EU ACHO …

QUERIDOS SUDESTINOS

Quando vi o vídeo “Sudestino” no canal Porta dos Fundos, não me contive. Vi e revi em looping. Já passou da hora de nós, sudestinos, entrarmos na nossa caixinha e deixarmos de achar que o centro do Brasil é o Sudeste.

Precisamos parar de acreditar que o que se faz no Sudeste é a norma e que os demais são “os outros”, os diferentes os que têm sotaque fofo, os que comem comidas estranhas, os que são do outro lado do Brasil. “Meu”(gíria de sudestinos de Sampa), é óbvio que como indivíduos, somos múltiplos etnicamente e temos várias influências culturais ao longo da vida, mas precisamos  reconhecer que, como em toda e qualquer região do Brasil e do mundo, compartilhamos hábitos que não podem ser negados e tampouco colocados  como padrão absoluto. Conforme já disse algumas vezes, todo mundo tem caixinhas. E acho a discussão fascinante assim como acho curioso como muitos só se dão conta disso tardiamente.

A discussão não é nova nem foi superada. Há ainda quem diga que os moradores do Rio não têm sotaque. Acredite.

Mas se o humor sudestino está se reinventando e se permitindo ironizar fora do centro, quem sou eu para não ter esperança de um futuro menos sudestino-centrado?

Reconhecer nosso chiado ao falar “bixcoito” é o mínimo. Pode parecer algo pequeno, mas já considero um avanço.

Você também deve se lembrar de ter visto um país dividido que acusou o Nordeste de votar mal, como se sudestinos soubessem o que é a democracia melhor do que os demais. Há muito preconceito contra os nordestinos e nós, do Sudeste responsáveis por essa disseminação e esse enraizamento, podemos também ser responsáveis pelo rompimento dessa lógica.

Como sudestina, acredito que já passou da hora de acharmos que representamos uma norma e que nossa visão é o retrato do Brasil, além da mania de considerar que “somos melhores” e sabemos númetizar as outras culturas. Você certamente já viu um sudestino imitando um nordestino. Isso é mais do que etnocentrismo, é pura metidez histórica mesmo. Ver sudestinos sendo estereotipados é uma perspectiva que nos faz voltar para uma caixinha e descer do salto um pouquinho.

Gosto muito das noções de’ “familiar” e “exótico” expostas pelo antropólogo Gilberto Velho. Familiar tem a ver com a frequência com que somos expostos a algo e exótico com aquilo que nos parece distante. Por meio de produções audiovisuais, ao longo da vida, costumamos colocar atores e atrizes do Sudeste e brancos fingindo ser nordestinos. Acredito que isso, durante muito tempo, tenha corroborado para que tivéssemos uma visão do Norte e do Nordeste como algo fantasioso e exótico e não como a norma ou algo familiar.

Morando em um país de dimensões continentais, devemos ter mais dúvidas do que certezas quando o assunto o que se fazem todas as regiões do Brasil fora do eixo Sul-Sudeste. Nem tudo é tão óbvio quanto muitos de nós, Sudestinos, achamos. Qual o programa mais assistido pelas crianças de 6 a 10 anos no Tocantins? Cite alguns pratos presentes em restaurantes do Acre?

Se você não faz ideia, provavelmente o padrão sudestino é o que embasa as suas noções de Brasil e mostra o quanto ainda somos ignorantes sobreo nosso próprio país.

Espero que esse tipo de reflexão nos provoque a querer descobrir os tantos Brasis que acabamos subdimensionando por conta de uma visão centralizadora. Revisitar esses conceitos pode nos ajudar a descobrir os Brasis que cabem dentro do nosso Brasil e diminuir nossa arrogância e ignorância. Quem sabe assumir nossa caixa sudestina nos ajude a navegar nesse Brasil maior do que a nossa pseudo centralidade do Sudeste?

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdaderacial.com.br

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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