EU ACHO …

O DILEMA DO CAPATAZ

‘Não sou um escravo, não sou um preto’, disseram muitos de forma orgulhosa

Peças-chave da dinâmica colônia os capatazes tinham como função vigiar as pessoas escravizadas para evitar fugas ou a prática de qualquer conduta não autorizada pelos seus senhores de engenho. Munidos de um chicote, sua mera presença no ambiente era sinal de que ali a vontade do sinhô seria cumprida. O lema era “cabeça baixa, trabalho duro e noite na senzala”.

Ser um capataz foi o lugar que homens brancos pobres viram como a última saída para que se sentissem superiores às pessoas das quais foi retirada a humanidade. Eram pobres, mas eram homens e brancos. “Eu não sou um escravo, não sou um preto: disseram muitos, de forma orgulhosa.

Já algumas pessoas negras encontraram ali a última saída de uma vida com tantas violências. Seria algo feito de qualquer forma, posto que o sinhô mandaria. Mas, ainda assim, alguns fizeram com crueldade e satisfação. Seus descendentes se atualizaram para a dinâmica contemporânea. Como afirma Carla Akotirene, “a colonialidade é a permanência da colonização euracêntrica, imprimindo a competitividade, o cinismo, a inveja e a diferenciação “Por isso, muitos têm a pele negra, mas não conseguem estampar o asé dos seus ancestrais.” Conta a lenda que em um engenho do Brasil colonial, um capataz era conhecido além das fronteiras da fazenda onde trabalhava pela crueldade que infligia às pessoas escravizadas que faziam algo que não lhe agradava, sobretudo as mulheres pretas, seu alvo favorito. No engenho, quem comandava as operações era uma sinhá, que entregava seus filhos e seus lisos cabelos para o cuidado pelas mulheres negras escravizadas como mucamas, desde que não chamassem atenção. Se desaprovadas, eram enviadas para a lavoura nas mãos do capataz, que teria o imenso prazer de as “pôr no devido lugar”. Todos os dias, após uma extenuante jornada de trabalho para “impor respeito o capataz passava em frente à sacada da casa-grande para admirar aquela alva pureza, que costumava ler para passar o tempo. Ele já tinha tentado debater com ela suas últimas leituras, mas não tinha encontrado espaço para isso. O capataz queria provar o seu valor para além de açoitar.

Guardava em segredo seu hábito de ler á noite, sonhando com a oportunidade de poder declamar para ela aquele trecho que falava de amor e revolução.

A sinhá percebia os olhares apaixonados do chicoteador e até fazia um charme em meio àquele tédio da lavoura. De fato, ela admirava a disciplina do engenho imposta pelo capataz. Quando o sinhô chegasse da capital onde trabalha, como “doto”, poderia elogiá-la pelo ambiente ordeiro, o que a faria ganhar a semana de tanta alegria. As coisas estavam muito paradas, e a sinhá resolveu fazer um sarau com seus primos ainda mais jovens do que ela. Só que dessa vez entregou o convite ao capataz para que fosse e ficasse no cantinho da sacada. Era o certo a se fazer, afinal somos um país racialmente democrático e ele merecia.

O convite foi recebido como um soco no estômago. Não conseguiu dormir suando frio por dias. Escolheu um livro da biblioteca do sinhô, vestiu a roupa pela qual pagou um mês inteiro de salário e tomou um banho demorado. A grande noite havia chegado. Na sacada, um pouco tímido, o capataz riu deslumbrado das piadas sem graça dos primos da sinhá. Esperou sua vez e, quando todos os olhos se voltaram a ele, riu novamente, abobou-se até começar a ler as palavras pomposas daquele autor. Ao final de sua leitura, a sinhá toda orgulhosa puxou o aplauso. Ele tinha sido muito bonitinho e ela se gabava, pois seus primos não tinham um capataz que falava grosso com a escravaria, porém era bonzinho de trado com eles. A noite caía e era hora de jantar. Na mesa de jantar, envaidecido, o capataz começa a se soltar e manda uma gargalhada alta que incomoda os demais que já começaram a achar que ele estava “solto demais”. Deu goles compridos naquele vinho da segunda prateleira e se empanturrou com a comida na mesa. A sinhá estava incomodada, mas não queria ser rude na presença das visitas.

Porém, no meio da festa, o porteiro chega correndo na sala e anuncia que o sinhô estava chegando. Ele havia aparecido de surpresa. A sinhá agradece o capataz e o manda sair pela cozinha, mas, antes que tivesse tempo, o sinhô olha para o capataz assustado e, sem dizer uma palavra, sobe para seus aposentos, seguido pela sinhá apressada para se justificar.

Nas semanas que se seguiram o capataz não teve nada além de um bom dia, mesmo após o sinhô voltar para a capital. A disciplina no engenho seguiu mais firme do que antes. Ele tinha raiva pela falta de sorte, mas tinha esperança de seu trabalho ser novamente recompensado. Então seguiu trabalhando, sempre à espera do próximo convite.

Qualquer semelhança coma realidade é mera coincidência.

*** DJAMILA RIBEIRO – Mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros “Feminismos Plurais”

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.