EU ACHO …

O VASO DE FLOR

Neste domingo, Caio Fernando Abreu faria 73 anos. Não é uma data redonda, mas é sempre oportuno lembrar este escritor que faleceu aos 47 e se tornou eterno.

O Caio F dos contos, das cartas, das peças de teatro, dos romances, e que sem ter conhecido o furor das redes sociais, tomou-se um dos autores mais citados por elas. Qual a razão deste encantamento que não se desfaz, ao contrário, só aumenta?

Deve ser porque são tempos brutos, incultos, superficiais, e Caio era o oposto disso: um homem que tinha a alma concentrada e que mergulhava nos sentimentos. Aperitivava algumas experiências, mas sempre desejou a refeição completa.

Quando todos queriam ser um sucesso, Caio queria ser amado. Acreditava que encontraria no amor seu conforto espiritual, seu lugar no mundo. Ele, que morou em várias metrópoles sem se enraizar em nenhuma, até que fez do texto o seu lugar, o seu território de reconhecimento.

Caio era pop e profundo ao mesmo tempo. Com suas palavras carregadas de poesia e sensibilidade, revelava o secreto e o escuro que nos habita internamente, dando assim visibilidade para aquilo que não costumamos expor à luz do dia.

Caio foi e ainda é um holofote, um farol, uma lanterna que ilumina as solidões mais melancólicas. Interessava-se pelos outsiders e pelo lado maldito da vida, mas e sem nunca perder o refinamento. Domava o próprio desespero com uma elegância genuína. Ninguém foi tão sofisticado ao retratar a crueza do mundo e a dor da rejeição. Escrevendo, criava cenários visuais para seus leitores, como se o texto fosse um videoclipe. Sua amargura vinha sempre acompanhada da descrição de um sofá estampado no canto da sala, da paisagem urbana que ele via através da janela (onde certamente haveria, no parapeito, um vaso de flor) , da música que estava tocando (Nara Leão? Tom Waits?). Caio cultivava suas trevas em bom ambiente, não era de sofrer sem trilha sonora ou sem uma vela acesa no castiçal.

Poucos como ele narraram tão bem a aproximação entre dois estranhos: os gestos lentos, as palavras bem cuidadas, os silêncios espichados. Expectativas quase nunca atingidas, que resultavam em cacos que Caio juntava um a um, formando mais um mosaico da sua coleção de emoções fragmentadas. Ele se foi, mas em nosso universo íntimo, somos como Caio: o tempo passa, a gente se constrói, aí sopra um vento forte e nos esparrama, e então juntamos do chão as partes que ficaram espalhadas e com elas nos reconstruímos, e a cada nova formatação ficamos um pouco melhores do que antes, ou um pouco mais desalentados, mas nunca os mesmos. Só o que não muda é o vaso de flor no parapeito da janela, atenuando nossa desolação. Em meio à tanta bestialidade, há sempre que preparar a casa para a esperança.

*** MARTHA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

M.A

Interviews, reviews, marketing for writers and artists across the globe

Gaveta de notas

Guardando idéias, pensamentos e opiniões...

Isabela Lima Escreve.

Reflexões sobre psicoterapia e sobre a vida!

Roopkathaa

high on stories

Luna en mengua

Poesía, arte, literatura y música.

de tudo um pouco ❗❕❗😉👌

de tudo um pouco 😉👌

Painel do Grupo

Aqui um pouquinho de nossas realizações

Buds of Wisdom

Fall in Love with Grammar !

pretapoesia

Escreviver é isso: viver, escrever, viver novamente. Writing is just like this: live, write, live again.

danielecolleoni

Appunti, spunti e passioni in liberta'

Ode to Beauty

Discovering the World of Fine Art Nude Photography

白川君の独り言β

no sweat no victory

URBN Social

The Social Experience

RENOVADAS

Autoestima para mais de 50

Olivia2010kroth's Blog

Viva la Revolución Bolivariana

%d blogueiros gostam disto: