POESIA CANTADA

CAVALGADA

ROBERTO CARLOS

Capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, ROBERTO CARLOS Braga nasceu no dia 19 de abril de 1941.
É o artista latino-americano que teve mais discos vendidos e o cantor brasileiro que mais vendeu discos no mundo. Em 62 anos de carreira, vendeu mais de cem milhões de álbuns.
Seu sucesso teve início nos anos 60, quando celebrava o rock ‘n roll com artistas como Erasmo Carlos, Wanderléa, entre outros. Junto com os dois cantores já citados, Roberto pode ser considerado um dos pais da Jovem Guarda. Nessa época ele emplacou músicas como Splish Splash, Parei na Contramão, É Proibido Fumar e O Calhambeque.
Depois de um desentendimento com seu parceiro de composições, Erasmo Carlos, Roberto seguiu escrevendo sozinho músicas marcantes. A trilha sonora do filme Roberto Carlos Em Ritmo De Aventura trazia canções dele como Por Isso Corro Demais, Como É Grande O Meu Por Você e Quando. O filme além de reatar a amizade com Erasmo, garantiu a Roberto o sucesso também nos telões, com uma das maiores bilheterias da época.
A mudança na carreira do cantor viria com a chegada dos anos 70. Ainda em 1969, seu disco Roberto Carlos, que trouxe faixas como As Curvas da Estrada de Santos e As Flores do Jardim de Nossa Casa já mostrava traços mais românticos. Foi nos anos 70 também que Roberto firmaria seus laços fortes com a religião. O álbum de 1970 trazia a canção Jesus Cristo, um de seus maiores sucessos.
O último filme intitulado Roberto Carlos a 300 por Hora é de 1971, quando ele também lançou um novo disco com músicas marcantes: Detalhes, Todos Estão Surdos e Embaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos.
A chegada dos anos 80 marcou uma nova fase na carreira internacional de Roberto Carlos. Ele gravou seu primeiro disco cantado todo em inglês. Em 1982, receberia da CBS o prêmio Globo de Cristal, por vender mais de 5 milhões de cópias fora do seu país de origem.
Já em 1988, ganharia o Grammy de Melhor Cantor Latino-Americano e ainda atingiria o topo da parada latina da Billboard.
Nos anos 90, Roberto Carlos continuou como um grande campeão de vendas ao bater os Beatles em vendagens, com mais de 70 milhões de cópias.
Nos anos 2000, Roberto foi mais um artista a participar do estrelado hall da série Acústico da MTV. O disco trouxe a participação de artistas como Samuel Rosa, do conjunto Skank, e o guitarrista Tony Bellotto, dos Titãs.
Em 2004, comemorando os 30 anos de sua série de especiais na Tv Globo, Roberto Carlos teve sua discografia relançada em grandes boxes, divididos por décadas. Um ano depois levaria o Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Romântica, com o álbum Pra Sempre Ao Vivo No Pacaembu.
Ele repete a dose em 2006, faturando novo Grammy Latino com o disco Roberto Carlos, de 2005.

CAVALGADA

ROBERTO CARLOS/ ERASMO CARLOS

Vou cavalgar por toda a noite

Por uma estrada colorida

Usar meus beijos como açoite

E a minha mão mais atrevida

Vou me agarrar aos seus cabelos

Pra não cair do seu galope

Vou atender aos meus apelos

Antes que o dia nos sufoque

Vou me perder de madrugada

Pra te encontrar no meu abraço

Depois de toda cavalgada

Vou me deitar no seu cansaço

Sem me importar se nesse instante

Sou dominado ou se domino

Vou me sentir como um gigante

Ou nada mais do que um menino

Estrelas mudam de lugar

Chegam mais perto só pra ver

E ainda brilham de manhã

Depois do nosso adormecer

E na grandeza desse instante

O amor cavalga sem saber

Que na beleza dessa hora

O sol espera pra nascer

Estrelas mudam de lugar

Chegam mais perto só pra ver

E ainda brilham na manhã

Depois do nosso adormecer

OUTROS OLHARES

A TODO VAPOR

Influenciadores brasileiros disseminam nas redes os atrativos do cigarro eletrônico, produto cada vez mais usado pelos jovens, embora a venda seja proibida

Custou, mas o cigarro saiu de moda. Soterrado por uma avalanche de evidências científicas de seus malefícios para a saúde, capazes de causar 71 milhões de mortes por ano, o produto deixou de ser símbolo de poder, liberdade e glamour, parou de aparecer pendurado na boca de celebridades e foi caindo em desuso no mundo todo – de 1990 para cá, o número de fumantes no Brasil teve queda de mais de 50%. Eis que agora surge das cinzas o vape, cigarro eletrônico de aparência moderninha e sabores atraentes que influenciadores digitais brasileiros divulgam, entre baforadas, como sendo acessório essencial para descolados dignos do nome. Dispositivos eletrônicos com nicotina não são novidade. O que chama a atenção agora é a sutil disseminação entre os jovens, impulsionada nas redes sociais, atropelando dois fatos tão inescapáveis quanto ignorados:

1) o fumo através de e-cigarettes é tão danoso quanto o cigarro convencional; e

2) a venda deles é proibida no país.

Basta entrar no Instagram para dar de cara com influenciadores jovens e bonitos desfrutando de vaporizadores sabor uva, manga, morango, abacaxi, banana e outras combinações, que ganham e divulgam como se fizessem parte de seu invejado dia a dia. A influenciadora Vitória Gimenez, 25 anos, embaixadora de um dos maiores perfis de venda de pods (a versão mais barata e descartável dos vapes) no Brasil, afirma que conheceu o produto – e gostou em uma viagem aos Estados Unidos.

“O vape é muito mais prático e bonito que o cigarro tradicional. Como não tem cheiro, posso usar em qualquer lugar”, diz. Vitória, que tem mais de 200.000 seguidores no Instagram, apregoa que os cigarros eletrônicos fazem menos mal que os convencionais o que não tem confirmação científica. “Não há forma segura ou menos pior de tabagismo. Além da nicotina, que todos sabemos que causa câncer, os dispositivos eletrônicos liberam uma série de substâncias tóxicas”, alerta Elie Fiss, professor de pneumologia da Faculdade de Medicina do ABC.

Os cigarros eletrônicos, inventados na China e até hoje produzidos quase todos lá, estão no mercado há aproximadamente vinte anos e foram lançados como ferramenta menos danosa para ajudar as pessoas a parar de fumar. Apelidados de vape porque a pessoa inala e exala vapor em vez de fumaça, contêm nicotina e outras substâncias cancerígenas. Nos últimos anos, uma nova geração de vapes, com cara de pen drive e fabricados pela Juul Lab, invadiu as escolas dos Estados Unidos e outros países, cultivando um mercado de jovens que nunca haviam fumado – e desvirtuando o propósito original dos e-cigarettes. De tão recorrente, o uso de vape foi qualificado de epidemia nos Estados Unidos em 2019, quando os hospitais reportaram mais de 2.500 internações e cinquenta mortes de usuários em decorrência de problemas pulmonares. Para piorar, um estudo conjunto das universidades da Califórnia e de Stanford constatou que os usuários de dispositivos eletrônicos têm até sete vezes mais chances de contrair Covid-19.

Por sua estratégia de marketing voltada diretamente para adolescentes, a Juul firmou acordo em junho para pagar 40 milhões de dólares, a título de indenização por despesas causadas, à Carolina do Norte – o 15º estado americano a mover ação do gênero contra a empresa. Também admitiu que o dispositivo é altamente viciante e comprometeu-se a tomar providência para coibir seu uso entre os jovens. A essa altura, já tinha diversos concorrentes na comercialização de pods – a versão descartável que contém baforadas (puffs) equivalentes a um maço de cigarro -, que agora circulam no mundo maravilhoso dos influenciadores digitais brasileiros. ”Trata-se de um público especialmente atraído por atitudes transgressoras. Além disso, a fumaça que sai dos vaporizadores tem o apelo estético perfeito para ganhar likes nas redes sociais”, aponta Maria Isabel de Almeida, professora de sociologia da PUC-Rio. No Instagram, 30,7 milhões de publicações utilizam a hashtag #vape.

No movimentado universo das blogueiras digitais, o vape é tratado com a mesma naturalidade que uma bolsa ou um item de maquiagem e faz parte integral da narrativa de vidas perfeitas, embaladas por viagens, passeios de barco e festas de alto nível. Para Monica Andreis, psicóloga e vice-diretora da Aliança de Controle do Tabagismo (ACT), a estratégia de sedução, ainda que repaginada, é a mesma da época de ouro dos cigarros tradicionais, personificada no caubói dos anúncios da Marlboro e atrelada ao fascínio de artistas que iam do bad boy James Dean à requintada personagem de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo. “Os jovens são atraídos pelo ar descolado e acreditam que são capazes de dominar o hábito,” diz Monica. A influencer mineira Julia Nickel, 25 anos, 27.600 seguidores, trocou o cigarro convencional pelo digital conquistada pelos sabores e aromas, mas admite: “Quando uso, fico com voz rouca e tossindo”. O Instagram, onde se concentram os anúncios e vendas do produto, afirmou em nota que” trabalha para remover o máximo possível desse tipo de conteúdo antes que as pessoas o vejam”.

O Brasil proíbe a venda, a importação e a propaganda de todos os dispositivos eletrônicos destinados ao fumo com base em uma resolução, o que abre a possibilidade de que os e-cigarettes venham a ser legalizados no futuro. “O consumo em si não é vedado. Os alvos da norma são o comerciante e o importador”, afirma a advogada Raphaela Silveira. Adquirir um pod é rápido e indolor: basta entrar no perfil do Instagram de alguma marca popular (existem várias, repisadas a todo instante por influenciadores) e clicar em um link que direciona o interessado para uma conversa no WhatsApp. Lá são combinados o sabor, a forma de pagamento de cerca de 50 reais – transferência bancária ou dinheiro – e a retirada, pessoalmente em algum endereço pré-selecionado, ou entrega por aplicativo de transporte. A reportagem seguiu o passo a passo e recebeu seu pod em meia hora, sem apresentar nenhum tipo de identificação, como nome ou idade. O vaporizador chega em uma embalagem parecida com as usadas em delivery de restaurante. Dentro dela encontra-se uma pequena caixinha colorida, chamativa, com cheiro forte de fruta e rótulo em inglês. Basta abrir, pegar o dispositivo em seu interior, levar à boca e tragar – simples assim.

Na contramão do modismo, o empresário e influencer TallisGomes, 34 anos, relata que chegou a fazer uso dos vaporizadores, mas parou ao tomar consciência dos danos causados. “Eu tinha uma sensação de relaxamento, mas o prazer momentâneo não vale as consequências graves no futuro”, afirma. Gomes, que tem quase 400.000 seguidores, conta que foi instigado a experimentar o e-cigarette para se sentir incluído em ambientes onde a maioria das pessoas usa. “O vape virou um código cultural, um objeto de ostentação”, ressalta. As consequências são imediatas: quem entra em contato com o cigarro eletrônico tem pelo menos três vezes mais chance de buscar outros produtos com nicotina. “Levamos tanto tempo para controlar o tabagismo no Brasil e agora presenciamos um retrocesso imensurável”, indigna-se Liz Almeida, coordenadora de Prevenção e Vigilância do Instituto Nacional de Câncer (Inca), do Rio de Janeiro. Apoiado na batida tática de adicionar charme ao que não tem graça nenhuma, o cigarro em roupagem futurista dá sopro a um problema do século passado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 29 DE JULHO

O PERIGO DAS CONTENDAS E INIMIZADES

O homem perverso espalha contendas, e o difamador separa os maiores amigos (Provérbios 16.28).

Há pessoas que são um poço de problemas. Quando transbordam, suas perversidades provocam uma inundação, cujas águas lodacentas levam destruição por onde passam. Há indivíduos que são geradores de conflitos. Arranjam encrenca quando chegam e provocam dissensão quando saem. Se o homem perverso é um espalhador de contendas, o difamador separa os maiores amigos. Há pessoas que têm o prazer mórbido de espalhar boatos. Vasculham a vida alheia apenas para soltar ao vento suas palavras venenosas. Provocam intrigas, jogam uma pessoa contra a outra e buscam ocasião para destruir a reputação dos outros. O difamador é um assassino. Mata com a língua. Atenta contra a reputação dos semelhantes. Destrói-lhes o bom nome. Macula a honra das pessoas e, assim, separa os maiores amigos. A Bíblia diz que todos os pecados são graves e horrendos aos olhos de Deus, mas há um pecado que sua alma abomina: é o pecado da difamação, de semear contenda entre irmãos, espalhar boatos, torcer os fatos e cavar abismos nos relacionamentos em vez de construir pontes. Os difamadores colocam cunha nos relacionamentos, em vez de cimentá-los com a argamassa da amizade. Longe de serem ministros da reconciliação, são promotores de intrigas e idealizadores de inimizades.

GESTÃO E CARREIRA

POR QUE O EMPREENDEDORISMO É TÃO DESAFIADOR NO BRASIL?

Nos últimos anos, o empreendedorismo aumentou bastante no Brasil, a ponto de chegarmos no ranking dos 20 países do mundo com o maior número de startups

Esse dado faz parte de um levantamento feito pela empresa Startup Blink, que analisou pequenas empresas de tecnologia em cem cidades de diversas partes do planeta. Porém, ao mesmo tempo que têm surgido muitas pequenas empresas novas, os índices de fechamento continuam preocupantes.

Para se ter uma ideia, as pesquisas do IBGE revelam que 21% das empresas quebram antes de completar um ano! Segundo o mais recente estudo “Demografia das Empresas e Estatísticas de Empreendedorismo”, ainda temos mais empresas fechando do que abrindo. Por que será que um país com tanto potencial empreendedor não consegue sustentar a maioria de suas empresas por muito tempo?

O que acontece com esses negócios que, ainda que sobrevivam, quase sempre enfrentam sérios problemas financeiros? Se este for o caso, por que será que o caixa da sua empresa nem sempre tem dinheiro para pagar as contas do dia a dia? Para encontrar a resposta a essas perguntas, eu o convido a olhar para dentro do seu negócio e observar esses três pontos: Liquidez da empresa; Rentabilidade; e Ponto de equilíbrio. O que você vê? Consegue dizer, por exemplo, qual é o ponto de equilíbrio da sua empresa? Não? E se eu perguntasse qual é o seu número de RG e de CPF? Possivelmente você me falaria estes números de cor.

Afinal, foi isso que aprendemos durante toda a nossa vida: decorar números e fórmulas! Porque faz parte da nossa cultura sermos conduzidos por “modelos prontos” recheados de informações e que nem sempre serão úteis, e limitando o desenvolvimento ao que é conhecido e ajustável ao sistema. Só que o empreendedorismo é justamente o oposto disso: é a q capacidade de criar algo de valor para outras pessoas a partir de praticamente nada. Então, se nos prendermos ao “modelo pronto”, não teremos espaço para criar, muito menos para questionar os métodos que talvez não estejam funcionando em nosso negócio! Para conseguir enxergar a real situação financeira da sua empresa e entender o que deve ser feito para restaurá-la, você, necessariamente, terá que mudar o modelo de gestão! Sem compreender os números do negócio, o máximo que conseguirá fazer é “apagar incêndios” com soluções paliativas, como uso de créditos bancários, que comprometem a liquidez da empresa ao longo do tempo. A boa notícia é que tudo fica mais fácil quando saímos do “piloto automático” e passamos a questionar os métodos usados e a desenvolver nossas próprias ideias, colocando-as em prática. Porque essa experiência nos permite enxergar além da superfície e compreender as reais necessidades e oportunidades do negócio.

É isso o que diferencia as muitas empresas brasileiras que apenas “sobrevivem” no mercado das que se sustentam e prosperam com segurança financeira: um empreendedorismo que não se molda pelos conceitos impostos por nossa cultura, mas constrói soluções diferenciadas para suprir as necessidades das pessoas e provocar transformações.

*** FRANCISCO BARBOSA NETO – É Founder/CEO da Projeto DSD Consultores e criador da plataforma Fluxo de Caixa Online. Graduado em Engenharia Mecânica pela FEI, com curso de especialização em Administração, Finanças e Qualidade.

EU ACHO …

OS CHATOS NECESSÁRIOS

Se os abolicionistas não fossem “chatos”, a escravidão não teria fim. Se as sufragistas não fossem “chatas”, mulheres ainda não poderiam votar. Se as feministas não fossem “chatas”, os feminicídios ficariam impunes

Um texto de autor desconhecido viralizou nas redes dizendo que o Brasil sempre respeitou a diversidade, é só recordar os antigos programas de humor (“Viva o Gordo”, “Os Trapalhões”, “Chico City”, “Casseta e Planeta”) e também nossos ídolos da música (vários gays) e do esporte (vários negros). Diz ainda que a turma do politicamente correto tem lutado contra “monstros” e “rótulos” que ela mesma criou (as aspas não são minhas) e que por isso o país está assim, chato pra caramba. Ao final, os créditos dessa obra-prima do desatino são repartidos com “todos aqueles com mais de 50 anos que, realmente, viveram livres e felizes”.

Através do saudosismo, o texto tenta manipular a emoção do leitor, que poderá cair nessa esparrela sem perceber que tudo o que este autor anônimo deseja é ficar em paz dentro da sua bolha. Maldita internet, que deu voz a todos, não? A gente ouvia Marina e se sentia moderno, ria com o Hélio de la Pena e pronto: não havia preconceito no mundo. De repente, Marina, Helio e tantos outros artistas, jornalistas e ativistas se uniram a fim de mostrar que a bolha estourou e que inclusão não significa aparecer na tevê. Inclusão se faz nas ruas, nas leis, em projetos sociais. Tédio, viu?

Saindo do sarcasmo e indo direto ao ponto: todo processo civilizatório se dá através de uma mudança de mentalidade, e ela não muda sem algum gasto de energia. Se os abolicionistas não fossem “chatos”, a escravidão não teria fim. Se as sufragistas não fossem “chatas”, mulheres ainda não poderiam votar. Se as feministas não fossem “chatas”, o mercado de trabalho continuaria sendo um reduto masculino e os feminicídios ficariam impunes. Não acredito em mundo ideal, mas acredito em um mundo melhor, e ele só melhora graças àqueles que não se acomodam, que insistem na busca por igualdade, justiça, evolução, tudo aquilo que os desinformados chamam de mimimi, fechando suas portas para a realidade não entrar. Optam pela alienação, que exige pouco dos neurônios. E é bem mais simpática.

O assunto merecia ser estendido, mas o espaço está acabando e não sinto nenhum prazer em chatear você. Então concluo: é um privilégio estar viva nesta época histórica em que questões identitárias estão presentes nos debates, nos livros, nas lives, nas entrevistas, a fim de avançarmos, mesmo que lentamente, para uma sociedade em que possamos não apenas assistir a pessoas gays e pretas nos palcos e estádios, mas conviver diariamente com elas dentro da família, e ainda ser tratadas por elas nos hospitais, aprender com elas em salas de aulas, ser defendidas por elas nos tribunais, viajar em aviões pilotados por elas e vê-las receber o mesmo tratamento da polícia. Tire os chatos de cena e adivinhe quando chegaremos lá.

*** MARTA MEDEIROS

marthamedeiros@terra.com.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A ANSIEDADE DE VOLTAR

O avanço da vacina permite a retomada gradual das atividades. Mas muita gente está com outro medo: como reconstruir as conexões sociais transformadas pelo isolamento

No estupendo livro A Grande Gripe, o historiador americano John Barry apresenta o retrato mais detalhado feito até hoje do impacto da chamada gripe espanhola, que de espanhola não tinha nada, sobre as relações sociais da época. Entre 1918 e 1920, uma variante aterradora do influenza, o vírus causador da gripe, saiu dos Estados Unidos, segundo a hipótese mais provável, espalhou-se pelo mundo e causou entre 50 milhões e 100 milhões de mortes. No início, uma onda de solidariedade tomou as cidades mais atingidas. Vizinhos ajudaram vizinhos, médicos e enfermeiros voluntariaram-se para atender doentes e doações surgiam aos montes. Quando acabou, a sociedade havia mudado. Muita gente continuava em casa com medo do vírus, amigos e famílias viam-se com menor frequência e um enorme desconforto pairava nos reencontras. Os vínculos sociais tinham sido rompidos. Anos foram necessários até que se encontrar com o outro voltasse a ser um ato banal.

Respeitando as devidas proporções, pode-se dizer que a devastação causada pela pandemia no século passado é a comparação mais próxima do que o mundo vive hoje. O interessante é que, mesmo quase 101 anos depois e uma revolução tecnológica que abriu um universo digital onde todos têm milhares de amigos e conexões, o ser humano ameaçado pela Covid-19 repete o comportamento manifestado por aquele que ficou isolado por causa da gripe. Estamos sofrendo com a ansiedade da volta.

A abertura gradual dos escritórios, bares, restaurantes, com a consequente retomada dos encontros presenciais, começou. O movimento é resultado do avanço da imunização. Na terça-feira 13, o Brasil viveu o 17º R dia consecutivo de declínio no total de mortes, enquanto o índice de vacinados ao menos com uma dose chegou a 40% da população. É de comemorar muito, obviamente, mas a verdade é que, junto com a alegria, brota um misto de sentimentos que vão do alívio ao medo, do desejo de retornar ao cotidiano pré-pandemia à angústia de não saber se e corno o distanciamento compulsório afetou os laços sociais.

Nos consultórios médicos, na conversa – on-line – com o amigo ou o parceiro o assunto está presente. Depois de tanto tempo longe daquele colega desagradável do trabalho, como voltar ao convívio diário com ele? O reencontro presencial com o amigo visto apenas virtualmente será igual ao dos velhos tempos? Ou surgirá um estranhamento? E o que fazer com o medo de ser infectado pelo novo coronavírus? Co1no é tradição, não há dados brasileiros sobre o tema. Mas um levantamento divulgado pela American Psychological Association dá ideia de quantos estão sofrendo com a perspectiva da volta: cerca de metade dos americanos admite que retomar as interações sociais presencialmente não será fácil.

Em primeiro lugar, é crucial ficar claro que esse desassossego dentro da mente de cada um é absolutamente normal. A ansiedade é um dos mecanismos mais primitivos entre todos os criados pelo homem ao longo de sua evolução. Ela consiste na adaptação do estado mental e físico para garantir a sobrevivência em ambientes hostis ou diferentes. O corpo fica em alerta e preparado para enfrentar o que vier. Não é por outra razão que quando se está ansioso o coração bate mais forte para fornecer mais oxigênio ao cérebro e a outros órgãos envolvidos nas respostas físicas que podem ser necessárias.

Na pandemia, a ansiedade é a condição mental mais presente, junto com a depressão. Tanto no início quanto agora, mais próximo do fim, a ansiedade resultou do temor do desconhecido que vinha junto com o vírus. Primeiro, não se sabia de que forma os seres humanos, gregários por essência, viveriam em isolamento. Agora, ninguém é capaz de dizer como eles retomarão as conexões sociais tão esgarçadas pela distância ou transformadas pelo uso de recursos digitais como o único meio de manter vínculos.

Durante um ano e meio, a casa foi a zona de conforto e a tela do computador ou do celular, escudo de proteção. Sair dessa bolha agora, após meses a fio, é como deixar seu castelo pela primeira vez e se aventurar em terras nunca visitadas. “E qualquer mudança nos ambientes que consideramos seguros gera stress”, explica o psiquiatra Arthur Danila, coordenador do Programa de Mudança de Hábito e Estilo de Vida do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “Circunstâncias antes vistas como normais podem passar a ser percebidas como ameaçadoras após esse longo período de reclusão social”, diz.

Um dos aspectos mais fascinantes do cérebro é sua capacidade de se remodelar a partir das necessidades exigidas. A neuroplasticidade cerebral permite, por exemplo, que novos circuitos neuronais sejam acionados para assumir a função de outros, lesados. O cérebro aprende e se adapta.

Está aí uma habilidade que contará a favor durante o processo de regresso à vida normal, ou quase normal. Construir conexões sociais é vital para a sobrevivência de todos os animais, e o cérebro de cada espécie se moldou de forma a obter a chamada homeostase social, o equilíbrio ideal das interações com outros indivíduos. Mais do que isso, um circuito especializado na detecção de eventuais gargalos é acionado para fazer os ajustes necessários. “É uma espécie de termostato social”, escreveu em artigo o neuro cientista Kareem Clark, pesquisado da Virgínia Tech, da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos.

Pesquisas em animais já demonstraram que, quando o alerta é aciona do indicando ausência de laços sociais, a correção de rota é feita tão bem que mesmo funcionalidades cognitivas que haviam se perdido em razão da solidão podem voltar após curto período. Em seres humanos também. Melhor, em seres humano que estão passando pelo isolamento imposto pela pandemia. Um estudo realizado por pesquisadores escoceses e publicado em março na revista científica Applied Cognitive Psychology demonstrou que a memória dos participantes, enfraquecida nos meses de quarentena mais rígida, melhorou após o relaxamento de algumas medidas. “Mas é preciso tempo para essa reaprendizagem”, afirma a psicóloga Maria Cristina Rosenthal, professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de São Paulo. “Neste caso da pandemia, é como se a proximidade com o outro fosse algo perigoso. Precisamos aprender isso”, explica. A partir de agora, portanto, é necessário reaprender o contrário, fazendo o caminho inverso.

Há outro aprendizado a ser feito. Levantamentos realizados em várias partes do inundo detectaram que, em geral, as pessoas estão dormindo mais. Um deles analisou a rotina de sono de estudantes quarentenados, portanto com aulas on-line. Os pesquisadores, da Universidade de Colorado em Boulder, nos Estados Unidos, constataram que os jovens dormiam em média trinta minutos mais durante a semana e 24 mais nos fins de semana comparado ao total de horas em que dormiam antes da pandemia. Não é uma surpresa, uma vez que estudar ou trabalhar em casa é mais cômodo e dispensa deslocamento. Certamente não são apenas os alunos americanos, mas uma boa parte da humanidade está usufruindo os minutos a mais de descanso.

O fato é que, a partir disso, voltou à tona uma antiga discussão entre os especialistas sobre a necessidade de adequar o relógio biológico aos horários estabelecidos. O célebre das 9 às 18 horas é praticamente universal, mas a necessidade de sono, ao contrário, é bastante individual. Os momentos adicionais aproveitados pelos estudantes americanos, por exemplo, representam o tempo que cada um deles dormiria normalmente não fossem os compromissos. E a ciência já mostrou que um bom sono, considerando tempo e qualidade, é fundamental para a saúde. O repouso permite a consolidação das informações obtidas durante o dia e está envolvido em processos metabólicos importantes. Por isso, boa parte dos especialistas advoga por horários mais flexíveis, permitindo, na medida do possível, que os indivíduos desfrutem um bom sono. Tempos tão extraordinários deixam marcas indeléveis. Esperemos que entre as lições da pandemia esteja a importância de sempre buscar o equilíbrio. No sono e com quem está ao redor.