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EM UM ANO, #METOOBRASIL RECEBEU RELATOS DE 151 VÍTIMAS

Mais da metade só narrou o abuso sexual; 68 foram encaminhadas à Justiça

“Por que você não gritou? Não tentou bater nele? Essa é a primeira vez que vejo uma pessoa ser violentada e não lutar.”

As frases vêm do relato que Júlia (nome fictício) enviou à campanha #MeTooBrasil, narrando o abuso que sofreu aos 14 anos. No depoimento, relembra como o padrasto a assediou, como foi rejeitada pelo pai ao buscar ajuda e maltratada ao denunciar o caso para o delegado da sua cidade.

Lançado há um ano, o movimento #MeTooBrasil, que acolhe vítimas de violência sexual, se inspirou na campanha americana de mesmo nome que expôs abusos em Hollywood e que resultou, em março de 2020, na condenação do produtor Harvey Weinstein a 23 anos de prisão por agressão sexual e estupro.

Neste primeiro ano, a campanha brasileira recebeu 151 relatos relacionados à violência sexual. Desses, 77 usaram a plataforma como forma de relatar suas histórias, como Júlia; as outras 74 vítimas buscaram ajuda efetivamente – 68 desses atendimentos resultaram no encaminhamento para rede de proteção do Estado.

Para a advogada Marina Ganzarolli, idealizadora do projeto, frases como “em briga de marido e mulher não se mete acolher” não encontram mais uma aceitação tácita na sociedade. Campanhas nas redes sociais, contudo, como a que diz que “a culpa não é da vítima”, ainda se limitam a hashtags e o que elas pregam não foi ainda assimilado. A advogada admite que a campanha que concebeu, com um nome em inglês, esbarra em barreiras sociais, econômicas e até digitais. Mas,  diz, sua criação foi a forma que encontrou para romper bolhas. “Para a gente conseguir uma resposta eficaz contra a violência sexual no Brasil, precisamos falar com todo o mundo. Aprendi que seria interessante beber das influências das hashtags e das redes sociais e atingir movimentos hegemônicos para conversar fora desse círculo de garantia de direitos humanos.

Ao entrar em contato com a plataforma, a vítima recebe apoio e orientação do Projeto Justiceiras, que oferece amparo à mulheres vítimas de violência sexual. Depois disso, é dado o encaminhamento do caso no âmbito judicial.

De acordo com o levantamento realizado pela campanha, 54% das mulheres que buscaram pelo #MeToo Brasil são casos não urgentes, ou seja, que não aconteceram na hora e, por isso, não buscam ajuda imediata. A maioria dos relatos da campanha são pedidos de ajuda que partem de mulheres brancas (65%), da região Sudeste do país (53%) e tem entre 21 e 30 anos.

”A maioria nos procura para saber se ainda tem como denunciar as violências sofridas há mais de dez anos. Elas ainda estão revisitando traumas do passado e entendendo as possibilidades de reparação”, diz Ganzarolli. ”Nenhuma vítima consegue denunciar sozinha, não conseguem nem falar para pedir ajuda, quem dirá brigar com um Saul Klein ou um Roger Abdelmassih.

Ela lembra que é comum que vítimas de crimes sexuais demorem anos para buscar ajuda e aponta que um dos maiores problemas da violência sexual no Brasil é a subnotificação do casos.

De acordo com o mais recente anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2010, houve uma queda de 14% no registro de estupros e estupros de vulneráveis. Mas  a leitura não é  necessariamente otimista, diz a advogada.

“As condições em que esses crimes acontecem são dentro do convívio familiar e aumentaram com o isolamento social. Por isso, com certeza, a violência sexual aumentou, o que caiu foram os registros”. São vários os fatores que contribuem para a subnotificação, mas um deles é a incompreensão de como funciona a violência sexual, normalmente perpetrada por pessoas do ciclo afetivo da vítima.

“Não é uma pessoa que ela odeia, que ela quer ver presa, que ela quer destruir, normalmente é o pai, irmão, padrasto, tio, chefe, um colega. É um processo difícil porque a vítima tem uma série de afetos com aquela pessoa para fora da situação de trauma”.

De acordo com os dados das mulheres que recorreram ao #MeTooBrasil, 55% das denúncias são de violências que aconteceram dentro de casa, 54% afirmaram que era a primeira vez que buscavam ajuda, 21% relataram que o agressor possui posse ou acesso a armas de fogo e 14,7% vivem com seus agressores. Os dados seriam divulgados nesta terça (31), em um Webinar.

Ganzarolli afirma que, apesar de a grande maioria das vítimas dos casos de violência sexual ser de mulheres, meninos também são vítimas de violência sexual, tanto na infância quanto na adolescência.

“Não são nem 5% dos casos, mas eles são ainda mais invisibilizados, por sofrerem com a chave da homofobia. Por isso não falam nunca sobre as violências sofridas”.

Como Márcio (nome também fictício), que teve sua história contada à campanha pela avó. O garoto contou que o pai havia introduzido o dedo em seu ânus. A família, então, levou o menino, cuja idade não foi indicada no relato, para fazer exame de corpo de delito. Porém as investigações nada constataram. Agora a avó teme que a guarda da criança vá para o pai.

Medos como o da avó de Márcio são constantes entre as vítimas que sofrem abusos, diz Ganzarolli, que estima que o Brasil 30 anos atrasado na compreensão da violência sexual, se comparado aos EUA e países da Europa.

“Lá fora, se o funcionário de uma empresa é acusado de abusar de alguém, a lógica é afastá-lo ou demiti-lo. Aqui pensam “e se eu punir o cara e não for verdade? Eu vou ser condenado pelo agressor por ter difamado e acabado com a vida dele?” É sempre pela perspectiva do agressor”.

Na visão da advogada, a atual legislação contra crimes sexuais no Brasil é boa e resguarda bem as vítimas. O gargalo estaria na aplicação das leis. “Quantos equipamentos de saúde pública no Brasil estão preparados para aplicar a Lei do Minuto Seguinte (que prevê que hospitais ofereçam às vítimas de violência sexual atendimento emergencial e multidisciplinar)? Estaria exagerando se eu dissesse 40.”

Ela identifica como um avanço recente na área o surgimento da Ouvidoria das Mulheres, em maio de 2020. O canal, criado pelo conselho do Ministério Público a fim de receber denúncias, foi também uma forma de agilizar o encaminhamento dentro da instituição e promover o apoio multidisciplinar às vítimas – em um ano, mais de 870 já procuraram ajuda do órgão.

“Quando falamos de violência doméstica, discute-se um bem protegido, que é a entidade familiar; já quando falamos de violência sexual, é sobre um crime que aborda a sexualidade doentia de homens. Mas as pessoas acham que estamos falando sobre sexo”.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.