sem afetação, ficar sentado horas num café lendo um livro sem fingir que o está lendo. Aliás, esse gesto está entre os maiores fetiches dos que gostariam de gostar – redundância proposital – de ler e de ir a Paris para ficar lendo num café, mas que, na verdade, correm ou para um outlet ou para um concerto para fingir erudição musical.

Se a ausência de pressa é um ativo, quais seriam suas condições de possibilidade? Antes de tudo, você pode ter um temperamento mais blasé e menos interessado na lógica estratégica interesseira que domina as relações. Mas esse temperamento em si, para se instalar de modo elegante na duração do tempo de uma vida, depende de um suporte material prévio. Dito em outras palavras, a elegância de não ter pressa depende, em grande medida, de você ter ou não ter grana. Um blasé com grana é elegante, um blasé sem grana é um maconheiro idiota.

A grana corre transversalmente em todos os casos do elegância de não ter pressa. Mas existem atenuantes. Por exemplo, a opção de não ter filhos se soma à elegância de não ter pressa porque pessoas vulneráveis não dependerão de você por anos a fio, e aí, você até pode ter menos grana do que o povo cheio da grana, simplesmente porque gastará menos. Se você tiver pais vivos e eles não tiverem grana, possivelmente, você terá que ter pressa para gerar grana. Se eles forem ricos ou já mortos, esse problema está resolvido.

A falta de pressa como vivência é como respirar ar puro. Você decide melhor sobre as coisas e usufrui mais da mulher que ama. A vida interior é o local onde se dá o efeito mais sofisticado da falta de pressa. Só ela, a vida interior, proporciona uma apreciação estética do cotidiano para além do banal. A percepção dos objetos que compõem o mundo à nossa volta, quando desprovidos da obrigação da funcionalidade, os torna mais belos. Assim como uma mulher que você não olha apenas como objeto do sexo, mas como alguém que encanta, sem pressa, sua vida.

Talvez uma das áreas em que a falta de pressa possa revelar sua elegância de forma mais clara é no envelhecimento ou amadurecimento – apesar da tentativa de fazer das pessoas mais velhas umas retardadas mentais alegres atrapalhar a percepção desse fato. A elegância estaria, justamente, vinculada ao fato de que de nada adianta mais ter pressa, só se for pressa para morrer. O repouso na finitude anunciada deveria nos dar a todos a falta de pressa, o luxo de não ser mais escravo do sucesso em absolutamente nada. A insustentável leveza pura do ser que desistiu do olho do mundo sobre si.

*** LUIZ FELIPE PONDÉ

BEM ESTAR

VIDA SEM MÁSCARA

Quais são os riscos de largar a proteção facial?

Uma das discussões mais emblemáticas e atuais na pandemia é a flexibilização do uso das máscaras. Algumas cidades já começam a falar na liberação gradual, que também é discutida em âmbito federal. Segundo o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, uma equipe técnica da pasta está avaliando a medida. Em Duque de Caxias (RJ), o prefeito Washington Reis (MDB-RJ) suspendeu o uso obrigatório do item, tornando-se a primeira cidade no país a adotar a postura. Dois dias depois, uma decisão judicial suspendeu a flexibilização.

Na capital fluminense, o plano da prefeitura prevê a mudança nas regras quando a cidade atingir 65% da sua população com a vacinação completa. A expectativa é de que a marca seja atingida na próxima semana.

A medida vem sendo testada em países como Portugal. Israel, que desobrigou o uso em junho, com cerca de 58% da população imunizada, voltou atrás após uma piora da pandemia. O mesmo foi visto nos Estados Unidos.

Especialistas, porém, acreditam ser um movimento precoce no Brasil, com cerca de 50% de sua população totalmente vacinada.

“O ideal seria esperar ao menos 80% de cobertura”, diz o diretor do Laboratório Genetika, Salmo Raskin, em Curitiba.

Atendendo a pedido, o geneticista avaliou o risco de contágio em locais públicos, sem o uso de máscara, e em dois cenários: com todos vacinados e com metade da população imunizada. A classificação de baixo risco é quando a chance é menor que 30%; médio risco, de30% a 70%; e alto, acima de 70%.

VENTILAÇÃO REDUZ CONTÁGIO EM VOOS DE AVIÃO

O avião é um dos ambientes mais estudados em relação à propagação do coronavírus. Pesquisas mostram que o risco de transmissão do vírus na aeronave é maior durante o embarque e o desembarque do que quando o avião está no ar. Isso porque os sistemas de ventilação, que foram desenhados para remover de forma rápida a fumaça de cigarros das cabines, são extremamente eficazes em empurrar o ar direto para baixo. O uso do regulador individual de ar-condicionado, localizado acima do assento, dispersa as partículas virais. Por isso, o avião pode transportar pessoas infectadas, mas oferece pouco risco de contaminação. Precauções como evitar o uso de bagagem de mão para os passageiros não respirarem em cima de outros sentados ao mexerem no bagageiro ajudam à diminuir o risco de transmissão em cerca de 75%.

Risco com todos vacinados: BAIXO

Risco com 50% das pessoas vacinadas: MÉDIO

ÔNIBUS E OUTROS TRANSPORTES TÊM PERIGO ELEVADO

Esse tipo de transporte público, assim como o metrô e o trem, reúne três das piores características para o risco de contágio: transportar um grande número de pessoas desconhecidas sem a menor possibilidade de distanciamento e com pouca ventilação ao rodar. Esses veículos, portanto, se configuram como os lugares mais arriscados à contaminação. A conclusão ganhou respaldo da ciência recentemente. Um estudo da Fiocruz de Pernambuco concluiu que esse ambiente é mais perigoso. Foram analisadas 400 amostras coletadas de superfícies de locais com grande circulação: parques, unidades de saúde, mercados, praias e terminais de ônibus. O último foi o campeão em contágio, com 48,7% das amostras positivas para o coronavírus. Em seguida, arredores de hospitais (26,8%); parques públicos (14,4%); mercados (4,1%) e praias (4,1%).

Risco com todos vacinados: ALTO

Risco com 50% das pessoas vacinadas: ALTO

LACUNAS NA VACINAÇÃO SÃO PERIGO EM ESCOLAS

Lugares fechados com muitas pessoas são naturalmente propícios ao contágio. Mas, no caso das escolas, com grande capacidade de estabelecer procedimentos sanitários, como distanciamento e higienização, junto à vacinação entre os adolescentes, faz o risco cair consideravelmente. O perigo, no entanto, não desaparece com as vacinas, já que no Brasil a imunização contra a Covid-19 é autorizada para adolescentes acima de 12 anos, e as escolas são repletas de crianças. Trabalho publicado neste ano na revista científica Journal of the American Medical Association (Jama) mostrou que os pequenos têm 1,5 mais chances de transmitir a doença para um adulto que os adolescentes de 14 a 17 anos. A Pfizer já pediu autorização aos EUA para imunizar a população de 5 a 11 anos. É esperado que a mesma orientação seja seguida por aqui.

Risco com todos vacinados: BAIXO

Risco com 50% das pessoas vacinadas: MÉDIO

NO RESTAURANTE, ALERTA LIGADO E PROTOCOLOS

Uma pesquisa conduzida pela Saúde Pública do Reino Unido constatou que os trabalhadores de bares e restaurantes são a categoria com maior risco de contágio, atrás apenas dos profissionais de saúde. Eles estão entre os estabelecimentos que mais sofreram o impacto econômico na pandemia, tendo de manter as portas fechadas por longos períodos. Isso forçou a criação de regras de segurança para a volta à rotina absolutamente normal. Com protocolos, esses locais conseguem reduzir riscos de infecção. O perigo só não é menor pelo fato de lidarem com alimentos e utensílios que podem facilmente ser compartilhados – e a transmissão por gotículas da saliva é implacável. Lugares que oferecem comida por quilo, onde os clientes se servem em bufês, são os mais vulneráveis. Aqueles com áreas externas são os mais seguros.

Risco com todos vacinados: MÉDIO

Risco com 50% das pessoas vacinadas: ALTO

ATITUDES FAZEM A DIFERENÇA EM PARQUES E PRAIAS

Em ambientes amplos e abertos, o risco de infecção já é bem menor mesmo sem uma vacinação maciça. Uma revisão sobre a transmissão do vírus publicada pela Sociedade Americana de Doenças Infecciosas afirmou que a chance de contágio é 19 vezes maior em ambientes fechados do que ao ar livre. Com ao menos metade das pessoas imunizadas, os índices caem drasticamente. Além disso, no caso da praia, a transmissão do coronavírus pela água é bem pouco provável. O grande problema nesses ambientes é a aglomeração. Cuidados com as gotículas expelidas da fala, tosse ou espirro. O distanciamento deve ser de ao menos um metro. O compartilhamento de objetos de uso pessoal, como guarda sol e cadeiras, devem ser evitados. A prática de esportes coletivos, comuns nesses ambientes, deve também respeitar o distanciamento.

Risco com todos vacinados: BAIXO

Risco com 50% das pessoas vacinadas: MÉDIO

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VOCÊ CONHECE A SÍNDROME DE IRLEN?

Distúrbio de base neurológica se apresenta como alteração visuoperceptual, causando sensibilidade exacerbada à claridade, leitura desfocada, restrição do campo periférico, dificuldades com contrastes e na atenção visual

O aprender é um processo que envolve nossos cinco sentidos. E esse processo ocorre naturalmente no caso da audição, do tato e do olfato. À medida que somos expostos aos variados tipos de estímulos, vamos aprendendo passivamente, intuitivamente desde a primeira infância. A visão se desenvolve à medida que o bebê segue a mãe com os olhos, descobre suas mãos e dedos, encaixa peças, ou seja, quando é estimulado.

A síndrome de Irlen (SI) é uma alteração visuoperceptual, também de base neurológica, e se manifesta com fotossensibilidade, desfocamento à leitura, restrição do campo periférico, dificuldades na adaptação a contrastes como, por exemplo, figura-fundo e dificuldade em manter a atenção visual. Os sintomas são cefaleias frequentes, ardência e prurido nos olhos, dificuldade em ler, estacionar o carro; quando crianças, muitas têm dificuldade em subir escadas, chutar bola, entre outras atividades. De acordo com esses pontos, tanto as crianças quanto os adultos com síndrome de Irlen podem se prejudicar desde a aprendizagem mais primária até seu convívio social. E isso pode ser confundido com a dislexia, que é o distúrbio da leitura.

É importante ressaltar que a síndrome de Irlen pode se apresentar ou não em comorbidade com a dislexia, não invalidando os tratamentos terapêuticos de nenhuma delas. Porém, se um indivíduo for avaliado e diagnosticado com SI, as orientações são diferentes, pois existe o uso de uma lâmina específica (Overlays), que facilita a leitura. Mas se o grau da SI for maior, e estiver atingindo a vida secular de um indivíduo de forma negativa, será necessário o uso de óculos com lentes específicas, os quais só poderão ser prescritos pelos médicos oftalmologistas do Hospital de Olhos de Belo Horizonte, Minas Gerais – Hospital de Olhos “Dr. Ricardo Guimarães”.

Segundo a dra. Márcia Guimarães, “a síndrome de Irlen (SI) é uma alteração visuoperceptual, causada por um desequilíbrio da capacidade de adaptação à luz, que produz alterações no córtex visual e déficits na leitura. A síndrome tem caráter familiar, com um ou ambos os pais também portadores em graus e intensidades variáveis. Suas manifestações são mais evidentes nos períodos de maior demanda de atenção visual, como nas atividades acadêmicas e profissionais que envolvem leitura por tempo prolongado, seja com material impresso ou computador”.

Ela ainda salienta que a caracterização dessa síndrome foi feita pela psicóloga Helen Irlen, com um estudo prospectivo envolvendo centenas de adultos considerados analfabetos funcionais pela leitura deficiente e baixa escolaridade. O estudo, aprovado e financiado pelo governo federal norte-americano, foi apresentado perante a Associação Americana de Psicologia, em agosto de 1983.

A pesquisadora concentrou seus estudos nos sintomas “visuais” que esses adultos apresentavam, denominando-os de “síndrome da sensibilidade escotópica” – fazendo alusão ao escuro – devido à preferência por locais menos iluminados durante tarefas com maior exigência visual. Além da fotofobia, outras manifestações podiam estar presentes: problemas na resolução visuoespacial, restrição de alcance focal, dificuldades na manutenção do foco e astenopia e na percepção de profundidade. Essas dificuldades não se restringem às crianças, nem ao ambiente escolar.

SINTOMAS

Os sintomas da síndrome que podem ser percebidos são oculares, ou seja, coceira, ardência, olhos lacrimejando durante o ato de ler, além da necessidade de fazer sombra para tornar a leitura mais agradável e piscar os olhos com frequência, balançar ou tombar a cabeça, sensação de cansaço após 10 a 15 minutos de leitura. A história familiar também deve ser levada em conta.

A prevalência é alta, pois atinge de 12 a 14% da população em geral, incluindo bons leitores e universitários, e torna-se proporcionalmente mais frequente quando há concomitância com déficits de atenção e dislexia (33 a 46 % dos casos). Estudo recente, realizado em escola municipal da rede pública de Belo Horizonte, detectou ainda uma incidência de 17% entre alunos com dificuldade de leitura.

A SI não atinge apenas crianças ou adolescentes em idade escolar, mas, sim, todo um contexto social, pois, diante das questões sensoriais, a síndrome se caracteriza por diversas maneiras, desde o chutar de uma bola por uma criança (que não consegue fazê-lo com sucesso) até o ato de estacionar um carro realizado por um adulto (que também não o faz com sucesso).

QUESTÕES SENSORIAIS

De acordo com os estudos atuais da equipe do Hospital de Olhos de Belo Horizonte, estão sendo revistas as relações entre as lesões pós-traumáticas, envolvendo o cérebro, e os comprometimentos secundários da eficiência visual com exacerbação da fotossensibilidade e déficits na oculomotricidade, gerando impactos na leitura, aprendizagem, memória e estabilidade emocional. Sabe-se que eles também podem ocorrer na dislexia, déficits de atenção e hiperatividade, no autismo e durante o uso de certos medicamentos. Como os sintomas são semelhantes, o diagnóstico diferencial é indispensável para que a conduta ideal seja adotada o mais precocemente possível, uma vez que a intervenção gera benefícios nas outras áreas do processamento, como as auditivas, motoras e cognitivas.

São sintomas comuns: confusão entre os números, percepção de distorções visuais em páginas de texto, leitura de palavras de baixo para cima e inversão de letras e palavras, espaçamento irregular, dificuldades em manter-se na linha ao escrever, lentidão e baixa compreensão. Entretanto, inexistem outros aspectos que facilitam na condução de um diagnóstico diferencial satisfatório. Na síndrome de Irlen, ao contrário da dislexia, estarão ausentes as alterações na percepção auditiva, escrita invertida, pronúncia incorreta, dificuldade na aquisição da fala e escrita, escrita espelhada e déficits na compreensão de ordens verbais, cuja intervenção deve ser supervisionada por fonoaudiólogos. Do mesmo modo, a prolixidade, impulsividade, falta de autocontrole pessoal ou em grupo, agitação e hiperatividade física são componentes dos quadros de déficits de atenção e hiperatividade e a intervenção medicamentosa, quando recomendada, deve ser feita pelo neurologista responsável pela coordenação desses atendimentos multidisciplinares.

Sejam em comorbidade ou isoladamente, esses distúrbios provocam uma série de manifestações semelhantes e, por isso, diversos autores preconizam o rastreamento da síndrome de Irlen em crianças com dificuldades na leitura, fotossensibilidade e manutenção da atenção aos esforços visuais prolongados como forma de evitar diagnósticos equivocados de dislexia, DTA e TDAH e, ainda, para minimizar a medicação em pacientes em que a agitação e desatenção são resultantes do estresse visual e dificuldade em se ajustar às condições de luminância de uma sala de aula, por exemplo.

A identificação da síndrome é feita por profissionais da saúde e educação, devidamente capacitados a identificar (teste de screening ou rastreamento) os portadores, através da aplicação de um protocolo padronizado conhecido como método Irlen, e classificar o grau de intensidade das dificuldades visuoperceptuais dos casos suspeitos. O teste de screening é feito após avaliação da acuidade visual e sob correção refracional atualizada, quando necessária. Pelo screening é possível verificar os benefícios, com a supressão das distorções visuais, pela interposição de uma ou mais transparências coloridas selecionadas individualmente pelo portador da síndrome de Irlen.

O método Irlen deve ser aplicado onde ocorre a indução de estresse em atividades com alta demanda “visuo-atencional” e posterior supressão, após a sobreposição de uma lâmina colorida individualmente selecionada. Uma vez determinada a transparência ideal, o portador passa a usá-la sobre o texto durante a leitura ou cobrindo a tela do computador enquanto lê, obtendo benefícios imediatos no conforto visual, fluência e compreensão.

APLICAÇÕES

A neutralização das distorções facilitará o reconhecimento das palavras lidas, mas obviamente não permitirá que a pessoa leia palavras que não sabe. Para esses indivíduos, a leitura sempre foi sinônimo de dificuldade, e a rejeição tornou-se um hábito incorporado – é preciso considerar que pode haver anos de atraso em relação aos leitores regulares que puderam adquirir um substancial vocabulário visual de reconhecimento instantâneo. O aprendizado das palavras será facilitado por não mais se apresentarem distorcidas – mas a assistência ao aprendizado será importante e sem ela a leitura permanecerá sendo uma atividade difícil e estressante.

Do mesmo modo, o uso de filtros não será o único fator necessário para o aperfeiçoamento no desempenho da leitura. Porém, nos casos de síndrome de Irlen a opção pelo tratamento significará um recurso não invasivo, de baixo custo e alta resolutividade, possibilitando a seus usuários uma potencialização dos benefícios aferidos aos seus esforços acadêmicos e profissionais, além de facilitar o trabalho da equipe multidisciplinar.

As pessoas com a síndrome, geralmente, não têm consciência de suas distorções de leitura. Por isso, pensam que todos ao seu redor veem da mesma forma. Surge, então, a questão se um filtro como esses pode ajudar e muito nas leituras? A reação de um cliente ao ser submetido ao rastreio e confirmada a SI, ao usar as lâminas (Overlays) ou filtros, é surpreendente, pois sua postura muda visivelmente ao perceber sua capacidade leitora se alterar. Aquilo que gerava fadiga agora é leve e prazeroso.

É relevante destacar o uso dos óculos com lentes especiais, que oferecem ao portador da SI um cotidiano sem distorções e com mais conforto, seja na leitura, no caminhar na rua, em qualquer atividade diária. Tais óculos somente podem ser prescritos por oftalmologistas habilitados e são  confeccionados fora do país, o que faz com que seu custo não seja baixo. Já as lâminas têm valor mais em conta e são oferecidas ao cliente após ele passar pela testagem e ser diagnosticado com SI.

Ainda de acordo com a dra. Márcia Guimarães, sabe-se que o atendimento comum do oftalmologista se concentra na aferição da acuidade visual, correção refracional quando necessária e identificação de patologias (catarata, glaucoma, estrabismo etc.). Porém, a visão é o sentido mais importante na aprendizagem, com uma dependência estimada em 80% até os 12 anos de idade, e os impactos dos déficits neurovisuais são sempre significativos. No entanto, sua identificação pelo exame oftalmológico padrão seria insuficiente, pois o oftalmologista atual privilegia a acuidade da visão e fatores ligados ao trabalho ocular, além de condições ópticas. Mal comparando, seria corno avaliar o computador (hardware) quando o paciente possui déficits no processamento visual cerebral (software). Para os profissionais da educação, a visão é tão importante quanto a audição, pois essas funções são como portas de entrada para a aprendizagem. Se não estiverem em pleno funcionamento, serão impedimentos para que ela aconteça com sucesso. Deve-se  assinalar  que  o “conceito de visão” que o oftalmologista tem vai determinar  a forma como abordará as queixas e sintomas visuais dos pacientes com distúrbios de aprendizagem. As conclusões geradas de seus exames e a forma como investiga as relações entre elas dependerão não apenas do tipo de exame realizado, mas de seu conhecimento clínico na área específica, das queixas fundamentais, do direcionamento de sua anamnese e ainda de sua capacidade de interação com os demais profissionais da área de saúde e educação, com os quais passará a se relacionar não mais de forma passiva, mas como interventor e facilitador das decisões trans e multidisciplinares, que afetarão o futuro escolar dessa população. 

OUTROS OLHARES

BRASIL DISCUTE HÁ QUASE 10 ANOS TAMANHO DE ROUPA FEMININA

Tabela de referência foi travada por embates na indústria da moda; ABNT prevê nova norma até dezembro

 A prefeitura de uma cidade do interior paulista publicou um edital para a compra de uniformes para estudantes anos atrás. O texto não tinha muitas informações sobre o tamanho das peças, que deveriam atender alunos do 1º ao 9°ano do ensino fundamental. Quando a encomenda chegou, o problema: as peças que vestiriam os estudantes do 9° ano, por exemplo, cabiam nas crianças do 6° ano.  A prefeitura se negou a pagar pelos uniformes e o assunto foi parar na Justiça.

“Como a ABNT [Associação Brasileira de Normas Técnicas) já tinha, desde 2009, uma norma com indicação de tamanhos de vestuário para o público infantil, a confecção foi obrigada a fornecer novos uniformes para todo o final da grade, sem custo adicional à prefeitura”, diz Maria Adelina Pereira, gestora do Comitê Brasileiro de Normalização de Têxteis e do Vestuário da ABNT. “Se o mesmo problema tivesse ocorrido com o público feminino, não haveria essa obrigação, porque o Brasil ainda não tem uma tabela referencial de tamanhos do corpo da mulher”,  afirma.

Desde 2012, o Brasil está no limbo quando se trata de medidas para definir o tamanho das roupas das mulheres. Naquele ano, foi revogada a norma anterior; de 1995, a NBR 13377, que tratava de maneira genérica de medidas referenciais do corpo humano. Em 2009, foi criada a NBR 15800, com medidas infantis, e em 2012 foi lançada a NBR 16000, de medidas referenciais masculinas.

“A ideia era, junto com a norma masculina, publicar a feminina, a NBR 16933, mas não houve consenso entre os integrantes do comitê”, diz Maria Adelina. Participam do grupo grandes redes varejistas, confecções que fornecem às grandes redes, instituições de ensino da moda, modelistas, o Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) e o Senai Cetiqt (Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil do Serviço Nacional da Indústria).

No foco das conversas acaloradas, questões que vão desde a maneira como se toma a medida do busto (se com ou sem sutiã, inclusive) até a definição de qual é a linha da cintura – se em cima do umbigo ou na parte mais afinada do tronco.

Em todos estes anos sem referências de tamanho, as confecções e as varejistas de moda precisaram ir a campo para pesquisar por conta própria quanto medem as mulheres, o seu principal público. Na Renner, por exemplo, elas representam 70% dos consumidores.

A varejista acaba de investir em tecnologia: 3D para criar uma série de 14 manequins projetados a partir do escaneamento corporal digital, com variações de tamanhos que vão do infantil até o plus size.

O problema é que, como cada rede ou confecção procurou criar referências próprias, muitas vinham se recusando a abrir mão dos seus padrões para adotar uma referência nacional. Daí a demora de quase dez anos na discussão de uma tabela referencial para o vestuário feminino.

No último dia 8 de outubro, a ABNT encerrou a segunda consulta pública sobre a NBR 16933. Se não houver novas contestações, a entidade espera publicar finalmente a norma até dezembro.

“A norma será publicada com a sugestão de se indicar na etiqueta medidas em centímetros”, diz Maria Adelina. Mais do que o tamanho P, M G, 40 ou 42, interessa ao consumidora saber quantos centímetros aquela peça tem de quadril, por exemplo.

Na opinião de Maria Adelina, a iniciativa tem a ver com a autoestima da consumidora. “Se a vendedora da loja lhe oferece uma peça GG, ela fica depressiva e passa três dias à base de alface e gelo”, brinca. “Mas se a peça especificar o tamanho do quadril ou busto, por exemplo, ela vai saber que se trata da melhor opção ao seu tipo físico”.

A gestora da ABNT lembra que muitas confecções e varejistas já passaram a informar detalhes das medidas das peças nos seus sites de venda on­line. Isso para evitar a logística reversa – a devolução da peça que não caiu bem, operação que significa um incômodo para a consumidora e um custo adicional para a varejista, que precisa bancar o retorno do produto ao estoque.

O comitê da ABNT escolheu 2 dos 5 principais biotipos femininos no Brasil para basear a norma referencial. São eles: “retângulo” e “colher”, identificados na pesquisa antropométrica da população brasileira, a Size BR, conduzida entre 2006 e 2015 pelo Senai Cetiqt.

No Brasil, 76% das mulheres têm o biotipo retângulo: quando as circunferências do tórax e do quadril são aproximadamente igual, com uma linha de cintura pouco marcada. “É o caso da modelo Gisele Bündchen, uma mulher magra com este biotipo”, afirma Patrícia Dinis, coordenadora de serviços de consultoria de confecção do Senai Cetiqt. O outro biotipo escolhido foi o da “colher”: quando o quadril é maior que o tórax e sua lateral é bem marcada e arredondada. “É o que mais se assemelha ao popular ‘violão’, embora esse biotipo represente apenas 8% das brasileiras”, diz Patrícia.

O objetivo da Size BR era identificar tipos físicos e suas respectivas medidas para auxiliar a indústria da moda na modelagem das roupas. Foram pesquisadas 10 mil pessoas, de todas as regiões do país. O trabalho serviu como base para as confecções montarem suas grades de tamanhos comerciais.

No caso dos homens, foram identificados três biotipos principais: retângulo, atlético e especial (para gordos). Nas mulheres, a pesquisa identificou oito biotipos, que acabaram sendo agrupados em cinco principais: além do retângulo e da colher, o ampulheta, o triângulo e o triângulo invertido (veja abaixo).  

“As pessoas não são robôs, têm diferenças morfológicas”, diz Patrícia, “Não é possível se basear apenas em cintura, busto e quadril, como era a antiga norma da ABNT de 1995, que foi revogada”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 17 DE NOVEMBRO

PENSE ANTES DE FAZER UM VOTO

Laço é para o homem o dizer precipitadamente: É santo! E só refletir depois de fazer o voto (Provérbios 20.25).

É sinal de grande insensatez fazer promessas sem avaliar o que se está prometendo. A Palavra de Deus diz que é melhor não votar do que votar e não cumprir, pois Deus não gosta de votos de tolos. Pense bem antes de prometer alguma coisa a Deus, pois você poderá arrepender-se depois. É uma armadilha consagrar algo precipitadamente e só pensar nas consequências depois que se fez o voto. Quantas pessoas prometem mundos e fundos para Deus num momento de arroubo emocional, mas depois esquecem o que prometeram! Quantas pessoas prometem ao Senhor o que não podem e não querem cumprir e, assim, tratam a Deus com desdém! Quantas pessoas, no altar do casamento, fazem votos de fidelidade ao cônjuge e, depois, correm atrás do adultério e arruínam sua reputação e a vida do seu consorte! Quantos pais prometem ensinar seus filhos no caminho do evangelho e depois se tornam pedras de tropeço para eles, envergonhando assim o evangelho de Cristo! Quantas pessoas prometem lealdade aos sócios de sua empresa e depois tramam contra eles para alcançar vantagens ilícitas! Se nós não levamos a sério nossa palavra empenhada, Deus leva. Ele é a testemunha das alianças que firmamos e dos votos que fazemos.

GESTÃO E CARREIRA

VOCÊ NÃO ESTÁ TRABALHANDO MAIS, SÓ ESTÁ FAZENDO MAIS REUNIÕES

Um estudo de pesquisadores americanos e britânicos monitorou mais de 10 mil trabalhadores de uma empresa asiática de TI entre abril de 2019 e agosto de 2020 – e descobriu que a transição para o trabalho em casa foi acompanhada de um tombo de 20% na produtividade.

Não é que as pessoas estivessem aproveitando para tirar soneca durante o expediente. Na verdade, o total de horas trabalhadas aumentou 30% – de horas extras, 18%. Os pesquisadores monitoraram a forma como os funcionários da companhia (não identificada na pesquisa) usam seus computadores de trabalho.

Nas horas em que os profissionais se concentravam em realizar suas tarefas, quase não houve mudança entre o escritório e o home office, com uma diferença: em casa, essas horas eram mais frequentemente interrompidas por ligações, mensagens de trabalho e, principalmente, reuniões improdutivas. Aí os funcionários precisavam trabalhar mais horas em busca do tempo perdido. Só que os pesquisadores também descobriram que os encontros que tradicionalmente ajudariam a elevar produtividade diminuíram quando os funcionários passaram a trabalhar de casa. Eles tiveram menos reuniões de mentoria e conversas individuais com o chefe. Aí já não dá mais para colocar a culpa só naquelas videochamadas intermináveis.

EU ACHO …

FESTA DE UM

No período de 18 meses, as portas do mundo fecharam, ninguém entrou, ninguém saiu. De fronteiras a residências, isolamento foi a palavra adotada. Quem ainda circulava pelas ruas, não fazia por diversão: atendia doentes, comprava mantimentos , ia à farmácia e voltava direto pra casa, sem a habitual passadinha no bar ou na academia no final da tarde. Diante das estatísticas trágicas, e por respeito a tantas perdas, pouco se falou na solidão como efeito colateral da pandemia.

E efeito sério, solidão deprime. Não a todos – há quem lide muito bem com a própria companhia – mas o ser humano é gregário, sente falta de se juntar, misturar, confraternizar, coisas que só agora, vacinados e aos poucos, tomando os cuidados necessários, começamos a nos atrever. Mas demorou. Antes dessa lenta alforria, foi um tal de dialogar com o espelho do banheiro, passar um tempão no sofá maratonando séries, bater papo com os amigos por WhatsApp, pedir comida por delivery e engordar. Pois é, não bastasse a deprê, solidão engorda. Muita gente ganhou uns quilinhos extras durante o recuo forçado.

Mas a gente se entrega? Se entrega nada. Crises estão aí para serem revertidas, compensadas. Se você não reparou, eu reparei: durante o confinamento, o pessoal começou a dançar entre quatro paredes. Quem estava namorando ou estava casado quando o coronavírus chegou para estragar a festa (e manteve-se heroicamente casado, apesar do excesso de grude), passou a fazer bailinho na sala, pagode na cozinha, ensaiou um tango ao corredor. Uma pequena caixa de som, uma boa playlist ao Spotify e quem diria? Bebida por conta da casa.

Já quem foi surpreendido pela pandemia em plena entressafra amorosa, sem um par perfeito ou imperfeito, se virou como? Do mesmo jeito. Fez festa de um. Suou a camiseta como se estivesse na pista, cantou alto sem medo de acordar a vizinhança, levantou os braços como se não houvesse amanhã – e ninguém sabia se haveria mesmo. Quem não soltou suas feras, nem caiu na gandaia, ficou mais triste e pesado.

Nunca precisei de uma ameaça global pra dançar em casa, mas agora peguei gosto pra valer e enquanto não fraturar uma vértebra, continuarei com minha rave individual ou a dois (ambas as modalidades disponíveis por aqui), embalada por “Fade ou lines” (The Avener), Ring my bell” ( Anita Ward), “Don’t think”, “Icould forgive you” (Tell me Lies), “The only thing” (Claptone), “Save your tears”(The Weeknd), “Sunshine” (Cat Dealers, L Othief, Santti), “Again & Again” (Oliver Tree) e outras músicas da minha playlist específica para noites incontidas. As sugestões são brinde da colunista. De nada

Se não é meio ridículo dançar sozinho? Pode acreditar, é maravilhosamente ridículo.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

ESTAR BEM

A CIÊNCIA DIZ: NÃO TENHA MEDO DE DESACELERAR

Estudos mostram que reduzir o excesso de trabalho pode não só ser bom para a sua saúde, como ajudar a estabelecer prioridades que trarão melhores resultados no dia a dia. Veja dicas para mudar seu comportamento

Você ouviu as estatísticas sobre o excesso de trabalho e como ele é um risco para a saúde. Você leu os artigos sobre produtividade e livros indicando que encher sua semana com mais horas na labuta não melhora seus resultados. E, embora a ideia de desacelerar seja atraente e esteja apoiada por dados, fazer isso é bem diferente.

Existem muitas razões pelas quais nós trabalhamos mais e mais horas apesar das evidencias crescentes de que isso não só é ineficaz, como também está encurtando as nossas vidas. Há uma pressão para parecer um trabalhador esforçado, que está disponível o tempo todo.

É difícil mudar uma crença. Mas só porque é desconfortável mudar hábitos de trabalho não quer dizer que seja impossível. Aqui estão algumas sugestões.

PERCEBA A HISTÓRIA QUE VOCÊ ESTÁ CONTANDO A SI MESMA SOBRE TRABALHO

São 18 h. Você prometeu que estaria em casa para o jantar, mas tem uns últimos e-mails para enviar. Nessas horas, observe a história que está se contando sobre porque o trabalho é mais importante.

Tire cinco minutos para escrever a história, e então vá além. Se achar que se não enviar os e-mails ficará para trás no dia seguinte, pergunte a si mesmo: e daí? Talvez a resposta seja: você sentirá pressa para terminar a proposta até o fim de semana. Pergunte de novo: e daí? Continue cavando até chegar ao ponto central. Muitas vezes será algo como: “Vou perder meu emprego e depois perder tudo”.

Quando você chegar ai, pergunte-se: isso é verdade? Na maioria das situações, não. Nossos pensamentos e sentimentos influenciam nosso comportamento, e nossas histórias internas estão atreladas a essa formatação. Ao barrar o automatismo, você toma a mudança mais provável.

COMPARTILHE SEU OBJETIVO DE DESACELERAR COM ALGUÉM QUE VOCÊ RESPEITA

De acordo com uma pesquisa da Associação Americana de Psicologia, quando você compartilha seu objetivo com alguém que você admira ou respeita, isso torna vocêresponsável por de fato fazê-lo porque você se importa com a opinião daquela. Quando se trata de tirar um pouco o pé do acelerador, provavelmente uma das razões da sua dificuldade é que você quer que os “superiores” o vejam como um trabalhador dedicado e esforçado. A pessoa com quem você compartilha seu objetivo não precisa ser da sua empresa. Pode ser um mentor, um amigo ou um parente que você ache que sabe equilibrar o trabalho com o resto da vida. Eles podem ter dicas úteis.

ENTREGUE-SE AO QUE MAIS IMPORTA

Tendemos a sermuito ”8 ou 80′; contando a nós mesmos a história errada de que fazer menos em uma área significa fazer menos (ou nada) em todas as outras. É assim que nos convencemos de que não está tudo bem. Essa conta simplesmente não fecha.

Em vez disso, faça uma análise 80/20 e determine quais 20% das tarefas ou projetos fornecem 80% dos resultados no trabalho. Liste suas maiores vitórias profissionais em uma extremidade do papel e as tarefas que você realiza diariamente na outra. Trace uma linha de cada um dos êxitos até as tarefas que foram diretamente responsáveis por esse resultado. Circule as tarefas que possuem linha traçadas a partir delas. São os seus 20%.

Depois de analisar isso, você pode dedicar o máximo de tempo e energia às coisas que importam, e observar outras áreas em que pode desacelerar, delegar ou eliminar coisas completamente.

AVANCE PARA O FUTURO

“Os cinco principais arrependimentos de quem está morrendo”, livro de Bronnie Ware, nos lembra como é comum pessoas desejarem que não tivessem trabalhado tanto quando estão no leito de morte. Quando estamos presos à rotina, é fácil ficar achando que tudo aquilo é crucial para nossas vidas. Em vez disso, considere perguntar ao seu eu de 85 anos o que ele gostaria de ter feito nessa hora.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TESTES AJUDAM A ESCOLHER REMÉDIO PARA DEPRESSÃO

Exames genéticos de laboratórios mapeiam riscos de efeitos adversos e auxiliam também no tratamento contra ansiedade

Um dos desafios do tratamento para ansiedade e depressão é fazer com que pacientes sigam tomando os remédios prescritos pelos médicos mesmo após episódios de efeitos adversos ou quando o paciente não percebe melhora do quadro. Com oferta crescente no Brasil, os testes farmacogenéticos se apresentam como uma opção para dar precisão e evitar que medicamentos sejam recomendados por meio de tentativa e erro. Diante da pandemia, do isolamento social e da alta do desemprego, profissionais de saúde têm sido cada vez mais procurados para tratar de sintomas, diagnósticos e tratamentos contra essas doenças.

Realizados com saliva ou sangue, os testes analisam o DNA dos pacientes e permitem identificar alterações que podem impactar na resposta dos medicamentos e nos efeitos colaterais – alguns fazem até o cruzamento para verificar se interações medicamentosas e hábito de vida, por exemplo, podem interferir no sucesso do tratamento.

“Esse exame envolve uma estratégia chamada Medicina de precisão, que avalia características das pessoas, das doenças e do DNA, e adapta o tratamento de acordo com a necessidade. Além de melhorar as respostas, os testes objetivam economizar dinheiro, porque, toda vez que ajusta o medicamento, o preço do tratamento aumenta”, explica Leandro Brust, líder de farmacologia da GeneOne, empresa de genômica da Dasa. O exame da GeneOne chegou ao mercado no começo do ano passado, o que coincidiu com o início da crise da covid-19.

Ele diz que o conceito da Medicina de precisão já é uma tendência em países como os Estados Unidos, Espanha, Holanda, Taiwan e Turquia e que os testes farmacogenéticos estão em crescimento, principalmente com o aumento de casos de depressão e ansiedade.

“A maioria dos medicamentos psiquiátricos acaba passando por determinadas enzimas, em 70% dos pacientes elas passam. Sabemos que, de cada dez pessoas, nove tem alguma alteração nos genes que, se fosse conhecida, poderia ter melhorado a resposta terapêutica e evitado o efeito colateral”, diz. O exame analisa ainda outros fatores que podem impactar o tratamento. “A genética determina uma parte disso, a outra parte a interação entre os medicamentos. A gente consegue avaliar as interações, porque um paciente com depressão pode ter pressão alta ou diabete.  O exame vai observar hábitos também. Se a pessoa toma café, bebe álcool. A gente pode simular situações novas, como infecção por Covid”, afirma. “O médico pega o exame, faz um login com uma chave personalizada, entra em uma plataforma com base científica mundial e vai fazer a simulação antes de  receitar.”

Entre julho e agosto desde ano, houve crescimento de 456% nos testes realizados pela GeneOne em relação ao mesmo período do ano passado, quando o exame estava nos primeiros meses no mercado. Por enquanto, os  testes com foco na área de psiquiatria ainda são particulares e os valores variam entre R$ 1.485 e  R$ 1.990.

Wagner Baratela, chefe da genômica do Grupo Fleury, diz que o teste é uma ferramenta para ajudar os médicos e que a análise individual de variantes do DNA associadas ao metabolismo de medicações permite que o psiquiatra defina qual será o melhor tratamento. “O metabolismo lento faz com que leve mais tempo para a medicação ser retirada do organismo. Assim, tem o efeito de exacerbação dos sintomas em sistemas lentos. Se o metabolismo for acelerado, o efeito do tratamento acaba não sendo tão bom.” Mas ele diz que o exame não exclui a necessidade de diagnóstico e acompanhamento por parte do psiquiatra.

Fundador da Gntech, o médico psiquiatra Guido May conta que a empresa oferece os testes farmacogenéticos desde 2017 e que eles já estão na quinta geração. Em junho deste ano, foi lançada uma versão mais compacta, que faz a análise de seis genes – a versão completa, mapeia 32 por R$1.485.

“O método de tentativa e erro dá 50% de falha. Depressão e ansiedade já são a maior causa de falta ao trabalho no Brasil e no mundo. Cada tentativa de tratamento que falha, a depressão vai se tornando mais grave e crônica. Um grande porcentual, que pode chegar a  70%, abandona o tratamento por efeitos colaterais ou ineficácia da medicação. Já temos  estudos que demonstram que, comparado com pacientes com tentativa e erro, as pessoas que fazem o teste tem resultados mais eficazes, menos gastos e menor número de internações”, afirma May, que atua no Hospital Israelita Albert Einstein.

Segundo a psiquiatra Lívia BeraIdo, a adesão ao tratamento já é impactada pelo estigma e o preconceito com as medicações, algo agravado pelo intervalo entre o início do tratamento e a sensação de que ele está fazendo efeito. “Essas medicações, como os antidepressivos e remédios para ansiedade, demoram cerca de dez dias para começar a fazer efeito. Essa demora pode ser mais um fator para distanciar o paciente do tratamento. Isso (exame) dá mais esperança ao paciente”, afirma.

OUTROS OLHARES

ATAQUE À POBREZA MENSTRUAL

Discussão sobre questão cresce e leva governos nacionais e locais em vários países a agirem

Em novembro de 2020, a Escócia tornou-se o primeiro país a aprovar uma lei tornando obrigatória a distribuição gratuita de absorventes femininos e outros produtos de higiene menstrual em instalações públicas, incluindo escolas e universidades. Segundo instituições internacionais e ONGs que se dedicam à questão, ao menos 500 milhões de mulheres e meninas em todo o mundo não têm acesso a itens de higiene adequados para usarem durante a menstruação, a maior parte delas em países de baixa e média renda. Mas a pobreza menstrual – que engloba ainda a falta de conhecimento sobre a própria menstruação – não atinge apenas as nações mais pobres. Em resposta a uma crescente conscientização sobre esse problema global, governos nacionais e locais vêm aos poucos adotando medidas para enfrentá-lo.

Os estigmas e tabus sobre a menstruação, a crise agravada pela pandemia, além do crescimento da desigualdade em países ricos, tornaram o problema multo mais comum do que se pensa: nos EUA uma pesquisa de 2020 estimou que 16,9 milhões de mulheres viveram os efeitos da pobreza menstrual na pandemia; no Reino Unido, 30% britânicas com idade entre 14 e 21 anos tiveram dificuldade para comprar produtos de higiene menstrual no ano passado.

A discussão, que nos últimos anos vem crescendo em todo o mundo, só aportou no Brasil de maneira mais ampla na semana passada, quando o presidente Jair Bolsonaro vetou um projeto de lei para distribuição gratuita de absorventes a estudantes de baixa renda de escolas públicas, presidiárias e mulheres em situação de rua ou de vulnerabilidade extrema. Para analistas, porém, o foco está muito no controle da menstruação e menos em combater estigmas e tabus.

EXEMPLO SE ESPALHA

Até hoje, apenas dois países aprovaram leis nacionais que tornam obrigatória a distribuição gratuita de absorventes: a Escócia, de maneira ampla, e o Quênia, que em 2017 determinou que todas as meninas recebessem produtos higiênicos gratuitamente enquanto estivessem matriculadas em uma escola.

No país, um dos mais afetados no mundo pela pobreza menstrual, aproximadamente 50% das meninas e jovens em idade escolar não tinham, até então, acesso a produtos menstruais. Mas os avanços já começam a render frutos. Um relatório deste ano do Fundo de População da ONU mostrou que o governo queniano conseguiu resultados positivos em maior escala do que muitas ONGs. Além disso, políticas semelhantes já foram implantadas em diversos países em nível local, seguindo o exemplo queniano.

Na Escócia, 11 meses após a aprovação da nova lei, ainda não se sabe muito sobre seu impacto, explica Camilla Mork Rostvik, que faz parte da Rede de Pesquisa de Menstruação do Reino Unido, da Universidade de Saint Andrews.

“Não sabemos o que mudou. A Covid-19 alterou tanto a vida das pessoas na Escócia que isso terá que ser corrigido nos dados também”, explica Rostvik. “Mas, desde então, cidades e condados em outros países, como Índia, Canadá, Estados Unidos, Escandinávia e  Nova Zelândia já adotaram ou consideram adotar uma lei semelhante. A mudança será lenta, mas essas iniciativas respondem a parte do estigma menstrual em todo o mundo, embora outras questões como dor, tabus contra vazamento nas roupas e o próprio silenciamento das mulheres ainda não estejam muito sobre a mesa”.

TAXAÇÃO DE ABSORVENTES

Mesmo que o combate à pobreza menstrual ainda não seja lei na maioria dos países, nos últimos anos, várias nações eliminaram impostos sobre absorventes – Austrália, Índia, Canadá, Quênia e Reino Unido, que implantou a medida no início do ano, estão no grupo. Nos EUA, 23 estados já não taxam tais produtos.

“Na verdade, os países do Sul global adotaram políticas relacionadas à higiene e à saúde menstrual muito antes: Quênia, África do Sul, Índia, Nepal, Senegal, para citar apenas alguns. Nesses países, muitas das políticas têm como alvo meninas nas escolas, com  fornecimento de produtos de higiene e educação sobre higiene menstrual”, explica Inga Winkler, criadora e codiretora do Grupo de Trabalho sobre Saúde Menstrual e Justiça de Gênero da Universidade Columbia, em Nova York.

Para Winkler, no entanto, o foco está muito no controle da menstruação.

“A mensagem geral que recebemos é para manter nosso corpo bagunçado sob controle, para mantê-lo limpo, higiênico, evitar quaisquer sinais visíveis de menstruação. E é por isso que o estigma persiste: está coberto por finas camadas de celulose. Isso não mudará enquanto a menstruação for apresentada como um problema a ser consertado, administrado e escondido”, diz ela.  “E isso acontece na maior parte do mundo, senão em todo”.

Em muitos países, além do estigma em torno da menstruação, a falta de acesso a produtos de higiene tem impacto também na baixa escolaridade. Na África, talvez o continente mais afetado, uma em cada 10 meninas falta às aulas por não ter acesso a produtos adequados, porque não há banheiros seguros ou por tabu.

No Brasil, de acordo com um relatório da Unicef deste ano, que traçou um panorama da realidade menstrual no país, faltam a mais de quatro milhões de meninas itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas.

COMBATER O ESTIGMA

Para Vinkler, que também é professora de Legislação Internacional de Direitos Humanos na Universidade da Europa Central de Viena, na Áustria, é preciso reconhecer o poder do estigma menstrual e seus impactos em todas as esferas da vida, incluindo saúde, educação, trabalho e participação na vida pública.

“Combater o estigma menstrual significa criar condições nas quais seja impensável que alguém seja demitido porque seu sangue ‘sujou’ o carpete, como aconteceu com uma operadora de call center nos EUA. Onde os carcereiros não escondam produtos menstruais para humilhar e degradar mulheres presas. Onde o som de um absorvente em um banheiro público não cause ansiedade para uma pessoa trans. Onde as ideias de ninguém sejam descartadas porque são “TPM”. Espero que possamos usar o momento atual em torno da menstruação para transformá-la em um movimento duradouro de mudança .

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 16 DE NOVEMBRO

DEUS DIRIGE NOSSOS PASSOS

Os passos do homem são dirigidos pelo Senhor; como, pois, poderá o homem entender o seu caminho? (Provérbios 20.24).

O homem faz planos, mas Deus dirige seus passos. O homem planeja, mas Deus conduz sua ação. Não administramos o amanhã, não conhecemos o que está à frente nem enxergamos o que se esconde nas dobras do futuro. Não sabemos o que é melhor para nós nem sabemos orar como convém. Muitas vezes pedimos a Deus uma pedra pensando que estamos pedindo um pão; pedimos uma cobra pensando que estamos pedindo um peixe; pedimos um escorpião pensando que estamos pedindo um ovo. Somos míopes, fracos e limitados. Ficamos de pé escorados em nosso próprio bordão. Não podemos dar um passo sequer sem a ajuda divina. Deus conhece nossa estrutura e sabe que somos pó. Até fazemos planos e alimentamos sonhos, mas só Deus poderá dirigir nossos passos. Não discernimos nosso próprio caminho e nem mesmo auscultamos nosso próprio coração. Muitas vezes nos alegramos quando deveríamos chorar e choramos quando deveríamos celebrar. Jacó lamentou quando soube que o governador do Egito exigia a presença de Benjamim, seu filho caçula, na terra dos faraós, mas não sabia que aquele governador era José, seu próprio filho amado. Jacó pensou que aquele era o fim da linha quando, na verdade, era o começo de uma linda história!

GESTÃO E CARREIRA

MULHERES TENTAM QUEBRAR BARREIRA PARA CASAL LGBT

Profissionais querem ampliar licença de mães não gestantes, além da prevista para pais; caminho tem sido a Justiça

Ainda que diferentes configurações de família tenham se tornado mais comuns, persistem obstáculos para que casais formados por duas mulheres usufruam da licença-maternidade. Pela lei, a Constituição estabelece a licença-maternidade de 120 dias e a paternidade de 5 dias, com a opção de a empresa aderir ao programa Empresa Cidadã (180 dias para mães e 20 dias para pais).

As empresas que vão além no mercado criam os próprios beneficies, que podem ser licenças maiores ou a licença parental, para mães e pais. Para casais homossexuais, o imbróglio aparece neste ponto: em um casal formado por duas mulheres, há dificuldade de a mãe não gestante aderir à licença e, se consegue, é enquadrada dentro da licença dada a pais.

“Não há regulamentação específica para lésbicas e gays, por isso a gente vem discutindo a necessidade de reconhecimento de dupla maternidade e dupla paternidade”, diz a advogada especialista em direito homoafetivo Luanda Pires. Segundo ela, essa licença tem sido decidida na Justiça.

No Congresso, existem ao menos 13 projetos de lei ou propostas de emenda à Constituição que abordam a licença parental. Um deles, o PL 1974/21, deste ano, prevê a concessão de licença parental remunerada de 180 dias para cada pessoa de referência da criança ou do adolescente, limitada ao máximo de duas pessoas.

Mesmo sem legislação, algumas empresas encaram a licença parental, como um benefício para reter os melhores talentos, mas há diferenças entre os períodos e a quem eles se destinam. No LinkedIn, a licença estendida remunerada dura seis semanas para todos os funcionários e 20 semanas para as gestantes. Quando trabalhava na empresa, em 2020, a administradora Laura Melaragno e sua mulher,  Teresa Sanches, decidiram ter um filho. Como quem engravidou foi Teresa, Laura procurou a empresa para entender se poderia tirar a licença estendida. “O que eu falei foi que eu ia ser mãe, ia amamentar, como eu não podia ter direito a uma licença maternidade?”, diz. Após quase um mês de conversas, Laura entendeu que teria direito à licença estendida de apenas seis semanas. “A resposta que tive é que, para o Brasil um bebê precisada estar ligado ao CPF da mãe gestante para ter todo o afastamento.” Ela também foi informada de que poderia recorrer juridicamente, mas ela não teve interesse porque a empresa possui um benefício raro – o de fertilização, em que reembolsa o funcionário em até R$ 22 mil por procedimento (com o teto de três), do qual ela usufruiu. “A minha experiência foi incrível, porque a única questão era que, no site interno, o nome estava como ‘licença paternidade’ e eles logo adaptaram para ‘parental’. Mas, no geral, acho que há uma necessidade de as empresas se atualizarem sobre novas estruturas familiares. “O LinkedIn confirmou as informações e informou que oferece a licença parental ampliada desde 2018.

EU ACHO …

DANE-SE A COR?

Dias atrás fui marcada em uma postagem que mostrava a foto de um influenciador branco cercado de pessoas brancas dizendo: “Dane-se (aqui usada substituindo o palavrão) a cor da pele. Não seja estupid@! Não contratamos pessoas baseado nisso e sim em performance e resultados (…)”.

A pergunta que fica é: se para ele pouco importa a cor da pele, porque a foto é composta somente por pessoas brancas? Este retrato ainda é o de muitas empresas. Mesmo daquelas que colocaram quadradinho preto no feed e disseram mostrar solidariedade à morte de George Floyd e se comprometeram a se engajar na pauta, mas ainda não deram grandes passos, um ano após o episódio. Hipocrisia? Inércia? Ou mudanças graduais em curso que só veremos a longo prazo? Talvez os três?

Transitando pelo mundo corporativo e fora dele, vejo que esse tipo de discurso “dane-se a cor” ainda encontra muita ressonância. Mas já entendemos que, na prática, significa que as oportunidades no Brasil são destinadas principalmente às pessoas brancas. “Dane-se a cor” significa que apenas brancos são contratados, especialmente para cargos de liderança.

E por trás dessa fala há outras tantas como: “negros e indígenas não têm o perfil da vaga; queremos pessoas de ‘boa aparência’ (ou seja brancas)”; “não tem profissionais negros ou indígenas no mercado”. Ou ainda: “não podemos baixar a régua para contratar profissionais negros ou indígenas”, pressupondo que não performam o suficiente. Essa é a base do racismo estrutural nosso de cada dia.

Somos continuidade de uma História que acorrentou, desumanizou e matou milhões de pessoas negras e indígenas, e as impediu, assim como seus descendentes, de largarem do mesmo ponto de partida na corrida por oportunidades.

Por que muita gente ainda nega ou negligencia o filme da História que só se repete no presente? O filme se repete porque rejeitamos olhar para ele de modo intencional, querendo provocar efetivamente uma mudança. Mudança que tem vindo com oportunidades também graças às cotas e outras ações afirmativas, em que muitos conseguem romper ciclos de exclusão com acesso a universidades e empregos.

Ao romper com o discurso do “dane-se a cor” e ver a cor da pele daqueles que são excluídos das oportunidades são criadas ações direcionadas para esses grupos visando incluí-los de alguma forma na sociedade.

Para quem diz “dane-se a cor”, ações como essas não passam de um mero “mimimi”. Chamar de “mimimi” questões estruturais como a do racismo acrescenta séculos de atraso à nossa possibilidade de encerrar esse assunto.

”Dane-se a cor” seria lindo se fosse verdade, na prática. Mas é o tão sonhado mundo ideal, que devemos perseguir como um objetivo. Afinal, a cor da pele jamais deveria ser um critério de seleção, mas sabemos que a realidade ainda é assim. Dizem “dane-se a cor, mas sabemos direitinho a cor das pessoas que, quando andam ao seu lado na calçada, fazem você mudar de direção ou, no trânsito, subir o vidro do carro, certo? Sabemos a cor das pessoas que chegam, que saem na foto e dos cargos operacionais. Sabemos a cor do subemprego e do desemprego. Sabemos bem que sete a cada dez vítimas de homicídios são negras. Sabemos que as estatísticas têm cor. Sem igualdade de oportunidades, não há paz nem prosperidade plena.

Quem sabe quando pararmos de dizer “dane-se” e negligenciarmos os problemas, conseguiremos seguir em frente?

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

ESTAR BEM

OS SETE HÁBITOS QUE ACELERAM O ENVELHECIMENTO DA PELE

Eles vão muito além da falta do protetor solar. Tomar banho quente e exagerar no consumo de açúcar, por exemplo

O maior órgão humano é também o maior espelho da idade. A pele responde por cerca de 15% do peso corporal e começa a dar sinais de envelhecimento por volta dos 25 anos. As primeiras marcas, com linhas finas, despontam ao redor dos olhos. Com o tempo, surgem rugas e flacidez. A boa notícia é que beleza e integridade da pele não dependem só da genética: é possível intervir no processo.

“Tem uma parte do desgaste que é cronológica e outra associada fortemente aos hábitos. Todo mundo, independentemente do tipo de pele, pode envelhecer mais rápido e de maneira pior se não se cuidar”, explica Egon Daxbacher, da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

E, se há pouco tempo acreditava-se que o uso de filtro solar era suficiente para proteger, hoje a ciência mostra que não é bem assim. Apesar de o protetor ser indispensável, existem práticas que deveriam ser evitadas.

Alterar alguns costumes causa efeito nas duas camadas principais da pele, a epiderme (mais externa) e a derme. A primeira é a que mais se expõe a lesões. A segunda é a que contém as fibras, como o colágeno e a elastina, que dão elasticidade a resistência.

Veja as sete atitudes mais nocivas.

1 – NÃO CONHECER O TIPO DE PELE

Nem toda substância deve ser aplicada em qualquer tipo de pele, e isso serve para questões de saúde.

Um produto para a pele oleosa, por exemplo, aplicado numa pele seca pode ressecar ainda mais a superfície e levar à descamação. O mesmo vale para a higiene: a depender do tipo, o processo feito em excesso remove camadas de proteção, levando ao ressecamento – e, consequentemente, ao aparecimento precoce das marcas. Ou, em outros casos, quando a pele é lavada mais de duas vezes ao dia, as glândulas sebáceas são estimuladas a produzir mais óleo. Procure um profissional para ter orientação.

2 – A FALTA DE SONO

A expressão “o sono da beleza” não é em vão. É durante uma noite de descanso que o corpo exerce funções como o fortalecimento do sistema imunológico e combate ao envelhecimento das células. E quando dormimos, a pele produz mais colágeno, o que retarda a formação de linhas de expressão e rugas.

A privação do sono por sua vez, faz o corpo estimular a produção do hormônio do estresse, conhecido pelo nome de cortisol, que eleva o nível de inflamação. Doses altas de cortisol levam ao forte desejo por carboidratos, que danificam a saúde da pele, quebrando as reservas de colágeno.

Em média, adultos devem dormir por 7 a 8 horas. Não só. O sono reparador é aquele que nos faz acordar descansados e com energia.

3 – RESTOS DE MAQUIAGEM

Usar muita maquiagem todos os dias não faz mal. O que prejudica é não removê-la corretamente antes de se deitar. Hábito que tem de ser repetido diariamente. Os resíduos das substâncias impedem a pele de absorver os nutrientes necessários, irritam e ressecam a camada superficial, a epiderme.

Os especialistas ressaltam que o ideal é a limpeza ser feita com um produto específico (demaquilantes) e não com receitas caseiras. Além disso, os pincéis com produtos cremosos, como bases, devem ser limpos pelo menos uma vez por semana para não acumularem gorduras, fungos e bactérias e evitar acne e dermatite (inflamação). A limpeza deles pode ser feita com xampu infantil.

4 – CONSUMO D AÇÚCAR E ÁLCOOL

Novos estudos alertam para a relação direta entre a alimentação e o envelhecimento precoce. Isso porque, assim como todo órgão, a pele precisa de nutrientes específicos e pode ser prejudicada pelo excesso de substâncias ruins.

Um dos maiores vilões é o açúcar, que acelera a perda do colágeno, a proteína responsável pela firmeza e elasticidade da pele. Assim, a ingestão em excesso pode não apenas acarretar o aparecimento de rugas e o aumento da flacidez, como afetar a capacidade de produção do órgão.

Deve-se evitar também o consumo exagerado de bebidas alcoólicas. O álcool tem efeito inflamatório, o que rapidamente é percebido na pele: vermelhidão, fissuras e inchaço. Além disso, ele torna a reidratação mais difícil, deixando a pele seca e escamosa.

5 – BANHOS QUENTES

Tomar banho com a água excessivamente quente é um hábito que prejudica todos os tipos de pele, da mais seca à mais oleosa. E quanto mais quente ela for, pior. O dermatologista Egon Daxbacher ressalta que, quando o paciente é sensível ao calor e tem doenças que afetam a pele, como rosácea ou dermatite atópica, o dano pode ser ainda maior. A água fria também ajuda a diminuir os dois problemas.

Baixas temperaturas ativam a circulação sanguínea, o que dá viço à pele. Não é preciso tomar banho gelado. Água morna consegue remover a oleosidade da pele sem excesso e  limpá-la sem agredir a barreira cutânea.

6 – CIGARRO

O tabagismo não poderia ficar fora desta lista: é o pior hábito de todos.

“O cigarro, se ficarmos restritos à relação com o envelhecimento, aumenta a quebra do colágeno levando à formação extremamente precoce de rugas e flacidez”, explica Maria Cláudia Tírico, dermatologista pelo Hospital das Clínicas, de SP.

Ele provoca o chamado “dano oxidativo”, quando há produção de radicais livres, inibindo a produção de colágeno. E o movimento repetitivo feito pela boca ao sugá-lo também estimula a formação de linhas de expressão ao redor.

Assim, a pele dos fumantes, geralmente, envelhece 2,57 vezes mais que a de não fumantes.

7 – NÃO HIDRATAR

Se tiver de escolher um só produto de beleza que seja o hidratante.

“O ressecamento deflagra os sinais do envelhecimento precocemente”,  diz a dermatologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro Ana Paula Fucci. A hidratação reduz a perda natural de colágeno e atenua os danos da poluição. Os produtos enriquecidos com vitaminas C e E, têm efeito maior.

O hábito é para todo tipo de pele, incluindo as mais oleosas. Quando a pele está muito seca, o corpo pode produzir mais gordura para repor a hidratação natural deixando a pele ainda mais oleosa. A diferença estará no tipo de produto usado. Alguns hidratantes contêm princípios ativos que controlam a produção de sebo, como o ácido glicólico.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DISPOSIÇÃO DE PRODUTOS NO MERCADO INFLUI NA DIETA

Estudo mostrou que, em lojas que passaram a dar mais destaque para frutas e legumes, foram vendidas 6 mil unidades a mais de hortaliças por semana, três meses após as mudanças. Por outro lado, houve redução de até 1,4 mil doces

Os supermercados são o principal canal que a população mundial usa para comprar alimentos, segundo dados da Kantar, uma consultoria internacional. Porém, mais da metade das decisões do consumidor nessas lojas não são planejadas, de acordo com um estudo divulgado pela BioMed Central (BMC), por isso a colocação de produtos nesse estabelecimento tem um papel preponderante.

Conhecer a motivação do clientes no momento da compra e saber se a forma de disposição desses produtos influencia ou não a sua aquisição tem sido o principal objetivo de um estudo piloto feito pela Universidade de Southampton, no Reino Unido, e publicado esta semana na revista PLoS Medicine.

Nesta pesquisa, foi comparada a compra de determinado produto em várias lojas da mesma rede após alteração do design de metade delas. O resultado obtido é que, ao dispor frutas e hortaliças em um local de maior destaque, suas vendas aumentaram e, portanto, a alimentação dos participantes melhorou.

Esta pesquisa foi realizada em seis lojas de uma rede de supermercados localizada em uma área de menor poder aquisitivo na Inglaterra. Três desses estabelecimentos mantiveram-se iguais, e os demais sofreram alteração na localização dos produtos. Essas modificações consistiram em retirar doces e alimentos não saudáveis das caixas registradoras e substituí-los por produto não alimentícios, como pasta de dente. Além disso, colocaram frutas e vegetais em um local de maior destaque, na entrada da loja.

A amostra escolhida foi de 150 mulheres entre 18 e 45 anos que possuíam cartão de fidelidade da rede de lojas. Christina Vogel doutora em Saúde Pública da Universidade de Southampton e uma das autoras do estudo, explica que focaram nesse público-alvo porque sua alimentação além de ser importante para sua saúde, e importante também para a de seus filhos:

“A alimentação das mulheres jovens durante a gravidez pode ter um impacto sobre seus filhos. Além disso, as mulheres no Reino Unido, e tenho certeza de que é semelhante em outros países, ainda são as principais tomadoras de decisões sobre a alimentação em casa”.

MAIS FRUTAS, MENOS DOCES

Para chegar nos resultados esses pesquisadores compararam as vendas de doces, frutas e verduras em lojas cujo design se manteve o mesmo com as mesmas vendas daquelas que passaram por mudanças.

Além disso, levaram em consideração períodos diferentes: três meses antes, e três e seis meses após a intervenção.

Nos supermercados cujo design foi alterado, foram vendidas 6 mil unidades a mais de frutas e vegetais por semana em cada loja, três meses após as mudanças. Passados seis meses, esse número saltou para 10 mil unidade de frutas e vegetais a mais. Quanto aos doces, nessas mesmas lojas, houve uma redução de 1.400 e 1.600 porções aproximadamente no trimestre seguinte e no semestre seguinte, respectivamente.

Não é a primeira vez que se estuda o impacto dessas técnicas utilizadas por supermercados em clientes de áreas com poucos recursos econômicos. Em 2016, a revista Public Health Nutrition publicou outro estudo que já refletia resultados positivos em relação ao aumento das vendas de frutas e verduras em diversos supermercados, após dar-lhes maior visibilidade. Na ocasião, a investigação incidiu sobre as pessoas que possuíam vouchers governamentais para a compra desses produtos e outros alimentos.

Essa opção de melhorar a compra dos consumidores por meio da mudança do design dos supermercados é uma possibilidade sustentada pelos próprios clientes. Dos entrevistados neste estudo recente, 72% acreditam que esta iniciativa é a melhor para promover escolhas alimentares saudáveis.

Beatriz Robles, tecnóloga em alimentos, acha que essa medida é “relativamente simples de fazer”, já que, geralmente, são produtos que nem precisam de câmara fria. Mas ela insiste que isso requer um compromisso “importante” das grandes cadeias de distribuição. Miguel Angel Luruefia, doutor em Ciência e Tecnologia de Alimentos, lembra que não se pode esquecer que, no fim, o que as empresas procuram é “vender”, por isso colocam determinados produtos em locais de fácil acesso. Além disso, ele destaca que a questão é sobre quais produtos exigimos como sociedade:

“Se demandássemos maçãs, eles colocariam as maçãs nos caixas para que as comprássemos impulsivamente, mas o que demandamos são outras coisas, e essas são as escolhidas (para ter destaque).

Com o passar do tempo e dos estudo, cada vez mais consumidores estão cientes de como a disposição dos produtos na loja ou a rotulagem, por exemplo, influenciam suas decisões de compra. Um quarto das mulheres afirmam que engordam por causa das ofertas de alimentos e bebidas não saudáveis no supermercado, de acordo com o relatório “Health on the Shelf”, da instituição de caridade britânica Royal Society for Public Health.

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AINDA É CEDO DEMAIS

Brasil teve aumento de quase 50% de idosos em universidades

Elisabete Logatto finalmente pôde, aos 62 anos, concretizar o projeto de vida que traçou lá na juventude: fazer faculdade. A jovem senhora, divorciada e já com os três filhos criados, se dedica inteiramente às aulas de História. No 5º período da Universidade Estácio de Sá, em Madureira, na Zona Norte do Rio, ela divide com colegas mais jovens os desafios do ensino superior, mas com a experiencia e o tempo a seu favor:

“Meus colegas trabalham e eu tenho todo o tempo. Então faço os trabalhos de grupo e coloco o nome deles. O que me custa?”, diz Elisabete, com a tranquilidade de quem domina o campus e, ao mesmo tempo, realiza um sonho.

27 MIL NAS SALAS DE AULA

Um sonho já ao alcance de milhares. Hoje, 27 mil idosos fazem cursos universitários no Brasil, segundo dados do Censo de Educação Superior de 2019, o mais recente disponibilizado pelo Ministério da Educação. Mesmo sem estatísticas atuais, a expectativa é de que o fenômeno tenha nascido com a pandemia. De 2015 a 2019, o total de idosos em universidades cresceu 48%. No mesmo período, a alta de ingresso de alunos com menos de 59 anos foi de apenas 7%. No ensino à distância, também houve um salto.

O jornalista Boris Casoy é mais um que decidiu ocupar suas tardes com uma nova formação: medicina veterinária.

“O semestre começou há um mês e estou achando mais difícil do que imaginava, estou penando em alguma matérias! Já fiz o secundário (atual ensino médio) há muitos anos e estou tendo dificuldade em química, por exemplo, na parte celular”, conta Casoy, que concilia os estudos com um programa jornalístico diário em seu canal de YouTube.

Ao contrário de jovens, muitos adultos com mais de 60 anos não buscam sucesso profissional, porque alguns já se realizaram em outras carreiras. Consagrado como âncora na TV, Boris, por exemplo, não pensa em abrir uma clínica veterinária depois da formatura. Ele faz piada sobre o futuro.

“Mentalmente estou louco como sempre”, ri. “Fisicamente, hoje estou bem. Mas não sei como estarei daqui a cinco anos. Falo para o veterinário dos meus vira-latas que vou ser assistente dele. Não queria ser o idoso que bota o chinelo”.

Formados, esses estudantes mais velhos focam no que é prioritário, o que muitas vezes, não é ter dinheiro, de acordo com a antropóloga Mirian Goldenberg, que acompanha essa nova geração de idosos:

“Essas pessoas, quando envelhecem, começam a estudar pensando nesse propósito, nesse projeto. Algo que estava sublimado porque precisavam ganhar a vida e reaparece quando se aposentam”.

PAI E FILHA NA FACULDADE

Em Feira de Santana, na Bahia, Décio Almeida Silva, de 66 anos, brinca que começou a faculdade antes de a filha nascer e vai se formar depois dela. Não porque foi devagar. Mas porque foi fazer letras em 1996 e não conseguiu terminar diante de outras exigências da vida adulta. O estalo para voltar aos estudos aconteceu quando o oficial de Justiça errou a grafia de uma palavra simples. Perseverante, voltou à Universidade Estadual de Feira de Santana para conseguir o diploma em Português-Francês. Incentivado por uma amiga, que lhe sugeriu o curso e, apaixonado pela língua francesa, o que só cresceu após uma viagem a Paris, antes da pandemia, ele está reunindo as duas paixões com a escolha feita.

“Minha filha, que nasceu em 1999, está agora terminando Psicologia. Eu tenho algumas disciplinas para completar”, conta, orgulhoso de si.  – “errar a grafia de palavras simples nunca mais” – e da jovem.

Estudos apontam que a educação para idosos, propiciada pelas universidades e fora dela, contribui para a manutenção de altos índices de satisfação com a vida e de sentimentos positivos.

“Idosos que estudam relatam uma mudança na imagem social. Eles se valorizam mais”,  avalia Meire Cachioni, coordenadora do programa USP60+, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades.

De acordo com ela, além de ocuparem as vagas formais no ensino superior, os idosos também contam com cursos de extensão voltados para eles nas universidades. Segundo ela, existem mais de 200 programas desse tipo em todo o país.

“Sabemos que na velhice o investimento para o processo de aprendizagem precisa ser diário e intenso. Nessa idade, existe uma mudança cognitiva em relação ao processamento da informação, A pessoa precisa, de fato, ver e rever sempre os conteúdos e ler muito”, explica.

Na casa de Moacir Candido da Silva, de 61 anos, já se fala em festa no fim do ano. Pastor evangélico, ele está se formando em teologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, depois de quatro anos de muito esforço. Nos dois primeiros anos de curso, ele saía direto do trabalho para as aulas e só chegava em casa depois da meia-noite.

“No começo foi difícil, mas depois peguei o ritmo”, diz ele, já de olho num mestrado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 15 DE NOVEMBRO

DEUS NÃO TOLERA DESONESTIDADE

Dois pesos são coisa abominável ao Senhor, e balança enganosa não é boa (Provérbios 20.23).

A desonestidade está presente em todos os setores da sociedade. Desde o palácio ao mais simples casebre e das altas cortes do governo até os templos religiosos, a desonestidade mostra a sua carranca. É o prato do dia no comércio. Dois símbolos do comércio revelam essa falta de honestidade: pesos e medidas. O Senhor detesta pesos adulterados e abomina balanças falsificadas. Não tolera a desonestidade nas transações comerciais. Mesmo que essas tramoias sejam feitas atrás das cortinas, que licitações sejam compradas com gordas propinas e jamais terminem denunciadas pela imprensa, que empresas inescrupulosas, por informações privilegiadas, se abasteçam de riquezas da nação e jamais sejam apanhadas pelo braço da lei, ainda assim Deus não deixará impunes aqueles que usam o expediente da desonestidade para auferir vantagens financeiras. O dinheiro conquistado com roubo é maldito. A riqueza adquirida de forma desonesta é combustível para a destruição daquele que a acumula. A falta de integridade nos negócios pode compensar por um tempo, mas ao fim será um pesadelo. Afligirá a alma, perturbará o coração e levará à morte. É melhor ser um pobre íntegro do que um rico desonesto!

GESTÃO E CARREIRA

POR DENTRO DAS PROFISSÕES – PILOTO DE AVIÃO

É a carreira dos sonhos para muita gente, mas chegar ao topo da profissão requer um bom investimento e disposição para mudar de ares.

Suiam Maritê nasceu em Nova Araçá, uma cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul com menos de 5 mil habitantes. Seu primeiro contato com a aviação aconteceu ainda na infância, quando a passagem de uma aeronave no céu da cidade se tornava uma atração para a menina, que corria animada para a rua com seu irmão mais novo para observar o voo.

No ensino médio, ela descobriu a profissão ao ler um anúncio sobre as faculdades da região, que incluía o curso de Ciências Aeronáuticas. Suiam comentou com uma amiga, que disse que seu primo estava aprendendo a pilotar. “Eu pensei ‘alguém comum, de família simples do interior, vai ser piloto? Ué, por que eu não posso também?”‘, relembra. Foi quando decidiu seguir a carreira. No começo, enfrentou uma certa resistência – seu pai chegou a dizer que “nunca viu menina ser piloto”. “Tu nunca viu. Mas agora vai ver”, ela respondeu. E viu. Suiam procurou um aero­clube de uma cidade vizinha para aulas teóricas. “Só que eu olhei e pensei: ‘mas são esses aviõezi nhos?”‘, recorda, se referindo aos monomotores do local. “Eu falei: ‘Não, eu quero voar um jato com 150 passageiros.”‘ Mas, como tudo começa do começo, ela seguiu nas aulas – e, aos 18 anos, fez seu primeiro voo solo.

O início para quem quer virar piloto vem um pouco antes, na verdade.

O CAMINHO DAS PEDRAS

O primeiro passo é procurar um aeroclube ou uma escola de aviação reconhecida pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). É lá que você vai ter as aulas necessárias para passar em uma prova teórica da Anac para aspirantes a piloto. Só depois de aprovado nela, dá para sonhar em voar (também dá para estudar por conta própria, se você for o rei do autodidatismo).

Você ainda precisa tirar o CMA – Certificado Médico Aeronáutico. Caso você seja daltônico, tenha problemas cardíacos, pulmonares ou alguma deficiência auditiva, pode não ter o seu.

E agora vem a parte mais complexa: acumular no mínimo 35 horas de voo numa escola de aviação, como fez Suiam. A partir daí, você pode obter a licença de Piloto Privado (PP).

Essa habilitação, porém, não permite o trabalho remunerado. Para isso, é preciso voltar à sala de aula por cerca de três meses e repetir o processo de aprendizado teórico, desta vez de forma mais profunda, e novamente passar pela prova da Anac. Após acumular 150 horas de voo, o piloto pode ser avaliado novamente pela agência para tirar finalmente a licença de Piloto Comercial (PC).

O processo custa caro, já que o preço da hora de voo (ainda que varie bastante regionalmente) sai por umas boas centenas de reais cada uma. Em média, para ter todas as horas necessárias e cobrir outros custos, você vai desembolsar entre RS 120 mil e RS 130 mil, segundo Josué de Andrade, diretor da EJ – Escola de Aeronáutica Civil.

A partir daí, você teoricamente já vai estar habilitado para trabalhar. Mas na prática a teoria é outra: as grandes companhias aéreas exigem mais requisitos para contratar profissionais do manche: inglês avançado, preferência por ensino superior em Ciências Aeronáuticas e uma quantidade maior de horas de voo. Ela varia de empresa para empresa – 200 na Azul, 250 na Gol e 500 na Latam, por exemplo. Para acumular essas horas todas, é comum iniciar a carreira na área de táxi aéreo ou se tornar instrutor – caminhos que geralmente não exigem horas de voo para além da licença de piloto comercial e permitem o acúmulo de experiência. Vale tudo, na verdade: pilotar avião que puxa faixa na praia, pulverizar plantação… O que interessa é juntar horas. Quanto mais você tiver, melhor para o currículo.

Para as grandes companhias aéreas, o conhecimento técnico na área é, obviamente, indispensável. Mas não é tudo. Essas empresas procuram profissionais com perfil organizado, centrado, e, principalmente, de boa liderança – afinal, o piloto é, por lei, a maior autoridade dentro da aeronave e responsável pela segurança e bem-estar de todos. “Um piloto precisa ter uma liderança para tomar a decisão junto com a equipe. Tem de entender o que se passa sem ser autoritário”, diz Josué.

A SAGA DE SUIAM

Depois de  tirar sua  licença de  piloto comercial, Suiam entrou no curso de Ciências Aeronáuticas pela PUC- RS, onde estudou por três anos até se formar em 2006. Nesse ano, a jovem se encontrou naquela situação comum a muitos pilotos: “Eu tinha tudo, menos {uma boa quantidade de) horas de voo”, relembra. Suiam decidiu procurar emprego em táxi aéreo, mas a busca não foi exatamente fácil. “Eu pensei: onde é que mais forma piloto? No Sul e no Sudeste. Então, vou ter que ir para os lugares onde mais tem avião e menos tem piloto. Eu vou para o Norte ou Nordeste.”

Foi enviando currículo para empresas aéreas regionais desses Estados que ela conseguiu uma oferta – em Marabá, um município no interior do Pará. “Quando eu olhei no mapa e percebi que estava indo para um lugar muito longe, caiu a ficha e começou a bater um desespero”, conta.

Mas ela topou o desafio: foram 24 horas só de transporte até chegar a Marabá, onde ficaria por dez meses adquirindo experiência e somando boas horas de voo. Depois, voltou para o Rio Grande do Sul e conseguiu mais um emprego em táxi aéreo. Ficou por seis meses. E voilà: conseguiu experiência suficiente para ser chamada pela Tam (atual Latam) em abril de 2008.

Suiam construiu sua carreira na empresa. E hoje, 13 anos e 8 mil horas de voo depois, pilota os Airbus A320 da companhia, em linhas nacionais e internacionais. Os A320 levam justamente 150 passageiros – como a jovem sonhava em sua primeira visita ao aeroclube).

Quando perguntada sobre sua rotina, ela ri, e brinca que “as únicas coisas certas são as folgas que estão na escala de voos do mês” – afinal, quando se é piloto, não faz sentido falar em rotina diária, e mesmo o planejamento mensal de voos pode variar dependendo do clima ou de outros contratempos.

Para quem sonha em voar, Suiam tem um conselho especialmente importante para a época em que vivemos: nada de desanimar por causa do esfriamento da área durante a pandemia. “Não é para esperar o ‘momento ideal’. Eu acho que essa é a hora de se preparar: quando está tudo parado e você está começando.”

E é melhor você correr, porque o setor já dá sinais de recuperação. Projeções recentes da Associação Internacional de Transportes Aéreos (lata) preveem que as companhias conseguirão zerar os prejuízos em 2022, com o avanço das vacinações.

Suiam ainda é uma exceção em sua área. As mulheres são apenas 3% dos pilotos comerciais, segundo dados de 2020 da Anac. Mas há uma boa notícia: a proporção está crescendo: o número aumentou 64% nos últimos três anos.

Mais: Suiam garante que a presença feminina é muito bem aceita pelos colegas de profissão, com pouco ou nenhum preconceito enfrentado em sua carreira. “Não fiquem presas às crenças que trazemos do passado. É preciso seguir o sonho.” Afinal, essa é uma das poucas profissões em que a expressão “sonhar alto” tem um sentido quase literal.

UM DIA  NA VIDA

PONTOS POSITIVOS

A carreira é prestigiada e remunera bem  os pilotos mais experientes. Além disso, faz parte do rol das profissões de sonho – pelo menos para quem não tem medo de altura.

PONTOS NEGATIVOS

É preciso estar disposto a investir tempo, dedicação e dinheiro na formação, além de pensar a longo prazo, já que, no início da carreira, os pilotos penam para conseguir as horas de voo necessárias para um bom currículo.

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS

Competências técnicas são obviamente indispensáveis. Grandes companhias procuram profissionais com inglês fluente e habilidades comportamentais como foco, liderança e assertividade.

O QUE FAZER  PARA ATUAR  NA ÁREA

O processo de habilitação em Piloto Comercial da Anac é obrigatório para todos os profissionais. Ensino superior não é exigência para ser piloto, mas o bacharelado em Ciências Aeronáuticas é geralmente requisitado pelas companhias.

QUEM CONTRATA

Grandes companhias aéreas para pilotos experientes; empresas regionais ou de táxi aéreo para quem está no início de carreira.

SALÁRIO MÉDIO*

R$ 16.470

*Fonte: Anuário Brasileiro de Recursos Humanos para Aviação CML de 2018, do Instituto Brasileiro de Aviação.

Agradecimento: Ubiratan dos Santos Rocha, presidente da Associação Brasileira de Pilotos da Aviação Civil (Abrapae).

EU ACHO …

DEIXE-OS FALAR

Não dialoguemos com as vozes do passado

Em 2016, tive a oportunidade de dividir uma mesade debates com a intelectual feminista negra Patrícia Hill Collins em São Paulo. Foi um momento muito importante paramim, pois as obras dela foram e são fundamentais referências, e aprendi muito naquela ocasião.

Já nos encontramos, várias vezes desde então, porém um momento profundamente marcante foi logo após essa mesa de debates em 2016, quando ela me convidou para tomar um vinho. Fomos à Casa das Rosas e tive a oportunidade de ter uma conversa mais íntima. Contei sobre a minha vida, minhas aflições de um divórcio recente, as dificuldades enfrentadas no período da graduação e do mestrado.

Tudo fluía numa energia incrível, realmente estava comovida por ver que Collins se interessava pela minha vida para além da questão acadêmica; parecia um sonho desvelar meus sentimentos a uma mulher por quem nutria admiração e respeito.

Num dado momento, comentei sobre os ataques que sofria nas redes, do quanto a branquitude a crítica brasileira se ressentia após a implementação das políticas de cotas e a expansão das universidades públicas e rebaixava o debate racial por puro ressentimento. Naquele momento cresciam as discussões , e nós, pessoas negras conscientes , precisávamos lidar com um show de desonestidade intelectual e falácias de todo tipo.

Contei a ela o quanto a desonestidade me exasperava, que respondia a muitos desses ataques e perguntei como ela lidava com isso. Pacientemente ela me disse que nos Estados Unidos não era diferente, que precisou enfrentar muita hostilidade quando passou a teorizar sobre feminismo negro e o quanto foi duro em muitos momentos.

Porém, ela continuou, por ser uma mulher na faixa dos 70 anos havia aprendido a olhar para essas situações sem se abalar ao longo da vida. E que eu deveria fazer o mesmo. Collins contou que faz parte do patriarcado racista a manutenção dos privilégios e ataques a tudo o que minimamente desestabilizar esse sistema; que não havia alguma novidade nisso. E completou com uma frase que levo para a vida: “let them talk, Djamila: “deixe-os falar”.

“Tudo o que eles querem é tirar o nosso foco, imagina se eu ficasse perdendo tempo respondendo a desonestidades na minha vida? Não teria produzido, publicado tantos livros, pautado tantos debates. Quando a gente responde a falácias, eles seguem pautando o que a gente diz. Concentre-se nas suas reflexões críticas, no quanto você pode contribuir para o debate sério. Djamila, deixe-os falar.”

Ela seguiu explicando que algumas vezes devemos, sim, responder, sobretudo quando há honestidade no debate e não tentativa de rebaixamento do pensamento crítico como forma de distração. Essa conversa nunca mais saiu da minha cabeça.

No ano seguinte, eu lancei meu primeiro livro e passei a publicar uma série de autoras negras e autores negros pela coleção Feminismos Plurais e pelo selo Sueli Carneiro – atualmente já temos 14 livros contando com nossa primeira tradução, o imprescindível “Black Power – A Política de Libertação nos EUA, de Kuame Ture e Charles Hamilton.

Todos os meus livros foram traduzidos para o francês, há edições de “Lugar de Fala” em espanhol e italiano e trabalhamos pela internacionalização da Feminismos Plurais com vários títulos traduzidos.

Collins tinha razão, e tive a oportunidade de dizer isso a ela quando novamente dividimos uma mesa, em 2018, num evento literário em Cachoeiro, na Bahia – evento esse que reuniu milhares de pessoas.

Por que conto tudo isso? Porque não é novidade alguma o ressentimento da branquitude acrítica, algo que faz com que verdadeiros absurdos sejam escritos sob o manto da “discordância de ideias”, mas que são tão somente falácias, ou seja. querem impor aquilo que se quer provar. Pessoas que não leram sobre um tema se julgando no direito de teorizar sobre, quem sempre pôde falar batendo o pé como criança birrenta e tentando chamar a atenção.

Se fosse um debate honesto, com discordâncias legítimas, valeria a pena o empenho em estabelecer um diálogo. Porém, como se trata de birra, grosseria, desonestidade, para que perder tempo e energia? Para que dar palco para quem dorme nos braços do ostracismo? Mais uma vez, não tem nada de novo nessas estratégias, é o mau e velho patriarcado racista rugindo ou como me disse Grada Kilomba, também num encontro marcante em 2016, são as vozes do passado falando – “não perca tempo dialogando com as vozes do passado”. Tem tanta gente boa sobre quem se falar, tantos livros incríveis esperando para ser lidos ou publicados. “Let them talk”.  A gente tem muito mais o que fazer.

*** DJAMILA RIBEIRO – Mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros “Feminismos Plurais”.

ESTAR BEM

COMO COMPENSAR OS EFEITOS DE UMA DIETA DESASTROSA MANTIDA POR ANOS

Nunca é tarde para começar ase alimentar corretamente. O organismo sempre reage às mudanças

Comer batatas ao meio-dia e uma barra de chocolate de lanche não é necessariamente um hábito aos 15 anos de idade. Depois dos 30, as coisas começam a mudar. E muito. Quanto é a conta de manter uma dieta desastrosa durante anos? Depende, claro, dos maus hábitos e da genética. Mas há uma boa notícia. Paloma Gil del Àlamo, especialista em endocrinologia e nutrição, diz: “O corpo é muito grato e, mesmo que seja maltratado, sempre dá a chance de recuperá-lo.

Não se trata aqui da questão de perder peso, mas de cuidar da saúde metabólica. O normal quando você quer se cuidar depois de anos é pensar em emagrecer. O importante, no entanto, é focar em parâmetros como gordura abdominal, níveis de colesterol e triglicerídeos, pressão arterial e resistência à insulina, que leva ao diabetes.

A marca mais óbvia deixada pelos anos de uma dieta desastrosa está escondida sob a pele, mas claramente visível. É o acúmulo de gordura no abdômen, que modela o corpo no formato “tipo maçã”, projetando uma imagem mais arredondada. Você deve ter lido que a gordura é boa porque armazena vitaminas e sintetiza hormônios; que é elemento­ chave na formação das células: que existem alimentos que são bons para comer mesmo que sejam muito gordurosos. Tudo isso é verdade, mas quando o estoque é armazenado na barriga, há apenas más notícias.

Nesse caso, o tecido se infiltra entre órgãos internos como o fígado e nos músculos e, ao contrário de quando é armazenado sob a pele das coxas e quadris (o tal “corpo de pera”), tem sido relacionado a um risco aumentado de muitas doenças, incluindo problemas cardiovasculares, diabetes, hipertensão, além de alguns tipos de câncer. Esse acúmulo pode aumentar independentemente do peso, circunstância bem conhecida por algumas mulheres na pós-menopausa.

Um estudo publicado nos Annals of lnternal Medicine concluiu que a gordura abdominal é um fator de risco maior para mortalidade do que a obesidade. A barriga de cerveja não deve ser brincadeira, mas há uma boa notícia: a maçã pode ser jogada da árvore, pode-se aspirar a uma circunferência abdominal saudável de 88 centímetros nas mulheres, e 102 nos homens.

Para isso, é fundamental levar em conta que a origem da barriga está no excesso de calorias, o que é mais importante ainda na maturidade. O corpo usa cerca de 5% menos energia em repouso a cada década de vida. Então, se você ultrapassou a barreira dos 40, queima de 15% a 20% menos calorias do que quando tinha 16 anos enquanto dorme. Se você não reduzir a ingestão de energia, o fenômeno maçã é inevitável.

OUTROS INDICADORES

Barriga proeminente é um sinal que não falha, mas existem outros parâmetros que indicam riscos para doenças como as cardiovasculares e a diabetes que vêm à tona com exames de sangue. Por exemplo, o colesterol alto. Segundo dados da Sociedade Espanhola de Cardiologia, 20% dos espanhóis maiores de idade têm um valor de colesterol acima de 250mg/dl. Porém, estima-se que o corpo sintetize entre 80% e 85% do colesterol do sangue, e que apenas entre 15% e 20% esteja relacionado à dieta alimentar.

Em geral, é desejável que o colesterol total esteja abaixo de 200 miligramas por decilitro de sangue em adultos. A partir de 240mg, é necessária uma consulta médica. Em relação ao LDL, conhecido como colesterol ruim, entre 160 e 189 mg o valor é considerado alto, a partir de 190 mg, muito alto. Mas até que ponto o dano causado pode ser revertido? A verdade é que os fatores interpessoais são tantos e variados que fazer esse cálculo para  hipercolesterolemia, hipertensão e diabetes não é fácil. No primeiro caso, pode ser conseguido com mudanças na medicação e no estilo de vida. Neste último, o risco pode ser completamente eliminado com dieta e exercícios em um estado anterior à doença conhecida como pré-diabetes, e não tanto depois.

Apesar disso, estudos detectaram uma pequena taxa de pacientes que conseguiram reverter o pré-diabetes com dieta e exercícios. Uma análise de 257 pessoas observou que mudanças no estilo de vida, levando a uma perda de peso em torno de 10%, foram capazes de reverter a doença nos primeiros 5 anos após o diagnóstico.

A hipertensão não tem cura, mas pode ser controlada. Não é apenas necessário diminuir a ingestão de sal, aumentar o potássio também funciona. Outra providência importante é abandonar os alimentos ultraprocessados, cujo teor de sódio é muito alto, e aumentar o consumo de vegetais, por exemplo.

O grande risco é o de desenvolver a síndrome metabólica, que é diagnosticada quando uma pessoa atende a três desses cinco fatores de risco: hipertensão, hipercolesterolemia, açúcar elevado no sangue, triglicerídeos elevados e excesso de gordura abdominal. De acordo com o estudo Predimed, o maior ensaio nutricional já feito no mundo, a dieta mediterrânea, que inclui o consumo do azeite de oliva ou de nozes, reverte a incidência desta síndrome em 28%. Segundo Miguel Ángel Martinez-Goozález, professor de medicina preventiva da Universidade de Navarra e um dos responsáveis pelo estudo, esses dados são eloquentes: ”Nunca é tarde para se cuidar”. Adotar a dieta mediterrânea por três anos reduz em 30% o risco de infarto, o acidente vascular cerebral, morte cardiovascular.

TELÔMEROS DE DISTÃNCIA

Em uma manhã gelada de São Francisco, as amigas Kara e Lisa tomam café e falam sobre a vida. Kara está cansada, não consegue se livrar de um resfriado e sente o coração disparar loucamente na hora de dormir. Lisa parece radiante, seus olhos e pele brilham, ela tem  muito tempo para fazer o dever de casa. Está cheia de energia. As diferenças entre elas são perceptíveis: as duas têm a mesma idade cronológica, mas a biológica é bem diferente. Parte da culpa é da dieta.

Com a história de Kara e Lisa começa ”The telomere soluction”, de Elissa Epel, professora de psiquiatria da Universidade da Califórnia em São Francisco e prêmio Nobel de fisiologia e medicina por seu trabalho sobre telômeros, regiões que fecham os cromossomos. Os pesquisadores observaram que eles ficam menores com o tempo até ficarem muito curtos para evitar a degradação do DNA. “O comprimento do telômero foi proposto como um biomarcador de idade. Quanto mais curtos, mais o envelhecimento acelera”, explica Gil del Álamo.

No caso de Kara e lisa, ambas tinham 50 anos, mas a primeira entrou em uma área da vida marcada pela doença, enquanto Lisa, no ritmo que está caminhando, não chegará lá até os 75.

A boa notícia é que, assim como são cortados, os telômero  têm a capacidade de crescer quando certos hábitos de vida são modificados. Mas há muitos fatores a serem considerados. Por exemplo, existe o estresse oxidativo, por meio do qual as células passam a produzir radicais livres que acabam danificando o DNA. Isso aumenta o risco de doenças como alguns tipos de câncer, diabetes, além de problemas cardiovasculares e neurodegenerativos como Parkinson e Alzheimer. Existem muitos fatores que contribuem para o estresse oxidativo, como poluição, tabagismo e exposição excessiva à luz solar, mas uma boa dieta contribui para cancelá-lo por meio dos famosos antioxidantes. Depois, há a inflamação.

Por um lado, o aumento da glicose no sangue causa um aumento na produção de citocinas, que são um tipo de mensageiro que percorre o corpo causando inflamação leve, mas contínua. No longo prazo, é fatal. Este estado inflamatório crônico pode contribuir para o desenvolvimento de diabetes e tem sido associada à insuficiência cardíaca e doença renal crônica. O excesso de glicose, batata frita, carboidratos refinados (pão branco e  arroz), doces, refrigerantes e bolos na dieta têm consequências importantes para a saúde.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PERDA DE FOME PÓS-AVC REVELA MISTÉRIOS DO CÉREBRO

Região cerebral pouco conhecida se liga a sistema de comando do apetite, o que leva os pesquisadores a acreditarem não haver um único ‘gatilho’ para o controle da anorexia ou da compulsão alimentar

Uma mulher canadense de 28 anos sofre de um acidente vascular cerebral isquêmico        que afetou a ínsula posterior esquerda de seu cérebro. A paciente parece se recuperar do derrame em 11 dias. Porém, sete meses após a alta hospitalar e sem nenhum tratamento farmacológico, ela relata que não sente sinais de fome, apesar de manter intactas as percepções associadas ao paladar e ao olfato. Ela perdeu o apetite, e suas comidas favoritas não lhe davam mais prazer 15 meses após o AVC.

Uma pesquisa da Universidade de Montreal, no Canadá, liderada pelo neurocientista Dang Khoa Nguyen e publicada na revista Neurocase, acredita que, com este caso, uma nova região do cérebro envolvida com a sensação de apetite tenha sido descoberta.

No entanto, outro neurocientista, José Maria Delgado, da Universidade Pablo de Olavide, em Sevilha, na Espanha, alerta que existem mais regiões cerebrais relacionadas à fome e que aquela afetada pelo episódio tem ligações com as já conhecidas e que, além do regulamento meramente metabólico da dieta, exercido pelo cérebro, há outra estrutura muito relevante do ponto de vista cognitivo”. Dessa forma, o controle da fome não depende de uma única “alavanca”, segundo o pesquisador espanhol. O apetite é complexo e não possui um único gatilho.

Após o AVC isquêmico, a paciente apresentou as limitações de mobilidade esperadas no corpo e dificuldades para falar. Tinha sofrido danos numa sub-região remota do cérebro, de difícil acesso e pouco estudada, que está associada a atividades ligadas à tomada de decisão, ao processamento emocional e à atenção. No entanto, não estava diretamente relacionado com o apetite, embora, segundo José Maria Delgado, que remete a uma publicação na Neuroimagem, “estava, sim, relacionada a conexões com o hipotálamo lateral, onde está o centro da fome”.

PERDA DE PESO

A sensação de fome e o prazer de comer voltaram 16 meses após o derrame. Mas durante quase um ano e meio, a paciente perdeu 13 kg (passou de 73 para 60) sem que, segundo Dang Khoa Nguyen, “a falta de apetite fosse atribuída a medicamentos, uso de substâncias  ou distúrbios clínicos”.

Segundo o pesquisador, “evidências crescentes sugerem que a ínsula desempenha um papel importante no sabor, na capacidade de perceber estímulos internos e no processamento emocional”. E acrescenta: “Provavelmente integra essas diferentes funções para contribuir para o controle homeostático (autorregulação da constância das propriedades de um sistema influenciado por agentes externos) da ingestão de alimentos”.

No entanto, o neurocientista espanhol destaca que, ”embora os autores do artigo não o mencionem”, sabe-se que “a ínsula tem ligações com o hipotálamo lateral, onde se  localiza o suposto centro da fome e, também, com a nucleus accumbens, cuja ativação produz a sensação de recompensa ou satisfação após a realização do que se buscava: comida, água etc.”

Delgado, autor da pesquisa sobre regulação cerebral da fome, especifica que “é o hipotálamo, um pequeno centro nervoso que não representa mais de 1% do peso total do cérebro, que regula todas as funções metabólicas endócrinas”. E explica, segundo experiências com animais: “Sabe-se que existe um centro da fome no hipotálamo lateral e que, se estimulado eletricamente, aumenta o apetite. Da mesma forma, o córtex pré­ frontal medial e o nucleus accumbens (relacionado à sensação subjetiva consciente de prazer , bem-estar ou satisfação) também desempenham um papel importante na modulação consciente dos sinais de apetite e saciedade. Se forem estimulados, diminuem o apetite. A longo prazo pode causar anorexia”.

O neurocientista considera consistente que, se um AVC afetar o centro da fome ou alguma das estruturas que o ativam, a vontade de comer é perdida. No entanto, ele esclarece que esses sistemas apenas explicam o apetite do ponto de vista da regulação meramente metabólica. Nesse sentido, acrescenta: “Existe uma outra estrutura que regula a alimentação do ponto de vista cognitivo, ou seja, uma coisa é não comer por muito tempo, baixando a glicemia e acionando o centro da fome ,que é um mecanismo fisiológico, e outra são os mecanismos do tipo cognitivo., que o levam a comer uma comida apetitosa, mesmo que não tenha fome”.

Esta complexidade dos elementos que desencadeiam ou reduzem o apetite é justamente a maior dificuldade em encontrar um medicamento que regule a fome e assim seja possível combater a obesidade ou a anorexia. Delgado esclarece: “É necessária uma inibição sustentada ou ativação ao longo do tempo dos centros de fome ou saciedade. Ao contrário, em uma refeição, o apetite é satisfeito antes que os sinais hormonais e nervosos que regulam a digestão sejam ativados”.

A busca por esse gatilho ou  inibidor da fome levou a pensar na estimulação física ou química do cérebro, por meio da dopamina, um neurotransmissor. Uma droga que modulasse a presença dessa substância, considerada causadora de sensações agradáveis e de relaxamento, impediria uma pessoa de ingerir muita comida porque teria a sensação de que já se alimentou o suficiente.

EFEITOS COLATERAIS

Delgado alerta para o perigo de lesionar uma parte do cérebro ou de tomar remédios para obter um resultado que tem causa psicológica e efeitos colaterais. O próprio estudo canadense sobre os efeitos da lesão cerebral indica que a paciente não só perdeu o apetite, mas também o prazer de comer.

“Não é fácil encontrar uma droga que elimine a fome, porque também pode eliminar todo o restante associado à satisfação”, explica o pesquisador.

Somados aos efeitos colaterais adversos, os mecanismos naturais envolvem muitas regiões do cérebro e outras partes do corpo, dificultando a articulação de uma única terapia. O neurocientista explica: o mecanismo subjetivo de regulação da fome é ainda mais rápido que o fisiológico. Quando você começa a comer , o estômago está distendido

E a sensação de fome é removida. Isso já é um freio. Então com a digestão, são liberados substâncias e hormônios [leptinas, insulina, colecistocinina] que atuam no centro de saciedade. Todo esse mecanismo é inconsciente. E depois há o componente consciente: se você vê um alimento de aparência muito ruim, perde a vontade de comer e não há metabolismo envolvido”.

Yong Xu, professor de nutriçãoe biologia molecular e celular da Baylor School of Medicine, concorda com a complexidade de regular até mesmo comportamentos alimentares por necessidade ou prazer. Em uma pesquisa publicada na Molecular Psychiatry, sua equipe descobriu que cada tipo de alimento tem seu próprio circuito independente.

“O circuito que se projeta para o hipotálamo regula principalmente a alimentação motivada pela fome, mas não influencia o comportamento motivado pelo prazer”, explica Yong Xu.

Outra estrutura envolvida são os neurônios AgRP, encontrados no hipotálamo e ativados no jejum. Um experimento com camundongos geneticamente modificados, publicado na Nature, mostrou que quando são estimulados o animal ingere grandes quantidades de comida.

OUTROS OLHARES

FORA DE MODA

Em contraposição à tendência do body positive, que celebra o amor próprio, Givenchy fez desfile em Paris com modelos magérrimas, apologia à depressão e ao suicídio

Os desfiles da Givenchy, cuja criatividade hoje é costurada pelo prodígio americano Matthew Williams, costumam ser cercados de muita expectativa. Na semana de moda de Paris, encerrada na terça-feira 5, o que era para ser uma celebração de bom gosto e inventividade virou escândalo. A maison francesa levou para a passarela modelos que usavam colares de metal com a forma de um nó de forca. Outras desfilaram com olheiras avermelhadas e olhos fundos e pretos, em evidente postura depressiva. Quase todas magérrimas, na contramão da diversidade que se espera atualmente, com corpos razoavelmente comuns. Se a ideia era chamar atenção, e o mundo do luxo é movido a esse tipo de recurso, foi tudo muito bem-sucedido, sim. Mas não há dúvida: a grife errou a mão, e feio. Nas redes sociais houve uma onda maciça de protestos contra o show.

A acusação: apologia indevida e exagerada à magreza, atrelada à anorexia, com barriga, colo e ossos à mostra. Houve ainda quem identificasse culto ao suicídio. “Além da diversidade, há a tendência do body positive, que celebra a beleza e a aceitação do corpo como ele é, sem padrões estéticos”, diz a caçadora de tendências e futurista Sabina Deveik. “É um movimento que precisa ser perpetuado. A alta-costura tem o papel de lidar com as grandes questões da humanidade, e a saúde mental é uma delas.” Procurada, a Givenchy preferiu não comentar. Pegou muito mal, especialmente em um cotidiano mergulhado na pandemia, e não por acaso a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem feito sucessivos alertas em torno do impacto prolongado em corações e mentes como reflexo da maior crise sanitária da atualidade. A moda é um retrato de seu tempo – e também nesse aspecto a Givenchy atropelou a realidade.

“A moda traz para si o papel de provocar e subverter, mas nada justifica essa atitude, ainda mais nos tempos atuais”, diz a stylist e consultora de estilo Manu Carvalho. Para o coordenador da campanha nacional “Setembro amarelo” e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva, o fato é gravíssimo. “A glamorização do suicídio em um evento tão globalmente celebrado é uma tragédia”, diz Silva. “É vergonhosa a atitude da marca, que tem influência mundial principalmente entre os jovens. Quantas adolescentes vão se vestir dessa maneira?” Segundo a OMS, a cada quarenta segundos uma pessoa comete suicídio no mundo – é a segunda maior causa de morte entre 15 e 29 anos. Os dois principais fatores de risco são tentativa prévia e doença mental, muitas vezes não diagnosticada, não tratada ou tratada de forma inadequada. A prevenção do suicídio inclui combater o estigma – responsabilidade que é de toda a sociedade e também da marcas reconhecidamente elegantes e influentes.

Não é a primeira vez que os desfiles saem do tom. Nos anos 1990, revistas celebravam o estilo heroin chic, com modelos fotografadas com aparência muito magra e de drogada. A questão chegou à Casa Branca, com críticas do então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton. Em fevereiro de 2019, a Burberry foi acusada de apologia ao suicídio ao desfilar um moletom com capuz que trazia uma corda também em forma de forca. “Suicídio não é fashion”, escreveu no Instagram a modelo Liz Kennedy, que usou a peça, reclamou nos bastidores, mas foi ignorada. Em setembro daquele ano, a Gucci fez um desfile com macacões brancos que remetiam a camisas de força. Na passarela, Ayesha Tan-Jones, ativista e modelo não binário, fez um protesto e escreveu na palma das mãos: “Saúde mental não é fashion”. Definitivamente não é.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 14 DE NOVEMBRO

A VINGANÇA PERTENCE AO SENHOR

Não digas: Vingar-me-ei do mal; espera pelo Senhor, e ele te livrará (Provérbios 20.22).

Todos nós, mais cedo ou mais tarde, teremos de lidar com o problema da mágoa. Não somos perfeitos e não vivemos num mundo perfeito. Nosso coração algumas vezes é fulminado por setas venenosas. Palavras encharcadas de ironia e maldade são lançadas sobre nós como torpedos mortíferos. Homens maus, com maus desígnios, levantam-se contra nós para nos ferir. O que faremos? Como reagiremos? Retribuir o mal com o mal não aliviará nossa dor. A vingança não cura as feridas abertas em nossa alma. A retaliação não apazigua nosso espírito atribulado. O único que tem competência para julgar retamente e vingar na medida certa é o Senhor. Não temos o direito de tomar em nossas mãos aquilo que é atribuição exclusiva do Senhor. A Palavra de Deus é categórica: não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor (Romanos 12.19). Devemos entregar nossas causas a Deus. Ele é o nosso defensor. Não precisamos levantar nossas mãos contra aqueles que nos fazem o mal. Devemos apenas confiar em Deus, sabendo que ele tem cuidado de nós. Nosso papel não é exercer vingança contra nossos inimigos, mas orar por eles e perdoá-los.

GESTÃO E CARREIRA

SAÚDE MENTAL DOS TRABALHADORES PIOROU NA PANDEMIA

Em pesquisa, 70% se dizem nervosos, tensos ou preocupados, mas minoria tem apoio. Movimento conscientiza empregadores

Apesar de saúde mental ainda ser tabu na relação entre funcionários e empresas, o tema tem um apelo crescente, que foi reforçado na pandemia. Desde o início da crise sanitária global que também afetou relações pessoais e profissionais, a saúde mental dos trabalhadores brasileiros piorou. Ao menos 70% se dizem mais nervosos, tensos ou preocupados nesse um ano e meio sob a ameaça da Covid e com muita gente trabalhando em casa. Os dados são de um estudo inédito realizado pelo movimento #MenteEmFoco, com o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD).

Ansiedade acentuada foi citada por 55%, além de estresse (51%) e tristeza (49%). Dos ouvidos, 62 % disseram que a empresa onde trabalham não ofereceu qualquer suporte relacionado à saúde mental.

“É preciso ter consciência sobre a saúde mental, e as empresas têm papel nisso. A pesquisa indica essa urgência”, diz o diretor executivo do IBPAD, Max Stábile. Também chama atenção o fato de poucos procurarem ajuda especializada. Só 16% foram a psicólogos ou psiquiatras. A maioria (57%) não buscou ajuda, e os demais recorreram a familiares ou amigos.

“Existe uma percepção de que faz parte sentir-se tenso, nervoso ou preocupado quando se trabalha muito. Há uma naturalização de que o mundo do trabalho é assim mesmo”,  observa Stábile.  “Masisso é preocupante, porque todos estão passando por isso e falando pouco ou quase nada. Não se pede ajuda. É papel das empresas mostrar que a cultura corporativa não deve ser essa.

Entre os ouvidos, 29% relataram dificuldade de exercer alguma função por não se sentirem bem mentalmente, o que afeta também as empresas. Acumulam mais sintomas os jovens de até 34 anos.

Nesse cenário, a Rede Brasil do Pacto Global da ONU e a Impress Porter Novelli, em parceria com a Sociedade Brasileira de Psicologia, lançaram o #MenteEmFoco, que convida empresas a se comprometerem com a saúde mental no ambiente de trabalho.

“Vivemos uma pandemia de burnout. Mas, muitas vezes, falar de saúde mental é visto como sinal de fraqueza. Um dos objetivos é quebrar isso”, diz Carlo Pereira, diretor executivo da Rede Brasil do Pacto Global da ONU.

Já aderiram à iniciativa 38 empresas, com mais de 200 mil empregados. Elas se comprometem a ter profissionais de referência para atendimento, aconselhamento e a promover em favor da saúde mental e da redução do estigma. A meta é superar mil empresas e 10 milhões de pessoas até 2030.

EU ACHO …

PROCURA-SE COM URGÊNCIA

Necessito, para admissão imediata, de um profissional muito capacitado. Claro, deve ser bem formado em uma faculdade. O candidato deve dominar a teoria da sua área. Será questionado todos os dias sobre seus conhecimentos. Necessário que seja atentíssimo à demanda de atualização. Nossos clientes são exigentes em grau elevado. Reconheço até que são, eventualmente, chatos.

A tipologia do nosso cliente implica enorme resiliência diante de desgastes pessoais. Indispensável a solidezno campo psicológico. A pessoa que assumir o cargo oferecido deve enfrentar longos dias de estresse que podem crescer em momentos específicos. Deve ter estabilidade pessoal, equilíbrio e nenhum traço de perturbação grave. Nossa experiência ensina que, no cargo oferecido, quem entra equilibrado pode perder parte de sua estabilidade e quem já começa com instabilidades não completa um mês na função.

Pernas fortes são indispensáveis. A pessoa passará muitas horas de pé, quase o tempo todo. A voz deve ser muito especial pois será usada ao extremo, nos limites da possibilidade humana. As costas merecem cuidados: costumam doer com frequência.

Importante notar que além das 8 ou 12 horas diárias, nosso trabalho invade finais de semana. Serão marcadas reuniões aos sábados, por exemplo. Haverá coisas a preparar nos feriados. Nossa empresa gosta de promover festas juninas e precisa de todos os funcionários atuando nas barracas de forma voluntária e com um sorriso. Alguns clientes procurarão seu trabalho e conselho antes de o horário começar e depois de encerrar. Há relatórios a serem revistos até a véspera do Natal. Adoramos reuniões de planejamento ou de avaliação em datas as mais absurdas possíveis.

Há um detalhe que escapa a muitos candidatos. Você será contratado por mim. Eu serei seu chefe. Porém, nossos clientes são considerados seus patrões tambêm. Alguns consumidores do nosso produto, por serem menores, virão com os pais. Eles também costumam se considerar seus chefes. Darão opiniões sobre seu trabalho e nós ouviremos todos, quase nunca você.

Como plano de incentivo, oferecemos café, usualmente sempre passado há muito tempo. Temos unidades onde você terá de colaborar com a compra do pó de café. Há outras, mais generosas, onde o café é de graça. Em regiões nobres, providenciamos até um biscoitinho, mas não todos os dias. Não se acostume. Zelamos pela sua boa forma. Água à vontade, todavia não enquanto trabalha; apenas nas pausas. Se quiser água durante o expediente, traga a sua.

Você precisa ter domínio tecnológico para adaptação à épocas de pandemia. Iluminação, dinamismo de exposição, criatividade gráfica, habilidade de falar com um ponto luminoso na tela por horas de forma a deixar todos satisfeitos e felizes.

Claro: precisamos de você sempre tomado de entusiasmo, disponível diuturnamente, alegre, bem resolvido, sorridente e dócil conosco, com os clientes e seus pais. Uma vez por ano, em data próxima a este anúncio, fazemos uma festa como dia dos nossos funcionários. Será um dia de cartões e de exaltação a sua tarefa extraordinária. Você será chamado de semeador do futuro, arauto da esperança, apóstolo do saber e servo do conhecimento. Aproveite. É um dia especial. No resto do ano, faremos o contrário de tudo que for dito no seu dia. Então, regozije-se com a data próxima.

Sendo uma profissão vocacionada e dedicada ao cultivo do conhecimento, sabemos que você não escolheu a carreira pela retribuição financeira. Você sabe que nem sempre as pessoas ricas são as mais realizadas. Há casos de milionários depressivos! Querendo evitar os males da tristeza e do apego aos bens materiais, faremos uma proposta salarial modesta. Ela varia de unidade para unidade. Há algumas que até garantem férias um pouco melhores. A maioria investe no seu sacerdócio permanente, beirando o voto de mendicância.

Assim, releia o anúncio. A jornada é muito longa e, para ter melhores rendimentos, você pode acumular várias unidades na sua grade de dedicação. Temos alguns funcionários exemplares que trabalham manhã, tarde e noite. Há danos muito comuns ao corpo: varizes, calos nas pregas vocais, estresse, ansiedade, algum pânico, muita dor na coluna e, frequentemente, depressão. A demanda é alta e está diminuindo a oferta de bons profissionais, mas temos certeza de que você estará seduzido pelas nossas condições.

Sentiu-se atraído? Envie seu currículo para nossa escola. Estamos carentes de professores excepcionais, acima da média, com talento teatral, domínio de conteúdo, habilidades de resistência física e imenso potencial criativo. Queremos professores e professoras que entendam que todos na família descansarão no domingo enquanto você corrigirá provas. E, no final do ano letivo, após terem sido bombardeados de todo lado, sorriam e façam uma avaliação na reunião destacando o amor que sentem pela profissão que abraçaram. Queremos nosso corpo docente satisfeito e atualizado. Em resumo, buscamos o perfil de alguém com mente de Prêmio Nobel, transbordando criatividade de artista genial, no corpo de fuzileiro naval, a paciência da Santa Irmã Dulce e o equilíbrio de um lama septuagenário do Tibete. A propósito: feliz dia dos professores e das professoras! É preciso ter esperança mesmo na ironia que, eu espero, alguém tenha ensinado a você na escola.

*** LEANDRO KARNAL

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M3tas e M3táforas p4ra $ustentbilidad3 soci0800 @mbiental

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