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ATRAÇÃO FATAL

Carentes de festas e bares, brasileiros solitários caem cada vez mais em golpes via aplicativos de encontros, um crime tão disseminado que é alvo de alertas da Interpol e do FBI

Separada e sentindo-se muito sozinha na pandemia, uma comerciante paulistana de 52 anos estava trocando mensagens cada vez mais íntimas e afetuosas com Albert Paul Chester, piloto americano de uma grande companhia aérea, 50 anos, divorciado, belos olhos azuis e corpo atlético. “Você é minha paz, a verdadeira definição de descanso para minha alma”, proferia o galanteador Chester, em tom poético – sempre por escrito, porque ele alegava não falar português e usar um tradutor virtual para se comunicar. O romance via Tinder, a plataforma de encontros mais popular do mundo, foi evoluindo, com promessas de mudança do piloto para o Brasil.

Para selar o compromisso, ele despachou pelo correio uma caixa com joias, perfumes e 260.000 dólares, para ela comprar o imóvel em que os dois morariam juntos. Problema: a suposta caixa foi “retida” na alfândega e para retirá-la era preciso pagar inúmeras taxas por meio de transferências bancárias. Ali começava o golpe mirabolante que arrancou 700.000 reais da comerciante, sugados de sua poupança, previdência privada e empréstimos hipotecando a própria casa. A trama, que se estendeu de março a outubro de 2020, envolveu falsos funcionários da Receita Federal, uma transportadora internacional e um banco britânico. “Era tudo tão elaborado que caí feito uma idiota. Estava apaixonada e cega”, conta a paulistana, que pediu para não ser identificada. Ela prestou queixa à polícia e tem esperança de reaver ao menos parte do dinheiro.

Esse tipo de estelionato virtual, também conhecido como “golpe Don Juan”, existe há tempos, mas ganhou tamanho impulso durante a quarentena imposta pela pandemia que levou a Divisão de Crimes Financeiros da Interpola emitir recentemente um alerta formal a 194 países, entre eles o Brasil. Também o FBI divulgou, no início do ano, uma notificação sobre os riscos dos falsos namoros pela web. Nos Estados Unidos, levantamento da Federal Trade Commission (FTC) mostra que esse tipo de artimanha cresceu 50% no ano passado, causando, além do rastro de corações partidos, um rombo de 304 milhões de dólares na conta bancária de americanos solitários. A polícia brasileira não dispõe de estatísticas precisas, mas é certo que o crime se disseminou no país. Segundo o instituto americano Pew Research, durante a pandemia o uso de aplicativos de relacionamento no Brasil aumentou até 400%, dependendo da região, e 78% da população usa ou já usou algum deles. Por outro lado, só entre março e maio de 2021, o número de fraudes eletrônicas de todos os tipos quase triplicou, somando mais de 15 milhões de registros. Os golpes envolvem muita vergonha. Pouca gente tem coragem de denunciar, mas no consultório percebo aumento no número de pacientes com problemas em decorrência dessas fraudes”, diz Christian Dunker, psicanalista e professor da USP. “Antes da pandemia, recebia no escritório uma pessoa por semana vítima de um golpe desses. Agora, são pelo menos três”, afirma o criminalista José Beraldo.

Os estelionatários cibernéticos lançam mão dos mais variados recursos para atacar suas presas. O chamado catfish, em que o golpista se passa por outra pessoa – como aconteceu com a comerciante paulistana -, está entre os mais usados. Já na sextorsão, o criminoso arquiva, ou diz que arquivou, nudes de seu alvo como forma de arrancar dinheiro dele. Os aplicativos de encontros são ainda ponto de partida para o conhecido “boa noite, Cinderela”, em que, no almejado encontro físico, a presa é dopada e roubada. O engenheiro Murilo Marques, 31 anos, ex- participante do programa Bake Off Brasil, relata que, há uns meses, trocou mensagens no aplicativo Grindr com um homem que usava foto dele mesmo, mas com nome de outra pessoa. Combinou de recebê-lo em casa, no centro de São Paulo, e o encontro casual virou pesadelo. Depois de manterem relações sexuais, o golpista disse ser garoto de programa e, de posse de uma máquina de débito, exigiu o cartão para efetuar o pagamento. Àquela altura, Marques, que suspeita ter sido drogado durante o sexo, sentia que perdia a noção da realidade. Irritado, o ladrão lhe deu um soco no rosto, exigiu que passasse as senhas dos cartões e o drogou novamente. Em vinte minutos, realizou transferências, empréstimos e pagamentos que somaram 45.000 reais e em seguida fugiu. “Decidi tornar a história pública para alertar outras pessoas. É tudo premeditado e esses criminosos não agem sozinhos”, relata Marques, que faz tratamento psicológico para superar o trauma.

Na “carentena”, gíria cunhada em meio ao isolamento social, os cibercriminosos encontraram terreno fértil nos solitários que, privados das festas e dos bares onde costumavam conhecer pessoas, acabaram se rendendo aos sites de relacionamento. “Diferentemente do europeu ou americano, o brasileiro é dependente do convívio social encontrou nos apps uma alternativa à privação de contato. A malandragem, por sua vez, sempre migra para onde há público”, observa o antropólogo Bernardo Conde, da PUC-Rio. “Muitas pessoas ficaram mais frágeis e vulneráveis, tornando-se presas fáceis para esse tipo de crime”, acrescenta a psicóloga Lídia Aratangy. Valendo-se disso, farsantes como Danilo Melo, 32 anos, são suspeitos de aplicar seguidos golpes em mulheres nos últimos meses. Bonito, viajado, com gosto requintado e se apresentando como executivo ora da XP Investimentos, orado Bank of America, Melo é acusado de induzir pelo menos treze garotas a lhe dar dinheiro para aplicar e, depois, sumiu de vista. Após a denúncia de uma das vítimas, em abril, ele foi preso em Balneário Camboriú, Santa Catarina, mas acabou liberado por falta de flagrante. “É impressionante esse Danilo continuar à solta e dando golpes em série”, diz uma médica de 27 anos, que pediu para não ser identificada e administra um grupo de enganadas pelo trambiqueiro no Instagram. Ela relata que se relacionou com o sujeito por quatro meses e perdeu 5.800 reais, mas sabe de um caso em que ele embolsou 100.000 reais.

Os casos virtuais de estelionato são tantos e tão frequentes que estão chegando ao streaming: a Netflix anunciou a compra dos direitos do documentário Tinder Swindler (Vigarista do Tinder, em tradução livre), relato da trajetória de um israelense que se passava por magnata russo para aplicar golpes em mulheres escandinavas. No Brasil, mentir na paquera virtual é esporte nacional. Em pesquisa global feita neste ano pelo aplicativo Happn, os brasileiros sagraram-se campeões nesse departamento: 51% dos entrevistados já contaram alguma balela na cantada, acima da média mundial, de 29%. Evidentemente que apenas uma fração das lorotas resvala para a criminalidade.

Para dar mais segurança aos usuários, o Tinder criou em 2020 um selo de verificação, a tag azul, que indica que a imagem do perfil é genuína. Outro aplicativo, o Bumble, dispõe de uma equipe em tempo integral encarregada de verificar se os inscritos são realmente quem dizem ser. Todos orientam os participantes a jamais aceitar pedidos de dinheiro, mas mesmo assim as fraudes seguem proliferando e se sofisticando. O ator Ricky Tavares, de 29 anos, conta que até o mês passado sua imagem estava sendo usada no Tinder por outra pessoa, que se fazia passar por ele. “Nunca usei o aplicativo e, de uma hora para outra, comecei a receber uma enxurrada de mensagens no Instagram. Resolvi fazer um vídeo denunciando o caso”, diz. Na azaração virtual, todo o cuidado é pouco.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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