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É HORA DE DESEMPENAR

Combate ao sedentarismo é urgência nacional, dizem especialistas

Insone numa noite fria de julho, a arquiteta carioca Juliana Souza, 44 anos, se viu tomada por um desejo incontrolável. Era ínfima a distância até ele, uma alvo sem ambição. Parecia fácil. Mas a meta exigia flexionar as articulações enrijecidas das pernas fracas e sustentar o corpo numa coluna em permanente dor. Um sofrimento de antemão fadado à decepção, já que os braços, tão travados quanto as pernas, não esticavam o necessário.

A missão era alcançar o fundo do armário sob a pia da cozinha onde Juliana pretendia pegar uma panela para fazer pipoca, seu objeto de desejo. Mas, com a atividade física reduzida a níveis pouco acima do zero e a gula e a inatividade alçadas à estratosfera durante um ano e meio de pandemia de Covid- 19, a arquiteta, que passara a trabalhar em casa e se entregou à preguiça, se viu como a pipoca que queria: pouco saudável. Após cair sentada em frente ao armário da cozinha com a panela na mão, ela se deu conta de que precisava, literalmente, se mexer.

Prostrada no chão de sua cozinha, empenada, Juliana não estava só. A pandemia piorou o que já era grave: o sedentarismo no Brasil. Segundo o IBGE, 40,3% dos brasileiros eram sedentários antes da pandemia. E 74% estavam acima do peso, de acordo com o Ministério da Saúde.

Dados do Projeto ConVid ­ parceria entre Fiocruz, Unicamp e UFMG – mostram que 62% dos 44.062 entrevistados deixaram de fazer exercício na pandemia. No Brasil, os que praticam exercícios são poucos. Estima-se que 4% dos brasileiros façam exercidos com regularidade, diz o professor de educação física, Guto Ferrari, da Velox. Estudo da Unesp sugere que a diminuição da atividade causará um aumento mundial de 11,1 milhões de casos de diabetes do tipo 2 e 1,7 milhão de mortes.

“A volta à atividade física, mesmo em casa, e a recuperação de níveis básicos de condicionamento é uma urgência nacional”, destaca o principal autor do estudo, Emmanuel Gomes Ciolac, professor do Departamento de Educação Física da Unesp, em Bauru.

Qualquer movimento importa, adverte a OMS. As atividades diárias treinam o corpo para manter o mínimo funcional, explica o professor de educação física da equipe Filhos do Vento, Ricardo Sanorato, que também trabalha na reabilitação de gente com dificuldades surgidas na pandemia.

Considerado um dos mais experientes especialistas em medicina do exercício do país, Claudio Gil Araújo ressalta que a redução da atividade física produziu uma epidemia de insuficiência física.

“Não é mais sedentarismo. É imobilidade, com impacto na vida e na saúde coletiva, com mais casos de lesões, dificuldades na vida sexual, além de problemas cardíacos e metabólicos. A diminuição da aptidão física causa envelhecimento precoce”, diz Araújo, diretor da Clínica de Medicina do Exercício (Clinimex).

Ele é o criador do mais aplicado teste de avaliação da aptidão física, o de sentar e levantar. O teste mede a capacidade dos quatro componentes não aeróbicos da aptidão física: força/potência, equilíbrio, composição corporal e flexibilidade. Consiste basicamente em sentar e levantar do chão com o menor número de apoios possível. Parece fácil, mas se tornou uma final olímpica para os empenados.

Numa prova de que a vida está cheia de injustiças, em média, um período de uma semana a 15 dias com redução ou ausência de atividade já começa a ter efeitos negativos sobre a aptidão física. A capacidade cardiorrespiratória costuma ser a primeira a diminuir. Em cerca de oito semanas, uma pessoa que corria volta à estaca zero de condicionamento, diz Sanorato.

A perda de força se faz sentir em média após 15 dias. A redução de flexibilidade um pouco depois, e o equilíbrio ainda resiste um pouco mais. Guto Ferreira diz que após um mês de inatividade a perda geral de condicionamento é evidente.

Segundo Claudio Cardoni, coordenador de medicina dos esportes olímpicos do Flamengo, os membros inferiores foram os que mais perderam função, porque a locomoção ficou comprometida. Mas a coluna lombar é o epicentro do terremoto de insuficiência física que varre o país. São pequenas lesões acumuladas. Por trás de tantos problemas estão maior tempo sentado.

A pandemia trouxe desafios mesmo para quem nunca foi sedentário e conhece muito bem o corpo humano. A fisioterapeuta Edilene Dias, de 39 anos, é uma corredora experiente, maratonista dos Filhos de Vento, e os treinos solitários: para se manter em forma. Mas as medidas de distanciamento a obrigaram a organizar os horários para cuidar dos filhos de 2 e 4 anos, trabalhar e ainda fazer exercícios:

“Fazia exercícios com aplicativos. Me exercitava com criança, com vassoura. Mas essas adaptações são perigosas. Basta uma distração e você pode se lesionar. O resultado foi um ombro machucado.

Entre especialistas em reabilitação, há unanimidade que exercícios à distância precisam ser personalizados, supervisionados e muito bem orientados por profissionais.

Empenar é rápido, desempenar leva mais tempo. A primeira recomendação é calibrar as expectativas. Não adianta sair por aí e correr como se não houvesse amanhã. O resultado será uma lesão. O importante é seguir devagar e para sempre.

A empresária Carmen Iglesias, 60, parou com o ciclismo nos primeiros meses de pandemia, mas retornou aos poucos aos treinos na Vista Chinesa, na Floresta da Tijuca.

“Sabia que na floresta poderia treinar em segurança. Mas a musculação fazia falta porque você perde força. Assim, fui uma primeiras alunas a voltar à academia”.

E há quem tenha até melhorado a forma na pandemia, mesmo mantendo o distanciamento social.  A gerente da Central Analítica do Departamento de Química da PUC­ Rio, Gisele Birman Tonietto, de 56 anos, jamais esteve tão forte. Ela, o marido e a filha Raquel treinaram com Sartorato no prédio onde moram.

“Ele foi a única pessoa com quem nos encontramos durante meses. Detesto musculação, mas vi que, com a pandemia, perderia força.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.