POESIA CANTADA

MENTIRAS

ADRIANA CALCANHOTTO

Adriana da Cunha Calcanhotto, mais conhecida por ADRIANA CALCANHOTTO ou Adriana Partimpim, nascida em Porto Alegre, no dia 3 de outubro de 1965).

Suas composições abordam estilos variados: samba, bossa nova, funk, rock, pop, baladas. Dentre as características de repertório, observa-se a regravação de antigos sucessos da MPB e arranjos diferenciados.
É filha de um baterista de uma banda de jazz, Carlos Calcanhoto, e de uma bailarina. Aos seis anos ganha do avô o primeiro instrumento: um violão. Aprendeu a tocar o instrumento e também, mais tarde, a cantar. Logo imergiu nas influências musicais (MPB) e literárias (Modernismo Brasileiro). Ficou fascinada pela Antropofagia de Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e outros nomes daquele movimento cultural.
A vida artística iniciou-se em bares, como o Fazendo Artes, situado próximo à I Cia. de Guardas do Exército, próximo ao Parque Farroupilha, e o Porto de Elis, na av. Protásio Alves. Também trabalhou em peças teatrais e depois se lançou em concertos e festivais por todo o país no estilo voz e violão. O primeiro disco, Enguiço, lançado em 1990 pela gravadora CBS, foi muito elogiado e o primeiro sucesso foi Naquela Estação, no repertório deste, que também trouxe músicas de autoria (a faixa-título e Mortais) e regravações de clássicos da MPB (Sonífera ilha, do grupo Titãs, Caminhoneiro de Roberto e Erasmo Carlos, Disseram que eu voltei americanizada, que fez sucesso na voz de Carmem Miranda, e Nunca, do conterrâneo Lupicínio Rodrigues). Nessa época, chegou a ser comparada a Elis Regina.
Naquela estação, por sua vez, integrou a trilha sonora da telenovela global Rainha da Sucata, de Sílvio de Abreu (1990). No ano seguinte, recebeu o Prêmio Sharp de revelação feminina. No segundo trabalho, Senhas, de 1992, o repertório estava focado nas canções de autoria, com destaque para Esquadros e Mentiras; esta última foi incluída na trilha da novela Renascer, de Benedito Ruy Barbosa.
Em 1994, a fórmula dá sinais de cansaço e desgaste devido à exposição excessiva na mídia. Por isso, nesse mesmo ano lançou o LP A fábrica do poema, com algumas doses de experimentalismo (poemas de Augusto de Campos, Gertrude Stein, textos do cineasta Joaquim Pedro de Andrade e parcerias com Waly Salomão, Arnaldo Antunes, Antônio Cícero e Jorge Salomão). No terceiro disco, que também foi o último a ter versão em vinil, os destaques foram Metade e Inverno. Prosseguiu com o álbum Maritmo, que simulou uma incursão pela dance music (Pista de dança, Parangolé Pamplona), samples (Vamos comer Caetano), e a regravação de Quem vem para beira do mar, de Dorival Caymmi. O maior sucesso do disco foi Vambora, que incluída na trilha de Torre de Babel, de Sílvio de Abreu, obteve enorme repercussão.
Uma das participações foi uma performance na livraria Argumento, no Rio de Janeiro, musicando poemas do poeta português Mário de Sá Carneiro em 1996. Um deles, O outro acabou por entrar no CD Público (2000), que trazia regravações dos antigos sucessos entre outras canções consagradas e também rendeu um DVD, lançado no ano seguinte pela gravadora BMG.

MENTIRAS

COMPOSIÇÃO: ADRIANA CALCANHOTTO

Nada ficou no lugar
Eu quero quebrar essas xícaras
Eu vou enganar o diabo
Eu quero acordar sua família

Eu vou escrever no seu muro
E violentar o seu gosto
Eu quero roubar no seu jogo
Eu já arranhei os seus discos

Que é pra ver se você volta
Que é pra ver se você vem
Que é pra ver se você olha
Pra mim

Nada ficou no lugar
Eu quero entregar suas mentiras
Eu vou invadir sua aula
Queria falar sua língua

Eu vou publicar seus segredos
Eu vou mergulhar sua guia
Eu vou derramar nos seus planos
O resto da minha alegria

Que é pra ver se você volta
Que é pra ver se você vem
Que é pra ver se você olha
Pra mim

Que é pra ver se você volta
Que é pra ver se você vem
Que é pra ver se você olha
Pra mim

OUTROS OLHARES

GUERRA DE GERAÇÕES

A onda cringe atualiza conflitos entre jovens e os nem tão jovens assim e leva ao extremo o desprezo pelos gostos e costumes alheios

A não ser que você tenha estado em Marte nos últimos dias, ou tenha ficado fora das redes sociais, o que dá praticamente no mesmo, dificilmente não terá ouvido falar em cringe. Trata-se de um verbo em inglês cujos significados podem ser “encolher-se ou recuar com medo” ou ainda “sentir-se muito envergonhado ou constrangido”. Entre os jovens brasileiros, a palavra virou substantivo para definir hábitos embaraçosos, antiquados ou, para usar uma expressão dos velhos tempos, cafonas (este, reconheça, deve ser o termo mais cringe da história).

As buscas pelo vocábulo no Google cresceram 500% nas últimas semanas e movimentaram a mais nova e bem-humorada batalha geracional entre a geração Z (formada por jovens de 11 a 25 anos) e os millennials da geração Y (adultos de 26 a 40 anos). Uns, os mais moços, acusam os outros de cringe.

O tratamento desonroso de origem estrangeira já vinha sendo utilizado no ambiente virtual com certa frequência e não se referia apenas aos costumes de uma determinada geração, mas a qualquer coisa considerada digna de vergonha alheia. O cringe, no entanto, ganhou repercussão nacional depois de um tuíte de Carol Rocha, publicitária e apresentadora do podcast Imagina Juntas: “Por favor, jovens da geração Z, me contem o que vocês acham um mico nos millennials. Acho que falar mico já passou. É cringe, né?”. As respostas foram hilárias e envolviam o uso de determinadas roupas e até hábitos banais, como, veja só, tomar café da manhã. O músico britânico radicado no Brasil Ritchie, do alto de seus 69 anos, quis entrar na dança. “Dizer que fulano é cringe não faz sentido algum. No máximo, poderia se dizer ‘cringeworthy’ (digno de desgosto, asco ou desprezo)”, escreveu. “Como se abajur cor de carne tivesse sentido”, rebateu um seguidor, citando versos de seu sucesso Menina Veneno (1983). Eis o retrato de um fenômeno social antiquíssimo: a busca por uma identidade que seja, ou ao menos pareça, melhor, mais interessante e moderna – e que o buuuaá da internet amplia.

Os choques geracionais começaram a ser documentados e estudados após o fim da II Guerra Mundial, quando os americanos consagraram o termo “baby boomer” para se referir às pessoas nascidas a partir de 1945. Àquela altura, o espírito do tempo cobrava certa estabilidade, o que se refletiu em hábitos mais conservadores. Os filhos dos boomers, a chamada geração X, hoje formada por pessoas de 40 a 56 anos, viveram momentos de maior tensão social e tendem a ser mais liberais. Ao longo das décadas, hábitos, roupas e até mesmo expressões entraram, saíram e retornaram a moda em um ciclo sem fim. A tendência ao saudosismo, o hábito de lembrar uma banda ou um programa de TV e assim revisitar um passado de alegrias, não tem, afinal, idade.

Há, no entanto, um fator crucial neste debate em 2021. “Antes o cringe era algo velado, nós falávamos de como uma tia ou um professor eram cafonas, mas só numa roda de amigos”, disse Carol Rocha, que também é estudante de psicologia. “Hoje está tudo escancarado, e o debate está disponível a todos.”

Todas as gerações estão nas redes, é verdade, mas a forma como cada uma se relaciona com elas tende a variar. O Facebook se tornou, em geral, o ponto de encontro preferido dos boomers, enquanto o TikTok é a atual febre entre os jovens. “A geração Z não fica postando a vida inteira no Instagram como nós, millennials. Assim como nós achamos o GIF de bom dia das nossas mães um mico, eles pensam o mesmo dos nossos emojis e hashltags”, resume Carol.

Especialistas fazem ressalvas. Primeiro, o fato de que essas divisões são apenas tendências gerais, quase genéricas. Muita gente se identifica com aspectos de épocas distintas, sobretudo aqueles que nasceram perto da transição, como são chamados os zennials (mistura de Z e millennials).

Além disso, em países como o Brasil o recorte socioeconômico pode ser tão decisivo quanto o geracional. Segundo dados do IBGE, até 2019, 12,6 milhões de domicílios no país não tinham acesso à internet. Entre as classes mais baixas, nas quais o acesso virtual é escasso e a necessidade de ajudar no pagamento dos boletos começa mais cedo, não é justo dizer que a geração Z esteja ultraconectada ou possa se dar ao luxo de dispensar um, café da manhã reforçado, como defendem os adeptos do cringe radical.

Atenta a pautas sociais e políticas desde cedo na internet, a geração Z é vista como mais cética. “Eu e meus amigos somos bombardeados com informações e por isso temos uma visão bastante realista sobre problemas econômicos e ambientais”, afirma Thiago Grasson, de 19 anos, estudante de publicidade e um criador assíduo de conteúdo no TikTok. Ainda que a sanha por likes e aprovação seja uma vocação real da juventude, os debates sobre saúde mental e “positividade tóxica” são mais frequentes no contexto de quem sucedeu à chamada “geração terapia” dos millennials.

Há também uma característica clara e elogiável da garotada: a forma como lidam com assuntos como racismo, homofobia e bullying. “São grupos muito mais tolerantes. Desde muito cedo eles são educados a conviver com o diferente”, diz Ilana Pinsky, psicóloga, consultora da Organização Mundial da Saúde (OMS) e coautora do livro Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Editora Contexto). “minha geração também ouvia que devíamos respeitar a todos, mas a atual vivenciou isso na prática, é algo mais naturalizado.” Segundo a pesquisadora, a força de movimentos como o # MeToo, que encorajou mulheres a denunciar os mais variados tipos de abuso, tornou os jovens mais combativos e conscientes – isso é ótimo, ressalte-se. O efeito colateral, no entanto, seria a chamada cultura do cancelamento, estimulada pela polarização política. “O diálogo está cada vez mais difícil e focado nos extremos. É preciso ter tranquilidade para ver que as pessoas têm mais em comum do que parece”, afirma llana.

No mundo cada vez mais veloz, o choque de gerações agora se dá entre os jovens e os muito jovens. Antes, era necessário certo espaço de tempo para colocar em campos opostos as nuances geracionais. Hoje, as distâncias são mais curtas e, por isso mesmo, as diferenças são mais sutis. Provavelmente, a palavra da moda será considerada ultrapassada em um piscar de olhos. Logo, o cringe vai virar cringe.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 28 DE JULHO

O PERIGO DO HOMEM DEPRAVADO

O homem depravado cava o mal, e nos seus lábios há como que fogo ardente (Provérbios 16.27).

Um indivíduo depravado é um perigo. Sua vida é uma cova de morte, sua língua é uma fagulha ardente, sua companhia é um perigo constante. O homem depravado é um criador de encrencas. Por onde passa, deixa um rastro doloroso de traumas, dores e feridas. Seus pensamentos são maus, suas palavras são veneno, suas ações são malignas, e suas reações são avassaladoras. O homem depravado não apenas pratica o mal; ele também anda atrás do mal. Procura o mal até achá-lo. Cava o mal como se estivesse procurando ouro. Cavar é um trabalho que exige esforço e perseverança. O homem depravado, mesmo sofrendo as consequências de sua busca insana e mesmo sabendo que sua descoberta infeliz provoca sofrimento em outras pessoas, não desiste dessa atividade inglória. E mais: quando abre a boca, seus lábios proferem palavras que amaldiçoam. Sua língua é mais peçonhenta do que o veneno de um escorpião. Sua língua é um fogo devastador, que incendeia e mata. Não podemos nos associar ao depravado. Não devemos andar por suas veredas nem nos assentar à sua mesa. Antes, o nosso prazer deve estar em Deus e na sua lei. Devemos nos deleitar nas coisas que são lá do alto, onde Cristo vive!

GESTÃO E CARREIRA

METAS DE DIVERSIDADE SÃO UM DESAFIO PARA EMPRESAS

Contratar mulheres, negros e LGBTI+ se torna compromisso para organizações, e discurso já não basta

Nos últimos tempos, empresas assumiram compromissos públicos com o aumento da diversidade nos seus quadros. De lá para cá, o tema virou parte da estratégia das companhias e, com isso, ganhou metas a serem cumpridas. Mas como trabalhar a diversidade, e principalmente a inclusão, e tirar essas metas do papel?

“Essa meta não pode ser só das áreas de diversidade e de recursos humanos, precisa ser de todos os atores”, explica Carolina Sampaio, líder de diversidade e inclusão da L’Oréal Brasil.

A empresa trabalha com quatro núcleos de grupos minorizados: gênero, raça, pessoas com deficiência e orientação sexual e identidade de gênero (LGBT+I). No último mês, a companhia tornou pública a meta de 30% de profissionais negros na liderança até 20 25. Hoje, são 32% de profissionais negros e 14% em cargos de liderança.

Para definir a meta, é preciso enxergar o retrato da empresa. “Como eu vou falar para onde eu vou, se eu não sei onde eu estou? Em que área da empresa a gente age sem dado? O diagnóstico da diversidade é o censo”, explica a consultora de diversidade Liliane Rocha.

Na L’Oréal Brasil, a estratégia foi criar uma campanha de conscientização e letramento racial para, depois, veicular uma pesquisa de autodeclaração, nominal, por área e cargo.

No caso da Nexa, multinacional de mineração e metalurgia, os números internos tornaram ainda mais evidente uma desigualdade do setor: a presença predominantemente masculina. De acordo com um levantamento da empresa de inteligência norte-americana S&P Global Market Intelligence, em 2020, apenas 14, 9% dos cargos executivos e 18% dos conselhos em mineradoras eram compostos por mulheres. Dados da Women Mining Brasil – movimento de fortalecimento da participação de mulheres no setor – mostram que o País está ainda atrás: são apenas 13% de mulheres na mineração brasileira.

Para começar a reparar os índices, a empresa estabeleceu uma meta, para 2025, de 20% de mulheres no quadro laboral e 25% nas posições de liderança. Hoje, os números são de 14% e 20%, respectivamente.

“A pessoa tem de ver um ambiente muito favorável para se declarar LGBT+, por exemplo. Se não achar que o ambiente é favorável, não vai responder. Fomos fazendo ações de conscientização para então trabalhar com o censo. A próxima etapa é rodar uma pesquisa para identificar LGBT+”, diz Lívia Monteiro, gerente-geral de Desenvolvimento Humano e Organizacional da Nexa.

SELEÇÃO

Antes de iniciar o processo de recrutamento, é preciso treinar recrutadores e a empresa como um todo para que essas pessoas não só estejam aptas a encontrar e selecionar profissionais de grupos minorizados, como também contribuam para um ambiente interno acolhedor. As medidas começam em ações simples, como revisar os anúncios de vagas.

“Os textos de anúncios de contratação só faltam pedir explicitamente por um candidato homem. Tem de mexer nas imagens, ainda muito conservadoras, no sentido de mostrar só homens brancos ou, quando mostram mulheres e negros, são de banco de imagem de outros países. Aí você não se vê ali. Precisa alterar as fichas cadastrais e procurar as pessoas nos lugares onde elas estão”, explica Liliane.

Em médio prazo, é preciso trabalhar também a mudança de mentalidade e a cultura da empresa, com treinamentos sobre temas como vieses inconscientes – aqueles preconceitos que não percebemos, mas que influenciam os nossos pensamentos e atitudes e que podem nos fazer sentir mais simpatia por alguém que se pareça fisicamente com a gente ou que tenha cursado a mesma faculdade.

“Isso ajuda a preparar melhor a pessoa de RH que estará na ponta do processo seletivo e a pessoa que apoiará a liderança na hora de escolher o candidato”, diz Ana Marcia Lopes, vice-presidente de Recursos Humanos, Responsabilidade Social e Ouvidoria da Atento Brasil – multinacional de atendimento. A empresa estabeleceu uma meta de contratação de 100 profissionais transgêneros por ano, mas ainda não sabe informar o porcentual atual (uma pesquisa está prevista para 2022).

“Se uma mulher trans não sabe que pode estar naquela empresa, não vai se candidatar. Quando olhamos para o universo trans, já vem uma profissão predeterminada, e queremos ser gestoras, diretoras, professoras, advogadas, médicas, tudo”, diz Nicole da Silva Ferraz, 38 anos, há 15 na Atento, onde é supervisora de tecnologia de marketing digital. “Estimula quando você sabe que os lugares a aceitam e precisam de você não só pela sua identidade, mas pela competência.”

Como toda política de cotas, as metas surgem para cumprir reparações históricas e já nascem com a expectativa de um dia não precisarem existir. “Daqui a um tempo não vai ter mais a necessidade de uma cota, de uma meta, uma obrigatoriedade. As empresas vão fazer o anúncio de vaga, e qualquer pessoa vai se inscrever, e as mulheres trans vão estar lá, participar dos processos, sendo aprovadas, buscando promoções internas”, diz Nicole.

EU ACHO …

O QUE PODERIA TER SIDO NÃO EXISTE

Ao meio-dia, as classes deixavam o leba e corríamos para a esquina da Rua Quatro, ponto estratégico para observarmos a saída das alunas do Colégio Progresso. Havia centenas de jovens, mas cada um estava ali por causa de uma. Meu interesse era Alda, sempre junto à irmã Maria Ernestina, ambas Lupo. As duas, em seus uniformes brancos, avental xadrezinho preto e branco, passavam por nós e seguiam sem nos olhar, mas sabendo-se olhadas. Fazia parte do jogo. Não era o footing, onde se cocavam olhares prometedores, ou se paquerava. Para mim, a visão da Ainda alegrava o dia. Era bonita, diáfana, parecia compenetrada, me dava a sensação de inacessível.

Naquelas manhãs descobri a ansiedade doce da espera e a alegria do encontro, ainda que este encontro existisse apenas na minha mente. Isso me bastava. Atenção terapeutas! As duas irmãs provocavam sensação e anseios.

Mais tarde me aproximei delas. Era crítico de cinema e colunista social, tentava fazer uma crônica semelhante à de Jacinto de Thormes, que revolucionou o gênero no Brasil. Assim, eu as encontrava em festinhas, nos bailes do Araraquarense, em casamentos. Conversávamos, vez ou outra, elas me davam notícia de algum namoro, ou de quem estava interessado em quem, o que dava um tom atraente à coluna. Na época, ao frequentar os jantares do Rotary Club, fiz amizade com dois Lupos proeminentes, o Wilton e o Élvio, que tocavam a fábrica de meias. Uma noite, em uma festa na casa de Wilton, olhei para Alda e percebi que estava apaixonado. Mas como declarar? Ia além da timidez. Como frequentar o círculo dela? A certa altura daquela festa, ficamos lado a lado, Wilton passou e marotamente deixou escapar: “vocês parecem se dar bem!”.  Na hora pensei: é agora, fale. Travado, ela na dela, sem imaginar nada. Ou sabia?

Em uma festa no jardim da casa de Vera de 0liveira, Ainda sentou-se ao meu lado. Acaso? Ou de propósito? Dançava-se ao som de Quizás, Quizás, Quizás, Besame Mucho, Love Me Forever, Dindi, Patrícia, Only You (com The Platters), Manna, Diana, You Are My Destiny (Paul Anka ainda está vivo, vejam só). Fui buscar um cuba-libre, para ter coragem, e segu ifirme em direção a Alda, mas vi o jovem Peri Medina chegar antes. Meu mundo caiu, diria Maysa Matarazzo. Fiquei estatelado, Maria Ernestina percebeu: “Não é nada, não, a próxima pode ser sua”. Não foi. Não foi nunca, Alda e Peri se casaram mais tarde. Não sei se começou ali ou quando começou. Algum tempo depois, deixei a cidade.

Em São Paulo, envolvido em projetos determinados, ser jornalista e, talvez, escritor ou diretor de cinema, vida seguiu. Anos depois, já tendo publicado vários livros, editado jornais e revista, encontrei-me com Alda, Maria Ernestina e Martha, a terceira irmã. Onde? Na mesma esquina da Rua Quatro com a Duque. Coincidência? Simultaneidade? Já então, mais seguro de mim, foi tudo solto, gostoso, sorrisos, lembramos daquelas saídas do colégio décadas antes. Pensava: ainda gosto dela? Sentia o mesmo? Não tinha sentido. A vida tinha corrido.

Uma ou duas décadas se passaram. Em Paris, certo dia, procuramos a casa de Rafael Lupo, na Place des Vosges, onde estava hospedado seu primo Gabriel, filho de Adriana Medina, amiga de infância de Márcia, minha mulher. Gabriel era primo de Rafael, segundo filho de Aida e Peri, e já um joalheiro conceituado da Cartier. Nesta altura, Alda tinha mais três filhos: Claudia, Aldo e Péricles. A vida tem muitos pontos e vai ligando um a um, até o arremate. A frase não dita, o gesto que não aconteceu, a carta ou e-mail nunca enviados, o telefonema não dado, a visita não feita. O que poderia ter sido não existe. Meses atrás fui chamado para escrever o livro do primeiro centenário da Lupo e mantive intensa troca de e-mails com Liliana Aufiero, diretora-superintendente da empresa. Em meio a tantas conversas, o assunto Alda veio à tona e contei a história. Alda é prima dela. Certa manhã, estávamos ao telefone e Liliana disse “Espere um pouco”. Logo acrescentou: “Alda está no telefone, falem. E conte tudo”. Tinha feito uma conexão de linhas. Susto e prazer.

Do outro lado, a mesma voz me chegou mais débil, agora de uma mulher de 80 anos. Conversa breve, sem nostalgias, muito pé no chão. Depois de 64 anos após ter deixado a cidade, a trava saiu da garganta. Contei da paixão reprimida. Alda riu suavemente, sempre me lembro do riso dela permeado de leve ironia: “Que louco! Você e eu? Curioso. E agora você me conta isso? Vou ter o que pensar nesta idade. Eu e você. O que seria? Nunca saberemos. Iremos embora os dois com essa dúvida. Mas foi bom saber-se amada”.

Domingo passado, Liliana Aufiero me ligou: Alda acabou de partir.

*** IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO – é jornalista e escritor. Autor de “Zero” e “Não Verás País Nenhum”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ARMADILHAS DO AMOR PATOLÓGICO

Quando os cuidados e a atenção dispensados ao parceiro se tornam exagerados e excessivos é o momento de ligar o sinal amarelo e procurar ajuda profissional

Cuidar e dar atenção ao parceiro são atitudes completamente normais e esperadas num relacionamento amoroso. Quando esses cuidados se tornam excessivos, repetitivos e sem controle temos o quadro do que chamamos de amor patológico (AP).

Logo, o amor patológico é caracterizado pelos cuidados excessivos ao parceiro, em que o indivíduo passa a viver completamente em função desse parceiro. Vale ressaltar que o amor patológico acomete tanto homens quanto mulheres, e apresenta-se da mesma maneira. Para identificar o AP, existem seis critérios diagnósticos:

1 – Sinais e sintomas de abstinência ocorrem quando o parceiro distancia-se física ou emocionalmente, ou ainda perante ameaças de abandono ou rompimento. Tais sintomas podem ser: insônia, dores musculares, taquicardia, alteração do apetite;

2 – O comportamento de cuidar do parceiro ocorre em maior quantidade do que a pessoa gostaria, ou seja, a pessoa frequentemente prefere manifestar mais atenção e cuidados com o parceiro do que havia planejado;

3 – Atitudes para reduzir ou controlar o comportamento são malsucedidas. Normalmente, a pessoa com amor patológico queixa-se de estar tentando, sem obter sucesso, interromper o comportamento de dar atenção e cuidados excessivos ao parceiro;

4 – Despende-se muito tempo para controlar as atividades do parceiro. Muita dedicação e energia são destinadas a pensamentos e comportamentos numa tentativa de controlar o parceiro;

5 – Abandono de interesses e atividades anteriormente valorizados: a pessoa vive em função do parceiro, deixando de lado família, amigos, filhos, vida profissional e lazer em prol de passar mais tempo com o parceiro;

6 – O quadro é mantido, a despeito dos problemas familiares e sociais.

Pessoas que apresentam o quadro de AP demonstram baixa autoestima, também mostram características importantes do tipo de apego ansioso-ambivalente e estilo de amor Mania e Ágape. De acordo com Bowlby, os tipos de apego são desenvolvidos na infância. São eles:

APEGO SEGURO – os pais/cuidadores eram disponíveis na infância e passavam segurança e confiança para a criança;

REJEITADOR – em situações semelhantes, ora os pais/ cuidadores estavam disponíveis, ora não estavam, deixando a criança mais propensa à insegurança;

ANSIOSO-AMBIVALENTE – os pais/ cuidadores normalmente não estavam disponíveis, gerando sentimentos de ansiedade de separação e insegurança. Alguns autores afirmam que o tipo de apego desenvolvido na infância é preditor dos tipos de apego desenvolvidos na vida adulta. Portanto, os adultos caracterizados pelo apego ansioso-ambivalente teriam mais medo do abandono. Um exemplo de um paciente: “Não consigo suportar as viagens do meu marido… são sempre muito sofridas para mim, fico achando que ele não vai voltar mais, que sempre será o último adeus e que nunca mais vamos nos ver. Daí, fico ligando o tempo inteiro para saber se ele está com saudade e pensando em mim, ele reclama, diz que eu sou louca e o sufoco, mas só de ouvir a sua voz já me sinto mais tranquila…”.

MARCAS DE PERSONALIDADE

Com relação às marcas de personalidade, os indivíduos são caracterizados por alta impulsividade. Essa impulsividade pode ser exemplificada através da vinheta a seguir: “…Doutora… eu tento várias vezes não ligar para ela, tento segurar minha vontade, mas é quase impossível, acabo ligando umas dez mil vezes, pergunto o que ela quer jantar, se está precisando de alguma coisa ou se quer que eu a busque no trabalho!”. Esse é um traço característico do amor patológico e um relato comum em consultório.

A percepção do problema é um passo importante, pois há casos em que o parceiro nem reconhece o efeito da patologia na relação.

CODEPENDÊNCIA

O amor patológico é um quadro que se diferencia da codependência. Esta é mais bem compreendida como a tendência do parceiro a se focar no dependente químico, em que o codependente minimiza os problemas, tenta controlar e proteger e ainda acaba assumindo as responsabilidades e as consequências do comportamento do dependente químico. Nesse tipo de relação, o codependente tenta reduzir o uso de drogas por parte do dependente químico, porém, na maioria dos casos, o efeito é completam ente contrário.

Existem dados comparativos para melhor entendimento: Semelhanças – fixação e cuidados destinados a um parceiro distante e/ou problemático; Diferenças – codependência é apresentada por esposa, filhos, marido e namorados, ou seja, parceiros dependentes químicos. AP acontece somente no relacionamento amoroso, independentemente se o parceiro for dependente químico ou não.

CIÚME PATOLÓGICO

O ciúme patológico é caracterizado por pensamentos, sentimentos e comportamentos voltados para o medo da traição. Nesse contexto, é importante diferenciar o ciúme patológico do tipo delirante e excessivo. No ciúme delirante, a pessoa tem certeza absoluta de que está sendo traída, é uma ideia irremovível, uma crença incontestável. Por outro lado, o ciúme excessivo é caracterizado por sentimento de culpa e habilidade de criticar a situação. São respostas impulsivas diante de uma ameaça de traição. Logo, o ciumento se engaja em comportamentos para tentar achar qualquer coisa que comprove a traição, e mesmo quando não encontra, não fica satisfeito. Os pensamentos ficam tomados por essa ideia da infidelidade, assim como os sentimentos, associados ainda a tristeza e raiva. Quando o ciumento é confrontado, ou quando evidências mostram que sua suspeita era infundada, há um arrependimento. Contudo, tal arrependimento não quer dizer que da próxima vez que houver desconfiança o ciumento conseguirá se controlar.

Pessoas com ciúme excessivo também são muito impulsivas, tendem a agir sem pensar. A maioria apresenta o tipo de apego ansioso-ambivalente e estilo de amor Mania. Ainda apresentam sintomas de depressão e ansiedade comumente associados.

O ciumento excessivo tem, basicamente, medo de ser traído. Durante o curso do relacionamento, se permite flertar e até se relacionar com outros parceiros (relacionamentos extraconjugais). No entanto, o seu parceiro alvo do ciúme em momento algum pode ter esse tipo de conduta.

A pessoa com amor patológico tem medo de ser abandonada, o que faz com que muitas vezes permaneça no relacionamento apesar dos prejuízos e insatisfação.

TRATAMENTO

No tratamento do AP, o mais indicado é a psicoterapia. Nessa modalidade, o indivíduo vai trabalhar questões como a vinculação, autoestima, insegurança, sintomas depressivos e ansiosos, caso existam. Irá desenvolver formas mais saudáveis de amar e de se relacionar com o parceiro romântico.

Em alguns casos, há a necessidade do acompanhamento psiquiátrico e uso de medicação para o tratamento dos transtornos ansiosos e depressivos, os quais podem estar associados aos quadros de AP.

Assim, fica o alerta. Amar é divino, mas amar demais pode se transformar em doença e esta precisa ser tratada com atenção e cuidado.

AMOR DEMAIS

MADA é um programa de recuperação para mulheres que buscam aprender a se relacionar de forma saudável consigo mesma e com os outros. Geralmente chegam com histórico de relacionamentos destrutivos. O grupo foi criado sob a influência do livro Mulheres que Amam Demais, de 1985, da autora Robin Norwood. A psicóloga e terapeuta familiar escreveu a obra baseada em sua própria experiência e na experiência de centenas de mulheres envolvidas com dependentes químicos. Ela percebeu um padrão de comportamento comum em todas elas e as denominou de “mulheres que amam demais”. No final do livro ela sugere como abrir grupos para tratar da doença de amar e sofrer demais.

ÁGAPE

A palavra Ágape significa amor e tem origem grega. Pode ser considerado o amor que se doa, aquele incondicional, que se entrega. A expressão foi utilizada de diferentes formas entre os gregos, em passagens da Bíblia e em cartas. Filósofos da Grécia Antiga, como Platão, também usaram muito a palavra Ágape, com o significado, por exemplo, de amor a esposa, esposo, ou amor aos filhos, a família ou, ainda, ao trabalho.

TEORIA DO APEGO

O psicólogo, psiquiatra e psicanalista britânico Edward John Mostyn Bowlby (1907-1990) se notabilizou pelo interesse no desenvolvimento infantil e por seu trabalho pioneiro em relação à teoria do apego. Seu estudo a respeito de crianças delinquentes e sem afeto e os efeitos do cuidado institucionalizado, elaborado em 1949, fizeram com que fosse contratado para escrever um relatório sobre saúde mental de crianças de rua na Europa pós-guerra para a Organização Mundial da Saúde.