EU ACHO …

ALÉM DO VALE

Que tal rompermos com o complexo de vira-lata e referenciarmos exemplos nacionais, femininos e não brancos?

Minha pulguinha atrás da orelha tem me feito reparar, cada vez mais, em citações de livros, exposições e apresentações: quantas das referências são brasileiras? Quantas são mulheres? Quantas são indígenas ou negras? Formada em Publicidade e Marketing, comecei a perceber desde a faculdade e, sobretudo, após o mestrado que, entre os considerados cânones da área, figuravam nomes como Phillip Kotler, Peter Drucker, Tom Peters, Alex Osterwalder e outros, com os quais aprendi muito.

Mas, pouco a pouco, fui entendendo que eles tinham algo em comum: eram em sua maioria homens, brancos, da América do Norte ou europeus. Pense na maior referência em música clássica, filosofia ou ainda da matemática que você conhece. Provavelmente, a resposta te dará perfis de pessoas semelhantes, em termos de raça, gênero e origem.

O mesmo acontece quando vemos vitrines virtuais ou físicas estampando capas de livros de autoajuda ou bestsellers, por exemplo, que, em geral, contam histórias de personagens não brasileiros ou de business que retratam modelos de negócios de empresas baseadas no Vale do Silício, na Califórnia, berço da tecnologia.

E isso também influencia nas metodologias que aprendemos, padrões estéticos, exemplos dados do que consideramos o modelo certo a ser seguido, ou mais válido e popular. E o que é diferente disso, portanto errado, arcaico e inadequado.

Isso inclusive se desdobra em tantas outras frentes, como no nosso padrão de consumo, por exemplo. Valorizamos mais o que vem de fora em relação a um fornecedor local, não somente pela qualidade, mas pela crença de que por ser de fora é melhor.

Quando cito esses episódios com criticidade não é que desacredite que a solução seja deixarmos de aprender ou conviver com exemplos que “vêm de fora”, tampouco acho que isso seria possível. Creio que, com nossos bilhões de neurônios, somos capazes de criar conexões com situações nem tão semelhantes às nossas e, a partir daí, ter uma série de ideias e sinapses adaptadas aos nossos contextos. Mas também entendo que deixamos de aprender muita coisa por só beber de fontes importadas.

Quando queremos aprender sobre modelos de gestão, democracia participativa ou arquitetura e urbanismo, porque, ao invés de usarmos cases da Califórnia, Suécia ou Noruega, não fazemos imersões e trocas com cânones dos povos quilombolas, ribeirinhos e guaranis?

Fica aqui uma proposta de reflexão: que tal rompermos com o complexo de vira-lata e referenciarmos mais exemplos nacionais, femininos e não brancos?

Não estou evocando um nacionalismo equivocado tão na moda atualmente, mas, sim, a valorização de saberes, trocas e aprendizados produzidos a partir de vivências que, apesar de teoricamente próximas, não estamos acessando. E o quanto isso também diz sobre nossa autoestima.

Em conversa recente com um professor e alguns colegas, ele apontava que poucos de nós, brasileiros, fomos indicados ao Nobel. Uma das minhas colegas disse ter ido estudar fora do Brasil e aprender exemplos de inovação a partir de um case de tecnobrega. Ficou surpresa ao ter mais contato com referências brasileiras quando saiu do país do que nos cursos realizados aqui. Já está na hora de nos enxergarmos como potências na academia, na cultura, na moda e na vida.

A sabedoria vai para além do Vale do Silício.

*** LUANA GÉNOT

lgenot@simaigualdadercial.com.br

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.